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Outras centralidades, outros territórios - Revista Contemporâneos

Outras centralidades, outros territórios - Revista Contemporâneos

6 Entretanto, mesmo sob

6 Entretanto, mesmo sob o contexto da conformação de lugares artificiais ou de espaços, existe para Guattari, a formação de “espaços existenciais”, uma vez que haveria um desvio no uso, na utilização de equipamentos urbanos que foram projetados para finalidades específicas. É nesse sentido que se constituem os “territórios de subjetivação ou territórios existenciais” (GUATTARI, 1985, p.114), configurando-se como a possibilidade de resistência diante de espaços cada vez mais homogeneizados, e hoje, mais do que nunca, dos espaços requalificados. A constituição desses territórios correspondem ao momento de realização de uma micropolítica 4 como via de resistência à atomização da vida. É neste mesmo sentido que Leite (2004), ao analisar os usos e apropriações do espaço no bairro revitalizado do Recife Antigo, utiliza a expressão contra-usos do espaço enquanto momento tático. Tais ações são criadoras de possibilidades: não apenas de subverter os usos esperados de um espaço regulado, como de possibilitar que o espaço resultante das ‘estratégias’ se cinda, para dar origem a diferentes lugares, a partir da demarcação socioespacial da diferença e das ressignificações que esses contrausos realizam (LEITE, 2004, p.215). Ao discorrer sobre a categoria espaço, De Certeau (1994) não procede a uma análise propriamente dita da espacialidade concreta, ainda que se refira a ela. Sua reflexão sobre o espaço e lugar deriva de um estudo dos relatos – orais e escritos – das estruturas narrativas sobre o espaço. A partir do momento que tais relatos se referem ao espaço, eles também organizam os lugares, pois fazem percursos, qualificam o território. É necessário então relativizar a discussão entre espaço e lugar nesse autor, para quem as práticas espaciais são ações narrativas que se referem ao espaço. A partir daí este autor utiliza dessas estruturas narrativas como decodificador do espaço, sendo elas, portanto, o meios que permitem a De Certeau “ler” a cidade, aqui transformada de fato, em texto urbano. Fotografia 2 - Praça Sete, Belo Horizonte. Fotografia do autor, 2007. Assim, o lugar se refere a uma relação entre elementos que definem equilibrada e harmonicamente um determinado campo. Circunscrito a essa delimitação, cada elemento separado realiza uma performance que lhe é especificada previamente, realiza um trabalho estável e constante, e definem uma ordem imutável. Correspondem aos objetos produzidos pela técnica; praças, calçadões, edifícios públicos, mobiliário urbano. Para De Certeau, as possibilidades de se fazer uso deles já estão dadas de antemão, 4 Micropolítica é um conceito desenvolvido por Guattari, o qual se refere às práticas que têm como efeito alterar as percepções e os valores entre um grupo e um objeto, fato ou fenômeno. Ela é sempre uma ação, um modo de posicionamento de natureza insurgente, disparado por aquilo que ele chama de efeitos de subjetivação. Ver GUATTARI, Félix & ROLNIK, S. Micropolítica: cartografias do desejo. Petrópolis: Vozes. 1996.

pois para cada forma, existe uma função. Um ponto de ônibus não pode ser utilizado senão como um local onde os usuários se assentam e aguardam o momento de embarque. “Aí se acha, portanto, excluída a possibilidade, para duas coisas, de ocuparem o mesmo lugar. Aí impera a lei do próprio: os elementos considerados se acham uns ao lado dos outros, cada qual situado num lugar próprio e distinto que define” (DE CERTEAU, 1994, p.201). Aqui, o lugar é o locus daquilo que é prescrito. Nesta acepção, o uso – e não a utilização – de um ponto de ônibus como equipamento esportivo por exemplo, seria um evento transgressor. De maneira oposta, o espaço supõe uma cinética própria e variável. Ele é o não-campo definido pelo movimento caótico e não articulado entre seus elementos. Para De Certeau, “o espaço é o efeito produzido pelas operações que o orientam, o circunstanciam, o temporalizam, e o levam a funcionar em unidade polivalente de programas conflituais ou de proximidades contratuais” (DE CERTEAU, 1994, p.201). É importante perceber que em De Certeau, os termos espaço e lugar, têm sentidos opostos às acepções que até agora foram apontadas por outros autores. Enquanto o lugar corresponde a um nível máximo de coerência entre a função e o uso, tendendo no limite ao sentido mais estrito do normativo, o espaço é o lugar subvertido por componentes que suscitam a incoerência e o imprevisível: “A rua geometricamente definida por um urbanismo, é transformada em espaço pelos pedestres” (DE CERTEAU, 1994, p.201). Podemos ilustrar a idéia de espaço enquanto lugar subvertido retomando o caso de Belo Horizonte, onde skatistas e artesãos promovem ressignificações na espacialidade dos calçadões fechados da Praça Sete de Setembro, através de (re)apropriações bastante diferentes daquelas para as quais a Praça fora projetada. Isso faz do local um palco de tensões constantes entre comerciantes locais que negociam o uso do espaço, jogadores de damas, artesãos, skatistas, e pedestres. (fotos 03 e 04). De uma forma mais imprecisa, Santos (1994) apresenta uma noção de lugar que reflete a complexidade e impossibilidade de definição do próprio objeto. Tal noção passa pela necessidade de reconstrução do conceito de território, o qual deve ser examinado não sob o ponto de vista de sua espacialidade, mas a partir das formas como é usado. Tal uso se modifica constantemente devido às transformações de formas e funções urbanas sobretudo se a antiga noção de território institucionalizado pelo Estado como base de uma Nação, for suplantada por uma nova conceituação de território que é transnacionalizada. Para este autor, o território hoje deve ser entendido em termos de horizontalidades – lugares ligados por contigüidade espacial – ou verticalidades – pontos distantes ligados por formas e processos sociais, o que supõe a noção de rede. Sendo assim são, todavia os mesmos lugares que formam redes e que formam o espaço banal. São os mesmos lugares, os mesmos pontos, mas contendo simultaneamente funcionalizações diferentes, quiçá divergentes ou opostas (SANTOS, 1994, p.17). Trata-se de uma espacialidade usada e transformada a todo o momento, seja pelas determinações de uma ordem distante (o Estado, as multinacionais, os órgãos internacionais ), seja pelos usos que escapam à transnacionalização do território. Neste sentido, o lugar é representado também como um espaço social híbrido, ainda que este autor saliente mais seus atributos físicos e as relações baseadas em um mesmo espaço, do que as relações entre espaços diferentes. Assim, ele é uma espacialidade onde se ancoram as relações mais imediatas da vida, configurando o plano do vivido e contendo uma 7

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