Oração de Sapiência de Hilário Moreira_1990.pdf - Universidade de ...

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Oração de Sapiência de Hilário Moreira_1990.pdf - Universidade de ...

Por outro lado, mais não seria de esperar, atendendo a que, quem fazia

estas orações de sapiência não eram mestres experimentados, mas ex-aluDos

recém-chegados ao grau.

Belchior Beleago, por exemplo, proferiu a sua oração em 1548, vindo

a doutorar-se só em 1556. António Pinto era apenas bacharel em artes.

Pedro Fernandes ainda não era bacharel em direito canónico.

Nestas condições, compreende-se que nem a cultura fosse grande, nem

ainda demasiado amadurecida, para que se sentissem à vontade; e, como

o assunto era sempre o mesmo nas suas linhas gerais, daí que fossem procurar

a novidade mais ao aspecto fOi mal, para o que, de resto, deviam estar

mais bem preparados.

Busca-se afanosamente a imitação dos clássicos, particularmente de

Cícero, e enxertam-se os seus pensamentos num contexto de tal forma ·elevado,

que se toma dificil distinguir, pelo estilo, o que pertence ao autor ou o que

foi beber a outras fontes.

Com Hilário Moreira - e estamos certos de que a «doença» era gerala

recolha de materiais alheios vai mais longe do que era de esperar, não se

limitando só aos modelos clássicos.

Nas várias pesquisas que fizemos nos Reservados da Biblioteca Geral

da Universidade de Coimbra, encontrámos três obras que, para o nosso

autor, tiveram uma importância capital.

São elas: Antiquarum Lectionum libri, de Luis Célio - Basileia, 1517,

a Oração de Sapiência de Cataldo Parisio Sículo, proferida em Bolonha

em 1500 e incluida em Poemata et Epistolae do mesmo autor, e a Epístola

LXXXIII de S. Jerónimo, in Inuentarium secundae partis Epistolarum,

de 1512.

Aqui Hilário Moreira veio não só respigar um ou outro pensamento

mais belo ou uma palavra mais rara, mas parágrafos inteiros, acompanhados

das respectivas citações que esses autores se lembravam de fazer, numa tal

falta de escrúpulo, que hoje nos deixaria boquiabertos,

Tudo isto é em seguida incorporado na oração com tal mestria e arte,

que não é fácil apercebermo-nos estarmos em face de pensamentos, palavras

e exemplos de outrem - cujos nomes, de resto, são quase sempre omitidos -,

tanto mais que ordinariamente as frases não ficam na mesma ordem

em que se encontram nos respectivos autores, mas obedecem a um critério

de agrupamento diferente, que no entanto as articula perfeitamente no

conjunto.

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