Produto – Fandango - Teia Notícias

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Produto – Fandango - Teia Notícias

O estado de faixa litorânea

mais modesta do país tem uma

manifestação artístico-cultural

tão modesta quanto. Mas não no

sentido de recursos e de potencial,

e sim no de humildade. O

Fandango paranaense é a tradição

e o folclore em rica profusão

de elementos e originalidade,

porém limitada pela não menos

tradicional fama do paranaense

de não cantar seus feitos. Contudo

as marcas do Fandango

compassadas no solado de madeira

dos tamancos, continuando

ecoando no oco do assoalho, e

ribombando na cabeça de um

número ascendente de interessados.

Dentre eles, a autora da

presente obra, hoje apaixonada

pelo Fandango e eterna entusiasta

os feitos de mestres, dançarinos

e músicos, protagonistas de

uma arte viva, pulsante e legitimamente

paranaense.


Fandango,

o bailado de gerações


Heloisa Garrett

Fandango,

o bailado de gerações


Produção Editorial

Heloisa Garrett

Capa:

Jean Torres

Fotografia da capa:

Heloisa Garrett

Revisão:

Danielli Artigas

Mário Lopes

Orientadora:

Eliane Basílio

Curitiba

2009


Para meus amados, amigos e

todos aqueles que

se emocionam com a harmonia

da rabeca e da viola e com o

batido dos tamancos.


Sumário

Introdução.............................................................................................11

O Fandango..........................................................................................15

Fandangueiros......................................................................................19

Família Pereira......................................................................................23

Mulheres no Fandango .........................................................................27

Um jovem Fandangueiro........................................................................31

Fandanguará .......................................................................................37

Associação Mundicuéra........................................................................41

Fandango na Escola..............................................................................45

Uma vida ao Fandango...........................................................................47

Pesquisa..............................................................................................55

Preservação.........................................................................................59

Subindo a Serra...................................................................................61

Dia de Fandango...................................................................................65

Só o começo.......................................................................................71

Anexo I - Contexto Caiçara .......................................................................75

Anexo II - Características Gerais..............................................................77

Posfácio - Modernidade e tradição, a encruzilhada do Fandango.................81

Agradecimentos ..................................................................................87

Onde saber mais sobre o Fandango, algumas dicas de leitura ....................89

Referências bibliográficas.....................................................................93


Heloisa Garrett


Introdução

De que adianta iniciar um processo de pesquisa de algo que já se conhece,

quando o bom mesmo é ter aquela sensação de insegurança ao entrar em um

ambiente desconhecido?

Foi essa pergunta que me fiz quando tinha que tomar a importante decisão

do que seria o meu objeto de pesquisa durante o meu Trabalho de Conclusão de

Curso. Optei por um caminho desconhecido, enquanto era muito mais fácil apresentar

um projeto de produto dentro de uma das áreas do jornalismo em que já

atuo.

Minha escolha foi a cultura popular. E ela não foi motivada por eu ser uma

pessoa que goste de folclore ou das manifestações que têm origem no povo.

Esta decisão foi motivada pela minha falta de conhecimento dentro dessa temática.

Sabia da importância de conhecer mais sobre as origens da nossa cultura, saber

o que é o folclore do Paraná, saber o que era esse Fandango que vez ou outra

ouvia falar.

Involuntariamente, quem me incentivou a escolher o Fandango foi uma

amiga produtora cultural, Rejane Nóbrega, que desenvolveu alguns importantes

projetos como congressos e seminários de Cultura Popular na minha cidade e

eu, como assessora de imprensa na época, tive que descobrir na marra o que

era Fandango, Boi-de-Mamão, Congada, entre outras danças típicas do nosso

folclore.

Quando comecei a falar que iria desenvolver uma pesquisa sobre o

Fandango, o bailado de gerações

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Fandango, as pessoas com as quais eu convivo ainda achavam que Fandango

era uma dança gaúcha. Não deixava de ser, mas o Fandango a que eu me referia

era o Fandango caiçara, característico do litoral paranaense.

Quando comecei o levantamento teórico para entender mais sobre as peculiaridades

do folclore e da cultura popular, fui descobrindo um universo fascinante

que me deixou perplexa na vontade de querer conhecer mais, não só

sobre o Fandango, mas sobre as outras manifestações culturais do Paraná, em

estado que tem sua riqueza cultural bastante diversificada com a contribuição de

várias etnias.

Começando a me aprofundar na pesquisa sobre o Fandango, tive contato

com muitas pessoas que me ajudaram a encontrar os personagens certos, dispuseram

de tempo para relatar suas experiências, indicaram bibliografia e me

ajudaram a encontrar a direção para a minha pesquisa.

Esta direção me fez chegar a casas humildes no litoral paranaense. Seja

em Paranaguá, Valadares ou Guaraqueçaba, sempre fui recebida com muito

carinho, e quem me avisou antes que os mestres eram machistas se engana redondamente.

Nesses meses de pesquisa encontrei pessoas doces, que, mesmo

cansadas de contar já tantas vezes suas histórias para pesquisadores, não se

incomodaram em gastar do seu tempo comigo.

Aprendi que o Fandango não é só música e dança; ele é uma vivência,

uma história que persiste ao tempo, às revoluções históricas, à discriminação e

se mantém viva, cada vez mais viva no coração dos velhos mestres fandangueiros,

e ressurge nos dedos finos e franzinos dos meninos que estão resgatando a

cultura de seus pais e avós.

O Fandango por muito tempo foi o único divertimento no litoral paranaense.

Tanto os livros como os próprios fandangueiros relatam que a origem dessa

manifestação artística e cultural é ligada à agricultura, ao trabalho no campo.

Uma das formas de bailar Fandango era o mutirão. As famílias caiçaras sobreviviam

da troca de produtos, e muitas vezes o pagamento para o dia de trabalho

era uma noite com mesa farta, animada pelo batido dos tamancos e pelo som

das rabecas e violas.

Quando tinha um batizado ou um casamento, o que eles iam fazer? Um

Fandango. Quando não tinha nada, o que eles iam fazer? Um Fandango. Se não

tinha serviço, cada uma das pessoas trazia alguma coisa: uns traziam arroz outros

traziam feijão, banana; surgiam assim vários motivos para promover um

baile de Fandango. Oportunidade para comemorar não faltava, e essa festa

além de envolver música e dança, congregava pessoas que cultivavam a vivência

na comunidade.

12 Heloisa Garrett


Depois de conturbados momentos históricos e do surgimento do rádio,

que acabou tomando um pouco do espaço destinado ao Fandango, ele foi ficando

mais tímido.

Mas quem disse que Fandango é dança de velho? O Fandango é jovem,

conhecê-lo é respeitar nossas origens, e mesmo que você só conheça o litoral

paranaense por passar alguns dias de verão naquelas praias, é importante que

conheça um pouco da história e dos valores desse povo tão rico que são os

caiçaras. Para isso convido você a conhecer um pouco mais dessa riqueza da

nossa cultura popular que é o Fandango.

Fandango, o bailado de gerações

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14 Heloisa Garrett


Fandango, o bailado de gerações

O Fandango

Muito se discute sobre a origem do Fandango, mas eu peço licença e

começo este livro-reportagem afirmando que a sua origem não está nas danças

trazidas pelos colonizadores europeus, mas sim na cultura de um povo caiçara

que encontrou nas marcas de uma dança uma forma de diversão, de celebração.

Não se pode tirar deles o mérito da origem do Fandango.

O Fandango está presente em várias regiões do território brasileiro, desde

o Rio Grande do Sul, até regiões de São Paulo e Mato Grosso do Sul,

adentrando também as terras dos nossos países, como a Argentina e o Paraguai.

Fator que não pode nos limitar a dizer que a cultura popular está submetida a

uma marcação de terra, a cultura adquire sua forma, seus traços, graças aos

personagens que dela fazem parte. E, neste livro-reportagem, quero me ater aos

personagens caiçaras que fazem do Fandango a sua cultura, a sua história e a

certeza de que a sua origem não ficará esquecida.

Mesmo que o Fandango tenha se originado na Península Ibérica e chegado

ao território paranaense graças aos portugueses que vieram explorar essas terras

e suas riquezas naturais, ela certamente ganhou características peculiares no

nosso litoral porque nossos índios já tinham a sua cultura, a sua forma de celebrar

a felicidade. Mas se foi assim, podemos dizer que as violas e rabecas das

ilhas paranaenses deram a esta popular manifestação um ritmo marcado pela

alegria caiçara.

Para o historiador Inami Custódio Pinto, o Fandango pode ser considera-

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da como a mais legítima manifestação cultural popular do Paraná. Para ele, o

Fandango se constitui como um grande conjunto de danças regionais, chamadas

de marcas. Já em outros estados, encontra-se uma ou outra denominação. Ele

destaca ainda que o Fandango é uma dança típica dos caboclos e pescadores,

habitantes da faixa litorânea do Paraná.

No litoral paranaense o Fandango sempre esteve atrelado ao cultivo da

terra, à forma de viver dos caiçaras. Ele era bailado para comemorar a lavoura,

para comemorar o dia de trabalho. Não seria justo depois de um intenso dia de

batente coletivo cada um simplesmente ir para sua casa, então o patrão pagava

a labuta com uma farta mesa de café com biju e uma boa batida de Fandango.

Uma dança sendo usada como moeda.

Tudo é motivo para dançar Fandango. Seja a comemoração do trabalho,

as festas religiosas, casamentos, carnaval... Enfim, o Fandango é festa. Os

mutirões de Fandango hoje são mais raros, mas nem por isso deixaram de acontecer.

Hoje os clubes de bailes, as festas comunitárias, além da formação de

grupos artísticos são, as maneiras usadas para manter o Fandango vivo no cotidiano

caiçara.

E quem está acostumado com a rotina corrida da cidade grande, pode até

cometer um grave engano ao chegar em terras caiçaras e pensar o que fazem

esses homens a passos vagarosos pelas ruas, o que têm tanto a conversar pela

rua em horas de sol a pino. Mas como eles mesmos dizem: ganhar dinheiro para

quê se para viver já temos fartura de comida e o Fandango, que é a melhor

diversão?

São valores diferentes, valores que refletem na qualidade de vida de pessoas

de 70, 80 anos que não se queixam de dores nas pernas ou da solidão

deixada pelos filhos que saem de casa. São jovens que viveram muitas décadas

e esperam ansiosos o próximo baile, não importando quanto terão que andar, ou

quantas horas viajarão de barco até chegar aonde se possa ouvir a batida dos

tamancos e o som da viola entrosado com a rabeca.

A maestria do Fandango está no seu conjunto. Instrumentos musicais,

melodias, versos, o giro das saias e o batido dos tamancos fazem parte da complexa

estrutura do Fandango. Um compassado de coreografias e músicas que

têm características próprias em cada localidade, em cada grupo.

Dentro da formação instrumental, o Fandango é formado por, no mínimo,

um tocador de rabeca, um tocador de adufo e dois tocadores de viola. Mas

claro que esta formação pode sofrer variações de grupo para grupo, de ocasião

para ocasião e outros instrumentos de percussão podem ser incorporados como

o machete, pandeiros e surdos. O que mais chama a atenção no Fandango são

16 Heloisa Garrett


as características específicas de cada região, uma forma musical única de um

grupo, bailados e valsados exclusivos.

O que deixa o Fandango ainda mais original é que todos os instrumentos

usados são de fabricação artesanal, com técnicas rústicas que foram passadas

de geração para geração, usando madeiras típicas da região litorânea como a

caixeta. A viola do Fandango tem algumas características semelhantes à viola

nordestina, mas a grande variação está no número de cordas. A rabeca encanta

primeiramente pelas suas belas curvas que mostram a beleza de um instrumento

que tem como função enfeitar o Fandango, não só pela riqueza do seu som, mas

também pela forma que a madeira toma nas mãos dos artesões caiçaras. Para

acompanhar o ritmo, existe o adufo , um ancestral do pandeiro. São todos instrumentos

rústicos, que carregam uma beleza particular.

Já as danças podem ser divididas em batidas ou rufadas, que exigem do

dançador conhecimento prévio das coreografias em virtude de sua complexidade

e variações; valsadas ou bailadas, em que os pares dançam juntos pelo salão

e têm coreografias mais simples. Um entrosamento entre versos, melodias, o

rodado das saias das mulheres e o sincronizado batido ou rufar dos tamancos

dos homens. Para o descanso dos bailarinos, durante o baile as marcas valsadas

são intercaladas ao bailado e às batidas. O tablado ou o chão de madeira onde

o Fandango é dançado às vezes chega a intimidar o som da rabeca, das violas e

do adufo.

As marcas batidas cansam os fandangueiros. Feitos de madeira e couro,

os tamancos são pesados e em poucos minutos as camisas dos batedores ficam

encharcadas de suor. O melhor batedor é aquele que, com mais força, bate o

tamanco no chão, que, embora seja de madeira-de-lei, chega a partir e, às vezes,

a rachar as tábuas do assoalho. Um batedor de Matinhos chegou a receber

o apelido de Machadinho, e ficou conhecido em todo o litoral pela força com

que batia seus tamancos.

O uso de tamancos no Fandango teve origem quando a dança era usada

para descascar arroz, o que os caiçaras chamavam de fazer gambá: os participantes

do ritual sapateavam sobre os grãos até que a casca se soltasse, fazendo

esse processo num bailado em roda que viria a evoluir para o Fandango tal qual

o conhecemos. O Fandango é também cheio de costumes: errar uma marca, por

exemplo, é chamado de balaio, e motivo de grande vergonha. Antigamente, as

convenções em relação ao balaio eram tão graves que quem errasse uma marca

era acometido de tanta vergonha que chegava a mudar de localidade.

Apesar da seriedade punitiva e vexatória de se errar uma marca de

Fandango, não existe um comando para a coreografia. Antes do início da dança,

Fandango, o bailado de gerações

17


os cavalheiros batem palmas e os tamancos sapateando pela sala sem música a

fim de influenciar as damas, chamá-las para a dança. Apenas sabem quando o

baile vai acabar quando um dos violeiros grita:

- Ô, de casa!

18 Heloisa Garrett


Fandango, o bailado de gerações

Fandangueiros

Quando se encontra um mestre fandangueiro você já pode saber que passando

alguns minutos ao lado deles você vai aprender muito. Homens se orgulham

de ter participado dos bailes e batido seus tamancos, ou que ainda se

orgulham por manter viva a tradição do Fandango entre os caiçaras.

Encontrar um mestre pode não ser uma tarefa das mais difíceis, basta procurar.

Eles, mesmo cansados de receber pesquisadores que fazem visitas exaustivas

querendo sempre saber a mesma coisa, abrem as portas de suas casas,

acomodam-nos em suas varandas cheias de flores e começam a contar, a relatar

os feitos da infância, da mocidade, tudo isso em nome da vontade de manter

viva a tradição do Fandango.

Foi assim que aconteceu com Mestre Romão, um dos mais respeitados

fandangueiros do litoral paranaense. Chego a sua casa em uma tarde chuvosa de

sábado, em agosto de 2009. Ele certamente estava tirando uma cesta, porque

demorou para atender às minhas batidas de palmas. Veio até a varanda, eu me

atrevi em adentrar no quintal. Eu disse que estava fazendo uma reportagem sobre

o Fandango, e ele imediatamente pediu que eu me acomodasse em uma das

cadeiras da varanda. Ali mesmo ele começou a falar sobre a origem do Fandango,

controversa como sempre, antes mesmo que eu desarmasse o guarda-chuva.

O discurso dava a impressão de estar decorado, de tantas vezes que já

contou as mesmas histórias. Elas surgem com tanta facilidade que as minhas

indagações, considerações e vontade de saber mais parecem não importar; ele

quer mesmo é contar seus feitos e não responder perguntas.

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Uns dizem que vieram dos Açorianos colonizadores, outros dizem que vieram

de São Paulo, uns afirmam que vieram de Cananeia primeiro, outros juram

que subiu diretamente do Rio Grande do Sul, então ninguém sabe bem a origem

certa. Eu sei que aqui em Paranaguá veio pelo cargueiro dos açorianos em

1755. Ele chegou a Paranaguá num navio daqueles que levavam escravos. Então,

nesse navio vieram os portugueses e os espanhóis, que trouxeram o Fandango,

que ficou na Ilha da Cutinga. Depois de um certo tempo, os espanhóis sentiram

saudades da terra deles e começaram a fazer serenata e, quando foi dez e meia

da noite, os índios entraram no meio e começaram a dançar Fandango na Ratada

(região do litoral paranaense). Dali em diante, começou a espalhar-se pelas regiões

do Paraná inteiro.

O relato de Mestre Romão, mesmo que ensaiado, conta ainda que quando

aconteceu a Primeira Guerra Mundial, acabaram com o Fandango, porque os

jovens eram chamados para defender a pátria e, em vez de defender a nação,

corriam para o mato para se esconder. Isso chama a atenção do exército e

todas as luzes acessas nas matas do litoral era vistoriadas, assim o Fandango foi

reprimido.

“O quartel general mandava os fiscais procurarem em que parte os soldados

caiçaras estavam e trazê-los vivos ou mortos, aí então iam nos sítios perguntar

do pessoal e diziam que não sabiam onde eles estavam, aí convocavam a

mãe e o pai dos soldados para vir para Paranaguá encontrar os filhos que estavam

escondidos”, afirmou Mestre Romão.

“Depois veio a Segunda Guerra Mundial, a revolução dos estados e tudo

isso foi acabando com o Fandango. Depois que terminou a guerra, ninguém

podia dançar o Fandango ou ficar de luz acesa porque os guardas prendiam

quem estivesse de luz acesa. Depois que terminou o Fandango, veio a religião

dos pentecostais, uma das primeiras religiões, e os pentecostais chegavam nos

sítios e perguntavam para os moradores, qual é sua religião?, - eu sou católico;

qual tua atividade?, - eu danço Fandango; e começaram e colocar medo neles

falando que dançar Fandango é pecado e quando morressem não se salvariam e

o pessoal começou ficar com medo. Depois os filhos saíam do sítio, iam pra

cidade, ficavam no quartel e, quando acabou a revolução, os filhos permaneciam

no quartel e não voltavam mais para casa, porque lá tinham ajuda de custo,

e o pai e a mãe ficavam com saudades e iam para a cidade ficar junto com os

filhos, e com isso foi desaparecendo o Fandango, o povo caiçara foi se diluindo”,

relatou Mestre Romão.

Segundo seu relato, em 1964 apareceu um professor para ajudar a resgatar

o Fandango: Inami Custódio Pinto, que depois veio a se tornar seu compa-

20 Heloisa Garrett


dre. Nessa ocasião foram convidados 12 casais para ensaiar e dançar o Fandango,

e, depois de 12 ensaios, fizeram a primeira apresentação no Colégio Estadual

do Paraná, em Curitiba, depois no Palácio do Governo, no Canal 12, Canal 4 e

Canal 6.

“Começamos a divertir o pessoal, em todo o Paraná, e começamos a resgatar

o Fandango”, lembra, orgulhoso.

Depois dessa aula de história, Mestre Romão me contou como começou

no Fandango. Suas primeiras batidas foram aos oito anos de idade, porque seu

avô era cortador de mandioca e só vivia de plantação, da lavoura, e tinha uma

família grande de quatorze filhos: doze filhas mulheres e dois filhos homens, então

só com os filhos dele já formavam um grupo de Fandango.

Eles faziam de dois a três festivais por ano para poder sustentar a família,

então convidavam o pessoal das ilhas, os lavradores e os moradores com os

quais sustentavam amizade. No sábado se precisassem ir às casas eles iam.

Davam o café da manhã, quando eram onze horas iam almoçar, descansavam

um pouco e, depois de uma hora, iam para a roça novamente. Quando terminavam

a empreitada, retornavam. Aqueles que moravam longe ficavam na casa do

Fandango, quem morava perto ia para casa. Depois voltava e começavam a

dançar o Fandango por volta das oito da noite. Iam das oito às nove da manhã

do outro dia, depois faziam a domingueira das três da tarde até a meia-noite e só

depois disso é que iam embora.

Ao longo de sua vida, Mestre Romão já formou 13 grupos de Fandango,

sempre trabalhando com jovens de 13 a 16 anos. Ele se orgulha pelos grupos

terem sempre sido formados por jovens, meninos que aprenderam a como bater

os tamancos e meninas que, enfeitadas com suas saias rodadas, se envolvem no

bailado. Além dos grupos na Ilha de Valadares, ele também formou grupos em

Blumenau, um grupo em Curitiba, além de outros em Medianeira, Maringá e

Foz do Iguaçu.

“Eu vou resgatando o Fandango com o pessoal mais novo que gosta da

dança, porque são filhos de fandangueiros, só vai no Fandango quem é filho de

fandangueiro. Acho que o Fandango pode ser que acabe um dia, porque aqui

tem dois grupos de idosos de 60 a 70 anos, o mais novo é o meu de 13 a 14

anos”, conta ele, ressaltando a realidade dos grupos da Ilha de Valadares.

Mestre Romão relata que seu grupo hoje é organizado pela Prefeitura de

Paranaguá, que quer trabalhar com o resgate do Fandango. Ele dá aulas nas

escolas de Paranaguá e faz oficinas de cultura popular em Curitiba: “Onde convidar

a gente vai, o difícil é a condução porque a gente não tem dinheiro pra

pagar ônibus, alimentação, hospedagem”, lamenta.

Fandango, o bailado de gerações

21


O grande orgulho de Mestre Romão vai além de ver jovens aprendendo o

Fandango por gerações: “Eu me criei nesse ambiente. Hoje eu só danço, faço

tamanco e ensino. Dos meus nove filhos, só um dança, agora os netos todos

dançam e minha filha também. Tenho um netinho que tinha sete anos quando se

apresentou pela primeira vez, ele começou no Fandango quando tinha apenas

dois anos, temos a foto dele quando foi para Curitiba na Boca Maldita se apresentar.

Depois foi pra Minas Gerais, Brasília e Rio de Janeiro, saímos no bloco

do carnaval representando o Fandango e o barreado, fomos para o Rio Grande

do Sul fazer uma exposição de livros no tempo do Olívio Dutra (na época governador

do estado), também levando o barreado e o Fandango.

Mestre Romão lamenta que os parnanguaras não deem muito valor para o

Fandango: “Quem é de fora acha bonito e tem curiosidade em conhecer, mas o

parnanguara diz que o Fandango já era, que é coisa de velho, então eles querem

coisa nova. Alguns até querem dançar o Fandango, mas eles querem ganhar

dinheiro com isso, nossa cultura é sem fins lucrativos”, afirma, categórico.

O mestre diz que acha muito importante os projetos de incentivar o Fandango

dentro das escolas, mas infelizmente eles não têm continuidade: “É importante as

pessoas que vêm fazer pesquisas sobre o Fandango, a história viva que estão

dançando. O Fandango é uma dança popular, é fácil de aprender e fácil de

explicar e é fácil de dançar, mas hoje em dia todos querem saber de músicas

estrangeiras”. Atualmente, aos 83 anos de idade, Mestre Romão comemora 68

desde que o Fandango passou a fazer parte da sua vida, e ele ainda não abandonou

os tamancos.

“Meus filhos não se interessaram muito, mas meus netos e meu bisnetinho

são meu orgulho. Eu nasci aqui na Ilha de Valadares, meus netos moram aqui,

tenho 28 netos e todos eles dançam, tenho 26 bisnetos e vou ter uma tataraneta

agora. E acho que meus netos vão preservar e repassar isso para frente porque

a gente fala sobre isso para eles. E mesmo que o Fandango não chegue às

próximas gerações como o bailado que eu aprendi, como a batida que eu dancei,

o importante é que ele supere o tempo e seja lembrado como a cultura do

Paraná”, diz.

22 Heloisa Garrett


Fandango, o bailado de gerações

Família Pereira

Uma coisa se sabe a respeito do Fandango: o orgulho pela dança e pela

música é tanto que todos querem ser os “inventores” dessa arte. Nilo Pereira é

fandangueiro de Guaraqueçaba, conta que foi sua família que deu origem ao

Fandango. Ele é filho de Julino e Alzira França Pereira e tem 12 irmãos: Nicolau,

Martinho, Jovelino, Sebastião, Adriano, Agostinho, Moisés, Leonel, Bernardina,

Brasilina, Carmelina e Laura.

“Pode procurar que a senhora vai encontrar. Foi a família Pereira que

começou com o Fandango, meu tataravô era fandangueiro e isso foi passando

de pai para filho, para os netos, para a comunidade. Hoje está quase esquecido,

mas nossa família ainda baila o bom fandango. Eu ainda vivo do Fandango”,

afirma Nilo.

Como muitos dos entrevistados que disseram que o Fandango teve origem

em suas famílias, Nilo ostenta o mesmo orgulho. A afirmativa não deixa de ser

verdade, porque o que aprendi nesses meses de pesquisa é que a cultura e sua

tradição têm origem onde é vivida, onde é cultivada, e, em cada uma daquelas

modestas casas do litoral paranaense, o Fandango orgulha por fazer parte da

rotina das famílias.

Nilo me convidou para sentar em um banco na frente da Casa do Fandango,

em Guaraqueçaba, e contou que antigamente o Fandango era dançado para

comemorar colheita e o dia de trabalho. Segundo ele, o trabalho de homens e

mulheres na lavoura era pago com Fandango e comida: “Quando acabava o

trabalho a gente se reunia e tomava café com biju dançando Fandango, era o

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melhor pagamento. Não tinha dinheiro que recompensasse mais. Se divertir e

estar com as pessoas que a gente gosta, fazendo o que nos orgulha nunca teve

preço”, relata, saudoso.

A família Pereira morava na região do Rio dos Patos, em Guaraqueçaba,

mas teve que deixar o local há alguns anos porque um decreto transformou o

lugar em área de preservação ambiental permanente, não sendo mais permitido

a eles plantar, colher e muito menos comemorar a colheita com Fandango, já

que não havia mais o que colher.

Quando deixaram Rio dos Patos, cada um foi procurar seu rumo, alguns

mudaram-se para Paranaguá, outros ficaram em Guaraqueçaba, outros foram

para a Ilha de Superagui e para a Ilha de Valadares. Mas o que ainda une esses

caiçaras é o Fandango. Nilo, depois que deixou a vida no campo, começou a

trabalhar com artesanato construindo rabecas que vende para os turistas. Enquanto

me conta, exibe orgulhoso algumas violas e rabecas construídas por ele

próprio e diz que, com a madeira cada vez mais difícil de encontrar, ele está

cobrando uma média de R$ 200,00 por instrumento.

Recentemente, comprou um barracão de baile que também é sua casa.

Além disso, também comemora quando vai com seu grupo fazer apresentações

e recebe um singelo cachê como pagamento.

A Casa do Fandango, como é chamado o seu local de baile, é também a

casa de Nilo Pereira e sua família. Foi inaugurada há cinco meses, antes de se

transformar em Casa de Fandango ela abrigava um clube tradicional da cidade:

“Tem baile de Fandango aos sábados e recebo muita gente, mas esses

frequentadores são as pessoas mais idosas de Guaraqueçaba e turistas”, conta

Nilo, que acha que o Fandango ainda tem vida longa. Ele tem seis filhos, mas

desses só as mulheres se interessaram pelo Fandango: “Acho muito importante

os jovens se interessarem pelo Fandango, porque isso é deles. Meus avós contavam

bastantes histórias e eu não aprendi para repassar aos meus filhos e netos,

e isso acabou se perdendo no tempo”, lamenta.

Para Nilo é fundamental o papel que tem em repassar o que a Família

Pereira viveu no Fandango. Só ele tem mais de 40 anos de envolvimento com a

cultura caiçara e o mais gratificante é ir se apresentar e ver o interesse das pessoas

pela música e pela dança, especialmente das crianças: “De poucos anos

para cá o Fandango está sendo bem divulgado, muita gente aprendeu, não a

dançar igual a nós, mas aprendeu. Igual a Família Pereira ninguém dança, ninguém

canta e ninguém toca”, garante.

Ele se orgulha em ter levado o Fandango da Família Pereira para Brasília e

para o Rio de Janeiro e por inúmeras vezes ter subido a serra para se apresentar

24 Heloisa Garrett


em Curitiba. Só lamenta não poder mais bater aquela batida e tocar sua viola

com aquele vigor de alguns anos atrás, pois um problema de coração está limitando

gradativamente a sua manifestação artística.

A Família Pereira é um grupo completo: faz o instrumento, toca, faz a

música e dança. O Grupo tem atualmente doze integrantes, sendo que desses,

cinco são membros legítimos da família que deu origem ao grupo e os outros

sete são primos mais distantes e amigos que resolveram se unir a família. Eles

formam um dos núcleos de Fandango mais sólidos do litoral paranaense. Mesmo

depois dos anos 1990, quando os integrantes da família foram obrigados a

deixar o Rio dos Patos, eles se estabeleceram em outros lugarejos da região e

persistiram se reunindo durante muitos anos para manter as tradições do patriarca

da família: João Bento Franklin Pereira de Assunção.

A primeira apresentação artística do grupo fora da faixa litorânea aconteceu

em 2000, no SESC da Esquina, em Curitiba, na programação do evento

Fandango Subindo a Serra: “Depois dessa apresentação ficamos mais animados

e vimos que a tradição da nossa família pode ser mostrada para muita gente.

Muitos de nós não conheciam a cidade grande, e levar a nossa vivência para a

capital foi um orgulho”, conta Nilo que é o organizador do grupo desde antes

mesmo desta apresentação.

Fandango, o bailado de gerações

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26 Heloisa Garrett


Fandango,o bailado de gerações

As mulheres no Fandango

Antes do início do baile, ou nos intervalos das marcas, geralmente os cavalheiros

batem sapateando pela sala, sem música, por sua própria conta, com fim

de convidar, influenciar e chamar as damas, e, ao mesmo tempo, provocar o

início da dança. As mulheres têm um papel fundamental no Fandango, apesar

dos leigos dizerem que esta é uma dança machista. Elas é que são responsáveis

pelo colorido, pelo charme do enredo que forma esta dança típica dos caiçaras.

Os bailados e os valsados são dançados em pares de homens e mulheres,

com ou sem coreografias. As mulheres acompanham a batida dos tamancos

com movimentos circulares, em que vão formando figuras. A mais comum é o

oito no sentido horário. Alguns dizem que a batida dos tamancos é exclusividade

dos homens, mas as mulheres não são impedidas de bater tamancos.

“As mulheres até podem fazer a batida, mas a maioria não gosta porque

esta é uma função que exige força e é muito mais bonito ver a mulher dançando.

Elas são fundamentais no Fandango, elas dão o colorido ao baile, a sensualidade

à dança”, diz o fandangueiro Aorélio Domingues. Uma sensualidade muito

sutil e sem nenhum apelo erótico. Uma das maiores características do baile de

Fandango é o envolvimento familiar.

Geralmente as mulheres que participam do Fandango são chamadas de

folgadeiras, e os homens de folgadores. Além da dança, as mulheres também

fazem seus versos e alguns são passados da mãe para os filhos, herdados de

geração, uma poesia que se une ao ritmo peculiar da música.

27


Menina passa a tonta, com seu vestido godê.

Depois de tonta passada, deixa o mundo correr.

(verso citado por Narcinda Amorim Lopes)

Narcinda Amorim Lopes é uma senhora alegre, vaidosa, que dança

Fandango e faz versos. Ela nasceu em 1943 na região do Cerco Grande, em

Guraraqueçaba. Ela participa dos bailes desde os dez anos. Hoje, aos 67, conta

que da sua família é a única que ainda participa.

“Ninguém dos meus filhos se interessou. Eu gosto muito do Fandango porque

eu me criei no Fandango, meu pai e meu marido eram fandangueiros, sempre

morei aqui. Eu nasci aqui em Guaraqueçaba, e eu gosto porque é um divertimento

alegre, toda a vida foi um divertimento alegre, cheio de vida”, orgulha-se

Narcinda.

O pai de Narcinda fazia baile de Fandango em casa, assim como o seu

marido. Agora viúva, ela vai dançar onde souber que tem o som da viola e da

rabeca. Chega a viajar até a Ilha de Superagui em busca de Fandango.

“Quando era mais nova eu fazia os versos da Graciosa com o amanhecer

do dia mas agora eu não faço mais, agora só danço, aqui só tem eu e Jurema que

dançamos e mais uma que dança junto comigo”, lamenta.

Narcinda é integrante do grupo da Família Pereira. E diz que, pra onde ela

for convidada pra dançar Fandango, ela vai.

“O pessoal mais novo tem que aprender o bailado, tem que continuar dançando

depois que a gente morrer, porque eu acho importante continuar, porque

é um divertimento para o povo. Lá em Superagui o que vai de turista pra ver o

Fandango, eles não querem saber de bailes que o resto da moçada gosta, só de

Fandango. Enche de turista pra ver a gente dançar, na verdade são mais as

mulheres que gostam de ver a gente dançar e, quando vou pra lá, eu tento ensinar

as mulheres de lá, mas elas não aprenderam ainda, não existe segredo, mas

elas que não sabem dançar direito”, diverte-se Narcinda ao recordar de sua

viagens.

Ela conta que o mais difícil é a Queromana, porque é uma das músicas

mais complicadas de se aprender, pois exige do dançador técnica e coreografia

ensaiada, graças a sua complexidade e variações. Narcinda conta que aprendeu

há pouco tempo, porque quando era nova, só tinha aprendido a batida, agora já

sabe fazer os círculos corretamente, seguindo o tamanquear do mestre marcador.

Agora é que aprendeu a bailar a Queromana, uma das dança mais tradicionais

do Fandango. É dançada aos pares, com duas fileiras opostas que integram o

baile do Fandango.

28 Heloisa Garrett


“Quando eu vou dançar, o pessoal tira muita foto de mim, porque eu danço

muito bem, eles vêm até me agradecer”, comenta, feliz.

Alguns leigos que não conhecem a essência do Fandango chegam a dizer

que a mulher tem um papel de submissão no Fandango, mas todos os entrevistados

foram unânimes em dizer que a mulher é fundamental nessa dança e a ela

é reservado o lado majestoso e delicado do bailado.

Aorélio conta que, quando desenvolvia o projeto Fandango na Escola, as

mulheres eram as melhores professoras porque elas conseguiram congregar várias

funções essenciais para o conjunto do Fandango.

“Elas conseguem ensinar as notas musicais, os versos, as batidas de tamancos

e os bailados. E a dinâmica e a didática usadas pela mulher para ensinar,

sem dúvida, são diferentes, principalmente quando o trabalho é relacionado às

crianças.

Mestre Romão também destaca o papel essencial das mulheres na cultura

caiçara.

“As mulheres são peças essenciais, porque se não tiver a mulher não tem

Fandango tem que ser a mulher e o homem, o homem toca os instrumentos e faz

as marcações com o tamanco e a mulher faz o sarandeio.

Ele conheceu sua esposa no Fandango e está casado com ela há 58 anos.

E para Mestre Romão a diferença do Fandango de antigamente para o de hoje

é que “os grupos atuais mandam fazer as roupas das mulheres, e antigamente

elas usavam camisa listrada, e saia de tostão e chita, tecidos rústicos que fazem

parte das vestimentas do cotidiano caiçara. E hoje vão às lojas e compram pano

para fazer as saias, fazem cinco trajes, um diferente do outro, os tamancos tem

que mandar fazer porque eles não fazem, antigamente a gente que fazia. As

mulheres de hoje querem usar acessórios no cabelo, e se pintar”, complementa.

José Muniz também fala do papel fundamental da mulher no Fandango e

ele incentiva a participação delas com tanto entusiasmo que, dos 20 integrantes

do Grupo Fandanguará, a maioria é mulher. “Quando o homem volta para a

roda, ele tem que ter uma mulher na frente e uma atrás esperando, senão ele não

tem aonde se colocar. Poderia fazer um Fandango agora, eu posso tamanquear,

mas eu tenho que ter uma dama na frente e outra atrás. Ao mesmo tempo a gente

sabe que as mulheres, além de estarem fazendo esta marcação de roda”.

Ele fala ainda que os homens só estão em um baile de Fandango porque

sabem que têm uma dama para eles tirarem pra dançar, e isso não é uma questão

de atração, é questão da realidade do baile que é feito por pares.

Na pesquisa desenvolvida por Zé Muniz sobre a cultura caiçara, ele constatou

que a mãe tem um papel fundamental, que vai desde o cuidado com as

Fandango, o bailado de gerações

29


crianças até o preparo dos alimentos. Elas sabiam os segredos de temperos e

ele diz que isso não transforma este universo em um cenário machista, mas sim

em uma forma de viver tradicional. Ela é responsável pela beleza do Fandango.

30 Heloisa Garrett


Fandango, o bailado de gerações

Um jovem fandangueiro

José Muniz é filho de fandangueiro, e tem sua vida dedicada quase que

integralmente ao Fandango. Quando saio para procurá-lo na vila de Guaraqueçaba

encontro um senhor e pergunto:

- O senhor sabe onde mora o José Muniz?

- Sei, sim senhora, eu moro ali em cima, diz o senhor, apontando para a

casa no alto de umas pedras que ladeiam um canal na baía de Guaraqueçaba.

Eu me identifiquei e disse que gostaria de conversar com ele para saber

mais sobre o Fandango, já que tinham me dito que ele era um pesquisador do

assunto. O senhor então me disse que não era com ele que tinha que falar, mas

com seu filho, que tinha o mesmo nome. Mas, naquela hora não estava em casa.

Voltei depois de umas duas horas e fui recebida prontamente por Zé Muniz. Um

moço franzino, mas já pai de família, a aparência de menino escondia que ali

estava um responsável pai de família. Ele me atendeu em sua sala de sua casa,

onde mora com os pais e com a mulher e a filha. Uma sala pequena, mas aconchegante

cercada por imagens religiosas e com uma bela viola pendurada na

parede.

Lá, Zé começou a me contar como era o seu envolvimento com o

Fandango. Ele cresceu ouvindo seu pai e vizinhos fazendo baile e, ainda menino,

por volta de uns 15 anos, começou a trabalhar com um grupo de teatro que

envolvia a cultura caiçara. De lá para cá não parou mais.

Há dez anos, Zé trabalha com o Fandango. Primeiramente foi com o grupo

de bonecos Fâmules de Bonifates, que criou para dar vazão às pesquisas

31


que desenvolvia. O grupo foi fundado em 1999 por adolescentes de

Guaraqueçaba, e os espetáculos produzidos envolviam lendas caiçaras em apresentações

que mixavam teatro e Fandango. E neste contexto começou a trabalhar

com o Fandango. Ele conta orgulhoso que os meninos que eram crianças

pequenas quando eles fizeram a estréia do grupo, hoje fazem parte do

Fandanguará, um grupo de Fandangando que nasceu dentro do trabalho com

bonecos.

Para Zé Muniz a renovação dos grupos de Fandango, onde alguns se

dissolvem e outros surgem, é importante e bastante saudável.

“É necessário que novas pessoas se envolvam, esse movimento é proveitoso

e acaba motivando a comunidade. Esses jovens que vemos hoje no

Fandanguará vão amadurecer sair de Guaraqueçaba em busca de oportunidade

em Paranaguá ou em outras cidades, eles vão lembrar do Fandango, mas não

vão mais poder participar ativamente, pelo menos é o que acontece com a grande

maioria. Enquanto isso, novos jovens vão entrar nesse processo e formar

novos grupos”, afirma Zé Muniz.

Ele se lembra com saudade das pessoas que passaram pelo grupo nesses

dez anos e foram embora, mas fica feliz em recordar que o que aprenderam no

grupo eles não esqueceram.

“Sempre que podem, eles voltam pra Guaraqueçaba, ou nos encontramos

em apresentações. Alguns até se profissionalizaram em áreas que podem

trabalhar com o Fandango, como um ex-membro, Leandro Dieguiz Gonçalves

que hoje é turismólogo, e Eduardo Shotten, produtor do grupo que se formou

em artes cênicas e continua trabalhando com arte popular.

Uma das grandes preocupações de Zé Muniz é com a essência do

Fandango.

“Não basta só surgirem grupos para bater tamancos e tocar viola e rabeca.

É essencial que os integrantes dos novos grupos conheçam a essência do

Fandango e respeitem os mais velhos”, alerta Zé Muniz.

Dentro de seus dez anos de trabalho, Zé sempre prezou pela realização

de pesquisas com fandangueiros, para proporcionar aos jovens da comunidade

a condição de trabalhar com o instrumento e ensinar a respeitar a cultura popular

caiçara.

“O Fandango pode ser uma forma de divertimento, como realmente é,

mas nunca pode ser encarado como uma brincadeira. Ele merece respeito, assim

como os mestres que nos transmitem conhecimento. Um exemplo disso

acontece com vocês, pesquisadores, que vêm aqui para pesquisar e chega um

ponto que para vocês é muito mais fácil vir conversar com um jovem do que

32 Heloisa Garrett


com uma pessoa de mais idade. Isso é errado porque tiram deles (os mais velhos)

a oportunidade de transmitir o conhecimento adquirido por décadas.

Zé desenvolveu um trabalho de pesquisa muito vasto nos últimos anos, que

classifica como pesquisa de vivência.

“No decorrer desse tempo me encontrei com um fandangueiro ali, outro

aqui, que conta uma coisa nova, ou até mesmo reconta uma história várias vezes.

Então é um material que no momento eu considero como um ponto bem

bom de ser publicado. Muitas características, muitas peculiaridades a mais, é

uma coisa que não tem fim.

Ele conta que começou essa pesquisa sobre Fandango exatamente há 13

anos. Com 15 anos ele ganhou de seu pai uma viola e começou a frequentar os

bailes.

“Você vai conhecendo as pessoas. Comecei a trabalhar com o Fandango

somente com papai que era violeiro. Depois fui abrangendo grandes mestres

que foram contribuindo, como o Seu Anísio, que hoje está em Paranaguá, e aos

poucos fui aprendendo”, explica Zé Muniz.

Seu Anísio morava do lado de sua casa e sempre ia dar uma oficina. Zé

fazia questão de pagar, afinal ele estava transmitindo seu conhecimento e, como

todo professor, merecia ser recompensado por seus ensinamentos.

“Nós não tínhamos dinheiro pra nada, reunimos apenas R$ 15 e perguntamos

se ele podia nos ensinar, e Seu Anísio nos deu três dias de oficina. Então

você vai criando uma amizade, construindo um vínculo, como com o Seu Anísio.

Você vai conhecendo outras pessoas, o Nildo, o Nilo e o Eraldo. Hoje em dia a

gente já é bem conhecido, os fandangueiros das ilhas, de Paranaguá, porque

você já construiu uma história, um trabalho”, conclui.

Durante a conversa com Zé ele me falou de algumas peculiaridades de

Guaraqueçaba, como a forma que as famílias se relacionam, as dificuldades que

os moradores enfrentam quando se trata do desenvolvimento econômico e a

falta de perspectivas dos jovens da comunidade, que acabam saindo da cidade

em busca de oportunidades. Ele me conta que durante sua pesquisa identificou

pessoas que saíram de Guaraqueçaba, mas antiveram suas raízes.

“Claro que não me interessa muito saber se tem um fandangueiro em

Morretes, ou em Cananéia, litoral Sul de São Paulo. Interessa pelo sistema da

pesquisa e trabalho, mas a minha pesquisa é direcionada ao Fandango e me

interessa que seja ligado aqui com Guaraqueçaba, independentemente que esteja

morando aqui ou lá”, ressalta.

Zé Muniz disse ainda que não adianta querer pesquisar a origem do

Fandango, porque o que se encontra são várias vertentes.

Fandango,o bailado de gerações

33


“Teve um pesquisador que chegou e falou para o Arionildo que o Fandango

é lá da Espanha. Claro que você não vai dizer que o Fandango é da Espanha

para um caiçara, porque ele nunca saiu do cantinho dele. Para ele a raiz do

Fandango é ali com a família dele, porque quando ele nasceu, os bisavós já

faziam aquilo, então não tem nem porque ficar querendo encontrar a origem.

Tem pesquisador que diz que o Fandango veio em 1750 para o Paraná, como é

que você vai saber isso, acabou criando uma certa característica que são bem

próprias daqui. Até existe o Fandango gaúcho, pernambucano que não tem nada

a ver com o que a gente faz aqui”, salienta.

Zé Muniz contou sobre algumas peculiaridades, e me alertou que, conforme

o lugar que eu fosse desenvolver a pesquisa e as entrevistas, poderiam se

ofender se eu os chamasse de caiçaras.

“Na Ilha de Valadares, se você chama alguns moradores de caiçaras eles

ficam muito ofendidos, isso porque em alguns lugares eles valorizam essa nomenclatura,

e em outros eles se envergonham. Isso veio de fora, tanto a denominação

quanto a descaracterização vieram de fora, mesma coisa que aconteceu

com o Fandango”, alerta José Muniz.

Ele conta que, com o passar do tempo, o Fandango foi considerado coisa

de vagabundo, de vadio, era considerado bagunça, e as pessoas que faziam

Fandango passaram a ter vergonha, inclusive constrangimento de ser caiçara.

“Quando vem toda uma questão das pessoas que têm um grande poder

aquisitivo de comprar terreno a custo baixo, vão fazer o quê? Descaracterizar a

imagem do caiçara, caiçara é um vagabundo, por questões que eles têm costumes

dos índios, que ele vai trabalhar e tirar o essencial para comer, não gosta de

trabalhar muito, isso acarreta que o caiçara sinta vergonha de se auto-denominar

como caiçara e se considerar assim”, justifica.

Muitos dos moradores do litoral se orgulham de ser caiçaras, e está em

andamento uma reestruturação do projeto pedagógico da região das ilhas.

“Agora, a grande discussão é a respeito disso: vamos levar para os livros o

termo caiçara ou não? Porque algumas pessoas têm vergonha disso, mas por

quê? Tudo por causa de uma questão criada de fora para dentro, que veio

mesmo no sentido de descaracterizar, mas assim, o termo ‘bugre’ é muito pouco

usado, você escutava isso bem antigamente com algumas versões. Quando você

vai para alguma cidade fora do eixo do Fandango levar a dança, as pessoas

acham que o Fandango é uma dança gaúcha, mas isso é culpa de todo o sistema

do estado que não está nem aí. Esse é o problema, quem vai querer colocar em

um livro didático que é da cultura caiçara?”, indaga.

Zé conta que o Fandango já ocupou muito tempo de sua vida. Aos 27

34 Heloisa Garrett


anos, o jovem diz que quer deixar um pouco o trabalho à frente do grupo

Fandanguará e, com todo o material de pesquisa da cultura caiçara que tem nas

mãos, quer desenvolver algum trabalho relacionado à história. Ele é bolsista da

Universidade Sem Fronteira e tem licenciatura em História.

Fandango,o bailado de gerações

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36 Heloisa Garrett


Fandango,o bailado de gerações

Fandanguará

O Grupo Fandanguará, termo resultante entre a palavra Fandango e

Guaraqueçaba, e a Associação dos Fandangueiros dividem o mesmo espaço,

uma casa cedida pelo IBAMA no centro de Guaraqueçaba, mas que é alvo

constante de disputas políticas. E mesmo fazendo parte de uma Associação, não

tem recursos para manter as portas abertas, e o apoio é só das famílias que, não

podendo ajudar financeiramente, incentivam os jovens meninos a continuarem

nos rumos do Fandango.

A casa é, na verdade, um barracão sem manutenção, colorido pela arte

dos meninos que integram o grupo. Eles são os responsáveis pelas confecções

das vestimentas para as apresentações e se orgulham em me mostrar todos os

cartazes das apresentações que já fizeram, e também figuras que servem de

adereço para as paredes descascadas pelo tempo.

Rodrigo Cardoso conta que quando recebem cachê por alguma apresentação

usam o dinheiro para a manutenção dos adereços, para pagar contas

como água e luz.

“Nossa sede está aberta porque somos teimosos. Mesmo sem apoio, insistimos

em ter nosso local de encontro, nosso local para ensaio”, relata José

Muniz, um dos idealizadores do grupo. Sem apoio de ninguém, de nenhum órgão

governamental, ele se pergunta o que eventuais patrocinadores poderiam

querer em troca, caso colaborassem financeiramente.

“Não sei se esse apoio iria realmente ajudar. Quem ajuda quer sempre

algo em troca e eu, pessoalmente, prefiro que os meninos cresçam nas dificulda-

37


des. Sobre valorização, estamos aqui há dez anos batalhando, só não enxerga

nosso trabalho quem não quer ver”, declara José.

A falta de suporte financeiro é também importante para a motivação dos

integrantes do grupo.

“Se eles recebessem um cachê para participar, a motivação deles certamente

seria outra. Eles poderiam estar vindo participar do Fandango porque

estavam querendo dinheiro, mas não eles vêm porque querem aprender, eles

vêm porque querem tocar, querem dançar, querem bater seus tamancos”, comemora

Muniz.

O envolvimento dos jovens com a cultura popular no litoral paranaense

não tem como objetivo afastar esses meninos e meninas da criminalidade e do

contato com as drogas, mas acaba sendo uma conseqüência, já que dedicando

tempo livre à prática do Fandango e ao cultivo de valores familiares, acabam

involuntariamente afastando-se desse submundo que está presente nos mais diversos

lugares.

“Hoje, o jovem que vem pro Fandango é o jovem que vai pra rave, ele

vivem em mundos paralelos. Não podemos manter tudo como era antigamente,

porque aí sim o Fandango vai acabar, temos que acompanhar essa mutação dos

jovens e encontrar formas para que ele ache que o Fandango é interessante.

Temos que envolvê-los”, explica Aorélio Domingues, da Associação Mundicuéra.

Uma das grandes histórias do Fandanguará é de Emanuel Gonçalves: ele

não sabia que o avó era fandangueiro e, depois que começou a se envolver no

grupo e a tocar, descobriu que seu avô foi um dos maiores tocadores de viola.

Emanuel investiu na compra de sua primeira viola, conseguiu juntar R$100 para

realizar seu sonho e hoje é um dos principais membros do grupo.

E, como juventude não tem idade, Seu Antonio, que há 30 anos não tocava

sua viola, foi influenciado pelos jovens do Fandanguará a voltar a tocar em

2008. Reaprendeu as notas, afinou sua viola e hoje toca nos ensaios com os

meninos do Grupo Fandanguará.

Outra história emocionante dos meninos que fazem parte do Fandanguará

é a de Gustavo Souza, ele divide seu tempo entre os estudos e a paixão pelo

Fandango:

“Meu avô morava no Costão, em Guaraqueçaba, e sempre que eu ia lá

ele me deixava brincar com a sua viola. Eu era o único neto que ele deixava

tocar no instrumento e era o seu sonho me ver tocando.

A primeira vez que Gustavo tocou uma viola foi aos 11 anos de idade.

Agora, aos 18, ele comemora ter realizado o sonho de seu avô Francisco, mes-

38 Heloisa Garrett


mo que ele não tenha vivido para o ver tocar. Gustavo guarda a velha viola

quebrada de seu avó como uma relíquia e se sente orgulhoso por se o único

membro da família que se envolveu com o Fandango, depois do avó.

Apesar de muitos dos livros que pesquisei afirmarem que o Fandango

estava desaparecendo, pude constatar na minha pesquisa de campo que ele está

longe de acabar, e isso graças aos jovens que estão cada vez mais entusiasmados

em manter viva essa herança de seus pais e avós. Orgulhando-se de suas

raízes.

O Grupo Fandanguará é um dos exemplos de persistência de meninos do

litoral paranaense que superam as críticas de alguns amigos que dizem que

Fandango é coisa de velho. São meninos e meninas comprometidos em levar a

arte caiçara para todo o Paraná. Robson Santos coordena o Fandanguará e diz

que o que mais motiva os meninos é que eles vêem nas músicas e na dança uma

forma de divertimento e também de preservação da identidade cultural da localidade.

“Eles vêm aqui por livre e espontânea vontade. Quando um vê a sede

aberta começam a entrar, quando vemos o barracão está cheio. Vemos que eles

querem fazer esse trabalho, eles querem cada vez mais aprender sobre o

Fandango, isso sem querer nada em troca. Eles se dedicam pela oportunidade

de estar entre amigos e buscamos trabalhar para que saibam a responsabilidade

da cultura que representam”, explica Robson, orgulhoso.

Quando cheguei à sede eram três jovens contando seus relatos. Em pouco

mais de uma hora, o barracão ficou cheio e eles não se acanharam em buscar

lugar no chão para participar da conversa. Sentiram-se bastante a vontade para

falar do que gostam e, para fechar com chave de ouro a minha visita, me emocionaram

tocando Fandango, dedilhando as cordas da viola e as meninas, ainda

um pouco acanhadas, preferiram deixar o bailado para outro dia.

Fandango,o bailado de gerações

39


40 Heloisa Garrett


Fandango,o bailado de gerações

Associação Mundicuera

“Mandicuera é o sumo extraído da mandioca no processo de produção da

farinha. Extrato este que dá nome à união de diferentes grupos que representam

a cultura caiçara do Paraná, mais especificamente de Paranaguá. É nesse caldo

que vêm sendo geridos, desde 2003, projetos e idéias de fomento à produção

da cultura popular local e de articulação comunitária.” Este trecho foi retirado

do texto do site da Associação Mundicuéra, dando conta de qual é a definição

da entidade. Mas acho pouco para descrever um trabalho tão importante para a

preservação do Fandango no Paraná.

Antes de ser uma Associação, a Mundicuera era um grupo de cultura popular

que ficou conhecido por cruzar o Brasil, passando por 15 estados da

Federação levando apresentações de Fandango, Boi-de-mamão e Romaria do

Divino, para que os brasileiros conhecessem as manifestações da cultura popular

no Paraná em uma caravana organizada pelo SESC Nacional.

Já conhecia parte do trabalho dos “mundicuéras”, mas decidi enfrentar

um sábado chuvoso para ir pessoalmente conhecer a riqueza do trabalho de

pessoas que dedicam suas vidas para a preservação da cultura, fazendo disso

um meio de realização pessoal e também um ambiente de trabalho.

Depois de cruzar a ponte que liga a cidade de Paranaguá à Ilha de Valadares,

caminhar alguns quilômetros por suas ruas calçadas, não dá a impressão de que

se está em uma ilha, mas sim em uma vila, um bairro popular. As belas paisagens

da mata atlântica deram lugar a um verdadeiro loteamento, com casas cercadas

e carros que trafegam pelas ruas ignorando a preservação ambiental.

41


Este reduto de fandangueiros poderia estar melhor preservado, mas a falta

de políticas públicas não só contribui para a ausência de preservação do meio

ambiente, mas também para a ausência de ações de preservação histórica e

cultural. Mas ainda bem que homens de coragem e boa vontade não ficam à

espera de ações governamentais.

Eloir Paulo Ribeiro de Jesus, mais conhecido como Poro, é caiçara, já saiu

de Paranaguá e morou em Curitiba, mas há alguns anos retornou à Ilha de

Valadares e, por uma pechincha, comprou uma área ao lado da casa do amigo

Aorélio Domingues. Foi lá que decidiu fazer a sua moradia e, juntos, os dois

amigos investiram na fundação da Associação Mundicuera. O dinheiro que usou

para a compra do terreno foi justamente o cachê que recebeu participando da

caravana de cultura popular provida pelo SESC Nacional.

Depois de cruzar a ilha, por um estreito caminho arenoso, abre-se um

colorido entre as árvores. O cinza do dia chuvoso dá lugar a uma casa de madeira

colorida como são coloridas as cores da cultura popular no Brasil: é a sede

da Associação Mundicuéra, fundada em 2004.

Entrando na casa, as paredes estão estampadas de recortes de jornal,

cartazes antigos de apresentações culturais e publicações nas quais a Mundicuéra

já foi personagem. Isso orgulha seus membros, porque o reconhecimento em se

trabalhar com cultura é o maior pagamento, já que os recursos financeiros nunca

chegam, mas a alegria em relatar os lugares onde estiveram levando o Fandango,

ou de contar como os meninos da comunidade estão se interessando pela cultura

da região, é sem dúvida o maior pagamento.

Com chão de madeira perfeito para o batido dos tamancos e um tablado

para as apresentações, a casa, apesar de pequena, é adequada e confortável

para os encontros. A sensação que se tem dentro dela é a de que há aconchego,

além da sensação de que ali se pratica o bem e de que as pessoas têm a liberdade

de trabalhar no envolvimento comunitário.

Agora além de ser um espaço cultural já consolidado, a Associação

Mundicuéra recebeu a aprovação do Ministério da Cultura para ser transformada

em um ponto de cultura, recebendo computadores e conexão à internet,

sendo mais um atrativo para chamar a comunidade para dentro do ambiente.

A renda da Associação consiste na liberação de recursos em projetos de

leis de incentivo. Aorélio e sua esposa, Daniela Domingues, trabalham juntos

nesse processo: ela com a sensibilidade em saber que projeto ser inscrito em um

determinado edital, e ele com a articulação e implementação dos projetos. Um

desses projetos foi recentemente aprovado, sendo que os integrantes da Associação

estão trabalhando em sua realização na oficina instalada nos fundos da

42 Heloisa Garrett


sede. Quarenta rabecas serão confeccionadas e usadas na primeira Orquestra

Brasileira de Rabecas.

Algumas pessoas, entre elas os próprios fandangueiros, criticam a

Mundicuéra e dizem que estão tornando o Fandango comercial, como na construção

em escala das rabecas, por exemplo.

“Vocês estão destruindo a rabeca usando verniz, dizem. Mas, na verdade,

nós usamos verniz porque temos verniz pra passar para a conservação do instrumento

e eu garanto que se a maioria tivesse também ia envernizar suas rabecas.

Dê uma máquina lixadeira pro seu Leonildo pra “vê” se ele não faz mais rápido

uma rabeca, o problema é que ele não tem nem luz. A diferença é que nós

conseguimos fazer a rabeca de uma forma mais profissional”, defende Aorélio.

Um dos projetos da Associação é o “Rabecando a conservação através

do repasse”, que tem como objetivo conservar a sonoridade caiçara. O projeto

foi aprovado no Edital de Culturas Populares do Ministério da Cultura. Neste

projeto foram promovidas oficinas entre julho de 2006 e fevereiro de 2007, que

ensinaram aos jovens da Ilha de Valadares e Paranaguá as técnicas para a construção

de rabecas, violas, adufo e depois de prontos os instrumentos os participantes

foram incentivados a aprender tocá-los. Sempre preocupados com a

preservação do meio ambiente, a madeira usada para a confecção dos instrumentos

foi doada pelo IBAMA.

Um dos cuidados da Associação é para não espetacularizar o Fandango:

“Sim, temos os shows, mas a maior parte do nosso trabalho é fazer com

que o Fandango seja conhecido pela sua essência, preservando a sua raiz e não

só promover apresentações para que o Fandango seja conhecido como uma

dança, mas para que seja entendido e desperte a vontade nos jovens para que

mantenham essa cultura, conta Poro.

Como o foco da Associação é o trabalho com os jovens, eles usam a

linguagem que lhes é própria.

“Hoje, a linguagem dos jovens é o computador, então nós temos os computadores

para que eles venham aqui e acessem a internet, mas também mostramos

que podemos gravar e mixar as batidas do Fandango no computador, conta

Aorélio.

Ele diz ainda que produz filmes com versões para o youtube dentro das

oficinas de comunicação que desenvolvem, tudo para despertar nos jovens o

envolvimento com o tema da cultura caiçara.

“Estamos desenvolvendo a cultura local com uma nova linguagem. Essas

novelas que fazemos para internet, por exemplo, são lendas que os próprios

Fandango,o bailado de gerações

43


fandangueiros contavam”, explica Poro.

Uma dessas novelas faz uma divertida sátira com os pesquisadores que

chegam ao litoral para pesquisar sobre o Fandango. Eles usam dois tipos mais

caricatos, um estudante de artes e outro de antropologia, e falam da ignorância

deles com o tema, o que é comum entre quem vai pesquisar, mesmo que já tenha

buscando referências bibliográficas sobre o tema, só entende o que realmente o

que é Fandango conversando com os fandangueiros.

Outra intenção da Associação é unir as famílias, usando a cultura popular

como pretexto.

“Queremos que os jovens que muitas vezes não sentam para conversar

com seus avós, e nem sabem que eles foram importantes fandangueiros, descubram

que sua família tem tradição e venham com seus avós, com seus pais

dançar Fandango”, confessa Poro.

44 Heloisa Garrett


Fandango,o bailado de gerações

Fandango na escola

Introduzir o Fandango na sala de aula foi uma tentativa não muito sucedida

de alguns governos. Uma das últimas iniciativas foi a de um projeto elaborado

pela Associação Mundicuera, que contou com o apoio da Secretaria de Estado

de Educação do Paraná. O projeto consistia em um material de apoio para que

os alunos e professores tivessem acesso à manifestação folclórica típica do litoral

paranaense.

O projeto “Fandango na escola” tinha uma cartilha ilustrada que trazia a

origem do Fandango, uma história com um personagem em um material gráfico

bem elaborado para motivar os alunos. Além disso, os professores recebiam um

CD e um DVD com instruções e músicas de um típico baile de Fandango, e as

escolas da rede estadual de ensino do litoral paranaense recebiam um kit com

um tablado móvel e 40 pares de tamanco.

Aorélio Domingues, um dos coordenadores do trabalho, diz que o projeto

foi muito bem montado, mas a falha estava na capacitação dos professores, que

não foram preparados para trabalhar com o Fandango nas escolas. A estrutura

do sistema de ensino, que não previa o acompanhamento do projeto, consistiu

em outro fator determinante para o insucesso do projeto.

A proposta tinha como público os alunos de 5° e 6° série do Ensino Fundamental

que estavam inseridos em escolas do litoral paranaense. Foi lançado

em 2008 em uma parceria entre a Associação Mundicuéra, a Secretaria de

Estado de Educação do Paraná e o Núcleo Regional de Educação de Paranaguá,

que envolvia oito cidades e as ilhas. A fase experimental do projeto aconteceu

45


em 2006 com a capacitação dos professores e a produção do material didático.

Entre as ações desse projeto, estava a capacitação dos professores, para

que se aproximassem da cultura caiçara e do Fandango; e a realização de atividades

envolvendo música, dança e história em encontros semanais. Outra ação

foi o encontro com os grupos que participam do projeto, oportunizando a troca

de conhecimentos e relatos das iniciativas ocorridas em cada escola.

“Passado algum tempo, encontrei em Curitiba um menino que tinha a cartilha

que eu mesmo não tinha, e sempre me pergunto: o que as escolas fizeram com

os tamancos e com os tablados, e com as próprias apostilas. Uma pena este

trabalho não ter dado certo porque era uma forma dos jovens conhecerem a

cultura caiçara, lamenta Aorélio.

Mas com oficinas de Fandango, patrocinadas pela Secretaria de Estado

de Cultura do Paraná, Aorélio Domingues continua inserindo o Fandango no

contexto escolar. Não com a função de doutrinar as crianças de que este é o

instrumento do folclore paranaense, mas sim mostrando que o Fandango é caiçara.

Mesmo não se identificando com o restante do Paraná ele deve ser conhecido e

respeitado.

“Quando vou fazer uma oficina eu chego e digo: ‘Olha, esse aqui é o folclore

que é paranaense e vocês vão aprender isso e saber que também faz parte

da cultura de vocês’. Mas aí as crianças, principalmente da região Oeste e Sudoeste,

me dizem: ‘Aqui no CTG (Centro de Tradições Gaúchas) nós também

dançamos o Fandango, mas é diferente’, então eu explico que o Fandango tem

variações e explico quais as características que diferenciam a música e a dança

caiçara, pois em outras regiões do estado o que predomina é o Fandango gaú-

cho”, comenta Aorélio.

46 Heloisa Garrett


Fandango,o bailado de gerações

Uma vida ao Fandango

Sem dúvida ele merecia uma obra à parte. Um livro que fosse dedicado a

contar a sua trajetória em busca da valorização e da conservação da cultura

paranaense. Mas aqui vou me ater a relatar um pouco sobre a sua pesquisa

sobre este tema. Foram mais de 50 anos dedicados ao Fandango, décadas de

trabalho árduo que hoje, aos 79 anos, ele adora relembrar, orgulhando-se da

contribuição que prestou à cultura do Paraná.

Por tudo que ouvi falar sobre ele, e pelo respeito que o meio acadêmico

tem em relação a sua pessoa, achei que seria muito difícil chegar até ele. Mas

não, ele me recebeu no corredor do seu prédio, com uma simpatia única e o

brilho nos seus olhos mostrava que aquela conversa com certeza ia render muito.

Antes mesmo de eu me acomodar naquela sala com móveis antigos e repleta

de livros, ele me disse: “Fico muito feliz quando vejo que os jovens se interessam

pelo meu trabalho, pelo que eu já fiz. Minhas filhas não aguentam mais me ouvir

contar sobre minhas pesquisas, sobre a minha relação com o Fandango, fico

muito feliz quando tenho alguém disposto a me ouvir”.

Dito isso, Inami Custódio Pinto, professor e pesquisador curitibano, pioneiro

e desbravador na busca pelo conhecimento sobre a cultura popular

paranaense, começou a me dar uma aula particular sobre o Fandango.

Ele é considerado pioneiro no estudo das raízes culturais do Paraná. Graças

ao conhecimento adquirido no decorrer da sua vida acadêmica e a sua capacidade

profissional, ele conquistou reconhecimento nacional e internacional.

Por muitos anos trabalhou na elaboração do Catálogo Etnográfico Brasileiro no

Museu Paranaense. No Museu da Imagem e do Som foi responsável pela organização

da Divisão de Folclore e pesquisas históricas, sendo ele um dos primeiros

pesquisadores a gravar em áudio e vídeo apresentações de Fandango. Além

disso, ministrou aulas de folclore na Faculdade de Educação Musical do Paraná

47


e na Faculdade de Artes do Paraná.

Antes de iniciar seu relato, me perguntou se o gravador já estava pronto.

Iniciou então seu consistente relato.

“Não importa de onde veio, em que parte do mundo se dançava algo

parecido, essa é uma discussão tola. Como se dança no Paraná não se dança

em lugar nenhum e muito menos importa de quem recebemos, se foi dos espanhóis

ou dos portugueses. O homem do Paraná é o dono do Fandango, do

Fandango caiçara que só se encontra aqui”, afirmou com contundência.

Para o professor Inami não tem coisa mais linda do que o Fandango.

“Quando tem a mão do paranaense, ele transforma a cultura em uma coisa

linda, por exemplo, em dança dos Balainhaeu conheço oito versões no mundo

todo, a nossa é a mais bonita. Pau de fita tem três versões, nós criamos mais

cinco, dançamos oito e assim por diante. O caboclo paranaense é inteligente, é

de um bom gosto inconfundível.

Como bom professor, Inami adora dar aula sobre o Fandango. Recebendo

uma pesquisadora que parece não conhecer muito do assunto, ele explica

tudo sobre o tema, nos mínimos delates.

“As casas de Fandango são de madeira sem forro e tem o assoalho separado

do chão a uma distância de um a dois metros, isso para que o som das

tamancadas possa ressoar mais longe. Eles fazem umas cavas de três a quatro

metros de fundura por três metros de diâmetro e enchem de água, e há registros

de dançarem na Ilha de Valadares e escutar as tamancadas em São Francisco

do Sul, Santa Catarina”, explica ele desenhando verbalmente a arquitetura que

compõe o Fandango.

Sobre a música ele relata que o conjunto é composto por duas violas,

feitas pelos próprios violeiros. São construídas com madeira caixeta, que é fácil

de trabalhar, não é afetada pelo cupim e eles encordoam as violas com fios que

eram usados para pesca. Então, eles temperam a madeira conforme a cor, amarela

ou branca, e não existe uma regra para a afinação do instrumento.

“Aí é que caracterizam o próprio folclore. Sem conhecimento, eles fazem a

arte deles, não sabem a posição que estão fazendo, não tem noção de compassos,

apenas valorizam os ritmos e fazem essa maravilha que é o nosso Fandango”,

orgulha-se.

Inami identificou, durante suas décadas de pesquisa, 50 marcas de

Fandango e descobriu 28 ritmos diferentes. Cada ritmo é acompanhado de uma

coreografia específica.

“Eu me interesso pelo Fandango desde pequeno, os meus pais moraram

em Paranaguá, entre 1934 a 1939. Então papai acostumava, naquelas noites

48 Heloisa Garrett


claras de lua cheia em Paranaguá, me levar no Miramar, na rua XV. Ali eu avistava

a grande extensão do rio Itiberê e toda a costa leste da Ilha de Valadares, e

ele dizia: ‘Escuta, (ouvíamos então as batidas), isso é Fandango’”, e me recordo

que o antigo Carnaval do nosso litoral era feito só com Fandango.

Ele conta que, no litoral, nenhuma outra coisa era feita durante os quatro

dias de festa no mês de fevereiro senão bater o Fandango e comer o barreado:

“Não posso nem pensar em separar esses dois aspectos da nossa cultura, o

Fandango e o barreado”.

A festança começava, na boca da noite de sábado, continuava no domingo,

na segunda, e só parava na quarta-feira de cinzas. Inami conta que só paravam

com a batida dos tamancos e com o som do adufo, da rabeca e das violas

lá por meia-noite da quarta-feira de cinzas, porque existia uma crença popular

de que quem dançasse depois da meia-noite criaria rabo, viraria diabo.

Os caiçaras descobriram um meio de preparar um prato para saciar a

fome desses homens e mulheres festeiros por natureza: “Você imagina, se reuniam

de 50 a 100 casais, eles começam na boca da noite e terminam como o astro

rei a pino, imagina as mulheres cansadas da bateção, cozinhar pra toda essa

tropa. Então eles descobriram um meio, um prato, que é o barreado, não que o

nome seja barreado, mas, no velho e antigo português, barrear quer dizer vedar,

eles descobriram uma maneira de cozinhar. Eles colocavam na panela de barro

os condimentos a base de carne, todos os temperos, toicinho, e começava a

ferver e então vedavam, soldavam a tampa. Faziam pirão de farinha com água

fria e cuidavam para que cada vez que escapasse o vapor eles tampassem.

Depois de dez horas de cozimento, estava pronto o rango, então é fácil de

preparar, relativamente barato, leva dias pra deteriorar e você pode requentar

quantas vezes quiser que não perde o sabor original. Era só misturar com banana

e farinha de mandioca que estava pronta a refeição”.

Quando Inami tinha dez anos foi para Florianópolis morar justamente na

boca do Morro do Céu, localidade de onde saíram todas as manifestações do

rico folclore catarinense. Na época, o Paraná tinha um dos maiores carnavais do

Brasil: “Lá (em Florianópolis) eu comecei a brincar no Boi de Mamão, e o

catarinense é bairrista, e até foi bom conviver com eles porque me gozaram: ‘lá

na tua terra não tem, não?’ zoavam de mim sempre me questionando se a

minha terra não tinha folclore, não tinha diversão.

Durante os carnavais de Paranaguá, Inami conta que faziam frente com os

de Santos, Rio de Janeiro e Salvador, que eram os melhores carnavais do Brasil.

Inclusive os corsos passavam pela rua principal, a rua XV, e debandavam para

a estação Dom Pedro II, onde começou a maior estrada de ferro da engenharia

Fandango,o bailado de gerações

49


paranaense, ligando Paranaguá a Curitiba. Ali foi feita, para manter a tradição,

uma casa de Fandango em frente à estação: “Eu me lembro que via passar os

corsos com aquela batalha de serpentina, os carros, não só alegóricos, mas de

demonstração que só em Paranaguá tinha. Por exemplo, vinha uma melancia ela

abria, aparecia mulheres dançando, coisas lindas e só tinha em Paranaguá esses

carros de demonstração, que alegóricos tinha como esses que tem em qualquer

canto, então já vinha a engenharia paranaense e a gente corria pra assistir ao

Fandango e assim o Fandango amanhecia, a multidão aplaudia” lembra Inami

com saudosismo.

Ele conta que quando chegou em Florianópolis ouviu: “Na sua terra não

tem, não?” Provocado, foi descobrir que eu não era um informante, mas sim um

portador de folclore). Ele começou a ensinar as danças, a memorizar e a dizer

que se lembra do passado como se fosse hoje: “Se em uma escola de samba

não tivesse a ala das baianas, era desclassificada. Então lá no Fandango era

obrigatório, porque originou o carnaval no entrudo que se fazia a base de

Fandango. Então, o Fandango que chamava mais atenção porque estava na raiz

do povo, e aí então eu comecei a ensinar. Foi daí que eu conheci e comecei a

aprender essa desgranha que é o folclore”.

Nessa época, Inami conheceu seu médico, Osvaldo Rodrigues Cabral, um

dos maiores folcloristas do Brasil, de fama internacional, que foi pesquisar o Boi

de Mamão tão famoso. E quão grande não foi a surpresa dele quando viu o seu

cliente Inami como diretor e vaqueiro do Boi de Mamão mais famoso da região,

daí ele começou a acompanhar Inami nas pesquisas: “Tudo isso foi em

Florianópolis, quando comecei a estudar a história do Paraná sobre a civilização,

com 12 ou 13 anos, enquanto eu estava no ginásio (e o ginásio lá era

formidável), no primeiro ano você tinha que falar francês, inglês, alemão, que

antes da guerra não se falava o alemão, depois foi proibido, uma besteira enorme.

Aí então eu comecei a provar que o Paraná era mais rico, e como foi minha

surpresa quando caiu na minha mão a lenda do pinheiro e da gralha azul, de um

grande médico e cientista paranaense: Eurico Branco, mitólogo, escritor, poeta,

conhecido no mundo todo, ele radicou-se no Rio de Janeiro, morreu e os jornais

daqui não deram essa notícia, que ingratidão. Nós estudávamos oficialmente

que a maior riqueza do Paraná era o Ouro Verde, o Ouro branco, o algodão, o

mate, o café, e daí que eu fui saber, através da lenda, que a maior riqueza que

Deus deu ao Paraná foi a madeira, o Pinho. Então, quando eu descobri que a

responsável, a replantadora natural da árvore símbolo do Paraná, era esse bichinho

interessante. Eu compus uma sinfonia, que é minha maneira de externar

face espontânea através da música que é meu elemento. E você veja quanto

tempo se passou: mais de 50 anos que comecei a minha pesquisa. Há quatro

50 Heloisa Garrett


anos que foi pelo balé do Teatro Guaíra, que é um dos maiores do mundo que

uma obra minha ganhou grande repercussão, eles encenaram o balé do Caiado,

eu trouxe uma sinfonia suíte e foi levado e parar, e quantos anos isso era, mas

Graças a Deus conseguimos que é uma história emocionante, pra mim é a mais

emotiva

Inami retornou a Curitiba em 1950, quando começou as pesquisas aqui.

Nessa época já tinha feito todo o levantamento no Rio Grande do Sul e de Santa

Catarina: “Quando cheguei na minha terra, cadê o fandango? Desapareceu, aí

meu antigo professor de piano, folclorista, poeta, musicista, de saudosa memória,

o Viana, ele me disse: ‘que pena, com a Guerra acabou, então as nossas

ilhas são consideradas de segurança nacional e, durante a guerra, foi proibida a

prática do Fandango. Inclusive eu me lembro que em Florianópolis nós fazíamos

ensaios de blecaute, caso fossemos bombardeados. Então a chama de um palito

de fósforo era vista a quilômetros de distância, apagavam-se todas as luzes. Por

isso que o fandangueiro é chamado de folgador e a mulher de folgadeira: que só

dançam na folga. E à noite daí foram proibidos de acender lamparinas, e daí foi

essa causa.

Foi Inami um dos maiores responsáveis por ressuscitar o Fandango. Ele se

encontrou com Mestre Romão e Manequinho da Viola. Juntos juraram que,

enquanto fossem vivos, nunca iria acabar no Brasil gêneros como o Fandango e

a criatividade da época provou que conseguiram atingir esse objetivo. Nesta

época, Inami começou uma verdadeira luta para ressuscitar aquilo que nunca

saiu de sua memória. Ele e Mestre Romão não podiam imaginar que o Fandango

subiria a Serra, mas subiu: “Dançamos no Palácio do Governo, no Monumento

do Teatro Guaíra Cultural, e corremos o mundo. Artistas hoje eruditos, ex-alunos

meus, eu fui professor na Faculdade de Artes e estão hoje valorizando,

todos os conjuntos, corais, bandas, estão aproveitando essa maravilha, depois é

coisa feita do povo, como muitos gostam, até coisa de caboclo, mas, bem aproveitado,

você quer ver uma coisa: nós temos marcas de Fandango gravado

Filarmônica de Washington, na Alemanha, em Bremen, como tem várias peças

soltas pelo mundo. É aquela velha história, você pega uma miss Universo desarruma

o cabelo, tira a maquiagem, põe o chinelo e um vestido de chita, você

encontra ela à meia noite, você sai correndo; agora pega uma caboclinha, dê um

banho de civilização, e você acha que ela é a miss universo. Assim é com o

Fandango, o valor que as pessoas dão para ele quando sai da casa do

fandangueiro e é apresentado na orquestra é outro, infelizmente”.

Inami começou sua pesquisa em 1950 e prosseguiu estudando o Fandango

e a cultura popular paranaense até 1994: “Mas ainda continuo, de um jeito ou de

outro, transmitindo o que aprendi ao longo desses anos. Já formei vários grupos,

Fandango,o bailado de gerações

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levei por todo o Brasil. Veja, fui para Bélgica, Alemanha, Holanda, França e

Itália. Quando essas etnias chegaram, essas formações de clubes já eram daqui,

que nós recebemos dos lusitanos, dos africanos. Eles só vieram para acrescentar

na nossa cultura, por exemplo, até a voz, nós não temos o som cultural do

português, então eles não contribuíram em nada. Não podemos dizer isso”.

Ele defende que o Fandango é uma manifestação cultural que só se encontra

no Paraná: “Claro que o folclore é só no local, quantas vezes descaracterizei

a crendice do folclore, trazendo os grupos para Curitiba. Eles chegavam aqui e

tinha gente tão maldosa, que, em vez de olhar os tamanquinhos batendo no

chão, olhavam o desdentado do caiçara e riam, caçoavam. Agora, só sai de lá

bem vestido, então são essas coisinhas que tem que considerar”.

Ele lamenta que muitas pessoas se aproximaram do Fandango e fizeram a

arte por dinheiro, por necessidade, e deturparam o real sentido: “Já vi pessoas

dançando o nosso Fandango com trajes gauchescos. Pegavam os grupos para

representar o folclore, usaram as músicas do meu disco e descaracterizaram o

trabalho. Você tem que fazer uma coisa comercial, infelizmente, a isso eles dão

dinheiro que não sei como eles fazem, em vez de mandar o Romão para o

Festival Internacional, foi um outro grupo representar o Paraná na Europa, tocaram

uma música só de Fandango que vieram me buscar”.

O perigo da descaracterização de quando o Fandango sai da comunidade

é motivo de alerta pra Inami: “Quando pessoas desprovidas de técnica, isso é,

folclore e é só no local, saiu de lá, inclusive trazendo a televisão, eles dançavam

de costas olhando para a câmera achando que só apareciam de cara só Agora,

por exemplo, eu fiz um show, Inami em Garibe, tinha acordeão, bateria, baixo,

violão, tocamos lá maravilhosamente bem, e com o som ao gosto da plateia,

então você veja, quando é legítimo, é local, agora, como o folclore tanto local

quanto o regional e universal, cada um sabe o seu lugar”.

Inami tem duas filhas e elas puxaram pelo pai, continuam o seu trabalho.

Uma delas é formada em música. Ele lamenta ter deixado um acervo, mas lamenta

que as gravadoras não se interessaram: “Até conversei com um jornalista,

nunca me esqueço, o principal objetivo era levar cultura ao povo, infelizmente a

imprensa é comercial. A cultura não dá Ibope, não dá voto e muito menos dinheiro.

Só os malucos como a gente que tem olhos para a cultura, mas a única

maneira de você demonstrar o amor que deveríamos ter pelos nossos antepassados

é que trouxe o nosso misticismo, a única maneira, infelizmente. Você vê

eles com sangue, suor e lágrimas, desbravaram a selva, comeram o pão que o

diabo amassou, para nos dar, queira ou não queira, a melhor noção do nosso

entendimento a melhor prova de uma versatilidade tremenda, pena que falta

cultura. Meu primo Bento dizia para o meu avô Tadeu: ‘eu quero ser isso, quero

52 Heloisa Garrett


ser aquilo’, e ele (o avô) dizia: ‘filho não pense em dinheiro, o Brasil precisa de

cultura, talvez não reconheça, mas você planta uma sementinha, ela vai se transformar

em uma árvore, talvez você não chegue a colher esse fruto, mas alguém

vai colher’, e o Bento: ‘não, Inami, continue, passe fome, mas continue porque

nós precisamos disso, o dia que nós vermos a cultura com o nosso povo, deixaremos

de ser o país do futuro pra ser a maior nação do mundo.

Da sua pesquisa dentre 50 anos, ele não colheu nada financeiramente, só

tirou recursos do seu próprio bolso para manter seu trabalho. Como professor,

sempre ganhou pouco, mas a riqueza dentro do seu coração e do seu intelecto

não são pagas com dinheiro algum

Saio do seu apartamento um tanto confusa, com tanta informação recebida.

Mas a certeza é de que esta tarde foi certamente uma das mais importantes

de toda a minha vida. Encontrar uma pessoa formidável, com tanto conhecimento,

reconhecida por muitos, mas ao mesmo tempo tão solitária, nas frias paredes

de seu apartamento. O orgulho de fazer parte da história do Paraná enche seu

coração, que se complementa com a alegria de ter alguém para conversar durante

algumas horas. Ao mesmo tempo que seus olhos ficam marejados ao pensar

no que será do Fandango, ou mesmo da sua pesquisa se não existir uma

política de incentivo à preservação da história e da cultura dos paranaenses.

Fandango,o bailado de gerações

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54 Heloisa Garrett


Fandango,o bailado de gerações

Pesquisa

Apesar de ser tema de muitas pesquisas científicas, o Fandango ainda é um

assunto que não tem tanta visibilidade para o público, uma consequência da

escassez de bibliografia sobre a cultura caiçara. O material existente, na maioria

das vezes, não apresenta profundidade do tema e chega a ser contraditório.

Nos últimos anos a pesquisa em torno desse tema aumentou significativamente,

mas, apesar do leque de possibilidades de abordagem que o Fandango proporciona,

poucos materiais foram publicados.

“O que a comunidade mais reclama é que os pesquisadores vêm, tiram de

nós o nosso conhecimento, a vivência dos fandangueiros mais velhos e depois

nunca mais voltam para dar sequer uma satisfação, para sequer agradecer se

fomos úteis ou não para o seu trabalho. Eles tiram de nós o conhecimento, fazem

suas pesquisas e nós ficamos aqui esperando o retorno, mas nem uma cópia do

resultado da pesquisa recebemos”, lamenta José Muniz, jovem pesquisador da

cultura caiçara. Ele é formado em história e mora em Guaraqueçaba, onde é

fundador de grupos de cultura popular como o Fandanguará e o Fâmulos de

Bonifrates. Ele mantém uma biblioteca não só com o resultado de suas pesquisas

acadêmicas, mas também com o resultado de pesquisas de outras pessoas

que passaram por Guaraqueçaba e lembraram de reconhecer a receptividade

da comunidade local.

O acervo que “Zé” guarda na Casa do Fandango de Guaraqueçaba é

vasto e enche uma estante. Além de pesquisas de sua autoria que se orgulha em

mostrar e falar da pretensão de publicá-las em formato de livro, ele ainda pede

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sempre para que os pesquisadores que vêm a Guaraqueçaba retornem com o

resultado da pesquisa para consulta da comunidade.

“É o mínimo que podemos pedir, um retorno da nossa contribuição para o

trabalho dessas pessoas. Mas muitos nem sequer voltam a ter contato. Para a

comunidade é muito importante ter esse retorno, pesquisas que voltam em forma

de obras ou textos científicos para o nosso acervo, porque mostra a importância

que todos têm para o cenário acadêmico”, ressalta José.

Os pesquisadores que tomam como objeto de estudo o Fandango são

das mais variadas áreas do conhecimento, e a motivação, na maioria das vezes,

reside em conhecer um pouco mais sobre esse universo.

Logo no início da minha pesquisa, encontrei Marcos Torres na véspera de

sua defesa perante a banca do curso de mestrado em história da Universidade

Federal do Paraná. Marcos é graduado, mestre e doutor em geografia, e trabalha

com assessoramento pedagógico. Ele se mostrou bastante empolgado com

o resultado de seu trabalho, mostrando-se também interessado em contribuir

com a minha pesquisa. Ele estudou a paisagem sonora da Ilha de Valadares,

marcada pelo Fandango.

“A Ilha de Valadares tem a maior concentração de mestres tocadores do

Estado do Paraná, e estudá-la é fundamental para pensar nos aspectos da geografia

e da cultura da localidade. Durante minha pesquisa, me envolvi com os

mestres e conheci um universo maravilhoso”, conta Marcos. Ele diz que conhecia

um pouco do Fandango, um pouco sobre a cultura caiçara, mas não conhecia

Valadares e também não tinha ideia da dimensão do que representava o

Fandango para a cultura caiçara. Marcos já tinha defendido sua tese sobre a

paisagem sonora de Curitiba e quando visitou pela primeira vez em 2006 a Ilha

de Valadares decidiu fazer sua pesquisa de mestrado sobre aquela temática.

O trabalho de Marcos buscou desvendar quais elementos compõem o

universo simbólico que envolve a Ilha, usando as percepções e a memória de

cinco fandangueiros. Quem participou da pesquisa foi: Gerônimo dos Santos e

Nemésio Costa, Eugênio dos Santos, Romão Costa e Eloir Paulo Ribeiro de

Jesus. “Fui me envolvendo cada vez mais, a ponto de querer buscar mais respostas

sobre os questionamentos que fazia a respeito dessa cultura”, conta.

Durante sua pesquisa, ele acabou fazendo muitos amigos no cenário caiçara

e trabalhou no mutirão de construção da sede da Associação Mundicuera, e

claro que depois participou do baile a convite dos amigos Aorélio Domingos e

Eloir Paulo Ribeiro de Jesus, o Poro. “Conheci muitas coisas interessantes durante

o período da minha pesquisa, mas também acabei descobrindo coisas que

poderiam não fazer parte do universo caiçara, como a rivalidade entre os gru-

56 Heloisa Garrett


pos, mestres que falavam mal de outros mestres, mas tudo isso só apareceu

depois, a magia do início foi importantíssima para eu mergulhar nas pesquisas

sobre a paisagem sonora da Ilha de Valadares e sua relação com a cultura caiçara.

.Apenas um dos seis mestres que Marcos tinha selecionado para participar

da minha pesquisa se negou a participar, alegando problemas de saúde. Mas

os outros foram bastante receptivos, o atenderam prontamente, o recebendo

em suas casas e mostrando orgulho em transmitir a sua história e a sua origem.

Uma das constatações da pesquisa de Marcos é sobre a dinâmica constante

do processo cultural. “Vejo que as manifestações culturais sofrem mudanças

com o passar do tempo. O Fandango feito hoje não é igual ao Fandango

que era feito na década de 1950 ou 60. É outro Fandango! Por exemplo, hoje

não fazem mais mutirões para em seguida o dono da roça oferecer o baile. As

relações econômicas são outras, as relações sociais também, logo, o Fandango

de hoje é diferente. É diferente também em sua musicalidade, visto que muitos

mestres saíram de seu local de origem para morar em outras localidades, como

na Ilha dos Valadares, onde poucos, ou talvez só o Mestre Romão, nasceu,

cresceu e vive lá até hoje. Lá mora o Mestre Eugênio, o Mestre Nemésio, o

Mestre Gerônimo, o Pedro Pereira, mestres que viviam em outras localidades, e

hoje vivem ali. Cada um fazia um Fandango diferente, e hoje tocam juntos. Será

que vai ser o mesmo Fandango? Não vai! E é muito comum ouvir, entre eles, o

julgamento de que o que o outro toca não é Fandango. É muito engraçado isso,

pois mesmo com esse julgamento, tocam juntos e fazem bailes maravilhosos. E

tem também a nova geração, como o Poro e o Aorélio, engajados com a cultura

caiçara, que aprenderam com os antigos e já estão repassando pra gurizada

nova. Tem também a os meninos que aprendem as danças com o grupo do

Mestre Romão. Logo eles estarão fazendo Fandango sozinhos, e com certeza

será diferente”.

Outros pesquisadores também estão desenvolvendo trabalhos sérios sobre

a temática do Fandango e da cultura caiçara. Entre esses exemplos está

Daniela Gramani, que tem uma pesquisa bem estruturada sobre os rabequeiros;

Patrícia Martins, que estudou o Fandango enquanto prática social; Otávio Zucon,

que desenvolveu um trabalho sobre as lendas do litoral paranaense e as relações

com o imaginário do povo.

“Vemos que os paranaenses estão conseguindo deixar de lado o complexo

de "inferioridade cultural", dos "sem manifestação cultural própria", para buscar

de fato o que existe por aqui. A cultura caiçara, e a cultura paranaense como um

todo, ainda guardam muita coisa para desvendarmos”, comemora Marcos.

Fandango,o bailado de gerações

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58 Heloisa Garrett


Fandango,o bailado de gerações

Preservação

Uma das grandes preocupações de quem trabalha com a cultura popular

paranaense é com a transmissão da arte do Fandango. Os mestres estão bastante

idosos, debilitados pelo passar do tempo e, como muitos já morreram,

levaram com eles as marcas, as peculiaridades do batido dos seus tamancos. O

que Aorélio Domingues, produtor cultural e membro da Associação Mundicuera,

defende é que seja feito um trabalho de repasse com os mestres que estão vivos:

“Poderíamos ter escrito muita coisa já, mas não escrevemos; feito registros

preciosos, mas não fizemos. Nós poderíamos reescrever afinações, gravar músicas

para depois podermos trabalhar com elas, perdemos muitas oportunidades.

Mas ainda há tempo”, afirma Aorélio.

Hoje, o acervo de obras publicadas e a disposição para consulta pública

existente em relação à memória do Fandango é bastante escasso, e a falta de

políticas públicas de conservação consiste no principal agravante quando o assunto

é preservar a memória da cultura caiçara. Alguns CDs com músicas e

batidas foram gravados, mas estão dispersos, e a falta de recursos estruturais e

financeiros acaba limitando o trabalho das pessoas que tentam promover essa

conservação por meio de um arquivo de som e imagem.

Alguns grupos fizeram importantes produções usando o Fandango como

objeto de pesquisa como o Museu Vivo do Fandango e o Projeto Tocadores do

Grupo de Arte Olaria, que fizeram uma grande pesquisa em torno do tema, que

resultou em livros para consulta e material de áudio. Uma produção que só foi

viabilizada porque previamente teve aprovação de Leis de Incentivo à Cultura e

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foram financiadas por grandes montantes de recursos, os quais oportunizaram

que uma equipe multidisciplinar pudesse se aprofundar na pesquisa e tivesse

recursos para a publicação.

Esses trabalhos, viabilizados graças às Leis de Incentivo, fez com que muitas

pessoas que moravam nas vilas onde o Fandango é uma prática constante se

interessassem mais pela preservação.

“Você passa muitas vezes por uma viela, mas nunca percebe nada de diferente.

Agora, passados muitos anos, você passa é vê um fotógrafo registrando

aquela paisagem, aí você passa a valorizar, a admirar e a respeitar aquela viela”,

é assim que Aorélio explica, a sua maneira, como as pessoas (entre elas os

próprios caiçaras) tendem a valorizar sua cultura.

Com o passar dos anos, a cultura sofre transformações e a diferença de

rotina e de tradição influenciam para que também o Fandango sofra mutações.

“Para nós aprendermos, alguém tem que nos ensinar, e quando uma pessoa

ensina a outra já não adquire o mesmo suingue, a mesma jinga a mesma

brincadeira. Muita coisa se perde, mas também muita coisa se acrescenta nesse

processo que é a preservação da cultura, um processo de ganhas e perdas

constantes”, explica Aorélio.

Ele conta que os toques que conhece de viola e de rabeca aprendeu com

seu avô, mas sua formação musical também teve uma importante participação

do Mestre Eugênio dos Santos, um dos mais respeitados fandangueiros do

Paraná, e, a partir desses ensinamentos e convivendo com outros tocadores,

pode desenvolver o seu próprio estilo de fazer Fandango. Ninguém jamais vai

tocar no mesmo compasso que os antigos mestres tocavam e nem bater os

tamancos como os velhos fandangueiros batiam, cada um à medida que aprende

insere o seu ritmo, o seu compasso.

60 Heloisa Garrett


Fandango,o bailado de gerações

Subindo a Serra

O Fandango está subindo a Serra do Mar, e não é somente com os mestres

fandangueiros que vêm fazer apresentações na capital paranaense, ou são

convidados para mostrar a riqueza da cultura caiçara em outras cidades e em

outros estados brasileiros. O Fandango está subindo a Serra porque alguns

grupos ligados à cultura popular estão inserindo em seu repertório a sonoridade

dessa riqueza peculiar do folclore paranaense.

Um desses grupos é o Fato que existe desde 1994 e tem seu trabalho

reconhecido por críticos no Brasil e no exterior. Nas comemorações do Ano do

Brasil na França, o grupo foi o responsável por apresentar na Europa a sonoridade

da cultura popular paranaense, a convite da Secretaria de Estado da Cultura

do Paraná.

Ulisses Galetto, mentor e vocalista do grupo, conta que começaram a

trabalhar com elementos do Fandango em 1995, quando estavam gravando a

música “A Noite” e o então produtor do grupo na época, Paulo Brandão, sugeriu

que usassem elementos da cultura popular para o arranjo. A tecladista do

grupo, Grace Torres, foi aluna de Inami Custódio Pinto e sugeriu que usassem

elementos do Fandango, já que tinha ouvido o professor falar muito sobre a

riqueza cultural e as peculiaridades da música e da dança típicas do litoral

paranaense.

“Nós procuramos o professor Inami que nos ajudou muito apresentando

pessoas e até nos cedendo material de seu acervo pessoal. Foi aí que começou

o namoro do grupo Fato com o Fandango”, lembra Ulisses. Ele conta que

passaram a desenvolver uma pesquisa sobre o Fandango entre os anos de 1998

e 1999, e, a partir daí, os tamancos foram usados como elementos musicais

pelo grupo.

Em 2000, o Fato promoveu um show usando elementos da cultura regio-

61


nal brasileira. Essa foi também a primeira vez que o Fato fez percussão com os

pés, utilizando tamancos de madeira do Fandango paranaense como instrumentos

importantes nos arranjos, provocando novas propostas rítmicas e sonoras.

“Temos uma gratidão enorme com os mestres fandangueiros e com o professor

Inami. Nós somos um grupo de música urbana e não fazemos Fandango,

apenas usamos alguns elementos. Fazer Fandango fica por conta dos grupos

regionais”, explica Ulisses.

Quando fazem suas apresentações o som dos tamancos muitas vezes surpreende

o público, e Ulisses lamenta que os elementos do Fandango sejam tão

pouco conhecidos, até mesmo dos paranaenses. “No próprio meio musical,

muitas pessoas nunca nem ouviram falar em Fandango e acabam usando elementos

do Samba e do Maracatu em seus arranjos. O Fandango é conhecido

dentro de um ambiente muito restrito no Paraná e, quando o Grupo Fato começou

a trabalhar com esses elementos, lançamos uma novidade na música brasileira,

um elemento que marca a personalidade do Fato. O Fandango tem elementos

rítmicos muito ricos, posso até dizer que é um dos mais ricos do cenário

cultural brasileiro, mas quando outros grupos que trabalham com a música popular

e urbana deixam de conhecer este universo todos perdem com isso”, alerta

o músico.

A inovação tornou-se depois característica do grupo, marcando ainda mais

a versatilidade instrumental. Esse show também foi selecionado pelo edital da

Funarte e Espaço Cultural Sérgio Porto, no Rio de Janeiro; sendo apresentado

ainda no Centro Cultural São Paulo e no SESC, pelo projeto Balaio Brasil,

reunindo artistas de todo o país na capital paulista. Dentro do projeto Balaio

Brasil, o grupo foi destaque nacional em virtude da sua relevância artística em

aproveitar as sonoridades do Fandango paranaense de forma criativa e inovadora.

No ano de 2003, com o show “Atamancados”, o grupo levou o Fandango

para temporadas de apresentações em Curitiba e em São Paulo.

Outro grupo que também utiliza elementos característicos do Fandango

em suas produções é o Viola Quebrada. Em 2001, eles lançaram o CD “Viola

fandangueira, Viola Quebrada e Família Pereira”, que foi um marco na promoção

do ritmo do Fandango paranaense. Produzido por Osvaldo Rios e Rogério

Gulin, a gravação contou com a participação de um dos grupos mais tracionais

de fandangueiros: a Família Pereira.

“Registramos a Família Pereira de uma forma que nunca tinha sido registrada,

e como os mestres da família estão bastante velhos, acredito que esta

formação dificilmente volte a fazer um trabalho semelhante”, conta Rogério Gulin,

que defende que deveria ser feita uma nova tiragem do CD. Este trabalho con-

62 Heloisa Garrett


sistiu em um CD duplo, um dos CDs com o grupo Viola Quebrada tocando

Fandango, e outro com gravações da própria Família Pereira.

Esta foi a primeira vez que um grupo de Fandango fez uma gravação em

estúdio profissional. Gulin acredita que hoje o Fandango tem ganhado mais destaque,

tanto no que se refere à promoção quanto à qualidade de produção/

captação. “Quando conheci o Fandango, na década de 80, ele estava jogado às

moscas. Hoje, com a criação das Associações de Fandangueiros e a formação

dos grupos vejo que há uma preocupação maior com a sua preservação”, explica.

O grupo Viola Quebrada sempre grava em seus discos marcas de Fandango,

adotando a afinação de viola usada pelos fandangueiros e fazendo uma releitura

dos ritmos, como uma forma de promover a arte caiçara.

Fandango,o bailado de gerações

63


64 Heloisa Garrett


A viagem à Ilha de Valadares já estava marcada havia um mês, porque eu

sabia que todo primeiro sábado do mês é dia de Fandango no Mercado Municipal

de Paranaguá, só não sabia que em um mesmo dia eu ira em três bailes de

Fandango.

Quando estava chegando em Valadares, o amigo que me acompanhava

ligou para Aorélio Domingos para saber se poderíamos ir até a Associação

Mundicuera, ele prontamente nos atendeu e foi nos recepcionar na ponte que

liga a Ilha de Valadares à cidade de Paranaguá. Desta vez não bobeamos, e,

mesmo sendo contra a poluição e a degradação ambiental, entramos na ilha de

carro.

Chegando perto da sede da Associação, comecei a ouvir uma música

envolvente e o barulho dos tamancos que silenciava o barulho da chuva que

teimava em cair. A casa colorida estava iluminada, pois a noite já tinha chegado.

Deixamos o carro debaixo das árvores e fomos entrando, ninguém se incomodou

com a nossa presença, os casais continuaram dançando, mulheres girando

suas saias e meninos batendo seus tamancos.

O contrate dos pesados tamancos do Fandango com pés descalços, ou

mesmo tênis calçados com os mais diferentes estilos, mostrava que o baile era

de jovens. Jovens adolescentes da comunidade que se reuniram para ensaiar e,

de quebra, participar de mais um capítulo da novela caiçara gravada e dirigida

por Daniela Domingues.

Com suas melhores roupas, Aorelio e Pôro eles tocavam o melhor

Fandango, afinal a cultura e a tradição merecem honra e respeito. “Vocês vieram

em um bom dia”, diz Aorélio, mais uma vez sendo receptivo à minha visita, já

comecei a ficar “de casa” dos fandangueiros.

Durante todo o tempo que eu fiz a pesquisa, assisti a algumas apresenta-

Fandango,o bailado de gerações

Dia de Fandango

65


ções em vídeo e minha imaginação me fazia “ver” como era um baile de Fandango.

Mas estar frente a frente com os músicos, ouvindo o som dos instrumentos que

encantam por ser rústicos, ver os casais bailando e o som dos tamancos, mostrando

o compasso e a harmonia desse conjunto é quase que indescritível. Principalmente

para uma pessoa que optou por esse tema pela sua ignorância e que

agora se vê apaixonada, encantada por um contexto envolvente.

Os jovens bailarinos se preocupavam com as marcas. Mostravam respeito

com a harmonia da dança. Ao mesmo tempo em que ensaiavam, eles encaravam

personagens do reais e sabiam que estavam ali para mostrar a cultura caiçara

na rede de computadores (o vídeo seria publicado no Youtube). Alguns mais e

outros menos tímidos, todos deram a sua contribuição naquela noite. Logo que

acabou o ensaio, as conversas paralelas começaram e discutiam onde seria a

diversão naquela noite de sábado, afinal tinham dois bailes de Fandango, além

de todas as outras programações fora do universo caiçara. Em poucos minutos

eles se dispersaram e Aorélio, orgulhoso em ter nos recebido no dia certo, diz:

“É isso, esses são nossos meninos, vocês puderam ver hoje do que tanto falamos,

a gurizada arrematando e puxando o baile como os nossos mestres”.

Saímos da Associação Mundicuera surpresos e muito empolgados com o

que vimos. Um envolvimento fantástico dos jovens da comunidade e uma harmonia

que nos mostrou porque o Fandango está ganhando cada vez mais defensores

e admiradores.

Tínhamos ainda algumas horas até que os outros dois bailes programados

para a noite começassem, aproveitamos o tempo e fomos procurar mais alguns

mestres fandangueiros. Acabamos chegando em uma casa onde o ensaio de um

grupo de Fandango acabava de terminar. Brasílio Santos Ferres é mestre

fandangueiro e faz parte do grupo de Mestre Romão, foi ele quem nos recebeu

para uma entrevista junto a sua simpática família.

Naquele início de noite de sábado eles estavam ensaiando com as crianças.

Os grupos que se reúnem na casa de Valdemar dos Santos são dois. Um de

casais da terceira idade e outro de crianças, geralmente netos desses próprios

casais que integram o primeiro grupo.

Um exemplo de uma das famílias que é envolvida com o grupo é a de

Nadir Vidal da Silva, ela participa do grupo de fandangueiros da terceira idade,

a exemplo de seus pais, que cultivavam o Fandango. Seus filhos também

tamanqueavam e agora vê seus netos de oito e três anos participando assiduamente

dos ensaios e das apresentações: “Somamos quatro gerações de

fandangueiros, e isso é um orgulho, ver que nossa família preserva coisas saudáveis,

uma tradição que veio dos nossos antepassados”, comemora Nadir.

66

Heloisa Garrett


Brasílio conta que no seu grupo tem oito músicos que sempre acompanham

as apresentações do Mestre Romão, mas que também fazem música para

as apresentações do grupo da terceira idade que trabalha com o foco do resgate

do Fandango, já que a maioria dos integrantes bailava Fandango na mocidade e

agora está reaprendendo. Os músicos também acompanham o grupo infantil

que é formado por crianças de sete a doze anos de idade.

Infelizmente não pude saber mais sobre o trabalho dos grupos coordenados

por mestre Brasílio, pois eles terminaram o ensaio cedo porque serão os

responsáveis por tocar o baile do Mercado em Paranaguá, que começaria dentro

de poucas horas.

Quando chegamos ao Mercado de Paranaguá, localizado no centro histórico

da cidade, a beleza do casarão centenário encheu os olhos. O prédio,

pintado de amarelo, tem suas paredes descascadas pelo tempo. Não havia muito

tempo cronológico para admirar o cenário, porque a chuva teimava em incomodar.

São quatro corredores que dão acesso ao centro do mercado, um espaço

não muito grande, cercado por mesas e cadeiras de plástico branco, tendo

ao centro um tablado de madeira.

Momentos antes de o baile começar, o lugar já começava a ficar cheio.

Jovens casais que vêm curtir a noite de festa na cidade, senhoras solteiras que

colocaram a melhor roupa e não se sentiam intimidadas em pedir uma cerveja

para o garçom, crianças e jovens achavam seu lugar nas mesas, e ficavam estrategicamente

posicionados para assistir ao baile.

Os tocadores estavam posicionados e, em poucos minutos, o baile começaria.

Apesar de há poucas horas eu já ter sido surpreendida com a beleza dos

instrumentos, mais uma vez me emocionei com o ritmo, e parecia estar ouvindo

tudo pela primeira vez.

Começou o baile e os oito jovens casais do grupo do Mestre Romão

começaram a dançar. Ele, nada tímido, comandava os passos no centro da roda,

dando a direção para os movimentos, analisando cuidadosamente o ritmo de

cada um dos integrantes. Todos trajavam roupas feitas especialmente para as

apresentações: os meninos vestiam calça mostarda e camisa branca, enquanto

as meninas usavam saia de chita florida e uma delicada camisa. Com cabelos

bem presos e uma delicadeza encantadora, elas reafirmavam o que muitos dos

meus entrevistados falaram sobre a beleza e a majestade da mulher no Fandango.

Eram duas marcas dançadas pelo grupo e eles abriam espaço no tablado

para o público. Os próprios membros do grupo saíam convidando a plateia para

bailar. Alguns acompanhavam as músicas com palmas, um envolvimento surpreendente

de todos os que estavam no baile.

Fandango,o bailado de gerações 67


Até eu fui chamada para dançar. Um dos integrantes do grupo do Mestre

Romão me surpreendeu enquanto eu anotava informações no papel, me fez interromper

o raciocínio e ir para o tablado. Depois de ficar encantada com o som

da rabeca e da viola, encantada pela beleza das marcas, agora me envolvia

completamente com a dança. Não troquei uma palavra com o menino, mas ele

me conduziu como um cavalheiro e me ensinou em poucos minutos uma dos

bailados do Fandango.

Quando a música terminou, ele me conduziu ao meu lugar na mesa. Gentilmente

agradeceu a dança e voltou para o seu par. Envolvida com o baile, eu

pude constatar que muitas vezes durante o baile o tamanquear cala a música, e é

tudo tão envolvente que quem não está de tamanco bate até o chinelo para

acompanhar o ritmo.

Por mim, ficava no Mercado até a última marca, mas não poderíamos

perder a oportunidade de conhecer mais um baile: o baile do Mangue Seco na

Ilha de Valadares.

Retornamos à Ilha de Valadares para um dos bailes mais tradicionais do

litoral paranaense. Algumas características marcantes diferem os dois bailes que

acontecem a poucos quilômetros de distância um do outro. Enquanto o baile do

mercado em Paranaguá tinha um ar mais artístico, o baile do Mangue Seco era

mais popular.

Este novo baile em que adentramos aconteceu em um galpão de alvenaria,

construído ao lado de uma área de mangue, o que sugestivamente deu nome

ao lugar. Quem anima o baile é o grupo Pé de Ouro, que é formado por músicos

de diferentes faixas etárias, senhores de cabelos brancos no adufo e meninos

tocando viola. Uma mescla que comprova mais uma vez que o Fandango é o

bailado de gerações.

Ao contrário do baile do Mercado, onde o tablado de madeira é encaixado,

o que mostra que é usado ocasionalmente, no Mangue Seco ele é fixo.

Outro elemento que chama a atenção é a decoração. Todas as mesas estavam

enfeitadas com toalhas coloridas, assim como o teto recebe adereços.

O baile era liderado por homens e mulheres de mais idade. As mulheres

todas têm algumas características em comum: saias rodadas na altura das pernas,

maquiadas e com sandálias de salto, mostrando que para elas a vaidade é

um ponto chave.

Quando o baile começou a ganhar corpo alguns senhores tiraram debaixo

da mesa suas sacolas, trocando os sapatos pelos tamancos e convidando as

damas para bailarem em roda. Em poucos minutos o tablado era tomado por

casais que dançavam de forma sincronizada, mostrando harmonia e, acima de

68

Heloisa Garrett


tudo, alegria em estar se divertindo com o que, para eles, é muito mais que um

divertimento, é história, é tradição.

Fandango,o bailado de gerações 69


70

Heloisa Garrett


Só o começo

Já ouvi muitas pessoas dizerem que o Paraná é um estado que busca sua

identidade cultural e era nisso que eu acreditava antes de iniciar esta obra. Não

posso dizer que fiz uma pesquisa a respeito do Fandango. Seria bastante humilde

da minha parte se apenas admitisse que tive a oportunidade de conhecer um

pouco mais sobre a cultura caiçara, entender um pouco da diversidade da tradição

popular paranaense e dos elementos que formam o nosso folclore.

O Paraná é um estado que tem uma cultura popular tão intensa em diferentes

vertentes que não consegue enxergar a riqueza que tem graças à diversidade

de sua formação étnica. Falando especificamente no Fandango, pode-se afirmar

que uma arte que estava prestes a desaparecer está ressurgindo, ganhando

cada vez mais corpo e espaço graças à persistência dos mestres fandangueiros;

homens que não se cansam de transmitir o conhecimento que adquiriam ao longo

dos anos, e a curiosidade dos jovens caiçaras que não se envergonham em

cultivar as origens de suas famílias, mas sim reúnem amigos, dedicam horas nos

ensaios e o que mais querem é manter viva a tradição de suas famílias.

Quando é dia de baile vemos todos os elementos da pesquisa unidos em

uma mesma poesia, em um mesmo compasso de marcas, na maestria do bater

dos tamancos. Jovens, idosos, famílias que se alegram em manter viva uma tradição

secular. Há poucos meses o que eu via e ouvia é que o Fandango estava

ficando esquecido e morrendo junto com os mestres que, debilitados pelo passar

dos anos, levavam consigo a arte dessa tradição. Mas, quando fui a campo,

felizmente me deparei com outra realidade, a realidade de jovens que se orgu-

Fandango,o bailado de gerações 71


lham em tocar viola e rabeca, em dar continuidade à história cultural de suas

famílias.

O meu objetivo aqui foi produzir um material para pesquisa e que se torne

público para que os paranaenses conheçam mais sobre a riqueza cultural do seu

estado, e os brasileiros possam saber que aqui no Paraná somos portadores de

uma manifestação cultural que tem origem, tem história e permeia o tempo. O

Fandango bailado por diferentes gerações merece respeito e admiração.

E como diz Mestre Romão: “O Fandango não acaba porque está no cora-

ção do nosso povo, as gerações passam, mas o bailado continua”

72

Heloisa Garrett


Fandango,o bailado de gerações 73


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Heloisa Garrett


Anexo I

Contexto caiçara

O litoral paranaense tem uma das maiores diversidades biológicas e unidades

culturais do Brasil. Paisagens naturais formadas pelas ilhas de Valadares,

das Peças, das Cobras, Superagui, Iguape e do Mel que criam um lindo cenário

decorado com as belezas da Mata Atlântica e surpreendentes áreas de manguezal.

Uma área com tanta diversidade, mas que ganha unidade sob o aspecto cultural.

A mistura de tribos indígenas carijós que habitavam a região e a ocupação

dos europeus que começaram a chegar nas terras paranaenses por volta de

1578, foi responsável por essa diversidade étnica e cultural. Os caiçaras, como

são chamados os moradores da faixa litorânea do Paraná, são descendentes de

índios, sobretudo dos carijós, colonizadores portugueses e escravos negros.

A área que forma o litoral paranaense foi uma das primeiras a serem colonizadas,

pelos portugueses e espanhóis, no início do século XVI. Durante esse

processo de ocupação das terras, os povos indígenas tiveram uma grande contribuição

para o desenvolvimento econômico da região. Essa relação é

exemplificada na obra Museu Vivo do Fandango, que promove um apanhado

histórico da cultura litorânea e defende que a contribuição dos povos indígenas

foi essencial para a constituição dos instrumentos usados para a pesca, a caça e

a produção de farinha de mandioca, em todas as ações e na cultura dos primeiros

ocupantes do litoral.

Os caiçaras foram objeto de estudo de muitos pesquisadores que defen-

Fandango,o bailado de gerações 75


diam a diferença entre a cultura caiçara e a cultura cabocla. Paulino de Almeida

(1945) apresenta o modo de vida caiçara nos primeiros anos do século XX,

descrevendo os caiçaras como uma comunidade que sobrevive entre as atividades

agrícola e pesqueira: “Nessa luta terrível, ora para a terra ora para o mar,

consomem toda a energia, julgando-se felizes quando conseguem algumas roças

de mandioca e os apetrechos principais para a pesca” (p.70).

A cooperação entre a comunidade do litoral paranaense sempre foi um

ponto forte da cultura caiçara, e a grande responsável pela prática do Fandango.

Os moradores se uniam nas práticas agrárias e para os trabalhos mais pesados,

como a prática do solo para o posterior plantio, faziam o mutirão. Uma ação

que era resultado da ajuda mútua que geralmente acontecia nos fins de semana.

Além do caráter solidário, o mutirão também era uma forma de convívio social.

Com o êxodo rural que teve uma ação forte entre os anos de 1930 e

1950, época em que foram construídas as primeiras estradas de rodagem ligando

o centro do Estado com o litoral, a expectativa de crescimento econômico

fez com que muitas famílias deixassem suas atividades rurais. Outro fator que

contribuiu para a degeneração da cultura caiçara foi à instituição das áreas de

preservação ambiental, que acabou impedindo que muitas famílias continuassem

sobrevivendo das atividades de subsistência. Esta ação governamental que teria

como objetivo conter a especulação imobiliária e proteger a Mata Atlântica acabou

por expulsar os caiçaras de suas terras de origem.

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Heloisa Garrett


Anexo I

Características gerais

Em cada localidade, o Fandango adquire características estéticas diferentes.

No litoral paranaense e no litoral sul paulista ele tem muitas semelhanças em

comum. Existem relatos de historiadores comentando que moradores dessas

localidades saíam de São Paulo para vir até os bailes que aconteciam no Paraná.

Daniela Gramani (2006) diz que o Fandango é uma das manifestações da

cultura popular que possui regras estéticas bem definidas, reunindo dança e música,

mas a riqueza da realidade artística dessa cultura está nas características específicas

que adquire em cada localidade.

A palavra Fandango, de acordo com Inami Custódio Pinto (2006) é de

origem espanhola e significa “baile ruidoso acompanhado por viola”. O pesquisador

explica em suas obras que o Fandango foi trazido ao Brasil pelos colonizadores,

mas modificou-se com o passar do tempo, adquirindo características

próprias no litoral paranaense.

“Não sei de nenhuma outra manifestação que, sob essa denominação,

se pareça com o fandango em ocorrência em toda a faixa litorânea

paranaense, nas ilhas e logo ao pé da serra, em Morretes e Porto de Cima.

Por isso, considero o fandango manifestação paranaense”. (PINTO, 2006,

p. 98)

Fandango,o bailado de gerações 77


Para o autor, o Fandango que se manifesta em outros Estados do Brasil

difere do paranaense, visto que se apresenta com outras formas. Como exemplo,

ele cita que o Fandango acontece nas regiões Norte e Nordeste, sob a

forma de autos nos quais a música e a dança têm menos importância, pois vale

mais a parte dramatizada, como as cheganças: chegança de mouros, chegança

de marujos, marujada, barca, nau catarineta. Em outros, denominam-se gafieira,

bate-coxas, baile de mistura, e, principalmente no Rio Grande do Sul, trata-se

de um baile comum que inclui vários ritmos: xote, vanerão, rancheira, bugiu, etc.,

e uma ou outra vez dançam em conjunto uma dessas marcas de Fandango, que,

embora tenham os mesmos nomes de algumas marcas integradas no Fandango

paranaense, diferem quase que completamente e têm como características principais

o sapateio, feito com botas de couro, o sarandeio das prendas, e o bater

de palmas, que lembram as danças românticas de Espanha e Portugal.

A pesquisa de Inami Custódio Pinto sobre o fandango teve início no ano de

1952. Entretanto, registros como os realizados pelo projeto Museu Vivo do

Fandango mostram que sua tradição, com as mesmas formas registradas no

litoral paranaense, ocorrem também em localidades do litoral do Estado de São

Paulo.

O Fandango está ligado diretamente a momentos de confraternização e

alegria. Ele é uma arte coletiva, que envolve a comunidade. Para que um baile

aconteça são necessários no mínimo dois músicos, e três pares para dançar.

No Fandango são considerados mestres os músicos mais velhos e experientes,

que dominam não só o instrumento, como também os valores presentes

na cultura. Em um baile e na própria vida em comunidade eles são respeitados

como patriarcas. Cada um tem características e dons peculiares, e são reconhecidos

por isso.

Em um baile ou apresentação artística uma diversidade de modas ou marcas,

como são chamadas pelos fandangueiros as músicas, é apresentada, dançada

e tocada em diferentes ritmos; elas mostram a riqueza da criação artística dos

caiçaras. “Cada uma delas se diferencia das outras pela temática abordada, pela

estrutura rítmica, pela estrutura dos versos e pelos elementos de dança”

(GRAMANI, 2006)

Inami registou mais de 50 marcas de Fandango no litoral paranaense:

chamarrita, dandão, tonta, queromana, baila vem, Chico loco, Chico valseado,

caranguejo, dandão, passeado, cana verde, feliz, xarazinho, xará grande, a tonta,

o anu, marinheiro, andorinha... essas são algumas das denominações das

marcas, sendo que algumas recebem diferentes denominações dependendo em

que região do litoral paranaense é tocada e dançada.

78

Heloisa Garrett


“As modas batidas ou rufadas exigem do dançador conhecimento

prévio das coreografias, tal a complexidade e as variações. De um modo

geral, são dançadas em círculo e os homens batem palma e tamanqueiam.

Muitas vezes, uma roda de batido, um dos homens assume o papel de mestre,

mestre de sala, marcador ou puxador, servindo seu tamanqueado de

referência para os demais batedores” (GRAMANI, 2006, p.21)

Na roda é comum encontrar alternância de homens e mulheres, mas também

é comum encontrar pares formados por mulheres, o que nas marcas batidas

não é permitido. Já tamanquear e bater palmas são funções dos homens, as

mulheres também podem bater os tamancos, mas é raro, porque tradicionalmente

este é uma função masculina. Uma das principais características das danças

do Fandango são os desenhos coreográficos que os valsados formam.

A riqueza da poética que cerca os versos que formam as músicas do

Fandango é singular. Tratando dos mais diversos temas, a estrutura poética sempre

está baseada em situações do cotidiano dos caiçaras, e, principalmente, retratando

elementos da natureza. Dentro da construção das composições, a maioria

das estrofes é formada por quatro versos de rima, e a maioria das marcas apresenta

refrão. Mas os versos também podem ser improvisados, uma habilidade

que causa admiração entre os homens e as mulheres que fazem parte do univer-

so do Fandango.

Fandango,o bailado de gerações 79


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Heloisa Garrett


Posfácio

Modernidade e tradição a encruzilhada

do Fandango

Talvez o ponto nevrálgico sobre o destino do Fandango, e mesmo o

epicentro da discussão sobre o que será de seu futuro, resida na força ambígua

que a modernidade e a tecnologia possa oferecer a seus propósitos cultuais. Ela

pode tanto perpetuar a tradição quanto fazê-la sucumbir perante as seduções

dos apetrechos lúdicos presentes na web e na indústria do entretenimento.

Visitando os redutos de prática do Fandango em Valadares e Paranaguá,

fica fácil perceber o interesse do público jovem, em especial de crianças, o que

causa certa surpresa, já que no ambiente televisivo e virtual não se encontra

qualquer referência à prática cultural que se canta e dança nestas localidades.

Provavelmente as crianças são as maiores vítimas dos efeitos da mídia de massa,

e o litoral paranaense não está isolado de sua influência. No filme

“Corporation”, uma das depoentes (o documentário faz um apanhado de entrevistas

com estudiosos sobre os efeitos perniciosos das grandes corporações na

economias, sociedades e hábitos de consumo) relata que se pode considerar o

marketing voltado às crianças na atualidade, se comparado aos esforços praticados

em décadas anteriores, como um míssil teleguiado ao lado de um estilingue.

Esse esforço cirurgicamente bem calculado e aplicado está distribuído em todas

as partes do globo, e um país emergente como o Brasil logicamente não está de

fora neste mapeamento. Sendo assim, o fandango paranaense acaba disputando

interesse com personagens de ação japoneses, jogos de última geração e figurinhas

Fandango,o bailado de gerações 81


com hologramas. A presença de tentações virtuais também é grande, Valadares

possui um lan house disputada e já em sua entrada vemos um telão ao lado da

ponte exibindo filmes publicitários armazenados em suporte digital. O que torna

então o Fandango uma opção de entretenimento atrativa para crianças e adolescentes?

As suposições são variadas, mas algumas encontram fundamento já em

um breve exercício de raciocínio lógico, conforme segue.

Imitação de modelo: as crianças praticam o mimetismo desde a mais tenra

idade, e percebem em seus progenitores um referencial a ser seguido. Quando

este referencial é multiplicado pela presença de tios, avós e outros familiares,

amplia-se a força de adesão e obtém-se maior cumplicidade e interesse por

parte dos mais novos. Isso somado à ludicidade do tamancar, à alegria da dança

e ao balanço e cor dos trajes, forma uma junção de componentes que por si só

já são suficientemente argumentativos.

Exercício de sociabilidade: analisando a Pirâmide de Maslow (modelo desenvolvido

para hierarquizar as necessidades humanas, começando pelas mais

básicas, como alimentação, e indo às mais elevadas, como auto-realização) veremos

que a aceitação social é um dos itens de maior importância para o bemestar

de um indivíduo. A própria OMS classifica a harmonia social como um dos

fatores que caracterizam a saúde de um indivíduo. Sendo assim, a integração

social promovida pelo Fandango é, sem dúvida, um forte apelo à participação

dos mais novos. A dança permite a interação entre sexos, um diálogo corporal

que corresponde a um dos mais antigos rituais de passagem, e isso em praticamente

todas as culturas.

Possibilidade de prática de uma atividade prestigiada: obter destaque e

certo status de celebridade em um ambiente de possibilidades modestas é uma

promessa bastante sedutora. Graças ao Fandango, muitos jovens têm o privilégio

de se tornarem merecedores de aplausos e admiração, tanto pela própria

comunidade quanto por visitantes e turistas que chegam ao litoral.

Apoio de órgãos públicos: graças ao incentivo das prefeituras e do governo,

são promovidos bailes de Fandango com certa regularidade, o que faz com

que a atividade não se restrinja a uma prática mais doméstica e limitada a quintais

e espaços confinados.

Chance de viajar para outras localidades: muitas vezes, os grupos de

Fandango são convidados a participar de eventos culturais em outras cidades e

estados. É uma chance de os praticantes da arte poderem conhecer outras localidades,

pessoas e culturas, desfrutando ainda de certos luxos e mordomias.

Com isso, mesmo os mais novos, que ainda não tem a possibilidade de viajar,

82

Heloisa Garrett


percebem nesta possibilidade um atrativo dos mais convincentes.

Logicamente que o Fandango é uma prática divertida e não apenas uma

manifestação cultural e folclórica, mas o fato é que cada vez mais as opções de

entretenimento tem se tornado mais vastas, sedutoras e indiscretas, no sentido

de chamarem a atenção de forma gritante. Em meia hora de navegação na web,

o internauta tem a possibilidade de visitar diversos sites divertidos, conversar

com outras pessoas, ouvir músicas e ver vídeos dos mais diversos temas. Fenômeno

similar ocorre ao se zapear nos canais de TV a cabo. Some-se a isso o

som escandaloso dos ritmos jovens, como funk e hip hop, e teremos uma acervo

de opções extra-fandango com forte apelo para os mais novos. Outro fator

que causa certa surpresa quanto à adesão de jovens ao Fandango está no fato

de ser um ritmo nada aliado a sex appeal: ao contrário de outras danças litorâneas,

é uma das poucas que fazem uso de traje longo.

As peculiaridades do Fandango exercem uma estranha incompatibilidade

com os ritmos de áreas à beira-mar de nosso país: não há apelos libidinosos, as

roupas apresentam um colorido comportado e cobrem quase a totalidade do

corpo, os adereços são econômicos e a música carece do vigor pulsante e agitado

das canções que embalam as regiões mais quentes do Brasil. Com isso,

podemos afirmar que, por comparação, os jovens se sentiriam pouco atraídos

ou até excluídos do contexto padronizado que engloba os sucessos de música e

dança de norte a sul do país. Por outro lado, lega ao fandango muito mais identidade,

tornando-o uma arte folclórica à parte no cenário nacional.

De acordo com alguns estudos, nem sempre o Fandango foi uma dança

bem comportada no vestuário e nas coreografias como o é hoje. Era dançado,

inclusive, em outras localidades do estado que não só a litorânea, como a região

dos Campos Gerais, notoriamente Guarapuava, onde se manifestava com maior

vigor e organização comunitária. Porém, a dança, que tinha origem cabocla e

exercia um cerimonial considerado agressivo (tamancos batendo fortemente no

assoalho e gritos dos fandangueiros dançando em roda) foi discretamente posta

em boicote e até censura por parte de governos mais autoritários, em especial

no período dos chamados “anos de chumbo”. Foi quando o governo promoveu

a apologia a ritmos nordestinos, considerados mais dóceis e comportados, em

detrimento das danças e músicas do sul do país, onde temos também (ou principalmente)

as tradições gauchescas marcadas por simbologias consideradas rebeldes,

seja nas coreografias, seja no vestuário. O passado de resistência do

povo gaúcho e a tentativa de levante de Leonel Brizola para resistência ao golpe

militar no final da era Jango também contribuíram para esta situação

segregacionista pela qual passaram as manifestações artísticas do sul do Brasil

Fandango,o bailado de gerações 83


neste período.

Com isso, podemos perceber que não só a tecnologia e a mídia podem

exercer influência sobre o Fandango, mas também a ideologia e os interesses

econômicos e sociais. Há ainda o componente da religiosidade, pois a dança

fandangueira já foi considerada herege, sendo censurada e reprimida em sermão

dominical. A batida contundente do Fandango parecia representar uma abominação,

um ritual de apologia subliminar à violência e à invocação das coisas do

mal. A ingenuidade do discurso não é mais flagrada nas igrejas, mas não se sabe

até que ponto ocorre algum desestímulo à prática do Fandango em religiões de

conduta mais severa, como os templos evangélicos que, aliás, juntamente com

os bares, são o tipo de “estabelecimento” mais presente na Ilha de Valadares.

Para dar maior alcance à disseminação do ritmo, e também para englobar

uma nova possibilidade musical em seu estilo, o grupo Fato, um dos maiores

expoentes artísticos do Paraná, adotou as marcas, os instrumentos e a tradição

do Fandango a partir de seu terceiro disco, intitulado “O Que Lá Tá Que Lá

Teje”. A inventividade foi muito bem recebida pela crítica, e uma das faixas,

justamente chamada de “Fandango”, recebeu até uma versão de videoclip dirigido

pela renomada cineasta Heloísa Passos. O vídeo foi veiculado no Brasil e

exterior, sendo exibido em canais de TV a cabo da Europa e Estados Unidos.

Nele, vemos Mestre Romão e outros fandangueiros participando de um baile

que mais lembra uma rave. Até que ponto tal ousadia foi agressiva ou meramente

uma fusão entre tradição e modernidade para tornar a música mais palatável

ao público jovem, fica difícil de medir. Recentemente, comemorando seus 20

anos de história, o grupo Fato fez um show histórico no qual reuniu todos os

colaboradores, integrantes e ex-integrantes que compuseram sua história, mais

uma vez fazendo uso dos elementos percussivos do Fandango, dentre eles um

bastante inusitado denominado “tamancália”: uma caixa de madeira que possui

um acessório munido de diversos tamancos que, ao serem acionados, batem

todos simultaneamente fazendo o efeito sonoro de um grupo de dançarinos

sapateando simultaneamente. Tanta inventividade proporcionou ao Fato turnês

a diversas localidades do Brasil e até mesmo para a França divulgando sua

música. A validade da simbiose arrojada proposta pelo grupo por vezes entra

em atrito com as concepções de muitos estudiosos do Fandango, mas fica difícil

de negar que seu trabalho consiste no maior marco de repercussão das influências

do ritmo gerado até hoje, isso ao ponto de o Fato ter suas músicas executadas

junto à Orquestra Sinfônica do Paraná, em versão erudita regida pelo

maestro Alessandro Sangiorgio.

Se o futuro do Fandango será manter-se tradicional como o executado

em Valadares ou modernizado como o apresentado por diversas partes através

84

Heloisa Garrett


do Fato, fica difícil de se saber. Porém, indiferente ao formato que terá daqui

para a frente, o importante é que seu legado se perpetue pelas próximas gerações,

e que o ritmos seja efetivamente, reconhecido, assimilado e tornado moti-

vo de orgulho para todos os paranaenses.

Mário Lopes

Publicitário, pesquisador e roteirista.

Fandango,o bailado de gerações 85


Agradecimentos

Como todos dizem quando escrevem seus agradecimentos, corro o risco

de ser injusta nesse momento. Não posso deixar de agradecer a todos os meus

entrevistados que confiaram em mim, abrindo as portas de suas casas, abrindo

seus corações, falando de suas memórias e de suas expectativas. Quero agradecer

especialmente a minha filha que entendeu as horas que deixamos de brincar

para que eu pudesse me dedicar integralmente a esta pesquisa. Ao meu marido

que não se incomodou ao ver a sala da nossa casa se transformando em uma

sala de estudos, e ainda se dispunha a me acompanhar em muitas das entrevistas,

castigando muito dos nossos fins de semana em família. Agradeço a todos os

meus amigos que não mediram esforços para me ajudar na busca de personagens,

que em especial a Mario Lopes que foi um apoio importante em muitos

momentos. Aos amigos e familiares que me ajudaram nos momentos onde eu

pensava que não daria conta de conciliar a vida pessoal, e profissional a uma

proposta de pesquisa que requer tempo e dedicação. Agradeço a todos aqueles

que sabem o quanto concluir este trabalho é importante para a minha vida, e por

isso foram responsáveis para que eu chegasse até aqui.


88

Heloisa Garrett


Onde encontrar mais sobre o Fandango,

algumas dicas de biografia:

Título: Tocadores. Homem, Terra, Música e Cordas

Autores: MARCHI, Lia; SAENGER, Juliana; CORREA, Roberto

Editora: Adalberto Camargo / Studio Adalba

Realização: Olaria Projetos de Arte e Educação.

Cidade/ano: Curitiba, 2002

Título: Museu Vivo do Fandango

Autores: PIMENTEL, Alexandre, GRAMANI, Daniela e CORRÊA, Joana

(org.)

Editora: Associação Cultural Taubaté

Cidade Ano: Rio de Janeiro, 2006

Título: Fandango de Mutirão

Autor(a): BRITO, Maria de Lurdes da Silva (org.)

Direção musical: Rogérioio Gulin

Editora: do autor

Cidade/ano: Curitiba, 2003

Título: Cadernos de Folclore - Fandango do Paraná

Autor: AZEVEDO, Fernando Correa de

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Editora: Ministério da Educação e Cultura

Cidade/ano: Rio de Janeiro, 1978

Título: Rabeca, o Som Inesperado

Autores: GRAMANI, José Eduardo (pesquisa) & GRAMANI, Daniella (organização)

Cidade/ano: São Paulo, 2002

Título: A [des]Construção da Música na Cultura Paranaense

Organizador: NETO, Manuoel J. de Souza

Editora: Aos Quatro Ventos

Cidade/ano: Curitiba, 2004

Título: Cultura Caiçara. Resgate de um Povo

Autor(a): BRANCO, Alice

Editora: Ministério da Cultura / Oficina do Livro e Cultura

Cidade/ano: Peruí¬be (SP), 2005

Título: Enciclopéia Caiçaara vol. II - Falares Caiçaras e vol. V - Festas,

mitos e lendas caiçaras

Autor: FORTES FILHO, Paulo (vol. II) e DIEGUES, António Carlos Santanna

(org.)

Editora: HUCITEC : NUPAUB : CEC/USP

Cidade/ano: São Paulo, 2005

Título: Seminário Nacional de Políticas Públicas para as Culturas Populares

Editora: Instituto Polis/ Ministério da Cultura

Cidade/ano: São Paulo; 2005

Título: Saberes Tradicionais e Biodiversidade no Brasil

Autor: DIEGUES, António Carlos e REINALDO, S. V. Arruda (org.)

Editora: Ministério do Meio Ambiente / USP

Cidade/ano: Brasília / São Paulo, 2001

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Título: Pratos Típicos do Paraná

Coordenador: Renato Augusto Carneiro Jr

Editora: Secretaria de Estado da Cultura

Cidade/ano: Curitiba / Paraná, 2004

Título: Simpósio de Cultura Paranaense. Terra, Cultura e Poder

Autor: Secretaria de Estado da Cultura

Cidade/ano: Curitiba / Paraná, 2003

Título: Festas Populares do Paraná

Coordenador: Renato Augusto Carneiro Jr

Editora: Secretaria de Estado da Cultura

Cidade/ano: Curitiba / Paraná, 2005

Título: Lendas e Contos Populares do Paraná

Coordenador: Renato Augusto Carneiro Jr

Editora: Secretaria de Estado da Cultura

Cidade/ano: Curitiba / Paraná, 2005

Título: Iguape: Princesa do Litoral, Terra do Bom Jesus, Bonita por Natureza

Autor: JUNIOR, Alberto Pereira (organizador)

Editora: Nova América

Cidade/ano: São Paulo, 2005

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92 Heloisa Garrett


Referências Bibliográficas

ALMEIDA, Paulino. Da decadência do litoral paulista. Revista do Arquivo

Municipal, ano X, 2005.

CORREIA, Marly Garcia. O Fandango que acompanha o barreado.

Maxigrafica. Curitiba, 2002.

LAUREIRO FERNANDES, J. A contribuição à geografia da Praia de Leste.

Arquivos do Museu Paranaense, Vol. 6. Secretaria de Estado da Cultura

do Paraná, 1947.

PIMENTEL, Alexandre; GRAMANI, Daniella, CORREA, Joana. Museu Vivo

do Fandango. Rio de Janeiro, 2006.

PINTO, Inami Custódio. Folclore: Aspectos gerais. IBPEX. Curitiba, 2006.

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Heloísa Garrett é estudante

de jornalismo, atuante na área

de assessoria de imprensa, tendo

se tornado pesquisadora do

Fandango devido ao semiineditismo

do tema. Hoje, é

apreciadora e divulgadora ativa

desta manifestação cultural sem

similar.

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