trabalhadores - Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro

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trabalhadores - Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro

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QUINZENA

RELAÇÕES SINDICAIS:

V>SÃ0 D05 PATR0ES

PERSPECTIVAS Tendências do Trabalho - 1* abril 1987

AsituaçâTo das relações entre capital e trabalho é

tensa e de muita apreensão, de ambas as par-

tes. 0 cenário deverá se radicalizar nos próxi-

mos 3 a 4 meses.

A novamente cotidiana perda de poder aquisiti-

vo dos trabalhadores devido ao recrudescimento da

inflação, associado à necessidade de contenção de

despesas e corte de investimento nas empresas em

face ao desaquecimento da economia, gera um diá-

logo de surdos e mudos, entre empregados e empre-

gadores.

Em período de crescimento econômico, o movi-

mento sindical encontra mais terreno para forçar

uma distribuição de renda.

Com efeito, noanode 1986, a estabilização eco-

nômica acompanhada de crescimento dos níveis

de emprego diminuiu o receio dos trabalhadores na

hora de debater ou entrar em greve.

Naquela conjuntura, com as empresas com es-

cassez e valorização da mão-de-obra qualificada, o

poder de barganha do trabalhador, naturalmente,

sfe fortaleceu.

Até outubro de 86, o país vivia a euforia do

Cruzado I. Praticamente, da noite para o dia, esta

realidade se desfez com o anúncio do Cruzado II. E

eis que, perigosamente, corremos o risco (político)

de uma frustação nacional. . .

O patamar mais elevado das pautas salariais de

diversas categorias de trabalhadores reflete, hoje, o

estado de espírito que objetivamente cristalizou-se

nos meses da euforia do Cruzado I.

Pela primeira vez em nossa história recente, os

trabalhadores esqueceram o raciocínio-mínimo de

lutar pela manutenção de seus salários, até então

constantemente corroídos pela inflação alta. Até

outubro de 1986, a palavra de ordem passou a ser a

obtenção de aumentos reais, que diante da conjun-

tura de um mercado aquecido, eram compatíveis.

Pode-se dizer que, de certa forma, foi com sur-

presa e alguma perplexidade que vários segmentos

de trabalhadores passaram a acreditar e conviver

com tal situação, até então inédita.

Criou-se, aí, um mecanismo psicológico. Estes

segmentos sociais não aceitam, agora, apenas re-

porem-se seus salários, em virtude das atuais per-

das inflacionérias, como em linhas gerais vinha

ocorrendo até fevereiro de 86. Dor ia forma, reque-

rem ganhos reais, como vinham obtendo...

Por outro lado, as exigências salariais que vêm

sendo colocadas não estão sendn respaldadas pe-

las empresas que sentem-se forçadas a reduzir

seus custos em vista da retraçíc dos negócios.

As empresas negociam, hoje, m^;mo 1 a 2% de

economia. Na indústria, o Plano Cruzado levou-as

à exaustão de suas capacidades ociosas, com a

criação de até 4 turnos — o qi. a dificilmente se

manterá nos próximos meses.

Sob outro aspecto, este desgaste que o Plano

Cruzado apresenta, pelo menos i-^ora, devolve gra-

dativamente o apelo heróico e emotivo dos sindica-

tos perante à população que pa:,?d a manter nova-

mente com estes uma forte Identidade, já que a

corrosão salarial é quase indistinta.

O que, por ora, atenua esta circmstáncia é a ilu-

são de reposição ou até ganhos reais que a escala

móvel salarial ainda proporciona.

Aliás, este seria o fator determinante que, tem-

porariamente, mantém as centrais sindicais mais

recuadas. Esperava-se uma programação de grandes

manifestações sindicais promovidas pela CUT, no

ABC, em abril. Nada foi marcado. O momento

não seria o mais oportuno. . . s.ria melhor reunir

esforços e não dispender energias esperando o go-

verno abolir o gatilho; ..

No atual cenário político-sinoical as principais

alterações previstas para as relaço .3 entre capital e

trabalho são:

— Com a aceleração inflacionáris e a redução das

taxas de emprego cresce a possibilidade da estra-

tégia sindical de greves por categorias. Conti-

nuam as greves por empresas.

— A permanência do ministro A!mir Pazzianotto

torna-se muito difícil. Seu espaço político redu-

ziu-se muito no governo. Provavelmente seria

substituído por alguém mais â sua direita.

— O governo, se considerar necessério, apelará para

medidas duras contra uma ou outra greve mais

ameaçadora.

ASSINATURAS - Para «Uitantea tem condiçõea financeira»; CrS UO.OO (por 6 «caca) e Ci$ 280,00 (por 12 ■eaet).

- Para CUT, grupo ae» verba, aúlitantea co» condiçío financeira; CzS 105,00 e Cx9 370,00.

- Sindicacoa, paatoraii, grupos com verba própria e aaainacura de apoio: CtS 280,00 e CiS 560,0:.

- Exterior (via a


QUINZENA TRABALHADORES

TRECHOS PRINCIPAIS DO DOSSIÊ N^ 3 DO

MOSM SP SOBRE ELEIÇÕES SINDICAIS

DOS METALÚRGICOS DE SÃO PAULO

O quadro eleitoral está praticamente de-

finido. A semelhança de uma quadrilha de ban

didos que assalta unida e depois briga na ho

ra da divisão do roubo, a diretoria do Sin-

dicato rachou e vai sair com 2 chapas:

- uma encabeçada pelo atual presidente Lu

iz Antônio Medeiros, representando 13 direto^

res e apoiada pelo velho pelego Joaquinzão.

- outra representando 11 diretores dissi-

dentes, ligados ao PDT, PCB e PCdoB, encabe-

çados por Lúcio Belentani. Seguindo o mesmo

caminho de Hilário Bigode e Walter Schiavon

em 78, de Aurélio Peres em 81, de Juruna e

Xepa em 84, Lúcio traiu seus companheiros da

Ford, da categoria e da CUT para se juntar a

uma das quadrilhas em que está dividida a di

retoria do Sindicato.

A grande marca dessas eleições será o cho

que frontal CUT X CGT. Nesse choque, a possT

bilidade de vitória da CHAPA ONICA DA CUT 1

muito grande. Desde o fim das eleições de 84

nosso trabalho regular de organização da ca-

tegoria pela base, de combate à política pa-

tronal da CGT, de implantação da CUT, tornou^

-a'referência na categoria. Em 1986 lançamos^

10 números do jornal METALÚRGICOS DA CUT,com

tiragem média de 50 mil exemplares, além de

inúmeros boletins de fábrica com o mesmo tí-

tulo. De janeiro a abril de 1987 lançamos 7

números. A militância atende aos chamados da

CUT: em 21/11/86, 1 semana após as eleições

parlamentares, realizamos uma assembléia con

vocada EXCLUSIVAMENTE para tirar delegados ão

39 Congresso da CUT Regional.

A diretoria atual, claramente identifica-

da com a CGT (Joaquim é da direção nacional

e Luiz Antônio da estadual), está desgastada

Sua principal força reside no peso da máqui-

na sindical e no monopólio de acesso aos apo

sentados. A possibilidade dela ser derrotada

é tão real que Mário Amato, presidente da

FIESP, pediu a Sarney providências para impe

dir a vitória da CUT nas eleições para o Svn

dicato dos metalúrgicos (jornal "0 Estado àê

S.Paulo" de 24/03/87).

A chapa dos 11 diretores, por sua vez, en

contra dificuldades de se apresentar à cate-

DE SAO PAULO

goria como oposição. São vistos como farinha

do mesmo saco. Para ter um mínimo de trânsi-

to junto à categoria e à opinião pública,cojn

seguiram que um membro da direção nacional da

CUT se vendesse em troca da cabeça de chapa.

Com o apoio da imprensa burguesa, divulgam

que a CUT está dividida e se apresentam como

uma das chapas da CUT. A traição do Lúcio re

vela assim seu duplo conteúdo. De um lado,

usar o nome da CUT para dar cobertura a for-

ças políticas que sempre priticaram a conci-

liação de classes e que texa sistematicamente

por palavras e atos, procurado destruir a pró

pria CUT. De outro, usar sua condição de mem

bro da direção nacional para tentar dividir

a Central. E uma política tão aventureira que

até no seu grupo, a Alterne', iva Sindical pou-

cos tiveram coragem de acompanhá-lo.Esse caj^

telo de mentiras será desmor.tado assim que

for realizada a Convenção Unitária dos Meta-

lúrgicos Cutistas.

0 quadro é favorável a ur.a vitória da CUT

Contudo, erros e omissões gravíssimos que es_

tão sendo cometidos pela Executiva Nacional

comprometem a possibilidade de vitória. Seto

res da Executiva Nacional, com presença tam-

bém na Executiva Estadual SP, tem levado uma

política estreita que considera seus interej^

ses de grupo acima dos interesses da classe

e da categoria. Há pelo menos um ano a polí-

tica desses setores em relação aos metalúrgi^

cos de SP se resume em procurar asfixiar e

destruir o MOSM-SP, sem o menor respeito por

nossos 23 anos de luta nem por todo nosso

trabalho de implantação da CUT na categoria.

Há pouco mais de um ano atrás articularam,

com objetivos meramente eleitoreiros, o gru-

po Alternativa Sindical. Um grupo sem base

na categoria, cujo eixo poliÉico se resumia

em promover o nome de Lúcio Bellentani para

presidente do Sindicato. Em janeiro de 87,no

lançamento eleitoral da Alternativa, Vicent_i

nho, diretor do Sindicato dos Metalúrgicos

de São Bernardo, disse explicitamente que

seu Sindicato apoiava Lúcio e Alternativa.Ou

seja, ao invés de apoiar uma polifica apoia-

va um nome e um grupo.

Desde novembro de 85 apoiando-se em carta

do Lúcio que informava a existência de duas

oposições na categoria, a CUT Estadual cor-

tou toda nossa ajuda financeira. A tentati-

va de sufoco chegou ao absurdo de, na página

3 do Boletim Nacional da CUT, de dezembro/86,

nosso nome ser RASPADO da fotografia de uma

faixa.

Conforme demonstramos nos DOSSIÊS ELEITO-

RAIS 1 e 2, desde dezembro de 86 estamos lu- W


QUINZENA

tando por um processo eleitoral cutista uni-

ficado. Propusemos para 30/01/87 uma Assem-

bléia da categoria para decidir sobre o en-

caminhamento do processo eleitoral.Atendendo

sugestão da Secretaria de Política Sindical

da CUT Estadual (boletim CUT NELES, da Esta-

dual-SP, datado de 31/01/87), adiamos essa

assembléia para 13/03/87, perdendo um pre-

ciosíssimo mês e meio de campanha. Alternati

va se recusou a participar da assembléia da

categoria e a Estadual simplesmente lavou as

mSos.

A questão é que Lúcio não estava interes-

sado em chapa única da CUT. Esses setores da

Executiva Nacional e Estadual haviam estimu-

lado seu crescimento e suas articulações com

o objetivo de destruir o MOSM-SP. Mas essa

cobra criada tinha interesses próprios:o que

queria mesmo era que a CUT o apoiasse numa

chapa de composição com os diretores dissi-

dentes .

Essa jogada não deu certo porque;

- o MOSMSP não foi destuído e sua simples

existência é obstáculo para qualquer

chapa de composição com os pelegos;

- qualquer militante medianamente informa

do sabe que quem fizer composição com

os pelegos pode até ganhar, devido ao

peso da máquina, mas estará desmoraliza

do politicamente na categoria

Em conseqüência Lúcio foi sozinho para en

cabeçar a chapa dos 11 diretores dissidentes,

sem conseguir arrastar a CUT e nem mesmo a

Alternativa. Alternativa, que baseou toda

sua política em promover Lúcio para cabeça

de chapa, implodiu e está agora procurando

juntar os cacos. E a Executiva Nacional per-

deu o rumo.

Jair Meneghelli havia feito uma proposta

de a Executiva Nacional convocar uma Assem-

bléia de Metalúrgicos Cutistas para decidir

sobre o processo eleitoral. Consideramos uma

proposta correta que, ao mesmo tempo que da-

va saída política, respeitava o direito da

categoria decidir sobre o processo (vide DOS^

SIÊ ELEITORAL n° 2) .

Sem nenhuma justificativa pública, Mene-

ghelli recuou dessa proposta e em 26/03/87

gomes comunicados que a Executiva Nacional

chamou a si o direito de convocar uma Con-

venção de Metalúrgicos Cutistas para aprovar

o programa e escolher a chapa. A coordenação

do processo até a Convenção é definida pela

Executiva e, na Convenção, até a mesa é def_i

nida pela Executiva, não podendo ser questio

nada.

E uma decisão totalmente anti-democrática,

que fere a autonomia das decisões das assem-

bléias da categoria e desconsidera todo um

acúmulo de exercício de democracia operária

que conquistamos até 84 (coordenação do pro-

cesso eleita pela categoria, reuniões de fá-

bricas e assembléias especificamente para

TRABALHADORES.

discutir programa, programa aprovado em as-

sembléia anterior à escol a da chapa, candi-

datos escolhidos em asser .éias de fábricas

e em assembléias das reg, ;s industriais,etc)

Iremos à Convenção, mas denunciando o au-

toritarismo da decisão e apresentando recur-

so contra ela.

0 mais grave é que nem sequer essas deci-

sões a Executiva está encaminhando. Essa me_s

ma Executiva que durante tanto tempo criou a

cobra vacila agora em deruriciar a traição do

Lúcio. Sabendo que as eleições serão reali-

zadas no início de junho e que temos menos

de 1 mês e meio de campanha, a Executiva Na_

cional retarda a convocação da Convenção PA

RA DAR TEMPO A ALTERNATIVA JUNTAR SEUS CÃ

COS.

A possibilidade de vitória é real.Mas não

será alcançada se a Executiva Nacional con-

tinuar com essa política rfe grupo,imobilista

e irresponsável.

Companheiros, a campanha já está nas ruas.

A batalha nas portas de fábricas já começou.

Precisamos JÂ, AGORA, de toda a força da CUT

mobilizada para as eleições. Precisamos JÁ,

AGORA, que a Executiva Nacional tome as se-

guintes posições:

- Convoque o mais rápido possível a CONVEN-

ÇÃO DOS METALÚRGICOS CUTISTAS. Nossa pro-

posta é 15 de Maio;

- Defina publicamente que a CUT está unida e

que apoia uma única chapa, a ser tirada na

CONVENÇÃO;

- Defina Lúcio Bellentani como um desertor

que passou para o lado do inimigo de clas-

se, desautorizado de falar em nome da CUT;

- Mobilize toda a força política, material e

de militantes da CUT para as eleições.

Estamos vivendo o momento histórico de

destruir o quartel general do peleguismo, da

conciliação de classes, do pacto social, da

traição.

São Paulo, 20 de abril de 1987.

MOVIMENTO DE OPOSIÇÃO SINDICAL METALÚRGICA

DE SÃO PAULO


QUINZENA d) TRABALHADORES

A gente só queria

entender...

A Assembieic do dia 20 de março aprovou

nossa proposta oe formar uma Direção de 105

companheiros. O MOSMSP trouxe uma proposta

igualzinha a da CLT, de uma diretoria só de 24

membros. A mesma proposta defendida pelo Luiz

Antônio e sua turma. O MOSMSP também apoiou o

Luiz Antônio na tentativa de anular essa Assembléia

que contou com a presença de 2.000 metalúrgicos.

Um absurdo!

- • No dia 31 de março, a assembléia dos traba-

lhadores da Ford aprovou a proposta de realizar

uma convenção aberta convocada pelas comissões

de fábricas e todas as forças que estão lutando pa-

ra democratizar o sindicato. Mas até agora o MOS-

MSP ficou quieto. Ninguém sabe se eles sâo contra

as comissões de fábricas assumirem a direção de

uma chapa de oposição.

Depois teve a greve de fome do Juruna £ do

Newton Cândido reivindicando o cumprimento da

decisão da assembléia do dia 20 e a readmissão

dos 24 auxiliares que o Luiz Antônio demitiu. A gre-

ve durou 12 dias. Nesses dias, o Neto, o Silva, o

Carlucio, o Vito Gianotti membros do MOSMSP iam

ao sindicato, passavam direto pelo saguão onde

estavam os companheiros em greve para subir e

falar com o Luiz Antônio.

Além disso tudo o Luiz Antônio anda dizendo

prá todo mundo que fez um acordo com o MOS-

MSP,lá na sede deles, na rua Riachuelo e no comitê

da Zona Sul. Que acordo é esse???

O MOSMSP diz que nós, o Joaquim e o Luiz

Antônio somos "farinha do mesmo saco" e justifi-

cam tudo por aí. Mas, quando a categoria vê que

nós é que estamos brigando para mudar o sindicato,

vem perguntar prá gente: - Por que o pessoal do

MOSMSP não está ajudando? Eles não querem en-

grossar a luta para que o sindicato seja dirigido pe-

los metalúrgicos? Será que é verdade que eles fize-

ram um pacto com o Luiz Antônio?

Nós não sabemos responder. Quem sabe o

pessoal do MOSMSP sabe explicar...

Porque fizemos

a Greve de Fome

Durante 12 dias o Juruna e o Newton

Cândido fizeram uma greve de fome no

saguão do sindicato. Foram visitados por

mais de 2.200 trabalhadores de 415 em-

presas e por diversas personalidades, que

assinaram o livro de solidariedade, além de

receberem inúmeros telegramas e telefo-

nemas. Eles respondem aqui algumas

perguntas.

Por que a greve de fome?

Entramos em greve de fome com três

objetivos máximos. Exigimos o respeito às

resoluções da Assembléia Geral do dia 20

de março, a readmissão dos 24 auxiliares

demitidos arbitrariamente e uma retratação

pública do sr. Luiz Antônio das acusações i

insanas que nos fez a todos.

Jornal dos Diretores Dissidentes

E o que vocês conseguiram com a

greve?

Bem, não conseguimos por enquanto

estes três objetivos máximos. Eles conti-

nuam dependendo da luta de toda a cate-

goria. Mas, conseguimos levar aos meta-

lúrgicos os problemas do sindicato, de-

nunciamos as manobras que estão sendo

feitas para fraudar a eleição e chamamos a

atenção da opinião pública que eslava

sendo enganada pelo sr. Luiz Antônio. Ele

se fazia passar por vítima quando na reali-

dade era o contrário..Tentava enganar a

opinião pública indo a velório, dando entre-

vista, mas quando começamos e manti-

vemos a greve de fome desmascarou-se

com sua truculência. Apiu como o pior dos

patrões.

Por que vocês suspenderam a greve?

Nós suspendemos nossa greve na

sexta-feira da Paixão porque as comis-

sões de fábrica e os ativistas que vieram

passar conosco esta data demonstraram

uma grande preocupação com nosso es-

tado de saúde. Foi uma reunião emocio-

nante. Não nos envergonhamos de dizer

que choramos naqueles momentos.

Com nossos objetivos máximos nâo

podendo ser atingidos devido a intransi-

gência do sr.- Luiz Antônio e sua turma,

com nossa resistência física minada e com

a emoção dos companheiros ao exigirem a

suspensão, preferimos atendê-los e nos

recuperarmos para engajar a luta nas fá-

bricas pela democratização do sindicato e

pelo gatilho já.

Uma última palavra?

É um recado de agradecimento ao

apoio de todos os metalúrgicos, de nossas

famílias e da sociedade. Estamos orgulho-

sos por termos ajudado nossa categoria

em sua luta para democratizar o sindicato.

da Flâozadá

Sou e continuo sendo da Direção Nacional

da CUT. Assumo, ne identifico e levo adiante o

seu programa. Vejc -f força, na garra e no pro-

cesso que iniciamos no dia 21 de fevereiro, junto

com as demais comissões de fábrica dos meta-

lúrgicos de Sâo Píiulo, o fortalecimento do pro-

jeto da CUT.

A força do nos;: p movimento é indiscutível.

É a luta pela demo'.;ívda no sindicato e no país.

É a luta pela dignid. .x< dessa categoria, pela dig-

nidade da classe traLaíhadora.

Não rompi con. B direção da CUT, nâo sai

da central e nem abri máo do meu cargo, pois fui

eleito por um congrísso, do qual participaram

cerca de 5.000 deitados. Tenho claro que a

proposta de conscikíaçâo da CUT passa pelo

processo que estame;; vivendo, a realização de

uma convenção aberta, democrática, convocada

pelas comissões úe fábrica, para aprovar um

programa de lutas, H i3 oposição e uma chapa pa-

ra executar tudo isse Essa é a nossa proposta e

sempre foi uma das bandeiras da CUT.

A luta pela democratização do sindicato, le-

vada pelos 11 diretores, se identifica e se soma

com nossa proposte Eles combateram o autori-

tarismo, o empreguísmo e as mordomias, leva-

ram a entidade para dentro das fábricas, organi-

zaram comissões Q assumiram uma linha de

mudança, para coloca' a categoria na direção da

entidade.

É por tudo isso que estamos juntos. É por-

que queremos organizar os metalúrgicos para

lutar contra a política econômica do Governo,

contra o arrocho salarial e contra a miséria.

Estamos juntos porque todos queremos aju-

dar a mudar política que impera no Brasil, aca-

bar com a exploração das multinacionais e com

o roubo praticado pelo FMI e pelos bancos, atra-

vés do pagamento ds dívida externa, dívida esta

que nâo fizemos e não temos que pagar.

É para recuperar a dignidade dessa catego-

ria, desse sindicato e passarmos para a linha de

frente na luta da classe trabalhadora que nasceu

a CHAPA DAS COMiSSÕES, a Alternativa dos

Metalúrgicos.

Quem defende e uemocracia, defende que o

sindicato são dos trabalhadores e que as bases

é que têm que comandar, nâo pode ser contra a

nossa CONVENÇÃO e nem deixar de reconhe-

cer o que significa es&e processo. Quem desco-

nhecer essa realidade e virar as costas para ela

vai ter que explicar oara toda a categoria meta-

lúrgica o que quer afnal e se quer, ou nâo, mudar

o nosso sindicato; sa quer ou não lutar pela hora

e vez da peãozada.

LÚCIO BELLENTANI

Coordenador da Camissáo de Fábrica dos

■ Trabalhadores da fora

membro da Direção Nacional da CUT.


¥S;-íxi«-;^:«!ix^:ííx;::^;.wíiWs:>i:i


QUINZENA

categoria — teria sido em função das

eleições dos metalúrgicos. Sc vencer

alguma chapa de oposição, o gover-

no tentará instaurar o pluralismo

sindical.

Bellentani acusa a outra corrente

cutista — O MOMSP — de ter feito

uma aliança com Medeiros para en-

fraquecer a posição do Grupo dos

— Tenho informações concretas

de que existe um acordo entre o Luís

5cM a* |

Antônio e o MOMSP — ataca Bel-

lentani, informação confirmada por

pessoas ligadas ao atual presidente

do sindicato. Fortalecer uma das

chapas de oposição renderia frutos

para a situação, raciocina. O

MOMSP rebate identificando na

corrente liderada por Bellentani

"um bando de traidores".

r-r São oportunistas políticos —

atira Cleodom Silva, membro da

>Jte*

Jornal dos r-rm

Metalúrgicos da CUT mvmM

Jornal dos Metalúrgicos da CUT - Abril/87

DEMOCRACIA OPERÁRIA:

A CUT surgiu e se man-

tém com base em um princí-

pio: a democracia operária.

Isso é o que faz da Central

Única dos Trabalhadores

uma represertfante verda-

deira da vontade de milhões

de trabalhadores brasilei-

ros, - ao contrário do que

acontece com organizações

como a CGT, onde os velhos

pelegos decidem as .coisas

entre si e depois se apresen-

tam como porta-vozes dos

trabalhadores.

Foi com -a conquista da de-

mocracia operária em vá-

rios sindicatos que os pele-

gos começaram a ser expul-

sos do movimento sindical.

Foi a democracia operária

das assembléias dos sindi-

catos combativos que impul-

sionou todas as lutas e con-

quistas importantes dos .tra-

balhadores nos últimos

anos. Contra a prática^ de

manobras e as assembléias

controladas dos pelegos, a

CUT impôs uma nova práti-

ca no movimento dos traba-

lhadores.

E é com esse remédio

mortal para os inimigos da

classe que a CUT vai parti-

cipar das eleições do Sindi-

REMÉDIO CONTRA PELEGO

cato Metalúrgico de São

Paulo. É com essa arma que

os companheiros metalúrgi-

cos vão poder retomar o

sindicato da mão dos agen-

tes dos patrões, os pelegos

da atual diretoria.

Por isso, desde agora,

quando.o processo eleitoral

ainda está em preparação, a

principal preocupação da

CUT e com a participação

efetiva dos metalúrgicos de

São Paulo na luta Contra os

pelegos.

Pára que isso se transfor-

me em realidade, a CUT

convocará para breve uma

Convenção aberta a todos os

metalúrgicos que estão dis-

postos a acabar com o pele-

guismo no Sindicato. A fina-

lidade dessa Convenção é de

que todos possam levar pro-

postas de programa e*de no-

mes paras compor a Chapa

Única de Oposição da CUT.

Dessa Convenção, os me-,

talúrgicos de São Paulo jun-

to com a CUT vão partir pa-

ra a briga final, derrotar os

pelegos nas eleições e cons-

truir um novo Sindicato:

combativo, classista^de-

mocrático. ' •

TRABALHADORES

exçutiva do Movimento e da Direto-

ria efetiva da CUT estadual.

Na troca de acusações desmesu-

rada, só há uma certeza. Nos próxi-

mos dias, o MOMSP irá lançar uma

campanha a nível nacional e interna-

cional de grave conteúdo.

— Os metalúrgicos estão arma-

dos — diz Silva.

CUT aceita proposta

do governo para mudar

legislação sindical

Gazeta Mercantil - 14.04.87

por Thols Bastos

de Brasília

A Central Ünica dos Tra-

balhadores (CUT) concor-

da com o projeto de altera-

ção da legislação sindical,

que institui a autonomia

sindical, mas faz várias

críticas ao segundo tema,

que trata dp : egociação co-

letiva e direito de greve.

Ambos são de autoria do

ministro do Trabalho, Al-

rair Pazzianotto, e estão na

última etapi de elaboração

para remes,. 1 ,a ao Congresso

na forma d^ um único ante-

projeto. Assim o presidente

da CUT, J'jir Meneguelli,

resumiu a conversa de

duas horas com o ministro,

que, segundo ele, "anotou

algumas críticas e prome-

teu estudá-las".

Em função das críticas

ao projeto de lei de greve, a

CUT considera ser possível

aprovar no Congresso ape-

nas os artigos referentes à

organização sindical e ten-

tar emendas, através do

PT, por exemplo, para "a-

perfeiçoar' : a legislação so-

ore negociação coletiva e

direito de greve. Algumas

dessas emendas teriam de

ser dirigidas à atual Consti-

tuição, que em um de seus

artigos proíbe greve nos

serviços essenciais.

Pazzianotto, por sua vez,

faz uma outra análise:

"Nada indica que a atual

Constituição vá ser altera-

da, ao passo que tudo indi-

ca que uma cova Constitui-

ção será escrita".

A seguir, as principais

críticas e sugestões feitas

pelo líder sindical e o res-

pectivo parecer do minis-

tro do Trabalho:

• Obrigatoriedade do re-

colhimento, pela empresa,

de quantia definida em as-

sembléia a titulo de contri-

buição sindical — Pazzia-

notto prometeu estudar a

inclusão do item em seu an-

teprojeto.

• Representação sindical

— Sindicato único por ramo

de atividade — o ministro


QUINZENA (£1 TRABALHADORES

considera que o assunto de-

verá ser decidido pelo pró-

prio movimento sindical,

na medida em que a auto-

nomia prevê total liberda-

de de decisão dos trabalha-

dores sobre sua forma de

aglutinação. Considerou

ainda que sindicatos dife-

renciados "desfalcam" o

movimento e citou o exem-

filo das secretárias, que es-

ão reivindicando ao MTb a

sua Constituição formal en-

quanto categoria. "A çiife-

rença é que hoje o proble-

ma está nas minhas mãos,

Sois sou eu quem decide

ar as cartas de reconheci-

mento a esta ou aquela as-

sociação profissional. Com

a autonomia, o problema

terá que ser resolvido pelo

próprio movimento sindi-

cal"'

• Prerrogativa de demis-

são do empregado por justa

causa tendo em vista parti-

cipação em movimento

grevista ilegal — A CUT

reivindicou ao ministro que

retirasse do projeto esse

item, justificando que na

atual legislação não se con-

figura justa causa a parti-

cipação pacifica em movi-

mento grevista. Pazzlanot-

to afirmou que este é um

ponto a ser considerado

mais detalhadamente. No

entanto, refletiu que se os

trabalhadores não saem de

uma greve demitidos por

justa causa, são muitas ve-

zes alvo de demissões sem

justa causa, "o que dá no

mesmo", afirmou, irônico.

• Direito adquirido —

Pazzianotto, em seu projeto,

extingue a figura do direito

adquirido ao dispor

que as concessões em acordos

passados não são automaticamente

prorrogadas

na celebração de um novo

acordo. A CUT considera,

neste aspecto, haver um retrocesso

no projeto do ministro

em relação à atual

legislação sobre greve.

Pazzianotto analisou o assunto

sob um outro ângulo,

afirmando que a figura do

direito adquirido dificulta a

celebração de acordos cole-

tivos, uma vez que tolhe

possíveis concessões do

empregador, que diante da

possibilidade de ver a con-

cessão (participação nos

lucros, por exemplo),

transformada em direito,

prefere não dá-la.

• Sanções econômicas —

A CUT inclui este item no

rol das "novidades noci-

vas" ao trabalhador dentro

do anteprojeto do ministro.

Pazzianotto, entretanto, ci-

tando o artigo 533 da Conso-

lidação das Leis do Traba-

lho (CLT), mostrou que já

existem tais penalidades,

"apesar de quase nunca se-

rem pronunciadas judicial-

mente". Segundo o minis-

tro, com a autonomia, os

sindicatos não mais esta-

rão sujeitos à intervenção

do estado, mas, por outro

lado, configuram-se como

pessoa' jurídica, tanto

quanto os sindicatos patro-

nais, lembrando que as

sanções, no projeto, re-

caem sobre ambos.

19 PARTE Ciência Hoje - n° 28/Jan e Fev/87

Maria Ignez S. Paulilo

Ucpar:atncmo de Ciênoas Sociais. Universidade Federal de Santa Caiariaa

"A mulher ganha menos porque é mulher, né? O trabalho dela não vai

com o do homem (...) O homem pega uma foice, broca mato, cava rego,

abre valeta, traz água... e a mulher não vai fazer esse serviço. A mulher

planta, a mulher semeia, a mulher alimpa, mas não pode fazer serviço

mais pesado, fica sempre pra parte do homem. Aí, quer dizer, por isso o

homem ganha mais..." (moradora de fazenda, Brejo, PB).

"Sendo disposta, a mulher ganha a mesma coisa que o homem (...) Agora,

o seguinte é esse: o homem não tinha os meninos. Aí não se empalhava...

aí ganhava 30 cruzeiros num dia. Eu já ganhava em dois dias. Porque

ajeito os meninos, fazendo o comer, isso e aquilo, me empalho..."

(trabalhadora volante. Brejo, PB).

"Eu disse que ia mais não, senhora. Porque... a carreira que os homens

botava, eu botava. Trabalho igual aos homens. Eles ganhavam 30

cruzeiros, eu 20. Vou mais não, senhora. Vou arrancar feijão, que é 20

cruzeiros, mas pra limpar mato vou mais não..." (trabalhadora volante.

Brejo, PB).

"A mulher acorda e levanta antes do marido. Prepara o café, tira o leite,

encaminha o almoço e, às vezes, ainda põe a roupa de molho. Aí o

marido levanta e vão para a roça juntos. Voltam da roça, o marido está

cansado, claro. A mulher não, porque ela é feita de aço inoxidável (...) Eu

já assisti — e me escandalizei — a esposa ter até que cortar o fumo e

fazer o cigarro para o homem fumar..." (professora primária e esposa de

pequeno produtor, sul de Santa Catarina).

"Se o fumicultor for realmente calcular o custo, se calcular o preço da

mão-de-obra, não seria vantagem (...) A vantagem é que, com dois

hectares, ele já pode ter uma estufa. Então ele bota guri desde cinco, seis,

sete anos, bota mulher, ele bota todo mundo pra trabalhar..." (secretário

da Agricultura de um município do sul de Santa Catarina).

"(O fumo) dá trabalho, mas não durante o ano todo. Naquele tempo da

colheita. Em dois meses dá bastante trabalho. Mas não é assim um

trabalho pesado. É um trabalho um tanto cansativo, porque, chega de

noite, tem que cuidar do fogo. E a plantação do fumo é pra gente nova

(...) Claro que um velho não vai lá se abaixar!" (fumicultor, sul de Santa

Catarina).

O PESO DO TRABALHO LEVE

Sertão da p.i-aíba, 1978, municípios

de Pombl, São Bento, Brejo do

Cruz, Pai. sta, Belém do Brejo do

Cruz, Catolé do kocha e Riacho dos Ca-

valos. Predomir;. üI a pecuária e a cultura

do algodão. Os empregados residentes nas

fazendas ("moradores") são parceiros, em

regime de meia e üe terça: em troca do uso

da terra, em geral entregam ao proprietá-

rio metade da produçfio de algodão e 1/3

do produto das cuiras lavouras. Trabalho

"pesado" é a limp-za do mato e a criação

de gado. Mulherer e crianças ajudam no

plantio e na colheu das lavouras, cuidam

das atividades den esticas e procuram com-

plementar a rend . familiar dedicando-se a

ocupações artesanais como tecer linha, fa-

zer acabamento de rede, fabricar chapéus

e rendas. Todo o material necessário à exe-

cução dessa tarefa, é fornecido pelos inter-

mediários, que depois vêm apanhar o pro-

duto. A especialização é grande: algumas

mulheres fazem só varandas, outras só pu-

nhos de rede. O pagamento desse trabalho

"leve" e moroso, que exige habilidade e pa-

ciência, é ínfimo.

Brejo da Paraíba, 1978, municípios de

Alagoa Nova, AreLs, Pilões, Serraria e Ara-

ra. Aqui a distir.fão entre trabalho "leve"

e "pesado" se fas mais clara. Entre os tra-

balhadores volantes, é "pesado", mascu-

lino, principalmente roçar e cavar a terra.

Roçar significa derrubar o mato grosso, in-

clusive árvores, a machado e foice. Cavar

é preparar a terra, sem ajuda do arado, pa-

ra o plantio da cana. Trabalho "leve", fe-

minino, é plantar, arrancar o mato miúdo

e adubar. Para i :o, as mulheres ganham

a metade, ou menos, da diária de um ho-

mem, embora trabalhem o mesmo núme-

ro de horas. Na.' f jzendas onde há olarias

rústicas, as mulheres carregam tijolos em


QUINZENA

carrinhos-de-mão, se .•viço também consi-

derado "leve" e pago como tal. Nenhum

homem é contratada para fazer trabalho

considerado feminiro, embora algumas ati-

vidades possam ser realizadas por ambos

os sexos. Pagando por produção, os pro-

prietários evitam remunerar o tempo que

as mulheres gastam com os filhos e o maior

esforço que despendem para limpar uma

mesma área de cana. Já nas atividades em

que a força física não traz maior rendimen-

to, como o plantio e a adubagem, evitam

a presença masculina para melhor

caracterizá-las como trabalho "leve". Ape-

sar da sutileza empregada na exploração da

mão-de-obra feminina, há mulheres que,

realizando as mesmas tarefas que os ho-

mens, ganham menos.

Sul de Santa Catarina, 1983, municípios

de Içara, Orleans, Nova Veneza e Criciú-

ma. Área de cultura de fumo, muito exi-

gente em termos de mão-de-obra. Além de

semear, regar, cultivar, capinar e colher,

deve-se tecer o fumo nas varas, carregar a

estufa, vigiá-la à noite, descarregá-la, de-

samarrar as folhas das varas, classificá-las,

amarrar pequenos molhos, enfardá-los e

etiquetá-los. E mais: íavar todo o paiol an-

tes de enchê-lo, para evitar que restos de

grãos atraiam ratos, tOraar a lavá-lo depois

de entregar o fumo, para que os venenos

que impregnam as folhas não contaminem

os alimentos, que lá serão guardados. Fi-

nalmente, é preciso começar a derrubar a

lenha para a próxima safra. Mulheres e

crianças participam de todas as fases e,

mais uma vez, é a idéia do trabalho "le-

ve" que ajuda a expil :ar o baixo preço pa-

go pelas agroindústrias ao plantador. Vi-

gora ali, na verdack, uma distinção entre

trabalho "cansativa" e "pesado". A la-

voura se enquadra M primeira categoria,

mas não na segunda; exige muito trabalho,

mas todo ele "leve". Para o fumicultor,

"pesado" é o trabalho que exige força fí-

sica e é sempre feito por homens adultos.

Regiões distintas culturas diferentes.

Como traço comum, B distinção entre tra-

balho "leve" e "pesado". O primeiro, atri-

buição de mulheres t crianças. O segundo,

incumbência máscula. A mesma divisão

aparece em outros locais que estudamos.

Na região de Araçatuba (SP), por exem-

plo, há preponderância de mulheres e gran-

de número de crianças entre os emprega-

dos temporários encarregados da colheita

de produtos agrícolas, principalmente o ca-

fé. Explicação dada por quase todos os fa-

zendeiros para esse fato: elas trabalham

bastante, não fazem questão de registro,

não dão queixa na Justiça, concordam em

receber menos por jornada. O sustento da

casa cabe ao marido, a mulher não precisa

trabalhar o ano todo. Emprega-se apenas

para "ajudar em casa", ganha só "um di-

nheirinho a mais". Uma vez que não faz

serviço pesado — como levantar cerca ou

cuidar do gado —, recebe 75^0 da diária

masculina.

Poder-se-ia pensar que mulheres c

crianças desempenham certas ta-

refas porque, de fato, estas são

"leves" por sua própria natureza. Mas não

é bem assim. Na verdade, qualifica-se o tra-

balho em função de quem o realiza: são

"leves" as atividades que se prestam à exe-

cução por mão-de-obra feminina e infan-

til. Importa destacar que essa classificação

está associada a diferentes remunerações:

maior para o trabalho "pesado", menor

para o "leve", mesmo que ambos deman-

dem o mesmo número de horas ou que o

esforço físico exigido por um tenha como

contraponto a habilidade, a paciência e a

rapidez requeridas pelo outro. O que de-

termina o valor da diária é, em suma, o se-

xo de quem a recebe.

A falácia da "naturalidade" da distin-

ção entre trabalho "leve" e "pesado" sal-

ta aos olhos ao constatarmos a variação

que sofre conforme o lugar. No Sertão, as

mulheres consideravam "pesado" o que no

Brejo era "leve" (a capina das áreas de la-

voura, por exemplo). Embora muito difí-

ceis, as condições de vida do sertanejo, ví-

tima constante da seca, são menos drásti-

cas do que as enfrentadas nos mares ver-

des de cana do Brejo. Para entendê-lo, va-

le a pena nos determos nas condições do

trabalho feminino rural nas duas regiões.

Nas fazendas de cana-de-açúcar do Bre-

jo paraibano, vigora o chamado "regime

de sujeição": os empregados que nelas re-

sidem, os moradores, têm direito a fazer

sua roça num pequeno pedaço de terra (não

mais que dois hectares); em troca, devem

"pagar a sujeição", isto é, trabalhar para

o proprietário alguns dias por semana (em

geral, três), recebendo uma diária menor

que a dos trabalhadores que moram fora

das plantações canavieiras.

Como é impossível sustentar a família

apenas com essa renda, o morador se obri-

ga a trabalhar cinco ou seis dias por sema-

na para o patrão. Mas não é só: "pagar a

sujeição" implica uma subserviência que

impede o empregado — e, muitas vezes, to-

dos os membros da família — de trabalhar

para outro proprietário por uma diária

maior. Sobretudo, impede-o de determinar

a própria vida, já que a vontade do patrão

se sobrepõe a qualquer outra obrigação, ne-

cessidade ou desejo: o morador deve estar

sempre pronto a atendê-la a qualquer ho-

ra. Nas palavras de uma moradora: "Sw-

jeito? Não pagava nada (pela terra), mas...

mmmmmm

TRABALHADORES

quando viesse um recado do patrão, ele po-

dia estar fazendo o que estivesse, que era

obrigado a ir..." Nessas circunstâncias, o

roçado — onde cultivam produtos de sub-

sistência, principalmente milho, feijão e

mandioca — fica por conta da mulher e dos

filhos, que são obrigados a arcar com quaíe

todos os serviços "pesados" ou "leves"-.

Considerados ainda mais "pesados" que

os trabalhos do roçado são a capina e a co-

lheita de cana feitas pelas trabalhadoras vo-

lantes. As folhas são ásperas e cortam a pe-

le. Quanto mais altas as plantas, maior o

desconforto. Por ocasião das greves de cor-

tadores de cana em alguns estados do Nor-

deste, o Brasil inteiro pôde ver, pela tele-

visão, como se vestem essas trabalhadoras

volantes para evitar machucaduras: calças

compridas sobrepostos, lenços no rosfò,

pés cobertos e faixas nas mãos. A lida da

cana é considerada tão penosa que só se de-

dicam a ela — além dos homens, evidente-

mente — mulheres "sozinhas", isto é, mu-

lheres chefes de família, mães solteiras, se-

paradas, abandonadas ou com o marido

doente.

No Sertão, como vimos, as grandes pro-

priedades de gado ou de algodão empre-

gam írabalhadores em regime de parceria.

O homem trabalha a maior parte do tem-

po na própria plantação, vendendo um dia

ou outro de serviço, conforme sua neces-

sidade financeira ou a vontade do patrão.

Os moradores, como no Brejo, são "sujei-

tos". Mas, visto que o gado, ao contrário

da cana, requer pouca mão-de-obra, os ho-

mens e os meninos mais velhos cuidam

também da lavoura. Mulheres e crianças

ajudam a plantar e colher, mas não a "lim-

par mato", ou seja, capinar a roça.

Trabalho "leve" e "pesado" são, por-

tanto, categorias que variam segundo o se-

xo do trabalhador e as condições de explo-

ração da terra nas várias regiões agrícolas.

Invariável é a convicção de que o trabalho

feminino é mais barato. Essa constatação

é freqüente na literatura sociológica sobre

a força de trabalho feminina nas cidades:

as profissões consideradas femininas têm

remuneração sempre inferior à daquelas

consideradas masculinas. Mesmo em pro-

fissões iguais e cargos iguais, os dois sexos

têm remunerações distintas.

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3

e


QUINZENA

A HISTÓRIA DA CONQUISTA DAS OITO

HORAS NO ESPÍRITO SANTO

No dia 12 de Maio lembramos a luta dos

trabalhadores da cidade de Chicago, nos E_8

tados Unidos, pelas oito horas de trabalho.

Mesmo existindo as leis no papel,os patrBes

não cumprem quando os operários estão orga-

nizados e exigem.

A LUTA OPERÁRIA NO ESPÍRITO SANTO

Em 1927, os trabalhadores organizados em

Uniões por categorias, sentiram a necessi-

dade de criar uma FederaçSo dos Trabalhado-

res no Espírito Santo, como já existia em

outros estados.

Estas uniões de trabalhadores passaram a

sentar juntas para discutirem as lutas co-

muns, que todas as categorias sentiam En-

tre as muitas reivindicações e lutas tira-

das, a luta por oito horas de trabalho era

a mais importante. Isto porque já estava na

lei, na constituição do país desde 1891 Mas

no estado não era cumprida.

TRABALHADORES

Um exemplo de luta

A OPERAÇÃO FOGUETÃO

Destas discussões feitas pela União dos

Trabalhadores saiu um plano de luta. Fica-

ram de fabricar um foguete de uma única bom

ba, muito forte que explodindo a cidade to-

da escutasse. Todos deviam respeitar a ex-

plosão da bomba. Só entrando e saindo do

MUNICIPAIS-SP

GREVES

Começando com a greve dos

professores municipais (veja

matéria nesta seção), 100 mil

dos 120 mil servidores

municipais fizeram greve. Isto

tomou o Prefeito Interino de

São Paulo de surpresa, que

alegou que a Secretaria de

Finanças é quem deveria

apresentar uma proposta de

aumento. As reivindicações

básicas são: não punição dos

grevistas, incorporação do

abono de Cz$ 1.159 ao salário,

reajuste que recupere as

perdas salariais dos 14 meses

que ficaram sem receber

aumentos.

0 Parque Ibirapuera foi

cercado e os manifestantes

impedidos de entrar. Com o

retorno de Jânio à

Prefeitura houveram milhares

de demissões num estilo de

furor de fazer inveja à Velha

República e com ameaças de

trabalho depois de escutar o tiro do fogue-

te.Às sete horas, no primeiro tiro da bomba

todos entrariam, só largariam no segundo t_i_

ro à tarde. Não ficar no trabalho por moti-

vo nenhum dado pelo patrão. A "Operação Fo

guetão" começou a dar resultados. A clas-

se patronal ficou desorientada. No começo

não entendia porque os operários chegavam

sempre juntos, na mesma hora e saindo todos

juntos ã tarde. A classe patronal não co£

seguia ligar os tiros de fcguetes com a mo-

vimentação organizada dos operários. Depois

de um tempo a classe dos patrões entendeu,

mandou chamar a polícia para resolver o pro

blema. Prisões, advertências, perseguições

aos operários foi o prato do dia. Mas a ope;

ração foguetão continuou. Os patrões não

conseguiam vencer a organ sação dos traba-

lhadores, ficaram desesperados. Todo mundo

na cidade falava do que ettava acontecendo.

Duas revistas que eram puMicadas na época:

A Careta e o Malho, passa.-m a criticar o

governo do Estado por ter ermitido o des-

cumprimento da lei das oic- horas, que esta

va na Constituição desde 1891. Deputados do

Espirito Santo lá no governo rederal, acus£

vam os operários de íazevei'. baderna no Est£

do, de estarem defendendo outros objetivos,

etc . , etc.

Então, a Casa Civil da P-apública, mandou

que o governo do estado regularizasse a si-

tuação, fazendo cumprir a Lei. No dia 11 de

maio estava normalizada a situação, os ope-

rários conquistaram de verdade as oito ho-

ras .

fechar a Prefeitura se

necessário.

PROFESSORES DE SÃO PAULO

* 40% da categoria (25 mil)

que leciona em escolas de 12

e 22 graus da rede particular

fizeram greve de 3 dias por

aumento salarial de 100%;

7,7% de produtividade; 20% de

reposição.

Alguns colégios firmaram

acordo pouco abaixo desses

índices. A greve foi

declarada ilegal

* Em seguida foi a vez dos

professores municipais que

paralisaram as escolas e as

creches. Elds lutam por

62,3% de aumento real,

incorporação do abono e do

gatilho. Esta greve acabou

se alastrando para outros ^


setores do funcionalismo

municipal (veja matéria

nesta seção).

* Pararam também os

professores das Universidades

Federais em SSo Paulo que

juntamente com outras

universidades fizeram greve

nacional.

* Na Universidade

Metodista de Piracicaba param

371 professores por reajuste

de 135% sobre o salário de

março.

QUÍMICOS E METALÚRGICOS - BA

Vinte e nove empresas dos

setores químico e metalúrgico

num total de 14 mil

trabalhadores entraram em

greve na Bahia por

reivindicações salariais

de 60% de reposição a

partir de 15 de março. No

setor metalúrgico

aproximadamente metade

dos trabalhadores estão

em greve em 26 empresas, (f

algumas de grande porte i

como a Alcan em Candeias,

a Mineração Caraíba e a

Ferro-Ligas da Bahia.

PROFESSORES CARIOCAS

Os 20 mil professores d

1° e 2° graus da rede

particular de ensino do Rio

fizeram greve que durou mais

de 15 dias. A luta é por

120% de aumento sem repasse

para as mensalidades.

PROFESSORES DE PE

34 mil professores da rede

oficial de Pernambuco

estiveram em greve por mais

de 20 dias. Eles querem piso

de 3 mínimos para os

professores que ganham Cz$

2.412,00 e seis salários para

os de nível universitário

que percebem Cz$ 4.824;querem

ainda todos os gatilhos e um

abono de emergência de 50%.

ESTADUAIS - RS

Os funcionários públicos

estaduais gaúchos fizeram

greve de mais de 6 dias por

reajustes semestrais; INPC

integral; 135 salário e

calendário rixo de pagamento.

A greve paralisou 90% dos

130 mil servidores gaúchos.

Até a polícia civil aderiu

à paralisação.

OPERAÇXO PADRÃO

Os ferroviários da Central

do Brasil resolveram aplicar

com rigor o regulamento para

movimentar os trens de

subúrbio do Rio. Isto

representou a retirada de

atividade de 80% das

composições por não estarem

em condições de tráfego

por falta de velocímetros,

faróis, etc.

Foi uma greve diferente,

mas que causou grande agitação

e levou a um quebra-quebra.

A polícia, violenta como

sempre, baleou oito usuários.

Houve ainda ocupação de

estações por tropas do

exército.

CURTAS

MORTOS EM TIROTEIO EM FAZENDA

DO PARÁ ERAM POLICIAIS EM

BRASÍLIA

A superintendência regional

da Polícia Federal negou

ontem que os dois policiais

mortos por posseiros da

Fazenda Nazaré, próximo a

Conceição do Araguaia, no sul

do Pará, a 780 quilômetros

desta capital, fossem agentes

do órgão. Mais tarde, soube-se

que os dois eram funcionários

da Secretaria de Segurança

Pública de Brasília e a sua

identidade foi revelada:

Bruno Erckamn Fernandes era

lotado na 1§ Delegacia de

Polícia (Asa Sul) e Cláudio

Acioly, na Delegacia de

Furtos e Roubos de Veículos.

As circunstâncias em que

foram mortos ainda não

fcram bem esclarecidas

nem pelos policiais sediados

em Conceição do Araguaia,

nem pela Comissão Pastoral

da Terra (CPT). Segundo o

padre, Bruno e Cláudio se

faziam passar por agentes

federais, juntamente com

um outro homem conhecido

por Marcos, para intimidar

posseiros. 0 padre Rezende

disse que "esse confronto

era previsível", pois a

fazenda tem áreas em litígio

há muito tempo e os posseiros

vinham sofrendo constantes

ameaças. No dia 17 de

fevereiro, Rezende mandou uma

carta ao ministro da Reforma

e Desenvolvimento Agrário,

Dante de Oliveira,denunciando

a situação Documento com o

mesmo teor foi encaminhado

ao ministro da Justiça, Paulo

Brossard, «2 ao então

governador do Pará, Jáder

Barbalho, "mas nenhuma

providência foi tomada por

essas autoridades", disse o

padre.

(Aconteceu abril/87, CEDI)

CENTRAC INFORMA

Os companheiros de Campina

Grande, PB, informam como

estão as lutas por lá:

* Durante o mês de março,

Campina Grande vivenciou as

greves dos bancários (100%);

professores da UFPb (100%);

professores da Universidade

Regional do Nordeste (100%);

trabalhadores da SUCAM e

Previdência Social também

com 100%. Todos esses

movimentos foram por

melhores salários e

condições de trabalho.

* Os trabalhadores sem-terra

ocuparam uma fazenda de um

grande latifundiário local

e ccnquistaram o direito de

lá permanecerem por um ano.

Eles conseguiram também a

posse definitiva do terreno

Ramadinha II e agora lutam

para conseguir

infraestrutura e construir

suas casas. ^


* A chapa da CUT venceu as

eleições para a Associação

dos Servidores Municipais

de Campina Grande e a posse

já ocorreu em 04/04.

* 0 Congresso Estadual da CUT

será nos dias 1, 2 e 3 de

maio e no momento os

sindicalistas estão no

processo de eleição da

FETAG onde concorre uma

chapa da CUT.

* 0 19 de Maio promete ser

uma festa de massa por lá.

METALÚRGICOS DE MANAUS

A Gradiente da Amazônia

dispensou 450 trabalhadores

de um total de 4 mil

existentes (11,25%). Entre

os demitidos estão duas

trabalhadoras grávidas que

deveriam ter amparo da CLT.

CGT COM MEDO DA RESOLUÇÃO 87

Joaquinzão, o super-pelego

do Sindicato dos Metalúrgicos

de São Paulo e atual

presidente da CGT pediu ao

Ministro Pazzianoto para, na

nova lei de Relações

Coletivas de Trabalho, mesmo

prevendo a autonomia e

liberdade sindical, mantenha

o princípio da unicidade

sindical.

A CGT não quer o

pluralismo sindical de forma

alguma pois teme que com

isso não consiga mais os

recursos para sua ação.

Ele sabe que sem o dinheiro

do estado a CGT fecha.

MO SAIU

NO JORNAL

VIOLÊNCIAS E VITÓRIAS NO PA

A violência no campo já é

rotina e no PA os records vem

sendo batidos a cada dia. Só

em 1986, 71 trabalhadores

foram assassinados.

Quem informa é a CPT

Regional Norte II de Belém.

A Reforma Agrária, como

no restante do país, não

caminha, e somente 30% da

meta de desapropriação foi

alcançada, o que não quer

dizer que alguém tenha

ganho terra.

Em nova "operação

desarmamento" o Cel. Antônio

Carlos da Silva, atual

Secretário da Segurança

Pública, comandou um

bando de PM depravados que

a partir da Fazenda

Bamerindus violentaram

mulheres e torturaram

crianças e adultos. Os

bandidos estão no poder

do estado.

Em MOJU o antigo presidente

do STR e atual diretor da

FETAGRI foi assassinado pela

UDR "num acidente simulado".

Ele era o companheiro

Virgílio Serrão Sacramento.

0 assassino é o Oswaldo

Camargo.

As notícias boas: a CUT

conquistou a direção da

Federação dos Trabalhadores

Rurais e o companheiro

Valdir Ganzer do STR de

Santarém é o líder do PT

na Assembléia Legislativa

do Estado, onde foi eleito

deputado estadual.

FAZENDA SABAÚNA - PB

A questão nessa fazenda

começou com a morte de seu

proprietário em 1976 e com

a proposta de venda da

área. Isto implicava em

não indenizar ninguém e

expulsar todos da

propriedade.

A partir daí 28 famílias

foram expulsas e com o

protesto conseguiram, durante

o governo Fiqueiredo, a

desapropriação da Fazenda em

1983. Mas o processo não

caminhou e o proprietário

tentou transformar a área

em empresa rural. Não

conseguiu. Veio a polícia e

o Incra e o caso se estende

há um ano-. Em fevereiro

deste ano, 70 policiais

roubaram as ferramentas dos

trabalhadores sob a alegação

de que eram armas (enxada,

foice, etc.). Agrediram

crianças e ameaçaram "chutar

a vagina das mulheres e o

ovo dos homens". Aí, levaram

4 trabalhadoras presos. Com

isso todas as 112 famílias

ofereceram para serem presas.

A justiça não garante a

área e ainda ameaça os

posseiros. E a polícia

continua tornando depoimentos.

Até quando?

GRUPO UNIÃO E CONSCIÊNCIA

NEGRA

Os companheiros deste

grupo nos enviaram uma

circular (disponível para

xerox) com o título "Abolição

da Mentira".

Eles denunciam que "hoje

somos convidados a participar

de uma grande festa nacional

para comemorar uma MENTIRA

tão grande que chega a ser do

tamanho do país... fica

complicado ver os brasileiros

se juntando de ponta a ponta

para dar vivas a 100 anos de

mentira com c título de

Centenário da Abolição".

No decorrer da nossa história

o negro sempre ficou na pior

situação: um indivíduo sem

voz e participação, deserdado

de suas tradições, sem acesso

aos benefícios gerados pela

sociedade em geral e ainda

rotulado de INCOMPETENTE.

Em 1888, por forças

econômicas e políticas dos

países capitalista da época,

os negros receberam um pacote

chamado ABOLIÇÃO DA

ESCRAVATURA .nde ficaram

livres... apesar de muita

luta, não conseguiu espaços

suficientes psra desenvolver

sua capacidade e adquirir "


00

suas formas de autosustentação.

A figura do negro nos dias

de hoje se encontra distante

dos seus valores, tentando

reconquistar seus verdadeiros

espaços, numa luta incansável,

enfrentando barreiras, se

deprimindo, ignorando os

descasos e todos os tipos de

desrespeito humano Hoje

nos deparamos com os

dominadores contando a nossa

história, escolhendo heróis

e até comemorando a nossa

0)

-o Inflação recorde de maio já preocupa BC

Técnicos do Banco Central mostram

preocupação com o índice de inflação

de maio, que poderia ser o maior da

história do país. Motivo' da preocupa-

ção: o governo prometeu dar dinheiro a

empresários, governadores e prefeitos,

facilitando o crédito. Como os preços

estão liberados, não há controles. Há

um ingrediente psicológico nessa análi-

se: os empresários, já temendo a infla-

ção que vina de uma política monetária

mais frouxa, subiram preventivamente

os preços.

Causa também temor entre os técni-

cos do Banco Central os pontos de es-

trangulamento na economia e a ausên-

cia de investimentos ou mesmo inves-

timentos que vão demorar a surtir efei-

to. A iniecão de dinheiro no mercado

pode produzir não apenas n alta de pre-

ços. Inquieiam também os efeitos na

produção, )á que muitos setores traba-

lham com nível mínimo de capacidade

ociosa. E, no decorrer do processo infla-

cionário, muitas empresas simples-

mente quebram.

Lições de 1975. Para experiente

banqueiro privado, as sucessivas inje-

ções de recursos do Banco Central na

economia 'facilidades de refinancia-

mento para financeiras, bancos e ban-

cos de investimento, créditos a pequenas

e médias empresas, refinanciamento

das divida^ dos agricultores, recursos

para a construção civil etc.) podem pro-

duzir os mesmos efeitos perversos do

refinanciamento compensatório de

1975.

Em fevereiro desse ano, depois de

forte contração da liquidez causada pela

perda de reservas, o governo liberou

uma linha especial do compulsório aos

bancos (o refinanciamento compensa-

tório) para tentar tirar a economia da

ameaça de recessão. Posteriormente,

nova liberação foi feita, o que provocou

explosão mflacionária para a época (a

taxa saltou rapidamente de 20% para o

patamar de 35%). Mas a economia só

cresceu, com um mínimo de sustenta-

ção, a partir da liberação dos recursos

do PlS-Pasep pelo BNDES para os pro-

gramas de substituição de importações.

0 banqueiro adianta que, apesar da

melhoria da liquidez do sistema bancá-

rio, não há disposição de emprestar. Em

primeiro lugar porque os bancos não

estão acreditando em surto sustentado

de crescimento da economia, diante da

-Sombras

Técnicos do governo que acompa-

nham a área de preços também estão

alarmados com as perspectivas da infla-

ção de abril, Os aumentos combinados

dos cigarros (50%), leite, pão e farináceos,

arroz, feijão, carne (poi conta do aumento

do ICM) e derivados de petróleo devem

resultar no maior Índice da história do

pais - acima de 18%, pelo menos. Como

para maio (majéria ao lado) espera-se

outro recorde, serão doisresultadosnegati-

vos sucessivos. Os estragos com o disparo

do gatilho saiarai duas vezes seguidas

(abnl e maio, incorporando o resíduo de

mais de 5% de abril! e a ameaça de novo

disparo em junho uodem colocar o pais

novamente no caminho da hiperinllaçõo e

derrubar o ministro da Fazenda, Dilson

Funaro

Em fevereiro e março alguns fatores

ajudaram a quebrar a expectativa de hi-

perindução: as remarcaçõos de eletrodo-

mésticos, roupas, da carne ((ranyo, ovos e

suínos u embutidos), a queda dos preços

dos legumes e a redução de 30 a 35% nos

P'nços tios carros asados (que pesam

quase 5% no índice ao IBGE, contra ape-

nas 0,6% dos carros novos) Mas no mês

de abril, sem novos descontos para o

consumidor, não haverá como contraba-

lançar os aumentos

forte perda do poder de compra dos

salários; em segundo porque o risco dos

tomadores está muito grande: os esto-

ques estão elevados no comércio e na

indústria e não há demanda, portanto, o

risco de aumento da inadimplência é

muito grande.

Não é por outro motivo, alias, que a

semana passada fechou com as taxas de-

juros balizadas pelo Banco Central no

overnight subindo - para ajustar à provi-

são de uma inflação entre 14,5% e 15%

em março, a ser expressa no período de

15 de março a 15 de abril pelas Letras

do Banco Central -, mas os juros dos

certificados de depósito bancário (CDBs)

captados pelos bancos caíram de 23 a

24% ao ano mais a variação das LBCs,

no início da semana, para 20 a 21% ao

ano, mais LBCs, na sexta-feira.

Os bancos querem licar líquidos para

enfrentar o pior, como o aumento es-

perado da inadimplência. Mas não

querem se expor a novos riscos en-

quanto o próprio ajustamento da eco-

nomia não indicar que empresas são

sólidas e quais estão realmente em difi-

culdades

Gilberto Menezes Cortes

Âmbar de Barres

TRABALHADORES

suposta libertação

Tudo bem! Então vamos

protestar contra CEM ANOS DE

TORTURA, CEM ANOS DE VIOLAÇÃO

DOS DIREITOS DO CIDADÍO, CEM

ANOS DE RACISMO, CEM ANOS DE

DESRESPEITO HUMANO . "

ECONOMIA

Gazeta Mercantil 27.04.87

DIEESE: aumenta o

desemprego

A taxa de desemprego

aumentou ca Grande São

Paulo. De 7,^% registrados

em fevereiro, passou para

8,5% em m&rço. Em ter-

mos numéricos representa

uma elevação de 67 mil

pessoas desempregadas,

no universo de 642 mil tra-

balhadores sem emprego.

Os dados foram divulgados

sexta-feira úilima, pelo De-

partamento Intersindical

de Estatística e Estudos

Sóclo-Econômicos (DIEE-

SE).

0 diretor técnico do

DIEESE, Walter Barelli,

chamou a atenção para o

fato de o aumento do de-

semprego atingir parcelas

de população consideradas

mais produtivas.

"O crescimento do de-

semprego verificado é ob-

servado entre os trabalha-

dores com experiência an-

terior e de maneira mais

expressiva entre o sexo

masculino, na faixa etária

entre 29 e 40 anos e entre os

chefes de família -.esses in-

dependente do sexo", co-

menta Barelli. O economis-

12

Desemprego

MAMJJASONDJfM

Fonl«: V*o


QUINZENA

ta acredita que a alta na ta-

xa do desemprego seja um

reflexo do momento de ins-

tabilidade econômica que

vive o País. Barelll frisa

também que a reduçfio do

nível de ocupação se deu

pela primeira vez de forma

generalizada, "afetando,

em março, nío só o comér-

cio ( 1,1%) e serviços (•

0,4), como também a indús-

tria (-2,0%) e outros seto-

res (-1,2%)

Houve uma redução de 79

mil postos de trabalho, se-

gundo o diretor do DIEE-

SE, que lembra, também

que nos últimos seis meses

o rendimento médio da po-

pulação apresentou uma

queda de 17,5% e ura acrés-

cimo de 1,5% em relação ao

ano passado. "O mercado

contraiu-se em 11%, consi-

derando a renda da popula-

ção Isso significa que esta-

mos 11% mais pobres, re-

fletindo diretamente na

queda das vendas no co-

mércio", diz.

Apesar do quadro apre-

sentado por Barelli, ele se

mostra cauteloso em taxá-

lo de recessivo: "Não se

pode ainda admitir que o

desemprego seja um esbo-

ço da recessão. Por outro

lado. esse efeito será senti-

do daqui a alguns meses no

comércio e na indústria,

cora a redução brutal nas

vendas".

"GATILHO"

Barelli admitia que o

"gatilho" é um dos fatores

de perda salarial. "Pelo

critério adotado pelo go-

verno, o gatilho só é dispa-

rado quando a inflação acu-

mulada atingir 20%, e para

o disparo de dois, precisa-

se que a inflação acumula-

da chegue a 44%. Há seis

meses, por exemplo, o tra-

balhador perdeu 20%, ou

seja. um "gatilho".

Em artigo no dia 29/3 neste mesmo

espaço se afirmava que o processo de

ajuste que o Brasil precisa efetuar

implica uma contração no nível de

atividade interna. Em outras palavras,

a recuperação de superávits comerci-

ais, que no momento praticamente

inexistem, tomará necessário um ajuste

interno para conter o consumo e as

importações, além de uma alteração na

relação salário/câmbio para aumentar

a competitividade dos produtos brasilei-

ros de exportação, e reduzir a dos

importados

Com o intuito de evitar este doloroso

processo de ajustamento interno, o

Brasil declarou a suspensão do paga-

mento de parte dos juros devidos. O

, - - o mais

rapidamente possível o que fazer. "A

indefinição, no momento, é o pior dos

dois mundos

MAKOS enrniA ctv*i.c*Kn M AUuounou< «

doutor «fn Iconomlo paio IMtvOTildodo do Horvord,- cMo

do dopar


iodo) chegou praticamente a rero

durante os três últimos anos.

Em realidade, a suspensão dos paga-

mentos dos juros é uma forma de

financiamento compulsório que o Brasil

impôs a seus credores. O fluxo de renda

líquida do exterior não deixa de existir,

simplesmente o Brasil o confisca tem-

porariamente, transformaando-Cnum

fluxo de poupança externa forçada. ;

A questão é avaliar as conseqüências

desta polttica. No curto prazo, efetiva-

mente gera-se maior disponibilidade-de

recursos para financiar os investimen-

tos, e com isto mantém-se o crescimen-

to interno; gera-se poupança externa

compulsória, e evita-se o ajustamento

interno imprescindível para a obtenção

de superávits comerciais.com o exteri-

or. .,-.,

Cabe indagar, contudo, as conseqüên-

cias no crescimento futuro da economia.

Como seria irrealista imaginar que a

moratória será permanente, pois isto

implicaria a natural exclusão do Brasil

dos fluxos de comércio e de capitais

com o mundo desenvolvido, não há

como evitar, mais cedo ou mais tarde,

que o país se defronte com a necessida-

de de optar entre um ajustamento

interno ou então uma redução em 'sua

capacidade de crescimento de longo

prazo. A única saída para este dilem?

seria a improvável retomada do fluxo

de poupança externa via ingresso .de

novos capitais, que, contudo, elevaria.a

divida externa brasileira. Restaria ain-

da aumentar a taxa de poupança

interna, mas que dificilmente seria

suficiente para financiar o necessário

esforço de investimentos —que em 1978

chegou a 25,2% do PIB.

A moratória "brasileira é uma cortina

de fumaça. As verdadeiras dificuldades

ainda teráo de ser enfrentadas.

MAKCOS CIKTIA CAVAICAMTI M ALWOUnQM *

doutor p«lo Univ»oldocU d* Horvord, ch«4« do d«0arto»

mfito dm Ecoftomto do FGV/SP • comuHor do Çcooomte do

Folha. t

V.

■Pulses que participam do

sitisma de nolilicsção da

divida ao Banco Mundial

— Divida de longo prazo .

Oe "oiies o'iciai$

Oe 'onies privadas

-• Oivila de curto prazo „

.V»o de -rédito do FMIy

^-Outros países em

desenvolvimento

Divida de longo prazo .

Oe lontes oficiais

De lontes privadas

Olvida de curto prazo ....

Uso do crédito do FMI

ivtda externa Içtal «y? — Dados preliminares

tir. Estimativa

3 ir Projeção

-Fonte: Banco Mundial

A DIVIDA DOS PAÍSES EM DESENVOLVIMENTO

(fim USS RilhftRSl

1980 1881 1962 1983 J984. J

573

430

162

268

134

S

77

59

17

42

18

0

650

Os especialistas do Banco

Mundial prevêem que a dívi-

da externa dos países em de-

senvolvimento aumentará 4%

em 1987, chegando a US$ 1,08

trilhão. Trata-se de uma enor-

me cifra, que representará, se

as previsões se confirmarem,

o mesmo aumento percentual

do ano passado em relação a

1985. Ao final de 1986, os da-

dos disponíveis dò Banco

Mundial indicavam que a dí-

vida externa chegou a US$

.1,035 trilhão. O boletim do

Fundo Monetário Internacio-

nal, de 30 de março último, de

certa forma antecipou a posi-

çàQ-adotada pelo Comitê Inte-

rino do FMI nesta sexta-feira.

Q.DQletim, ao citar informe do

Banco Mundial sobre a quês-

.^áft.da dívida externa, adverte

^ara'»as dificuldades de solu-

;Çaí5'do problema, mesmo ten-

- ~ mmaumâ ASNMION/ K\$ ; u: ■ ~w\

P., ,.v^- ,

. {%WP1B)


1978 1979 1980 1981 1982 1983 1984 19M 1986

Consumo 76,0 79,8 79,6 79,1 79,4 80,7 78,0 78,5 80.0

Investimento Interno Bruto 25,2 22.1 22,5 21,2 21,2 16,9 16,4 16,3 16.4

Saldo em Conta Corrente

Excluídos Pogomentos de Fotores ■1,2 •1,9 •2,1 •0,3 -0,6 2,4 5.6 5,2 3,6

Poupança Nacional Bruto 21,8 17,6 17,3 16,9 15,5 13,6 16,3 16.1 15.4

Poupança Externo 3.4 4,5 5,2 4,3 5,7 3,3 0,1 0,2 1.0

Renda líquida do Exterior -2,2 •2,6 ■3,1 •4,0 -5,1 -5,7 •5,7 •5.4 ■4,6

Konle: Bac«n

GAZETA MECANTIL - 27.4.87

Superávit de

apenas US$

136 milhões

por Cecília Costa

do Rio

O saldo da balança co-

mercial no mês de março

ficou em US| 136 milhões,

registrando uma queda de

48% em relaçfio a feverei-

ro, que havia atingido US?

261 milhões. O valor total

das exportações, no último

666

494

179

315

158

15

83

58

II

40

24

1

749

739

551

197

354

167

20

86

60

20

40

25

1

825

mm

mmÊÊÉmÊmÊmmémmm

797

630

221

409

137

30

93

67

17

so

25

1

890

833

673

236

436

126

33

96

68

20

48

27

1

892

731

268

463

124

37

100

74

23

51

25

1

932

775

290

485

118

39

103

77

24

53

25

1

929 1.035 1.080

972

812

310

502

160

106

83

25

58

do em conta os esforços dos

países devedores para aplicar

estritos programas de ayuste

econômico (cita especifica-

mente a Argentina, a Bolívia

e o Brasil). Segundo o infor-

me, é necessário reforçar o

enfoque de que uma solução

duradoura do problema da di-

vida externa exige restabele-

cer primeiro o ritmo de cres-

cimento econômico dos países

devedores Se isto não ocorrer

na prática, os países em de-

senvolvimento correm o risco

de sofrer um retrocesso contí-

nuo. "Como conseqüência, po-

derão rompesse as relações

normais entre devedores e

credores, ocasionando prejuí-

zos de longa duração ao siste-

ma financeiro internacional e

à economia mi^ndial", diz o

Banco Mundial.

mês, foi de US$1.427 bilhão

e as Importações alcança-

ram US| 1,291 bilhão. No

primeiro trimestre do ano,-

o superávit comercial acu-

mulado registrou apenas

US* 526 milhões.

Na sexta-feira o superin-

tendente da Carteira de Co-

mércio Exterior (Cacex)

do Banco do Brasil, Rober-

to Fendt, disse que o gover-

no esperava que ás expor-

tações era março atingis-

sem pelo menos US$ 1,65 bi-

lhão, o que elevaria o saldo

acumulado no primeiro tri-

mestre de USI 600 milhões

a US$ 700 milhões,

Essas estimativas, no en-

tanto, não foram atingidas,

"porque março foi um mês

atípico, prejudicado pelos

feriados de carnaval, greve

dos marítimos e greve dos

0

25

03

O

B3

s

ü


QUINZENA

Balança Comercial

( s ocumu/odos «m 17

l — «m USS bí(híei)

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M / * t II / / é K S 1 í % i í 1 . i i *

font»: COC*K • C«nlro d* lAformO{ël do Goivlo

Utrconlil.

bancários. Em vez de vinte

dias úteis de exportações,

como costuma acontecer,

essas ocorrências fizeram

com que o mês ficasse ape-

nas com catorze dias úteis,

o que deteriorou o resulta-

do da balança comercial",

comentou.

Do lado das importações,

porém, Fendt acredita que

a contabilidade foi pratica-

mente normal, já que os de-

sembarques de mercado-

rias puderam ser realiza-

dos mesmo sem o paga-

mento de impostos, devido

à prorrogação no recolhi-

mento de emolumento»

permitida pçla Secretaria

da Receita Federal.

As exportações registra-

ram queda de 6,73% em re-

lação a fevereiro e de 33,8%

em comparação a março

.do ano passado. Mas houve

crescimento das importa-

ções de 26% em relação a

igual período do âno ante-

rior. Nas compras de petró-

leo o aumento foi de 73,4%.

A importação de petróleo

em março custou US$ 392

milhões; em março do ano

passado foi de apenas US$

236 milhões.

No primeiro trimestre

deste ano, as importações

foram 10% superiores a

Igual período do ano passa-

do, mas as exportações

acusaram queda de 27,6%.

A receita obtida com a ven-

da de produtos básicos caiu

38,59%. Essa queda não foi

maior devido ao café em

grão e ao minério de ferro.

As vendas de café cresce-

ram 31,75% c as de minério

de ferro, 28,18%.

Os produtos industriali-

zados registraram queda

de 22,02% no primeiro tri-

mestre. A participação dos

Industrializados no total de

exportações foi, porém;

bastante significativa, O

valor total das exportações

de janeiro a março alcan-

çou USI 4,2 bilhões, e os

manufaturados contri-

buíram com US| 2,9- bi-

lhões, ou seja, 70%.

Esse mau desempenho,

de acordo com Roberto

Fendt, não inviabiliza,- no

entanto, a meta de US| 8 bi-

lhões para o superávit-co-

mercial do exercício. De

abril a junho, o governe es-

pera que os saldos mensais

alcancem US| 400 milhões

- ^ >, x^w; ^^X'5KV>:->XWXOOXW>VV.Ví

ECONOMIA

e a partir de julho a previ-

são é de um salto para

US| 1 bilhão ao mês.

"Voltar a US| 1 bilhão

por mês", disse Fendt, "re-

presenta apenas retornari

normalidade. Para isso,

contamos com a comercia-

lização da safra agrícola,

de abril a setembro, com a

melhora de preços do ca-

cau e da soja e a atividade

regular da indústria. A es-

cassez de máquinas e com-

ponentes não é mais pro-

blema, pois, com a libera-

ção de preços, os produtos

voltaram i aparecer."

Relatório Reservado 26.4.87

GRUPO DE CONTADORA

Na Argentina, cada um por si e o FMI por todos

Âmbar de Barros

de Bariloche

Cada um por si e o FMI por todos.

Ou quase todos. Essa f oi a impressão

que ficou da reunião de chanceleres do

Grupo de Contadora e firuno de Apoio,

reunidos semana passada em Banloche,

Argentina. Se alguém esperava posição

firme ou apoio entusiasmado à decisão

brasileira de suspender o pagamento

dos juros da dívida externa decepcio-

nou-se: os chanceleres de oito paises da

América Latina, todos devedores em

maior ou menor escala, decidiram não

dar muita atenção ao assunto divida

externa.

A Argentina, por intermédio ae seu

chanceler, Dante Caputc, deixou claro

que o tema divida externa deveria ser

tratado "de pais para oais". A posição

dos devedores é compreensível México,

Argentina e Venezuela já conseguiram

seus acertos.

Os países reunidos, é verdade, de-

fendem uma nova orde^ econômica

mundial. São simpáticos à posição bra-

sileira, mas preferem manter postura

■ pouco agressiva, para ^áo estragar os

acordos até agora obtidos. Depois de

dizer sim ao FMI, Argentina e México

conseguiram rolar suSs dividas, obtive-

ram redução dos spreads e. o mais im-

portante, receberam dinheiro novo, alqo

•*\."

que o Brasil há muito tempo não conse-

gue. A Venezuela, mesmo sem acerto

com o FMI, conseguiu spread tão baixo

quanto o do México e está pagandd em

dia os juros de sua dívida.

Nada. Os temores dos bancos cre-

dores internacionais com a decreloção

da moratória brasileira se revelaram,

portanto, iníundacios. Eles achavam

possível o surgimento de uma bola de

neve na América Latina, com os deve-

dores em dificuldade deixando de pa-

gar, em bloco, aos ,iedores. Para impe-

dir uma avalanche de inadimplências, os

Estados Unidos, ciríivés de sua Secre-

taria do Tesouro e do Federal Reserve

Board (o Banco Central americano), de-

cidiram pressionar os bancos a apres-

sarem as negociações.

Depois de três dias 'ic reunião, o

primeiro dos qua.s destinado à discus-

são dos problemas da América Central,

nada houve de conclusivo no encontro

dos chanceleres. Nada de importante fi-

cou decidido. Em relação ã dívida, con-

cordaram que é preciso haver uma novn

ordem econômica internacional e foi

bem recebida a idéia de enviar ao Gru-

po de Veneza (composto pelos sete pai-

ses mais ricos do mundo) em junho, pur

intermédio do Grupo de Canagena, do-

cuiViento pedindo tratamento dileren-

ciado'aos paises devedores.


Um grande confronto comercial à vista

Um outro enorme déíícit na ba-

lança comercial norte-americana,

uma outra queda no dólar, um re-

pentino (im a euforia da Bolsa: esta

tem sido, assim, uma semana som-

bria para a economia mundial.

Olhando çm frente, é fácil imaginar

o pior. Os Estados Unidos declara-

ram guerra comercial ao Japão. En-

tão, com a administração Reagan

provocando os protecionistas, o

Congresso aumenta as tarifas contra

todos os paises cujo superávit no

balanço comercial com os Estados

Unidos é maior do que o sr. Lester

Thurow acha que deva ser. As víti-

mas retaliam, ou cpm tarifas pró-

prias, ou com restrições no fluxo de

capital para os Estados Unidos, ou

ainda com as duas medidas. As ta-

xas de juros norte-americanas salta-

ram bruscamente; os devedores

latino-americanos faltam com o pa-

gamento da dívida; o colapso que

está por vir é pelo menos tão

grande quanto o de 1980 a 1982.

Esta probabilidade, infelizmente,

não é apenas uma fantasia. Con-

tudo se um dia chegar a ser reali-

dade, a culpa recairá unicamente

sobre os governos das crês grandes

economias: Estados Unidos, Japão

e Alemanha Ocidental. Há um ano,

os três vêm tentando curar o equi-

valente econômico de uma dor de

cabeça. Mesmo agora, duas aspiri-

nas e um pouco de ar fresco ajuda-

riam. Mas os três governos, após

muita discussão, decidiram-se, em

veí disso, por uma cirurgia do

cérebro.

A economia mundial é muito

mais saudável hoje do que qualquer

um poderia esperar no começo

desta década. A inflação está baixa -

não para sempre, mas certamente,

por enquanto. Durante a década de

70, tinha-se embutido no compor-

tamento das pessoas em todo o lu-

gar. Quando veio a cura, teria de ser

dolorosa. Mas a retomada do cresci-

mento desde 1982 aconteceu sem o

implacável crescimento de pressão

inflacionária que acompanhou a re-

cuperação imperfeita de 1975-1978.

Senhor 24.4.87

Os erros cometidos por americanos,

alemães, a japoneses no acerto de suas

economias colocaram o mercado

mundial em pé de guerra. Uma forte

racessio já é quase inevitável

Lição desprezada

Com relação a isso, o preço do bar-

ril de petróleo está pela metade do

que era em seu pique. O mesmo

acontece com as taxas de juros. Pe-

tróleo caro, dinheiro caro - as ir-

mãs feias que arruinavam todas as

festas, agora escondem-se na cozi-

nha.

A recuperação de meados da dé-

cada de 70 guarda uma outra lição

para hoje. Apontava tão claramente

para uma recessão que quando esta

chegou em 1980 não pegou nin-

guém de surpresa. Uma recupera-

ção alimentada -por políticas üscais

e monetárias expansionistas, e com

a inflação alta o suficiente para ser

assustadora desde o começo, pode-

ria apenas terminar em lágrimas.

Na ocasião em que o sr. Paul

Volcker foi encarregado do Federal

Reserve dos Estados Unidos, em

1979 - anunciando novas metas

monetárias em conjunto com a

promessa de prender-se a elas -, as

demandas para tal mudança em

políticas há muito já eram familia-

res. Por analogia, as atuais tensões na

economia mundial também não

deveriam ser surpreendentes. Em

1984, era óbvio para todos, exceto

para o sr. Donald Regan, o ex-

secretário do Tesouro e chefe da

Casa Civil do presidente Reagan,

que o déficit orçamentário dos Es-

tados Unidos estava empurrando

para cima as taxas de juros, e por-

tanto o dólar. E ao mesmo tempo

sugando capital estratageiro que era

o correlativo do déficit crescente na

conta corrente dos Estados Unidos.

Nesta ocasião, como agora, os défi-

cits gêmeos dos Estados Unidos

eram a maior ameaça ao cresci-

mento sólido e a mercados estáveis.

Três anos mais tarde, com a maior

parte dos danos já causados, o Con-

gresso e a administração continuam

ignorando a cura óbvia - um déficit

orçamentário menor - etn favor

dos controles de importação que a

história e a inteligência do homem

mostram ser nocivos.

O crescimento está diminuindo

este ano porque a economia mun-

dial está lutando para adaptar-se

não apenas ao déficit externo dos

Estados Unidos mas também á

queda do ano passado no preço do

petróleo. Petróleo barato coita o

poder de compra dos exportadores

de petróleo, reduzindo brusca-

mente sua demanda para importa-

ções do resto do mundo. A maioria

dos economistas esperava que esta

queda na demanda mundial fosse

compensada rapidamente, porque

o petróleo barato traria inflação

mais baixa, portanto rendas reais

mais altas e gastos extras. Isto está

acontecendo, só que mais vagarosa-

mente do que pensavam.

Além de tudo veio a queda do

dólar desde o começo de 1985.

Como o petróleo barato, o dólar

também é bem-vindo, desde que o

mundo possa suportar os tempo-

rários mas ter iveis efeitos colate-

rais. Um dólar mais barato foi uma

pré-condição para os Estados Uni-

dos exportarem mais e importarem

menos, e assim para um padrão

mais equilibrado de comércio mun-

dial. Mas, a curto pra/o, este neces-

sário rcalinluniKiHo monetário esiá

maltratando os exportadores no Ja-

pão e na Alemanlia Ocidenial. Os

prognósticos em ambos os,países

estão prevendo crescimento abaixo

de 296 este ano. Se as coisas piora-

rem e escorregarem para uma re-

cessão, é bem provável que o déficit

na balança comercial dos Estados

Unidos se recuse a mover apesar

do valor do dólar, porque as im-

portações japonesas e alemãs dos

Estados Unidos cairão ainda mais

rapidamente do que suas exporta-

ções para os Estados Unidos. Se isso

acontecer, a força protecionista nos

Estados Unidos não poderia ser ces-

sada. ^


QUINZENA ECONOMIA

APERTO TRIBUTÁRIO

Valeria a pena evitar esse som-

brio icsultado mesmo que o preço

para alrança-lo fosse alto Mas é

baixn. Os países G3 (esqueça todos

os outros Gs) precisam apenas emi-

tir um comunicado de três senten-

ças: "A administração nortc-

amenrana afirma as metas de redu-

ção de déficit no Decreto Gramm-

Rudman-Hollings, e para este fim

apoiará um projeto de lei que in-

:rodu7. um imposto sobre a gasolina

que levantará US$ 15 bilhões nos

próximos 12 meses e US$25 bilhões

por ano a partir de então. O go-

verno da Alemanha Ocidental im-

plementara US$15 bilhões de suas

reformas tributárias planejadas este

ano, não em 1990. O governo do

Japão imediatamente cortará

USS10 bilhões da taxa básica de im-

posto de renda e gastará US$10 bi-

lhões em projetos de infra-estrutura

(detalhes no Anexo A)." Apenas

isso. O trabalho de dez minutos da-

ria aos mercados de câmbio o sinal

de que o crescimento se recuperará

e as brigas comerciais se acalmarão

nos atuais padrões de taxas

cambiais.

Outra fantasia? Apenas se os ho-

mens práticos subordinarem os firts

da política econômica aos meios.

Na maioria das circunstâncias, a

aversão do sr. Reagan ao aumento

de impostos é sensata: impostos

mais altos podem levar um Con-

gresso irresponsável a gastar mais.

Mas não neste caso. Sua disposição

de colocar o princípio de não au-

mentar os impostos para um lado

abriria a porta para que o déficit

orçamentário encolhesse mais rapi-

damente - não apenas porque ren-

das mais altas cortarão o déficit di-

retamente, mas também porque

essa retirada tática tiraria do Con-

gresso sua última desculpa de fazer

tão pouco para cortar os gastos. No

jogo político dos Estados Unidos,

os dois lados devem fazer sua parte.

E se o sr. Reagan pudesse solucio-

nar o problema tributário, ele au-

mentaria a pressão sobre os gover-

nos do Japão e da Alemanha Oci-

dental para mostrar uma certa flexi-

bilidade em troca.

Até agora, esses dois governos ar-

gumentaram que se tivessem de au-

mentar seus empréstimos antes de

os Estados Unidos cortarem seu dé-

ficit estariam meramente forçando a

pressão para cima nas taxas de juros

mundiais. Seu ponto de apego é seu

desejo - também algumas vezes sen-

sato - de diminuir seus déficits or-

çamentários. Mas nos dois países

os preços estão caindo e a demanda

nominal está crescendo muito mais

vagarosamente do que qualquer

dos dois governos planejara. As-

sim, uma poluída fiscal mais restrita

colide com estabilidade econômica.

É tão difícil assim ver o que vem

primeiro ?

Transição à deriva

FRANCISCO C. WEFFORT

Os peixes começam a apodrecer

pela cabeça. Com o Estado é a

mesma coisa. Igual com os

processos de transição —em especial

os que, como este que vivemos,

caminham num ritmo tão lepto que

quase se pode ter a impressão de que

simplesmente não se dirigem para

lugar nenhum. Em abril de 1987,

estamos mais ou menos como em

fevereiro de 1986, um pouco antes do

Cruzado 1. Isto é estamos de novo

com todos os sinais de desgoverno e

de falta de rumos no país. Na

verdade, estamos pior: primeiro

porque, no meio do caminho de

para cá o governo federai tentou

soluções que não deram certo e,

segundo porque desde o êxito inicial

do Cruzado até o seu fracasso final,

as lideranças e os partidos que se

dispunham a fazer oposição acaba-

ram tão perplexos quanto o próprio

governo e as forças que apoiam. As

perguntas mais elementares se tor-

nam obrigatórias O que está aconte-

cendo? O problema é apenas o

governo? È apenas o Estado? Ou é o

barco da transição para a democra-

cia que perde o rumo?

deres políticos —em particular

na área do PMDB sem dúvida o

partido que, até aqui, mais lucrou

com as esperanças do povo na

democracia--, têm falado de riscos

de golpes e de retrocesso. Eu creio

que estas duas palavras são inade-

quadas; no momento atual, elas

dizem muito e muito pouco. O

primeiro equívoco de quem fala da

possibilidacle de um retrocesso é o de

pressupor, no processo de transição,

uma ruptura que não houve Com a

autoridade que lhe confere a sua

proximidade com os militares, o

senador Jarbas Passarinho descar-

tava, há poucos dias, a hipótese de

- golpe, dizendo que a situação atual

pouco ou nada tem de parecido com a

de 1963. Tem razão. De outro ângulo e

com outra perspectiva, eu pergunto:

retrocesso em relação a qual avan-

ço? Em que momento os militares

terão sido tão apartados do poder que

necessitam voltar a ele através de

golpe de Estado? Diferentemente do

que pensam alguns, o governo da

Nova República não pratica nenhum

retrocesso quando, por exemplo,

convoca as Forças Armadas para

ocupar estações ferroviárias e refi-

narias ou para reprimir movimentos

populares. Este tipo de prática re-

pressiva —lamentável em todos os

FSP - 17.4.87

POLíTICA NACIONAU

sentidos, a começar para as próprias

Forças Armadas que jamais deveri-

am deixar-se submeter ao papel de

formas de reprassáo interna —é um

sinal, não de retrocesso, mas da

eficácia dos compromissos sobre os

auais se apoia a Nova República

desde a passagem de Figueiredo a

Tancrédo. Estr tipo de prática re-

pressiva é, em verdade, uma das

muitas caras da Nova República.

O risco maior nào é pelo menos

ainda não .o golpe nem o retrocesso.

O risco maior está em que a

transição que vinha caminhando de-

vagar, parou de vez.. O risco maior

está no imobilismo do governo e do

quadro político seja este visto pelo

lado das forças Cjue o sustentam, seja

pela das que se alinham na oposição,

tanto à direita quanto á esquerda. O

grande risco do momento não é o de

voltarmos para trás, mas o de

começarmos a apodrecer no mesmo

lugar, instalando-se um processo de

degenerescéncia no corpo político. Os

planos econômicos "milagrosos" do

governo federal naufragaram, a cre-

dibilidade política (não só econômi-

ca) do governo federal cai de modo

visível, a inflação voltou aos níveis

anteriores ao Cruzado 1 e, segundo

dizem alguns economistas, já esta-

mos entrando i;m uma recessão

econômica

Some-se a íSíL- i irustração, sem

dúvida generalizada, com as promes-

sas de reformas do governo federal, o

Ministério do Trabalho deu, nestes

poucos anos de Nova República,

tantas provas dt vontade de dialogar

quantas de sua incapacidade para

qualquer coisa além do diálogo,

como, por exemplo, seria promover

as reformas que assegurem o direito

de greve e que acabem com o

corporativismo que regula (desregu-

la) as relações sindicais e o mercado

de trabalho no pais. O ministro da

Reforma Agrária, Dante de Oliveira

—herdeiro do fracassado ministro

anterior e de todos os fracassos da

política brasileira nesta questão, os

quais vêm de pelo menos trinta anos

atrás— oferece a medida do seu

próprio fracasso guando vem a públi-

co para dizer que a Reforma Agrária

deverá tomar ainda uns dez ou vinte

anos. O ministro da Justiça, Paulo

Brossard, que se supunha devesse

estimular mudanças que suprimis-

sem o "entulho autoritário" (ou

aquilo que o próprio Brossard defi- ^

niu, quando estava na oposição, como "


^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^

■XV^VS^XV-í vi>;v >ixv>^:«; vi v wJisí

QUINZENA POLÍTICA NACIONAL

o "caos jurídico"), veste a imagem

de um xerife estilo "law and order"

para sustentar uma ordem jurídica

que, definitivamente, nunca alcançou

legitimidade se é que jamais existiu

como tal nestes últimos vinte e dois

anos.

Limito-me a alguns exemplos. Fa-

la-se, de novo, como em fevereiro de

1986, em reforma ministerial. O

primeiro alvo seria Dilson Funaro,

embora se tenha como certo aue

várias outras cabeças devam rolar

para criar espaços que permitam

uma reacomodação das forças que

apoiam o governo. Seria apenas isso?

Seria apenas uma dessas tempesta-

des ministeriais que ocorrem de

quando em quando na política brasi-

leira? Eu estaria disposto a acreditar

nesta hipótese (relativamente otimis-

ta) se os problemas estivessem

apenas do lado do governo. Eu seria

otimista se pudesse ver, por exemplo,

a efervecência dos grandes debates

em uma Constituinte funcionando ao

ritmo caloroso de uma participação

popular crescente e fazendo a todos a

acreditar nas lutas que conduzissem

à construção de uma nova ordem

democracia, a qual, por sua vez,

haveria de nos permitir "capear o

temporal" da crise econômica. A

perda de credibilidade seria, neste

caso, apenas do governo, talvez

também do Estado, deformado como

está pelos autoritarismos criados e

impostos pelo regime militar. Mas

não seria a crise do processo de uma

transição democrática mareada pelo

entusiasmo das lideranças e dos

partidos, cada qual com as suas

propostas e os seus projetos, visando,

no curso de debate público, definir

perspectivas para o país.

Lideranças? Onde andam as lide-

ranças? A imprensa (e o público)

deram muita (e, aliás, merecida)

atenção a um discurso recente do

senador Mário Covas. Observo, po-

rém, oue pelo menos uma das razões

de ioda essa atenção é alheia, até

certo ponto, às qualidades políticas

inegáveis do orador e do discurso.

Entre nós é táo arraigado o hábito de

ouvir líderes políticos falando de tudo

menos de perspectivas políticas para

o país que quando um deles começa a

esboçar a perspeçiya de um grande

debate, isso, por si só, constitui uma

novidade I Eu gostaria de saber, por

exemplo, porque Ulysses Guimarães

deveria ter-se deixado queimar tanto

com as disputas "presidenciais" em

que andou se metendo. E gostaria

que alguém esclarecesse o porquê de

uma figura política táo importante

deixar-se limitar —num momento

como este e depois de todas as

"presidências" que conquistou— a

um obscuro trabalho de articulador

de bastidores, entre tal ou qual

ministério e tal ou qual setor do

Congresso, quando tem todas as

condições políticas e intelectuais pa-

ra empenhar-se em um grande de-

bate público que ofereça perspectivas

csaícia para opaís.

Que maldição política é esta que

obriga ajgumas das melhores lide-

ranças a se tornarem figuras indis-

tintas de um cenário de sombras,

como costumam ser os bastidores do

governo e do Congresso, aos níveis

de, com a inegável legitimidade''que

possui, aparecerem à luz do diftjjom

as suas perspectivas para o país? Há

-32

algo de paradoxal na política brasi-

leira que leva homens de inegável

talento como, por exemplo, .Carlos

Chiarelli. Fernando Henrique Cardo-

so, Luiz Inácio Lula da Silva, Roberto

Freire, Marco Maciel, e Afif Domin-

gos, a se calarem ou a falarem táo

baixo que ninguém consegue ouvi-los,

exatamente no momento em que a

sua palavra, por si só, ajudaria a

clarear o ambiente. Eu misújr.Q, os

nomes (e as siglas) de prppó^ito,

para mostrar que o problema é^eral

e que tem aue ser enfrentado :fiçlos

nomes e pelos partidos que o ^aís

respeita.

Se o descrédito do governo da Nova

República é evidente, não será menos

evidente, para quem tenha 'um míni-

mo de sensibilidade, o descrédito, em

que se vai caindo a atividade política

em geral, a começar, lamentavel-

mente,pela Constituinte. É como se

as frustrações com a política cios

últimos anos tivessem escolhido um

só instante para.atacar, todas dè uma

vez, o. ânimo '-popular. ..Depojs da

frustração das diretas em UM,"da

frustração que acompanha a morte

de Tancredo em 1985, da frustrajáo

do Cruzado em 1986, da ff-ustração de

uma Constituinte que acabou'rhsufi-

ciente e precária para quase todos, 6

inegável a existência de um "clima

geral de descrença. A palavra apo

drecimento seria, talvez, um ppuco

dura para designar este estado- - de

coisas? Mas como definir o mal

cheiro que resulta da mistura .de

desencanto, de pessimismo e, em

alguns casos, de desespero que se vê

por aí? Se a transição brasileira teve,

algum dia, um rumo, ela o perdeu. O

barco está à deriv^. E se continuar-

mos por muito temp


de renegociação da divida externa

teve o objetivo de tirar de suaà mflos

a negociação. Murad preparava um

plano de estabilização, a ser anunci-

ado na Semana Santa, envolvendo

dívida externa, subsídios, juros, in-

flação etc. Z

Não se esperava nem ao níènos o

prazo dado por Sarney depois da

queda de Joáo Sayad do ministério do

Planejamento. Saiu o presidaotó. do

Banco Central, Fernáo Bracher,

dando lugar a Francisco Gros, e, com

a queda de Sayad, Punaro estava

sozinho, náo tinha concorrentes. Do

Palácio, a leitura desse fortalecimen-

to era de que, na verdade, não era

um fortalecimento.

igreja do Brasil

Balanço de um

ano -1986

José Oscar Beozzo

Escolhemos como enfoque deste

balanço a análise das relações da

Igreja Católica com a sociedade

civil, com o Estado, com suas questões

internas e com as outras igrejas, incluin-

do ai o campo ecumênico, o Ceiam e

Roma.

Igreja e sociedade civil

O envolvimento mais Importante foi

a participação decidida, ao lado de ou-

tras forças sociais em duas questões

capitais: a da reforma agrária e a da

Constituinte. A Campanha da Fraterni-

dade tendo por tema "Terra de Deus, ter-

ra dos homens" permitiu que a temáti-

ca da terra e da reforma agrária deixas-

se de ser uma espécie de departamen-

to confiado à luta incansável da CPT e

ganhasse, capilarmente, lá onde nâo foi

boicotada, a consciência e a vida do

corpo eclesial por Inteiro. A reação nâo

se fez esperar, indo da truculência da

UDR — "para cada fazenda invadida,

um padre morto" —, à crescente má von-

tade da grande imprensa e do governo

que culminaram com a destituição do

ministro da Reforma Agrária, Nelson Ri-

beiro, e os ácidos comentários do minis-

tro da Justiça. Paulo Brossard, contra

os bispos e a CNBB.

A violência no campo que custou a vi-

da de quase 300 lavradores, entre os

quais muitos dirigentes sindicais, de co-

munidades de base, agentes de pasto-

ral, foi exemplarmente tipificada no as-

sassinato do pe. Josimo Tavares, na re-

gião do Bico do Papagaio. De nada va-

leram as denúncias e õ pedido de prcJ-

teçáo à sua vida ameaçada, levados di-

retamente ao presidente da República,

por cinco bispos. Em muitos lugares, os

próprios agentes do Estado, policia, pre-

POLíTICA NACIONAL

Era a última carta, a ultirAa

chance para que a inflação entrasse

nos eixos. Mas a inflação continuou

crescendo; evidenciavam-se siriais

de recessão; os saldos comerciais

continuaram despencando; perdurou

o impasse com o sistema fintffKÍfeiro

internacional. Tudo isso serviu■ de

combustível para as tramas do Palá-

cio, que levaram, finalmente. Funaro

à demissão na sexta feira.

Tempo e Pre»ença - jan/fev 87 » »

feitos, vereadores D r omovem a violência

e acobertam os assassinos, com a com-

placência inclusive de autoridades es-

taduais, federais e até do Judiciário.

Os acamoados da fazenda Anonnl,

no Rio Grande do Sul, pelo seu grande

número, sua luta persistente, a longa ca-

minhada empreendida de lá até Porto

Alegre durante 28 dias, pelos acampa-

mentos na Assembléia Legislativa e no

Incra, provocaram profundo envolvimen-

to da Igreia do Rio brande do Sul na lu-

ta pela terra, aí apoiada de perto pelas

Igrejas Luterana, Metodista, Episcopal

e alicerçada num ecumenismo de base

cada vez mais amplo,

No terreno da Constituinte, a igreja

alinhou-se com a OAB, parte da Impren-

sa e dos partidos na luta pela Assem-

bléia Constituinte exclusiva e eleições

em separado. As duas teses foram der-

rotadas pela coincidência das eleições

com a de governadores e a transforma-

ção do Congresso normal em Congres-

so com poderes constituintes. Na as-

sembléia de abril, a CNBB aprovou, de-

pois de longa discussão preparatória

nas dioceses e em plenário, o documen-

to Por uma nova ordem constitucional.

Estimulou-se, por toda parte, a partici-

pação dos católicos, juntamente com

outros cristãos e o movimento popular,

na constituição de grupos de estudo, de

fóruns de debate e de encaminhamen-

to de propostas concretas para o futu-

ro debate const;*uinie O Conic procu-

rou ampliar o contato entre as Igrejas

cristãs na busca de ima linha comum

em torno das Questões fundamentais da

Constituinte.

Durante a camoaona eleitoral foram

elaboradas, pelas pastorais e, às vezes,

pelas próprias diocesps, listas com no-

mes de candidatos comprometidos com

as lutas populares e com suas reivindi-

cações no campo constitucional. Acer-

ca dos direitos dos povos indígenas, a

Igreja juntou-se ás poucas vozes — UNI.

Anal. Associação de Antropólogos —

na defesa da pauta de luta desses po-

^IMÉÍM

vos: reconhecimento de seus direitos

territoriais e demarcação de suas terras,

preservação da própria cultura, reconhe-

cimento e respeito ás suas organiza-

ções sociais e culturais.

Ainda no campo político, merece des-

taque o debate interno, a partir do tex-

to de Clodovis Bolf, Os cristãos e a

questão partidária que provocou uma

dezena de outros artigos amplamente

discutidos entre agentes de pastoral c

militantes.

Igreja e Estado

Um relacionamento complexo e, por

vezes, contraditório marcou o ano de

1986. O namoro com a Nova República

que levou ao desastrado episódio da

censura ao filme Je vous salue Marie,

ao apoio ao ministro Ribeiro, do Mirad,

ao aplauso ao presidente Sarney e à sua

equipe econômica pelo Plano Cruzado,

levou também a um contencioso em vá-

rias frentes;

— Denúncia da morosidade e da ina-

petêncla do poder político em implan-

tar a reforma agrária.

— Impotência quando não conivên-

cia do Estado na violência contra lavra- W


dores, oosseiros e trabalhadores sem i

terra.

— Manutenção de vetos à entrada de

missionários estrangeiros para determi-

nadas dioceses.

— Atritos com o Ministério da Justi-

ça que acusou a Igreja de interferência

e de querer controlar o Estado quando

cobrou deste os compromissos com a

reforma agrária, a defesa dos direitos

humanos e a lustlça social.

— Denúncia do projeto "Calha Nor-

te", saído dos porões do Conselho de

Segurança Nacional, sem passar pelo

Congresso e pela opinião pública, vio-

lando os preceitos constitucionais rela-

tivos às terras indígenas, militarizando

as áreas fronteiriças em prejuízo direto

de 70% oa população indígena da re-

gião amazônica que ali habita.

A viagem, em julho, do presidente

Sarney a Roma provocou reação irada

da grande Imprensa, capitaneada pela

revista Veja ("O cerco da igreja", de

09/07/86) e pelos jornais conservadores,

com artigos insultuosos contra a CNBB

e a Igreja em geral. Do Papa João Pau-

lo 2?, Sarney ouviu a frase: "A reforma

agrária nâo pode fracassar no Brasil. É

questão de justiça social". Das mãos do

secretário geral da CNBB, d. Luciano

Mendes de Almeida, o Papa recebeu,

pouco antes da visita de Sarney, o do-

cumento dos sem terra sobre os assas-

sinatos no campo e informações sobre

a Constituinte, a reforma agrária o a

questão dos vistos aos missionários.

A degringolada do Plano Cruzado e

o impasse econômico e social agrava-

do pelo retorno da inflação e risco de

recessão está levando a cúpula da Igre-

ja a uma posição mais crítica em rela-

ção ao governo

Igreja e questões internas

O acontecimento mais importante do

ano foi o 6? Encontro das CEBs, reali-

zado em Trindade (GO), com a presen-'

ça de 1.700 participantes entre delega-

dos de base, agentes de pastoral, asses-

sores, .convidados evangélicos, repre-

sentantes dos povos indígenas, irmãos

latino-americanos, observadores estran-

geiros e quase sessenta bispos. O en-

contro, com representantes de duzentas

dioceses, mostrou a extensão do enrai-

zamento das CEBs, o aprofundamento

do seu compromisso eclesial, mas tam-

bém social e político, e a emergência de

um modelo eclesial mais.fraterno, mais

popular e evangelizador. As celebrações

dos mártires da caminhada iluminou o

rastro de sangue e de sacrifício que

acompanha a construção das CEBs.

Esta dimensão dos mártires da cami-

nhada voltou a ser celebrada num gran-

de encontro, a 12 de outubro, em Ribei-

rão Bonito (MT), no décimo aniversário

do assassinato do pe. Penldo Burnier.

Os encontros de CEBs, suas celebra-

ções, as romarias da terra, o reconhe-

cimento do testemunho de fé e luta pe-

la justiça selada no sangue dos peque-

nos têm significado um reencontro pro-

fundo da Igreja mais oficial com as raí-

zes populares, propiciando uma nova

maneira de ser de toda a Igreja.

O 6? Encontro não foi coberto pela

grande imprensa, que abriu entretanto,

grande espaço para o artigo de d.

Amaury Castanho, criticando o encon-

tro e as CEBs. Internamente, centros de

documentação, revistas e jornais deram

excelente cobertura ao 6? Encontro

Intereclesial.

Cabe destacar, ainda no plano interno,

a realização da assembléia da CRB —

com a presença de seiscentos superio-

res maiores —, do primeiro encontro na-

cional de clero, da 1! Semana Nacional

de Catequese, com representantes de

30C mil catequlstas do país, e de toda

a movimentação dos leigos em função

do próximo Sinodo Talvez estejamos

diante de sinais precursores do surgi-

mento de outras instâncias de comuni-

dades, de movimentos leigos, de teólo-

gos, de padres que possam contraba-

lançar o peso, até agora preponderan-

te, do corpo episcopal na Igreja do

Brasil.

É alentador o ritmo das novas orde-

nações sacerdotais, mas preocupante

o rumo que vai tomando a formação sa-

cerdotal. Em Belo Horizonte, o arcebis-

po retirou os teólogos do curso da Uni-

versidade Católica para abrir um teolo-

gado seminarlstico; em Recife, o arce-

bispo retirou seus alunos do Iter e abriu

um seminário próprio, repetindo o que

já abontecera em Belém e no Rio de Ja-

neiro. Em Manna, os bispos da região

retiraram os estudantes do curso de fi-

losofia da universidade estadual em tro-

ca de um curso seminarístico. Na timi-

dez em assumir uma formação majs li-

gada à cultura e ao mundo popular, tan-

to operário como camponês, na ruptu-

ra com o mundo universitário, a Igreja

corre o risco de formar seus padres à

margem das Interpelações que brotam

do mundo do trabalho e das que vêrrvdo

mundo da ciência, da pesquisa e do ho-

Constituinte.

; "' ' ; : Si|Íii:;ÍÍ

POLíTICA NACIONAL

rizonte universitário.

A carta do Papa, datada de 9 de abril,

vinda ao finai de um ano e meio de visi-

tas acf limma dos bispos brasileiros a

Roma e do encontro de avaliação de

três dias (12 a 14 de março) da presidên-

cia da CNBB, presidentes dos regionais

e cardeais brasileiros com organismos

da Cúria Romana e com o próprio Papa,

entregue pelo cardeal Gantln na aber-

tura da 24* Assembléia da CNBB, pode

representar uma mudança importante

no relacionamento entre Roma e a Igre-

ja no Brasil. A carta foi precedida de um

gesto de boa vontade — a suspensão,

na Páscoa, do ano de silêncio obsequio-

so imposto ao teólogo Leonardo Boff —

e parece colocar um ponto final na ati-

tude, Senão de confronto, pelo menos

de suspeita, em relação à caminhada

pastoral da Igreja do Brasil Ela contém

uma palavra de estímulo à Teologia da

Libertação — "não só oportuna, mas

útil e necessária — e uma aprovação

da linha de trabalho seguida pela

CNBB, até então apontada por setores

conservadores como contrária à orien-

tação do Papa

Em que pese a palavra do Papa, per-

sistiram dificuldades em Roma no to-

cante, por exemplo, â coleção Teologia

e Libertação. Por isto, esta mudança de

atitude, que confortou e alegrou um

grande número de bispos, terá que ser

avaliada na oráMca, sobretudo na ques-

tão da nomeação de bispos. A sucessão

do cardeal da Bahia, recentemente fa-

lecido, será UTI teste importante.

Repetir-se-á ai a mesma estratégia usa-

da na sucessão de Brasília, Porto Ale-

gre, Recife e Goiânia, onde nomes co-

mo os de d. Ivo, presidente da CNBB, de

d. Luciano, secretário geral da entidade,

embora insistentemente citados, foram

preteridos em (avor de figuras de cone

mais conservaoof e mesmo apagadas

em relação à estatura de um d. Vicente

Scherer de um d. Helder Câmara ou de

um d. Fernando Gomes?

José Oscar Beozzo e padre, sociólogo è di-

retor do Centro Ecumênico de Serviços à

Evangelizaçáo e Educação Popular (Cesep).

A nossa força na constituinte está centra-

da em três pontos principais:

1 Na Organização massiva dos trabalhado-

res rurais e urbanos, pronros para mobili-

zarmos e pressionarmos os deputados e se-

nadores que farão a nova Constituição.

2 Nos deputados eleitos nas últimas elci-

ç0es e que defendem as propostas dos traba-

lhadores.

3 Nas nossas pr&postas concretas para fa-

zer com que elas se tornem leis.


Nflo podemos deixar só para os consti-

tuintes fazerem as leis, se queremos que a

nova Constituição garanta nossos direitos

temos que ajudar a escrevê-la.

Nesse folheto estão as principais propostas

tiradas nos congressos da Contag, CUT e

Movimento Sem Terra em relação a terra r

política agrícola.

Vamos discutir com todos os trabalhadores

na Base.

Vamos levá-las até Brasília e transformá-las

em leis.

propostas

Sobre a

desapropriação de terras

1. Que sejam desapropriados todos os latifúndios que exis-

tem no pais e que a indenização das terras seja feita em

vinte anos e de acordo com o valor da terra declarado pelo

proprietário para calcular o imposto rural.

2. Que os latifúndios que não comprovarem a sua proprie-

dade, ou que obtiveram a propriedade de forma ilícita,

expulsando posseiros ou adonando-se simplesmente, que se-

jam expropriados. Ou seja que não recebam indenização ne-

nhuma por sua propriedade. *

3. Que todos latifundiários que praticaram ou mandaram

cometer crimes de assassinato contra trabalhadores,

percam as terras, sem direito a indenização.

4. Expropriação de todas as terras das empresas multina-

cionais ou latifundiários estrangeiros, sem direito a in-

denização.

5. Desapropriação também de empresas rurais, nas regiões

que/fossem declaradas prioritárias para reforma agrá-

ria.

Sobre a distribuição de terras

6. Cada família de agricultor sem terra tem direito a rece-

ber uma quantia de terra equivalente a um módulo míni-

mo da reeião, para poder sobreviver e progredir

7 Que os assentamentos dos agricultores nas terras distri-

buídas, sejam coordenados pelos próprios agricultores,

cabendo ao estado dar todas as condições, sem interferir na

forma de organização e produção:que cada assentamento de-

cidir e quiser fazer. I

8 Os assentamentos de agricultores nas terras desapro-

priadas devem ser feitos nas regiões onde vivem os tra-

balhadores J.

9 As terras agricultáveis, que não são parques nem reser-

vas florestais, e que estão nas h mãos do governo federal,

estadual e de empresas públicas, sejam distribuídas aos agri-

cultores sem terra.

10. As terras redistribuídas nos projetos de reforma agrária.

não poderão ser vendidas pelos agricultores beneficiá-

rios, devendo se destinar à comunidade em caso de abando-

no

1 ]. Os pequenos agricultores que vivem atualmente na con-

dição de posseiros em terras públicas ou de latifundiá-

rios, são automaticamente proprietários de suas glebas sem,

poder no entanto vender ou especular.

Sobre a Titulação das terras

12 Que a titulação das terras seja apenas uma segurança

' para o trabalhador na terra e não objeto de especulação.

Em cada região os trabalhadores devem decidir que tipo de

documento preferem ter, se individual, coletivo, comunitá-

rio, etc... • Sobre a propriedade da terra

13 Criação do módulo máximo, que determine o tamanho

" máximo de terra que uma família ou uma empresa possa

ter. E o que sobrar seria desapropriado, (em alguns congres-

sos apareceu o tamanho máximo de 500 hectares', em outros

de 700 hectares).

mmmimmm

POLÍTICA NACIONAL

Sobre a exploração

do trabalho do Sem Terra

14 Proibição total de existir parceria, arrendamento ou

meação de terra em propriedades acima de 3 módulos

mínimos da região. Os parceiros, arrendatários, meeiros des-

sas áreas, se transformariam imediatamente em proprietá-

rios das glebas que trabalham, desapropriando-se o antigo

patrão.

15. No caso de parceria, arrendamento ou meação em terras

menores de 3 módulos mínimos, os arrendatários so-

mente poderão pagar até por cento da produção para

o proprietário da terra.

(Discutir o quanto por cento. Em alguns congressos aparece

25%, outros 10%)

Sobre a forma

de fazer a Reforma Agrária

16 Os trabalhadores rurais participarão com a maioria dos

' votos, em todas as instâncias decisórias do processo de

reforma agrária.

17. A Reforma agrária seria executada por um Ministério

' de reforma agrária, com orçamento suficiente e os re-

cursos humanos necessários, envolvendo todos os órgãos pú-

blicos afins, para qúe se implante BI medidas de reforma

agrária.

Sobre a

participação do Estado (Governo)

jg O governo federal estaria obrigado a aplicar no mínimo

' 5% de todo orçamento federal, e 5% os governos esta-

duais, dos orçamentos estaduais, para garantir os recursos

necessários para a REFORMA AGRÁRIA.

19 Deve ter na lei a possibilidade dos governos estaduais

também poderem desapropriar terras para fins de refor-

ma agrária.

Sobre a organização

da produção nas terras distribuídas

20. Os trabalhadores rurais terão total liberdade para de-

senvolverem as mais diversas formas associativas e coo-

perativas, para posse e uso da terra, para desenvolver a pro-

dução, o comércio, e as atividades comunitárias nos assenta-

mentos.

21. O estado deve garantir todos os serviços públicos, de fi-

nanciamento, assistência técnica, armazenagem, bem

como a infra-estrutura básica de estradas, saúde, e educa-

ção, em todas as áreas de assentamento.

Sobre a colonização

22. Fim do atual sistema de colonização. Ocupação das ter-

" ras de fronteira agrícola pelos uabalhadores da região e

respeitando as peculiaridade de cult ira, clima e solo da re-

gião.

23. Devolução para o estado de todas as terras entregues pa-

ra empresas e colonizadoras em áreas de fronteira agrí-

cola

Sobre a política agrícola

24 Reformulação total da política agrícola, criando estimu-

' los e prioridade para a produção de alimentos, fixando

preços justos, crédito rural conveniente e assistência técnica

adequada, com tecnologias adequadas aos assentamentos e à

pequena propriedade.

Sobre a preservação

das terras e do meio ambiente

25. Medidas que garantam a preservação das matas necessá-

rias e o reflorestamento necessários nas áreas de assen-

tamento.

26. Proibição da fabricação e comercialização de produtos

agrotóxicos e da difusão de tec lologias que afetem a

conservação dos solos e do meio ambiente.


■ \ -* r

0 MOVIMENTO FEMINISTA NO BRÁS

:H\/:.M : ^t^r-*

— s—

Trabalhistas

1922 Federação Brasileira pelo

Progresso Feminino, criada por

Bertha Lutz para dar amparo à

mulher trabalhadora e lular pelo

direito de volo.

1970 Movimento de Luta por Creches se

articula a nível nacional,

197? Mulheres operárias iniciam

manifestações contra o custo de

vida Surgem organizações de

moradores na periferia das

grandes capitais e em São Paulo é

fundado o Clube das Máes.

1973 Associação das Donas de Casa

(SP).

1976 Aumenta em 176,3% o índice de

sindicalizaçáo da mulher

brasileira.

1977 Mulheres metalúrgicas e da

indústria têxtil fazem greves por

equiparação de salários com os

homens.

1979 Surgem no Ceará os primeiros

movimentos feministas, Têm

caráter trabalhista e acadêmico.

1980 Açào da Mulher Trabalhista do

PDT e criação do Grupo

Associação de Mulheres do Mato

Grosso.

1982 Movimento Unitário de Mulheres do

Rio Grande do Sul.

1984 Conselho Estadual da Condição

Feminina desenvolve projetos

junto aos sindicatos da indústria de

transformação em São Paulo para

aperfeiçoar legislação trabalhista.

1985 Projeto "Pela Guarda e Proteção

das Crianças", do conselho

paulista, exige implantação de

creches em todos os locais de

trabalho,

1986 Em andamento "Projeto Coje" de

orientação jurídica à mulher

trabalhadora de São Paulo e

instituído pelo Centro de

Orientação Jurídica e

Encaminhamento à Mulher.

\JACA

FSP 29.4.B7

íí

r*t eU ^

UM/* ,,

^

Políticos

INVI"X'XVXS*íVX í

1927 Mulheres do Rio Grande do Norte

«fio as primeiras a conquistar

direito de voto,

1932 Com a nova Constituição Federal,

mulheres adquirem direito de

votar. O movimento feminista entra

em decadência até a década de 60

1964 Extinta Federação das Mulheres

Paulistas.

1968 Mulheres paulistas e cariocas

desenvolvem o Movimento

Nacional contra a Carestia

I 1972 Nas eleições municipais sessenta

mulheres são eleitas para

prefeituras

1974 Movimento Feminino pela Anistia

transfnrma-seem Movimento

Brasileiro pela Anistia, com

representantes em todos os

Estados brasileiros.

1975 No Encontro para o Diagnóstico da

Mulher Paulista nasce o Centro de

Desenvolvimento da Mulher

Brasileira (CDRM

1977 Comissão de mães em defesa dos

direitos humanos (SP)

1978 58 mulheres são eleitas para

prefeituras

1979 Frente de Mulheres Feministas

propõe alteração do Código Civil

Brasileiro, por entendê-lo

"machista".

1980 Instituída comissão de mulheres do

PT. Em São Paulo, é realizado o

fórum "A Mulher e a Política", no

Teatro Ruth Escobar.

1981 Ressurge a Federação das

Mulheres Paulistas para convocar

uma Assembléia Nacional

Constituinte.

1982 São eleitas 58 mulheres para a

Câmara dos Deputados, contra

quatro em 78 Para as Assembléias

I/Cgislativas, 27 mulheres se

elegeram e ainda 81 prefeitas.

Instituído o departamento feminino

do PMDB.

1984 Nücleo de Mulheres do PMDB de

Florianópolis (SC).

1986 Formada Coordenação de Mulheres

8 de Março, reunindo 27 entidades

feministas e militantes do PT, PCB

e PC do B

1987 (ordenação de Mulheres do

Estado de São Paulo se articula

para estudar propostas ao

Congresso constituinte e pedir

legalização do aborto.

> Cf

POLíTICA NACIONAL

\

Çveeo AI&

/

ST

Conquistas

1975 Ano Internacional da Mulher,

conforme resolução da

Organização das Nações Unidas

(ONU)

1976 Instituiria a Décaria da Mulher"

durante a Conferência Mundial do

Ano Internacional da Mulher, no

México em lunho

1978 Grupo uesta. ligado à Igreja

Tatólica RJ , e Grupo de Ação

ílésbico Feminista (SP)

1979 Ano de ebulição do movimento

feminista com o surgimento de

grupos ert, cjuase todos os Estados

As idéias gerais do movimento

'como igualdade de direitos com oj

homens; e a existência de

violências contra a mulher são

mais difundidas. Em São Paulo, ng

!• Congresso da Mulher Paulista,

surge a Frente de Mulheres

Feministas

1980 Tema violência sexual debatido

com intensidade Surge SOS

Mulher, inspirado no "Selí-Help"

de Boston í E U A) e o Centro de

Defesa dos Direitos da Mulher de

Belo Horizonte (MG)

1981 I o Encontro Nacional da Mulher

■ RJ) e 3° Congresso da Mulher

Paulista. Criação do Centro de

Informação da Mulher (CIM) em

SãO Paulo.

1983 Conselho Estadual da Condição

Feminina em São Paulo e Minas

Gerais Criados para elaborar

política e influenciar iniciativas

dos governos estaduais.

1984 Participação dos movimentos na

campanha pelas Diretas-Já e

apresentação ao Congresso

Nacional de um novo Estatuto da

Mulher a ser incorporado ao

Código Civil Brasileiro.

1985 Conselho Nacional de Defesa dos

Direitos da Mulher, presidido ptla

deputada federal Ruth Escobar, a

nível nacional, Criada.-em São

Paulo, a primeira delegacia

especializada na defesa da mulhet

1985 2' Encontro Latino-Americano é

realizado em Bertioga (litoral

norte de São Paulo), com mil

delegadas de países da América do

Sul e Europa.

1986 Cinco delegacias da mulher são

inauguradas nas regiões sul, oes(e

, norte e leste de Sfio Paulo; três nn

interior do Estado (nas cidades di

Limeira São José dos Campos e

Ribeirão Preto); e uma na Grande

Sfio Paulo em São Bernardo do

Campo

Existem cerca de 430 entidades

feministas no Brasil.


Com uma economia deteriorada, que se man-

tém à flor d'água pelo apoio que lhe dão os

Estados Unidos através dos organismos de fi-

nanciamento internacional - o que colocou nu

ma situaçlo difícil a política de neutralida-

de relativamente ao conflito centroamericano,

tanto mais que o governo não se mostra dis-

posto a buscar os caminhos que conduzam à

paz na Guatemala, - terminou o primeiro ano

de mandato do presidente Vinicio Cerezo.

Os democratas cristãos, ganhadores das

eleições e que guardam o controle total do

Congresso da República, iniciaram às apalpa-

delas uma administração que tinha que enfrer^

tar uma deterioração econômica crescente, de

acordo com o que assinalam as últimas infor-

mações da Comissão Econômica para a América

Latina (CEPAL) e o Banco Interamericano de

Desenvolvimento (BID).

Foi em março que Cerezo deu a conhecer o

programa de re-prdenação econômico-social,co

nhecido como "0 pacotão econômico" que, qua_n

to ao essencial, estava destinado a reduzir

o déficit fiscal e buscar uma possível re-

-unificação cambial.

É um programa monetarista, delineado sob

a direção do Fundo Monetário Internacional

(FMI), em vista de uma re-negociação da d_í

vida externa, calculada em uns 2,5 bilhões

de dólares.

Entre fricções e acordos com a iniciativa

privada, Cerezo chegou a um convênio que re-

duziu seu programa de 21 a 06 pontos, apoia-

dos em maio pelo Congresso. Esse programa re

presentou um aumento da situação de miséria

--da população, sendo que a inflação disparou

acima, de 5% ao mês, chegando no final de OJJ

tubro a "31%, contra os 15% previstos pelos

técnicos democrata-cristãos.

Por outro lado, os empresários continuam

a questionar o controle de divisas que Cere-

zo colocou em vigor a partir de agosto, atra

vés de uma supervisora. 0 plano é destinado

a controlar a fuga de divisas calculada em

cerca de 3 milhões de dólares nos últimos

seis anos, graças a manobras de sub e sobre-

-faturação. De acordo com o Decano da Facul-

dade de Economia da Universidade Nacional de

San Carlos, Edgar Portillo, com estes proce-

dimentos a iniciativa privada coloca fora do

país uns 300 milhões de dólares anualmente.

0 programa no seu conjunto, destinado a

conseguir uma estabilização ou, pelo menos,

colocar premissas para uma administração da

crise, se choca com obstáculos que, por um

lado, são gerados pela estrutura interna e,

por outro, são fruto da atual ordem econômi-

ca mundial.

Cerezo: entre a paz e a guerra

INTERNACIONAL

No primeiro caso, e que atua de maneira

imediata sobre a. população guatemalteca,o go

verno Cerezo nSo quebrou a resistência da

oligarquia tradicional, quanto ao que se re-

fere a uma busca de ampliação do mercado in-

terno, e optou, entre outras medidas, por um

plano de repartição de terras através de com

pras estatais, ainda mais conservador do que

o que foi implementado pela Agência Interna

cional de Desenvolvimento (AID) em El Salva-

dor .

Ao mesmo tempo, dois acontecimentos mun-

diais criaram incerteza na empresa privada e

rio governo. São eles: a queda dos preços do

café, que de 260 dólares passou a !44 por um

"quintal", o corte da quota açucareira por

parte dos Estados Unidos, o que provocará pa_

ra a Guatemala a perda de pelo menos 14. nú

Ihões de dólares. '•

Em conseqüência, o orçamento de Vinicio

Cerezo para 1987 terá de ser novamente fina_n

ciado através da dívida externa ou de um au-

mento nos impostos.

Para a população guatemalteca, a situação

econômica, além da inflação, se manifestada

permanência do índice de desemprego (42,5%),

queda dos salários reais, como conseqüência

da unificação cambial (o quetzal - moeda gua

telmateca - passou de um por um a 2,50 por

um com relação ao dólar) e na falta de servj_

ços médicos e educacionais.

Face a esta situação, registrou-se um ele

vado número de conflitos sociais e trabalhij.

tas, com um notável crescimento da organiza^

ção sindical e associativa através da luta

reivindicatória, e que alcançou o seu mais

alto nível no apelo de respeito à vida e re-

-aparição dos detidos desaparecidos que rea-

liza o Grupo de Apoio Mútuo (GAM).

Por sua vez, Cerezo renegociou a dívida

externa a curto prazo, contando com o apoio

norte-americano e o aval do FMI. Este aval,

indicado pelo Ministro da Economia Lizardo

Sosa como um exemplo de comportamento neces-

sário para ajudar países com problemas e de-

sajustes financeiros, reforça a dependência

econômica; do país e põe em dúvida qualquer

política independente que se projete.

Um exemplo desta dependência se expressa

na política de "neutralidade ativa", procU

mada por- Cerezo no início de seu governo. Ha

seado numa estratégia delineada pelo governo

militar de Oscar Mejía Victores, o mandatá-

rio democrata cristão viu como seus limites

se estreitam e as pressões norte-americanas

tornam o projeto permeável,

Esta política, a mais conhecida em nível

internacional, vem se deteriorando, com uma ^

^g^^ij?^?"-?^'' .,/,-., - -- ^vj. / : ,.-

.,Jv,c,>:.j>v


QUINZENA

clara aproximação do governo de Cerezo às po

sições da estratégia da administração Reagan

para a América Central.

Desde meados do ano passado, os grupos

contrarevolucionários nicaraguenses converte

ram a cidade Guatemala em sua capital polít_i^

ca. Nela se realizou a Assembléia Constitu-

tiva da União Nicaraguense Opositora (UNO).

Além do mais, constantemente aparecem carta

zes dessa facção nos meios locais e conheci-

dos representantes dos somozistas dão entre-

vistas coletivas, participam de painéis, me-

sas redondas e outras atividades políticas.

Nesse domínio, soube-se que em território

guatemalteco são treinados mercenários, con-

trolados pelo ultra-direitista Movimento de

Libertação Nacional (MLN). Este partido anun

ciou oficialmente que uns 8 mil "guatemalt£

cos" treinaram durante 9 meses, com o fim de

engrossar as fileiras dos "contras".

No começo de novembro, a revista norte-

-americana "Newsweek" publicou que na Guate

mala estavam se preparando as condições para

o treinamento de contra-revolucionários.

Por seu lado, o Partido Guatemalteco do

Trabalho (PGT), a 11 de novembro, acusou a

Mario Castejón (político que mantém relações

com os "contras") Carlos Rivers, ao MLN e a

membros do Comitê Coordenador de Câmaras e

Associações Agriéolas, Comerciais, Industriais

e Financeiras (CACIF) de apoiar política e

logisticamente os "contras".

0 PGT especificou que os empresários gua

temaltecos adquiriram um avião tipo DC-123,

com matrículas TGBI, que realiza operações

de abastecimento para os contra-revolucion£

rios que treinam nas fazendas do departamen-

to norte-oriental de Izabal. A denúncia

"acrescentava que a Agência Central de Inte

ligêntia (CIA) contratou oficiais do Exérci-

to Guatemalteco para o treinamento dos "con

trás".

ü

INTERNACIONAL

Duas semanas mais tarde, os Chefes do

Exército da Guatemala (Ministro da Defesa,

Chefe do Estado Maior e Porta-voz oficial)

foram convocados pelo Congresso da Repúbli-

ca, para que explicassem sua posição sobre

a política de neutralidade do presidente Ce-

rezo, que havia sido questionado através de

declarações públicas destes funcionários caj^

trenses.

Coincidentemente, as declarações contra a

política de neutralidade foram realizadas d_e

pois de visitas dos militares guatemaltecos

aos Estados Unidos e à sede do Comando Sul

do Panamá.

Outro elemento politico-militar que se so

ma a estes é a campanha empreendida pelo

Exército da Guatemala, para reativar o Cons£

lho de Defesa Centro-americano (CONDECA),que

historicamente tem sido um instrumento da po

lítica norte-americana para a região.

Nestas condições, cabe perguntar: até on

de Cerezo pode na realidade manter uma polí-

tica independente? Trata-;e apenas de um in£

trumento a mais da estratágia da administra-

ção Reagan para pressionar a Nicarágua e es-

treitar o curso político?

Esta política de neutralidade criou con

tradições entre diferentes setores econômi-

cos e políticos na Guatemala, já que exprime

os interesses dos comerciantes e dos indus-

triais, cujo mercado, e portanto suas fontes

de lucro, se encontram na América Central;ao

passo que outros dependem do mercado interna

cional e seus interesses, por isso mesmo, se

aproximam aos dos Estados Unidos.

Todos os elementos apontados inclinam a

balança para que o governo da Guatemala,opte

na América Central, por aceitar a solução nu

;-;-:-:'/:::v:;:;:::::;v/::>.;-;^X;ix

*vWtt^w:v;;:>o;::x>:í:i>'


QUINZENA

litar orquestrada por Washington, e que coui

cide com sua posição quanto à solução do con^

flito armado interno.

No contexto da luta armada existente na

Guatemala há mais de 20 anos, a Unidade Rev£

lucionária Nacional Guatemalteca (URNG), de£

de o início do governo Cerezo, assinalou que

não se oporia a nenhum plano do novo manda-

tário desde que este fosse dirigido para o

benefício do povo.

Desde o discurso do Comandante Pablo Mon-

santo, membro do comando Geral da URNG, du-

rante o 3? Congresso do Partido Comunista Cu^

bano em fevereiro passado, ficou claro que

os revolucionários guatemaltecos buscam ca

minhos para encontrar uma solução política à

situação engendrada por conta da intervenção

norte-americana em 1954 e custo social para

a população civil se traduz em mais de 100

mil pessoas assassinadas, 40 mil desapareci-

dos, 440 aldeias destruídas totalmente,milh£

res de refugiados em outros países, e um au-

mento da miséria, da ignorância, das doenças

e da opressão,"razões fundamentais da luta

revolucionária".

Neste sentido, tomando Cerezo"ao pé da le

tra" que, em várias cidades européias decla-

rou sua disposição de dialogar com os rebel-

des, o Comando Geral da URNG, dia 25 de outju

bro propôs ao governante fórmulas concretas

para o início de contatos que estariam destj^

nados a um diálogo político de alto nível.

A expectativa criada pela iniciativa da

URNG motivou diferentes comentar ios, e a maijD

ria dos políticos guatemaltecos se pronun-

ciou pela conveniência do diálogo. No mesmo

sentido, se pronunciaram distintos foros de

personalidades e intelectuais da Guatemala.

No entanto, Cerezo deu marcha a ré quanto

aos seus oferecimentos na Europa, e se negou

a abrir um processo cujo único resultado po-

deria ser encontrar fórmulas para um desejn

volvimento político pacífico.

Nesta situação (o diálogo com os rebeldes)

assim como em outras de importância nacio-

nal, é que se evidenciam as limitações do po

der de Cerezo, cujas iniciativas estão sujej^

tas aos ditames do Exército Guatemalteco,g£

rantia da continuidade da política de repre_£

são neste país centro-americano.

A recusa de Cerezo "é lamentável", disse

a URNG, ao afirmar que o primeiro mandatário

teve a oportunidade única na história de coji

verter o processo iniciado na Guatemala em

um caminho democrático. 0 fechamento da opção

pacífica, no entanto, não terminou, afirmam

os revolucionários, os quais, se de um lado

incrementam sua atividade militar, deixaram

abertas as portas para um diálogo com o go

verno democrata-cristão.

Em seu conjunto, o primeiro ano de Vini-

iv*i^*;£;& VíAí&U-í-MÍí' ::


GUATEMALA

Difíceis pespectivas para a repatriação

de refugiados

Distintos setores do governo estão toman-

do consciência que a repatriação dos refugia

dos guatemaltecos que se encontram no México,

enfrenta difíceis perspectivas, a tal ponto

que uma fonte de alto nível, declarou a

ACENSIAG que "não existem condições sociais,

econômicas, políticas nem militares para re

fugiados, com garantia de segurança da sua

sobrevivência".

Ainda que o programa já esteja em marcha,

a Comissão de Direitos Humanos do Congresso

receberá.representantes dos ministérios da

Defesa, Relações Exteriores e Desenvolvimen-

to, integrantes da Comissão Especial de"Ateii

ción" a Repatriados (CEAR) para um intercâm-

bio de informação de análise sobre o tema,

Ricardo Gómez, presidente do referido or-

ganismo legislativo e que convocou para ou-

tra reunião muitilateral, dia 24 quando -

disse ele - "Devemos tomar consciência da

gravidade das circunstâncias".

Tal gravidade ficou evidente faz poucos

dias, quando o ministro da Defesa, general

Héctor Gramajo, disse que o retorno dos refu

giados provocará problemas de infiltração, já

que "os marxistas os endoutrinaram sobre co-

mo atuar quando regressarem".

0 governo espera que, em 1987, voltem ao

país uns 17 mil refugiados. Dia 18 de março

p.p. regressou o maior grupo dos últimos três

meses, 351 pessoas, de um total de mil e 700

que foram repatriados, ainda que outros cin-

co mil tenham cruzado a fronteira segundo in

formou em Tuxtla Gutiérrez, o Coordenador Ge_

ral da Comissão Mexicana de Ajuda a Refugia-

dos (COMAR), Oscar González.

Nestes dias González, acompanhado de Jor-

ge Santisteban, representante da ACNUR e o

vice-ministro guatemalteco de Desenvolvimen^

to, Miguel Poo Huegen, além de corresponden-

tes estrangeiros acreditados no México, pre

senciaram um grupo de refugiados internar-se

em território guatemalteco, mas não às al-

deias modelo e sim às suas comunidades de

origem ou onde julgaram melhor.

Com respeito aos refugiados que decidiram

não retornar à Guatemala por falta de condj^

ções adequadas, o diário Prensa Libre (21.03

:-;.>>;:-::-:-:;-MV;-;>::::-:-:í

INTERNACIONAL

.87) informou que a Comunidade Econômica Eu-

ropéia (CEE) deseja impulsionar programas de

desenvolvimento para estas pessoas, se é que

pretendem radicar-se definitivamente no M£

xico. 0 oferecimento foi feito em Bruxelas

por Gerd Beinhardt e Mendel Goldstein, enca£

regado da Direção Geral de Relações Exterio-

res do organismo.

CURTAS.

Boletin ACEN-SIAG n. 81, 26.03.87

Depois de mais de quatro anos de exílio e

de cinco tentativas frustradas de voltar ao

país, o dirigente oposicionista Domingos Laj^

no, 51, retornou ontem ao Paraguai. Ao desem

barcar em Assunção, capital do país, Laino

fez um apelo ao diálogo com o governo do pre

sidente Alfredo Stroessner, há 33 anos no po

der.

C£ 4>

*

.V

\>

a? s?

4*

Domingos Laino é um dos políticos mais pj)

pulares do Paraguai. Sua ruptura com o regi-

me vigente no país ocorreu em 1977, quando

fundou o Partido Liberal Radical Autêntico -

- uma cisão do Partido Liberal Radical, que

presidiu em 1975.

Antes disso, porém, Laino chegou a parti-

cipar, em 1967, do chamado "Processo Stroes£

ner", que aparentemente liberalizava o regi-

me. Desiludido com a reduzida margem de man£

bra oferecida pelo governo, Laino passou a

ser, como dirigente do PLRA - partido não re

conhecido pelo regime -, um dos mais duros

críticos do presidente Stroessner.

Economista, casado e pai de quatro filhos,

Laino foi detido várias vezes, até ser expuj^

so do país, em 1982. 0 motivo que determinou

sua expulsão foi a publicação do livro "0 ge

neral comerciante", no qual ele compara Stro

essner com o ditador nicaraguense Anastasio

Somoza, assassinado em 1980 no Paraguai. Até

a noite de ontem, o governo paraguaio não in

formou se permitirá que Laino exerça ativid£

des políticas.

Folha de S. Paulo, 26.4.1987


mmmmmm mm

Senhor - 28.0^+ 8

O escudo da legitimidade

Com o apoio do povo que o levou ao poder, Alfonsín conseguiu

superar o primeiro tropeço da tenra democracia argentina

Niriando Beirào. do Buenos Aires

^7TK=ttr, ^*»\ finZ?

•MT] ®

r


ordo de uni Iidicóptero do Exér-

cito, ir cobrar pessoalmente dos 130

üikiais bem armados e bem ades-

trados que se rendessem.

A AJfonsin se rendei-am, após

uma conversarão que durou três

hoi-as, emboici tivessem se recusado,

ao longo das 100 penosas horas an-

teriores, a se renderem a quem mais

fosse - primeiro, a seu superior, o

coronel Luis Alberto Pedrazzini, até

então diretor da Escola de Infanta-

ria, e que foi destituído por Aldo

Rico, depois ao comandante do II

Corpo do Exército, baseado em

Rosário, general Ernesto Alais, que

os cercou com suas tropas c prome-

tia disparar, mas acabou hão dispa-

rando, em nome do conhecido

esprit de corps dos militares. Antes de

correr o risco de ir ao Campo de

Mayo, o presidente da República

rezou numa capela da residência

oficial de Olivos e falou á multidão

de 500 mil pessoas, na Plaza de

Mayo, ponto histórico das manifes-

tações portenhas. "Vou lá falar com

eles. Vocês me esperem aqui", pe-

diu Alfonsín à multidão que foi

enfrentar o desafio armado. Segundo

um graduado assessor do presi-'

dente, se Alibnsin não voltasse do

Campo de Mavo, a massa seria con-

vocada a ir buscá-lo pessoalmente.

Com os novos incidenics úv

terça-lcira, licou claro que a demo-

cracia argentina exigirá mais do que

nobres gestos de coragem pessoal

para se consolidar. De imediato,

venceu o presidente constitucional.

A situatão militar entrava gradati-

vamente nos eixos, no lím da se-

mana passada, após uma drástica

reestruturação de comandos que

atingiu os cinco Corpos do Exército

c caroneou 15 generais, transferidos

para a resen/a.( • )0 golpe não prospe -

rara e a mobilizado popuiar, em

torno da democracia, não só na

frente do Palácio, mas sobretudo a

que se deu, espontânea, em volta do

regimento rebelado, tudo isso mos-

tra que não será com uma aventura

pretoriana que a Argentina se sub-

meterá novamente à tutela militar,

que a desgraçou por 37 anos desde

1930 (contra 21 anos de vacilante

poder civil), numa cruel aritmética

que dá em 15 presidentes fardac' .

contra oito paisanos.

A médio prazo há o risco de que

possam perder Alfonsín, o pais, a

democracia - e que, talvez, vença a

(') Figuram mire os oficiou caroruados o chtje e o

íubcheft do Estado-Maior das Forças Armadas, os

lilulares de cinco Comandos Militares, bem como

comandantes de vários regimentos e brigadas im-

portantes do Exército trgentino

loucura dos xiitas hoje derrotados.

Nâo que a sucessão de episódios as-

segure a eles a expectativa de vma

futura conspiração que triunfe,, á

custa da democracia, mas ficou

claro que a chantagem das armas

ainda impera, funciona e ame-

dronta. Aos levantes de Gbrdoba,

Campo de Mayo, balta e Tucumán

se seguiam, na semana passada,

vánas indicações, atitudes enigmáti-

cas, meias palavras e gestos sim-

bólicos do poder constituído con-

lluindo, sempre, para a certeza de

que o governo Alfonsín se arrisca a

perder aquilo que o iázia diferente

das outras meias democracias do

Continente: a coragem de julgar e

.botar na cadeia os militares impli-

cados em crimes contra os cida-

dãos.

-caiioo-

t-L

Há alguns sintomas disso no ar,

além dos aviões de carreira. As três

horas que Allónsín passou, sem es-

colta nem acompanhantes, encer-

rado com os sediciosos, na tarde de

domingo de Páscoa, devem ter sido

consumidas em alguma coisa mais

séria do que a discussão sobre o

atual futebol jogado por Maradona,

•ia Itália. Tanto que, embora esteja

oficialmente detido, desde a rendi-

ção, estranhamente no próprio re-

gimento que dramaticamente co-

mandou por cinco dias,o ex-coro-

nel Rico - ex, em decorrência do

código de Disciplina Militar -

apresentou-se, de novo, para falar

com o presidente da Republica no

dia seguinte, em Olivos, tendo ob-

tido audiência c, ao sair, falado á

imprensa. Deferências concedidas

não exatamente a um traidor e sim

ao líder de alguma coisa mais con-

sistente.

Lembrando Perón

Quando se levantaram as guami-

cões de Salta e Tucumán, na terça-

feira, circulava pelos quartéis de

todo o país um documento apó-

crifo, atribuído ao grupo de Campo

de Mayo, dando conta de que Al-

lónsín acerta aquilo que ele, na-

quele mesmo momento, com vee-

mência, dizia aos chefes militares,

em Buenos Aires, não ter jamais

prometido. Tudo se resume a uma

traumatizante palavra: anistia. Aldo.

Rico a hasteou, nos seus manifestos

de rebelado. Os militares pressio-

nam, os políticos fraquejam. O go-

verno Alfonsín, o qual, três dias

após sua posse consagradora, a 13

de dezembro de 1983, anunciou

que não ficaria impune um único

crime da ditadura, já não parece fa-

zer disso um ponto de honra. Con-

veniência política dos arreglos lhe

aconselha ter 12 (como hoje), 20, no

máximo 50 bodes expiatórios para

pagar a culpa de toda a instituição

castrense. Isso talvez possa se nego-

ciar com os próprios militares.

"Terão de me cortar as mãos an-

tes que eu assine a anistia", disse o

presidente á multidão, num tom

evocativo que ficaria bem ao gene-

ral Perón - o qual, mesmo dizendo

que não assinaria muitas coisas,

acabava por assiná-las. "A anistia é

Impossível", repisava, na quarta-

feira, 22, o secretário da Justiça,

Ideler Tonelli. respondendo á subi-

ta pressa de alguns senadores e de-

putados, sobretudo peronistas, que

já acham melhor esquecer tudo o

que se passou na chamada "gueira

súcia" - e uma das coisas que se

■ 1» Corpo

de Exórcito

• lll» Corpo

de Exército

passaram loram 50 mil mortos c

desaparecidos. O tom dessa piessu-


QUINZENA

rosa subserviência foi dado pelo se-

nador Bravo Herrera, no Partido

Justicialista, que, pegando a estrada

das pressões faraadas, apresentou

projeto beneficiando a todos, até

mesmo aos nove chefes das três

Juntas de Governo do período do

proceso (1976-83), seis dos quais

cumprem penas de prisáo que vão

da reclusão perpétua (general Jorge

Videla, prontuário n' 2.456.573, e

almirante Emílio Masera, pron-

tuário n 9 2.555.263) a quatro anos

e meio (brigadeiro Orlando Agosti).

Ao todo, há 12 militares na pri-

são, na Argentina, pagando pelo

passado de violências, entfe eles três

ex-presidentes da República, na

curiosa companhia do lider guerri-

lheiro Mario Firmenich, capturado

Eela Lei de Reciprocidade, que foi

uscar também os do outro lado da

"guerra súcia". Na rebarba, o per-

dão, bc saísse agora, colheria o ge-

neral Ramon Camps, malfadado

chefe de polida de Buenos Aires, já

condenado a 25 anos e correndo o

risco de pegar muitos anos mais, e a

um bando de delinqüentes farda-

dos, notórios e indefensáveis, que

seqüestraram, torturaram e mata-

ram, produzindo uma guerra geno-

cida que a Argentina, na rua, faz

questão de não esquecer. Tipos

como o tenente Astiz, o capitão Al-

sina etc.

A "obediência devida"

A anistia, de fato, ampla ou nem

tanto, começa a se desenhar, apesar

dos protestos de Tonelli, o secre-

tário de Justiça, e de um elenco

ativo de organizações de defesa dos

direitos humanos. Pode ser que não

passe de um gesto político e transi-

tório de apaziguamento, mas estra-

nhas coincidências acontecem na

Argentina, desde a semana passada.

A Corte Suprema de Justiça, o STF

argentino, de gloriosa atuação por

ocasião de eljuicio, ou seja, o pro-

longado (três anos), Julgamento da

cúpula ditatorial, decidiu, na quar-

ta-feira, solicitar a todos os jui-

zes federais que suspendam, por dez

dias, as sessões de depoimento ou o

julgamento de militares, para que,

nesse período, se proceda a'um mi-

nucioso levantamento dos casos

pendentes. No mesmo dia, a Corte

Suprema ratificou decisão de um

tribunal inferior, cancelando as in-

vestigações criminais que diziam i^es-

peito á Esma - Escola de Mecânica

da Armada -, conheddíssimo mata-

douro de guerrilheiros e opositores

da ditadura. A suspensão das au-

diências paralisa, cm Buenos Aires,

0 caso Camps II, sempre em torno

do célebre chefe de polícia que tor-

turou pessoalmente mais de 1.000

pessoas, e, em Comodoro Rivada-

vía, Sul do país, adia o julgamento

do almirante Máximo Kelly, res-

ponsável pela Base Naval de Trelew,

em 1977, quando houve a chacina

de militantes do ERP - Exército Re-

volucionário do Povo. Há centenas

de depoimentos que esperam, por

hora.

Se. com isso. Alfonsín adia pro-

blemas, com a '"obediência devida"

pode prescrevê-los, aos mais peri-

gosos deles. Urdida pelo presidente

da Suprema Corte, José Severo Ca-

ballero, que costuma ser um inter-

locutor privilegiadíssimo do presi-

dente da República, inclusive nos

momentos de crises militares, como

se viu na semana passada, a artima-

nha consiste em reabilitar uma fi-

gura do Código Militar, segundo a

qual há casos em que culpas não po-

dem ser imputadas a subalternos,

por estarem cumprindo ordens su-

periores Não por acaso, seja entre

f)aisanos, seja entre homens de uni-

orme, a "obediência devida" é o

assunto do momento, na Argen-

tina». .

Muitos dos rebeldes de hoje fo-

ram combatentes das Malvinas, em

1982, e eles quiseram proposital-

mente simbolizar seu passado e sua

disposição bélica ao pintai os rostos

de preto, como conviria a uma ativa

brigada de Rombos subtropicais.

Corno Rombo no Vietnã, eles perde-

ram no Atlântico Sul, mas ostenta-

ram o estandarte de sua suposta va-

lentia - que consistiu, basicamente,

além de esperar pelos que viriam

atacá-los mas não atacariam jamais,

em virar uma potente metralhadora

em direção do povaréu que, sem es-

conder sua indignação e sem armas,

os xingava da porta da Escola de

Infantaria.

1 i( iio (U hahilidadt'

Mais do que a comportada mul-

údão da Plaza de Mayo, a Argentina

encontra, nessa imprevista turba-

malta, pretexto para acreditar no

futuro. Contra as armas de um pu-

nhado de amalucados chantagistas

a democracia treme - e não há ins-

tituições, sociedade civil, partidos

políticos, mobilização popular que,

a rigor, tenham forças para enfren-

tar tiros e bombas. Mas a multidão

reunida no domingo da Páscoa tal-

vez as enfrentasse Mostrou que ar-

■ risca a vida para mostrar que não

eme a chantagem. Se dependesse

INTERNACIONAL

dela, ia pegar los mdkos a unha.

Esses não são os planos do go-

verno Alfonsín Surpreendido pelos

levantes, quando apressava os pas-

sos de um grande acordo político

nacional, que incluía os militares

assim como os peronistas, rivais his-

tóricos, o presidente da República

jogou, com os recursos de cena re-

comendados pela emergência, sua ,

ambígua capacidade de mesclar ha-

bilidade com firmeza. O dr. Tan-

credo Neves choraria de inveja.

Aliás, o dr. Tancredo entra aqui no

momento exato da história: razoa-

velmente confortável, graças ao

acerto econômico interno (inllação

declinante, de 396 em abril, depois

de 8,5% cm março, c uma taxa

ainda mais confortável de 105,696

nos últimos 12 meses, o congela-

mento de preços e salários fun-

cionando relativamente bem, e Vim

crescimento econômico de 4,796 cm

86) e ao acerto externo (US$ 2 bi-

lhões de dinheiro novo, pelo

acordo recente com o FMI), Al-

fonsín anuncia a versão Argentina

da Nova República n Segunda Re-

pública, gigantesco arreglo nacional

que consubstancia uma democracia

moderna, (oniprometida com os

anseios de sua principal base dl"

apoio político a classe média.

O ministro do Trabalho, o pero-

nista Carlos Mdereie, está mais pró-

ximo do que se imagina de obicr

aquilo que Almir Pa/zianotto ja-

mais conseguiu no Brasil: um pacto

social para cstamai a inllação. Dia

\ 9 de maio, Allonsin vai anuiuiai

um novo salário mínimo, que signi-

ficará um aumento de 170 para 200

australes (de USS 250 para USS 300)

e um acréscimo geral de quase 2096.

Em seguida, vai lançar as bases de

uma reformulação constitucional

que introduzirá, progressivamente,

um sistema parlamentarista misto.

Para isso, precisa de um apoio polí-

tico amplo - tão amplo como o que

os rebeldes involuntariamente lhe

propiciaram, na crise das 100 horas,

ao reunir a unanimidade da Nação,

da direita civilizada do jornal Lu

Nacion ao Partido Comunista.

Sintomático que os operários es-

tivessem, no domingo de Páscoa,

na porta do quartel de Campo de

Mayo, xingando os sediciosos, e

não no comovente convescote na

porta do palácio presidencial. Os

pelcgos peronistas entraram na de-

mocracia de Alfonsín. Os miliiares

disciplinados, também. Os ope-

rários, ainda não. Seria pedir muito

para um pais da Amércia Latina,

mesmo sendo este pais a Argentina.

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