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Revista atlântica de cultura ibero-americana Número 01 Outono Inverno 2004 15C _

LUGARES DE PARTIDA

SAGRES LÍDIA JORGE

CIDADES INVISÍVEIS

FERVOR DE BUENOS AIRES

VIDAS CONTADAS

ENTREVISTA COM VOLODIA TEITELBOIM

A INVENÇÃO DA AMÉRICA

NO RASTO DE CABRAL ANTÓNIO BORGES COELHO

CRUZEIRO DO SUL

NERUDA E UMA PEDRA

COBERTA DE MUSGO LUIS SEPÚLVEDA


Revista atlântica de cultura ibero-americana Número 01 Outono Inverno 2004

3 MANIFESTO EDITORIAL João Ventura

4 TODOS OS NOMES

6 LUGARES DE PARTIDA

Sagres Lídia Jorge

10 VAGA GENTE

Um mineiro portimonense no Alto Peru Maria da Graça A. Mateus Ventura

12 TRAVESSIAS

Saudades de Chiriquí Maria Angeles Sallé

16 CIDADES INVISÍVEIS

FERVOR DE BUENOS AIRES

18 Buenos Aires de hoje pelos caminhos de Borges João Ventura

24 Na cidade dos livros João Ventura

30 Os editores independentes em épocas de crise Daniel Divinsky

32 Delírios porteños Carlos Cáceres Monteiro

38 MALA DIPLOMÁTICA

Entrevista com Jorge Faurie, embaixador da República

da Argentina Beatriz Padilla

42 MEMÓRIA DE FOGO

A saga andina do deus Con Osvaldo Henrique Urbano

46 BESTIÁRIO

Peixe-boi ou peixe-mulher? Maria Adelina Amorim

48 RIOS PROFUNDOS

Magdalena, un río del olvido Janet Núñez

54 ALTAS SOLIDÕES

Machu Picchu Pablo Neruda

56 VIDAS CONTADAS

Entrevista com Volodia Teitelboim Regina Rodríguez

70 A BIBLIOTECA DE BABEL

Aventuras e desventuras de uma biblioteca nos trópicos

Lilia Moritz Schwarcz

76 A INVENÇÃO DA AMÉRICA

78 Yo vengo de las Indias Maria da Graça A. Mateus Ventura

86 No rasto de Cabral António Borges Coelho

90 Carta do Novo Mundo Américo Vespúcio

92 Desassossego de uma mãe ausente Francisca de Trujillos

94 Nuestra America es vasta y intricada Pablo Neruda

96 A SEDE DO SUL

Pisco Sonia Tello Rozas

100 SINAIS DE FUMO

Dos tabacos ou fumaças dos índios no Haiti no século XVI

segundo um cronista espanhol

102 ESTÁDIO DE SÍTIO

Estádio centenário de Montevideu Arón Mazas

104 SABORES PRINCIPAIS

Da canjica ao bacalhau. Uma arqueologia dos hábitos

alimentares de uma família portuguesa nas Minas Gerais setecentistas

José Newton Coelho Meneses

108 ALGUM CHEIRINHO A ALECRIM

Portugal nos confins do mundo Roberto Ampuero

110 O QUE FAÇO EU AQUI

O preço da minha vida João de Melo

114 CRUZEIRO DO SUL

Neruda e uma pedra coberta de musgo Luis Sepúlveda

120 A MARESIA DO MUNDO

Um poema inédito António Ramos Rosa

122 FICÇÕES

Lagoa Blues Tabajara Ruas

128 CORRENTES ATLÂNTICAS

130 O verdadeiro nascimento de Gardel Horacio Vázquez-Rial

132 O bolero em tempo de amor Alberto Mosquera Moquillaza

138 Os mortos comadam os vivos

ou também de motocicleta se atravessa o mar Anabela Moutinho

142 A COMPANHIA DOS LIVROS


A aposta numa revista de natureza multidisciplinar

sobre a experiência cultural ibero-americana constitui

um desafio ético aberto à participação daqueles que

acreditam que a cultura, para além de factor de identidade

dos povos, é, ainda, vector de aproximação intercultural,

na circunstância, entre as duas margens atlânticas.

Pensamos que um projecto desta natureza deverá traduzir

uma certa epistemolização de um discurso sobre a

Ibero-América, assente em motivações culturais, éticas,

estéticas e políticas suficientemente claras para todos os

que queiram colaborar. Não recusamos, portanto, um

método e uma programação que, aliás, o roteiro de conteúdos

previamente definido pretende expressar. Mas,

ainda assim, esse método deve ser entendido mais na

acepção de caminho ou trajecto do que na sua expressão

positivista. Por isso, embora tenhamos ideias claras e distintas

sobre a forma de abordar a experiência cultural

ibero-americana, não rejeitamos trabalhar com intenções

e ficções de todo o género para nos aventurarmos nesse

«jardim dos caminhos que se bifurcam» que é a Ibero-

-América. E que poderá ser também esta revista, em termos

dos itinerários de sentidos a percorrer.

Trata-se, então, de um exercício da nossa curiosidade

em relação ao «velho Novo Mundo» que há quinhentos

anos os nossos navegadores começaram a inventar e ao

qual, hoje, com este projecto editorial, procuramos regressar,

interpretando sinais, traços, distinções, semelhanças

onde se espelha a alma ibero-americana cuja

matriz é, também, lusófona. Da experiência indo-afro-

-ibero-americana tratará, pois, esta revista, espécie de

ponte sobre o Atlântico atravessada nos dois sentidos para

nos reconhecermos, uns e outros, na nossa outra metade

comum. Porque para nós hoje, como no passado o

foi para os navegadores ibéricos, o Atlântico não separa,

antes une dois continentes.

Mar de encontros, portanto, apesar do desencontro

inicial da conquista. Porque as águas que fluem nas

nossas praias ibéricas, atlânticas as de Portugal, mediterrânicas

as da Andaluzia, são as mesmas que banham as

Antilhas, entram pelo Golfo do México e correm, depois,

rumo ao sul ao longo da costa da América do Sul,

unindo-se, finalmente, ao Pacífico no Estreito de Magalhães,

para voltar a subir numa viagem de circum-navegação

que incessantemente recomeça. Eis a geografia exterior

da Ibero-América que é, também, a referência

espacial da revista e que nos leva a perguntar, como

Bruce Chatwin, o que fazemos ali, no outro lado do mar,

quando como turistas acidentais percorremos as paisagens,

as gentes, as culturas, os costumes, as gastronomias

e as surpresas do «velho Novo Mundo».

A história comum de encontros e desencontros. De

Vespúcio e dos cronistas das Índias a Neruda, Carpentier e

Manifesto editorial

João Ventura

Gabriel García Márquez, quase sempre uma América inventada,

imaginada, feita de encantos e desencantos. Mas

também a Ibero-América imaginada por Borges, Cortázar,

Valejo, Paz, Onetti, Jorge Amado e tantos outros, cujas

vidas são como as estrelas, caindo do alto do céu sobre

este imenso Sul. E também aqueles que, como uma

imensa corrente atlântica, derramam nas nossas praias as

novas figuras da modernidade ibero-americana.

Os lugares de partida e de chegada da «vaga gente

sem geografia cumprindo em sua carne, obscuramente,

seus hábitos», como conta Borges a Pessoa. Os portos e as

praias da memória. Outras travessias de ida e volta entre a

saudade e a esperança de corações emigrantes navegando

num mar Atlântico em cujas águas verdes, azuis e negras

se espelha a nossa essência comum.

Ver toda a América desde Machu Picchu. Das águas

verde-limão das Caraíbas às «altas solidões» dos Andes. Da

infinita e verde Amazónia aos glaciares azuis do Sul da Patagónia.

Das paisagens lunares do deserto de Atacama aos

inumeráveis fiordes do arquipélago de Chiloé. Viagem

através dos seus «rios profundos». «Rios de raças, pátrias

de raízes», no dizer de Neruda. Amazonas, Magdalena,

Urubamba, Orinoco. «América arvoredo, sarça selvagem

entre os mares», onde crescem o jacarandá e a araucária,

mas também o café, o tabaco e o chocolate. Sobrevoada

por tucanos, colibris, papagaios e condores. E onde, à

noite, assoma o jaguar. Também, os lugares dos antigos

construtores. Chichén Itzá,Teotihuacán, Mayapán. Resgatar

da «memória do fogo» os mitos fundadores, as primeiras

vozes, os lugares da criação. Quetzalcóatl. Pachacamac.

As cidades. As da ausência, a Cuzco inca ou a Tenochititlán

asteca, em cujos labirintos imaginários nos perdemos.

E as outras, ibero-americanas. A Cidade do Panamá,

espécie de ilha cercada de selva e mar. A Cidade do

México, «cidade do sol parado, cidade de calcinações

longas, cidade a fogo lento». Ou Santiago «das mulheres

formosas com olhares de uva». Ou o Rio de Janeiro, cidade

maravilhosa. Ou a secreta Buenos Aires inventada por

Borges. Ou todas as outras que convidamos a descobrir,

«porque aquilo que nos interessa é o que o viajante vê».

Outras inquirições, também. A Ibero-América nascida

como tragédia que se repete, hoje, como melodrama na

vida de todos os dias. Excesso e improvisação em cenário

de telenovela. A «maracanização» do continente. Violência

e narcotráfico. As tremendas desigualdades sociais.

Mas também os novos movimentos sociais. Outras conspirações.

A política entendida como «sinónimo de

reconstrução, mas sobretudo de construção, na Ibero-

-América». Por isso, como acredita Carlos Fuentes, a esperança

de uma melhor Ibero-América, no futuro, onde

a utopia dos que viveram «os cem anos de solidão» possa

recuperar, finalmente, o seu rosto verdadeiro.


TODOS OS NOMES 4

5

ALBERTO MOSQUERA MOQUILLAZA [Lima, Peru] é antropólogo pela Universidade Nacional Mayor de San Marcos

e Mestre em História da Filosofia na mesma Universidade, tendo exercido o jornalismo e colaborado em várias publicações

periódicas da capital peruana. Actualmente é docente na Faculdade de Ciências Económicas da UNMSM, onde

também é o coordenador da edição da sua revista institucional. ANABELA MOUTINHO [Faro, Portugal] é professora

de Filosofia do ensino secundário e Professora Convidada na Escola Superior de Educação [Universidade do Algarve]

e presidente do Cine Clube de Faro. ANTÓNIO BORGES COELHO [Lisboa, Portugal] é Doutor em Letras e Professor

Catedrático jubilado da Universidade de Lisboa. Fundador e Presidente do ICIA de 1995 a 1998. Figura cimeira

da cultura portuguesa, Director do Mundo Diplomático, é autor de numerosos títulos sobre a Expansão Portuguesa, a Inquisição

e os Cristãos-Novos, além de poeta, jornalista e romancista. ANTÓNIO RAMOS ROSA [Faro, Portugal] é um

dos grandes poetas portugueses contemporâneos. Poeta das coisas primordiais, da luz, da pedra e da água, recebeu

inúmeros prémios nacionais e estrangeiros, entre os quais o Prémio Pessoa, em 1998. A sua vasta obra poética e ensaística

encontra-se publicada em numerosos livros, revistas e antologias. ARÓN MAZAS [Montevideu, Uruguai] é jornalista

desportivo acreditado pelo Instituto Profesional de Estudios Periodisticos. Actualmente frequenta o curso de

Ciência Política na Universidade de la República Oriental del Uruguay. BEATRIZ PADILLA [Mendoza, Argentina] obteve

vários graus académicos em diferentes universidades [Universidade Nacional de Cuyo, Argentina; Universidade de

Texas-Austin, Estados Unidos] e doutorou-se em Sociologia na Universidade de Illinois, Urbana-Champaign. É Professora

Auxiliar na Universidade Autónoma de Lisboa, Professora Convidada no Instituto Superior Técnico de Lisboa e Investigadora

de pós-doutoramento no CIES-ISCTE. CARLOS CÁCERES MONTEIRO [Lisboa, Portugal], jornalista e

«repórter de guerra», tem desenvolvido intensa actividade jornalística. Recebeu o Grande Prémio de Jornalismo de

2002 atribuído pelo Clube Português de Imprensa. É director da revista Visão desde a sua fundação. Publicou recentemente

Hotel Babilónia. DANIEL DIVINSKY [Buenos Aires, Argentina] editor, é sócio e director da prestigiada editora

argentina Ediciones de la Flor, fundada en 1966 e uma das poucas que subsistiram como independentes. O seu catálogo,

de mais de 600 títulos, compreende diversas temáticas, sendo o humor gráfico e escrito um dos mais significativos

[com autores paradigmáticos como Quino, Fontanarrosa, Caloi e Rep, entre os dibujantes argentinos], além da narrativa

do ensaio filosófico e político, do teatro argentino e latino-americano e da literatura infantil. HENRIQUE CAYATTE

[Lisboa, Portugal] é presidente do Centro Português de Design e Professor Convidado da Universidade de Aveiro. Foi fundador

e autor do design global, editor gráfico e ilustrador do jornal Público. Consultor para os projectos especiais de

design da EXPO'98 e do respectivo plano de pormenor do recinto. Co-autor do sistema de sinalética e comunicação da

EXPO’98. Co-autor e responsável pelo design da revista Egoísta. Comissário e autor do design de diversas exposições em

Portugal e no estrangeiro. Entre os vários galardões, recebeu em 2003 o Prémio Nacional de Design e o Prémio Dibner

Award. HORACIO VÁZQUEZ-RIAL [Buenos Aires, Argentina] é Doutor em Geografia e História pela Universidade de

Barcelona e autor de diversas obras de ensaio. Residente há muito em Barcelona, deu-se a conhecer ao público com o

livro Segundas Personas em 1983. Desde então, tem publicado numerosos livros, dois dos quais foram finalistas do Prémio

Nadal e do Prémio Internacional de Romance Plaza & Janés. JANET NÚÑEZ [Barranquilla, Colômbia] é licenciada em

Design de Interiores. Durante 12 anos trabalhou como directora, produtora ou assistente en diferentes projectos de

cinema e televisão. Nos últimos anos tem-se dedicado à promoção e produção de eventos culturais, sendo Professora

de Produção de TV e Guiões Cinematográficos. JOÃO DE MELO [Açores, Portugal] é licenciado em Românicas pela

Universidade de Lisboa. Escritor, tem-se notabilizado sobretudo como ficcionista, embora a sua obra se inscreva em diferentes

domínios como o ensaio, a crítica literária, a poesia e a crónica. Publicou numerosos títulos e obteve vários

prémios literários, entre os quais o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores e o

Prémio Cristóbal Colón das cidades capitais ibero-americanas [Lima, Peru] com o livro Gente Feliz com Lágrimas [1989].

Actualmente é adido cultural da embaixada de Portugal em Madrid. JOÃO MARIANO [Aljezur, Portugal] é fotógrafo.

Editou e coordenou a fotografia do Grupo Forum, dirigiu o departamento de fotografia do portal Terràvista e actualmente

dirige a agência 1000olhos – Imagem e Comunicação. Publicou diversos álbuns, livros e catálogos, e expõe regularmente

desde 1993. Colabora eventualmente com a revista Egoísta e com o semanário Dna. JOÃO VENTURA [Portimão,

Portugal] é Mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação pelo ISCTE e pós-graduado em Ciências

Documentais [área de Bibliotecas] pela Universidade de Lisboa. Foi leitor de Língua e Cultura Portuguesas na Universidade

de Paris III e docente convidado na Escola Superior de Educação da Universidade do Algarve. Entre 1998 e 2003

desempenhou as funções de Delegado Regional do Ministério da Cultura no Algarve. Actualmente desenvolve actividade

na área da gestão cultural. JORGE FAURIE [Argentina] é advogado e diplomata. Especialista em questões latinoamericanas,

tem assumido vários cargos políticos de relevo, nomeadamente como Director no Mercosul e Vice--Ministro

de Negócios Estrangeiros da Argentina, desempenhando actualmente o cargo de Embaixador em Portugal. JOSÉ

NEWTON COELHO MENESES [Virginópolis, Brasil] é Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense

e Professor Adjunto da Universidade Federal de Minas Gerais. Colabora na revista brasileira Nossa História e é autor


de O Continente Rústico. Abastecimento alimentar nas Minas Gerais setecentistas [Maria Fumaça Editora] e de História & Turismo Cultural

[Editora Autêntica]. JOSUÉ BARRIOS [Lima, Peru] é engenheiro comercial, formador de Recursos Humanos e fotógrafo.

GABRIELA CÁNOVAS [Santiago, Chile] é artista plástica [pintura e desenho gráfico]. Fez os seus estudos académicos

na Universidade do Chile e na Universidade Complutense de Madrid. Tem exposto os seus trabalhos no Chile,

em Espanha, em França, na Austrália e na Argentina. LÍDIA JORGE [Boliqueime, Portugal] é uma das mais prestigiadas

romancistas portuguesas. É licenciada em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa. Em 1970 partiu para Moçambique,

observando a guerra e os últimos anos da colonização portuguesa em África. Em 1979, Vergílio Ferreira

aconselhou o seu romance O Dia dos Prodígios para publicação.Torna-se desde então uma das mais importantes romancistas

portuguesas. Recebeu vários prémios literários, entre os quais o Prémio Europeu Jean Monnet com a obra O Vale da

Paixão [1998] e, em 2003, o Grande Prémio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores, com o romance O

Vento Assobiando nas Gruas. LILIA MORITZ SCHWARCZ [São Paulo, Brasil] é professora livre-docente no Departamento

de Antropologia da Universidade de São Paulo [USP]. Doutorada em Sociologia Social pela USP, tem vários títulos publicados,

dos quais se destaca As Barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos [Assírio & Alvim]. Colaborou na História

da Vida Privada do Brasil e é colaboradora da revista Nossa História editada pela Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

LUIS SEPÚLVEDA [Ovalle, Chile] é um prestigiado romancista chileno cuja obra se encontra traduzida em muitas línguas.

Exilado durante a ditadura, acabou por ficar na Europa, residindo actualmente em Gijón onde desenvolve intensa

actividade cultural de divulgação da literatura ibero-americana, nomeadamente como director do Salón del Libro Iberoamericano.

Autor de numerosos livros, conta com vários títulos traduzidos em português, nomeadamente Um Velho

Que Lia Romances de Amor, Patagónia Express, História de uma Gaivota e do Gato Que Lhe Ensinou a Voar e, recentemente, Uma História Suja.

MARIA ADELINA AMORIM [Luanda, Angola] é Mestre em História do Brasil e Assistente Convidada na Universidade

Lusófona em Lisboa. É autora de vários estudos sobre a missionação no Brasil e sobre a literatura de viagens. MARIA

ANGELES SALLÉ [David, República do Panamá] é licenciada em Ciências Políticas e Sociologia pela Universidade Complutense

de Madrid e Professora Associada em várias universidades espanholas. É membro de grupos internacionais de

especialistas em emprego, desenvolvimento e género, e autora de diversos projectos de investigação, estudos e publicações,

dos quais se destaca a edição do livro-disco Travesías, Historias Emigrantes de Ayer y Hoy [Metáfora Ediciones] e do livro

La Vi@ en Rosa, Ciberconversaciones de Mujeres. MARIA DA GRAÇA A. MATEUS VENTURA [Portimão, Portugal] é Doutora

em Letras pela Universidade de Lisboa. Fundadora do ICIA, foi Vice-Presidente da Direcção de 1995 a 2002, sendo

Presidente desde 2002. Membro do Nodo Coordenador da Cátedra de História da Ibero-América [OEI] e Coordenadora

Executiva da CEIA, é Professora Convidada na Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade do Algarve

no âmbito da Cátedra de Estudos Ibero-Americanos. É autora de vários estudos sobre a Ibero-América. OSVALDO

HENRIQUE URBANO [Lima, Peru] foi de Aveiro para o Canadá onde obteve o grau de PhD em Ciências Sociais [Université

Laval, Québec] e foi Catedrático de Sociologia da mesma Universidade. Daqui partiu para o Peru onde fundou o

Centro Las Casas [Cuzco, Peru] e a Revista Andina. Actualmente é Director do Instituto de Investigações da Faculdade de

Ciências da Comunicação, Turismo e Psicologia [Universidade San Martín de Porres, Lima, Peru] e Director da revista

Turismo y Patrimonio. REGINA RODRÍGUEZ [Santiago, Chile] é jornalista, licenciada em Comunicação pela Universidade

Complutense de Madrid e diplomada em Estudos Europeus pelo Instituto Latinoamericano de Estudios Internacionales.

Foi directora da revista Mujeres [Madrid, 1983-1987]. Actualmente é Directora de Publicaciones de Isis Internacional

[Santiago do Chile]. ROBERTO AMPUERO [Valparaíso, Chile] é um dos romancistas chilenos mais lidos. O seu recente

romance Los Amantes de Estocolmo, o maior êxito editorial de 2003 no Chile, foi eleito livro do ano pela prestigiada Revista

de Libros do Chile. Os seus romances foram traduzidos em alemão, francês, italiano e português. Em Portugal foi editado,

este ano, o livro Encontro no Azul Profundo [Temas e Debates] que relata parte da saga do seu popular investigador chileno-cubano

Cayetano Brulé. SONIA TELLO ROZAS [Cuzco, Peru] é Mestre em Gestão Cultural, Património e Turismo

pelo Instituto Universitario Ortega y Gasset da Universidade Complutense de Madrid. Prepara o seu Doutoramento em

Administração na École des Hautes Études Commerciales [Montréal, Canadá]. Foi responsável pelo Programa de Pós-

-Graduação em Gestão Cultural no Centro de Estudios Bartolomé de las Casas [Cuzco, Peru] e Directora dos Programas de

Pós-Graduação na Faculdade de Turismo da Universidade San Martín de Porres de Lima [Peru]. TABAJARA RUAS

[Uruguaiana, Brasil] é romancista e cineasta. Estudou arquitectura em Porto Alegre, onde se envolveu na luta contra a ditadura

militar brasileira. Por esse motivo exilou-se no Chile, Argentina, Dinamarca e Portugal. Os seus livros foram

traduzidos em Portugal, Dinamarca, Itália, Uruguai, Argentina, Chile e Colômbia.Trabalha como guionista e jornalista

e é um dos mais destacados escritores brasileiros da actualidade. VOLODIA TEITELBOIM [Chillán, Chile] é um

dos nomes mais ilustres das letras chilenas e americanas do século XX. É um escritor multifacetado, autor de uma obra

imensa que inclui romances, crónicas, memórias, biografias e ensaios. Integrou a Geração de 38 e é autor das biografias

de Gabriela Mistral,Vicente Huidobro, Jorge Luis Borges [Temas e Debates] e Pablo Neruda [Temas e Debates]. Foi

galardoado com o Prémio Nacional de Literatura do Chile em 2002.


LUGARES DE PARTIDA 6

Sagres Lídia

7

Jorge


Foto de João Mariano

Por que razão evitar a palavra outrora? – Outrora

não havia o ruído das estradas, os céus só

de muito longe a longe eram riscados pelas rotas

dos aviões, e as partidas eram feitas em grandes

navios, com lenços brancos a acenar e longos

mugidos que amarravam para sempre os corações

amantes às pedras dos cais. Os soutiens das

mulheres eram agudos como se fossem funis, e

os sapatos dos homens rangiam à medida das

suas passadas como se fossem de tábua. A música

que se escutava era ainda predominantemente

executada em presença, os lábios e os dedos próximos,

a vibrarem contra os instrumentos,

objectos então familiares nas nossas vidas. Hotel

era ainda uma realidade mágica que só tinha

consistência nos filmes americanos, e o telefone,

um objecto de luxo que distinguia os senhores

das vilas. Transpor distâncias geográficas, breves

que fossem, era ainda uma tarefa assinalável.


LUGARES DE PARTIDA 7

– Muita coisa, pouca coisa? Só o suficiente para

dizer que, se penso em Sagres, é em Sagres desse

outrora que penso.

Regressando lá, a esse outro tempo, em que

se ouvia o pêndulo dos relógios das torres marcarem

as horas íntimas de cada um, Sagres de

outrora não se me afigura um cabo nem um promontório,

mas apenas uma luzinha brilhando no

escuro da penumbra imensa em que se transformou

o passado, a luz intermitente dum farol que

a espaços riscava a noite, quando a noite ainda

podia ser escura. Porque de dia a terra esmorecia

desse lado, as formas das casas iam-se perdendo

ao longe, confundindo-se com a rala vegetação

da paisagem, e quando a lonjura quebrava a linha

perceptível e se transformava ela mesma no próprio

fio do horizonte, aí a distância tornava-se

lilás, e desaparecia de encontro ao mar azul que

por sua vez também desaparecia no céu anilado.

Sagres encontrava-se lá, um espaço imerso nesse

lugar vago, onde a Terra acabava diante da nossa

vista e desaparecia como uma espécie de tira de

fumo. Quando o Outono chegava, a distância

transformava-se em alguma coisa mais palpável,

passava a ser uma proveniência, uma direcção

precisa, um ponto cardeal de onde sopravam os

ventos que fustigavam as árvores. Era o local de

onde provinham as chuvas arrebatadas de Novembro,

as que entravam pela chaminé e aspergiam

a toalha da mesa de gotas e salpicos, atingiam

as nossas camas duma humidade ainda

quente. Mas Sagres, o verdadeiro Sagres de outrora,

era muito mais do que uma barra esfumada

ou as intempéries que de lá provinham.

Sagres era uma pátria nocturna, uma espécie

de olho vigilante na noite que vinha ter

connosco à varanda, quando subir as escadas

durante a noite, para ver as estrelas ou distinguir

o rebordo das nuvens, se transformava numa

aventura nas nossas parcas vidas. Também a

Geografia ainda era uma abstracção, mas o que

a nossa mãe contava é que se caminhássemos

por cima do mar, a partir daquela luz, e seguíssemos

sempre em frente, se nos imaginássemos

permanentemente a andar por cima das ondas,

apesar das nossas pernas curtas, dentro de dois,

três anos, chegaríamos à América do Norte. Se

caminhássemos para sul iríamos ter a África, se

nos dirigíssemos para sudoeste – e ela indicava

essa direcção imprecisa com o seu braço, que

nos parecia gigante – então chegaríamos aos

países da América do Sul. Demoraríamos muito,

9

sofreríamos muito, no entanto seria bom, pois

se lá chegássemos, em todos esses lugares, encontraríamos

parentes.

É possível que essas cenas de explicação de

geografia humana familiar acontecessem também

de dia, mas a imagem desse Sagres de outrora,

sempre a associo às explicações da noite.

A nossa varanda abria-se exactamente a meio do

Algarve. Mais próximo brilhava o farol do Cabo

Carvoeiro, depois piscava aquele frouxo olho de

Sagres, tremido, longínquo. Quanto mais tremido

e mais distante, mais doloroso, mais potente,

como se o seu braço de luz fizesse a ponte entre

nós que havíamos ficado e todos esses que haviam

partido. Não o nego, aquela luz nas noites

de outrora era um lugar que separava e unia a

nossa gente. Gente sem passado nem futuros assinaláveis,

gente que era apenas um só corpo

desunido, disperso pelo mundo. A verdade é

que ninguém dali havia partido, àquele lugar

ninguém iria chegar, e no entanto, no relato escuro

da varanda, era como se tudo ali tivesse

acontecido, como se Lisboa, seus cais e aeroporto,

onde as partidas reais se davam, não

existissem em lugar nenhum. A partir da nossa

varanda, aquele lugar sudoeste parecia ser o

único ponto cardeal das nossas vidas. Mas, logo

na primeira curva da infância, viria a História e

viriam os mitos.

Primeiro, a História. As coisas passaram-se

assim – a professora do Liceu mandou apagar

da cabeça todas as histórias de luzes e varandas,

para nos contar como certo dia, quinhentos

anos antes, um príncipe português, casto e visionário,

tinha resolvido abandonar a corte, armado

de seus cavalos e escudeiros, para vir assentar

casa e villa no Sul de Portugal, e aqui dar

início aos Descobrimentos Marítimos. A professora

parecia estar enamorada desse príncipe.

Segundo a sua narrativa de fábula, o príncipe

havia descoberto, ao atravessar o Algarve, em

direcção do Norte de África, que o Promontório

de Sagres, muito mais do que um rochedo,

era uma grande mão aberta cujo dedo indicador

estendido apontava para o futuro do Mar. Em

sua bata branca de oficial impecável, a professora

falava da villa, do príncipe, dos sábios italianos

que ali tinham chegado para falarem da rota

das estrelas, dos engenhos, dos barcos e dos

mapas da pequena Terra Cógnita da época, e a

mão aberta do Promontório de Sagres, mais do

que um local de partida era um local de chegada


que em simultâneo ligava o seu rochedo ao extremo

Sul de África, à Índia, à China e ao Japão,

ao cabo Horn, como se toda essa façanha de

séculos tivesse jorrado da testa do príncipe,

prodigiosamente, segundo a mesma lei de simplicidade

que movia o ponteiro da professora

por cima do planisfério. A História tinha então

a forma duma mulher enamorada. Sob o impulso

daquela professora em estado de paixão, desenhámos

Infantes Dom Henrique sentados nos

rochedos, caravelas no seus ombros e ao seu colo,

fizemos prosa e versos, houve exposições e prémios.

Aquela mulher tinha razão – Sagres, segundo

a sua História, não tinha nada a ver com

a tira lilás que se avistava da varanda, nem com

a luz intermitente que apontava para a distância

do mundo que nos era contemporâneo –. Mas,

como disse, ainda haveria os mitos.

Aliás, de modos diferentes, eles nunca tinham

estado ausentes.Talvez uma parte do afecto

seja mito, talvez toda a memória também o seja.

O que sabemos nós da construção do pensamento?

Mas Mitos mitos, aqueles que resumem

os sentidos da existência com a síntese dum alfinete

afiado, esses começariam a ficar cada vez

mais explícitos. Afinal, por alguma razão superior,

Sagres se situava em terras de Portugal. O

assunto era tão sibilino quanto resultava claro. –

Por alguma razão de ordem teleológica, tão estranha

à vontade humana quanto a chuva ou o

trovão, tinha havido Sagres para que Portugal

pudesse ter enviado primeiro as caravelas, depois

as fundas naus sem fundo, com a Cruz de

Cristo arvorada nas velas e a doutrina cristã escrita

nos livros. O Império de Cristo havia tido

sua cabeça em Portugal. Todo o Portugal, ponta

extrema da Europa, afinal não passava duma lança

de Fé chamada Sagres. É preciso lembrar que

nesse tempo as raparigas usavam véus para entrarem

nos templos do Senhor, os cabelos das

suas cabeças ainda precisavam desse abafo contra

os seus próprios males. A pouco e pouco, o Mito

havia tomado conta das nossas vidas e, por isso,

subir acima da varanda da nossa casa já não era

subir acima da varanda da nossa casa para ver o

céu à transparência. Um véu não era um véu. O

simbólico havia-se instalado com sua poderosa

corte de substância entre o real e o imaginado.

Só os cegos iam a Sagres e nele viam um rochedo

perigoso por onde todos os navios provenientes

do Mediterrâneo e do Atlântico, na rota

da Europa, tinham obrigatoriamente de passar.

Só os cegos. Então, felizmente, fomos a Sagres.

Ainda estávamos vivos e intactos.

Fomos, fazia vento, já o disse de outros modos.

Éramos adolescentes. Tudo isso aconteceu outrora,

quando as estradas ainda corriam às curvas

entre veigas e outeiros, amarradas aos caprichos

do terreno. Fomos. Chegámos lá depois duma

tarde de viagem num carro que carburava mal. A

distância que nos separava era curta, mas nós

achávamos que por mais que andássemos nunca

chegaríamos lá. E, de súbito, ali estávamos em pé,

sobre as costas dum rochedo. Uma pedra gigantesca,

uma escarpa nua, onde o vento assobiava

como se nos quisesse arrebatar para outra parte.

E, então, à medida que os redemoinhos nos levavam

os cabelos, foi simples imaginar quantos enxovais

por estrear se haviam misturado com a

areia, quantas quilhas, quantos mastros, quantas

sepulturas abertas nas ondas, para que a distância

entre continentes, ao longo dos séculos, tivesse

sido transposta. Foi possível compreender como

por cada príncipe sonhador que a História oferece,

sempre foram necessários exércitos incontáveis

de outros homens, cujos nomes só estão

escritos entre os grãos de areia onde ficaram seus

desejos e seus ossos. Tudo isso foi entendido durante

essa primeira visita ao rochedo.

Mas foi preciso mais tempo, sobretudo mais

densidade no tempo, para que eu mesma entendesse

que em Sagres, como em toda a escarpa

nua que se prolonga pelo Mar, existe o aceno

que leva para longe o nómada das águas. Existe

o inquieto, o curioso, o móvel, o trotamundos

sem destino à vista, o inqualificável. Aquele que

sente, na sua carne e no seu espírito, que à medida

que se vai afastando da sua casa, mais se

aproxima da verdadeira morada. E assim se sabe

que sempre que se fala do espírito do Príncipe,

seus cálculos astronómicos e seu Mapa-múndi

de Fra Mauro, sempre se terá de falar daquele

outro infante múltiplo, sem retrato, que habita

na sombra do seu silêncio e se chama Humanidade.

Era essa a palavra que eu desejaria ver escrita

em letras gigantescas nas escarpas da futura

Sagres. Em volta do seu relógio de sol desenhado

no chão, cujos ponteiros não falam, Humanidade.

– Todos os que partiram, ou não partiram

de lá, ao longo dos séculos, mereceriam essa

homenagem. Os ignorados, aqueles cuja vida

anónima encontra no enrolar e desenrolar das

ondas a sua única metáfora, seriam esses o seu

destinatário.


VAGA GENTE 10

Um mineiro

portimonense

no Alto Peru

Maria da Graça A. Mateus Ventura

Os portugueses deixaram marcas

da sua presença para além

das fronteiras do território

politicamente delimitado

11

pelos sucessivos tratados entre Portugal

e Espanha.Vaga gente

que indecifravelmente forma

parte do tempo, da terra e do olvido.


Afonso de Fonseca Falcão

era um mineiro poderoso,

pela fortuna e pela

teia de relações. Foi de Portimão

para o Alto Peru,

quando a produção da prata

já anunciava o seu declínio,

em 1621. Logo que

chegou ao Potosí, Falcão ocupou-se em lavrar

e beneficiar minas próprias, no Cerro

Rico da Villa, à sua custa e sem qualquer

ajuda de índios de cédula ou mitayos, tendo

gasto muita prata e servido a Coroa com

«grandes e quantiosos serviços de interesses

de quintos reais que cresceram e aumentaram

a Sua Real Fazenda» em mais de 500

mil pesos e, em especial, pela «grossa

quantidade de metais ricos» que, desde

1635, pouco mais ou menos, sacara e beneficiara

no asiento rico de Chocaya.

Afonso Falcão foi um dos primeiros

povoadores deste asiento e dos mais interessados

naVeta de Clarines donde se sacou «tão

grande soma de metais ricos» que a Coroa

obteve elevadas receitas procedentes dos

quintos. Quando as minas de Chocaya foram

inundadas, Falcão foi o primeiro a

desaguá-las, pelo que se pôde voltar a extrair

muitos metais ricos, tudo à custa de

grandes gastos por se ter continuado com

os ditos desaguamentos por mais cinco

anos. Não podendo manter a exploração

desta mina, pelo «embaraço e impedimento

da água», Afonso descobriu «muchos

labores» no Cerro e asiento de Tasna

donde sacou elevada quantidade de metais

beneficiados no seu engenho de San Antonio

de Villa Real de que era proprietário por

título hereditário.

Além de povoador de Tasna, Afonso

Falcão explorou também as minas do Cerro

e asiento de Chorolque donde sacou igualmente

muitos metais, descobrindo minas

novas e limpando minas antigas que estavam

«cegas e cobertas», por «ignorância e

pouca indústria» dos antigos mineiros.

Em 1647, este mineiro algarvio abriu

mais dois filões em Chorolque, tendo de

novo gasto «mucha plata» para que estas

minas se pudessem lavrar e desaguar com

comodidade. Dos ditos filões extraía-se

muita prata que garantia grande rendi-

Proprietário,

concessionário

de minas e

azougueiro,

Afonso de Fonseca

Falcão foi, decerto,

um dos homens

mais ricos do Potosí

mento à Coroa espanhola,

até porque todo o investimento

fora feito, mais uma

vez, à sua custa, sem recorrer

a «índios de cédula».

Dos quantiosos e ricos metais,

beneficiados no engenho

de San Antonio e em

outros que possuía na região dos Chichas

e dos Lipes, haviam resultado importantes

quantidades de marcos de prata em pinha,

além do resultante da compra à Coroa de

muitos quintais de azougue, pago em

barras de prata.

Proprietário e concessionário de minas

e azougueiro, Afonso de Fonseca Falcão

era, decerto, um dos homens mais ricos

do Potosí e um dos mais importantes na

sociedade local, pois soube aliar a fortuna

a um casamento estratégico. Casou com

D. Juana de Villela, filha do licenciado

D. Juan de Villela que foi alcaide da Corte,

ouvidor da Audiência de Lima, presidente

da Audiência de Guadalajara e membro

do Conselho das Índias. D. Juana havia casado

em primeiras núpcias com o governador

de La Plata, facto que valorizava, ao

menos simbolicamente, o seu dote. Ao

excelente estatuto social da esposa, Afonso

acrescentava a sua fortuna e a nobreza dos

seus antepassados. Em 1647, Afonso enviou

a Filipe IV e ao Conselho das Índias

uma petição para que se procedesse a

uma informação sobre os seus méritos e

serviços como justificação do seu pedido

de mercê de cargo, renda ou hábito de

uma das quatro ordens militares para o

seu filho primogénito, os típicos apanágios

indianos de poder – cargo, renda e

hábito. Considerava-se a si próprio como

«homem quieto e pacífico e muito atento

ao serviço de Deus e de Sua Majestade e

sempre se tratou e conservou com muito

lustro de sua pessoa, casa e família, tendo

criados espanhóis e escravos». Não sabemos

se obteve esta mercê, mas Afonso de Fonseca

Falcão foi, seguramente, um dos portugueses

de sucesso no Alto Peru, graças à

sua capacidade de iniciativa e de investimento

numa actividade fulcral para o império

espanhol – a mineração da prata, el

nervio de la nación.


Saudades de Chiriquí

Maria Angeles Sallé

TRAVESSIAS 12

Mais do que de uma travessia de dupla

direcção, entre Chiriquí e Barcelona,

trata-se de um percurso de ida

e volta através da saudade

e da nostalgia de um imenso coração

atravessado pelo mar, uma espécie

de ponte entre o cais da memória

e o porto da esperança.

13


Chiva, autocarro do Panamá


TRAVESSIAS 14

Quando eu era menina, ir

de David à capital supunha dois

dias de viagem envoltos em pó,

água ou, com mais frequência,

na sua incómoda síntese de barro.

Mas, ao chegarmos, aguardava-nos

– após a travessia da ponte

das Américas – uma cidade

caótica, de latidos e cores que

me fascinavam. Nunca mais, em

nenhuma das múltiplas viagens

que empreendi, encontrei uma

ponte que me parecesse tão

imensa, nem uma cidade que

encerrasse tanto mundo. Por isso

o meu sonho de menina sempre

foi repartir a minha vida adulta

entre as duas margens daquela

ponte: a da terra e água e a do ar

e fogo.

Mas eu, além de ter nascido

em Chiriquí, também nasci espanhola,

e a presença de Espanha –

a sua cozinha, o seu «ceceio», as

suas festas, costumes e, sobretudo,

as suas nostalgias – foi a música

de fundo de todos os meus crescimentos.

Temia a minha prematura

condição emigrante.Temia-a porque

colocava sobre as minhas jovens

raízes outras mais fortes e

melhor plantadas; quiçá, também

porque pressentia que, devido a

ela, o meu sonho de viver entre

as duas margens da ponte não ia

poder cumprir-se.

Tinha dez anos quando vi –

pela primeira vez com os meus

olhos – a luz de Espanha. Foi a do

Mediterrâneo, em Barcelona, no

mesmo porto de onde havia zarpado

o meu pai, muitos anos antes,

rumo às Américas. Dezasseis

dias durou esse trajecto que me

entregava a um destino de margens

mais largas, as de um Atlântico

cujas ribeiras nenhuma ponte

podia aproximar, mas que os

emigrantes espanhóis converteram

em algo estranhamente familiar,

baptizando-o de «el Charco».

15

Desde então, a minha existência

converteu-se num ir e vir,

quer fosse viajando, quer sonhando.

Essa poderia ser uma

boa síntese de uma travessia pessoal

na qual, mais tarde, descobri

que se espelhavam as viagens íntimas

de muitos outros navegadores.

Porque, para todos nós,

emigrar supunha abrir uma ferida

nas raízes pela qual se nos colou

um bocado de terra nova. A cicatriz

permanece sempre; inclusive

se se regressa, as dores mestiças

afloram à superfície uma e outra

vez. A terra nova, por seu lado,

aduba um jardim de liberdades,

amores, esquecimentos, sonhos

possíveis, encontros com um

igual ou, simplesmente, um prato

de comida quente em cada

dia, que continua sendo, infelizmente,

a razão fundamental dos

êxodos que se produzem no

mundo de hoje.

A minha existência, como

era lógico, mudou também –

entre tantas voltas – ao conhecer

uma série de histórias de pessoas

que, como eu, sulcavam o

mar repartindo o seu coração

entre cá e lá.

Muitos outros emigrantes se

cruzaram, depois, no meu caminho.

Aventureiros de passagem,

gente que fracassou no seu esforço

e teve de regressar de cabeça

baixa e bolsos vazios, empreendedores

que, como os meus pais,

exerceram as profissões mais mirabolantes

para seguir em frente

(afiadores, vendedores de quadros,

marceneiros, cafezeiros, comerciantes...),

exilados da guerra

civil... pessoas, todas elas, com

trajectórias muito diferentes,

mas, ao mesmo tempo, forjadas

por uma esteira comum de lágrimas,

suor e mar.

Quatro milhões de espanhóis

emigraram para a América

ao longo do século XX. Uns

quantos vieram parar ao Panamá,

onde se somaram à extensa colónia

de italianos, chineses, gregos,

antilhanos, indianos, judeus ou

árabes aos quais o nosso país

abriu generosamente as portas.

Em cada uma dessas rotas há

uma cadeia de esforços e lutas na

qual se gesta uma boa parte da

história grande de Espanha. Não

obstante, há muito que venho

notando como a nossa memória

se esvai entre as realidades e as

brumas do progresso, sem querer

reconhecer que, se deixamos

morrer a memória do país emigrante

que sempre fomos,

morrerá também a essência que

nos move e tornar-nos-emos

nómadas de nós mesmos.

Recuperar a memória supõe,

do mesmo modo, actualizá-

-la, reconhecer a circularidade

de caminhos que, através dos

nossos actos, imaginação ou memórias,

percorremos quase sempre

em dupla direcção. A Espanha

emigrou para a América, tal

como hoje a América emigra para

a Espanha ou a própria América

emigra entre si. E, assim, mais

de um milhão de latino-americanos

– se considerarmos os legais

e os ilegais – foram lá tentar

a sua sorte nos últimos anos. Um

bom punhado são amigos, ou filhos

de amigos, que se vão somando

progressivamente ao

mundo dos meus afectos. Partem

da Argentina, em crise, buscando

horizontes mais propícios para

plantar o montão de sonhos que

se viram obrigados a arrumar na

mala de viagem. Aterram procedentes

de uma Venezuela ferida,

cujos sulcos continuam lambendo

à distância. Não faltam artistas

peruanos, chilenos, panamenhos...

que necessitam que a Espanha

desempenhe um papel

mais activo na projecção da criatividade

ibero-americana. Mas a


maioria são equatorianos, colombianos

e peruanos que fogem

de ambientes onde o futuro

quase não se conjuga, deixando

atrás de si famílias desfeitas para

irem em cuidar dos nossos filhos

e idosos, ou para se encarregarem

do nosso ócio e bem-

-estar. Um paradoxo que se tece

nestes milhares de histórias individuais,

temperadas com o

mesmo sal de lágrimas, suor e

mar que o daqueles galegos, asturianos,

bascos ou andaluzes

que apontaram à América a proa

das suas esperanças.

O que mudou? Embora a

emigração continue a ser uma

constante nas nossas vidas, a diferença

é que agora se inverteu a

direcção (em vez de cá para lá, de

lá para cá). Mudou também o

meio: agora, aeroportos e aviões

substituem prosaicamente a mítica

imagem de antanho, quando

portos e barcos eram os símbolos

dessa grande mobilização

atlântica. E mudou a comunicação:

antes, o símbolo era a carta que

jamais chegava, o tempo aprisionado,

o telegrama conciso

com as más notícias, a ligação

telefónica de longas esperas.

Agora, a cabina é o cibercafé, o

sonho de agarrar o ente querido

aferrando-se à sua imagem ou à

sua voz, o amor virtual, o quotidiano

do outro em tempo real,

o desdobramento em duas vidas:

a de cá e a de lá.

Mas, sobretudo, mudou a

identidade: ontem foram eles (70%

dos emigrantes espanhóis na

América eram homens), enquanto

hoje são elas (60% dos

emigrantes latino-americanos

em Espanha são mulheres) quem

está embarcando decididas a lavrar

o futuro dos seus filhos.

Podem encontrar-se, apesar

de tudo, grandes similitudes entre

estes trasfegos de dupla di-

recção. Porque aqueles que participaram

ontem e participam

hoje nesse ir e vir pelo nosso

mar choraram e choram saudades

e perdas, conheceram o valor

da luta individual como ingrediente

indispensável para ultrapassar

a adversidade, desenvolveram

um forte sentido de

sobrevivência e constituíram todo

o tipo de redes solidárias a

partir da consciência de que um

emigrante jamais consegue o

seu objectivo sozinho. Creio que

isso – e uma determinada maneira

de sentir – é o que mais

identifica o mundo dos emigrantes

de todos os tempos: é

gente tão empreendedora quanto

gregária. E, como empreendedores

que são, tampouco se

O Panamá é um país

no qual vibra

o planeta inteiro,

um país-navio

em travessia

pode esquecer que muitos naufragaram

e naufragam cada dia.

Em barcos, fracassos, hipotecas

ou desesperanças.

Reivindicar o direito de sobreviver,

de sonhar, de ser diferentes

representa hoje muito

mais que resgatar do esquecimento

o legado de todos aqueles

que nos abriram o caminho,

forjando com o seu alento – ao

mesmo tempo duro e nostálgico

– boa parte do bem-estar de

que, hoje, desfrutamos. É legar

também aos nossos filhos, habitantes

de um mundo cada vez

mais complexo, a chave para

abrir a porta da pouca ou muita

sabedoria que fomos capazes de

entesourar na nossa rota de

identidades destroçadas, das

nossas esperanças, lutas e fracassos.

É facultar-lhes as nossas velas

desfiadas e cartas de viagem,

é dizer-lhes que ser emigrantes é

o seu destino.

A identidade multicultural e

emigrante está arreigada no fundo

mais recôndito da alma do

Panamá, se bem que no nosso

caso – diferentemente ao contrário

de Espanha e da maior

parte da América Latina – mais

pelo facto de sermos receptores

(ontem de espanhóis, judeus,

árabes, jugoslavos ou indianos;

hoje de colombianos ou peruanos;

e sempre de chineses) do

que emissores de emigração. E

isso com consequências passadas

– e sobretudo futuras – muito

importantes para o país, ainda

que aparentemente ninguém pareça

reparar nisso.

Negro, chocolate, branco e

amarelo são as cores do istmo,

se bem que no nosso Chiriquí a

mestiçagem – segundo as últimas

investigações a este respeito

– provenha, quase na mesma

proporção, do branco e do índio.

O Panamá cheira a incenso, a

mercado árabe e a molho chinês.

Sabe a manga, a doce hebraico, a

arepas e a pasta italiana. Ressoam

nela as cadências do mundo,

que vão derramando pelas ruas

e esquinas acentos em dó, ré,

mi, fá, sol. O Panamá reza e pede

perdão pelos seus pecados

nas mil línguas paridas pela Torre

de Babel. Foi também forjada

por suor e sangue dos cinco

continentes. E os mares que o

banham estendem a sua mão à

Europa e à Ásia, enquanto continuam

a moldá-la como a cintura

de uma América Latina hoje

cada vez mais presente nos nossos

habitantes. O Panamá é,

pois, um país no qual vibra o

planeta inteiro, um país-navio

em travessia.


CIDADES INVISÍVEIS 16

Fervor

de Buenos

Aires

De Buenos Aires disse Carlos Fuentes que, «se não há cidade

mais sólida, mais construída e “feita” na América Latina,

tão-pouco há cidade mais desvanecida na bruma da sua

linguagem, da sua literatura, da sua música passageira».

Da cidade secreta, invisível, inventada por Borges,

aqui ficam alguns relatos «porque aquilo que nos interessa

é o que o viajante vê».

17


Murais em La Boca


Buenos Aires

de hoje pelos

caminhos

de Borges

João Ventura

CIDADES INVISÍVEIS 18

19

Avenida Corrientes

A Avenida Corrientes

é uma superstição

A Buenos Aires inventada

por Borges nos seus livros já não

existe, embora aqui e ali, se nos

deixarmos perder pelos caminhos

que o autor gostava de

percorrer nos fins de tarde luminosos

do Verão porteño, a possamos

ainda imaginar. Para Borges,

Buenos Aires foi muito

mais que o cenário da sua obra,

inspirada em personagens e histórias

dos subúrbios porteños do

princípio do século passado. A

Buenos Aires de Borges é também

a cidade recriada nas suas

ficções, a cidade poética, mítica,

revelada em muitas das suas histórias

e poemas. Vem daí, dos

textos de Borges, o meu primeiro

conhecimento de uma Buenos

Aires desaparecida, onde biografia

e ficção convergem num

espaço simultaneamente cartográfico

e imaginário.

Como Borges, procuro as

ruas do centro numa manhã de

sexta-feira, com a sua «prepotência

de azul» (Inquisiciones).

Primeiro, a casa onde nasceu:

«Nasci aqui, no coração da cidade,

na Rua Tucumán, entre as

ruas Suipacha e Esmeralda, numa

casa (como todas as desse

tempo) pequena e sem pretensões,

que pertencia aos meus

avós maternos» (Autobiografia).

Porque a casa já não existe,

escolho um prédio ali perto, na

Rua Maipú (n.º 944), que foi a

última e a mais duradoura residência

de Borges, e onde escreveu

a maior parte da sua obra.

Do terraço do apartamento,

Borges podia ver as árvores da

Praça San Martín, sobretudo o

esplendor azul-violeta, às vezes

com tonalidades lilases, dos

enormes jacarandás em flor,

nos fins de tarde de Verão austral:

«Todo o sentir se acalma/


na absolvição das árvores/jacarandás,

acácias...» (Fervor de Buenos

Aires).

Eis agora a Rua Florida cujos

dezasseis quarteirões Borges

percorreu a pé, durante anos, a

caminho da Biblioteca Nacional,

na Rua México. Aquela que

foi a primeira rua pedonal de

Buenos Aires é hoje o epicentro

comercial da cidade, com lojas

das melhores marcas e onde se

podem comprar artigos de couro

a preços convidativos, depois

da desvalorização do peso argentino.

Ao fim da manhã, uma

multidão de turistas enche a

rua. A paixão pelo futebol é visível

nas dezenas de lojas de artigos

desportivos que dão colorido

à rua expondo as camisolas

das principais equipas argentinas

e da selecção nacional.

À porta das Galerias Pacífico,

onde se encontram instalados

o Centro Cultural Jorge Luís

Borges e a Escola de Dança de

Julio Boca, um par de tango ensaia

algumas figuras de dança

ao som de La Cumparsita. Atravesso

depois a Rua Lavalle que

cruza com a Florida e lhe serve

de extensão comercial. Esta artéria

foi outro lugar de deambulação

de Borges que frequentava

as suas salas de cinema nos

anos cinquenta. Mais adiante, a

livraria El Ateneo, que foi nos

anos sessenta um dos lugares

mais concorridos pela geração

de intelectuais e escritores, e

onde Borges costumava deter-se

no seu percurso diário para a

Biblioteca Nacional onde era director,

convida a entrar.

Borges não gostava do centro.

E embora durante anos tivesse

que caminhar pelas suas

ruas e frequentasse os cafés –

como o Tortoni, na Avenida de

Maio –, as tertúlias – como a do

café Royal Keller, na Rua Cor-

rientes – e os jornais da zona –

como La Prensa, na Avenida de

Maio –, pouco mudou a sua

opinião formada na juventude

sobre o centro como «um lugar

pitoresco e desenraizado» (O Tamanho

da Minha Esperança). Muito

mais tarde, já na velhice, afirmaria

que «a Avenida Corrientes

é uma superstição» (Borges, el

memorioso), procurando destruir

o mito da mais central das ruas

de Buenos Aires.

E é a extensa Corrientes que

percorro ao crepúsculo, quando

o néon dos anúncios dos teatros

e dos cinemas começa já a der-

Praça San Martín

ramar a ilusão sobre a avenida

que já foi uma espécie de

Broadway porteña, cantada nas letras

de tangos. E no interior das

muitas livrarias – onde se compram

edições desaparecidas de

Borges, de Casares, de Cortázar

– e nos incontornáveis cafés que

ainda povoam a rua, acendem-

-se as luzes, iluminando histórias

escritas e conversadas.

Em Corrientes, desde a Avenida

Callao até à Rua San Martín,

sempre existiram cafés com sabor

a tango, a política e a todo o tipo

de discussões, a movidas artísticas, a

conquistas e enganos, ao rescaldo

do último derby entre o Boca Juniors

e o River Plate. A boémia

porteña tinha o seu encontro privilegiado

ao longo desta avenida

que nunca dormia, carregada de

sonhos e ilusões. Nos distintos

cafés se pronunciaram panegíricos

manifestos acerca da liberdade

e os intelectuais da época

evocaram com grande lirismo a

autenticidade da alma artística.

Borges frequentou tertúlias

no Royal Keller. Carlos Gardel e

José Razzano, que actuavam no

Teatro Esmeralda, hoje conhecido

por Maipo, tinham todas as noites

uma mesa reservada no Guarani.

Horacio Quiroga frequentou

La Richmond. A lista de cafés

era infindável. E, embora hoje

muitos já tenham desaparecido

ou se tenham tornado irreconhecíveis

pelas transformações sofridas,

ainda se respira em Corrientes

um pouco do tempo em que

aquela rua nunca dormia.


CIDADES INVISÍVEIS 20

Talvez Borges tenha também,

numa tarde qualquer,

entrado no Giralda que, na esquina

da Corrientes com a Uruguai,

permanece inalterado,

com as suas paredes de azulejos,

mesas de mármore, as suas luzes

de néon e os empregados

vestidos de branco. E, quem sabe,

saboreando o mesmo chocolate

com churros que bebi

enquanto ouvia histórias de cafés

«tangueiros» contadas por

um companheiro porteño.

Persigo Borges pela Corrientes,

cruzando a mais larga

avenida do mundo, a 9 de Julho,

hoje desocupada dos piqueteros

– a mais recente criação do

populismo sindical argentino –

que na véspera a tinham cortado

exigindo compensações. E

depois, pela Avenida de Maio –

a mesma avenida que mitificou

Eva Perón – com os seus belíssi-

21

mos edifícios como o do antigo

jornal La Prensa, de fachada art

déco, que acolhe agora a Casa

da Cultura. Imperdível a visita

ao café Tortoni que parece esperar

por Borges regressando do

jornal Crítica.

E, no reverso do mito, os

edifícios ainda tingidos com as

cores da revolta contra «los

ladrones», como na porta principal

do Banco de Boston, escolhido

como símbolo da corrupção,

do clientelismo e de

Placita Cortázar, Palermo Viejo

uma desastrosa política económica

assente na paridade artificial

com o dólar, que ia levando

a Argentina à ruína. À porta de

um esplendoroso edifício, dois

sem-abrigo acomodam-se para

passar a noite, desmentindo o

luxo do cenário. Na Praça de

Maio, as mães já não choram

pelos desaparecidos, mas anuncia-se

uma grande manifesta-

ção, para o próximo sábado,

por ocasião do aniversário do

golpe que instaurou a ditadura.

No palanque estarão filhos de

desaparecidos ao lado do presidente

Kirchner. Porque é preciso

não esquecer.

Puerto Madero, na «Doca

Sul, de onde outrora zarpavam

o Saturno e o Cosmos» (Elogio da

Sombra) levando Borges e a sua

família até ao outro lado do rio

da Prata, a Montevideu, já não é

um território de ruas picantes

É em Palermo Viejo,

no passado um súburbio

perdido nas margens

da pampa, que Borges

encontra o cenário

privilegiado para criar

os mitos e dar corpo

aos fantasmas

das suas histórias

onde «convivem o cosmorama

e a leitaria, o bordel e os vendedores

de Bíblias» (Ficções). Resultado

de uma profunda intervenção

de restauro e revalorização, o velho

Puerto Madero, exemplo da

arquitectura industrial inglesa do

início do século XX, com os seus

armazéns nas margens dos diques,

concentra hoje numerosos

restaurantes e áreas de lazer,


constituindo uma nova centralidade

onde Buenos Aires se debruça

sobre a corrente morna e pardacenta

do rio da Prata.

Em Palermo Viejo

É em Palermo Viejo, no passado

um subúrbio perdido nas

margens da pampa, que Borges

encontra o cenário privilegiado

para criar os mitos e dar corpo

aos fantasmas das suas histórias.

A dois quarteirões da Praceta Julio

Cortázar, numa esquina, pode

ler-se, agora, o seu testemunho:

«Um quarteirão inteiro,

mas cuja metade/ ficava exposta

a chuvas, auroras, rajadas./ O

mesmo quarteirão que há hoje

no meu bairro:/ Guatemala,

Serrano, Paraguai, Gurruchaga»

(A Fundação Mítica de Buenos Aires).

Por isso, escolho Palermo

Viejo para continuar este itinerário

porteño e, numa manhã de um

sábado que se anuncia luminoso,

perco-me pelas ruas e pracetas de

Palermo Viejo e, pelos caminhos

de Borges, entre silêncios e milongas,

deixo que o bairro se me

revele. Em Palermo Viejo, onde

Borges viveu, primeiro em criança

e, depois, na juventude (na

Rua Serrano, 2100, hoje chamada

Jorge Luis Borges em sua memória),

já não se pode ver, como

Borges viu, «pares de homens

dançando tangos, quando passava

um acordeão, porque as mulheres

não queriam dançar». Mas o

espírito do lugar permanece por

ali e, às vezes, é possível assistir-

-se na Praceta Serrano aos ensaios

da murga Los Herederos de Palermo

que nos transporta ao

tempo de Borges.

A Praceta Serrano (que na

realidade se chama Cortázar, em

memória do autor de Rayuela), a

que os moradores e frequentadores

chamam carinhosamente

la placita, tornou-se, nos últimos

anos, o epicentro da movida jovem

porteña e um lugar onde

acontecem numerosas actividades

culturais e comunitárias. Ou

não fosse esta placita o lugar onde

a toponímia junta Borges e Córtazar

na esquina onde a Rua Serrano

(que agora tem o nome do

autor das Ficções) se cruza com a

praça rebaptizada com o apelido

do escritor de Rayuela.

São 10 horas da manhã e

no pequeno jardim central está

prestes a começar um desfile de

Café Tortoni

moda, onde os criadores locais

apresentam as novas tendências

para o Outono-Inverno porteño,

como se estivéssemos em Paris

ou Milão. Noutro canto, à sombra

de magníficos plátanos, estende-se

através de algumas

bancas improvisadas uma Feria

del Trueque, um lugar onde se pode

trocar quase tudo o que já

não queremos por algo de que

necessitamos. Dizem-me que

estas feiras informais constituíram

uma resposta imaginativa

dos argentinos à crise económica

que se abateu sobre o país há

cerca de dois anos. Hoje, não

obstante os piores dias já terem

passado, muitas continuam a

realizar-se, aos domingos, em

alguns bairros populares de

Buenos Aires, alimentando uma

pequena economia informal de

troca directa de produtos e serviços.

No auge da depressão de

há dois anos, esta intricada rede

chegou a ter milhares de nós

espalhados por antigas fábricas

e armazéns devolutos.

Como o sol começa a aquecer,

sento-me na esplanada do

Acabar (Honduras, 5733), um

esplêndido bar de sumos naturais.

Aliás, muitos outros bares –

El Taller, Crónico, Malas Artes –,

galerias de arte, ateliers de toda a


CIDADES INVISÍVEIS 22

23

Porta do Banco Boston, Avenida de Mayo Club del Vino, Palermo Viejo

Puerto Madero

Bar Malas Artes, Palermo Viejo Praça Dorrego

espécie envolvem esta placita,

considerada, hoje, um dos lugares

de passagem obrigatória

do itinerário cultural e boémio

porteño.

Decido, depois, penetrar

numa Buenos Aires de geografia

labiríntica, errando ao longo de

ruas arborizadas, como a Guatemala

que ainda mantém um

certo ambiente tranquilo de bairro,

acedendo a ruelas com calçadas

irregulares, curvando esquinas

onde florescem buganvílias,

esgueirando-me por estreitas

travessas e íntimos saguões

– Cabrer, Soria, Santa Rosa, Russel

– onde as fachadas de um casario

baixo e os muros que foram

cenário em muitos livros de Borges

se revelam agora, renovadas,

nas suas «cores de aventura» (Lua

Defronte). E através de metáforas,

afortunadamente irreais, sob «a

clara plenitude de um poente»

(Fervor de Buenos Aires), é todo um

catálogo da «mitologia bairrista»

de compadritos, brigões e marginais

de faca ligeira que se pode

imaginar.

Deste Palermo onde «vivia

gente de fraca qualidade juntamente

com gente muito pouco

agradável, como os rufiões e os

compadritos, que se caracterizavam

pelas suas lutas à facada»

(Autobiografia) pouco ficou e,

hoje, pode passear-se com relativa

segurança por aquele que é

considerado uma espécie de

Soho porteño. Curiosamente, a

vocação cosmopolita de Palermo

já Borges a descobrira muito

tempo antes, ao afirmar sentir-se

«mais porteño que argentino

e mais do bairro de Palermo

do que de outros bairros. E até

essa pátria interessante – que

foi a de Evaristo Carriego – se

estava a tornar em centro...»

(Carta publicada na revista Nosotros,

1925).


Embora não esqueça o seu

passado rufião, Palermo Viejo é

hoje um bairro seguro, habitado

por gente com um forte sentido

de pertença ao lugar e com uma

notável consciência cívica, expressa

nas mais variadas dinâmicas

comunitárias de que mesmo

um turista acidental facilmente

se apercebe. Gente sensível, ecológica,

reciclável, apesar do snobismo

congénito que os faz saltar

de um desfile de moda para

uma galeria de arte e daí para a

loja de agricultura biológica

mais próxima. Palermo Viejo é,

ainda, um lugar para descobrir

pela noite dentro, com os seus

restaurantes sofisticados, bares e

cafés literários, clubes de tango

e de jazz de novo cheios de gente

que prefere consumir a arriscar

as poupanças nos bancos.

Por Belgrano,

San Telmo e La Boca

As grandes caminhadas de

Borges levavam-no desde Palermo

até Belgrano, um bairro com

alma própria, onde velhos casarões

se misturam, hoje, com edifícios

modernos. Manhã cedo de

domingo, deixo o «carinho das

árvores em Belgrano» (O tamanho

da minha esperança) em direcção aos

bairros do sul, a San Telmo, onde

reside «a essência original de

que Buenos Aires é feita, a (sua)

forma universal ou ideia platónica»

(Buenos Aires en Tinta China). Antes,

impossível não passar pela

Rua Garay, perto da esquina com

a Rua Bernardo de Irigoyen, no

bairro da Constitución, onde se

encontrava o Aleph, «o lugar

onde estão, sem se confundirem,

todos os lugares do mundo,

vistos de todos os ângulos»

(O Aleph).

Através de ruas empedradas,

chego à Praça Dorrego, no coração

de San Telmo, bem a tempo

da feira de antiguidades que aí

funciona há mais de trinta anos.

O bairro, as ruas e a praça conservam

ainda a sua imagem antiga,

com as casas coloniais que

Borges evocou: «Onde San Juan

e Chabuco se cruzam/ vi as casas

azuis/ vi as casas que têm as

cores da aventura» (Lua Defronte).

Sob as tendas que se amontoam

no exíguo espaço da praça, velhos

discos de tango de 78 rotações,

livros e revistas esgotados,

mapas e cartazes antigos acomodam-se

ao lado de garrafas, taças,

ferragens e brinquedos de

outras épocas, enquanto à sombra

das árvores começa uma aula

de tango.

De San Telmo chega-se facilmente

a La Boca, um bairro

que Borges evitava, como nos

conta Adolfo Bioy Casares:

«Não sei porquê, mas Borges tinha

um desprezo por La Boca.

Durante anos eu não fui a esse

bairro por causa de Borges.

E uma vez fui e achei que era

lindíssimo» (Adolfo Bioy Casares, em

entrevista com Carlos Aberto Zito). Ao

início da tarde, o azul e amarelo

da hinchada do Boca Juniors invadem

o bairro que já foi de marinheiros

e artesãos genoveses,

pois é dia de jogo contra o Racing,

mesmo ali ao lado no mais

mítico estádio de Buenos Aires,

a Bombonera, onde Maradona

nasceu para o futebol.

Na Rua Caminito, por onde

passava um antigo ramal ferroviário,

as velhas casas feitas com

chapas de zinco onde viviam os

imigrantes italianos exibem fachadas

de cores garridas junto das

quais pintores, malabaristas, músicos

e dançarinos de tango se

exibem para grupos de turistas

confundidos com o crescente

rufar de bombos e gaitas, vindos

de escondidos subúrbios pobres,

a caminho da cancha do Boca.


Na cidade

dos livros

João Ventura

Livraria El Ateneo, Avenida Santa Fe

CIDADES INVISÍVEIS 24

25


Conta Umberto Eco que, em

1970, vasculhando nas bancas de

um pequeno alfarrabista em

Corrientes, lhe caiu nas mãos a

tradução castelhana de um livro

de Milo Temesvar, Do Uso dos Espelhos

no Jogo de Xadrez, cuja versão

original, em georgiano, se encontrava

desaparecida. Com

grande surpresa, ao folhear as

suas páginas amarelecidas, encontrou

abundantes citações de

um manuscrito do monge beneditino

alemão Adso de Melk que

narrava uma perturbante aventura

da sua adolescência vivida numa

importante abadia por volta do

ano 1327. Terá sido este achado

que decidiu, definitivamente,

Eco a escrever, depois, o Nome da

Rosa, cujo narrador é, como sabemos,

Adso de Melk.

Sessenta anos antes, conforme

descreve o livreiro Arturo

Peña Lillo em Los Encantadores de

Serpientes, num outro alfarrabista,

em Lavalle, alguém desencanta

debaixo de um amontoado de livros

envoltos em densa poeira

um volume que o livreiro avalia

por cem pesos. Depois de regatear

um pouco, o comprador paga

finalmente oitenta e sai radiante.

Algum tempo depois

soube-se que um exemplar da

Bíblia de Gutenberg tinha sido

encontrado em Buenos Aires e,

posteriormente, vendida ao Museu

Britânico por dez mil libras.

Entre a realidade e a ficção,

na rica história das livrarias de

Buenos Aires abundam histórias

como estas que ajudam a construir

o mito de uma cidade

apaixonada pelos livros. Ou não

fosse Buenos Aires o lugar onde,

talvez mais do que em qualquer

outro, melhor se percebe o oxímoro

pessoano «o mito é o nada

que é tudo». Por isso, só

aqui seria possível aquela história

do Livro de Areia que um dia

veio ter com Borges, num quarto

andar da Rua Belgrano. Ou

aquela infinita biblioteca hexagonal,

descrita nas Ficções. Mas

essas são metáforas cuja interpretação

escapa aos objectivos

do itinerário livreiro de Buenos

Aires que aqui quero deixar.

Entre a realidade

e a ficção,

na rica história

das livrarias

de Buenos Aires,

abundam histórias

como estas que ajudam

a construir o mito

de uma cidade

apaixonada

pelos livros

Primeiro a génese, portanto.

Em Libreros, Editores e Impresores

(1974), Domingo Buonocuore

traça uma genealogia das bibliotecas

de Buenos Aires, repleta de

saborosos episódios e figuras

singulares de livreiros porteños. E

o primeiro livreiro terá sido, como

o seu nome parece indicar

com reduzida margem de erro,

um português chamado Joaquim

da Silva e Aguiar que estabeleceu,

por volta de 1776, na

rua hoje denominada Suipache,

o primeiro comércio de livros

da cidade. A sua clientela seria

composta por clérigos, funcionários

coloniais e alguns mercadores

ricos.

Depois, à medida que os

crioulos conspiradores se multiplicavam

e sopravam mais fortes

os ventos da independência, outros

comércios de livros apareceram.

Data do princípio do século

XVIII a livraria mais antiga de

Buenos Aires, na época conhecida

popularmente por Librería del

Colegio, por se situar em frente

do Colegio Mayor de San Ignacio.

Ao longo de dois séculos de existência,

a livraria Ávila (esquina

Bolívar e Alsina), como é hoje

designada, foi um lugar por onde

passaram homens como Mitre,

Sarmiento, Hernández, Estrada e

outros. Anos depois, numa tarde

de 1895, um homem sairá por

uma porta do mesmo edifício

para voltar a entrar, logo em seguida,

pela porta da livraria. Trata-se

do poeta nicaraguense Rubén

Darío que durante algum

tempo habitou um andar do

mesmo edifício. Imagina-se que

noutras ocasiões por aí também

tenham passado os poetas Leopoldo

Lugones e o boliviano Ricardo

Jaimes Freyre que, conjuntamente

com o inquilino do andar

de cima, lideravam o movimento

modernista.

Actualmente, oferece uma

grande variedade de livros antigos

e esgotados sobre temas indígenas,

história da Argentina,

antropologia, Buenos Aires, tango

e Patagónia. Entre muitas outras

raridades para coleccionadores,

deparei com uma primeira

edição, de 1925, de Lua Defronte,

de Borges, com uma tiragem limitada

de trezentos exemplares.

El Ateneo é outra mítica livraria

de Buenos Aires. Fundada por

Pedro García em 1938, foi nos

anos sessenta um dos lugares

mais frequentados da Rua Florida,


no n.º 340, quase em frente da

velha sede de La Nación. A renovação

a que foi sujeita, entretanto,

não apagou as marcas de um

passado luminoso, quando escritores

como Jorge Luis Borges,

Francisco Luis Bernárdez, Leopoldo

Lugones, Eduardo Mallea,

Roberto Payró, Ricardo Molinari,

Arturo Cancela, González Lanuza,

Miguel Angel Bustos ou Arturo

Cuadrado, entre tantos outros,

aí se reuniam em animadas tertúlias,

inspirando a organização

da primeira Feira do Livro da ci-

Livraria Gandhi

CIDADES INVISÍVEIS 26

dade, denominada La Primavera de

las Letras, que aí se realizou em

1965.

Enquanto bebo um café no

novo bar do primeiro andar, observo

a disposição das estantes e

bancas em baixo. Imagino o

poeta de Fervor de Buenos Aires que

diariamente aqui costumava de-

27

ter-se, no percurso que fazia entre

a sua casa e a Biblioteca Nacional

onde era director, conversando

com o poeta de A Cidade

sem Laura, Luis Bernárdez, saindo

depois ambos para uma das suas

longas caminhadas pela baixa de

Buenos Aires.

A família Gruneissen, que é

hoje proprietária de El Ateneo,

reconverteu, recentemente, numa

belíssima livraria o antigo cine-

-teatro Gran Splendid (Santa Fe,

1850), transformando aquele espaço

numa espécie de palco para

os livros. A criação de espaços

atractivos e modernos, onde se

combinam livros, música e recantos

onde se pode saborear

um café enquanto se lê um livro,

são a resposta que as livrarias encontraram

para ultrapassar a crise

que paralisou as vendas entre

2001 e Março de 2002. A nova

El Ateneo, desenhada por Fernando

Manzone, respeita a construção

original de 1903, adaptando-a

às necessidades da nova

função. Os acessos, a plateia, os

camarotes, o palco com a sua

teia sob a qual existe um café, as

cortinas, as luzes, a sala de projecção,

mas também o corrimão

das escadas, o dourado das colunas,

os lustres, tudo foi restaurado,

restituindo ao velho teatro

o espírito do lugar, que nem as

escadas rolantes vêm perturbar.

Especial cuidado mereceu o res-

tauro, pela pintora Isabel Contreras,

do fresco da cúpula, pintada

na década de 1920 pelo artista

italiano Nazareno Orlandi. Como

tantas outras livrarias de Buenos

Aires, também esta fica aberta até

tarde, sobretudo aos fins-de-semana

em que encerra à uma da

manhã. Como um teatro, afinal.


Mas, em vez das vozes de Carlos

Gardel, de Ignacio Corsini ou

Roberto Firpo, que em soirées

inesquecíveis emocionaram gerações

de espectadores, ouve-se

agora o silêncio dos livros nas

estantes e bancas distribuídas

pelo espaço da antiga plateia e

camarotes, apenas interrompido,

de vez em quando, por algum

cliente que pede uma informação

a um empregado.

Enquanto o projecto da El

Ateneo da Avenida Santa Fe

transformou a livraria num teatro

da vida, outras tornaram-se

lugares de discussão intelectual,

recuperando a tradição das antigas

sociedades literárias. Há em

Buenos Aires, pelo menos, dois

lugares de referência que correspondem

a esta ideia da livraria

como lugar de reunião e de encontro

de afinidades electivas: a

Clássica y Moderna (Callao,

892), aberta até às 3 horas da

madrugada, é cada vez mais um

lugar de discussão filosófica e, às

vezes, também, um piano-bar; e

a Ghandi (Corrientes, 1743)

que, para além de livraria, é, ainda,

uma espécie de salão literário

contemporâneo, oferecendo um

pequeno palco para recitais musicais.

Ambas procuram retomar

a tradição da livraria como lugar

de debate público.

Ainda nesta modalidade, o

bar-livraria Un Gallo para Esculapio

(Uriarte e Costa Rica), no

borgesiano bairro de Palermo

Viejo, é um lugar singular onde

o enigma das palavras finais de

Sócrates se renova entre um copo

de cerveja e muitos livros. O café

Oceano (Jorge Luis Borges,

1985) é outro lugar em Palermo

Viejo que combina uma biblioteca

de 2500 títulos com a música

étnica e instrumental.

A Ghandi não está sozinha

em Corrientes. No coração de

Buenos Aires, «a rua Corrientes é

uma suspertição», ironizou Borges

contra o prestígio da mais

popular rua de Buenos Aires. Talvez

a Corrientes de hoje já não

seja a Corrientes cantada nas letras

de tangos de outrora, com

os seus cinemas, os seus teatros,

os seus cafés abertos até muito

tarde e, também, as suas livrarias.

Um lugar de exaltação para

aqueles que chegavam do outro

lado do Atlântico. Também de

exaltação literária, quem sabe se

para compensar a nostalgia das

Livraria Gandhi

pátrias perdidas no velho continente.

Ou um certo vazio histórico

de uma nação que nasceu

dos barcos. Mas, ainda hoje, percorrer

a pé a extensa avenida,

que em épocas mais luminosas

já foi uma espécie de Broadway

porteña, é como passear ao longo

de uma imensa montra de livros,

tantas são as livrarias que por aí

se encontram. E, apesar de muitas

terem encerrado as suas portas

nos últimos anos, a soma de todas

as montras de livros que encontramos

ao longo dos vários

quarteirões, que vão desde

Callao até ao cruzamento com a

9 de Julho, configurariam uma

enorme livraria com centenas de

metros de comprimento, o que é

absolutamente surpreendente e

sem paralelo em qualquer outro

lugar. Aí se encontram nomes

importantes do comércio livreiro

como Hernández, Losada, Cúspide

ou Lorraine, lado a lado

com armazéns poeirentos, estreitos

corredores, ínfimos saguões

borgeanos onde se vendem

livros em saldo. E onde, às

vezes, se pode ter a surpresa de

encontrar, escondido sob um

amontoado de livros de ginástica,


de cozinha ou de jardinagem,

aquele título esgotado que julgávamos

perdido. Edições baratas,

troca e venda de livros usados,

os «livros do dia» pelo preço

de uma cerveja. Eis o que ainda

é, também, Corrientes.

Parece que os leitores, que

mesmo durante a crise nunca

perderam o hábito de frequentar

as livrarias, voltaram de novo a

comprar livros. Reveladora desta

atitude em relação ao livro foi o

facto de a Feira do Livro de Buenos

Aires de 2002, que esteve

para ser suspensa, ter registado

um nível de participação surpreendente,

como se a literatura

Livraria Losada

CIDADES INVISÍVEIS 28

representasse a última esperança.

Para o editor Daniel Divinsky,

das Ediciones de la Flor, muitos

argentinos terão preferido desfrutar

do dinheiro de que dispunham

comprando livros, em vez

de confiá-lo aos bancos. Registe-

-se que, já em 2003, a Cámara

Argentina del Libro registara um

número recorde de 14365 títulos

entre novidades e reedições.

E, se é verdade que a crise

levou ao encerramento de muitas

29

livrarias e a uma diminuição

dramática da edição de romances

e poesia, outras, como

as muito recentes Capítulo 2 ou

Tierra de Lectores, têm ocupado

os seus lugares, apostando numa

relação mais directa com os

clientes.

Outra consequência ironicamente

feliz da crise tem sido o

ressurgimento dos pequenos

editores que, aproveitando aquilo

que as grandes casas editoras

descartam, têm vindo a estreitar

os laços com os seus autores, incentivando

o aparecimento de

novos talentos e apostando na

preservação de um fundo edito-

rial próprio. Ediciones de la Flor,

Manantial, Temas, Biblos, Quadrata,

El Cuenco de Plata, Amorrortu,

Bajo la Luna e La Crujía

são algumas dessas editoras que

apostam, sobretudo, na promoção

do património editorial argentino

que pode ser encontrado nas

livrarias de Buenos Aires.

Talvez o território onde melhor

se percebe a particular relação

amorosa dos argentinos com

os livros seja a Feira do Livro

que, desde há 30 anos, constitui

o principal acontecimento do

Outono porteño. Quatrocentos expositores

com milhares de livros,

mesas-redondas, conferências,

debates, ateliers, maratonas

de leitura, apresentação de livros

e sessões de autógrafos e recitais

de poesia marcaram a 30.ª edição,

onde esteve presente, entre

muitos outros consagrados escritores,

António Lobo Antunes.

Mas aquilo que se revelou, mais

uma vez, a sua imagem de marca

foram os grupos de amigos

ou de famílias inteiras carregando

sacos de livros que voltaram

a comprar como antes da crise.

Terminada a feira, regressemos,

ainda, às livrarias. Agora,

às dos livros caros, de capas bonitas,

encadernados a pele e

dourados que forram estantes

de madeira antiga. Livros raros,

únicos, inexistentes, esgotados,

exóticos, pergaminhos. Livrarias

de usados, impecavelmente

conservados. Elegantes antiquários

livreiros. Dizem-me que,

devido à crise que se abateu sobre

o país nos finais de 2001,

diminuiu o público que antes

se juntava nestes pequenos lugares

de culto em pequenas tertúlias

de coleccionadores. E que

a paixão pelos livros raros é cada

vez menos partilhada por

argentinos. Aproveitam os estrangeiros

cujo poder de compra

lhes permite adquirir, por

módicas quantias, verdadeiras

preciosidades. Como na Alberto

Casares (Suipacha, 521), especializada

em Borges, que propunha,

por um preço muito

aceitável, uma colecção completa

da Sur, fundada e dirigida

por Victoria Ocampo (1891-

-1979), uma das mais importantes

revistas literárias da Ibero-América

na qual colaboraram,

desde o primeiro número


publicado em 1931 até ao n.º

371 publicado em 1992, Jorge

Luis Borges, José Ortega y Gasset,

Alfonso Reyes, Adolfo Bioy

Casares, Octavio Paz, Silvina

Ocampo, Eduardo Mallea e tantos

outros importantes escritores.

Ou, ainda, a Acquilant

(Rincón, 79) e a L’Amateur

(Esmeralda, 882).

Outras, mais económicas,

mas nem por isso menos ordenadas

e sortidas na sua penumbra

discreta, e com livreiros

que conversam com discreta

autoridade e simpatia sobre os

livros que vendem, encontram-se

um pouco por todo o lado. Como

não recordar aquela pequena

livraria de usados que dá pelo

nome de Brujas (Rodríguez

Peña, 429) onde encontrei uma

primeira edição de Rayuela de

Julio Cortázar. Percorro as estantes

e as bancas que expõem

os livros cuidadosamente arrumados

por temas e autores,

sem qualquer mácula de poeira.

Detenho-me em algumas

edições de Borges, mas acabo

por pegar na Rayuela, que comprarei.

O livreiro conhece Pessoa,

Torga, Régio, Saramago. De

Saramago, diz-me, leu o Ensaio

sobre a Cegueira. Mostra-me, ainda,

o suplemento literário da

edição do Clarín com uma entrevista

ao Nobel português.

Fornece-me preciosas informações

sobre outras pequenas livrarias

de usados que visitarei

depois, como a Romano (Ayacucho,

437), El Vitral (Montevideo,

108) ou El Tunel (Avenida

de Mayo, 767). Em todas ouvirei

histórias sobre livros. Talvez

para que a nenhuma falte uma

biografia que se alimenta de

ficção e realidade.

Mas livros usados também

se podem procurar nas feiras

que podemos encontrar no Par-

que Rivadavia ou na Praça de

Itália, numa versão porteña dos

bouquinistes do Sena – ou não fosse

Buenos Aires um espelho de

Paris na América do Sul –, onde

um taxista que conhecia Lisboa

me levou numa manhã de domingo.

Alguém chega e abre

uma mala de onde retira vários

volumes que dispõe criteriosamente

sobre um pano, no chão.

Depois, um comprador pega

num livro encadernado cujo título

não pude ver. Quem sabe

se um livro inexistente.

Há, ainda, as livrarias especializadas,

onde se pode encontrar

quase tudo sobre um tema.

Livraria Losada

Quem se interesse pela mítica

Patagónia que conhecemos dos

livros de Chatwin e de Coloane,

essa terra do fim do mundo está

mesmo ali, na World’s End,

nas Galerias Pacífico. Se a paixão

for o tango, então o melhor

é procurar El Quiosco del Tango,

em Corrientes, obviamente.

Entre outras preciosidades, descobri

aí uma referência a uma

tal «Amelia, la Portuguesa» que

por volta de 1920 encantou nos

cabarets de Buenos Aires. A melhor

livraria borgesiana é a já

mencionada Alberto Casares.

Mas, se quisermos saber o que

cantam os poetas argentinos de

agora, será na Norte (Las Heras,

2237) que devemos procurar.

Esta a cidade dos livros. A

cidade «onde todos os caminhos

se bifurcam» conduzindo

a uma livraria. Corrientes,

Callao, Santa Fe, os caminhos

principais que levam à «extravagante

felicidade» das infinitas

livrarias hexagonais ou aos estreitos

armazéns de usados ou

aos elegantes antiquários livreiros

de Buenos Aires.


CIDADES INVISÍVEIS 30

31

Os editores

independentes

em épocas de crise

Daniel Divinsky


Ser editor, sem fazer parte

de nenhum dos grandes grupos

editoriais, significa, num país

como a Argentina, viver um estado

de crise permanente. A situação

agravou-se em finais de

2001, como consequência do

desmoronamento do esquema

económico neoliberal, sustentado

na manutenção fictícia de uma

paridade cambial (1 peso argentino

= 1 dólar norte-americano),

que permitia que os livros

importados fossem mais

baratos que os editados localmente.

Em Abril de 2002, devia

realizar-se a Feira Internacional

do Livro de Buenos Aires e, até

ao último momento, pensou-se

que haveria que suspendê-la.

Para surpresa de todos, não só

teve uma assistência de público

similar às anteriores, como as

vendas foram excelentes. O que

se passou no contexto de um

país empobrecido até níveis

nunca antes conhecidos? Simplesmente

que os sectores não

pauperizados que haviam confiado

as suas poupanças aos

bancos, os quais viriam a encerrar

devido à crise financeira,

decidiram desfrutar do dinheiro

de que ainda dispunham e, por

exemplo, comprar livros. Também

influiu, é certo, a afluência

de visitantes dos países vizinhos

que aproveitaram os preços

da moeda local, subitamente

abaratados.

Nesse quadro, as «grande

editoras isto é, as que integram

os grupos multinacionais que,

paulatinamente, foram comprando

as chancelas argentinas

tradicionais, que decidem o seu

ritmo de lançamento das novidades

e as suas tiragens em função

da venda massiva e da inundação

do mercado, viram-se

mais afectadas que as médias e

as pequenas. Um editor médio,

que não está obrigado a produzir

uma grande quantidade de

novidades mensais para manter

em funcionamento as suas

equipas de produção e de vendas,

pode reduzir ao mínimo a

sua produção enquanto o seu

fundo editorial, reeditado regularmente,

lhe permita solver os

seus gastos gerais.

Os sectores não

pauperizados que

haviam confiado as suas

poupanças aos bancos,

os quais viriam

a encerrar devido à crise

financeira, decidiram

desfrutar do dinheiro

de que ainda dispunham

e comprar livros

Ediciones de la Flor, editora

fundada por mim, em 1966, e

que continua sendo propriedade

minha e da minha mulher, tem

como base das suas vendas os

livros dos grandes humoristas

argentinos (Quino, autor de Mafalda,

mas também de muitos

outros títulos de humor, Fontanarrosa,

Caloi, Maitena) e os de

alguns autores como Rodolfo

Walsh, um clássico da narrativa,

e o jornalismo de investigação,

assassinado pela ditadura militar

em 1977. Estes títulos reeditam-

-se regularmente e quando, a

partir da desvalorização da

moeda nacional, baixaram os

seus preços de exportação em

dólares, reencontraram o mercado

de toda a América Latina e,

em alguns casos, o de Espanha

(quando os nossos direitos não

estavam contratualmente limitados).

Isso permitiu que de 7

novos títulos surgidos no, economicamente

funesto, ano de

2002, se passasse a 20 novidades

em 2003, e que serão 32

em 2004. E que as reedições,

que são o segredo da sobrevivência

de uma editora com um

fundo, passassem, no mesmo

lapso, de 14 para 60. Isto mesmo

permitiu apostar em novos

autores, no nosso caso jovens

humoristas gráficos como os

que assinam Nik y Liniers, que

estão aumentando a sua fama e

as suas vendas de modo surpreendente.

Há algum tempo, um alto

executivo de uma multinacional

da edição disse que os grandes

grupos editoriais são como bolas

numa caixa: sendo esféricas,

deixam pouco espaço entre elas

para que ali se alojem outras

editoras que, se crescerem demasiado,

serão devoradas pelas

maiores.

O exemplo recente do grupo

Vivendi, cuja divisão editorial

estourou e teve de ser vendida

em parcelas, e outros que interromperam

a absorção de

mais empresas, parece demonstrar

que aquilo que é verdade

para outros sectores não o

é para os livros. A diversidade

da criação literária e a inquietude

dos leitores permitem escapar

às estreitas margens que

o marketing globalizado pretende

impor.


CIDADES INVISÍVEIS 32

Delírios porteños

Carlos Cáceres Monteiro

33


La Boca. Foto de Carlos Cáceres Monteiro


CIDADES INVISÍVEIS 34

Não conheço outra cidade

no mundo com tanta força

como Buenos Aires: nos seus

bairros boémios onde a vida

nunca pára; nos restaurantes onde

se come o bife de chorizo, por

exemplo em La Mosca Blanca;

na célebre Avenida Corrientes,

que é um rio de luz no coração

da cidade; nos lugares onde se

toca e dança tangos na rua, seja

na Calle Florida (que Jorge Luis

Borges frequentou e celebrizou),

em Palermo Viejo, em La

Boca ou, ao domingo, na feira

de San Telmo.

Ou ainda numa outra forma

de força, nas marchas de protestos:

ontem as falanges peronistas,

hoje os piqueteros.

Este fôlego, esta energia,

não desfalece mesmo nos períodos

mais difíceis. Estive em Buenos

Aires em pleno tempo de

bancarrota, no auge do corralito,

que se traduzira no confisco

temporário dos depósitos bancários.

Pois, mesmo assim, apesar

da profunda inquietação colectiva,

a capital argentina não

perdia grande parte da sua fervilhante

alegria de viver e conservava

um notável sentido de

orgulho e dignidade; na Calle

Lavalle não se calaram as concertinas

e em La Recoleta as belas

mulheres continuaram a sentar-

-se nas esplanadas; na Calle Camiñito

as casas mantiveram a

pureza das suas cores vivas; e,

durante o dia, o célebre Café

Tortoni, na Avenida de Mayo (e

que foi frequentado por Borges

e Gardel) guardou todo o seu

velho esplendor e continuou a

ser um dos templos do tango.

Na Praça de Mayo intensificam-se

os protestos frente à Casa

Rosada, sob a balustrada que se

celebrizou pelas aparições de

Juan Perón e sua mulher, Evita

Perón. Em todo o caso, no Verão

35

de 2002, a última vez que estive

na Argentina, essas manifestações

não se comparam àquelas

que, meio ano antes, a classe

média organizou, de forma quase

espontânea (por Internet) para

protestar contra o corralito e contra

o ministro da Economia que

o gerou, o monetarista neoliberal

Cavallo. Muitos milhares de

pessoas participaram, em 30 de

Dezembro de 2001, no cacerollazo.

Munidos de panelas, pratos, potes

e bandejas, os argentinos rejeitaram

em bloco, nas praças de

Mayo e do Obelisco, o rumo

que o país seguia. E, mesmo assim,

nunca às portas dos grandes

armazéns (em muitos dos

quais eram aceites os patacones, os

bónus emitidos pelo Estado falido

e insolvente) se deixou de

cantar e dançar o tango.

Foi em 1945 que se concretizou

a ascensão política do caudilho

argentino, depois da

maior manifestação alguma vez

realizada em Buenos Aires, no

dia 17 de Outubro. Ainda hoje,

historiadores e jornalistas discutem

qual terá sido o exacto papel

da então actriz Eva Duarte na

noite da manifestação na Avenida

9 de Julho. Mas Perón costuma

ser citado dizendo que foi a

sua amiga Evita que organizou

tudo. Um movimento aparentemente

espontâneo de gente humilde

da cintura operária, que

nunca antes entrara no centro de

Buenos Aires, ocupou a capital e

impôs Perón. Facto que constitui,

aliás, uma singularidade: a

classe trabalhadora a colocar um

coronel no poder (já então simbolizado

pela Casa Rosada, o palacete

que encima a Praça de

Mayo). Foi no dia seguinte a esta

marcha popular que nasceu o

mito dos descamisados, ainda hoje

fortemente ligados à história da

populista Evita. Eram os pobres

da Argentina, os «sem camisa» a

tomarem o seu destino nas

mãos; só que a Argentina era, na

época, um dos mais ricos países

do mundo; acreditava-se que teria

um grande futuro, maior do

que o de qualquer outro da

América Latina, incluindo o Brasil

e o México. O 17 de Outubro

passou a ser, ao longo dos anos,

a data de todos os rituais peronistas.

O mito de Evita, que entretanto

se casara com Perón, avolumou-se

porque as pessoas começaram

a procurá-la para lhe

pedir favores ou auxílio financeiro:

mães pobres, crianças que

necessitavam de assistência. A

Newswek chamou-lhe então La Presidenta.

Eva Perón passou a ter gabinete

no Ministério do Trabalho.

A Fundação Eva Perón reforçou

o papel beneficente da mulher

do Presidente, a tal ponto

que houve quem passasse a chamar-lhe

santa (hoje, há quem

sugira a sua canonização). Um

ano depois de ter morrido, as

crianças argentinas já aprendiam

uma prece que lhe era dedicada,

semelhante ao padre-nosso, e

nos calendários vendidos em

Buenos Aires aparecia uma auréola

à volta da sua cabeça.

Em 17 de Outubro de 1951,

na Praça de Mayo, já muito

doente, aguentando-se a doses

de morfina, Evita ainda conseguiu

proferir, na varanda da Casa

Rosada, um extraordinário e

patético discurso em que agradeceu

aos seus queridos descamisados

e gritou que dava a vida por

Perón, frase que foi repetida pelo

milhão e meio de argentinos

presentes.

Desde os anos 50, afinal

desde os tempos do peronismo,

que a classe média não fazia

ouvir, de uma forma tão clara, a

sua voz na rua.


La Boca. Foto de Carlos Cáceres Monteiro


CIDADES INVISÍVEIS 36

Sob este fervor visível (e audível)

sobrevivem e alimentam a

alma de Buenos Aires os eternos

mitos da grande urbe. De resto,

na América Latina (veja-se, por

exemplo, o caso do México, do

Peru ou de Cuba) os mitos e os

ícones estão bem vivos, a par

das histórias misteriosas e das

lendas, como as do Lago Titicaca.

Os dois grandes mitos de Buenos

Aires, para não falarmos já

do próprio Perón, são Carlos

Gardel e Eva Perón.

Em Buenos Aires revisitei,

munido do meu caderno de repórter,

a rota dessas grandes figuras

que continuam a fazer

parte do imaginário porteño. Estive,

Sob este fervor visível (e audível) sobrevivem e alimentam a alma

de Buenos Aires os eternos mitos da grande urbe. De resto, na América Latina

(veja-se, por exemplo, o caso do México, do Peru ou de Cuba) os mitos e os

ícones estão bem vivos, a par das histórias misteriosas e das lendas, como as

do Lago Titicaca. Os dois grandes mitos de Buenos Aires, para não

falarmos já do próprio Perón, são Carlos Gardel e Eva Perón

37

mais do que uma vez, no jazigo

de Eva Perón, no cemitério de

La Recoleta. Na segunda vez,

em 2002, a impressão que colhi

foi muito forte, porque entretanto

estudara os contornos

da personalidade e da história

dessa mulher, cuja vida também

foi recriada por mais do

que uma vez no cinema (a última

das quais interpretada por

Madonna). E recordemos, de tal

forma foi impressiva a sua presença

e memória, a opereta

Don’t cry for me, Argentina, que resistiu

muitas e muitas temporadas

na Broadway (Nova Iorque)

e em Londres.

Mas a força da revisitação

ao cemitério de La Recoleta ganhou

significado porque muitos

argentinos evocaram sentidamente

a combativa Eva, precisamente

no pico da crise e da

bancarrota. Nessa ocasião a taxa

de desemprego atingia 21,5%, e

era a mais alta da América Latina:

cinco milhões de pessoas

procuravam emprego. Nessa

manhã de 16 de Julho de 2002

comovi-me, observando a cerimónia,

na manhã soalheira do

Inverno do rio de La Plata, ouvindo

os dicursos de habitantes

de Buenos Aires e de dirigentes

sindicais. Militantes do Sindicato

dos Taxistas, envergando capas e

bandeiras pretas e amarelas, cantavam

a marcha peronista.

A eleição do Presidente Kirchner

acabou por traduzir o desenlace

possível para aquilo que

parecia ser um beco sem saída.

Os chefes de família sem trabalho

passaram a receber 150 pesos

(50 euros) por mês, uma preciosa

mas magra ajuda que não

tirou ninguém do grupo dos

50% do conjunto da população

que vive em estado de pobreza

(a Argentina tem 36 milhões de

habitantes). Por isso, leio nas

mais recentes reportagens dos

meus colegas jornalistas que no

centro histórico há adolescentes

que dormem nos passeios, cartoneros

que recolhem embalagens

abandonadas e crianças que

abrem as portas dos táxis na esperança

de receber um peso.

Da primeira vez que estive

em Buenos Aires, em 1985, desde

logo se me impôs a força de

um outro mito, diferente mas

nem por isso menos forte: Carlos

Gardel, que morreu em 24

de Junho de 1935 na Colômbia,

quando um avião em que seguia

se preparava para largar de Bogotá

para Cali. Portanto, estava-


se em ano evocativo do cinquentenário

da sua morte, que

ainda hoje permanece envolta

em mistério porque o corpo do

cantor foi encontrado atravessado

por um tiro.

Vivia em Buenos Aires, nesse

já distante ano de 1985, um

grande jornalista brasileiro, Flávio

Tavares, que já depois disso

publicou livros sobre o tema, o

último dos quais é (neste ano de

2004) um dos grandes best-sellers

das livrarias brasileiras, O Dia em

que Getúlio Matou Allende.

Foi Flávio Tavares que me

iniciou nos meandros do culto

de Carlos Gardel, levando-me a

muitas das casas de tango que se

encontravam abertas na capital

argentina e onde o silêncio era

imposto com uma frase simples

e cortante: «Por favor, señores,

que estan cantando tangos!»

Por corredores longos e escuros,

escadas que se despenhavam

sobre caves sombrias, entrámos

na Casa de Anibal Troyo,

que era ao tempo um dos principais

lugares de culto e estava

cheia de fiéis dos tangos, desses

tangos arrastados que cantam

amores e milongas, inpirados

nas pampas. «Adiós pampa

mia/Me voy a tierras estrañas».

Troyo dirigia a orquestra que

acompanhava Gardel no princípio

da sua carreira. Um músico

abraçava um violão maior do

que ele próprio e um acordeonista

velhinho fazia tremer as

garrafas da mesa. Um par saltou

para a pista e em breve as pernas

se colaram, os corpos requebraram,

a mão do cavalheiro desceu

pelo corpo da dama. Ou não

fosse, como dizia Jorge Luis Borges,

«o tango uma espécie de simulacro

do coito». Foi Paul Morand

que escreveu que o tango

foi um dos grandes cantos do século

passado – e continuará a

ser, certamente, deste século. Como

Morand o descrevia: «O tango

é terno, sensual; uma mestiçagem

de italiano; o tango fala

andaluz com pronúncia napolitana

e acordeão alemão.» E também

acrescentou (Morand) que

se tratava de «uma cópula ritmada».

Quais as origens do tango?

Há quem diga que também há

nele sangue português, porventura

uma gota de fado cantado

por esses muitos emigrantes lusos

que embarcaram no convés

dos navios, no século XIX, demandando

a foz do rio de la Plata.

Quem sabe verdadeiramente?

Caño 16, Casa Rosada, Viejo

Almacén, Camiñito – nesses dias

passámos, mesmo que fugazmente,

por esses lugares de culto,

acabando o périplo na formal

e requintada Casa Gardel,

onde os troféus do cantor estavam

profusamente expostos.

Sobre a realidade política,

social e cultural da Argentina

muito haveria a dizer. Não é

esta, contudo, a intenção deste

artigo, que pretende ser uma

revistação de mitos e lugares

de culto. Não foi, certamente,

por acaso que, em tanta coisa

bonita e interessante que há

em Buenos Aires, foi esse imaginário

que mais me atraiu. É

que a Argentina, e em concreto

o Rio de la Plata, sempre foi

um ancoradouro de sonhos,

tantas vezes de delírios. A Argentina

nasceu, ela própria, da

ambição de levar a Europa, o

estilo europeu, os seus hábitos

e sua cultura para o Sul da

América Latina. E não é por o

sonho, como todos os sonhos,

atravessar momentos de pesadelo

que um dia não haverá

um belo despertar. Afinal, em

Buenos Aires o sono é sempre

breve. E a única vida longa é a

dos ícones imortais.

CÁTEDRA

DE HISTÓRIA DA

IBERO-AMÉRICA

Iniciativa aprovada na IX Cimeira

Ibero-Americana de Chefes de Estado

e de Governo (Havana, 1999) e incorporada

na programação da OEI.

FINALIDADE

Contribuir para o desenvolvimento e

consolidação da Comunidade Ibero-

-Americana de nações, através do

fortalecimento e da afirmação da sua

identidade regional, promovendo um

maior e mais profundo conhecimento

crítico dos processos históricos subjacentes

às suas matrizes culturais.

A Rede Portuguesa de Universidades

signatárias adoptou a designação de

CÁTEDRA DE ESTUDOS IBERO-

-AMERICANOS, sediada, rotativamente,

na Universidade do Algarve e

na Universidade de Lisboa.

TRIÉNIO 2004-2007

PROGRAMA DE ACÇÃO

Formação Inicial História

e Cultura da Ibero-América.

Literatura Ibero-Americana

Formação Contínua de Docentes

Encontros Científicos

Edições

Biblioteca Especializada

PARCERIAS

Instituto de Cultura Ibero-Atlântica

Câmara Municipal de Portimão

Portal Universia, S.A.


MALA DIPLOMÁTICA 38

A CORRENTE MIGRATÓRIA

DA IBERO-AMÉRICA

PARA A EUROPA PODE SER

ENTENDIDA COMO

UMA ESPÉCIE DE REGRESSO

ÀS ORIGENS

Entrevista com Jorge Faurie

Beatriz Padilla

39

embaixador da República da Argentina

Durante muito tempo, a Argentina foi vista como uma transposição europeia na

América do Sul. Um país com um elevado nível de bem-estar. Depois, nas

últimas décadas, fruto de desastrosas políticas económicas, o empobrecimento

atingiu limites nunca antes vistos, até ao quase-colapso de há três anos. Parece,

contudo, que o pior já passou, e o país procura agora novos horizontes capazes

de devolver a esperança aos argentinos. Jorge Faurie, embaixador da Argentina,

fala-nos desses novos horizontes que passam também pela renovação

de relações privilegiadas com Portugal, no quadro do espaço ibero-americano

em que ambos os países se integram.


Como caracteriza as relações actuais entre a Argentina e Portugal?

É uma relação que assenta numa história comum, cujas raízes remontam ao

período colonial em que Portugal marcou presença, nomeadamente no Rio da

Prata. Depois, já no século XX, haveria um período de forte presença de portugueses

na Argentina, através de uma corrente imigratória para países da América

Latina. Grande parte desses portugueses regressaria a Portugal após a instauração da

democracia em Abril de 1974 e consequente abertura económica que abriu novos

caminhos de esperança e desenvolvimento económico. Em silmultâneo, a integração

de Portugal na União Europeia abrandaria gradualmente o seu interesse pela

América Latina, levando a alguma estagnação no relacionamento entre os dois países.

Ainda assim, após a crise económica de 2002, a Argentina tem procurado contrariar

este afastamento, assistindo-se, agora, a uma lenta mas efectiva reaproximação

económica e cultural.

Pode precisar os contornos dessa reaproximação?

Em termos comerciais, as exportações argentinas para o mercado português ultrapassam

os 150 milhões de dólares por ano. Reciprocamente, creio que há muito

espaço para o crescimento do comércio português no mercado argentino. E já hoje

os investimentos directos de Portugal na Argentina ultrapassm os 500 milhões de

dólares, em diversas áreas de produção, sobretudo na vitivinicultura, na indústria

corticeira, no fabrico de equipamentos eléctricos e ainda na marmoraria, azulejaria

e porcelana. Uma área adicional, que creio que oferece muitas possibilidades para

uma boa complementaridade, é o sector científico e tecnológico. Creio poder afirmar

que a Argentina possui um nível de desenvolvimento tecnológico bastante interessante.

A cooperação científica entre ambos os países constitui, por isso, um desafio

em que que o governo argentino aposta, tendo para isso estabelecido contactos

com o Ministério da Ciência e do Ensino Superior. O relacionamento económico é

acompanhado por um diálogo político muito positivo, porque Portugal e a Argentina,

para além de integrarem o mesmo espaço histórico-cultural ibero-americano,

partilham visões do mundo que são muito semelhantes, sendo por isso fácil a aproximação

entre ambos os países nos mais diversos foros internacionais.

E em termos culturais?

Creio que os portugueses têm uma espécie de visão mítica da Argentina, como

uma terra rica que ofereceu níveis de bem-estar a uma corrente migratória e que,

ao mesmo tempo, produziu um mundo de ideias e de pensamento que lhes parece

atraente. Muitos portugueses conhecem Jorge Luis Borges, como demonstra o interesse

pela edição em Portugal das suas Obras Completas. Mas também Julio Cortázar e

Bioy Casares. Diria que se revêem na interacção de alguns escritores portugueses

que foram coetâneos do período destes escritores argentinos. Aliás, a entidade tutelar,

o prócer sobre a qual se celebra a identidade de Portugal, é um escritor, e aqui se

rende uma homenagem extensiva aos escritores. E, entre os arquétipos, Borges é o

homem da essência argentina, como Pessoa é o homem da essência portuguesa no

século XX.

Como caracteriza a comunidade argentina que hoje reside em Portugal?

A comunidade não é numericamente muito representativa, quando comparada

com a de outros países. Diria que, no total, entre os residentes que estão

inscritos e os que não estão, não supera as 1000 pessoas. Desse conjunto, aproximadamente

uns 40% são cidadãos nascidos em território argentino que, pela

disposição da lei argentina, serão sempre argentinos, que nasceram de pais portugueses

naquela etapa emigratória a que fiz referência, na primeira metade do


MALA DIPLOMÁTICA 40

41

século XX, e que beneficiaram da circunstância positiva de terem

crescido numa Argentina próspera, com altos padrões de justiça social

e distributiva, o que lhes permite guardar uma auto-estima muito

positiva relativamente à Argentina. Embora pela lei portuguesa,

como filhos de portugueses, tenham adquirido a cidadania portuguesa,

mantêm fortes vínculos com a Argentina. Há, também, um

conjunto de argentinos que foram emigrando nas diferentes etapas,

algumas difíceis, da vida política, social e económica do país, procurando

níveis de excelência na sua formação ou novos horizontes

profissionais e que, hoje, se encontram relativamente bem inseridos

no país de acolhimento porque, por um lado, os portugueses têm

uma atitude positiva face ao estrangeiro e, por outro, os argentinos

integram-se bem, graças às afinidades culturais e à relativa facilidade

idiomática, para além de apresentarem excelentes níveis de qualificação

profissional que beneficiam a sociedade portuguesa.

Uma dessas etapas, difíceis, da vida da Argentina foi a crise económica e social que se abateu sobre o país nos finais

de 2001 e que levou, conforme escreveu o jornalista e escritor Tomás Eloy Martínez, a um «êxodo real e catastrófico»

de quadros técnicos.

Talvez a expressão «êxodo catrastófico» seja exagerada. Mas é

um facto que, no momento mais agudo da crise, muita gente qualificada

– cientistas, professores, famílias inteiras – deixou o país em

busca de melhores horizontes, o que constituiu um preocupante

movimento migratório, agora por razões económicas. Mas também

é verdade que o pior já passou e muitos dos que partiram regressaram,

entretanto, ao país.

Como vê o futuro das relações entre a Europa e a Ibero-América?

Situo-as num esforço extremadamente importante dos países da

América Latina para manter a atracção, através do Atlântico, dos países

europeus e, muito particularmente, dos dois países ibéricos, o que

deverá passar pelo desenvolvimento de formas de aproximação no

quadro da cooperação entre a União Europeia e o Mercosul. E isso

dependerá tanto da nossa capacidade em encontrar, conjuntamente

com a Europa, soluções para os nossos problemas de desenvolvimento,

como da predisposição da própria União Europeia em

abrir-se mais aos países da América Latina, quer em termos económicos,

quer em termos sociais, colocando menos obstáculos, por

exemplo, à circulação de latino-americanos no espaço europeu.

Acha que essa abertura pode ser histórica e eticamente justificada, conforme a inscrição «Estamos aqui porque vocês

estiveram lá» que podia ler-se num cartaz ostentado por um imigrante ibero-americano durante uma recente manifestação

numa capital europeia?

Há uma justificação histórica e ética para uma maior abertura

da Europa à imigração de cidadãos oriundos da América Latina. A

corrente migratória actual pode ser entendida como uma espécie de

regresso às origens, pois, afinal, somos descendentes de sucessivas

correntes migratórias de cidadãos europeus, sobretudo de Espanha,

da Alemanha ou de Itália. Não foi por acaso que a Argentina foi

vista, durante muitos anos, como uma transposição europeia na América

do Sul. Por isso, mais do que um protesto, esse cartaz expressaria,

julgo, uma reivindicação e a exigência do reconhecimento dos vínculos

entre os dois lados do Atlântico.


MEMÓRIA DE FOGO 42

43

A saga andina

do deus Con

Osvaldo Henrique Urbano


A saga andina do Deus Con; tapeçaria pré-colombina [Costa do Peru]


MEMÓRIA DE FOGO 44

45

Entre as tradições pré-colombinas da

América do Sul, recolhidas pela cronística

espanhola do século XVI, existe um relato

que nos chama muito a atenção, não só

pela forma, mas também pelo conteúdo.

Recompilou-o López de Gómara [1552].

Reza assim: “Dizem que no princípio do

mundo veio pela parte setentrional um homem

cujo nome era Con. Não tinha ossos.

Caminhava muito e ligeiro e, para que o

caminho fosse mais curto, baixava as serras

e levantava os vales com a força da vontade

e da palavra, como filho do Sol que dizia

ser. Encheu a terra com homens e mulheres,

deu-lhes muita fruta e pão e todas as

coisas necessárias para viver. Mas um dia

zangou-se com alguma ofensa que eles lhe

fizeram. Então converteu a terra boa que

lhes tinha dado em areais secos e estéreis,

como se vêem hoje na costa, tirou-lhes a

chuva e nunca mais ali choveu. Só lhes deixou,

por piedade, os rios para que pudessem

manter-se com o regadio e trabalho.

Apareceu então Pachacama, também filho

do Sol e da Lua, que significa Criador, e

desterrou Con, transformando os seus homens

em gatos com riscas pretas. E depois

criou novamente os homens e mulheres

como hoje são, dando-lhes as coisas que

têm agora. Para agradecer-lhe essas mercês,

proclamaram-no seu Deus e assim o guardaram

e honraram em Pachacama, até que

os cristãos o desterraram do lugar.”

O templo de Pachacama ficava perto

de Lima, era famosíssimo pelos seus oráculos,

visitado por todos com muita devoção.

Aparecia aí o diabo e falava com os sacerdotes

que lá moravam. Os espanhóis que o

visitaram com Fernando Pizarro, após a

prisão de Atabalipa, despojaram o templo

do muito ouro e prata que possuía, e com

a cruz e o sacramento também cessaram os

oráculos e as visões.

Afirmam também que durante muito

tempo choveu tanto que inundou todas as

terras baixas, e todos os homens, aqueles

que puderam, refugiaram-se numas covas

feitas em serras muito altas, com portas

pequeninas para que a água não entrasse.

Meteram lá os víveres e os animais que cabiam.

Quando sentiram que já não chovia,

soltaram dois cães. E, como eles voltassem

limpos, mas molhados, viram que as chuvas

não tinham cessado. Depois soltaram

mais cães que voltaram com lama, mas enxutos,

sinal de que as chuvas tinham acabado.

Então saíram a ocupar as terras. E o

que mais trabalho deu foi o grande número

de cobras grandes que ainda existiam.

Tinham-se criado na humidade e no lodo

das cheias. Mas, finalmente, mataram-nas e

agora vivem em segurança. Acreditam também

no fim do mundo que será precedido

por uma grande seca. Nela se perderão o

Sol e a Lua que adoram; por isso dão grandes

berros e choram quando há eclipses,

sobretudo do Sol, porque pensam que vão

desaparecer, não só eles mas também o

mundo inteiro.

Do deus Con, pouco ou nada sabemos.

Mas os vocabulários antigos dizem que essa

palavra, usada nas línguas dos territórios

nortenhos andinos, concretamente em

Huamachuco, significava «água». É um

bom ponto de partida porque o mito dá

uma definição que exprime metaforicamente

as formas de um rio ou de um curso

de água que se vai adaptando às condições

geográficas por onde passa: «Con não tem

ossos», isto é, não tem uma estrutura fixa.

Ao contrário, serpenteia, transforma-se em

lago, lança-se por uma ribanceira, atira-se

em catarata e corre ligeiro porque amansa

os cumes das montanhas e torna mais acessíveis

os vales. O castigo que Con deu aos

que ele tinha criado também está relacionado

com a água. Privou as gentes dela e secou-lhes

a terra. Há uma outra referência à

água. É o dilúvio. Não diz o relato que tal

acontecera em tempos do deus Con. Mas

também se pode supor que se trata de uma

das muitas expressões das chuvas abundantes

que, de tempos a tempos, aparecem na

costa peruana, fenómeno conhecido mundialmente

como «Niño» ou Menino, em

referência à época em que ocorre, ou seja,

pelo Natal, tempo do Menino Jesus. Dizem

os especialistas que a subida das águas frias

do hemisfério sul fica aquém dos limites

que em tempos normais atinge. Daí resultam

as temperaturas muito altas na costa

norte do Peru e as consequentes chuvas diluvianas,

com outras expressões meteorológicas

continentais.


CON E PACHACAMA

O relato mítico introduz o deus Pachacama

e associa-o ao santuário que existiu no

sul da cidade de Lima, em tempos pré-colombinos.

E, entre as coisas notáveis que fez,

transformou os homens de Con em gatos

pretos. O gesto de Pachacama não tem uma

explicação fácil. A geografia e a fauna não

deslindam o mistério. Entre algumas razões

míticas que o explicariam, podíamos recorrer

à força do Sol que transformou a primeira

geração de seres humanos em pedras calcinadas

pelo fogo. Cabe também recordar a

presença da cor preta dos animais que

acompanhavam os defuntos nas suas peregrinações

por rios de águas escuras, antes de

chegarem à última morada. Mas não eram

gatos, eram cães.

CON E CONTITI

Não passa desapercebido, a quem tenha

um pouco de informação sobre os antigos

relatos míticos dos Andes, o herói ou demiurgo

Contiti que veio das alturas do lago

Titicaca e organizou as regiões lacustres,

avançando até à cidade de Cuzco e, finalmente,

chegando à costa norte dos Andes,

para desaparecer nas águas do Oceano Pacífico.

A relação com a água é evidente, porque

o lago foi o seu berço, e as águas do

mar a sua última morada.

Como aparece na região austral a palavra

«con» oriunda dos territórios nortenhos,

talvez desses povos que se chamavam

Conchucos, «Terras de água»? Não o sabemos.

O certo é que Contiti partilha com o

herói mítico Con as honras do demiurgo

que põe ordem nas coisas e que se irrita

também quando os seus criados desobedecem

às suas ordens. Contiti transforma as

suas gentes em pedra; Con, no Norte, seca a

terra e torna-a estéril, forma comparável à

esterilidade das rochas. E o cronista Betanzos

[1551], a quem devemos a referência a

Contiti, anota a escuridão que então reinava

nesse primeiro momento do mundo. Talvez

por isso Pachacama transformasse os seres

criados por Con, nas terras nortenhas, em

animais pretos. Eram tempos que ainda não

tinham Sol e Lua. Promessas doutros seres.


BESTIÁRIO 46

Peixe-boi ou

peixe-mulher?

Maria Adelina Amorim

47


Existi há muito nas águas pouco profundas dos

mares, bordejando as costas das Índias e os mangues

do Brasil.

Nada sabia de geografia, muito menos que a

minha casa era um Oceano, pois sempre pensei que

fosse um aquário.

Um dia percebi que a vida tinha mudado. Chegaram

monstros estranhos em grandes cascas de

noz enfeitadas de lenços triangulares e redondos

que o vento enfunava como se fosse a minha barriga

grávida. Ouvi dizer que eram velas, e os bichos,

homens.

Curiosos, observaram-me como se eu fosse um

boi. Diziam entre si que mais parecia uma vaca.

Perplexos, apreciavam como conseguia nadar mais

rapidamente que os seus barcos aparelhados. Chamaram-me

peixe. Não contentes com isso, deram-

-me um nome: «Guaraguá»: «Goaràgoá é o peixe a

que os Portugueses chamam boi, que anda na água

salgada e nos rios junto da água doce, de que eles

bebem [...]; o qual peixe tem o

corpo tamanho como um novilho

de dois anos, e tem dois cotos

com braços, e neles uma mão

sem dedos: não tem escama, mas

pele parda e grossa.»

Inventaram mil estórias a

meu respeito, confundindo-me

com sereias. Afinal, diziam que tinha

rabo de peixe e corpo de mulher.

Mesmo assim, classificaram-

-me na ordem dos sirénios, classe

dos mamíferos. Eu tinha mamas com que alimentava

de leite as minhas crias: «Guaragua é a vaca do

mar, é da compridão de dez ou doze palmos, é

grosso como uma vaca, é pardo cor de cinza, tem

as tripas e a fressura como uma vaca e cria seus filhos

de leite e tem as mamas debaixo dos braços.»

Com elas confundi os mais espertos, desde o

Aldrovandri (1612), que me desenhou como se eu

fosse um Manati Indorum, a Rondelet, que no seu

Libri di Piscibus registou as duas grandes tetas com que alimentava

os meus filhos.

Afinal, em que ficamos?

Tentaram de tudo. Pescaram-me (ou caçaram-

-me) com grandes arpões como se eu fosse uma

baleia. Investigaram o meu corpo para descobrir

como seria por dentro (mulher? peixe? vaca?). Inventaram

que eu tinha duas pedras como se fossem

botões para tratarem neles a «dor da pedra, coisa

experimentada em França»: «O qoal tem os dentes

como boi, e na cabeça entre os miolos tem uma pe-

Inventaram mil histórias

a meu respeito,

confundindo-me

com sereias. Afinal,

diziam que tinha rabo

de peixe e corpo

de mulher

dra tamanha como um ovo de pata, feita em três

peças, a qual é muito alva e dura como marfim e

tem grandes virtudes contra a dor de pedra.»

Hoje chamariam àquilo «otólitos» se eu fosse

peixe. Como não sou, ainda continuam a pensar...

Comeram toda a minha carne. Cozeram-na

com couves, fritaram-na em estrugido, desfizeram

a minha gordura em banha e manteiga. Cada um

deles inventava uma receita nova e dela se gabava

nos seus livros científicos: «Este peixe he muito

gostoso em grande maneira, e totalmente parece

carne, assi na semelhança, como no sabor, e assado

na tem nenhuma differença de lombo de porco.

Também se coze com couves e guisa-se como carne...»

Agora também sou porco!

Finalmente, percebiam que eu também existia

em Angola (sou peixe-mulher) e na Guiné, e novamente

me chamaram peixe-booze: «há nos rios

muito peixe, corcodilos, cavalos-marinhos, baozes,

que são os que no Brasil chamam peixe-boi».

Há uma coisa em que todos se

puseram de acordo. Sou muito mãe e

alimento os meus filhos com o meu

leite até eles poderem ir apanhar as

ervas e as folhas dos rios doces (que

eu não como animais, sou muito

evoluída). Já viram que optei pela vaca

já que só assim teria as tetas, e

nem me atrevo a dizer o que disseram

dos machos (coisas como «vergalho

de boi» e outras barbaridades)...

Tal como as mulheres, só tenho um filho em

cada parto e fiquei muito feliz quando escreveram

que «as fêmeas parem só uma criança». Criança é

de mulher, não é assim?

E tão forte e profundo é o meu lado maternal

que Frei Cristóvão de Lisboa, na sua História dos Animais

e Árvores do Maranhão, assim o descreve: «Vi matar

uma fêmea e esfolarem-na e botarem a pele em terra

à borda de água; e quando foi ao outro dia, indo

buscar água, acharam o filho deitado em riba da

pele...»

Comovente?

Hoje estou praticamente extinto de todos os

mares. Apenas restarei nas lendas camonianas das

sereias e nos livros de História Natural.

Lembrem-me como vaca do mar, peixe-mulher

ou peixe-boi, mas não me esqueçam.

Espero que um dia não cheguem outros monstros

em carcaças voadoras para escreverem sobre

vocês uma história parecida com a minha.


Magdalena, un río del olvido

Janet Núñez

RIOS PROFUNDOS 48

49


Rio Magdalena em Barranquilla, princípio do século XX. Fotos do Archivo Histórico da Biblioteca Piloto de Barranquilla


RIOS PROFUNDOS 50

51

Como todos os rios que se sabem

fecundos e vigorosos, o Rio Grande de

la Magdalena apresentou-se, num meio-

-dia candente de 1501, aos olhos do

conquistador espanhol Rodrigo de Bastidas,

também fundador – 24 anos mais

tarde – da primeira cidade da Colômbia,

Santa Marta. Assim, o Magdalena, que

havia sido desde tempos imemoriais

uma fonte de comunicação e de sobrevi-

Hoje, o rio agoniza devastado

pelo abate dos bosques,

pelo abuso permanente

dos seus recursos,

pelo asssalto de predadores humanos

que durante mais de cem anos

têm violado normas

e exterminado a sua fauna

vência para as tribos colombianas assentadas

nas suas ribeiras, converteu-se

também no eixo sobre o qual giraram as

expedições colonizadoras.

Encravada a sua origem no páramo

de Las Papas, no departamento do Huila,

as cordilheiras Central e Oriental bifurcam-se

como as pernas de uma indígena

milenária no transe de dar à luz uma

corrente de águas cristalinas que os nativos

paeces chamaram Yuma. E do Yuma, saltou

a vida. Pelo verdor húmido da selva,


RIOS PROFUNDOS 52

53

entre uma fauna selvagem de caimões, tigres,

papagaios, monos e manatins, abriu

passagem a sua força visceral, numa travessia

de 1540 quilómetros até ao Norte,

e o rio cresceu como nunca, passando

por cidades como Mompóx, vitais para o

armazenamento e exploração de ouro e

prata durante o colonialismo espanhol,

até encontrar em «Bocas de Ceniza»,

muito perto de Barranquilla, a sua desembocadura,

destino e abraço com o

mar Caribe.

A sua recordação nas últimas gerações

é feliz e dolorosa. As minhas imagens

mais remotas provêm da minha infância,

naquelas tranquilas e pegajosas

noites barranquenhas. Pela mão – ou pela

voz – da minha avó, registávamos histórias

que giravam em torno do rio. Ao

cair o tépido vapor da tarde, a avó reunia-nos

à sombra de uma pereira, no pátio

traseiro, a cantar. E, entre canto e canto, a

avó tecia o seu passado com fios de nostalgia

e dedos de agulha que deixava

dançar como plumas no ar, enquanto recuperava

dos seus tempos de menina

tristezas idas ou amores clandestinos

com o avô.

Recordava minha avó – recordo –

um homem alto e acobreado, todo vestido

de linho branco, imaculado lenço engomado

na algibeira junto à lapela e chapéu

de lã, que partia nos primeiros dias

de cada mês com o seu rudimentar instrumental

numa maleta negra e alguma

roupa noutra maleta. Era o avô, um dentista

que havia conhecido aos 14 anos e

do qual nunca se separaria em toda a sua

vida. Esse homem que devia partir cada

quatro semanas num vapor pelo rio para

visitar os seus pacientes.

Dois dias antes da partida, a casa toda

se agitava. A avó engomava três ou

quatro camisas, passava a ferro e dobrava

com mestria a roupa na maleta. Os nove

filhos alvoroçavam a casa e enlouqueciam

o pai, meu avô, fazendo-lhe todo o tipo

de encomendas, quase todas delícias culinárias

populares. A toda a pressa se escreviam

cartas que deviam ser entregues a

comadres e amigos de outras margens. A

minha tia mais velha preparava farnéis

para a travessia. Os vizinhos mais chegados

vinham desejar-lhe boa viagem e solicitar

uma ou outra encomenda.

Na primeiríssima hora do dia seguinte,

todos se encaminhavam para o

porto. Junto à embarcação, os vendedores

ambulantes de comida confundiam-se

com os carregadores de mercadorias. No

momento de embarcar, homens e mulheres

despediam-se com sentidos abraços. A

viagem só devia durar três ou quatro horas

até chegar ao primeiro destino, mas,

enquanto o vapor iniciava a sua marcha

sobre as águas, todos, passageiros a bordo

e familiares desde a margem, acenavam

os lenços em última despedida, enquanto

a minha avó secava discretas lágrimas na

sua face.

Referia-se a Barranquilla do primeiro

quarto do século XX. Uma cidade cosmopolita

que acolhia 60% de todos os

estrangeiros do país e já contava com comodidades

como energia eléctrica e algeroz

nas suas magníficas mansões republicanas

do bairro «O Prado». A cidade

que recebia muitas companhias de teatro

e ópera no teatro Apolo, mas uma cidade

que pouco a pouco virava as costas ao

rio, deixando à ribeira as fábricas e seringueiros

marginais.

Talvez por falta de memória ou excesso

de indiferença, ninguém tinha

consciência de que a bacia do Magdalena

integrava uma rede de rios que configuram

uma zona de influência de mais de

250 000 quilómetros que, anos mais tarde,

viria a gerar, por exemplo, 85% do

PIB do país e 70% da sua produção hidroeléctrica.

Por isso, desde o dia em que

todos decidiram abandoná-lo, o Río

Grande de la Magdalena deixou de ser

grande e converteu-se num rio de esquecimento.

Hoje, o rio agoniza devastado pelo

abate dos bosques, pelo abuso permanente

dos seus recursos, pelo assalto de

predadores humanos que durante mais

de cem anos têm violado normas e exterminado

a sua fauna. Todo ele definhou

com a afluência de outros rios, em especial

o Bogotá, um dos mais contaminados

do mundo, pois recolhe os dejectos de


8 milhões de habitantes da capital e verte

a sua nefasta imitação de petróleo no generoso

e cansado Magdalena.

Tudo isto é lamentável, sobretudo

para quem o conheceu no seu esplendor.

E, à falta de uma mão redentora, uma boa

maneira de preservar o perdido e fazê-lo

presença permanente é através de expressões

populares, que vão desde mitos e

lendas como a do homem caimão, a mojana

e o mohan, até à patasola e outros endriagos

das suas águas, sem excluir a música silvestre

que emana das suas ribeiras pela

voz das cantoras Petrona Martínez, Totó a

momposina, a Niña Emilia, Irene Martínez

e José Barros, além de outro longo

etcétera.

No que toca à literatura, «El Inventario

incompleto de las obras de ficción en

las que está presente el río Magdalena

nos revela que si el país le ha dado la espalda

al río, nuestra literatura no» – assinala

o investigador e crítico colombiano

Ariel Castillo. No seu ensaio El Río y las Letras

menciona, entre outras, as obras poéticas

de Manuel María Madiedo (também

narrativa), Juan de Castellanos, Candelario

Obeso, Rafael Núñez, Tallullah Flores,

Pablo Neruda ou Nicolás Guillén; assinala

o investigador que o rio também serve de

pano de fundo às tramas de obras narrativas,

como El Desertor de Plinio Apuleyo

Mendoza, La Sombra de Marvel Luz Moreno,

Río Abajo, de Rafael Vega Jácome ou Los

Domingos de Charito de Julio Olaciregui; que

o rio assume carácter simbólico em La

Casa Grande de Álvaro Cepeda Samudio e é

objecto de aproximação mítica em La Otra

Raya del Tigre de Pedro Gómez Valderrama.

Finalmente, assinala Castillo, que a nota

de imprensa El Río de la Vida de García Márquez

é a chave para entender a sua obra

posterior O Amor nos Tempos da Cólera e O General

no seu Labirinto, romances com marcada

presença do rio. De produção mais recente,

recordo alguns episódios de El Tumbao

de Macorina, de Jaime Cabrera González.

E tudo o que eles contam é verdade,

como verdade é que o seu abandono se

torna infinitamente doloroso para quem

descobriu noutras latitudes maneiras

opostas de enfrentar as cidades fluviais.

XI JORNADAS

DE HISTÓRIA

IBERO-AMERICANA

Portimão, 5, 6 e 7 Maio de 2005

O ASSOCIATIVISMO

EM PORTUGAL E

NA IBERO-AMÉRICA

Confrarias

Sociedades literárias

e científicas

Sociedades secretas

Associações operárias

Programa cultural

Concertos, teatro, exposições,

livros

Organização

INSTITUTO DE CULTURA

IBERO-ATLÂNTICA

Informações

Casa Museu Manuel

Teixeira Gomes

Rua Júdice Biker, 1

8500-538 Portimão

T 282 470 822 F 282 470 749

iciaptm@mail.telepac.pt

www.institutoculturaibero-atlantica.pt

Patrocínio

Câmara Municipal de Portimão


Excerto da conferência Algo

sobre mi poesía y mi vida,

pronunciada por Neruda na

Universidade do Chile, em 1954.

Foi publicada na revista Aurora,

n.º 1, Julho de 1954.

ALTAS SOLIDÕES 54

Machu Picchu

Pablo Neruda

55

Entonces subimos por senderos ásperos

y a lomo de mulo hasta la ciudad perdida

y añorada: Machu Picchu, la misteriosa.

Aquella altísima ciudad se había

avergonzado de su propia época, se había

reducido al silencio y se había escondido

en su propio bosque. ¿Qué les sucedió a

sus constructores? ¿Qué había sido de sus

habitantes? ¿Qué nos dejaron, excepto la

dignidad de la piedra, para darnos noticias

de su vida, de sus propósitos, de su

desaparición? Nos respondió un silencio

sonoro. Yo ya conocía el silencio de otra

ruinas monumentales, mas siempre fue

un silencio humillado, de mármoles definitivamente

vencidos. Allí, en las alturas

del Perú, la imponente arquitectura se había

conservado secretamente en el profundo

silencio de las cumbres andinas.Todo

era cielo en torno de los sagrados vestigios.

El bosque verde se interrumpía con

las rápidas y pequeñas nubes, que pasaban

desflorando y besando aquella espléndida

obra de lo eterno que hay en el

hombre. En el punto más alto de la ciudad

se levantaba el Reloj o Intihuatana,

especie de calendario formado por

inmensas piedras, con una meridiana destinada

quizá a señalar las horas en aquellas

excelsas alturas. Estos relojes astronómicos

fueron tenazmente perseguidos por

los conquistadores, ansiosos, como siempre,

de destruir el núcleo cultural. La ciudad

de Machu Picchu los derrotó: se escondió

entre peñas abruptas, multiplicó

sus mantos de verde, y los intrusos destructores

pasaron por su vera sin sospechar

jamás su existencia.

Machu Picchu se reveló ante mí como

el perdurar de la razón por encima del delirio,

y la ausencia de sus habitantes, de sus

creadores, el misterio de su origen y de silenciosa

tenacidad desencadenaron para mí

la lección del orden, que el hombre puede

establecer a través de los siglos con su voluntad

solidaria: el edificio colectivo capaz

de desafiar el desorden de la naturaleza y

de la humana desventura. Recordé entonces

las construcciones mejicanas de Teotihuacán,

los edificios de Monte Albán, de Chichén

Itzá, el cuadrilátero de Uxmal, los

templos de Palenque, las pirámides religiosas

con sus prodigiosas moles, con su simetría

radial, que en todo el territorio mejicano

se alzaron hacia la sangre y la luz. Comprendí

que por encima de las estructuras

perdidas en el martirio y en la sombra, por

encima de la creación formal de figuras,

joyas y objetos subterráneos, más allá de la

inmensidad vencida y derrotada de aquella

América, que hoy está renaciendo de sus

propias tinieblas, los antiguos maestros

americanos habían erigido un alma aérea,

invulnerable, capaz de desafiar con su ser el

dominio y las olas embravecidas de la agresión

y del olvido.

Estos descubrimientos me revelaron

muchos caminos, y entre ellos el recordar

mi destino con aquella verdad tan duradera,

con aquellas creaciones colectivas, en las

que todos los componentes, esperanza y

dolor, delicadeza y poderío, se habían unido

muchas veces en un organismo central,

que dirigía todas las posibilidades de acción

y daba origen a un nuevo silencio sonoro,

lleno de inteligencia y de música.


Machu Picchu


VIDAS CONTADAS 56

NERUDA FOI

UM HOMEM

COMPROMETIDO

COM O SEU

TEMPO Entrevista com Volodia Teitelboim

Regina Rodríguez

Fotos

Josué Barrios

e Archivo de la Fundación Pablo Neruda

Documentação

María Andrés Salazar.

Biblioteca Nacional de Chile

Ilustração

Gabriela Cánovas, pintora chilena

57

O escritor chileno Volodia Teitelboim acaba

de lançar em Portugal a biografia de

Neruda. O livro é um olhar profundo so-

bre os grandes acontecimentos do século

XX que ambos partilharam na dupla posição

de poetas e homens comprometidos.

Volodia foi secretário-geral do Partido

Comunista Chileno, senador, mas sobretudo

testemunha lúcida e activa do seu tempo.

Com quase 90 anos, mantém a vivacidade

do seu pensamento e a esperança de que

o direito das pessoas à felicidade seja

uma realidade.


VIDAS CONTADAS 58

59

Em sua casa, discreta, situada num belo bairro de Santiago,

repleto de árvores e de pássaros, Volodia acaricia a sua gata

Miel, enquanto olha a história com uma serenidade de quem

viveu muito e conseguiu compreender algumas coisas, sem

perder a confiança no ser humano. Falamos da amizade, de

poesia, de política e dos sonhos que ainda tem. Vai conver-

sando, incansável, com um tom profundo e doce, sem afectação,

pura sabedoria.

Sabemos que a sua amizade com Neruda durou mais de quarenta anos. Como começou?

A amizade com Neruda iniciou-se com um poeta ausente.

Eu era um adolescente que estudava no liceu de Talca, e o professor

de castelhano, um dia, levou para a aula um livro de

poesia e começou a ler, com grande entusiasmo, poemas de

amor que se atreviam a falar muito directamente de sexo, algo

que nessa época, nos anos 1924-25, era inaceitável. Eu, ainda

criança, descobri que o idioma, a língua serve não só para comunicar

com o outro, mas também para que a palavra mágica

provoque certo estremecimento. Depois, já maduro, pareceu-

-me que ela representava a descoberta da beleza. Gabriela Mistral,

através das suas rimas infantis, foi a «Mãe» que nos levou

a descobrir a poesia. Desde então, eu procurava-a porque necessitava

dela, porque algo em mim requeria essa presença

enigmática. Então, quando cheguei a Santiago para estudar na

universidade, já tinha duas definições que foram duas linhas

paralelas na minha vida: a poesia e a política.

Em 1932, li no jornal que Neruda ia dar um recital, mas

eu era um rapaz tímido, tinha 16 anos e não podia aproximar-

-me de um homem famoso. Sentei-me na galeria com a esperança

de vê-lo e ouvi-lo. Ouvi-o, mas não o vi porque ele fez

todo o seu recital atrás de uns enormes biombos chineses que

lhe tapavam todo o corpo. A sua poesia era enigmática e desconcertante

porque não tinha nada a ver com os vinte poemas,

era mais complicada, mais complexa, eram poemas de Residencia

en la Tierra. Então, não o conheci. Foi em 1937, quando ele

regressou da Ásia, que o fui entrevistar. Recebeu-me muito

bem e aí começou a nossa amizade; quando Neruda vivia no

Chile, e não estava desempenhando cargos diplomáticos, víamo-nos

todos os dias. Começou como amizade jornalística,

depois tornou-se política, a seguir poética, no sentido do interesse

pela poesia, e, finalmente, pessoal, quotidiana, partilhávamos

tudo, ele tomava a iniciativa porque era intruso, era curioso,

era intrometido, gostava muito de participar da vida das

pessoas e fazê-las mais felizes, se pudesse.


A FIGURA MATERNA

A mãe de Neruda morreu de parto. Como influiu este facto na sua poesia?

Eu creio que influiu em tudo, influiu na sua vida, influiu na

sua poesia, influiu na sua relação com as mulheres. Eu creio que

Neruda não procurava a beleza clássica, nem sequer quando era

um homem maduro lhe interessavam as jovens, mas sim as mulheres

maduras. Ele não se aproximava das mulheres deslumbrantes,

famosas pela sua beleza. A sua primeira esposa, Delia del Carril,

«A Formiga», tinha mais vinte anos que ele. Eu creio que, de

um modo inconsciente, estava procurando a mãe que nunca tinha

conhecido, mas cuja falta sentiu durante toda a vida, apesar

de ter tido uma mãe substituta que o amou e o tratou muito

bem, mas esse vínculo sanguíneo era absolutamente único.

A POESIA: NERUDA QUIS SER A SUA PRÓPRIA VANGUARDA

Referindo-se à palavra «saudade», Neruda disse no Crepusculario: «essa doce palavra de perfumes ambíguos».

Porquê essa tristeza da sua primeira fase?

Porque tudo tinha sido irregular, o seu nascimento significou

a morte da sua mãe, porque teve de viver em casa de familiares,

avós, amamentado por uma camponesa que estava criando...

creio que sentia a falta da mãe. O pai levava-o a um Temuco

que acabava de nascer

(Temuco era a cidade

mais jovem do Chile, fundada

em 1885), um

acampamento militar

construído à custa do desterro

da população indígena

que ocupava essas

«Eu creio que Neruda não

procurava a beleza clássica

nas mulheres»

terras desde tempos imemoriais, era uma cidade que nascia e

também uma vida que nascia difícil, com uma situação familiar

que não era próspera. O pai conseguiu trabalho nos caminhos-

-de-ferro e levava-o consigo nas suas viagens até à selva profunda.

E é uma tristeza que se agudiza quando está no Oriente, tem a ver com a sua condição de estrangeiro?

Ele parte para o Oriente, creio, para escapar do Chile. Aqui havia

conhecido uma glória precoce, mas estava a afundar-se na companhia

dos seus amigos de geração, os poetas malditos da boémia.

Eram jovens de 20 anos como ele, assediados pela tuberculose, que

era o grande fantasma da juventude. Eram tempos em que se morria

facilmente, sobretudo os que não comiam e se embebedavam todos

os dias, e ele sabia que tinha de viver, como um impulso de sobrevivência

natural, mas também porque ele se sabia poeta, sabia que ainda

não havia dito tudo o que tinha para dizer e queria escapar para

uma terra onde pudesse fugir a este tipo de vida, concentrar-se em si

mesmo. Desejava mudar a sua poesia, eram os tempos da vanguarda,

chegavam todas estas mensagens indirectas de Paris, conhecia a


VIDAS CONTADAS 60

61

poesia francesa, Baudelaire, Mallarmé, começava a falar-se de uma

poesia distinta, de Apollinaire e outros. Ele queria mudar, mas não

queria mudar em Paris, queria ser a sua própria vanguarda e fê-lo reconcentrando-se

em si mesmo, na inóspita vida asiática onde estava

sozinho e podia conversar consigo mesmo. Daí nasceu essa poesia

que é um corte radical com a sua poesia anterior que é a primeira

Residencia, um livro fundamental na poesia latino-americana. Queria

sobreviver como poeta, di-lo num verso: «el lugar que yo quiero

guardar para mí eternamente». Era um homem consciente do seu

valor e da sua responsabilidade perante si próprio e o mundo.

Diz Gonzalo Rojas que Gabriela Mistral é a poetisa fundamental. É pouco conhecida na Europa, embora tenha

recebido o primeiro prémio Nobel para um poeta da América Latina, em 1945. Qual foi a relação de Neruda com

Gabriela Mistral?

Qual é a teoria de Neruda sobre os elefantes e os poetas?

Eu, que admiro muito Gonzalo Rojas, creio que é o melhor

poeta chileno vivo, sublinho na sua declaração a palavra fundamental.

Gabriela é uma poetisa dos fundamentos, ou seja, da vida, da

infância, da morte também; aí estão os seus Sonetos de la Muerte, e

Neruda creio que a sentiu assim. Escrevia versos desde miúdo e

não tinha um juízo alheio que lhe dissesse se estavam bem ou

mal, até que chegou a Temuco, procedente de Punta Arenas, esta

mulher que era directora do liceu e da qual Neruda conhecia Los

Sonetos de la Muerte. Porque Gabriela Mistral não tinha publicado nenhum

livro, mas era muito conhecida pelos livros de leitura dos

liceus que haviam reproduzido os seus poemas. Neruda, menino,

tinha estudado por esses textos e sabia-os de cor, então quis atrever-se

e levou uns quantos versos seus para que ela lhe desse

uma opinião. Gabriela, muito severa e muito verdadeira, disse ao

miúdo que tem 14 ou 15 anos: «há em si um poeta», mas tem

de trabalhar muito, leia muito, não só poesia, mas também romance,

e não literatura francesa, «leia os russos, Tolstoi e Dostoievski».

Neruda seguiu o seu conselho e, entre esses grandes

escritores, também leu Eça de Queirós.

Neruda sempre manteve uma excelente relação com Gabriela

Mistral, coisa que tem importância porque alguns trataram de

inimizá-los na base de que um era melhor que o outro, mas eles

nunca aceitaram participar nessa discórdia fabricada.

Na época da polémica dos poetas no Chile, em 1935, Neruda

disse: «Lamento esta polémica entre os escritores, deveriam

aprender com os elefantes, são tão grandes e convivem pacificamente

na selva; sejamos como os elefantes.»

O senhor disse que, em Espanha, Neruda recupera a confiança em si mesmo. Porquê?

Porque no Chile era flagelado pelo seu grémio, por aqueles

que, tendo dez anos mais que ele e aspirando a conquistar o galardão

mundial da poesia, e vêem que um provinciano, fraco,

azeitonado, verdoso, morto de fome, que havia feito parte desse


Os espanhóis são mais generosos com ele?

bando de indigentes e famintos começa a subir na vida literária e

os vai eclipsando a todos. Há uma grande campanha contra ele,

particularmente por parte de Vicente Huidobro.

Ao invés, chega a Espanha, é recebido de braços abertos por

García Lorca e por toda a nova geração, a chamada geração de 27.

Lorca apresenta-o na universidade, convidando a que se descubra

este poeta: «Muitos dos poetas que chegam da América têm uma

certa marca parisiense; ao contrário, este poeta há que lê-lo com

atenção porque é a voz de um continente, é um grande poeta.»

Convidam-no para director da revista Caballo Verde, ele aceita e, aí,

comete o grande agravo contra o «papa» espanhol da poesia pura

– Juan Ramón Jiménez – porque escreve um texto, «Por una poesía

sin pureza». E isto é uma revolução na poesia porque proclama

o direito de as coisas simples, supostamente Prosaicas, entrarem

na casa da poesia, sempre que tenham a condição de rei Midas,

de transformarem em ouro tudo o que tocam. Porque, se há

um verdadeiro poeta que pode falar da coisa mais mesquinha e a

converte numa poesia significativa, grande, que estremeça o coração

humano, isso transforma-se em poesia, abre as portas. É uma espécie

de proposição democratizadora da poesia, uma anunciação

da sua própria poesia e, inclusive, daqueles que se sentem antipoetas

porque a antipoesia também tem de ser poesia.

Tudo isso começa, mas logo se enche de sangue porque vem

a guerra e então ele próprio vai pôr em prática a sua teoria, isso

lho impõe a história, o que está vendo com os seus olhos, sofrendo

directamente.


VIDAS CONTADAS 62

63

O que lhe evoca o nome de García Lorca em relação com Neruda?

Eram duas personalidades muito distintas: García Lorca era a

graça espanhola, talvez com alguma raiz cigana, que fazia da vida

uma fantasia, que tinha de lhe agregar sempre algo que saísse

dos eixos, no sentido de acrescentar beleza, porque ele sentava-se

ao piano, cantava, era amigo de toureiros... toda esta coisa andaluza,

forte; Neruda era a anti-Andaluzia, embora ele não o quisesse,

porque vinha de uma zona chuvosa, solitária, desconstruída,

com um péssimo desenvolvimento verbal, porque as pessoas

dali quase não falam. E, de repente, conhece García Lorca

em Buenos Aires, com quem havia partilhado a história de recitar

em grupo, e isto naturalmente repete-se em Espanha e todos os

jovens espanhóis consideram que ele é um marco novo na poesia

de língua espanhola não só da poesia latino-americana, mas também

para eles. Ali conheceu o direito à alegria. Neruda disse que

García Lorca irradiava felicidade, criava situações de prazer para

os outros, o gosto pelas conversas e por uma certa desordem de

uma geração grandiosa, não só na poesia, mas também na pintura,

é a geração de Picasso e de Dalí.

A POLÍTICA: A GUERRA TRANSFORMA O OLHAR DO POETA

Depois da Guerra Civil Espanhola e com a derrota da República, Neruda pede para ser enviado como cônsul

especial para a emigração espanhola. Porquê?

A Guerra Civil atira-o para a política. Em criança, no Chile, tinha

grande inclinação para o povo, mas eram inclinações anárquicas.

Quando chegou a Espanha, disse: «Eu não sou comunista nem

socialista, sou antifascista ou esquerdista, essa é a minha definição.»

Nesse momento, simultaneamente com a revista que Neruda

dirige, que é claramente literária, há outra revista dos republicanos

dirigida pelo seu grande amigo Rafael Alberti que se chama El Mono

Azul. Rafael Alberti diz-lhe: «Porquê isto de Caballo Verde? Não há

cavalos verdes. Tens de assumir uma atitude mais definida». «Sou

poeta», responde-lhe Neruda. Mas a guerra lança-o na política, a

guerra transforma-o e diz: «Eu, da Guerra de Espanha, saí com outros

olhos e olhei o mundo de maneira diferente.»

Neruda ocupou-se pessoalmente do envio para o Chile do barco Winnipeg repleto de refugiados espanhóis

republicanos. O senhor fala também de um barco português que realizou um feito similar e saiu para a América

Latina a partir de Casablanca...

Algum português do meu tempo deve recordá-lo, o barco

chamava-se Serpa Pinto. Foi um gesto muito nobre porque essas

pessoas estavam na iminência de morrer.

Era uma época em que a América era um continente de acolhimento para os europeus. Acha que a Europa

esqueceu isto ou tem boa memória?

Eu creio que o século XXI ou, de modo mais empolado, o

terceiro milénio será uma época em que as relações entre os povos


Volodia e Neruda na época da construção da casa La Chascona, Santiago, 1953

vão sofrer uma mudança colossal. Para mim, o mais importante

desta mudança é a ideia da mestiçagem a que se está a assistir na

Europa. A gente do Magrebe vai para Espanha, Portugal e França, e

chega também a gente do Leste. Isto ocorre também na América,

porque a América Latina está a entrar nos EUA com um vigor

enorme, o que faz García

Márquez dizer que, no ano

2050, os EUA serão uma fusão,

um encontro ou um desencontro

entre o latino e o

saxão. Então, vamos fazer a

fusão que, por outro lado, é

«Era um homem consciente

do seu valor e da sua

responsabilidade perante

o mundo»

a história e a riqueza da humanidade; essa diversidade, essa mescla,

essa mestiçagem é algo que me dá a maior confiança. Há elementos

religiosos fundamentalistas que agora se manifestam com

mais força do que no passado, mas esses fundamentalismos partem

do princípio de que uma pessoa é superior a outra e que a

sua convivência é impossível. Há que esperar que se aceite o contrário,

porque um é a morte e o outro é a vida e o tesouro maior.

A propósito deste tema, o senhor diz que é fundamental porque se encontra com a identidade latino-americana.

Sim, claro, Neruda, curiosamente, estava sempre rodeado pelo

povo mapuche porque o seu pai o levava aos três ou quatro

anos à zona da Frontera, que se chama assim porque até ali chegava

o «Chile branco», para lá vivem os mapuches e não se pode

passar sem a sua autorização. Neruda chegou lá, conheceu-os, viu

a sua situação deteriorada, a inferioridade imposta de fora pelo

preconceito, a negação dos seus direitos, mas não fez disso tema

principal. Sendo já famoso, explica por que se pronuncia a favor


VIDAS CONTADAS 64

65

da justiça e da causa dos aborígenes: «Pela cultura, formei uma

consciência com base nos antecedentes, nas leituras e vejo que

corresponde à realidade que eu também vivi.» Neruda tinha a

obsessão de criar a Universidade da Araucânia onde se ensinasse o

idioma mapuche, o mapudungum, para que o Chile tivesse consciência

de que não é um país de uma só vertente, mas um país

pluricultural.

O poema «Alturas de Machu Picchu» desvenda a transcendência desse lugar?

Machu Picchu é a imagem sintética, condensada de toda a

América, particularmente da América Latina, desse mundo pré-

-colombino, com toda a majestade e significação que tem.

Machu Picchu existia antes de Neruda, mas esta descoberta que

ele faz converte a sua poesia numa grande poesia que vai desvendar

aos olhos de quem a lê e também dos governos que ali há algo que

é muito mais do que parece, o passado da América. Quem vai a Machu

Picchu também pode recuperar a América antes da chegada dos

conquistadores: havia uma civilização própria, havia uma cultura,

havia uma mitologia, uma filosofia, uma história, una medição do

tempo. Mas, no poema, Neruda não faz – há que sublinhar isto – o

elogio do Inca nem dos sábios. A ele, interessam-lhe o «João corta-

-pedras» e o «João pé-descalço», ou seja, os inonimados, os anónimos

que construíram essa cidadela e que nunca foram nomeados, os

sem-nome da história. Ele fala não só para quem não o pode ouvir,

mas também para os aborígenes que estão ali, que estão no Peru,

que estão em toda a parte e diz-lhes: «Sube a nacer conmigo hermano,

hablad con mis palabras y mi sangre.» Converte-o num manifesto

revolucionário dirigido aos povoadores da América.

Neruda foi perseguido pelo governo de González Videla em 1946. Saiu do Chile ajudado por muitas pessoas. Lembra-se

como foi?

Era uma operação clandestina que devia fazer-se com reserva

e ninguém podia saber que eu estava envolvido nessa missão. Estávamos

em 1946, terminara no ano anterior a Segunda Guerra

Mundial, e González Videla persegue os comunistas e quem o

elegeu. É a guerra fria, e o presidente do Chile tinha de estar de

acordo com os EUA a qualquer preço, inclusive o preço de queimar

todas as suas bandeiras e perseguir aqueles que o tinham

apoiado, entre eles Neruda. Neruda denunciou a traição, acusouo

no Senado e enviou o texto do discurso ao proprietário do El

Nacional, na Venezuela, «Carta para millones». Isso desencadeou

uma furiosa perseguição. Neruda entrou na clandestinidade. Eu

convivi com Neruda durante esse tempo e dei-me conta do seu

sentido de responsabilidade. Foi ali, na clausura, que escreveu a

maior parte do seu Canto Geral onde faz uma verdadeira «biografia

da América», desde que surgiu em tempos imemoriais e estava

sozinho porque não havia ninguém. O homem vem pelo lado

asiático, através do estreito de Bering, do Norte, numa espécie de

caminhada que dura 10 mil anos e que lhe permite povoar desde

o Alasca até à Terra do Fogo. Neruda converte-se numa espécie de


Volodia e Neruda no México, 1949

secretário da história, defende a sua condição de cronista e diz

que não se vai calar em relação aos tempos contemporâneos, inclusive

faz pagar o preço da infâmia a González Videla e a outros

que o acompanharam, nomeando-os no livro e contando as suas

malfeitorias, algo que foi criticado por alguns porque dizem que

desfeiam a sua poesia, mas é uma poesia combatente, uma poesia

«punitiva» para castigar o malvado.

Há uma profunda imbricação entre a sua vida e a de Neruda com os grandes acontecimentos do século. Que influência

pode ter tido o golpe de Estado de 11 de Setembro de 1973 na morte de Neruda? Para muitos, foi uma

surpresa que tivesse morrido poucos dias depois do golpe.

Teve uma influência muito directa. Após a eleição, Allende nomeia

Neruda embaixador em França. De lá chegam notícias alarmantes

sobre a sua saúde. Então, pedem-me que vá ver o que se

passa e qual é a sua enfermidade. Matilde, sua mulher, disse-me:

«Pablo tem um cancro.» Os médicos dizem que é um cancro de

evolução retardada e que pode viver muito tempo, a não ser que

ocorra algum transtorno fisiológico ou se dê um golpe demolidor

de fora que afecte a sua saúde. Em Setembro de 1973, está doente

na Isla Negra, mas espera ter tempo de receber, no seu 70.º aniversário,

os sete livros que tinha escrito no seu leito. Morre poucos

dias depois do golpe de Estado... foi demasiado para ele.

Qual é a sua relação pessoal com Portugal?

PORTUGAL: FORMOSÍSSIMO, GRATO E GENEROSO

Se tivesse de sair do Chile novamente, coisa que não desejo,

escolheria Portugal. Quando era jovem, lia Eça de Queirós,

que era um grande escritor português muito conhecido nos

colégios dessa época. Tem vários livros como O Crime do Padre


VIDAS CONTADAS 66

67

Amaro a partir do qual foi feito um filme, recentemente, mas

também outros. Talvez tivesse sido silenciado por ser um autor

anticlerical. Tem um livro que causou sensação porque era um

livro radical, intitula-se A Relíquia e é uma crítica aos beatos

que vão à Terra Santa para encontrar um pedacito da cruz de

Cristo. Há outro que se chama A Cidade e as Serras que é uma espécie

de premonição do ecológico. Eça era um grande narrador

que envolvia o leitor.

Que importância confere à publicação do seu livro em língua portuguesa?

Portugal mostrou-se generoso, tudo foi surpreendente porque

não foi um livro trabalhado por um agente literário, trabalhei

com alguns portugueses que em dado momento leram esse

livro em espanhol e pensaram que era necessário traduzi-lo para

português.Trata-se também de um livro orientado para Portugal,

país formosíssimo, grato, generoso, modesto na sua grandeza,

náutico, admirável. O idioma português, marinheiro, navegador,

é, além do mais, falado em metade da América do Sul e, para

mim, a relação entre estes dois idiomas de mãe comum é íntima.

Desde a minha infância que gosto dos fados que se cantam em

Portugal, formosíssimos, profundos, aí está também a saudade.

Por isso fiquei feliz com esta edição.

Gabriela Mistral escreveu nas suas Crónicas sobre a Europa, a seguir ao título El escenario maravilloso

de la nación portuguesa uma epígrafe que diz: «Quem tiver estada prolongada na Europa venha a estes

Portugais recompor-se do seu cansaço.» A ternura vegetal portuguesa é a índole do país. Vai publicar a sua biografia

de Gabriela Mistral em português?

Seria algo justo e também uma descoberta porque Gabriela

está ofuscada por Neruda, sem que Neruda o pretendesse. Neruda

é uma árvore muito frondosa que projecta muita sombra, não

porque seja sua intenção, mas porque os outros o fazem assim.

A MEMÓRIA: AS DITADURAS MALTRATAM AS CONSCIÊNCIAS

Com estas obras, o senhor contribui para a recuperação da memória histórica. É uma missão assumida?

Eu creio que o pior dano das ditaduras, juntamente com a

atrocidade dos assassinatos, dos desaparecimentos e das violações,

é um dano um pouco secreto, interno, é o dano que se produz

nas consciências. O dano produzido ao ser humano, a um povo, a

um país, é um dano que perdura. Essa é a razão pela qual eu escrevi

estas biografias, para que os cidadãos deste país e aqueles

que sofreram a ditadura possam voltar à sua condição de países

democráticos.

Eu resistia a escrever algo que parecesse personalista porque

temo muito os desmandos do ego, porque o vejo noutros escritores,

o ego há que controlá-lo para que não se desboque. Mas o

meu filho, que tem mais de 50 anos, disse-me: «Tu tens uma

obrigação, não podes levar para debaixo da terra tudo o que viste,

tudo o que viveste, as pessoas precisam de o saber.» Mas eu não


A gata de Volodia, Miel

É também um resgate dos valores?

quero falar de mim, insisto. «O eu existe, disse-me, e a única

maneira de torná-lo suportável é rir-se de si mesmo».

Sim, porque são valores permanentes. Nós não dependemos

de um regime nem de um sistema, o que abraçamos é uma causa,

uma grande ideia, um ideal que é, no fundo, o humanismo, a

humanidade, e isso nunca desaparecerá

e não foi inventado no

século XIX, apesar de Carlos

Marx o ter visto pela sua própria

óptica, atravessou, sim, milé-

«Neruda conheceu

em Espanha o direito

à alegria»

nios, as religiões, os sonhos dos grandes transformadores ou dos

pequenos maltratados pelo mundo que pensaram que seria bom

ter uma vida diferente. Isso se moverá se alguém o está movendo,

e esse alguém tem de ser uma multidão.

Cortázar escreveu, referindo-se à herança de Neruda: «Sei que um dia voltaremos à Isla Negra, que o seu povo

entrará por aquela porta e se encontrará em cada pedra, em cada folha de árvore, em cada grito de ave marinha,

a poesia sempre viva deste homem que tanto a amou.» Crê que a memória de Neruda está a ser fiel ao seu espírito

e à sua obra?

Há diversos usos de Neruda, há usos nerudianos e há usos

extranerudianos, e Neruda já não se pode defender, foi incorporado

na indústria cultural, e isso é também o mercado, isso significa

que há um Neruda pós-nerudiano ou contranerudiano, inclusive

alguns interrogam-se: o que seria Neruda agora? Seria

um poeta neoliberal? Nunca!

Ele é um planeta, um mundo à sua disposição, e pode-se escolher

uma ilha, uma montanha, o que cada um preferir. É como


VIDAS CONTADAS 68

69

os Andes, tem altos cumes como o Aconcagua e também muitas

funduras, a sua obra também é assim, tem poemas esplêndidos e

poemas que não alcançam essa categoria, algo compreensível,

porque foi o poeta mais prolífico do século, mas há que considerá-lo

na sua totalidade, não é possível esquartejá-lo. A sua obra é

tão gigantesca, tão colossal que não creio que haja alguém que a

conheça toda, continuarão os especialistas a estudá-lo de distintas

maneiras, e os juízos podem ser diferentes. A Neruda há que

usá-lo, alguém pode roubar versos seus para fazer uma declaração

de amor a uma míuda – Neruda estava encantado com esses roubos

–, ele era propagandista do amor. Mas não se pode abusar de

Neruda para fabricar Nerudas que nunca existiram.

OS SONHOS: É IMPORTANTE PROPOR O DIREITO AO PARAÍSO

A epígrafe do seu último livro, Antes del Olvido, diz: «Valparaíso foi declarado pela UNESCO património da

humanidade. Eu estou à espera que “o paraíso” seja declarado património da humanidade.» Ou seja, o direito à

felicidade de todos os seres humanos, Neruda também o dizia, a começar pela democracia do almoço. Sonhava

que a terra inteira seria rodeada por uma grande mesa circular e haveria uma cadeira, uma colher e um prato

para cada ser humano [ri!]. «Estamos nessa!» Lutar por um ideal, por um sonho, por um mundo mais justo! Por

isso é muito importante propor o direito ao paraíso, que não se alcançará, mas permitirá adiantar algo, no sentido

de tornar a vida melhor.

Há um conto onde falo de um sonho que tive. Vêm visitar-

-me os representantes das Ilhas Encantadas, porque sabem que

eu sou propagandista do Paraíso Terreal. Dizem-me que o Paraíso

Terreal são as Ilhas onde eles vivem e pedem-me ajuda para que

a UNESCO reconheça as Ilhas Encantadas como o Paraíso Terreal.

Digo-lhes: Eu sou partidário não só para as Ilhas, mas também

para toda a Humanidade. «O senhor está louco, isso nunca pode

acontecer!», dizem-me. Nesse momento desperto e fico com

o discurso feito. Chama-se «Un sueño intervenido». Além disso,

eu interrogava-me como é que eles conheciam esse livro, se ele

ainda não havia saído.

Uma jovem pediu-me que lhe fizesse esta pergunta: tem medo da morte?

O jovem tem mais medo da morte que o velho, porque a vida

nos vai aproximando da aceitação, que não é renúncia à vida.

Queremos morrer o mais tarde possível... a morte é prematura

[reflecte], mas, já que é um facto inevitável, aceitemo-la simplesmente

como o último acto da vida.

BIOGRAFIA DE VOLODIA TEITELBOIM VOLOSKY Filho de emigrantes, de pai ucraniano e mãe moldava, é um escritor imprescindível das letras chilenas. Publica desde

1935 e conta com mais de vinte livros. Foi jornalista, ensaísta, romancista, poeta e biógrafo. Alguns dos seus romances, como Hijo del Salitre (1952), La

Semilla en la Arena (1957) ou La Guerra Interna (1979), foram traduzidos em vários idiomas. Entre os seus ensaios sobre a realidade latino-americana,

contam-se: El Amanecer del Capitalismo y la Conquista de América (1943), Hombre y Hombre (1969), El Oficio Ciudadano

(1973), El Pan y las Estrellas (1973), Pólvora del Exilio (1976), La Letra y la Sangre (1986), En el País Prohibido (1988). Publicou as biografias

de Neruda, Gabriela Mistral, Vicente Huidobro e Borges. Durante 15 anos, na Rádio Moscovo, leu as suas crónicas, mais tarde recolhidas no livro Noches

de Radio. El Tiempo es un Viaje.

Jornalista, advogado, deputado, senador e secretário-geral do Partido Comunista do Chile até 1994.


«A «A morte é é simplesmente o o último acto da da vida»


A BIBLIOTECA DE BABEL 70

Aventuras e desventuras

de uma biblioteca

nos trópicos

Lilia Moritz Schwarcz

71


O TERREMOTO DE 1755

OU «O MAL VEM DA TERRA»

Em Portugal contava-se que o rei D.

João I, conhecido como O de Boa Memória

(1356-1433), já possuía uma boa biblioteca

– ou livraria, como se chamava na

época. D. Duarte (1391-1438), seu sucessor,

deu continuidade à coleção, sendo ele

mesmo um poeta e escritor.

E assim caminhou

a tradição: D. Afonso V

(1432-1481) reuniu tantas

obras valiosas que

sua biblioteca passou a

ser reconhecida como

uma das mais famosas e

completas do Velho

Mundo. O fato é que no

século XVIII o acervo

real português era motivo

de orgulho e avaliado

como um dos melhores

conjuntos bibliográficos

de toda a Europa. D. João

V (1689-1750) costumava

dizer que os muitos

mil volumes que

compunham a Real Biblioteca

quase não cabiam

mais em seu grande

edifício, no Palácio

da Ribeira, e tinham importância

maior que todo

o ouro remetido do

Brasil.

Por sinal, o Seiscentos

português é sempre

lembrado em função da

riqueza e do luxo que o

ouro do Brasil trouxe

para a corte portuguesa.

Grandes festas, procissões, edificações majestosas

como Mafra, uma corte mais

mundana... muitos eram os sinais do brilho

fácil que chegava em Lisboa. Junto

com tanto fausto, também a Real Biblioteca

foi sendo aumentada, bem ao gosto dos

tempos: livros, incunábulos, códices, manuscritos,

mapas, obras de arte e alguns

objetos para romper com a monotonia

dos livros. Por essas e por outras é que a

livraria real era quase um troféu, uma es-

Livros narram

histórias, mas assim

«ajuntados» valem até

boas aventuras.

Para o país

recém-independente,

uma Biblioteca como

essa contava muito:

era a tradição

acumulada

que permanecia

em uma nação

de tradição recente

e a ser inventada

pécie de ícone da erudição e do conhecimento

possíveis e assim acumulados.

Mas a sina dessa biblioteca iria mudar.

No só o monarca D. João morria em 31 de

Julho de 1755, como no sábado, 1.º de

Novembro de 1755, Dia de Todos-os-Santos,

um grande terremoto caiu sobre Lisboa.

Dizia uma testemunha, Francisco José

Freire, em suas Memorias

das principaes providencias que

se derão no Terremoto, que padeceo

a Corte de Lisboa no anno

de 1755 que «[...] às

nove horas e quatro minutos

da manhã, estando

o céu limpo, o ar sereno

e o mar em calma, se

viu Lisboa surpreendida

com um Terremoto dos

mais horrorosos que a

tradição conserva, ou

descrevem os livros. Seus

efeitos provam esta verdade;

porque em tão

breve tempo deixou reduzidos

a ruínas quase

todos os edifícios da

mesma cidade, sepultando

nos estragos um

grande número de seus

habitadores, especialmente

nos templos, que

por ser dia de tanta solenidade,

todos se achavam

assistidos de numeroso

povo».

Pouco sobrou da capital

dos portugueses.

Devastada, elevava-se a

mais de 30 mil o número

de habitantes mortos

por entre os escombros. E o que nos interessa

mais de perto: o Paço da Ribeira foi

destruído e, com ele, quase toda a Livraria

de El Rey, que mais se parecia nesse momento

com um amontoado de cinzas.

Esse artigo conta um pouco da história

dessa Real Biblioteca que, reconstruída

logo depois do terremoto, se converteu

em uma das metas políticas do governo

pombalino. Depois disso acompanharia,

com um pouco de atraso, a família real ao


A BIBLIOTECA DE BABEL 72

73

Brasil e se transformaria no pivô de uma

batalha bibliográfica. A Livraria Real ficaria

na ex-colônia americana e mostraria como

a verdadeira independência se faz, também,

entre livros; muitos livros.

«AJUNTANDO LIVROS»:

NO MUNDO DAS BIBLIOTECAS

Logo depois do incêndio que se seguiu

ao terremoto, junto com os trabalhos

que começavam a reconstruir e a reinventar

a velha Lisboa, o rei D. José I empenhou-se

em resgatar as sobras do fogo e a dar início

a uma nova coleção. A partir da compra

de acervos privados, da requisição de

livros de alguns mosteiros,

da incorporação de

bibliotecas dos jesuítas

(expulsos de Portugal e

de suas colônias), ou

doações (como as de

Diogo Barbosa Machado

e de G. Dugood), a Real

Biblioteca, agora no Palácio

da Ajuda, não parou

de crescer, mesmo

após a morte de D. José,

em 1777.

Em finais do século

XVIII estava recomposta.

Pode-se imaginar o trabalho

e quantos esforços

depositavam-se a seu redor.

Sua importância

não residia apenas no

valor monetário dos livros,

mapas, estampas,

etc. A biblioteca expressava

aspirações, projetos

e representações de uma

monarquia culta e marcada

por esse acervo que

revelava o universo intelectual da elite

portuguesa ou, ao menos, o que se imaginava

significar a erudição naquele momento.

Mas a nova Biblioteca trazia as aspirações

dos novos tempos, e do poderoso

ministro de D. José I, o marquês de Pombal.

A Livraria seria então convertida numa das

pontas de lança do iluminismo português,

por certo paradoxal entre seus movimentos

Assim, a Real Biblioteca

passou a fazer parte

do novo país, mudou

de nome ao longo

dos anos, adicionou

aquisições e doações

ao seu acervo até

tornar-se, segundo

a UNESCO, na oitava

instituição do gênero

no mundo

de abertura e de cerceamento e censura.

Os livros apreendidos eram incorporados

à Biblioteca que, por sua vez, era frequentada

apenas por funcionários ou pessoas

ligadas à corte.

No entanto, a sorte da política portuguesa

estava também para virar. Com a

morte do rei D. José e a ascensão de sua filha

D. Maria I, tudo que lembrasse a Pombal

seria destituído, substituído ou postergado

e o mesmo ocorreria com a sorte da

Real Livraria.

Por sinal, nessa época iniciavam-se os

trabalhos de abertura de uma nova biblioteca

– a Real Biblioteca Pública – instalada

bem no Terreiro do Paço

e organizada segundo

princípios mais modernos.

À frente estava António

Ribeiro dos Santos,

um profissional acostumado

com a reforma

da Biblioteca de Coimbra

e que imprimiria

nova direção aos trabalhos

em Lisboa.

Mas deixemos essa

disputa um pouco de lado,

uma vez que o ambiente

não estava para

esse tipo de contenda. A

política internacional

andava remexida e o

exército napoleônico estava

para chegar em terras

portuguesas.

A VIAGEM:

HOMENS

E LIVROS AO MAR

Diante da iminente

invasão das tropas francesas,

em novembro de 1807, o príncipe

regente de Portugal, D. João, a família real

e parte da corte – uma multidão estimada

em 10 mil pessoas – que conseguira embarcar

apressadamente nos 36 navios levantaram

ferros de Lisboa, rumo ao Brasil,

sua colônia d’além mar. Foram quase dois

meses em alto mar, intempéries, água

pouca e limpeza nenhuma, piolhos, tempestades

e inseguranças de todo tipo.


E se a Real Biblioteca não veio junto,

pois lugar não havia, sua história ficou ligada

ao fado dos Bragança que, em inícios

do século XIX, lidavam com os impasses

criados pela França e pela Inglaterra: as

duas grandes nações que disputavam nesse

contexto o controle político e econômico

da Europa.

Diante de um quadro de instabilidades

e da situação frágil vivenciada pela

metrópole – sem dirigentes reais a partir

de novembro de 1807 e sempre exposta a

novas invasões –, a saída (tantas vezes desenhada)

foi optar pela transferência para

a rica colônia brasileira. E era o próprio

príncipe regente quem,

já em terras tropicais e

dando-se conta da falta,

ordena a vinda de seus

acervos de livros e documentos,

como se não

fosse possível governar

apartado deles.

Na verdade, a pressa

do embarque, em finais

de 1807, havia feito das

suas, mas não impediu

que, entre a multidão de

nobres e muitas bagagens,

viesse boa parte

dos documentos políticos

e administrativos do

Estado lusitano. A mesma

atenção não coube,

porém, à Real Biblioteca.

Por mais que se tenha

alardeado, no navio Medusa,

acondicionada precariamente,acomodouse

apenas a biblioteca

do Conde da Barca. O

imenso acervo ficou esquecido

no porto e teve que ser guardado,

novamente, às pressas.

Mas com a segunda invasão francesa,

em 1810, a partida da Real Livraria seria

questão de tempo. Entraria na colônia em

três remessas, como se a ilustração chegasse

ao Brasil em caixotes e sem aviso expresso.

Tanto esforço deveria valer a pena.

Composta por dois acervos – o da Livraria

do Rei e o da Casa do Infantado, este des-

Diante da iminente

invasão das tropas

francesas,

em novembro de 1807,

o príncipe regente

de Portugal, D. João,

a família real e parte

da Corte levantaram

ferros de Lisboa, rumo

ao Brasil, sua colônia

d’além-mar

tinado ao uso dos príncipes –, a Real Biblioteca

era considerada na época uma das

maiores e melhores bibliotecas do mundo.

O acervo não veio inteiro devido às

óbvias dificuldades da partida. Do que ficara,

certamente bem escondido para escapar

dos butins dos tempos de guerra,

outro lote aportaria no Brasil em 1811,

com o bibliotecário Luís Joaquim dos Santos

Marrocos. É certo que o príncipe regente

queria mais, e uma outra leva aportou

poucos meses depois, ainda em 1811.

Chegara mesmo a ordenar a vinda de documentos

constantes na Torre do Tombo e

livros da Real Biblioteca Pública de Lisboa,

mas o que veio foi o

bastante para que em

1876 Ramiz Galvão, então

diretor da Biblioteca,

afirmasse que naquele

conjunto estavam reunidas

«todas as províncias

do saber humano».

Vale a pena perguntar

por que em meio ao

caos dos primeiros anos

não se esquecera a Real

Biblioteca. Com efeito, o

que viajara junto com a

família era uma espécie

de «política do conhecimento»:

transportava-se

não um amontoado de

livros, mas o espírito

pombalino, uma verdadeira

política de Estado,

a idéia de que uma biblioteca

era um repositório

universal de saber. A

ilustração aportava definitivamente

no Brasil e

com ela o espírito mental

dos Bragança, bem no início do agitado

século XIX. Chegavam juntos a administração

e a cultura oficial.

Nesse momento começava também

essa original história brasileira, tão vinculada

à vinda da família real ao Brasil. De

fato, é no mínimo inusitado pensar numa

colônia sediando a capital de um império,

assim como numa biblioteca que atravessou

o Atlântico. Tal qual uma «internalização


A BIBLIOTECA DE BABEL 74

75

da metrópole», a instalação da corte portuguesa

no Brasil significou não apenas

um acidente fortuito, mas antes um momento

angular da história nacional; a origem

de um processo singular de emancipação.

Transformado em Reino Unido no

ano de 1815, o Brasil distanciava-se de seu

antigo estatuto colonial, ganhando uma

autonomia relativa, jamais conhecida. Humilhado,

perseguido e transplantado, o Estado

português reproduziu aqui o seu aparelho

administrativo. E do Rio de Janeiro,

D. João, denominado «rei do Brasil», governava

todo o seu Império.

UMA BIBLIOTECA

EM TERRAS TROPICAIS

A Real Biblioteca entrou definitivamente

na história brasileira em 27 de junho

de 1810, quando, por alvará régio,

foi mandada instalar em parte do hospital

da Ordem Terceira do Carmo, nos fundos

da igreja de mesmo nome, nas proximidades

do Paço Real. Ainda no mesmo

ano, em 29 de Outubro, vendo que o local

não era apropriado para sua biblioteca

– que tinha que dividir espaço com doentes,

remédios e até ossos –, o príncipe regente

manda que se erijam nas catacumbas

da Ordem do Carmo os cômodos necessários

para «o arranjamento e manutenção

do referido estabelecimento».

Em 1811 a Biblioteca era aberta ao

público, se bem que de maneira seletiva:

só para eruditos que obtivessem o consentimento

régio, o que não era difícil. No

entanto, em 1814 a autorização prévia foi

suprimida, ficando definitivamente franqueado

o acesso. Já ocupava todo o prédio

que abrigara o hospital, possuía cerca de

60 mil livros e era a maior das Américas.

Todo cuidado era pouco diante das

preciosidades desse acervo: livros de horas

renascentistas, incunábulos (de Cícero

à Bíblia de Mogúncia), partituras, libretos,

vilancicos, códices, desenhos e estampas

(de Dürer, Rafael, Rembrandt, Piranesi,

van Dick, entre outros), livros de história,

ciência e filosofia (da História Natural de

Buffon à Enciclopédia de Diderot e D’Alembert),

literatura sacra, obras de autores

quinhentistas portugueses (Camões, João

de Barros, etc.) ou catecismos e gramáticas

raras.

Aqui seria acrescida de valiosas doações

(como a coleção do frei José Mariano

da Conceição Veloso) e aquisições (de José

da Costa e Silva e do Conde da Barca).

Além disso, foram incorporadas propinas –

denominação da época para o recolhimento

obrigatório de livros e periódicos editados

em Portugal e no Brasil – e documentos

oficiais do Estado.

TEMPOS DE REVOLUÇÃO E DE

DEFINIÇÃO: A BIBLIOTECA FICA

Mas a história dessa grande livraria

ainda passaria por conturbações. Em conseqüência

da Revolução Liberal do Porto,

D. João VI volta para Portugal em 1821 e

a sina da Real Biblioteca mudaria mais

uma vez.

Não é hora de discutir os acontecimentos

que culminaram, em 7 de setembro

de 1822, com a proclamação da Independência

e mesmo a nova liderança política

que surgia. O fato é que o padre Joaquim

Dâmaso, então prefeito da Real Biblioteca,

recusa-se a aderir ao movimento

autonomista e retorna a Portugal. A sua

postura intransigente nos custaria caro:

transportou consigo boa parte dos manuscritos

da instituição. Ou seja, dos mais de

6 mil códices existentes no acervo, levou

de volta mais de 5 mil. E queixou-se ainda

de não ter conseguido carregar também os

impressos. E esta «disputa bibliográfica»

não foi um mero detalhe. A partir dela

pode-se ter idéia da luta travada, de um lado,

no sentido de conseguir que a biblioteca

voltasse a seu destino original, e de

outro para mantê-la, como parte de uma

política para fortalecimento científico e

cultural da nova nação.

Se essa batalha acabou sendo ganha

pelo Brasil, a vitória teve um alto custo. O

valor da Biblioteca Imperial e Pública da Corte,

denominação adotada após a Independência,

virou motivo de cláusulas e atos diplomáticos,

firmados com vista a consolidar a

emancipação. Através da Convenção Adicional

ao Tratado de Paz e Amizade, de

29 de Agosto de 1825, D. Pedro I, Imperador

do Brasil, concordava em indenizar a


família real portuguesa por seus bens e

propriedades deixados no país, inclusive a

biblioteca real.

E na verdade se pagou muito, pela «famosa

conta» que Portugal cobrava do Brasil.

No Arquivo da Torre do Tombo, pode

ser encontrado o documento denominado

– «Carta dos objetos que Portugal teria direito

de reclamar» aonde se pode ajuizar a

posição privilegiada da Biblioteca, que vinha

logo em segundo lugar depois da «dívida

pública»

A Biblioteca surgia avaliada em 800

contos de réis, um valor tremendamente

alto dentro do montante geral. Para se ter

idéia, tal valor correspondia a 12,5% do

total a ser pago, quatro mais do que a famosa

prataria da coroa, assim como 4 vezes

mais do que a equipagem elencada na

conta. Significava portanto muito e para

nós muito mais.

Assim, a Real Biblioteca passou a fazer

parte do novo país, mudou de nome ao

longo dos anos, adicionou aquisições e

doações ao seu acervo até tornar-se, se-

gundo a UNESCO, na oitava instituição do

gênero no mundo.

Livros narram histórias, mas assim

«ajuntados» valem até boas aventuras. Para

o país recém-independente uma Biblioteca

como essa contava muito: era a tradição

acumulada que permanecia em uma nação

de tradição recente e a ser inventada. Como

dizia o Bibliotecário de S. Majestade,

«as bibliotecas fazem o adorno principal e

mais precioso dos Paços Reais e merecerão

com toda a justiça que as Letras o olhem e

reconheçam por seu valioso protetor».

«Adorno principal, jóia do reino ...», aí estão

algumas expressões que falam do valor

simbólico acumulado por uma biblioteca.

Mais do que os livros, leis e tratados era o

conhecimento (infinito por definição) que

se pretendia colecionar e classificar.

A sina dessa Livraria como que reconta,

à sua maneira, um pouco da história de

Portugal e do Brasil. Os personagens são

diferentes, assim como o recorte. Dessa

vez é por meio de livros que se narra uma

mesma história.

Aldeamento da Bemposta Apartado 59

8501-909 PORTIMÃO

telef. 282 430 200 fax: 282 415 261

E-mail: bemposta@bemposta-sa.pt

Site: www.bemposta-sa.pt


A INVENÇÃO DA AMÉRICA 76

77

«AL OCCIDENTE

VAN LAS NAVES

INVENTORAS

DE REGIONES»,

ESCREVEU JUAN

DE CASTELLANOS.

MIRAGEM DE

COLOMBO,

INVENÇÃO

EUROPEIA,

A AMÉRICA

DEMOROU A

GANHAR IDENTIDADE

PRÓPRIA NO

UNIVERSO MENTAL

DO VELHO MUNDO.

A RESISTÊNCIA

DOS VELHOS

PARADIGMAS


CONDICIONOU

A RECEPÇÃO

DA NOVIDADE,

MOLDANDO

O NOVO MUNDO.

DESLUMBRAMENTO,

DESENCANTO,

SAUDADE,

DESASSOSSEGO

SÃO SENTIMENTOS

EXPRESSOS

NAS FONTES

NARRATIVAS,

NA TOPONÍMIA

E NAS CARTAS

PRIVADAS

DE EMIGRANTES.

Organização de Maria da Graça A. Mateus Ventura


A INVENÇÃO DA AMÉRICA 78

79

Yo vengo

de las Indias

Maria da Graça A. Mateus Ventura

Fauna marinha fantástica na costa do Brasil. Theodorus de Bry, Historia Americae, Frankfurt, 1590 [BN, HG 2612 A]


«Ao ocidente rumam as naus inventoras

de regiões», escreveu Juan de

Castellanos no seu canto épico da conquista

da América pelos espanhóis, em

1589. Descobrimento ou invenção, a

Quarta parte do mundo, precipitadamente

baptizada de América por Waldseemuller,

em 1507, apresentava-se aos europeus

como um jardim de delícias.

A primeira percepção do Novo

Mundo foi fruto de uma projecção da

mentalidade europeia na nova geografia.

Captou-se o desconhecido em função do

conhecido. Baptizaram-se as terras, os

mares e os rios de acordo com o imaginário,

as expectativas e as recordações.

A tradicional visão ptolemaico-cristã

da Terra dificultava a aceitação de uma

nova realidade geográfica como entidade

espacial, temporal e cultural. Se nas

vésperas da expansão marítima os

europeus dispunham de informação vaga

e dispersa sobre a África e a Ásia, de um

quarto continente nem sequer se suspeitava.

A constatação da existência da

América e a sua gradual aparição como

uma entidade de direito próprio constituíram,

pois, um desafio maior a todo

um conjunto de preconceitos tradicionais,

crenças e atitudes. A dimensão

deste desafio permite-nos compreender

um dos factos mais surpreendentes da

história intelectual do século XVI: a

aparente lentidão da Europa no ajustamento

mental necessário à integração da

América no seu campo de visão. A

reacção dos europeus aos primeiros textos

publicados sobre o Novo Mundo,

manifestada na avidez da leitura e nas

sucessivas edições das cartas de Américo

Vespúcio, de Cristóvão Colombo e de

muitas outras narrativas, reflecte emoção

e deslumbramento, sentimentos progressivamente

esfriados pelo desbravamento

do espaço real. Às descrições edénicas da

paisagem e dos índios, sucederam-se

relatos que suscitaram inquietações de

ordem teológica e filosófica, como a

condição humana dos índios. Se os

europeus não viajados conservaram,

durante todo o século XVI, uma imagem

paradisíaca do Novo Mundo, patente nas

Índios brasileiros como Adão e Eva. Theodorus de Bry, Historia Americae, Frankfurt, 1590 [BN, HG 2612 A]


A INVENÇÃO DA AMÉRICA 80

81

iluminuras e gravuras, os viageiros

europeus constatavam o contraste civilizacional

e sublinhavam o estado de «barbárie»

das sociedades índias. Na verdade,

a resistência de filósofos e cosmógrafos

em incorporar a nova informação proporcionada

pela descoberta da América é um

exemplo da dificuldade do Velho Mundo

em gerir a diversidade cultural e, em particular,

os efeitos desta nova realidade.

Sob o ponto de vista intelectual, a

descoberta da América constituiu um

desafio à Europa, na medida em que pôs

em causa preconceitos europeus sobre a

geografia, a história e a natureza do

homem. Uma primeira barreira mental

dos descobridores era configurada por

um sistema mítico com profundo

enraizamento cultural, como o Éden, os

mitos da Antilha e de São Brandão, as Sete

Cidades de Cibola, as Amazonas, o Eldorado.

Por outro lado, a influência dos

livros de cavalaria moldou um código de

conduta do conquistador que reproduzia

o código de honra e fama próprio do cavaleiro

medieval. A obsessão pela fama e pela

riqueza fácil constituiu outro entrave a

uma clara percepção do Novo Mundo. Os

conquistadores manifestam uma visão economicista

da natureza, deslumbrando-se

com a riqueza em pérolas do Caribe ou

com os tesouros mexicanos e peruanos.

À medida que se avançava no descobrimento

e na conquista e os limites do

Novo Mundo se alargavam, a experiência

e a familiaridade com o continente permitiram

um olhar mais atento e distanciado

por parte dos cronistas europeus, sempre

condicionados pela sua função no processo,

interesses (materiais ou espirituais),

formação cultural e grau de vivência

da diversidade. Daí que o soldado descreva

a terra em função das condições

para a conquista, o colonizador se fixe nas

condições do território para a sua exploração

e o evangelizador se centre num

estudo etnográfico e antropológico.

Em termos cognitivos, a mudança

joga-se na controvérsia entre o velho e o

novo, numa profunda resistência à novidade

e no apego aos velhos paradigmas.

Os primeiros descobridores estão profun-

damente constrangidos pelos modelos

culturais europeus, pelo que a sua percepção

peca por deformação. Os cronistas-conquistadores,

condicionados

pelas duras condições de sobrevivência e

pelos imperativos de imposição militar,

estavam limitados a uma leitura utilitária,

mas revelam algum distanciamento na

descrição da natureza americana. Os cronistas-evangelizadores

manifestam um

maior empenho na descrição antropológica

e cultural que na descrição geográfica

e, nesse campo, apresentam um forte

eurocentrismo, ainda que a imagem do

índio chegue à Europa associada a virtudes

como a bondade, a humildade e a

afabilidade. Os cronistas-gerais, como

António de Herrera, mais ou menos distanciados

do seu objecto narrativo,

oscilam entre a contemplação e a especulação.

Fernández de Oviedo representa a

primeira atitude, enquanto o padre José

de Acosta é o expoente máximo da

segunda.

Em 1528, o humanista espanhol Hernán

Pérez de Oliva escreveu, a propósito da

preparação da segunda viagem de Colombo,

que esta se destinava a «mesclar o mundo

e dar àquelas terras estranhas a forma da

nossa». Segundo Edmundo O’Gorman, a

América não foi descoberta, mas inventada

pelos europeus do século XVI.

Oviedo apresenta Cristóvão Colombo

como «primeiro inventor e descobridor e

almirante destas Índias», enquanto Juan

de Castellanos inicia o canto II das suas

Elegias de varones illustres exactamente com o

verso «Al ocidente van encaminadas las

naves inventoras de regiones». Nesta

medida, ambos se aproximam de Nelson

Goodman quando este conceptualiza o

mundo como uma leitura e não como

uma realidade. A visão do novo dos

viageiros europeus estava condicionada

pela sua expectativa, viam o que queriam

ver e ignoravam aquilo para o qual não

estavam preparados, num puro acto de

supressão e completação. Neste sentido,

os navegadores, os cartógrafos, os cronistas

foram inventores de regiões não só

por lhes terem atribuído novos nomes,

mas sobretudo porque a sua representação


do mundo novo constituía uma invenção

mais ou menos presa a interesses particulares

e a padrões culturais e mentais. Não

esqueçamos que o nome de Índias,

atribuído por Colombo a esta quarta

parte do mundo, logo em 1492, rapidamente

se impôs e prevaleceu na terminologia

oficial até ao século XVIII. É uma

invenção também porque a América foi

construída por agentes que transmudaram

para esse mundo novo a imagem

da Europa – organização urbana, sistema

político-administrativo e, até, a toponímia

europeia.

Alegoria do descobrimento: Américo Vespúcio encontra a América. Jan van der Stralt (1523-1605) [BN, EA 15 (22) P.]

A cartografia, embora marcada pela

geografia de Ptolomeu, vai representando

os contornos dos Novos Mundos, recheando-os

de topónimos míticos, religiosos,

profanos, reflectindo a passagem

do estado de deslumbramento, manifestado

nas esmeradas iluminuras com animais

exóticos, a uma progressiva

racionalização da concepção do espaço. A

geografia do imaginário apresenta na

América uma primeira configuração

cujos elementos fundamentais são os rios

e os espaços insulares. Da Boca del Drago,

nas costas venezuelanas, à costa da

Florida, encontramos Paraíso, Matinino,

Ofir, Bimini, o rio Jordão, o Eldorado.


A INVENÇÃO DA AMÉRICA 82

83

Trata-se de um percurso encantatório

sucessivamente transposto para o interior

meridional, mas sempre associado aos

rios e às ilhas. Logo na primeira viagem,

Colombo afirmou ter visto uma ilha

habitada só por mulheres a que chamou

Matinino. Mais não fez que ajustar o mito

das Amazonas a uma ilha onde as mulheres

acorreram à praia à vista das caravelas.

Enrique de Gandía relaciona a convicção

colombina de ter chegado à costa oriental

da Ásia com o baptismo da ilha Matinino,

pois Marco Polo difundira a ideia de que

no Oriente havia uma ilha feminina e

uma ilha masculina. De facto, Colombo

distingue o Caribe (masculino) de

Matinino (feminino). Segundo Gandía,

esta é a principal explicação para a transposição

do mito das Amazonas para a

América. O Eldorado surge pela primeira

vez em 1539, sendo atribuído a Sebastián

de Benalcázar o baptismo de um lugar

com este nome em Nova Granada. Parece

que nesta região um cacique mergulhava

todas as manhãs num tanque e que saía

da água coberto dede ouro. Este

tanque transformou-se, na mitologia dos

conquistadores, num lago localizado

sucessivamente em vários lugares, desde a

Colômbia ao rio Amazonas. Este mito,

que remonta à mitologia grega, atormentou

mentes obcecadas de descobridores e

conquistadores da América, como

Federmann, Jiménez de Quesada,

Benálcazar e Pizarro. A descoberta do

tesouro de Atahualpa viria a configurar o

mito na região do Peru. Avançam os conquistadores,

retrocede o Eldorado, sempre

inacessível. Associado à obsessão pelo

ouro, este foi um dos móbiles da exploração

das profundezas do continente

americano.

O cenário mítico do Novo Mundo

convocou o delírio perante a riqueza

fácil, amplificado pelos relatos dos navegadores

e dos conquistadores desejosos

de acrescentar as suas hostes. A expectativa

e a obsessão, deformando a realidade,

acabaram por suscitar a desilusão. As

crónicas estão repletas de exemplos. Díaz

de Guzmán expressa este contraste: os

espanhóis encontraram na província de

Guairá «umas pedras mui cristalinas»

que se criavam no subsolo e que assumiam

cores diversas, com «tanta diafanidade

e brilho» que pareciam pedras

preciosíssimas. Com esta ilusão, os conquistadores

«acreditaram que possuíam a

maior das riquezas do mundo» e decidiram

deixar esta terra e caminhar para a

costa a fim de partir para Espanha com as

suas famílias.

Se o estado de maravilha corresponde

ao primeiro impacto do contacto com a

Natureza do Novo Mundo, o estado de

desencanto vai-se instalando à medida

que se frustram as expectativas de riqueza

fácil. O êxito militar da conquista e o

sucesso relativo da evangelização não

foram acompanhados de um igual grau

de satisfação individual e colectiva por

parte dos conquistadores e colonizadores.

A luta pelo poder, a iniquidade na repartição

dos saques, o desajustamento entre

as expectativas e a realidade e uma natureza

muitas vezes adversa justificam o

desencanto que as fontes revelam. São

memoriais de conquistadores em que

estes se queixam que «padecem necessidade»,

são cartas de mulheres viúvas ou

de maridos ausentes a reclamar da imensa

saudade. Lope de Vega, no epitáfio do

poeta Medina Medinilla, escreveu «No

mar da América se perdeu a flor e a nata

de nossa época», ideia corroborada por

Gôngora e outros autores. Afogados nos

rios, nos portos ou em mar alto, morreram

muitos marinheiros, capitães, adelantados

e viageiros, muitos dos quais não

sabiam nadar nem tinham alguma vez

visto o mar.

Uma leitura diacrónica do baptismo

do Novo Mundo permite-nos percorrer o

espaço mental dos colonizadores. Se na

fase de descobrimento se baptizou o

Novo Mundo de acordo com critérios

essencialmente míticos e litúrgicos, embora

surjam também critérios de funcionalidade

e evocativos de espaços

ausentes e semelhantes, na fase de conquista

e colonização a toponímia corporiza

a frustração e o desencanto.

A civilização ocidental estava profundamente

marcada pela tradição clássica e


cristã. Logo, a leitura do Novo Mundo era

condicionada por referências culturais e

religiosas profundamente enraizadas. A

necessidade de compreender uma diversidade

geográfica e humana levaria, por um

lado, a uma revisão do conhecimento

divulgado por autores como Mandeville

e, por outro, a um processo de transposição

dos mitos cristãos para um novo

espaço. O mito de Ofir, associado desde

Heródoto a uma terra/deserto de areias

auríferas, é transferido geograficamente

para o Atlântico. Cristóvão Colombo

situa-o no Haiti: «esta ilha é Tharsis, é

Cethia, é Ophir e Ophaz e Cipango, e nós

lhe chamámos Espanhola». Aqui se descobriu

um mundo virgem, como que

recém-nascido, onde

não havia indícios de

velhice. Toda a natureza

se encontrava

num estado de perpétua

juventude. Ofir

e Cibola aparecem

sucessivamente nos

relatos de descobridores,

do Atlântico ao

Pacífico. O mito de

Ofir está ligado ao

Eldorado que mobilizou

numerosos aventureiros que se

sujeitavam aos maiores perigos, movidos

pela obsessão do ouro. O seu rasto ficou

nas crónicas e na toponímia. Sabendo que

cristãos e hebreus acreditavam que o universo

havia sido criado no equinócio da

Primavera, não admira que os primeiros

navegadores julgassem ter chegado ao

paraíso perdido. Daí a sucessão de topónimos

míticos. Era a transmutação de um

mundo ideal, remoto no tempo, para um

mundo remoto no espaço.

A alusão directa ao paraíso é frequente

na toponímia hispano-americana:

Valle del Paraiso, nome atribuído por

Colombo – «e o vale grande onde estão

povoações, e disse que outra coisa mais

formosa não havia visto, por meio do

qual vale vem aquele rio... pus nome ao

vale, Vale do Paraíso» (Colombo, Diário del

primer viaje (1492). Na sua 3.ª viagem,

Colombo chegou à foz do Orinoco e

ficou deslumbrado com a imensidão de

água doce. Julgou ter avistado o Paraíso

«porque o sítio é conforme à opinião

destes santos e sacros teólogos. E assim

mesmo os sinais são muito conformes,

que eu jamais li nem ouvi que tanta

quantidade de água doce fosse assim

adentro e vizinha com a salgada; e nisso

ajuda assim mesmo a suavíssima temperança.

E se dali do Paraíso não sai, parece

ainda maior maravilha...» (Colombo,

1498). Também Vespúcio ficou maravilhado

com a diversidade e a beleza da

paisagem a sul do equador, embora não

fosse partidário dos sonhos obsessivos de

Colombo.

Além do Eldorado, também o mito

das Sete Cidades de

Cibola, frequente na

literatura cristã, se

foi corporizando na

cartografia do descobrimento

do Novo

Mundo. A sua localização

foi-se deslocando

cada vez mais

para terra firme, a

partir das Antilhas.

Em 1520, corriam

notícias de que na

governação de Pedrárias Dávila (América

Central) se havia encontrado uma ilha tão

rica que se poderiam lastrar as naus com

ouro. Os conquistadores acreditavam que

as Sete Cidades regurgitavam de ouro e

outras riquezas. Esta crença reflecte a confluência

dos mitos paradisíacos e de um

imaginário marcado pela ambição e pela

expectativa de felicidade viável, algures,

no espaço ainda desconhecido. Em 1539,

o frade português Marcos de Niza, com

autorização do vice-rei de Nova Espanha,

percorreu o Oeste americano (actual

Novo México) onde afirmou ter encontrado

as Cidades de Cibola. No Islário

General de Alonso de Santa Cruz (1541), as

Sete Cidades já são representadas a norte

do México, último refúgio da lenda em

finais do século XVI. No planisfério

Anónimo – João Baptista Lavanha-Luís

Teixeira (1597-1612) – está inscrito o

topónimo Sete Cidades de Cibola, a


A INVENÇÃO DA AMÉRICA 84

85

nordeste da Califórnia, o que reflecte a sua

busca incessante. Na ilha de S. Miguel

(Açores) subsiste ainda o eco dessa

primeira identificação na Lagoa das Sete

Cidades. Perduram ainda, nomeadamente

na cartografia mexicana, topónimos que

ilustram a emocionalidade dos viageiros:

do deslumbramento – El Encanto, Islas Encantadas,

La Encantada, El Edén, El Delirio,

El Ideal, Las Delicias, Esmeralda, Eldorado

(em Nuevo León, San Luis de Potosí,

Sinaloa), Paraíso (em Campeche, México,

Oaxaca, Yucatán, Querétaro, Quintanaro,

Guanajuato) – ao desencanto – El

Purgatorio, El Infierno, El Triste, El Perdido,

El Olvido, El Imposible.

No campo da evocação, as efemérides

religiosas constituem o principal critério

usado pelos primeiros navegadores.

Cristóvão Colombo usou a nomenclatura

cristã, logo na 1.ª viagem, no baptismo das

terras que avistou: San Salvador, Navidad,

Santa María de Guadalupe, Santa María de

Monserrate, Once Mil Virgens, San Juan

Baptista... Assim também o Brasil, primeiro

«Terra dos papagaios», seria baptizado Terra

de Santa Cruz por Pedro Álvares Cabral,

embora o nome actual, de origem mítica

(Hy Bressail ou Brazil) ou profana, cedo se

impusesse, mau grado o protesto de João

de Barros (1555) e de Pêro de Magalhães

Gândavo (1576). Os conquistadores espanhóis

baptizaram inúmeras vilas e cidades

de acordo com o calendário litúrgico:

Pedro de Alvarado fundou um povoado,

entre o Volcán de Agua e o Volcán de Fuego,

a que chamou Santiago de los Caballeros de

Guatemala, esperando por uma segunda-

-feira, 25 de Julho, para baptizar a vila com

o nome do santo padroeiro de Espanha;

Santa María de la Victoria (em Tabasco), Los

Reyes (Lima, Peru), fundado no dia da

Epifania,Triunfo de la Cruz (Honduras), ou

Santa Cruz (na ilha de Cozumel), Santa Fe

(de Bogotá), Gracias a Dios, Nombre de

Dios, Corpus Christi (no Rio da Prata e no

México), ou Santo Domingo, ou ainda São

Salvador da Baía, São Paulo, Santa Catarina,

São Luís do Maranhão (Brasil). No campo

da simbologia cristã, o calendário litúrgico

foi o principal sistema de referência usado

por navegadores ibéricos. Contudo, os

espanhóis e, em menor grau, os portugueses

não se limitaram à liturgia, adoptando

também os dogmas como critério de baptismo

– Trinidad, Triunfo de la Cruz,

Espíritu Santo, San Salvador, Corpus Christi.

Por vezes, o novo nome concilia diferentes

critérios, como Villa Rica de la Veracruz, na

costa oriental do México: «E logo ordenámos

de fazer e fundar e povoar uma vila,

que se nomeou a Villa Rica de la Veracruz,

porque chegámos quinta-feira da Ceia, e

desembarcámos sexta-feira Santa da Cruz, e

rica por aquele cabaleiro que... se chegou a

Cortés e lhe disse que mirasse as terras

ricas...» (Oviedo).

O viageiro europeu lia o novo à luz do

familiar, pelo que o sistema classificativo

traduz uma gramática percepcional que

evoca a semelhança e a analogia da configuração

externa visível. Os espanhóis foram

prolixos na evocação do espaço ausente: à

ilha de Haiti, ou Bohio, Colombo chamou

La Española porque «A ilha é muito

grande... vi que é toda muito lavrada... este

porto... ao cabo dele tem duas bocas de nós

que trazem pouca água; em frente dele há

umas vegas as mais formosas do mundo e

quase semelhantes às terras de Castela,

antes estas têm vantagem, pelo qual pus

nome à dita ilha a ilha Espanhola»

(Colombo, 1492); na primeira incursão

pelo México, um grupo de portugueses da

hoste de Cortés rebaptizou o povoado de


Ixtac-Imaxtitlán, próximo de Tlaxcala: «e

quando vimos branquear muitas açoteias, e

as casas do cacique e os cues... pareciam

muito bem, como alguns povoados da

nossa Espanha, e pusemos-lhe nome

Castilblanco, porque disseram uns soldados

portugueses que parecia a vila de Castelo

Branco de Portugal, e assim se chama

agora»; Venezuela tem origem nas semelhanças

com Veneza: «quando os espanhóis

descobriram pela primeira vez esta Laguna,

acharam grandes povoações de índios formados

dentro de água por todas as suas

margens; e daqui tomaram motivo para

chamá-la Venezuela, pela semelhança que

tinha a sua planta com a cidade de Veneza;

nome que se estendeu depois a toda a

província...» (Díaz del Castillo). É extensa a

lista de topónimos evocativos de similitude

com espaços ausentes: Cartagena, Nueva

España, Nueva Galicia, Nueva Vizcaya,

Nuevo Reino de Granada, Nova Lusitânia.

As fontes espanholas mencionam

vários referenciais políticos, embora estes

viessem a desaparecer a favor dos nomes

pré-colombinos. Foi Colombo quem baptizou

Cuba de Fernandina, logo na 1.ª

viagem, segundo Oviedo, «em memória do

sereníssimo e católico Rei Dom Fernando...».

Desconhecendo a configuração

real de Cuba, Colombo atribuiu a outra

parte da ilha o nome de Juana, em homenagem

à princesa filha de D. Fernando.

Independentemente do critério adoptado,

o tempo, o espaço, a herança cultural

e a linguagem condicionaram a leitura do

mundo e a incorporação do Novo Mundo

no horizonte intelectual da Europa. A diversidade

nas leituras justifica-se pelo modo

como a tradição, a experiência e a expectativa

se conjugaram na formação e nos interesses

de cada protagonista. Com Fernando

Gil, concluiríamos que o viageiro

europeu de Quatrocentos e Quinhentos representava,

na literatura ou na cartografia,

«colocando tanto o que havia, quanto o que

não havia, no mesmo plano da imaginação

em que a expectativa precede o conhecimento,

a interpretação se sobrepõe à observação

e a analogia neutraliza a diferença».

Tropeço inesperado de um genovês,

invenção de um cosmógrafo alemão a par-

tir das cartas do veneziano Américo

Vespúcio, a América metaforiza a conflitualidade

entre a tradição e a inovação, entre

o Novo e o Velho Mundo. Mas representa

também uma dolorosa caminhada de

viageiros que perseguiram e perseguem

ainda, em ambas as margens do Atlântico,

sonhos, fantasias e expectativas de riqueza,

tão desajustados ontem como hoje. A globalização,

timidamente inaugurada há 500

anos pelos Estados Ibéricos e por outros

europeus que os seguiram, atenuou os

contrastes culturais pela imposição de

padrões de comportamento e de modelos

de organização, mas não eliminou as profundas

barreiras sociais responsáveis pelo

desencanto de tantos emigrantes. O mito

do Eldorado, como metáfora do inatin-

gível, perdura ainda, obsessivamente, na

mente de milhares de homens e de mulheres

que partem para um desconhecido

longínquo em busca de felicidade.

Diversificaram-se as rotas de encanto-desencanto,

manteve-se o espírito aventureiro

dos viageiros de outrora. A diferença reside

na inversão da relação de desequilíbrio: os

«índios» naturais foram submetidos pela

tecnologia dos que chegaram ruidosamente

pelo mar, atordoando-os com o trovejar

dos canhões e o relinchar desvairado

dos cavalos; os emigrantes de hoje chegam

silenciosamente, em pequenas vagas,

disponíveis para todos os sacrifícios em

troca de algum conforto material.

PARA SABER MAIS:

Bernal Díaz del Castillo,

Historia Verdadera de

la Conquista de la

Nueva España. (Ed. Lit. de

Carmelo Sáenz de Santa

María). Madrid: CSIC, 1982

Cristóbal Colón: Textos y

Documentos

Completos. Ed. de

Consuelo Varela. Madrid:

Alianza Editorial, 1992

Edmundo O’Gorman, The

Invention of America.

Bloomington: 1961

Enrique de Gandía, História

de los Mitos y

Leyendas de la

Conquista Americana.

Buenos Aires: Centro Difusor

del Libro, 1946

Fernández de Oviedo, História

General y Natural de

las Indias. (Ed. Lit. de Juan

Pérez de Tudela Bueso).

Madrid: Ed. Atlas, 1992

Juan Gil, Mitos y Utopías

del Descubrimiento. 3

vols. Madrid: Alianza Editorial,

1988

Hernán Pérez de Oliva, História

de la Invención de las

Indias. Bogotá, 1965

J. H. Elliott, El Viejo Mundo

y el Nuevo (1492-1650).

Madrid: Alianza Editorial, 1995

Sérgio Buarque de Holanda,

Visão do Paraíso.

Os motivos edênicos

no descobrimento e

colonização do Brasil.

São Paulo: Editora Brasiliense,

1994


A INVENÇÃO DA AMÉRICA 86

No rasto de Cabral

António Borges Coelho

87

OS NAVEGANTES

Ao lermos os mais antigos relatos de

aportagem à costa brasileira, sentimo-nos

como Noé a olhar da barca. As águas

baixaram, a terra emerge do azul. Começamos

a dar nome às coisas, aos cabos, aos

rios, às plantas, aos animais. Ao nomeá-las,

marcamo-las para a posse. A bordo da arca

vão carneiros, galinhas. Mas outros animais

estão já há milhares e milhões de anos no

terreno.Animais e homens.

Mediada pelos oradores sagrados, a Bíblia

constituía a matriz europeia da história e da

explicação do Mundo. Mas se Noé desembarcou,

lançou as sementes à terra, comeu as

uvas, bebeu o vinho e ficou ébrio, estes

primeiros nautas não chegam como sobreviventes

do dilúvio nem só ao sabor das

águas. Manobram navios veleiros, determinam

vitoriosamente o rumo com a bússola,

a medição da altura do sol e das estrelas,

lêem o não visível caminho nas folhas inventadas

e em correcção das cartas de marear.

Nos primeiros tempos, o Atlântico Sul

é um deserto de água. A todo o momento,

as vagas podem abrir-se e engolir um

navio, o de Vasco de Ataíde, sem nos ficar

um grito, um sinal no murmurar das águas.

Numa viagem de mês e meio, podiam não

avistar uma vela. Mas a armada de Pedro

Álvares Cabral, formada por 13 navios e

1500 homens, era uma das grandes vilas

ou cidades portuguesas que navegava no

Mar Oceano.

Em 1530, Pêro Lopes de Sousa encontrava

uma caravela e um navio que regressavam

das pescarias do Cabo Branco; em

Cabo Verde, uma nau e uma chalupa

castelhanas que pretendiam alcançar o

Maranhão; e, na costa, duas naus francesas

na carga do pau-brasil e uma caravela portuguesa

cujo destino era Sofala, mas

preferiu a caça aos escravos ameríndios. O

Atlântico povoava-se de veleiros.

E, desde cedo, os navegantes têm de

apelar às armas, às de metal e às da fé, para

se precaverem contra os maus encontros. O

perigo não estava só nas tempestades, no

mau estado dos navios roídos pelo gusano,

mas principalmente nos franceses

huguenotes, nos ingleses, nos holandeses e

mouriscos. Jorge de Albuquerque Coelho

embarcou em Olinda na Santo António, em

1565. A nau abriu tanta água que davam à

bomba dia e noite. Depois encontraram

corsários franceses, primeiro junto das

ilhas de Cabo Verde e, mais tarde, ao largo

dos Açores. Os corsários, além de franceses,

incluíam ingleses, escoceses e alguns

portugueses, um deles conhecido de Jorge

de Albuquerque. Este resistiu ao assalto

com as poucas armas que levava, mas o

navio foi entregue pelo piloto, o mestre e

os marinheiros. Maltratados, roubados e

abandonados, sem leme e sem provisões,

andaram três semanas à deriva. Durante

dezassete dias não beberam água. Alguns

morreram de fome. Outros pediram licença

ao capitão para comerem os que morriam.

Jorge de Albuquerque Coelho respondeu

com os olhos rasos de água: enquanto fosse

vivo, tal não havia de consentir e, depois de

morto, que o comessem a ele primeiro.

Os companheiros de Pedro Álvares

Cabral e dos outros capitães que aportaram

ao Brasil eram filhos de camponeses,

capitães, pilotos, mestres, calafates, carpinteiros,

tanoeiros, ferreiros, marinheiros,

fidalgos, frades, mercadores, aventureiros,

degredados, escravos e alguns línguas, como

o piloto Pêro Anes.

Com pilotos, mestres e alguns capitães

capazes de manobrar o quadrante e o

astrolábio, e tantas vezes de sonda na mão


ou dia e noite por baixo da coberta a

bombear a água, estes navegantes obravam

por «experiência verdadeira». Pêro Lopes

de Sousa fez construir em terra dois

bergantins de 15 bancos e na nau uma jangada

em que lançou ferro e a forja para

fazer os pregos necessários ao batel que a

bordo construía. Jorge de Albuquerque

Coelho empenhava-se no fabrico dos pregos

que pregava ainda quentes nas tábuas

do resto da nau Santo António.

As relíquias e os santos esculpidos e

pintados na proa das naus esconjuravam os

demónios e protegiam os nautas contra

todos os perigos. Mas não faltaram prisioneiros,

náufragos, afogados, despedaçados

pelas balas e as espadas ou mortos de

pasmo. Empurrados pela pressa da morte,

se faltava padre, confessavam-se uns aos

outros em altas vozes: Não matarás, matei!

Não roubarás, roubei! Não desejarás a mulher

do próximo, desejei e tomei!

Estes navegadores portugueses têm as

pernas arqueadas de tanto sofrer nas tábuas

os baldões das vagas.Têm olhos de albatroz.

Vêem até ao mais fundo do horizonte.

Nas caravelas e nas naus viajavam também

passageiros invisíveis: os armadores,

os mercadores que fretavam os navios, os

seguradores, os contratadores do pau-

-brasil, do trato dos escravos, o próprio rei

a cuja lei mais ou menos obedecem,

mesmo que a bandeira da Ordem de

Cristo, e não a do rei, ondeie na primeira

missa celebrada no Brasil.

DA TERRA E DOS HOMENS

Os primeiros olhares exprimem espanto,

desconfiança, cálculos do proveito.

Admiram a terra em vários tons. É de

muito bons ares, frios e temperados como

os de Entre Douro e Minho. É a mais

aprazível que jamais cuidei de ver: não

havia homem que se fartasse de olhar os

campos e a formosura deles. Os montes

parecem formosos jardins e hortas, e nunca

eu vi tapeçaria de Flandres tão formosa.

Formosa, formosa. É algum tanto

melancólica, regada de muitas águas, de rios

caudais e do céu; é cheia de grandes arvoredos

que todo o ano são verdes, e montuosa,

principalmente nas fraldas do mar.

Quando os ameríndios saem da sombra

das árvores e caminham pela praia de

Porto Seguro, as imagens vivas trazem à

memória a nudez bíblica e imaginária de

Adão e Eva, cercados pelas bondades do

paraíso terreal. Os portugueses, vestidos,

sentem-se nus. Olham sem vergonha as

vergonhas. É um olhar de homens. Percorre

devagar a nudez das ameríndias que não

temem comparação com as mulheres da

rua Nova de Lisboa e repara que os homens

silvestres não são circuncidados, ao contrário

dos hebreus.

A inocência desta gente é tal, que a de

Adão, em vergonha, não seria maior. Um

ameríndio nu, coberto de penas, lembra o

corpo trespassado de setas de São Sebastião.

Portugueses e ameríndios dançam ao som

do gaiteiro de Diogo Dias e dum tamboril,

de tal maneira confiados «que são muito

mais nossos amigos que nós seus». Mais

amigos porque os europeus já fazem os

seus cálculos: para os convertermos à fé

cristã e, portanto, para os usarmos ao nosso

serviço, não falta mais do que «entenderem-nos»

e não entendermo-nos.

Trinta anos volvidos, Pêro Lopes de

Sousa preserva a ideia da inocência e da

beleza dos ameríndios. Abraçam os portugueses,

choram com as suas desventuras

e ficam tão contentes de os verem que

«queriam sair fora de seu siso».

No primeiro diálogo entre Pedro

Álvares Cabral e os ameríndios, os

europeus usam logo o alfabeto do ouro e

da prata. Não obtêm respostas satisfatórias.

«Até agora não podemos saber

que haja ouro, nem prata, nem nenhuma

cousa de metal, nem de ferro; nem lho

vimos.» Ainda se mostraram esperançados

quando os índios, depois de admirarem o

colar de ouro de Pedro Álvares, acenaram

para terra. Mas Pêro Vaz de Caminha

desconfia que é tomar os desejos pela

realidade. «Isto tomávamos nós por o

desejarmos; mas se ele queria dizer que

levaria as contas e mais o colar, isto não

queríamos nós entender, porque não lhos

havíamos de dar.»

Nas primeiras viagens, estão já presentes

as personagens do futuro: a massa

dos ameríndios, senhores da terra; os


A INVENÇÃO DA AMÉRICA 88

89

pequenos destacamentos portugueses e

europeus; e anónimos, nas equipagens, os

africanos. Não têm nome mas estão lá.

Até ao final do século XVI, o confronto

principal será entre as comunidades ameríndias

e os europeus que chegavam nos seus

veleiros em busca do pau-brasil e dos

escravos.

Nos primeiros tempos, a atracção

maior provinha das comunidades ameríndias.

Pedro Álvares Cabral deixou na terra

dois degredados, a que se juntaram dois

grumetes fugitivos. O mesmo aconteceu

na armada de Martim Afonso de Sousa.

João Ramalho, o povoador de Piratininga,

vivia rodeado das suas mulheres índias, filhos

e netos. No Rio de Janeiro, alguns

franceses da França Antárctica adoptaram o

viver dos índios, incluindo nalguns casos a

prática da antropofagia. Os clérigos concubinavam.

O sertão estava cheio de filhos de

cristãos, grandes e pequenos, machos e

fêmeas que viviam e se criavam nos costumes

do gentio, escrevia o padre Manuel

da Nóbrega.

A partir de meados do século, quando

começa a desenvolver-se a nova sociedade, a

visão europeia dos ameríndios sofre conotações

extremamente negativas, em boa

parte devidas à prática da antropofagia, à

poligamia e à recusa dos moldes europeus.

Manuel da Nóbrega chama-lhes «negros»,

embora não seja essa a cor da sua pele.

Mesmo cristianizados, não perdem de todo

a qualidade de negros. A princípio, o padre

ainda ridiculariza os seus irmãos de

Coimbra que se escandalizavam com a

nudez das ameríndias: «por falta de algumas

ceroulas não deixa uma alma de ser cristã e

conhecer a seu Criador e Senhor e dar-lhe

glória». Mas, mais tarde, levanta dúvidas aos

letrados do Colégio de Coimbra: «parece

que andar nu é contra lei de natura e quem

a não guarda peca mortalmente». No Diálogo

sobre a Conversão do Gentio, o irmão Gonçalo

Alvarez afirma que algumas pessoas avisadas

levantavam a questão de saber se os ameríndios

eram nossos próximos, duvidando

mesmo se seriam humanos. Responde-lhe o

irmão Mateus Nogueira, ferreiro pelo ofício:

todo o homem é uma mesma natureza

e pode conhecer Deus e salvar a sua alma.

O elogio da inocência e a visão negativa

prosseguem nos textos jesuíticos. Num

desabafo, o padre José Anchieta declara os

ameríndios mais próximos da natureza dos

animais selvagens que da dos homens. No

entanto, o padre Fernão Cardim, que confessava

índios e índias por meio de intérprete,

considerava-os candidíssimos e com

menos pecados do que os portugueses.

Esta visão contraditória tem a ver com a

maior ou menor resistência dos ameríndios

à integração na nova sociedade onde os

jesuítas pretendiam desempenhar um papel

dominante. «A idade de ouro chegará ao

mundo austral», escreve o autor anónimo

do poema «De rebus gestis Mendi de Saa».

Evidentemente, «quando os povos do Brasil

observarem as tuas leis».

À MANEIRA DE HARPA

O rosto da terra aparece figurado logo

em 1502 no mapa português chamado de

Cantino que sobre ela pinta papagaios vermelhos.

Outros mapas vão desvendando a

terra, os índios e o seu trabalho na recolha

do pau-brasil. Por volta de 1506, Duarte

Pacheco Pereira mede a costa desde a angra

de S. Roque, a 3 graus e 30 minutos a sul do

equador, até à ilha de Santo Amaro em 28

graus e 30 minutos. Este será o cenário fundamental

da nova sociedade no século XVI.

E anota já o cabo de Santo Agostinho, o rio

de S. Francisco, a aguada de São Miguel, o

Porto Real, a Angra de Todos-os-Santos,

Porto Seguro, o rio de Santa Luzia, a ilha de

Santa Bárbara, o rio dos Reféns, a ilha de

Santa Clara, o Cabo Frio, a ilha de Fernão e a

ilha de Santo Amaro. Esta notação da costa

brasileira liga-se à notação da carreira da

Índia: ilha da Ascensão, Angra Formosa e a

índica ilha de São Lourenço.

Numa cartografia de palavras, escrita

pelo ano de 1575, o humanista Pêro de

Magalhães Gândavo descreve deste modo a

Província de Santa Cruz: «Está situada

naquela grande América, uma das quatro

partes do Mundo. Dista o seu princípio dois

graus da Equinocial para a banda do Sul e

daí se vai estendendo para o mesmo sul até

quarenta e cinco graus. Está formada à

maneira de uma harpa. Pela banda do Norte

corre do Oriente a Ocidente e está olhando


a Equinocial. Pela do Sul confina com outras

províncias da mesma América, povoadas e

possuídas de povo gentílico com que ainda

não temos comunicação. Pela do Oriente

com o Mar Oceano Áfrico e olha direitamente

os reinos de Congo e Angola até o

Cabo da Boa Esperança que é o seu opósito.

E pela do Ocidente confina com as altíssimas

terras dos Andes e fraldas do Peru.»

O mar assegurava a unidade do território.

O Oceano e os rios eram as estradas

naturais, sulcadas no final do século por

alguns milhares de embarcações, sem contar

os navios grandes e mais pequenos que

atravessavam o Mar Oceano. Todas as fazendas

se serviam por mar. Não havia engenho

que não possuísse quatro ou mais embarcações.

Em 1587, só na Baía, podiam juntar-

-se 1400 barcos, assim distribuídos: 100, de

45 para 70 palmos de quilha, muito fortes,

que podiam levar 2 falcões por proa e 2

berços por banda; 800, de 35 a 44 palmos

onde pode jogar, no mínimo, 1 berço por

proa; 300 barcos, de 34 palmos para baixo,

e 200 canoas bem rumadas.

No final do século, a nova sociedade

ainda ficava presa ao litoral e ao território

ligado pelas estradas fluviais. A cunha mais

avançada em direcção ao interior era a vila

de Piratininga.

Devido às condições naturais e à sua

posição estratégica que lhe permitia um

acesso mais rápido a Lisboa, Pernambuco

constituía zona de maior desenvolvimento,

seguido pela Baía onde se fixava o Governo-

-Geral. A capitania de S. Vicente e mesmo a

do Rio de Janeiro queixavam-se de dificuldades

de escoamento da sua produção por

os navios do reino aportarem com menos

regularidade. Ao visitar a vila de Piratininga,

Fernão Cardim registou que os moradores

se vestiam de burel e pelotes pardos e azuis,

de pertinas compridas, como antigamente,

o que contrastava com as sedas, os damascos

e os luxos das mulheres de Olinda.

Em 1590, a nova sociedade estendia-se

da Paraíba a Santo Amaro e poderia contar,

segundo um estudo recente, com 101 705

habitantes, dos quais 30 855 eram portugueses,

28 600 eram índios escravos ou

vivendo nos aldeamentos dos jesuítas, e

42 250 africanos. As capitanias mais

povoadas eram a de Pernambuco com

31 000 habitantes, a da Baía com 29 850, e

a do Espírito Santo com 11 900. O Rio de

Janeiro, com 5240 moradores, distanciava-se

de São Vicente/Santo Amaro com 10 100, e

do Espírito Santo, com 7595.

Os números indiciam uma baixa integração

dos ameríndios na nova sociedade,

embora no total dos portugueses se contassem

muitos mestiços de mães ameríndias

e africanas. A maior parte dos habitantes

de Piratininga eram filhos de índias e

de portugueses.

Gabriel Soares de Sousa escreveu que a

vila de Olinda e o seu termo poderiam pôr

em campo mais de 3000 homens de peleja,

entre os quais 400 de cavalo, a que juntariam

4000 a 5000 escravos de Guiné e

muitos gentios da terra. Pelo seu lado, em

1583, Fernão Cardim atribuiu à Baía, certamente

à cidade e ao termo, 3000 vizinhos

portugueses, 8000 índios cristãos e 3000 a

4000 escravos da Guiné. Pernambuco liderava

a produção açucareira, a Baía constituía

o centro político do território e, porventura,

a principal praça mercantil e financeira,

como sugerem os valores das letras de

câmbio do mercador Miguel Dias Santiago.

As letras da Baía sobre Lisboa, entre 1596 e

1599, elevavam-se a 7 925 398 reais, enquanto

as de Pernambuco sobre Lisboa,

entre 1599 e 1601, se ficavam pelos

3 272 099. Por outro lado, as letras da Baía

sobre Pernambuco, ainda nos anos de 1596

a 1599, somaram 1 055 440 reais, enquanto

as de Pernambuco sobre a Baía, entre os anos

de 1599 e 1601, se ficaram pelos 201 500.

O mercador movimentou ainda, entre 1599

e 1601, 434 760 reais de Pernambuco sobre

a praça do Porto e 55 000 reais de Pernambuco

sobre Viana.

Demograficamente, que outra cidade,

com excepção de Lisboa, e do ponto de

vista financeiro, com excepção de Lisboa e

Porto, se poderia ufanar do peso humano e

de fortunas de 10 000 a 80 000 cruzados,

incluídos 100 a 300 escravos, como alguns

moradores de Olinda e da Baía? Gândavo lá

tinha as suas razões quando incitava os portugueses

a demandarem o Brasil: Deus

tinha de há muito reservada esta terra à

Cristandade.

PARA SABER MAIS:

Frédéric Mauro, Le Portugal,

le Brésil et l’Atlantique

(1570-1670), Paris,

Fundação Calouste

Gulbenkian, 1983

Gabriel Soares de Sousa,

Notícia do Brasil, Lisboa,

Publicações Alfa, 1989

Jorge Couto, A Construção

do Brasil, Lisboa,

Edições Cosmos, 1995

Pêro de Magalhães Gândavo,

História da Província

Santa Cruz a que

vulgarmente

chamamos Brasil,

ed., fac-similada, Lisboa,

Biblioteca Nacional, 1984

Pêro Vaz de Caminha,

Carta a El-Rei

D. Manuel,

ed. de M. Viegas Guerreiro

e Eduardo Nunes, Lisboa,

Imprensa Nacional-Casa

da Moeda, 1974


A INVENÇÃO DA AMÉRICA 90

Carta do Novo

Mundo

Ao serviço de D. Manuel, Américo Vespúcio realizou

uma viagem ao litoral sul-americano, em 1501, tendo

desembarcado em Terra Firme, algures entre a Vene-

zuela e o Brasil, e permanecido 27 dias com os índios

do Brasil. Ressaltam, da carta que escreveu ao chegar a

Lisboa, o deslumbramento pela Natureza edénica e a

surpresa por tanta diversidade.

91

Américo Vespúcio escreve, de Lisboa, a Lorenzo di Pierfrancesco de’ Medici, em Florença


[...] Esta tierra es muy amena y llena

de infinitos árboles verdes y muy grandes,

y nunca pierden la hoja, y todos tienen

olor suavísimo y aromático, y producen

infinitisimas frutas, y muchas de ellas

buenas al gusto y salutíferas al cuerpo. Los

campos producen mucha hierba, flores y

raíces muy suaves y buenas, que alguna

vez me maravillaba del suave olor de las

hierbas y flores, y del sabor de estas frutas

y raíces, tanto que entre mí pensaba estar

cerca del Paraíso Terrenal: entre todos estos

elementos hubiera creído estar cerca

de él. ¿Qué diremos de la cantidad de los

pájaros y de sus plumajes y colores y cantos,

y cuantas especies y de cuanta hermosura

(no quiero alargarme en esto porque

dudo ser creído)? ¿Quién podría enumerar

la infinita cosa de los animales silvestres,

tanta copia de leones, onzas, gatos,

no ya de España, sino de las antípodas,

tantos lobos, cervales, babuinos y macacos

de tantas suertes y muchas sierpes grandes?

Y vimos tantos otros animales, que

creo que tantas suertes no entrasen en el

arca de Noé, y tantos jabalís y corzos y

ciervos y gamos y liebres y conejos; y animales

domésticos no vimos ninguno.

Volvamos a los animales racionales.

Encontramos toda la tierra habitada por

gente toda desnuda, así los hombres como

las mujeres, sin cubrirse vergüenza ninguna.

Son de cuerpo bien dispuesto y proporcionados,

de colores blancos y de cabellos

largos y negros, y de poca barba o

ninguna. Mucho trabajé para conocer su

vida y costumbres, porque 27 días comí y

dormí entre ellos, y lo que conocí de ellos

es lo que sigue enseguida.

No tienen ni ley ni fe ninguna, viven

de acuerdo a la naturaleza, no conocen la

inmortalidad del alma. No tienen entre

ellos bienes propios, porque todo es común;

no tienen límites de reinos ni de

provincia, no tienen rey ni obedecen a nadie:

cada uno es señor de sí mismo. No

administran la justicia, la que no les es necesaria,

porque no reina entre ellos codicia.

Habitan en común en casas hechas a la

manera de cabañas muy grandes, y para

gentes que no tienen hierro ni otro metal

ninguno, se pueden considerar sus caba-

ñas, o bien sus casas, maravillosas, porque

he visto casas de 220 pasos de largo y 30

de ancho, y construidas con arte, y en una

de estas casas hay 500 o 600 almas. Duermen

en redes tejidas de algodón, colgadas

en el aire sin otra cobertura; comen sentados

en el suelo: sus viandas son muchas

raíces y hierbas y frutas muy buenas, infinito

pescado, gran copia de mariscos, erizos

y cangrejos de mar, ostras, langostas,

camarones, y muchas otras cosas que produce

el mar. La carne que comen, máxime

la común, es carne humana, del modo que

se dirá. Cuando pueden tener otra carne

de animales o de aves, se la comen, pero

toman pocos, porque no tienen perros, y

la tierra está muy poblada de bosques, los

cuales están llenos de fieras crueles, y por

eso no acostumbram internarse en los

bosques, si no es con mucha gente.

[...] En cuanto a la disposición de la

tierra, digo que es tierra muy amena y

templada y sana, porque durante el tiempo

que anduvimos por ella, que fueron 10

meses, no sólo no murió ninguno de nosotros,

sino que pocos se enfermaron: como

he dicho, ellos viven mucho tiempo, y

no sienten enfermedad de peste ni de corrupción

del aire, excepto de muerte natural

o causada por su mano o sofocamiento;

y en conclusión, los médicos tendrían

un mal pasar en tal lugar.

Encontramos infinito brasil y muy

bueno para cargar cuantos navíos están

hoy en el mar, y sin costo alguno, y lo

mismo de cañafístula. Vimos cristal e infinitos

sabores y olores de especiería y droguería,

pero desconocidas. Los hombres

del país dicen sobre el oro y otros metales

y droguerías muchos milagros, pero yo

soy de aquellos de Santo Tomás: el tiempo

hará todo.

[...]

Lisboa, 1502

Amerigo Vespucci, Cartas de

viaje, Madrid, Alianza Editorial,

1986


A INVENÇÃO DA AMÉRICA 92

93

Desassossego

de uma mãe

ausente

Os emigrantes ibéricos na América mantinham com

os amigos e familiares ausentes uma relação afectiva

reafirmada nas cartas que circulavam para cá e para

lá. Para nós, leitores, desvendar o mundo dos afectos e

das inquietações desses homens e dessas mulheres que

partiram movidos pela fortuna, mas desejosos de

reagrupar a família, é uma viagem ao fundo das

emoções. Eis uma carta de uma mãe espanhola,

emigrante no Panamá, para a filha, recém-casada

com um livreiro em Valladolid.


Panamá, 9 de Maio de 1578

Amados hijos:

Vuestras cartas he recibido, las unas

con mi hermano Hernando Pecero y las

otras con Juan Jiménez del Río, el cual está

al presente en esta ciudad y os escribe. En

lo que, hija, me enviáis a decir habéis pasado

y pasáis mucho trabajo, yo estoy informada

que será así, y duéleme tanto y hame

dolido que no sé cómo lo signifique. Para

eso nacimos en este mundo, para pasar trabajo,

y que si yo significase los que he pasado,

son hartos, pero con ser las gentes

buenas y virtuosas Dios se acuerda de ellas

a las mayores necesidades. Pésame que

vuestro tío haya usado tantas crueldades

con vos; débelo haber hecho no haber vos

sabido llevarle la voluntad. Como quiera

que sea, es vuestra sangre, y habéis de sufrirle

como vuestro padre, pues no conociestes

otro. A las buenas y a los buenos da

Dios trabajos en este mundo, y se acuerda

de ellos. Y así, hija mía, os ruego que no

tengáis odio con vuestro tío, sino que lo

obedezcáis como a padre, y le tengáis como

a señor, si él no hiciere lo que debe o

no lo ha hecho. Es menester que perdáis

ese rencor, y no os acordéis de nada, sino

entender que Dios os hace mucha merced,

y que no naciesteis en su hucia [?], sino en

la de Dios, que es padre de todos.

Escribísme sois casada con un librero,

hombre de bien, y que estáis pobre y pasáis

trabajos. De que vos tengáis buen marido

me da mucho contento. Que no sea rico, si

es virtuoso y hombre de bien y buen cristiano,

Dios le hará la hacienda, mayormente

que, pues Dios me ha dado vida hasta saber

de vosotros, espero en Su Divina Majestad

me la dará hasta veros muy bien remediados.Y

así es mi determinación que, vista ésta,

procuréis que vuestro marido saque licencia

del Consejo Real para poder venir a

estas partes y al Perú, y, sacada, vendáis las

heredades que vuestro tío os dio, y os vengáis

hasta Sevilla, donde es mi voluntad de

que estéis hasta que tengáis orden de lo

que habéis de hacer.Y para esto os escribirá

mi marido y vuestro señor, y os enviará alguna

plata. Lo que os enviare tendréis en

mucho, y sabréislo gobernar asentándolo a

las espaldas de vuestra carta de dote, y escribiendo

luego el recibo de ello.Y aunque

sea poco, tenedlo en mucho, porque quien

os ha de dar siempre y remediaros como a

hijos, es menester que vaya sabiendo vuestro

marido lo que vale el real. Y venidos

acá, Dios queriendo, os remediaremos y

daremos orden en vuestras vidas.Y para esto

escribe el señor Juan del Río una memoria

cómo os habéis de guiar, para que no

erréis en lo que os conviene y cumple para

vuestro buen aviamiento. Dios lo encamine

como puede y os me deje ver con bien, y

veros y remediaros y debajo de mi ala.

Esta sirva para vos y para vuestro marido.Yo

os ruego, hija, que, pues habéis sido

mujer honrada, y tales nuevas tengo de

vos, que tengáis siempre delante de los

ojos esta honra, queriendo siempre bien a

vuestro marido, ausente y presente, y estimándole

en mucho. Y a él digo por ésta

que le tengo por hijo y me huelgo esté casado

con vos, y le ruego os trate bien y

honradamente, apartándose de malas compañías,

y procurando de hacer como hombre

honrado.Y haciéndolo así, lo tendré en

mucho y lo estimaré, aunque sea más pobre

que puede ser, porque las virtudes sobrepujan

a las riquezas.

Así que, hijos, no os tengo más que os

avisar, sino que, gloria a Nuestro Señor, tengo

salud, y vuestro señor padre también la

tiene, y vuestros hermanos y todos se os

encomiendan y ruegan a Dios os tenga de

su mano y os me deje ver con bien. Decirme

tenéis un hijo y nieto mío, y no me enviáis

a decir cómo se llama ni qué edad tiene.

Avisarme eis de todo y escribiéndole a

vuestro señor padre, y respondiéndole. Y

con tanto Nuestro Señor os me guarde por

muchos años, amén.

De Panamá, y a 9 de mayo de 1578

años, vuestra madre, que vuestra honra y

descanso desea,

Francisca de Trujillos

Vuestra hermana os quería enviar

unas joyas de oro: por no haber de quien

fiarlo, no os lo envía. Cuando vengáis acá

lo gozaréis.

(Para los muy deseados hijos Diego

de Torres y Juana de Trujillos, en la calle de

la librería, en Valladolid)

Enrique Otte, Cartas

Privadas de

Emigrantes a Indias

(1540-1616), Sevilla,

EEHAA, s.d.


A INVENÇÃO DA AMÉRICA 94

Nuestra America

es vasta y intricada

Pablo Neruda*

95


Entre los invasores de Méjico –oscuros aldeanos,

braceros del campo, forzados, aventureros

y fugitivos – había un joven soldado llamado

Bernal Díaz del Castillo, el cual escribió

sus memorias en edad ya bastante avanzada,

cincuenta años más tarde, siendo consejero

municipal en la América Central. He visto, he

tenido en mis manos y he leído el enorme

manuscrito, asegurado con una cadena a una

mesa, al alcance de todos, en el municipio de

Guatemala. Es curioso ver encadenado ese

gran libro, escrito con una caligrafía clara y

esmerada, quizá por alguno de aquellos copistas

que abundaban en España, dictado posiblemente

por el viejo soldado, desde su sillón

o desde el fondo de la cama, pero, desde luego,

desde el fondo, de la increíble verdad.

Bernal, a pesar de su edad, tenía una memoria

que podía facilitarnos los nombres de los

caballos y de las yeguas y de cada uno de los

hombres, que siguieron a Hernán Cortés.

[...] Aunque discutible, lo cierto es que

aquel esplendor fue aniquilado por la sangre

y las sombras. Hombres y vestiduras, templos

y construcciones, dioses y reyes, todo fue devorado,

destruido y sepultado. La Conquista

fue un gran incendio. Los conquistadores de

todos los tiempos y todas las latitudes reciben

un mundo vasto y resonante, dejan un planeta

cubierto de cenizas. Siempre ha sido así. Nosotros

los americanos, descendientes de aquellas

vidas y de aquella destrucción, hemos tenido

que excavar, para buscar debajo de las

cenizas imperiales las gemas deslumbradoras

y los colosales fragmentos de los dioses perdidos.

O también hemos tenido que mirar a las

alturas: a veces una torre de los antiguos

tiempos, venciendo el miserable paso de los

siglos, eleva su orgullo sobre el continente.

Porque yo distingo el arte subterráneo y el

arte de los espacios abiertos de los antiguos

americanos. Y ésta es mi propia manera de

conocerlos y comprenderlos.

Cuando, en años ya lejanos, vivía exiliado

en la Ciudad de Méjico, vinieron dos extraños

visitantes con la pretensión de venderme su

mercancía: traían un voluminoso paquete, envuelto

en pringoso papel de periódico, que

desatamos y abrimos allí, en mi mesa de despacho.

Había centenares de figurillas de oro,

acaso chimúes, chibchas o chiriquíes: un tesoro

que palpitaba sobre mi pobre mesa con

el fulgor amarillo del pasado. Eran pendientes,

anillos, pectorales, insignias, figuras de

pececillos, de extrañas aves, eran estrellas abstractas,

círculos, líneas, discos, mariposas. Por

aquella maravilla me pidieron doce mil dólares,

cantidad que yo no poseía. Este tesoro lo

habían encontrado trabajando en una carretera,

entre Costa Rica y Panamá. Y se apresuraron

a sacarlo del país para venderlo en cualquier

lugar. Abandonaron mi casa con su tesoro

bajo el brazo, envuelto en periódicos viejos,

y ya no he sabido a donde fueron a parar

aquellos peces, aquellas mariposas, aquellos

destellos de oro.

[...] Nuestra América es vasta e intrincada.

Y a lo largo de su línea espiral, a lo largo

de sus desmesurados ríos, debajo de los

montes y en los desiertos, e incluso en las

calles de las ciudades recientemente excavadas

y puestas al descubierto, aparecen todos

los días estos testimonios de oro. Son estatuillas

antropomorfas, aztecas, olmecas,

quimbayas, incas, chancayas, mochicas, nazcas,

chimúes. Son millones de vasijas de cerámica

y de madera, enigmáticas figuras de

turquesas, de oro, trabajadas, tejidas: son

millones de obras maestras rituales, figurativas,

abstractas. Son escuelas y disciplinas, estilos

excelsos, que representan la crueldad, la

adoración, la humillación, la tristeza, la locura,

la verdad, la alegría. Todo un mundo que

palpitaba con las grandes fiestas desaparecidas

en torno a los enigmas de la vida y de la

muerte, con los acontecimientos que alimentarán

la poesía y la teogonía, en homenaje a

la resurrección y consagración de la primavera,

con su infinita sabiduría sexual, con el goce

de la tierra en todas sus tentaciones y sus

frutos, o ante el misterio del silencio absoluto

y de las posibles resurrecciones. Nuestros

museos de Méjico, de Colombia y de Lima

están repletos de estas figuras, que jamás fueron

degradadas ni aniquiladas bajo tierra.

Precipitadamente fueron arrebatadas, sepultadas

a lo largo de un camino cualquiera, fueron

excomulgadas en todos los púlpitos coloniales,

y al igual que sus creadores fueron

perseguidas por centuriones y matarifes. Mas,

debajo de la tierra y del agua, tras siglos de

oscuridad, continúan apareciendo, continúan

dando su imperecedero testimonio de múltiple

grandeza.

* Excerto do texto escrito por

Neruda para a apresentação

do livro Civilización

Andina, de Roberto Magni e

Enrique Guidoni, Valência,

Mas-Ivars, 1972


A SEDE DO SUL 96

Pisco

Sonia Tello Rozas

97


Baco. Jan van der Straet [BN, EA 15 (42) P.]

Nos últimos anos, com alguma

indolência, eclodiu uma

guerra entre produtores e comerciantes

de aguardente chilenos

e peruanos. Não se trata da

Guerra do Pacífico em que os

chilenos saíram airosos e triunfantes,

é a Guerra do «pisco».

Até agora não houve mortos

nem feridos. Mas as batalhas sucedem-se

em distintos cenários

e em regiões que não respeitam

os espaços tradicionais. Falemos

delas.

Há já muito tempo que o

Chile registou nos organismos

internacionais a palavra «pisco»

como produto chileno. A ousadia

tinha um objectivo: comercializar

um produto, neste caso a

aguardente de uva com as características

químicas definidas segundo

os critérios requeridos

pela legislação internacional em

matéria de produção vinícola.

Não se falou muito no Peru

quando o país vizinho obteve o

galardão. Mas, pouco a pouco,

os produtores peruanos foram

tomando consciência do que se

estava a passar. E, de repente,

lançaram-se no campo de batalha

com a única arma que tinham

ao seu alcance: a multicentenária

tradição de fabrico de

aguardente de qualidade indiscutível

e de excelente sabor. E

nesse pé de guerra estamos.

O certo é que a palavra

«pisco» é peruana, isto é, de

origem quéchua, que pode ser

traduzida por «pássaro». Mas é

também o nome da cidade e do

porto de mar que estão situados

a sul da capital, Lima. O porto

de mar, Pisco, deu o nome ao

produto exportado, a aguardente,

e as terras da região, o húmus

necessário para o sabor e

os cheiros específicos dos mostos

de uva. Ao transformarem o

«pisco» em produto chileno, os


A SEDE DO SUL 98

Tinalhas de pisco com formas pré-colombinas

99


vizinhos do Sul, de certo modo,

invadiram um território com

nome e tradição. Mas não conseguiram

o que, geralmente, se ganha

numa batalha: a honra e a

fama. Os últimos acontecimentos

são prova disso. E o «pisco»

peruano ganhou ultimamente

vários concursos internacionais

em que não faltaram concorrentes

famosos e reconhecidos. Este

ano, na Praça de Bruxelas e também

em França.

Tenho a impressão que foi o

sabor tão fácil de reconhecer do

«pisco» peruano que derrotou a

química falácia do produto chileno,

que se vende já elaborado em

garrafas pouco elegantes. O

marketing não é todo-poderoso. E,

neste caso, o gosto e o sabor foram

capazes de derrotá-lo. A uva

«quebranta» é deliciosa. Dá um

perfume muito especial ao mosto.

A uva «itália» é uma Nossa

Senhora. Das adegas de Ocucaje,

saem uns aromas nunca vistos,

ardentes e voluptuosos. E os

alambiques das vinhas Tacama

destilam umas aguardentes, sendo

a mais famosa a que tem o

nome de Demónio dos Andes,

para honrar o que foi um dos

primeiros conquistadores que se

revoltou contra o próprio rei de

Espanha.

Não há, nos anais do «pisco»

peruano, aguardentes velhas

ou, pelo menos, não são

muito conhecidas. Existem algumas

fabricadas em alambiques

artesanais.

As mais conhecidas e populares

vêm do Sul, como aliás toda

a produção pisquenha. Uma

região que confina com a fronteira

chilena é reconhecida como

famosa nesses produtos envelhecidos

em casco de carvalho:

Moquegua.

Era uma região famosa durante

a Colónia e, no século XVII,

já produzia uva de grande qualidade.

Diz-se que os vinhos generosos,

que então se produziam,

competiam com os bons vinhos

de Jerez de la Frontera. Com a filoxera,

desapareceu a maior parte

da produção. Já avançado o século

XX, os vinhedos voltaram à região

e, hoje em dia, há excelentes

mostos moqueguanos. Com eles

renasceram também as antigas

tradições de aguardentes velhas,

com laivos de doçura e fragrâncias

de mel.

O certo é que o «pisco» acabou

por impor-se ao Peru e ao

mundo. Há tradições literárias

que relatam como as festas tanto

em Lima como nas regiões do

Sul, Ica, Arequipa, Moquegua,

contavam sempre com a presença

inevitável da aguardente pisqueira.

Ricardo Palma, o grande contista

peruano do século XIX, recorda-se

das grandes festas do

Natal em que a bebida por excelência

era o «pisco». Os serões

terminavam sempre com dança e

«pisco». E como as autoridades

decidiram um dia aplicar um imposto

à aguardente, o povo revoltado

cantou: «Santa Rosa de Lima,/¿Como

consientes/que un

impuesto le pongas/al aguardiente?»

Hoje já vai sendo costume

oferecer aos convidados um bom

«pisco sour» antes que cheguem

os pratos de comida. E também é

frequente ver tomar um «pisquinho»

após as refeições, como na

Europa um bom cognac ou uma

aguardente velha com o café. É

uma boa maneira de terminar

com chave de ouro um saboroso

ágape. E com o «pisco» a saúde

está garantida. Assim canta o povo:

«Eso es lo que no se explica/no

miro claro, estoy bizco;/pero

la razón me indica/que

nadie se muere en Ica/estando el

remedio en “pisco’’.»


SINAIS DE FUMO 100

Dos tabacos

ou fumaças dos índios

no Haiti no século XVI

segundo

um cronista

espanhol

Os sinais de fumo surpreenderam os navegadores espanhóis

logo nas Antilhas. Fumar era um devaneio dos índios, para

os europeus um vício. Os efeitos inebriantes das fumaças fi-

zeram do tabaco um produto valioso para colonizadores da

América Central e do Norte,numa perfeita e lucrativa conju-

gação do ócio com o negócio. O cronista espanhol Gonzalo

Fernández de Oviedo, em 1535, descreve o tabaco e os rituais

do fumo no Haiti.

101


Usavam os índios desta ilha, entre

outros vícios, um muito mau, que é o de

tomar fumaças, que eles chamam tabaco,

para sair do sentido. E isto faziam com o

fumo de certa erva que, ao que pude entender,

é da qualidade do meimendro;

mas não daquele feitio ou forma, segundo

parece, porque esta erva é um talo ou

pimpolho com quatro ou cinco palmos,

ou menos, de altura, e com umas folhas

largas e grossas e macias e velosas, e o

verdor assemelha-se algo à cor das folhas

da língua-de-vaca (ou buglossa, assim

chamada pelos herbolários ou médicos).

Esta erva a que me refiro, de alguma maneira

ou género, é semelhante ao meimendro.

A qual tomam desta maneira: os

caciques e homens principais tinham uns

pauzinhos ocos, do tamanho de um jeme*,

ou menos, da grossura do dedo mindinho,

e estes canudos tinham dois canhões

respondentes a um, e tudo numa peça. E

punham os dois nas narinas, e o outro no

fumo e erva que estava ardendo ou queimando-se;

e estavam muito lisos e bem

lavrados. E queimavam as folhas daquela

erva, amarrotadas ou envoltas, do modo

que os pagens cortesãos costumam deitar

as suas fumaças; e aspiravam o fumo para

si, uma e duas e três e mais vezes, quanto

o podiam porfiar, até que ficavam sem

sentidos, muito tempo, estendidos no

chão, ébrios, ou adormecidos de um grave

e pesado sono. Os índios que não tinham

aqueles pauzinhos tomavam aquele

fumo com uns cálamos ou caninhas de

carriços, e a esse dito instrumento com

que tomam o fumo, ou as ditas caninhas,

chamam os índios tabaco, e não a erva

ou o sono que os toma (como pensavam

alguns).

Esta erva, tinham os índios por coisa

muito apreciada e criavam-na nas suas

hortas e lavouras, para o dito efeito; dando-se

a entender que tomar aquela erva e

defumadoiro não só era coisa sã, mas

também coisa santa. E logo que o cacique

ou principal cai no chão, tomam-no as

suas mulheres (que são muitas) e deitam-

-no na sua cama ou rede, se ele assim o

mandou antes de cair; mas se não o disse

antes de cair, não quer senão que o dei-

xem ficar assim, no chão, até que lhe passe

aquela embriaguez ou adormecimento.

Eu não posso pensar que prazer se

obtém de tal acto, a não ser da gula do

beber, que primeiro o fazem antes que tomem

o fumo ou o tabaco; e alguns bebem

tanto de certo vinho que eles fazem,

que antes que se defumem caem bêbedos;

mas quando se sentem cansados e fartos,

acodem a tal perfume. E muitos também,

sem que bebam demasiado, tomam o tabaco

e fazem o que é dito, até caírem de

costas no chão, mas sem náuseas, só como

homem adormecido. Sei que alguns

cristãos já o usam, em especial alguns que

estão tocados pelo mal das bubas, porque

dizem que esses, no tempo em que estão

assim enlevados, não sentem as dores da

sua enfermidade. Não me parece que isto

não seja outra coisa senão estar morto em

vida, aquele que tal faz; o qual tenho por

pior que a dor de que se escusam, pois

não se curam com isso.

Presentemente, muitos negros dos

que estão nesta cidade e em toda a ilha

tomaram o mesmo costume e criam nas

fazendas e herdamentos dos seus amos

esta erva, para o que foi dito, e tomam as

mesmas fumaças ou tabacos; porque dizem

que quando deixam de trabalhar e

tomam o tabaco se lhes tira o cansaço.

Aqui me parece que quadra um costume

vicioso e mau que a gente da Trácia

usava entre os seus criminosos vícios, segundo

Abulensis escreve sobre Eusebio De

los tiempos, onde diz que têm todos por costume,

varões e mulheres, de comer à volta

da fogueira, e que folgam muito de estar

embriagados, ou de o parecer; e que como

não têm vinho, tomam sementes de algumas

ervas que há entre eles, as quais, lançadas

nas brasas, dão de si um tal aroma

que embriagam todos os presentes, sem

beber. Em meu parecer, isto é o mesmo

que os tabacos que estes índios tomam. Traduzido de Gonzalo Fernán-

dez de Oviedo, História

General y Natural de

las Indias, Libro V, Cap.

II, Sevilha, 1535

* Distância máxima entre o polegar

e o indicador


Estádio Centenário

de Montevideu

Arón Mazas

ESTÁDIO DE SÍTIO 102

103

Nos últimos anos do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, começou a desenvolver-se no Uruguai

uma actividade que depressa ocuparia um lugar central na vida social e cultural do povo uruguaio.

O futebol ultrapassou o âmbito desportivo para se tornar um elemento-chave da história do país.

Rapidamente, o Uruguai

afirmou-se como uma inigualável

potência nesta modalidade,

vencendo os Jogos Olímpicos de

Colombes em 1924 e de Amesterdão

em 1928.Tendo em conta

que nessa época os campeões

olímpicos se consideravam como

campeões do mundo, o Uruguai

chega à década do 30 sendo bicampeão

mundial.

Com o início de uma nova

década e aproximando-se o

centenário do Juramento da

Constituição de 1930, que melhor

maneira de festejar este feito

histórico que organizando o

primeiro mundial de futebol

em Montevideu?!

O país dos campeões olímpicos

apostaria na organização

de um «grande» mundial encarregando-se

de todos os gastos.

No começo do ano de 1930, o

Uruguai concentrou-se no

«seu» mundial que, naturalmente,

teria de se jogar num

grande estádio. Assim que obteve

a responsabilidade da organização

do mundial, deu-se início

à construção do mítico e grande

Estádio Centenário.

Foi uma obra inovadora

em termos de arquitectura desportiva

pela sua disposição

quase circular em volta do relvado.

O autor da obra, o arquitecto

Juan Scasso, confessou

ter-se inspirado nos teatros gregos

clássicos no que respeita ao

aproveitamento dos declives

naturais.


A monumental obra é ainda

hoje um símbolo iniludível da

cidade de Montevideu. A «grande»

tribuna olímpica é toda uma

«tribuna cultural» com o seu

museu do futebol e uma escola

pública. Para além dos espectáculos

desportivos, dentro do estádio

têm-se realizado grandes

concertos que marcaram a história

da vida cultural do país: Luciano

Pavarotti, Plácido Domingo,

«El Gusto es nuestro» (Serrat,

Ana Belén, Victor Manuel e Miguel

del Río), «Los Olimareños»

e Mercedes Sosa, entre outros.

O MUNDIAL DE 30

A seleção uruguaia estreou-

-se no Mundial no dia em que

se comemorou o centenário da

Constituição, em 18 de Julho de

1930. O primeiro jogo dos

comandados pelo «grande capitão»

José Nasazzi foi contra o

Peru, tendo os «celestes» triunfado

por um 1-0, com golo de

Héctor, «el manco Castro». No

jogo seguinte, venceram a Roménia

por 4-0, com golos de

Dorado, Héctor Scarone, Anselmo

e «o basco» Cea. Depois, a

Jugoslávia seria esmagada por

um concludente 6-1, com golos

de Cea, Anselmo e Iriarte. Na

grande final, perante um mar de

chapéus de feltro que inundava

as bancadas, a selecção uruguaia

disputou o clássico do Rio da

Plata com a Argentina: o Uruguai

arrebatou a taça ao vencer

por 4-2, graças aos goleadores

Pablo Dorado, Cea, Iriarte e Castro.

A imprensa europeia quase

ignorou a façanha dos rioplatenses,

ofendida com o fulgor do

melhor futebol do mundo.

A galeria de honra dos futebolistas

uruguaios era constituída

por operários e boémios que fizeram

da camisola azul-celeste o

seu estandarte de glória: o «Ma-

riscal» Nasazzi (capitão das gestas

de Colombes 1924, Amesterdão

1928 e Montevideu 1930),

cortador de pedras de mármore,

várias vezes campeão sul-americano

e uruguaio com o Nacional

de Montevideu, dentro do

campo mandava, gritava e atemorizava

os rivais; José Leandro

Andrade, músico de Carnaval e

engraxador, maravilhou o mundo

não só pelo seu futebol criativo,

mas também por ser o primeiro

jogador negro visto e admirado

na Europa; Lorenzo Fernández,

o grande «caudillo» do

Peñarol daquele tempo, atemorizava

de tal modo os seus adversários

que estes não tinham

coragem de olhá-lo de frente,

após o primeiro embate; Héctor

Scarone, conhecido como o

Gardel do futebol, foi considerado

o primeiro «melhor jogador

do mundo» e nunca falhou um

penálti; Héctor Castro era manco

e nos cantos apertava o estômago

dos guarda-redes com o

coto; Pedro Cea, cortador de gelo,

era o preparador físico da

equipa; Pedro Petrone, hortaliceiro,

etc.

Neste mítico estádio, o Uruguai

sagrou-se quatro vezes campeão

sul-americano de futebol

(1942, 1956, 1967 e 1995),

uma vez campeão sul-americano

juvenil (1979) e campeão

do Mundialito de 1980-81. No

seu relvado desfilaram as grandes

equipas do Peñarol (1960,

1961, 1966, 1982, 1987) e do

Nacional (1971, 1980, 1988)

vencedoras da Taça Libertadores

da América.

«EL NEGRO JEFE»

E A IDIOSSINCRASIA

DO MARACANÃ

O dia 16 de Julho de 1950

tornou-se uma data histórica

para o Uruguai – a vitória dos

«celestes»sobre o Brasil por 2-1,

em terreno brasileiro, num Maracanã

a abarrotar com 200 000

espectadores (a maior multidão

alguma vez vista num campo de

futebol) –, constituindo uma

referência incontornável na

identidade da nação.

O grande capitão daquela

equipa, Obdulio Varela, «el negro

jefe», construiu a maravilhosa

vitória. Logo que o Brasil fez

1-0, temia-se uma avalancha de

golos, mas Obdulio fez arrefecer

os corações brasileiros. Conta-se

que o «negro jefe» disse aos

seus rapazes «... los de afuera

son de palo» e, a partir daí, a

«guerra» recomeçou e o Uruguai

deu a volta ao resultado.

OUTRAS LENDAS

DO FUTEBOL

Pelo Centenário passaram

outros fabulosos jogadores que

marcaram a história do futebol

mundial: Roque Gastón Maspoli,

Anibal Paz, o «mono» Gambetta,

Julio Pérez, Walter Gomes (ídolo

no River Plate argentino onde

nasceu a frase «la gente ya no

come por ver a Walter Gomes»),

Jorge Gonçalvez, Luis Ubiñas,

Montero Castillo, «cien gramos»

Rodriguez, Roberto Matosas, Ladislao

Mazur-kiewicz, etc.

Inesquecíveis avançados do

Peñarol: Ghiggia, Hohbreg, Miguez,

Schiaffino (considerado o

melhor estrangeiro da história

do Milão de Itália e um dos melhores

jogadores do mundo) e

Vidal, nas décadas de 40-50;

Abbadie, Sacia, o equatoriano

Spencer, Pedro Rocha e o peruano

Joya, na década do 70; e do

Nacional: Ciocca, Castro, o argentino

Atilio García, Porta e

Zapirain na década do 40, e

Cubillas, Espárrago, o argentino

Luis Artime, Ildo Maneiro e

Morales na década de 70.


SABORES PRINCIPAIS 104

Da canjica ao bacalhau.

Uma arqueologia dos hábitos alimentares

de uma família portuguesa

nas Minas Gerais setecentistas

José Newton Coelho Meneses

105


Portuguesa, indígena, africana, com

influência paulista e de outras partes da

América portuguesa, a comida mineira

tem herança ampla. Se nos primeiros tempos

da ocupação territorial das Minas do

Ouro os mineiros tinham «sua melhor

bodega nos matos e nos rios», como nos

informa o mestre Sérgio Buarque de Holanda,

no decorrer do século XVIII a comida

da região vai ampliando e diversificando

sua base alimentar, fundamentada

em uma produção mais diversa e no acesso

a produtos de outras regiões do espaço

colonial português na América e da Europa.

A «civilização do milho», aludida pelo

grande historiador acima citado, transforma-se

e diversifica-se com a sedentarização

dos habitantes e com a fixação das populações

nos arraiais e nas vilas mineiras.

Naturalmente que não se perderam os

costumes dos primeiros tempos: continuaram

a ser consumidos os produtos do milho

e os da mata. Angu, milho verde em

espiga (cozido ou assado), pipoca, curau,

pamonha, farinha («o verdadeiro pão da

terra»), canjica grossa, canjiquinha, cuscuz,

catimpuera, aluá e jacuba, originários

do milho, além do broto de samambaia,

do palmito, das caças e dos peixes, do mel

de abelhas e outros produtos dos matos

continuam a freqüentar a mesa dos habitantes

das Minas, associando-se àquela

maior oferta de alimentos e, ainda, amalgamando-se

mais perfeitamente aos costumes

reinóis e aos de índios e de africanos.

O milho, entretanto, não deixa de ser o

alimento mais consumido e de modo mais

democrático freqüenta a mesa de pessoas

de posse e do homem do povo, como nos

prova o costume de comer angu de fubá

que, de alimento destinado à escravaria,

passa à mesa de todos.

Mas não podemos nos esquecer que o

homem português e sua família não abdicaram

totalmente de seus costumes alimentares.

Além disso, com o tempo, encontraram

na produção local produtos que

satisfizessem o gosto por comestíveis de

origem animal, baseados em pratos da tradição

portuguesa e da sua influência da

cozinha francesa. Esses pratos adquiriram

maior complexidade à medida que se jun-

tavam diversos «adubos» à carne de porco,

de boi, de carneiro, aos pombos, codornas,

pacas e frangos, além das amêndoas,

azeites doces e ovos em quantidade,

porque comida portuguesa que se preze

não os dispensa.

Podemos inventariar a mesa de D. Anna

Perpétua Marcelina da Fonseca, chefe

de uma família portuguesa nas Minas Gerais.

D. Anna era viúva do Dr. Luiz José de

Figueiredo, homem que, em vida, teve

posses e influências no Tejuco (hoje Diamantina).

Ele morreu em 1793 e sua viúva

e inventariante foi cuidadosa em fazer a

relação de Despesas de

Mantimentos no perío-

do de julho de 1793

a outubro de 1796,

quarenta meses em

que se desenrolou o

processo de Inventário

post mortem do

marido. Da mesma

forma, D. Anna listou

em outro documento

anexo ao Inventário

do marido,

os Lucros que tem tido a

Erança, no mesmo

período. Assim, nos

informa sobre a

produção de alimentos

em suas terras

de lavoura e dos

produtos que ela,

por ter produção

própria, adquiria

em menor quanti-

Nas Minas Gerais,

a base alimentar

das famílias abastadas

e das pobres

se distinguia pouco.

Os modos à mesa

é que denotavam

as distinções entre

as categorais sociais

dade no comércio local. A lista de despesas

arrola 42 itens de consumo distinguindo

os produtos «do Reino» e os «da terra»,

possibilitando-nos evidenciar a procedência

dos mantimentos, a maior parte produzida

na própria região do Tejuco. A produção

«da roça» da família concorria para

minorar em muito as despesas com a

aquisição de produtos no mercado local.

Incluíam-se aí o feijão, o arroz, o milho e

a sua farinha, carne de boi, leite, hortaliças,

algodão (que se mandava para fiar),

azeite para iluminação, lenhas, carvões e

sebo para sabão. O consumo do arroz,


SABORES PRINCIPAIS 106

claramente percebido, contraria as interpretações

tradicionais que não o colocam

como hábito alimentar dos mineiros, no

período.

A dieta cotidiana no domicílio de

D. Anna apresentava variações mensais. O

consumo de peixe fresco, a título de

exemplo, crescia durante os períodos que

incluem os dias de jejum, notadamente os

meses de março e de abril, correspondentes

ao período da quaresma. O mesmo

acontece com o bacalhau que é adquirido,

basicamente, nos meses de março, abril e

dezembro, ou, eventualmente,

como compra

«para as sextas e

sábados». Já a carne

de porco, seus miúdos

e o toucinho são

compras cotidianas,

o que confirma-nos

o uso do toucinho

não só como componente

de diversos

pratos das pessoas de

posse ou dos escravos

e de pobres (no feijão

e em «torresmos»,principalmente),

mas como ingrediente

na cocção de

cereais, tubérculos e

hortaliças e, também,

como meio de conservação

das carnes. A

mandioca, mesmo

não sendo um alimento

preferencial

como na região litorânea,

era consumida como farinha ou cozida.

A família de D. Anna Perpétua adquiriu

pouca farinha de mandioca, apenas em

dois meses dos quarenta que compõem a

listagem.

Podemos admitir que, nas Minas Gerais,

a base alimentar das famílias abastadas

e das pobres se distinguia pouco. Os

modos à mesa é que denotavam as distinções

entre as categorias sociais, como evidenciam

as análises de Jean-Louis Flandrin

para os costumes europeus à mesa, no

mesmo período.

Mineira desde

os tempos que Minas

Gerais era Portugal,

a mesa dos mineiros

tem gosto e tradição

paulista, africana,

indígena, de tantas partes

da América portuguesa e,

sobretudo, de Portugal

107

Alguns produtos eram escassos nas

mesas mineiras, inclusive nas das famílias

abastadas. O trigo, por exemplo, de consumo

raro – embora fosse produzido em pequenas

quantidades nas regiões contíguas

às minas –, vinha da Capitania de São Paulo

ou da Europa e era caro. O pão de trigo,

assim, não foi um alimento do cotidiano,

mesmo no ambiente das famílias de posses.

Os portugueses, nas Minas, adaptaram-se

à falta desse cereal nobre. A farinha

de milho e o fubá configuraram, então,

produtos para a confecção de vários petiscos

substitutos do pão, dando origem às

tão tradicionais quitandas mineiras.

Observando a lista de D. Anna Perpétua,

percebemos uma oferta já regular do

sal, ao final do século XVIII. O preço do

produto vindo do Reino não sofreu grandes

variações, ao contrário do «sal da terra»,

vindo das barrancas do rio São Francisco,

que teve no decorrer do tempo da

listagem uma variação de 4 a 7 oitavas de

ouro por bruaca.

Consumiam-se queijos, importados e

de fatura local, além das hortaliças e frutas

que, cotidianamente, enriqueciam a

dieta alimentar de todas as categorias sociais.

Os quintais continham bananeiras,

frutas de espinho e jabuticabeiras, além

de equipamentos e moinhos d’água, tudo

muito detalhado nos Inventários post mortem.

As frutas eram apreciadas in natura ou

em doces, como a marmelada e o doce de

cidra e, como as hortaliças e os tubérculos,

são alimentos descritos pelos memorialistas

da região e pelos relatos dos viajantes

estrangeiros.

A comida mineira, em sua origem setecentista,

rústica em seu cotidiano, tinha

requintes ocasionais. O uso de talheres à

mesa, seguindo os costumes já difundidos

em toda a Europa, tornou-se comum tanto

para os portugueses quanto para os nascidos

na América portuguesa, ou vindos da

África, ou descendentes de africanos. É

grande o número de peças descritas nos

Inventários, o que pressupõe o seu uso cotidiano,

principalmente nas famílias de

origem reinol.

D. Anna Perpétua, nossa testemunha

especial neste estudo, possuía objetos de


mesa finos: pratos da Índia (rasos e fundos,

grandes e pequenos), chocolateiras de cobre,

colheres, garfos e facas de prata, «faqueiro

de prata com caixa forrada de veludo»,

«1 talher de galhetas de vidro» e

bandejas diversas. Outros Inventários de

portugueses e de homens livres ou forros

pobres também detalham talheres e vasilhames

que vão do latão à prata, da louça

simples à da Índia ou à do Porto, jogos de

pires com xícaras, cálices e frascos de vidro,

além, é claro, das gamelas, tabuleiros

e bandejas de madeira.

Mineira desde os tempos que Minas

Gerais era Portugal, a mesa dos mineiros

tem gosto e tradição paulista, africana, indígena,

de tantas partes da América portuguesa

e, sobretudo, de Portugal. E, em toda

essa diversidade, é mineira, uai!

Glossário

Adubos Expressão de origem portuguesa

que deve ser entendida como temperos.

Aluá Bebida refrescante feita de milho fermentado

e adoçada com açúcar.

Angu Prato de fubá cozido em água e sem

sal.

Bruaca Saco ou mala de couro cru para

transporte de produtos e mercadorias

sobre bestas.

Canjica ou Canjiquinha Milho triturado em

moinho de água com distância entre

as mós suficiente para deixar a farinha

mais grossa.

Catimpuera Bebida de milho ou de mandioca

cozidos e fermentados adicionado

de água e mel de abelhas.

Frutas de espinho Laranjas. limões, limas e

outros cítricos.

Frissura ou fressura «Miúdos» de porco, ou

seja, fígado, rim e pâncreas desse animal,

picados, temperados e cozidos.

Jacuba Bebida em que se mistura farinha de

milho (ou fubá) com água e mel de

abelhas (ou açúcar). Bebia-se quente

ou fria.

Uai Interjeição usual e popular na fala dos

habitantes de Minas Gerais que exprime

surpresa, espanto, afirmação categórica,

dúvida, alegria.


ALGUM CHEIRINHO A ALECRIM 108

Portugal

nos confins

do mundo

Roberto Ampuero

109

Nasci no Chile, nos confins do mundo, mas

curiosamente Portugal sempre esteve perto de

mim, primeiro como um nome simples, belo e

misterioso, depois como uma revelação política

mais que estimulante, inspiradora e, a seguir,

quando o conheci, como um desses lugares que

nos parece curiosamente familiar e conhecido

porque de algum modo suspeitamos que estivemos

ali antes, noutra vida.

Quando era criança, no pátio do colégio alemão

de Valparaíso costumávamos cantar uma cantiga

de roda muito famosa que dizia: «Arroz con

leche, me quiero casar, con una señorita de Portugal.»

Cantávamo-la de mão dada, meninas e meninos,

cantávamo-la com uma fé cega, como se fosse

imperativo casarmo-nos com uma rapariga de Portugal,

mas a verdade é que então não pretendia casar-me

e nem sequer sabia muito bem onde ficava

o país ibérico. Decorriam os anos sessenta, quando

o Chile era uma democracia estável e orgulhosa, e

pensávamos que todo o mundo vivia em democracia.

Um dia, o meu pai mostrou-me um mapa da

Europa e disse-me com voz grave: «Aqui fica Por-

tugal, um país belo, parecido com o Chile e que é

governado por um ditador.» Confesso que me custou

várias noites de sono acostumar-me à ideia de

que a presumível rapariga com quem devia casar-

-me vivia sob uma ditadura.

Mais tarde ouvi, sobressaltado e incrédulo,

as fabulosas histórias sobre os grandes navegadores

de Portugal. Até então eu pensava que Fernão

de Magalhães era chileno, e a razão era simples: o

famoso estreito que tem o seu nome pertence ao

Chile e faz parte essencial da identidade dos chilenos

austrais, os quais são descritos de forma

magistral pelo narrador chileno Francisco Coloane

nos seus livros que deram a volta ao mundo. Mas

a minha surpresa foi enorme ao ouvir que os navegadores

portugueses haviam sido os primeiros

a chegar ao Brasil, às ilhas da Madeira e dos Açores,

à costa africana e à China. Portugal era, diziam

muitos no Chile, um país que pelo clima e

pelo carácter se assemelhava ao nosso, e eu sonhava

secretamente com que o Chile pudesse

construir um dia um império como o iniciado

pelo Infante D. Henrique.


Em 1966, inteirei-me, através da rádio e desses

álbuns com cromos de jogadores, que a estrela

do mundial de futebol, que se celebrava em Inglaterra,

já não era o mítico Edson Arantes do Nascimento,

Pelé, mas um jogador de Portugal, de destreza

inigualável, chamado Eusébio, a «Pérola Negra

de Moçambique». Três coisas me chamaram a

atenção nele: que sorrisse sempre como que surpreendido

pelo seu próprio êxito, que tivesse o

mesmo nome do meu avô paterno, um silencioso

carpinteiro da ilha patagónica de Chiloé que se casou

com uma francesa da Normandia, e que fosse

natural de Moçambique. Creio que foi a minha

primeira aula prática sobre o colonialismo. No

meu colégio, onde os meus professores alemães

eram quase todos ex-soldados da Segunda Guerra

Mundial, não se costumava falar de política ou,

melhor dito, a história morria antes de Adolfo Hitler.

Eusébio levou-me, então, a compreender o

que era aquilo que os adultos denominavam colonialismo:

era uma forma política que podia obrigar

um nativo de um país a ter de jogar por outro,

era levar a pátria no peito mas envergar a camisola

de quem a subjugava.

Portugal voltou a emergir com particular força

na minha vida durante os anos setenta, quando

estudei em Cuba. Um dia inteirei-me que em Havana

vivia discretamente a filha do chefe da polícia

política do regime português, algo que parecia

impossível, mas era verdade. Nunca soube a razão

daquilo, até que há pouco li um apaixonante livro

de jornalistas portugueses que desvendava o mistério:

a mulher, esposa de um diplomata suíço em

Havana, apaixonara-se perdidamente por Che

Guevara e pela revolução cubana. Procurei então

localizá-la, falar com ela para lhe dizer que eu

amava Portugal e sonhava com a sua liberdade,

mas nunca consegui vê-la. Morreu nos anos em

que eu ainda vivia na ilha.

Depois Portugal voltou a aparecer ante os

meus olhos. Desta vez, porque chegou a Cuba

uma grande delegação militar da «revolução dos

cravos», altos oficiais progressistas que haviam deposto

o antigo regime e implementavam medidas

sociais revolucionárias, que finalmente possibilitaram

o aggiornamiento de Portugal à Europa. E vi então

Otelo Saraiva de Carvalho, todo um mito para

mim, e também Álvaro Cunhal, outra figura emblemática

da esquerda latino-americana, e o meu

coração latejava entusiasta porque se acabava a ditadura

de que meu pai me havia falado, e as colónias

do Ultramar seriam livres e eu poderia co-

nhecer um dia um Portugal democrático. Pouco

tempo depois, milhares de jovens cubanos, alguns

companheiros meus, foram combater em Angola,

contra os sul-africanos do apartheid e as tropas de

Holden Roberto e Jonas Savimbi. De certa forma,

os cubanos perderam a sua vida nessas terras

alheias como, anos antes, os portugueses.

E um dia, vivia já em Bona, na Alemanha, pude

ir finalmente a Portugal. Recordo que o país

me fascinou pela sua gente, reservada e avessa à

desordem, como a minha, pela sua arquitectura

histórica sem comparação, as suas paisagens, similares

às da zona central do Chile, as suas cidades

tão magníficas, a sua comida caseira tão diversa,

os seus vinhos e a sua música. Cheguei lá com

aquela que viria a ser a minha mulher e recordo

que um dia, em Albufeira, decidi propor-lhe que

nos casássemos. Dirigimo-nos à Câmara Municipal

dispostos a fazê-lo, porque esse seria o melhor lugar

do mundo para isso. Não me ia casar com

aquela «señorita de Portugal» da cantiga, mas sim

em Portugal com a mulher que amava. Mas a burocracia

não no-lo permitiu. Para casar não bastava

sermos solteiros e querermos casar, eram necessários

selos, documentos e embaixadas.

Admito que comecei tarde a estudar português.

Queria ler Camões, Pessoa e Saramago na

sua língua, queria desfrutar da língua portuguesa

a partir de dentro e não de fora, como se faz

quando se crê que se entende português porque

se fala espanhol. Mas não foi nem Portugal nem

no Chile que estudei português, mas sim em Iowa

City, uma cidade do Midwest norte-americano. E a

minha professora não foi alguém de Lisboa,

Coimbra ou Porto, mas sim uma académica norte-

-americana da Costa Leste dos Estados Unidos,

descendente de açorianos.

Enfim, Portugal continua a perseguir-me e eu

não sou surdo aos seus apelos. Quando os meus

filhos cresceram, levei-os de imediato a Portugal

e percorremo-lo de Lisboa para sul e para norte,

até ao Promontório de Sagres e Trás-os-Montes, e

enquanto o percorria com eles dei-me conta,

mais uma vez, das afinidades secretas que existem

entre o Chile e Portugal: a consciência clara da

sua gente de que vive num extremo do mundo, o

seu carácter retraído e reservado, a sua melancolia

permanente, a sua afeição pelo vinho, a comida

marítima e a poesia, os nevoeiros e os céus azuis,

a sua existência frente ao mar. Sim, Portugal persegue-me

desde que eu cantava no colégio da minha

infância.


O QUE FAÇO EU AQUI 110

O preço da

minha vida

João de Melo

111


Jiron Junin, no centro de Lima


O QUE FAÇO EU AQUI 112

113

Cheguei a Lima a meio

de uma noite brumosa e parada

de Julho, em 1990, já

no limite das minhas forças e

após mais de trinta horas de

viagem – ao fim das quais

senti que chegava a outro

tempo, a uma nova dimensão

e a um mundo muito diferente

do meu. Lisboa/Madrid/São

Paulo/La Paz e, finalmente,

Lima. Ia ao Peru

receber o prémio literário

«Cristóbal Colón» das Cidades

Capitais Ibero-Americanas.

Estive não mais do que

um minuto na fila dos vistos

e passaportes: logo um homem

baixo, mas muito entroncado,

com ar de chefe de

segurança, de cabelo envernizado

e lambido para a nuca, chamou repetidamente

pelo meu nome («Señor de Melo! Señor de

Melo!»). Quando me apresentei, disse-me apenas

estar ali em representação do município de Lima. E

tendo-me saudado de uma forma polida e sucinta,

pediu-me delicadamente que o acompanhasse. Devia

ser pessoa de alguma importância, porque me

subtraiu ao controlo da alfândega, à polícia de

fronteira e a tudo o mais que costuma atormentar

a vida dos homens cansados de viajar.

Eu vinha ao contrário do tempo e dos fusos

horários, no sentido inverso ao dos ponteiros dos

relógios (o biológico e o de pulso). Segui-o até à

sala «vip». A embaixada risonha, simpática e

tranquila que aí me aguardava, dispensando-me

grande soma de cumprimentos e adjectivos, pôs-

-me então ao corrente do programa: visitas, recepções

em diversas embaixadas, alguns compromissos

com jornais e rádios, a cerimónia oficial

do prémio. «Bienvenido, señor de Melo, a las

fiestas de Lima!», concluíram.

Camilo José Cela, Nobel da Literatura do ano

anterior, Don Agustín Rodríguez Sahagún, o alcaide

de Madrid, o escritor peruano Alfredo Bryce

Echenique, que vivia no estrangeiro desde os tempos

do exílio (e com quem passei os momentos

mais divertidos desses nove dias de Lima), e não

sei que outros ilustres convidados, já estavam na

cidade. Por isso mesmo, não estranhei que cinco

índios mudos, uns «cholos» colossais, todos vestidos

de negro, cujas sombras passeavam nos corre-

Estive não mais do que

um minuto na fila

dos vistos e passaportes:

logo um homem baixo,

mas muito entroncado,

com ar de chefe

de segurança,

de cabelo envernizado

e lambido para a nuca,

chamou repetidamente

pelo meu nome

dores em volta da sala «vip»

do aeroporto, ali estivessem

de guarda, sempre de olhos

postos em mim – como também

não estranhei a viatura

blindada que me foi atribuída

(na minha qualidade de convidado

especial), nem o amplo

sorriso zeloso do Sr. Bermúdez,

o meu condutor (que

pedia sempre licença antes de

trancar as portas por dentro, o

que fazia por sistema), nem

os outros dois carros que

abriam e fechavam o cortejo

até à cidade. Semanas atrás, o

país havia eleito Fujimori presidente

da República do Peru,

contra o famoso escritor Mario

Vargas Llosa, talvez o cidadão

peruano mais conhecido

no mundo inteiro (mais até do que Pérez de

Cuéllar, nessa altura secretário-geral da ONU).

Ainda em Lisboa, o Ministério dos Negócios

Estrangeiros tinha-me prevenido: só na semana

anterior, a guerrilha do Sendero Luminoso fizera

explodir treze bombas em Lima, pondo a cidade

na antecâmara de uma guerra civil. Por conseguinte,

não estranhasse eu ver a polícia armada

de metralhadora e viseira, colete à prova de bala e

capacete, a singrar pelo meio do intenso tráfego

de Lima com as sirenes numa estridência caótica.

Até certo ponto, achei justo que os meus

guarda-costas não usassem de nenhuma subtileza

com ninguém, nem mesmo comigo. Quando o

Sr. Bermúdez me largava à porta do Hotel Bolívar,

na baixa de Lima, eles, como que por encanto,

saíam dos seus secretos esconderijos: corriam a

rodear a minha viatura, de metralhadora em punho,

abrindo alas para eu passar; se ia até ao bar,

eles seguiam-me os passos e espiavam-me o mínimo

gesto; e punham-se em sentido para me

anunciarem a chegada de alguém que viesse à

minha procura ou uma chamada telefónica. De

resto, esses perfeitos e excessivos anjos-da-guarda

jamais me deixaram em paz ou sequer entregue

aos serviços do hotel; acompanhavam-me ao

quarto, pedindo-me que trancasse a porta por

dentro e que nunca por nunca a abrisse a ninguém.

Pensando bem, tudo ali se justificava, mas

não estritamente por mim. A cidade enchera-se

de gente venerável (digo: vulnerável), provinda


de não sei quantos países

do Mundo, e toda ela bem

mais importante do que eu.

Imagine-se um atentado em

Lima contra o escritor Camilo

José Cela, o Nobel da

Literatura, ou contra o alcaide

de Madrid, ou contra

um qualquer daqueles extraordinários

embaixadores

que nos prepararam tantas,

tão magníficas e tão opíparas

recepções nas suas residências

oficiais! O que não

se falaria do Peru (do regime,

da pobreza do seu povo,

do terrorismo urbano)

nos cinco continentes da

Terra!

Por mim, vivi nove dias

numa Lima de prazer e de

grandes tormentos; na mesma cidade dos livros de

Llosa, das casas que não eram casas, das ruas planas

que davam para os pueblos perdidos, do seu magnífico

centro colonial espanhol que era preciso salvar

do tempo e da ruína. Vi-a por dentro de uma

viatura blindada, é certo; mas explicada pela voz

doce e muito religiosa do Sr. Bermúdez (pai de

nove filhos, devoto da Virgen de la Almudena) e

depois comentada pelo diplomata português que

me levou a conhecê-la, desde o centro histórico

até aos arredores e aos subúrbios – bela, horrível,

pobre, riquíssima; uma cidade injusta e desigual

como poucas que até agora conheci.

No fim, as mesmas viaturas, com seus «cholos»

mudos e colossais, me levaram de regresso

ao aeroporto. Os mesmos académicos e autarcas

foram até lá despedir-se de mim. O tal homem

do cabelo envernizado e lambido para a nuca

também não faltou. À despedida, disse um adeus

comovido ao Sr. Bermúdez, o meu motorista, que

me havia contado toda a sua vida; passei as mesmas

portas e cancelas do dia da chegada, fui sentar-me

à conversa com um dos jurados do tal prémio

literário. Estávamos já na sala de embarque,

com o avião à vista. O académico «bebia» a minha

permanência até ao fim, movido pelo prazer

de ambos amarmos a poesia de Fernando Pessoa,

os romances de Eça de Queirós e os sermões do

Padre António Vieira. Por fim, chegou a hora de

nos despedirmos: as vozes de feltro do aeroporto

convidavam a embarcar os senhores passageiros

Por mim, vivi nove dias

numa Lima de prazer

e de grandes tormentos;

na mesma cidade dos livros

de Llosa, das casas

que não eram casas,

das ruas planas que davam

para os pueblos perdidos,

do seu magnífico centro

colonial espanhol que era

preciso salvar do tempo

e da ruína

com destino a Madrid. Então

ele, o académico, pondo-se

subitamente muito sério, e

depois ainda cheio de mistério

mas já com o melhor

dos sorrisos, puxou-me por

um braço e levou-me até

um canto da sala para que

mais ninguém ouvisse.

Apontou para os índios

guarda-costas que ainda se

disfarçavam por ali, na

sombra. Pediu desculpa,

disse-me que não estranhasse

as medidas de segurança

com que me tinham

rodeado durante todas

aqueles dias – mas o caso é

que (e só agora ele achava

por bem revelar-mo!) houvera

uma ameaça de rapto e

morte do Sendero Luminoso contra mim, dias

antes da minha chegada...! Acusado de quê? De

ter ido a Lima receber um prémio «burguês».

Motivo mais do que suficiente, ao que parece, para

que os guerrilheiros do Sendero me raptassem

levando-me para as faldas da cordilheira andina e

aí me degolassem sem qualquer pudor, nem

consciência, nem misericórdia...

Disse-mo com o mesmo sorriso simpático e

prodigioso que sempre lhe conheci, um sorriso

complacente e quase infantil, e tão escrupuloso

como o de um bandido irrepreensivelmente

educado; um sorriso que por um momento me

confundiu e quase indignou, mas que logo me

pôs também a sorrir como ele então sorria:

olhando-me nos olhos e pedindo repetidamente

desculpa. Com um último abraço de despedida,

voltou a desejar-me boa viagem, e muitos e muitos

sucessos futuros na minha carreira de escritor,

e um próximo regresso ao Peru, se possível

menos atribulado. E então, num gesto puramente

instintivo, como de defesa contra os perigos visíveis

e invisíveis que me haviam ameaçado em Lima

sem que alguma vez tivesse dado por isso, levei

a mão ao bolso de dentro do casaco: tacteei,

apalpei, enchi a mão com os cinco mil dólares

americanos, disse a mim mesmo, com um suspiro

de alívio, que aquele não era o dinheiro de

prémio literário nenhum, mas sim o preço, o incêndio

e o rescaldo da minha vida toda por um

fio. Em Lima, no Peru.


CRUZEIRO DO SUL 114

Neruda

e uma pedra

coberta

de musgo

Luis Sepúlveda

115


Neruda na Isla Negra . Foto de Antonio Quintana. Archivo Fundación Pablo Neruda


CRUZEIRO DO SUL 116

117

Há algumas semanas, a

jornalista chilena Isabel Lipthay

enviou-me da Alemanha

uma história comovente

que falava de outro

Neruda, à margem das justas

celebrações pelos cem

anos do seu nascimento e

que, se tivesse de atribuir-

-lhe um título, deveria chamar-se

«As razões do silêncio».

Não conheci Pablo Neruda

na sua intimidade,

apenas o vi três vezes, mas

essas três ocasiões foram

para mim decisivas para

concluir que, nos olhos de

Neruda, havia uma tristeza singular, algo assim

como a tristeza dos náufragos que, uma vez salvos

e regressados aos seus lugares de origem, não deixam

de sentir saudades da ilha deserta na qual foram

Robinson Crusoe, tristeza que cresce com a

certeza de que nunca mais regressarão a essa ilha.

A história de Isabel Lipthay, brevemente escrita

como devem ser as boas histórias, levou-me a

antecipar uma viagem à Holanda, prevista para

Outubro, e parti decidido a encontrar também

uma pedra esquecida e coberta de musgo.

Durante a viagem procurei na melhor biografia

de Pablo Neruda, a escrita pelo seu amigo e

companheiro do Partido Comunista Chileno,Volodia

Teitelboim, certamente a melhor que se escreveu,

dados sobre María Antonieta Hagenaar, a mítica

«Holandesa de Java», primeira esposa de Neruda

e à qual dedicou versos cheios de temor e

que mostravam o desamor que só se resolve com

o distanciamento definitivo. Não encontrei demasiada

informação, apenas pinceladas que confirmam

que esteve, sim, casada com o poeta e que,

juntos, tiveram uma filha, Malva Marina.

Diz-se e sabe-se que as mulheres que acompanharam

Neruda tiveram uma importância capital

na obra do poeta. Com María Antonieta Hagenaar

partilhou os anos de desterro nos quais a sua

genialidade encontrou os elementos para escrever

Residencia en la Tierra.

Malva Marina Reyes – Neruda chamava-se

Neftalí Reyes – nasceu em Madrid a 18 de Agosto

de 1934, foi talvez chamada a ser a flor mais importante

dessa casa madrilena à qual os amigos do

poeta, Antonio Machado, María Teresa León, Gar-

Os versos em que Neruda

fala da sua filha

são tristes, enigmáticos,

como se o poeta

tivesse tentado

salvar-se da dor

com a perfeição

do génio

cía Lorca, Miguel Hernández,

Rafael Alberti, chamavam com

razão «a casa das flores». Mas

Malva Marina nasceu com o

indelével selo das flores transitórias,

daquelas que não chegam

a mostrar a plenitude das

suas pétalas nem a oferecer a

embriaguez dos seus aromas.

A menina nasceu hidrocéfala e

o seu nascimento marcou

talvez o poeta com uma dor

definitiva, pois não existe dor

mais intensa que a certeza de

que sobreviveremos aos nossos

filhos.

Os versos em que Neruda

fala da sua filha são tristes,

enigmáticos, como se o poeta tivesse tentado salvar-se

da dor com a perfeição do seu génio: «Oh

niña entre las rosas, oh presión de palomas/ oh

presidio de peces y rosales/ tu alma es una botella

de sal sedienta...» (Oda con un lamento). De toda a rica

correspondência mantida por Neruda, apenas

numa carta dirigida a seu pai menciona a presença

da filha: «Parece que la niña nació antes de tiempo,

y ha costado mucho que viva...»

En 1936, os madrilenos preparam-se para a

grande tragédia do fascismo, a República está em

perigo, Neruda é um activista da democracia, abre

a sua casa a todos os que estão decididos a lutar

contra Franco, e abre também o seu coração a outra

mulher: Delia del Carril, «A Formiguinha»,

pintora e companheira de causa. María Antonieta

Hagenaar, a «Holandesa de Java» desaparece da

sua vida, e com ela a pequena Malva Marina, que

se retira da vida do poeta com o mesmo silêncio

com que uma sombra desaparece.

Nesse mesmo ano de 1936, «a la hora del

fuego, al año del balazo», como tão bem o definiu

César Vallejo, a «Holandesa de Java», a sua solidão

de abandonada e a pequena Malva Marina deixam

Espanha e partem para a Holanda. Na sua mala,

levam talvez, como única grande recordação, os

versos que lhe escreveu Federico García Lorca:

«Niñita de Madrid, Malva Marina/ no quiero darte

flor ni caracola:/ ramo de sal y amor, celeste

lumbre/ pongo pensando en ti sobre tu boca».

Alheia à beleza e ao horror, longe do amor e

do ódio, Malva Marina continuou a sua existência

vegetal em Gouda, abandonada inclusive pela sua

mãe, que confiou a sua custódia a um casal de


Neruda em Machu Picchu, 1943. Archivo Fundación Pablo Neruda


CRUZEIRO DO SUL 118

119

Porque crescem os fetos

nos cemitérios

esquecidos?

Porque escolhem

as pegas esses lugares

para ensaiar

os seus grasnidos?

Porque é o musgo

o sinónimo

do esquecimento?

holandeses. Não soube do fim da República em

Espanha, nem da morte de García Lorca, nem da

morte de Machado, nem da morte de Miguel

Hernández, nem da morte da poesia quando caiu

a última barricada do bairro madrileno de Lavapies.

Não soube que os nazis invadiram a Holanda

e que o horror marchava com música wagneriana

por toda a Europa.Tampouco soube que seu

pai organizava a partir de Trompeloup, próximo

de Bordéus, a maior operação de salvamento de

republicanos espanhóis perseguidos por Franco e

pelas autoridades pró-nazis da França ocupada. A

água que afogava a sua cabeça manteve-a flutuando

no ventre benigno dos ausentes, e negou-se a

nascer num mundo de medo e espanto.

O velho cemitério de Gauda é um monumento

nacional, assim mo explica o meu amigo

Gerd Kooster, nenhuma sepultura pode ser aberta

ou fechada, de tal maneira que a sua eternidade é

a mesma frágil eternidade do planeta.

Após percorrer durante uma hora os estreitos

carreiros do cemitério, invadidos por uma vegetação

em que predomina o ténue verde da humidade,

encontramos a campa de Malva Marina, essa

pequena presença do sangue de um dos maiores

poetas de todos os tempos, e talvez a responsável

pelo ricto de tristeza que sempre acompanhou

o seu rosto, como se a água que afogava

Malva Marina se tivesse instalado nas suas olheiras

eternas.

A inscrição que cobre essa lápide, onde cresce

o musgo, é lacónica: «Aquí yace nuestra querida

Malva Marina Reyes nacida en Madrid el 18

de agosto de 1934/ fallecida en Gouda el 2 de

Marzo de 1943.»

Porque crescem os fetos nos cemitérios esquecidos?

Porque escolhem as pegas esses lugares

para ensaiar os seus grasnidos? Porque é o musgo

o sinónimo do esquecimento? Porque escreve

Neruda, no seu poema «Farawell»: «desde el

fondo de ti y arrodillado/ un niño triste como yo

nos mira»?

Salve, Pablo, Salve Poeta, como tão bem escreveu

Atahualpa Yupanqui, «gracias por la ternura

que nos diste». Quando erguer a minha taça

para brindar pelos teus cem anos de Poeta e companheiro,

far-te-ei essas perguntas e muitas outras.

E quando regressar à Isla Negra, às tuas carrancas

de proas, às tuas colecções de garrafas e

objectos infantis, olharei à beira das escarpas onde

ainda crescem as Malvas embaladas pela salobre

brisa Marina.


A MARESIA DO MUNDO 120

Ouvir na noite a maresia e ver o arco inteiro dos astros

é pertencer inteiramente ao grande harmónio do universo

Mas nós vivemos em quartos poeirentos

e já não vemos as constelações ofuscadas pelas luzes da cidade

O silêncio já não tem a placidez planetária

de um grande bálsamo de sombra universal

Lembro-me ainda na minha terra solar de me estender ao comprido no ladrilho do terraço

de frente para as estrelas

e o firmamento inteiro abria-se num vasto leque tranquilamente cintilante

Ondulava na grande embarcação do universo

e respirava o seu vagaroso e rescendente pulmão

Ninguém navega já assim no espaço

e por isso se perdeu a fértil lentidão da terra

Se o poema é um búzio em que ressoa a maresia do mundo

poderá ele suscitar o desejo de pertencer à terra

como uma árvore que se inclina sobre as ondas

ou uma torre vegetal de sombras embriagadas pela brisa marinha?

Poema inédito de

António Ramos Rosa

121


Foto de João Mariano


FICÇÕES 122

Lagoa Blues

Tabajara Ruas

123


Era raro encontrar alguém que gostasse como

ele de Chet Baker.

Pensou isso porque o aparelho de som pendurado

num canto do café rodava um CD de Stan

Getz. Ao menos parecia de Stan Getz, já que uma

voz brasileira emitia um lalálá sincopado e afinadíssimo,

e ele fez a asneira de comentar com a

cliente a seu lado que detestava esse mingau

aguado que Stan Getz servia.

O café era minúsculo, num canto do posto

de gasolina em frente à lagoa, e se chamava Café

do Tom, o que o estimulou a fazer o comentário

com a cliente. A cliente afastou para a testa os

óculos escuros e contemplou-o com todo o desprezo

dos seus olhos verdes.

Sabia que aqueles olhos eram verdes. Era perito

em feições, fora cientificamente preparado

na academia em Washington e desenvolvera esse

preparo em doze anos de atividade permanente

na Polícia Federal.

Quando a mulher levantou os óculos, saboreou

seu pequeno triunfo, ignorando o desprezo.

A cliente tinha pernas longas e queimadas de sol,

o short curtíssimo e dezenas de pulseiras nos

braços. Ela poderia ser paulista, paranaense ou

gaúcha: a maioria dos freqüentadores do café vinha

desses estados, como as placas dos carros estacionados

em frente mostravam. O feriado de Finados

estava em cima e o centrinho da Lagoa da

Conceição estava cheio de turistas.

A mulher de olhos verdes não tinha jeito de

turista. Há muito tempo a Lagoa não era apenas o

paraíso buscado pelos visitantes dos feriadões,

mas por pessoas que desejavam uma alternativa

de vida ao stress dos grandes centros. A pacata vila

de pescadores tinha se transformado rapidamente

num bairro de classe média internacional.

Não apenas paulistas e gaúchos tinham aberto casas

de comércio ou bares ou restaurantes ou escolas

de todo tipo – de idiomas, de caratê, dança,

meditação transcendental – também uma enorme

quantidade de argentinos, uruguaios, chilenos e

mesmo ingleses e alemães tinham escolhido a Lagoa

para viver.

O cara que ele buscava era francês.

Olhou o relógio. Onze e vinte e cinco. Tinha

cinco minutos para pegar a barca.

Pagou o café, deu um último olhar para as

pernas da mulher e saiu procurando manter certa

dignidade. Caminhou até a ponte começando a se

tomar de um sentimento de vaga e não premeditada

euforia.


FICÇÕES 124

125

Era uma manhã de primavera, o vento tinha

parado e o sol caía em cheio na lagoa, que brilhava

como um diamante.

Isto era tudo que queria. Lutara muito pela

transferência para este posto, que só conseguira

graças a sua folha e amigos influentes. Nascera e

vivera em Porto Alegre e, como boa parte dos

porto-alegrenses, alimentava uma secreta fantasia

com Florianópolis e suas praias e seus morros.

Em nenhum momento sentiu decepção. O

trabalho era bem mais fácil: a burocracia cotidiana

com os estrangeiros, carimbar documentos,

certificar-se de que os passaportes estavam em dia

e de que os vistos estavam nos prazos.

Essa história do tal francês é que estava um

pouco fora dos eixos, mas até que servia de pretexto

para um revigorante passeio na lagoa.

A barca da linha chegou, os passageiros desembarcaram

e ele entrou com mais uma dúzia

de turistas e moradores da Costa da Lagoa.

A travessia durava quarenta minutos até a Costa,

onde só se chegava de barca ou a pé, por uma

trilha escarpada. As potentes lanchas particulares,

as «voadeiras» segundo os nativos, levavam quando

muito quinze minutos, e passavam vigorosamente

por eles, levantando ondas. Mas apreciava

essa lentidão. Ia em pé, na proa, gozando o sol e a

brisa, acompanhando as gaivotas em vôos circulares,

apreciando os adeptos do wind surf com suas

enormes velas multicores passando perto da barca

e pensando como fora duro deixar o cigarro ao

vislumbrar esse desejo que o assalta de repente,

enquanto observa as recém construídas casas dos

ricaços invasores manchando o verde dos morros.

Antes de falar com a velha passaria no restaurante

do Índio e encomendaria um almoço, como

lhe recomendara Tomás, veterano freqüentador

dos restaurantes da Costa.

Camarão, dissera Tomás, frito, ao molho, com

pirão, empanado, como quiser. E uma tainha frita,

que é pescada ali mesmo, diante do restaurante.

As tainhas pulavam de longe em longe, causando

exclamações dos turistas.

A conversa com a velha não levaria mais do

que alguns minutos. O tal francês tinha desaparecido

e o último lugar onde tinha sido visto fora

na Costa, onde alugara um quartinho da velha. Isso

era tudo. O consulado insistira, o caso caíra na

sua mesa e agora estava aí, desembarcando no trapiche

de madeira, onde pneus velhos serviam de

amortecedores para a barca encostar.

Passou no restaurante do Índio, bebeu um

guaraná, encomendou o almoço e se informou

onde era a casa de Dona Severina. Antes perguntou

pelo francês. Sim, era conhecido, um bom rapaz,

ficava lá com seus livros, gostava de dar grandes

caminhadas, nunca incomodou ninguém. Fazia

algumas semanas que não o viam, já devia ter

ido embora.

Caminhou algumas quadras constatando, maravilhado,

que nas ruelas da vila não circulavam

automóveis. Parou numa casinhola um pouco

afastada das demais, a menos de quatro metros da

beira da lagoa. Bateu palmas diante do portão.

A velhota era baixinha, dava um pouco acima da

sua cintura, e tinha a postura curvada, como se fosse

corcunda ou tivesse algum grave defeito na coluna.

Convidou-o para entrar, que não reparasse

que era casa de gente simples, ofereceu um cafezinho

que ele aceitou, sentou na pequena poltrona

forrada de plástico, sentiu o cheiro de fritura

vindo dos fundos, ouviu latidos.

O moço foi embora, sim, senhor, pagou tudo

direitinho, era um moço muito bom, nunca incomodou.

Desapareceu? Virge. Nunca conheci nenhum

amigo dele não senhor.

Nunca recebeu carta não senhor.

Namorada? A velha deu um risinho esperto.

Ele era moço, não tem? Moço e bem bonito.

Se mora alguém comigo? Não senhor. Só a

Imaculada. Hóspede ele foi o último. Até que

seria bom. Minha esperança é que agora já vem o

verão, pode ser que alugue o quartinho.

Fez mais algumas perguntas sem convicção,

olhando ao redor e vendo quadros de familiares

nas paredes, um calendário, uma imagem de

Nossa Senhora da Conceição.

A velha tinha uma almofada com bilros na

sua frente e uma toalha de renda ainda por terminar.

Deveria ser essa sua principal fonte de renda.

Terminou de tomar o café, pousou a xícara na

mesinha de centro, levantou-se.

A senhora disse que morava com alguém.

Agora ela não está.

Bom...

Percebeu que estava com fome, já passava do

meio-dia, havia camarões e uma tainha esperando

à beira da lagoa. Escolheu uma mesa ao ar livre,

perto do trapiche, e ficou vendo os turistas chegarem

em bandos barulhentos. A comida fazia jus

à fama, acha que abusou um pouco, sentiu-se pesado

e com sono.Tomou um café, pediu a conta e

perguntou com quem Dona Severina morava.


Com ninguém. Ela mora só. Há anos ela mora

só.

Ficou cismando enquanto esperava o troco e

calculava quanto tempo teria antes da próxima

barca. Talvez fosse um detalhe sem importância,

mas um francês desaparecido pode trazer complicações

para um departamento inteiro. Precisava

fazer um relatório. Um detalhe desses não passaria

por alto aos tiras do consulado e muito menos na

embaixada.

Tornou a bater palmas diante do portão.

Dona Severina não apareceu. Esperou um

pouco, abriu o portão e avançou pelo pequeno

pátio. Espiou pela porta entreaberta. Ninguém na

sala. Deu a volta à casa, ficou outra vez diante da

imensidão da lagoa, observou os paraglides coloridos

flutuando no céu, aproximou-se da porta

que deveria ser da cozinha, ninguém ali dentro.

Mas havia pequenos ruídos, algo rangendo.

Enfiou a cabeça na cozinha, uma porta ligava

a outra peça. Na penumbra dessa peça viu um pé,

calçado com botina, escapando de uma rede, e

não era o pé de Dona Severina. Era de um homem,

e dormia uma sesta pesada.

O senhor voltou.

Dona Severina estava atrás dele. Tinha levado

um pequeno susto, foi obrigado a sorrir.

Preciso lhe perguntar mais uma coisa, se não

incomodo.

Deram a volta à casa, entraram outra vez na

sala, sentou outra vez na poltrona forrada de plástico,

aceitou o cafezinho.

Dormindo na rede? O Antônio.

Não, ele não é hóspede. Mais açúcar?

Ah, a Imaculada. Ela só aparece de noite.

Me ajuda um pouco.

Mais café? O senhor está ficando branco.

O banheiro é aqui do lado. O senhor não

repare.

Levantou-se amaldiçoando o almoço, o café,

o vento da lagoa que começava a soprar. O assoalho

pareceu mover-se, agarrou a porta do banheiro

para não cair, viu o homem na rede, enorme,

ressonando. Um frio o invadia, um frio enorme,

um frio paralisante e viu que sua mão escorregava

lentamente pela porta do banheiro. Era patético,

mas sentiu que ia desmaiar, abriu a boca para pedir

ajuda, mas não conseguiu dizer nada.

O assoalho aproximou-se rapidamente de sua

cabeça e ouviu um estrondo misturado ao grito

das gaivotas lá fora.

Abriu os olhos muito devagar, sentindo alí-

vio, sentindo os membros amolecidos. Estava recostado

numa cama no quarto em penumbra, o

homem ainda ressonava na rede, a três passos dele,

mas teve a impressão de que passara bastante

tempo.

Pela janela entreaberta viu que o céu estava

rosado. Já era o crepúsculo! Moveu o rosto. Dona

Severina, na sala, trabalhava na toalha de renda,

movendo com habilidade os bilros. Abriu a boca

para chamar por ela, mas não conseguiu articular

nenhum som. Percebeu que estava encharcado de

suor, e de que era um suor frio, quase gelado.

O homem na rede continuava imóvel. Estava

vestido com uma roupa caqui, grossa, e suas pesadas

botinas pendiam para fora da rede. O homem

se moveu. Usava uma jaqueta de couro, forrada

de lã e uma coisa estranha na cabeça. O homem

se acomodou melhor.Viu, então, espantado,

que o homem usava um capacete de aviador, um

desses capacetes de pilotos da Segunda Guerra,

com óculos grandes e barbicacho pendendo dos

lados do rosto.

Tentou falar, tentou se mover, mas sentia uma

fraqueza demolidora, que o deixava imóvel e indefeso.

Dona Severina fazia sua toalha. Um mosquito

começou a circular perto da sua cabeça.

Uma lua enorme, uma lua cheia, uma lua amarela

e ameaçadora apareceu na fresta da janela e esparramou

sua luz na penumbra do quarto.

O homem na rede tinha a cara de Saint-Exupéry.

Nunca se enganava com um rosto. Sabia que

era uma bobagem, mas nunca se enganava com

um rosto.

Tentou respirar fundo, tentou com toda a calma

articular algum som e mover pelo menos um

dedo da mão, mas era impossível. Foi quando percebeu

o leve ranger. Um vulto rastejava no assoalho.

Dona Severina fazia sua toalha. O piloto se

mexeu na rede. Um vulto rastejava no assoalho,

percebeu pequenos brilhos que se deslocavam.

Na faixa de luar apareceu a cabeça da cobra. Rastejou

até a perna do piloto, pendendo da rede, e

se enroscou nela, suavemente.

Agora vou me levantar, vou gritar, vou fazer

um escarcéu, mas continuava paralisado, entorpecido

de frio e começando a achar que era hora de

acordar do pesadelo.

Dona Severina olhou para ele. Dona Severina

disse Imaculada chegou, sem parar de fazer a

toalha.

O piloto olhou para os lados, talvez sem saber

porquê, despertara de repente.


FICÇÕES 126

127

Precisava avisá-lo, precisava avisá-lo! Com desespero,

observava o imenso animal subindo em

direção à cabeça do piloto.

O piloto sente algo. Isso morno sobe na sua

perna, sem fazer pressão nem vacilar, confiante. A

cabeça é esguia e larga, a língua pequena e pontuda,

os olhos circulares e friamente sem expressão.

O piloto duvidou um momento entre ter

medo e aceitar o estranho companheiro.

Cuidado, precisava gritar, a cobra! Um esticão,

o recolher da perna como se um escorpião a

tivesse picado e o pequeno grito. E, então, Imaculada

passou da languidez amorosa para a velocidade

do caçador saltando sobre a presa.

Subiu no ar escurecido, alta, curva, e durante

segundos que parecem pingos de água crescendo

na ponta de uma torneira, imobilizou-se, agora

ameaçadora.

Banhado no suor do seu terror, a viu como

um animal de outra época, um dragão aquático,

verde escuro e liso, quase roçando o teto de palha,

curvado sobre a rede, começando a tornar-se

fosfóreo, inchando de excitação ou maldade ou

apenas susto. E viu também o branco horror do

piloto, sua contração, a dentadura postiça que vomitou

e o espasmo que o acometeu quando viu a

grande cobra imóvel no ar morno, fitando-o com

seus dois olhos perfeitamente circulares. A cobra

desceu sobre ele antes que pudesse fazer um gesto

e o envolveu num abraço apertado. Descobriu

que não podia escapar. Descobriu que se urinava

e as vísceras afrouxavam. Uivou. O piloto uivava.

Imaculada lançou com um som mole novo abraço

e envolveu o tórax do piloto com um segundo

anel, grosso como pneu de caminhão. A cabeça de

Imaculada ergueu-se ameaçadora sobre a cabeça

do piloto. O piloto livrou um braço, o braço esticou

como catapultado e a grande mão peluda a

agarrou um palmo abaixo da cabeça. O piloto era

forte: a mão grudou-se como tenaz à pele escamosa,

o esforço o fazia mudar de cor, os olhos

pareciam prestes e explodir. Caíram da rede com

um som fofo, embolados. Imaculada aliviou a

pressão e o piloto livrou o outro braço e desenroscou-se

numa agitação histérica, chocou contra

a parede e a peça toda estremeceu. Compreendeu

que não podia fazer absolutamente nada para salvar

a vida, a não ser fechar os olhos e ficar completamente

imóvel. O corpo vertebrado de Imaculada

apertou a perna do piloto até este pensar

que ela seria triturada e viu o animal erguer-se

bem alto e preparar o bote. Estava outra vez fosfo-

rescente ou talvez fosse o luar entrando pelas

frestas da parede. Os insetos de longas asas circulavam

alucinados, Imaculada deu o bote e enlaçou

a outra perna. O homenzarrão caiu com estrépito,

uivando outra vez, gritando, papai, papai,

como uma criança, tentando morder a cabeça do

bicho que deu mais uma laçada, afrouxou e então

apertou com firmeza fazendo algo estalar dentro

do piloto. Agora afrouxou novamente, desenroscou-se

da perna e tornou a dar um longo, silencioso

abraço, lentamente descendo em curva, envolvente

e vivo, pulsando duma energia ávida. O

piloto começou a ser estrangulado. A cobra fez

mais uma pressão e outro estalo seco fez ferida

no seu cérebro. Não queria mais ver isso! Escondeu

a cabeça no peito. Imaculada agora envolvia,

outra vez, e com certa pressa nos movimentos, as

pernas do piloto, fazendo-o dar voltas sobre voltas,

já com o rosto completamente roxo e os olhos esbugalhados.

Imaculada foi afrouxando o aperto, a

cor roxa foi desaparecendo do rosto do piloto,

soltou um braço, soltou o outro. Abriu um olho e

não acredita, mas parece que viu um brilho de

satisfação no olhar do monstro fosfóreo que farfalhava

suavemente na habitação, desenroscando-se

do corpo do piloto que estendeu os braços livres

e agarrou com as duas mãos peludas dois palmos

abaixo da cabeça sorridente do animal. Imaculada

abriu a boca e todo seu longo e pesado corpo se

contraiu como acumulando forças. As mãos do

piloto a levantavam vagamente verde e vagamente

luminosa no lusco fusco riscado de grandes insetos

e sua boca foi crescendo. Paralisado na cama a

viu crescer. Ela abriu a bocarra com um ranger de

molas e foi abrindo ainda mais do que ele acreditava

e a língua pontuda e negra passeou nas orelhas

do piloto e então as rangentes mandíbulas se

fecharam e engoliram a cabeça arrepiada. Parecia

que o monstro devorava a si mesmo. O silêncio

absoluto envolveu o quarto. Escutou o fremir das

asas dos insetos e o cicio das folhas no matagal

distante. O monstro era um corpo circular, grosso

e fosforescente, imobilizado na penumbra do

quarto. O piloto era aquele corpo paralisado pelas

várias voltas que o monstro dera nele, o tórax estalante

onde o coração pulsava apertado e os pulmões

não bombeavam ar. Imaculada não havia

utilizado os dentes. Apertava a cabeça do piloto

com os músculos que circundavam sua boca. O

piloto começou a retirar as mãos peludas de redor

do corpo de Imaculada e debateu-as no ar, lentas

e patéticas e sem uso. E Imaculada inteira estre-


meceu percorrida por um calafrio e houve uma

vertiginosa sucessão de contrações e cada contração

correspondeu a um estalo nas pernas do piloto

que se contorceu de repente num furor apoplético,

tornou a grudar as mãos peludas no corpo

do animal e começou a forcejar como alguém

que tem um capuz apertado enfiado na cabeça.

Banhado no suor de seu terror viu, comovido,

horrorizado, afogado pelo soluço trancado na

garganta, o corpo todo dormente e gelado, num

deslumbramento viu o piloto arrancar de sua cabeça

a cabeça do monstro como um ser nascendo

num parto fantástico. O piloto engoliu ar e uivou

com toda a força dos seus pulmões achatados um

grito cavernoso e flamejante e continuou gritando

ou talvez já não fosse o grito o que continuava

a ressoar em seus ouvidos mas seu próprio grito

de terror porque a cabeça do piloto caíra mole

para um lado embora continuasse a emitir o resto

do grito.

Deixou a cabeça bater na guarda de ferro da

cama, exausta de horror. Descobriu o silêncio da

peça. Há o fremir das asas dos grandes insetos e

há o mato imóvel, prateado pela lua, e ciciando

intrigas de coruja para coruja e de galho para galho.

Há, ainda, o rufar do coração e o indiferente

mosquito que busca insistente um alvo para sua

ávida agulha. Imaginou o animal (a cobra) tornando-se

mais brilhante, quase azul, e imaginou

que ele sobe novamente no ar parado. Uma gota

de suor desliza pela testa, sabe quando ela pinga

no assoalho. O piloto está calado. Tudo respira

ofegante.

Uma vez por ano há um crepúsculo em Porto

Alegre que é o mais belo de todos os crepúsculos

já havidos no planeta e concebeu para si a pequena

lenda de que o dia que visse esse crepúsculo

sentado num banco da Praça Argentina e tivesse a

coragem de escolher esse crepúsculo como o

mais belo crepúsculo jamais havido seria honrado

com uma graça e se tornaria poderoso.

Já escolheu esse crepúsculo e talvez tenha havido

um equívoco na forma como recebeu o poder,

pois se é que o possui ainda não descobriu a

maneira de utilizá-lo. Sentiu a picada do mosquito

sugando o lóbulo de sua orelha direita. Sentiu

uma gana desesperada de espantá-lo, de acertar-

-lhe um tapa, de coçar o lugar que latejava como

um nervo.

Porto Alegre completamente vazia numa

quinta-feira chuvosa às cinco horas da tarde. Nenhuma

pessoa, nenhum carro, nenhum ruído a

não ser o da chuva e dos meus passos. Todos desapareceram.

Subo a gola do meu impermeável.

Olho ao redor imaginando o crepúsculo que se

esvai no meu coração.

Imaculada está dando mais uma volta no

tórax do piloto e agora o comprime.

Fecha os olhos simultaneamente com o estalo

das costelas. Imaculada abre a grande boca com o

ranger de molas e fecha-a suavemente sobre o rosto

destroçado do piloto, sem fazer nenhum movimento

brusco, mas com certo cuidado e atenção.

Deu ainda mais duas voltas no corpo e de repente

contraiu-se com imperceptível espasmo, triturando

como numa mó os ossos das pernas do piloto.

Ficou longamente imóvel. A aura fosforescente foi

se tornando mais fraca, o tom azulado foi cedendo

a uma alvura menor e mais fria, e o silêncio foi

restabelecendo uma ordem nova e sossegada no

âmbito ainda trêmulo da habitação.

Havia longuíssimos hiatos de silêncio, cortados

pelo discreto estalar de ossos quando Imaculada

acomodava seus anéis através de leves estremeções

que se propagavam como uma onda.

Dona Severina continuava a tecer sua toalha.

Lembrou da mulher de olhos verdes que encontrara

pela manhã no café e então tirou todo e

qualquer pensamento da cabeça enquanto olhava

os estranhos e enigmáticos desenhos que a lua

cheia traçava na parede de bambu e enquanto a

dimensão do seu ódio pelo minúsculo vampiro

que dava voltas em torno de sua orelha crescia e

enquanto um pequeno lagarto verde estirava a rápida

língua em direção aos insetos, apanhava-os e

os engolia com um ar regalado.

Não tem?


CORRENTES ATLÂNTICAS 128

129

O que vem das Américas. Às

vezes, são boleros que nos

fazem reencontrar com a pai-

xão, como os que nos chega-

ram através do projecto

«Buenavista Social Club», ao

som de Compay Segundo,

Rúben González, Ibrahim

Ferrer e Omara Portuondo

ou, mais recentemente, com


vozes como as de Pablo Mila-

nés, Tania Libertad e Soledad

Bravo. Outras vezes, pode ser

uma motocicleta de Che atra-

vessando o Atlântico para

nos fazer acreditar de novo

na utopia. Ou até o mito de

Gardel, fragilizado por uma

biografia que oscila entre a

verdade e a ficção.


CORRENTES ATLÂNTICAS 130

E se Gardel não fosse argentino nem tivesse morrido

num acidente de aviação, mas de um complot mafioso?

Movendo-se entre os limites do histórico e do ficcional,

Horacio Vázquez-Rial reconstrói de forma apaixonante

a biografia do cantor no seu livro As Duas

Mortes de Gardel, recentemente editado em

Portugal. O autor deixa-nos agora mais alguns dados

para melhor se compreender a ficção.

O verdadeiro

nascimento de Gardel

Horacio Vázquez-Rial

131


O falso coronel Carlos Escayola,

que nunca fez carreira

militar, foi um precursor do

pior: tinha algo dos repressores

que no século XX fariam desaparecer

os cidadãos incómodos,

algo do que os torturadores

exerceriam com os desaparecidos

e também algo do agora célebre

Marc Doutroux. Na sua estância,

entravam opositores políticos

ao governo que jamais voltariam

a sair, aos quais se obrigava

a confessar coisas que jamais

haviam feito. A casa em

que vivia, em Tacuarembó, comunicava

por uma entrada interior

com a que ocupavam a argentina

Juana Sghirla, mulher

forte, atraente e de má fama, e o

marido, Juan Bautista Oliva,

cônsul italiano em Tacuarembó.

O domicílio dos Oliva Sghirla

constituiu-se em viveiro de meninas

para desfrute do coronel.

Escayola e Juana Sghirla

eram amantes, quiçá a sabendas

de Oliva e apesar de a mulher ser

bastante mais velha do que ele.

Isso não impediu que a senhora

incentivasse as bodas sucessivas

do coronel com as suas filhas

Clara, com a qual se casou em

1868, Blanca, com a qual se

uniu em 1873, ao enviuvar da

primeira, e María Lelia, que seguiu

o mesmo destino em 1889,

após a morte de Blanca.Tudo parece

indicar que María Lelia, a

mais nova, era filha de Escayola,

pelo que o santo matrimónio de

ambos supunha a prática de incesto.

Claro que esse é um pecado

menor, à vista dos acontecimentos

que precederam a sua

boda: em 1883, quando só tinha

catorze anos e desempenhava o

papel de cunhada, María Lelia ficou

grávida do coronel, e pode

deduzir-se dos relatos fragmentários

que os investigadores recolheram,

muitos anos depois,

que a menina não se prestou voluntariamente

aos apetites de seu

pai biológico, mas que foi violada.

Uma vez constatada a gravidez

da vítima, houve consenso

familiar quanto à conveniência

de retirá-la de circulação até que

parisse: ninguém deveria inteirar-se

da existência desse ventre,

nem da do menino que nasceria

dele, de modo que foi enviada

para a estância Santa Blanca, a

E sobre essa voz

gravada podia-se construir

uma história,

qualquer uma. Por

exemplo, a do bom

filho da boa mãe

solteira, trabalhadora

e dignamente pobre.

Pura hagiografia.

A realidade é

sempre mais terrível

que a ficção

mesma que servia de cárcere e

de matadouro político. Aí, no

maior dos segredos, viu a luz,

em finais de 1883, um menino,

oportunamente apagado de todos

os registos. Esse menino, filho

do estupro, da violação e do

incesto, foi, com o correr do

tempo, Carlos Gardel.

A suposta mãe, Berta Gardés,

uma imigrante francesa,

amante ocasional do coronel Escayola

e prostituta ocasional, viu-

-se comprometida com o cuidado

da criatura contra a sua vontade.

Nunca houve entre eles confiança,

nem sequer simpatia, e

Gardel afastou-se dela tão depressa

quanto pôde. A sua passagem à

história como mãe do cantor de-

veu-se à morte imprevista deste

em Medellín, sem filhos reconhecidos,

nem casamento, nem

parentes: inventou-se-lhe uma

mãe, e falsificaram-se um testamento

e um registo de nascimento,

para que os seus bens, os

que tinha em vida e os que as

suas obras e discos gerariam durante

largos anos, não fossem

parar ao Estado por direito público.

Dona Berta herdou e em

seguida cedeu o seu legado a testas-de-ferro

e gerentes das máfias

que sempre pulularam em

torno da indústria do espectáculo:

Holywood, Las Vegas, Havana

e as carreiras de artistas como

Frank Sinatra são produto das

máfias, sobretudo a italiana e secundariamente

a judia, que encontraram

no teatro, no cinema,

nos discos e nos casinos um negócio

óptimo para os grandes

investimentos, com excelsas

margens de lucro, e para a correspondente

lavagem de dinheiro

procedente de outros tráficos,

ainda mais obscuros.

O mito de Gardel não se

construiu durante a sua vida. Até

à sua morte, Gardel fez uma carreira

normal, e não seria arriscado

dizer que a sua passagem ao cinema

e ao disco teve a ver com a

decadência da sua voz, que começava

já a ser dificilmente audível

nas salas de teatro, que não

dispunham dos recursos técnicos

que hoje sustentam qualquer

garganta para além das suas possibilidades

reais. Morto, já não

haveria mudanças: a voz seria

para sempre a que estava gravada.

E sobre essa voz gravada

podia-se construir uma história,

qualquer uma. Por exemplo, a

do bom filho da boa mãe solteira,

trabalhadora e dignamente

pobre. Pura hagiografia. A realidade

é sempre mais terrível que

a ficção.


CORRENTES ATLÂNTICAS 132

Se Cuba foi o berço do bolero, o México e Porto Rico

perfilharam-no e universalizaram-no, fazendo dele,

definitivamente, verso e dança, intimidade ímpar,

colóquio e sensualidade, onde o par ia fundindo sentimentos

e ansiedades, alimentando sonhos e utopias

românticas.

O bolero

em tempo de amor

Alberto Mosquera Moquillaza

133


A Buenavista Social Club, a

banda cubana do momento,

tem o mérito de ter afrontado

a globalizada indolência sentimental

com que o Ocidente

encerrou o século XX. Os seus

sons e boleros clássicos, com

tantos ou mais anos que os

seus cansados mas rejuvenescidos

cantores, voltaram a

electrizar multidões, como se

tivéssemos entrado no túnel

do tempo para nos reencontrarmos

com a paixão e o sabor

de que os nossos pais e

avós fizeram gala, quando,

apesar da dureza da vida, o

cantar e o bailar, ao aproximá-

-los, os tornava verdadeiramente

humanos.

Para o gozo do amor não

há limites no tempo porque, assim

como pode haver amores

que durem toda uma vida, também

podem existir os tempestuosamente

efémeros, mas de

marcas indeléveis, e – porque

não? – os amores de ocasião. A

idade tampouco é uma barreira

intransponível: em cada um de

nós, homem ou mulher, pode

esconder-se um Florentino Ariza

ou uma Fermina Daza, os velhos

amantes de O Amor nos Tempos

da Cólera que, com os seus corações

estilhaçados – não precisamente

pelo tempo, mas pelo

amor – alcançaram o paraíso no

final das suas vidas. «Eu creio,

com Florentino Ariza, que, se a

gente continua, o corpo continua.

E eu creio que a gente continua

se há amor. Sempre», diria

García Márquez, autor desse

monumento literário, numa entrevista

em torno do amor, da

velhice e da morte.

DOS GARDENIAS

Dessas encruzilhadas de

paixões, com os seus altos e

baixos, surgiu e expandiu-se o

bolero para levar ao êxtase os

encontros furtivos ou abertos,

consentidos ou proibidos, ou

para mitigar na nostalgia a dor

da separação ou da traição trapera;

ainda que muitos prefiram a

encantadora celestinaje dos seus

versos e compassos para exclamar,

com a cumplicidade de

Isolina Carrillo: «Dos gardenias

para ti:/ con ellas quiero decir:/

«Te quiero, te adoro, mi vida»./

Ponle toda tu atención,/ que serán

tu corazón y el mío/»; ou,

quiçá, a partir da nossa ansiosa

saudade, alentados pela criatividade

de María Graver, desejar: «Si

yo encontrara un alma/ como la

mía,/ ¡cuántas cosas secretas/ le

contaría!:/ un alma que, al mirarme,

sin decir nada,/ me lo dijese

todo/ con la mirada;/ un alma

que embriagase/ con suave

aliento,/ que al besarme sintiera

/ lo que yo siento.»

Não interessava que Carrillo

fosse cubana ou mexicana; o

mais importante era a sua linguagem,

a do amor, cultivado e

enriquecido em cada um dos

boleros que os inspirados criadores

nos foram entregando,


CORRENTES ATLÂNTICAS 134

durante décadas, nos quais milhões

de latino-americanos embalaram

as suas ansiedades, sem

saberem, muitas vezes, no caso

dos varões, que podiam estar

afogando as suas emoções por

uma mulher nas sentimentais letras

escritas por outra mulher.

Porque se não era Carrillo ou

Graver, podia ser a mexicana

Consuelo Velásquez que embelezava

com o seu «Bésame/ bésame

mucho/ como si fuera esta

noche/ la última vez/ Bésame/

bésame mucho/ que tengo miedo

a perderte/ perderte otra vez».

Se Cuba foi o berço do

bolero, o México e Porto Rico

perfilharam-no e universalizaram-no,

fazendo dele, definitivamente,

verso e dança, intimidade

sem par, colóquio e sensualidade,

onde o par ia fundindo

sentimentos e ansiedades, alimentando

sonhos e utopias românticas

de alta voltagem, num

cadenciado movimento corporal

que, para os especialistas,

não devia ultrapassar o espaço

de uma pequena lousa. E se nasceu

nas ruas e esquinas de Santiago

de Cuba, da simples, mas

inflamada inspiração de guitarristas

enamorados – virtuosos

expoentes da fusão de elementos

hispânicos, africanos e cubanos

–, conforme avançou para

Havana, Veracruz, San Juan de

Puerto Rico ou outras cidades

latino-americanas, foi ganhando

em solidez musical e lirismo,

para expressar com liberdade as

infinitas estações e situações do

amor, que costumam ir do êxtase

da alma pelo amor desejado

ou conquistado até à dor de

uma separação irreversível.

Assim, desde as primeiras

décadas do século XX, o bolero

abriu cenários inéditos de identificação

musical, que eliminou

fronteiras e demarcações so-

135

Dessas encruzilha-

das de paixões,

com os seus altos

e baixos,

surgiu o bolero

para levar ao êxtase os

encontros furtivos ou

abertos, consentidos

ou proibidos

ciais. Esplêndidas gerações de

autores e intérpretes lendários,

cantando a vida a partir da vida,

confundiram-se num só rosto

de entregas musicais, nas quais

o bolero alcançou novas dimensões,

ao confundir-se e enriquecer-se

com o son, o chachachá e o

mambo, de raiz cubana, e a ranchera

de origem mexicana; e cujos

cultores, ao fazerem da noite, da

lua e das estrelas um reino de

fantasia – alheio às convenções

e às hipocrisias sociais –, alimentaram

a imaginação popular,

os seus mitos e rituais amorosos.

Ao maestro Miguel Matamoros,

também de Santiago de

Cuba, coube injectar cadência

tropical no bolero cubano. A sua

antológica «Lágrimas negras»

«Aunque tú me has dejado en

el abandono/ aunque ya han

muerto todas mis ilusiones/ en

vez de maldecirte con justo encono/

en mis sueños te colmo

de bendiciones» continua sendo

um convite à identificação com

a sensualidade caribenha, o calor

das ruas havanesas e as fragrâncias

e o sabor do rum cubano.

Interpretam-no o próprio

«Trío Matamoros», «Los Compadres»,

Rolando Laserie, o

«Buenavista Social Club». Muitos

ainda continuam enamorados

dos versos de Ernesto Lecuona

que, com «Damisela Encantadora»

– «Por tus ojazos negros

llenos de amor/ por tu boquita

roja que es una flor/ por tu

cuerpo de palmera lindo y gentil/

se muere mi corazón» –,

«Siboney», «Noche azul»,

«Siempre en mi corazón» (que

hoje faz parte do repertório do

tenor Plácido Domingo) e a sua

«Lecuona’s Cuban Boys» ganhou

os corações de quem, na

América Latina, na América do

Norte ou na Europa, teve oportunidade

de escutá-los para viver

e morrer de amor.

Uns e outros, contudo, não

regateiam as suas preferências

pelo maestro dos maestros, o

grande Benny Moré, que era capaz

de compor e entoar uma

«guajira» como um som montanhês,

um «mambo» como

um bolero, dando rédea solta à

sua inspiração vagabunda e

montaraz. Ninguém como ele

para cantar os amores perdidos:

«Para qué perder el tiempo/ para

qué volvernos locos/ si tú sabes

que nosotros/ no nos comprendemos

ya/ tengo fe en que tú

comprendas/ como yo lo he

comprendido/ que nuestro amor

se ha perdido/ como una estrella

fugaz/».

Arráncame la vida

A grafonola e o disco, a rádio,

o cinema e a própria televisão


contribuíram para a difusão do

género que, a partir das noites

de ronda e serenata, se colaria

nos lares, nos selectos salões de

baile, assim como nos mais famosos

bordéis das principais cidades

latino-americanas. Num

deles, no México, Agustín Lara,

lânguido de amor e ao pé de

um piano, começou a ganhar

eternidade na letra e no espírito

de cada uma das suas composições,

grande parte das quais reflectia

o frenesim da sua azarada

vida sentimental, galardoada

com a conquista de uma mulher

como María Félix, bela entre

as belas; mas também com

uma chuçada no rosto, com que

uma das suas amantes deixou a

marca dos seus endemoninhados

ciúmes.

Com Agustín Lara, o amor

chegou a ser efectivamente pão

da vida e sortilégio total. Nada

escapou ao génio e sentimento

impulsivo: a entrega total, as

ânsias, os ciúmes, a nostalgia

arrebatadora, o culto da mulher

(nas suas palavras: «la más

completa expresión de la belleza,/

vida en donde principia la

vida,/ luz en donde el sol enciende

los luceros,/ ríos de todas

las lágrimas/ selva y rosal/

amor y perdón)», a dor e a angústia

provocados pela paixão

(como diria Jorge Amado, «o

amor não é uma espinha que se

arranca, um tumor que se corta,

é uma dor rebelde, pertinaz,

que mata por dentro»), levado

ao clímax em «Arráncame la

vida»: «Arráncame la vida con

el último beso de amor/ arráncala,

toma mi corazón/ arráncame

la vida/ y, si acaso te hiere

un dolor,/ ha de ser de no

verme/ porque al fin tus ojos

me los llevo yo».

Sintonizando com a azáfama

amorosa da vida, o mesmo

Tal como na Argentina,

os enamorados do

Chile, Panamá,

Venezuela, Peru,

Colômbia e Equador

encontram no bolero o

elixir musical para

continuarem a sonhar

com o ser amado

Amado perguntava-se: quem

pode entender as coisas do coração,

quem pode explicá-las?

Longe daqueles ilustrados literatos

e poetas que faziam serpentinas

com os seus versos, os

mexicanos procuraram a resposta

em trovadores da dimensão

de Lara, enquanto os porto-riquenhos

vibravam com

Pedro Flores, mas também com

o mítico Rafael Hernández que

fez «Lamento Borincano»,

«Canción del Alma», «Diez

Años», «Amigo», «No me

quieras tanto» ou «¿Qué te importa?»,

entre outras tantas

criações de sonho para os verdadeiros

amantes.

Na Argentina, o bolero arrancou

espaços importantes ao

tango.Talvez a precoce morte de

Carlos Gardel em 1935, as letras

prostibulárias do tango, a difusão

radial e a própria presença

em Buenos Aires de celebridades

do bolero como Agustín Lara,

Pedro Vargas ou José Mojica

tivessem permitido que nesse

país aparecessem, entre outros

grandes compositores, um Don

Fabián, para entregar-nos «Dos

almas», ou um Mario Clavel e

«Somos»: «Después que nos besamos/

con el alma y con la vida,/

te fuiste con la noche/ de

aquella despedida», como demonstração

do enraizamento

que o género romântico havia

alcançado na nossa América. Tal

como na Argentina, os enamorados

do Chile, Panamá, Venezuela,

Peru, Colômbia, Equador,

etc., encontraram no bolero o

elixir musical para continuarem

a sonhar com o ser amado, ou o

antídoto para a frustração que

os amores inatingíveis costumam

gerar.

Todavia, a força sedutora do

bolero não residia apenas na letra

e no espírito sentimental do

bardo. Seria injusto subestimar

a solidez interpretativa ou musical

de quem encantava com a

sua voz ou as suas guitarras,

quando não com os seus harmoniosos

sons orquestrais. Como

escapar do influxo de vozes

como as de Pedro Vargas («Noche

de Ronda», «Vereda Tropical»,

«Mujer»), de Toña la Negra

(«Cenizas», «Arráncame la

vida», «Cada noche un amor»,

«Veracruz»), de Bienvenido

Granda («Señora», «Angustia»,

«Nostalgia», «Por dos caminos»),

de Tito Rodríguez

(«Inolvidable», «Llanto de luna»,

«Tu pañuelo», «Cuando ya

no me quieras»), de Lucho Gatica

(«Tú me acostumbraste»,

«Encadenados», «Si me comprendieras»)

e de Javier Solís

(«Sigamos pecando», «Llorarás»,

«Perdóname, mi vida»);

de trios como «Los Panchos»


CORRENTES ATLÂNTICAS 136

(«Amorcito corazón», «Rayito

de luna», «Flor de azalea»,

«Perdida») ou Los Tres Diamantes

(«Usted», «Sigamos pecando»,

«Embrujo, Júrame»); sem

esquecer, certamente, o íman de

orquestras como a eterna «Sonora

Matancera» com os seus

boleristas de antologia, de que

Leo Marini, Celio González ou

Vicentico Valdés são algo assim

como a ponta de um gigantesco

icebergue formado de boleros e

cantores imortais?

A lista de intérpretes é, certamente,

maior, como a relação de

boleros criados, sobretudo entre

1935 e 1965, considerada a

«época de ouro», que vai culminar

gloriosamente com Armando

Manzanero, o último dos grandes

compositores e intérpretes que,

com «Adoro», «Esta tarde vi llover»,

«Mía», «Aquel señor»,

«Contigo aprendí» e milhares de

outras criações, demonstrou que

o amor é fonte inesgotável de

poesia e música, que na sua interpretação

por vozes como as de

Roberto Ledesma, ou do próprio

Manzanero, vão continuar retroalimentando

gozos e paixões porque,

parafraseando o ilustre mexicano,

sempre haverá enamorados

que, cegos de amor, tentarão,

onde quer que estejam, contemplar

a aurora, o brilho da lua ou,

simplesmente, apagar a luz para

deixar voar a imaginação.

Cada um impôs ao bolero o

seu próprio estilo, aproveitando

ao máximo, no caso dos cantores,

as qualidades da sua voz, a

sua força interpretativa, a sua

maneira particular de tocar os

sentimentos dos seus seguidores.

Por exemplo, Lucho Gatica

sussurrava as suas canções, levando-as

do coração aos lábios,

apoiado na doçura das letras de

Roberto Cantoral («La barca»,

«El reloj», «Regálame esta no-

137

As suas vozes contin-

uam a animar os desve-

los amorosos daqueles

que encontram nas

suas canções um

remanso sentimental

che», «La noche del adiós»,

etc.), que tanto encantaram as

beldades dos anos 50; as mesmas

que se desvaneciam com

Nat King Cole e a sua maneira

tão especial de cantar «Ansiedad»,

«Cachito» e «Yo vendo

unos ojos negros»; enquanto Javier

Solís, seguindo as pegadas

de Jorge Negrete e Pedro Infante,

fez do bolero-ranchera um

convite para morrer de amor,

mas de pé, cantando e recordando,

no recanto de uma tasca,

exigindo mais e mais à rockola,

para que não deixasse de incentivar

a recordação do amado ou

malquerido, com «Vendaval sin

rumbo», «Escándalo», «Ay, cariño»,

«Que se mueran de envidia»,

entre tantas outras interpretações

que em seu tempo invadiam

até ao último beco onde

podia acolher-se uma alma enamorada.

NO JOGO DA VIDA

Muitos desses intérpretes já

não existem. Não obstante, as

suas vozes continuam a animar

os desvelos amorosos daqueles

que encontram nas suas canções

um remanso sentimental. Os

velhos discos de 33 e 45 rotações

por minuto, filhos queridos

dos discos de carvão, que se tocavam

nos memoráveis pick-up e

suas intermináveis agulhas, ou

os modernos discos compactos,

continuam a manter acesas as

lembranças dos amores do passado

ou reforçam os do presente.

Existe também, nessa magia,

a lenda que acompanhou a vida

de compositores e cantores, que

originou a mitificação dos mesmos

quando os seus seguidores

encontraram neles modos de vida,

costumes, vivências, histórias,

fantasias, com as quais estavam

plenamente identificados,

ao fazer parte do seu próprio

quotidiano ou das suas mais caras

ilusões.

Por isso é que Daniel Santos,

o «Inquieto Anacobero» de

Porto Rico, foi e continua a ser

um paradigma existencial. Com

o seu estilo inconfundível, passou

à história como o melhor

dos intérpretes das canções de

Rafael Hernández e Pedro Flores,

ou como o grande ídolo de

Cuba nos tempos da Sonora

Matancera, onde cantou e bailou

durante 15 anos consecutivos.

Não obstante, foi a sua própria

vida, para além dos cenários,

que ajudou a convertê-lo

num mito. A pobreza das suas

origens, a lenda da sua aproximação

às marquesinhas do êxito,

o seu deambular pelo álcool,

as drogas e as prisões, o seu patriotismo

purificado, a sua desfaçatez

para enfrentar «o jogo

da vida» ou, finalmente, a sua

turbulenta vida sentimental


converteram-no num herói para

a indelével imaginação popular.

E o mesmo poderíamos

dizer de Julio Jaramillo, que

deixou cinco esposas e vinte e

seis filhos, ou do inolvidável

Héctor Lavoe, cuja folha de vida

é tão mítica como as suas electrizantes

interpretações de «Taxi»,

«Ausencia», «Plazos traicioneros»

ou «Un amor de la

calle», nas quais o son, confundindo-se

com o bolero, continua

a dar corda aos corações

enamorados, ainda que o sonero,

tal como Daniel ou Julio, já não

esteja connosco.

EPÍLOGO

Ao contrário do que tradicionalmente

se pensa, a música

popular é um poderoso factor

de identificação. Estamos a pensar

naquelas criações que, por

surgirem de baixo, da rua ou da

esquina, expressando sem rodeios

a azáfama e o sentir quotidiano

de homens e mulheres:

a sua ancestral luta pela sobrevivência,

as suas alegrias, tristezas

e amores, conquistam rapidamente

os sentimentos e a

consciência das multidões. O

bolero é uma daquelas criações

que, ao reflectir a idiossincrasia

amorosa do latino-americano,

foi tecendo uma trama invisível

que converteu os nossos pais e

avós, cubanos, mexicanos, peruanos

ou porto-riquenhos, em

verdadeiros militantes da internacional

do amor, sem mais

mandatos que o da sua paixão

amorosa, levada sempre à flor

de pele, prestes a transbordar

ao mais leve impacto dos dardos

melosos de um sorriso coquete,

de um olhar inquietante

ou, simplesmente, de um caminhar

insinuante.

Contra isso, todavia, têm

conspirado, por um lado, a

mercantilização dessas criações,

que nesse processo costumam

perder as suas essências íntimas

e poéticas, que as entrelaçam

com a própria vida; e, por outro

lado, a invasão de ritmos forasteiros

que, através de grupos

e cantores de qualidade duvidosa

e apoiados numa tecnologia

ruidosa, vão acantonando e

diluindo a nossa cultura musical

e sentimental. Com o bolero

passou-se isso. Felizmente, iniciativas

como as do «Buenavista

Social Club» (que juntou Compay

Segundo, Rúben González,

Ibrahin Ferrer e Omara Portuondo),

ou a incursão nesse

género de vozes como as de Pablo

Milanés, Tania Libertad e

Soledad Bravo tendem a revitalizar

o bolero e a restituir-nos o

sentimento, a paixão, os estilos

e hábitos de todo o bom escravo

e amo do amor porque, como

costumava cantar Roberto

Ledesma, lá por mil novecentos

sessenta e tantos, «el día que

deje de salir el Sol,/ y la Luna

deje de alumbrar,/ y las estrellas

dejen de brillar,» nesse dia, só

nesse dia, deixaremos de amar.


CORRENTES ATLÂNTICAS 138

«As fronteiras são fictícias e arbitrárias», reconhece o

actor mexicano Gael García Bernal que encarna a personagem

de Che em Diários de Che Guevara.

Eis a lição de continentalidade da tão pobre e rica

América do Sul renovada neste último filme de Walter

Salles.

Os mortos

comandam os vivos

ou também de motocicleta

se atravessa o mar

Anabela Moutinho

139


Walter Salles é meu conhecido

de há uns anos a esta parte.

Gosto de o cumprimentar, sinto-me

bem por trocar olhares,

emoções e descobertas em sotaque

brasileiro. Não chega a ser

meu amigo, porque esse é

quem te toca sempre e não só a

espaços. Mas, seja como for, enternece-

me a vontade louca, a

dele, de ser o seu país em mensagem

universal. E, quando o

consegue, apetece- me ser convidada

para entrar naquela sua

casa. Porque aí ela seria minha

também. Um pouquinho, mas o

suficiente.

Da obra de Walter Salles, o

filho e por isso Júnior, se afastaram

os caminhos diplomáticos

de seu pai mas não o desejo de

errância ou, pelo menos, o fantasma

dela que a sua própria vida

lhe forneceu durante anos de

infância e adolescência. Os errantes

são seres em demanda, e

nas histórias de Salles o Santo

Graal são eles próprios. Ora, em

todos os seus filmes de ficção –

melhor dito, em todas as suas

longas-metragens porque não vi

nem as curtas-metragens, nem

os filmes para televisão, nem os

documentários, nem os filmes

publicitários (isto é, o grosso da

sua filmografia...) –, o cálice

que se busca é a identidade. E

jogos entre ela e a do realizador,

e a do povo, e a do continente,

e a do mundo.

Quando Waltinho chega ao

cinema, carrega já um olhar: o

do fotógrafo que ele foi – e não

por acaso a sua primeira longa-

-metragem, A Grande Arte (1991),

adaptada do romance homónimo

de Rubem Fonseca, é protagonizada

por um fotógrafo, tornado

no guião em norte-americano

pela vontade, muito inicial

como se vê, de internacionalizar

os filmes como estratégia

comercial e fruto de necessidade

económica – mas também o do

cinema próximo das pessoas que

assume como sua herança e influência,

ou seja, o neo-realismo

italiano, a Nouvelle Vague francesa

e o Cinema Novo Brasileiro.

E desta mistura – Cartier-Bresson,

Kertesz e Kubelka guiando

Salles, como o próprio confessa,

nesses gestos de fixar instantâneas

pessoas a preto e branco, Sica

ou Truffaut ou Glauber a inspirar

o mesmo em gente do

campo ou da cidade em imagens

em movimento – dizem particularmente

bem o início e o final

de A Grande Arte: Peter Mandrake

(interpretado por Peter Coyote)

vai disparando a sua máquina a

esses meninos loucos que desafiam

a vida no «trem-surf»,

imobilizando assim em imagens

a preto e branco essas aventuras

a cores de quem ama o risco da

morte para dar algum sentido a

existências sem nenhum, para

terminar reconciliando-se com o

amor após uma história cruel de

vingança indomável, fotografando

beijos carinhosos da gente

simples que dá vontade de chorar.

Os filmes de Salles oscilam

assim entre uma preocupação

lúcida e um optimismo cândido

quanto ao destino dessa gente

que é a dele. Aliás, esse não é o

único traço comum na sua obra.

Em todas as suas longas-

-metragens «os mortos comandam

os vivos», frase que roubo a

uma personagem de Abril Despedaçado;

em A Grande Arte, que é a de

ferir com crueldade quem nos

feriu, manejando as navalhas

com a sabedoria de samurais dos

bas-fonds, a morte surge como

consequência natural de tal desvario

ético; em Terra Estrangeira

(1996), é a mãe basca falecida

que conduz o seu filho desde

São Paulo a uma San Sebastián

Da obra

de Walter Salles,

o filho e por isso

Júnior,

se afastaram

os caminhos

diplomáticos

de seu pai,

mas não o desejo

de errância ou,

pelo menos,

o fantasma dela


CORRENTES ATLÂNTICAS 140

Ora, de qualquer

viagem,

o que recordamos

são momentos,

e são esses

os que me

comovem

em Walter Salles

141

que ele não alcançará nunca

pois pelo meio fica este Portugal

que «não é sítio para se encontrar

ninguém, é uma terra

de gente que partiu para o

mar, o lugar ideal para se perder

alguém ou para se perder a

si próprio», como certeiramente

diz a personagem belissimamente

interpretada pelo

nosso João Lagarto; em Central

do Brasil (1998), é a figura do

pai ausente, nem se sabe se vivo

ou morto, que se persegue até

ao Brasil mais profundo e esquecido,

e nessa busca um menino

encontra uma mãe e uma

mulher encontra-se a si mesma;

em O Primeiro Dia (1998),

são os depósitos de armas clandestinas

que são filmados como

livros em bibliotecas públicas,

e dessas letras escritas com

pólvora se faz uma história de

felicidade impossível para

quem se comprometeu com

um assassínio; em Abril Despedaçado

(2001), de novo uma incursão

em obra literária prévia,

desta vez de Ismail Kadaré, é a

tradição de raízes sicilianas da

honra da família «cobrada pelo

sangue» presente no Nordeste

brasileiro do início do século

passado, que aliás ainda se encontra,

desvirtuada embora, nas

favelas do final dele (não foi

portanto por acaso que Walter

Salles foi o produtor de Cidade de

Deus de Fernando Meirelles,

adaptação do romance homónimo

de Paulo Lins sobre a favela

com o mesmo nome, o filme-

-choque que deu a volta ao

mundo em 2002 recordando o

mesmo efeito que Pixote de

Hector Babenco tinha provocado

nos idos dos anos 80). Os

mortos comandando os vivos.

E, como se começa a perceber,

em todos eles o estilo é

o do road-movie ou literal por-

que são viagens que se contam,

ou metafórico porque até nos

mais negros films noirs uma viagem

interior acontece. Ora, de

qualquer viagem, o que recordamos

são momentos, e são

esses os que me comovem em

Walter Salles: o Tonho de Abril

Despedaçado a quebrar a tradição

familiar quando se permite

uma viagem de baloiço filmada

como se de voo de pássaro se

tratasse e nos ares planasse a

alegria e não mais a dor; o João

de O Primeiro Dia disparando a

sua 9 mm, antes responsável

pela morte do seu melhor amigo

que ele mesmo executou

cedendo a chantagem policial

que nesse acordo lhe garantia a

liberdade, agora para o ar, depois

de salvar Maria do suicídio

e assim se juntando ao fogo-de-artifício

que à meia-noite

explode com o Corcovado

ao fundo e gritando «nunca

mais a morte», projecto de

uma nova felicidade para todo

um povo num milénio que se

inicia; a Dora «escrevedora de

cartas» de Central do Brasil no final

do filme escrevendo uma

em seu nome e já não, a troco

de 1 real («2, se for pra botar

no correio»), a gentinha analfabeta

que confiava nela as suas

ilusões e esperanças que por

sua vez ela deitava no lixo, Dora

finalmente a confessar que

tem saudades do seu pai, que

tem saudades de tudo, e por

isso entendemos que o seu cinismo

deu lugar a um coração

de novo quente, de novo coração;

a Alex do seu melhor filme,

Terra Estrangeira, a soluçar o

Vapor Barato enquanto Paco se

esvai em sangue no seu colo, e

finalmente a voz de Gal Costa

a continuar a canção porque

Alex tem que ir sossegando

inutilmente eu te levo a casa,


meu amor, eu te levo a San Sebastián,

meu amor, nós vamos

para casa, meu amor, meu

amor eu te levo a casa; e o

Mandrake de A Grande Arte a

descobrir no final de um negro

passeio pelo dentro de si

que só tem medo do escuro

quem nunca o afrontou. Mortos

comandando vivos em viagem.

Mortos e vivos de um

país. Com a minha língua.

Com identidade própria. E por

isso, só por isso, com todos

nós. Porque, como sabiamente

(e poderia ser de outra maneira

nela?) disse Agustina Bessa-

-Luís ao receber o recente Prémio

Camões, «o riso e as lágrimas

não têm sotaque».

Parece portanto evidente

que, de outra ou da mesma maneira,

o com curiosidade esperado

Os Diários da Motocicleta –

que em Portugal se chamam Os

Diários de Che Guevara – se integrará

nesta mesma linha, nesta

mesma coerência, nesta mesma

urgência. Uma reconstituição

da viagem de motocicleta que

Che fez em 1952, aos 24 anos,

com o seu amigo Alberto Granado,

a partir da sua Buenos Aires

natal ao encontro do espírito

transfronteiriço que foi a sua

ideologia, a sua paixão e a sua

morte. «As fronteiras são fictícias

e arbitrárias», reconhece

ainda hoje quem o encarnou na

tela, o mexicano Gael García

Bernal. Dessa lição de continentalidade

da tão pobre e rica

América do Sul espero eu que

Salles, mais uma vez, me ofereça

as ocasiões que me fazem

sentir bem aconchegada em sua

casa. Desta vez não só em momentos,

mas para sempre. Para

que eu lhe possa enfim chamar

Walter, meu caro amigo.

Também de motocicleta se

atravessa o mar?


A COMPANHIA DOS LIVROS 142

143

O Instituto de Cultura Ibero-Atlântica, em colaboração

com as Edições Colibri, editou quatro títulos da Colecção

Travessias. Travessia do Mar Oceano feita em múltiplas

direcções e acepções, norteada pelo prazer da viagem e

da companhia dos livros.

Maria da Graça A. Mateus Ventura

NEGREIROS PORTUGUESES NAS ROTAS DAS ÍNDIAS DE CASTELA (1541-1556)

1998, 191 pp.

Feitores, agentes lidam com o dinheiro dos outros, traficam o que não é seu.Viajam por esse

Atlântico fora, buscando também o seu próprio destino.Vão e voltam. Ou ficam por lá com

as suas famílias e alguns criados. Dispensados das provas de pureza de sangue, amalham-

-se no cargo do trato. Judaizantes, aos molhos, tecem redes de tráfico em terra, em correlação

com as outras que, do mar, lhes trazem as mãos e os corpos para o trabalho e a fortuna.

Maria da Graça A. Mateus Ventura

PORTUGUESES NO DESCOBRIMENTO E CONQUISTA DA HISPANOAMÉRICA:

VIAGENS E EXPEDIÇÕES (1492-1557)

1999, 274 pp.

Os Estados ibéricos, acordando em Tordesilhas a partilha do mundo, delimitaram áreas de influência

e de jurisdição, mas não impediram que os homens circulassem por todo o lado, navegando,

combatendo ou traficando, alheios a fronteiras ou a vínculos nacionais. Italianos, flamengos,

franceses, gregos, alemães ou portugueses circulariam, apesar de proibições conjunturais,

num vasto território em processo de definição e configuração cartográfica e política.

Ivone Correia Alves

GAMAS E CONDES DA VIDIGUEIRA: PERCURSOS E GENEALOGIAS

2001, 347 pp.

Tal como nos brasões de armas, a memória dos Gamas e do primeiro conde da Vidigueira

plasma-se nas Casas que lhe vão sucedendo. Não há como retomar o fio original destes

meandros de arquivos e famílias. Os seus descendentes são uns e outros, mas talvez os Gamas

de fora do condado nos transmitam com maior fidelidade aquele obscuro e determinado

Vasco da Gama que aceitou o desafio de vencer «O mostrengo que está no fim do mar» e no

princípio de outros novos mares.

Virgínia Trindade Valadares

ELITES MINEIRAS SETECENTISTAS: CONJUGAÇÃO DE DOIS MUNDOS

2004, 541 pp.

A insubmissão, a rebeldia, o espírito anticolonialista, antiesclavagista, libertário, característicos

do mineiro, e tão decantados pela historiografia de Minas Gerais, não me parece ser

a tónica da elite formada em Coimbra. Vale dizer, entretanto, que este segmento da sociedade

não era homogéneo e que havia, na elite mineira instruída na própria capitania, elementos

que não representavam a mentalidade coimbrã e que foram refractários aos ditames

metropolitanos e a eles se opuseram. Na verdade, a elite mineira que se bacharelava em

Coimbra assumiu, em Minas, o papel do agente régio, reinol de nascimento, que substituiu o

turbulento conquistador, caudilho e potentado.


NOVIDADES DE LÍNGUA PORTUGUESA

Gémeos

Mário Cláudio

«Um romance perfeito.»

António Lobo Antunes

Triunfo do Amor Português

Mário Cláudio

Doze grandes casos de amor da História de Portugal.

Prefácio de Agustina Bessa-Luís e ilustrações de Rogério Ribeiro.

Transatlântico

Paulo Nogueira

Um romance vertiginoso, divertido e tocante.

DAMOS VALOR AO QUE É NOSSO

Eu hei-de amar uma pedra

António Lobo Antunes

O mais recente e emocionante romance de António Lobo Antunes

nos 25 anos de vida literária do Autor.

Fotobiografia António Lobo Antunes

Tereza Coelho

Vida e obra de António Lobo Antunes

num extraordinário álbum ilustrado.

O Anjo da Tempestade

Nuno Júdice

O novo e surpreendente romance de Nuno Júdice.

Pena Suspensa

Fernando Pinto do Amaral

O brilho e a maturidade de um dos nossos grandes poetas.

Cruz das Almas

Patrícia Reis

Uma estreia literária de grande qualidade.

Ilustrações de Rodrigo Saias.

Nua e Crua

Marta Gautier

Um romance sobre a revolta, o encontro e o renascer

de uma jovem mulher.


PUBLICAÇÃO SEMESTRAL

EDIÇÃO

Instituto de Cultura Ibero-Atlântica

(Associação cultural sem fins lucrativos)

DIRECTOR