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o escritor, o anjo das tetas grandes, a cara de ... - Jorge Vaz Nande

o escritor, o anjo das tetas grandes, a cara de ... - Jorge Vaz Nande

pouca fruta. A história

pouca fruta. A história que o escritor escrevia era sobre um homem que era assassinado por um assassino pouco depois de ter descoberto algo de muito importante e havia depois alguma coisa que era do homem assassinado e que dava a volta ao mundo e que via como o mundo era realmente e que dizia às pessoas como o mundo era realmente. Era uma coisa muito bela, que não se podia dizer antecipadamente o que era para não tirar o suspense a quem lia, para aguentar os leitores até ao final da história, porque era só mesmo isso o que escritor escrevia, o escritor era escritor de história e não gostava de poemas, e muitas vezes dizia que gostava deste e daquela mas nem sequer podia dizer que estava a mentir, porque nunca os tinha lido, mas ele pensava com ele que nunca os tinha lido, mas, apesar de nunca os ter lido, podia sempre ler um dia e gostar e, por isso, preferia acautelar-se e, como não tinha medo de contradições, o escritor escrevia sobre uma coisa que dava

voltas ao mundo, mas estava sempre dentro de uma cabana. Nevava do lado de fora da cabana e por isso mesmo é que o escritor tinha a lareira acesa: porque queria esquecer-se de que nevava lá fora, apesar de estar a escrever uma história sobre uma coisa que dava a volta ao mundo e um homem que morria. O escritor queria, no fundo, esquecer-se do mundo a que a coisa dava voltas e esquecer-se de que ele, escritor, era, no fim de tudo, homem, porque o escritor queria era ser só o acto de escrever, disso é que ele gostava. Ele já tinha pensado muito no assunto e o que preferia era mesmo calarse quando estava com a sociedade dos amigos e comandita dos compadres e voltar para a sua cabana pequena em lenha de pinho e começar a escrever sobre a coisa que dava voltas ao mundo dentro da sua cabeça, sentindo o quente do roupão cor de brandy à meia-noite e o esquecimento de tudo o resto.

Lendo os cadernos de Ícaro - Jorge Vaz Nande
O sumiço do Espanto por Isabela Nogueira - Casa do Jorge