outra está pert - Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro

cpvsp.org.br

outra está pert - Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro

mAúâ

RURAL

Órgão Oficial da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de São Paulo - Agosto de 1980

PASSEATA DA VITÓRIA

A Primavera é nossa!

(outra está pert

E MAIS:

Assassinaram

outro dirigente!

Patrões se assustam

mas nada de aumento

Reunião fortalecerá

assalariado rural

Hospitais maltratam

trabalhadores rurais

Em Piracicaba, Bispo

denuncia hipocrisia

Passeatas, prj

nas bases, concentrações

firmeza para reclamar o

direito pisado. Tudo isso

valeu a pena para os possei-

ros da Fazenda Primavera

de Andradina, e também

para os posseiros da Fazen

da Santa Rita do Pontal, de

Teodoro Sampaio. Em

Julho a Primavera foi

desapropriada e os possei-

ros sairam na "passeata da

vitória", com enchadas e

cartazes, pelas ruqs da

cidade. A Santa Rita,

em Teodoro Sampaio, foi

declarada "área devoluta"

pelo Juiz de Mirante do

Paranapanema. (Veja na

última página). ~

O papa deixou uma

recomendação muito

séria ao governo

iPég. 3}

Com reforma agrária,

produção agrícola

até triplicaria!

Lorena Roberto

Se o Brasil repetisse o exemplo de Portugal e fizes-

se uma Reforma Agrária mais extensa, a produção

agrícola não se desorganizaria, mas, ao contrário, ela

dobraria, ou triplicaria, e até no mesmo ano! Foi isso

que o presidente da Associação Brasileira de Refor-

ma Agrária (ABRA), o Eng» Arg* Carlos Lorena,

mostrou aos deputados estaduais da Comissão de

Agricultura da Assembléia Legislativa, há pouco

tempo.

i Nessa ocasião, o presidente da FETAESP,' Rober-

to Toshio Horíguti, contrariou os deputados gover-

nistas, que apontaram os japoneses como exemplo de

solução. Disse Roberto que hoje "nem os japoneses,

com tradição milenar, agüentam mais essa política

do Governo" (PÂG. 4)|.


VERGONHOSO!

Ém Descalvado, mau

patrão provoca

suicídio de um

companheiro desesperado!

O Sindicato dos Traba-

lhadores Rurais de Descal-

vado tem um fato muito

triste e vergonhoso para

contar para nós.

A diretoria do Sindicato

tomou conhecimento do

fato no dia 29 de maio,

quando dona Maria de Oli-

veira Coral, esposa do com-

panheiro Pedro Ângelo

Coral, que trabalhou de

retireiro na Fazenda Pru-

dente do Morro, em Casa

Branca, durante 19 anos.

Dona Maria contou que o

companheiro precisou afas-

tar-se por 60 dias do serviço

por causa de uma doença na

cabeça. Quando acabou a

licença, ele voltou ao médi-

co, que deu alta, autorizan-

do a volta ao serviço.

Acontece que quando

Pedro voltou ao serviço, ao

invés de ser recebido com

satisfação pelo antigo

pjatrão, Milton Rodrigues,

ele foi recebido como

cachorro. O patrão, carran-

tudo, convidou Pedro para

conversar no escritório

onde obrigou o companhei-

ro a assinar uma carta de

abandono de emprego e deu

quinze dias para desocupar

a casa onde ele morava com

sua mulher e os 6 filhos, e

pediu a carteira de trabalho

para dar baixa.

Pedro ficou tão perturba-

do que nem se deu conta de

que a lei estava com ele e

que o patrão estava bem

errado. Ele saiu do escritó-

rio, totalmente desesperado

por ter sido mandado embo-

ra por justa causa. Ela ain-

da não se sentia bem de

saúde, pensou na mulher e

nos seis filhos para susten-

tar, ficou pensando na vida

e uma tristeza muito grande

tomou conta dele.

Então, cego de dor, o

companheiro Pedro jogou-

se num poço de quatorze

metros de profundidade,

morrendo afogado. Isso

aconteceu perto do Natal de

1978 (21 de dezembro }e ele

foi seputlado no dia 25, con-

forme cópia do atestado de

óbito, que o Presidente do

Sindicato, Benedito Simel,

mandou para nós. Ele

também mandou cópia da

declaração de "abandono

de emprego", onde quase

nem aparece a assinatura

de Pedro, enquanto que

aquela do patrão está capri-

chada.

O que é que merece um

patrão destes?

Dirigentes se

animam com a

experiência de criar

Núcleos Sindicais

Vários Sindicatos estão

começando a fazer um traba-

lho nos Bairros, visando estru-

turar com o tempo Núcleos

Sindicais, como forma de che-

ga mais facilmente até as bases

e tornarem-se mais representa-

tivos, envolvendo mais gente

em suas atividades.

Recebemos corespondéncia

dos Sindicatos de JUNQUEI-

RÓPOLIS E DE Presidente

Epitàcio. Pedimos aos outros

Sindicatos que também estão

iniciando esse trabalho para

que escrevam ao Realidade

Rural e contem como estão

fazendo o trabalho, quantos

Núcleos Sindicais já tem

implantados, como pensam

lear o trabalho para frente. De

quanto em quanta tempo os li-

deres vão se reunir no Sindica-

to para apresentar seus relatos

e buscar idéias dos companhei-

ros.

ENTUSIASMO

Segundo os dirigentes dos

dois Sindicatos, o trabalho por

enquanto é de preparação. O

Sindicato de Jmqueirópolis já

realizou 28 reuniões em seus

Bairros (até o dia em que nos

enviou sua carta): Toda a Dire-

toria participou do esforço e as

reuniões somaram ao todo.

mais ou menos 2.000 partici-

pantes. "Para nós valeu a pena

o trabalho" - disse o Presiden-

te, Paulo Silva.

Em Junqueirópoiis, até a

prefeitura colaborou com

caminhão para a mobilização

dos companheiros. Só houve

um mal estar na Fazenda Boa

Vontade, cujo administrador

demonstrou, por sinal, má von-

tade, impedindo que a reunião

lá fosse realizada na capela.

Isso até funcionou ao contrá-

rio: conseguiram uma sala na

escola e aí o pessoal da fazen-

da mandou bala nos salários

baixos, direitos trabalhistas

sonegados, etc.

Em Presidente Epitàcio, as

reuniões estão contando com

muito boa participação, segun-

do seu Presidente, Sebastião

tda Silva Mello. Ele está entu-

siasmado com a satisfação que

os dirigentes estão encontran-

do em falar com suas bases. O

Sindicato está tomando conhe-

cimento dos problemas com os

próprios trabalhadores. Logo

logo, tanto Junqueirópoiis

como Presidente Epitàcio

terão em seus Bairros instala-

dos os Núcleos Sindicais, com

a escolha dos lideres.

Pág. 2 REALIDADE RURAL - AGOSTO DE 1980

Senhores

Dirigentes:

pensem nas

perguntas

que esse

Grupo e

essa Comissão

vos fazem.

■}

0 Grupo Regional 1 (região de Fernandópolis) sugeriu

e a Comissão Estadual de Sindicalismo e Educação acatou

a sugestão, recomendando que os dirigentes sindicais de

todo o Estado pensem nas seguintes perguntas:

1 - Somos líderes ou apenas dirigentes?

2 - Até que ponto temos representação?

3 - Se temos representação, como a estamos exercen-

do?

4 - Nosso atendimento ao trabalhador rural é de gabinete

ou vamos até as bases (nos bairros)?

5 - Nossa atuação não estará longe daquela para a qual

fomos eleitos?

6 - Os trabalhadores rurais não estarão desacreditados

do movimento Sindical, por causa de nossa falta de interes-

se pelos problemas que mais os afligem?

7 - Se nós, os Dirigentes ou Lideres, não temos tempo

para as reuniões, como vamos exigir que os nossos compa-

nheiros compareçam às assembléias?

Assalariados rurais vão ter

encontro nacional em agosto!

Um fato de grande importância para

os trabalhadores rurais assalariados irá

acontecer em Pernambuco, de 13 a 18 de

agosto próximo. Será o ENCONTRO

SOBRE ASSALARIADOS.

Participarão representantes dos Esta-

dos onde existem maior concentração de

trabalhadores rurais assalariados: são o

Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Espí-

rito Santo, Minas Gerais, Bahia, Alagoas,

Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do

Norte.

Ao todo, serão 80 representantes. De

São Paulo, irão 12. O ENCONTRO será

realizado no Centro de Treinamento da

FETAPE, em Carpina, a 50 quilômetros

de Recife (capital de Pernambuco).

NOVAS DIRETORIAS

Durante o mês de julho deste ano,

tomaram posse novas Diretorias nos

Sindicatos de:

Oriente - dia 1' de julho - Diretoria

eleita: Cleodorico Soares da . Silva,

Antônio Guidoni e Santo Cardoso de Sá.

Barrinha - dia 27 de julho - Diretoria

eleita: José Albertini, Antônio Ferreira

de Souza e Lázaro Custódio de Morais.

Durante o mês de agosto estão pro-

gramadas posses nos Sindicatos de Ita-

poranga (3 de agosto) e Pinhal (18 de

agosto).

Realizar-se-ão eleições sindicais nos

seguintes Sindicatos:

ELEIÇÕES EM

SINDICATOS

POR QUE UM ENCONTRO DE

ASSALARIADOS?

O ENCONTRO é organizado pela

Confederação Nacional dos Trabalhado-

res na Agricultura (CONTAG) e o gue se

quer com ele é uma troca de experiências

sobre a organização, mobilização e apoio

dos trabalhadores rurais à luta dos assala-

riados. Além da troca de experiência

sobre como os assalariados estão organi-

zados, o ENCONTRO também pretende

fazer com que os dirigentes sindicais e

assessores de todos os 10 Estados estabe-

leçam pontos comuns de ação, para orga-

nizar melhor e facilitar a defesa cada vez

maior do suor dos assalariados e as neces-

sidades dç suas famílias, mantendo alta

nossa: luta pela Reforma Agrária.

Avaré - dias 15, 16 e 17 de agosto.

São José dos Campos - dias 22 e 23 de

agosto.

Franca - dias 23, 24 e 25 de agosto.

Olímpia - dias 30 e 31 de agosto.

Destacamos a notícia do Reconheci-

mento oficial do Sindicato dos Traba-

lhadores Rurais de Itapeva - Carta Sin-

dical assinada a 11 de julho e publicada

no Diário Oficial da União a 21 de julho

de 1980.

Parabéns às novas Diretorias e ao

recém reconhecido Sindicato.

DEPARTAMENTO DE

ORIENTAÇÃO SINDICAL

(DOS) - FETAESP

"A mulher deve participar e contribuir em Igualdade de

condições com o homem nos processos sociais, econômi-

cos e políticos de desenvolvimento rural e compartilhar

plenamente dos benefícios do melhoramento das condi-

ções de vida das Leas rurais".

(Conferência Mundial sobre Reforma Agrária e Desenvol-

vimento Rural/Julho de 1979/Roma. FAO - Organização

das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação).

(DO EDITOR)

Os aqjos do

Brasil estão

de férias •••

Abro o jornal, e o que vejo?

CASA POPULAR PARA O

TRABALHADOR VOLAN-

TE. Bonito. Mas eu pergunto:

"Prá morar na vila? Ou será

que vão financiar a Jari multi-

nacional, ou a Attala e

Abdalla, ou um latifundiário

qualquer para fazerem favelas

na roça com o nosso dinheiro?

Não seria melhor fazer de uma

vez por todas a Reforma Agrá-

ria, respeitando de um cidadão

brasileiro chamado trabalha-

dor rural?".

Na página seguinte do jor-

nal, e o que vejo? O Ministro

da Saúde ou outra personali-

dade do Governo falando de

PLANEJAMENTO FAMI-

LIAR. Aí eu penso: "Bom, ele

é do Governo, deve saber o

que diz". I Mas comento com

meus botões: "Família bem de

vida tem pouco filho. £ gente

estudada, gordinha, bonita.

Será que o povo brasileiro

pobre não saberia também

fazer seu planejamento fami-

liar se também tivesse estudo,

alimento, respeito humano?"

A eu pulo umas páginas e

vou na parte que fala de

dinheiro, de economia. Vejo

notícias de que INFLAÇÃO

JÁ PASSOU DOS 100%. Ao

lado, vejo empresários e gente

do Governo falando do

PROÃLCOOL, dizendo que é

"a saída para o Pais", etc.

Comento com meus botões, de

novo: "Diziam que sem voto

direto a inflação acabava e o

Brasil viraria o paraíso. Bom,

deve estar faltando anjo...

E os meus botões, saca-

nas, me cobram um palpite

sobre o PROÃLCOOL. Bem,

então eu penso, cá, prós meus

botões: "Dizem que gasolina e

álcool é prá automóvel. E os

•automóveis só beneficiam a

10% dos brasileiros. E o resto

dos brasileiros vai ter que

carregar esses 10%« nas cos-

tas? Será que só o empresário

e.õ Governo tem que ver com a

coisa?". Meus botões ficaram

contentes. Até comentaram:

"Desta vez, soltaram a vaca.

Ela tá indo direitinho pro bre-

jo, que tá com uma sede do

cão..."

Diretoria

RURAL

Roberto Toshio Horiguti

Presidente.

Francisco Benedito

Rocha

Secretário Geral.

Mário Vatanabe

1» Secretário

Emílio Bertuzzo

2» Secretário

Orlando Izaque Birrer

Tesoureiro Gera!

José Bento de Santi

I' Tesoureiro

Antônio David de Souza

2' Tesoureiro

Editor Responsável

José Carlos Salvagni (SJP

5177)

Relações Públicas

João Ferreira Neto

Rua Brigadeiro Tobias,

118, 36» andar - Conj,

3.607

CEP 01032 -

End. Telegráfico:

FETAESP

- Telefones: 228-983?

228-9353 - São Paulo -

AmOrtlka C«ui »í*. IMM

rmmtoÊupan. km. 114 . tum


O papa avisou: ou vêm

reformas, em paz, ou

virão revoluções,..

Com o beijo no asfalto do

aeroporto de Brasília, ao

chegar, no dia 30 de junho, o

Papa João Paulo II deixou o

Brasil em férias durante 12

dias.

Por uns momentos o sufo-

co ficou de lado e o povo vol-

tou a sorrir e a vibrar. Por

uns momentos, o Brasil vol-

tou a ser Brasil.

Em lugar do costumeiro

destaque nas emissoras de

rádio, TV e jornais às entre-

vistas de Ministros, infor-

mando que a inflação chega-

va a 100%, ou que iam con-

trolar novamente os salários,

ou que a gasolina subiria, ou

que o Proálcool havia feito

mais miliardários, ou então

que o Fundo Monetário

Internacional (FMI) estava

querendo administrar o Bra-

sil para garantir o pagamento

da nossa dívida externa; em

lugar disso, o povo ouvia a

voz cheia de vida e de espe-

rança do estrangeiro João

Paulo II, via nos jornais e

revistas fotos e manchetes,

mostrando as grandes multi-

dões vibrando com o Papa.

•SÃO PAULO SÃO

VOCÊS" TRABALHA-

DORES!

O povo brasileiro lavou a

alma nestes 12 dias (inclusive

os não-católicos e não-cren-

tes, segundo a imprensa).

Para quem, há mais de 16

anos, não sai à rua para

ouvir um candidato à Presi-

dência da República disputar

o voto direto e mostrando o

que pretende fazer, foi maior

ainda a tremenda alegria e

emoção de ver o Papa, de

vermelho e branco (uma

autoridade mundial) entrar

no Estádio do Morumbi, em

São Paulo, em carro aberto,

e dizer aos trabalhadores:

"São Paulo são vocês!"

Para nós, trabalhadores,

rurais, a emoção foi dupla,

pois, além do Morumbi, ele

falou para nós também em

Recife, na missa aos traba-

lhadores rurais, quando ele

disse: "Como irmão, quero

dizer-lhes, amados campone-

ses do Brasil, que vocês valem

muito!". Há quanto tempo

não ouvíamos dizer isso...

(E quem não queria estar

no lugar do presidente da

nossa CONTAG, José Fran-

cisco da Silva, quando, emo-

cionado, deu um chapéu de

palha de presente ao Papa,

durante a missa, como home-

nagem da nossa categoria?)

Foi um papa alegre, emo-

cionado, dono da cena, poe-

ta, pastor, diplomata e, natu-

ralmente, político. Muito

atento às necessidades e

sofrimentos do povo, tanto

que aos favelados do Vidigal,

no Rio deixou seu ane! de

Cardeal, que lhe foi dado

pelo falecido Papa Paulo VI.

E deixou também um recado

claríssimo: "A Igreja em todo

o mundo quer ser a Igreja dos

pobres. A Igreja era terras

brasileiras quer ser também a

Igreja dos pobres (...)".

E, nessa hora, aos ricos

perguntou: "Olhai um pouco

ao vosso redor! Não vos dói o

coração? Não sentis remorso

na consciência por causa da

vossa riqueza e da vossa abun-

dância?

Esse Papa muito frustrou

certos políticos de Brasília,

que estavam querendo ensi-

nar religião aos Bispos e

padres mais atentos aos

pobres...

QUE O BRASIL SEJA

UM BOM PAÍS PARA

SEU POVO. E PARA O

MUNDO DE AMANHÃ.

Por que o Papa ficou 12

dias no Brasil e não 3 ou 4

como tem acontecido? É

porque ele sabe a importân-

cia do Brasil no futuro do

mundo. Ele deixou isso bem

claro logo na chegada, quan-

do ele disse que sua visita,

em primeiro lugar, era um

sonho logamente acalentado.

Mas explicou que o outro

motivo era o fato de que "es-

te Pais, de imensa maioria

católica, traz evidentemente

em si uma visão peculiar no

mundo contemporâneo e no

concerto das Nações". E dei-

xou claro o que espera do

Brasil: "Em meio às ansieda-

des e incertezas, e, por que

não dize-lo?, aos sofrimentos e

agruras do presente pode à

gestar-se um País que ama-

(^ NOSSA POSIÇÃO J A Fetaesp completa 18 anos. Duros tempos.

PARABÉNS PARA NÓS!

A Federação dos Trabalhadores

na Agricultura do Estado de São

Paulo (FETAESP) completou no

dia 29 de julho, 18 anos de existên-

cia. Nessa data, em 1962, foi reali-

zada a Assembléia de sua Funda-

ção e em 17 de agosto de 1963, foi

reconhecida pelo Ministério do

Trabalho.

Muitas forças (e não apenas

quem fundou a FETAESP) contri-

buíram para que a nossa entidade

chegasse ao que é hoje, coorde-

nando 143 Sindicatos em todo o

Estado e preparando-se para

ampliar ainda mais sua área de

ação. Nos primeiros tempos, duros

tempos , muitas forças até se cho-

caram na disputa pela sindicaliza-

çâo dos trabalhadores rurais - eter-

nos abandonados. E quanta

incompreensão e perseguição não

houve!

nhã ofereça muito à grande

solidariedade internacional".

Quem mergulhar sua visão

no futuro, entende o que ele

quis dizer. Ou seja, nada de

querer construir um País

potência dominadora às cus-

tas do povo, mas sim, uma

nação nova, sem o ranço das

velhas nações, boa para seu

povo e boa para o mundo,

como ele mesmo explicou:

"Queria Deus - disse ele - que

essa perspectiva ajude o Bra-

sil a construir um convívio

exemplar, superando desequi-

líbrios e desigualdades, na jus-

tiça e na concórdia, cora luci-

dez e coragem, sem choques

nem rupturas. Este será certa-

mente um eminente serviço à

paz internacional e, portanto,

a humanidade".

O ser humano, (especial-

mente o pobre, indefeso) não

pode ser passado para trás

em nada, senão ele se torna

escravo. O ser humano tem

de ocupar seu justo lugar na

sociedade, tem o direito de

participar de tudo e de ser

levado em consideração em

primeiro lugar. Como disse o

Papa: "O homem não pode

tornar-se escravo das coisas,

das riquezas materiais , do

consumismo, dos sistemas eco-

nômicos, ou daquilo que ele

mesmo produz". (O capitalis-

mo selvagem do Brasil, que

cria o latifúndio, não é um

sistema econômico, que

escraviza?).

AOS GOVERNANTES:

FAÇAM REFORMAS

PROFUNDAS. COM

DECISÃO E CORAGEM!

O Papa falou a todos os

brasileiros. Falou, natural-

mente, aos religiosos. Mas

também aos trabalhadores

rurais (Recife), aos trabalha-

dores em geral (S. Paulo),

aos imigrantes, aos migran-

tes, aos índios (Manaus), aos

favelados, aos leprosos, aos

presos, à família. Mas tam-

bém falou aos diplomatas,

aos políticos, aos intelec-

tuais, aos "construtores de

uma sociedade pluralista".

E, como já vimos, ao Gover-

no. O que ele disse deu um

livro grosso. Mas a gente

pode resumir algumas coisas.

1) o bem comum da socieda-

de "será sempre o novo nome

da justiça", 2) "A economia

só será viável se for humana,

para o homem é pelo

homem"; 3) "O homem não

pode ser feito escravo de nin-

guém nem de nada"; 4) "A

sociedade que não é social-

Se o nosso sindicalismo pudes-

se continuar em plena atividade,

como antes de 1964, não teríamos

hoje essa imensidão de latifúndios,

esses milhares de mortos em con-

flitos de terras, esse Proálcool que

nos estrangulará (se continuar do

jeito que está). Estas multidões de

volantes seriam menores. A cons-

ciência política de nossos compa-

nheiros seria mais clara. A falta de

Democracia e de liberdade política

sempre prejudica os pequenos, os

mais fracos.

Com o Movimento de 1964, o

trabalho de sindicalização ficou

mais difícil e limitado, a educação

dos companheiros e suas famílias

diminuiu, a Reforma Agrária, ficou

no papel, os que eram ricos fica-

ram ainda mais ricos, as multina-

cionais encontraram o paraíso.

Hoje o sindicalismo está embala-

mente justa e não ambiciona

tornar-se tal, põe em perigo o

seu futuro. Pensai, pois, no

passado e olhai para o dia de

hoje, e projetai o futuro

melhor da vossa inteira socie-

dade!"

E deixou uma "batata

quente" para os governantes

que se dizem "cristãos" e

para quem tem poder de

influir nas decisões:

- Alguém que reflete sobre a

realidade da América Latina,

tal como se apresenta na hora

atual - disse o Papa - é levado

a concordar com a afirmação

de que a realização da Justiça

neste Continente está diante

de um claro dilema: ou se faz

através de reformas profundas

e corajosas, segundo princí-

pios que exprimem a suprema-

cia da dignidade humana, ou

se faz mas sem resultado dura-

douro a sem benefício para o

homem, disto estou convenci-

do - pelas torças da violência.

Cada um de vós deve sentir-se

interpelado por este dilema.

Cada um de vós deve fazer a

sua escolha nesta hora históri-

ca. Por isso, ele recomendou

em Brasília, aos responsáveis

pelo bem comum (os gover-

nantes), especialmente os

cristãos, "a empreenderem, a

tempo, essas reformas cora

decisão e coragem, com pru-

dência e eficiência, atendo-se

a critérios e princípios cris-

tãos, à justiça objetiva e a uma

autêntica ética social (...)".

Opinião de

Caboclo

Pois é, compadre, o

Sindicato é nosso!

Não é do Governo,

nem dos diretores.

Quem manda lá.

somos nós mesmos.

A tal de assembléia é

que dá a última palavra.

— E a diretoria, com-

padre?

— Ela executa o que

nós resolvemosi deve

estar atenta aos interes-

ses do trabalhador.

Mas a diretoria não é

o presidente: é um Tripé.

Lembra-se, compadre,

daquelas máquinas que

EM DEFESA DOS TRA-

BALHADORES RURAIS

E ÍNDIOS

Se há um lugar onde são

necessários "Reformas" esse

é o campo, onde muita

migração, muitos índios cuja

dignidade humana é pisada e

enormes contingentes de tra-

balhadores rurais.

Em favor dos índios, o

Papa chamou a atenção dos

governantes e poderes públi-

cos para que seja reconheci-

do de uma vez por todos seu

direito de habitar em paz e

serenidade a terra que hoje

eles ocupam desde a antigüi-

dade e sobre a qual eles têm

direitos que são violados). Os

índios, segundo o Papa,

devem sentir-se seguros de

não .serem desalojados de

onde vivem em benefício de

outros, seguros de que têm

um espaço onde sobrevirão

como seres humanos e povo.

João Paulo II, deslumbra-

do com as grandes distâncias

e a grande quantidade de

terras que há no Brasil, disse

em Recife aos trabalhadores

rurais, com endereço certo:

"Não basta efetivamente dis-

por de terras em abundância,

como sucede aqui no vosso

querido Brasil. É preciso uma

legislação justa em matéria

agrária para se poder dizer

que temos uma sociedade a

corresponder a vontade de

Deus, quanto à terra e às exi-

do de novo, preparado para lutas

§ue, certamente, serão vitoriosas.

, na comemoração simples dos

18 anos da FETAESP, nada mais

justo do que lembrar o sacrifício e o

idealismo de todos aqueles que

deram seu testemunho e um peda-

ço da sua vida pelo trabalhador

rural.

Nesse momento, não importa a

convicção política. Importa sim o

testemunho daqueles que soube-

ram dá-lo, com seu suor e seu san-

gue, até com o preço de suas

vidas, para que o sindicalismo che-

gasse ao que é.

Diante da grandeza do ideal que

nos anima, seja este um momento

de profunda alegria, uma renova-

ção do entusiasmo dos primeiros

tempos.

Parabéns para todos nós!

FETAESP

Presidencialismo

gências da dignidade da pessoa

humana, de todas as pessoas

que a habitam".

O Papa disse que o Con-

cho Vaticano II não admitia

que os trabalhadores rurais

fossem reduzidos a meros

"cidadãos de segunda

ordem". Disse que os traba-

lhadores rurais "desempe-

nhara ura papel de enorme

importância na sociedade bra-

sileira era nossos dias". Mas,

ao mesmo tempo lamentou

que "enfrentam situações par-

ticularmente dolorosas - de

marginalização, penúria,

subalimentação, insalubrida-

de, analfabetismo, inseguran-

ça".

João Paulo II disse que "a

terra foi posta por Deus à dis-

posição do homem", assina-

lando que "o próprio direito

de propriedade, era si mesmo,

legítimo, deve, numa visão

cristã do mundo, cumprir sua

função e observar sua finalida-

de social".

Assinalando que não é líci-

to que a terra, "dora de

Deus" sirva apenas a uma

minoria privilegiada, prejudi-

cando a maioria, o papa disse

que arrancar o homem "do

chão rural, empurrando-o

para o êxodo incerto em dire-

ção das grandes metrópoles ou

não assegurar os seus direitos

à legitima posse da terra é

desrespeitar seus direitos de'

homem e filho de Deus. É pro-

duzir um perigoso desequi-

líbrio na sociedade".

faziam fumaceira e tira-

vam retrato?

Ficavam elas sobre

um tripé; se faltasse uma

das pernas, a vaca iapro

brejo.

Assim, também, a

diretoria em que um só

manda, está na corda

bamba.

É como o "tomara

que caia" da comadre

Rosinha. Êta vestido

bom... Não sei porque

não cai. Eu gostava de

ver...

J.F.N.

Pág. 3


Os deputados oposicionistas

apoiaram a Reforma Agrária.

Mas os governistas não. Para

eles, somos números e não pes-

soas, cidadãos brasileiros. Pre-

ferem assistencialismo como

solução para os volantes. (Na

foto, Lorena, Roberto e Fran-

ciscolda esquerda para a direi-

ta). Roberto recusou o assis-

tencialismo e o paternalismo.

Fetaesp e Abra falam a

deputados estaduais

"Hoje nem os japoneses,

que trazem uma tradição mile-

nar (como disse o deputado)

estão resistindo mais a esta

política do Governo. O peque-

no produtor está ai, sendo

massacrado; bóias-frias mar-

ginalizados. Então urge uma

mudança, com a participação

de Vossas Excelências".

Essa foi a pronta resposta

que o presidente da Fetaesp,

Roberto Toshio Horiguti,

deu a um deputado estadual

governista (Edson Real), em

recente sessão especial da

Comissão de Agricultura da

Assembléia Legislativa, onde

a conversa foi sobre Refor-

ma Agrária. Nessa sessão, o

engenheiro agrônomo,

Carlos Lorena, presidente da

Associação Brasileira de

Reforma Agrária (ABRA)

também apresentou um

excelente pronunciamento,

em que mostrou que o Brasil

até duplicaria ou mais sua

produção no mesmo ano

com a Reforma Agrária.

P&r que o presidente da

Fetaesp falou dos japoneses?

Foi porque o deputado, que

mal conseguia disfarçar sua

posição contrária à Refor-

ma Agrária, havia dito que

nunca havia visto um homem

de origem japonesa pedir

esmola ou achar ruim a polí-

tica do Governo, ao contrá-

rio de outros paulistas em

bares do interior, que, segun-

do o deputado, ficam falando

mal da vida dos outros, falan-

do de tudo, menos procuran-

do fazer alguma coisa para

que o País saia deste estado

de dificuldades.

Mas o presidente da

Fetaesp também precisou ser

claro com um outro deputa-

do governista (Jairo Matos,

agrônomo), dizendo a ele

que "nós dispensamos a assis-

tência paternalistas em nome

da nossa categoria". Esse

deputado, que falou bem das

multinacionais, que elogiou

as técnicas apuradas dos lati-

fundiários, que confessou ter

ajudado multinacionais a

comprar terra no Brasil, esse

deputado havia dito que o

bóia-fira é um "pária da nos-

sa sociedade" (ralé) e ele

seria o mesmo se estivesse na

Angatuba espera ver

cartórios moralizados

"Um dia o povo e a Justiça serão um corpo único, e os valores

éticos, bem como a Lei, serão daqueles aue constróem com suas

mãos as nacionalidades". Esta foi parte aa curta mensagem que o

nosso Sindicato de Angatuba entregou no dia 26 de maio aos 14

juizes que foram à cidade para fazer uma investigação no cartório

a pedido dos trabalhadores rurais. Explica-se: o cartório facilitou

a falsificação de documentos que geraram uma grilagem mons-

truosa no município.

Agora os trabalhadores rurais, donos das terras mas ameaçados

pela grilagem vergonhosa, e o nosso Sindicato no município, estão

esperando com muita ansiedade que os Juizes divulguem oficial-

mente o resultado de suas investigações (correíçáo geral), para

que a vida deles possa retornar à tranqüilidade e cuidar com mais

atenção de suas lavouras.

Em suas ocasiões diferentes, no mése de julho o Secretário do

Sindicato, Oilson Donizetii Bertoli e depois o Presidente, Alcides

Bertoli e a advogada, Marta Alves, estiveram mi capital em busca

de uma resposta.

Os trabalhadores e a Diretoria rfo Sindicato querem que o pes-

soal envolvido no escândalo do cartório seja deftnitivantente afas-

tado e punido: também querem receber de volta a despesa feita

para se defenderem. Há mais suas reivindicações: que sejam puni-

dos também os funcionários dos cartórios de hapetininga e Itú,

que também Jlzeram parte da malandragem e o juiz Paraíba

Campos Filho, hoje em Ibitinga, que foi quem homolou o inventá-

rio falso que gerou a malandragem.

Esse juiz processou a companheira Marta Alves, advogada do

Sindicato, por causa de uma entrevista em que ela protestava con-

tra a corrupção no cartório de Angatuba.

Pág. 4 REALIDADE RURAL - AGOSTO DK 1980

indústria. E, na opinião dele,

é a pessoa em quem mais o

País precisa investir "como

urría proteção social".

FETAESP: A REFORMA

AGRÁRIA É A

ÜNICA SOLUÇÃO

VÁLIDA PORQUE VAI

À RAIZ DO MAL"

Nessa sessão, tanto o pre-

sidente da Fetaesp como o da

ABRA mostraram com fartu-

ra de dados e argumentos

que a Reforma Agrária deve

ser feita, para o bem do nos-

so homem do campo e do

próprio Brasil. E sem perda

de tempo. Estavam presentes

também o Secretário Geral

da Fetaesp, Francisco Bene-

dito Rocha, a socióloga,

Maria Conceição D'Incao

(que pesquisou e escreveu

um importantíssimo livro

sobre o bóia-fria), o compa-

nheiro Herber Reis, do

departamento jurídico da

Fetaesp, e o sociólogo Fran-

cisco José de Toledo, de

Marília.

Em seu pronunciamento, o

presidente da Fetaesp,

Roberto Toshio Horiguti, dis-

se aos deputados que em São

Paulo, particularmente, a

terra não está cumprindo sua

função social, porque está

cheio de latifúndios. Disse

Roberto que existem 15

milhões de hectares de lati-

fúndios em São Paulo e que

se fossem distribuídos

dariam para colocar na roça

500 mi! famílias de trabalha-

dores rurais, com 30 hectares

cada uma.

Por isso o Presidente da

Fetaesp assinalou aos deputa-

dos que "trata-se, antes de

mais nada, de fazer justiça.

Não queremos nada de nin-

guém: queremos aquilo que

sempre nos pertenceu e que,

sorrateiramente, nos foi sendo

tirado pelos gananciosos".

E ressaltou: "Queremos

terra, pois coragem e força

para trabalhar sempre tive-

mos".

O presidente da Fetaesp

advertiu os deputados que

nenhuma solução pode ser

melhor do que a Reforma

Agrária. Substituir a Refor-

ma Agrária por outras políti-

cas, na verdade, não passa de

uma "visão estrábica da reali-

dade rural". E por isso mes-

mo ele condenou a tentativa

de gente do Governo querer

trocar a Reforma Agrária

por-um Imposto Territorial

Rural um pouco maior para

os latifúndios mal apro-

veitados.

"A Reforma Agrária - disse

Roberto - é a única solução

válida, porque vai à raiz do

mal", fazendo produzir áreas

não aproveitadas dos latifún-

dios e dando trabalho aos

trabalhadores rurais desem-

pregados ou sub-emprega-

dos. Segundo o Presidente'

da Fetaesp, a Reforma Agrá-

ria será "o melhor e mais cur-

to caminho" também para

resolver o problema das

favelas nas cidades.que nada

mais são do que o resultado

da saída dos trabalhadores

rurais da terra.

LORENA AVISA: "A

REFORMA AGRÁRIA

NÃO RESOLVE TUDO.

MAS É O COMEÇO DE

TUDO"

O Presidente da Associa-

ção Brasileira de Reforma

Agrária (ABRA), o eng' agr*

Carlos Lorena, é um dos

maiores conhecedores da

política agrícola e agrária do

Brasil e foi um dos principais

responsáveis pelo Estatuto

da Terra, aprovado pelo

Governo e pelo Congresso

Nacional em 1964.

Lorena, em seu pronuncia-

mento, começou dizendo

que "o essencial para o início

do desenvolvimento do Bra-

sil é a solução do problema

"da posse da terra". E esclare-

ceu: "Não quer dizer que, fei-

ta uma Reforma Agrária,

estão solucionados todo sos

problemas do Brasil, mas

enquanto não houver o livre

acesso à posse da terra por

aquele que trabalha a terra e

que precisa da terra para pro-

duzir e viver, não resolveremos

nenhum dos problemas brasi-

leiros".

Lorena disse que não é

católico, não tem religião.

Mas está animadíssimo com

os Bispos: "Em nenhum

momento, nós, que há vinte

anos estamos envolvidos nesse

assunto, discutindo, debaten-

do, vimos uma força tão gran-

de, tão poderosa, tão organi-

zada como a Igreja Católica,

lutando ao lado do trabalhador

rural, pregando a Reforma

Agrária. Achamos que essa

força será decisiva".

O presidente da ABRA fez

questão de desmentir os

deputados governistas e

dizer que o trabalhador

volante ("bóia-fria") tem,

sim, condições, e muitas, de

se tornar um dono de terra e

fazê-la produzir:

— Ele não tem capacidade

para se tornar um operário

especializado na cidade, mas

no meio rural onde ele nas-

ceu, onde ele vive, onde ele

conhece, é o trabalhador rural

que está produzindo tudo o que

nós comemos.

E deu um puxão de orelhas

nos dois deputados governis-

tas:

— Dizer que ele é analfabe-

to, que ele não é capaz de pro-

duzir? - indagou Lorena: É

ele que está produzindo! O

patrão está jogando no Jockey

Club. Ele é que está trabalhan-

do e produzindo. Quando mui-

to recebendo uma pequena

orientação do patrão. Então,

a hora em que ele for dono da

terra, ele vai trabalhar muito

melhor no que é seu.

O Presidente da AB RA fez

também questão de garanti"

que o trabalhador volante

voltaria para a lavoura. Mas-

numa condição: como pro-

prietário da terra. Como

empregado ninguém quer.

Foi o que mostraram duas

pesquisas, uma do Sindicato

dos Trabalhadores Rurais de

Jacarezinho (PR) e outra de

Goiás. Do contrário, segun-

do Lorena, "preferem ficar

na cidade, onde estão um pou-

co mais perto do médico, da

assistência, da possibilidade

de trabalhar direito na cons-

trução civil e dar escolha para,

os filhos para estes irem para

frente".

EM PORTUGAL, A

PRODUÇÃO

DUPLICOU APÔS A

REFORMA AGRÁRIA

Lorena sabe o que está

acontecendo no mundo. E

uma das coisas que ele quis

deixar claro é que a Reforma

Agrária não desorganiza a

produção, ao contrário do

que diz o Governo. Até que

pelo contrário... Em Portu-

gal, por exemplo, logo depois

da Revolução de 1974, a pro-

dução nas regiões onde foi

realizada a Reforma Agrária

duplicou e mesmo triplicou,

no mesmo ano! E o uso de

máquinas até triplicou!

E por que a Reforma

Agrária é necessária? Um

dos motivos é porque

enquanto em 1970 metade

dos proprietários rurais do

Brasil era dono de apenas

2,9% da área total das pro-

priedades, enquanto que

apenas 1% dos proprietá-

rios era dono de 42,7% da

área total. Em 1975 essa

metade dos proprietários já

tinha perdido tanta terra que

era dona de apenas 1,4% do

total, enquanto queos ricões,

do outro lado, aumentavam

sua terra para 44,6%! Ou

seja, em 1970 eram precisas

746 pequenas propriedades

dos 50% para fazer um gran-

de. Em 1975já eram necessá-

rias 1.154!

Só para dar uma idéia: as

propriedades até 100 hecta-

res produziram em 1970, 58%

do total agrícola, tendo 32%

das terras, enquanto que as

propriedades com mais de

100 hectares produziram

apenas 42%, com 68% das

terras!

PARA QUE O BRASIL

SER UMA GRANDE

POTÊNCIA, COM O

POVO FAMINTO?

Á exceção dos dois depu-

tados governistas, os demais

deputados (que assistiram a

sessão foram favoráveis à

FETAESP e ABRA, desde o

presidente da Comissão de

Agricultura, Franco Baru-

selli (que organizou a ses-

são), aos deputados Rubens

Lara, Mauro Bragatto e

Doreto Campanari (PMDB e

PT).

Para Franco Baruselli, é

preciso acabar com este

modelo econômico, porque

senão a dívida externa conti-

nuará a aumentar e a agricul-

tura não vai alimentar o nos-

so povo. O importante mes-

mo é "não fazer do Pais uma

grande potência, mas fazer um

pais de gente que pode viver,

que tem condições de viver".

Para Mauro Bragato, dis-

cutir Reforma Agrária na

Assembléia foi quebra um

tabu na casa dos deputados

estaduais. Era como que

"um assunto proibido". Na

opinião dele, "o povo, o tra-

balhador rural, o agricultor, o

lavrador, só terão condições

de garantia de produção, etc.

quando tivermos um Governo

democrático que respeite as

aspirações dessas massas

populares que estão na zona

rural e passe inclusive, a enca-

rar o problema do latifúndio

como um problema sério, um

proble,a inclusive, de seguran-

ça nacional".

'O deputado Doreto Cam-

panari, que é médico, falou

sobre os problemas de saúde,

disse que tem 10 mlhões de

subnutridos no Brasil, falou

da miséria, da pobreza e do

pouco caso do Governo. E

disse que "o homem tem que

voltar para a zona rural e tem

que existir a Reforma Agrá-

ria. Se o Governo não quiser

por bem, isso vai ser por mal,

porque não terá outra saída".

Alias, ele acha que a Refor-

ma Agrária tem de ser feita

não so no Brasil, como tam-

bém na América Latina na

Ásia e na África, enfim no

Terceiro mundo.


GRUPO REGIONAL 10

QUER UMA SOLUÇÃO

Trabalhadores denunciam

relaxamento em hospitais

Gente é gente, animal é

animal. Mesmo o animal

merece ser bem tratado.

Mas, por incrível que

pareça, tem hospital que

não concorda. Na região de

Presidente Prudente (como

em outras regiões do Esta-

do) há um hospital que

poderia colocar na portaria

uma tabuleta assim: "açou-

gue de gente".

É o Hospital São Sebas-

tião, de Presidente Pruden-

te. Não sabemos se as coisas

melhoraram por lá agora.

Mas no dia 15 de julho, na

histórica reunião que hou-

ve entre os provedores de

hospitais da região, traba-

lhadores rurais, dirigentes

sindicais do GRUPO

REGIONAL 10 e o

INAMPS, (Jorge Narciso),

esse Hospital foi denuncia-

do com freqüência. E casos

de arrepiar.

A ESPOSA DE JOÃO

XAVIER FOI OPERADA

TRÊS VEZES,

COMO ANIMAL. E

POR NADA!

Coisa feia!

João Xavier da Silva, tra-

balhador rural de Pirapòzi-

nho, contou a dolorida his-

tória de sua esposa, que foi

operada três vezes, por

nada.

"Ela chora como criança

quando lembra o que

sofreu" - disse João.

Depois da primeira opera-

ção, ela foi mandada para

casa, antes do tempo. Pre-

cisou voltar ao hospital e

ser operada de novo. E em

vez de anestesia geral, o

médico fez local, que não

teve efeito. Mas isso não foi

problema para os médicos:

fizeram a operação do mes-

mo jeito, chamando mais

funcionários para ajudar a

segurar a mulher: "Todo o

hospital escutou os gritos

dela" - disse João Xavier.

De novo, foi mandada

para casa antes do temPo.

Como da primeira vez, ela

precisou voltarde novo ao

hospital, porque havia

piorado. Os médicos disse-

ram que era para fazer

anestesia local. Ela, então,

pulou da mesa da opera-

ção, lembrando das dores

da operação anterior. E dis-

se que não aceitava mais

sofrer daquele jeito, que

não era animal, era gente.

Foi feita a operação,

com anestesia geral. E um

médico queria que ela fosse

levada para casa, ainda sob

efeito da anestesia! Como

da primeira e segunda vez,

a operação não adiantou e

ela precisou retornar ao

hospital. Os médicos,

então, recomendaram que

ela fosse a um neurologista.

Os filhos discordaram e

preferiram levá-la a um mé-

dico particular. Esse médi-

co disse que as operações

que foram feitas "não se

fazem nem em animal". O

médico deu remédios. As

três operações não adianta-

ram nada! (João teve de

pagar exames complemen-

tares, etc), no Hospital São

Sebastião).

Da reunião participaram os companheiros José Bento De

Santi e José Antônio Pancotti, resnectivamente, Diretor e

Assessor jurídico da Fetaesp. Jorge Narciso, chefe da equipe

de assistência médica aos trabalhadores rurais, do INAMPS

em S. Paulo, ouviu os Sindicatos pela manhã.

UM CASO NA

JUSTIÇA CONTRA

O HOSPITAL

O presidente do Sindica-

to dos Trabalhadores

Rurais de Presidente Pru-

dente, Valdemar Nodaelli,

fez uma longa exposição,

na parte da manhã (na reu-

nião entre o INAMPS, os

dirigentes e alguns traba-

lhadores), em que justificou

a preocupação dos dirigen-

tes com a assistência, por-

que Presidente Prudente

recebe companheiros tra-

balhadores rurais do Norte

do Paraná e do Mato Gros-

so para serem medicados. E

tudo cai em cima do Sindi-

cato.

Valdemar, entre os tan-

tos casos, informou que há

um processo na Justiça, em

São Paulo, contra o Hospi-

tal S. Sebastião. Um caso

em que, segundo ele, estava

previsto um parto difícil. O

marido pediu toda a atenção

aos médicos, mas a mulher

ficou três dias sofrendo e

acabou perdendo a criança.

Neuza Milani, esposa de

Amídio Milani (do Conse-

lho Fiscal do Sindicato),

contou que seu marido

ficou internado quando

aquela mulher estava inter-

nada. Neuza acompanhava

o marido e ouviu a mulher

chorar a noite toda. Segun-

do ela, não há atendimento

durante a noite. O leite, da

manhã, estava azedo, a

comida estragada. Seu

marido deixou o hospital,

porque foi queixar-se do

tratamento com um médico

e este disse, que o atenderia,

se pagasse.

DENUNCIAS

CONTRA OUTROS

HOSPITAIS

Muitas outras denúncias

foram feitas por trabalha-

dores e dirigentes sindicais,

mostrando uma certa pre-

venção que existe contra os

trabalhadores rurais - como

se ser trabalhador rural não

fosse uma profissão tão dig-

na como as outras.

O companheiro Braz

Albertini, Presidente do

STR de Regente Feijó,

reclamou da Santa Casa de

Presidente Prudente, que

barra os trabalhadores na

portaria, mandando-os de

volta sem atendimento.

Também reclamou que a

Santa Casa não faz "cirur-

gias elitivas".

E o companheiro Odair

Vitor, Presidente do STR

de Palmital, denunciou um

abuso que foi cometido

contra" um companheiro

aposentado, que recebeu

conta de Cr$ 18.000,00 por

uma operação de emergência,

sem discriminação de

despesas. Odair mostrou as

notas a Jorge Narciso, do

INAMPS.

OS HOSPITAIS SE

DEFENDEM,

QUEIXANDO-SE

DO INAMPS

A Santa Casa de Presi-

dente Prudente defendeu-

se, dizendo que faz cirur-

gias "elitivas", explicando

que está com sobrecarga de

serviço, com .lotação de

20% acima da capacidade,

porque é muito procurada

em razão de seus serviços

especializados.

Seu representante disse

que a Santa Casa está

sofrendo um prejuízo enor-

me, por causa do atendi-

mento em convênios com o

Inamps e ex-Funrural. Dis-

se que desconhecia o não

atendimento na portaria.

Já o representante da

Santa Casa de Presidente

Venceslau disse que a enti-

dade atende 1.500 pessoas

por mês, em média, uma

população pobre. Disse

que há "uma certa confu-

são entre previdência social

e assistência social". O

INPS inicialmente visava a

Presidência, mas depois

envolveu-se com a assistên-

cia. E os hospitais estão

sendo de certa forma chan-

tageados pelo INPS e pelo

Funrural pela forma que

nos pagam".

O representante previu

a "derrocada" dos hospi-

tais, caso o Funrural não se

organize; reclamou uma

série de medidas, entre as

quais a identificação do tra-

balhador rural ("para aca-

bar com o comércio parale-

lo de guias"); um critério

mais definido para as porta-

rias do INAMPS e Funru-

ral, porque as normas

atuais são instáveis; estabe-

lecer claramente qual o

hospital que deve atender

em caráter regional; e,

finalmente, reajuste mais

freqüente, acompanhando

os índices inflacionários,

porque "os hospitais estão

se descapitalizando, em

razão de que o custo do lei-

to hospitalar é absurdo".

E uma guerra! Mataram

mais um dirigente nosso!

Elementos ainda não

identificados, assassinaram

no dia 20 de julho, às oito

horas da noite, o Presiden-

te do Sindicato dos Traba-

lhadores Rurais de Brasi-

léia (ACRE), Wilson

Pinheiro de Souza, na Sede

dó Sindicato.

O assassinato do com-

panheiro Wilson ocorreu

28 dias depois que o Secre-

tário municipal de Xapuri,

o latifundiário seringalista

Guilherme Lopes, disse

numa reunião da Sudhevea

(Superintendência para o

Desenvolvimento da

Borracha), que os conflitos

de terra existentes no Acre

só poderiam ser resolvidos

de uma maneira: "matando

o Presidente do Sindicato

dos Trabalhadores Rurais,

o Delegado da CONTAG,

e os padres" que, segundo

o latifundiário, "vêm insti-

gando os seringueiros", ou

seja, os trabalhadores

rurais posseiros que culti-

vam a borracha.

O cúmulo s.do absurdo,

segundo a denúncia da

Delegacia da CONTAG no

Acre, é que o latifundiário

foi imediatamente apoiado

pelo seringalista Lamberto

Ribeiro e outros, que esta-

vam presentes à reunião. E,

como se não bastasse, o dis-

curso do latifundiário Gui-

lherme Lopes foi transmiti-

do pela Rádio Seis de

Agosto.

CONTAG, FETAESP,

ABRA, CPT E Cl MI

EXIGEM AÇÃO

ENÉRGICA E EXEM-

PLAR DO GOVERNO.

Segundo a imprensa, cer-

ca de 1.500 trabalhadores

rurais e outras personalida-

des estiveram presentes ao

enterro do companheiro;

entre eles, o presidente da

CONTAG, José Francisco

da Silva; o presidente cas-

sado do Sindicato dos

Metalúrgicos de São Ber-

nardo, Luis Inácio da Silva

(Lula), hoje presidente do

Partido dos Trabalhadores

(ao qual o companheiro

Wilson estava vinculado);

Jocó Bittar, presidente do

Sindicato dos Petroleiros

de Campinas (e Secretário

do PT), além do Delegado

da CONTAG no Acre, o

companheiro João Maía

Filho, também ameaçado

de morte.

O assassinato foi recebi-

do com muita consternação

e revolta, tanto pela nossa

Confederação Nacional

dos Trabalhadores na Agri-

cultura (CONTAG) como

pela FETAESP, pela

Comissão de Pastoral da

Terra (CPT), Conselho

Indigenista Missionário

(CIMI) e Associação Brasi-

leira de Reforma Agrária

(ABRA).

A CONTAG ao comuni-

car à nação a morte do

companheiro, lamentando

o crime, disse que, além de

uma vida humana, o assas-

sinato também representa

"um atentato contra o sin-

dicalismo e atinge toda a

classe rural".

E o Delegado da CON-

TAG no Acre, o compa-

nheiro João Maía Filho

(paulista) enviou dois dias

depois do assassinato, uma

carta ao Presidente Figuei-

redo, afirmando que a mor-

te de Wilson faz parte de

"um plano organizado por

certo grupo de fazendeiros

do Acre para eliminar diri-

gentes sindicais e agentes

pastorais da Igreja". Além

disso, informou que pedirá

o enquadramento na Lei de

Segurança Naciohnal de

alguns fazendeiros e a

CONTAG vai pedir a desa-

propriação de vários serin-

gais, onde, há anos, ocor-

rem conflitos.

FETAESP; "ESSA

LADAINHA DE

VIOLÊNCIAS PRECI-

SA ACABAR"

Informada pela CON-

TAG, a FETAESP distri-

buiu nota à imprensa,

denunciando e deplorando

o bárbaro assassinato e soli-

darizando-se com a família

do companheiro e os asso-

ciados do Sindicato. Na

nota, a FETAESP também

advertia o Governo de que

"a imediata identificação

dos autores do assassinato e

sua rigorosa punição é,

antes de tudo, de interesse

do próprio Governo - se

quiser manter a credibilida-

de e, ao mesmo tempo, a

tranqüilidade na região

amazônica".

- A morte do compa-

nheiro Wilson e de vários

outros dirigentes sindicais

do campo (dizia na nota a

FETAESP) é conseqüên-

cia direta da não realização

da Reforma Agrária, pre-

vista no Estatuto da Terra

há 16 anos. É o que aguça

os conflitos agrários, propi-

ciando a constituição de

enormes latifúndios - que

forem a cidadania dos tra-

balhadores rurais - e dá

ensejo à livre ação dos

grileiros.

Conheça os novos preços mínimos

e veja se seu trabalho compensa

JVO dia 23 de julho o Governo

divulgava os novos preços mí-

nimos (80/81), e parece que o

Governo anda mesrno preocu-

pado com a falta de comida,

uma vez que parece estar

querendo estimular maior

plantio de alimentos. Aliás, é a

falta de comida que vem fazen-

do a inflação namorar com os

100% ao ano.

So isso vai ajudar o Brasil

a ter mais comida?

VEJA ESTE

LEVANTAMENTO

DE PRESIDENTE

PRUDENTE

O companheiro Luis

Kako, diretor tesoureiro do

STR de Presidente Prudente,

(e técnico agrícola) enviou

ao Realidade Rural levanta-

mento preciosíssimo do cus-

to de produção (safra 79/80),

relativo ao amendoim, algo-

dão, milho e feijão (safra 80).

Pena não podermos mos-

trar todos os detalhes do

levatamento. O amendoim

das águas, para o arrendatá-

rio, que rendem 163 sacas de

25 quilos, o levantamento

aponta uma despesa de CrS

53.788,75. Na venda, ao pre-

ço mínimo de CrS 210,00 (a

partir de janeiro), o produtor

obteve CrS 34.230,00. Resul-

tado: um prejuízo de CrS

19.558,75, sem contar os 30%

de recompensa a que o tra-

balhador rural produtor tem

direito segundo o Estatuto da

Terra. Para o amendoim da

seca, cuja produção foi de

135 sacas por alqueire, o

OS PREÇOS MÍNIMOS

Produtos Quantidade 1979/80 1980/81 Variação

real(%)

SOJA 60 KG 315,00 660,00 5,2

MILHO 60 KG 185,40 474,00 28,3

FEIJÃO 60 KG 612,00 1.800.00 47,7

ALGODÃO 15 KG 201,90 475,20 18,2

ARROZ 60 KG 320,00 720,00 13,0

AMENDOIM 25 KG 180,00 325,00 -9,4

MAMONA 60 KG 380,40 880,20 16,2

MANDIOCA 1T 733,00 1.800,00 23,3

SORO 60 KG 157,80 426,00 35,5

CASTANHA-DO-PARA 1 HL 357,75 746,50 -0.3

CASTANHA-DE-CAJU I KG 6,00 18,00 50.6

CASULO VERDE 1 KG 63,00 134,00 6,8

GIRASSOL 40 KG 143,20 420,00 47,2

GUARANÁ 1KG 78.00 140,00 -9,9

JUTA/MALVA 1-KG 11,70 30.00 28,7

MENTA 1KG 210,00 395,80 -5,4

RAM1 1 KG 11,50 35,10 53,2

BABAÇU 60 KG 196,20 365,60 -3,9

CERADECAF .NAÜBA 15 KG 615,00 950,10 -22,4

Deflator: índice Geral de Preços (1GP)

prejuízo foi de CrS 23.636,00,

também sem os 30%.

Para o algodão, as despe-

sas por alqueire foram de

CrS 88.212,67 (para o arren-

dárío). A colheita foi de CrS

330 arrobas que, ao preço

mínimo de CrS 201,90, totali-

zando, na venda, CrS

66.627,00. Prejuízo de CrS

21.585,67, sem os 30% da

mão-de-obra.

Para o milho o total das

despesas (arrendatário) foi

de CrS 41.456,00, totalizando

na venda CrS 17.820,00, don-

de resultou um prejuízo de

CrS 23.636,00. Também sem

os 30% de recompensa.

Já o feijão apresentou a

despesa de CrS 47.491,30 e

na venda dos 30 sacos (a CrS

936,00) resultaram em CrS

28.080,00, dando um saldo

negativo para o produtor de

CrS 19.411,30. Também sem

os 30% de mão-de-obra.

Ê bom o companheiro tra-

balhador rural produtor com-

para os cálculos e descobrir

que em boca fechada não

entra mosquito, mas também

não entra comida. O arrenda-

mento foi arrendondado

para CrS 2.000,00 ao alqueire

para o amendoim e feijão, e a

CrS 4.000,00 para o milho c

algodão.

Para finalizar, o adubo, de

dezembro de 1976 a maio de

1980, subiu 404,1%. E em

matéria de inseticidas e fun-

gicídas, basta observar que o

"folidol", em 9 meses, subiu

248%! O "Audrin" subiu

476%, em 9 meses! E o "sis-

têmico folemati", 340%, em

12 meses!

REALIDADE RURAL - AGOSTO DE 1980 Pág. 5


Em Piracicaba, D. Tomás diz

que indica e trabalhadores

nunca tiveram vez nc Brasil!

Para os trabalhadores

rurais, com pouca terra ou

sem terra, conseguirem

entender porque eles estão

cada vez mais na miséria,

eles precisam saber disso: as

terras, no Brasil, vem sendo

divididas entre os amigos do,

Governo desde que o Brasil

foi descoberto.

Primeiro foram os amigos

do rei de Portugal, no tempo^

das capitanias hereditárias.

Eles ganhavam pedaços de

terra do mesmo tamanho ou

até maiores do que a famosa

Jari, lá no Pará, dona de qua-

se quatro milhões de hecta-

res hoje. Com uma diferen-

ça: os amigos do rei eram

portugueses, enquanto que o

dono da Jari é um america-

no. No fundo é o mesmo.

Depois disso, tornaram-se

amigos do rei (e mais tarde

do Imperador) os senhores

de escravos. Esses senhores,

quando o Brasil virou

República, há 90 anos, vira-

ram fazendeiros, e continua-

ram donos de enormes peda-

ços do Brasil. Hoje eles

ganharam a companhia de

banqueiros, industriais e

grandes empresas multina-

cionais.

Esse é, em poucas pala-

vras, um resumo do pensa-

mento nu e cru que o Bispo

de Goiás Velho (GO), muito

conhecido, D. Tomás Bal-

duino, apresentou há pouco

tempo em Piracicaba, num

encontro onde se conversou

sobre as dificuldades, dos

trabalhadores rurais. O Bis-

po mostrou que em toda a

história do Brasil, o Governo

sempre esteve ao lado dos

poderosos, contra os fracos,

acabando com os índios e

castigando os trabalhadores

rurais.

D. TOMÁS. QUANDO

MORRE UM GRILEI-

RO, É UM ESCÂNDA-

LO...

Nesse encontro estiveram

presentes também o Presi-

dente da Fetaesp, Roberto

Toshio Horiguti; o Presiden-

te do STR de Cravinhos,

Antônio Crispim da Cruz; o

padre Miguel Le Moal, de

Andradina; e o companheiro

Herber Reis, do Departa-

mento Jurídico da Fetaesp.

O encontro foi uma promo-

ção do Comitê Brasileiro

pela Anistia (CBA), de Pira-

cicaba, e realizou-se no salão

da Catedral.

Depois de falar que no ano

passado até bombas, por

helicóptero, foram jogadas

contra posseiros no Ara-

guaia, o Bispo D. Tomás Bal-

duino falou dos massacres

de índios, mostrando sua

revolta pelo fato de que os

erileiros e assassinos de pos-

seiros e indios andaram à solta.

D. Tomás Balduino,conhe

cido Bispo de Goiás Velho

(GO)defensor de indiose tra-

balhadores rurais.

sem castigo nenhum. Todos

esses crimes são até naturais

para os grandões.

No entanto, disse D.

Tomás, "quando morre um

grileiro, um grandão, é um

escândalo. Mas quantos

lavradores morrem? Quantas

matanças! Quantos cadáve-

res são encontrados depois!

E os grandões estão impunes,

como a famosa matança do

paralelo 11, cuja família res-

ponsável continua impune

em Cuiabá. João Mineiro,

que entrou numa missão

indígena e matou o padre

Rodolfo Lukenbein, o índio

Simão e feriu vários índios,

está ali, solto! E todos esses

assassinos dos pobres estão

ali, porque são aliados do

Governo".

Depois de mostrar tam-

bém sua revolta contra o

Governo, que ele acha que é

"hipócrita e anti-democráti-

co" e faz um verdadeiro

leilão de terras no Brasil, D.

Tomás Balduino disse que os

poderosos do Brasil estão

muito preocupados com a

Igreja por causa do famoso

documento "A Igreja e os

Problemas da terra".

Isso porque, segundo D.

Tomás, esse documento

revela uma caminhada dos

fracos, dos pobres. A Igreja

não faz nada mais do que

apenas apoiar sua organiza-

ção. Os trabalhadores é que

estão se organizando. E o

Governo não gosta de que o

povo se organize!

CRISPIM: O NORDES-

TE TEM SOLUÇÃO,

SEM ENGANAÇÃO

No encontro, falaram

várias pessoas, tanto o padre

Le Moal, do Araguaia, mos-

trando a violência que

sofrem os posseiros lá, como

os representantes dos possei-

ros da Fazenda Primavera,

contando sua dura história

de resistência.

Crispim fala: Roberto e mais ao fundo. D. Tomás, ou-

vem as críticas aos programas de Governo no Nordeste e ao

Proálcool.

Pág. 6

Depois deles falou o Presi-

dente da Fetaesp, Roberto

Toshio Horiguti, mostrando

no encontro aos presentes as

mesmas informações que

deixaram os deputados esta-

duais de boca aberta na

Assembléia Legislativa, com

informações como a de que

se os 15 milhões de hectares

de latifúndios, existentes em

São Paulo, fossem divididos,

caberiam 500 mil famílias,

com 30 hectares cada uma!

'(Veja matéria ao lado).

E falou também o compa-

nheiro Antônio Crispim da

Cruz, Presidente do STR de

Cravinhos. Ele começou

contando a viagem que ele

fez em maio para o -Rio

Grande do Norte, onde par-

ticipou de uma concentra-

ção de 20 mil trabalhadores

Rurais, no Vale do Açu onde

o Governo estuda a desapro-

priação de 60 mil hectares de

terra boa para fazer uma

represa, para fazer irrigação,

por bombeamento, numa

área de apenas 20 mil hecta-

res, terras altas, para latifun-

diários. "Coisa mais estúpi-

da" - observou Crispim,

revoltado.

Crispim disse que o que

existe, de verdade, no Nor-

deste, é a "indústria da

seca", que faz os ricos cada

Devaníte Medeiros conta

.situação de posseiros da Pri-

mavera, de Andradina. Com

ela,mais quatro moradores da

Primavera.

vez mais ricos depois de toda

a seca com desvio e mau

aproveitamento da ajuda do

Governo. Lá, segundo Cris-

pim, não existe interesse por

parte de políticos e do

Governo, de resolver mesmo

os problemas.

A solução não seria tão

difícil assim. O terreno lá não

é seco. Ele retém a umidade,

tanto é que as lagoas agüen-

tam muito tempo. E os poços

artesianos não precisam mais

que 600 metros para jorrar

água boa e abundante,

enquanto que aqui no Sul

precisam de 1.000 a 1.500

metros.

Crispim estava também

revoltado com outra coisa:

através dos chamados "in-

centivos", vai muito dinheiro

do Sul para o Norte, dinheiro

do povo. E o pessoal do Nor-

te tem uma imagem de que o

Sul é desenvolvido e vem

para o Sul concorrer com a

mão-de-obra daqui, que já

ganha pouco. Resultado:

mais miséria aqui também,

enquanto que lá as coisas

podiam ser bem resolvidas,

sem enganação.-

Crispim falou também do

Proálcool, aqui no Sul. (Veja

matéria nesta edição).

Sindicatos nordestinos denunciam

grandões e hidrelétrica malandra

Os trabalhadores rurais precisam acostu-

mar-se a desconfiar dos belos discursos que

ouvem de vez em quando dos governantes

(especialmente dos ministros) falando em

"progresso", em "bem estar" etc. Os Minis-

tros estão muito por fora...

A FETAESP, por exemplo, recebeu qua-

tro documentos dos nossos Sindicatos lá do '

Nordeste, ao longo do Rio São Francisco.

Os trabalhadores rurais naquela região estão

vendo de perto o que significa o "progresso"

de alguns Ministros, um progresso que não é

para o trabalhador rural, mas sim para os

grandes tubarões!

De 18 a 22 de junho houve, em Carnaíba,

o 5 9 Encontro do Vale do São Francisco,

abrangendo os Estados de Minas Gerais,

Pernambuco, Alagoas e Sergipe, sob coor-

denação da nossa CONTAG, das Federa-

ções destes cinco estados e com aparticipa-

ção muito especial e estimulante da Comis-

são de Pastoral da Terra (CPT) e a Diocese

de Juazeiro, e mais 31 Sindicatos.

UMA SUSPEITA MUITO SÉRIA: AS

HIDRELÉTRICAS FABRICAM

ENCHENTES!

As terras ao longo do Rio São Francisco,

são muito cobiçadas pelos ricaços de todo o

Brasil e pela patronzada da região. Como se

não bastasse isso, a patronzada e os milioná-

rios estão recebendo uma enorme ajuda da

Companhia Hidrelétrica do Vale do São

Francisco (CHESF) que está, construindo

uma série de represas ao longo do Rio, e de

outra empresa, chamada CODEVASF

(Companhia de Desenvolvimento do Vale

do Sao Francisco)

O nosso Movimento Sindical na região

está muito triste e indignado com o que vem

acontecendo.

O Documento Final do V Encontro do

Vale do São Francisco denuncia que tem

crescido a grilagem de terras ao jongo do São

Francisco, aumentando as violências contra

os posseios - tudo isso com a finalidade de

"limpar" as áreas para o estabelecimento de

grandes empresas agrícolas, engordadas

com incentivos do Governo.

Mas o documento traz uma informação

muito séria: as últimas enchentes, que trou-

xeram mais miséria ainda e sofrimento aos

nossos trabalhadores rurais na região, deixa-

ram a suspeita de que essas enchentes são é

planejadas, com o objetivo de forçar a popu-

lação a aceitar a transferência para as agro-

vicolas, deixando livres as beiras dos rios.

O PROÁLCOOL TEM UMA CARA

MUITO FEIA. E É MUITO MALVADO

O PROÁLCOOL não está complicando a

vida apenas aqui no sul. Lá no Nordeste ele

está servindo para engordar muita gente, às

custas dos incentivos do Governo. E em

lugar de produzir comida, as terras férteis

vão servir para fazer andar os carros de

quem tem dinheiro para comprar.

Na região do São Francisco tem um proje-

to de 30 mil hectares para produção de man-

dioca, chamado "Agroindústria! Camaragi-

be S/A", de uma empresa do Rio de Janeiro.

Nesse projeto, em Casa Nova (BA) residem

351 pessoas que não querem deixar a terra

de jeito nenhum, nem transferindo-se para

outras áreas, nem vendendo. E os capitalis-

tas, que moram confortavelmente no Rio de

Janeiro, querem botar os companheiros para

fora de qualquer jeito.

O documento do V. Encontro do Vale do

São Francisco diz: Consideramos justa a deci-

são dos posseiros tanto por terem um direito li-

quido às terras, quanto pelo fato de não acei-

tarmos o PROÁLCOOL na sua política de

promover grupos econômicos sem a mínima

preocupação social. Não consideramos pro-

gresso a produção de álcool para alimentar os

motores dos automóveis em prejuízo da produ-

ção de alimentos para o povo' .

O documento denuncia ainda que em

todo o Vale do São Francisco, especialmen-

te em Minas, imensas áreas foram entregues

pelo Governo a grandes empresas refloresta-

doras, a custa de gordos incentivos fiscais,

que implantaram os chamados "desertos

verdes", expulsando os trabalhadores rurais

de lá.

A POLÍCIA TRANCOU A PORTA DO

SINDICATO!

O pessoal da "Agroindústria! Camaragibe

S/A" está com tudo, até com a polícia de

Casa Nova (BA) nas mãos. Tanto que no dia

5 de julho os trabalhadores rurais iriam reu-

nir-se às 10 horas na sede do Sindicato, com

a presença de dirigentes das Federações de

Pernambuco e Bania, mais os Sindicatos de

Petrolina, Santa Maria da Boa Vista, Belém

do São Francisco, Floresta, Itacuruba e

Petrolândia (de Pernambuco) e Paulo Afon-

so, Glória, Rodelas, Juazeiro, Remanso e

Pilão Arcado (da Bahia).

Mas qual a surpresa dos companheiros!

Por volta das nove horas da manhã a porta

do Sindicato passou para o controle da Polí-

cia Militar do Estado, sob coordenação de

políticos locais, especialmente de um tal

Amando Fernades Braga - conhecido falsifi-

cador de assinaturas!

Não se satisfazendo, o falsificador man-

dou para a frente do Sindicato também uma

quadrilha de pistoleiros e jagunços,além

de um outro tanto de agitadores que provo-

cavam os sindicalistas com palavrões e insul-

tos, tentando atingi-los moralmente!

Aonde é que estamos, para a autoridade

cair tanto assim?

Venenos agrícolas: FETAESP

quer Receítuário Agronômico.

O Presidente da Federação dos Trabalhado-

res na Agricultura do Estado de São Paulo (FE-

TAESP), Roberto Toshio Horiguti, enviou à

Comissão de Agricultura, da Câmara Federal,

telegrama, em que expressa aos deputados nossa

posição favorável à adoção do Receituário Agro-

nômico.

Mexer com veneno é risco de vida. E o traba-

lhador rural precisa saber com que tipo de vene-

no ele está lidando, para poder prevenir-se.

É o seguinte, o texto do telegrama: "Respei-

tosamente, encarecemos aos excelentíssimos

membros da Comissão sobre a urgência da ado-

ção obrigatória do Receituário Agronômico

para a saúde do trabalhador, para a defesa da

ecologia e da terra, e defesa do consumidor.

Nossa campanha salarial inclui a exigência da

adoção do Receituário. Favor cientificar demais

membros".

CONTAG CONTRA MERCURIAIS

Há pouco tempo, o próprio Conselho de

Representantes da nossa CONTAG havia dirigi-

do oficio ao Presidente Figueiredo, adotando

posição contrária à fabricação, venda, importa-

ção e uso de defensivos agrícolas à base de mer-

cúrio; uso, aliás, proibido em outros países,

menos aqui, que por não haver proibição, segun-

do a CONTAG, propicia às multinacionais do

ramo farmacêutico a que encontrem no Brasil

"o mercado ideal para seu lucro fácil às custas

da saúde e da vida do trabalhador rural".

Segundo o oficio do Conselho de Representan-

tes da CONTAG, os fungicidas mercuríais

orgânicos, por exemplo, são empregados na

lavoura de cana-de-açúcar, soja, trigo, batata,

sorgo, etc. E a ação no mercúrio no organismo

humano pode causar leões no feto, acarretando o

nascimento de crianças defeituosas. Ele pode

entrar no corpo através da pele, da respiração ou

pela ingestão, circulando no sangue por três

meses, sendo a maior parte absorvido pelo siste-

ma nervoso, rins e fígado.

Segundo a CONTAG, as principais manifes-

tações de lesões são: tremores nas mãos, lábios e

face; alteração na escrita, dificuldades de falar,

atrofia muscular, fibrilação, irritabilidade,

depressão, ansiedade, neurite, salivação excessi-

va, mau hálito, queda de dentes, enfraquecimen-

to das gengivas, dor de cabeça, vômitos, diar-

réia, constipação intestinal, oligúria, uremia,

diminuição da visão, pneumonites, eezemas, etc.

A posição da CONTAG foi tomada com base

em estudo feito em Campos (RJ).


O deputado (l f à esquerda,

de costas) ouviu que o principal^

anseio dos trabalhadores é

TERRA, que está cada dia

mais difícil de conseguir.

Ouviu também que os traba-

lhadores não querem morar

em casas populares nas vilas,

mas sim na TERRA.

General Salgado leva deputado

para explicar atuação a sócios

Há pouco tempo ocorreu

um interessantíssimo encon-

tro, na sede do Sindicato dos

Trabalhadores Rurais de

General Salgado. A diretoria

do Sindicato resolveu dar

uma oportunidade aos seus

associados para trocarem

idéias com os chamados "re-

presentantes do povo",

cobrando explicações sobre

o que estão eles fazendo em

favor do trabalhador rural.

O escolhido foi o deputado

estadual mais votado da

região (Valdemar Chubaci,

do Partido Popular). O

encontro foi embaixo de

duas seringueiras, ao ar livre,

ao qual compareceu o presi-

dente da Fetaesp, Roberto

Toshio Horiguti, além do

prefeito da cidade, o Presi-

dente da Câmara Municipal


Alegria. A Primavera

foi desapropriada.

Mas a luta

não acabou!

A boa noticia chegou ainda no dia 7 de

julho: o próprio presidente do INCRA, Paulo

Yokota, telefonava para a Fetaesp, no inicio

da noite, informando pessoalmente; logo

depois, a "Voz do Brasil se encarregava de

levar a mesma notícia às 300 famílias de pos-

seiros da Fazenda Primavera, de Andradina e,

particularmente, ao padre René Parren, da

Comissão Justiçai e Paz de Andradina, que

acompanha os posseiros (da mesma forma que

o nosso Sindicato na cidade) e que casualmen-

te ouvia a "Voz do Brasil".

A boa notícia, há tanto tempo aguardada,

era a de que o Presidente Figueiredo havia

assinado dois decretos, um declarando a área

da Fazenda Primavera toda, como "área prio-

ritária de Reforma Agrária" e o outro decreto

declarando essa mesma área "de interesse

social, para fins de desapropriação".

O primeiro decreto (n» 84.876) dizia que a

área é de 9.595,30 hectares, atingindo áreas

dos municípios de Andradina, Castilho e

Nova Independência; dizia que a área ficará 5

anos sob controle governamental, através do

INCRA prazo em que serão criadas, preferen-

cialmente, 300 unidades familiares (módulos)

para as famílias lá residentes hoje (posseiros),

reformulando a estrutura fundiária na região.

O segundo decreto (tí> 84.877) dizia que a

propriedade da área da Fazenda "é atribuí-

da às indústrias José João Abdalla S.A." e dei-

xava bem claro que o Governo ("União") se

reserva o direito de "questionar o domínio das

terras tituladas irregularmente". Ou seja, os

herdeiros de J. J. Abdalla (ele morreu) terão

de provar que são mesmo dono das terras, o

que parece tarefa bem mais difícil do que sol-

tar gado nas terras dos posseiros...

FESTA NA RUA, FAIXAS, E UM

COMPROMISSO DOS POSSEIROS.

No dia 8, quando os jornais e emissoras de

Os bois de Abdalla ainda

invadem roças, intocáveis!

O nosso advogado, Herber Reis, esteve com

os posseiros, após a notícia da desapropriação.

E conta o que viu.

Primavera. A Fazenda pri-

mavera, da qual se diz proprie-

tário J.J. Abdalla, Já conheci-

do de todos, foi desapropriada,

para fins de Reforma Agrária

através de decreto presiden-

cial. E dai?

Fruto de uma luta sustenta-

da pela união dos trabalhado-

res posseiros, a desapropriação

da Fazenda Primavera leva-

nos a reações diferentes. Num

primeiro momento, a chegada

da noticia. Choros, passeata,

abraços, cartas e telefonemas

de congratulações. Era uma

etapa conquistada na luta

peta posse da terra na qual

encontram, hoje, envolvidos

diretamente milhares de com-

panheiros nossos. De um lado,

o latifúndio, desumano, violen-

to, atrabiliário, safado, e,

sobretudo, injusto e ,opressor.

Do outro, centenas de famílias,

quase quatrocentas, lutando

para não serem pisadas pelo

boi e cercadas pelo "colo-

nhão", lutando pelo sustento

de seus humildes dependentes.

Cheios de desespero, de

desamparo, mas muito cheios

de esperança e de fé na força

da união.

Venceram. Mas tudo se

encerra com a desapropriação?

Agora, ainda hoje, depois de

mais um mês de desapropria-

ção, os bois de Abdalla conti-

nuam comendo a lavoura dos

posseiros que lá se encontram.

Comem roças inteiras de feijão

no ponto de ser colhido:' Em

alguns casos o gado faminto e

solto chegou a invadir os ran-

chos e comer o milho já seco,

colhido na hora de ser vendido.

E o povo? Tange boi daqui,

tange boi dacola. Cerca daqui,

cerca dacolá. Vai ao delegado,

se queixam, como sempre fize-

ram. O delegado, dentro

outras coisas, recomenda que

"ninguém espanque e nem

maltrate os bois..."

E os homens, e os posseiros

da "Primavera"??? Enquanto

os bois do latifundiário se kan-

queteiam nas roças de milho,

feijão e. nas hortas, muitas

bocas têm que comer. São as

filhos daquela gente sofrida,

amargurada, espezinhada. O

INCRA não chega. Isso impa-

Pág. 8 REALIDADE RURAL - AGOSTO DE .1980

rádio e TV divulgaram com destaque a deci-

são do Governo, os trabalhadores rurais

foram à cidade, para comemorar. E comemo-

raram com uma passeata nas ruas, como

foguetes, faixas, etc.

E no dia 19 de julho, em reunião à qual

compareceram o Presidente da Fetaesp,

Roberto Toshio Horiguti, o Presidente do Sin-

dicato dos Trabalhadores Rurais de Andradi-

na, João Alves dos Santos Sobrinho e o com-

panheiro Herber Reis, do Depto. Jurídico da

Fetaesp, os posseiros da Fazenda Primavera

davam um testemunho de sua formação cris-

tã: "Nós queremos que essa Reforma Agrária

seja feita para os outros também" - disseram

seus líderes. E eles mesmo reconheceram que

têm uma grande responsabilidade de que

aquilo seja de fato uma Reforma Agrária.

Ou seja, uma Reforma Agrária que não

fique apenas na redistribuição das terras, mas

que seja acompanhada de assistência técnica

séria, preço justo, comercialização tranqüila

para seus produtos, crédito sem burocracia.

Os trabalhadores têm duas posições claras:

1) querem terras para suas famílias, mas

querem que outros companheiros, trabalha-

aores rurais, também tenham condições de

possuir terra para plantar e viver dignamente

do trabalho; 2) não abrem mão do direito de

participar de forma ativa e efetiva na monta-

gem do projeto de Reforma Agrária da Fazen-

da Primavera.

O Presidente da "Fetaesp, Roberto Toshio

Horiguti, que diversas vezes esteve em Brasí-

lia, no Incra, para tratar do caso Primavera,

esteve na Coordenadoria do Incra em São

Paulo e depois em Brasília reivindicando

urgência por parte do Incra para se imitir na

posse das terras e coibir a invasão de terceiros

fmra não agravar ainda mais a tensão que está

á, porque o decreto beneficia preferencial-

mente as 300 famílias.

cienta o povo, desilude, infunde

descrença... O que vamos

fazer? perguntam uns. Isso é

demais, reclamam outros. -

Nós já não tem crédito, finan-

ciamento, já sofremos tanto e

agora, que a gente pensava que

tudo ia ficar mais calmo, vem

os bois e come tudo que agen-

te implantou com tanto sacrifí-

cio.... Assim se exprimiu um

posseiro que teve a sua roça

destruida pelos bois.

- A justiça, o delegado, tudo

é tão demorado... O senhor

arrepare bem\ quando os bois

de J.J. Abdalla comeu a roça

de Joaquim e de outros compa-

nheiros nossos, nósfoiprá Jus-

tiça e até hoje, nada. Como é

que o pobre pode viver assim

tão judiado, sem ninguém pres-

tar atenção nele? Seu Sebas-

tião desaba, inconformado.

"Os "jagunços" que perse-

guia nós, depois da desapro-

priação tão entrando lá dentro,

tomando áreas, fazendo xacota

dagente, rindo de nossa cara.

'V 1

Festa da vitória dos posseiros nas ruas de Andradina. Além do sindicalismo na cidade e no Esta-

do, também a Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA) e a Comissão de Pastoral da

Terra (CPT) enviaram documentos, participando da festa e da alegria.

Outra boa: Juiz declara Faz.

Sta. Rita "área devoluta"!

No dia 28 de julho, as 100 famílias de

poesseiros, da Fazenda Santa Rita do Pon-

tal, em Teodoro Sampaio pareciam ter

entrado no paraíso, tal o alívio e a tremen-

da satisfação que lhes causou uma informa-

ção: sentença do juiz de Mirante do Para-

napanema declarava "área devoluta" todo

o 149 perímetro, que compreende toda a

Fazenda Santa Rita do Pontal, de alegada

propriedade até então do latifundiário Jus-

tino de Andrade.

Isso não quer dizer que o sufoco das

famílias já tenha acabado totalmente, por-

que, provavelmente, o latifundiário vai

recorrer da sentença. Mas seus direitos,

praticamente, já estão garantidos. A sen-

tença do juiz reconhece que a terra que Jus-

tino alega ser dono é, na verdade, do

Governo.

MESMO SEM CRÉDITO, O FEIJÃO

ESTÁ UMA BELEZA...

A desapropriação da Fazenda Primave-

ra, de Andradina, despertou um verdadeiro

clima de alegria e entusiasmo entre os pos-

seiros da Fazenda Santa Rita do Pontal,

segundo nos contou o Presidente do Sindi-

Eles diz prá nós que a terra

nunca vai ser nossa, que essa

história de desapropriação é

conversa fiada. Não é demais?

O senhor hão acha? Pergunta

outro.

Assim é a Fazenda Primave-

ra. Desapropriada, pronta

para ser implantada a "Refor-

ma Agrária". Os posseiros

continuam organizados, discu-

tindo como deverão fazer para

implantar uma Reforma Agrá-

ria justa, humana, na qual se

respeite todos os direitos do

lavrador. De quem quer a

terra para produzir, para plan-

tar e não para vender, para

fazer negócio.

de prevalecer a vontade

de quem nasceu e se criou e

auer fazer da terra um meio de

liberação do homem. Por cer-

to, unidos como continuam,

conscientes do papel que eles

mesmo já souberam muito bem

até agora desempanhar, a Pri-

mavera será, dentro em pouco,

a expressão mais clara daquilo

que os trabalhadores precisam

conquistar urgentemente:

REFORMA AGRÁRIA..

AMPLA, MASSIVA e IME-

DIATA.

cato com Trabalhadores Rurais de Teodoro

Sampaio, José Ferreira Cruz. Ele esteve

em São Paulo, no fim do mês, antes da sen-

tença do juiz de Mirante do Paranapane-

ma, acompanhado do Tesoureiro, Pedro

Campos Biranha, tratanto de obter um

ambulatório para o Sindicato (a exemplo

de outros dirigentes no Estado).

De acordo com José Ferreira Cruz, a

expectativa entre os trabalhadores era mui-

to grande, e a esperança era enorme. Mes-

mo sem contar com crédito e assistência

técnica, eles plantaram bastante feijão este

ano e a lavoura agora está uma beleza.

O grande sonho dos posseiros é contar

com uma cooperativa, e esse sonho deverá

se tornar realidade em breve, com a regula-

rização de suas terras. As suas casas tam-

bém estão muito fracas e precisam ser reno-

vadas, melhoradas. Ate agora o IBDF

bronqueava se eles tiravam madeira do

mato para isso.

Está programada uma reunião, no próxi-

mo dia 9 de agosto, entre os trabalhadores,

o Sindicato, com a presença do Presidente

da Fetaesp, Roberto Toshio Horiguti.

E em Turmalina já

há clima de acordo

Os 19 pequenos proprietários de Turmalina

estão esperando que suas preocupações acabem

logo. Eles compraram as terras onde residem, já

pagaram, mas havia um litígio entre dois cunhados

(Manoel Bezerra da Silva e Arlindo Marques

Ferreira). Os companheiros compraram as terras

de Manoel, que acaba de perder, no Supremo Tri-

bunal Federal, a demanda e o controle das terras.

Os advogados do Incra têm viajado à cidade,

para estudar o caso, segundo conta o advogado

dos companheiro, Laurindo Novaes Neto, em

entrevista que concedeu ao jornal "FOLHA DO

OESTE", de grande prestígio na região. (Cópia da

entrevista nos foi fornecida pelo STR de Santa Fé

do Sul, ao qual agradecemos).

Ao que parece, todas as partes estão interessa-

das numa rápida solução.

More magazines by this user
Similar magazines