A cidade e as serras - a casa do espiritismo

acasadoespiritismo.com.br

A cidade e as serras - a casa do espiritismo

Ao fim desse Inverno escuro e pessimista, uma manhã que eu preguiçava

na cama, sentindo através da vidraça cheia de sol ainda pálido um bafo de

Primavera ainda tímido – Jacinto assomou à porta do meu quarto, revestido de

flanelas leves, duma alvura de açucena. Parou lentamente à beira dos colchões,

e, com gravidade, como se anunciasse o seu casamento ou a sua morte, deixou

desabar sobre mim esta declaração formidável:

-Zé Fernandes, vou partir para Tormes.

O pulo com que me sentei abalou o rijo leito de pau-preto do velho

D.Galião:

-Para Tormes? Ó Jacinto, quem assassinaste?...

Deleitado com a minha emoção, o Príncipe da Grã-Ventura tirou da

algibeira uma carta, e encetou estas linhas, já decerto relidas, fundamente

estudadas:

-“Ilmº e Exmº sr. – Tenho grande satisfação em comunicar a V.Exª que

toda esta semana devem ficar prontas as obras da capela...”

do Silvério? – exclamei.

do Silvério. “... as obras da capela nova. Os venerandos restos dos

excelsos avós de V. Exª, senhores de todo o meu respeito, podem pois ser em

breve trasladados da igreja de S José, onde têm estado depositados pôr

bondade do nosso Abade, que muito se recomenda a V.Exª... Submisso aguardo

as prestantes ordens de V.Exª a respeito desta majestosa e aflitiva cerimônia...”

Atirei os braços, compreendendo:

-Ah! bem! Queres ir assistir à trasladação....

Jacinto sumiu a carta no bolso.

-Pois não te parece, Zé Fernandes? Não é pôr causa dos outros avós, que

são vagos, e que eu não conheci. É pôr causa do avô Galião... Também não o

conheci. Mas este 202 está cheio dele; tu estás deitado na cama dele; eu ainda

uso o relógio dele. Não posso abandonar ao Silvério e aos caseiros o cuidado de

o instalarem no seu jazigo novo. Há aqui um escrúpulo de decência, de

elegância moral... Enfim, decidi. Apertei os punhos na cabeça, e gritei – vou a

Tormes! E vou!... E tu vens!

Eu enfiara as chinelas, apertava os cordões do roupão:

-Mas tu sabes, meu bom Jacinto, que a casa de Tormes está inabitável...

Ele cravou em mim os olhos aterrados.

-Medonha, hem?

-Medonha, medonha, não... É uma bela casa, de bela pedra. Mas os

caseiros, que lá vivem há trinta anos, dormem em catres, comem o caldo à

lareira, e usam as salas para secar o milho. Creio que os únicos móveis de

Tormes, se bem recordo, são um armário e uma espineta de charão, coxa, já

sem teclas.

O meu pobre Príncipe suspirou, com um gesto rendido em que se

abandonava ao Destino:

-Acabou!... alea jacta est! E como só partimos para Abril, há tempo de

pintar, de assoalhar, de envidraçar... Mando aqui de Paris tapetes e camas...

66

More magazines by this user
Similar magazines