GRUMIN - Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro

cpvsp.org.br

GRUMIN - Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro

&

GRUMIN

N9 2-GRUPO MULHER-EDUCAÇAO INDÍGENA — JULHO/1989

ENCX)NTRO POTIGUARA

DE LUTA E RESISTÊNCIA

01 Encontro Potíguara ae

Luta e Resistência, promo-

vido pelo Grumin — Grupo

Mulher— Educação Indíge-

na, que se encerrou no dia 19 de ju-

. nho último e que reuniu cerca de

500 índios, das 16 aldeias que for-

mam a nação Potiguara, na Baía da

Traição, no litoral norte da Paraíba,

decidiu continuar a luta em defesa

de seu território, e, apoiados na

nova Constituição, exigir a rede-

marcação de sua área, o que impli-

cará na devolução das terras hoje

ocupadas por invasores.

A questão da terra ocupou a maior

parte do tempo do encontro indíge-

na, de 16 a 19 de junho último, tendo

sido aprovada a resolução no sen-

tido de que os arrendamentos de

terras potiguaras às usinas não te-

rão seus contratos renovados. Isto

porque, entendem os índios que a

monocultura da cana-de-açúcar

ameaça a fertilidade do solo, inclu-

sive pela aplicação de adubos quí-

micos, empobrece o povo e reduz a

produção de outros alimentos in-

dispensáveis à subsistência da co-

munidade.

No campo da educação o Grumin

— Grupo Mulher — Educação Indí-

gena promoveu uma assembléia,

reunindo todas as professoras que

trabalham nas diversas aldeias do

território Potiguara, as mulheres da

comunidade e lideranças indígenas

femininas das nações Pankararu e

Xucuru (Pernambuco), ficando evi-

denciada a necessidade de um en-

sino voltado para a realidade indí-

gena e comprometimento com o

resgate da sua cultura, usos, costu-

mes e tradições.

Entendem as mulheres potiguara

e lideranças femininas das nações

visitantes, que, para a execução

desse programa, terá que haver uma

maior participação e apoio das au-

toridades do País, não só federal

como estadual e municipal, e de en-

tidades de apoio ao índio já que ele

Batista, cacique Potiguara, abriu o Encontro.

exige. Inclusive, a reciclagem e for-,

mação pedagógica das professoras

existentes, embora, na questão his-

tórica e de consciência Indígena as

próprias comunidades se encarre-

garão dessa formação, através do

Grumin que, na oportunidade, lan-

çou o seu livro-cartilha" A Terra é a

Mãe do índio", de autoria da profes-

sora Eliane Potiguara, descendente

da aldeia potiguara de São Miguel.

Pretendem, ainda, que os profes-

sores formados para orientar a edu-

cação das crianças e jovens indíge-

nas saiam do seu próprio povo e que

tenham eles acesso às faculdades,

como qualquer outro jovem brasilei-

ro, como em outras partes do mun-

do, onde, ainda, há índios.

Na área da saúde, reivindicam os

Potiguara que sejam implantados

postos médicos, com a presença de

médicos e e enfermeiros, e todo o

equipamento necessário para aten-

der aos doentes, principalmente as

parturientes, nas suas 16 aldeias.

O I Encontro Potiguara aprovou

moção de repúdio à violência que se

vem registrando contra os povos in-

dígenas principalmente contra a al-

deia potiguara de Jacaré de São

Domingos, com o objetivo de Inva-

dor suas terras.

Do mesmo modo, manifestou o

povo Potiguara sua preocupação

quanto à preservação do melo am-

biente e do seu equilíbrio ecológico,

tendo na ocasião sido firmado um

pacto de unidade nessa linha de

ação entre as lideranças Potiguara,

da Paraíba; Pankararu e Pankararé,

de Pernambuco; Xocó, de Sergipe;

Xucuru e Pataxó Há-hâ-háe, da Ba-

hia, presentes na reunião, que deci-

diram lutar juntos para tornar reali-

dade as propostas do Encontro.

NT)


índio sem terra não tem vida:

Potiguara exige terras de volta

Marcelino Pankararé, represen-

tante da nação Pankararé, da Bahia

destacou a unidade dos povos indí-

genas, na luta pela demarcação e

preservação de suas terras. "O cor-

dão do índio é um só. Porque somos

um só. Quem sente e conhece um

pouco dos direitos dos índios, sente

o sofrimento". — disse o Pankararé.

"Temos que lutar pelos nossos di-

reitos, precisamos da terra para tra-

balhar, para alimentar nossos filhos,

nossa nação. Estamos juntos, orga-

nizados, e se não fizermos assim

nos tornamos fracos. O índio sem

terra, não tem vida" — concluiu.

No I Encontro Potiguara de Luta e

Resistência, a questão da terra, a de-

fesa do meio ambiente e ecologia

ocuparam todo o primeiro dia de

discussão. Estiveram presentes

Pankararé, Pankararus, Xucurus-

Cariris,Xocóse Pataxós.queseuni-

ram ao povo Potiguara construindo

a unidade dos índios do Nordeste no

fortalecimento da sua luta comum,

contra os invasores, e pela preser-

vação da sua cultura. Um pacto

nesse sentido foi proposto pelo ca-

cique Nailton Pataxo e aprovado

pelo plenário composto de 500 ín-

dios potiguara.

Coube ao índio Raquel, da Aldeia

do Galego, levantar a questão do ar-

rendamento, ele que é um arrenda-

tário. Após falar dos prejuízos que-

trazem à terra a cultura da cana-de-

açúcar, que hoje ocupa de 40 a 70%

dos 20.800 hectares restantes do

território potiguara, fez uma auto-

crítica por ter concordado no pas-

sado como muitos outros irmãos

seus o fizeram, em arrendar terras

aos usineiros, concluindo por pro-

por, que, ao término de tais contra-

tos, se cancelassem os arrendamen-

tos, diversificando a produção agrí-

cola, para não só garantir a quali-

dade do solo, mas para proporcio-

nar à nação meios de subsistência

mais ricos.

Não só a questão do arrendamen-

to, mais outras questões ligadas à

terra, foram levantadas pelos parti-

cipantes do Encontro. Domingos

Barbosa, da aldeia de São Domin-

gos, propôs a demarcação das ter-

ras indígenas e a retirada dos inva-

sores. O representante da Aldeia

Tramataia, João Leandro Soares,

propôs que a FUNAI exerça seu pa-

pel de órgão do Governo na defesa

dos índios, retirando os invasores e

devolvendo as suas terras. O índio

Pompeu, da Baía da Traição, con-

clamou à unidade das lideranças e

povos das 16 aldeias Potiguara na

luta contra os invasores. O cacique

João Batista Faustino, da aldeia de

São Francisco, defendeu o prosse-

guimento da luta do seu povo para

reaver as terras Potiguara, para que

elas ocupem o espaço que tradicio-

nalmente lhes pertencem. Elias, da

Aldeia Camurupim, ressaltou a im-

portância do I Encontro Potiguara,

cujas conclusões espera tragam re-

sultados positivos para a paz e o de-

senvolvimento da nação potiguara.

— "índio sem terra é um favela-

do" — afirmou o ex-cacique Seve-

rino Fernandes, que hoje responde

a processo na Justiça por expulsar

invasores de suas terras. Propôs en-

tão que unidos os potiguara confi-

nassem até o fim esta luta em defesa

de suas terras. Manoel Eufrásio, re-

presentante da Aldeia de São Mi-

guel, depois de dizer que o povo po-

tiguara é escravo do povo de fora,

afirmou que para reconquistar as

terras que lhes foram roubadas

(cerca de 13.800 hectares) era ne-

cessário a união de todas as 16 al-

deias, "porque cada índio é um elo,

para tornar uma corrente forte". O

representante da Aldeia do Forte,

Heleno Santana, reafirmou, então,

que o povo potiguara é unido e tem

condições, assim, de resolver seus

problemas".

José Cassiano, índio potiguara,

representando a FUNAI, disse que a

questão do arrendamento nunca

teve o apoio jurídico da FUNAI, até

porque, segundo afirmou, "esses

arrendamentos são ilegais" e de-

fendeu a necessidade de uma reu-

nião entre os índios que arrendaram

terras para plantio de cana-de-açú-

car com o órgão para se encontrar

uma saída que, para ele, deve partir

de um projeto comum de desenvol-

vimento agrícola com a participação

de toda a comunidade.

As mulheres presentes ao Encon-

tro tiveram participação importante.

Dona Severina, uma espécie de avó

e conselheira do povo da Aldeia de

São Francisco, destacou a impor-

tância do Encontro para a conscien-

tização da nação Potiguara na

busca de novos rumos para sua li-

bertação, através da sua unidade.

Maria Nila Faustino, filha do cacique

João Batista Faustino, também de-

fendeu a necessidade de se "pre-

servar o que é do índio; a terra, re-

conquistando o que foi perdido".

Maria Vital, da mesma aldeia, consi-

derou fundamental a "expulsão de

rendeiros e posseiros das terras po-

tiguara.

I ENCONTRO MULHER-EDUCAÇÁO

Promovido pelo GRUMIN

— Grupo Mulher-Educa-

çào Indígena, paralela-

mente ao I Encontro Poti-

guara e Luta e Resistência, reali-

zou-se no dia 19 de junho último,

na Aldeia de São Francisco, Baía

da Traição, o I ENCONTRO RE-

GIONAL MULHER-EDUCAÇÁO

INDÍGENA, que concluiu pela

necessidade urgente da melho-

ria da qualidade do ensino para

as crianças indígenas; melhores

condições de assistência médica

não só às crianças, mas às mu-

lheres e aos idosos; reciclagem

da formação das monitoras de

educação; promoção de cursos

profissionalizantes; resgate da

história e cultura indígenas; ela-

boração de material didático e

outraa questões específicas da

mulher.

Participaram desse I Encontro,

além das mulheres potiguara,

representantes das nações Pan-

kararu, Xucuru-Cariri, Xocó,

Pankararé e Pataxó, todas do

Nordeste, e a presidente da As-

sociação Nacional de Apoio ao

índio, Hilda Zimmermmann, do

Rio Grande do Sul. Na ocasião,

uma moção de apoio e solidarie-

dade ao trabalho que vem sendo

desenvolvido pela coordenadora

do GRUMIN, professora Eliane

Potiguara, foi aprovada, com a

recomendação de que prossiga

seu trabalho em prol da Educa-

ção do índio em nível nacional,

apesar da resistência de uns

poucos grupos que vêm nesse

esforço uma ameaça, pois que a

cultura e conscientização previs-

tas no trabalho do GRUMIN forta-

lecem as nações indígenas im-

pedindo o prosseguimento da

ação de aniquilamento desses

povos e a conseqüente ocupa-

ção de suas terras.

As conclusões e recomenda-

ções do I Encontro Regional Mu-

Iher-Educação Indígena serão

encaminhadas aos órgãos com-

petentes, constituindo-se numa

nova etapa de trabalho do GRU-

MIN, encarregado de lutar por

aquelas conquistas.

A TERRA É A MAE DO ÍNDIO

De autoria da professora

Eliane Potiguara, com ilustra-

ções do cartunista IKENGA, foi

lançado ao final do encontro o li-

vro-cartilha "A TERRA É A MÃE

DO ÍNDIO", editado pelo jorna-

lista Alcino Soeiro e impresso na

gráfica da Universidade Federal

do Rio de Janeiro, e que contou

com o apoio para sua elaboração

do Programa de Combate ao Ra-

cismo, do Conselho Mundial de

Igrejas.

PARTICIPAÇÕES

Coordenado por Eliane Poti-

guara e secretariado pela pro-

fessora Maria Pankararu, o I En-

contro da Mulher-Educação In-

dígena teve a participação de

cerca de 100 mulheres indíge-

nas, destacando-se nele as se-

guintes intervenções:

Marilene, professora potigua-

ra: "Sou uma privilegiada por

poder ajudar meu povo. Esse

nosso esforço, porém, necessita

de um maior apoio, pois faltam

às nossas crianças desde a me-

renda escolar ao material didáti-

co".

Inés, professora da FUNAI:

"Não só as nações indígenas,

mas todo o Brasil sofre com o

problema da Educação. Alguma

coisa tem que ser feita. No nosso

caso, reclamamos, ainda, o re-

nascer de nossa cultura perdida,

incentivando as crianças, atra-

vés de pesquisa, a conhecer

nosso passado.

lida Pankararu: Temos difi-

culdades materiais em nossas

escolas. Mas resta-nos a espe-

rança e a fé, além da nossa luta

para resolver esses problemas.

Em minha aldeia, também a

saúde deve merecer atenção das

autoridades, principalmente no

tratamento da água contami-

nada que vem provocando do-

enças intestinais. Não temos

médicos necessários ao atendi-

mento de todos os casos, falta-

nos transporte, os políticos che-

gam cheios de promessas e nada

cumprem. Temos que nos unir

na luta. Qualquer divisão favo-

rece aqueles que nos querem ti-

rar da terra, nos esmagar."

Severina Faustino — profes-

sora potuguara: "Queremos es-

tudar mais, para nos aperfeiçoar

melhor na nossa missão de pro-

fessora. Mas nos falta desde o

transporte até mesmo ao mate-

rial escolar para os alunos. As

autoridades devem ser cons-

cientizar para a necessidade de

criar melhores condições de vida

para todos nós e, principalmen-

te, para as crianças."

Valda — professora potiguara:

"Sinto-me feliz em servir ao meu

povo. Mas careço de aumentar

meus conhecimentos, para ser-

vir melhor na área da educação.

Não devemos desanimar com

tantas dificuldades e, sim, ser-

mos fortes para prosseguir na

nossa luta com o objetivo de

conquistar tudo aquilo que ne-

cessitamos".

Dona Severina — "Estou sa-

tisfeita e feliz com este Encontro.

É a primeira vez que nos reuni-

mos ao longo de nossa história.

O que estamos discutindo é

muito importante e, tenho certe-

za, este é o primeiro passo que

estamos dando para a conquista

de uma vida melhor"

Maria Pankararu — "Aqui de-

fendemos a dignidade de nossos

alunos e por isso exigimos me-

lhores condições de ensino nas

nossas escolas, resgatando

nossa cultura, conscientizan-

do-as para a defesa do nosso

meio-ambiente".

Quitéria Pankararu —

"Mesmo não sendo professora,

venho ensinando minha nação

de que temos direito a tudo o que

os outros têm: educação, saúde

e condições dignas de viver. Re-

clamamos um ensino que res-

gate nossas tradições, nossas

línguas de origem, nossa cultu-

ra. E todas nós mulheres deve-

mos apoiar o trabalho de nossas

professoras sacrificadas, que

não ganham o suficiente para ter

uma vida condigna".

Rosália — professora potigua-

ra: "Trabalho na alfabetização

de crianças e adultos e, como

todas as professoras de áreas

indígenas, careço de mais apoio

das autoridades. O que temos é

muito pouco ou quase nada".

Zenilda Tuxá — professora:

"Temos muita preocupação com

a educação dos índios, com mui-

tos problemas na minha área tu-

xá. Os índios, como qualquer ou-

tro povo, são inteligentes e assi-

milam rapidamente os conheci-

mentos que lhes transmitimos.

Mas falta material, principal-

mente voltado para a realidade

do povo indígena, que resgate,

inclusive, sua verdadeira histó-

ria".

Antônia — mulher potiguara:

"Pedimos ajuda a todos os ór-

gãos do Governo para que dêem

apoio aos nossos irmãos índios,

esquecidos em suas aldeias".

Hilda Zimmermmann — presi-

dente da ANAÍ: "Lutamos pela

autonomia dos índios, pelo res-

gate de sua língua nativa, por um

ensino que resgate seus valores

culturas e sua história como po-

vo". Hilda Zimmermmann com-

pareceu ao Encontro represen-

tanto, também, a União da Mu-

lher Brasileira.

ESTRANHO

NO NINHO

No I Encontro Potiguara de Luta e

Resistência se houve uma energia

negativa, esta foi produzida peia pre-

sença de um holandês acolhido pelos

brasileiros, feito professor da Univer-

sidade da Paraíba, cuja arrogância,

petulância e comportamento de colo-

nizador fazem-no acreditar que é o

dono da verdade, um super-homem

ou até um super-deus. Este homem,

chamado Frans, que os índios cha-

mam de Francisco, jogou na divisão

da nação potiguara, intrigou lideran-

ças com lideranças, aproveitou-se da

boa fé de uma jornalista para repro-

duzir suas infâmias, numa tentativa

desesperada de destruir um encontro

de conscientização que, por certo, o

levará a libertar-se social, econômica

e politicamente.

Jamais partiríamos para o terreno

pessoal, se náo estivesse em jogo a

unidade do povo potiguara. Mas

desde o momento em que sentimos

um comprometimento político na

açáo de um Frans qualquer da vida,

que usando do seu privilegiado co-

nhecimento e até mesmo da compra

de consciências utilizando para Isso a

construção de uma igreja — como o

faziam os jesuítas —, tenta destruir

um trabalho feito com amor à causa

indígena e ideologicamente fortale-

cido, não podemos silenciar.

Afinal, a quem está servindo o

Sr.Frans? Ao povo potiguara que o

acolheu e que lhe permitiu defender

teses e escrever livros (ainda que

chamando potiguares de slflifticos e

outras lideranças locais de ladrões e

até mesmo de prostitutas) ou ao ini-

migo número um dos índios que são

os invasores, como o foram, no pas-

sado, os holandeses?

Como se explicaria o afastamento

da área potiguara, antes ou durante a

permanência do Sr.Frans, de antropó-

logos brasileiros comprovadamente

fiéis à causa do índio, não houvesse

por trás um bem urdido e concebido

plano de controle da situação interna

da nação potiguara?

Essa é uma questão para reflexão.

Do mesmo modo que devemos me-

ditar sobre a forma covarde. Infame,

preconceituosa e discriminatória com

que o Sr.Frans, referiu-se em carta-

circuiar à coordenadora do encontro,

a professora Eliane Potiguara, Irri-

tado porque o índio Tlure (que ajudou

com seu suor e sangue a demarcar as

terras potiguara) pediu que se reti-

rasse do Encontro, ao perceber sua

intenção de acabar com a assembléia

indígena, nem que para isso usasse

um índio de boa-fé.

Covarde, infame, preconceituoso e

discriminatória são exatamente, sem

tirar nem por, as características do

caráter do Sr.Frans. A quem estará

servindo, não sabemos. O que sabe-

mos é que, apesar da ação devasta-

dora do holandês, o i Encontro Poti-

guara chegou a conclusões Importan-

tíssimas para os destinos daquela

nação indígena, inclusive com a par-

ticipação ativa da mulher, que antes

nunca teve voz, conforme, aliás, acha

que assim deve ser o Sr.Frans.

Mas, holandeses á parte, a melhor

resposta para um infame como o

Sr.Frans e para aqueles que estão

sustentando no Brasil, é a realização

do trabalho que vimos fazendo em ní-

vel nacional para o resgate dos valo-

res culturais do povo indígena, de sua

sobrevivência condigna, do seu

meio-ambiente e do equilíbrio ecoló-

gico de seus territórios, só conquis-

tados com a Unidade, que o I Encon-

tro Potiguara defendeu e que é tam-

bém nossa bandeira de luta.

GRUMIN-Grupo Mulher-Educação

indígena.


GRUMIN

Inaugurado o Centro de

Cultura Potiguara

Em clima de festa, que se

encerrou com uma

demonstração da dança

indígena locai, o Toré, foi

inaugurado após o I Encontro

Potiguara de Luta e Resistência

e o I Encontro Mulher-Educação

Indígena, o Centro de Cultura

Potiguara, construído em regime

de mutirão pelos índios

potiguara, tendo à frente o

cacique João Batista Faustino.

Nesse Centro, além de

funcionar como fórum de

discussão dos problemas

indígenas, serão realizados

cursos profissionalizantes

(artesanato, tecelagem, corte e

costura), danças e músicas,

exibição dedeos e filmes

dentro do programa do Núcleo

de Documentação e Informação

Cultural da Nação Potiguara, do

GRUMIN.

Com cerca de 300 metros quadrados, o Centro de Cultura Potiguara foi construído em mutlrio

em menos de uma semana.

O irabamo de artesanato, com a

inauguração do Centro,

será estimulado, como

parte do resgate da

cultura potiguara.

A Inauguração se deu em clima de festa. A dança do Toré, um traço cultural Indígena,

teve em, Tia Severina sua grande animadora.

Cacique Batista: a realização de um grande

sonho.


O cacique Kanay (Nailton) Pataxó exibiu um exemplar da Constituição para lembrar a necessi-

dade de os índios continuarem mobilizados para tornar efetivas as determinações do Capítulo

VIII.

Todas as

| propostas do

Encontro

Potiguara

foram

submetidas à

aprovação

Tia Severina, uma das mais

antigas índias da aldeia de São Francisco, disse que

não quer mais a presença dos invasores nas terras potiguara.

QUESTÃO DE SOBERANIA

A realização do I Encontro Po-

tiguara de Luta e Resistên-

cia nasceu de uma reunião

da qual participaram inúme-

ras lideranças da nação Potiguara,

em março deste ano. A decisão foi

tomada pela necessidade não só da

discussão dos problemas que o

povo indígena vem enfrentando,

mas da fundamental importância

da unidade como forma de luta.

A questão do arrendamento, no

entanto, provocou um certo cons-

trangimento em algumas lideran-

ças que deixaram de comparecer

ao encontro, por considerar que

isso poderia conduzir a caminhos

não favoráveis à relação econô-

mica que atualmente vem sendo

marltida.

* Essa ausência, porém, não che-

gou a tirar o brilho do Encontro. Ao

contrário, fortaleceu o espírito de

luta daqueles que buscam para a

nação Potiguara um futuro melhor,

a redenção para os seus proble-

mas, o exercício dos seus direitos,

através do encaminhamento de so-

luções por eles próprias formula-

das aos órgãos governamentais

competentes. E a esperança de que

os representantes das 16 aldeias ali

existentes se unam num grande

Conselho que há de deliberar sobre

os caminhos a percorrer, até a vitó-

ria final.

O GRUMIN, que organizou o En-

contro, só teve na iniciativa o cum-

primento de sua proposta funda-

mental que é a de, junto com os po-

vos indígenas, localizar seus pro-

blemas e trabalhar efetivamente

para que, através da unidade, se

encontrem soluções capazes de

resgatar os seus direitos. Jamais in-

terferindo, porém, na organização

social, política e econômica das

nações indígenas, cuja auto-

Úultérla Pankararu, um exemplo da luta da mulher Indígena pelos direitos à terra, à

educação, saúde «'preservação da cultura.

determinação e soberania devem

ser respeitadas.

Foi dentro desse espírito de res-

peito à soberania das nações indí-

genas e de liberdade de expressão

que o encontro potiguara se de-

senvolveu. Tanto que, quando se

discutia a questão da terra, todos

os problemas foram abordados li-

vremente. Exemplo disso é que um

índio potiguara criticou duramente

seu irmão Raquel, da Aldeia do Ga-

lego, por arrendar terras para plan-

tio de cana-de-açúcar.

Raquel respondeu que o fizera

sim, mas que chegara o momento

de dizer um basta a isso, concor-

dando em que é preciso preservar a

terra e desenvolvê-la com novas

culturas de plantio.

Foi quando veio a palavra do pro-

fessor Moacir Madruga, da UFPA,

que advertira em sua exposição an-

terior estar a terra potiguara por um

fio, em termos de ecologia, exata-

mente pelo cultivo da cana, que

castiga e esteriliza o solo, afir-

mando com rara oportunidade:

"O kararaô potiguara foi dado.

Só que, infelizmente, dado inter-

namente na nação potiguara. O

que é preciso, agora ou em outros

encontros, é que ele seja dado a

quem realmente necessita ser da-

do. Contra os usineiros que além

de se instalarem aqui e acabar com

a natureza, introduzem aqui o que é

muito sério na nação potiguara: a

desunião interna, numauniáo que

foi conquistada a duras penas, no

Kararaô que foi dado em 1980.

Em 1980, os potiguara, unidos de

corpo, alma e coração, demarca-

ram seu território. Foi uma bela

lembrança de Moacir Madruga,

que deve servir como permanente

reflexão entre os potiguara, para se

manter a necessária unidade do

povo.

Apoiònio Xocó (ao centro), como coordenador da UNI-Nordeste, conclamou á união pára o fortale-

cimento dq luta em torno das causas indígenas.

^Xo^^EEEIz^^^

pesca, na Baía da molho de camarão e lagosta fo^HPeU c 1 omandou * preparação d<

Traição. nçao

'agosta, fornecidos pelos índios que sTdedic«m *


GRUMIN

A mulher teve presença

marcante no encontro

potiguara. Teve voz e voto, com

uma participação efetiva não só

no I Encontro Mulher-Educação

Indígena, como também nas

questões discutidas no I

Encontro Potiguara de Luta e

Resistência. Como mulher,

como mãe, como filha da terra e

integrante da comunidade

soube defender cogo garra e

independência suas propostas.

Com bastante interesse, as mulheres participaram da discussão dos problemas do seu

povo.

I ENCONTRO POTIGUARA DE LUTA

RESISTÊNCIA

I ENCONTRO REGIONAL MULHER-EDUC

INOI&ENA

16119 da Junho/M

Aldeia òe Slo Francisco

Baía da Tralçfo - Paraíba

Projeto Grumln: Grupo Multm

Educação Indígena

UNI - União da NaçÔat Indígenas

Aldeia Indígena Potiguara

PELO DIREITO A VIDA

A presença da Juventude feminina potiguara deu o toque de aiegria ao encontro.

MBBssfc; ~...v.^>^. ^BMifc C \

Até mesmo políticos locais compareceram

ao Encontro, como Jaêmlo Carneiro, presi-

dente do PV da Paraíba.

Hilda, índia Pankararu: a dor de uma máe,

que teve seu filho assassinado em sua al-

deia, por Invasores de terras Indígenas.


CARTA DO I ENCONTRO

POTIGUARA DE LUTA E RESISTÊNCIA

Opovo Potiguara, distribuído

em 16 aldeias, na Baía da

traição, Paraíba, depois de

quatro dias de seu I EN-

CONTRO, após discutir e deliberar

democraticamente sobre as ques-

tões levantadas, decidiu:

Continuar a luta em defesa do ter-

ritório indígena pertencente à nação

Potiguara, e, mais que isso, lutar

para que a parte do mesmo território

que lhe foi roubada na primeira de-

marcação, seja reincorporada ao

patrimônio do seu povo.

Não apenas a demarcação das

terras dos índios Potiguara, mas

exige o nosso povo também que as

autoridades constituídas, em cum-

primento ao que diz a Constituição,

no capítulo dedicado aos índios, li-

bere a área pertencente aos Poti-

guara, e que hoje são ocupadas in-

devidamente por invasores.

A questão da terra é o f u ndamento

da nossa luta. Dizimaram nossa cul-

tura, o nosso povo, hoje reduzido a

pouco mais de cinco mil índios;

roubaram nossas terras. Mas não

roubaram nossa consciência indí-

gena, apesar da dilaceração dos

nossos usos, costumes e tradições.

Quiseram nos silenciar. Não extirpa-

ram e não cortaram nossa língua.

Mas, através da colonização, cala-

ram a nossa voz nativa. Nos ensina-

ram a falar com a língua dos invaso-

res. E é com ela que nos expressa-

mos. Expressão de dor e sofrimento

pelos nossos guerreiros ancestrais

que tombaram na luta pela resistên-

cia, a quem rendemos nosso luto.

Na questão da terra, destacamos a

nossa consciência de que esta terra

é nossa. Sobre ela decidimos seu

destino. E seu destino envolve as

gerações de hoje e as gerações do

futuro. Nossos filhos, netos, bisne-

tos e tetranetos têm direito à terra de

seus ancestrais. Portanto, neste En-

contro, decidimos não mais admitir

a ingerência do branco na nossa vi-

da, no nosso destino. Procuram de

toda a forma, meios e instrumentos

enganosos para nos tirar daqui. Mas

não conseguirão, graças à nossa lu-

ta, a nossa garra. Queremos que a

terra Potiguara permaneça nas

mãos dos Potiguara. Não uma terra

EXPEDIENTE

GRUMIN —GRUPO

MULHER-EOUCAÇAO

INDÍGENA

Pelo direito à vida

Coordenação: Eliane Potiguara

Rua da Quitanda, 185 — sala 503 — CEP

20.091

Rio de Janeiro — Telefone (021)

293-1745

seca mas uma terra fértil. Não uma

terra que seja apenas de alguns,

mas uma terra que seja de todos,

pois ela, historicamente é de todos.

Para isso, no caso de contratos de

arrendamento feitos às usinas que

nos envolvem, deverão terminar,

quando do término do prazo. O Po-

tiguara honra o seu nome. Sua pala-

vra é uma só. Terminando o prazo

do arrendamento, toda a terra volta

à mão do índio. Novas culturas agrí-

colas devem ser introduzidas na

nossa terra, pois só assim teremos

garantido o nosso desenvolvimento,

nossa subsistência, auto-suficiên-

cia econômica.

Com uma bem organizada coope-

rativa, teremos a renda que hoje vai

para as mãos dos usineiros, para o

nosso povo. Com a modificação da

política agrícola, voltada para a mo-

nocultura da cana, teremos o sur-

gimento de uma nova política agrí-

cola, capaz de produzir todos os

alimentos necessários ao nosso

consumo interno e sua distribuição

para o mercado externo. A econo-

mia do povo Potiguara e sua distri-

buição ao Povo Potiguara.

No I Encontro Potiguara de Luta e

Resistência também o problema da

educação foi destacado. O GRUMIN

(Grupo Mulher-Educação Indígena)

realizou o seu I Encontro. Com a

parti cipação, a voz e o voto de toda a

comunidade, ficou decidido que lu-

taremos para a melhoria das condi-

ções de ensino, com amplo material

escolar, com mais professoras, com

um ensino voltado para a realidade

indígena, voltado para o resgate da

sua cultura, dos seus usos e tradi-

ções.

A nação Potiguara exige uma par-

ticipação maior das autoridades do

País não só federal, como Estadual e

Municipal, para a solução desses

problemas.

Somos índios, queremos conti-

nuar sendo índios, com respeito à

nossa cultura, às nossas tradições.

Mas nossos filhos devem ser criados

com as mesmas possibilidades de

educação que os demais brasileiros,

com o apoio dos governos. Nós que-

remos que nossos professores se-

jam índios, assim como nossos en-

Conselho do GRUMIN

POTIGUARA (Paraíba) — Maria Nilda

Faustino; Valda Batista; Zenilda Tuxá;

Inês e Severina Faustino.

PANKARARU (Pernambuco) — Maria

Quitéria de Jesus e Maria Pankararu.

KAIOWÁ (Mato Grosso) — Dona Marta

Kaiowá.

TERENA (Mato Grosso) — Miriam Terena

e Jupira Terena.

KAIGANG (Paraná) — Marina:

GUARANI (Paraná) - Enaiê Maitê

GRUMIN

fermeiros, médicos advogados e ou-

tros profissionais.

Não abriremos mão da nova Cons-

tituição, Capítulo VIII, que ampara

os índios. Foi uma conquista. Va-

mos lutar para que, o que ali está,

seja respeitado.

Neste I Encontro inauguramos o

Centro de Cultura Potiguara ("pelo

resgate de nossas tradições) e lan-

çamos a cartilha "A Terra é a

Mãe do índio", material de apoio às

professoras indígenas.

A questão da saúde é fundamental

para o Potiguara. Não temos assis-

tência. Não bastam convênios com

0 INPS ou com outros órgãos. Exi-

gimos a implantação, nas 16 aldeias

de postos médicos, onde existam

médicos, enfermeiros, equipamen-

tos e tudo que for necessário para

atender aos doentes e às parturien-

tes. Queremos uma ambulância

com equipamentos ncessários aos

primeiros socorros.

Entendemos que estes problemas

são os mesmos das outras nações

indígenas espalhadas pelo Brasil.

Por isso, declaramos a nossa solida-

riedade a todos esse irmãos, daí a

importância de unirmos todos num

mesmo objetivo. Os índios que esti-

veram presentes neste Encontro, os

Pankararu, Pankararé (Pernambu-

co), os Xocó (Sergipe), os Xukuru e

Pataxó Hã — Hã — Hãe (Bahia) con-

tam com o apoio dos Potiguara na

sua luta. Só a unidade de todas as

nações indígenas possibilitará a vi-

tória de nosso povo ao longo desses

5 séculos de opressão e coloniza-

ção.

Preocupa o povo Potiguara a pre-

servação do meio ambiente, a eco-

logia. Preocupa-nos a violência ins-

talada, a partir dos interesses do

poder econômico. Não queremos

mais em nossas terras a presença de

quem quer a nossa destruição.

Preocupa-nos a PAZ, a VIDA. VIVA-

MOS!

Pela UNIDADE dos povos indíge-

nas.

Aldeia de S. Francisco, 19 de junho

de 1989

1 ENCONTRO POTIGUARA DE LUTA

E RESISTÊNCIA

GUARANI (R.G.Sul) — ANAI (Associação

Nacional de Apoio ao índio) — Hilda

Zimmermann

JORNAL DO GRUMIN

Editor: Alcino Soeiro (Reg. 11.170 — RJ)

Dlagramação: Luís A. Batista

Composição: W.J. Editora e

Fotocomposição

Arte-flnal; Marcus Ventura

Impressão: Gráfica Urbanltárlos

Apoio: Sindicato dos Urbanltários - RJ

More magazines by this user
Similar magazines