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A CASA DO OUTRO LADO DA RUA Walter Miranda 1

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A CASA DO OUTRO LADO DA RUA

Walter Miranda

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A T E N Ç Ã O

ESTE É APENAS O PRIMEIRO CAPÍTULO DO

“A CASA DO OUTRO LADO DA RUA",

DE AUTORIA DE WALTER MIRANDA,

DISTRIBUÍDO COMO CORTESIA.

A CASA DO OUTRO LADO DA RUA

Walter Miranda

VEJA AO FINAL COMO ADQUIRIR A EDIÇÃO COMPLETA DESTE LIVRO.

ESTE LIVRO ESTÁ PROTEGIDO PELAS LEIS DE COPYRIGHT. SUA

REPRODUÇÃO TOTAL OU PARCIAL SOMENTE PODERÁ SER FEITA MEDIANTE

AUTORIZAÇÃO POR ESCRITO DO AUTOR.

DESEJAMOS A VOCÊ UMA ÓTIMA LEITURA!

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A CASA

A CASA DO OUTRO LADO DA RUA

Walter Miranda

DO OUTRO LADO

Registrado na BL sob n° 471.057

Livro 887 página 344

4 de Setembro de 2009

DA RUA

Autor: Walter Miranda

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A CASA DO OUTRO LADO DA RUA

Capítulo I

A CASA DO OUTRO LADO DA RUA

Walter Miranda

Mirtes quase teve uma crise de nervos quando se viu de frente a um sobrado, que pelas

conversas que tinha ouvido do pai, era em São Paulo. Ela havia saído da casa da Kátia onde

almoçara e seguia com a amiga para o apartamento da tia Ambrosina na Tijuca e sem saber

como, estava de pé naquele local. A distância entre a sua escola e a casa da Tia era muito

grande, mas fora a forma que os pais dela encontraram para acomodar a filha nos últimos dias

de aula, antes dela se transferir de colégio nas férias que se aproximavam. Seriam apenas

poucos dias de sofrimento que diziam eles, ao lhe pedir paciência e compreensão. Para ela,

todavia a sua angústia viria depois. A última coisa que a Mirtes não esperava que lhe fosse

acontecer, seria o dia que ela teria que deixar a praia de Copacabana. Nem de longe passava

pela sua cabeça aquela ideia e ainda para piorar, o seu pai estava se transferindo para São

Paulo a cidade que não tinha nenhum atrativo para os sonhos da jovem carioca. Para

completar o seu desânimo, o dia se mostrava encoberto e não havia sinal do Sol, apenas

nuvens. Quando ela se viu de frente para o sobrado num bloco de cinco casas, que o seu pai

disse que havia adquirido foi quando ela se deu em conta do que se passava. Depois,

voltando-se de costas para a sua casa, ela quis ver qual deveria ser a sua paisagem dali para

frente. Ficara desanimada quando viu por detrás de um muro de quase dois metros de altura,

apenas o topo de uma casa velha, que ela deduziu de imediato que somente poderia ser uma

casa abandonada.

A visão tétrica daquele estranho monumento ao invés das areias brancas e o mar azul,

quase fez cair em prantos. Lembrando das palavras do pai que lhe dissera, sobre o conforto da

nova moradia, ela ainda se mantinha inconsolada. Ao entrar no sobrado correu para o seu

quarto que ficava na parte de cima, como ele descrevera e se jogou na cama aturdida como

aquele nefasto evento para os parâmetros dela. A mágoa dela havia começado há um mês

quando num jantar no apartamento da família em Copacabana, o pai lhe dissera que todos

teriam que se mudar para São Paulo. Ele fora promovido na empresa e deveria assumir a sua

promoção num cargo na Capital Paulista. Para a jovem fora um terrível choque aquela notícia.

Acostumada apenas a atravessar a Avenida Atlântica para chegar à praia, ela não se

conformava com a ideia de abandonar tudo aquilo para seguir aos pais. Naquela noite assim

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Walter Miranda

que ouviu do pai, desesperada ela deixou o jantar por terminar e se trancou em seu quarto.

Logo estava se comunicando com a sua fiel amiga e companheira Kátia que não conseguiu lhe

dizer nenhuma palavra de conforto ante o impacto da notícia. Kátia depois de alguns minutos

conseguira fazer a amiga compreender que às vezes seria necessário suportar aquela mudança,

para obter bons resultados mais adiante. Ela se lembrou que aquelas palavras da amiga pouco

serviram para mitigar a frustração que aquilo lhe causara. Era um quadro completamente

sinistro na visão que ela tinha. Logo ela se pôs a maldizer da sua sorte e dizia apontando para

a casa velha para quem quisesse ouvir:

“Vejam aonde eu vim parar. Fui bruscamente desterrada do paraíso para um lugar sem

nenhum cabimento! Não sei se vou aguentar essa barra...” A ideia de se rebelar com a atitude

dos pais e voltar para o Rio de Janeiro no primeiro ônibus, embora tenha passado pela sua

cabeça, foi logo descartada. O amor que ela sentia pelos pais não lhe permitia tomar uma

iniciativa como aquela. Mirtes sabia que a mãe já se debatia com um outro problema e não

pretendia aumentar ainda mais a aflição dela. Teria que aceitar a mudança embora contra a

sua vontade, e se ajustar na medida do possível.

Na conversa que tiveram no dia da notícia, ainda estava latente em sua mente e ela se

lembrou que o pai havia dito que precisava daquela promoção. Seria um sacrifício e todos

teriam de dar a sua parte para que eles pudessem desfrutar um conforto maior, do que aquele

que eles tinham no Rio de Janeiro. A jovem nos seus dezessete anos, não aceitava

pacificamente aquela ideia, que ela mesma havia refutado quando o pai falou daquele futuro

acontecimento. Dos argumentos que ela apresentara e não tivera sido aceito, um deles era de

passar a morar com uma tia que vivia na Tijuca. Como os pais lhe haviam dito que ela deveria

morar alguns dias na casa da tia, até quando ela pudesse seguir para São Paulo, ela sugeriu

que poderia ficar mais tempo por lá. A outra ideia, era de morar no apartamento da amiga

Kátia que era lá por perto.

O drama daquela pequena família havia começado no nascimento da pequena Mirtes e

da sua irmã gêmea Maria Carmen, que Dona Celina dizia, sem nenhuma explicação lógica,

que ela fora levada do berçário. O trauma do desaparecimento da irmãzinha ficara enraizado

na mente da sua mãe ao ponto dela sentir naquela mudança, uma oportunidade para ela se

livrar daquele trauma. Era um assunto um pouco nebuloso. Mirtes sabia por altos do que se

passara com os pais, devido informações confidenciais que ela recebera da tia Ambrosina, que

havia lhe contado. Os pais dela jamais abordaram aquele assunto claramente com ela como se

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A CASA DO OUTRO LADO DA RUA

Walter Miranda

ele fosse um tabu. Dona Celina por conta daquele nefasto acontecimento havia passado bons

tempos em tratamento numa clínica de psiquiatria e uma das recomendações do seu médico,

fora que ela deveria tentar esquecer aquele fato. Entretanto Dona Celina não conseguira banir

da sua mente, mas sobrevivia sofrendo calada.

Com o surgimento daquela promoção e a mudança para São Paulo ela esperava se

refazer daquela neurose. Mirtes era então, a única filha e eles não tinham o desejo de deixar

ela se emancipar longe dos olhos deles. Para Dona Celina, aqueles poucos dias que filha

ficaria hospedada na casa da irmã já era, para ela um terrível sofrimento.

Quando Mirtes abriu a janela do seu quarto ela quase desmaiou.

“Vejam a diferença de vista que vocês me arrumaram!” Ela insistia inconsolada. De

fato era uma visão totalmente diferente. No Rio, a família morava num pequeno apartamento

que embora não fosse de frente para o mar, da janela da sala se poderia ter uma visão do

oceano que ficava do lado direito de quem olhava. Para ela já era o suficiente para justificar

todo o seu lamento. A casa que ela viu ao abrir a janela, parecia ter mais de cem anos que

estava erigida ali naquele terreno e ela não viu ninguém se movimentando pelo quintal.

Aquilo confirmava a sua hipótese de que se tratava de uma casa abandonada. Ao ver aquele

quadro desolador Mirtes se lembrou das palavras do pai, na noite do jantar quando ele

explicou para elas; que com a venda do pequeno apartamento do Rio, que estava numa área

bem valorizada e com suas economias, ele havia adquirido aquela casa muito maior a um

preço razoável. Embora a jovem não tivesse participado de nenhuma negociação, ao se ver

dentro daquele aconchegante imóvel ela compreendeu os motivos do pai. Ele havia dito,

depois que voltou ao Rio que a compra fora uma verdadeira pechincha, porque ele estava há

bastante tempo à venda sem que aparecesse alguém com a disposição de comprá-lo. Era parte

de um pequeno conjunto de cinco casas construídas num mesmo projeto e as outras que

faziam divisa também estavam à venda há tempos. Olhando da janela, Mirtes pode ver que a

casa que o pai adquirira estava bem no meio do conjunto. Havia alguma coisa naqueles

imóveis que pareciam impedir que eles fossem ocupados.

Na ocasião que o Sr. Alfredo foi visitar o imóvel pela primeira vez, logo ele

questionara sobre o casarão de frente e o corretor lhe dissera que a casa estava há muitos anos

daquele mesmo jeito, sem que ninguém soubesse a razão daquilo. Muitos atribuíam a um

impasse entre os herdeiros na partilha. No conjunto de casas que fazia parte o imóvel para

onde o Sr. Alfredo estaria se mudando com a família, apenas a sua casa havia sido

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A CASA DO OUTRO LADO DA RUA

Walter Miranda

completamente restaurada. Ele explicou que era uma casa de construção sólida situada num

terreno e todas as casas ficavam com a parede da direta na divisa do terreno. Havia um recuo

do gradil da frente até a parede da casa e naquele espaço, estava plantado um jardim. A casa

era vistosa e tinha na sua parte inferior um barrado de pedras goianas pretas e um enorme

vitral que ocupava quase toda a extensão e ele era protegido por um gradil de ferro batido. Ao

lado esquerdo havia uma laje que servia de abrigo para dois autos e no fundo uma porta que

dava acesso ao quintal. A entrada principal da casa ficava debaixo da laje no fundo à direita.

O espaço da casa era mais que o dobro que eles tinham no modesto apartamento do quinto

andar na Rua Duviviê. O bairro embora não fosse banhado pelo oceano como reclamara a

jovem, era numa área nobre e as ruas todas largas e arborizadas. Com a exceção daquele

pequeno conjunto de casas e a casa velha abandonada, todas as outras edificações eram de

alto nível. Fora aquele um dos argumentos que o corretor se valeu para convencer o Sr.

Alfredo a adquirir o imóvel pelo preço que lhe fora oferecido. Para o Sr. Alfredo a mudança

de cidade não seria tão dificultosa, porque em função do seu trabalho ele sempre estava na

Capital Paulista. Para Dona Celina e para a filha a situação era diferente. Elas raramente

tinham vindo à São Paulo e suas andanças se limitavam aos shoppings e lojas de moda. Mirtes

ainda se lembrou quando o pai em tom de brincadeira lhe havia dito que por ali por perto

havia um shopping center e ele poderia ser considerado a sua nova praia.

Depois que soube da notícia, Mirtes passara o tempo todo emburrada. Os pais aflitos

não compreendiam a razão daquele procedimento da filha. Nada que a mãe fazia lhe

agradava. Aquele mau humor que ela vivera no Rio parecia lhe acompanhar. O seu

pensamento estava naquele momento entranhado nas areias quentes de Copacabana, onde ela

imaginava que deveria estar se não fosse aquele acontecimento. Ela já havia tentado fazer

diversas ligações para a sua amiga Kátia, para lhe contar do seu desespero, por estar

abandonada à própria sorte, naquele lugar inóspito, como ela dizia em tom de exagero. A sua

angústia se tornava cada vez maior a medida que se frustrava em não conseguir se conectar. A

mãe talvez envolta nos seus próprios problemas parecia não ouvir os queixumes da jovem

Mirtes.

Na primeira noite na nova residência, todos estavam acomodados numa sala e teciam

comentários da transformação que deveria ocorrer na vida deles. A jovem inteligente percebia

que era ela o foco das preocupações dos pais e eles diziam coisas que ela não compreendia.

Chegou confundir que eles aguardavam uma mudança dela, para que as coisas voltassem a

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fluir normalmente. Era estranho, mas ela atribuiu aquelas palavras ao seu apego ao querido

Rio de Janeiro. Olhando de um canto da sala, até certo ponto Mirtes admitira que estava tendo

uma visão interessante. Ela viu que os pais haviam comprado estofados maiores para ocupar o

enorme espaço da sala. Naquele momento ela se lembrou dos velhos móveis que guarneciam

a pequena sala do antigo apartamento e demonstrando, para a alegria dos pais, um ar de

descontração, ela se jogou ao comprido no enorme sofá que fazia parte de um conjunto de três

peças. Aproveitando a euforia momentânea, de imediato ela ouviu, a mãe lhe dizendo

enquanto lhe afagava a testa, que a casa lhes traria muitos momentos de alegria. Mirtes

sentira-se uma rainha ao se ver no espaçoso dormitório, bem diferente daquele que ela

ocupava no apartamento do Rio. Subiu a escada e viu toda a sua parafernália posta no outro

quarto que a mãe lhe dissera onde poderia montar o seu estúdio. Era a primeira vantagem que

ela percebera com mudança. Ela deitada sobre a cama, ainda sem conseguir se comunicar com

a amiga Kátia, ela riu para valer. Ela imaginou o que falaria para amiga que a praia que ela via

era uma casa velha e provavelmente mal assombrada que se descortinava quando ela abrisse

janela. Ela acreditou que provocaria risos na amiga quando comparasse a casa a uma fragata

do século dezoito encalhada na areia de Copacabana.

Depois de tentar falar com diversas amigas e não ter obtido nenhum sucesso, devido

ao adiantado da hora Mirtes pensou em se deitar para dormir. Apesar de toda a excitação pela

mudança que tivera ela ainda não havia sentido sono. Com certeza ele fora espaventado pelo

seu pensamento de revolta pela mudança brusca da sua vida. Deitada ela se movia de um lado

para o outro na cama sem conseguir conciliar o sono. O relógio de cabeceira mostrava no

escuro em números vermelhos 1:18. Então, ela foi até ao seu estúdio e trouxe o seu diário.

Recostada em sua cama, ela fazia anotações quando ouviu um som de uma música estranha.

Era a melodia suave e envolvente e na cama ela não conseguia sintonizar de onde

provinha aquele som agradável. Levantou-se e percebeu que era um som que vinha de algum

lugar que lhe pareceu pouco distante. Entreabriu a janela e do alto pode ver que havia pessoas

se movimentando no quintal da casa que todos pensavam ser abandonada. Para não ser

indiscreta, procurou ver pela fresta o que se passava e se era dali que chegava até ela aquele

som harmonioso. Era uma música extremamente suave e agradável que parecia lhe enfeitiçar.

Bem na frente da casa estava plantado na rua um poste de iluminação que clareava quase toda

a área salvo as partes causadas pela sombra dos galhos. Aquela luz do poste não era suficiente

para lhe ofuscar a visão e então ela pode ver nitidamente um pequeno conjunto composto por

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A CASA DO OUTRO LADO DA RUA

Walter Miranda

diversos rapazes que entoavam aquela melodia executando instrumentos de corda. Continuou

observando e viu que motivados pelos acordes, diversos jovens e moças dançavam numa

ciranda, parecendo ser um grupo de ciganos pelas roupas diferentes que eles vestiam. Da

forma como ela olhara ninguém pode sentir a sua presença e ela ficou parada olhando alguns

minutos. A dança seguia num ritmo alegre e ela pode ver, embora um pouco distante que eles

tinham uma expressão risonha e pareciam estar felizes com aquela dança. Ela não ouvia

ruídos de vozes. De repente ela começou a se sentir sonolenta. Talvez aqueles sons lhe

trouxeram um repouso à sua mente e toda aquela excitação se transformou num delicioso

desejo de dormir. Sem fazer nenhum ruído, Mirtes fechou a janela do seu quarto e se jogou

sobre a cama. Deitada ela ainda pode ouvir a deliciosa melodia que vinha do outro lado da

rua. Era uma musica dolente e não demorou ela caiu em sono profundo.

No outro dia ela levou um susto quando acordou com o relógio despertando às 7:00

horas. Mesmo sem compreender a razão dele despertar, mais que depressa, vestiu o seu

penhoar e depois de passar pelo toalete, desceu para ver o que se passava com os pais.

Quando chegou cozinha, lhe pareceu ver a mãe toda sorridente foi lhe dizendo que estivera

em seu quarto para chamá-la. A mãe dissera que havia ficado com pena porque ela estava

num sono profundo.

“Nossa mamãe! Fazia tempo que eu não dormia tão gostoso. Acho que fiquei

anestesiada com uma música que eu ouvi à noite.” A mãe lhe disse que eles não haviam

ouvido nada.

“Onde está o papai?”

Mirtes estava ansiosa para contar para a mãe sobre a visão que tivera à noite, mas

preferiu esperar pelo pai para contar de uma só vez. Notou que a mãe não havia posto nenhum

lanche na mesa, mas não se preocupou com aquilo. Ela também não sentia desejo de se

alimentar. Com certeza a mãe, se sentia ainda desambientada e ela deveria ser paciente com

ela. Enquanto esperava pelo pai, Mirtes deixou a mãe às voltas com as arrumações e foi até a

frente da casa. Mais calma e vestindo um “training” que costumava usar na malhação, se

curvou sobre o gradil que fechava a frente do terreno e observou atentamente a rua em todas

as direções. Ao contrário do dia anterior a manhã estava ensolarada. Notou que diversos

casais de idosos e jovens caminhavam apressadamente de um lado para o outro, realizando o

“Cooper” e ao contrário do lhe diziam lá no Rio, a maioria que passava por ela, a saudava

sorridente. Ela sempre ouvira dizer que os paulistas eram muito fechados, mas naquele dia

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aquela sua concepção fora por terra. Muitos curiosos chegaram a parar para perguntar de onde

ela estava vindo e sempre que ela dizia que era do Rio de Janeiro, eles diziam palavras de

bons augúrios. Outros, porém pareciam não notar a sua presença. Depois de algum tempo ela

se lembrou de olhar mais detidamente a casa velha. A visão de onde ela estava não era tão

favorável como a que tivera da janela do seu quarto. O muro de dois metros, carcomido pelo

tempo deixava apenas à vista uma parte de cima da casa e a sua frente estava voltada para o

muro que estava erguido em toda a extensão da rua que descia. Bem de frente da casa da

Mirtes, no lado direito da casa velha, estava um portão de madeira rústica em duas partes de

um metro cada uma, não deixava muitas frestas para quem passasse, pudesse olhar para o

interior. Ela sentiu um tremendo desejo de dar uma bisbilhotada, mas o intenso movimento de

passantes deixaram-na inibida. Cogitou que deveria realizar a sua pesquisa numa outra hora

mais favorável. Depois, pensando melhor ela voltou-se para dentro de casa e avisou a sua mãe

que daria uma voltinha. Tinha ideia de conhecer os limites da casa e tentar descobrir se havia

nela um ponto onde ela pudesse ver de perto o seu interior.

Saiu como se estivesse caminhando como os outros e desceu por uma rua lateral. A

velha casa estava construída num enorme terreno que ocupava a metade da quadra. Era pelo

menos uns sessenta ou setenta metros na rua onde estava a casa de Mirtes por pelo menos cem

metros pela rua descia. Ela foi do outro lado da rua e viu que a frente da casa estava voltada

para lá. Ela achava estranho não ver acesso à casa pela sua parte frontal.

Detidamente ela olhava e notou que na parte que fazia divisa com a rua que ela descia,

haviam diversas árvores plantadas que fechavam todo o contorno inclusive na rua dos fundos.

Para a sua sorte, apenas na parte onde estava o portão não estavam plantadas as arvores e ela

tinha uma visão bastante interessante, quando olhava do seu quarto. O mesmo muro

carcomido cercava toda a propriedade e ela não vira outros portões em toda a extensão dele.

Assim que voltou para casa, a primeira coisa que fez foi tentar mais uma vez ligar para

a Kátia, que naquele momento deveria estar se tostando sobre uma toalha na areia da praia.

Ela não compreendia o que estava se passando com o telefone e estava ansiosa para contar a

novidade para a amiga. Queria deixá-la morrendo de inveja e preparara um novo relatório da

sua pesquisa sobre a casa que ela em tom de deboche imaginara dizer para a amiga o que seria

a sua praia dali para frente. Como na sua primeira impressão ela não havia visto ninguém do

outro lado do muro, no novo relatório ele teria que acrescentar que tinha visto uma porção de

jovens dançando durante à noite. A ideia de que a casa fosse abandonada deveria ser revista.

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Estava em seu quarto maldizendo da companhia de telefones, quando ouviu um ruído na parte

de baixo do sobrado. Desceu a escada e notou que era o seu pai chegando e depois de vê-lo se

sentando numa poltrona fora anunciando:

“Papai e mamãe tenho uma novidade para vocês.” Disse a jovem fazendo uma

expressão de suspense.

Aquele estranho grupo de jovens com o seu bailado tinha trazido uma profunda

modificação em Mirtes. Naqueles poucos momentos que ela presenciou o pessoal ela

percebeu que a sua vida estava se modificando de uma forma que ela jamais poderia imaginar.

A sua primeira surpresa se deu quando ela não precisou ouvir da mãe qualquer palavra, pois

em sua mente tudo lhe parecia claro. A voz dos pais soava nítida em sua mente sem que eles

movessem os seus lábios:

“Que foi querida?” Perguntaram em coro, os pais curiosos.

Ainda sem compreender o que havia se passado e receosa que pudesse ser mal

compreendida, ela titubeante respondeu:

“Descobri que a casa aí da frente não é abandonada como o corretor disse ao Senhor.

Ontem à noite eu fiquei sem sono devido a excitação pela mudança e quando olhei o relógio

já marcava 1:18. Comecei escutar uma melodia suave e ao abrir uma fresta na janela, ouvi que

o som provinha da casa e vi uma porção de rapazes e moças dançando no quintal”. Ainda

intrigada com o que acabara de notar, percebeu que os pais se mostravam alegres pela sua

manifestação. Para não desagradar a filha que se mostrava entusiasmada com a descoberta, os

pais que percebiam que ela tivera um sonho e novamente na mente dela ecoou as palavras do

pai:

“Nossa querida que descoberta sensacional. Quem sabe um bando de sem-teto esteja

morando nela e somente aproveitam da noite para se divertir.”

“Não papai, pelas roupas que vestiam me pareceu ser um grupo de ciganos.”

“Ciganos? Pode ser mesmo. È possível que eles estejam se abrigando na casa que

todos julgam desocupada.” Para estimular a filha e com o intuito de amenizar um pouco a sua

tensão pela mudança, Dona Celina foi dizendo em sua mente:

“Por que você não faz uma campana esta noite para ver se eles aparecem novamente.

Assim você poderá ter certeza de quem se trata de verdade.”

“Seu eu conseguir ficar acordada...” Disse Mirtes esboçando um leve sorriso. Apesar

de notar que alguma coisa além da sua compreensão estava se passando, Mirtes procurava

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A CASA DO OUTRO LADO DA RUA

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manter o diálogo sem dar mostras do que havia percebido. Naquele momento, seria

fundamental para ela descobrir que tipo de feitiçaria teria feito aquele pessoal para causar

aquele transtorno. “Teriam eles a visto pela pequena fresta a ponto de poder lhe transmitir

algum sortilégio?” Ela imaginou de imediato. Não havia nenhum sentido naquela hipótese e

ela nem cogitou em tocar naquele assunto, pois com certeza seria encaminhada a algum

psiquiatra. Ela teria que descobrir se valendo do seu próprio esforço.

A primeira sugestão que lhe viera à mente, fora que a casa que o seu pai havia

comprado deveria fazer parte de alguma situação desconhecida. Quando ela viu apenas o seu

sobrado reformado e as outras casas aparentemente carcomidas pelo tempo, logo ela conectou

tudo ao velho casarão. De imediato ela imaginou que a reforma da sua casa deveria ter sido

algum tipo de chamariz e quem viesse habitá-la estaria sob a influência de alguma força

desconhecida. Deveria, sem dúvidas existir entre elas algum elo mágico que promovera em

Mirtes aquela estranha sensação. Ela ficara intrigada qual seria o propósito daquilo.

Ela era uma autêntica amostra da jovem que costuma frequentar as belas praias

cariocas. Morena, esbelta de cabelos bem escuros e com pele bastante tostada pela constante

exposição ao sol. O sotaque era de longe percebido quando ela se pronunciava. O seu porte

físico era privilegiado e ela não mostrava nenhum traço físico que se assemelhasse à mãe ou

ao pai. Inteligente e estudiosa, a sua mãe sempre dizia aquilo quando conversava com as

amigas. Estava cursando o último ano do segundo grau e tinha em mente estudar medicina e

seguir a cadeira de psiquiatria, porque ela sentia vontade de compreender e desvendar os

mistérios da mente humana. Talvez aquela vontade tenha surgido em sua mente depois que a

Tia Ambrosina contou do envolvimento da mãe no caso da Maria Carmen.

Mesmo sem compreender o que a filha lhe dizia ter visto, Dona Celina estava

percebendo que a filha estava um pouco mais calma. Embora ambas se comunicassem, por

meio do pensamento, Mirtes quase não mencionara a tragédia que a mudança havia causado

em sua vida. Alguma coisa tocara na alma da moça. O Sr. Alfredo também percebera, porém

preferiu não tocar no assunto para não reabrir a ferida. Embora não falasse, Mirtes passou boa

parte do dia pensando na hora que voltaria a ver a casa. A princípio, ela mesma estava

cismada que a visão deveria ter sido um sonho mesmo, mas depois que notou a estranha

mudança no relacionamento com pais a ideia de sonho deveria ser descartada. Talvez aquela

melodia fosse uma chave para a estranha conexão. Como tinha sido tão nítido, nada melhor do

que esperar para ver. Durante o dia ela foi até a janela do seu dormitório e passou um bom

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A CASA DO OUTRO LADO DA RUA

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tempo olhando para o quintal da casa e não viu nenhum sinal que ali morasse alguém.

Entretanto ela percebeu que o gramado estava bem cuidado e não havia sinais de ervas

daninhas dominando o espaço. Num dado momento ela lembrou-se que possuía um binóculo

e correu até ao seu estúdio e o encontrou numa das gavetas. Voltou animada para a janela e se

pôs a observar mais detidamente toda a área da casa. Apesar de estar se valendo daquele

instrumento ela não pode ver nada além do que já vira com os seus olhos. Desanimada,

deixou o binóculo sobre a sua mesinha de cabeceira para se valer dele à noite. Toda aquela

angustia que ela vivera em sua súbita mudança para São Paulo era naquele momento

acrescida de uma enorme curiosidade para descobrir o que causara nos pais aquela

incompreensível forma deles se comunicar com ela. Era uma coisa estranha, porque ela se

lembrou que havia trocado palavras com alguns passantes e não se recordava deles terem

agido como os seus pais.

Talvez aquela atitude deles se circunscrevesse ao recinto da casa, que por alguma

relação desconhecida estaria atrelada à casa velha. Ainda perturbada com a mudança radical

que lhe ocorrera ela passou toda a tarde pensando no que deixara para trás. Para não aborrecer

os pais que a cada minuto, lhe transmitia palavras de estímulo, ela procurava sorrir. Às vezes

ela mesma se confundia, pensando que ainda estava no apartamento da rua Duviver ou até

mesmo na casa da tia Ambrosina. Tudo era confuso. Sentada no sofá da sala e enquanto

assistia a um programa na TV a sua cabeça naquele momento partilhava a lembrança das

amigas da praia e o pessoal que dançara a ciranda do outro lado do muro. Quanto eles lhe

dissera que poderiam ser um bando de sem teto ela de imediato não concordou. Ela não

acreditava que um bando de sem teto pudesse promover aquele estranho fenômeno. A

hipótese que eles pudessem ser ciganos estava mais coerente. Entretanto na visão que ela

tivera, eles poderiam parecer, mas não eram ciganos. A vestimenta que eles usavam era o

oposto do que comumente os ciganos usam. Eram roupas simples e de apenas uma cor, que de

longe e com a pouca luminosidade pareceu para ela ser da cor azul claro; bem ao contrário

dos trajes ciganos que usam roupas exageradamente coloridas. Ela não pode ver se eles

usavam adornos, porém tinha a certeza que nenhum tinha na cabeça, chapéus ou bandanas

comum aquele povo.

Descobrir sobre aquela gente e a influência que eles haviam causado neles era o seu

primeiro e mais urgente desafio que ela teria que enfrentar com a sua mudança. O segundo

desafio, naquele momento o menos importante na conta dela, seria de se aceitar como uma

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A CASA DO OUTRO LADO DA RUA

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nova moradora da capital paulista. Era o pensamento que lhe vagava pela cabeça naquela

tarde.

À noite chegou e com ela a expectativa de poder assistir ao bailado dos desconhecidos

da casa do outro lado da rua. Ela não havia tocado mais naquele assunto com os pais e não

pretendia voltar a falar nele até que tivesse a certeza de quem ela estaria vendo. O bailado

deles não era mais um assunto palpitante o problema naquele momento se cingia a estranha

metamorfose ocorrida com os pais. Quando chegou ao seu quarto viu que o seu relógio de

cabeceira marcava em números vermelhos 01:18. Achou que era a hora certa para bisbilhotar,

mas mesmo assim apagou a luz do quarto e entreabriu a janela e pela fresta espiou e não viu

nenhum movimento. Ela sabia que na noite da sua primeira visão a sua experiência se passara

já na primeira hora do dia seguinte. A sua curiosidade era maior do que o seu sono e resolveu

ler um romance para passar o tempo até que ouvisse a mesma melodia que ouvira no dia

anterior.

Fora um tremendo susto para ela acordar com o relógio avisando que era 7:00 da

manhã. Ainda agarrada no livro ela somente descobrira que havia dormido quando o

despertador fez aquele estardalhaço. Abominou aquilo e depressa correu para o toalete para se

preparar para ir para escola. Quando desceu para tomar o café notou que os seus pais não

estavam lá em casa e ela não sabia como deveria ir para a nova escola. Sentira uma tremenda

aflição diante daquele fato, pois jamais algo semelhante havia se passado com ela. Mesmo se

desejasse seguir por conta própria ela não tinha a menor ideia onde o seu pai havia efetuado a

sua matrícula. Desgostosa ela se sentou no sofá da sala e ficou imaginando onde eles

poderiam estar. Em sua mente aflorou uma ideia que veio até certo ponto acalmá-la: “Com

certeza os pais envolvidos naquela mudança, deveriam ter saído e se esquecido do seu

compromisso escolar.” Ela tinha razão, não tardou e a sua mãe apareceu na sala, entrando pela

porta da frente e risonha fora dizendo que não tinha se esquecido das aulas e que ela fora em

companhia do esposo visitar uma amiga que estava acamada no hospital. Depois a mãe ainda

se comunicando com ela daquela forma, lhe disse, para ela não se preocupar com as aulas

naqueles dias. A mãe disse-lhe ainda, que ela já havia fechado as notas do semestre e a

mudança para São Paulo fora feito naquela época em função da sua escola. Aquela notícia,

apesar da forma como lhe fora transmitida, deixara a jovem Mirtes aliviada. Aquela

informação caíra do céu como uma luva e então achou que deveria se concentrar na busca do

mistério que envolvia a sua casa e a casa do outro lado da rua.

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Apesar de achar que havia entre a sua casa e a casa velha algum tipo de conexão, tudo

o que ela falava sobre aquela ideia, não repercutia aos ouvidos dos pais. Seria provável que

em função da mudança, eles tinham um problema para resolver e ela acreditou que fosse por

causa daquilo, a aparente falta de atenção. Era para ela uma situação incompreensível. Que

coisa estranha era aquela que existia por ali que alterava o relacionamento dela com os pais.

Mais que depressa, ela subiu até o seu quarto e de lá ficou alguns minutos olhando, para a

casa velha na expectativa de entender o que havia nela. Era uma casa comum como qualquer

outra, apenas que ela se mostrava bastante carcomida pelos anos que acumulava desde a sua

construção. A casa era uma edificação antiga com pé direito elevado e de apenas um piso. As

suas janelas de madeira maciça estavam sempre fechadas. A porta principal era bem alta e de

frente dela um pequeno beiral saliente, sustentado por duas colunas não muito grossas,

protegia a entrada. Como as janelas, a porta também era de duas folhas e ela viu que dela

partia uma passarela de cimento envelhecido, que ela deduzira que chegaria até ao portão

lateral. Haviam áreas ajardinadas que denunciavam que a casa não era tão abandonada como

se poderia imaginar. Ela tinha a certeza disso.

Olhando detidamente, ela se lembrou da imagem daqueles bailarinos e ficou pensando

se era da parte deles que partia aquela influência, que ela dissera ser um sortilégio.

À tarde Mirtes foi para o seu estúdio. Como estava interessada em desvendar aquele

imbróglio que surgira, mais uma vez ela resolveu dar uma espiada na casa velha. Aquela

atitude repetida por várias vezes durante o dia e a noite já estava se tornando uma obsessão. A

janela de correr do seu quarto estava aberta e ela se debruçou no parapeito para ver a rua e

olhar para o quintal da casa na esperança de ver alguém.

Mirtes olhava detidamente a espreita que visse algum movimento de pessoas, mas não

viu ninguém. Aquela visão somente contribuía para lhe aguçar ainda mais o desejo de saber

quem deveria morar ali. Voltou para o seu estúdio e tentou se comunicar com a Kátia para lhe

passar o relatório dos seus primeiros dias na Capital Paulista, mas não obteve sucesso. Estava

ansiosa para contar do que havia se passado com ela, pois não se lembrava de ter comido uma

única refeição e também não estava nem um pouco faminta. Kátia, com certeza falaria algum

impropério e se duvidasse viria morar com ela, para se manter esbelta.

Depois ela cogitou que poderia acionar o seu relógio despertador e programá-lo para

tocar a 1:00 da manhã. Lembrou-se que havia fracassado na primeira noite que decidira ficar

lendo para esperar a hora. Pensando que ali estaria a solução, ela imaginou que poderia se

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A CASA DO OUTRO LADO DA RUA

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deitar no horário habitual e acordar sem problemas. Antes de retornar ao seu estúdio, ela

acertou o despertador para ele tocar como ela havia imaginado. O resto do dia fora bem

calmo. Aquele desejo de rever o pessoal bailando no gramado da casa havia ofuscado na

mente dela a imagem do oceano azul que ela costumava a ver todos os dias. Outra coisa que

influíra positivamente fora sem dúvida o amplo espaço que a nova moradia lhes oferecia.

Era exatamente 1:18 da manhã quando ela acordou e não se lembrou de ter ouvido o

relógio tocar como ela pensou ter programado. Sonolenta ela apertou o botão para travar o

despertador, que naquele silêncio da noite poderia fazer um tremendo ruído. A noite estava

fria como é comum no inverno. Mesmo sem ouvir nenhuma melodia que deveria vir do outro

lado rua, ela resolvera prosseguir com a sua observação. Ao querer se vestir o seu penhoar

percebeu que já estava vestindo o training, Mirtes foi até a janela e através de uma fresta

olhou na esperança de ver de novo aqueles alegres vizinhos. Ansiosa ela ficou a espreita e

ninguém se fizera ver. Estava começando a acreditar que a sua visão daquela noite tivesse

sido de fato um sonho. Já estava ficando desanimada, porém não arredava o pé da janela nem

o olhar da fresta, quando percebeu algum acorde vindo de lá. Voltou a se animar e procurou

não alargar a fresta da janela para não chamar a atenção. Como da outra vez, o mesmo grupo

de rapazes e moças saiu da porta com as colunas, que deveria ser a principal e se juntaram no

gramado e se puseram a bailar. Desta vez eles formaram diversos pares e ao som de uma

melodia completamente desconhecida ao ouvido dela, eles dançaram tão harmoniosos que

pareciam flutuar. As moças vestiam o mesmo tipo de traje, porém de nuances diferentes. Os

rapazes estavam com camisas de mangas largas e compridas apertadas no punho e de calças

escuras. Na cintura ela pode notar que eles haviam posto um faixa de tecido claro. Naquela

noite a música era suave, mas num ritmo diferente para favorecer o tipo de dança. Mirtes

ficara imóvel contemplando os jovens que formavam pelo menos dez pares de belos

dançarinos. A musica era demasiadamente inebriante e ela se sentira envolvida apesar de estar

distante. Eles eram de fato bons dançarinos e ela adorara ver as alegorias que os casais faziam

que pareciam nem tocar no gramado. De repente, um dos casais fez uma alegoria tão

extravagante que Mirtes quase caiu de susto. Aquela ação repentina fez a cabeça da jovem

imaginar que de fato eles não eram os sem-teto e muito menos ciganos. Pela maneira como

dançavam, na concepção que ela acabara de ter, eles eram almas do outro mundo. Mirtes

pasma, cobriu a boca com mão, mas não se arredou da fresta da janela. Tinha em mente

presenciar aquele alegre encontro para entender com agem as almas do outro mundo, que

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acabara de descobrir. Diante daquela inesperada visão, uma tênue luz de esclarecimento

começara a brilhar na mente da jovem carioca. Com certeza era dali daquela casa que chegava

até eles, do outro lado da rua, aquela influência que havia causado a modificação dos seus

pais e porque não dela também. “Que tipo de energia poderia se desprender da casa para

promover toda aquela estranha mudança?” Mirtes admitira que deveria a qualquer custo fazer

uma incursão naquela casa.

Da janela que ela estava até onde o pessoal se reunia deveria ter uma distância de pelo

menos cinquenta metros ou mais e apesar iluminação deficiente, estranhamente ela conseguia

divisar o contorno das fisionomias, embora não pudesse ver com riqueza de detalhes. Sem

entender qual fora o motivo, subitamente eles pararam de dançar e saíram correndo para

dentro da casa. Aquela atitude deixou Mirtes intrigada. “Se eles fossem de fato almas do outro

mundo como ela imaginara, não seria mais simples se eles apenas desaparecessem?” Foi o

primeiro pensamento que lhe ocorreu depois que fechou a janela e voltou para a sua cama. Era

uma situação bastante intrigante que ela vivera naqueles momentos. Ela ainda ficou um tempo

pensando na visão que tivera e sem se dar em conta adormeceu profundamente.

Como no dia anterior o relógio fez um escarcéu danado quando chegou às sete horas.

Mais sonolenta do que antes, ela bateu com a mão em cima dele para travar o alarme. Sentada

na cama e olhando para o relógio ela não se lembrou de ter mexido nele antes de deitar após

ter acordado a 1:18. Aquele fato deixou-a muito intrigada e sem saber como foi que ele tocou

exatamente às 7:00 horas. Sem tempo para pesquisar mais a respeito ela saiu em disparada

para o toalete. Já estava se preparando para se abluir quando se lembrou que havia sido

dispensada da escola. Da mesma forma sonolenta que fora, ela voltou do toalete e se jogou de

volta na cama.

Quando ela se levantou novamente e desceu para café não encontrou a mãe. A mesa

não estava posta e não havia nem sinal da mãe por ali. Era uma cena rara que ela estava

vivendo, se levantar sem ver a mãe. Ela desconhecia se mãe havia se engajado em alguma

atividade, porque sempre eles se comunicavam de alguma forma ou outra, se houvesse

novidades. Naquele momento Mirtes lembrou-se que a mãe lhe dissera ter dito dias antes que

fora visitar uma amiga no hospital. Como ela não sabia se mãe tinha mesmo alguma amiga em

São Paulo, ela começou a desconfiar que mãe deveria estar fazendo algum tipo de terapia para

apagar da mente o caso da Maria Carmen. Para não se preocupar, ela voltou para cima e ficou

esperando o dia passar. A velha casa com os seus fantasmas havia despertado nela uma

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vontade imensa de pesquisar sobre aquele fato. A praia embora fosse a fonte inspiradora dos

seus devaneios era uma rotina em todos os dias da semana. Com a mudança para São Paulo,

aquele elo fora quebrado e com surgimento daqueles bailarinos algo de diferente surgira do

nada bem à sua frente. Ela tinha em mente não revelar para as suas amigas sobre aquela

visagem. Até mesmo para a amiga Kátia com quem ela sempre falava quando estava no Rio,

ela já estava pensando em não tocar no assunto. Queria desvendar tudo antes que pudesse

divulgar a sua descoberta. Assim sendo o telefone com a sua inoperância, havia dado uma

contribuição importante. Além dos eventos que deixara a Mirtes encabulada, o episódio do

despertador não deveria deixar de ser analisado. Havia algo de estranho naquele fato e ela

jurara repensar no assunto. O outro caso era que ela sempre vira na televisão filmes sobre

fantasmas, não compreendia como os seus fantasmas haviam mudado de roupa. Pelo menos as

dançarinas estavam com cores diferentes e na TV sempre dizia que eles se mostravam com o

mesmo traje da hora da passagem.

Sentada em seu estúdio ela ainda estava intrigada com a ausência da mãe. O pai ela

sabia que ele estava no trabalho e somente voltaria para casa à noite. Mirtes temeu ao pensar

que algo estivesse se passando entre eles. Aquilo não era uma atitude normal e ela deveria

questioná-los na primeira oportunidade, depois ela voltou a imaginar se a mãe de fato

estivesse fazendo terapia, com certeza eles não queriam lhe preocupar. Chegou a cogitar se

também não seria uma interferência daquelas entidades que ela havia visto bailando. Ela

mesma abandonou aquela ideia por achá-la estapafúrdia. Aquele pessoal lhe transmitira

através daquela música uma sensação de bem estar e não seria da parte deles que poderiam vir

vibrações negativas. O seu desejo de revê-los no afã de saber as relações deles com ela e

tentar esclarecer aquela modificação, esbarrara no fato que ela não conseguia ver todas as

noites os bailarinos fantasmas, como ela os denominara. Ela, diante daquela falta dos seus

“amigos” passou a se sentir um pouco frustrada. Aquela primeira aparição tinha deixado um

efeito tão marcante nela que ela passara a maior parte do tempo tentando entender o pessoal,

que se esquecera dos atrativos da praia.

Mirtes chegou a lamentar ao pensar que eles não seriam mais vistos, mesmo assim ela

não se deu por vencida. Seguidas noites ela levantara da cama a 1:18 hora da manhã e passava

quase uma hora espreitando o quintal da velha casa. Diante do seu insucesso, Mirtes começou

e perseguir o seu objetivo em dias alternados e os resultados eram da mesma forma

frustrantes. Um bom tempo já havia se passado desde o dia da sua chegada em São Paulo.

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Aquele tempo coincidia com a primeira visão que tivera e ela se lembrara de ter visto os

bailarinos apenas uma outra vez. Ela já não levantava à noite para espreitar. Estava resignada

e decidida a deixar o assunto cair no esquecimento antes de acabar sofrendo de alguma

psicose. Como ela não voltara a falar no assunto com os pais e sem contato com a Kátia tudo

parecia seguir o mesmo caminho. Entretanto numa daquelas noites, ela estava lendo uma

matéria da escola em seu leito, quando percebeu uns acordes daquela melodia que ainda

estava impregnada em sua mente. Uma deliciosa sensação de alegria invadira todo o seu

corpo e ela exultante, a primeira coisa que pensou foi abrir a janela. A noite estava bem fria

devido ao inverno e ela não se esquecera de vestir sobre o seu training, o penhoar que sempre

estava numa cadeira no quarto. Ao vestir o penhoar, ela achou estranho o fato de estar sempre

com o seu training, como nas outras noites e ela se lembrou de ter vestido o seu pijama. Como

estava ávida para ver os seus vizinhos ela deixou aquele assunto para resolver depois. A sua

alegria era tamanha que ela não sabia se saia correndo em direção à casa, ou se permanecia ali

mesmo para admirar o alegre bailado.

Era uma emoção forte de felicidade só de pensar em rever os seus amigos bailarinos

fantasmas. Procurando não fazer nenhum barulho para não despertar os pais, ela antes de se

mover, viu que o relógio marcava exatamente 1:18. Pé por pé foi até a janela e depois de abrir

a vidraça que ficava na parte de dentro, com muito cuidado ela abriu na veneziana uma fresta

de uns dez centímetros. Assim que olhou, para a sua imensa alegria, viu novamente o mesmo

grupo bailando em círculo. O frio da noite não fez com que eles vestissem roupas pesadas e

aquele fato viera de encontro com as suposições dela, que se tratava mesmo de um grupo de

almas. A surpresa maior ficara por conta das nuances diferentes das roupas que eles trajavam.

Contente ao vê-los ela não se continha de emoção:

“De quem poderiam ser aquelas alegres almas e qual deveria ser a razão delas estarem

apegadas àquela velha casa?” Era o que lhe vinha à mente enquanto observava discretamente

através da fresta.

Naquele momento, aquela ideia de atravessar a rua e bater no portão para entrar, se

tornara muito forte. Ela tinha o desejo de conhecer todos eles e ouvir as histórias que eles

deveriam ter para lhe contar. Embora pudesse lhe parecer uma ideia venturosa, seria temerário

atravessar a rua naquela hora sem a certeza que eles estariam por lá a espera dela. Mirtes não

compreendia a razão deles aparecerem sempre bailando. Logo surgira em sua mente a ideia

que eles deveriam ter sido em outra vida um grupo de dançarinos desencarnados, como dizia

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os adeptos do Kardecismo que apareciam na televisão. Ela às vezes se detinha assistindo aos

programas onde os debatedores focavam aquela doutrina. Apesar da sua pouca idade e ao

contrário do que se poderia imaginar, Mirtes gostava de ver os debates de toda natureza para o

enriquecimento da sua cultura. Motivada por aquele aspecto, fora o porque dela logo se

interessar em descobrir sobre os dançarinos e se possível poder ouvir deles sobre as suas

experiências. O problema estaria apenas como se comunicar com eles. Enquanto pensava ela

se deliciava com as peripécias que eles faziam. Ela mesma chegou a pensar que quanto mais

ela os presenciava, mais eles se estimulavam a mostrar as suas habilidades. Aquele

pensamento lhe pareceu um pouco presunçoso, porém ela não deixara de acreditar.

Subitamente ela teve uma ideia. Fechou a fresta da janela e correu até ao seu estúdio

para procurar nas gavetas do seu “bureau” uma pequena lanterna de raio laser. Ela se lembrara

que havia comprado aquele objeto de um camelô conhecido, que vendia quinquilharias na

praia de Copacabana. Por sorte ela conseguira encontrar o brinquedo no meio de tantos outros

que ela guardava numa caixinha cheia de badulaques dentro da gaveta. A sua ideia era de

projetar uma luz que pudesse chegar até algum dos componentes do bailado, para avisar da

presença dela na janela da casa de frente. A musica ainda se fazia ouvir quando ela voltou a

abrir a fresta. O grupo ainda dançava sorridente de mãos dadas e como das outras vezes

parecia levitar. Mirtes tremeu. Ficara receosa de tomar aquela atitude sem prever qual seria a

reação dos espíritos. Ela logo imaginou que talvez eles se sentissem descobertos nunca mais

voltariam bailar naquele horário. Se tomassem aquela atitude, ela ficaria muito amolada.

Apesar da diferença de situação que ela e os fantasmas viviam, ela havia se afeiçoado ao

grupo e tinha em mente fazer um contato. Pensava em poder escrever uma história sobre a sua

experiência e não queria que ela acabasse antes de ter começado. Depois pensou que deveria

correr o risco e se não fizesse nenhum sinal amistoso, como poderia desenvolver o seu

trabalho sem realizar o contato.

Pelo sim ou pelo não, embora com a mão visivelmente trêmula, ela acendeu a lanterna

e projetou para uma das paredes do quarto para testar o funcionamento. Um frio lhe percorreu

a coluna vertebral ante a expectativa do que poderia lhe causar a sua iniciativa. Desligou a

lanterna e ficou olhando para o grupo. As moças e os rapazes sorridentes bailavam e Mirtes

ainda não havia se decidido para quem ela apontaria a sua luz. Dentre as moças ela notara

uma que mais lhe chamava a atenção embora não pudesse ver a sua fisionomia nitidamente.

Era a mais risonha e animada do grupo. Parecia que era ela quem comandava o alegre bailado.

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“Seja o que Deus quiser!” Pensou ao tornar a acender a pequena lanterna que emitia

uma luz vermelha e fina. Ela não ficou sabendo se a sua pontaria fora certeira, porque ao

projetar a luz o grupo logo se desfez. Uma sensação de dúvida pairou sobre a sua cabeça e ela

permaneceu ainda alguns minutos espreitando antes de fechar a janela. Quando se deitou, com

as mãos sob a cabeça e olhando para o escuro do quarto ela pensou no que poderia ter

acontecido. Seu corpo parecia mais leve. Achou que a sua ação em algum lugar e tempo

surtiria o efeito que ela desejava. Sem poder obter uma resposta, tratou de se cobrir e se

deixou levar pelo sono e adormeceu profundamente.

***

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