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o escritor, o anjo das tetas grandes, a cara de ... - Jorge Vaz Nande

o escritor, o anjo das tetas grandes, a cara de ... - Jorge Vaz Nande

A neve caía do cinza do

A neve caía do cinza do céu e parecia não parar e parecia que iria sepultar o escritor dentro da sua cabana de lenha de pinho, não fosse a lareira que aquecia a casa e que, eventualmente, poderia queimar a própria casa e derreter a neve que a sepultasse, e o escritor ficaria então sem casa e condenado a dar voltas ao mundo fora da sua cabeça sem lareira, e talvez já sem o roupão cor de acabar, porque o roupão é quente ao lado de uma lareira, mas é frio no meio da neve. Ainda não havia, enfim, a casa a arder, e ao escritor doíam-lhe as mãos porque tinha começado a pensar no sargento dos desenhos animados que soprava vento para as mãos dos magalas e lhes fazia doer as mãos. Por isso, o escritor, apeteceu-lhe parar um pouco de escrever e acabou um capítulo e parou de escrever e fez rodar a cadeira e, sem se levantar, porque a casa era pequena demais para que se pudesse levantar dentro dela, sem se

levantar abriu o frigorífico e tirou de lá uns bolos de farinha e acendeu o fogão e fez apitar uma cafeteira que tinha café e o café foi despejado pelo escritor numa chávena alta e era café fraco para se poder beber mais e não fazer mal, era café para aquecer e, o bolo de farinha, o escritor começou a comê-lo porque o bolo servia também para o escritor aquecer, e o escritor comeu e bebeu e soprou nas mãos e sentiu o mau hálito com que tinha ficado na boca e fez rodar a cadeira e havia um lavaloiça no outro lado da cabana pequena de lenha de pinho e o escritor tirou uma escova dos dentes do bolso do roupão e esfregou sabão nela e esfregou a escova nos dentes, e a neve continuava a cair, viu-a ele então através da janela, e o escritor achou que tinha falhado na vida porque estava a ver a neve quando, na verdade, o que ele queria era comer bolos de farinha e beber café quente e esquecer-se da neve que caía lá fora porque nada lá de fora lhe interessava a não ser a coisa que andava a

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