Pixurum Especial

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Pixurum Especial

TRft KUÍ^.

Vianei 1

Acompanhe nesta edição um pouco

da história, lutas, conquistas e

desafios dos 10 anos de vida do

Centro Vianei de Educação Popular

Foto: Zilma I. Peixer

Atual equipe do Centro Vianei: (em pé, da esquerda para a direita) José Luis Garrara, Zeferino Leite, Sérgio

Sartori. Assonipo R. Padilha, Geraldo Locks, Selênio Sartori, José Luis Bottini. (Sentados) Dejandira Gonçalves,

Jandira Bettoni, Antônio Munarim, Orélia S. Costa, Natal Magnanti, Daniela Padilha e Loreno Siega (além de

Oscar J. Rover e Ivo S'. Macagnam - ausentes no momento da foto).


Página 2 Vianei 10 Anos Pixurum Especial

Cartas recebidas pelo Vianei por ocasião dos 10 anos

Frutos em todas as estações

"Os acontecimentos não dependem do arbítrio de um indivíduo nem sequer do de um grupo mesmo

numeroso: dependem da vontade de muitos, os quais se revelam pelo fazer ou não fazer certos atos e pelos

comportamentos espirituais correspondentes, dependem da consciência que uma minoria têm destas von-

tades e de saber, mais ou menos, dirigi-las para uma finalidade comum (...)"

Gramsci (Escritos Políticos V.l, 163)

Fazia calor no planalto catarinen-

se. Em fevereiro de 1983 eu estava

em Lages levantando dados sobre os

Programas de Educação e Cultura

Popular que ali se desenvolveram nos

cinco anos anteriores (1977-1982).

Senti que brotava em mim uma

nova energia enraizada pelas palavras

pausadas de homens e mulheres - um

pequeno grupo que falava de

"povo", trabalho cooperativo, luta

no campo e participação.

Dos diálogos pontuados pela

emoção e vigor ressurgiam novas

propostas, novos encaminhamentos

de luta. Esses diálogos traziam de

volta imagens de décadas passadas

em circunstâncias cujas semelhanças

e diferenças se confundiam.

Trabalhadores do campo e da pe-

riferia urbana viviam dias de desalen-

to e revolta pela perda das eleições

municipais e conseqüente destruição

do programa "LAGES, A FORÇA

DO POVO'', bússula das mudanças

sócio-economica e educativo-cultural

que se processavam.

Nas ruas, nas igrejas, nas escolas,

nas associações de bairros o clima era

de ameaça e desalento: estava sendo

desarticulado o programa que alimen-

tava naqueles trabalhadores - rurais

e urbanos - expectavivas de mudan-

ças. Alguns poucos vivendo a propos-

ta de uma utopia concreta de cons-

trução, de formação e de ressurgi-

mento adentravam-se nos pequenos

grupos que despertavam para orga-

nizações de resistência, de enfrenta-

mento com firmeza e resolução.

Homens e mulheres - corpos

enrigecidos pelo trabalho - tinham

presente no olhar, nas formas de

falar, de decidir e na postura fir-

me marcas que configuravam sua

decisão: a luta havia apenas come-

çado. Era necessário prosseguir.

Decididamente eu não vivia um

sonho. Todos estavam impregnados

da convicção de não poder recuar.

* * *

Estes são traços que hoje me es-

tão presentes daqueles dias vividos

em Lages e que antecederam os pri-

meiros passos da construção do Cen-

tro Vianei de Educação (1983).

Na primeira hora; a educação po-

pular, o associativismo e a agricultu-

ra alternativa se entrelaçavam às dis-

cussões sobre mística, cultura, traba-

lho...

O tempo imprimia um ritmo que

somente se concebia demarcado pe-

las vigorosas caminhadas - romarias,

feiras, encontros, vigílias - na pers-

pectiva de conquistar a terra, produ-

zir frutos e multiplicar os alimentos

para corpo e mente.

A construção do novo exigia pro-

gramas, projetos, avaliações, relató-

rios, vigílias, formação e, sobretudo,

rigor na articulação da teoria-prática

na perspectiva da PRAXIS.

Hoje, nesta virada de século, vol-

tando o olhar para a devastada região

serrana do Planalto Catarinense tenho

presente as lutas - seus desdobramen-

tos e expressões. Identifico os sabe-

res, as representações e sobretudo a

tenacidade e os legítimos embates nas

organizações dos que buscam o dire-

cionamento para as suas conquistas.

Ao longo da história ouço canti-

gas, poesias, choros, clamores, sus-

suros, assobios, risos, vozerios e o si-

lêncio das multidões, transformando

em energia o pulsar de sua força vi-

tal.

Hoje todos falam em liberdade;

todos buscam conquistar liberdade;

e mais que falar e clamar todos - ou

quase todos - se unem para conquis-

tar uma "nova sociedade", onde ci-

dadãos livres trabalhem a organiza-

ção com a convicção plena de que ela

pode vir a ser "o instrumento subs-

tantivo da implantação de nova he-

ú

OBS: POR QUESTÃO DE FALTA DE ESPAÇO DEIXA-

MOS DE PUBLICAR OUTRAS CORRESPONDÊNCIAS

QUE NOS FORAM ENVIADAS APROVEITAMOS PARA

AGRADECER TODOS OS QUE CONTRIBUÍRAM COM

SUA A VALIAÇÃOAO NOSSO TRABALHO.

r Expediente ^

Pixurum é um órgão informativo do Centro Vianei de Educação Popular

Cx.P. 98 - CEP: 88.505-200 - Lages - SC - Fone/Fax (0492) 22-4255

Edição e Redação: Loreno Siega (Reg. Prof. 2691/10/165v-PR)

Editoração Eletrônica: José Luís Cairaro

Fotografias: José Luís Bottini e Loreno Siega

Conselho Editorial: Antônio Munarim, Sérgio Sartori, Geraldo Locks, Jandira

Bettoni, Zeferino L da Silva, Orélia S. Costa, Oscar J. Rover, Natal'J. Magnanti,

Selênio Sartori, Ivo S. Macagnan e José Luís Cairaro.

PIXURUM - Termo caboclo, de origem indígena, que significa trabalho coletivo,

kmutirão. À

gemonia; hegemonia com suprema-

cia - capacidade de direção cultural e

polítíca"(...) (Munarim -1990). Li-

berdade que transforme as trin-

cheiras dos oprimidos em trabalho

livre - expressão efetiva de espaços

democráticos, nos quais os cidadãos

de direito possam estabelecer reci-

procidade de ação, construir pro-

jetos que incorporem os saberes

historicamente acumulados.

Hoje são tempos de colher frutos,

mas também de fazer germinar, bro-

tar, crescer, multiplicar. São momen-

tos de vislumbrar no futuro organiza-

ções sociais, instituições políticas que

assegurem a liberdade, momentos

cada vez mais ricos de valores coleti-

vos. Outras mãos se unem. Olhares se

tocam em direção de novas trilhas.

Surge uma nova cultura no desven-

damento de horizontes que apontam

caminhos para diferentes âmbitos re-

gionais, nacionais e planetários. Vive-

se a confirmação de saberes construí-

dos, de espaços conquistados, de ide-

ais assumidos, de lutas que consoli-

dam anseios por cidadania.

Consolidam-se grupos de cidadãos

que constróem historicamente propos-

tas de homens livres, que se insurgem

contra os processos de extorsão, es-

cravidão e das armadilhas (recriadas

pelos diferentes "matizes"do mode-

lo capitalista a que estamos submeti-

dos.

Há dez anos me integrei nesta ca-

minhada, não muito diferente das an-

teriores - nos seus desejos, nos seus

ideais - todavia extremamente mais

forte, vigorosa, impregnada de resis-

tência para alcançar a direção forjada

na utopia assumida no coletivo, que

se reconstrói, permanentemente no

cotidiano.

Dra. Maria Julieta Costa Calazans

Universidade Estadual do R.J.

Prezados amigos

do Centro Vianei

de Educação

Popular!

Cordiais Saudações!

O Centro Vianei está co-

memorando 10 anos de cami-

nhada. De uma caminhada vi-

toriosa e cheia de belas reali-

zações. Não preciso estar enu-

merando tudo o que foi feito.

Nós sabemos, digo nós porque

me sinto, embora de forma

muito diminuta, participante

da história que está sendo es-

crita. Com simplicidade, mas

com muito carinho e grande

amizade, quero cumprimentar

a todos vocês, fazendo votos

que a luta continue, sem esmo-

recer e sem perder de vista os

horizontes de um mundo me-

lhor, mais justo e mais frater-

no. Não estou fazendo avali-

ação do trabalho feito. Os fru-

tos são a resposta. O impor-

tante é não perder o sonho de

construir sempre, de descobrir

sempre de novo as respostas

para os desafios? de amar mui-

to os empobrecidos que, com

o olhar cansado e sofrido, im-

ploram por dias melhores. No

dia em que se perder a ternura

como tempero de nosso agir,

estaremos perdendo também a

capacidade de amar e sere-

mos um novo tipo de burocra-

tas gananciosos e incompeten-

tes. Recebam todos o meu

abraço e a certeza de minha

amizade.

Fraternalmente,

Dom Oneres Marchiori

Bispo Diocesano de Lages

Amigos do Centro Vianei!

Embora há pouco tempo te-

nha tomado conhecimento das

atividades desenvolvidas por esta

entidade, e mesmo não tendo um

profundo conhecimento de sua fi-

losofia, acredito que seus serviços

são de relevante importância

para toda a sociedade, principal-

mente para aqueles grupos de

pessoas excluídos dos seus direi-

tos coletivos e individuais.

Desta forma justifico minha

crença entendendo que o Centío Vi-

anei no desempenho de suas ações

pretende uma transformação desta

realidade de dominação, submissão

e egoísmo que um pequeno grupo

detentores do poder mantém sobre

a grande maioria dos trabalhadores.

Com a oportunidade que tive

de participar do Curso de Educação

Popular, pude perceber que esta enti-

dade vem prestanto estímulo, e asses-

soria a diversos movimentos popula-

res, principalmente aqueles ligados a

área rural, pequenos agricultores que

lutam para sobreviverem e se mante-

rem no interior. Porém consideran-

do a importância e a capacidade

desta entidade, penso que, seus ser-

viços poderiam também se extender

aos movimentos organizados da

área urbana, como a formação e ca-

pacitação ou reciclagem de lideran-

ças ligadas aos movimentos popu-

lares.

Atenciosamente,

Mara Regina Bueno Stanck

Curso de Educação Popular/93


Pixurum Especial Vianei 10 Anos Página 3

Os primeiros anos

Nascido num período de efervescência, 1983, o Centro Vianei de Educação

Popular persegue um mesmo alvo: a democratização do Estado e da

sociedade brasileira, a partir da realidade local

Desde seu surgimento a entidade apoiou as lutas dos movimentos

Os primeiros anos da década de

80 se constituíram num perí-

odo em que surgiram muitos

movimentos e organizações de cará-

ter popular no Brasil. Mobilizações

eram realizadas em todo país como

forma de reivindicar direitos de cida-

dania. O Regime Militar caminhava

para o seu fim. Trabalhadores, nos

grandes centros urbanos bem como

nas áreas rurais (particularmente os

Sem Terras no Sul do Brasil), se or-

ganizavam para mostrar sua força.

Neste clima foi fundada a

CUT (Central Única dos Trabalhado-

res) no ano de 1983. No mesmo perí-

odo surgiram uma série de outras or-

ganizações e movimentos, entre eles

o então denominado "Projeto Via-

nei". O grande objetivo destes gru-

pos organizados era ir dando apoio

e fortalecimento às várias mobiliza-

ções populares que necessitavam de

fôlego e assessoría.

Nos primeiros meses de 1983

um pequeno grupo de intelectuais,

apoiados pela Diocese de Lages, re-

cém saídos de uma administração po-

pular que chegava ao seu final em

1982, resolveu partir para algo dife-

rente: criaram o "Projeto Vianei",

uma espécie de organização cujo ob-

jetivo principal era fortalecer a

mobilização popular no âmbito da re-

gião do Planalto Serrano de Santa

Catarina.

Foto: Arquivo Vianei

Com dificuldades, o grupo

foi buscando parceiros para a luta.

O Vianei contribuiu diretamente na

organização do Movimento de Atin-

gidos por Barragens (CRAB), que

se estruturou na região em 1984. Es-

timulou a organização do Movimen-

to de Mulheres Agricultoras (MMA)

em 1985. Fortaleceu o sindicalismo

rural autêntico a partir de 1985.

AJém disso esteve presente em inú-

meras lutas populares, assessorou e

ajudou a criar associações de peque-

nos agricultores, assim como uma

série de outros trabalhos de

mobilização. Esses foram os primei-

ros desafios dos fundadores.

O hoje denominado Centro

Vianei de Educação Popular foi e con-

tinua sendo construído aos poucos. As

atividades, ao longo destes 10 anos de

existência, foram e são diversificadas,

porém sem perder de vista o funda-

mental: uma sociedade mais democrá-

tica, na perspectiva da igualdade, li-

berdade, diversidade e participação.

Juridicamente constituído

como "entidade da sociedade civil sem

fins lucrativos", ou seja, uma Organi-

zação Não Governamental (ONG), o

Centro Vianei de Educação Popular,

assim como qualquer outra organiza-

ção, teve seus momentos de glória e

também de dificuldades nestes 10 anos

de existência.

As crises foram períodos em

que se procurou, serenamente, uma

saída. Os frutos colhidos se constituí-

ram em resposta ao trabalho realiza-

do. Os desafios do presente e do futu-

ro são muitos. Constituem-se no in-

centivo para continuar na caminhada

iniciada há 10 anos.

O Centro Vianei de Educação

Popular, cujos primeiros parceiros são

os pequenos agricultores do Planalto

Serrano, continuará firme em seu pro-

pósito inicial: contribuir no processo

de democratização do Estado e da so-

ciedade brasileira a partir da Região

Serrana, seu espaço privilegiado de

atuação.

Foto: Galeno Canaro

Reuniões e seminários: práticas constantes na formação e assessoría


Página 4 Vianei 10 Anos Pixurum Especial Pixurum Especial Vianei 10 Anos Página 5

Entrevista

Avaliação do Vianei na ótica de seu Diretor Executivo

PIXURUM - Qualquer iniciativa

existe em função de um objetivo (que

pode ser entendido de várias formas).

Qual o objetivo do Centro Vianei?

SÉRGIO - O Centro Vianei

construiu-se como entidade com o

objetivo de estimular a organização

das maiorias populares dispersas e

apoiar, no campo político e técnico,

os movimentos sociais emergentes.

Isto no sentido de fortalecê-los no

trabalho de construção da

Democracia e de suas próprias

autonomias, como sujeitos históricos

coletivos e específicos.

PIXURUM - Passados estes 10 anos

e com os objetivos propostos, quais

os indicadores que apontam por

conquistas nesse sentido?

SÉRGIO - Se analisarmos, no

contexto da Região Serrana de Santa

Catarina, a realidade dos

trabalhadores rurais construída nestes

227 anos de história hegemonizada

pelos grandes proprietários rurais e

segmentos conservadores a eles

orgânicos, encontraremos hoje

variadas formas de organizações e

resistências de trabalhadores que

apontam para este novo. São

sindicatos, associações, lideranças que

emergiram, grupos de produção e

movimentos populares. O Vianei,

nisso tudo, tem grande contribuição

como parceiro e assessor.

PIXURUM - Nesse período de

caminhada aconteceram fatos que

marcaram história? Enumere alguns.

SÉRGIO - São 10 anos de um

processo. Mas, no cotidiano desse

processo, acontecimentos marcantes

serão, por certo, encontrados. Um

destes fatos, não somente por ter sido

o primeiro (1983), mas com grande

parcela de contribuição para o início

do "Projeto Vianei", foi o encontro

provocado por trabalhadores rurais de

Bocaina do Sul, ameaçados

juridicamente pelo prefeito Paulo

Duarte que iniciava sua administração.

O prefeito queria expropriar os

agricultores de seus direitos sobre um

armazém construído em mutirão na

administração anterior. Os

trabalhadores buscaram então apoio

e assessoria. Também foi marcante,

em fevereiro de 1986, o fechamento

da agência local do Banco do Brasil

pelos trabalhadores rurais, liderados

pela associação de Bocaina do Sul e

Correia Pinto e Movimento Sem

Terra. Na época eles exigiam políticas

de financiamento compatíveis com a

realidade da pequena produção da

região. Como fato significativo não

poderia deixar de enumerar, pelo que

representou ao processo de superação

de contradições vinculadas à

identidade do Vianei e sua relação

com as organizações e movimentos

populares, a duríssima mas produtiva

reunião, madrugada adentro, do dia

25 de outubro de 1990 com 35

lideranças dos trabalhadores rurais.

Destaco também, por terem sido

momentos de grande mobilização, a

fundação de quatro sindicatos de

trabalhadores rurais e as oposições

sindicais na região. O Vianei

participou como assessoria. Enfim,

foram muitas lutas e desafios nestes

10 anos. Mas teremos outras tantas

ou talvez mais pela frente.

PIXURUM - No decorrer deste

período ocorreram momentos de

crise?

SÉRGIO - As crises existiram e

foram muitas. Sempre, porém,

enfrentadas como desafios

construtores do avanço, do novo.

Tivemos momentos difíceis,

desgastantes, com integrantes do

coletivo Centro Vianei. Foram crises

vinculadas a diferenças, princi-

palmente no campo teórico metodo-

lógico. Já situamos as crises decor-

rentes da definição do papel e

portanto, da identidade do Vianei en-

quanto ONG (Organização Não Go-

vernamental) de assessoria aos movi-

mentos e organizações populares.

PIXURUM -O que o senhor diria

aos que criticam o Vianei como

"confraria", "mistério" ou como

"um grupo de burocratas" sem

ligação com as bases?

O atual Diretor Executivo do Centro Vianei, Sérgio Sartori, um dos fundadores da

entidade em 83, é o entrevistado desta edição histórica do Pixurum. Sérgio é pro-

fessor da UNIPLAC e diretor da FACIP, faculdades locais, além de lecionar em

colégio de Segundo Grau.

De personalidade aberta e brincalhona, Sérgio é uma pessoa de muitas relações. E

também por isso que o Centro Vianei acumula hoje uma série de parceiros em seus

objetivos epropósitos: Aoiado de outros companheiros, em 83, Sérgio entrou de

corpo e alma na construção de uma forma alternativa de organização, o então

denominado "Projeto Vianei". Não foi fácil. Obstáculos e dificuldades aparece-

ram. Mas em 93 já fazem 10 anos que esse sonho foi colocado em prática. Acompa-

nhe a seguir algumas idéias do atual Diretor Executivo do Centro Vianei.

SÉRGIO - O Centro Vianei é uma ONG

com os objetivos acima expostos, com

sua Carta de Princípios nada reservada,

com ações concretas na região e Estado

de Santa Catarina. Esses rótulos, por

certo, não partem dos que desenvolvem

práticas em parceria com a entidade e

muito menos dos que tem compromisso

com o bem público. Confesso que essas

expressões não fazem parte das

preocupações do coletivo do Centro

Vianei.

PIXURUM - O que o satisfaz hoje na

entidade e o que poderia melhorar?

SÉRGIO - Satisfazem, entre outras

coisas, os avanços obtidos na parceria

com a Secretaria Estadual de Educação,

UNIPLAC e 10 Prefeituras da região, na

viabilização da capacitação e titulação de

129 professores de escolas multisseriadas

desses municípios e com perspectivas de

mais turmas e integração de outros

municípios. Portanto, satisfaz a parceria

na construção de uma escola de qualidade

para os filhos dos trabalhadores rurais.

Me satisfaz o coletivo do Vianei hoje.

Satisfazem as parcerias que já estão

acontecendo com algumas prefeituras, a

efetivação de políticas públicas. Me

satisfaz a Carta de Princípios, norteadora

das práticas do Centro. Satisfazem as

parcerias com a Diocese de Lages, com

as organizações e movimentos populares,

com a Universidade Federal de Santa

Catarina, com a UNIPLAC, com o Centro

de Ciências Agroveterinárias da UDESC.

Me satisfaz a metodologia adotada pelo

Centro Vianei no processo de formação

de lideranças dos diversos movimentos e

organizações populares, particularmente

o Curso de Educação Popular.... O que

poderia ou deverá melhorar? São tantas

outras coisas e práticas, como: a pesquisa

necessária para um melhor

desvendamento de nossa realidade

maximizando a qualidade de nossa

assessoria; o aprofundamento teórico no

campo da cultura como condição para o

fortalecimento das resistências dos

caboclos; a maior autonomia das

organizações e movimentos populares

para que como sujeitos irradiem suas

propostas e projetos de classe; um

sindicalismo de trabalhadores rurais

com autonomia e assessoramento de

sua central sindical; um Fundo de

Crédito que seja controlado pelos

próprios trabalhadores rurais...

PIXURUM - Qual a atual relação

da entidade com as organizações

populares e com o Estado?

SÉRGIO - A relação entre a

Instituição Vianei e os movimentos

populares é a de parceiros que são

diferentes mas que implica o

reconhecimento mútuo de

originalidade. Com o Estado? Não

somos uma entidade que dá costas ao

Estado. O entendemos como uma

relação social que deverá ser

democratizado. Para tanto se fazem

necessárias ações conjuntas entre ele

e a sociedade civil, onde nos situamos.

PIXURUM - O Fundo de Crédito

Rotativo situa-se entre as práticas do

Vianei que apresentam dificuldades

na concretização de seus objetivos.

O que está sendo feito para reverter

seus efeitos e, por outro lado,

responder à descapitalização

acelerada dos pequenos proprietários

rurais?

SÉRGIO - Trabalhar com crédito

junto aos agricultores (pequenos

proprietários, meeiros, arrendatários)

que carecem de condições mínimas de

sobrevivência é um enorme desafio e

espaço gerador de crises históricas.

Cometemos falhas metodológicas na

distribuição destes recursos, em suas

aplicações, acompanhamento, etc.

Acumulou-se (Vianei e trabalhadores

rurais) conhecimentos que estão

viabilizando novas práticas que

deverão se constituir em alternativas

eficientes para a superação dos

desafios vinculados ao crédito. Por

exemplo, a criação, pelos

trabalhadores, da ADIPAGRU

(Associação de Desenvolvimento e

Incentivo da Pequena Agricultura de

Grupo). Também existem no setor

de produção do Vianei perspectivas

concretas para dinamização do

cooperativismo de-crédito em alguns

municípios da região.

PIXURUM - Por ocasião das

solenidades dos 10 anos será

realizado um Seminário oe

Desenvolvimento Micro-regional.

Qual a contribuição do Vianei neste

assunto? Que tipo de

desenvolvimento a entidade propõe

para a região?

SÉRGIO - Os dados da realidade da

Região Serrana de Santa Catarina nos

aproximam muito da Região Norte do

Brasil. Ou seja: analfabetismo, im-

produtividade, déficit habitacional,

excludência, etc. Várias iniciativas

estão sendo buscadas hoje pelo po-

deres públicos locais e por entidades

da sociedade civil. São ações impor-

tantes. Mas não podemos pensar em

desenvolvimento micro-regional com

planejamentos localizados. Impõem-

se práticas e ações integradas, enfim,

planejamento com competência para

interferir no estrutural. O Centto

Vianei é um ator inserido nesse con-

texto e avalia a necessidade da urgenie

articulação da sociedade civil para a

construção de uma nova relação en-

tre esta força e as representações do

Estado. É esta a contribuição e o sen-

tido que queremos dar a este Semi-

nário de Desenvolvimento Micro-Re-

gional programado para os dias 15 e

16 de dezembro próximo. O tipo de

desenvolvimento que a entidade

propõe para a região é o que se cons-

titue em um dos eixos norteadores do

Centro Vianei, ou seja: um desenvolvi-

mento pautado em princípios da agro-

ecologia: uma agricultura economica-

mente viável, socialmente justa, eco-

logicamente sustentável e cultural-

mente aceita. Concluindo, posso afir-

mar que a realidade serrana enquanto

espaço de nossa prática e construção

de um desenvolvimento calcado em

princípios da agroecologia se apresen-

tam hoje para o Centro Vianei corno

proposta e como os grandes desafies

a serem enfrentados.

«o»


Página 6 Vianei 10 Anos Pixurum Especial

Entidade é mantida pela

solidariedade internacional

Local onde funciona o Centro Vianei, em Lages - SC

A exemplo da quase totalida-

de das ONGs brasileiras (en-

tidades civis sem fins lucra-

tivos) o Centro Vianei se mantém atra-

vés da cooperação ou solidariedade

internacional. Isto significa que ela-

bora projetos e encaminha solicitação

de recursos a entidades financiadoras

para repasses a fundo perdido. São

projetos de estudos, assessorias, cré-

dito a agricultores, enfim, para um

Foto: Loreno Siega

grande número de atividades específicas.

No caso do Centro Vianei as

fontes financiadoras tem sido Agências

Internacionais, chamadas "Agências

de Solidariedade". A entidade

conta hoje com financiamentos provenientes

de agências da Igreja Católica

Alemã (Misereor), Governo Alemão,

Comunidade Econômica Européia

(CEE) e Fundação Inter-Ameri-

cana (IAF-EUA). Está pleiteando

apoio financeiro junto ao Governo

Federal do Brasil.

Em anos passados a entidade

já contou com outras fontes interna-

cionais de financiamento bem como

do Governo brasileiro (MEC 1983-

84) e do Governo do Estado de San-

ta Catarina, através de convênio de

cooperação técnica.

As agências de solidariedade

aprovam (ou não) os projetos apre-

sentados segundo seus critérios, que

normalmente consideram as possibi-

lidades de eficácia dos trabalhos nas

suas proposições de contribuir com o

desenvolvimento dos povos.

Aprovados os projetos, firma-

se contrato entre as partes. Há acom-

panhamento na execução das tarefas

por parte das entidades financiadoras

e auditoriais periódicas. Durante o

processo normalmente acontecem

ajustes e (re)definições que são deci-

didas em conjunto, conforme as ne-

cessidades.

Recursos estão diminuindo

Com a derrubada do Socialis-

mo no Leste Europeu, que

ampliou o espaço e o público

demandador de recursos dos países ri-

cos, associado à crise do Capitalismo

mundial (crise dos Estados e desem-

prego nos países ricos) os recursos das

agências de solidariedade, destinados

a promover o desenvolvimento dos

povos subdesenvolvidos, vem diminu-

indo sensivelmente.

Este fato está forçando as

ONGS e outras entidades que sobre-

vivem deste tipo de financiamento a

algumas medidas:

I o ) Racionalizar melhor seus

custos de operação (O Vianei também

está nessa - possui um pequeno gru-

po de funcionários e procura raciona-

lizar as tarefas no sentido de

maximizar o custo^eneflcio);

2 o ) Buscar formas alternativas

de financimento (uma destas formas

é a participação direta dos parceiros

a quem se destinam os trabalhos. Eles

assumem uma parte dos custos como

mão-de-obra nos experimentos agrí-

colas, espaço físico, alimentação para

os assessores quando em atividades

de campo, etc).

Apesar dos esforços de racio-

nalização de recursos e a busca de for-

mas alternativas de financiamento

com custos partilhados, pensar em

auto-sustentação total da entidade "é

algo ilusório. Não só ilusório como

também um ônus injustamente impos-

to aos usuários destes serviços - no

caso os pequenos agricultores - bem

como aos profissionais prestadores de

serviços que teriam de se preocupar

adicionalmente com formas de agre-

gar dinheiro à sua entidade", afirma

Antônio Munarim, da coordenação do

Vianei.

Munarim, que exprime o pen-

samento do Vianei neste assunto, vai

mais longe: "Ônus injusto porque os

serviços são de caráter público para

quem presta. E para quem recebe

constituem-se como um direito de ser

assistido pela sociedade e pelo Esta-

do".

Seguindo esta lógica é que as

ONGs estão se organizando no senti-

do de conquistar mais espaço jumo

ao Estado brasileiro e comprometê-

lo com financiamentos e serviços a

estas entidades. Por outro lado, isto

está definindo melhor também a face

pública das ONGs, isto é, embora o

Vianei (exemplo) seja de Direito Pri-

vado, presta contas á sociedade.


Pixurum Especial Vianei 10 Anos Página 7

Não estamos sozinhos

Entidade está articulada com outros parceiros a nível local,

estadual, nacional e internacional

Lutas populares na Região Serrana: presença constante da equipe do Vianei

Partilhando do princípio de

que é a "união que faz a for-

ça" e de que "é preciso so-

mar para se chegar a resultados" o

Centro Vianei de Educação Popular

não atua isolado em suas práticas e

políticas. Sendo uma organização da

Sociedade Civil e buscando fortalecê-

la, assim como as demais ONGS, atua

no sentido de criar condições de mais

auto-governo, e principalmente, de

maior controle da gestão do Estado

pela Sociedade Civil.

Como uma entidade sintoni-

zada com seu tempo, o Centro Via-

nei articula-se em redes com outras

ONGS e Movimentos Populares (Mo-

vimento dos Sem-Terras, Movimen-

to de Mulheres Agricultoras, Movi-

mento de Atingidos por Barragens,

Sindicatos de Trabalhadores Rurais,

etc), quer sejam locais, regionais, es-

taduais, nacionais e mesmo internaci-

onais. Isto com vistas a ter melhores

resultados em seus esforços e objeti-

vos. No âmbito local da Micro-Re-

gião Serrana de Santa Catarina o Vi-

anei investe na participação e apoio,

por exemplo, ao "Fórum Ampliado

da Cidadania", uma instância que

reúne várias entidades e movimentos

com o objetivo de pensar e construir

alternativas de desenvolvimento a par-

tir da realidade local. Ainda em nível

local tem historicamente uma parce-

ria solidificada, compromissos recí-

procos com a Igreja na Diocese de

Lages, fundamentalmente, no campo

das pastorais sociais, onde mais esta-

belece laços.

A mesma relação de parceria

verifica-se com Universidades locais

como é o caso da UNIPLAC e o Cen-

tro de Ciências Agroveterinárias

(CAV), e com entidades públicas

como a AMURES e algumas Prefei-

turas Municipais, com quem o Via-

nei mantém e estreita programas im-

portantes.

No âmbito estadual podem ser

citadas as seguintes parcerias:

a) Fórum Permanente de Apoio à

Educação Básica (formado

institucionalmente pelo Vianei, UFSC,

UDESC e UNIPLAC) - Visa propor

alternativas e executar atividades na

área da educação escolar de 1° Grau.

b) Movimento dos Sem-Terras - As-

sessoria em suas lutas e objetivos nos

campos da formação e assistência téc-

nica.

c) Eco Fórum-SC - Nascido como

preparação à Conferência Rio-92 e

com continuação até hoje. Agrega de-

zenas de entidades catarinenses de ca-

ráter cultural, ambientalista, de desen-

volvimento, pastorais, etc.

d) Fórum Sul de ONGS - Agrega 25

entidades do Sul do Brasil. Objetiva o

estudo de questões de interesse co-

mum e ações articuladas. O Vianei

participa dos Grupos de Trabalho

(GT's) de Educação Popular e

Mercosul.

e) Rede T.A. Sul - Criada em 1983.

Agrega oito ONGS do Sul do Brasil

que trabalham com a questão da

Foto: Arquivo Vianei

Agroecologia. Articulasse com enti-

dades de outros estados formando a

Rede T.A.Nacional.

Em termos de Brasil o Vianei

articula-se com a ABONG (Associ-

ação Brasileira de ONGS) da qual

é membro filiado e integra atualmen-

te o Conselho Diretor da mesma. São

mais de duas centenas de Organiza-

ções Não Governamentais que atu-

am nos mais diferentes níveis, desde

a demarcação das terras indígenas,

preservação de rios, lagos, oceanos

e florestas, até entidades que traba-

lham com grupos minoritários.

Também em nível nacional a

entidade mantém vínculos com a

ABVP (Associação Brasileira de

Vídeo Popular), uma organização

que atua com materiais audiovisuais

de caráter popular e alternativo, sub-

sídios importantes para o trabalho de

formação e educação do Vianei.

Já em termos de relações in-

ternacionais, além das agências

financiadoras localizadas na Europa

e Estados Unidos, o Centro faz parte

da RIAD (Rede Interamericana de

Agricultura e Democracia). Trata-

se de uma instância que reúne enti-

dades e pessoas do continente ameri-

cano ligados à pequena agricultura,

identificação de problemas comuns e

busca de soluções.

Como se vê, o Vianei não está

sozinho e sempre procurará manter

estas e outras relações que visem a

solidariedade e cooperação entre os

povos.


Página 8 Vianei 10 Anos Pixurum Especial

Relações internas procuram

Por ser uma ONG relativamen-

te pequena em número de pro-

físsionais, a estrutura

organizacional do Centro Vianei de

Educação Popular é bastante simples.

Trata-se de uma Sociedade Civil

composta por pessoas idôneas, com

uma Diretoria, um Conselho Fiscal e

Assembléia Geral que detém o poder

maior. Além disso existe um grupo de

profissionais contratados pela Socie-

dade Civil acima referida, com uma

Direção Geral Executiva que os co-

ordena. A Sociedade Civil, no caso, é

a AVICITECS (Associação Vianei de

Cooperação e Intercâmbio no Traba-

lho, Educação, Cultura e Saúde), com-

posta pelos seguintes membros: Jary

André Carneiro (Presidente), Rosa

Maria Beal Donato (Tesoureira), Pe.

Andréas Wigers (Secretário), Galeno

Carraro, Otacílio de Liz e Silva e

Cícero Celestino (Conselho Fiscal).

Estas pessoas foram eleitas no final

de maio de 93 e ficarão à frente da

entidade até maio de 95, ou seja, um

mandato de dois anos.

A AVICITECS rege-se por

um Estatuto. O Centro Vianei orien-

ta-se por uma Carta de Princípios pro-

duzida coletivamente. A partir daí, tra-

çam-se políticas e caminhos que são

trilhados pelo grupo de profissionais

contratados. Estes, por sua vez, con-

tribuem com a AVICITECS na exe-

cução das tarefas determinadas e ao

mesmo tempo ajudam a definir as po-

líticas e trabalhos, a partir das práti-

cas vivenciadas.

O grupo que atua diretamen-

ser democráticas

Fotos: Loreno Siega

Atual direção do Vianei: Geraldo Locks, Antônio Munarim e Sérgio Sartori

te nos trabalhos do Vianei é

multiprofissional, isto é, oriundo de

diversos campos do conhecimento

como Agronomia, História, Ciências

Sociais, Educação, Administração,

Comunicação, Teologia Pastoral e

Informática. Atualmente são 11 pes-

soas diretamente atuantes, mais um

agrônomo que está cursando

mestrado no Rio Grande do Sul, além

de três pessoas que trabalham nos ser-

viços da casa como cozinha, aloja-

mento para cursistas, limpeza, etc.

Entre os funcionários do

Vianei existe uma Coordenação Exe-

cutiva, escolhida pela diretoria da

AVICITECS e integrada por três pes-

soas. Esta coordenação deve prestar

contas à Diretoria e à Assembléia

Geral da Sociedade Civil. Atualmen-

Reunião semanal: espaço de avaliação e reavaliação constante

te a Coordenação Executiva do Cen-

tro Vianei é composta pelas seguin-

tes pessoas: Sérgio Sartori, Antônio

Munarim e Geraldo Locks.

Internamente os três integran-

tes da Coordenação Executiva esco-

lhem um Diretor Geral Executivo, no

caso, Sérgio Sartori. Cabe a ele, jun-

tamente com as coordenações de se-

tores, dar encaminhamento às deci-

sões e trabalhos empreendidos pelo

grupo todo.

As decisões internas são toma-

das da forma mais democrática possí-

vel, isto é, com participação efetiva

de todos os profissionais e funcioná-

rios. De todo modo, as relações in-

ternas são reguladas institucio-

nalmente, isto é, procura-se evitar as

práticas de todos decidirem sobre

tudo - atitude que longe de significar

democracia leva ao marasmo e inter-

ferências de outra ordem que não ne-

cessariamente profissionais.

Uma prática que ajuda a ava-

liar e reavaliar constantemente as par-

cerias, políticas e trabalhos do Cen-

tro Vianei são as reuniões ás segun-

das-feiras pela manhã. Trata-se de um

espaço "sagrado", com participação

de todos os profissionais, onde discu-

tem-se problemas, estudam-se assun-

tos, estabelecem-se estratégias, defi-

nem-se metas, avaliam-se trabalhos,

etc.

As reuniões das segundas-fei-

ras constituem-se em espaços impor-

tantes de alimentação e (re)ali-

mentação de todo o grupo para a exe-

cução das tarefas e desafios a que se

oroDÕem


Pixurum Especial Vianei 10 Anos Página 9

Atividades desenvolvidas

pela entidade

Os profissionais do Centro

Vianei de Educação Popular

atuam basicamente em dois

espaços: formação e produção. Exis-

tem outras atividades como comuni-

cação, administração e informática

que estão a serviço destes dois cam-

pos específicos de trabalho.

No setor de formação são re-

alizados encontros, seminários, cur-

sos para lideranças de organizações,

movimentos e pastorais populares. É

o caso do Curso de Educação Popu-

lar, desenvolvido já há cinco anos com

temáticas diversas, realizado em três

etapas durante o ano. Também é ati-

vidade formativa a assessoria que se

dá aos processos de formação das or-

ganizações como o Movimento dos

Sem-Terras (MST), Movimento de

Mulheres Agricultoras (MMA), Mo-

vimento de Atingidos por Barragens

(CRAB), Comissão Pastoral da Ter-

ra (CPT-SC), Sindicatos, Associa-

ções, etc. Esta assessoria se dá tanto

no local de atuação destes movimen-

tos e organizações como também no

próprio Vianei, inclusive com o em-

préstimo de espaço físico e estrutura

para cursos, palestras e seminários,

numa relação de parceria estabelecida

através de convênios.

Foto: Arquivo Vianei

Agroecologia: plantio de moranga em sucessão ao gado numa área de

adubação verde no município de Ponte Alta

Função formativa também se

realiza nas demais atividades. É o caso

dos agrônomos que desenvolvem tra-

balhos com agricultores de forma

participativa e educativa, articulando

prática-teoria-prática. Também é o

caso da comunicação que busca di-

vulgar os trabalhos realizados, assim

como auxiliar, com material didático

como boletins e audiovisuais, as de-

mais atividades. A informática e a ad-

ministração, assim como os serviços

da casa, não deixam de ter função

formativa na medida em que são pra-

ticados em função dos demais.

O setor de produção, por sua

vez, é o que atua mais diretamente

com o público central do Vianei: os

pequenos agricultores da Região Ser-

rana. Neste sentido desenvolve-se

uma série de atividades, tais como:

bovinocultura de leite; suinocultura;

programa de gestão agrícola; produ-

ção alternativa de moranga; produção

de feijão; programa de experimenta-

ção, melhoramento e produção de se-

mente de milho crioulo; programa de

produção agrícola, uso e conservação

de solo; programa de crédito agrícola

e programa de apoio e diagnóstico.

Agroecologia: eixo norteador

Todas as atividades do Centro Vianei, particu-

larmente as do setor de produção, orientam-se

pelos princípios da Agroecologia - uma pro-

posta em construção através de atividades concretas e

da reflexão teórica.

De acordo com a Carta de Princípios do Centro

Vianei a Agroecologia é entendida como "um conjunto

de medidas e práticas que busquem uma agricultura eco-

nomicamente viável, socialmente justa, ecologicamente

sustentável e culturalmente aceita". Portanto, um pro-

cesso de construção difícil diante de uma prática agrí-

cola imposta por um modelo capitalista de desenvolvi-

mento que não leva em conta estes princípios.

Mas a Agroecologia não se dá apenas lá na la-

voura. Ela começa com uma nova visão de mundo. De

acordo com o agrônomo Oscar Rover "a Agroecologia

tem na relação do conhecimento empírico-popular com

o conhecimento científico (elaborado) o seu lugar de

reação. É na mediação e busca de consenso entre o po-

tencial de uma prática e a realidade objetiva que social-

mente se avança para ela".

Em recente discussão sobre o assunto entre òs

profissionais do Vianei, alguém comentava: "A

Agroecologia é uma concepção de vida, de mundo, é

uma cosmovisão". Outra pessoa dizia: "Transcende

uma visão meramente técnica para um campo mais

abrangente, que envolve o técnico, o social, o político,

o econômico e o ecológico".

Como se vê, é um assunto onde existe muito a

ser construído, experimentado e aprofundado. Mas éuma

visão de mundo e de realidade que respeita o ser huma-

no e a natureza, a vida acima de tudo.


Página 10 Vianei 10 Anos Pixurum Especial

Desenvolvimento Micro-Regional:

uma contribuição do Vianei

Seminário de 15 e 16 de dezembro abordará questões como concentração

de capital, tecnologias e serviços em determinadas regiões

Prof. Antônio Munarim, da UFSC e colaborador do Centro Vianei

C

ertamente você já ouviu o termo

"ilha de prosperidade". E

se tiver lido alguma coisa de

Economia ou Sociologia também não

lhe é estranha a palavra "Belíndia",

ou seja, uma mistura da riqueza da

Bélgica com a pobreza da índia para

designar o Brasil de nossos dias. Mas

fique sabendo que isso só existe por

causa de uma realidade: concentração

de capital, de poder, de conhecimento...

Pois bem, estes assuntos estarão

em foco no Seminário de Desenvolvimento

Micro-Regional que o

Centro Vianei de Educação Popular,

em parceria com a Associação dos

Municípios da Região Serrana

(AMURES), estarão promovendo nos

dias 15 e 16 de dezembro. O acontecimento

faz parte da comemoração

dos 10 anos do Centro Vianei. É por

isso que terá como palco as dependências

da própria entidade, em Lages.

De acordo com Antônio

Munarim, colaborador do Vianei e

professor da UFSC, os assuntos que

serão tratados procurarão dar uma visão

de como tem se comportado o

Estado e a Sociedade Civil com relação

ao desenvolvimento ao longo dos

tempos. Munarim sustenta que existe

"centralização de capital, tecnologia

e de outros recursos necessários á produção

e ao bem estar das pessoas.

Centralização que tem significado exclusão

das periferias em todos os sentidos:

política, econômica, social e

cultural".

Foto: Loreno Siega

Neste sentido sustenta que "a

Região Serrana está para Santa

Catarina como o Nordeste está para

o Brasil", ou seja, é a parte pobre do

Estado. "Mas não basta constatar",

diz ele. "É preciso ver as razões que

levaram a realidade a ser como é e

também construir novas relações com

o Estado e com a Sociedade Civil".

"A economia e a sociedade é

globalizada e interdependente. Isto é

um imperativo da história", constata

o professor da UFSC. É por isso que

ele é a favor da descentralização do

poder, do incentivo à produção do

conhecimento e tecnologia no âmbito

local, "e, por conseqüência, das con-

dições ao desenvolvimento integral

dos cidadãos, quer seja individual ou

coletivamente''.

Implicações

Segundo Munarim, para se

conseguir um desenvolvimento inte-

gral há uma série de implicações que

ele enumera: numa nova visão de De-

mocracia (com igualdade, liberdade,

solidariedade, pluralidade e participa-

ção); na viabilidade do exercício do

poder em todos os âmbitos; numa

nova visão da relação da Sociedade

Civil com o Estado.

"Trata-se de construir um

novo modelo de Estado, democrático

porque gerido e criado pela Socieda-

de Civil. Este modelo implicará o for-

talecimento do município, o que não

significa simplesmente reforço aos po-

deres das Prefeituras e Câmaras de

Vereadores nos modelos existentes".

Munarim enfatiza que atual-

mente não se trata dos movimentos e

organizações ficarem de costas e cri-

ticando o Estado. "É preciso articu-

lação de esforços, participação, bus-

ca conjunta de alternativas de desen-

volvimento integral''. Um desafio que

continua, antes e depois do Seminá-

rio, com certeza.

CQl Agenda de Dezembro |£, ,-.x^'j

Data: Evento: Local:

01 e02 Reunião Equipe CPT Estadual Lages

04e05 Seminário estudantes UFSC/Vianei Lages

04e05 Reunião Coord. Regional Sindicatos Lages

09 e 10 Reunião CPT/Diocese Lages

11 el2 Reunião Coord. Reg. MMA Lages

15el6 Seminário de Desenvolvimento Micro-

Regional - 10 anos Vianei

Lages

17 Encontro Celebrativo e Cultural - 10 anos Lages

Vianei

18 Assembléia Geral AVICITECS Lages

22 e 23 Seminário Interno Vianei Lages

28 Seminário de Crédito Agrícola Lag( !S

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