contactos da expansão portuguesa

www2.ufp.pt

contactos da expansão portuguesa

ÁFRICA:

Textos relativos aos contactos com os outros ao longo do processo dos

Descobrimentos portugueses.

Álvaro Velho - Roteiro da primeira viagem de Vasco da Gama (excertos)

(...) Neta terra [foz do rio de Santiago - actual Berg River] há homens baços que não comem

senão lobos-marinhos e baleias, e carne de gazelas e raízes de ervas. E andam cobertos com peles,

e trazem umas bainhas em suas naturas. E as suas armas são uns cornos tostados, metidos em

umas varas de azambujo, e têm muitos cães, como os de Portugal (...).

Valentim Fernandes - Descrição da Costa da Mauritânia (excertos adaptados)

Os senhores do Senegal têm tantas mulheres quantas podem manter (...). Os escravos desta

terra servem para os seus senhores seis dias e o sétimo para si e dele se hão-de manter os seis dias

(...). Quando vão à guerra levam cada um dez ou quinze ou vinte azegaias na mão (...). Têm arcos e

as setas têm erva (...). As suas casas são choupanas pequenas, feitas de madeira e cobertas de feno

seco. Os senhores grandes do Senegal andam bem vestidos de bons panos (...). Todos eles andam

descalços (...). Os que vivem junto ao mar são grandes pescadores. (...) Aqui nasce algodão e as

mulheres fiam e fazem pano de dois palmos de largo.

ÍNDIA:

Álvaro Velho - Roteiro da primeira viagem de Vasco da Gama (excertos)

(...) Esta terra de Calecut é de cristão [hindus], os quais são homens baços; e andam, deles,

com barbas grandes e os cabelos da cabeça compridos e outros trazem as cabeças rapadas, e outros

tosquiadas. (...) e trazem as orelhas furadas, e nos buracos delas trazem muito oiro. E andam nus da

cinta para cima; e para baixo trazem uns panos de algodão muito delgados. E estes que assim andam

vestidos são os mais honrados; que os outros trazem-se como podem.

As mulheres desta terra em geral são feias e de pequenos corpos, e trazem ao pescoço muitas

jóias em oiro, e pelos braços muitas manilhas; e nos dedos dos pés trazem anéis, com pedras ricas.

Toda esta gente é de boa condição, e são maviosos, quanto ao que parecem; e são homens que,

segundo a primeira face, sabem pouco e são muito cobiçosos. (...)

CHINA:

Frei Gaspar da Cruz - Tratado das coisas da China (excertos adaptados)

(...) E fazem papel de cascas de árvores e de canas e de panos de seda e no de seda

escrevem (...). Diz-se que passa de novecentos anos que os chineses fazem livros de impressão e de

figuras diversas (...).

Qualquer pessoa que chegue a casa de um homem limpo têm por costume oferecerem-lhe

uma bandeja galante, uma porcelana com uma água morna a que chamam chá (...) feita de um

cozimento de ervas (...). São os chinas muito comedores e comem muitas iguarias (...). É gente limpa

e nobre no trato, conversação e trajo (...).


JAPÃO:

Anónimo - Livro que trata das coisas da Índia e do Japão (excertos adaptados)

É gente branca de boas feições (...) que come três vezes ao dia e comem pouco de cada vez

(...). Comem no chão como os mouros e com paus como os chinas. Cada pessoa como da sua

gamela pintada e porcelanas (...) de fora pretas e de dentro vermelhas. É gente que tem muito

acatamento ao seu rei (...) e [é] muito devota aos seus ídolos. (...)

BRASIL:

Carta a El-Rei D. Manuel, Pêro Vaz de Caminha, escrivão da armada de Pedro Álvares

Cabral, escrita em Porto Seguro de Vedra Cruz, 1 de Maio de 1500 (excertos adaptados)

E Afonso Lopes, nosso piloto, foi, por mando do capitão, a sondar o porto. E tomou dois

homens mancebos. Um deles trazia e seis ou sete setas (...).

A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem

feitos. Andavam nus, sem cobertura alguma... traziam o beiço de baixo furado e metido nele uma

espécie de cabeleira de penas de ave amarela, que lhes cobria o toutiço e as orelhas (...).

O capitão, quando eles vieram, estava sentado numa cadeira... e nós outros que aqui na nau

com ele vamos, sentados no chão. E eles entraram, mas nem sinal de cortesia fizeram... Todavia um

deles fitou o colar do capitão, e começou a fazer acenos com a mão em direcção à terra, e depois

para o colar, como se quisesse dizer-nos que havia ouro na terra. E também olhou para um castiçal

de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal, como se lá também

houvesse prata!

Mostraram-lhes um papagaio pardo que o capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e

acenaram para a terra, como se os houvesse ali (...). Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram

medo dela, e não lhe queriam pôr a mão. Depois pegaram, mas como espantados (...). Viu um deles

umas contas de rosário, brancas; fez sinal que lhas dessem, e folgou muito com elas, e lançou-as ao

pescoço (...).

E andavam lá outros, quartejados de cores, a saber metade deles a sua própria cor, e metade

de tintura preta, um tanto azulada (...).

E o capitão mandou a Afonso Ribeiro e a outros dois (...) que ficassem lá essa noite. (...) E

segundo depois diziam, foram a uma povoação, em que haveria nove ou dez casas, as quais eram

tão compridas, como esta capitania. E eram de madeira (...) e diziam eu em cada casa se recolhiam

trinta ou quarenta pessoas (...).

Eles não lavram nem criam. Não há aqui boi, nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha

nem qualquer outro animal acostumado ao viver dos homens. Nem comem senão inhame, que aqui

há muito, e frutos. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios que o não somos nós tanto, com

quanto trigo e legumes que comemos.

E quando veio o Evangelho, e nos erguemos todos em pé, com as mãos levantadas, eles se

levantaram connosco e em tal maneira sossegados que, certifico a Vossa Alteza, nos fez muita

devoção. (...)

More magazines by this user
Similar magazines