A cidade e as serras - a casa do espiritismo

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A cidade e as serras - a casa do espiritismo

-Pois venha agora para a minha rica sede esse vinhozinho gelado! E creio

que estabeleci definitivamente no espírito do Sr. D. Jacinto o salutar horror da

Cidade!

O meu Príncipe percorria, catando o bigode, a Lista dos Vinhos, enquanto o

Copeiro esperava com pensativa reverência:

-Mande gelar duas garrafas de champanhe St. Marceaux... Mas antes, um

Barsac velho, apenas refrescada... Água de Evian... Não, de Bussang! Bem, de

Evian e de Bussang! E, para começar, um bock.

Depois, bocejando, desabotoando lentamente a sobrecasaca cinzenta:

-Pois estou com vontade de construir uma casa nos cimos de Montmartre,

com um miradouro no alto, todo de vidro e ferro, para descansar de tarde e

dominar a Cidade...

VII

Julho findara com uma chuva refrescante e consoladora: - e eu pensava em

realizar finalmente a minha romagem às cidades da Europa, sempre retardada,

através da Primavera, pelas surpresas do Mundo e da Carne. Mas, de repente,

Jacinto começou a rogar e a reclamar que o seu Zé Fernandes o acompanhasse,

todas as tardes, a casa de Madame de Oriol! E eu compreendi que o meu

Príncipe (à maneira do divino Aquiles, que, sob a tenda, e junto da branca,

insípida e dócil Briseida, nunca dispensava Pátroclo) desejava Ter, no retiro do

Amor, a presença, o conforto e o socorro da amizade. Pobre Jacinto! Logo pela

manhã combinava pelo telefone com Madame de Oriol essa hora de quietação e

doçura. E assim encontrávamos sempre superfina Dama prevenida e solitária

naquela sala da rua de Lisbonne, onde Jacinto e eu mal cabíamos, sufocávamos

na confusão, entre os cestos de flores, e os outros rocalhados, e os monstros do

Japão, e a galante fragilidade dos Saxes, e as peles de feras estiradas aos pés

de sofás adormecedores, e os biombos de Aubusson formando alcovas

favoráveis e lânguidas... Aninhada numa cadeira de bambu lacada de branco,

entre almofadas aromatizadas de verbena da Índia, com um romance pousado

no regaço, ela esperava o seu amigo numa certa indolência passiva e mansa

que me lembrava sempre o Oriente e um Harém. Mas, pelas frescas sedinhas

Pompadour, parecia também uma marquesinha de Versalhes cansada do grande

século; ou então, com brocados sombrios e largos cintos cravejados, era como

uma veneziana, preparada para um Doge. A minha intrusão, na intimidade

daquelas tardes, não a contrariava – antes lhe trazia um vassalo novo, com dois

olhos novos para a contemplar. Eu era já o seu Cher Fernandez!

E apenas descerrava os lábios avivados de vermelho, semelhantes a uma

ferida fresca, e começava a chalrar – logo nos envolvia o borborinho e a

murmuração de Paris. Ela só sabia chalrar sobre a sua pessoa que era o resumo

da sua Classe, e sobre a sua existência que era o resumo do seu Paris: - e a sua

existência, desde casada, consistira em ornar com suprema ciência o seu lindo

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