Baixar em seu computador (Grátis) - Comunidade Bom Pastor

comunidadebompastor.com.br

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DEDICAÇÃO

Ofereço esta obra

às pessoas que não

possuem alma pequena!

1


O jardineiro

de Madalena!

Acolher é evangelizar

Acolher é formar

Acolher é amar

Comunidade Acolhimento Bom Pastor

2


Comunidade Acolhimento Bom Pastor

Estrada Municipal do Varjão, 1641

Bairro Novo Horizonte

CEP 13.212-590 Jundiaí – SP

Fone: (11) 4582-4163

Site: www.comunidadebompastor.com.br

E-mail: escritorio@comunidadebompastor.com.br

Blog: http://gilbertobegiato.blogspot.com/

"Quem olha o vento não semeia.

Quem olha as nuvens não sega"

Largitur pluvias, ubi vult divina potestas.

Jundiaí, 25 de dezembro de 2010 - Brasil

Natal do Menino Jesus

3


Sumário

Esta obra relata a história do Felipe, um jovem

órfão de pai e mãe.

Após a trágica morte de seu pai, ele tem um

encontro com Emanuel.

Este encontro mudaria totalmente a sua vida.

Emanuel o convida a descobrir o Reino de Deus.

Felipe aceita e inicia uma aventura na qual volta ao

passado e vive a história de Adão, Abraão, Moisés, Josué,

Caleb, Davi, Elias, Maria, Jesus e outros.

Uma história de ficção misturada com fatos reais

que levarão você a sonhar com um mundo melhor.

A obra não tem pretensão de ser um estudo

religioso. É poética e traz uma mensagem espiritual, de

cura e amor a você.

surpreenderá!

Quem é o Jardineiro de Madalena? Leia e se

4


PREFÁCIO I

Ao ler o Jardineiro de Madalena, você terá a

sensação de estar sentando na poltrona de um teatro, ou

talvez numa sala de cinema, em determinados momentos

você terá dúvidas se trata da história de Felipe, de alguém

que você conhece ou da sua própria história.

O fato é que será impossível iniciar essa leitura

sem querer saber o que lhe espera na página seguinte.

Atualmente nos dizem: “Sonhar é perda de tempo,

o que precisamos é viver a realidade, ser produtivos e

entregar resultados”.

Não levanto a polêmica sobre esse assunto, mas

afirmo, é preciso sonhar, é libertador sonhar.

O Jardineiro de Madalena nos leva a participar do

sonho de muitas pessoas, que ao longo da História da

Salvação mudaram o mundo através da realização de seus

sonhos.

Desta forma, convido a você leitor, a embarcar

nesta história e permitir-se o envolvimento passo a passo.

Deus vai falar com você, Deus vai utilizar deste

instrumento para lhe curar e lhe acolher em Seu Sagrado

Coração.

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Você irá descobrir, que pela ótica de Deus, toda

situação de tristeza e perda pode ser revertida em alegria e

Vida em Abundância.

Você quer ser acolhido pelos braços do Pai? Deixe

que ele lhe encontre nesta história.

Quanto ao escritor, tenho caminhado ao seu lado nos últimos 10(dez)

anos, o tenho como meu “diretor espiritual”, onde através de sua

prática do evangelho e o abundante Dom da Sabedoria, o mesmo é

capaz de em poucas palavras me gerar alimento intelectual e espiritual

por um grande período; experimente desse alimento você também.

6

Claudinei Santana

Engenheiro

Coordenador e Vocalista da Banda Católica Coração do Rei

Co-Fundador da Comunidade Acolhimento Bom Pastor

Responsável Pelo Projeto Águas Profundas


PREFÁCIO II

Falar deste livro fica relativamente fácil, pois

conheço o Gilberto, que é um homem que demonstra

claramente que ama a Deus e sua Igreja.

De forma profunda, no decorrer deste livro

poderemos observar muitas vezes a expressão: “Reino de

Deus”.

Nos últimos meses que tenho ouvido as pregações

do Gilberto posso ver nitidamente que ele está no Reino de

Deus e vive o Reino Deus cada dia em sua vida. Tenho

louvado a Deus por me ter permitido andar do lado de um

homem como o Gilberto.

O Jardineiro de Madalena nos leva a uma viajem

no tempo ou no Kairós de Deus onde o passado, presente e

futuro para Deus é o hoje.

Este livro é uma ficção extremamente animadora,

que qualquer pessoa queria e gostaria de viver; é

empolgante e cheio de lições que nos faz refletir sobre a

vida sem Deus.

Durante a leitura você fará uma viajem pela bíblia

conhecendo assim homens e mulheres que se dedicaram

ao Senhor de todo o coração, muitos com fraquezas

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semelhantes às nossas, porém nunca deixando de confiar e

amar o Senhor sobre todas as coisas.

O Jardineiro de Madalena também pode ser e deve

ser recomendado para aqueles que de alguma forma estão

longe de Deus e que não conhece a bíblia e seu poder de

transformação.

Que Deus use deste livro em sua vida meu querido

leitor e que através dele você possa ter um encontro com o

Pai das Luzes para que sua vida seja totalmente iluminada

por Aquele que te amou e a si mesmo se entregou, Jesus

Cristo.

Pastor Paulo Barcaro

Fundador do Grupo Acolher.*

Grupo Acolher: Grupos de irmãos de diversas denominações religiosas que se

reúnem para partilha da Palavra e oração em comum situado na Cidade de

Jundiaí – SP.

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O sonho de Felipe

Era uma tarde ensolarada, ele levantou os olhos ao

céu e olhou o azul, teto do seu novo lar.

Felipe estava abatido acabara de voltar do enterro

de seu pai e como vivia de favor na casa de sua tia que

ofendia a ele e o seu pai resolveu partir sem rumo.

Sua mãe faleceu ainda quando era criança.

Desde que sua mãe faleceu vivia com o pai na casa

cedida pela tia, que muitas vezes o ofendia e desmerecia

sua presença e de seu pai naquela casa.

Felipe tem dezoito anos! Na poça da água em

frente ao banco da praça onde se encontrava refletia sua

imagem: loiro de olhos azuis, franzina e cumprido! Tinha

os olhos enormes e um sorriso largo que quase nunca

usava. Uma das poucas vezes em que sorria era quando

seu pai chegava cansado do trabalho e ele corria na rua até

a esquina pulava no braço do pai e sorria alegremente, isso

quando criança.

Era justamente isto que Felipe agora via naquela

poça d‟água o rosto de seu pai. Podia sentir o cheiro do

suor que seu pai tinha quando chegava do trabalho, não

havia um cheiro melhor do que este. Felipe olhou da praça

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uma esquina e desejou ardentemente poder abraçar seu pai

pelo resto da sua vida, pois nada mais importava para ele

do que aquele abraço carinhoso de seu pai.

Porém, Felipe lembrou-se que seu pai nunca mais o

teria nos braços e de seus olhos azuis escorreram lágrimas

que pingaram na poça d‟água distorcendo sua imagem.

Assim estava Felipe totalmente transformado pela

desilusão e pela solidão que o cercava.

E por ali ficou horas pensando e refletindo o que

fizera de tão mau para merecer o infortúnio que

duplamente a vida lhe ofereceu: a ausência de mãe e de

pai. E gritou olhando para o céu:

- Deus porque me abandonou?

A tarde já declinava e a noite já o envolvia naquela

praça quando Felipe se deu conta do que havia feito.

Abandonara o lar da sua tia, e agora para onde ir? Onde

dormir? O que fazer?

Pouco importava, Pensou ele que, viver já não

tinha mais sentido! Sua razão de vida era seu pai!

pai!

Neste instante chorou amargamente a morte de seu

Deitou-se então no banco da praça. Observou a

estátua de um homem com uma ovelha em seus ombros,

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um cajado em suas mãos e parecia que o olhava

atentamente com um leve sorriso enquanto a ovelha

parecia estar triste. Na estátua abaixo em uma placa estava

escrito: Praça Bom Pastor!

O cansaço por fim foi vencendo, então Felipe

virou-se deitado para cima e enquanto observava as

estrelas do céu, seus olhos foram se fechando.

cantar:

Neste instante pareceu ouvir:

- Filho, segura firme na mão do Pai!

Ao fundo em alguma igrejinha ali ouvia o coral

Se as águas do mar da vida, quiserem te afogar

Segura na mão de Deus e vai

Se as tristezas desta lida, quiserem te sufocar

Segura na mão de Deus e vai

Segura na mão de Deus, segura na mão de Deus

Pois ela, ela te sustentará

Não temas, segue adiante, e não olhes para trás

Segura na mão de Deus e vai

Se a jornada é pesada, e te cansa a caminhada

Segura na mão de Deus e vai...

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Antes que terminasse de ouvir a música dormiu.

Uma luz muito forte e intensa invadiu o sono de

Felipe que acordou assustado, não conseguia abrir os

olhos direito, era como se alguém tivesse acendido uma

lâmpada bem em cima do seu rosto. Lembrou-se de sua tia

que quando queria acordá-lo acendia a luz do seu quarto e

ele ficava bravo com esta atitude.

Será que tudo foi um sonho, ou melhor, um

pesadelo e que não estava mais naquela praça e que seu

pai estava vivo?

Então sentiu que uma mão segurava a sua bem

firme. A impressão que teve era que aquela mão era de seu

pai. Ele apertou aquela mão e disse:

- Pai, que bom que está aqui.

Ouviu então a voz lhe responder:

- Sempre estive aqui.

Neste momento seus olhos acostumaram com a luz

e pode ver que ao seu lado havia um estranho e deu um

pulo. Olhou ao seu redor e viu a praça onde passara a

noite.

Não era um sonho. Era um pesadelo real!

Indignado perguntou rispidamente àquele homem

quem era e porque segurava sua mão?

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O homem era alto, tinha um semblante sereno e

transmitia muita paz! Parecia que reluzia o tempo todo. O

homem lhe respondeu:

- Eu Sou Emanuel!

Felipe quase nem ouviu a resposta de Emanuel,

abaixou a cabeça e foi tomado por uma tristeza medonha,

a saudade de seu pai era muito forte e ele não conseguia

tirar isso da sua cabeça. Desejava nunca mais sair daquela

praça e se pudesse morreria ali de desgosto.

respondeu:

Emanuel então lhe perguntou:

- Por que esta tão triste?

Felipe olhou para ele e os olhos lacrimejaram e

- Não lhe interessa.

Emanuel com um sorriso retrucou:

- Pode a tristeza durar até o anoitecer, mas a alegria

logo vem no amanhecer.

Felipe bravo respondeu:

- Me deixe em paz, vá embora.

Respondeu desta forma, mas não estava tão certo

assim. Desde que Emanuel apareceu naquela praça ele

sentia-se aliviado, pois agora tinha uma companhia e além

do mais sentia uma paz muito grande.

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- Eu lhe ofereço a paz! Disse Emanuel.

Felipe então se sentou no banco e outra vez seus

pensamentos fugiram para longe e lembrou-se que certa

vez estava muito bravo com a vida e pediu que seu pai o

deixasse em paz. Seu pai o beijou, abraçou-o fortemente e

disse: Estamos juntos filho e isso é o que importa.

novamente.

- Juntos... é o que importa...

Pronunciou Felipe em voz alta e chorou

- Felipe não desanima! Tenha fé! Acredite, é

possível transformar suas angústias em vitória! - Disse

Emanuel.

- Como posso acreditar se os motivos me fazem

pensar ao contrário. - Falou Felipe.

Neste momento espantou-se pelo fato de Emanuel

pronunciar seu nome e disse:

- Você me conhece? Da onde? Como sabe meu

nome? Diga o que você quer?

Com um sorriso, Emanuel respondeu:

- Sim eu lhe conheço pelo seu nome. Conheço você

antes que fosse formado no seio de sua mãe. Fui eu que

lhe dei este nome. Eu quero ser seu amigo.

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Felipe pensou: quem esse sujeito pensa que é?

Meus pais me deram este nome e já não tenho mais eles

perto de mim.

você!

- Seus pais partiram e a vida continua pra eles e pra

Felipe espantou-se ainda mais. Como ele poderia

saber que seus pais partiram! Estava no enterro? Era

algum parente! Um policial que o procurava? Não parecia

nada disso. Mas o fato de saber tanto da sua vida fez com

que ganhasse a confiança de Felipe que então o

questionou:

alegria?

- Como posso transformar minhas angústias em

- Não disse que podia transformar suas angústias

em alegria - disse Emanuel e continuou - Eu disse que

você poderia transformar suas angústias em vitória! A

ausência de seus pais será sempre lembrada com tristeza

por você! Mas se você quiser pode transformar uma

aparente derrota em vitória. Mas também se desejar

poderá lamentar a vida toda como um coitado.

Felipe ironizou:

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- O que você sabe sobre sofrer a ausência de

alguém? É muito fácil falar de algo que você não está

sentindo.

falando.

Emanuel fitou-o com amor e disse:

- Pode ter certeza, meu amigo, eu sei do que estou

- O que faço da minha vida? Felipe agora se

entregava em seu cansaço.

- Venha comigo conhecer o Reino de Deus.

- Reino de Deus? - Indagou Felipe

- Sim! Disse Emanuel.

- O que é isso? E onde fica?

- É um tesouro valioso e quem o encontra, encontra

a própria felicidade. E fica muito mais próximo do que

você imagina.

Felipe pensou que nada tinha a perder, já havia

desistido da vida. O que viesse agora não poderia ser pior

do que a ausência de seu pai.

Então lhe disse:

- Como posso confiar em você! Como saberei se

você não me levará em algum lugar perigoso? Que

garantia você me dá?

Emanuel disse:

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- Confiança se adquire com o tempo! Quanto ao

lugar não levarei você em nenhum lugar que não queira ir,

e como disse, o Reino de Deus está aqui. A garantia você

descobrirá quando conhecer o Reino.

- Podemos começar pela porta do Paraíso! O que

você acha? Perguntou Emanuel

- Porta? Que porta? Disse Felipe.

- Esta! Emanuel apontou à sua frente e de repente

apareceu uma porta que se abriu.

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O sonho de Adão

Felipe entrou pela porta junto com Emanuel e

avistou no batente da porta que estava escrito:

Porta do Paraíso! Alfa e Ômega! Princípio e Fim!

Será um condomínio, pensou Felipe. Mas ao entrar

pela porta logo percebeu que aquilo era extraordinário! As

paisagens e a beleza natural transmitiam uma paz e

segurança como nunca em sua vida havia experimentado.

- Que lugar maravilhoso – gritou Felipe.

- Meu Pai é muito caprichoso. - Disse Emanuel.

- Seu pai? - Perguntou Felipe.

- Sim!

- Ele é dono de tudo isso?

- Sim!

- Então você é rico?

- Digamos que sim!

Felipe lembrou que seu pai vivia numa pendura

danada. Com muito sofrimento e trabalho mantinha o

necessário em casa. Era jardineiro e que muitas vezes era

obrigado a trabalhar nos finais de semana.

Felipe então disse a Emanuel:

- Você é feliz! Além de ter um pai, ele é rico.

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Emanuel respondeu:

- Felipe o fato de se ter um pai não significa

necessariamente felicidade. Há muitos que têm os pais e

não são felizes ou não valorizam o que têm. E a felicidade

não se encontra na riqueza material e nas grandes posses.

A dignidade e honestidade de seu pai valem muito mais do

que a riqueza injusta e egoísta. Por isso meu Pai criou tudo

isto para seus filhos.

-Você tem mais irmãos? - Perguntou Felipe.

- Sim! Todos aqueles que fazem a vontade de meu

Pai são meus irmãos e minhas irmãs.

Emanuel por fim disse:

- E quanto à exploração que seu pai sofria

trabalhando tantas horas por dia e sem descanso é

inaceitável e detestável por Deus. Por isso criou e ordenou

o respeito ao dia santo. O trabalho foi feito para o homem

e não o homem para o trabalho.

Felipe gostou do que Emanuel lhe disse, pois por

diversas vezes o trabalho de seu pai tirava dele a alegria da

convivência e da presença tão importante de seu pai em

sua vida.

Felipe disse:

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sempre?

- Você costuma ler os pensamentos das pessoas

Emanuel sorriu e disse:

- Sim, mas só comento quando for para curar a

alma das pessoas.

Neste exato momento Felipe arregalou os olhos e

apontou à sua frente dizendo.

- Veja! Uma luz enorme!

Uma forma maravilhosa se mexia à sua frente, mas

não mostrava o rosto, quase que se via suas costas. Parecia

ser um ser magnífico e de uma presença única

inexplicável.

Felipe ficou extasiado, já não falava, não sabia

explicar, mas queria ver Aquele Ser pelo resto da sua vida.

É como se ele encontrasse, como que num passe de

mágica o equilíbrio e a segurança total da sua vida, o que

mais tarde definiu a Emanuel com a palavra: realização.

- O que ele está fazendo? - Perguntou Felipe.

- Está criando a obra mais bela e mais amada por

Ele: a humanidade.

- Mas com barro?

- Do pó vieste e para o pó voltará. Disse Emanuel.

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Então Felipe notou que aquele barro foi-se

formando como um vaso nas mãos do oleiro, uma peça

formidável, era uma figura humana, um homem, que

Aquele Ser parecia estar fazendo com tanto cuidado.

Transparecia neste momento um amor incomparável e

imensurável àquela criatura de barro. Quando então viu

que Ele se inclinava para aquele boneco de barro e tocou

com o seu lábio a boca do boneco.

- O que ele esta fazendo? Está beijando o boneco

de barro? Perguntou Felipe.

- Sim, está soprando através de um beijo a vida

para seu filho, a criatura mais bela. É o Ruah! - Disse

Emanuel todo feliz - Meu Pai é amor!

Felipe estava encantado com o que via, não podia

definir com palavras humanas o que ali acontecia. Viu

diante de seus olhos um boneco de barro se transformar

em um ser humano belo. E tudo isso com um beijo de pai.

Lembrou que quando era criança beijava seu pai e sua mãe

na boca.

Felipe extasiado afirmou:

- O criador e sua criatura.

Emanuel retrucou:

- O Pai e seu filho amado.

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Felipe não via o rosto do Pai, mas tinha a sensação

que aquele Ser Maravilhoso e misterioso lembrava muito

seu pai. Também achou o homem ali criado muito

parecido com todas as pessoas que conhecia. Então

perguntou a Emanuel:

- Parece que eu conheço o filho! Sua aparência é de

alguém conhecido?

Emanuel respondeu:

- A humanidade é a imagem e semelhança de Deus.

E continuou:

- Este homem se chama Adão. A humanidade é sua

extirpe. E todos são parecidos com o Pai. Ele amou tanto a

humanidade que a fez parecido com Ele: homem e mulher.

Neste instante Felipe observou que o Pai estava

falando algo ao homem que criou, mostrou uma árvore

esquisita e outra muito bela. Depois mostrou diversas

árvores, um pomar enorme e diversos frutos.

Felipe então fez a seguinte observação:

- Nossa! Quanta abundância! Aqui o homem

jamais passará fome.

- É Felipe, o Pai não é nenhum pouco econômico

quando se trata de providenciar o que o homem precisa.

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- Uma coisa que nunca entendi é o porquê de gente

passando fome se o mundo é tão providente? - Disse

Felipe.

- Por causa do egoísmo. O Pai constrói e o homem

destrói. O Pai reparte e o homem retém para si.

- O que eles estão conversando? Por que os

animais estão todos ali ao redor do homem e do Pai e não

atacam e nem são agressivos?

- O Pai está dizendo ao homem que toda a criação

está a serviço dele. Aquilo se chama harmonia. No

princípio era assim.

Neste momento Adão foi tomado de um profundo

sono e o Pai tirou de sua costela uma mulher. Felipe achou

a cena hilariante. Viu que o homem estava triste e agora

via Adão feliz observando a mulher diante de seus olhos.

- Emanuel! Já vi muitas piadas a respeito disso.

Dizem que o homem é melhor porque a mulher é uma

cópia do original. Por outro lado ouvi as mulheres dizendo

que o homem é um rascunho da mulher.

Emanuel sorrindo disse:

- Também já ouvi muito destas piadas. Mas eu

prefiro a interpretação que algumas pessoas fazem deste

momento. Dizem que a mulher foi tirada da costela de

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Adão porque possui a mesma igualdade que o homem. Se

tivesse sido tirado dos pés diriam que é escrava, inferior.

Se tivesse tirada da cabeça, que era superior a ele. Então

Deus tirou da costela para mostrar a igualdade entre o

homem e a mulher. Do mais qualquer observação que

tenha como objetivo inferiorizar uma das partes é fruto de

uma disputa mesquinha e vazia.

Felipe.

- Em sua opinião quem é superior? - Perguntou

- Superior é aquele que se faz servo. É o que não

tem medo de morrer pelo outro. O homem completa a

mulher e a mulher completa o homem.

perguntou:

Felipe começou a pegar intimidade com Emanuel e

- E quem não joga em nenhum dos dois times?

Emanuel respondeu:

- Deus não faz acepção de pessoas. Deus sabe tudo,

conhece tudo e, portanto não pode ser preconceituoso, tem

um conceito claro e real e por isso é misericórdia e ama a

todos igualmente. O importante é saber que quem ama não

erra.

- E Deus? Ele é homem?

Emanuel respondeu:

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- Deus não tem sexo.

- Então porque o chama de Pai?

- É uma forma que encontramos para ser entendido

pela humanidade.

- Antropomorfismo. Falou Felipe bem baixinho,

lembrando que na escola aprendera o significado desta

palavra que significava uma forma de pensamento que

atribui características ou aspectos humanos a Deus.

A Desobediência

Felipe então observa um diálogo meio áspero entre

o homem e a mulher. Vê uma serpente no galho daquela

árvore exótica. Parecia que Eva conversava com a

serpente e Adão então estendeu a mão e pegou do fruto

daquela árvore e comeu. Percebeu nos olhos do homem e

da mulher um semblante horrível e um desespero. O que

havia naquela árvore? Que fruto era aquele que trazia tanta

dor ao homem e a mulher? Então olhou para Emanuel e

pela primeira vez viu no seu semblante e nos seus olhos

um ar de preocupação e decepção. O olhar de Emanuel era

quase sempre um olhar de serenidade e amor. Felipe

percebeu que o olhar da serpente era uma contradição ao

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olhar de Emanuel. A serpente parecia raivosa, invejosa e

presunçosa. Quando Adão comeu do fruto ela riu

sarcasticamente, sua risada causou um temor a Felipe que

se arrepiou todo e lembrou-se de quando tinha muito medo

e gritava pelo pai que o abraçava a noite em sua cama e o

fazia dormir novamente. Seu sentimento era o mesmo,

sentia-se desprotegido e queria gritar pelo pai. Seu

sentimento de derrota, os rostos de Adão e Eva e o sorriso

da serpente o fizeram tremer. Mas nada se comparava a

preocupação que Emanuel apresentava. Para quebrar a

tensão disse:

- Veja! Eles estão se cobrindo com folhagem e

Adão e Eva choraram. Porque ele esta se escondendo?

- Por que ele comeu do fruto da árvore da ciência

do bem e do mal.

- E não podia?

- O Pai lhe disse que podia comer de todas as

árvores do Jardim do Éden, inclusive da árvore da vida e

que viveriam eternamente felizes, menos da árvore da

ciência do bem e do mal. Esta árvore lhe traria

independência e uma total consciência do que é certo e

errado e, portanto teriam que responder pelas suas atitudes

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e decisões. Por isso a partir de agora também precisarão

trabalhar para manter suas vidas e experimentarão a morte.

- Eles sabiam disso? - Perguntou Felipe.

- Sim. Quando o homem não quer saber, sua

consciência o avisa.

Felipe na verdade estava pensando que se o homem

e a mulher houvessem obedecido a Deus, talvez seu pai

estivesse vivo.

Por que a vida lhe ofereceu este destino tão

amargo? Então lhe veio uma idéia, talvez pudesse chegar

perto de Deus no paraíso e lhe fazer estas perguntas. Seu

pai sempre dizia que Deus tem resposta para tudo. Mas

quando foi perguntar a Emanuel ele viu uma das cenas

mais fortes e marcantes da sua vida. Viu Deus se

aproximando de Adão como sempre fazia à hora da brisa

da tarde e chamando-o pelo nome. Adão se escondera,

pois estava envergonhado da sua nudez e da sua

desobediência. Neste momento Felipe pode lembrar-se

que quando aprontava as suas, seu pai o chamava

insistentemente e ele se escondia às vezes debaixo da

cama, às vezes em cima do forro e outra vez punha-se a

chorar copiosamente para não sofrer as correções que na

maioria das vezes ele merecia. Mas tantas outras vezes ele

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levava bronca do pai porque sua tia inventava as coisas.

Quando sofria correção por merecer doía mais, pois

carregava o remorso de ter errado. Já desejou por diversas

vezes que seu pai morresse e agora sentia remorso de não

ter amado e beijado mais seu pai.

Felipe viu Adão sair do meio das árvores do jardim

com a cabeça baixa. Houve um pequeno diálogo. Deus

apontou para a porta do Éden e Adão e sua mulher

partiram dali. Parecia que o Pai estava zangado... ou triste?

Felipe pensou: “quantas vezes eu fiz meu pai chorar por

causa de mim!”

Felipe começou a chorar copiosamente, não sabia

por que, mas sentia uma profunda tristeza. Tudo que

aconteceu de ruim na sua vida aflorou em sua mente nesta

hora. A solidão, o medo, a raiva, o ódio, a depressão, as

doenças que já teve e a pior de todas as suas dores: a

morte da sua mãe e principalmente de seu pai com quem

conviveu há mais tempo. Aquele silêncio de Adão que não

respondeu ao chamado do Pai parecia eternizado no

tempo. Nunca imaginara um silêncio incomodar tanto

quanto o silêncio do homem e da mulher no paraíso.

Felipe começou a berrar violentamente para Deus:

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aqui!

- Pai eu estou aqui! Pai eu estou aqui! Pai eu estou

Emanuel colocou a mão sobre o ombro dele,

abraçou-o e chorou junto com ele. Depois disse:

- Não fique triste eu estou aqui.

Então Felipe desabafou:

- Por que sempre decidimos errado. Por que não

conseguimos enxergar o que é essencial. Porque será que

quase sempre não sabemos o que fazer na vida?

- Este não é o problema maior da humanidade. O

agravante não é ter dúvidas, fraquezas e limitações. O

problema é quando o homem acha que sabe tudo e se faz

de forte e sabido. Quando o homem se sente auto-

suficiente e todo poderoso. Se Adão tivesse a consciência

que é feito de barro, portanto é limitado e possui fraquezas

não desobedeceria a Deus. Quando o vaso de barro se acha

de ferro ou feito a ouro enquanto não cai viverá sempre da

ilusão que é inquebrantável.

Felipe interrompeu ainda em soluços e disse:

- Este é o problema da humanidade. Sempre faz o

que não deve. Sempre age como se fosse o senhor da

criação.

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- Meu amigo o problema não é agir como senhor

da criação, mas sim como um administrador irresponsável.

Se o homem se comportasse como senhor e administrador

da criação a protegeria e a preservaria. Falou Emanuel

enquanto enxugava as lágrimas de Felipe.

- Se no centro, em destaque, estava a árvore da

vida, cujo fruto podia oferecer a felicidade eterna, eles

preferiram se igualar a Deus comendo da árvore da ciência

do bem e do mal. Não entendo quanta burrice! Ao invés de

sonhar com a felicidade preferiram o pesadelo de viverem

infelizes. Afirmou Felipe.

- Fruto proibido é mais gostoso! Porém deixa um

amargo muito grande na vida das pessoas. Consequências

quase irreparáveis. Soluções doloridas. E o mais triste de

tudo isto é que as pessoas sabem que estão agindo errado.

O segredo da felicidade Felipe é carregar dentro de si o

sonho de Deus!

- Viver o Reino de Deus! O que mais me

impressionou foi o fato de Adão e Eva não conseguirem

olhar a face de Deus. Agora entendo porque eu não via sua

face enquanto falava com Adão. O erro de Adão e Eva foi

ouvir aquela maldita serpente. - Disse Felipe.

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- O erro de Adão e Eva foi querer fazer de Deus a

sua imagem e semelhança, ao invés de serem a imagem e

semelhança de Deus. Adão culpou Eva que por sua vez

culpou a serpente. O homem quase sempre não assume os

seus erros, é mais fácil culpar o outro. E quando não tem

ninguém para culpar a culpa cai nos ombros de Deus que

por sua vez assumiu toda a culpa sozinho. Mas isso você

vai entender nesta nossa caminhada ao Reino de Deus. -

Afirmou Emanuel.

Felipe lembrou que por diversas vezes culpou a

Deus, sua tia e seu pai, seus professores e o mundo pelos

seus fracassos e desilusões. Estava muito triste consigo

mesmo.

Emanuel colocou as mãos nos ombros de Felipe e

apontou para a porta do Éden e disse:

- Vamos daqui! Nunca mais este Paraíso será o

mesmo com a ausência do Pai e dos seus filhos.

- Acredito que em toda a minha vida nunca mais

sentirei tanta angústia como senti hoje no silêncio de Adão

e Eva. - Disse angustiado Felipe.

- Estamos só começando com nossa jornada a

busca do Reino de Deus! Tem muita emoção ainda pela

frente. E pode ter certeza sentirá ainda algo muito mais

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forte do que você imagina. Pois para um impacto violento

como este só um impacto ainda maior para solucionar.

A sensação que Felipe possuía era de que nunca

mais em sua vida poderia ver a face do Pai. E

estranhamente o sentimento que permaneceu em seu

coração após esta experiência do Paraíso era o de querer

ver a face de Deus. O que esta face tem que não podemos

enxergar? Por que Deus era tão democrático e que permite

o livre arbítrio para seus filhos irresponsáveis? Por que

não intervém drasticamente na história e não elimina os

maus? Por que não protegeu meu pai e minha mãe da

morte? Por quê?

Enquanto refletia, partiram em silêncio e com a

sensação de que esta primeira experiência lhe trouxe mais

dúvidas do que respostas. Porém o encontro com Deus

suavizou a saudades que tinha do pai.

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O sonho de Abrão

Felipe estava agora sentado no banco da praça e

olhava encantado para o céu estrelado. Pensava se

algumas daquelas estrelas que brilhavam no céu seriam

seu pai ou sua mãe? O que acontecia com as pessoas

depois da morte? Sentia também que o paraíso lhe trouxe

uma cura para sua alma e que algumas feridas haviam sido

tratadas naquele lugar. Porém também teve a sensação de

que carregava uma culpa daquele lugar. Pensava que

estava ficando louco com toda aquela jornada que fez, e se

realmente existiu o jardim do Éden. Percebeu que sentado

ao seu lado estava Emanuel que via as estrelas do céu

balbuciando algumas palavras em uma língua estranha

como se estivesse rezando. Parecia uma criança falando

com o pai. Felipe sentia a presença de Emanuel ali e ouvia

o som de suas palavras, mas não conseguia tirar os olhos

do céu. Neste dia parecia que o céu estava muito mais

estrelado. Com os olhos fixos para o alto perguntou a

Emanuel:

- O paraíso, este tal Jardim do Éden existiu? E o

que vimos ali foi real?

33


Emanuel também olhando fixamente para o céu

interrompe sua oração e responde:

- O Paraíso do Éden existe no desejo de cada

pessoa em reconciliar com o Criador sua volta à dignidade

e à felicidade plena. O paraíso é um estado de espírito que

só é possível existir se você acreditar na felicidade. Dentro

de cada pessoa existe a árvore da ciência do bem e do mal.

Existe a árvore da vida e todos os frutos necessários para

buscar a felicidade. Tudo na vida, Felipe, é uma questão

de escolha. E só chegamos ao paraíso se antes soubermos

sonhar. Ninguém chega a lugar nenhum se antes não

aprender a sonhar. E por não saber sonhar com o que vale

a pena Adão e Eva se auto- expulsaram do paraíso.

Felipe lembrou que quando chegava à hora de

dormir aproximava de seu pai e pedia a benção. O pai o

abençoava e desejava bons sonhos. Felipe por diversas

vezes sonhava com sua mãe sorrindo e abraçando com

carinho. Era uma mulher bela. Quando estava triste

costumava sonhar acordado também com coisas boas. Seu

pai dizia que ele vivia no mundo dos sonhos

Emanuel levantou-se do banco e disse:

- Vem e segue-me!

34


- Para onde vamos! Respondeu Felipe ainda com

os olhos para as estrelas.

- Vamos para a cidade de Ur.

- Onde fica este lugar? É ali o Reino de Deus?

- Não! Já lhe disse que o Reino de Deus está mais

próximo do que você imagina. Ur fica muito distante

daqui.

Felipe abaixou os olhos e viu à sua frente que a

poça de água continuava do mesmo jeito e que não refletia

mais o rosto de seu pai. Parecia que seu pai estava cada

vez mais distante. Apenas viu refletida naquelas águas

muitas estrelas que brilhavam fortemente no céu. Foi se

dando conta que estava sentado em uma relva e ao seu

lado uma imensa escuridão que faziam as estrelas

brilharem com mais intensidade. Levantou a cabeça e viu

que já não estava mais sentado no banco da praça.

Perguntou assustado:

- Onde estamos? Que lugar estranho é este?

- Estamos em Ur, terra natal de Abraão, meu amigo

no ano de 1.800 A.C. - respondeu Emanuel

- Como viemos parar aqui?

- Pela porta da praça, respondeu Emanuel.

- Outra porta? Quantas portas aquela praça têm?

35


Emanuel sorriu e disse:

- Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim será

salvo, tanto entrará e sairá e encontrará pastagens.

- Você é a porta? Perguntou Felipe.

- O Bom Pastor é a porta! Respondeu Emanuel.

E continuou:

- Eis que estou a porta e bato: se alguém ouvir a

minha voz e me abrir a porta, entrarei em sua casa e

cearemos, eu com ele e ele comigo.

Felipe nesta hora levantou-se e sem dar ouvidos ao

Emanuel lhe dissera começou a observar como aquele

lugar era diferente. Não tinha a magia e nem a beleza do

paraíso, mas as estrelas brilhavam com tamanha

intensidade e a quantidade de estrelas parecia ser

infindável.

- Emanuel, disse ele, porque as estrelas estão

brilhando tão forte assim?

Emanuel respondeu pacientemente:

- Você mora na área urbana e por isso os homens

que ali moram há muito já não podem ver um céu

estrelado. As luzes artificiais escondem o brilho das

estrelas e sua quantidade. O homem do campo sabe muito

36


em do que estou falando. No campo a escuridão faz com

que as estrelas aparecem mais e com maior intensidade.

- Aqui o céu é muito lindo! E a noite não parece ser

tão assustadora. Disse Felipe

Felipe lembrou-se que lá no morro onde mora, a

noite sempre era assustadora. Quase sempre havia tiroteio

e balas perdidas. Foi em uma destas situações que sua mãe

faleceu com uma bala perdida que entrou pelo barraco e

acertou em cheio suas costas atingindo seu coração.

Estava de pé lavando as louças depois de um dia todo,

atarefada com seu serviço. Foi esta história que ouviu de

seu pai a respeito da morte da mãe. Felipe tinha 8 anos.

Nunca soube da onde veio aquela bala. Seu pai dizia que

depois daquele dia nunca mais sua vida foi a mesma.

Pensou diversas vezes de desistir de viver, mas sentia a

mão de Deus que o segurava. Mas sempre dizia que Felipe

era o que o motivava continuar em pé. Felipe chorou

novamente com esta lembrança deitou-se na relva e

dormiu de tristeza. Refletiu consigo: “qual meu motivo

para viver?”

Emanuel percebeu que sua alma estava triste e

preferiu calar-se apenas observando seu sono. Beijou-o na

testa e balbuciou em seu ouvido:

37


- O Pai lhe ama!

Felipe dormiu com esta frase com uma paz no

coração, pois quando seu pai o colocava na cama dizia

sempre que o amava, então dormia com uma imensa

segurança. Fazia isso sempre até sua idade agora. Felipe

nunca chegava mais tarde em casa, por causa do perigo do

morro à noite e principalmente porque gostava de ouvir

seu pai lhe dizer antes de dormir que o amava. O que

estava cada vez mais raro de acontecer, pois seu pai

trabalhava muito e chegava tarde em casa.

Emanuel então encostou-se em um canto e disse:

- Se todos os pais soubessem a importância de um

abraço, um beijo e palavra de amor e carinho, seus filhos

estariam motivados e não precisariam buscar no mundo o

que não recebem em seus lares. As coisas essenciais da

vida são simples e Deus deixou ao alcance de todos. Mas

os homens preferem complicar o que é simples. Buscam a

felicidade onde ela não está, oferece aos seus filhos a

matéria como solução de alegria pagando com o preço da

sua ausência e distanciamento.

A manhã chegou toda radiante o sol nascia e então

Felipe acordando pode ver a beleza de todo aquele vale.

Percebeu que estava disposto e com uma sensação de

38


alegria. A noite foi-se embora e junto com ela a tristeza.

Lembrou-se então da primeira frase que ouviu de Emanuel

quando o conheceu: “A tristeza pode durar até o anoitecer,

mas alegria logo vem no amanhecer”.

emendou:

- Nada como um dia após o outro. Disse Emanuel e

- Bom dia!

Felipe com um ar de alegria olhou para Emanuel

que parecia mais reluzente que comumente era. Disse:

- Bom dia! Sinto uma sensação muito grande de

alívio nesta manhã. Como que uma esperança se

renovando dentro de mim e não sei por que, mas me

parece que teremos uma missão que promete hoje.

Emanuel o olhou com carinho e disse:

- Hoje conheceremos um amigo. Um filho muito

amado por Deus. Hoje você conhecerá como começou

concretamente a História da Salvação, ou como gosto de

chamar, o Reino de Deus. Disse Emanuel.

Felipe notara que podia ouvir o barulho dos

pássaros e do local, diferente do paraíso que só conseguiu

ouvir o chamado de Deus a Adão e os seus passos. Mas

preferiu não se lembrar deste momento, pois mexeu muito

com suas lembranças e seus traumas.

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- Felipe, quando queremos curar uma ferida é

preciso limpá-la, tratá-la e para isso é necessário mexer

nela. Não se cura uma ferida aberta se não tiver a coragem

de tratá-la. Afirmou Emanuel.

- Você lendo meus pensamentos de novo! Parece

que é mais fácil ignorar e deixar a ferida curar sozinha do

que mexer nela. Disse Felipe

- Ferida mal tratada pode se tornar ferida para

sempre. Disse Emanuel

Felipe observou que se aproximava um homem

idoso, porém muito forte e rústico com seu rebanho.

Perguntou:

- Quem é ele?

- Seu nome é Abrão, por enquanto, Deus o

chamara de Abraão que significa mais ou menos em sua

língua Pai Excelso, Pai de todos ou líder de todos.

- Tipo Paizão! Disse Felipe sorrindo.

- Isso mesmo, gargalhou Emanuel, é a melhor

definição que já ouvi. Emanuel disse ainda:

- Aqui você poderá ouvir algumas conversas, por

isso está ouvindo o som do lugar.

- Desta vez o Pai não tirou o som ambiente, disse

Felipe sorrindo mais uma vez.

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Emanuel sentia Felipe um pouco mais leve e

percebeu que a experiência da origem, do paraíso lhe fez

muito bem.

rindo.

Felipe estava falador e disse:

- Quantos anos este senhor tem?

- 75 anos. Respondeu Emanuel.

- Então está no bico do corvo. Disse Felipe ainda

- Está na idade da experiência. Quando você é

jovem faz diversas coisas para acertar uma. Quando se tem

a idade da maturidade e experiência acerta mais vezes

agindo menos. A maturidade ensina que com o esforço

menor e sabedoria você acaba realizando mais. Disse

Emanuel.

Neste momento Felipe ouve como se fosse um

trovão, um barulho forte, mas da onde vinha, o tempo

estava limpo. Então percebeu que era do céu e era uma

voz que dialogava com aquele homem:

- Deixa tua terra, tua família e a casa de teu pai, e

vai para a terra que eu te mostrar. Farei de ti uma grande

nação; eu te abençoarei e exaltarei o teu nome, e tu serás

uma fonte de bênçãos. Abençoarei aqueles que te

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abençoarem, e amaldiçoarei aqueles que te amaldiçoarem,

todas as famílias da terra serão benditas em ti.

Felipe se sente amedrontado e quase que sem

levantar a cabeça nota que Abrão estava no chão com o

rosto escondido e parecia com muito mais medo que ele.

Aquela voz parecia algo diferente, as palavras tinham

tanto poder e tanta força que quase Felipe respondeu: “eu

estou aqui me envia também”. Felipe sentiu uma

segurança enorme ouvindo esta voz. Lembrou-se da voz

do pai e da sua presença, pois sempre sentia seguro ao

lado do pai. Seu pai era sua segurança e a certeza que

tinha que ninguém mais do que ele o amava e lhe queria

bem. Sempre viu seu pai como um herói, aquele que com

certeza não pensaria duas vezes em dar a própria vida para

o proteger. Culpava às vezes seu pai inconscientemente

pela morte da sua mãe, porque ele não a protegeu? Porque

se era tão forte não pode estar ao lado dela? Quando

pensava em sua mãe era a única vez que colocava em

dúvida a força de seu pai e consequentemente a admiração

que tinha por ele. Certa vez em meio a uma discussão

culpou seu pai pela morte da mãe e pela primeira vez em

sua vida viu lágrimas rolarem do rosto do seu pai. Naquele

dia Felipe descobriu verdadeiramente o que significa

42


arrependimento. Se pudesse enfiaria a cabeça dentro da

terra como um avestruz de tanta vergonha e raiva de si

mesmo. Seu pai não merecia ouvir aquilo.

Enquanto pensava estas coisas viu Abraão se

afastar e deixar o seu rebanho e partir com o semblante

preocupado e feliz. Felipe por sua vez se sentia muito

feliz. O sentimento que teve durante esta experiência lhe

trouxe na alma como que uma esperança. A sensação era

que uma criança estava sendo gerada neste momento do

chamado de Abraão e que as dúvidas e os traumas que

afloraram em si quando viu Adão se esconder começava a

diluir-se como se o sol estivesse nascendo e iluminando

todo um novo dia. Também notou que o semblante de

Emanuel irradiava a mesma luz que tinha o rosto de Deus

no paraíso e que ao contrário daquele semblante

preocupado também na hora da negação de Adão, agora

havia alegria e muita Paz! Apesar que estes sentimentos

sempre permaneciam no olhar e semblante de Emanuel

mesmo na hora da tensão.

- E agora o que será da vida de Abraão? Seus

filhos? Sua mulher? Como pode um homem nesta idade

abandonar tudo o que tem para seguir uma voz do além? Ir

43


para uma terra que nem conhece? Perguntou Felipe a

Emanuel.

- O chamado de Deus não se vive com certezas

humanas e sim com a fé.

Felipe interrompe e pergunta:

- O que é Fé?

Emanuel respondeu:

- É o fundamento da esperança, é uma certeza a

respeito do que não se vê. Será ela que de agora em diante

fará a glória de Abraão.

Emanuel continuou:

- Abraão não tem filhos, aliás, antes de Deus se

manifestar a ele, era o seu único sonho. Sua mulher Sara é

estéril. A vida para Abrão não tinha mais alegria e sentido,

já que pra esta época, ter filho é sinal de benção e as coisas

mais importantes para o homem e para a mulher são a

terra, um nome e sua posteridade. Que adianta ter tantas

riquezas, um nome respeitado e não ter uma posteridade

para dar continuidade a tudo isso? E esta posteridade

entenda como um filho homem, o primogênito. É o que

eles pensavam nesta época.

- Deus pensa assim? Perguntou Felipe.

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- Não! Deus está acima de todo pensamento e de

toda cultura. Os pensamentos de Deus não são os

pensamentos dos homens. Portanto quando alguém está

em Deus sua decisão e seus pensamentos estão bem mais

próximos do que vocês chamam de realização. Porém

Deus ama e respeita a liberdade dos seus filhos e por isso

age na cultura em sintonia com a forma de agir e pensar do

ser humano desde que isto não fira os princípios básicos

da dignidade e da verdade.

então a fé?

- O que fez Abraão responder a este chamado foi

- A princípio não! Disse Emanuel.

- Como assim, não entendi. Afirmou Felipe.

- Qual é o sonho maior de Abrão? Perguntou

pacientemente Emanuel.

gargalhada.

- Ter um filho! Disse Felipe soltando uma

Emanuel sentia que Felipe estava cada vez mais

livre de seus traumas e que a jornada para o Reino de Deus

estava lhe fazendo muito bem.

Emanuel?

- Por que me olha assim? O que esta pensando

45


- Olho seu sorriso. Se soubesse o bem que lhe faz e

que faz aos outros o seu sorriso não o continha tanto para

si.

Felipe ficou corado, mas mesmo assim tinha

vontade enorme de rir. Então teve a coragem de dizer o

porquê da gargalhada:

- Abraão vai morrer sem realizar seu sonho. Disse

rindo bem alto.

- Se refere à idade dele? Disse Emanuel

- Sim, com setenta e cinco anos....

- Sei, não precisa falar....

- Ainda bem que lê pensamentos. Disse Felipe.

- Felipe... Felipe... Para Deus nada é impossível.

Então Felipe voltando ao assunto anterior

questionou a Emanuel:

- Então Deus enganou a Abraão quando lhe disse

que sua posteridade seria grande, foi uma forma de

motivar e convencer?

- Deus não engana! A fé não é uma motivação e

sim uma certeza. Disse Emanuel e prosseguiu:

- Eu lhe disse que para Deus nada é impossível.

Abraão terá um filho. Mas quando ele se refere a esta

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numerosa posteridade não se referia necessariamente ao

filho dele.

- Então aquele senhor de setenta e cinco anos vai

fazer um filho? Disse Felipe rindo.

- Não! Dois: um com a escrava e outro com sua

mulher. Com a escrava fez por desobediência a Deus e por

não acreditar na promessa de Deus em sua vida. O

resultado foi desastroso iniciou uma guerra sem fim. Mas

antes que diga alguma piada quero lhe informar que sua

mulher a Sara riu duvidando do poder de Deus e Ele ficou

muito bravo com ela. Falou Emanuel rindo como que se

desse um cheque mate em Felipe.

Felipe por sua vez engoliu sua saliva e achou

melhor não brincar com a situação, mesmo achando toda

esta história por demais estranha. Felipe também lembrou

quase que ligeiramente que toda vez que não ouvia os

conselhos do pai se dava muito mal.

Então Felipe pediu a Emanuel que lhe explicasse o

que aconteceu verdadeiramente naquela manifestação de

Deus na vida de Abraão. O que representava tudo aquilo e

por que sentiu um ar de alívio no sim de Abraão em

resposta à desobediência de Adão.

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a benção

Emanuel então começou a explicar o sentido

daquele chamado e a importância que representava a toda

humanidade.

- Abraão recebeu de Deus a tríplice dimensão de

ser abençoado. Traduzindo um pouco para sua língua a

palavra benção na língua da bíblia em hebraico podemos

definir em três palavras: o substantivo beraka, o verbo

barek e o adjetivo baruk.

- Parece que esta me ofendendo, que palavras

estranhas. Disse Felipe.

- Estranha pode parecer, mas que tem um sentindo

muito forte na vida de uma pessoa diante de Deus.

Definiria em poucas palavras que é esta benção que Deus

espera de seus filhos na terra. Mas que infelizmente os

seus filhos distorcem ou procuram apenas uma destas três

definições e por isso não compreendem o Reino de Deus

em sua vida.

Felipe interrompe novamente e diz:

- Então vai dizer pra mim a senha de entrada no

Reino de Deus?

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- Se dependesse de você ou de alguma senha

jamais entraria no Reino de Deus. Não o estou

subestimando, apenas quero lhe dizer que o Reino de Deus

é dado gratuitamente e é acessível a todos, não precisa de

senhas e nem esforços desnecessários, basta abrir o

coração para o que é mais importante e essencial da vida.

- Se é tão simples porque então as pessoas não

aderem a este Reino? Perguntou Felipe.

- São muitos os chamados, mas poucos os

escolhidos. Disse Emanuel

Felipe não entendeu direito que quis dizer, mas

estava curioso para saber o que significava aquelas

palavras estranhas que definiam a benção e que por conta

própria chamou de senha para O Reino de Deus.

- Então me explique o que Deus ofereceu a

Abraão? Que palavras são aquelas que me disse e o que

significa? Perguntou Felipe afoito.

Felipe notou que após a convivência com Emanuel

ele foi pensando menos em seu pai com dor e lembrava

mais com orgulho e alegria do tempo em que estiveram

juntos.

- Vamos para a primeira palavra, o substantino

beraka. Disse Emanuel e prosseguiu.

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- A palavra beraka é a dimensão da benção que se

refere à gratuidade de Deus na vida de uma pessoa. Tudo

aquilo que Deus oferece como bem tanto no sentido

profano a matéria, humano como também espiritual. Seria

a prosperidade, sua generosidade, riquezas. Define a

benevolência de Deus aos homens principalmente nas suas

necessidades materiais. O beraka é sempre uma

abundância, o bem-estar que o povo da bíblia chamava de

Paz!

- Seria como era o paraíso? Muita água, muitos

frutos, tudo de forma abundante?

- Sim! Inclui também vestimentas, moradia,

alimento enfim os bens duráveis e os bens espirituais tão

necessários a Paz almejada por vocês. Disse Emanuel.

E continuou:

- Na vida de Abraão ele teve tudo isso em

abundância. Deus lhe prometeu o beraká dizendo: “Farei

de ti uma grande nação, eu te abençoarei e exaltarei o teu

nome...”

- Mas ele demonstra um ar triste. Disse Felipe

- Sim. A humanidade por não entender plenamente

os mistérios de Deus em sua vida, mesmo que tenha tudo,

sempre quer algo a mais. É a tal insatisfação.

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- Eterna insatisfação. Meu pai dizia isso toda vez

que eu reclamava algo com ele. Disse Felipe

Emanuel riu e disse:

- Não lhe disse que o homem não conhece os

mistérios de Deus a ponto de não conseguir enxergar o que

não se vê, com os olhos da carne? Eternidade só existe

para a felicidade.

- Então é por isso que as pessoas só vão para igreja

quando precisam de algo para pedir? Lembro-me que um

amigo meu dizia pra eu ir à igreja que lá aprenderia não

ser tão revoltado com a morte de minha mãe.

Pela primeira vez Felipe falou naturalmente deste

assunto em voz alta. É como se ele não quisesse ouvir de

alguém e de si próprio que sua mãe era falecida. Odiava as

pessoas que tinha pena dele ou então que lhe perguntasse

de sua mãe. Quantas vezes chateado olhava seus amigos

todos com a mãe ao lado e ele se sentia envergonhado e

diferente.

E emendou:

- Como que se eu fosse à igreja, Deus me traria de

volta a minha mãe. Uma vez eu disse a ele que eu iria se

ele prometesse que Deus devolveria a minha mãe.

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Emanuel percebeu que o clima ficou um pouco

tenso, mas sentiu-se aliviado pelo fato de Felipe agora

externar seus sentimentos de revolta em voz alta. Isso faria

muito bem a ele. Guardar os sentimentos e ter medo de

mostrar sua fragilidade fez com que fosse muito infeliz na

vida.

- Pois é Felipe, não existe problema algum as

pessoas irem pra igreja ou em suas casas ou onde bem

entenderem elevar sua oração até Deus e fazer seu pedido.

É pra isso também que existe o Pai. Mas fazer da religião

ou da fé pessoal um mercado de negócios com Deus onde

fé é uma atitude única de interesse, ou como se diz, de

uma via só: Deus ouvir ter obrigação de atender aos

pedidos de seus filhos mimados e infantis na fé é no

mínimo desprezar a si próprio como filho ou ao Criador

como Pai.

- É o que acontece quando se vende prosperidades

e promessas para enriquecimento pessoal. Vejo muita

gente fazer isso. Quanto mais milagres e curas se vendem

ou oferecem parece que mais os salões estão cheios. Disse

Felipe.

- É justamente isso! As pessoas querem só receber,

são egoístas com Deus com o próximo que necessita e sem

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perceber consigo mesmo. Vivem uma religião de mercado.

Disse Emanuel.

- O nome é berrrrrrrrrr.... Felipe tentou falar a

palavra, mas não se lembrava.

- Beraká! Disse Emanuel e completou:

- O beraká é muito importante para vida do

homem, por isso Deus em sua Providência fez tudo com

sobra e abundância. Mas se o homem ficar buscando e

vivendo só o beraká nunca entenderá ou experimentará

quem verdadeiramente é o Pai. O Universo foi criado e

preparado para agir em favor da felicidade do homem,

tudo foi projetado para o bem e para dar tudo certo para a

humanidade. Quando o homem intervém negativamente

no Universo ou na lógica da Criação, fazendo mau uso da

sua liberdade e das coisas então o beraká não acontece na

vida das pessoas.

- A árvore da Ciência do bem e do mal. Cabe ao

homem decidir seu destino. Disse Felipe

- Na verdade coube a Deus redimir a humanidade

para trazê-la de volta ao seu destino determinado. Disse

Emanuel.

- Não entendi! Falou Felipe

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Emanuel.

- Até o final desta jornada entenderá. Afirmou

Toda vez que Emanuel se referia a Deus estar

consertando os erros da humanidade, pensou Felipe, ele

demonstrava um ar de realização por algo que fez por

todos nós. Percebeu que Emanuel não queria falar sobre

isso ou então que estava esperando a hora exata para falar,

então mudou de assunto dizendo:

significa?

- E a outra dimensão da palavra benção, o que

- O verbo barek. Disse Emanuel

- Sim! Esta palavra aí, o que significa? Falou meio

atrapalhado Felipe.

- Se beraká é a gratuidade de Deus o barek é uma

forma de agradecer os dons recebidos abençoando os

irmãos. Significa abençoar, bendizer, benzer. Disse

Emanuel

- Meu pai sempre me abençoava antes de dormir e

quando sai pra estudar ou trabalhar pedia sua benção.

Disse orgulhoso Felipe.

- Também inclui esta forma de cortesia. Quem

abençoa assemelha-se ao Pai, torna-se divino. Depois de

Deus, a fonte da vida é os pais e a eles compete abençoar.

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- Quando tiver meus filhos quero também

oferecer a eles a benção. Amava muito quando meu pai

fazia isso comigo, sempre me sentia protegido pela sua

benção. É como se ele em nome de Deus desse aval para

minha vida. Disse feliz Felipe.

O coração de Felipe estava amolecendo cada vez

mais com a companhia de Emanuel. Até então naquele

banco da praça havia só sentimento de desistir de tudo.

Desejava morrer ali. Agora sutilmente dizia que quando

tiver filhos... Algo novo estava acontecendo em sua vida,

seu coração de pedra se transformava em coração de

carne, uma nova esperança brotava de seu coração. Um

milagre! O verdadeiro ou mais belo milagre que poderia

uma pessoa experimentar: a conversão que traz a alegria e

a esperança da vida.

- A benção de Deus sempre faz brotar a vida! Disse

Emanuel com convicção e força.

- Então o barrooooko é importante né? Disse Felipe

todo enrolado com as palavras novamente.

- Sim o barek é muito importante, disse Emanuel

rindo da dificuldade que Felipe encontrava para guardar a

pronuncia das palavras. E continuou:

55


- Tão importante é receber, o beraká, quanto dar o

barek. Diria que até é mais importante oferecer do que

receber. Pois quem dá com alegria compreende o que é ser

feliz. Quem dá na verdade recebe muito mais.

Felipe:

Emanuel então cantou a seguinte canção para

Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.

Onde houver ódio, que eu leve o amor;

Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;

Onde houver discórdia, que eu leve a união;

Onde houver dúvida, que eu leve a fé;

Onde houver erro, que eu leve a verdade;

Onde houver desespero, que eu leve a esperança;

Onde houver tristeza, que eu leve a alegria;

Onde houver trevas, que eu leve a luz.

Ó Mestre, Fazei que eu procure mais

Consolar, que ser consolado;

compreender, que ser compreendido;

amar, que ser amado.

Pois, é dando que se recebe,

é perdoando que se é perdoado,

e é morrendo que se vive para a vida eterna.

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- Eu já ouvi muito esta canção! Ela é linda! Meu

pai cantava constantemente esta canção para eu dormir

quando era pequeno. Disse Felipe

- Ela é muito linda! É de meu amigo Francisco.

Um dos filhos mais amado do Pai. Disse com satisfação

Emanuel.

E continuou:

- Então não basta apenas reter para si as coisas de

Deus é preciso partilhar. A pessoa é abençoada por Deus

e, portanto para assemelhar-se com o Pai deve também ser

uma fonte de benção para o outro. A maioria das pessoas

só quer receber. Se nos templos os fiéis fossem uma fonte

de benção para o mundo com certeza o mundo seria

melhor. Não se deve buscar apenas os milagres e as curas.

Não enxerga a Deus quem tem seus olhos voltados para o

próprio umbigo. O filho obediente procura conhecer a

Fonte da cura e dos milagres e não apenas beber dela. E

obediente são aqueles que ao conhecerem O Manancial; a

Fonte da Água Viva tornam-se riachos, vertentes desta

fonte para aqueles que precisam de bênçãos levando e

espalhando vida por onde andam.

- Então por isso Deus disse a Abraão: “ tu será uma

fonte de benção...todas as famílias da terra serão benditas

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em ti.” Disse Felipe repetindo a voz de Deus que

inexplicavelmente ficou marcada em seu coração.

- Sim Felipe, agora entende que Deus está fazendo

através de Abraão, uma nova aliança, cujo beneficiário

desta benção são todos os filhos de Adão e Eva. Quando o

silêncio de Adão marcou profundamente você trazendo

seus traumas a superfície da sua consciência, o sim de

Abraão trouxe a cura e libertação, o barek, à sua

consciência e ao seu coração. Toda a humanidade será

abençoada pela vocação de Abraão. Toda a humanidade

será abençoada pelo sim de todos os filhos obedientes ao

Pai, isso vocês na terra chamam de salvação universal.

- Por isso Deus o chamou e mudou seu nome para

Abraão, pois seria como que um Paizão de todos nós. E

acrescentou ainda:

- Eu acho que não tenho nada para oferecer. Disse

Felipe ao mesmo tempo ansioso para descobrir seu dom e

triste por achar-se tão fraco.

Emanuel olhou novamente em seus olhos e disse:

- Nunca diga que não tem nada para oferecer, pois

estará ofendendo quem lhe criou. Deus a todos distribui

dons e capacidade. A ninguém falta o beraká. Como

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também a ninguém falta a capacidade de oferecer algo, o

barek. Pois é Deus quem dá e quem capacita seus filhos.

Felipe silenciou após esta resposta, pois calou

fundo sua alma, e toda vez que Emanuel o olhava com

aquele olhar, parecia que impregnava sua alma, penetrava

seus sentimentos mais escondidos. Ao mesmo tempo em

que incomodava, trazia um alento à sua alma. Era como o

olhar de seu pai quando o aconselhava ou corrigia. Sabia

sempre que seu pai fazia aquilo por amá-lo.

uma frase:

Então com voz bem baixa Emanuel concluiu com

- Se soubesses o dom de Deus, e quem é que te diz:

dá-me de beber, certamente lhe pediria tu mesmo, e ele te

daria uma água viva.

Felipe não compreendeu direito o que Emanuel

falou, mas também não quis questionar já que a resposta

anterior já foi um belo puxão de orelha. Simplesmente

desejou beber desta água viva, não sabia bem o que era,

mas sabia que faria muito bem à sua vida.

- Felipe! Se você soubesse o bem que um sorriso

pode fazer para alguém você entenderia então que dom

maravilhoso existe dentro de você. Deus não espera de

você atos heróicos e nem o cobra para isso. Mas atitudes

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simples do dia a dia podem fazer muita diferença na vida

de alguém.

Felipe foi levado novamente pelos pensamentos e

lembrou-se que quando tinha nove anos sentia muita falta

de sua mãe. Lembrava nesta idade bem pouco da

aparência dela. Guardou apenas alguns gestos como

quando ela dava banho nele. Quando o beijava e o levava

para cama no colo. Também não se esquecia de algo muito

engraçado que fazia todo dia para acordá-lo, fazia cócegas

em seu pé e ele fingia estar dormindo até que era vencido

pelas cócegas que a mãe fazia. Eles riam juntos e sua mãe

preparava seu leite achocolatado e ela ficava ali o olhando

e passando a mão em seu cabelo. O resto do dia ela ficava

o tempo todo correndo atrás dos afazeres da casa e

dividindo a atenção com ele. Quando sua mãe faleceu

Felipe bloqueou o que aconteceu naquele dia. Só sabe que

nunca mais a viu. Seu pai tinha que trabalhar e então pediu

para Lúcia se pudesse olhar seu filho até que achasse

alguém para cuidar dele. Lúcia era uma moça doce, de

uma candura e de um coração admirável, todos gostavam

dela lá na comunidade do morro. Ela era voluntária do

Centro Comunitário. Lúcia tratava muito bem Felipe.

Felipe a amava tanto que quando teve que morar com sua

60


tia nunca mais experimentou o amor feminino. Sua tia era

ranzinza e melancólica. Felipe teve que aprender a fazer

seu leite e preparar seu café. Outras vezes ela ficava

depressiva e nem a comida fazia. Um dia Felipe pediu a

seu pai que o levasse ao Centro Comunitário, pois estava

muito triste e queria ficar com a Lúcia. Quando chegou lá

e havia muitas crianças, não sabia a história daquelas

crianças e porque elas ficavam ali. Para Felipe ele era o

único a sofrer na vida. Sentou-se num cantinho e ficou

cabisbaixo. Lúcia veio e sentou-se no chão ao seu lado e

com um sorriso lhe disse:

- Você está triste? Com saudades de sua mãe. Eu

sei. Também fui educada longe de meus pais. Mas quero

lhe dizer que na vida tudo superamos. Que nessas horas o

importante é você chorar e esperar que o tempo cure todas

as suas feridas. Não fique triste assim. Deus lhe ama

muito.

Lúcia lhe deu um abraço muito forte e lhe

transmitiu um sorriso angelical o que fez com que

chorasse. Ficou aquele dia inteirinho ao seu lado. Felipe

não tinha tanta certeza se Deus o amava realmente, mas o

sorriso, a atenção e o abraço de Lúcia pareciam o beijo, o

sorriso e o abraço de Deus em sua vida. A frase de

61


Emanuel martelava sua mente: “atitudes simples do dia a

dia podem fazer muita diferença na vida de alguém”.

Felipe voltou para casa neste dia consolado e esperando

que o tempo curasse todas as suas saudades da mãe.

Depois deste dia ele travou em seu coração e em sua

mente as lembranças da mãe que agora viam novamente

em sua memória.

- Felipe você não pode imaginar a magnitude da

gratidão de Deus por todas as pessoas que oferecem sua

vida como benção na vida dos que mais precisam.

Felipe balançou a cabeça confirmando o que

Emanuel disse e bem baixinho falou:

E disse:

- Eu posso imaginar o quanto Deus é grato!

Falou isso com a imagem de Lúcia em sua mente.

- Mas me diga e o terceiro significado da palavra

benção, baruk. Desta vez Felipe não embaraçou todo com

a palavra.

- O adjetivo de benção na língua hebraica, ou seja,

baruk é o mais forte de todos os termos de benção. Diria a

você que é o âmago da fórmula típica de benção do povo

da bíblia. Para você ter uma idéia da forma que tinha esta

palavra é que era usada para quem Deus havia chamado ou

62


evelava seu poder e a sua generosidade, com a seguinte

expressão: “Bendito seja Felipe”. Também era usada esta

etimologia para se referir ao próprio Deus: “Bendito seja

Deus”.

- Seria então alguém santo? Disse Felipe.

- O baruk, é um termo usado para alguém que

emana de sua pessoa o divino. Aquele que é consagrado e

que consagrou sua vida para Deus. Enquanto o santo

revela sua grandeza a Deus, o bendito abençoado revela

sua inesgotável generosidade.

- Meu pai costuma falar que a melhor maneira de

agradecer a Deus é retribuindo o que Ele fez. Disse Felipe.

costurou:

- Justamente. Falou entusiasmado Emanuel e

- Eu te bendigo ó Pai porque escondestes estas

coisas aos sábios e entendidos e a revelastes aos

pequeninos.

Felipe.

- Sempre achei meu pai sábio. Falou orgulhoso

- Sim Felipe, se você seguir os passos do seu pai

será um grande homem.

emocionado.

- Eu sei, quero ser igual a ele. Disse Felipe

63


Emanuel então concluiu seu pensamento a respeito

da palavra Baruk:

- Portanto baruk é aquele que compromete com

Deus, com o outro e consigo mesmo. Toma a sua cruz e

sacrifica sua vida por causa do Reino de Deus com a

certeza que recobrá-la-á, pois quem encontra O Reino de

Deus, encontra o tesouro mais valioso de sua vida. E aí

daquele que ofender um pequenino de Deus.

- Por isso Deus disse a Abraão: Abençoarei aqueles

que abençoarem, e amaldiçoarei aqueles que te

amaldiçoarem. Disse Felipe.

- Sim. Também por ser baruk, Abraão carregou

consigo a dura tarefa de abandonar sua terra, sua família e

a casa de seu pai para ir a uma terra estranha. Disse

Emanuel.

- Então para que eu encontre o Reino de Deus eu

preciso abandonar minha casa, meus pais e tudo o que

tenho? Pra mim vai ser moleza. Não tenho mais nada nesta

vida. Disse Felipe meio aliviado e desacorçoado ao

mesmo tempo.

- É Felipe quanto menos apego uma pessoa tem

mais fácil é compreender o Reino de Deus. Tantas mais

posses uma pessoa tem mais comprometida esta em

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mantê-las e menos tempo tem para viver o que é essencial

na vida. Disse Emanuel.

- Então o caminho para o Reino de Deus é o

sofrimento e a pobreza? Perguntou indignado Felipe.

- Não Felipe! O caminho para o Reino de Deus é a

libertação de todo sofrimento. É a liberdade!Quem quer

entrar no Reino de Deus precisa renunciar a si mesmo.

Precisa aprender a ter sem tomar posse. E quem

compreende o Reino geralmente é o que tem um coração

de pobre por isso é baruk, é bem-aventurado. Nisto esta a

verdadeira natureza da benção, ela é uma explosão interior

na vida do eleito que não se detém para si, mas o eleva

para a benção maior que é Deus, convidando o mundo

todo a louvá-lo como uma confissão pública da sua

Existência dando Ação de Graças por sua generosidade.

Felipe pensativo definiu assim a lição do dia:

- Então entendi que se quero amar Deus

verdadeiramente devo acolher sua gratuidade, o beraká,

ser gratuidade na vida do irmão sendo fonte de benção,

barek, e comprometendo como escolhido e consagrado ao

amor de Deus sendo baruk. Certo?

- Bravo!!! Disse Emanuel e prosseguiu:

65


- O chamado de uma pessoa passa necessariamente

por estas três realidades ou momentos:

Primeiro momento: a vida e tudo que é necessário

para sustentá-la, ou seja, o beraká.

Segundo momento: a felicidade. Deus ao criar a

vida o fez para que a humanidade seja feliz. E sendo feliz

e realizado ela deve retribuir sendo fonte de benção, e ao

retribuir descobre a verdadeira felicidade, ou seja, o barek.

Terceiro momento: a missão. Todos os homens

possuem um chamado de Deus para amar, para isso é

preciso tomar posse de toda benção, comprometendo-se

com o Reino de Deus, sendo irradiação deste amor a todos

de forma generosa e desprendida; o baruk.

Felipe sorriu e sentiu que tinha crescido muito

neste dia sua visão e comportamento diante de Deus. Mas

ainda carregava o desejo de questionar a Deus o porquê da

morte da mãe e do seu pai. Por que seu pai teve que ficar

enfermo e vim a falecer. Porque teria ele que perder tanto

o pai e mãe. Sentia que algo injusto acontecera em sua

vida. Então perguntou a Emanuel:

- Emanuel, posso lhe fazer um pedido?

- Sim!

66


- Gostaria de fazer uma pergunta a Deus que me

incomoda muito. Quando chegarmos ao Reino de Deus lá

eu poderei questioná-lo?

- Sim Felipe! Pode questioná-lo o tempo todo e

quando quiser. Pode até ofendê-lo que nunca será

castigado por isso. Pode discordar dEle e ele lhe amará

sempre. Quando encontrar com Ele faça sua pergunta.

- Obrigado Emanuel, farei sim, apesar do medo que

possa ser sua resposta.

- Não tenha medo! Ele é o Pai! O Pai ama

incondicionalmente seu filho e jamais fará algum mal a

ele. Pois é impossível Deus deixar de amar e sua essência

é ser Bom e por isso não faz mal a ninguém.

A tarde já declinava e a noite os envolvia. Felipe

não gostava muito da noite. Sempre lhe trazia uma

melancolia e tristeza. A noite só era boa quando seu pai

estava em casa, pois assim ele podia desfrutar da sua

presença, mas nem sempre o trabalho do seu pai permitia

isso.

Não sabia da onde Emanuel arrumava a refeição,

mas sempre se alimentavam e a comida sempre era o

necessário. Dizia que o Pai providencia a seus filhos o

67


necessário. Que quem sabe viver do necessário, sabe viver

o Reino também.

Felipe adormeceu novamente admirando as estrelas

do céu que nesta noite estavam ainda mais reluzentes que

a noite anterior.

Sonhar alto

Mas seu sono durou muito pouco. Emanuel o

acordou durante a madrugada e disse-lhe:

- Vem e segue-me!

Felipe meio mal humorado e cansado disse-lhe:

- De novo?

Emanuel lhe disse:

- Vai se acostumando. Quem quer viver o Reino de

Deus não pode escolher horário e nem controlar o tempo.

Pois o Filho do Homem virá a qualquer hora, portanto

vigiai!

bravo Felipe.

- Às vezes você não fala coisa com coisa. Disse

- Tudo o que falo, não falo por mim, mas meu Pai

que estás no céu é minha testemunha. Disse Emanuel

68


- Seu Pai tem explicação para me dar e eu não vejo

a hora de encontrá-lo para que me responda minhas

dúvidas. Disse Felipe consternado.

- Então vem e segue-me eu te levarei até o Pai!

Pois Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Quem me vê,

vê o Pai. Disse Emanuel

- Vamos! Vamos logo, pois não sei por onde andou

esta noite, pois está com assunto bem esquisito. Disse

Felipe impaciente.

Chegaram ao local e Felipe avistou um homem

ainda mais idoso que Abraão e que parecia estar orando no

meio da noite.

Então ouviu novamente a voz de Deus como que

um trovão todo poderoso e ao mesmo tempo amável.

Mesmo cansado Felipe se animou, pois toda vez que ouvia

a voz de Deus sua alma acalmava e seus sentimentos

tornavam brandos e sua memória lhe lembrava de coisas

boas da sua vida. Sentia-se como que embriagado pela voz

e pela presença forte de Deus que transmitia uma paz

maravilhosa.

A voz no meio da noite disse:

- Nada temas, Abrão! Eu sou o teu protetor, tua

recompensa será muito grande. Levanta os seus olhos para

69


os céus e conta as estrelas se és capaz. Levanta os olhos e

do lugar onde estás, olha para o norte e para o sul, para o

oriente e para o ocidente: toda a terra que vês, eu a darei a

ti e aos seus descendentes para sempre. Tornarei tua

posteridade tão numerosa como o pó da terra, se alguém

puder contar os grãos do pó da terra, então poderá contar a

tua posteridade. Levanta-te, percorre a terra em toda a sua

extensão, porque eu tá hei de dar”

Felipe olhou para Emanuel que estava com os

olhos escancarados para Abrão e disse:

- Emanuel que promessa grande Deus fez na vida

deste homem. Nem o reconheci. Dormi vinte e cinco anos,

pois da última vez que me mostrou ele tinha 75 anos?

- Felipe eu me encanto com todas as promessas de

Deus na vida da humanidade. Quanto ao tempo não se

prende a isso. Estaremos indo de um tempo ao outro num

piscar de olhos. Pois Deus é o Senhor do tempo. O Tempo

de Deus não é o seu tempo. Para você ter uma idéia

humana do tempo de Deus, diria que o tempo dele é

sempre o hoje. Tudo acontece agora para Deus.

- Emanuel aconteceu uma coisa muito estranha

enquanto ouvia a voz de Deus falando com Abraão.

- O que foi?

70


- Quando Deus mandou Abraão olhar as estrelas do

céu, eu vi muitos rostos conhecidos naquelas estrelas

sorrindo e brilhando de felicidade.

- Felipe, quando Deus disse que a posteridade de

Abraão seria tão numerosa quanto às estrelas do céu se

referia a todo ser vivente na terra no tempo de Abraão e no

seu tempo. Os que já morreram, os que estão vivos e os

que ainda virão a nascer. Por isso esta descendência tão

numerosa quanto às estrelas e os grãos de areia. É a

promessa de que todas as famílias serão abençoadas em

Abraão, inclusive a sua.

- Pois, então Emanuel, eu vi o rosto de meu pai e

de minha mãe brilhando lá no céu. Eu vi também meu

rosto próximo ao deles. Não me contive e chorei, mas foi

de felicidade, pois pareciam estar tão felizes e tão bem.

Emanuel.

- Pode ter certeza Felipe, eles estão felizes. Disse

- Nunca imaginei que o Reino de Deus começasse

desta forma tão linda como foi esta noite. Há tantos anos

atrás, aqui neste lugar inicia uma promessa de amor e

aliança de Deus com sua humanidade através de Abraão.

71


- Deus nos faz sonhar. Enxergar além de nossos

limites. Compreender suas obras e experimentar suas

maravilhas em nossa vida. Disse Emanuel. E completou:

acrescentou:

- Ninguém como Deus.

- Você o ama tanto Emanuel? Perguntou Felipe.

- Amo-o com amor infinito. Disse Emanuel e

- O Reino de Deus é um sonho maravilhoso na vida

da humanidade e só o enxerga quem sabe sonhar. Deus

motivou a Abraão a sonhar com as suas promessas e

enxergar o sonho de Deus que é o amor a toda a

humanidade. Mas Abraão ainda não compreendeu direito

isso, mas vai entender, pois é um homem de fé.

- Como assim, ele não se encantou com toda aquela

promessa feita por Deus, eu quase não consegui fechar a

boca de tão encantado que estava. Disse Felipe.

- Você não ouviu o que ele falou para o Pai depois

de todas estas promessas? Perguntou Emanuel

- Não! Estava tão encantado com o rosto de minha

mãe e de meu pai naquelas estrelas que não notei a

resposta de Abraão diante da promessa de Deus em sua

vida. Ele com certeza vibrou e louvou a Deus?

- Não!

72


- Não? Então o que disse?

- Abrão disse o seguinte: “Senhor Javé, que me

dareis vós? Eu irei sem filhos...” afirmou Emanuel.

- Tá louco? Depois de uma promessa daquela? Das

estrelas brilhando em cima da sua cabeça representando

cada pessoa desta terra ontem, hoje e sempre. Ser o Pai de

todos, de uma história de amor tão linda entre Deus e

todas suas criaturas, e ele preocupado em ter um filho?

Que cabeça dura este Abrão, heim?

- Felipe quase todos os homens se parecem com

Abrão, sonham pequeno. Buscam as coisas que passam,

colocam sua vida e sua confiança em bens temporais,

almejam por puro complexo de inferioridade espiritual os

valores menores da vida e deixam passar o que permanece

para sempre. Pensam que são ricos, mas acumulam bens

que as traças consomem e a ferrugem destrói, não

enxergam os grandes tesouros que Deus tem dado

gratuitamente a cada um com abundância e fidelidade. Por

isso são infelizes!

- Não me conformo com Abrão preocupado com

seu filho enquanto Deus oferecia tamanha posteridade

para ele?

73


- Felipe a humanidade esta sempre chorando e

lamentando coisas pequenas diante da grandeza de Deus.

Quando alguém consegue olhar para o alto e sonhar o

sonho de Deus em sua vida ele supera todas as suas

fraquezas e os problemas que pareciam ser tão grandes em

sua vida diminuem e se tornam insignificante diante de

poder viver o sonho de Deus. É preciso olhar e sonhar com

as estrelas! Quem tem medo de sonhar jamais conhecerá a

realização.

Felipe lembrou-se que quando conheceu Emanuel

estava no banco da praça lamentando a morte do pai e da

sua mãe. Lembrou que a vida inteira sua justificou seus

problemas pessoais e sua revolta no fato de não possuir

uma mãe. E o pior de tudo era que agora ele tomou a

consciência que sua irritação quando tinham dó dele ou

perguntavam sobre sua mãe era na verdade um caso mal

resolvido por ele mesmo e que no fundo era ele próprio

que quem mais possuía pena de si mesmo. Corou de raiva

e vergonha por ser tão mesquinho e tão insensível a ponto

de nunca ter percebido que seu pai também sofrera com a

ausência de sua amada esposa. Desta vez não chorou como

de costume, mas prometeu a si mesmo que ao invés de

lamentar olharia para o céu e as estrelas com mais

74


frequência e agradeceria a Deus pela sua vida e pelo que

podia oferecer a si mesmo e ao outro. Lembrou-se do que

disse Emanuel: Viver o sonho de Deus é olhar para o alto

e ver que todas as estrelas brilham felizes pelo seu sim a

Deus.

Felipe abraçou Emanuel e disse:

- Obrigado!

Felipe foi tomado pelo cansaço e deitou-se na

relva, os olhos voltados para o céu. Nunca mais depois

deste dia, ou melhor, desta noite, ele sentiu depressão e

tristeza quando chegava a noite.

- Qual será nossa canção de hoje? Perguntou

sorrindo Felipe a Emanuel.

- Canção?

- Sim. Gostei de dormir com sua canção. Soltando

uma gostosa gargalhada.

O sorriso de Felipe era contagioso. Um dom

maravilhoso que Deus havia lhe oferecido. Emanuel disse

certa vez a ele que seu sorriso era como uma estrela

brilhando no céu. Não tinha como negar um pedido seu

acompanhado deste sorriso. Então Emanuel cantou:

75


Por causa de um certo reino, estradas eu caminhei

Buscando, sem ter sossego, o reino que eu vislumbrei

Brilhava a Estrela Dalva e eu quase sem dormir,

buscando este certo reino e a lembrança dele a me

perseguir!

Por causa daquele reino, mil vezes eu me enganei!

Tomando o caminho errado, errando quando acertei!

Chegava ao cair da tarde, e eu quase sem dormir,

buscando este certo reino e a lembrança dele a me

perseguir!

Um filho de carpinteiro que veio de Nazaré,

mostrou-se tão verdadeiro, pôs vida na minha fé

Falava de um novo reino, de flores e de pardais,

de gente arrastando a rede, que eu tive sede da sua paz!

O filho de carpinteiro falava de um mundo irmão;

De um Pai que era companheiro de amor e libertação

Lançou-me um olhar profundo, gelando o meu coração;

Depois me falou do mundo, e me deu o selo da vocação!

Agora quem me conhece, pergunta se eu encontrei

o reino que eu procurava, se é tudo o que eu desejei

E eu digo pensando nele: no meio de vós está

o reino que andais buscando, e quem tem amor

compreenderá!

76


Jesus me ensinou de novo, as coisas que eu aprendi,

por isso eu amei meu povo e o Livro da Vida eu li

E em cada menina moça, em cada moço rapaz,

eu sonho que a minha gente será semente de eterna paz!

Deus.

- Que música bonita! De quem é? Disse Felipe.

- Do meu amigo Zezinho. Um filho amado de

- Deus tem muitos filhos amados pelo jeito?

Perguntou Felipe.

- Todos são muito amados por Ele. Disse Emanuel

Felipe adormeceu.

77


o sacrifício

Já era dia novamente e Felipe que havia dormindo

ouvindo canção, acorda agora com Emanuel cantando:

Pode a tristeza durar até o anoitecer

Mas a alegria logo vem no amanhecer

Quero acordar cantando e louvando o meu Senhor

Quero acordar cantando e louvando o meu Senhor e Rei

Pode a tristeza durar até o anoitecer

Mas a alegria logo vem no amanhecer

Quero acordar cantando e louvando o meu Senhor

Quero acordar cantando e louvando o meu Senhor e Rei

Quero acordar cantando e louvando o meu Senhor e Rei

Emanuel.

- Você gosta desta mensagem? Perguntou Felipe.

- É um salmo do meu amigo Davi. Respondeu

- Onde vamos hoje? Em pé e com uma disposição

enorme Felipe perguntou a Emanuel.

- Venha e segue-me. Disse Emanuel.

- Quando você fala isso lá vem aventura! Disse

sorrindo Felipe.

78


Emanuel reparou que Felipe agora ria sempre e que

seu sorriso era espontâneo e que realmente a caminhada

pelo Reino de Deus lhe fazia, cada vez mais, muito bem a

ele.

- Quem é esta criança? Perguntou Felipe.

Felipe observou que Abraão levava ao seu lado

uma criança, um jumento, algumas pessoas e lenha. Não

imaginava o impacto e as cenas que experimentaria e

estava por vir agora. Não demorou muito e aprendeu que

viver o Reino de Deus é uma experiência maravilhosa e

surpreendente.

- É Isaac! Filho de Abraão e Sara. Disse Emanuel

- Deus cumpriu! Disse extasiado Felipe.

- Deus sempre cumpre, Ele é Providência. Olhe e

teremos uma lição de Fé e Providência.

- O que vão fazer? Perguntou Felipe enquanto

Abraão subia uma montanha parecida com o morro onde

morava, a única diferença era que no morro haviam muitos

barracos.

- Deus deu a seguinte ordem a Abraão: “Toma teu

filho, teu único filho a quem tanto amas, Isaac; e vai à

terra de Moriá, onde tu o oferecerás em holocaustos sobre

um dos montes que eu te indicar”.

79


- Holocausto? Perguntou Felipe sem entender.

- Sim, Deus pediu que matasse seu filho para

oferecer como holocausto, ou oferta. Disse Emanuel.

- Tá Louco? Como Deus pode pedir que alguém

faça tal maldade, Ele não é Amor? Falou Felipe.

Emanuel.

- Deus é amor! Calma Felipe apenas olhe. Disse

Então Felipe ouviu Abraão dizer as pessoas que

estavam juntas com ele:

- Ficai aqui com o jumento, eu e o menino vamos

até lá mais adiante para adorar, e depois voltaremos a vós.

Felipe observou que Abraão colocou a lenha nos

ombros de seu filho enquanto ele levava nas mãos um

fogo e uma faca e então Isaac disse ao seu pai enquanto

caminhavam juntos:

- Meu pai.

- Que há meu filho.

Continuou Isaac:

- Temos aqui o fogo e a lenha, mas onde está a

ovelha para o holocausto?

Esta frase emocionou profundamente Felipe. Com

os olhos lacrimejado não acreditava no que estava vendo.

Como poderia um pai sacrificar um filho tão inocente?

80


Como poderia Abraão entregar seu maior sonho naquele

lugar? Como poderia ser tão insensível a este ponto ou

então tão maluco?

- Deus, respondeu-lhe Abraão, providenciará ele

mesmo uma ovelha para o holocausto meu filho.

E Eles contiuaram o caminho.

Quando chegaram ao local, Abraão edificou um

altar; colocou nele a lenha, amarrou Isaac no altar sobre a

lenha. Depois estendendo a mão, tomou a faca para imolar

seu filho.

Felipe entrou no desespero. Começou a berrar com

a mesma intensidade que berrou no paraíso: Chega!

Chega! Pare seu desgraçado! Você é louco? Pare!

Então virou-se para Emanuel e disse aos berros:

- Faça alguma coisa! E começou a esmurrar

Emanuel e dizendo com toda a força:

- Por que você matou minha mãe? Por que você

matou meu pai? Me diga? Por que?

Emanuel o abraçou fortemente enquanto ele

chorava deseperadamente nos seus ombros.

Ouviu-se então a voz de Deus a Abraão:

- Abraão! Abraão!

- Eis-me aqui. Respondeu Abraão.

81


- Não estendas a tua mão contra o menino, e não

lhes faça nada. Agora sei que temes a Deus, pois não me

recusastes teu próprio filho, teu filho único.

Felipe estava com o coração saindo pela boca.

Agarrou-se em Emanuel de tal forma que sentia dor pelo

corpo inteiro. Na sua lembrança viu seu pai no caixão,

como se estivesse sobre aquele altar. Chorava

copiosamente agora, pois no enterro só pode sentir ódio e

conter as lágrimas. Emanuel o segurou firmemente com

uma tal presença que Felipe sentia não estar só! No enterro

de seu pai haviam poucas pessoas. Não conhecia seus

parentes, pois moravam muito longe e eram tão pobres

quanto eles. Sua tia chorava e repetia por diversas vezes

que ficaria sozinha no mundo. Alguns vizinhos a

consolavam. Felipe pensara como ficar sozinha? Esta

maldita vivia nos expulsando da sua casa. Mas nada se

comparou no momento do enterro. Quando viu seu pai

sendo colocado naquela cova indigna e rasa ele sentiu o

que poderia chamar de verdadeira solidão. Fim de tudo.

Ali naquela cova foi enterrado o que lhe restava na vida.

Foi enterrado o pouco de alegria que possuía. Naquela

cova Felipe sentiu-se enterrado para sempre. Ele morreu e

com ele toda a esperança que lhe restava.

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Felipe observou que Abraão se aproximou de uma

moita e havia ali um cordeiro preso pelos chifres entre os

espinhos; e tomando-o, ofereceu em holocausto em lugar

de seu filho. Esta ultima cena do cordeiro imolado ficou

gravada no coração e na mente de Felipe, pois sentia que

agora o coração de Emanuel batia com muita violência no

peito e que suas mãos, seus pés, seu lado direito e sua

cabeça sangravam. Mais tarde compreenderia o porquê.

a Abraão:

Então ouviu uma voz novamente do céu que disse

“Juro por mim mesmo, diz o Senhor: pois que

fizestes isto, e não me recusaste teu filho, teu filho único,

eu te abençoarei. Multiplicarei a tua posteridade como as

estrelas do céu, e como a areia na praia do mar. Ela

possuirá a porta dos teus inimigos, e todas as nações da

terra desejarão ser benditas como ela, por que obedecestes

a minha voz”.

Felipe quis questionar Emanuel que significado

tinha aquela experiência para que ele pudesse entender o

Reino de Deus, mas notou que desta vez parecia que tal

experiência mexeu muito com Emanuel. Emanuel estava

silencioso e de certa forma feliz. Tinha trocado as vestes e

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não apresentava mais que estava todo sujo de sangue.

Olhava para o infinito.

Emanuel então disse:

- Quer falar sobre o que aconteceu?

- Sim gostaria muito de falar, mas acho que você

está cansado. Disse Felipe ainda meio sem jeito por ter

esmurrado por diversas vezes seu amigo.

Emanuel.

- Que meu cansaço a outros descanse. Cantou

Felipe riu-se pela descontração e disse:

- Outra música de outro amigo?

- Sim! Chama-se a barca! Disse Emanuel.

E emendou:

- Então me fale o que você presenciou hoje?

- Um fato do qual pouco entendi! Disse Felipe.

- Como por exemplo? Perguntou Emanuel

- Como Deus pode pedir algo assim para alguém?

- Deus não pediu para si, pediu para o próprio

Abraão, para você e para todos os que Ele ama.

- Como assim? Não foi uma prova do amor de

Abraão que Deus lhe pediu? Perguntou felipe.

- Deus não necessita de que provemos nada a Ele.

Se você amar a Deus, Deus continua sendo Deus, mas se

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você não amá-lo Deus continua sendo Deus. Nossas

atitudes não interfere em nada a Deus. Quando Deus age

desta forma esta pensando e agindo pelos seus filhos.

Aliás Deus age sempre pensando na humanidade. Ele ama

incondicionalmente seus filhos. Disse Emanuel.

- Então ele pediu que Abraão entregasse seu filho

não como prova de amor? Então qual foi o real motivo?

Disse Felipe sem entender o que fez Deus.

Emanuel.

- Felipe qual é a missão de Abraão? Perguntou

- Ser uma fonte de benção à todas as famílias da

terra. Disse Felipe.

- Abraão foi chamado por Deus para iniciar uma

história muito importante a História da Salvação. Esta

história apresentaria ao mundo a salvação que vem de

Deus. Em Abraão, Deus quis se mostrar aos homens a

quem tanto ama para ser conhecido. O homem ao

encontrar a fonte da sua origem estará também

encontrando a razão de sua existência. Diria que uma

nação que esquece sua história e nega sua origem é uma

nação fadada à morte. O homem quanto mais se aproximar

da origem, mais estará se aproximando da felicidade e da

sua realização. Portanto terá vida e vida em abundância.

85


- E o que Isaac tem a ver com isso? Perguntou

Felipe ainda sem entender direito.

- Quando Deus mostrou as estrelas do céu e os

grãos de areia a Abraão e prometeu que sua descendência

seria tão enorme, o que Abraão falou para Deus?

Questionou Emanuel.

- Perguntou sobre o seu filho! Deus falava de um

sonho maior e ele estava preocupado com seu próprio

umbigo e por isso não conseguiu olhar para aquelas

estrelas e ver todos os seus filhos que somos nós. Certo?

Disse felipe com tom de aluno que estudou muito bem

para a prova.

- Nota dez pra você Felipe? Então o que você

deduz? Questionou Emanuel.

- O que eu deduzo? Felipe tentou raciocinar,

encontrar a lógica desta pergunta, mas a resposta não veio

à sua mente e então emendou triste:

- Nove e meio. Não sei.

Rindo, Emanuel respondeu:

- O que todo ser humano faz constantemente diante

do chamado de Deus, cria ídolos.

- Ídolos? Perguntou Felipe.

86


- Ídolos são coisas ou pessoas que criamos em

nossa vida e os colocamos no lugar de Deus. Geralmente

pensamos que eles não morrem e que resolverão todos os

nossos problemas. Afirmou Emanuel.

- Meu ídolo era meu pai. Disse Felipe chateado.

- Admirar alguém Felipe não é pecado, mas

colocar alguém no lugar de Deus em sua vida é uma das

atitudes mais graves que uma pessoa pode cometer em sua

vida. Sabe porque?

Felipe balançou a cabeça gesticulando

negativamente.

Emanuel.

- Você já viu uma eclipse total do sol? Perguntou

- Sim.

- Pois um ídolo é como a lua em uma eclípse total

do sol. A eclípse ocorre quando a Lua está entre terra e o

sol. A lua é bem menor que o sol, porém consegue cobrir a

luz imensa do sol dando a falsa impressão que é maior que

o sol. O ídolo se coloca entre Deus e a pessoa e escurece a

visão do homem em relação a Deus. O homem não

consegue enxergar Deus em sua vida pois colocou um

valor como se fosse maior do que Deus. Fica cego! Não

enxerga a dimensão de Deus em relação a dimensão do

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ídolo em sua vida. Alguém que cegamente colocou toda a

sua vida nas mãos de um ídolo viverá na ilusão a vida toda

e não encontrará a razão maior da sua vida que é Deus.

Disse Emanuel.

- Agora entendi! Abraão tinha Isaac como um ídolo

em sua vida? Disse Felipe.

- Sim Felipe! Não é só os filhos que tem o pai

como ídolo, os pais também idolatram seus filhos. Mas no

caso de Abraão especificamente desde que Isaac nasceu

abandonou o chamado de Deus, expulsando da sua casa

seu outro filho que teve com a escrava, e sem notar,

desistiu do que o motivava que era uma descedência

numerosa, já que pra ele descedência era sinônimo de

sonho realizado, ter um filho.

Felipe interrompeu e disse:

- Isaac era a lua na vida de Abraão.

- Pois então idolatrar alguém e colocá-lo na vida

como razão maior a ponto de desistir de tudo por causa

deste ídolo é algo detestável para Deus, que sabe que

quanto mais alguém se afasta dEle, mas se aproxima da

desilusão e da tristeza.

Felipe ficou bem pensativo. Havia dito que preferia

morrer do que ficar sem seu pai e sua mãe. Por não possuir

88


Deus como propriedade maior em sua vida, se sentiu sem

rumo e sem direção quando lhe partiu o ídolo da sua vida

seu pai.

Emanuel continuou:

- Ao tentar imolar seu único filho, o que havia de

mais importante em sua vida, Abraão tomou consciência

da sua missão como paizão, conforme você gosta de dizer,

e principalmente educou seu filho Isaac a respeitar e amar

a Deus como propriedade maior da vida. Com isso Isaac

com a morte de seu Pai Abraão continuou transmitindo e

vivendo a história de salvação, ou como prefiro chamar, O

Reino de Deus para atingir toda a humanidade formando

esta grande família de filhos de Abraão. Se todo pai e mãe

educassem seus filhos para amar a Deus e serem imagem e

semelhança dEle a humanidade viveria o Reino de Deus e

a justiça prevaleceria entre vocês. A maioria das pessoas

procuram Deus não porque o ama e sim por interesse e na

maioria das vezes pela dor.

- Então Deus jamais permitiria que alguém

entregasse seu filho único para ser imolado? Não deixaria

que Abraão fizesse tal ato?

- Entregar seu filho único, não diria isso, pois você

vai conhecer alguém que entregou nesta nossa caminhada.

89


Mas no caso de Abraão, não pediria nem que imolasse seu

filho, só permitiu que Abraão quase imolasse para que

tomasse consciência de sua missão e não colocasse a vida

de toda uma humanidade na ignorância de quem realmente

é Deus e da sua real importância na vida de seus filhos.

Emanuel notou que Felipe silenciou e percebeu que

lhe queria ainda lhe falar algo que o incomodava então lhe

disse:

experiência?

- Felipe respondi todas as perguntas desta nova

- Sim! Falou meio sem jeito, sem coragem de tocar

no assunto do sangue que escorreu das mãos, dos pés, do

lado e da cabeça de Emanuel e o por que seu coração

disparou violentemente quando apareceu o cordeiro na

moita de espinho.

Emanuel então lhe falou:

- Quando conhecer o Reino de Deus entenderá o

que aconteceu comigo. Disse Emanuel sorrindo.

Felipe sentiu conformado e aliviado pelo fato de

Emanuel ler seus pensamentos e comentar aquilo, somente

aquilo que ele gostaria que comentasse ou que precisasse

comentar, como Emanuel gostava de dizer, para sua cura.

Felipe sentia que ainda precisava completar algo da sua

90


jornada rumo ao Reino de Deus e que precisava fazer ali

naquela terra de Abraão.

lhe:

Emanuel colocou as mãos em seu ombro e disse-

- Vamos voltar para a praça, esta fase da

caminhada já terminamos.

- Emanuel, por favor me deixe fazer algo aqui, que

para mim é muito importante. Disse Felipe meio

apreensivo.

- Deixo Felipe. Acredite vai lhe fazer muito bem.

Será extremamente dolorido, mas você precisa resolver

isso em sua vida.

- Pode me levar ao monte onde Abraão quase

imolou seu filho? Pediu Felipe.

- Sim ao monte Javé-Yiré. Vamos!

Estavam no pé do monte e Felipe pediu a Emanuel

se pudesse deixar que ele fizesse sozinho o que tinha que

fazer.

Felipe.

Emanuel lhe entregou a lenha e o fogo.

- Os cordeiros carregarei em meu coração. Disse

- Vá, Coragem! Que a fé de Abraão lhe

acompanhe! Disse Emanuel.

91


Enquanto subia o monte Felipe pensava se

conseguiria imolar seu holocausto a Deus. Entregar seus

ídolos. Seu coração disparou e um medo invadiu sua vida.

O caminho de Javé-Yiré era um caminho de entrega e total

confiança no Pai. Todos passam por este caminho,

pensava ele, mas muitos desistiam. Felipe parecia ouvir

vozes que diziam: Eu tenho filhos não posso agora? Meu

trabalho não me deixa? Besteira este negócio de ficar

procurando Deus. Não tenho tempo. Não tenho dom. Não

posso. Não me pertube. Não vejo necessidade. Bando de

carolas. Quanto mais reza pior fica. Quanto mais oro mais

tentação aparece. Não consigo fazer a vontade de Deus....

Depois sentiu um imenso silêncio, parecido com o silêncio

de Adão no paraíso. Seus traumas e decepções estavam

todos aflorando agora em sua mente. Pensou em desistir

quando um fio de esperança se acendeu em seu coração

que lhe dizia que estava perto da sua liberdade.

A resposta de Abraão ao seu filho Isaac lhe veio à

sua mente: “Deus, provindeciará”. Felipe então repetia

insistentemente: Deus provê, Deus proverá! Deus provê,

Deus proverá! Deus provê, Deus proverá! Deus provê,

Deus proverá! Deus provê, Deus proverá! Deus provê,

Deus proverá!

92


E quando chegou à frente do altar disse bem forte

antes de fazer o Holocausto: “Deus provê, Deus proverá,

Para aquele que crê, nada faltará”

Pôs a madeira sobre o altar, ateou fogo estendeu

suas mãos e berrou:

teus.”

“Pai! Lhe entrego meu pai e minha mãe. Eles são

Caiu de joelhos e chorou como nunca em sua vida.

E como nunca em sua vida sentiu-se livre, uma liberdade

interior, uma alma lavada e um desejo imenso de dizer a

Deus o que sentia agora e o fez com um último grito:

- Deus Pai eu te amo!!!! Eu tenho somente a ti!

Lembrou-se da frase que Abraão ouviu de Deus:

“Juro por mim mesmo, diz o Senhor: pois que fizestes isso

e não me recusaste, eu te abençoarei”

Felipe disse bem baixinho:

- Beraká, Barek e Baruk.

Neste momento Emanuel se aproximou, abraçou-o,

beijou-lhe a testa e disse:

- Filho, você é uma benção!

Felipe lembrou-se que toda vez ouvia isso de seu

pai, que tinha costume de sempre o beijar na testa e o

abraçar quando ele queria elogiá-lo e agradecê-lo pelo seu

93


caráter e pela obediência que tinha quando seu pai lhe

pedia algo.

– Vamos! Terminei! Disse Felipe.

94


O sonho de Felipe

Agora estavam eles novamente no banco da praça.

Em frente a eles a estátua do Bom Pastor. Felipe notara

que esta imagem já não era tão estranha pra ele e que a

ovelha que o Pastor carregava em seus ombros parecia

estar mais feliz. Quando da primeira vez que avistou a

imagem, o Bom Pastor sorria, mas a ovelha parecia muito

triste. Agora não, a ovelha sorria nos ombros do Bom

Pastor. Felipe pensou que estivesse louco e sorriu com tal

situação. Notou também que havia uma frase escrita que

dizia: “O Senhor é meu pastor e nada me faltará”. Felipe

parecia um pouco incomodado e precisava fazer uma coisa

e então tomou a iniciativa. Levantou-se, subiu em pé no

banco olhou para Emanuel e disse-lhe:

- Por favor levanta-se.

Felipe era sempre muito orgulhoso, dificilmente

pedia perdão, ofendera muitas vez seus amigos, seu pai e

sua tia, jogando suas revoltas em cima deles. Pelo que

lembra nunca em sua vida havia pedido perdão a alguém,

mesmo sabendo que estava errado e colocando em risco

sua amizade e seu relacionamento com quem amava.

95


Emanuel levantou de frente a Felipe que por sua

vez o abraçou fortemente e disse:

- Me perdoe por ter socado você. Se você não

quiser me perdoar eu aceitarei, pois sei que fui muito

arrogante e injusto com o que eu fiz.

Emanuel o abraçou com carinho e disse:

- Felipe! Você é um amigo a quem amo muito.

Sempre lhe perdoarei. Meu amor e meu perdão serão

sempre infinitos a você. Nada poderá afastar você da

minha amizade. Disse Emanuel emocionado.

- Emanuel, me prometa por favor. Prometa nunca

me abandonar. As pessoas que muito amo sempre me

deixam sozinho. Me prometa por favor.

abandonarei.

- Juro por mim mesmo, que jamais lhe

Felipe sentiu a força desta palavra, pois foram as

mesmas palavras que Deus havia falado no monte Javé-

Yiré a Abraão.

Emanuel ainda disse:

- Pode uma mulher esquecer-se daquele que

amamenta? Não ter ternura pela fruto das suas entranhas?

E mesmo que ela o esquecesse, eu não te esqueceria

96


nunca. Eis que estás gravado na palma de minhas mãos,

tenho sempre sob meus olhos tuas muralhas.

Felipe sentiu pela primeira vez na vida que desta

vez alguém não o abandonaria. Emanuel ficaria ao lado

dele e ele tinha certeza disso. Não sabia como explicar,

mas tarde definiu como fé. Chorou nos ombros de

Emanuel enquanto olhava a imagem do Bom Pastor e a

ovelha sorrindo. E disse:

- Quando vi todo aquele sangue em você, achei que

tivesse lhe machucado todo com os meus socos. Não

entendia o porquê, me senti descontrolado e na hora estava

cego de ódio e raiva por tudo o que aconteceu em minha

vida. Então agi daquela forma horrível.

Emanuel sorriu e disse:

- Eu atraio sobre mim todas as suas mágoas e seus

pecados, pois para isso estou aqui, para salvar sua vida de

toda derrota. Sou seu amigo e amigo verdadeiro serve para

isso. Quantos aos socos que me deu, não foram fortes e

nem foram eles que me feriram. Estas feridas eu as trago

em mim para redenção de toda a humanidade.

Felipe disse:

- São chagas não cicatrizadas?

Emanuel respondeu:

97


- São estigmas de amor! Chagas que curam!

Felipe percebeu que Emanuel não gostava de falar

sobre este assunto ou preferia esperar o momento correto.

Lembrou que Emanuel prometera a ele que explicaria no

devido momento então não insistiu mais neste assunto.

Felipe notara que à sua frente tinha uma

churrasqueira improvisada, sobre ela carnes assadas e um

saco de pão.

- Como você faz isso? Perguntou Felipe ao ver

aquilo e feliz por ver comida, pois estava morrendo de

fome.

- Todo vós que estais sedentos vinde à nascente das

águas, vinde comer, vós que não tendes alimento. Vinde

comprar trigo sem dinheiro, vinho e leite sem pagar. Disse

Emanuel.

Felipe.

- É assim que se vive o Reino de Deus? Perguntou

- Viver o Reino de Deus é Buscar o Senhor, já que

ele se deixa encontrar, invocai-o, já que está perto. Falou

Emanuel.

Disse Felipe.

- Nossa como gosto de churrasco. Parece picanha?

- É sim!

98


- Desse jeito vou querer viver o Reino de Deus

sempre em minha vida. Disse rindo Felipe.

- Eu prefiro pão com peixe. Disse Emanuel.

Felipe achou estranho o que Emanuel disse e

começou a rir bem alto. E disse:

- Você às vezes é muito engraçado!

Após se alimentarem Felipe começou a pensar

quantos dias estava ali. Se as pessoas do morro o estavam

procurando e sua tia? Bom! Sua tia, achava ele nessas

horas estava dando graças a Deus pelo seu sumiço. Pensou

em Lúcia sua amiga e também lembrou-se da sua

namorada a Bianca...

Ah! Bianca! Ela era linda! Morena de olhos

castanhos. Parecia uma boneca! Sempre que a avistava seu

coração batia forte e seu desejo era abraçá-la pelo resto da

sua vida. Dizia sempre pra ele que se não casasse com

Bianca morreria solteiro. Seu sonho era casar com Bianca

e ter filhos. Não moraria no morro, compraria uma mansão

e seria um grande empresário. Estava cansado de viver

naquele lugar e ser aprendiz de jardineiro com seu pai. Seu

pai sempre lhe dizia que a profissão de jardineiro era

colorir o mundo de cores naturais e perfumar o ambiente

com o cheiro das flores. Seu pai amava o que fazia. Mas

99


Felipe ficava incomodado toda vez que lhe chamavam do

filho do jardineiro ou aprendiz de jardineiro.

Felipe então disse a Emanuel:

- Seu pai fazia o que?

- Era carpinteiro. Respondeu Emanuel.

Felipe queria falar de Bianca com Emanuel, mas o

achava muito puro, tipo inocentão de mais. Achava que

seria uma conversa meio perdida e também sua timidez o

atrapalhava para falar destas coisas.

Emanuel interrrompeu seu pensamentos:

- Está apaixonado?

Felipe corou de vergonha. Esquecia o tempo todo

que Emanuel podia ler seus pensamentos. E para disfarçar

falou meio ríspido:

- Ainda bem que Deus é sábio.

- Por que diz isso? Falou Emanuel com o sorriso

entre os lábios.

- Porque ao nos criar não permitiu que os homens

ouvissem os pensamentos uns dos outros. Pois dessa

forma poderíamos ter uma vida privada. Meu pai dizia que

é feio ouvir conversas do outro. Também acho feio ler os

pensamentos alheios. Disse Felipe com ar de seriedade e

sem graça ao mesmo tempo.

100


e disse:

Desta vez foi Emanuel que soltou uma gargalhada

- Que posso fazer se sou assim? E do mais você me

chamou de inocentão. Riu ainda mais Emanuel.

Felipe então riu junto com Emanuel. Enquanto

estava no pensamento não parecia tão engraçado esta

palavra, mas agora dita em voz alta e justamente por

Emanuel ficou muito engraçado. E concluiu tentando

consertar:

- Pessoas boas geralmente parecem inocentes

demais, às vezes dá até receio de falar alguma coisa,

vamos dizer, meio diferente com elas. A Lúcia, por

exemplo, parecia tão... tão...

- Inocentona. Disse Emanuel rindo.

- Sim! Disse Felipe sem graça.

- Mas são estas pessoas que entendem melhor o

que é paixão e amor e suas diferenças. Disse Emanuel.

- Então estou apaixonado por uma menina, a

Bianca. Acho que ela é a mulher da minha vida. Penso que

se não casar com ela não casarei mais com ninguém, e só

de pensar que ela pode estar em outros braços morro de

raiva. Ela é perfeita! Disse Felipe.

101


preocupado.

- Você esta apaixonado. Disse Emanuel com ar de

- Isso é mal? É grave? Tem remédio pra isso?

Disse Felipe com ar de preocupação e depois rindo.

- Depende. Disse Emanuel. E acrescentou:

- Se ficar apenas na Paixão pode ser muito grave e

o diagnóstico é um desastre à frente. Disse Emanuel.

- Então aperte o cinto. Disse Felipe.

amor ou paixão?

- A paixão é um sentimento muito especial, porém

contraditório ao mesmo tempo, pois é frágil e perigoso. A

paixão cega a ponto de você achar que aquela pessoa é

perfeita. E ai está o erro muitas vezes. Pois você sente uma

sensação maravilhosa o que lhe deixa frágil e vulnerável

ao mesmo tempo, como se o mundo fosse apenas colorido

e que a felicidade ao lado de quem você ama seria só

flores e uma alegria sem fim. Como se aquela pessoa que

voce está apaixonda fosse uma resposta a todas as suas

indignações e solução para todos os seus problemas

afetivos. Na paixão as pessoas inconscientementes

imaginam que a amada é uma princesa e que o príncipe

102


virá em um cavalo branco. Tudo é lindo. Você só pensa

nela e ela não sai da sua cabeça por nenhum instante. Ela é

única e completa. Certo?

Felipe meio sem graça confirma e ri do jeito que

Emanuel falava e gesticulava.

Emanuel continuou:

- Mas tem um grande perigo aí.

- Qual? Perguntou Felipe atento.

- É no momento em que a fantasia e vislumbração

passa e fica o que é real. Quando você descobre que se

tratando de homem e mulher não há perfeição. Quando

você descobre que não existe só primavera na vida a dois.

Que o frio, o calor também estarão presentes em suas

vidas. Quando um dos dois transfere suas decepções e

carências exigindo que o outro o preencha. Carência de

mãe e de pai. Carência de atenção e carinho. As

dificuldades que passarão juntos. Alguns de vocês

chamam isso de amor cego.

sorrindo.

- É muito ruim! Disse Felipe desanimado.

- Não Felipe! É bom demais! Disse Emanuel

E continuou:

103


- É bom porque Deus criou tudo isso. Para que o

homem e a mulher se conhecessem e se tornasse uma só

carne e uma só vida.

- Mas sem paixão? Disse Felipe.

- Não! Apaixonados mas dispostos a viver o amor.

O amor se renova, se transforma, cria. O amor faz com

que você aceite a limitação do outro perdoando,

compreendendo e completando-se. O amor no

relacionamento mantém sempre o desejo e a afeição pelo

outro. O amor é um desejo sincero pelo outro, pelo que ele

é e não pelo que tem. A paixão é um interesse forte de

apenas satisfação. Quem ama morre pelo outro, quem esta

apaixonado quer suprir suas carências humanas e por isso

mais espera do que oferece. O amor permanece e paixão

sempre passa. A paixão não alimenta o amor. Mas o amor

alimenta a paixão.

Felipe gostou do que ouviu! E comentou:

- Por isso que casamento está fora de moda hoje?

- O amor e o que é essencial está fora da moda dos

homens. Disse Emanuel. E completou:

- A humanidade é contradição: agem como se o

amanhã não existisse, ou, agem como se o hoje não

existisse. Não consegue encontrar um equílibrio entre o

104


hoje e o amanhã. E quando não encontram este equilíbrio

tornam-se infelizes e jogam a culpa no ontem. Disse

Emanuel.

- Como assim? Agora você complicou.

- Quando o homem pensa em sua vida e que quer

ser na vida ele pensa no futuro dele. Mas geralmente pensa

isso quando se trata de profissão, realização pessoal, etc.

Quando se casa ele não pensa se aquela pessoa que

escolheu seria a ideal para ser mãe, ou pai, de seus filhos.

É egoísta e pensa em seus sentimentos, em seu próprio

umbigo, por isso a paixão fala mais alto do que o amor na

vida desta pessoa. Por isso muitos casamentos se

desfazem. A família é como uma terra sagrada e lá o ar

que se respira é o amor, a água que se bebe é a

comprenssão e o sol que ilumina é o perdão. O que

começa errado não pode terminar certo. E quando casam

descobre o dia a dia ao lado de alguém, o hoje, então

tomam consciência que dinheiro, realização pessoal,

desejos incontroláveis, paixão não segura um casamento

para sempre. Então as promessas que fazem no altar se

desfaz como um castelo de areia. Quando isso acontece

dizem infantilmente: eu não tinha experiência, meus pais

não educaram.... como se o passado fosse culpado pelo

105


que não fizeram no presente. O hoje não existirá mais e se

você não viver com amor estará sempre falando do

passado, do que não fez e poderia ter feito. Portanto Felipe

não se constroe um relacionamento duradouro e sadio

construindo castelo e se realizando profissionalmente. Pois

sem o amor nada nesta vida tem sentido.

- Hoje é o tempo de Deus. Disse Felipe.

- Então vamos ser feliz hoje sendo responsável por

aqueles que cativamos e amamos e por aqueles também

que não amamos, porém precisam de nosso amor.

- Eu não tenho mais ninguém nesta vida que amo.

Os que eu tanto amava partiram e eu aceitei esta realidade

em minha vida lá no altar de Abraão. Penso que todos os

que precisam encontrar o Amor deveriam subir a

montanha Javé- Yiré e fazer sua oferenda. Dói muito, mas

é libertador. Disse Felipe.

- Esta montanha é o coração da pessoa. Esta aí um

lugar onde as pessoas não tem o costume de se aproximar.

Lugar santo! É importante visitar seu coração sempre e

fazer uma limpeza do que esta sujo e não presta, pois um

coração magoado, triste ou com ódio é um lugar santo

profanado e uma vida infeliz e doente. Disse Emanuel.

106


- Eu recitei uma poesia na escola sobre o coração,

disse Felipe, ela é assim:

Um casebre pequenino,

perdido no horizonte.

Uma alma de menino,

abandonado no alto monte.

Um lugar de solidão,

do silêncio e do pensamento;

cujo o endereço é a meditação.

Guardião do sentimento.

Baú das lembranças,

do tempo e das saudades

feito velho, feito criança

de todas as idades.

Um casebre escondido,

em uma montanha distante,

em um lugar do infinito

num abismo arrasante.

107


Na fonte do saber,

na estrada da felicidade,

no centro do ser,

na pura liberdade.

Um casebre acolhedor,

chão santo

morada do Amor!

sede do encanto.

Um casebre diferente,

lugar de esperança,

ligado ao corpo e a mente,

ligado ao perdão e a vingança.

Um casebre sedento,

um humilde abrigo,

deixado ao relento...

um tesouro esquecido.

- Então conforme eu dizia, eu não tenho mais

pessoas que eu amo, e por isso não tenho

responsabilidades até que eu cative alguém. Disse Felipe

pensando em Bianca.

108


- Eu disse que você é responsável por quem ama e

por quem não ama também e que necessita do seu amor.

Pois que vantagem tem para aquele que ama só os amigos?

Deveis amar também vosso inimigo. Esta é a diferença

que existe em alguém que quer viver o Reino de Deus.

Disse Emanuel.

Felipe se lembrou da sua tia. A única parente que

possuía perto dele. Teria que amar sua tia? Não! Ela não.

Emanuel havia dito que deveria amar quem não o ama e

precisa dele. Sua tia não precisava dele. Ele e seu pai que

precisavam de sua tia, pois morava, de favor naquela casa.

Ele ouvia as resmungações da sua tia todo dia e as ofensas

dela ao seu pai. Ele precisava dela quando sua mãe faleceu

e ela o tratava como hóspede em sua casa. Nunca chorou

em seus ombros nem sequer ofereceu para ouví-lo na sua

dor e sofrimento. Ao invés de ajudá-lo contribuiu ainda

mais para sua saudades da mãe. E se não bastasse teria

agora que ouvir suas blasfêmias contra seu pai que partira.

Não! Ela não precisa de mim, pensara ele. Será feliz com

minha ausência, se é que sabia o que significava ser feliz?

Felipe então pensou aliviado: Ser feliz é viver o Reino de

Deus! Mas ainda faltava alguma coisa para preencher

109


totalmente a sua alma. Deve ser porque ainda não chegou

no Reino de Deus.

- Felipe precisa dormir. Amanhã teremos mais uma

caminhada para o Reino de Deus. Disse Emanuel

- Não vejo a hora! Estou me sentindo muito bem!

Disse Felipe muito feliz. E perguntou:

- Qual será a próxima porta? Tem mais montes

pela frente? Falou Felipe entusiasmado pelo que aconteceu

no monte Javé-Yiré. E perguntou novamente:

- O que significa Javé-Yiré?

- O Senhor proverá! Disse Emanuel e acrescentou:

- Quanto à sua primeira pergunta passaremos pela

Porta do Êxodo e subiremos a Montanha do Monte Horeb.

Mas antes que me pergunte amanhã saberá. Vamos

dormir.

- Posso declamar mais uma poesia no lugar da

música? Ela fala da diferença entre o amor e a paixão?

Disse Felipe rindo.

- Sim. Gosto muito de poesia. Disse Emanuel.

110


Paixão é o encanto pela vida.

Amor é a vida.

Paixão gera conflitos.

Amor gera soluções.

Paixão é agradecimento.

Amor é reconhecimento.

Paixão é um limite.

Amor é eternidade.

Paixão é ilusão.

Amor é real.

Paixão se ausenta.

Amor permanece.

Paixão é eu, você, as coisas...

Amor é nós.

Paixão é estático.

Amor se renova...cria...

Paixão escraviza.

Amor liberta.

Paixão cega.

Amor abre horizontes.

A paixão sonha.

O amor realiza.

Paixão gera medo.

111


Amor gera confiança.

Paixão é atração física.

Amor é atração total.

Paixão é monólogo.

Amor é diálogo.

Paixão vem do mundo.

Amor vem de Deus.

A paixão vê as cores da primavera.

O amor vê: as flores da primavera,

o sol do verão, o frio do inverno,

os frutos do outono.

Amar é estar apaixonado.

É estar encantado com a vida,

sendo a vida você.

É encarar os conflitos

junto com você.

É estar agradecido por

reconhecer em você a graça.

É respeitar o seu limite,

tornando-lhe única e eterna.

É poder saber que da minha ilusão

consegui tornar você real.

112


É sentir sua ausência

E pedir que fique.

É ver meu eu em você

E sentir que somos nós e que

tudo é nosso.

É parar no tempo... no espaço...

No pensamento... e ao mesmo tempo

Renovar... criar...

É estar escravizado em você

e sentir-se livre para lhe amar.

É estar cego para um outro

relacionamento por ter certeza que

você é o meu horizonte que se abre.

É viver sonhando com nossa realização.

É ter medo de lhe perder devido

a confiança que tenho em seu amor.

É sentir-me atraído pelo seu corpo

como parte íntegra do seu espírito,

da sua forma de ser.

É dizer a mim mesmo como eu lhe amo,

e por isso o quanto quero lhe falar.

É ver o mundo como um presente imenso

que Deus nos deu para nele vivermos o amor.

113


É viver todas as estações do ano

com o colorido da primavera.

É dizer a você que estou apaixonado

por que lhe amo.

114


O sonho de Moisés

- Felipe acorda novamente com uma música de

Emanuel que alegremente cantava:

Irmão sol com irmã luz, trazendo o dia pela mão

Irmão céu de intenso azul a invadir o coração, Aleluia!

Irmãos, minhas irmãs, vamos cantar nesta manhã,

Pois, renasceu mais uma vez, a criação das mãos de Deus.

Irmãos, minhas irmãs, vamos cantar, aleluia, aleluia,

aleluia!

Minha irmã, terra que ao pé dá segurança de chegar

Minha irmã, planta que está suavemente a respirar, aleluia!

Irmã flor que mal se abriu fala do amor que não tem fim

Água irmã que nos refaz e sai do chão cantando assim:

Aleluia!

Passarinhos, meus irmãos, com mil canções a ir e vir

Homens, todos, meus irmãos, que nossa voz se faça ouvir:

Aleluia

- Mais uma bonita música. Com certeza de mais

um amigo. Disse Felipe.

115


- É uma das minhas preferidas para cantar de

manhã. E não é um novo amigo é do Francisco também.

Disse Emanuel.

- Quem foi Francisco? Parece gostar tanto dele?

Perguntou Felipe.

- Franscisco morava em Assis era um jovem rico e

abandonou tudo para acolher os pobres. Como gostava de

dizer: “unindo-se à irmã pobreza”. Apareceram sobre seu

corpo as cincos chagas de Jesus. Disse Emanuel.

- O Centro Comunitário que Lúcia faz parte

chama-se São Francisco. Disse Felipe.

- Felipe agora precisamos ir para O monte Horeb.

Disse Emanuel.

Felipe então viu à sua frente abrir-se uma porta

cujo nome era Êxodo.

Ao chegarem no local num gesto que mais tarde

Felipe entendeu como simbólico e respeitoso, Emanuel

abaixou-se e tirou suas sandálias dos pés. Felipe ao

observar tal gesto fez o mesmo, tirou seu tênis e sua meia

e ficou descalço.

- Onde estamos? Perguntou Felipe.

- Na montanha Horeb. Falou Emanuel.

116


Felipe.

- E o que vai acontecer aqui? Ansioso perguntou

- Daqui a pouco chegará Moisés que está

apascentando o rebanho de seu sogro Jetro. Disse Emanuel

- Quem é Moisés? Alem de ser seu amigo é claro.

Perguntou Felipe com a expectativa de que haveria ali

mais uma experiência forte de Deus.

- Moisés é um hebreu. Foi educado em um palácio.

Entregue por sua mãe à filha de Faraó, para que não o

matassem quando criança. Disse Emanuel.

- Eu já ouvi falar de Faraó, fica no Egito. Mas

porque tentaram matar Moisés? Perguntou Felipe.

- Na verdade tentaram matar as crianças dos

hebreus porque estavam multiplicando o povo e Faraó teve

medo que o número elevado deste povo, que é escravo no

Egito, pudesse ter força para alcançar a libertação. E por

isso mandou matar as criançinhas.

- Eu conheço esta história, agora me lembrei,

assisti um filme que mostrou esta história. Tem as dez

pragas, o mar que se abriu e o povo entrou por ele e depois

ficaram quarenta anos andando pelo deserto à busca da

terra prometida. Disse Felipe.

117


- É isso mesmo Felipe esta saída do povo do Egito

para a terra prometida é conhecido como êxodo. E Moisés

depois de adulto teve que sair fujido de lá pois matou um

guarda Egípcio, pois este estava maltratando um hebreu.

Disse Emanuel.

Felipe.

- Em que parte desta história estamos? Perguntou

Neste momento diante dos olhos de Felipe viu uma

moita pegando fogo e sobre ela um anjo. Se aproxima

então um homem que deixa seu rebanho e vai para perto

da moita. Tal espetáculo chamou a atençao de Moisés que

observava extasiado tal maravilha.

chamou:

Então do meio da moita ouviu uma voz que lhe

- Moisés! Moisés!

- Eis me aqui! Respondeu ele.

Neste momento Felipe sentiu indigno de estar

naquele solo. Sentiu um tipo de temor e percebeu que

Moisés também sentia a mesma coisa que ele. O rosto de

Moisés mostrava seu medo diante do que presenciava. E a

voz continou:

- Não te aproximes daqui. Tira as sandálias dos

teus pés, porque o lugar em que te encontras é uma terra

118


santa. Eu sou, ajuntou ele, o Deus de teu pai, o Deus de

Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó.

Tanto Felipe quanto Moisés escondeu o rosto e não

ousava olhar para Deus. E Deus continuou:

- Eu vi, eu vi a aflição de meu povo que está no

Egito, e ouvi seus clamores por causa dos seus opressores.

Portanto desci para livrá-lo da mão dos egípcios, e para

fazê-lo subir daquela terra, a uma terra boa e larga, a uma

terra que mana leite e mel; ao lugar do cananeu, e do

heteu, e do amorreu, e do perizeu, e do heveu, e do

jebuseu. E agora, eis que o clamor dos filhos de Israel é

vindo a mim, e também tenho visto a opressão com que os

egípcios os oprimem. Vem agora, pois, e eu te enviarei a

Faraó para que tires o meu povo do Egito.

Então Moisés disse a Deus:

- Quem sou eu, que vá a Faraó e tire do Egito os

filhos de Israel?

E Deus disse:

- Certamente eu serei contigo; e isto te será por

sinal de que eu te enviei: Quando houveres tirado este

povo do Egito, servireis a Deus neste monte.

Então disse Moisés a Deus:

119


- Eis que quando eu for aos filhos de Israel, e lhes

disser: O Deus de vossos pais me enviou a vós; e eles me

disserem: Qual é o seu nome? Que lhes direi?

E disse Deus a Moisés:

- EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás

aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós.

Neste momento Emanuel coloca a mão sobre os

ombros de Felipe e diz:

- Partimos daqui! Coloque seu calçado e vamos.

Disse Emanuel.

- Pensei que iríamos andar pelo deserto e ver todas

as pragas e conhecer o Egito de perto? Falou

decepcionado Felipe.

- Isso você pode assistir em um filme! Por

enquanto é importante saber como começou a história do

êxodo e senti-la pessoalmente. Disse Emanuel e concluiu

perguntando:

- Então o que você experimentou hoje?

- Hoje é um tempo propício para experiências, se

eu não as viver agora o hoje não existirá mais. Disse

Felipe lembrando-se do que aprendera com Emanuel sobre

a importância de viver o agora.

120


completou:

- Bom Discípulo. Disse Emanuel satisfeito. E

- Então o que sentiu?

Felipe tinha consciência que Emanuel sabia o que

sentia, mas que o fazia externar seus sentimentos, pois é

como se acendesse a chama da compreensão dentro de si e

principalmente a tomada de consciência do que havia

acontecido. Além do mais ao comentar iniciava-se um

mergulho profundo no entendimento das coisas do Reino

de Deus que a cada experiência se revelava mais perto do

que imaginava.

- Tive a sensação de querer ficar ali no monte

Horeb pelo resto da minha vida olhando a sarça ardente.

Era maravilhoso ver aquilo arder no fogo e não se

queimar. Mas não tanto pela cena em si, mas pela presença

de Deus naquele lugar. Toda vez que vejo sua

manifestação tenho vontade de não partir mais daquele

lugar. Disse Felipe.

- Haverá um lugar que definitivamente

permanecerá e que jamais desejará sair.

- É o Reino de Deus? Perguntou Felipe.

- É o Reino dos Céus.

121


- Meus pais devem estar bem felizes por lá, fico

tranqüilo em saber disso, pois aprendi que o melhor

presente para desejar a alguém que amamos é a felicidade

eterna. Disse Felipe em paz!

- Para oferecer esta Felicidade eu dou a minha

vida! Disse Emanuel. E voltando ao assunto anterior

comentou:

- Pois então, quando temos experiências de Deus

em nossa vida, geralmente queremos ficar por toda vida

nesta experiência. Esta experiência pode ser positiva ou

negativa dependendo da atitude de quem a descobriu.

Disse Emanuel.

- Como assim? Como pode uma experiência

Divina ser negativa? Perguntou Felipe quase que

discordando.

- Quando esta Experiência ou conhecimento leva

as pessoas ao iluminismo descomprometido com o

próximo. Quando a descoberta desta pessoa a leva olhar

para o céu e se esquecer que seus pés estão na terra.

Sonhar é muito bom e importante. Permanecer somente no

sonho é perigoso. A realização de um sonho se faz quando

aquele que sonha tem os pés no chão. Olhos para o céu e

pés firmes na terra. Para que um sonho se concretize é

122


necessário desejar a sua realização. Realiza um sonho

quem não tem medo de errar ou agir. Todo sonho leva a

pessoa a se arriscar, por isso quando alguém sonha, mas

não leva em conta as consequências do seu sonho pode se

machucar. Esta ferida se chama ilusão. Disse Emanuel.

- Quando diferenciar se um sonho é válido ou não?

Perguntou Felipe.

Emanuel respondeu com uma poesia.

Valeu a pena?

Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu.

- Fernando Pessoa! Disse Felipe.

- Vejo que realmente gosta de poesias. Pois então

quando o desejo de seu sonho é um bem maior, é um

desejo divino pode ter certeza que os céus e o universo

conspirarão para que se realize. O que cabe ao sonhador é

123


acreditar e realizar. O que cabe aos céus é iluminar e

enviar. Disse Emanuel.

sorrindo.

- Eu quero ter um sonho divino! Disse Felipe

- Se quer, se deseja do fundo do coração ele

acontecerá. Mas nunca se esqueça que sonhar é andar por

terras desconhecidas onde existe a ilusão, a dor, o cansaço,

a incompreensão, as dúvidas, as renúncias, o medo, a

solidão...

Felipe interrompe Emanuel e diz:

- Tem que passar além da dor. Deus ao mar o

perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu.

- Justamente Felipe. A mãe durante nove meses

sente o incômodo de carregar um filho no ventre. No parto

sente a dor. Mas o sonho e amor pelo bebê fazem com que

tudo isso seja superado. O sonho é um parto cujo bebê é a

realização.

- A visão do céu apaga todo sofrimento. Disse

ainda Emanuel.

- Esquecemos a sarça ardente? Disse Felipe

querendo entender o que aconteceu no monte Horeb.

- Não, Felipe! Estamos justamente falando dela. A

sarça ardente é muito bonita, é como o amor de Deus,

124


queima o interior, mas sem consumir o que você é. Deus

não viola a identidade e nem a liberdade humana.

Simplesmente o leva ao encontro daquilo que você

realmente é; a sua origem, o seu existir e o seu fim. Por

isso você se sentiu bem ali. Pois quando Deus se manifesta

tudo fica claro. É impossível alguém se sentir mal diante

de Deus. A não ser que?...

- Quê? Perguntou Felipe afoito.

- Que você fique só querendo olhar para sarça

ardente. Então o que parece ser um sonho maravilhoso

torna-se um pesadelo, leva ao fanatismo, ao julgamento,

torna a pessoa um falso moralista e dono absoluto das

verdades divinas. Então o que deveria ser um sinal da

presença de Deus, transforma-se em escândalo. Disse

Emanuel de forma séria e decidida.

- É o fanatismo que leva as pessoas a matar em

nome de Deus. Outras julgam que são os únicos santos e

outros parecem que falam mais do inferno do que do céu.

Disse Felipe.

- Justamente. Disse Emanuel. E acrescentou:

- Pior que fazer de Deus a sua imagem e

semelhança é profanar a imagem de Deus na vida das

pessoas. Há muitos que anunciam um deus que não existe.

125


Falam de um deus carrasco. Falam de um deus de

prosperidade apenas. Falam de um deus distante. Falam de

um deus indiferente.

126


desculpas

Felipe.

- Moisés entendeu isso em sua vida? Perguntou

- Sim, mas custou um pouco para Deus convencê-

lo. Disse Emanuel sorrindo.

Emanuel.

- Como assim? Perguntou Felipe.

- Ele tentou esquivar-se do chamado. Disse

- Pudera, pensa bem Moisés ir até o Faraó e diante

de seu povo e dizer que o “Eu Sou” mandou ele ali para

libertar seu povo? Com um nome estranho desse?

Emanuel riu-se da espontaneidade e sinceridade de

Felipe. E disse:

Moisés.

- Felipe na verdade Deus não deu um nome a

- Não! Perguntou Felipe com a convicção de que

ouviu este nome.

um nome.

Emanuel.

- Ele disse que existia! Apenas isso! Deus não tem

- Como assim?

- Por que seu pai lhe deu um nome? Perguntou

127


- Para me identificar. Disse Felipe.

- Identificar ou diferenciar do que?

- De outras pessoas, uai!

- Pois então! Não é o caso de Deus. Não existem

outros deuses. Ele é o único. Se desse um nome a Moisés

estava dizendo indiretamente que entre os deuses ele era o

fulano de tal. Entende! Se existe um só Deus não há

necessidade de identificar-se ou diferenciar-se. Ele disse

que existe e que está presente.

- Legal! Difícil é relacionar com alguém que não

tem nome. Disse Felipe.

- Pior é se relacionar com alguém que não existe!

Ao não deixar que Moisés rotulasse em Deus uma imagem

falsa do que ele realmente é faz com que nós relacionamos

com a verdadeira imagem de Deus. Disse Emanuel.

- Qual é então a verdadeira imagem de Deus?

Perguntou Felipe meio que tentando achar uma solução

para poder falar com Deus.

confuso.

- Ele é aquele que é. “Eu sou”. Disse Emanuel.

- Meu Deus! Exclamou Felipe ainda um pouco

Emanuel rindo-se disse:

128


- Então vocês fizeram isso para poder definir Deus,

já que vocês têm dificuldades em tratar com coisas

superiores.

- Isso o que? Perguntou Felipe.

- Chamar “Aquele que é” de Deus ou Senhor!

Disse Emanuel.

- E o que Deus é? Felipe nem sabia mais por que

fez esta pergunta.

Emanuel.

- Deus é amor! E quem ama permanece nele. Disse

- Voltando ao assunto anterior, porque Moisés

tentou esquivar-se? Felipe perguntou para dar

continuidade ao mesmo assunto e conformado com a

última definição de Deus, o Amor!

- A maioria das pessoas que aderem ou acham que

aderiram ao Reino de Deus ficam parado diante da sarça

ardente. Disse Emanuel.

- Como assim? Perguntou Felipe.

- Esta fronteira entre a santidade e o desejo é onde

a maioria pára e prefere não prosseguir o caminho. A

maioria morre na fronteira da santidade. Olham a terra da

santidade, sabem como chegar lá, mas preferem viver na

129


ilusão da admiração alienante da sarça que arde, mas não

consome.

- Quando assisti ao filme de Moisés ele morreu na

fronteira de Canaã. Não experimentou a terra prometida. É

como se ele depois de tudo o que fez, depois de ir além do

deserto e enfrentado a murmuração do povo e a

perseguição do Egito morresse na praia. Achei muito triste

esta história e perguntei como Deus poderia permitir

aquilo para um homem como Moisés? Disse Felipe

indignado.

- Felipe! Pode ter a certeza que Moisés foi muito

além do deserto. Diria que ele foi mais além!

- Ele viu o Reino de Deus?

- Viu o Reino de Deus e o Reino dos Céus. Não

merecia continuar ouvindo as murmurações do povo em

Canaã e ver o que aconteceu depois que o povo entrou em

Canaã. O povo pecou, esqueceu-se de tudo que havia

passado no deserto e cometeu erros e absurdos diante de

Deus. Disse Emanuel.

- Somos assim, vivemos errando, agindo como

crianças inocentes e ao mesmo tempo arteiras. Somos

infantis. Temos medo de amadurecer. De viver feliz.

Temos medo da realização. Somos irresponsáveis. Temos

130


dificuldades de enxergar o essencial. Quando as

consequências chegam então choramos, esperneamos. É

incrível como só assim abaixamos a crista e humilhamos.

Disse Felipe.

- É o Êxodo Felipe! O tempo todo o homem está

saindo de situações que ele próprio cria. É a passagem da

morte para a vida. É a Páscoa! E quando se trata do

homem é um círculo vicioso de idas e vindas. De

conversão e pecado. De acertos e erros. Disse Emanuel

- Esta é a humanidade! Disse Felipe.

- Que Deus tanto ama! Disse Emanuel.

- Sorte nossa! Que existe Alguém como Deus, que

tem paciência e que confia em nós. Disse Felipe

consolado.

- Como podemos viver Deus realmente então?

Perguntou Felipe.

- É deixar que o fogo do amor de Deus queime seu

interior e que consuma sua vida doando-se ao Reino de

Deus. Consumir sua vida a Deus é entregar-se a Ele e ao

seu chamado, servindo a quem mais precisa. Este

consumir não significa morrer, mas viver algo que vale a

pena. O que pro mundo parece ser derrota, fracasso,

loucura é a força divina que existe em você. Pois a loucura

131


de Deus é mais sábia do que os homens e a fraqueza de

Deus é mais forte do que os homens. Quando você assim

viver perderá o sossego, mas encontrará a Paz. Afirmou

Emanuel.

Emanuel.

- A maioria das pessoas quer sossego. Disse Felipe.

- E por isso não tem sossego e nem paz! Disse

- Você disse que Moisés teve dificuldades para

aceitar? Aceitar o que?

- Quando Moisés viu Deus na sarça ardente qual

foi a ordem de Deus a ele? Perguntou Emanuel.

Moisés:

- Libertar seu povo! Disse Felipe.

Emanuel então repetiu as palavras de Deus a

- Eu vi, eu vi a aflição de meu povo que está no

Egito, e ouvi seus clamores por causa dos seus opressores.

Emanuel continuou dizendo:

- Vem agora, pois, e eu te enviarei a Faraó para que

tires o meu povo do Egito.

E comentou por fim:

- Pode ter a certeza Felipe que estar à frente da

sarça ardente é mais cômodo que libertar o povo da

escravidão. Lidar com gente é sempre um desafio muito

132


grande. Porém é bem mais compensador do que estar à

frente da sarça ardente. Desde que você não espere

reconhecimento, resultados dos homens e sim de Deus.

- Poxa vida: o mar se abrindo, a sarça acesa, as

pragas eram as partes deste filme que eu mais gostava.

Disse Felipe com cara de coitado.

- Mas o Reino de Deus é feito de sinais

extraordinários também. Disse Emanuel e emendou:

emocionou?

- Porém qual foi o momento que mais lhe

- Felipe ficou um pouco pensativo e respondeu:

- Na hora que o povo estava na outra margem livre

do exército e da escravidão.

- Pois bem! A liberdade foi conquistada não pelo

comodismo e sim pela ação e pela luta. Acreditaram no

seu potencial e capacidade e por isso venceram o exército

de Faraó.

Felipe pensou no povo que morava no morro.

Muitas vezes parecia que o povo acomodava e aceitava a

situação. Quantas vezes ele se sentia envergonhado de

dizer que morava ali no morro. Ele e Bianca diziam que

seus sonhos era casarem e sair dali. Moisés poderia ter se

acomodado no palácio de Faraó ou então na vidinha ao

133


lado da mulher e do sogro, porém lutou pela liberdade de

seu povo.

Emanuel disse:

- Tudo isto aconteceu com oração, intercessão e

principalmente com a fé de quem soube sonhar o sonho de

Deus na vida deste povo.

- Você disse que Moisés tentou esquivar-se? Disse

Felipe ainda insistindo neste assunto.

- Sim Felipe, Ele usou de três desculpas que todos

os homens usam para esquivar-se da vontade de Deus em

sua vida. Disse Emanuel.

- Quais foram? Perguntou Felipe agora sentindo

que a resposta definitivamente seria respondida.

- A primeira desculpa foi:

“Eles não me crerão, nem me ouvirão e vão dizer

que o Senhor não me apareceu”.

Disse Felipe.

- A velha desculpa em jogar a culpa em alguém!

- O verdadeiro líder convence e motiva seu povo e

o péssimo líder o culpa para esconder sua própria

covardia. Disse Emanuel.

- Qual foi a solução achada por Deus a Moisés para

convencê-lo desta primeira desculpa? Perguntou Felipe.

134


- Disse que sinais o acompanhariam em sua missão

e deu alguns exemplos práticos destes sinais, como por

exemplo, um cajado tornar-se serpente, uma cura de lepra,

e águas do rio Nilo transformada em sangue. Disse

Emanuel.

- Nossa! Então isso funcionou?

- Se sinais funcionassem Felipe, o mundo inteiro

viveria o Reino de Deus, pois os sinais estão o tempo todo

acontecendo e nem por isso são suficientes para que os

homens entendam e creiam em Deus.

- E a segunda desculpa? Perguntou Felipe.

- Moisés disse: “Ah, Senhor! Eu não tenho o dom

da palavra; nunca o tive, nem mesmo depois que falastes

ao vosso servo; tenho a boca e a língua pesadas”.

- É mesmo! Moisés era gago. Disse Felipe

lembrando o filme.

Emanuel.

- Então quando a culpa não é do outro, é de Deus.

- Como assim? Perguntou Felipe.

- Quem dá o dom de falar a alguém? Falou

- É verdade. Respondeu Felipe.

- As pessoas que não querem comprometer-se com

o Reino de Deus geralmente dizem que não tem

135


capacidade Quem distribui os dons? Entende. Quando

Deus falou para Adão porque ele tinha comido do fruto

proibido ele disse: “A mulher que o Senhor colocou ao

meu lado me fez fazer isso.” Pronto! Deus era o culpado.

Existe muita gente que faz este tipo de jogo com Deus.

Mas não sabem que estão enganando a si próprios.

Também não imaginam quantas pessoas deixam de

encontrar a libertação da escravidão pelas suas omissões.

Deus cobrará os talentos que deu a cada um.

Felipe.

- O que Deus respondeu a Moisés? Perguntou

- “Vai, pois, eu estarei contigo quando falares, e

ensinar-te-ei o que terás a dizer”. Em outras palavras a

obra é minha eu farei acontecer. De ti eu espero apenas o

seu sim.

- E a terceira desculpa? Perguntou Felipe.

- A terceira desculpa foi jogar a responsabilidade

para outra pessoa. Moisés disse: “Ah! Senhor! Mandai

quem quiserdes!

- Tirar o corpo fora. Disse Felipe.

- Sim. Ou seja, eu não tenho nada a ver com isso. É

assim que as pessoas agem. O problema não é meu! Não

sabem que a injustiça e a falta de amor também de certa

136


forma o atingirão. Um empurra para o outro a

responsabilidade. Em certas ocasiões dizem: “Eu não

tenho este dom que você tem.” Não assumem e não

ajudam quem assume.

- E Deus o que disse desta vez?

- Se irritou! Disse Emanuel. E continuou:

- Deus se irrita com a hipocrisia daqueles que

deveriam ajudar a libertar o povo mais sofrido, mas são

omissos. O pecado da omissão é um dos piores que um ser

humano pode ter.

Felipe então entendeu a lição do dia e sentia nesta

nova experiência a vontade de realizar algo que estivesse

em seu alcance e que Deus lhe confiaria. Lembrou-se que

certa vez estava no Centro Comunitário e Lúcia lhe pediu

que ajudasse lá. Ele disse pra Lúcia que não tinha o dom

que ela tinha. Disse também que o povo dali era

acomodado e que havia gente melhor que ele para ajudá-

la.

Então disse Felipe a Emanuel:

- Eu sempre admirei Lúcia e seu trabalho, mas

nunca consegui me colocar a disposição para ajudá-la.

Achei que ela possuía ajuda do poder público e que

empresários colaboravam com o trabalho seu. Um dia me

137


disse que a ajuda vinha da Providência de Deus. Ela

sempre repetia: Deus Provê, Deus Proverá, Para aquele

que crê nada faltará. Ela dizia que eles eram um grupo de

pessoas que possuíam suas famílias e suas preocupações,

mas que repartiam suas vidas com as pessoas lá do morro.

Falou-me que geralmente as pessoas mais simples é que

ajudavam a obra. O trabalho dela é muito bonito. Não faz

acepção de pessoas e credo. Acolhem todos e percebo que

tem um amor e preocupação muito grande com a vida da

gente. Depois de meu pai ela foi a segunda pessoa que

mais me amou. Disse Felipe muito emocionado.

- Deus ama muito Lúcia e todo aquele povo. No

mundo há poucas pessoas que se preocupam em doar a

vida ou ajudar quem precisa. Poucos que anunciam o

Reino de Deus. Poucos são os que enxergam além do

deserto. Mas este pouco é como um grão de mostarda,

assim é o Reino de Deus, e como suas atitudes são divinas,

possuem uma força tão grande, que como a semente de

mostarda, torna-se uma enorme árvore, onde meus filhos

prediletos e sofridos se assentam e desfrutam da sombra

desta árvore. Pode ter certeza de uma coisa Felipe, Lúcia

escolheu a melhor parte e não lhe será tirada. Quem muito

ama, muito será amada no Reino dos Céus.

138


- Para viver o Reino de Deus tem que ser como a

Lúcia? Tem que estar num lugar assim? Perguntou Felipe.

Emanuel.

- O Reino de Deus acontece aonde há amor! Disse

- Onde a alma não é pequena. Disse Felipe.

- Por isso são poucos que encontram este Reino.

Mas a maioria que não enxergam não é maldade é que são

condicionadas a pensarem e agirem com alma pequena.

Por isso quando encontrar o Reino de Deus lembre-se o

que disse Teresa:

Nada te perturbe

Nada te espante

Tudo passa,

Só Deus não muda.

A paciência

Tudo alcança

Quem tem a Deus,

Nada lhe falta.

Só Deus basta

139


O sonho de Caleb e Josué

Emanuel olhou carinhosamente para Felipe e

percebeu que estava cansado. Então lhe disse:

- Antes de irmos embora daqui gostaria que

presenciasse mais uma experiência. Percebo que você esta

um pouco cansado.

Felipe podia até estar cansado, mas estava a cada

dia mais apaixonado pelas coisas de Deus e queria muito

aprender e adquirir sabedoria. Pensava consigo mesmo,

que queria estar preparado quando encontrasse o Reino de

Deus.

Então disse a Emanuel:

- Não! Não estou cansado. Estou motivado em

encontrar este Reino, pois agora é o que me motiva a

viver. Vamos eu quero seguir meu caminho, ou melhor, os

caminhos de Deus. Para onde iremos?

- O Reino de Deus não se vive pela motivação, eis

aí um perigo e uma armadilha para quem caminha por ele.

O Reino de Deus se vive pela fé. E nós vamos para a

fronteira de Canaã. Disse Emanuel.

Felipe.

- Minha nossa! Eu verei a terra prometida! Disse

140


- Não se empolgue tanto, pois a beleza do lugar

está na liberdade e na vitória de uma conquista. Nem tanto

pelo lugar. É justamente isso que vai aprender ali a olhar

com os olhos da fé. Assim quando encontrar o Reino de

Deus possa enxergar nele toda a beleza que possui. Disse

Emanuel rindo.

Emanuel parou perto de um lago para que se

banhassem. E depois se alimentaram. Então partiram para

Canaã.

Enquanto eles caminhavam, Emanuel cantou uma

música divertida que empolgou Felipe também. Eles

cantavam:

Caminhando eu vou para Canaã

Oi, glória a Deus, caminhando eu vou para Canaã.

Se você não vai, não me impeça de ir

Oi, glória a Deus, caminhando eu vou para Canaã.

Eu tenho um lar lá em Canaã

Oi, glória a Deus, caminhando eu vou para Canaã.

Você tem um lar lá em Canaã

Oi, glória a Deus, caminhando eu vou para Canaã.

141


Chegaram ao deserto de Farã e então Felipe

observou que Moisés estava selecionando alguns homens

que eram príncipes em Israel. Eram ao todo doze homens

representando as doze tribos de Israel. E deu a seguinte

ordem:

- Ide pelo Negeb e subi a montanha. Examinai que

terra é essa, e o povo que a habita, se é forte ou fraco,

pequeno ou numeroso. Vede como é a terra onde habita, se

é boa ou má, e como são suas cidades, se muradas ou sem

muros; examinai igualmente se o terreno é fértil ou estéril,

e se há árvores ou não. Coragem! E trazei-nos dos frutos

da terra.

a Moisés:

Passados quarenta dias voltaram bravos e disseram

- Fomos à terra aonde nos enviastes. É

verdadeiramente uma terra onde corre leite e mel, como se

pode ver por esses frutos. Mas os habitantes dessa terra

são robustos, suas cidades grandes e bem muradas; vimos

ali até mesmo filhos de Enac.

Caleb fez calar o povo que começava a murmurar

contra Moisés e disse:

- Vamos e apoderemo-nos da terra, porque

podemos conquistá-la.

142


Mas os outros que tinham ido com ele, diziam:

- Não somos capazes de atacar esse povo; é mais

forte do que nós.

E diante dos filhos de Israel depreciaram a terra

que tinham explorado:

- A terra que exploramos devora os seus habitantes:

os homens que vimos ali são de uma grande estatura;

vimos até mesmo gigantes, filhos de Enac, da raça dos

gigantes: parecíamos gafanhotos comparados com eles.

Toda a assembléia pôs-se a gritar e chorou aquela

noite. Todos murmuravam contra Moisés e Aarão dizendo:

- Oxalá tivéssemos morrido no Egito ou neste

deserto! Escolhemos um chefe e voltemos para o Egito.

Caleb e Josué rasgaram suas vestes e disseram:

- A terra que percorremos é muito boa. Se o Senhor

nos for propício, introduzir-nos-á nela e no-la dará, é uma

terra onde corre o leite e mel. Somente não vos revolteis

contra o Senhor, e não tenhais medo do povo dessa terra,

devorá-lo-emos como pão. Não há mais salvação para

eles, porque o Senhor está conosco. Não tenhais medo

deles.

143


Toda a assembléia estava a ponto de apedrejá-los,

quando a glória do Senhor apareceu sobre a Tenda de

Reunião a todos os israelitas. O Senhor disse a Moisés:

- Até quando me desprezará este povo? Até quando

não acreditarão em mim, apesar de todos os prodígios que

fiz no meio dele?

Neste momento diante dos olhos de Felipe tudo

dissipou. E ele e Emanuel agora estavam sentados em

baixo de árvore e à sua frente um cesto cheio de frutas:

cachos de uvas, figos, romãs e em um recipiente o mel.

Felipe estava atordoado com a rapidez dos acontecimentos

que passaram diante de seus olhos. Foi mais de quarenta

dias em um piscar de olho. Lembrou-se que Emanuel lhe

falou para não se prender no tempo. Mas sua cabeça ainda

rodava e a imagem que ficou foi do povo com as pedras

nas mãos querendo apedrejar Moisés, Aarão seu irmão,

Caleb e Josué.

- Come das frutas. Elas são deliciosas. Disse

Emanuel quebrando seus pensamentos.

- Nossa! Desta vez fiquei um pouco tonto diante da

rapidez dos fatos ocorridos. Disse Felipe e pegando um

cacho de uva.

144


- Ainda dizem que Deus tarda, mas não falha.

Disse Emanuel.

rindo.

- Imagino se Ele fosse mais rápido, disse Felipe

- As pessoas querem que seus pedidos sejam

ouvidos imediatamente, não tem paciência para esperar.

Disse Emanuel.

- Queremos imediatamente e do jeito nosso. Disse

Felipe ainda lembrando o que aconteceu na fronteira de

Canaã.

- Sofre as demoras de Deus, espera com paciência,

humilha teu coração, não te perturbes no tempo da

infelicidade, na dor, permanece firme, na humilhação tem

paciência. Pois é pelo fogo que se experimentam o ouro e

a prata, e os homens agradáveis a Deus, pelo caminho da

humilhação. Disse Emanuel

- Não é fácil! Disse Felipe.

- Quando não se tem paciência na vida se perde

muitos momentos agradáveis e se faz muitos momentos

desagradáveis. Disse Emanuel.

- Abraão por não ter paciência fez um filho com a

escrava. Disse Felipe.

145


- Por falta de paciência, existem muitos filhos

machucados e carentes, muitas obras não completadas,

muitas pessoas não convertidas, muitos sonhos desfeitos.

Muitos pais tristes, muitas mulheres em solidão, muitos

maridos cansado e principalmente muito tempo perdido. O

homem moderno corre o tempo todo e não alcança o

objetivo maior, o que permanece. Quem não sabe esperar

corre sem alcançar. Quem aprendeu a arte de esperar

alcança no andar. E esperar em Deus é receber o que é

necessário até quando dorme.

- Às vezes penso que se meu pai tivesse trabalhado

menos poderia aproveitar sua presença bem mais. Sei que

fazia isso para um futuro melhor pra mim. Mas se

tivéssemos passeado mais, brincado mais, dialogado mais

acho que não seria tão ranzinza como eu era. De todas as

dores que carreguei em minha vida, inclusive a ausência

de minha mãe, o fato de meu pai estar vivo e eu não poder

estar ao lado dele é pior dor. Pois agora lamento não ter

aproveitado sua presença. Se ele soubesse que ia morrer

com certeza teria trabalhado menos e ficado mais ao meu

lado. Quando perguntei a Lúcia se ela soubesse que iria

morrer o que faria? Surpreendi-me com sua resposta:

“Continuaria fazendo o que faço.”

146


Emanuel comentou:

- A maioria das pessoas não pensaria assim. Ela

carrega a certeza de que faz a vontade de Deus. Combati o

bom combate. Viver para mim é Cristo, morrer é lucro.

Assim já não sou quem vive, mas Cristo vive em mim.

- Quem disse isso? Perguntou Felipe

- Paulo meu amigo. E prosseguiu no assunto:

- Os verdadeiros valores da vida se alcançam com

paciência. Quem se precipita perde o que há de melhor na

vida.

- Quem tem pressa come cru. Quem espera

alcança. Disse Felipe.

- Mais importante que esperar é saber se vale a

pena o que se espera. Disse Emanuel.

- Se for uma espera nobre, eu imagino que o céu se

movimenta todo para ajudar. Disse Felipe.

- Pedi e recebereis. Justamente Felipe.

- Por isso que muitas vezes não recebemos o que

pedimos. Disse Felipe.

- Vejo o caso do povo de Canaã. Não conquistaram

a terra prometida, pois não souberam confiar e esperar a

vontade de Deus. Disse Emanuel.

147


- Como assim? O povo não entrou na terra

prometida? Mas eu sempre achei que Israel havia

conquistado Canaã? Disse Felipe.

- O povo de Israel conquistou sim, mas com uma

geração nova. Os que tinham vinte anos para cima não

entraram na terra prometida, morreram no deserto. Disse

Emanuel.

- Nossa! Aquele povo que murmurava o tempo

todo não desfrutou da liberdade de viver na terra da

promessa?

- Justamente! Por não possuírem a mentalidade de

liberdade, foram reféns de si próprio e morreram no

deserto da ignorância e da impaciência. Entrou uma

geração nova com mentalidade nova na terra de Canaã.

Com exceção de Caleb e Josué que pensavam com

dignidade e com espírito de verdadeira liberdade. Assim é

o Reino de Deus, só entra por ele quem é livre. Disse

Emanuel.

Felipe.

- O que é ter pensamento de liberdade. Perguntou

- Vejamos a atitude daquele povo na fronteira de

Canaã. Disse Emanuel e prosseguiu:

148


- Moisés escolheu doze homens representando as

doze tribos para serem espiões de Canaã, a terra

prometida. Foram até a Terra e viram que a terra possuía

cachos de uvas, romã, figos e leite e mel corriam pelo seu

território. Viram também os gigantes de Enac. Voltaram

para Moisés e quais foram suas narrações e

comportamento? Perguntou Emanuel.

- Vieram revoltados com pedras nas mãos e

queriam apedrejar a Moisés e seu irmão Aarão, também

Caleb e Josué. Disse Felipe.

- E queriam trocar de líder e voltar para a

escravidão do Egito. Geralmente o povo escolhe líderes

para escravizá-los. Comer cebola! Trabalhar como

escravos naquele lugar. Em troca de um esforço

temporário de luta pela liberdade preteriam a escravidão

para o resto das suas vidas. Isto é mentalidade de

escravidão. Disse Emanuel.

- Caleb e Josué discordaram deles e defenderam

Moisés. Disse Felipe.

- Sim! Por que possuíam pensamentos de

liberdade. E por possuírem uma mentalidade de liberdade

conseguiam enxergar bem mais longe que os outros.

Enquanto os outros enfatizaram os gigantes de Enac, Josué

149


e Caleb enfatizaram os cachos de uva, o leite e o mel que

corriam naquele lugar, os figos e as romãs. Mas

principalmente o que tinham de maior valor que era a

presença do Senhor que os ordenou e ensinou-os a lutar

por liberdade.

- Por isso entraram em Canaã. Disse Felipe.

- Sim! Por isso ao invés de valorizar o problema,

gigantes de Enac, valorizaram o que tinham como maior

que os gigantes de Enac. Se eles eram enormes, maior era

seu Senhor e maior era o sonho que tinham de liberdade.

Por isso enxergaram as frutas e o leite e mel naquela terra.

Quando carregamos sentimentos nobres e divinos ao invés

de gritarmos de desespero, chorarmos e lamentarmos a

vida inteira murmurando, nos alegramos pelas conquistas

que a vida nos oferece. Disse Emanuel.

- Por isso somos tristes e comportam-nos o tempo

todo como derrotados. Disse Felipe.

- Muitas pessoas sofrem um sofrimento que

inventaram para si como se fosse o gigante de Enac. Além

de sofrer faz o outro sofrer. Se conseguisse desviar os

olhos de Enac e olhasse para Deus enxergariam também

os cachos de uva, as romãs, os figos e o leite e o mel que

adoçam e que estão presentes na sua vida, e aí certamente

150


descobririam que Enac não é tão enorme quanto parece

ser. Disse Emanuel.

- Poxa que bonito. Caleb e Josué foram os únicos

daquela geração que conquistou a terra de Canaã por

enxergar tudo isso. Disse Felipe.

- Caleb e Josué não eram homens de ficar

criticando e murmurando. Eles fizeram história e não

apenas parte da história. Disse Emanuel.

- Espírito de liberdade. Disse Felipe.

- Para enxergar o Reino de Deus é preciso aprender

a degustar o verdadeiro sabor da vida. Sentir o gosto da

uva. Quem coloca sua vida para fazer o bem sempre

enxergará os cachos de uva na sua vida. É impossível ser

infeliz quem ama! Disse Emanuel.

- Mas a tantas pessoas tristes que padecem por

amor a alguém? Disse Felipe.

- Justamente! Padecem porque limitaram o sentido

do amor. Ao invés de amar o Amor, amam um ídolo.

Falou Emanuel.

- Mesmo a mãe pelo filho? Disse Felipe.

- Se o filho for sua única razão de vida com certeza

se transformará em um Enac. Disse Emanuel.

151


Felipe pensou consigo mesmo: Eu sei bem o que é

isso. Coloquei meu pai como se fosse a única coisa da

vida. Tudo girava em torno dele, era minha segurança,

meu único porto. Até que precisei passar pelo que passei

para descobrir que a vida é cheia de oportunidades e que a

chance de ser feliz é muito maior do que ser triste. Sempre

atrelei a minha infelicidade na ausência da minha mãe e

quase repeti o mesmo erro com a ausência de meu pai.

Mas Emanuel me ensinou que ser feliz é questão de

escolha, ou melhor, de enxergar as diversas belezas e

oportunidades da vida.

religião?

Felipe perguntou:

- Para viver o Reino de Deus é preciso de uma

- Para viver o Reino de Deus é preciso amar. Na

verdade o homem não conquista o Reino de Deus. O

Reino de Deus é quem conquistou a humanidade,

regenerando-a e salvando-a da escravidão perpétua. Disse

Emanuel. E acrescentou:

- A religião compete ligar o céu com a terra

fazendo acontecer o Reino de Deus aqui e agora. Viver

uma religião é estar sempre próximo à Fonte da felicidade

o que necessariamente não faz do religioso um especialista

152


do Reino, pois nem todos bebem desta fonte que é Deus.

Vivem na igreja murmurando, perseguindo, acusando,

difamando e o mais grave afastando as pessoas da

verdadeira imagem de Deus, já que compete a eles falarem

do Pai. Viver a religião como fonte renovadora de fé e

amor a Deus é beber da água da felicidade e levar desta

água a quem tem sede.

- Então se eu não conseguir enxergar este Reino e

não saber como vivê-lo, mesmo assim eu experimentarei

suas delícias e seus frutos? Disse Felipe.

- A terra prometida foi conquistada pelo Reino de

Deus. Vivê-la a partir de agora é uma decisão que deve ser

tomada pela consciência da liberdade. Só enxerga o Reino

de Deus que tem olhos para a verdadeira liberdade. Disse

Emanuel.

- Eu quero ser livre! Disse Felipe entusiasmado.

- Então enfrente os paradigmas sem ter medo das

pedradas e incompreensões que o mundo pode oferecer.

Pelos cachos de uvas, os frutos que colherá, valerá a pena.

Disse Emanuel.

- E não são valores materiais. Disse Felipe.

- São valores espirituais. Portanto elevados e

compreendidos com o coração e a alma. Disse Emanuel.

153


- Então é preciso crer? Perguntou Felipe.

- Crer e praticar! Os dez líderes que representam as

dez tribos foram vencidos e exterminados da face da terra,

pois não conseguiram enxergar o potencial que

carregavam. As duas tribos representadas por Caleb e

Josué, conhecidas como Judá, venceram na história e

mantiveram a promessa e a realização do Reino de Deus.

Disse Emanuel.

tia de Felipe

Felipe agora pensava nas pessoas que viviam este

Reino em suas vidas. Eram pessoas felizes. Uma

felicidade não de explosões e risos, mas de uma alegria

perene. Algumas apesar de carregar um grande sofrimento

em vida se comportavam como que se tivessem a certeza

das soluções de seus problemas. Este Reino de Deus

muitas vezes encantou pessoas que ele jamais acreditaria:

drogados, pessoas violentas, gente sem esperança, crianças

mal tratadas, pessoas traumatizadas, gente que estava

depressiva, casais que viviam em pé de guerra, etc. Por

outro lado pensou nas pessoas que nunca estavam felizes.

154


Pessoas que até pisaram na terra prometida, mas

depreciaram a terra. Sua tia era assim.

- Por que será que tem pessoas que não conseguem

enxergar os cachos de uva? Perguntou Felipe.

- Às vezes pelo simples fato de que alguém nunca

lhes falou ou avisou que ali existem cachos de uva. Disse

Emanuel.

- Minha tia murmura o tempo todo e pelo jeito a

vida toda. Disse Felipe.

- Então diga a ela que você é um cacho de uva que

Deus colocou na vida dela. Disse Emanuel.

Emanuel.

Felipe.

- Só se for um cacho podre. Disse Felipe.

- Você conhece a história dela? Perguntou

- Não! Só sei que ela perdeu o marido. Disse

- O marido e o filho. Disse Emanuel.

- Ela teve um filho? Perguntou Felipe.

- Sim seu maior sonho. Falou Emanuel.

- Mas eu nunca o conheci! Disse Felipe.

- Ela o perdeu em seu ventre. Com três meses de

gestação. Foi agredida com chutes e socos pelo seu esposo

que bebia muito e era agressivo. Tal situação acarretou um

155


problema grave na vida dela que nunca mais pode ter um

filho. Seu esposo morreu de cirrose. Então aquela mulher

que era uma menina meiga e gentil se transformou em

alguém amarga. Com isso a impediu de enxergar os

cachos de uva na vida dela. Disse Emanuel.

Felipe ficou chateado por nunca ter perguntado a

ela o que havia acontecido. E disse:

- Não conhecia sua história.

- Para acolher alguém com o coração de Deus e

com o olhar do Reino de Deus é preciso conhecer a

história dele. Por isso Deus ama, pois sabe o que acontece

com cada um de seus filhos. Os homens acham que

resolvem uma situação mandando matar aquela pessoa.

São medíocres. Não se resolve uma situação complicada

com soluções simplistas. Na maioria das vezes este tipo de

discurso é usado contra os pobres.

Disse Felipe.

- Minha tia perdeu o esposo e o filho. Era sozinha.

- Não Felipe, ela não era sozinha. Tinha você e o

irmão que a amava muito. Mas ela preferiu valorizar o

gigante de Enac ao invés dos cachos de uva em sua vida.

- Sempre me senti um estranho para ela e um

dependente de favores dela. Disse Felipe.

156


- Seu pai foi morar ali para fazer companhia a ela.

Ele precisava de alguém que o olhasse, mas não era isso

que fazia com que estivesse ali, quando reclamava a ele,

só não foi embora, pois era solidário com o sofrimento

dela. Por conhecer a história dela ele sabia que era

importante estar ali. Quando você viu sua tia chorar no

enterro de seu pai, aquilo era honesto. Sua tia amava muito

seu pai e pensava que estava atrapalhando a vida dele por

segurar vocês ai com ela. Por isso expulsava vocês dali

para que seu pai encontrasse alguém e que esse alguém

fosse uma madrasta boa para você. Ela sempre fazia esta

oração ao Pai do céu. Mas seu pai jamais abandonaria sua

irmã. Sua tia era cunhada e amiga de sua mãe e quando

você teve que ir morar ali ela ficou com medo de apegar a

você e ter que um dia vê-lo partir para sempre como

aconteceu com seu filho que não nasceu. Por causa do

medo, ela deixou de experimentar o quanto é saboroso um

cacho de uva.

- Puxa vida! Não sei o que falar. Que besteira dela,

eu desejava um beijo, um sorriso, um carinho dela. Chorei

muitas vezes à noite em meu quarto querendo o aconchego

dela. Disse Felipe.

157


- E ela chorava querendo poder lhe abraçar e beijar

e dizer que você e seu pai eram as únicas coisas

importantes na vida dela.

- Que tempo perdido entre nós. Disse Felipe

desacorçoado e arrependido.

- Lembra-se que o tempo que importa é o hoje.

Disse Emanuel acariciando o cabelo de Felipe e

abraçando-o carinhosamente.

Felipe que pensara que tinha chorado tudo que

tinha direito na vida nesta jornada chora agora no ombro

de Emanuel.

- Se ela um dia experimentar o quanto é importante

este abraço e este carinho, tenho certeza que sua vida será

muito melhor. Disse Emanuel.

Felipe pela primeira vez se preocupou

sinceramente como estava sua tia. Se sua fuga de casa lhe

trouxe mais um infortúnio a tantos que já havia sofrido. Se

agora ela estava desesperada procurando-o. Então

Emanuel disse:

- O tempo pertence a Deus não se prenda nele e

confie quando procurar o Reino de Deus em sua vida tudo

dará certo.

158


Felipe e Emanuel agora se ajeitavam para dormir.

Felipe dormiu pensando em sua tia. Pela primeira vez não

dormiu pensando em mortos, mas em vivos. Pensava ele,

enquanto chorava pelos mortos deixou de amar quem

estava vivo. A vida lhe passou em frente e não a

experimentou. Prometera agora chupar todos os cachos de

uvas que houvessem em sua vida e que aqueles que lhe

sobrarem, e eram muitos, partilharia com quem precisava.

Enquanto sonhava acordado ouviu Emanuel

declamar uma poesia que mais tarde disse ser do poeta

Oswaldo Begiato.

Oração a mim mesmo.

Que eu me permita olhar e escutar e sonhar mais.

Falar menos. Chorar menos.

Ver nos olhos de quem me vê

a admiração que eles me têm

e não a inveja que prepotentemente penso que seja.

Escutar com meus ouvidos atentos

e minha boca estática,

as palavras que se fazem gestos

e os gestos que se fazem palavras

159


Permitir sempre

escutar aquilo que eu não tenho

me permitido escutar.

Saber realizar

os sonhos que nascem em mim

e por mim

e comigo morrem por eu não os saber sonhos.

Então, que eu possa viver

os sonhos possíveis

e os impossíveis;

aqueles que morrem

e ressuscitam

a cada novo fruto,

a cada nova flor,

a cada novo calor,

a cada nova geada,

a cada novo dia.

Que eu possa sonhar o ar,

sonhar o mar,

sonhar o amar,

sonhar o amalgamar.

Que eu me permita o silêncio das formas,

dos movimentos,

160


do impossível,

da imensidão de toda profundeza.

Que eu possa substituir minhas palavras

pelo toque,

pelo sentir,

pelo compreender,

pelo segredo das coisas mais raras,

pela oração mental

(aquela que a alma cria e

que só ela, alma, ouve

e só ela, alma, responde).

Que eu saiba dimensionar o calor,

experimentar a forma,

vislumbrar as curvas,

desenhar as retas,

e aprender o sabor da exuberância

que se mostra

nas pequenas manifestações

da vida.

Que eu saiba reproduzir na alma a imagem

que entra pelos meus olhos

fazendo-me parte suprema da natureza,

criando-me

161


e recriando-me a cada instante.

Que eu possa chorar menos de tristeza

e mais de contentamentos.

Que meu choro não seja em vão,

que em vão não sejam

minhas dúvidas.

Que eu saiba perder meus caminhos,

mas saiba recuperar meus destinos

com dignidade.

Que eu não tenha medo de nada,

principalmente de mim mesmo:

- Que eu não tenha medo de meus medos!

Que eu adormeça

toda vez que for derramar lágrimas inúteis,

e desperte com o coração cheio de esperanças.

Que eu faça de mim um homem sereno

dentro de minha própria turbulência,

sábio dentro de meus limites

pequenos e inexatos,

humilde diante de minhas grandezas

tolas e ingênuas

(que eu me mostre o quanto são pequenas

minhas grandezas

162


e o quanto é valiosa a minha pequenez).

Que eu me permita ser mãe,

ser pai,

e, se for preciso,

ser órfão.

Permita-me eu ensinar o pouco que sei

e aprender o muito que não sei,

traduzir o que os mestres ensinaram

e compreender a alegria

com que os simples traduzem suas experiências;

respeitar incondicionalmente

o ser;

o ser por si só,

por mais nada que possa ter além de sua essência,

auxiliar a solidão de quem chegou,

render-me ao motivo de quem partiu

e aceitar a saudade de quem ficou.

Que eu possa amar

e ser amado.

Que eu possa amar mesmo sem ser amado,

fazer gentilezas quando recebo carinhos;

fazer carinhos mesmo quando não recebo

gentilezas.

163


Que

eu jamais fique só,

mesmo quando

eu me queira só.

Amém.

164


O sonho de Davi

Quando o Espírito de Deus

se move em mim eu rezo como o Rei Davi.

Eu rezo, eu rezo, eu rezo como o Rei Davi.

Quando o Espírito de Deus

se move em mim eu pulo como o Rei Davi.

Eu pulo, eu pulo, eu pulo como o Rei Davi.

Eu rezo como o Rei Davi. Eu pulo como o Rei

Davi.

Quando o Espírito de Deus

se move em mim eu luto como o Rei Davi.

Eu luto, eu luto, eu luto como o Rei Davi.

Eu rezo como o Rei Davi. Eu pulo como o Rei

Davi.

Eu luto como o Rei Davi.

Felipe acordou com o cântico alegre de Emanuel.

Esfregou o olho não acreditando no que estava vendo.

Emanuel gesticulava enquanto cantava. Era muito

engraçado. Felipe deu um pulo e acompanhava a canção e

tentava imitar os gestos de Emanuel. E ficaram cantando e

gesticulando até se cansarem. Então Emanuel e Felipe

165


iam, pois pareciam duas crianças alegres e bobas. Felipe

rindo disse:

- Você parecia um moleque.

- Se você não for como uma criança não entrará no

Reino de Deus. Disse Emanuel.

- Como assim? Perguntou Felipe.

Parecia que cada vez que Emanuel tocava no nome

Reino de Deus isso fazia Felipe se interessar dobrado. Ele

se sentia encantado com a idéia de um dia descobrir este

Reino.

- A criança espera sempre a proteção dos pais. Ela

esta lá ou no colo quando bebê, ou quando pequenina

esperando sempre o olhar dos pais e nenhum pouco

preocupada com as coisas da vida. Ela não tem dívidas,

quem tem são os pais. Elas vivem o momento. Se brigam

daqui a pouco fazem as pazes. Vivem cada dia. Vivem

cada situação com intensidade. Se gostam riem. Se não

gostam fazem careta. Não fingem, a não ser quando os

adultos lhe pedem para fingir. São puras e inocentes. Estes

pequeninos são os mais amados de Deus. Aí daqueles que

ofendem um destes pequeninos. Viver o Reino de Deus é

ser como elas. Viver o presente. Acreditar que tudo está

sobre o controle do Pai do Céu. Que não existe um lugar

166


mais seguro do que estar sobre os olhos do Pai. Ser criança

é confiar plenamente em Deus.

Felipe lembrou-se que quando era criança sempre

gostou muito do morro. Lá havias muitas brincadeiras.

Diversões e muitas crianças. Quando se tornou jovem

começou a olhar o morro com preconceito e também as

pessoas. Não sabia por que, mas agora que conheceu

Emanuel ele sente uma vontade enorme de viver pelo resto

da sua vida perto da sua gente e do seu povo. E disse

alegre:

- Eu adquiri de volta minha esperança desde que

lhe encontrei, pois já não tinha esperança alguma.

- Quem tem esperança sonha. Só sonha quem

espera. Disse Emanuel.

- Eu espero fazer algo pelo meu povo lá no morro.

Algo que vale a pena. Disse Felipe com um sorriso de

criança feliz.

- Eu lhe disse que O Reino de Deus está bem mais

próximo do que imagina? Disse Emanuel realizado.

Felipe voltou a sorrir, pois lembrou-se da cena de

Emanuel pulando que nem uma criança. E Disse:

- Pensei que as pessoas de Deus fossem toda

carrancuda, séria e brava.

167


- Como pode ser carrancuda, brava, uma pessoa

que se sente livre para amar? Disse Emanuel.

- Já conheci muita gente que ficava gritando,

amaldiçoando, pessoas que diziam ser de Deus e que

pareciam tão tristes na escolha que fizeram. Nunca tinham

tempo para os outros. Parecem que fogem o tempo todo de

alguma coisa. De si próprios, sei lá. Se sentem donas da

verdade. Disse Felipe.

- Elas não são livres. Não descobriram o Reino de

Deus. Não se sentem realizadas no que fazem e por isso ao

invés de anunciar acabam escandalizando. Disse Emanuel.

- Moisés e Abraão pareciam muito sérios. Todos os

personagens do Reino são assim? Perguntou Felipe.

- Não! Eles eram um pouco vividos e a idade

também não permitia fisicamente serem tão moleques.

Mas, mais importante não são as aparências e sim o

espírito. Para fazer o que fizeram é necessário um espírito

inovador, espírito jovem, entusiasmo. O Reino de Deus se

vive com entusiasmo. A maioria das pessoas perde o

entusiasmo de viver na liberdade de espírito. Isso é se

manter jovem o tempo todo. Ao contrário, existem tantos

jovens de idade que possuem espírito envelhecido. Não

168


vivem com entusiasmo, sonham pequeno e parecem mais

mortos do que vivos.

- Destes personagens existiu algum entusiasmado,

tipo, igual a você? Disse Felipe rindo.

- Meu amigo Rei Davi. Ele sim era alegre. Fazia

salmos e dançava alegremente na presença de Deus. Quer

conhecê-lo?

- Sim eu quero. Disse Felipe.

- Estamos no tempo dele, enquanto dormia, eu o

trouxe para cá.

- Além de conhecer meus pensamentos, conhece

antecipadamente minha vontade? Disse Felipe.

- Vamos dizer que eu o conheço muito bem. Disse

Emanuel. E ordenou:

- Felipe feche os olhos.

Felipe fechou os olhos. Ainda em sua mente estava

ele e Emanuel dançando, de olhos fechados, manteve o

sorriso nos lábios.

- Éfeta! Abre! Disse Firme Emanuel.

Ao abrir os olhos viu que estava em uma casa.

- Onde estamos?

- Na casa de Davi, em Belém.

- É ele? Apontou para o homem que estava ali.

169


- Não! Ele é Isaí, pai de Davi. Esta esperando o

profeta Samuel que virá daqui a pouco e ungirá um de

seus filhos como rei de Israel. Os profetas é que ungiam o

rei da nação naquela época. Vou lhe permitir desta vez ler

os pensamentos deles. Não entusiasme, será só desta vez.

Cada filho de Isaí será apresentado para o profeta Samuel,

cujo Deus dirá ao profeta qual deles será o ungido. Agora

silêncio, Samuel está à porta.

Neste momento Samuel chega à casa de Isaí. Logo

que entraram, Samuel viu Eliab e pensou consigo: -

“Certamente é este o ungido do Senhor”.

Mas o Senhor disse-lhe

- “Não te deixe impressionar pelo seu belo

aspecto, nem pela sua alta estatura, porque eu o rejeitei. O

que o homem vê não é o que importa: o homem vê a face,

mas o Senhor olha o coração”.

Samuel.

Isaí chamou Abinadap e fê-lo passar diante de

- “„Não é tão pouco este, pensou Samuel, que o

Senhor escolheu”.

Samuel.

Isaí fez passar Sama.

- “Não é ainda este que escolheu o Senhor”, pensou

170


Isaí mandou vir assim os seus setes filhos diante do

profeta, que lhe disse:

- “O Senhor não escolheu nenhum deles.”

E ajuntou:

- “Estão aqui todos os teus filhos?”

- “Resta ainda o mais novo, confessou Isaí, que

está pastoreando as ovelhas.”

Samuel ordenou a Isaí:

- “Manda buscá-lo, pois não nos poremos à mesa

antes que ele esteja aqui.”

E Isaí mandou buscá-lo. Ele era louro, de belo

olhos e mui formosa aparência.

O Senhor disse:

- “Vamos, unge-o: é ele.”

Samuel tomou o corno do óleo e ungiu-o no meio

dos seus irmãos. E, a partir daquele momento, o Espírito

do Senhor apoderou-se de Davi.

Emanuel falou novamente a Felipe:

- Fecha os seus olhos.

Felipe fechou os olhos.

- Éfeta. Abre-te.

171


Felipe abriu os olhos e viu uma grande pastagem

com muitas ovelhas. Era muito lindo o local que estavam.

Emanuel disse:

- É aqui que o Rei Davi pastoreia suas ovelhas e foi

daqui que ele escreveu seu lindo salmo sobre o Bom

Pastor. Emanuel então cantou:

Pelos prados e campinas verdejantes eu vou

É o Senhor que me leva a descansar

Junto às fontes de águas puras repousantes eu vou

Minhas forças o Senhor vai animar

Tu és, Senhor, o meu pastor

Por isso nada em minha vida faltará

Tu és, Senhor, o meu pastor

Por isso nada em minha vida faltará (nada faltará)

Nos caminhos mais seguros junto d'Ele eu vou

E pra sempre o Seu nome eu honrarei

Se eu encontro mil abismos nos caminhos eu vou

Segurança sempre tenho em suas mãos

Ao banquete em sua casa muito alegre eu vou

Um lugar em Sua mesa me preparou

Ele unge minha fronte e me faz ser feliz

E transborda a minha taça em Seu amor

172


Com alegria e esperança caminhando eu vou

Minha vida está sempre em suas mãos

E na casa do Senhor eu irei habitar

E este canto para sempre irei cantar

- Nossa que música linda. Senti uma confiança e

um descanso interior muito grande. Disse Felipe.

- Você precisa ouvir Davi cantar com a Harpa.

Disse Emanuel.

- Ele é um músico? Perguntou Felipe.

- É um pastor de profissão, um músico pela paixão

e se tornará um Rei pela missão. Disse Emanuel.

Felipe.

- Admiro as pessoas que cantam e tocam. Disse

- Uma pregação atinge em primeiro a razão, ou

seja, a compreensão. Depois atinge o coração. Se o

coração estiver aberto atinge a alma de uma pessoa. A

música não. Ela vai direto à alma e preenche o coração

mesmo quando não há a compreensão impregnando a

razão. A pregação pede licença. A música entra direto,

pois sua suavidade já é um pedido de licença. A boa

pregação convence. A boa música cativa. Uma pregação

pode ser esquecida, uma música dificilmente é esquecida.

173


A pregação faz você geralmente pensar. A música faz

você sonhar e rezar duas vezes.

- Por isso que você gosta de cantar. Disse Felipe.

- Quem canta reza duas vezes. Já dizia meu amigo

Agostinho. Disse Emanuel.

- Então qual foi a lição de hoje sobre o chamado de

Davi? Perguntou Felipe.

Disse Felipe.

Felipe.

Emanuel.

- O que você viu e ouviu? Perguntou Emanuel.

- Vi que Deus escolheu Davi não pela aparência.

- Sim Felipe. Deus olha o coração. Falou Emanuel.

- É engraçado como Deus chama alguém? Disse

- O que você acha de engraçado? Perguntou

- É que desde o Paraíso nenhum dos personagens:

Adão, Eva, Abraão, Moisés transmitia uma segurança em

relação à importante missão de representar Deus na

História de Salvação. Disse Felipe.

- Porque você acha que eles não tinham preparo?

Perguntou Emanuel.

- Sei lá! Adão e Eva tinha tudo no Paraíso e

meteram as mãos pelos pés. Abraão era um idoso e quase

174


que colocou a missão em maus caminhos, quando pensou

apenas em seu filho Isaac. E Moisés tentou de todas as

formas se esquivar do chamado, mostrava uma

insegurança e era gago. Davi dos irmãos era o que menos

tinha aparência. Entende! Se fosse uma empresa nenhum

deles seria selecionados. A sociedade os teria descartado.

Disse Felipe.

- Pois então hoje aprendeu uma lição para o resto

de sua vida. O que o mundo descarta, o que parece frágil e

fraco, Deus escolhe para fazer deste filho e sua missão um

sinal da força divina. Disse Emanuel.

- No entanto eles no decorrer da sua missão

mostraram atitudes nobres e de uma imensa coragem.

Vestiram a camisa, literalmente falando, e deram a vida

pela missão que lhes foi confiado. Foram heróis na

simplicidade e na limitação que possuíam e isto tornou a

missão deles mais bonita ainda. Disse Felipe, encantado a

cada dia mais com os fatos que estava experimentando e

presenciando.

disse:

- Lembra-se o que o Senhor disse a Samuel? Ele

- “Não te deixe impressionar pelo seu belo aspecto,

nem pela sua alta estatura, porque eu o rejeitei. O que o

175


homem vê não é o que importa: o homem vê a face, mas o

Senhor olha o coração”.

- Que mensagem linda esta. Se Deus olhasse o

aspecto, ou então se estivesse passado no recrutamento de

alguma empresa, eles seriam recusados. Imagina alguém

recrutando uma pessoa gaga, um idoso, um menino

raquítico. Mas Deus não. Ele olha o coração. Disse Felipe.

- As pessoas são olhadas como negócio. Investe em

alguém, como se investe em uma máquina, por exemplo.

Por isso esta sociedade perdeu muito os bons princípios, a

moral e o respeito. Uma empresa não contrata alguém que

tem princípios e ética. Investe naquele que aparentemente

demonstra ambição. Uma empresa prefere ter um

ambicioso ao lado a um justo. O que é tolice tornou-se

sabedoria e capacidade. O que é capacidade e caráter

tornou-se tolice. É a inversão de valores. Disse Emanuel.

Felipe.

- Uma pessoa é avaliada pelo que produz. Disse

- É Felipe, mas as pessoas que tem ética e moral

produzem muito mais que se possa imaginar. Confiança é

tudo. Disse Emanuel.

- Foi isso que Deus viu em Davi e nos outros

também? Perguntou Felipe.

176


- Deus olhou o coração deles. Eram pessoas

sofridas, solitárias e descomprometidas com a vida.

Quanto menos a pessoa se sente importante mais ela

entrega-se a Deus. Abraão considerado um amaldiçoado,

pois sua mulher Sara era estéril e isso era sinônimo na

época de maldição. Deus o chama dizendo que será uma

fonte de benção. Moisés, quando menino perdeu a própria

origem, quando descobre mata um soldado de Faraó para

defender um compatriota, o suficiente para descobrir que

Faraó não o tinha como filho, pois mandou prendê-lo.

Estava foragido e sem a mordomia e a riqueza intelectual e

material do palácio que vivia. Davi era o mais novo dos

irmãos, portanto, pensando na escala de que o primogênito

era oferecido a Deus, o mais novo deveria ficar junto ao

pai. Era um simples camponês e não foi preparado para

um dia partir. Deus escolhe os pequenos e humildes e faz

da vida destes uma alternativa maravilhosa e

compensadora de vida. Lutaram e defenderam o seu povo.

Abraão inicia a História de salvação. Moisés liberta o

povo da escravidão do Egito e da continuidade na História

da Salvação e Davi torna-se rei de Israel. Dele e de seu

povo descende o Messias, o libertador. Veja a importância

destes personagens. Disse Emanuel.

177


- Então Davi tornou-se um rei? Perguntou Felipe.

- Sim lutou contra tudo e contra todos. Venceu e

conquistou não só definitivamente a terra como também a

simpatia de todo o seu povo que o amava muito como Rei,

pois foi justo e bom. Disse Emanuel.

- Foi ele que lutou contra o gigante Golias e o

venceu? Disse Felipe.

- Sim! Enquanto que os profissionais diziam que

esta luta era invencível e que a derrota era certa, Davi não

ficou preso a paradigmas e enfrentou o gigante com a

confiança e a fé que tinha de um poder maior que era

Deus. Não era um profissional robotizado pela ambição e

pelo óbvio e sim um sonhador que por causa de seus

limites sabia inovar e criar. Disse Emanuel.

- Fantástico! Ele foi valente. Disse Felipe.

- Ele como todos os que conseguem enxergar o

Reino de Deus são especiais. Não agem apenas pela razão

e lógica. Não se enquadram ao esquema pré-definido pela

maioria. Não se curvam a tentação do ser, do ter e do

poder pelo simples fato de se mostrarem e serem

respeitados pelos outros. Disse Emanuel.

- O diferenciado é aquele que enxerga além do

óbvio. Disse Felipe.

178


- Exato. E digo mais: o diferenciado enxerga o

essencial e busca a verdadeira felicidade sem se importar

com o que dizem os outros. E faz isso com dignidade,

respeito e amor. O diferenciado tem caráter. Disse

Emanuel.

Disse Felipe.

- Por isso foram perseverantes e grandes homens.

- Lá no céu nós chamamos isso de Sabedoria. Aqui

vocês falam que a pessoa tem personalidade. Disse

Emanuel.

- Você disse que Davi era alegre e extrovertido.

Ele parecia tão tímido. Tão frágil. Disse Felipe.

- Já vi muita gente tímida se transformar pelo

poder de Deus. Disse Emanuel.

- Davi foi um desses? Deus o mudou para

extrovertido? Disse Felipe.

- Não! Deus não o mudou, jamais Deus agride a

liberdade e o jeito de ser de alguém O que Deus fez foi

motivar a Davi a descobrir seu potencial e o que realmente

ele é. Mas lembra-se motivação e auto-ajuda não são

suficientes é preciso fé. Disse Emanuel.

- Um grande Rei, só isso. Disse Felipe sorrindo.

179


- Um Rei amado e querido por Deus e pelo povo. A

inteligência está justamente aí, quando alguém consegue

conviver com diversas pessoas e personalidades sem

perder a sua própria personalidade e respeitando a do

outro. Disse Emanuel.

- Davi foi um líder, na verdadeira concepção da

palavra. Disse Felipe.

- Realmente. Após ele nenhum outro rei conseguiu

agregar todo o povo ao seu lado. Disse Emanuel.

- Lá no morro tem um sujeito, O Negão, que é

responsável da Associação de Bairro, ele é muito

respeitado lá, pois luta pelo povo e tem caráter. Ele é

honesto, simples e duro na queda. Enfrenta até policial

quando precisa defender alguém inocente. Suas palavras

têm força. Todo o morro se orgulha dele.

- Isso é viver o Reino! Disse Emanuel.

Felipe ficou pensativo com que Emanuel disse.

Enxergar o Reino seria lutar por uma causa que vale a

pena. Seria viver uma liderança diferente, um projeto

social ou mesmo um projeto de solidariedade? Então

Emanuel disse:

- Viver o Reino de Deus é ser luz e sal da terra

onde você está. Não importa o que escolheu para você,

180


desde que seja digno e honesto e solidário a quem precisa.

É ir além do deserto, é carregar o sonho de Deus dentro de

você e fazê-lo acontecer na vida das pessoas que estão ao

seu redor, em especial àquelas que mais necessitam. Disse

Emanuel.

- Assim seja! Respondeu Felipe com o coração

batendo forte e desejando viver este Reino em sua vida.

Rei Davi

- Vamos dar mais uma olhada em Davi agora como

Rei. Disse Emanuel.

- Vamos! Disse Felipe entusiasmado.

Felipe estava feliz e a cada dia tinha certeza que

tinha encontrado uma razão maior para sua vida.

Lembrou-se em particular de sua namorada, a Bianca, que

sempre lhe dizia que queria sair do morro. Que lá não

tinha futuro de vida. O povo do morro a achava muito

exibida. Até Lúcia ficava consternada com as atitudes

dela. Certa vez Lúcia disse que pior que rico metido, é

pobre metido a rico. Pensou também em alguém que

sempre teve um carinho diferente. Era a Clara, filha do

Negão, que assim como o pai, era batalhadora e estava

181


sempre no Centro Comunitário ajudando Lúcia. Toda vez

que ele ia lá sentia alegria em vê-la e quando conversavam

a prosa ia longe e ele sentia que sempre saia preenchido

depois da conversa com ela. Mas ela parecia tão

indiferente a namorar, seus assuntos eram diversos e sua

vida um poço de intensidade e paixão por tudo na vida e

principalmente pela doação do povo do morro. Falava com

orgulho e respeito de seu pai. Amava sua mãe e dizia que

nunca seria uma mulher tão combatente e forte como a

mãe. Ela tinha princípios e caráter. Uma honestidade e

uma liberdade interior muito grande. Felipe tinha receio

dela, algo nela o fazia inseguro, mexia com seus

sentimentos e principalmente o deixava sempre corado

quando ela ria e às vezes o abraçava com carinho. Ela era

linda, mulata e de um sorriso maravilhoso. Não falava mal

de ninguém. Cumprimentava a todos e era cumprimentada

por todos. Conhecia o nome de cada pessoa. Bem ao

contrário de Bianca que andava de nariz empinado e que

dizia sempre que não gostava de misturar com esta

gentinha. Falava que Clara era enjoativa e brega e que seu

pai era um pobre sonhador. Felipe se sentia sempre bem

ao lado de Clara, mas sentia uma atração física muito forte

pela Bianca. Então disse baixinho:

182


- Paixão é atração física e amor é atração total.

Felipe olha à sua frente e vê uma das cenas mais

interessante que já observou em sua vida. À frente de um

baú estava o rei Davi com seu povo vestido com um tipo

de tanga seminu, pulava e dançava com o povo, soltando

gritos de alegria e tocando a trombeta. Olhou de longe

uma mulher que parecia furiosa, mais tarde, descobriu que

era Micol, mulher de Davi. Davi instalou o baú, que mais

tarde Felipe descobriu que era a Arca da Aliança, dançou,

pulou, ofereceu holocaustos, sacrifícios pacíficos. O mais

interessante é que ele e Emanuel puseram-se a dançar e a

cantar junto com o povo. Aquilo era contagiante e trazia

uma alegria muito grande no coração de Felipe. Davi

então abençoou o povo e distribuiu alimentos. Quando

voltava para casa para levar a benção à sua família, Micol

sua esposa disse-lhe:

- Como se distinguiu hoje o rei de Israel, dando-se

em espetáculo às servas de seus servos e descobrindo-se

sem pudor, como qualquer um do povo.

Davi lhe deu a seguinte resposta:

- Foi diante do Senhor que dancei. E me abaixei

ainda mais, e me aviltarei aos teus olhos, mas serei

honrado pelas escravas de que falaste.

183


Neste instante Emanuel coloca a mão sobre o

ombro de Felipe e o leva para os prados e pastagens ali

perto e diante de um riacho banham-se e se alimentam.

Felipe percebeu que os alimentos que estavam sendo

servido por Emanuel eram os mesmos que Davi distribuiu

para o povo: bolo, pedaço de carne e uma torta. Felipe

então disse:

- Você aproveitou a festa.

- Nós também merecemos o alimento afinal de

contas dançamos juntos na presença de Deus. Disse

Emanuel feliz.

- Nossa! Que cara maluco este Davi. Um rei ficar

só de tanga e dançar alegre diante daquela arca. Levou até

uma bronca da mulher. Disse Felipe alegre.

- Davi era feliz, pois vivia o sonho de Deus em sua

vida. Disse Emanuel.

- Por que ele agiu desta forma? Perguntou Felipe.

- A Arca da Aliança significa a presença de Deus

no meio do seu povo. A roupa que Davi usava é uma veste

ritual dos sacerdotes, bem como do rei, quando este

exercia a função-sacerdotal. Disse Emanuel.

- E as danças, o ritual, o jeito doido de ele gritar e

dançar? Perguntou Felipe.

184


- Esta postura faz parte da personalidade de Davi.

Disse rindo Emanuel.

- Ele é um rei simples e humilde. O povo amava-o

muito. Ele por sua vez demonstra um grande amor por

Deus e respeito. Tem a consciência do que faz e porque

faz. Disse Felipe.

- Por isso se tornou um grande rei. Um rei que tem

os olhos e o coração voltados para seu povo. O povo

percebe quando é amado. E personalidade é justamente o

que não faltou a Davi. Disse Emanuel.

- Por isso respondeu à sua mulher: “Foi diante do

senhor que dancei.” Disse Felipe.

- Pode ter a certeza de que sua resposta foi sincera.

Seu amor a Deus era enorme e sempre que agia diante de

algo sagrado, como por exemplo, a Arca da Aliança, ele

fazia com o entendimento, a alma e o coração. Pouco

importava o que sua esposa pensava, o importante é que

fez diante de Deus. Tem muita gente que se deixa

influenciar pelo que a esposa, esposo, filhos pensam e

cobram; não possuem personalidade. Para Davi sua

resposta e sua obediência se deviam em primeiro lugar a

Deus. Disse Emanuel.

185


- Que festa vibrante, se fosse lá no morro, durava

até a madrugada. O povo de lá é festivo, um povo sofrido,

mas feliz. Disse Felipe.

Felipe estava aprendendo agora uma nova lição de

vida. Com Adão aprendeu a entender e aceitar suas

misérias. Com Abraão aprendeu a acreditar e entregar sua

vida como benção e as coisas que sempre amou como

secundário em relação a Deus. Com Moisés aprendeu que

deveria desejar a liberdade e enxergar os frutos e as

bênçãos de Deus em sua vida, os cachos de uva como

futuramente sempre se referia ao falar das coisas boas.

Agora com Davi aprendeu a amar seu povo e ter orgulho

da sua origem.

- Davi era um rei que sabia orar diante de Deus,

escreveu salmos, mas o mais bonito é que sempre era

grato e reconhecia a grandeza e o poder em sua vida.

Apesar de ser rei e ter poder, ele jamais deixou de amar e

reconhecer o poder maior que era de Deus. Louvava e seu

louvor era contagiante. Só louva quem reconhece. Só

reconhece quem é grato. É grato quem retribui o que

recebe. Davi é amado por Deus e pelo povo, pois fez do

seu reinado e do poder que recebeu para servir e não

186


dominar. Quer conhecer alguém verdadeiramente?

Perguntou Emanuel.

acrescentou:

- Sim. Respondeu Felipe.

- Dê-lhe poder. Respondeu Emanuel. E

- Todo poder vem de Deus. E o poder é dado para

ser usado como serviço. Não como tirania.

- A maioria das pessoas que tem poder é arrogante

e insensível e usam para benefício próprio. Alguns se

tornam até ditadores. Disse Felipe.

Emanuel.

- Quanto mais recebestes mais será cobrado. Disse

- O sonho de Davi era ser rei? Perguntou Felipe.

- Não, o sonho de Davi era construir o Templo de

Deus. Disse Emanuel.

- Nossa que sonho! Achei que um sujeito chegar a

ser rei e ser amado e respeitado por todo o povo seria um

sonho realizado em sua vida. Disse Felipe.

- Isto é o que torna as pessoas de Deus diferente

das outras. Enquanto a maioria se sentiria realizado com a

perspectiva de ser um rei, Davi sonhava fazer uma casa

para Deus. Mas construir um Templo no coração de Davi

187


significava muito mais do que um prédio, significava seu

amor e zelo pelas coisas de Deus. Disse Emanuel.

- E ele construiu? Perguntou Felipe.

- Não! Deus não permitiu que construísse, ao invés

disso, Deus pediu que Davi construísse sua casa. Disse

Emanuel.

Felipe.

- Não construiu? Ele não tinha casa? Perguntou

- Quem construiu o Templo foi seu filho Salomão.

E ele não tinha uma casa de rei. Disse Emanuel.

- Não entendo, se Davi tinha este sonho e era

pensando em Deus, porque Deus não abençoou esta sua

decisão. Disse Felipe.

- O maior zelo não vem de estruturas e

construções. Elas geralmente fazem com que as pessoas se

sentem aprisionadas, pois estarão sempre dependendo de

ajuda, e quanto mais estruturas, menos livre se sentirá um

filho de Deus. Francisco dizia isso. O maior zelo que você

pode oferecer a Deus não é a construção de um Templo,

de uma casa, um palácio, e sim defender e libertar a vida

de quem sofre. Eis o sonho de Deus na vida de Moisés.

Para Abraão ele disse, deixa sua terra, seus bens, sua

família e até pediu seu único filho, mesmo não aceitando.

188


Entende! As pessoas do seu tempo pensam que agradam a

Deus com estruturas, mas a maioria esta preocupada com

sua instituição. Outros se acham bons administradores na

proporção que constroem e dão lucro. Deus não chama

administradores, Deus escolhe pastores. Há muitos

pastores que abandonam suas ovelhas se escondendo atrás

da administração. Davi pastoreava suas ovelhas com

justiça e amor. Deus espera isso como atitude mais ousada

e santa.

Neste instante Emanuel colocou a mão nos ombros

de Felipe, olhou fixamente nos olhos e disse:

- Você está à busca do Reino de Deus. Não o

busque esperando ver estruturas, nem ouro, nem prata.

Não o procure nas riquezas humanas. Não o busque nos

palácios. Não o busque na grandeza e nem nas aparências.

Lembra-se do que o Senhor disse a Samuel a respeito de

Davi. Não busque rodeado de gente e nem onde existem

multidões. Sua plenitude e sua presença se fazem nos

humildes e simples. Entenda muito bem o que eu lhe digo,

pois ele poderá passar despercebido diante de seus olhos

ou então vivê-lo a vida inteira num reino que você

construiu na verdade baseado em seus sonhos ambiciosos.

Infelizmente as pessoas só acreditam em alguém ou

189


alguma obra quando esta vem acompanhada de multidões,

de estruturas, de artistas, de riquezas e aparências. O

Reino de Deus nada tem a ver com estas coisas. Onde

Deus mais se mostra é onde a maioria menos enxerga. Por

isso o Reino de Deus veio e não o receberam. O mais triste

de tudo isso é que apesar de estar escrito tudo isso as

pessoas do seu tempo conseguiram transformar uma

realidade de santidade, simplicidade e uma realidade

voltada aos pequenos a uma realidade de riquezas e

opulências que nada tem a ver com o Reino de Deus. Não

entenderam o Reino, não entenderam Francisco e não

entenderão o que é essencial. Quem tem ouvidos ouça!

Neste momento Felipe engoliu seco. Ficou com

receio de não conhecer o Reino de Deus. Pensativo e

inseguro teve vontade de até desistir. Emanuel lhe disse:

- Felipe, você sempre esteve perto do Reino de

Deus. Não fuja às suas origens e entenderá e acolherá o

Reino de Deus em sua vida.

Felipe lembrou-se do morro. Cada casinha ali

simples. O povo humilde e sofrido pela situação social e

pelo preconceito. Ali havia artistas, poetas, desenhistas,

escritores, profissionais, gente de muita capacidade.

Porém a injustiça social não permitia serem vistos.

190


Emanuel sorrindo disse a Felipe:

- Vamos voltar para a praça.

Felipe acenou com a cabeça e fechou seus olhos.

Estava muito cansado com todas as informações. Esta

caminhada começou com danças e terminou com um peso

enorme. Parecia que precisava decidir em seu coração o

que realmente queria da sua vida: realizar seu sonho

pessoal, profissional ou viver o sonho de Deus. Sabia que

um não atrapalhava o outro, pois aprendera que era

possível viver seu sonho desde que este sonho o levasse a

viver o sonho de Deus. Felipe parecia decidido que não

sairia mais do morro e que lutaria pela liberdade de seu

povo. E que sua decisão pessoal agora teria que antes

passar pelo filtro do zelo a Deus. Não entendia o porquê,

mas estava com muitas saudades de Lúcia, da sua Tia e

ansioso por conversar com Clara. Ela entenderia o que

aconteceu com ele. Já Bianca iria rir da sua cara. Felipe

estava admirado de como sua vida, ou melhor, suas

decisões tinham mudado tão radicalmente nestes dias que

esteve a caminho do Reino de Deus. Então pensou na frase

de Emanuel a respeito de Davi: “Deus não o mudou,

jamais Deus agride a liberdade e o jeito de ser de alguém o

que Deus fez foi motivar a Davi a descobrir seu potencial

191


e o que realmente ele é.” Felipe percebeu que nesta

jornada a busca do Reino de Deus ele encontrou consigo

mesmo e estava descobrindo quem ele é.

192


O sonho do profeta Elias.

Agora estavam no banco da praça. Felipe encostou

a cabeça no banco e perguntou a Emanuel:

- Qual é a música de hoje?

- Davi cometeu erros e pecou e se arrependeu

profundamente. Por mais obediente que fosse e fiel ele

chegou a falhar. Então vou cantar esta canção de um

salmo:

Por melhor que seja alguém,

chega o dia em que há de faltar.

Só o Deus vivo a palavra mantém

e jamais Ele há de falhar.

Quero cantar ao Senhor, sempre, enquanto eu viver

Hei de provar seu amor, seu valor e seu poder.

Nosso Deus põe-se do lado

dos famintos e injustiçados,

dos pobres e oprimidos,

dos injustamente vencidos.

Quero cantar ao Senhor, sempre, enquanto eu viver

Hei de provar seu amor, seu valor e seu poder.

Ele barra o caminho dos maus,

193


que exploram sem compaixão;

Mas dá força ao braço dos bons,

que sustentam o peso do irmão.

Quero cantar ao Senhor, sempre, enquanto eu viver

Hei de provar seu amor, seu valor e seu poder.

Esse é o Nosso Deus.

Seu poder permanece sempre,

Sua força é a força da gente.

Vamos todos louvar nosso Deus.

Quero cantar ao Senhor, sempre, enquanto eu viver

Hei de provar seu amor, seu valor e seu poder.

Felipe estava cada vez mais em paz! Sentia-se leve

e extremamente grato por encontrar dentro de si mesmo a

liberdade de ser o que realmente era. Sua origem simples e

sua vontade de crescer e amadurecer na fé numa formação

humana sólida e equilibrada. Desejava se formar. Gostava

muito de ciências humanas. Mas com a intenção de se

tornar rico procurava uma formação que lhe desse retorno

financeiro. Mas agora não. Decidiu que se formaria

naquilo que gosta. Que o retorno financeiro não pagaria o

preço de um sonho. Por isso decidiu partir para áreas

humanas como sempre gostou. Aprendeu que deveria

194


viver o sonho de Deus, e que neste sonho priorizaria sua

felicidade. Depois pensava ele, poderia oferecer sua

formação para trabalhar e preparar pessoas para o Reino

de Deus que é um Reino de Justiça.

Felipe acorda com pingos de água que caem sobre

seu rosto. Abre os olhos e percebe que o tempo se fechou.

Uma grande nuvem negra está sobre sua cabeça. Enquanto

que Emanuel inicia mais um dia com a alegria costumeira

de quem estava sempre de bem com a vida.

Felipe.

- Nossa! Parece que vai cair um pé d‟água! Falou

- Teremos uma tempestade! Falou Emanuel.

O Tempo se fechou, começou uma enorme

ventania e os raios e trovões assustadores. Felipe parecia

que nunca tinha visto um temporal tão feio. Os ventos

eram violentos. As árvores balançavam de um lado ao

outro. Temia que algum raio pudesse atingir uma delas. As

águas agora eram torrenciais e ele estava ensopado.

Começou a temer. Nas ruas descia uma enxurrada enorme.

Parecia que as águas levariam tudo.

- Precisamos nos esconder. Disse Felipe assustado

com a violência dos ventos e raios.

- Ficamos em baixo da árvore. Disse Emanuel.

195


Felipe notara que Emanuel sempre estava muito

tranquilo. Não apresentava medo e mostrava uma

confiança sempre grande. Era sereno e transmitia muita

paz. Apesar de toda aquela tempestade, Felipe se sentia

seguro ao lado de Emanuel. Como que a sensação de que

por pior que fosse qualquer tempestade, ao lado de

Emanuel, tudo poderia se acalmar. E foi justamente isso

que aconteceu.

Emanuel.

- Tem medo da tempestade, Felipe? Perguntou

- Tenho! Lá no morro as pessoas devem estar

desesperadas. Sempre quando acontece uma chuva desta

proporção há desmoronamento. Minha tia deve estar com

muito medo, quando começa uma tempestade ela me

chama, me abraça e pede para eu orar com ela. Quando

meu pai esta lá ele sempre se senta ao lado dela e oram

juntos. Disse Felipe.

- Por pior que seja uma tempestade na vida da

gente ela sempre passa. Disse Emanuel.

- Esta parece que não vai passar nunca. Disse

Felipe meio que sorrindo.

Emanuel.

- Passará Felipe. Todas elas passam. Disse

196


- Quando estou em minha casa a noite e escuto a

chuva no telhado sempre lembro de uma canção que meu

pai cantava pra mim. Ela é assim:

Para mim, a chuva no telhado,

é cantiga de ninar,

mas o pobre meu irmão,

para ele a chuva fria,

vai entrando em seu barraco,

e faz lama pelo chão...

Como posso, ter sono sossegado,

se no dia que passou, os meus braços eu cruzei...

Como posso ser feliz, se ao pobre meu irmão,

eu fechei o coração, meu amor eu recusei...

Para mim, o vento que assovia,

é noturna melodia,

mas o pobre meu irmão,

ouve o vento angustiado,

pois o vento esse malvado,

lhe desmancha o barracão...

Neste momento Emanuel parecia chorar, ou era a

água da chuva que descia em seu rosto. Emanuel levantou-

197


se e começou a cantar junto com Felipe esta cantiga.

Enquanto cantava ele estendeu sua mão para o céu e a

tempestade parou, como se tivesse obedecendo às suas

ordens.

- Muito das desgraças que acontecem em seu

tempo são fruto do egoísmo e da incompetência que os

humanos têm em administrar o que Deus na sua infinita

bondade ofereceu. Deus é próspero e tudo fez em

abundância, mas os homens tomaram para si o que não

lhes é devido, uns poucos roubaram o que deveria ser de

todos e por isso a injustiça faz com que desgraças

acontecem o tempo todo. Muitas doenças, tragédias e

tristezas foram criadas pelos homens. Um dia descobrirão

claramente o que o mau uso e a ganância desenfreada

fizeram e criaram de mal para vocês mesmos. Deus jamais

deixou de abençoar seu povo com chuvas torrenciais de

graças. De graça recebestes e de graça deveis dar. Quando

não se obedece ao que Deus pede acontece a desgraça.

Deus sempre ordena para o bem de seus filhos. Mas

jamais Deus desistirá de seus filhos amados. Ele confia na

humanidade e se existem poucos que desrespeitam,

existem outros que são sinais do reino de Deus no meio da

humanidade. Por eles e pelos sofrimentos e doações destes

198


se faz acontecer o Reino de Deus. Na bem da verdade é

um pouco, um resto, mas que faz a diferença. Um pouco

de fermento, fermenta toda a massa.

Felipe estava molhado e tremendo de frio.

Desejava sua casa. Saudades da sua cama. Um banho

quente. Trocar de roupa.

- Vamos precisamos caminhar mais um pouco em

direção ao Reino de Deus. Disse Emanuel.

- Aonde vamos? Tem chuveiro lá? Roupa lavada?

Bom café e algo para comer? Perguntou Felipe sorrindo.

- Tem sim! Tem água. Tem o que comer, uma

comida milagrosa. Roupa não é problema. Disse Emanuel

sorrindo.

- Para onde vamos? Perguntou Felipe.

- Vamos voltar ao Monte Horeb. Disse Emanuel.

Neste momento se abre novamente a porta e Felipe

passa por ela e encontra novamente um lugar tranqüilo

com sol.

- Que lugar é este? Perguntou Felipe.

- Monte Carmelo. Tome as vestes, banhe-se. O

alimento virá depois. Disse Emanuel.

Neste momento Felipe vê um homem em destaque

ao centro em frente a um altar, acompanhado de muitos

199


outros e de uma multidão de pessoas observando. Ele

escarnecia e dizia aqueles homens:

- Gritai com mais força, pois seguramente ele é

deus; mas está entretido em alguma conversa, ou ocupado,

ou em viagem, ou estará dormindo...e isso o acordará.

- Quem é ele? Perguntou Felipe.

- É o profeta Elias e os sacerdotes de Baal!

Respondeu Emanuel

Aqueles homens diante do altar com um cordeiro

invocavam com força por Baal, retalhavam-se com

espadas até se cobrirem de sangue. Mas não acontecia

nada. Parecia que este deus Baal realmente era surdo.

Então Elias chamou todos os outros ao seu redor.

Preparou o altar, colocou a lenha, o boi em pedaços, e

esparramou muita água sobre o altar. Então ele se

aproximou e fez a seguinte oração:

- Senhor, Deus de Abraão, de Isaac e de Israel,

saibam todos hoje que sois o Deus de Israel, que eu sou o

vosso servo e que por vossa ordem fiz todas estas coisas.

Ouvi-me, Senhor, ouvi-me: que este povo reconheça que

vós, Senhor, sois Deus, e que sois vós que converteis os

seus corações!

200


Neste momento desceu do céu um fogo e consumiu

o holocausto, a lenha, as pedras, a poeira e até mesmo a

água.

O povo prostrou-se com o rosto por terra e gritava:

- O Senhor é Deus! O Senhor é Deus!

Neste momento Emanuel retirou Felipe dali.

Achou melhor que ele não presenciasse o que viria depois.

Ele levou Felipe ao alto do monte e ali ficaram para

aguardar a próxima experiência que estava para acontecer.

Emanuel tirou as sandálias dos pés. Felipe ao observar

também tirou seu calçado. Enquanto descansavam em uma

sombra Felipe lhe perguntou:

tirar as sandálias

lugar?

- Agora onde estamos? Parece que conheço este

- No Monte Horeb! Respondeu Emanuel

- A montanha de Moisés. Por isso tirou as

sandálias, pois é um lugar santo? Perguntou Felipe.

- Sim Felipe! Tirar as sandálias dos pés e ficar

descalço é uma atitude significativa.

201


- Me explique, por favor. Aqui temos tantas pedras

e a areia do deserto é quente. Disse Felipe.

- A sandália representa a dignidade de uma pessoa.

Representa também estar calçado: a sua condição social,

seu status diante da sociedade. Adão e Eva andavam

descalços e nus, pois não precisavam viver de aparências.

Após o pecado se sentiram nus, despidos e por isso se

vestiram. Portanto não puderam mais pisar em solo santo,

saíram do paraíso. Tirar as sandálias é despir-se de tudo

aquilo que você pensa que é para ser o que você realmente

é diante de Deus. Pois só quando você abre mão do seu

status, de sua condição social, de seus conhecimentos e

orgulhos é que Deus então pode entrar e realizar a vontade

em sua vida. Tirar as sandálias também nos leva a pensar

em purificação, visto que ela acumula as impurezas dos

caminhos por onde passamos. Quando estamos diante de

Deus não importa quem eu penso que sou, qual foi meu

passado, o que importa é acolher sua vontade. Quem

chega coberto de razões e conhecimentos não permanece

em solo santo. Pisar um lugar sagrado é preciso estar

descalço e deixar de fora tudo o que impede a sua

comunhão com Deus. Chegar a um lugar sagrado com

verdades pré-estabelecidas é nunca encontrar a verdade

202


absoluta. Quem tem os pés calçados, ou seja, não possui

humildade, não permanece em lugar santo. Veja o caso de

Moisés, ele foi educado e criado para ser rei, para

escravizar, com a mentalidade do Egito, do Faraó. Quando

tirou as sandálias ele foi reeducado por Deus para libertar

e não oprimir. Portanto tirar as sandálias é mais que uma

atitude física é uma decisão de mudança, de conversão e

mentalidade. Para conhecer o Reino é preciso andar

descalço do seu eu, das suas vaidades e calçar-se com

atitudes de santidade e reverência diante daquele que é o

Santo dos Santos. Ao tirar minhas sandálias quis que

tomasse esta atitude também para que entendesse que com

humildade e simplicidade saberá viver o Reino de Deus

em sua vida. Quero que a cada experiência e encontro com

Deus verdadeiro possa sair calçado e vestido de pureza e

santidade. Portanto sonhe sempre com os pés no chão e

não calçado com suas vaidades e desejos pessoais.

- E com os olhos em Deus! Disse Felipe.

- Sim! Sonhe alto! Sonhe o sonho de Deus em sua

vida! Completou Emanuel.

- O que houve foi um desafio do profeta Elias aos

sacerdotes de Baal? Perguntou Felipe sobre o fato anterior.

203


- Sim! Elias convocou os mais de quatrocentos

sacerdotes de Baal e pediu que eles invocassem o deus

deles e nada aconteceu, quando Elias invocou o Deus de

Abraão, Isaac... então desceu fogo do céu e devorou todo o

holocausto. Com isso Elias provou que havia um único

Deus.

Falou Felipe.

- Nossa que coragem e ousadia teve o profeta Elias.

- Sim é preciso muita coragem para enfrentar Baal

em sua vida. Disse Emanuel.

- O que é significa Baal? Perguntou Felipe.

- Baal representa toda divindade que alguém

coloca em sua vida. São os ídolos que tomam o lugar de

Deus na vida dos homens. Baal é descrito como um deus

semita e era adorado pelos Cananeus e Fenícios. Baal

significa "O Senhor". A pessoa sem notar deixa que Baal

se torna senhor e proprietário da sua vida. Baal era

principalmente um deus do sol, chuva, trovões, fertilidade

e da agricultura e, em algum momento, ele ultrapassa o

deus da água, Yam.

- Se ele não existe porque Elias teria que ter muita

coragem para enfrentá-lo? Perguntou Felipe.

204


- Ele não existe como deus, pois só existe um só

Deus. Mas está presente na vida das pessoas como

realidade ilusória e enganadora. As pessoas criam ídolos

em sua vida e ele passa a existir, mas como fantasia. Nem

por isso deixa de fazer estragos na vida de um idolatra.

Tudo aquilo que você deposita como confiança absoluta e

solução para sua vida e que não é Deus é então Baal. Baal

toma o lugar que deve ser de Deus e ao invés de você ter

Deus como Senhor da sua vida ilusoriamente toma Baal

como senhor. O dinheiro, os bens temporais, o poder, o

prestígio, a fama, a prosperidade quando colocados como

bem supremo tornam-se o Baal na vida de alguém.

Enfrentar Baal é como jogar fogo do céu queimando toda

mentira e apegos desnecessários.

- É como dizia meu pai: Tem coisas que o dinheiro

não compra. Disse Felipe lembrando-se dos conselhos

sábios de seu pai.

- Justamente. Além de não comprar, como diz seu

pai, Baal retira da vida da pessoa o que é essencial. Não se

pode servir a Deus e ao dinheiro. A prioridade jamais deve

ser o lucro desmedido e sim a dignidade humana. Muitos

se vendem a Baal trocando a vida pela morte, a dignidade

205


pela indignidade, os valores que permanecem pelos

valores que passam. Disse Emanuel.

Disse Felipe.

- Foi justamente isso que o profeta Elias enfrentou?

- Sim! Todo profeta tem a missão de anunciar o

Reino e denunciar as injustiças que aniquilam este Reino.

Disse Emanuel.

- Eu quero ser profeta! Disse Felipe.

- Então peça a Deus coragem e ousadia. Pois

enfrentará os paradigmas e arrumará muitos inimigos em

sua vida. Disse Emanuel.

- Quero enfrentar todos os sacerdotes de Baal com

poder de fogo de Elias. Disse Felipe.

- Este enfrentamento não se dá através de impactos

como você viu ali no altar. Geralmente é uma luta diária

persistente e perseverante. Que deve ser antes de tudo

interior. É uma busca de você mesmo onde deverá a cada

dia convencer a si mesmo a renunciar o que é

desnecessário e optar por valores verdadeiros. Esta batalha

interior se consegue com muita oração e convicção. É

como dizer todo dia, eu venci, por hoje eu enfrentei e

venci. E acima de tudo olhar para o céu e dizer: O pão

nosso de cada dia. O altar onde se dá esta batalha é o

206


coração. Todo dia tem que pedir que o fogo de Deus

queime os ídolos que existem dentro de si. Esta batalha é

espiritual e só é compreendida com a alma e, portanto

vencida com a firme decisão que vem da fé.

- Meu pai e minha tia oravam todo dia antes das

refeições a oração do pai nosso. Disse Felipe.

- Vencer Baal não é ver fogo do céu todo dia

descendo e sim manter o fogo de Deus todo dia aceso em

seu coração. Disse Emanuel.

- Como faço para manter este fogo aceso?

Perguntou Felipe.

- Teremos uma experiência muito bonita do profeta

Elias. E saberá o que fazer para manter o fogo de Deus

aceso dentro de si. Disse Emanuel.

- Vamos para onde agora? Disse Felipe ansioso

para aprender cada vez mais.

- Voltaremos aqui no Monte Horeb. Agora vamos

ao encontro de Elias. Disse Emanuel.

- O Monte de Moisés. Disse Felipe.

- O Monte da Oração. O monte sempre é um lugar

de adoração e oração. Lugar de encontro com Deus. Para o

povo da bíblia os mandamentos se resumiam em Lei e

Profeta. A Lei representada por Moisés e profeta

207


epresentado por Elias. Portanto os dois se encontram no

mesmo lugar: Monte Horeb que representa o Reino de

Deus. A Lei e os Profetas têm seu sentido na compreensão

e no serviço ao acolhimento do Reino de Deus.

Felipe então viu se aproximar o profeta Elias no

Monte Horeb. Estava abatido. Cabisbaixo depois de ter

andado um dia no deserto, sentou-se debaixo de uma

árvore.

- Porque Elias está tão desanimado. Agorinha de

pouco esta mandando fogo do céu, num espetáculo de

poder e força de Deus. Como pode estar assim agora?

- Como eu te disse. Caminhar na presença de Deus

é saber viver o cotidiano e não viver de espetáculos

extraordinários o tempo todo. Disse Emanuel.

- Mas já desanimou? É estranho! Algo aconteceu

com ele? Perguntou Felipe.

- Ele enfrentou Baal que representava o poder de

uma mulher chamada Jezabel, a rainha, que com ódio

mandou que matasse o profeta Elias. Ele está aqui

foragido e com medo. É o que eu digo, é preciso muita

coragem para enfrentar Baal, pois mexerá com mordomias

de muita gente, será incompreendido e perseguido.

Mandar fogo descer do céu é fácil manter este fogo aceso

208


no coração durante a perseguição e no cansaço é o desafio

de quem quer ser profeta de Deus. Acreditar enxergando o

extraordinário qualquer um acredita. Acreditar no

cotidiano da vida, no deserto e também na secura é para

quem ama de verdade.

- É verdade. O fato de ser órfão de mãe me deixava

triste e com revolta com Deus. Mas eu ponderava, quando

meu pai faleceu então joguei todo meu ódio e culpa em

Deus.

- Felipe não se culpe por isso. Passou um momento

muito difícil da sua vida. Deus se sentiria triste se você

não tivesse falado o que realmente sentia em seu coração.

Sua oração chegou até Ele e jamais Deus se ofenderia.

Lembra-se, espiritualmente falando, nada pode atingir a

magnitude e Bondade de Deus por você. Quando precisar

desabafar, grite e Deus estará ao seu lado sempre.

A conversa foi interrompida por uma frase de Elias

que disse a Deus:

- “Basta, Senhor, disse ele; tirai-me a vida, porque

não sou melhor que meus pais”.

Felipe agacha-se e olha frente a frente a Elias que

havia adormecido de tanta tristeza. Dos seus olhos

escorrem lágrimas. Ele se lembrou daquele dia em que

209


estava no banco da praça e o desejo do seu coração era o

mesmo do desejo de Elias. Desejou a morte e não via mais

razão alguma para viver. E por não possuir um sonho que

superasse sua dor preferiu a morte. Felipe chorando como

se estivesse olhando para si próprio disse:

- Elias! Acredite! Não desista! Eu sei do que estou

falando. Também pensava assim, mas Emanuel me

ensinou a sonhar o sonho de Deus. Há muitas razões que

devem nortear seu coração e não a mesquinhez de desejar

a própria morte, sim, existe milhares, milhões de pessoas

que precisam do seu testemunho profético. Não tenha

medo. Deus é nossa esperança e quando o conhecemos

descobrimos uma maneira renovada de viver. Você pode!

Acredite por favor, não desista antes de conhecer esta

caminhada maravilhosa que é o Reino de Deus. Olhe as

estrelas do céu, olhe os grãos de areias. Veja quantos

cachos de uva existem em sua vida. Deus é maior que

Jezabel! Nós venceremos!!!!

Emanuel emocionou-se profundamente. Abaixou-

se junto a Felipe. Colocou a mão no ombro de Felipe e

Elias e disse:

- Levanta-te e come

210


Elias e Felipe olharam e viram junto deles um pão

cozido debaixo da cinza, e um vaso de água. Comeram,

beberam e Elias de tão desacorçoado que estava deitou-se

e dormiu novamente.

- Emanuel tocou novamente nos ombros de Felipe

e Elias e disse:

- Levanta-te e come, porque tens um longo

caminho a percorrer.

Elias e Felipe levantaram-se, comeram e beberam

e, com o vigor daquela comida, parecia que Felipe havia

adquirido uma força enorme, uma vitalidade como se

estivesse sustentado por diversos dias. Emanuel lhe

explicou que aquele alimento dera energia suficiente para

Elias caminhar quarenta dias no deserto até a montanha

Horeb. Disse a Felipe que aquele alimento o sustentaria

agora até o final da jornada para encontrar o Reino de

Deus. Na verdade esta jornada representava um tempo

necessário de mudança de mentalidade que Felipe e Elias

precisavam passar. O número quarenta na Bíblia significa

um período completo. Era preciso que adquirisse a idade

adulta da fé. Quarenta anos a terra é lavada de toda

imundice na criação. Quarenta anos é o tempo que o povo

ficou no deserto. Quarenta é o tempo da maturidade.

211


Felipe estava a cada dia mais maduro na fé e pronto para

em breve experimentar o que seria o maior impacto da sua

vida: O Reino de Deus!

Felipe.

- Que pão delicioso, que alimento poderoso. Disse

- É o pão do céu! Tem gosto de céu! Disse

Emanuel sorrindo.

- É melhor do que a picanha que me preparou.

Disse Felipe sustentado e alimentado.

- Tem proteínas que você nem imagina. São

proteínas espirituais. Acredite é apenas um aperitivo do

verdadeiro Pão do Céu. Daquele que se fez alimento e

sustento para salvação de toda a humanidade. Falou

Emanuel.

- Às vezes eu acho você um pouco complicado,

meio enigmático. Disse Felipe.

- Quando conhecer o Reino de Deus entenderá o

que estou falando. Disse Emanuel rindo do jeito de Felipe.

A brisa ligeira

Agora estavam no Monte Horeb novamente, desta

vez Felipe tomou a iniciativa e tirou o calçado. E disse:

212


- Quero estar despido para compreender o que

Deus quer me falar neste dia. Quero estar nu de todos os

meus pensamentos para que Deus me acolha como sou.

Quero estar despido de toda a minha verdade para

conhecer a verdade de Deus. Quero estar nu do meu

passado para acolher o presente que Deus me oferece.

Quero estar despido principalmente da minha imagem,

para ser imagem e semelhança do Pai. Disse Felipe com

convicção e fé.

- Os quarentas dias vividos com o pão descido do

céu lhe fizeram muito bem à sua maturidade. Disse

Emanuel feliz pelo progresso de Felipe.

Emanuel.

voz lhe falou:

- Vamos para perto daquela caverna. Continuou

Elias estava ali, passara a noite inteira. Então uma

- “Que fazes aqui, Elias?”

Ele respondeu:

- “Estou devorado de zelo pelo Senhor, o Deus dos

exércitos. Porque os israelitas abandonaram a vossa

aliança, derrubaram os vossos altares e passaram os vossos

profetas ao fio da espada. Só eu fiquei, e querem tirar-me

a vida”.

213


O Senhor disse-lhe:

- “Sai e conserva-te em cima do monte na presença

do Senhor: ele vai passar”.

Nesse momento passou diante do Senhor um vento

impetuoso e violento, que fendia as montanhas e quebrava

os rochedos; mas o Senhor não estava naquele vento.

Depois do vento, a terra tremeu; mas o Senhor não estava

no tremor de terra. Passado o tremor de terra, acendeu-se

um fogo; mas o Senhor não estava no fogo. Depois do

fogo ouviu-se o murmúrio de uma brisa ligeira. Tendo

Elias ouvido isso, cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-

se a entrada da caverna. Uma voz disse-lhe:

- “Que fazes aqui Elias?”

Ele respondeu:

- “Consumo-me de zelo pelo Senhor, o Deus dos

exércitos. Porque os israelitas abandonaram a vossa

aliança, derrubaram os vossos altares e passaram os vossos

profetas ao fio da espada. Só eu fiquei, e querem tirar-me

a vida.”

Damasco”.

O Senhor disse-lhe:

- “Retoma o caminho do deserto, na direção de

214


Elias partiu! Felipe e Emanuel ficaram ali na

caverna. Felipe teve vontade de permanecer em silêncio.

Sentia uma brisa suave bater em seu rosto. Parecia que

uma mão o acariciava. Sentia um alento e descanso

enorme. Sentiu-se amado e protegido. Aquela brisa suave

de tão normal que era lhe transmitia a simplicidade da sua

vida.

- Que brisa gostosa! Disse Felipe enquanto

avistava Elias partindo para o deserto.

- Esta brisa suave é como o ar que respiramos. Está

sempre nos mantendo vivo, mas não percebemos a sua

importância. Imagine se um dia o ar faltar, ou a água,

enfim o essencial para vida. Assim é Deus. Está presente

como esta brisa que acaricia seu rosto. Ele é essencial para

a vida. Ele é a força que rege todo o Universo em favor da

humanidade. Não cobra por isso, é discreto e sempre

presente. Os homens na maioria das vezes não nota sua

presença, pois Ele não se impõe. Mas se Ele faltar nada

existirá. Porém nunca faltará, pois sempre existiu e sempre

existirá. Ele é a razão da vida. A Ele e somente a Ele

pertence a vida. Seu amor é como este ar que respira, o

amor de Deus gera vida. Eu fui gerado por Deus no amor.

Eu e o Espírito de Deus. Eu o amo e Ele me ama com

215


amor incondicional. Nós amamos a humanidade com amor

incondicional. Disse Emanuel como que embriagado pela

presença perene daquela brisa.

- Elias parece que partiu preocupado? Imagino que

o caminho do deserto seria sua última escolha. Disse

Felipe.

- Geralmente a humanidade não escolhe o que é

primordial, Deus é comumente sua última escolha e

quando o homem está cansado, Deus é a sua primeira

escolha de descarte. Disse Emanuel.

- Escolher Deus é optar pela felicidade. É uma

escolha inteligente. Disse Felipe.

- Mas os homens dizem que não tem tempo para

esta escolha. Disse Emanuel.

- Tempo é uma questão de preferência. Se

soubéssemos o quanto é importante Deus em nossas vidas

preferiríamos a Deus não como primeira escolha, e sim

como necessidade. Não fazemos favor a Deus optando por

Ele, decidimos por nós e pela nossa felicidade quando

Deus é minha preferência. Disse Felipe.

- Porque este mandamento, que hoje te ordeno, não

te é encoberto, e tampouco está longe de ti. Não está nos

céus, para dizeres: Quem subirá por nós aos céus, que no-

216


lo traga, e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos? Nem

tampouco está além do mar, para dizeres: Quem passará

por nós além do mar, para que no-lo traga, e no-lo faça

ouvir, para que o cumpramos? Porque esta palavra está

mui perto de ti, na tua boca, e no teu coração, para a

cumprires. Vês aqui, hoje te tenho proposto a vida e o

bem, e a morte e o mal; Porquanto te ordeno hoje que

ames ao SENHOR teu Deus, que andes nos seus

caminhos, e que guardes os seus mandamentos, e os seus

estatutos, e os seus juízos, para que vivas, e te

multipliques, e o SENHOR teu Deus te abençoe na terra a

qual entras a possuir. Porém se o teu coração se desviar, e

não quiseres dar ouvidos, e fores seduzido para te

inclinares a outros deuses, e os servires. Então eu vos

declaro hoje que, certamente, perecereis; não prolongareis

os dias na terra a que vais, passando o Jordão, para que,

entrando nela, a possuas; os céus e a terra tomo hoje por

testemunhas contra vós, de que te tenho proposto a vida e

a morte, a bênção e a maldição; escolhe pois a vida, para

que vivas, tu e a tua descendência, amando ao SENHOR

teu Deus, dando ouvidos à sua voz, e achegando-te a ele;

pois ele é a tua vida, e o prolongamento dos teus dias; para

217


que fiques na terra que o SENHOR jurou a teus pais, a

Abraão, a Isaac e a Jacó, que lhes havia de dar.

- Que palavra forte e bonita. Tudo esta ao nosso

alcance. É só desejar que e o Reino acontecerá em nossa

vida. Disse Felipe.

- Justamente Felipe, sábias palavras. Cresceu

quarenta anos em um. Disse Emanuel admirando sua

maturidade espiritual. E prosseguiu:

- Qual foi sua experiência de hoje?

- Vi que Elias estava no Monte Horeb em profundo

zelo por Deus. O Monte que é o local do encontro e da

oração. Hoje me tocou muito a forma como Deus se

manifestou a Elias.

- Elias não estava ali por causa de Deus. Nem por

causa de seu zelo. Também não estava em oração. Disse

Emanuel.

- Não? Perguntou Felipe meio decepcionado

consigo mesmo.

- Felipe nem toda expressão de oração ou devoção

é necessariamente sincera ou correta. Há pessoas que se

escondem atrás de uma devoção convencional, oram com

os lábios, mas o coração esta distante. Alguns fazem da fé

uma alternativa convencional para alcançar objetivos

218


particulares e sonhos pessoais. É impossível adorar a Deus

de coração sincero e permanecer insensível a realidade

onde se encontra. Todo zelo a Deus leva a uma missão

concreta. Disse Emanuel.

- Como eu sei que não estou louvando de forma

convencional? Perguntou Felipe

- Se o fruto da sua oração e devoção leva-o amar.

Disse Emanuel.

Felipe.

- E Elias não estava ali por amor? Perguntou

- Não! Ele estava ali escondido e com medo da

rainha Jezabel que o jurou de morte. Disse Emanuel.

Disse Felipe.

- Poxa! Mas a experiência que teve foi tão intensa.

- Por que a experiência não depende de você, é

gratuidade e vem de Deus. Deus não olha a fraqueza

humana para agir. Ele age porque tem poder e não pela

força do homem. Elias estava com medo e quando um

profeta tem medo de anunciar e denunciar ele perde a sua

maior essência e, portanto perde também sua identidade. O

louvor convencional é um fato grave e acontece

justamente na vida de quem se acostumou com a graça e

perdeu seu primeiro amor.

219


- Por isso Deus perguntou a ele o que estava

fazendo ali? Foi então um puxão de orelha? Perguntou

Felipe.

- Sim! Foi uma tomada de consciência da

verdadeira missão de um profeta. O que Elias disse a

Deus? Ele disse: ““Estou devorado de zelo pelo Senhor, o

Deus dos exércitos. Porque os israelitas abandonaram a

vossa aliança, derrubaram os vossos altares e passaram os

vossos profetas ao fio da espada. Só eu fiquei, e querem

tirar-me a vida”.

- É mesmo! Então ele se escondeu no Monte

Horeb? Falou Felipe.

- Sim se escondeu numa fé de conveniência. É

muito confortável justificar sua miséria e seu medo se

escondendo. Os covardes se escondem enquanto que o fiel

expõe sua vida. Porque quando você expõe sua vida, é

perseguido e criticado. Ninguém joga pedra em árvores

sem frutos. Respondeu Emanuel.

- Lá no morro o Negão é amado por muitos, mas

existem aqueles que o critica. Dizem que ele recebe

dinheiro público e também é patrocinado por grupos de

interesse. Ele já chegou a levar uma surra à noite por

pessoas que quiseram fazê-lo calar. Mas ele é forte, não

220


desiste e depois que apanhou ganhou mais força ainda. O

povo parece que se uniu a ele e isto intimidou uma nova

retaliação. Disse Felipe.

- Pois então, Elias disse: “que os israelitas

abandonaram a vossa aliança, derrubaram os vossos

altares e passaram os vossos profetas ao fio da espada”. Se

tudo isso estava acontecendo, aonde o profeta deve estar?

Perguntou Emanuel.

- Deve estar onde precisa? Disse Felipe meio

inseguro na resposta.

- Justamente! É muito fácil ser profeta na

montanha, distante da necessidade do povo. Deus o

chamou para ser profeta aonde a palavra precisa ser

semeada. Disse Emanuel.

- Mas ele tava jurado de morte pela rainha Jezabel.

Aja coragem para enfrentar o poder. Disse Felipe.

- Por falta de coragem existem pessoas morrendo

de fome, sem terra, sem direitos e sem a presença forte de

Deus. É nessas condições que realmente você encontra

pessoas que tem unção. Que estão morrendo de zelo por

Deus! Disse Emanuel.

221


- Literalmente falando! O Negão já foi jurado de

morte várias vezes. Mas ele não arreda o pé de lá. Disse

Felipe.

- As pessoas podem tirar a vida de alguém, mas

não podem comprar a alma e nem a dignidade de alguém.

Disse Emanuel.

- Portanto Deus é Poderoso! Disse Felipe.

- Sim! Deve-se ter medo não de quem tira o corpo

e sim que faz perder a alma. Disse Emanuel.

- E Elias estava preocupado com sua vida. Ele

disse: “Só eu fiquei, e querem tirar-me a vida”. Comentou

Felipe.

- Não é fácil manter a fé nestas circunstâncias.

Continuou Felipe.

- Por isso é preciso de muita disciplina e

determinação. Eis o segredo de uma vocação firme e

consistente. Disse Emanuel.

- Como se mantém disciplina e determinação?

Perguntou Felipe.

- Deus disse a Elias para ir ao alto do Monte na

presença do Senhor, pois ele vai passar. Você precisa

manter a disciplina do que lhe leva a enxergar o Senhor

222


em sua vida e a determinação de procurá-lo sempre em sua

vida onde ele realmente está. Disse Emanuel.

- Onde ele realmente está? Perguntou Felipe.

- Está comumente no murmúrio de uma brisa

ligeira. Geralmente Deus é procurado nos sinais

extraordinários. Quem o procura assim não está

interessado em comprometer-se com seu projeto e sim no

que Deus pode oferecer. Pois comprometer-se é dar a vida.

Disse Emanuel.

- Pensei que quando veio aquele vento impetuoso e

violento que até fendia a montanha e rachava as rochas, o

tremor de terra e o fogo, fosse a presença de Deus. Disse

Felipe.

- Mas foi na ligeira brisa que você sentiu a

presença dEle. Disse Emanuel.

- Senti uma enorme paz! Como que se o Pai

estivesse acariciando meu rosto com aquele vento

tranquilo que batia em meu rosto. Disse Felipe.

- Quem vive atrás de sinais e de graças apenas, não

conhece o Senhor e viverá da ignorância da sua real

presença. Disse Emanuel.

- O que é a brisa ligeira? Perguntou Felipe?

223


- A brisa ligeira é o cotidiano da sua vida. É no dia

a dia que você realmente vive Deus. Tremores, vento

impetuoso, fogo não são comuns. A brisa é comum. O ar

que respiramos é comum. Portanto viver Deus é como

respirar o ar. Deve estar o tempo todo em sintonia com o

seu amor. É ser fiel a Deus nas pequenas coisas. Quem

não é fiel nas pequenas coisas da vida como poderá ser nas

grandes? O tempo todo Deus está ao seu lado e dando

sinais da sua presença. Estes pequenos sinais na verdade é

que são necessários para sua sobrevivência espiritual,

assim como o ar que respira, a água que bebe, o sol que

lhe ilumina. Nem percebemos sua existência às vezes, mas

eles não podem faltar, pois não haverá condições de vida.

Deus é assim! Tão discreto. É poderoso, mas ao mesmo

tempo simples. Ele não pode faltar à sua vida. É Ele que

sopra o ar, Ruah, da vida em você. O sorriso de uma

criança, o alimento cotidiano, o trabalho, a saúde, o nascer

e o por do sol, a oração, o perdão, o pão de cada dia, a

chuva, um abraço, um beijo, a natureza, os bens temporais

necessários para sua sobrevivência, os filhos, a esposa, o

esposo, o pai, a mãe, a família, a amizade, uma mão que

lhe estende quando mais precisa, enfim tudo que parece

ser tão comum é a presença perene de que Deus está ao

224


seu lado. Valorizar os sinais cotidianos e essenciais à sua

felicidade é sentir a presença de Deus.

Felipe refletiu sobre sua vida. Estava sempre

correndo para lá e para cá. Quando seu pai o chamava para

ajudá-lo no serviço de jardineiro ele murmurava pela

vergonha de ser aprendiz de jardineiro e pelo trabalho em

si que não gostava. Passava poucas vezes no centro

comunitário para falar com a Lúcia. Não dialogava com

sua tia. Às vezes nem bebia água necessária e quanto

tempo fazia que nem reparava no nascer e por do sol. Seu

tempo era preenchido por reclamações e murmurações do

tipo: não ter mãe, não suportar sua tia, não ser feliz, não

gostar do que o pai fazia, não entender porque Lúcia

perdia tanto tempo no Centro Comunitário. Ficava o maior

tempo da sua vida ao lado de Bianca falando do futuro,

sonhando com dinheiro, menosprezando o morro e as

pessoas de lá. Falando mal da sua vida. Se pudesse voltar

ao tempo em que seu pai estava vivo pegaria uma enchada

e o convidaria a trabalhar em algum jardim. Como pode

ser tão egoísta e não perceber que era esta a hora que Deus

proporcionava a ele ficar junto com quem mais amava.

Muitas vezes seu pai puxava assunto com ele e ele mal

humorado o desprezava. Se pudesse voltar ficaria a vida

225


inteira no jardim ao lado do pai, é o que mais desejava

hoje. No jardim cotidiano da sua vida a flor mais bela era

seu pai e ele não percebeu. Deus passou e eu não vi.

Lembrou-se do que seu pai lhe disse certa vez em um

destes jardins: “Filho nós colhemos o que plantamos na

vida”. Então disse a Emanuel:

- A gente colhe o que planta.

- Felipe, se colhe o que planta. Plante agora, pois o

que não plantar hoje, amanhã não poderá colher e o hoje

que não plantou é ontem, portanto não poderá plantar

mais. Então olhe suas mãos, olhe os berakas da sua vida, e

hoje poderá no cotidiano da sua vida preparar um belo

jardim. Amanhã com certeza as flores estarão rindo pra

você. Disse Emanuel.

- Hoje eu quero ser feliz. Hoje eu quero plantar.

Hoje eu serei o jardineiro da minha vida. Disse Felipe.

- Seja sempre um aprendiz do Jardineiro Divino,

pois é nas pequenas coisas que encontramos Deus. Disse

Emanuel sorrindo.

- Sabe que eu estou sentindo orgulho de ser

aprendiz de jardineiro. Meu pai me ensinou que a vida

pode ser mais colorida se eu plantar e cultivar flores de

226


afeto e carinho. Eu deveria ter aprendido isso enquanto

meu pai estava vivo. Disse Felipe.

- O que passou...passou. Hoje você está maduro

para enxergar isso. Hoje você pode fazer a diferença.

Hoje! Felipe lança em seu coração a semente do perdão a

si mesmo. Disse Emanuel.

Felipe sentiu um alívio grande dentro de si.

Repetiu muitas vezes: eu me perdou! Felipe agora estava

com a alma mais leve do que nunca. Havia perdoado a si

mesmo.

- Então Elias após esta experiência compreendeu o

que Deus queria dele? Perguntou Felipe.

- Deus falou a ele após esta experiência que

voltasse para o deserto, que representa enfrentar suas

dificuldades e seu medo. Ele voltaria para onde estava

jurado de morte. Lá Deus o queria morrendo de zelo.

Disse Emanuel.

- Ele foi morto? Perguntou Felipe.

- Elias foi arrebatado ao céu em vida por uma

carruagem de fogo. Ninguém morre servindo a Deus. Pois

a promessa de Deus na vida daquele que o ama e serve é

Vida em Plenitude. Quem vive Deus não morre: eterniza.

É Vida Eterna!

227


- Ser fiel por alguns momentos é fácil, permanecer

fiel pelo resto da vida é disciplina e determinação. Para

isso é preciso não almejar por sinais extraordinários e sim

saber respirar a brisa suave da presença de Deus por toda a

vida. Disse Felipe.

- Bonita lição deste dia. Quando falo em sonhar o

sonho de Deus, não falo do extraordinário, da ambição de

ser de Deus a todo custo, falo do cotidiano. Daquilo que se

constrói diariamente a cada passo de uma vez. É degustar

o sabor de ser feliz ao lado de Deus em sua vida. Então

quando olhar para o passado verá que as pequenas coisas

fizeram uma enorme diferença na vida de quem amou.

Poderá olhar para o futuro de alma lavada e de consciência

tranquila, pois semeaste um futuro melhor. Mas não se

esqueça nunca que tudo acontece hoje e, portanto hoje

viva o sonho de Deus. Disse Emanuel.

- Quero fazer muitas pessoas felizes! Disse Felipe.

- Muitas pessoas não é pequena coisa. Como disse

minha amiga e amada Teresa de Calcutá: “Por uma alma

vale a pena. Posso ser uma gota no oceano, mas sem esta

gota o oceano seria menor”. Disse Emanuel.

- Serei uma gota. Disse Felipe

228


- Então não carregará o peso de fazer muito e sim a

satisfação de fazer com intensidade o que faz. Deus é

quem faz! A você cabe o desejo sincero e não

convencional de desejar servir. Subir ao monte é

justamente buscar na oração sincera, aquela que brota do

coração e que lhe dá o desejo de ser de Deus. Disse

Emanuel.

- Amém! Assim seja! Eu quero! Disse Felipe em

uma solene profissão de fé.

229


O sonho de Maria

Após um ótimo sono inicia-se um novo dia e

Emanuel estava como sempre cantando:

Vou lhe contar uma história

de uma jovem chamada Maria,

em Nazaré da Galiléia

outra igual eu não sei se existia.

Não sei se eram verdes seus olhos,

se tinha cabelos morenos,

só sei que Maria de Nazaré,

resolveu se casar com José.

Vou começar minha história

relembrando as garotas de então,

em Nazaré da Galileia

o assunto era libertação.

Não sei se eram verdes seus olhos

se tinha cabelos morenos,

só sei que Maria de Nazaré,

resolveu assumir sua fé.

Vou prosseguir minha história,

relembrando as idéias que havia,

230


em Nazaré da Galileia

a mulher muito pouco valia.

Não sei se eram verdes seus olhos,

se tinha cabelos morenos,

só sei que Maria de Nazaré,

foi a santa mulher de José.

Vou recordar nesta história

as batalhas que o mundo hoje trava,

em Nazaré da Galileia

lá também já se massificava.

Não sei se eram verdes seus olhos,

se tinha cabelos morenos,

só sei que Maria de Nazaré,

inda não conhecera José.

A jovem senhora um dia

recebeu um recado divino,

por ela o amor nasceria

a verdade seria um menino.

Não sei se eram verdes seus olhos,

se tinha cabelos morenos,

só sei que Maria de Nazaré,

aceitou, mas não disse a José.

Vou lhe falar da agonia,

231


que nos dois corações se criou,

pois ela explicar não podia

e o marido, julgar não ousou.

Não sei se eram verdes seus olhos,

se tinha cabelos morenos,

só sei que Maria de Nazaré,

mereceu o amor de José.

Para Belém noite e dia,

caminharam pro recenseamento,

ninguém deu abrigo a Maria,

não havia mais alojamento.

Não sei se eram verdes seus olhos,

se tinha cabelos morenos,

só sei que no ventre daquela flor,

rejeitaram o libertador.

Vou terminar minha história,

recordando os casais de hoje em dia,

em Nazaré da Galileia

o divórcio também existia.

Não sei se eram verdes seus olhos,

não sei se foi loira ou morena,

só sei que Maria de Nazaré,

foi fiel a seu Deus e a José.

232


- Mais uma música, e esta conta a história de uma

mulher. A música é de quem? Quem é esta mulher?

Perguntou Felipe.

Emanuel.

- A música é do meu amigo Zezinho. Disse

- Você gosta das músicas dele! Falou Felipe.

- Sim! Um dos meus preferidos. Disse Emanuel.

- E a mulher quem é ela? Perguntou Felipe.

- A criatura mais singela e mais bela que eu

conheci. Felipe! Ela é minha mãe! Disse Emanuel.

- Eu gostaria de conhecer sua mãe. Disse Felipe.

- Você a conhecerá e acredite nunca mais se

esquecerá dela. Disse Emanuel.

- Você é um filho coruja! Cuidado para não

idolatrá-la. Disse Felipe se lembrando da lição que teve

sobre ídolos com Emanuel.

- Não existe este perigo. Quem a ama encontra-se

com Deus. Disse Emanuel.

- Ela deve ser uma santinha! Para aguentar o filho

que tem. Disse Felipe rindo e brincando com Emanuel.

233


- Pode acreditar! Ela é a mulher mais bendita e

realmente não foi fácil suportar minha cruz. Disse

Emanuel.

Emanuel agora com ar de preocupação olha com

ternura para Felipe e diz:

- Chegou o momento de você conhecer o Reino de

Deus. E eu preciso falar com você sobre algo muito

importante, mas antes que eu diga quero que continue

sempre acreditando em mim. Eu disse a você que não o

abandonaria e não abandonarei. Você acredita em mim?

Disse Emanuel.

Felipe ficou meio preocupado com a forma como

Emanuel falou. E respondeu:

- Eu acredito. Você me trouxe a alegria de viver.

Me fez sonhar com o que vale a pena. Eu estou cheio de

planos e sonhos. Minhas mãos estão cheias de sementes.

Meu coração está repleto de alegria e confiança. Algo

estranho e muito bom esta me acontecendo. Eu tenho

esperança. Antes de conhecê-lo sentia ausência de tudo.

Parecia que minha vida era um inferno. Era um mendigo

de sonhos. Você me ofertou mais do que um

assistencialismo, me ofertou a dignidade e a felicidade.

234


Sou um cidadão do infinito. Tenho um Pai e um amigo

que me ama e está ao meu lado, o que preciso mais?

Emanuel o abraçou fortemente, seus olhos

lacrimejaram. E disse:

- Amigo precisamos partir. Vem e segue-me e

conhecerás o Reino de Deus.

Felipe ficava muito feliz quando Emanuel o

chamava de amigo. Sentia que tinha uma missão muito

grande em sua vida que o faria um dos amigos de

Emanuel.

- Hoje vamos conhecer sua mãe? Perguntou Felipe.

- Sim Felipe! Mas você irá sem mim pelo menos

do jeito que estamos caminhando nesta jornada rumo ao

Reino de Deus.

Emanuel.

- Como assim? Sem você? Perguntou Felipe.

- Lhe enviarei um guia para sua caminhada. Disse

- Mas você prometeu que não me deixaria? Felipe

estava triste e preocupado.

- Eu prometi e não deixarei, mas tenho uma missão

a cumprir. Estará vivendo no tempo de Deus esta missão

comigo. Porém não poderá passar pelo que tenho que

passar. Disse Emanuel.

235


Disse Felipe.

- O que tem que passar? Perguntou Felipe.

- Terei que sofrer muito. Falou Emanuel.

- Então eu vou junto com você e sofremos juntos.

- Meu amigo. Fico feliz que queira repartir meu

sofrimento. Mas acredite você não suportaria. Por isso

quero lhe dizer algo. Você estará conhecendo o Reino de

Deus. Estará vendo o Reino sofrer muito. Uma dor

violenta. Sei que é um jovem forte, pois passou pelo

sofrimento. Não desespere e nem desista de ir até as

últimas consequências desta caminhada. Lembra-se

estaremos sempre juntos e eu prometo que nos

encontraremos mais uma vez deste jeito que esta me

vendo para nos despedirmos. Porém convém que eu vá,

porque se eu não for o Paráclito não virá a vós. E quando

Ele vier convencerá você de todas as verdades a meu

respeito e a respeito de Deus. Haveis de estar triste agora,

mas sua tristeza se transformará em alegria. Pois o que

tenho que fazer é para garantir a você, seus pais a Vida

Eterna. Confie em mim! Não se perturbe o vosso coração.

Coragem! Eu venci o mundo!

Os dois se abraçaram em um profundo silêncio.

Felipe sentia em seu coração que chegara a hora de

236


conhecer o Reino de Deus. Confiava em seu amigo. Sabia

que suas palavras eram dignas de confiança. Emanuel foi

se afastando até que sumiu diante de seus olhos. O fato de

Emanuel prometer que ainda se viriam fez com que Felipe

segurasse as lágrimas, pois estas palavras lhe trouxeram

conforto e segurança.

- Shalow Felipe! Alguém lhe tocara no ombro e lhe

deseja um tipo de saudação.

Felipe se voltou e viu um ser magnífico à sua

frente. Estava curvado em sinal de respeito. Transmitia

também muita paz e tranqüilidade.

magnífico.

- Estou aqui para lhe servir. Disse aquele ser

- Me servir? Quem é você?

- Sou o Arcanjo Rafael.

- Você é um anjo? Perguntou Felipe.

- Sim! Na verdade um Arcanjo! Disse Rafael

- O que é um Arcanjo? Tem mais lá no céu?

Perguntou Felipe.

- Arcanjo significa Anjo principal ou Príncipe dos

anjos. E a palavra Anjo, por sua vez, significa mensageiro.

Somos Três anjos bem conhecidos: Miguel que significa

em hebraico: "Quem como Deus". Ele é um dos sete

237


espíritos assistentes ao Trono do Altíssimo, portanto, um

dos grandes príncipes do Céu e ministro de Deus. Gabriel

que significa "Força de Deus" ou "Deus é a minha

proteção". É muito conhecido devido a sua singular

missão de mensageiro; Foi ele que anunciou o Reino de

Deus o qual tanto procura.

Felipe.

- E você é o Rafael? Qual sua missão? Perguntou

- Meu Nome significa “Deus curou” ou “Medicina

de Deus”. Estou aqui para suavizar e curar seu coração.

Mas na verdade guiarei seus passos rumo ao Reino de

Deus. Disse Rafael.

- E porque se curva diante de mim que não sou

nada? Eu que devo me curvar diante de você. Você que é

o chefe! Falou Felipe.

- Estou aqui em profunda obediência e amor a

Emanuel. Disse Rafael.

- Então Emanuel que é o chefão? Perguntou Felipe.

- Ele é o meu Senhor! Disse Rafael com certo ar de

orgulho e felicidade.

acrescentou:

- Quem me dera ter asas para voar. Falou Felipe. E

238


- O poeta Saramago disse: "Que os homens são

anjos nascidos sem asas, é o que há de mais bonito, nascer

sem asas e fazê-las crescer."

- Muito bonito. Porém quanto maior for seu vôo

maior dever ser sua humildade. Quanto maior a altura,

pior o tombo. Disse Rafael.

- Aprendi com Emanuel a criar asas e a sonhar

vivenciando com intensidade o que vale a pena. Nas

pequenas coisas, na brisa ligeira, no cotidiano construir

um mundo melhor. Disse Felipe.

Rafael.

Rafael.

- Todos nós aprendemos com Emanuel. Disse

- Pelo jeito ele tem muitos amigos. Disse Felipe.

- Ele é Amigo! Por isso o admiramos. Respondeu

- Minha vida depois que o conheci mudou, agora

tem sentido. Disse Felipe.

Rafael.

Felipe.

- Ele é um exemplo para todos nós! Exclamou

- Sua mãe deve ter muito orgulho dele. Falou

- Quer conhecê-la? Perguntou Rafael.

- Sim!

239


- Então vamos. Neste momento Rafael bateu as

asas e se esqueceu que Felipe não voava. Olhou para baixo

e voltou.

- Desculpe. Disse Rafael

- Cara que bonito o que fez. Disse Felipe extasiado

com o vôo de Rafael.

Então Rafael pediu que Felipe fechasse os olhos e

que abrisse novamente. Quando abriu os olhos estava em

uma casa.

- Onde estamos? Perguntou Felipe.

- Na casa de Maria. Mãe de Jesus!

- Mãe de Jesus? Perguntou Felipe.

- Sim! Na casa da mãe de Emanuel! Você não

queria conhecê-la? Perguntou Rafael.

- Então Emanuel é Jesus? E estamos na casa de

Maria Santíssima? Meu Deus! Disse Felipe extasiado.

Felipe começou a olhar ao seu redor. Tudo parecia

tão simples. Tão pequena aquela casa. Era muito bem

arrumada. Um lar que transmitia muita paz. Felipe

sonhava com uma casa com mãe e pai. Quantas vezes ele

pensou, se sua mãe estivesse ali na sua casa e com seu pai.

Desejava muito saber o que é um lar com mãe e pai.

Quando dizia a seu pai que sentia falta de uma mãe, ele

240


sempre lhe respondia que sua mãe estava lá no céu

olhando por ele. Que sua mãe sentia orgulho do filho que

ele era. Às vezes notava que seu pai ficava no canto da

casa olhando para longe como que com saudades da

esposa. Ele dizia que a amava muito e que não via mais

sentido em procurar outra esposa. Que sua mulher ele a

conquistou com muito custo e insistiu até conseguir tê-la

em seus braços. Disse que um dia com receio de pedi-la

em namoro tomou uns goles a mais para tomar coragem e

quando se aproximou dela levou um não. Ela lhe disse que

daquele jeito não aceitaria um homem ao seu lado. Então

ele ficou envergonhado da sua atitude e sóbrio pediu-lhe

então em outro dia sua mão. Ela aceitou. Disse que foi um

dos momentos mais felizes da sua vida. Na verdade, foram

dois, ele dizia: o sim de sua mãe e seu nascimento.

Lembro-me que quando falava de seu casamento, dizia

sempre: O que um homem precisa para ser feliz?

Riquezas? Dinheiro? Fama? Eu sou feliz porque tenho

uma esposa que me ama e um filho que eu tanto amo. Seu

pai era assim, simples. Mas quando partiu sua esposa ele

praticamente mudou. Brincava menos e trabalhava muito.

Mas sempre foi um pai carinhoso e afetuoso. Felipe então

sempre pensava, se minha mãe estivesse aqui em casa tudo

241


seria diferente. A ausência de mãe é uma dor inexplicável.

Assim definia sempre Felipe. É como se ele tivesse

perdido parte de sua personalidade. É como se houvesse

uma história interrompida em sua vida. Uma ausência

dolorida e um desejo constante de sentir o abraço e o

carinho de quem mais lhe importava. Esta era a sua

verdade: ninguém jamais substituiria a ausência de sua

mãe.

Neste momento entra alguém no cômodo em que

estava. Uma jovem menina. Era linda! De um semblante

doce e tranquilo. Parecia tão frágil! Tão feminina! Estava

arrumando a casa e parecia sorridente e feliz. Recitava

uma oração:

A minha alma glorifica o Senhor

E o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador.

Porque pôs os olhos na humildade da sua Serva:

De hoje em diante me chamarão

bem aventurada todas as gerações.

O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas:

Santo é o seu nome.

A sua misericórdia se estende de geração em geração

Sobre aqueles que o temem.

242


Manifestou o poder do seu braço

E dispersou os soberbos.

Derrubou os poderosos de seus tronos

E exaltou os humildes.

Aos famintos encheu de bens

E aos ricos despediu de mãos vazias.

Acolheu a Israel, seu servo,

Lembrado da sua misericórdia,

Como tinha prometido a nossos pais,

A Abraão e à sua descendência para sempre

- Quem é ela? Perguntou Felipe.

- É Maria, filha de Joaquim e Ana. A mãe de Jesus.

Disse Rafael como que admirando aquela criatura.

- Minha Nossa Senhora! Ela parece ter uns 16

anos? Disse Felipe.

- Na verdade ela tem quinze. Disse Rafael.

- Então ainda vai demorar pra ela receber o convite

do anjo. Disse Felipe.

interrompeu.

- Não! Gabriel esta chegando! Disse Rafael.

- Como assim com quinze anos?... Rafael o

243


- Nesta época as mulheres se casavam com menos

idade. Disse Rafael.

- Ela tem uma beleza diferente. Disse Felipe.

- A mulher mais bela de corpo e alma, a beleza de

seu interior transcende seu natural agraciado. Disse

Rafael.

- Sempre imaginei que Maria fosse mais velha

quando foi chamada por Deus para ser a mãe do Salvador.

Disse Felipe.

- É muito engraçado isso. Na terra poucas pessoas

têm a clara consciência de quem realmente foi Maria. Ela

é muito amada, mas as pessoas costumam fantasiar e

embelezar tanto, que o mais importante acaba passando

despercebido que é a sua humanidade e santidade real.

Disse Rafael.

- É verdade, achei que tinha na cabeça uma aréola

e que fosse toda iluminada. Que fosse algo tipo...

continuou:

- Um anjo? Disse Rafael.

- Sim! Disse Felipe rindo.

- Ela é mais do que os anjos. Disse Rafael e

- Ela não tem genealogia e sua classe social não

pode ser mais inferior: mulher, leiga, jovem, não casada,

244


de uma cidade sem relevância e de uma região tão suspeita

como a Galiléia, pouco religiosamente falando. Nas

palavras próprias, se situa entre os pobres. Disse Rafael.

Disse Felipe.

- Deus é realmente desconcertante e surpreendente.

- Deus! Neste momento Rafael curva-se com que

acaba de pronunciar e prossegue:

- É a Ele que a vida de Maria pertence. É a única e

mais valiosa propriedade que ela carrega. Quem tem Deus

(Rafael se curva novamente) não precisa de status,

genealogia e riquezas. Maria foi a criatura humana mais

plena de graça.

Maria e diz:

Neste momento aparece o anjo Gabriel diante de

- Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo.

Maria parece que espantada e perturbada com tal

saudação. Então o anjo Gabriel lhe disse:

- Não temas, Maria, pois encontrastes graça diante

de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, e lhe

porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-se-á

Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de

seu pai Davi; e reinará eternamente na casa de Jacó, e o

seu reino não terá fim.

245


Maria perguntou ao anjo:

- Como se fará isso, pois não conheço homem?

Respondeu-lhe o anjo:

- O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do

Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso o ente

santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus.

Também Isabel, tua parenta, até ela concebeu um filho na

sua velhice; e já está no sexto mês aquela que é tida por

estéril, porque a Deus nenhuma coisa é impossível.

Então disse Maria:

- Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim

segundo a tua palavra.

O anjo afastou-se dela.

Rafael pediu que Felipe partisse com ele

novamente e Felipe lhe pediu:

de Maria.

- Por favor, me deixe só um momento aqui aos pés

- Pode ficar Felipe! Disse Rafael.

aos pés de Maria

Felipe se aproximou de Maria, ela estava sentada,

com um sorriso nos lábios, seu coração parecia bater forte.

246


Estava pensativa e com os olhos fechados em oração.

Então Felipe sentou-se ao chão e olhando para ela

começou a falar:

- Mãe! Sei que tem tantos filhos neste mundo. Que

conhece tantas mães e pais. Sei que um dia conforme sua

oração as gerações lhe proclamarão bem aventurada. Ao

contrário da maioria que conhece, eu faço parte de uma

minoria. Não tenho mãe. E eu preciso lhe falar. Ela

morreu quando tinha oito anos e eu sinceramente falando,

sou carente de seu amor. Não sei o que é conselho de mãe.

Não sei o que é um beijo de mãe. Não sei que gosto tem

colo de mãe. Nos meus documentos sempre coloco órfão

de mãe. Ela morreu com um tiro nas costas enquanto

cuidava de mim. Eu não sei quem a matou. Só sei que ela

não voltará mais e sei também que o vazio de mãe não se

preenche, pois sempre aprendi que mãe só tem uma. Nas

minhas redações na escola eu não podia falar de mãe.

Chorei muito sua ausência. Na hora que ia pra cama

desejava como ninguém que fizesse cócegas em meus pés

e nunca mais você voltou para me dar sua benção. Só

quero agora lhe agradecer por ter me amado. Pois se na

lembrança carrego a saudades de você, posso dizer que

carrego também a lembrança que enquanto era viva me

247


amou com um amor que não existe em lugar nenhum que

é o carinho e amor de mãe. Emanuel me ensinou que na

vida não devemos fazer muito e sim pouco, mas com

intensidade. Minha vida ao seu lado durou apenas oito

anos e eu fui amado com intensidade. Obrigado Mãe!

Felipe agora soluçava e chorava como ninguém.

Mas tarde dissera a Rafael que na sua dor sentia o sorriso

de Maria.

Rafael estava emocionado. Entendia agora porque

Emanuel lhe confiara sua missão. Estava diante de alguém

que por ter sofrido muito era também amado muito.

lhe:

Rafael levantou Felipe do chão abraçou-o e disse-

- Vamos! Emanuel pediu que eu explicasse tudo o

que experimentarmos daqui para frente.

Felipe levantou-se com os olhos fixos em Maria.

Saiu da sua presença e estava agora na sombra de uma

árvore. Quieto e pensativo.

- Eu precisava muito falar aquilo. Disse Felipe.

- Eu sei! Sou um anjo! Mas entendo as

necessidades de vocês. Por isso tenho o dom da cura. Para

servir a humanidade. E sei que de todas as ausências que

existem, a pior depois da ausência de Deus é a ausência de

248


mãe e pai. Há tantos pais e mães que têm filhos e são tão

ausentes na vida deles. Há tantos filhos que tem pai e mãe

que são ausentes na vida deles. Às vezes parece que os

humanos têm medo da felicidade e do amor. A maior parte

das curas que realizo são carências afetivas. Disse Rafael.

- Maria parecia tão amada! Demonstrava uma paz

e um equilíbrio tão grande. E tudo isso na simplicidade.

Disse Felipe.

- Ana e Joaquim a amaram muito e a educaram

para viver Deus. Não existe felicidade maior ou presente

maior para oferecer ao filho do que a presença de Deus e

viver seu sonho. Disse Rafael.

- O sonho de Maria era ser a Mãe de Jesus?

Perguntou Felipe.

- O sonho em ser a mãe do salvador estava no

coração e na vida de toda crente daquela época. Pois o

povo acreditava que seriam libertos da escravidão de

Roma e tornaria uma nação livre com a vinda do Messias.

Mas particularmente em se tratando de Maria creio que

dificilmente ela pensava em ser a escolhida para ser a Mãe

de Jesus. Ela não tinha ambição nenhuma humanamente

falando a não ser uma pessoa consagrada e fiel a Deus.

Qualquer mulher de seu tempo poderia pensar ou desejar

249


ser a mãe do Messias. Não ela! Ela se achava indigna a tal

missão. Não pelo pecado, pois era pura e sim pela

humildade sincera que tinha.

- Por isso ela perturbou-se e até mostrou um

espanto com tal saudação? Perguntou Felipe.

- Sim! Esta perturbação se deve, apesar de quinze

anos apenas, a sua maturidade e consciência que uma

visita do céu representa na vida de alguém. Disse Rafael.

- Você a admira muito? Falou Felipe.

- Nós a veneramos lá no céu. Pois ela disse sim a

uma história de amor e salvação à humanidade. E este era

o sonho de Maria ser alguém fiel e servidora de Deus.

Disse Rafael.

- Como Deus é desconcertante! Chama uma

menina de quinze anos, de uma história simples de vida e

faz dela a portadora da salvação da humanidade. Ela

parece ser tão frágil. Tão jovem. Tão inocente.

- As aparências enganam. Disse Rafael

- Sim eu aprendi isso. Vendo para todos os que

Deus chamou nesta jornada, inclusive Maria, sinto que

posso oferecer algo também. Disse Felipe. E emendou:

- Não tanto como eles, mas um pouco, pois aprendi

a aceitar minha miséria.

250


- A melhor forma de enxergar sua miséria é ver o

poder de Deus que existe em você. Disse Rafael.

Disse Felipe.

- Mas não corre o risco de eu achar que sou bom!

- Então pense sempre assim: O que fiz de bom foi

Deus quem fez. O que fiz de mal foi minha miséria quem

fez. Peça perdão, se aceite e continue sempre caminhando

e tentando. Disse Rafael.

- O Êxodo! Certo?

- Sim! Fugir do pecado e buscar a Terra Prometida:

a santidade. Disse Rafael.

- Porque Emanuel não me disse que era Jesus?

Perguntou Felipe.

- Por que você precisava estar preparado para

entender no momento certo. Você passou por um processo

de conversão, de entendimento e compreensão dos fatos.

Disse Rafael.

- Por que ele escolheu o nome de Emanuel?

- Este é um dos nomes que o profeta Isaias lhe deu

entre tantos: Isaias disse: “Porque um menino nos nasceu,

um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus

ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso,

Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da

251


Paz.” Mas Emanuel tem um significado maior quando o

profeta Isaias se refere a este nome.

- O que significa? Perguntou Felipe a cada vez

querendo aprender mais.

- Emanuel significa: Deus Conosco. É O Deus que

está presente na vida de seu povo. O profeta Isaias se

refere a ele com estas palavras duras: “Ouvi, casa de Davi:

Não vos basta fatigar a paciência dos homens? Pretendeis

também cansar o meu Deus? Por isso, o próprio Senhor

vos dará um sinal: uma virgem conceberá e dará à luz um

filho, e o chamará Emanuel.

- Então o nascimento do menino Jesus de uma

virgem é o grande sinal. Disse Felipe.

- Sim Felipe! À humanidade foi dado o Sinal, que é

Deus se humanizando e vindo morar entre vocês. É a

encarnação do verbo. E o verbo se fez carne e veio morar

entre nós. Não adianta pedir sinais a Deus na sua vida se

não acolher o Sinal maior que é Emanuel. Disse Rafael.

pensativo.

- Puxa vida! Sinto-me indigno! Disse Felipe meio

- Indigno? Por quê? Perguntou Rafael.

- Estive ao lado de Emanuel e nem imaginava que

era o Filho de Deus que veio entre nós. O menino nascido

252


da virgem. Que honra para mim! É que Ele é tão simples

que nem percebi que estava com Jesus. Eu sentia meu

coração queimar quando ele me falava das coisas de Deus,

mas não o reconheci. Disse Felipe.

- Não se martirize! Na maioria das vezes os

homens não enxergam Deus onde ele está. Disse Rafael.

- Então Emanuel é o Reino? Perguntou Felipe.

- Sim! Ele é o Reino de Deus entre nós! Quer viver

o Reino? Viva Jesus! Siga os seus passos. Viva suas

palavras. Ele se fez tão claro e simples e os homens não

conseguem entendê-lo. O seu reino é um Reino de amor.

Disse Rafael.

- Maria carregou dentro de seu ventre o Reino de

Deus! Começou a história com Adão e Eva, passou por

diversos personagens: Abraão, Isaac, Moisés, Profetas... e

aconteceu no ventre de uma mulher a promessa. Disse

Felipe.

- A nova Eva trouxe em seu ventre a mais bela

promessa! Em Jesus encarnado toda a humanidade

eternizou-se. Disse Rafael.

- Então consumou a vontade de Deus na vida de

todos nós: a felicidade plena e eterna de seus filhos. Disse

Felipe.

253


Rafael.

Felipe.

- Cabe a nós anunciar esta Boa Nova a todos. Disse

- Precisamos converter e salvar as pessoas? Falou

- Não Felipe! Quem converte e salva é Jesus.

Devemos levar este Reino para as pessoas a fim de que

encontrem a verdadeira felicidade e realização em suas

vidas aqui e gora! Disse Rafael.

- Hoje é tempo de divulgar e viver, conforme me

ensinou Emanuel.

- Hoje é o tempo de Deus! Confirmou Rafael.

- Este nascimento se deu através do Espírito Santo?

Maria não se casou com José?

- Sim! O nascimento se deu através do Espírito

Santo e José se casou com Maria. Disse Rafael.

Felipe.

- E como José acreditou nesta história? Perguntou

- No inicio ele iria assumir a criança e depois

fugiria para que Maria não fosse apedrejada em praça

pública por ser mãe solteira, um costume daquela época.

Para não difamar Maria, José partiria e sairia como

culpado desta história. Porém, José teve um sonho e neste

254


sonho o anjo lhe avisou. E Ele ficou ao lado de Maria.

Mais tarde veio a falecer.

- Então Deus agiu no sonho de José. E Emanuel

também perdeu seu pai? Perguntou Felipe.

- Sim! Falar através dos sonhos de alguém é uma

das diversas formas que Deus tem para falar com seu

povo. Disse Rafael.

- Por isso que ele me disse que entendia muito bem

a perda de meu pai. Às vezes acho que estou vivendo um

sonho. Tudo isso que estou passando parece um sonho.

Disse Felipe.

- É um sonho real. Disse Rafael.

- Então Maria foi viúva e também perdeu seu filho

morto na cruz? Falou Felipe se lembrando do filme que

assistiu.

- Sim! Disse Rafael.

- Como ela suportou tudo isso? Deve ter se

revoltado? Ela compreendia tudo o que lhe acontecia? Já

sei Gabriel aparecia para confortá-la e avisar o que estava

acontecendo, certo? Perguntou Felipe.

- Errado! Depois que Gabriel saiu da sua presença

nunca mais a visitou. Sua compreensão dos fatos se dava

pela fé que tinha. Mas o que mais encantou nesta mulher é

255


que ela não queria explicações e nem exigia compreensão

dos fatos. Ela acreditava e pronto. Sua atitude era guardar

tudo no silêncio do coração.

- Não seria melhor Deus enviar um anjo a ela e lhe

consolar ou explicar as coisas, ou mesmo, um sinal para

que ficasse tranquila? Falou Felipe.

- Quem precisa de sinais visíveis? Quem precisa

questionar a Deus? Quem faz indagações e exige

explicações? Quem não tem fé! Maria é uma mulher de fé!

A fé é sua resposta. Para você dimensionar a fé desta

mulher, o que a torna entre as criaturas a mais bendita é

que ela não queria entender e nem compreender o que

estava acontecendo. Simplesmente e humildemente

confiava e aceitava o que acontecia em sua vida na certeza

de que a Deus pertence a sua vida. E se a Ele pertence

tudo concorrerá para o seu bem ou para bem de alguém.

Felipe ficou comovido com esta explicação.

Lembrou-se que disse a Emanuel que quando se encontrar

com Deus faria suas indagações. Aprendeu que quando

existem dúvidas é porque falta a fé. Agora ele não tinha

mais perguntas para fazer, pois diante de Emanuel tudo se

iluminava e tudo fica claro. Que o sofrimento passageiro

256


não se compara à alegria em acolher e viver o Reino de

Deus.

- Tudo o que acontece em nossa vida é vontade de

Deus? Perguntou Felipe.

- Nem tudo Felipe! Tem muitas coisas que

acontecem pela casualidade da vida. Outras por que o livre

arbítrio foi mal utilizado pelo homem. Uma coisa é certa a

dor não é vontade de Deus. Ele não se sente bem com o

sofrimento de seus filhos. Jamais desejaria que um filho

seu sofresse. Por isso no seu respeito à liberdade do

homem transformou a dor e o sofrimento em força. Parece

estranho o que vou lhe falar, mas o sofrimento, a dor leva

muitas vezes as pessoas para uma realização maior, um

entender para o que é essencial. Na dor o homem lembra-

se dos seus limites e com isso enxerga mais o outro, está

mais propício a compreender o sofrimento alheio. A

maioria das pessoas não procura Deus por amor e sim pela

dor.

- É meio estranho também o que eu vou falar, mas

penso que se não fosse a tragédia que passei na vida não

teria humildade em enxergar o Reino de Deus em minha

vida. A dor me fez encontrar Emanuel. Disse Felipe.

257


- Mas a dor não é o caminho pelo qual Deus optou

para encontrar seus filhos e sim o amor.

Rafael interrompe o assunto e diz:

- Venha! Vamos para o caminho de Belém! Ver o

recém nascido Jesus. Disse Rafael.

menino Jesus

Enquanto caminhavam para Belém, Felipe foi

notando pelos caminhos uma euforia e alegria dos

pastores. Por eles passaram pastores glorificando e

louvando a Deus. Chegaram diante do presépio. Rafael

inclinou-se em profunda adoração o que fez Felipe imitá-

lo. Ficaram assim por alguns minutos em silêncio. Do alto

dos céus Felipe ouvia como que anjos cantando, parecia

ser uma multidão, um exército de seres celestes que

louvava a Deus e dizia: “Glória a Deus no mais alto dos

céus e na terra paz aos homens de boa vontade”

Felipe levantou a cabeça e observou então o lugar

que a humanidade ofereceu ao menino Jesus nascer.

Tomou coragem e ficou em pé. Enquanto Rafael estava

em profunda adoração. Felipe abaixou-se tirou o calçado e

com os pés no chão observava algo que nunca imaginou

258


em sua vida. Já havia pensado muito nisso. Pensou

consigo mesmo se eu não estiver descalço não entenderei

o presépio. O Natal para ele, depois da morte de sua mãe,

era sempre um tempo de tristezas e angústias. Dizia que

odiava o Tempo de Natal. Aproximou-se do presépio e viu

José, Maria e seu amigo Emanuel: um bebê. Era um lugar

rústico, aparentemente sem nenhuma dignidade, pelo

menos antes disso acontecer. Parecia com um barraco.

Felipe emocionou-se e pensou consigo mesmo: “Jesus

nasceu no morro”. Sim aquele presépio se parecia com

alguns barracos do morro. Aquela menina de dezesseis

anos estava deitada com a criança. No presépio sempre a

via em oração. Era muito diferente do que sempre

imaginou. Era tudo muito, mas muito simples. José

aparentava muito mais velho do que Maria. Mas parecia

muito com seu pai. Tinha um rosto de homem vivido e

sofrido. Mas principalmente aparentava honestidade.

Felipe não se conformava com que estava vendo. Para ele

aquele cenário era familiar. Tudo se parecia com o local

onde morava. O menino Jesus chorava e Maria o

amamentava. José parecia com os pais do morro, Maria

com as meninas mães do morro e o menino Jesus as

crianças que povoavam o morro. Os pastores que tinham

259


aparências rudes ajudaram a acolher Jesus. Os pastores,

José, Maria e o menino Jesus eram semelhantes ao povo

do morro. Era gente boa! Felipe sentia um orgulho naquele

momento, pois o seu povo se parecia com a Família de

Nazaré. Eles estavam desprovidos de tudo; de justiça

humana, de aparências, de um lugar decente, de

acolhimento, de honraria, de respeito público. Mas tinham

paz! Sim! Pensava Felipe, Paz na terra aos homens de boa

vontade. Todos aqueles pastores que os acolhia

representavam todas as pessoas que com boa vontade

acolhem o amor em sua vida. Felipe então tomou

consciência do dia: É Natal! Onde as pessoas do seu

tempo estarão agora? Nas lojas? Comendo e bebendo?

Brigando em família? As televisões anunciando Papai

Noel e vendendo sonhos baratos ou caros para as pessoas

em nome do aniversário do menino Jesus. Nem agora e

nem depois o menino Jesus encontra uma casa decente

para morar. Felipe imagina o grande acontecimento que se

dá diante de seus olhos e iluminado pelo espírito de Natal

ele sorri junto com o exército celeste e canta e dança como

Rei Davi diante da Arca da Aliança que é Maria: “Glória a

Deus no mais alto dos céus e na terra paz aos homens de

260


oa vontade”. E assim sem parar foi pulando e gritando e

cantando:

Glória, Glória, Aleluia Louvemos o Senhor!

Na beleza do que vemos, Deus nos fala ao coração.

Tudo canta: Deus é Grande, Deus é Bom e Deus é Pai.

É seu Filho Jesus Cristo, quem nos une pelo amor,

Louvemos o Senhor!

Deus nos fez comunidade pra vivermos como irmãos,

Braços dados, todos juntos, caminhamos sem parar,

Jesus Cristo vai conosco, Ele é Jovem como nós,

Louvemos o Senhor!

Jesus Cristo é Alegria, Jesus Cristo é o Senhor.

Da vitória sobre a morte deu a todos o penhor.

Venceremos a tristeza, venceremos o temor, Louvemos o

Senhor!

Felipe olhou para o alto e lá estava Rafael em plena

alegria com todos os anjos. O céu se alegrava pela vinda

do menino Jesus aos homens na terra.

Rafael então desceu e abraçou Felipe com muita

força e entusiasmo e disse:

- Feliz Natal! O verdadeiro Natal!

261


Ambos ficaram ainda mais um pouco em profunda

admiração e adoração ao menino Jesus. Em cima do

presépio estava uma enorme estrela brilhando. O que mais

encantava Felipe era a família de Nazaré ali reunida.

Lembrou-se do que lhe disse Emanuel:

- Você está à busca do Reino de Deus. Não o

busque esperando ver estruturas, nem ouro, nem prata.

Não o procure nas riquezas humanas. Não o busque nos

palácios. Não o busque na grandeza e nem nas aparências.

O Reino de Deus nada tem a ver com estas coisas. Onde

Deus mais se mostra é onde a maioria menos enxerga. Por

isso o Reino de Deus veio e não o receberam.

- Vamos Felipe, sinto que não tenho nada para lhe

explicar esta noite. Você deve ter sentido o que aconteceu

aqui. Disse Rafael.

Felipe percebia que agora as coisas estavam mais

claras para ele. Realmente não queria nenhuma

explicação. O importante é que depois dos seus oitos anos,

pela primeira vez celebrou um Natal feliz.

262


O sonho de Deus

- Você não estás com fome? Esqueci de te oferecer

alimento. Nós os anjos nos alimentamos de pão celestial.

Perguntou Rafael.

- Não estou. Desde que comi do pão descido do

céu que Deus enviou ao profeta Elias não senti mais fome.

Disse Felipe.

Disse Rafael.

- Ele vai lhe sustentar por um bom tempo ainda.

Felipe ainda estava encantado com o nascimento

do menino Jesus. E perguntou:

- O sonho de Deus foi o nascimento de Jesus?

- Não! Nem o nascimento de Jesus e nem o seu

padecimento. Disse Rafael.

- Então a morte de Jesus na cruz não é vontade de

Deus? Ele não enviou seu Filho para nos salvar?

Perguntou Felipe.

- O sonho de Deus é a criação, em especial a

humanidade. Jamais Deus desejaria que Jesus sofresse e

padecesse na cruz. Emanuel desejou salvar a humanidade

e está disposto a pagar o alto preço pelos erros da

humanidade. Mas a cruz não é o ideal e nem o fim último

263


de sua missão aqui na terra e sim a salvação dos homens.

Vamos dizer assim: colocar de volta nos trilhos o trem que

descarrilou. Jesus é o novo Adão! Entende?

humanidade?

- Sim! Então Emanuel veio para salvar a

- Sim! Para levar a humanidade de volta ao

Paraíso, à sua origem e princípio, ou seja, a felicidade. O

desejo e sonho de Deus é que a humanidade seja sempre

feliz. Só existe uma fonte verdadeira desta felicidade que é

Deus! Jesus é o Caminho, a Verdade e a Vida. Encontrar-

se com Deus é trilhar pelo Caminho que é Jesus. Trilhar

pelo Caminho que é Jesus é viver o Reino de Deus e,

portanto desejar a felicidade plena. A criação então se

realiza e realizado é o Criador. Disse Rafael.

- Então entendo Deus quando olho para Jesus?

Perguntou Felipe.

- Jesus veio para revelar plenamente quem é o Pai.

Ele é a revelação plena de Deus aqui na Terra. Disse

Rafael.

- Mas o mundo já não conhecia Deus?

- A verdadeira imagem de Deus estava distorcida

pela maneira humana em que vocês homens criaram a seu

respeito. Disse Rafael.

264


Disse Felipe.

- Criamos um deus à nossa imagem e semelhança.

- Bom discípulo! A imagem de Deus foi distorcida.

Muitas coisas que falavam dEle não eram verdadeira e o

pior é que cada dia que passava os homens desconheciam

quem era verdadeiramente Deus. Para você ter uma idéia,

dizia antes de Jesus, que Deus estava ao lado só dos que

tinham riqueza, que Deus castigava seus filhos. Falavam

que os doentes eram amaldiçoados por Deus, porque

pecaram ou porque seus pais pecaram. Colocaram Deus

atrás de um véu e só podiam falar com Ele os

especializados da fé. Sua imagem era associada mais ao

terror do que ao amor. Então Emanuel veio para falar que

Deus é Pai e que ama a todos. Falar que Deus está ao lado

do fraco e desprotegido. Que as pessoas que sofrem são

amadas por Ele. Veio para destruir paradigmas e construir

o sonho de Deus na vida dos pequenos. Jesus é a face de

Deus que Moisés tanto desejou ver, mas não podia, pois a

Justiça de Deus é incompreendida pelos homens. Então

Deus se humanizou e mostrou a verdadeira face que é

Jesus. Em Jesus, Deus se fez presente na vida do seu povo

e não só para uma classe privilegiada. Pelo contrário, se

fez pobre e simples, parecido com os mais sofridos

265


homens da Terra. Foi além! Se humilhou de tal forma que

sua imagem foi transfigurada não pela mentira dos homens

e sim pelo amor em plenitude cedido no sofrimento da

cruz.

- O presépio tinha cara do morro. Disse Felipe.

- No Morro, moram as pessoas que se dizem mais

importantes da Terra? Perguntou Rafael.

- Não! Disse Felipe.

- Então penso que se Deus escolhesse um lugar

para morar e nascer seria lá. Disse Rafael.

- Se é louco! Fala baixo! Vai ofender muita gente

influente! Disse Felipe rindo.

- Foi assim que mataram a Jesus, ele incomodou.

As pessoas preferem viver na ilusão e na fantasia. Usam

máscaras e odeiam a verdade. Disse Rafael.

- As pessoas precisam ser curadas e suas máscaras

arrancadas. Disse Felipe.

- É preciso tirar as sandálias dos pés. Achei muito

bonito seu respeito e devoção pelo presépio. Falou Rafael.

- Aprendi com Emanuel. Disse Felipe orgulhoso.

- Você definiu muito bem. A humanidade esta

fragilizada e enferma. Minha missão como anjo da cura é

muito grande. Disse Rafael.

266


- Nunca fui de frequentar igreja, nem sei por que

Emanuel me escolheu. Não conheço a bíblia. Queria muito

aprender e saber o que Jesus fez aqui na Terra. Disse

Felipe com sede e fome da Palavra Sagrada.

- Felipe, a escolha é pura gratuidade de Deus e eu

posso com ajuda do Todo Poderoso fazer você passar pela

experiência dos discípulos de Jesus. Será uma experiência

intensa e rápida. Falou Rafael.

- Eu quero! Eu desejo muito conhecer Jesus! Disse

Felipe entusiasmado e com uma vitalidade e energia que

lhe veio do pão descido do céu.

- Farei assim! Você passará por todos os

momentos, com exceção, de três, a última ceia, a cruz e a

ressurreição. Em dois destes momentos, Emanuel me

pediu que estivesse sempre próximo a você e que a

experiência da cruz fosse feita com a sua aceitação. Mas

depois discutimos isso, agora feche os seus olhos, diante

de você aparecerá como um filme tudo o que Jesus disse e

fez.

Felipe fechou os olhos e então começou o que

parecia um filme em alta rodagem passar à sua frente:

“Filipe disse a Jesus: “Senhor, mostra-nos o Pai e

isso nos basta”. Respondeu Jesus: “Filipe! Aquele que me

267


viu, viu também o Pai. Se me conhecêsseis, também

certamente conheceríeis meu Pai; desde agora já o

conheceis, pois o tendes visto. Não vos deixarei órfãos.

Voltarei a vós. Aquele que tem os meus mandamentos e os

guarda, esse que me ama e aquele que me ama será amado

por meu pai, e eu o amarei e manifestar-me-ei a ele. ”

Então após estas palavras de Jesus para seu

discípulo Filipe, começou aparecer diante dos olhos de

Felipe cenas que retratavam as obras de Jesus.

Felipe viu Maria levantar-se em ir para casa da

prima Isabel. No rosto de Maria estava estampada sua

alegria. Viu João Batista batizar Jesus e uma pomba

pousar sobre ele. E a voz de Deus que dizia: “Tu és meu

filho muito amado; em ti ponho aminha afeição” João

Batista gritou apontando para Jesus: “Eis o cordeiro de

Deus que veio tirar o pecado do mundo. Eu não sou digno

de desatar suas sandálias. Que eu diminua e que ele

cresça.” Viu Jesus durante quarenta dias no deserto sendo

tentado por Satanás. Olhou os discípulos sendo escolhido

por Jesus. Viu João Batista ser morto e decapitado por

pregar com coragem. Viu a sogra de Pedro sendo curada.

Viu os pescadores deixarem suas redes e ouvir de Jesus:

“Doravante serás pescador de homens.” Ouviu muitos

268


sermões de Jesus onde falava sempre de humildade e

amor. Rezou o Pai Nosso. Viu Jesus falar que os pardais

eram menos importantes que ele. Viu o afeto e amor que

Jesus tinha com os enfermos. Curou leprosos, libertou

endemoniados, fez diversas curas. Acalmou a tempestade.

Curou o servo de centurião. Curou cego que gritava em

seu caminho. Curou paralíticos. Ouviu todas as parábolas

que Jesus contava. Encantou-se com a parábola do Bom

Pastor, do Filho Pródigo e tantas outras. Viu a

multiplicação dos pães. Ouviu as palavras duras de Jesus

aos religiosos da sua época. Ouviu sobre o perdão. Viu um

rico se afastar triste de Jesus por não conseguir abandonar

tudo e entrar no Reino de Deus. Viu Jesus entrando em

Jerusalém em grande festa. Depois com chicote nas mãos

expulsar os vendilhões do Templo. Viu a figueira

amaldiçoada se secar. Ouviu Jesus falar do Amor como

maior mandamento. Viu Jesus sendo acolhido e amado por

uma mulher que lavou seus pés com perfume e lágrimas e

enxugou-os com seus cabelos. Viu Maria sentada aos seus

pés e Marta trabalhando na lida da casa. Viu a profissão de

fé de Pedro e logo depois Jesus chamando-o de Satanás.

Viu uma mulher com hemorragia tocar-lhe a orla do

manto e ser curada. Os amigos do paralítico trazendo seu

269


amigo pelo teto para ser curado por Jesus. Entrou na Festa

de Caná da Galiléia e participou de um casamento e ouviu

Maria dizer aos servos: “Fazei tudo o que Ele vos

mandar”. Viu a transfiguração e Moisés e Elias ao lado de

Jesus. Viu Zaqueu sobre a árvore e Jesus dizendo: “Hoje a

salvação entrou em sua casa”. Viu a viúva depositar tudo o

que tinha no cofre do Templo e ser elogiada por Jesus. Viu

Jesus ressuscitar Lázaro e o filho da viúva. Viu o

publicano bater no peito e pedir perdão. Ouviu Jesus dizer:

"Estive com fome... e me deste de comer; Estive com

sede... e me deste de beber... Estive preso... e foste me

visitar." Participou da conversa da Samaritana. Foi

chamado de amigo e disse que daria a vida pelos seus

amigos. Tudo foi passando tão rápido, mas Felipe podia

viver com intensidade cada momento. Conheceu Jesus de

uma forma tão intensa que não pode deixar de se

apaixonar e admirar o Filho de Deus. No fim parecia que

Jesus olhou para ele em uma das passagens e lhe disse:

“Eu vim para fazer a vontade do meu Pai” e acrescentou

“Vai e faze o mesmo”.

Rafael toca-lhe no ombro e diz:

- E aí conheceu melhor seu amigo Emanuel?

270


- Sim! Ele falou o tempo todo de amor. Diria que

não só falou, mas suas ações e atos eram puro amor o

tempo todo. Ele cativa! Suas palavras e seu poder fazem a

gente mergulhar no que é essencial. Seu olhar penetrava a

alma das pessoas e seu agir era encanto o tempo todo. Ele

parecia ser poesia e música. Nunca em minha vida conheci

alguém tão admirável. Ele parecia ser irmão, ser pai e

amigo. Não falava para aparecer, seu discurso era simples.

Mas o mais importante que suas atitudes não eram

filosóficas e nem discursos jogado ao vento. Ele era real!

Suas palavras eram concretas. Sua vida e atitudes estavam

em sintonia o tempo todo com seu discurso. Em poucas

palavras poderia dizer que nunca em minha vida encontrei

um ser humano tão próximo do divino.

- Jesus é tão humano quanto divino. Disse Rafael.

- Como disse Pedro: Ele é o Cristo, o Filho do

Deus Vivo! Disse Felipe.

o amor

Rafael.

- O que lhe chamou mais atenção? Perguntou

271


- Tudo! Mas quando aquele doutor da Lei lhe fez a

pergunta para pô-lo a prova: “Mestre, qual é o maior

mandamento da lei? Sua resposta foi como se estivesse

inculcado em minha cabeça a sua vontade para minha

vida. Disse Felipe.

- “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu

coração, de toda a tua alma e de todo o teu espírito. Disse

Rafael.

Felipe prosseguiu:

- “Este é o maior e o primeiro mandamento. E o

segundo, semelhante a este, é: Amarás teu próximo como

a ti mesmo”.

e os profetas.”

Rafael concluiu:

- “Nesses dois mandamentos se resumem toda a lei

- Lei e Profetas: Moisés e Elias. Eles estavam na

montanha da transfiguração. Que momento lindo aquele.

Deu vontade de nunca mais sair de lá. Disse Felipe.

- Mas a vontade de Jesus era partir para Jerusalém

onde irá morrer. Disse Rafael.

- Por isso antes desta experiência da transfiguração

ele falou da renúncia: “Se alguém quiser vir comigo,

renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” Porque

272


aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas aquele

que tiver sacrificado a sua vida por minha causa, recobrá-

la-á. Que adianta o homem ganhar o mundo inteiro, se

vem prejudicar a sua vida? Ou que dará o homem em troca

de sua vida?” Disse Felipe e continuou:

- Ele nos deu a lição que Moisés e Elias tiveram

em sua vida. Não era para ficar a vida inteira admirando a

sarça ardente e nem ficar morrendo de zelo no Monte

Horeb e sim descer para o deserto que nesta passagem

representa Jerusalém para libertar todo o povo da

escravidão do pecado. O Êxodo, a Páscoa!

- Fantástico! Você é um discípulo de Cristo! E

ainda nem experimentou a sala de Pentecostes. Disse

Rafael.

- É o que mais desejo agora: ser discípulo de

Cristo! Não sei por onde começar e como fazer, só sei que

quero. Disse Felipe.

- Comece amando. Disse Rafael.

- Hã! Sim! Falávamos do amor a Deus e ao

próximo. Esta passagem, porque ficou tão gravada em

meu coração e mente? Perguntou Felipe.

- Por que deve ser o que é essencial para uma vida

cristã. Quem ama vive o Reino de Deus na sua plenitude.

273


Você pode imaginar quantos mandamentos existiam no

tempo de Jesus?

- Quantos? Perguntou Felipe.

- 613 mandamentos! Que deveriam estar na ponta

da língua daquele que quisesse obedecer a Deus e amá-lo.

Eram 365 negativos, o que você não deveria fazer e 248

positivos, o que deveria fazer. Agora eu lhe pergunto: o

povo com esta quantidade de mandamentos conseguiria

guardá-los e vivenciá-los? Os Doutores da lei se achavam

os únicos dignos de compreender a vontade de Deus, pois

diziam serem os únicos conhecedores destes

mandamentos. Enquanto o povo era espiritualmente

subjugado incapaz.

- Então por isso Jesus resumiu tudo em uma única

palavra: o amor. Quem ama pratica a Lei. Disse Felipe.

- Discípulo Sábio. Disse Rafael.

- Nem tanto! Então o que significa amar a Deus de

todo coração, de toda alma e de todo o espírito e o

próximo como a si mesmo? Perguntou Felipe.

- Coração, alma e espírito para o povo da bíblia

tem um significado mais amplo que vocês ocidentais. E

continuou Rafael:

274


- Amar a Deus de todo o coração! Coração para

vocês lembra apenas a vida afetiva. Para o povo da bíblia,

o hebreu, concebe o coração como “interior” do homem.

Além dos sentimentos o coração contém também as

recordações e as idéias, os projetos e as decisões. Deus

deu ao homem um coração para pensar. É o lugar onde o

homem encontra Deus, é a fonte da sua personalidade

consciente, inteligente e livre. Lugar onde faz suas opções

decisivas, lugar da Lei não escrita. E prosseguiu:

- Amar a Deus de toda a tua alma! A alma para o

povo hebreu está longe de ser uma “parte” que com o

corpo compõe o ser humano, a alma designa o homem na

sua totalidade, enquanto animado por um espírito de vida;

em virtude da sua relação com o Espírito, à alma indica no

homem a sua origem espiritual, esta “espiritualidade” tem

raízes profundas no mundo concreto. Continuou:

- Amar a Deus de todo espírito. Espírito aqui

designa num ser seu elemento essencial e inaferrável,

aquilo que o faz viver e aquilo que dele emana sem que ele

queira, aquilo que em grau máximo é ele próprio e aquilo

de que ele não pode dispor como dono. A palavra hebraica

ruah é o sopro da vida. Portanto amar a Deus é amá-lo na

nossa totalidade. Amá-Lo com total entrega de si mesmo.

275


Com que você é, tanto com que você conhece como com o

que não conhece de si próprio.

E finalizou:

- “E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu

próximo como a ti mesmo” O amor a Deus (horizontal)

passa necessariamente pelo amor ao meu próximo

(vertical). É o sinal da cruz onde Cristo deu provas do seu

amor por nós. “Se alguém disser: “Amo a Deus”, mas

odeia seu irmão, é mentiroso”. A palavra amor que se

exprime de realidades totalmente diferentes. O amor entre

o homem e a mulher (eros), o amor de amizade (philia) e o

amor que torna-se cuidado do outro e pelo outro. Já não se

busca a si próprio, não busca a imersão no inebriamento

da felicidade; procura, ao invés, o bem do amado: torna-se

renúncia, está disposto ao sacrifício, antes procura-o.” É o

amor Ágape. E só ama o outro quem ama a si próprio. Pois

ninguém oferece aquilo que não tem.

- Então Jesus nos ensina que a prática da Lei é o

Amor, e por isso, não dever ser um peso e sim satisfação.

E quando se vive o Amor a Lei liberta e realiza. Disse

Felipe.

Falou Rafael.

- Emanuel deve estar com muito orgulho de você.

276


- Imagino que tem orgulho do seu anjo também,

pois sinto que estou muito bem acompanhado. Disse

Felipe rindo.

- Nossa função maior como anjo é ser boa

companhia. Disse Rafael um pouco mais solto.

- A parábola da ovelha perdida e achada e do filho

perdido e achado é comovente. Agora entendi o que

aquela estátua na praça representa. É o Bom Pastor que foi

atrás da ovelha perdida. Eu sou a ovelha que estava

perdida, e Emanuel, o Bom Pastor, encontrou e me trouxe

um sentido novo para viver. Disse Felipe se lembrando do

sorriso da ovelha depois que ele começou a caminhar com

Emanuel.

- Todas as passagens, gestos e palavras de Jesus

nos tocam profundamente. E o mais importante é que

Deus Está conosco. Disse Rafael.

- Emanuel! Deus Conosco! Tenho saudades dele

quando caminhava comigo. Ele prometeu que apareceria

para mim mais uma vez. Agora só o vejo, mas não posso

falar com Ele. Disse Felipe.

- Sei! Ele prometeu, ele cumpre. Disse Rafael.

277


a eucaristia

- Vamos Felipe! Para a última ceia de Jesus!

Rafael então disse a Felipe:

- Preciso que me ajude a preparar a sala em que o

mestre comerá a Páscoa. Vista estas roupas e calce as

sandálias. Vamos agora para o lugar da última ceia.

Felipe vestiu a roupa típica daquela época e junto

com Rafael bateu na porta de um sobrado. O homem saiu,

era o dono do sobrado. Rafael alugou uma sala da parte de

cima. Depois pegou uma bilha de água entregou a Felipe.

E disse:

- Vou te levar até a entrada da Cidade e dois

homens, Pedro e João virão a ti. Não diga nada, apenas

acene para que eles te sigam e os traga aqui. Fique

tranquilo que eles desta vez poderão te ver.

Felipe fez como Rafael lhe pediu e ficou na entrada

da cidade com a bilha de água nas mãos. Aproximaram

dois homens que o seguiram até o sobrado e lá

encontraram Rafael também vestido a caráter. Os homens

perguntaram a Rafael:

- O Mestre pergunta-te onde está a sala em que

comerei a Páscoa com os meus discípulos?

278


Rafael os levou para o andar de cima e lá os

discípulos de Jesus fizeram os preparativos.

Felipe percebe que ele e Rafael não estão mais a

caráter. Então chegada a hora Jesus, pôs-se à mesa e com

eles os apóstolos. Felipe nota que existe todo um ritual

para celebrar a Páscoa e acompanha atentamente cada

passo daquela celebração. Encanta-se principalmente com

a simplicidade com que Jesus celebrou. Todos sentados à

mesa e era uma celebração de todos. Uma celebração

muita bonita em que os que estavam sentados à mesa

pareciam extremamente confortáveis. Não havia discursos

cumpridos e excesso de sinais desnecessários. Tudo era

muito simples e que lembrava uma família reunida. Toda a

celebração era acompanhada de comida e bebida. Parecia

um banquete em família. Para cada gesto havia um

simbolismo, até para comer a sobremesa. O local tinha

sido impecavelmente limpo. Tudo iniciou com o pôr do

sol. Havia sobre a mesa um tipo de erva, um pão, um ovo,

e um cordeiro assado. E a bebida era vinho sendo tomado

e abençoado em diversos momentos. Houve uma séria de

cânticos e melodias. A última delas era um desejo de estar

novamente em Jerusalém o ano que vem e um pedido que

279


estabeleça o Reino de Deus. Jesus parecia que inovou

durante a celebração ao surpreender a todos dizendo:

- Tenho desejado ardentemente comer convosco

esta Páscoa, antes de sofrer. Pois vos digo: não tornarei a

comê-la até que ela se cumpra no Reino de Deus.

Depois ao distribuir o vinho e o pão lembrou

novamente que beberia e comeriam somente depois que o

Reino de Deus chegasse.

Então ele pegou o pão e deu graças, partiu-o e

ofereceu aos discípulos e disse:

- Isto é o meu corpo, que é dado por vós, fazei isto

em memória de mim.

Com o cálice fez a mesma coisa e disse:

- Este cálice é a Nova Aliança em meu sangue, que

é derramado por vós.

Foi também durante a ceia que Jesus tomou uma

atitude que espantou seus discípulos que ficaram quase

sem reação com exceção de Pedro.

Jesus depôs de suas vestes e cingiu-se com uma

toalha. Deitou água numa bacia e começou a lavar os pés

dos apóstolos um por um. Inclusive de Judas Iscariotes

que o iria trair e enxugava os pés com a toalha que se

havia cingido.

280


Jesus disse:

Pedro não quis que Jesus lavasse seus pés. O que

- Se eu não tos lavar, não terás parte comigo.

O que Pedro respondeu com pressa:

- Senhor, não somente os pés, mas também as

mãos e a cabeça.

Os apóstolos olhavam para Jesus sem compreender

o que havia acontecido e estavam envergonhados. Jesus

então disse:

- Sabeis o que vos fiz? Vós me chamais Mestre e

Senhor, e dizeis bem, porque eu sou. Logo, se eu, vosso

Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis

lavar-vos os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo para

que, como eu vos fiz, assim façais também vós. Em

verdade, em verdade vos digo: o servo não é maior que o

seu Senhor, nem o enviado é maior daquele que o enviou.

Se compreenderdes estas coisas, sereis felizes, sob as

condições de as praticardes. Rafael retira Felipe da sala e

o convida a andar pelas ruas de Jerusalém.

- Interessante! Disse Felipe.

- O que? Perguntou Rafael.

281


- Que quando a gente imagina ou vê todas estas

cenas em filme ou que alguém falou, elas são geralmente

diferentes.

- Por que diz isso? Perguntou Rafael.

Felipe notara que Rafael não podia ler seus

pensamentos como Emanuel fazia. E disse:

- Sempre imaginei que os personagens da bíblia

eram pessoas diferentes, tipo....

- Anjos! Disse Rafael rindo.

- Sim! Falou Felipe rindo alto. E emendou:

- E são pessoas normais. Maria estava na lida da

casa e eu sempre achei que quando o anjo apareceu a ela

estava em oração. Davi estava pastoreando. Abraão me

parecia estar na lida do dia a dia. Moisés apascentava o

rebanho de Jetro seu sogro, João, Pedro e André estavam

pescando. E esta celebração é diferente, todos estavam

sentados a uma mesa e tudo era muito familiar. Jesus mais

parecia um pai do que um chefe sabe lá? Disse Felipe.

- Obrigado pelo anormal. Mas certa vez, Emanuel

disse que quando o Filho do homem vier, as pessoas

estarão fazendo as coisas cotidianas da vida e usou como

exemplo o trabalho. Portanto acolher o Reino de Deus não

é ter momentos com Deus e sim viver Deus o momento

282


todo. Gabriel encontrou Maria preparada, por isso a

chamou de “Cheia de Graça” e ainda disse: “O Senhor está

contigo.”

- No cotidiano, ou seja, na brisa ligeira, Deus está

presente. Disse Felipe.

- Sim! O problema é que vocês humanos fantasiam

demais as coisas de Deus e acabam criando uma realidade

que não existe. Então esperam sinais extraordinários para

compreender e viver Deus em suas vidas. Quando se

fantasia demais é para fugir da realidade. Então Deus

passa despercebido, mesmo você achando que está em

pleno louvor a Ele. Veja o caso de Maria, tudo foi de uma

extrema simplicidade e de uma realidade muitas vezes

cruel na vida dela, mas ela não ficou esperando sinais

extraordinários para acreditar e nem anjos vindo do céu

para lhe informar. Disse Rafael.

- Sou tão diferente de Maria! Emanuel me visitou e

agora estou ao lado de um anjo e só assim estou

conseguindo ver. Disse Felipe.

- Não sei se consola seu coração. Mas ai está a

beleza de ser humano. Pois é nas fragilidades que Deus se

faz presente. Na dor enaltece a presença do amor. Você

está enxergando por que permitiu que Emanuel entrasse

283


em sua vida e mostrasse seus caminhos. Cabe a você

agora, aprender e amadurecer sua fé, não exigindo de

Deus um milagre por dia para acreditar. Disse Rafael.

- Somos uma contradição o tempo todo. Se estiver

tudo bem, nos esquecemos de Deus. Se estivermos na dor

recorremos a Ele. Na maioria das vezes o buscamos não

para mudar de vida e sim para que faça nossas vontades e

por aquilo que pode nos oferecer.

- Amar a Deus é servir! É lavar os pés uns dos

outros. É comprometimento em fazer o bem sem olhar

para quem. É morrer para que o outro, viva. Tudo isso esta

representado no pão sem ázimo da Páscoa. Disse Rafael.

- O pão e o vinho. Jesus disse que era seu corpo e

sangue? Perguntou Felipe.

- Sim o pão representa seu corpo e o vinho o seu

sangue que seria ofertado na cruz. Disse Rafael.

- Enquanto eu fechei os olhos e vi toda a história

de Jesus. Em uma das cenas que presenciei, Ele estava

falando do Pão da Vida, fez um discurso um pouco mais

profundo de si mesmo, disse que as pessoas o procuravam

não pelo milagre e sinais e sim para comer do pão e

convidou as pessoas a trabalharem não pela comida que

284


fenece e sim a que dura eternamente, e que ele o Filho do

homem era o sinal de Deus.

Como disse o profeta Isaias sobre o sinal: “de uma virgem

nascerá um menino”. Jesus disse ainda: “Eu sou o pão da

vida: aquele que vem a mim não terá fome, e aquele que

crê em mim jamais terá sede”. Presenciei algo que

entristeceu meu coração: os discípulos de Jesus que

estavam ao seu lado por interesses pessoais, sinais e

matéria abandonaram-no e deixaram de serem discípulos

murmurando: “Isto é muito duro! Quem o pode admitir?”

Então vi uma profissão de fé maravilhosa de Pedro quando

Jesus perguntou a eles se também iriam abandoná-lo e

Pedro respondeu: “Senhor, a quem iríamos nós? Tu tens as

palavras da vida eterna. E nós cremos e sabemos que tu és

o Santo de Deus.”

- A maioria das pessoas não quer comprometer-se

com o Reino. Preferem apenas usufruir do que este Reino

pode oferecer de bom. Por isso não suportam uma

pregação mais profunda. Não suportam uma perseguição.

Vivem na beira do caminho ou na beira d‟água e não

mergulham no que é essencial. O Reino de Deus para estas

pessoas não é uma prioridade e sim um desencargo de

consciência e quando precisam abrir mão de alguma coisa

285


escolhem sempre como primeira opção o Reino de Deus.

E por não viverem o Reino de coração, alma e espírito

carregam o que parece um fardo ao invés da libertação. É

comum encontrar pessoas que professam conhecer o

Reino de Deus e que vivem murmurando e de mal humor.

Priorizar o Reino de Deus é abrir mão de sonhos pessoais

para viver o sonho de Deus.

- Viver o Reino de Deus é sentir-se feliz e livre em

sentar à mesa e celebrar a vida na simplicidade do pão e

do vinho, pois lá tudo é familiar. Disse Felipe.

- Sim! Jesus escolheu duas coisas comuns do seu

tempo: o pão e o vinho e transformou-as através da sua

benção em corpo e sangue dado e derramado por nós na

cruz.

- Como é difícil enxergar na simplicidade, no

cotidiano, na brisa ligeira a presença fiel de Deus em

nossa vida. Disse Felipe.

- Eis o maior desafio, a ousadia de quem quer viver

Deus. Disse Rafael.

- Maria foi extremamente ousada no silêncio do

coração. Disse Felipe.

- Todos aqueles que silenciosamente dão sua vida

pelo Reino é como o pão e o vinho consagrado naquela

286


mesa da última ceia. Se parecem com Jesus! Então sim se

faz sentido o corpo e sangue de Jesus na vida concreta de

cada mártir. Quem não morre para as coisas do mundo,

para si e para o outro não vive para o Reino de Deus.

Disse Rafael.

- Jesus nos ensinou isso lavando os pés de seus

discípulos. Se Ele que era o Senhor lavou os pés,

imaginamos então nós que somos servos do seu amor.

Disse Felipe.

- Cabe a nós desejar e acreditar que tudo é

possível. Disse Rafael.

- “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim,

segundo a tua palavra” Professou Felipe repetindo as

palavras de Maria ao anjo Gabriel.

Rafael.

- E que os anjos digam: Amém! Finalizou o anjo

287


O sonho de Emanuel!

Buscai primeiro o Reino de Deus

E a sua justiça

E tudo mais vos será acrescentado

Aleluia! Aleluia!

Não só de pão o homem viverá,

Mas de toda palavra

Que procede da boca de Deus

Aleluia! Aleluia!

Se vos perseguem por causa de mim

Não esqueçais o porquê

Não é o servo maior que o Senhor

Aleluia! Aleluia!

Enquanto caminhavam pelas ruas de Jerusalém,

Rafael cantava. Felipe não parecia nenhum um pouco

exausto, aquele pão, tinha uma proteína fabulosa. Mas o

pão repartido por Jesus na última ceia dizendo ser seu

corpo é que realmente impressionou Felipe. A singeleza

daquele momento e toda a simplicidade que a

288


acompanhava ficaram impregnados eu sua mente e em seu

coração. O pão consagrado representava o alimento que

era o corpo de Cristo. Felipe não sentia fome do pão

material e sim deste pão espiritual. Felipe estava na região

de Canaã, a terra Prometida, agora conhecida como

Palestina. Enquanto andava reparava nas casas e nas ruas

de Jerusalém. O solo palestino é bastante contrastante. Em

algumas áreas é quase totalmente árido e havia muitos

carneiros. Em outras regiões, porém, é bastante fértil, com

um número diversificado de plantas. A Palestina apresenta

um grande número de vales, grotas naturais, montanhas,

desertos e depressões bem como diversas áreas férteis. Em

um dos destes lugares mais alto Felipe observou encantado

uma enorme construção.

O aspecto externo do edifício impressionava o

espírito e os olhos. Ele era recoberto de todos os lados por

espessas placas de ouro, a luz do sol refletia nele com tal

intensidade que obrigou Felipe a retirar os olhos como

diante dos raios do sol. Parecia uma montanha nevada,

pois onde não era recoberto de ouro, o era de mármore

mais branco. No alto, era eriçado de pontas de ouro

agudas.

289


Disse Felipe.

- Olha que construção mais linda! Que espetáculo!

- É o Templo de Jerusalém. Disse Rafael.

- O sonho de Davi. Exclamou Felipe.

- Que virou pesadelo. Disse Rafael.

- Por quê? Perguntou Felipe.

- Este Templo é a representação de todo o poder

desta época em Jerusalém. Poder Econômico, Poder

Religioso, Poder Legislativo. Ali se concentra o culto, o

Sinédrio e a fonte maior de riqueza. Disse Rafael.

- Lembro-me que Jesus entrou no Templo, com

chicote nas mãos e parecia enfurecido com os cambistas.

Disse Felipe.

- Eles exploravam os mais pobres nas festas que ali

aconteciam. O Templo foi profanado pelo dinheiro e pela

ambição. Além de ter servido como justificativa para

matar Jesus. Disse Rafael.

- Como assim? Perguntou Felipe.

- Levaram Jesus diante de Caifás e com duas

testemunhas o acusaram de ter falado: “Posso destruir o

templo de Deus e reedificá-lo em três dias.”

- E ele disse isso mesmo?

290


- Não! Era uma acusação falsa. Jesus na verdade

disse: “Destruí vós este templo, e eu o reerguerei em três

dias”. O Templo de Jerusalém foi destruído no ano 70

D.C. e quando Jesus referiu a reerguê-lo em três dias se

referia ao seu corpo que três dias após a morte

ressuscitaria dos mortos.

Rafael.

- Por que tanta maldade? Perguntou Felipe.

- O poder, o ser e o ter falam mais alto. Disse

- Então imagino que o Templo também ajudava a

sustentar o poder de Roma, por isso eles convenceram

Caifás. Disse Felipe.

- Com certeza. Felipe! No seu tempo existem

guerras inventadas para manter o poder de alguns. Muitos

inocentes morrem de todas as formas para manter o

poderio econômico. Disse Rafael.

- Existem fatos absurdos, situações onde faltam

provas e dados consubstanciais para justificar certas

violências. Mas o mundo se cala acreditando em coisas

sem anexo. Disse Felipe.

- As pessoas se calam por omissão, ou por medo

e/ou por conveniência. Disse Rafael.

Rafael pegou no ombro de Felipe e disse:

291


- Felipe chegou a hora de Jesus entregar sua vida

por todos nós. Estes momentos serão de profunda

angústia. São cenas de muita violência e dor. Sei que já

assistiu filmes a este respeito, mas nada é comparado com

que realmente sentirá. O que verá e experimentará marcará

profundamente sua vida. Todos nós que amamos Jesus

gostaríamos muito que isso não fosse necessário. Nem

Deus optou por isso, mas na sua infinita sabedoria venceu

a morte pela fraqueza. A maioria das pessoas não

compreende ou prefere não aceitar o que realmente

aconteceu na cruz. Você verá coisas que atingirão

diretamente a sua vida. E a dor de Emanuel, nosso Senhor

e amigo, deixará marcas profundas em você. Então você é

livre para decidir se quer ou não passar pela experiência

do calvário em sua vida. Disse Rafael.

- Não sei! Estou com muito medo. Como posso

querer enxergar alguém que amo sofrer? Disse Felipe.

- Fazer outros sofrerem é uma prática comum entre

os homens. Faz-se sofrer de fome pelo egoísmo. Faz-se

sofrer de solidão pela ambição. Faz-se sofrer de dor pela

ingratidão. Faz-se sofrer de remorso por não ter amado...

Fazer o sofrer é uma especialidade da humanidade. Disse

Rafael.

292


- Então com que força eu suportarei alguém que se

fez sofrimento pela libertação e cujo ato grave foi ter

amado demais. Disse Felipe.

- Com a aceitação e resignação. Disse Rafael.

- Será que eu consigo? Perguntou aflito Felipe.

- Não sei se conseguirá. Mas sei que Deus não

permite um sofrimento maior que possa suportar. Sei

também que aquele que quer viver o Reino de Deus sem a

perspectiva da cruz jamais o entenderá. Disse Rafael.

- O que devo pensar durante seu sofrimento?

Perguntou Felipe.

- Você tem um ponto ao seu favor em relação

aqueles que estiverem ali e que amam a Jesus. Você

conhece a história e sabe que ele ressuscitou e venceu a

morte. Pense na ressurreição. A aceitação resignada da

cruz se faz na perspectiva da reação que vem com a luz da

ressurreição. Pois não existiria a ressurreição sem a

passagem pela cruz. Disse Rafael.

- Não posso abandoná-lo agora. Disse Felipe.

- Mas lembra-se que Ele prefere que as pessoas não

sofram por isso. Ele carregou nossas dores. Não faz

questão que estejam sofrendo por causa dele. Ele me disse

que pela cruz você será curado. Não faça por Ele e sim por

293


você mesmo. Por isso conseguiu que até algumas pessoas

que o amava não estivesse ali ao pé da cruz. Agora vamos

temos uma pequena missão a cumprir. Disse Rafael.

o calvário

Felipe estava vestido a caráter novamente e junto

com Rafael estavam próximos a um jumentinho.

Aproximaram alguns homens que começaram a

desprender o jumentinho foi quando Rafael perguntou a

eles:

jumentinho?

devolverá.

- Ei, que estais fazendo? Por que soltais o

Eles responderam:

- O Senhor precisa dele, mas daqui a pouco o

Rafael acenou com a cabeça e deu um sinal para

que levassem o jumentinho. Logo depois Felipe se viu

vestido normalmente e também Rafael estava como um

anjo.

Rafael o levou à entrada de Jerusalém e Felipe viu

Jesus montado naquele jumentinho e o povo todo ao seu

294


edor estendendo seus mantos e espalhando ramos de

árvores pelo seu caminho e aclamando:

“Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor!

Bendito o reino que vai começar, o reino de Davi, nosso

pai! Hosana no mais alto dos céus!”

Rafael agora leva Felipe a um lugar onde se

chamava Pretório. Jesus estava vestido de púrpura, em sua

cabeça uma coroa de espinho e as pessoas ali o saudavam

dizendo: “Salve, rei dos judeus!” Davam-lhe na cabeça

com uma vara, cuspiam nele e lhes davam bofetadas e

depois punham-se de joelhos como para homenageá-lo.

Depois de terem escarnecido dele, tiraram-lhe a púrpura,

deram-lhe de novo as vestes e conduziram-no fora para o

crucificar.

Felipe viu o sangue que escorreu dos espinhos que

cravaram sua cabeça e a dor deveria ser violenta, eram

espinhos enormes. Viu os guardas batendo em Jesus. Viu

um homem maravilhoso, procurado por muitos e agora

humilhado diante dos guardas que o escarneciam. Felipe

não se conteve e começou a chorar. Jesus estava

desfigurado já pelas agressões. Chorou pela amizade e

pelo respeito que tinha por Emanuel, mas chorou

principalmente por acreditar que ninguém mereceria tal

295


sofrimento, muito menos quem só falou de perdão e amor.

Felipe lembrou-se de toda humilhação que já havia

passado na vida pela sua condição social e por ser órfão e

pensou consigo nenhuma delas se comparava ao que Jesus

agora estava passando. Alguém que tem o Universo aos

seus pés ao invés da coroa de ouro recebeu a coroa de

espinhos. Ao invés do trono a cruz. Ao invés da fama a

humilhação.

Felipe olhou o povo persuadido pelos sacerdotes e

anciãos, optarem pela libertação de Barrabás ao invés de

Jesus. Alguns daquele povo estavam gritando Hosana

enquanto Jesus entrava sentado no jumentinho em

Jerusalém. Os religiosos que deveriam entender Jesus

foram os que motivaram o povo a crucificá-lo. Então

Pilatos mandou açoitar ainda mais Jesus e o entregou para

ser crucificado.

Pelo caminho havia uma enorme multidão que o

acompanhava e mulheres que batiam no peito e o

lamentavam. Jesus olha para elas e diz: “Não choreis sobre

mim, mas chorais sobre vós mesmas e sobre os vossos

filhos.”

Ao seu lado também dois malfeitores caminhavam

para o calvário.

296


Jesus passou por Felipe carregando a cruz até o

calvário. Um homem lhe ajudou a carregar a cruz.

Chegando em Gólgota o pregaram na cruz. A cada prego

Felipe sentia as suas forças minarem. À direita e a

esquerda crucificaram também os dois malfeitores

também.

Felipe via aquilo tudo e parecia estar embriagado

pela dor. Os soldados que o levavam dividiam suas vestes

e as sortearam. A multidão conservava lá e observava.

Enquanto que os príncipes dos sacerdotes escarneciam de

Jesus, dizendo: “Salvou a outros, que se salve a si próprio,

se é o Cristo, o escolhido de Deus!”. Do mesmo modo

zombavam dele os soldados que diziam: “Se és os rei dos

judeus, salva-te a ti mesmo”. O olhar e as gargalhadas dos

sacerdotes e dos guardas lembraram o olhar e gargalhada

da serpente no paraíso. Tudo aquilo causou em Felipe o

mesmo temor que sentiu no Paraíso.

Felipe olhou ao seu redor e viu que ali estavam

muitas pessoas que eram conhecidas por eles. Políticos,

trabalhadores, profissionais de todas as profissões, artistas,

guardas, religiosos, escritores, cantores, compositores,

domésticas, mães, pais, filhos... que diante de Pilatos

haviam gritado: crucifica-o! Felipe também notou quem

297


não estava ali: as crianças, os enfermos: leprosos, cegos,

aleijados e todos o que pela lei da época não poderiam se

misturar no meio do povo, pois eram considerados

impuros. Felipe olhou as mulheres que choravam,

algumas delas tinham a fama de má vida. E viu um dos

ladrões na cruz enquanto o outro difamava Jesus, dizer:

“Para nós isto é justo: recebemos o que merecemos pelos

nossos crimes, mas este não fez mal algum.” E

acrescentou: “Jesus lembra-te de mim, quando tiveres

entrado no teu Reino!” Jesus respondeu-lhe: “Em verdade

te digo: hoje estarás comigo no paraíso.” Felipe lembrou-

se do Paraíso onde Deus no seu amor infinito havia criado

o seu maior sonho a humanidade, esta que agora o

mandava crucificar. Felipe então sentiu que a esperança do

paraíso estava de volta. E lembrou-se do que disse Jesus:

“Em verdade vos digo que os publicanos e as

prostitutas vos precederão no Reino de Deus.”

Felipe olha para Emanuel. Ele não tinha aparência

humana de tão desfigurado e sofrido. Não possuía

nenhuma graça e nem beleza. Felipe tentava tirar os olhos

de Jesus, era algo muito horrível, seu aspecto não seduzia.

Diante de Felipe aquele homem parecia agora um verme,

era desprezível, parecia uma escória, homem das dores,

298


experimentado pelo sofrimento. Felipe até tentava olhar

para ele, mas seu rosto se virava. Parecia o ser mais

amaldiçoado. Havia nele um sofrimento maior do que o

sofrido fisicamente. Como que se todo o pecado, a

maldade, as enfermidades estavam sendo carregados por

ele naquela cruz. Parecia que Deus o havia abandonado,

ferido e o humilhado. Felipe teve uma sensação de ódio e

violência por Jesus. Teve a sensação que todos aqueles

sentimentos ruins, que vieram a ele quando Adão comeu

do fruto proibido, estavam sendo jogados como pedras em

Jesus na cruz. Sua resignação, seu silêncio rebatia o

silêncio de Adão no paraíso quando o Pai o chamava.

Felipe notou que suas mãos estavam acirradas e que em

uma delas havia uma pedra. Largou a pedra assustado.

Então lembrou-se quando lá no monte Javé-Yiré socou

Emanuel e começou a chorar violentamente. Naquela

ocasião Emanuel lhe falou quando pediu perdão:

- Eu atraio sobre mim todas as suas mágoas e seus

pecados, pois para isso estou aqui, para salvar sua vida de

toda derrota. Sou seu amigo e amigo verdadeiro serve para

isso. Quantos aos socos que me deu, não foram fortes e

nem foram eles que me feriram. Estas feridas eu as trago

em mim para redenção de toda a humanidade.

299


Felipe lhe perguntara:

- São chagas não cicatrizadas?

O que Emanuel lhe respondera:

- São estigmas de amor! Chagas que curam!

Felipe tentava olhar a todo custo o rosto de Jesus,

então suplicando disse: “Jesus tende piedade de mim”. E

repetiu isso aos gritos e chorando por diversas vezes.

Ele já não tinha mais força para ficar em pé. Suas

pernas amoleceram e ele foi vencido pela dor violenta que

via em Jesus Crucificado. Olhou ao lado e viu João

prostrado também. Estavam de pé só Maria sua mãe e as

mulheres que a acompanhava. Olhou para Maria, agora ela

parecia ter uns 50 anos. Que mulher estupenda. Que força

ela tinha. Quantas mães suportariam ver tal sofrimento?

Ainda mais o sofrimento de não poder sofrer no lugar do

filho. Seu silêncio, seu olhar e estar de pé diante da cruz.

O que Deus não permitiu a Abraão o havia permito a

Maria: entregar seu único filho para holocausto a todos

nós.

Felipe lembra-se o que perguntara a Emanuel a

respeito de Deus pedir a vida de Isaac:

300


- Então Deus jamais permitiria que alguém

entregasse seu filho único para ser imolado? Não deixaria

que Abraão fizesse tal ato?

- Entregar seu filho único, não diria isso, pois você

vai conhecer alguém que entregou nesta nossa caminhada.

Mas no caso de Abraão, não pediria nem que imolasse seu

filho, só permitiu que Abraão quase imolasse para que

tomasse consciência de sua missão e não colocasse a vida

de toda uma humanidade na ignorância de quem realmente

é Deus e da sua real importância na vida de seus filhos.

Agora Maria entregava seu único filho para que

toda a humanidade compreendesse o que Deus é capaz de

fazer por amor a humanidade.

Felipe então vê que Jesus olha com um amor

imenso a Maria e João e diz:

- “Mulher, eis aí teu filho”

Depois disse a João:

- Eis aí tua mãe.

Felipe acolheu Maria neste momento em seu

coração e aprendeu com ela que mesmo que a gente perca

uma pessoa que ama, não podemos nunca perder a fé. Pois

hoje estaremos todos no Paraíso.

Então ouviu Jesus dizer:

301


- Tenho sede.

Felipe então respondeu:

- Eu quero matar a sua sede. Quero levar a todas as

pessoas suas palavras e seus gestos. Quero matar a sede de

todos aqueles que sofrem como tu nesta cruz. Quero levar

água viva que jorra o tempo todo. Eu quero Senhor matar

sua sede em cada irmão e irmã que grita por um copo

d‟água.

Então por fim Jesus exclamou na cruz:

“Eli, Eli, lammá sabactáni? Deus, meu Deus, por

que me abandonastes?

Felipe entendeu que era a exclamação de todos

que sofrem e pedem pela ajuda de Deus. Naquela cruz

Jesus assumiu o sofrimento total de seu pecado. Naquele

dia na praça ele havia perguntado por que Deus o havia

abandonado? A resposta de Deus foi um menino nascido

de uma virgem que se chama Emanuel.

Então Jesus lançou um grande brado e disse: “Pai,

nas tuas mãos entrego o meu espírito” E dizendo isso,

expirou.

Aquele grito pareceu com o grito e a dor de todos

os que sofrem injustiça.

302


Felipe ficou sabendo que o véu do Templo onde os

homens diziam estar Deus, o Santo dos Santos havia se

rasgado em duas partes. Rafael posteriormente lhe

explicava que o local sagrado agora onde Deus habita é a

vida das pessoas, pois vocês é o templo do Espírito Santo,

disse ele.

E quando tudo parecia terminado e as forças de

Felipe já estavam esgotadas aconteceu o que Felipe

chamou mais tarde de um verdadeiro impacto em sua vida.

Um soldado veio com uma lança e abriu-lhe o lado

direito de Jesus, saindo imediatamente água e sangue.

Felipe deu um imenso berro: Naaaaaaaaaaaaão!

Rodopiou e seus olhos se escureceram e caiu por

terra. Pois neste instante ele viu Abraão enfiar a faca no

cordeiro que havia Deus providenciado na moita entre os

espinhos. Também viu uma espada transpassar a alma de

Maria. E quase tudo ao mesmo tempo viu um menor sendo

alvejado por balas, com o revolver em mãos ao ser

atingido seu tiro desviou-se e atingiu sua mãe que caiu

diante de Felipe. No chão Felipe chora desesperadamente

enquanto olha o corpo de Jesus nos braços de Maria.

Lembrou-se que aquele menor era um morador do morro

que sofria violência na sua própria casa e que entrou nas

303


drogas por falta de apoio. Então Felipe repetiu uma das

frases que ouviu de Jesus na cruz:

- Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem.

304


O sonho da Humanidade

Rafael carregou Felipe que estava exausto e o

levou para uma piscina chamada Siloé. Felipe se banhou e

recuperou suas forças. O dia estava sombrio. Havia uma

grande tristeza no ar. Felipe não queria nem conversar.

Rafael o levou para outro lugar no Monte das Oliveiras.

Felipe reconheceu o lugar. Ali Jesus disse ao Pai: “Pai, se

é de teu agrado, afasta de mim este cálice. Não se faça,

todavia, a minha vontade, mas sim a tua”. Um anjo o

consolou. Felipe lembrou como Jesus era humano. Sentiu

todas as dores e seu sofrimento fora tão grande que suou

sangue. Felipe não tinha vontade alguma de se levantar

dali. Rafael respeitou seu silêncio, pois parecia que estava

tão cansado quanto Felipe. Felipe dormiu vencido pela

canseira.

- Levantai-vos, orai, para não cairdes em tentação.

Disse Rafael ao acordar Felipe.

Felipe estava melhor. Parecia mais confiante. Não

sabia o porquê, mas estava com uma sensação de que algo

novo estava para acontecer. Tinha um sentimento de que

aconteceria uma ótima notícia. Lembrou-se de um amigo

305


que sempre dizia: “Quando algo ruim acontece é porque

algo muito bom vai acontecer”. Olhou para Rafael e disse:

- A carne é fraca, mas meu espírito está forte.

- Que bom ouvir isso, fiquei muito preocupado

com você. Disse Rafael.

- Nossa! Parece que dormi tanto... Disse Felipe.

- Apenas dois dias. Disse Rafael.

- Dois dias?

- Sim! Queria que estivesse muito descansado, pois

o que vai experimentar será a maior alegria da sua vida.

Disse Rafael.

- O que eu vou experimentar?

- O sonho e a realização que a humanidade tanto

procura. Disse Rafael.

- Foi muito difícil enfrentar a cruz. Disse Felipe.

- Foi difícil para todos nós. Disse Rafael.

- Num primeiro momento pensei em desistir ao

enfrentar aquela dor toda, mas parecia que quanto mais a

recusava mais pesada ela ficava. Disse Felipe.

- Quanto mais você enfrenta a cruz mais pesada ela

fica, quando você resigna e aceita a cruz ela torna-se leve.

É um dos mistérios do sofrimento.

306


- Coloquei na minha cabeça que aquilo era

necessário. Disse Felipe.

- Nem o demônio que com toda sua maldade

imaginava que Deus resgataria sua humanidade pelo

aparente fracasso da cruz. Ninguém imaginava tal atitude

de Deus. Disse Rafael.

- Nós programamos nossa mentalidade para ver a

vitória no que traz o resultado imediato. Quando

deveríamos perseguir a vitória que traz resultados

duradouros. Disse Felipe.

Rafael.

- Na cruz todos os homens foram salvos. Disse

- Jesus demonstrou amor até para os que o

ignoravam. Disse Felipe.

- Felipe! Agora preciso levar você para o sepulcro

de Jesus. Lá terei que deixá-lo, pois tenho uma missão a

cumprir. Você terá uma experiência maravilhosa. Depois

de tanto sofrimento você encontrará a alegria que

permanece e que só Deus poderá lhe ofertar.

- Eu devo ser um cara chato! Disse Felipe.

- Por que diz isso? Perguntou Rafael.

- Por que as pessoas estão sempre me deixando.

Disse Felipe triste pela despedida de Rafael.

307


- Não olhe nesta perspectiva. Agora que

experimentou o caminho do calvário pense com a

sabedoria da cruz. Disse Rafael.

- Como deve ser meu pensamento?

- As pessoas não partem! Ressuscitam! Pois

estarão eternamente em seu coração e em sua história.

Disse Rafael.

- Muito obrigado por ser meu anjo guia, protetor e

curador de minhas chagas. Sou muito grato por me ensinar

as coisas de Deus. Disse Felipe.

- Eu que agradeço sua amizade, pois os anjos só

são vistos por aqueles que acreditam nele. E você não é

chato, é uma pessoa muito especial e cativa os que se

aproximam de você. Agora vamos. Disse Rafael.

No primeiro dia que se seguia ao sábado Rafael

levou Felipe ao sepulcro de Jesus.

Era madrugada e Felipe viu a pedra que fechava o

sepulcro, removida.

- Felipe fica aqui fora e aguarde. Eu terei que

entrar no sepulcro para cumprir mais uma missão. Disse

Rafael.

Diante de Felipe apareceram algumas mulheres que

traziam um tipo de aroma. Se assustaram ao ver o sepulcro

308


aberto e entraram para ver. Estavam atônitas e sem saber o

que realmente havia acontecido. Foi quando Rafael

apareceu diante delas e disse:

- Por que buscais entre os mortos aquele que está

vivo? Não está aqui, mas ressuscitou.

Elas saíram correndo dali. Estavam radiantes de

felicidade. Felipe emocionou-se e então tomou

consciência do que havia acontecido. E não podia

acreditar que estava experimentando na própria vida, ali

naquele lugar, a alegria de encontrar o sepulcro vazio.

Felipe teve vontade de gritar para o mundo que Emanuel

seu amigo estava vivo. Então ele disse com força:

- Ele vive! Ele vive! Ele vive! E vive em mim!

Caiu de joelhos e chorou feliz. Era um dia

maravilhoso. O por do sol era diferente. Depois de tantos

dias nublados agora via o universo sorrindo para a notícia

deste dia: Jesus está Vivo! Olhou para Rafael e este abriu-

lhe um sorriso e disse:

- “Onde está, ó morte, a tua vitória?

- Ele está Vivo! Emanuel Vive! E está entre nós!

Disse Felipe rindo e chorando ao mesmo tempo.

- Nós vencemos! Disse Rafael e começou a cantar:

309


Ressuscitou, ressuscitou, ressuscitou! Aleluia!

Aleluia, aleluia, aleluia! Ressuscitou!

Ó morte, onde estás, ó morte? Quem és tu ó morte?

Qual a tua vitória?

Alegria, irmãos alegria, nós hoje cantamos, o

Senhor ressurgiu!

Com Cristo, nós ressuscitamos, juntos

proclamamos: o Senhor nos salvou!

Neste momento passaram por eles Pedro e João

que vieram correndo. João chegou primeiro, mas só espiou

e não entrou. Pedro chegou e entrou no sepulcro. Pedro

saiu com o semblante pensativo. João estava com um

sorriso enorme e transmitia uma certeza e uma alegria.

João viu e creu. Felipe disse bem baixo:

- O discípulo amado por Jesus. Quem

verdadeiramente ama conhece o Amor.

Os discípulos foram embora e permaneceu ali

Maria Madalena chorando! Felipe olhou para ela, queria

tanto lhe contar que Cristo está Vivo. Admirou o amor e

amizade que ela tinha por Jesus. As mulheres, desde o

calvário, demonstravam sensibilidade a tudo o que

acontecia com Jesus. Eram as mais fiéis.

310


o jardineiro

Neste momento aconteceu algo surpreendente na

vida de Felipe, ele ouviu uma voz:

- Filho!

Felipe reconheceu a voz e não podia acreditar no

que veria agora. Ele voltou-se e viu seu pai diante dele.

- Pai.

- Meu filho, você está aqui? Você está bem?

Perguntou seu pai.

- Sim Pai! Estou muito bem. Mas como isso pode

acontecer? Como pode estar aqui? Felipe foi perguntando

e num impulso abraçou seu pai com muito amor e carinho.

Ficaram abraçados e se beijando. O pai de Felipe

estava vestido de jardineiro e cheirava o suor do trabalho.

- Como o senhor pode estar aqui se faleceu? Disse

Felipe espantado.

- Estava morto e revivi. Tinha me perdido e fui

achado. Afirmou o pai de Felipe.

- Mas como isso foi possível? Perguntou ainda

Felipe atônito com o que presenciava.

311


- Quando Jesus entregou seu espírito naquela cruz,

os sepulcros se abriram na mansão dos mortos e os corpos

de muitos justos ressuscitaram. Saíram das suas

sepulturas, entraram na cidade Santa depois da

ressurreição de Jesus e pareceram a muitas pessoas.

Emanuel me permitiu falar contigo antes de ser levado

com ele no Paraíso.

- E por que está vestido com a roupa do trabalho?

Perguntou Felipe.

- Morri de infarto fulminante enquanto lidava com

a terra e cuidava de um jardim. Lembra-se? Disse seu pai.

- Como poderia esquecer. Hoje é o tempo de Deus!

Tudo está acontecendo agora. Disse Felipe.

- Hoje estou aqui! Disse seu pai.

- Pai! Preciso lhe falar. Disse Felipe.

- Filho antes deixe eu lhe dizer algumas coisas que

gostaria muito que soubesse. Se eu pudesse voltar ao

passado juro a você que trabalharia menos e estaria mais

ao seu lado. Deixei um dinheiro guardado para você. Mas

aquele dinheiro não compra o tempo que desperdicei e o

qual me levou a estar distante de você. Queria muito pegar

você em meu colo mais vezes. Beijar-lhe muito mais do

que beijei. Brincar com você. Gostaria de chegar mais

312


cedo do meu trabalho para lhe oferecer meu sorriso, meu

carinho, minha benção. Quantas vezes eu chegava à noite

em casa e lhe via dormindo e lhe beijava a testa e lhe

oferecia minha benção e você não podia ver aquilo. Jamais

trabalharia no domingo! Passaria este dia abençoado ao

seu lado. Como pude ser tão insensível e não perceber que

a ausência de sua mãe lhe trazia solidão e que precisava

mais do que qualquer outra criança a presença do seu pai.

Imagino quantas vezes você sozinho chorou a ausência

dela e minha, quando poderia lhe oferecer meu ombro.

Nenhum dinheiro paga ou apaga a falta de amor e carinho.

Não vi você crescer. Não vi você chorar. Não vi você

jogar futebol. Nunca olhei seu caderno. Poucas vezes parei

para lhe escutar. Pensei que estava fazendo algo tão belo

trabalhando o tempo todo para seu bem. Mas Filho, estava

me escondendo das saudades e da dor que sentia pela

ausência de sua mãe. Fui egoísta! Então a felicidade

passou despercebida em minha vida e o que era essencial,

ou seja, você, eu deixei de lado. Pedi a Emanuel que me

desse a chance de lhe pedir perdão. Então ele me ofereceu

esta chance, esses minutos que para mim será uma

eternidade. Ele me ofereceu muito mais. Falou do amor a

você e consolou seu coração. Não compreendia que

313


imenso valor tem Deus, pois eu com certeza lhe

ofereceria. Pois eu lhe amo muito! E como pai quero que

tenha em sua vida o que é melhor.

Neste momento o pai de Felipe não conteve e

chorou e abraçou seu filho e o beijou. Felipe estava

comovido e feliz, pois aqueles minutos eram bem mais

valiosos que todo o tempo que teve para estar ao lado do

pai. Felipe então lhe disse:

- Pai, eu sei o quanto me ama. Sei agora que tudo o

que fez foi por amor. E sei que quem ama não erra. Eu

também tive minhas culpas. Ficava amargurado com a

ausência da mamãe e brigava e descontava muitas vezes

no senhor. Sempre lhe admirei tanto. Quando partiu

naquele dia eu estava no banco da praça e desejava mais

do que qualquer coisa sentir o cheiro do seu suor. Lembra

pai quando eu esperava o senhor voltar do trabalho, e o via

vindo lá da esquina e corria abraçá-lo. O senhor ria e me

pegava no colo. Você é meu herói, e quero ser digno e ter

o caráter e a honestidade que sempre demonstrou em sua

vida. Teus ensinamentos e conselhos eu vou utilizá-los

pelo resto da minha vida. E se pecou por excesso de amor

é lógico que está perdoado. Eu é que preciso do seu

perdão. Estou muito feliz por que Emanuel lhe viu como

314


justo para levá-lo à felicidade eterna. Sabe pai eu aprendi

tantas coisas com Emanuel. Eu perdoei todas as minhas

mágoas. Estou cheio de sonhos e esperança. Minha vida

agora tem sentido. Pai eu também ressuscitei. Eu te amo!

Felipe e seu pai se abraçam felizes por tudo que

Deus proporcionou em suas vidas.

- Filho agora eu tenho que partir. O anjo Rafael me

levará. Fique com Deus! Estou feliz por ver você feliz.

Disse seu pai.

- Pai, a sua benção! Vá com Deus!

- Deus lhe abençoe!

Neste momento Rafael se aproxima de Maria

Madalena e pergunta-lhe:

puseram.

- Mulher, por que choras?

Maria Madalena respondeu:

- Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o

Então o pai de Felipe se aproximou de Maria

Madalena e lhe perguntou:

respondeu:

- Mulher, por que choras? Quem procuras?

Maria Madalena olhando para o jardineiro,

315


- Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste e

eu o irei buscar.

Felipe viu o anjo Rafael pegar no braço de seu pai

e os dois partirem. E então Emanuel chamou Maria

Madalena:

- Maria!

Voltando-se ela, exclamou:

- Rabôni!

O encontro foi maravilhoso. Felipe pode

experimentar, o que em sua vida e em sua missão

experimentaria muitas vezes, a maravilha da ressurreição.

Maria Madalena e Jesus se abraçaram. Felipe viu os olhos

e o rosto de Maria Madalena irradiar uma alegria tamanha

que chegava a parecer com a luz e irradiação que Emanuel

apresentava agora ressuscitado. Lembrou-se do que lhe

havia falado Rafael, quando falou da fraqueza humana:

“Mas ai está a beleza de ser humano. Pois é nas

fragilidades que Deus se faz presente. Na dor enaltece a

presença do amor. Você está enxergando por que permitiu

que Emanuel entrasse em sua vida e mostrasse seus

caminhos.” Maria Madalena viu Jesus Ressuscitado por

que na sua fragilidade permitiu que Deus fosse sua força.

316


Por que creu ficou ali esperando e por isso acolheu Jesus

Vivo.

disse:

Maria Madalena quis segurar Jesus ali, mas ele lhe

- Não me retenhas, porque ainda não subi ao meu

Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus.

Felipe encantou-se com estas palavras, pois Jesus

dizia que Deus Pai era de todos. Então lembrou que

quando os discípulos lhe pediram para ensiná-los a orar

ele começou assim: “Pai nosso...”

Maria Madalena correu para anunciar aos

discípulos que ela tinha visto o Senhor.

Felipe ajoelhou-se diante de Emanuel, agachou-se

e tirou o calçado. E disse:

- Meu Senhor e meu Deus!

Emanuel o puxou pelos braços, o abraçou forte e

lhe beijou no rosto. Felipe o segurou abraçado com

força também. Estava com muitas saudades de Emanuel.

Emanuel lhe disse:

- A paz esteja contigo.

- Ela está diante de meus olhos. Disse Felipe.

- Meu amigo! Acho que sua jornada está

terminando. Disse Emanuel.

317


- Não! Ela está só começando. Pois agora que eu

conheci o Reino de Deus quero vivê-lo com intensidade e

fé.

- Fico feliz em lhe ver feliz. Mas agora tenho que

partir, porém estarei sempre perto de você. Quando me ver

partir eu enviarei meu Espírito Santo e ele lhe ensinará

tudo o que precisa saber sobre como vivenciar o Reino de

Deus. Peça a ele todo dia que o acompanhe e eu estarei

com você. Ele lhe dará força e será minha testemunha até

os confins do mundo. Disse Emanuel o abraçando e se

despedindo.

- Muito obrigado! Não sou digno! Sei disso! Por

isso agradeço o que fez por mim naquela cruz e por

permitir que eu o conheça. Agora que eu encontrei este

Reino quero vivê-lo pelo resto da minha vida.

- Eu lhe abençoou e lhe guardo. Mostro a minha

face e lhe concedo a minha graça. Eu volto o rosto para

você e lhe ofereço a paz!

- Amém!

- Agora preciso partir, pois preciso resgatar uma

amizade sincera. Levantar a auto-estima de um amigo,

pois agora é ele o próximo escolhido para conduzir o

Reino de Deus.

318


O sonho do morro

- Felipe! Felipe! Felipe!

Felipe acorda com alguém o balançando e percebe

que está na Praça do Bom Pastor novamente.

aqui?

- O que está fazendo aqui? Você passou a noite

Felipe então vê Lúcia à sua frente.

- Noite? Que dia é hoje? Perguntou Felipe.

- Hoje é segunda-feira! Depois do enterro você

veio para cá? Passou a noite aqui? Perguntou Lúcia.

bem?

- Meu pai foi enterrado ontem? Perguntou Felipe.

Lúcia ficou preocupada com Felipe. E disse:

- Olha! Eu sinto muito que aconteceu! Você está

- Sim, eu estou! Nunca estive tão bem na minha

vida. Disse Felipe com um sorriso largo.

- Você fica muito mais bonito quando sorri, Felipe.

- Eu sei. Emanuel me disse isso. Falou Felipe.

- Emanuel? Perguntou Lúcia.

- Sim é uma história cumprida. Então o enterro do

meu pai foi ontem? Perguntou Felipe.

319


Lúcia.

- Sim! Você tem certeza que está bem? Falou

- Ele me disse que não era para eu preocupar-me

com o tempo. Disse Felipe.

Lúcia.

- Ele quem? Perguntou Lúcia.

- Já lhe disse: Emanuel. Falou Felipe rindo.

- O único Emanuel que conheço é Jesus. Disse

- Pois então! Foi ele. Mas deixa pra lá. Agora tenho

muitas coisas para fazer. Mais tarde irei lá ao Centro

Comunitário e explico todinho pra você. Preciso muito

falar com você. Mas me diga você estava me procurando?

Disse Felipe.

- Não! É que todo dia cedo venho trazer pão e leite

àquele mendigo que está deitado ali no chão. Pelo jeito

alguém esta noite roubou-lhe a cama que é este banco que

estava deitado. Disse Lúcia rindo.

Neste momento o mendigo se aproxima e diz:

- Meu anjo trazendo o pão do céu!

Lúcia ri e comenta com Felipe:

- Ele sempre diz isso!

Felipe então se lembra do que Jesus ensinou:

- Estive com fome e me destes de comer.

320


Felipe lembra-se da sua tia e diz a Lúcia:

- Minha tia deve estar preocupada.

- Felipe, por favor, não brigue mais com ela, ela já

sofreu muito nesta vida.

- Não brigarei nunca mais. Disse Felipe.

Lúcia notara que Felipe estava muito diferente. Ele

ria o tempo todo. Estava muito feliz. Ficou preocupada

com ele. Achou que estava delirando de saudades de seu

pai. Mas gostava de vê-lo rindo.

Comunitário.

- Lúcia mais tarde eu passo lá no Centro

Felipe dá um abraço forte em Lúcia. Dá-lhe um

beijo no rosto. E agradece por tudo que ela fez na vida

dele. Lúcia nunca recebeu um abraço de Felipe. Enquanto

a beijava olhou para o mendigo que lhe sorriu, fez um

positivo para ele.

Então Felipe partiu para o morro alegre e cantando.

Lúcia olha para o mendigo com cara de quem não

estava entendendo nada e lhe diz:

- Eu nunca perguntei seu nome. Como se chama?

- Emanuel. Disse o mendigo.

321


Enquanto que Felipe corria e quando chegou perto

do morro tirou o caçado dos pés e subiu. Chegou à sua

casa e entrou.

Procurou sua tia que estava sentada à mesa

cabisbaixa e triste. Parecia que estava naqueles dias de

depressão. Então Felipe a chamou:

- Tia Maria.

Tia Maria levantou-se de um pulo olhou para

Felipe e não conteve a alegria de vê-lo ali. Estava

preocupada, não havia dormido e estava pensando em ir à

delegacia para dar parte de seu sumiço. Felipe lhe disse:

- Tia eu voltei! Quero minha vida toda morar com

a senhora. Perdoe-me se a deixei preocupada esta noite.

Nunca mais farei isso com a senhora.

bronca.

Tia Maria agora aliviada lhe dá uma grande

Felipe sorri com o jeito ranzinza de tia Maria e

abraça com muito carinho e a beija diversas vezes e diz:

- Tia Maria. Você é tudo que tenho em minha vida.

E não adianta brigar comigo, pois eu vou estar ao seu lado

pelo resto da minha vida. Eu te amo! E queira ou não

aceitar: nós somos o que sobrou de nossa família.

322


Tia Maria chora com estas palavras de Felipe. E

meio que desengonçada e bem mais dócil começa a

arrumar a mesa e preparar o café da manhã e diz:

- Deve estar com fome, meu filho. Senta e come.

Enquanto Felipe sentava-se para comer, tia Maria

passava a mão em seu cabelo. Felipe lembrou-se do lhe

disse Emanuel: “A família é como uma terra sagrada e lá o

ar que se respira é o amor, a água que se bebe é a

compreensão e o sol que ilumina é o perdão. Você é

responsável por quem ama e por quem não ama também e

que necessita do seu amor. Pois que vantagem tem para

aquele que ama só os amigos? Deveis amar também vosso

inimigo. Esta é a diferença que existe em alguém que quer

viver o Reino de Deus.”

Clara

Felipe tomou um belo banho. Se vestiu e estava

para sair novamente quando sua tia Maria lhe perguntou:

- Vai sair? Vai namorar? Disse Ela.

- Eu vou sair sim! Mas iria lhe avisar. Tia eu vou

ver minha namorada, mas não é para namorar e depois

323


passarei para falar com Clara e Lúcia. Depois voltarei para

casa. Se precisar de algo sabe onde me encontrar.

menino.

Tia Maria estava feliz. Felipe parecia outro

Felipe vai ao encontro de Bianca. Ela estava linda

como sempre. Vivia sempre bem arrumada e perfumada.

Veio ao encontro de Felipe para lhe beijar. Felipe parecia

meio distante, então ele lhe falou:

- Bianca! Preciso lhe falar algo. Eu não quero mais

namorar com você. Andei pensando sobre nossa vida e em

nossos sonhos. E ultimamente tenho tido outros sonhos.

Quero morar aqui e cuidar da minha tia. E penso que não

conseguiria viver em outra realidade que não seja viver a

minha origem. Entende?

- Felipe! Eu sei que você está meio chateado com a

morte de seu pai e isto está fazendo você falar estas

besteiras.

Felipe a interrompe:

- Não é besteira. Eu amo meu povo. Amo minha

tia. E quero ficar aqui. Terminou! Nosso relacionamento

chegou ao fim.

Bianca indignada diz:

324


- Acho bom mesmo! Você é muito brega! Aprendiz

de jardineiro. Adeus.

Felipe sorri aliviado. E pensou consigo:

- Livrei-me de uma enrascada.

Felipe correu para falar com Clara. Chegando lá

encontrou com Clara na Associação de Bairro. Clara era

simples. Muito bonita. Era uma menina resolvida. De bem

com a vida. Tinha personalidade e opinião própria. Muito

inteligente e sabia bem o que queria da vida. Tudo isso

incomodava Felipe. Clara sempre dizia que os homens

tinham medo de mulher resolvida e independente.

- Olá Clara!

- Olá Felipe!

Clara se aproximou de Felipe e o abraçou com

muita força e lhe disse:

- Meus sinceros sentimentos. Estava preocupada

com você. Acabei de falar com meu pai que deveria ter

descido para sua casa bem cedo para conversar com você.

Pois, com certeza mais tarde estaria na casa de Bianca.

- Agradeço sua preocupação. Realmente, eu saí

cedo e fui falar com Bianca. Disse Felipe.

Disse Clara.

- Não disse? Você e Bianca não se desgrudam.

325


- Você quer dizer não desgrudava né?

- Como assim? Perguntou Clara.

- Nós terminamos. Não estamos namorando e não

vamos namorar mais.

Clara sentiu certa alegria e sorriu.

- Vim aqui para falar com o seu pai.

Clara também achou Felipe meio estranho e

chamou seu pai.

Negão o abraçou e lhe disse:

- Meu filho! Sinto muito que lhe aconteceu, seu pai

era respeitado e amado por todos nós. Sempre ajudou

muito com nosso trabalho aqui no morro. Quero que você

saiba que não é possível substituir seu pai, mas conte

comigo no que precisar. Eu, minha esposa e minha filha

estaremos sempre juntos com você.

Felipe se sentiu comovido. Sempre Negão o

abraçava e o chamava de filho, fazia isso com todos os

jovens do morro que por sua vez tinham respeito a ele.

Felipe enxugou os olhos e disse-lhe:

- Eu estou bem. Vim aqui para oferecer minha

ajuda aqui na Associação. Gostaria muito de ajudar este

povo a conquistar a liberdade e a cidadania. Disse Felipe.

326


- Você preocupado com o povo daqui. Não é você

que quer mudar-se daqui o quanto antes. Disse Clara.

- Eu mudei! Agora sou livre! Por favor, me aceita!

Negão olhou bravo para Clara e disse a Felipe:

- Filho, seja bem vindo.

Felipe olhou para Clara e lhe sorriu e agora sem

medo da sua independência, deu-lhe um beijo no rosto e

lhe disse:

- Vai ter que me suportar muito em sua vida!

Mãe de Clara deu uma enorme risada. Pois

percebera que quem ficou sem jeito desta vez foi ela.

Felipe então desceu para o Centro Comunitário São

Francisco e conversou todo aquele dia com Lúcia

contando tudo o que havia acontecido com ele. Lúcia se

alegrou com a história de Felipe.

experiência.

- Eu acredito! Disse Lúcia após ouvir sua

- Eu sabia que você acreditaria. Pois você sempre

me falou de Emanuel. Disse Felipe.

- Fico muito feliz que você conheceu o Reino de

Deus. E também estou feliz por Emanuel estar feliz com

minha missão. Às vezes parece que o cansaço vai me

vencer. Disse Lúcia.

327


Felipe lembrou-se da música A Barca que Emanuel

cantou, e disse:

ouvir.

- Que seu cansaço a outros descansem. E disse:

- Quero participar do trabalho daqui, posso ajudar?

Lúcia ficou muito feliz com o que acabara de

- Sim, é lógico que pode. Seja bem vindo!

Felipe então voltou para casa e encontrou sua casa

toda limpa. Na mesa estava o jantar bem preparado.

Parecia comida de domingo. Sua tia estava muito feliz ao

vê-lo voltar. Juntos sentaram-se à mesa e Felipe fez uma

oração simples e que aprendera com Rafael:

“Senhor daí pão a quem tem fome! E fome de

justiça a quem tem pão! Abençoai esta nossa refeição.

Obrigado Senhor!

Naquela noite Felipe e sua tia conversaram muito e

riram das coisas que ela contava de seu pai quando

criança. Sua tia também lhe contou a história da sua vida.

Felipe voltou a falar para ela que nunca a deixaria. Que

precisava muito dela e que na vida dele ela era sua família.

328


Fim

Felipe casou-se com Clara. Teve quatro filhos:

Francisco, Teresa, João e Maria. Felipe sempre esteve ao

lado dos filhos. Estudou e pagou seus estudos com o

dinheiro que seu pai lhe deixou, formou-se Doutor em

Ciências Sociais. Todo dia Felipe pela manhã começava o

dia perguntando: “Emanuel! Bom Dia! Qual será a

aventura de hoje?” Viveu o resto da sua vida ao lado da

Tia Maria que acolheu seus filhos como netos. Tia Maria

dava aulas de pintura, como voluntária no Centro

Comunitário, e nunca mais teve depressão. Francisco,

Lúcia, João e Maria a chamava de vovó. Felipe, Clara

juntos com Negão tornaram-se a voz do morro em defesa

dos direitos e cidadania daquele povo. Felipe nunca mais

viu Bianca que se mudou dali. Entre as aulas e

conferências que dava, pois virou um professor respeitado,

ele e Lúcia desenvolveram vários trabalhos sociais que

beneficiaram o povo daquele lugar.

Entre os trabalhos que se destacaram o que mais

marcou o morro para sempre foi o Projeto Vida Colorida!

Nele Felipe ensinava as pessoas a desenvolver e cuidar de

jardim. O morro inteiro virou um enorme canteiro de

329


jardim. Por onde se via, em cada canto havia milhares de

flores e árvores que embelezavam as ruas e as casas das

pessoas. Lá em cima do morro e ao redor eles venceram o

deslizamento repondo a vegetação para que a água que

descia pelas encostas do morro perdesse a velocidade ou

infiltrasse no solo criando a voçoroca. Construíram

terraços em forma de degraus a fim de proteger o solo da

ação das águas pluviais.

Na primavera o morro ficava todo colorido. Os

turistas visitavam o morro, pois ele ficou famoso pela

beleza das flores. O morro ganhou um nome: Bairro

Jardim e virou um ponto turístico que trazia benefícios ao

povo do bairro.

em cima no topo do bairro Jardim havia um

belo bosque e Felipe construiu uma estátua de Emanuel de

braços abertos toda iluminada.

Felipe foi promovido lá no bairro de aprendiz de

jardineiro para o Jardineiro. Todos o conheciam como o

Jardineiro.

Quando faleceu levantaram uma estátua ao lado de

Emanuel. A estátua era de um Jardineiro que apontava

para Emanuel. Elas eram iluminadas e se acendiam de

forma sincronizada. Quando a estátua do Jardineiro

330


apagava a de Emanuel se acendia e ficava mais intensa.

Na estátua do jardineiro estava uma placa com os dizeres:

Por que choras? Quem procuras? Na estátua de Emanuel

estava escrito: O Reino de Deus está aqui!

331


O sonho do escritor

Meu sonho é anunciar o Reino de Deus para que

todas as pessoas o encontrem e sejam felizes!

Se você leu esta obra e sonhou junto comigo eu

peço que não interrompa esse sonho.

Divulgue para mais pessoas, envie para alguém,

tire uma cópia e juntos vamos semear um mundo melhor.

Lembra-se: para cativar é necessário entusiasmo

pelo Reino. Divulgue e espalhe esta obra com alegria e

convicção.

É somente isso o que humildemente lhe peço.

Não é uma corrente, é apenas um humilde pedido

de quem abriu mão do valor financeiro para realizar o

sonho de fazer você sonhar com O Reino de Deus!

Obrigado!

332


Bom Pastor.

BIOGRAFIA

Gilberto é fundador da Comunidade Acolhimento

Autor dos livros:

1 - Deus enviou um profeta! Você o acolheu?

2 – Lançai as redes!

3 – Vinde, Bendito!

4 – Gratia Plena

Um dos onze filhos que Miltom e Regina tiveram.

Casou em 1994 com a Regina e tiveram os filhos:

Felipe (nascituro), Mariana (treze anos) e Juliana (dez

anos).

Participou de diversos segmentos na Igreja:

Seminarista, Vicentino, Legionário de Maria, Congregado

Mariano, Comunidade de Jovens, Pastorais e Catequista.

Em 1982 conheceu a Renovação Carismática

Católica e através da experiência do Pentecostes teve a

certeza do amor de Deus.

Em 2002 aos 36 anos de vida fundou a

Comunidade Acolhimento Bom Pastor.

333


A Comunidade tem como carisma o Acolhimento

baseado na tríplice dimensão: acolher é amar, é

evangelizar, é formar.

A Comunidade Acolhimento Bom Pastor através

de seu carisma prega a Palavra de Deus onde é convidada

e realiza um trabalho social de promoção humana e

cidadania através do Projeto Madre Teresa de Calcutá.

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