PONTO Mi VISTA

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PONTO Mi VISTA

PONTO Mi VISTA

Centro de Formação Urbano Rural Irmã Araújo - CEl r URLA

Rua Dr. Muricy - 542 - 99 andar - sala 906 -Curitiba-fR

0 PACOTE AGRÍCOLA

1) O fato • No dia 1 Ç de julho o governo federal

anunciou diversas medidas de política agrícola, rela-

cionadas com o crédito rural, que resultaram de inten-

sas negociações entre representantes da Frente Am-

pla da Agropecuária (que reúne entidades patronais,

ou seja, de grandes proprietários) e o governo. Antes

do anúncio das medidas, na noite do dia 30 de junho,

o próprio presidente da República teve uma • longa

reunião com os ministros da Fazenda e da Agricultura .

e com o representantes da Frente Ampla, que também

participaram do anúncio oficial das medidas. A Frente

Ampla, que hoje também é integrada pela UDR, con-

trola abertamente a elaboração- das políticas agrícolas

e agrária do governo federal.

2) As razões do fato - A primeira razão é que as

normas de crédito rural então em vigor só valiam até

30 de junho. As normas de crédito rural adotadas a

partir dO' início do Plano Cruzado (28/02/86) tinham vi-

gência até 28/02/87, mas foram estendidos em parte

até 30.06.87. Elas não eram convenientes para o go-

verno, porque nãó incluíam claramente a correção

monetária, que o governo declarou extinta com o Pla-

no-(Sruzado, uma vez que se anunciava que a inflação

iria acabar. Os grandes proprietários, ao contrário, ten-

taram prolongar esta situação o mais possível), porquê

o crédito subsidiado, do qual eles são os principais-

beneficiados, lhes traz grandes lucros. Por isso, anda-

ram se mobilizando desde o fim de 1986, formando a

Frente Ampla,'para pressionar o governo e impressio-

nar a opinião pública.

Além do fato de que o dia 30 de junho era a data

final das normas existentes do crédito rural, outro mo-

tivo das medidas foi ã necessidade de divulgar os noi-

vos VBCs - Valores Básicos de Custeio, e as condi-

ções de liberação dos mesmo, uma vez que o segun-

do semestre, época de plantio da safra de verão, está

se iniciando.

3) Alguns cuidados na inteqxetaçãò do pacote

agrícola

É preciso tomar alguns cuidados na interpreta-

ção, para não cair no jogo patronal. São os seguintes: i

a) As medidas anunciadas não podem ser

chamadas de "política agrícola", mas apenas de políti-

ca de crédito rural. Isto porque elas só atingem os ag

cultores que têm acesso ao crédito rural, que são ape-

nas cerca de um terço do total de agricultores do Bra-

sil. Uma política agrícola séria deveria preocupar-se

com todos os aspectos da atividade agrícola e com

tod s os agricultores, e não somente com o crédito,

que interessa, do jeito que funciona hoje, principal-

mente aos grandes proprietários. Mesmo entre os

agricultores que fazem financiamento rural, somente

uma minoria - justamente de grandes proprietários -

obtém a maior parte do crédito e tira grandes vanta-

gens dele. Para os pequenos agricultores que fazem

financiamento, o crédito muitas vezes é causa de ruí-

na.

N: 03

VdÇül NKõySaJo ,

DCüçOí Túruguem we -tít-^.

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JULHO/87

b) A política agrícola não funciona de modo igual

para todos os agricultores, porque estes não são

iguais. Os representantes patronais sempre tentam

nos fazer crer que estão lutando pelo interesse de to-

dos os agricultores, grandes e pequenos. Quando

reivindicam crédito subsidiado, parece que estão de-

fendendo as suas reivindicações. Mas é preciso lem-

brar que os principais interessados no crédito barato

são os grandes proprietários. Afinal, quanto mais ba-

rato o crédito, mais se lucra com ele. E como os gran-

des produtores são mais poderosos- econômica e poli-

ticamente - são eles que obtêm a maioria deste di-

nheiro, como provam as estatísticas do governo. Para

que o crédito subsidiado chegue nas mãos dos pe-

quenos agricultores, é preciso que se fixe um módulo

máximo pra fins de crédito rural. Isto é o que propõe

acertadamente a Articulação da oposição sindical dos

trabalhadores rurais.

Por isso é preciso sempre ter o cuidado de ver a

quem cada medida do governo favorece. Quase sem-

pre elas são feitas para favorecer os grandes proprie-

tários e as agroindústrias.

c) Pode-se resumir estas idéias dizendo que a

política agrícola pode ser de dois tipos: ela pode ser

feita para beneficiar os grandes proprietários e a

' agroindústria associada a eles, nesse caso é uma polí-

tica agrícola chamada de empresarial - latifundiária,

que sempre existiu no Brasil, Mas ela poderia ser feita

para beneficiar a maioria dos agricultores, que são pe-

quenos e médios, e os trabalhadores rurais, nesse ca-

so ela é uma política agrícola democrática popular,

que não existe no Brasil e pela qual a oposição sindi-

cal está lutando.


- UMA ANALISE

4) O pacote agrícola - Este pacote agrícola resul-

tou de uma baganha feita entre os grandes proprietá-

rios e o governo federal. O governo federal queria res-

taurar a correção monetária do crédito rural, e os

grande proprietários queriam subsídios, tanto quanto

for possível. A barganha foi feita: o governo federal

ampliou as insenções de correção monetária já con-

cedidas no primeiro semestre, e concedeu generosa

correção dçs VBCs que a partir de agosto também

passarão a ser corrigidos pelas OTN's. Em compensa-

ção, o crédito rural passa novamente a ter correção

monetária, atavés dos OTN's, mais juros de 7 a 9% ao

ano, a partir de julho. Pode parecer que os grandes

proprietários se conformaram com o fim do subsídio,

mais isto não é verdade. Esta barganha de agora e as

medidas dela resultantes são apenas mais uma etapa

do processo permanente de barganha. Certamente

dentro de poucos meses (provavelmente no fim deste

ano ou início do próximo) será reiniciada nova ofensi-

va para reintroduzir subsídios de algum tipo. Os repre-

sentantes patronais já antecipam isto agora: apesar de

se declararem satisfeitos com as medidas do governo,

já dizem que os juros são muito altos, que a correção

monetária torna a agricultura inviável, e assim por

diante.

Foram as seguintes as principais medidas do

pacote:

ISENÇÃO DE CORREÇÃO MONETÁRIA Al-

gumas insenções já haviam sido concedidas durante o

primeiro semestre, principalmente para mini e peque-

nos produtores. Agora ela foi uniformizada, isto é, a,

isenção foi estendida também aos médios e grandes

produtores. Estão isentos de correção monetária os

seguintes financiamentos:i

a) isenção até 30/06/87, para créditos de inve&

tímento, para todos os tipos de agricultores, pára fi-

nanciamentos contratados entre 15/5/87 até 28/2/87;

este direito também se estende aos contratas feitos

entre 1/3/86 a 15/5/86, com recursos obrigatórios dos

bancos, ou repassados pelo governo ao Banco do Bra-

sil;

b) isenção até 18/2/87, para os financiamentos

feitos com recursos obrigatórios dos bancos, desde a

concentração, nos casos de créditos de manutenção

para pequenos e miniprodutores, e isenção de 1 ç /3/86

até 28/2/87 para todos os demais créditos (quer dizer,

novamente, incluindo os grandes produtores);

c) estendeu-se aos grande produtores o benefício

concecido aos pequenos e miniprodutores através da

Resolução 1.306, que podiam renegociar as dívidas de

custeio e .investimento contratadas antes de 28/2/86,

estendendo o seu pagamento por até 4 anos, com 2

anos de carência. Agora os médios e grandes produto-

res também poderão fazer isto, com prazo de até 3

anos e um ano de carência, a partir de 28/2/87;;


6)0 PACOTE E O PLANO BRESSER O gover-

no federal está tentando ser recebido novamente pelo

FMI, o que quer dizer que deve submeter-se, bem

comportado, às regras impostas por ele, que signifi-

cam recessão, desemprego, queda de salários e estí-

mulo às exportações. Já se sabe que o Plano Bresser

foi apresentado ao FMI antes de ser anunciado ao

País. Pois o pacote agrícola foi feito também para

agradar ao FMI, pelo menos em duas de suas partes.

Uma delas é a extinção dos subsídios ao crédito rural,

pelo menos com intenção daqui para a frente (até que

a Frente Ampla e a UDR comecem novamente a re-

clamar). O subsídio ao trigo já foi retirado, recaindo

todo o seu peso sobre a população, na forma de gran-

des aumentos de preços. A segunda parte foram as

medidas de incentivo à produção de produtos exporta-

táveis através da ampliação dos VBCs para os gran-

des produtores deste produtos e da introdução do-

subsídio ao milho para os frigoríficos exportadores de

carne.

7) No crédito rural, somente a introdução do mó-

dulo máximo pode beneficiar os pequenos e médios

agricultores.

Como vimos, o pacote agrícola muito pouco

A REFORMA AGRÁRIA NA CONSTITUINTE

A proposta aprovada até agora na subcomissão

e na Comissão de Ordem Econômica, prevê uma le-

gislação agrária pior do que o Estatuto da Terra e

mais atrasada do que a Constituição de 1946.

Os pontos básicos, entre outros, são de que o la-

tifundiário quando desapropriado pode recorrer. 0 ju-

diciário fica responsável pela emissão de posse que,

em casos de desapropriações, devem ser pagas à vis-

ta, pelo preço de mercado e previamente. Isto sim-

plesmente significa inviabilizar qualquer desapropria-

ção de terras. E... todos nós sabemos aue comprando

terras não se faz reforma agrária empâis nenhum.

/ - UMA ANALISE

NO PARANÁ:

Multa luta e sofrimento. Acordos desrespei-

tados.

Repressão. Promessas não cumpridas. As-

sentamento de mais de duas mil famflias. Avanço

na organização dos Sem Terras.

Veja aqui um pouco da história da luta pela

terra no Paraná. Esta história nos traz elementos

importantes para a análise da conjuntura do nosso

Estado.

GOVERNO, LATIFUNDIÁRIOS TRABALHADORES:

1 - Campanha eleitoral de 1982: Richa promete

assentar 12.000 famílias em seu governo. O

PMDB entra no governo do Estado com o

compromisso da Reforma Agrária.

melhorou a situação da maioria dos agricultores, que

não têm acesso ao crédito rural ou que conseguem

apenas pequenos financiamentos, que são pressiona-

dos pelos bancos e produzem produtos de mercado in-

ferno, que não têm segurança de preços e de merca-

do. È claro que também os pequenos tomadores de

financiamentos terão isenção de correção monetária.

Mas as suas dificüdsdiS são tão grandes que isto re-

solve os seus problemas.

A política agrícola, para beneficiar a maioria, de-

veria, em primeiro lugar, contemplar o conjunto da si-

tuação dos agricultores, e não apenas o crédito e, em

segundo lugar, deveria introduzir-se o módulo máximo

pára fins de política agrícola e crédito rural, proibindo o

governo de repassar crédito ou prestar assistência aos

grandes proprietários, que já são excessivamente po-

derosos.

Mesmo não sendo criado o módulo máximo, o

pacote atual poderia ter criado maiores facilidades •

ou seja, subsídios - para os pequenos e médios agri-

cultores, mantendo as mesmas condições já existen-

tes para os grande, que já estavam sendo òencficiél;

dos. O governo, entretanto, faz o contrário: deixou as

coisas praticamente como estavam para os pequenos

te médios, e ampliou os benefícios para os grandes.

MARCOS FREIRE NO

'MINISTÉRIO DA REFORMA AGRÁRIA

A substituição de Dante de Oliveira no Ministério"

da Reforma Agrária por Marcos Freire se coloca como

mais um passo no sentido de desativar ainda mais o

processo de Reforma Agrária no Brasil. Marcos Freire

assumiu o Ministério sem o apoio do governador Mi-

guel Arraes, de Pernambuco, e nâ certeza de que não

ficaria mais,na presidência da Caixa Econômica Fede-

ral. Assim, aceitar o Ministério da Reforma Agrária

significou para Marcos Freire não ficarlsem um cargo

público, ainda que desprestigiado. Ao assumir, sua

primeira e principal incumbência foi de reduzir as me-

tas do Piano Nacional de Reforma Agrária (PNRA)

Os agricultores sem terra intensificam a luta pela

Reforma Agrária no Faraná com ocupação de ter-

ras.


O pessoal da Secretaria da Agricultura do

Paraná apoia discretamente os Sem Terra

fornecendo ajuda para infra-estrutura dos

acampamentos e ocupações.

A Aliança Democrática (PMDB - P FL - Tan-

credo - Sarney) entra no governo Federal

com o compromisso de fazer a Reforma

Agrária.

Cria-se o Ministério da Reforma Agrária e sob

o comando de Nelson Ribeiro sai o primeiro

Plano Nacional de Reforma Agrária (PNRA)

O PMDB começa a recuar. Richa pede mais

prazo para sair o novo Piano (PNRA) que es-

tava prometido para maio. Deveria ter saldo

em agosto. Acaba saindo só em outubro/85.

O governo do PMDB não quer a Reforma

Agrária. Isso fica mais claro com a saída do

então Secretário da Agricultura Claus Germer.

Entra Francisco Albuquerque na Secretaria da

Agricultura apoiado pela FAEP (Federação da

Agricultura do Paraná).

O PMDB passa a agir no sentido de desarti-

cular o Movimento dos Trabalhadores Rurais

Sem Terra do Paraná. A UDR se organiza no

Paraná.

8 - É criada a Secretaria Estadual da Reforma

Agrária: uma estrutura de sustentação da

candidatura de Euclides Scalco para deputa-

do Federal; uma riova maneira de criar confu-

são na cabeça das lideranças dos agricultores

e desarticular a luta pela terra no Paraná.

9 - Assentamento de 150 famílias em Cascavel

(agosto/86)

10 - João Elísio, embora conservador, é populista,

procura negociar. Novo acordo: Em troca do

pessoal sair de frente do palácio, João Elísic

assume o compromisso de que no seu go-

verno não haveria despejos e faria alguns as-

sentamentos.

11 - Entra Álvaro Dias. A Secretaria Estadual de

Reforma Agrária, já sem uma estrutura míni-

ma de funcionamento (com poucos recursos

e funcionários) fica ainda pior. Muda até de

nome: passa a ser Secretaria de Assuntos

Fundiários. Só continua existindo como for-

ma de manter a fachada, o discurso em favor

da reforma agrária.

12 - Com a entrada de Marcos Freire no Ministério

da Reforma Agrária são reduzidas as metas

do Plano Nacional de Reforma Agrária. No

PNRA a meta para o ano de 87 era assentar

17.000 famílias no Paraná, agora a meta é

. 3.000. E sabe-se que governador Álvaro Dias

considera essa meta otimista demais, isto é,

para ele não será alcançada.

/- UMA ANÁLISE

De definitivo neste período só existe a promessa

de que a Reforma Agrária depende do governo

federal. Assim, os agricultores Sem Terra fazem

diversas viagens a Brasília tentando solução para

q problema da terra. ■ '

E realizado em Curitiba o Congresso Nacional

dos Trabalhadores Rurais Sem Terra reforçando

a organização do movimento.

Plano ruim. Decepcionados, os Sem Terra resol-

vem pressionar o governo a fazer um plano me-

lhor, 1.200 famílias acampam no interior do Pa-

raná em julho/85.

Mais 1.200 famílias acampam no Paraná em pro-

testo contra o novo piano que está muito longe

de atender as necessidades urgentes dos traba-

lhadores. A reivindicação.é assentamento imedia-

to, cumprimento da promessa eleitoral.

Aumenta o confronto. Mais áreas são ocupadas.

Mais despejos. Alguns assentamentos.

Várias secretarias do governo- são ocupadas pe-

los agricultores (dezembro de 85)

Março/86: ocupação do INCRA estadual pressio-

nando para que os assentamentos fossem feitos.

Sai um acordo: 2.000 famílias seriam assentadas

até agosto e mais 2.000 até o final do ano de 86.

Acampamento em frente do Palácio Iguaçu: já

era julho/86 e nenhuma família havia sido assen-

tada. Vendo que o acordo não seria cumprido, ~?

trabalhadores Sem Terra vêm do interior em ca-

minhada e acampam em Curitiba no dia 17 de

julho de 1986.

Miguel Sávio, presidente do sindicato dos Tra-

balhadores Rurais de São Miguel do Iguaçu sofre

um atentado contra a sua vida.

- Outubro/86: 250 famílias ocupam uma área da

fazenda Padroeira do Brasil chamada Trento I.

As 250 famílias saem da área Trento I e vão para

outra área da mesma fazenda Padroeira (Trento

il, de propriedade de Antoninho Trento)

O Movimento dos Sem Terras se fortalece, con-

segue se impor nas negociações.

Saem quatro pequenas áreas para assentamento

de cem famílias.

- As 250 famílias que estavam na área Trento II da

Fazenda Padroeira ocupam outra área da mesma

fazenda: 1019 hectares pertencente ao INCRA e

que está nas mãos de posseiros (políticos, e fa-

zendeiros da região que pagam peões para tra-

balhar nesta área)


13 -

15

Esta ocupaçãofaz aflorar a reação articulada

da FAEP que envolve o governo Álvaro Dias

através de seu irmão e secretário da Agricul-

tura, Osmar Dias. Este, assume e se perfila

com a posição dos grandes latifundiários re-

presentados pela FAEP e pela UDR: "Não

existe terra no Estado do Paraná para fazer

reforma agrária!" Os posseiros, apoiados por

Osmar Dias, solicitam o titulo de propriedade

da área do INCRA.

14 - Osmar Dias isola na Secretaria da Agricultura

o setor que cuida dos assentamentos, corta

parte dos recursos e dos projetos de ajuda

para os acampados. Paulo Carneiro, presi-

dente da FAEP, diz "Se alguém entrar em mi-

nhas terras eu mato".

Impedindo a medição da área de Amaporã

(Paranavaí), Osmar Dias está facilitando o

despejo dos trabalhadores que lá ocuparam

setenta hectares de terras do Estado.

/ - UMA ANALISE

■ Aumenta a tensão, o conflito. Os trabalhadores

tomam a posição'de ficar na área a qualquer cus-

to. A tentativa de diálogo com Luiz Felipe Mussi,

Secretário de Assuntos Fundiários, é boicotada

pela intromissão de Osmar Dias, Secretário da

Agricultura.

O Movimento dos Sem terras entra com processo

contra Paulo Carneiro e Osmar Dias por incenti-

var a luta armada.

Os acampados resistem às pressões de des-

pejo e de dissolvimento dos acampamentos.

Até o momento foram assentadas 2.200 famílias no Paraná. Todas depois de muita luta e muita organização.

Os trabalhadores souberam construir ferramentas eficazes de luta, organizações como o Movimento dos Trabalha-

dores Sem Terra, ou Sindicatos Rurais autênticos que garantem importantes conquistas na luta pela terra.

Neste momento, o governo (e latifundiários) apostam na dissolução dos acampamentos tentando cadastrar o

pessoal com a orientação de que voltem para suas Casas. O governo incentiva a irrigação que favorece mais

aqueles que tem condições de investir, de fazer grandes financiamentos. Incentiva a agroindústria e as cooperati-

vas sob seu controle.

De outro lado, os trabalhadores lutam contra o despejo em Amaporã e na fazenda Padroeira. Resistem con-

tra a dissolução dos acampamentos. Organizam-se para a grande caravana à Brasília em setembro, para pressio-

nar o Congresso Constituinte.

A luta é por terra para quem nela trabalha, pela desapropriação imediata de todas as áreas de conflitos, pelo

fim da violência no campo e punição de todos os mandantes e assassinos de trabalhadores rurais. A luta épela

conquista de uma política agrícola que garanta, preços justos aos produtos, seguro agrícola, acesso ao crédito e

condições de comercialização. Lutar é resistir na terra em forma de cooperação agrícola e ajuda mútua.'Luta dos

trabalhadores rurais, articulada com a luta dos trabalhador urbanos, Para isto é importante a construção e o forta-

lecimento da Central Única dos Trabalhadores - CUT. Este desafio se coloca, agora mais do que nunca, quando

se aproxima o 3 g Congresso Estadual da CUT do Paraná.

Sarriey é apedrejado no Rio de Janeiro no dia 25

de junho:

"A reforma agrária parada, o arrocho salarial que

atinge 70% da população, a inflação projetada de

1.200%, tudo isso deixa a população insatisfeita.

" É razoável esperar que o povo perca a paciência

e se manifeste contra Sarney" (Pauio Sérgio Pinheiro -

professor da USP, JB-28/06/87).

"As vaias e as pedradas foram um momento de

explosão do povo" Chico Alencar - presidente da FA-

MERJ, JB-28/06/87)

" Para analisar se o que aconteceu no RIO é

uma forma correta ou não de se manifestar, teríamos

de ver também que as medidas do governo foram um

atentado contra o bem-estar e a sobrevivência da

ciasse trabalhadora. Daqui por diante, se não for to-

mada nenhuma medida para repor o roubo contra os

trabalhadores, cada vez que o presidente ou o ministro

Bresser Pereira aparece em público serão alvo de

manifestações contrárias". (Jair Meneguelli - presiden-

te da CUT, JB-28/06/87)

DETALHES

"Sempre acho qu^e reações violentas não são re-

comendáveis. Há muitas formas de demonstrar des-

contentamento mais aceitáveis do que pedras, pala-

vrões e outros gestos condenáveis. Isso aguça os con-

servadores que passam a pregar medidas de força. Eu

defendo que o povo se organize para protestar contra

a atual situação. E a greve é uma forma" (Joaquim

dos Santos Andrade - presidente da CGT -

JB-28/06/87)

"Um general R-I, que desempenhou importante

papel em 1964 e no governo Castello Branco, analisa'

a agressão ao presidente em frente ao Paço Imperial

como demonstração "organizada por companheiros in-

conformados", da ineficiência da segurança do presi-

dente, que estaria à mercê de acontecimentos mais

graves, caso a esquerda conquiste mais espaços. O

general insinua a vinculação da proposta do Senador

José Richa (de suspender os trabalhos do Congresso

Constituinte) à demonstração dos "companheiros in-

conformados". (Coluna do Castelo, Gazela do Po-

vo-07/07/87).


Sarney e apedrejado no Rio de Janeiro

no dia 25 de junho; ( continuação )

"Foi uma aventura. Podemqs até discordar do

presidente, mas temos de respeitá-lo como tal. O

apedrejamento é um terrorismo dentro do movimento

sindical. Só ajuda o que quer o retrocesso". (Luis An-

tônio Medeiros - presidente do Sindicato dos Metaidr-

gicos de São Paulo e vice presidente da CGT-SP, JB-

28/06/87).

"Por que o atentado ao salário de milhões de

brasileiros e a garfada na poupança da classe média

nunca merecem igual destaque?" (Chico Alencar, líder

comunitário - JB-01/07/87).

'Nessa época de grande tensão os pequenos fa-

tos são transformados em grandes.tragédias. Procure-

agora o governo aplicar num episódio em que foram

envolvidas 120 pessoas um remédio que assusta 130

milhões de brasileiros" (D. Paulo Evaristo Arns. Car-

deal de Sao Paulo • JB-06/07/87).

"Rol coisa de profissionais e não faz parte da ín-

dole do povo brasileiro. Por mais que utn governo erre,

ou melhor dizendo, que não acerte, esta nfio seria

uma atitude correta. Temos que respeitar os goveman-

tes". (Roberto Delia Mana - Diretor da FIESP,

"Que o povo vale Sarney. Sem violência e

agressões, mais vaie mesmo" (Leonel Brlzoia - PDT,

Revista Afinai 07/07/87).

"O incidente foi uma provocação sem senlido"

(f lávio Teles Menezes • presidente da sociedade Ru-

ral Brasileira, JB-28/06/87)

A REVOLTA POPULAR NO RIO

No dia 30/06/87, acontece no Rio a revolta po-

pular contra o pacotão:

Os principais slogans gritados neste dia pelo

povo foram:

"Aumento não, abaixo o pacotâol"

"Soldado, soldado, também é explorado!"

"Saúde, educação, abaixo a repressão"

"Constituinte/bota no papel/lugar de soldado/ô

dentro do quartel"

■' (Ao ritmo da canção Marcha Soldado)

"Pinochet do Maranhão á safado e.é ladrão"

"Fora Sarney, Diretas-Jâ"

"Q Povo não esquece, Sarney á PDS"

"O Povo não é bobo, abaixo a Rede Globo" (JB-

01/07/87)

"Como existem os Sem Terra, adora o movimen-

to é dos sem-õnibus, dos sem tudo" (Sedi Hirano, So-

ciólogo • Revista Ve)a 08/07/87) ,

"Essa gente só viu malogro, na campanha das

diretas, na morte do Tancredo e no fim do cruzado.

Nessa situação não há horizontes". (Lúcio Konarick -

professor de Ciências Sociais • Veja 08/07/87).

"A revolta do povo está na garganta, pronta para

explodir". (Nelson Canelo! • comerciante • SP, vela

08/07/87).

A revolta foi vitoriosa com o congelamento do

preço das passagens de ônibus:

"Eles agora só atendem a gente debaixo de pau.

Não adianta mais a gente fazer passeata com prote-

ção da polícia". (Sindicaiista carioca - JB-02/07/87)

"Sentimm a firmeza do povo" (panfleto do PT -

JB-02/07/87)

"Povo impôs vitória importante" (Panfleto da

Convergência Socialista - JB-02/07/87)

"Os tumultos ocorridos no Rio constituíram uma

revolta espontânea motivada pela legitima insatisla-

çâo popular" (Álvaro Dias, governador do PR - O Glo-

bo 02/07/67).

"O Senhor Sarney quer íicar no governo a qual-

quer preço, sem o voto do povo e até mesmo contra a

vontade dos brasileiros. Era de se prever esta violên-

cia, com os preços aumentando e os salários congela-

dos. E urgente substituir-se o presidente atual por um

eleito. Sua permanência é o desgoverno". (Leonel Brl-

zoia.- PDT, JB-02/07/87)

, "Essa vertente chilena - o panelaço, buzinaço e

p badernaco - bode acabar num 'pinochetáço' que só

interessa á ditaita". (Roberti; Requião, prefeito de Cu-

ritiba - Correio de Noticias 02/07/)

"O que ocorreu no Rio d© Janeiro pode ocorrer

em qualquer parte do pais. Quem vive de salário está

em situação de desespero." (Francisco de Assis Silva,

tocador de zabumba na feira do SP • Revisla Veja

08/07/87)

"Em Brasília, Sarney vai para a missa, cercado

por 800 soldado do Exército, armados de metralhado:

ras, cassetetes e bombas de gás lacrimogêneo, na

maior demonstração de força que a capital assistiu

desde o badernaco de novembro último" (Revista Ve a

• 08/07/87).

"De alguém que vai à missa resguardado contra

a proximidade do povo por 1.000 soldados, pode-se

esperar tudo". (Revista Senhor - 07/07/87).ls

E, depois disso, Sarney no Acre, dia 02/07, cer-

cado por 1.200 soldados do Exército, policiais militares

e federais, enquanto o povo gritava: "Acre também é

Brasil, ei, ei, ei, fora Sarney. "O povo não agüenta

Sarney até 90" (Revista Veja - 08/07/87).

Nos dias 22,23 e 24 de julho os petroleiros esta-

rão elegendo nova diretoria para o seu Sindicato.

Concorrem duas chapas, uma da CUT, outra da CGT.

Os trabalhadores rurais de Rio Branco do Sul or-

ganizaram uma chapa de oposição que estará concor-

rendo na próxima eleição de seu Sindicato.

O CONGRESSO ESTADUAL DA CUT será nos

dias 21, 22 e 23 de agosto em Londrina.


"Ponto de Vista" é uma publicação mensal, de circulação interna, elaborado pela

Equipe de Conjuntura do Centro de Formação Urbano Rural irmã Araújo - CEFURIA

Rua Dr. Murici - 542 - 9? andar - Sala 906 - Curitiba - PR - Fone: 234-7833 —

Uma história de muitos conflitos

A Fazenda Padrçeira do Brasil, em.

Matelândia, Oeste

do Estado, vem

sendo há muitos

anos foco de conflitos.

Sua história,

que começou

quando ainda se

chamava Colônia

Rio Quatro', è marcada

por muitas

mortes causadas

por disputas de

terra. A colonização

da área ocorre

u de forma

desordenada e a

situação ficou

ainda mais complicada

quando o

governo do Estado

resolveu vender

lotes que Já tinham

proprietários. Essa

superposição de títulos

de propriedades

levou o lucra,

em 1977, a desapropriar

a

Fazenda para fim

de regularização

fundiária.

A parte escura

De 77 para cá.

os cerca de 7 mi! hectares da Fazenda

Padroeira foram divididos em sete

grandes áreas. As mais conhecidas

são a Tremo I, Trento II, a Colrefa! e

as terras dá família Padovani, Apesar

de aparentemente pacata, a cidade de

Matelândia Já assistiu inúmeros con-

Jlitos nessas fazendas. A área dos

Padovani, onde, segundo os morado-

res da região, Já morreu um número

incontável de sem-terras, permanece

até hoje proiegic{a por "Jagunços". Os

1.019 hectares invadidos pelos sem-

terras que deixaram a Trento I foram

NO MÊS DE JUNHO...

FAZENDA

PADROEIRA

DO BRASIL

representa a área invadida,

caracterizadados em 77 como área de

prioridade para rejorma agrária no

Estado.

Em I9S2, o decreto de desapropria-

ção Jol inexplicavelmente anulado mas

os 1.019 hectares continuaram pro-

priedade da lucra. Essas terras, que

inicialmente abrigavam 1.300 famí-

lias, estão divididas hoje em IQ pro--

priedades, que de acordo com o Incra,

variam de 40 a 90 hectares. São esses

os posseiros que exigem agora do

lucra o título definitivo de proprie-

dade. 0EP-26/06/87

Foi reeleito Leônidas Teíles como presidente do

Sindicato dos Trabalhadores rurais de Pérola.

A chapa 2, de oposição, perdeu eleição para o

Sindicato de Papel e Papelão de Telêmaco Borba.

A Chapa de oposição ganhou eleição para o

Sindicato de Ceramistas de Campo Largo.

Os trabalhadores da HD- construção civil- fica-

ram em greve durante 10 dias.

Os professores da Universidade de Maringá ter-

minaram sua greve de aproximadamente 60 dias.

A chapa LIBERTAÇÃO, (oposição) que concorria

ao Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Ali-

mentação de Toledo, foi colocada fora do processo

devido às pressões da SADIA e por omissão da Justi-

ça local.

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CONSTRUÇÍÜD CIVIL

Os trabalhadores da ctonstru^ão civil.

de Londrina retornam, hoje; as suas

atividades depois de 29 dias em greve.

O retomo ao trabalho foi decidido em

^ assembléia, realizada ontem no Mo-

\ringao, pela maioria dos grevistas.

^ Eles, contudo, pretendem continuar

° as negociações sobre o aumento sala-

o rial com os patrões. Os operários es-

; ^ peram receber, ainda hoje, o paga-

_j mento dos dias parados, conforme a

WH determinação do Tribunal Regional

do Trabalho, que julgou legal o

movimento.

Pesquisa apura alta

de 23,2% do

custo de vida

em junho. E o

salário mínimo bate

novo recorde como

o pior da história

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Paraná faz ato

de 25 mil pela

reforma agrária

Mais de 25 mil pessoas participa-

ram ontem da 3 a Romaria da Terra, na

cidade de Lapa, á 60 quilômetros de

Curitiba, na maior manifestação pela

reforma agrária realizada no Paraná. A

romaria, organizada pela Comissão

Pastoral da Terra, reuniu lavradores de

todas as regiões do estado, que assisti-

ram também a um culto ecumênico.

Antes do culto, líderes de sindica-

tos de trabalhadores rurais e religio-

sos fizeram um encontro para discutir

as formas de a Igreja atuar como inter-

mediária, levando ao governo federal

as reivindicações dos agricultores. O'

bispo de União da Vitória, dom Walter

Ebeger, alertou para a gravidade da

crise no meio rural, que pode culmi-

nar em uma revolta social.

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