1 - Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro

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1 - Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro

.opiiyiAo

.ANALISE .

INFORMAÇÃO

Publicacào

Quinzenal do

CENTRO DE

PASTORAL

VERGUEIRO

feitarna

Contribuição

do companheiro Che

para compreender

o momento atuai

"Os revolucionários não podem prever de antemão todas as variantes táticas a serem utilizadas

no processo de sua luta por um programa libertador. A qualidade de um revolucionário se mede

por sua capacidade em encontrar táticas adequadas a cada mudança de situação, em ter

sempre em mente as diversas táticas possíveis e em explorá-las ao máximo. Seria um erro

imperdoável descartar por princípio a participação em algum processo eleitoral. Em

determinado momento ele pode significar um avanço do programa revolucionário. Mas seria

imperdoável também limitar-se a esta tática sem utilizar outros meios de luta, inclusive a luta

armada como instrumento indispensável para aplicar e desenvolver o programa revolucionário.

Sem essa condição, todas as conquistas são insuficientes e incapazes de dar as soluções

necessárias, por mais avançadas que possam parecer.

Quando se fala em alcançar o poder pela via eleitoral, nossa pergunta é sempre a mesma: se

um movimento popular ocupa o governo de um país sustentado por ampla votação popular e

resolve em conseqüência iniciar as grandes transformações sociais que constituem o programa

pelo qual se elegeu, não entrará em choque com os interesses das classes reacionárias desse

país? O exército não tem sido sempre o instrumento de opressão a serviço destas classes?

Não será então lógico imaginar que o exército tomará partido por sua classe e entrará em

conflito com o governo eleito ? Em conseqüência, o governo pode ser derrubado por meio de

um golpe de estado e aí recomeça de novo a velha história; ou, outra solução, é que o exército

opressor seja derrubado pela ação popular armada em defesa de seu governo. O que nos

parece difícil é que as forças armadas aceitem de bom grado reformas sociais profundas e se

resignem pacificamente a desaparecer enquanto casta".

"(...)Em vez desta estratégia e desta tática, lançam-se fórmulas limitadas: luta eleitoral sem

grande peso, algum avanço eleitoral aqui, acolá, dois deputados, um senador, quatro prefeitos;

uma grande manifestação popular dispersada a tiros; uma eleição que se perde com menos

votos que a anterior; uma greve que se ganha, dez que se perdem; um passo à frente, dez

atrás; uma vitória localizada aqui, dez derrotas lá. E de repente mudam as regras do jogo e

tudo recomeça.

Por que tais atitudes? Por que essa dilapidação das energias populares? Por uma única razão.

No seio das forças progressistas de alguns países da América, existe uma confusão terrível

entre objetivos táticos e estratégicos. Temos que reconhecer a inteligência da reação, que

conseguiu fazer destas posições ofensivas mínimas o objetivo fundamental de seu inimigo de

classe.

Nos países onde esses erros tão graves são cometidos, o povo mobiliza suas legiões, ano após

ano, para conquistas que lhe custam imensos sacrifícios e que não tem o mínimo valor. São

apenas pequenas colinas dominadas pelo fogo cerrado da artilharia inimiga: O nome delas são

parlamento, legalidade, greve econômica legal, reivindicações por aumento salarial,

constituição burguesa, libertação de algum herói popular. E o pior de tudo é que para ganhar

estas posições tem que intervir no jogo político do Estado burguês e, para obter a autorização

de entrar neste jogo perigoso, é preciso demonstrar que atuará dentro dos estritos limites da

legalidade, que é bonzinho, que não representa perigo, que não passará pela cabeça de

ninguém assaltar casemas ou trens, nem destruir pontes, nem punires carrascos e os

torturadores, nem ir até as montanhas e erguer com o punho forte e definitivo a única e violenta

afirmação da América: a luta final por sua libertação".

Para as vítimas de Volta Redonda e do ABC:

' Todo verdadeiro homem deve sentir na sua face o

tapa dado em qualquer outro homem"

t/


Quinzena (2

Assumiste tua parte, irmão.

Cumpriste^a integralmente.

L .««iaaen»dafri ul P e °' Aos que ficam,

QUlNZb^' coinpanh eiro fV,v e \ A disposição, a certeza, convicção

Roberto *** VaíJme de Tra "T\qjÇ7.

participou da o^Xde 198* a ^ . ^^ ^^

entidade oo P e J*^ava no 13 de "* \ Porém, firme e inflexível

Mualmeote JJ^^, Popular. \ Foi tua bandeira

_ Núcko de ba»^-^____ De luta, pela liberdade

Pela vida.

Pela morte.

'fAU) W(JUBLB£ Homens üves

w m> wcedmfi ^-^-^

A WORJl^ Compartilhamos teu ódio

, Pelos opressores.

^ w /i PBRpmim irp^rrs:.

AlüíO GA&PüA Estudamos os passos do inimigo

lW snPtsrl Para entender sua lógica.

Á \//r>á // E assim,

r\ v ll/n Descobrimos ações

Mais eficientes

A cada dia,

X5l R//} Ensinando e aprendendo que o inimigo

' ^ Só é indestrutível nas aparências

E na fé abalada dos que

Vacilam.

Os revolucionários não pediram para vir.

Muito menos Transformar cada milímetro

Deve-se-lhes exigir Dessa imensa dor

Que não partam! Na certeza de que, juntos

Poderemos construir um mundo

H onde quer que vão Onde gente como você

Sempre levarão consigo Possa caminhar tranqüilo

Munição o bastante Pelas madrugadas. Escrever seus poemas

Nas suas palavras Cantar seus versos

hm cada gesto, E tenha sobre os balcões dos bares

Subvertendo a ordem Sempre uma bebida qualquer

Inquietando as aparências. Para matar

Ainda que temporariamente

bm cada movimento teu, camarada, Essa sede milenar

Uma luta intransigente De justiça

Pela vida.

Inclusive neste. Ser, em cada possibilidade

A unidade de contrários

Teu gesto, pura coragem Explodindo em ânsia

Subverte De viver e amar

As vacilações Todo o bocado que

De tantos que não ousam acreditar A cada um de nós cabe.

Ou irresponsavelmente, jogam

As responsabilidades Cada um, se desenvolvendo

Para as gerações futuras Até seus limites.

"- Quem sabe, daqui há 50 anos..." Assim será.

ASSINATURAS'

Grupo 1 NCz$ 11,40 (seis meses) eNCz$ 22,80 (12 meses)

Grupo 2 NC2$ 15,60 (seis meses) e NCz$ 31,20 (12 meses)

Entidades Sindicais e outros NCz$ 24,00 (seis meses) e NCz$ (12 meses)

Exterior (via área) US$ 30,00 (seis meses) e US$ «),00 (12 meses)

O pagamento deverá ser feito em nome do Centro Pastoral Vergueiro em cheque nominal, cruzado, ou vale

postal DESDE QUE SEJA ENDEREÇADO PARA A AGÊNCIA DO CORREIO IPIRANGA - CEP 04299 -

Código da Agenda 401901 - Preços válidos até 30/04/89

QUINZENA - Publicação do CPV - Caixa Postal 42.761 - CEP 04299 - Sáo Paulo - SP Fones:

(011)273.6533 6 273.9322 ,,„,,■■„ ■„„. ■A.. .. „„.. ,0

Descansa, revolucionário e amigo.

Novos e mais capazes filhos

A classe operária

Gesta, nos intervalos breves

Da reprodução da força

De trabalho

E mais eficientes

Hão de ser,

Não só na luta permanente

Pela transformação das estruturas,

Mas também

Das relações que nós até hoje

Não fomos capazes de criar

Entre nós mesmos.

Em cada um de nós

Uma nova possibilidade

De renovar compromissos e ações para

Com a vida alheia, e a nossa própria.

Na tua morte

Na tua vida

Sempre

revolucionariamente

em tudo.

Tua Equipe

13 de Maio-Núcleo de Educação

Popular.

GUARULHOS, 25.04.89

MARXISMO E SOCIALISMO NA

AMÉRICA LATINA

Cláudio Nascimento e Michael Lówy

Edição CECA e CEDAC, 1969, 80 pp.

Este caderno apresenta dois textos. O

primeiro de autoria de Cláudio

Nascimento recupera o pensamento de

três grandes marxistas da América

Latina: Mariátegui, Guevara e Carlos

Fonseca. O segundo texto de autoria

de Michael Lówy salienta a importância

do poder popular, baseado na

democracia direta de base, nas

revoluções Cubana e Nicaraguense.

A QUINZENA divulga as questões políticas de

fundo em debate no movimento, contudo colo-

ca algumas condições para tanto. Publicamos

os textos que contenham teses e argumenta-

ções estritamente políticas, evitando os ata-

ques pessoais; serão publicadas as réplicas que

estejam no mesmo nível de linguagem e com-

panheirismo. Nos reservamos o direito de di-

vulgarmos apenas as partes significativas dos

textos, seja por imposição de espaço, seja por

solução de redação.


iiliiiiii:

Quinzena

Oposto õcs

A Luto Metalúrgica de Santos

vímímmmmmmmmMmmm * v

Trabalhadores

Em dezembro de 1987, a COSIPA demitiu 275 trabalhadores em represália ao movimento grevista. A luta pela

readmissão destes companheiros vem sendo travada pela oposição desde o primeiro momento. Como parte desta

luta, os companheiros acamparam no Largo do Paissandu (Centro de Sâo Paulo), exigindo o respeito à

Constituição e a reintegração dos demitidos. Publicamos a primeira parte da entrevista com Aparecido Lino de

Prado e Carlos Irajá Zanon da Rocha, da oposição sindical metalúrgica de Santos. Nesta primeira parte eles

traçam um histórico da oposição até as eleições de 1987. Na próxima QUINZENA publicaremos a parte final.

QUINZENA - Companheiro Cido, como surgiu a

oposição?

Cido - Bom. A oposição surgiu em 1.982, quando um

grupo de companheiros da Cosipa, analisando a prática

da direção do sindicato, viu que tinha a necessidade de se

formar um agrupamento para tentar superar os erros e as

formas anti-trabalhadores que essa diretoria tinha. Esse

pessoal basicamente se organizou através da escola de

formação do sindicato. Através dessa escola, onde toi

possível a gente ter uma interferência torte, conseguimos

aglutinar alunos, onde a maioria era metalúrgico da Cosi-

pa, discutir e interferir no método de ensino da escola,

tentando aplicar o próprio método Paulo Freire. A partir

daí constituiu-se a oposição.

Q - Vocês já tinham experiências de participação an-

terior?

Cido - Pessoalmente sim, porque desde 67, aqui em

São Paulo, militei junto a oposição sindical metalúrgica,

na época que estava o Rossi, o pessoal mais antigo e,

posteriormente, na oposição sindical bancária, até 1971

mais ou menos quando depois me preparei com curso

profissionalizante e desci prá Baixada Santista.

Q - Quantos vocês eram na época que começou esse

trabalho?

Cido - Bom, começou comigo e depois se juntaram

mais 2 companheiros. O Companheiro Walter e o compa-

nheiro Aguinaldo, e depois foi se ampliando. Basica-

mente essas 3 pessoas fizeram com que a oposição se de-

senvolvesse.

Q - Você participa desde essa época da oposição?

Carios - Não. Comecei a participar depois de 84

quando o processo da oposição começou a vingar dentro

da empresa. Nessa época eu não era militante, só partici-

pava de sociedades amigos oe bairro e não atuava na área

sindical.

Q —Nessa época você estava na Cosipa também?

Carlos - hu entrei em 76 na Cosipa.

Q - Qual foi a primeira eleição que vocês participaram?

Cido-Foi a de 1983.

Q - Como foi essa eleição?

Cido - Essa foi uma eleição muito importante porque a

gente já iniciava com um grupo bastante ampliado e com

o pessoal com uma disposição fora de série. Foi possível

ãnuimm

nesse 1 ano e meio de trabalho mais ou menos, fazer com

que o pessoal se animasse realmente da proposta, e foi

uma eleição bastante ferrenha onde a gente conseguiu,

até de forma surpresa prá nós, fazer com que houvesse o

2° turno da eleição. Apesar de haver uma chapa 3, mon-

tada pela empresa e pela própria situação - diretoria do

sindicato - nós conseguimos ficar em 2- lugar, não muito

distante da situação, que acabou ganhando.

Q - Como é que foi o processo de formação dessa

chapa?

Cido - O processo foi sem grandes probiemas de dis-

puta, porque não existia nada na baixada. Aquele era

o único grupo constituído. Um grupo que tinha um entro-

samento, uma coesão, uma idenülicaçào e sem preocupa-

ção de mando, de quem é aquilo, quem não é aquilo.

Quer dizer, havia uma sintonia muito forte.

Q - Esse grupo de pessoas já tinha alguma participa-

ção política anterior a esse processo?

Cido - Não. O máximo de participação que esse pes-

soal teve foi no transcorrer da formação. Foi numa ação

que a gente desenvolveu, principalmente dentro da esco-

la. Foi o aprendizado político do pessoal, foi a luta inter-

na na escola prá que prevalecesse uma educação que de

fato o estudante pudesse interferir no processo educativo.

Q - Como é que vocês avaliaram o resultado eleito-

ral?

Cido - Bom. Nós avaliamos que o trabalho, a disposi-

ção e o entusiasmo, ainda era insuficiente para ganhar-

mos o sindicato, porgue a direção do sindicato tem rami-

ficação na baixada. E o PCB antigo que tá lá. Tem rami-

ficação no meio pariamentar, empresarial e o próprio

comportamento que o PCB tem de fazer essa política de

aliancismo e conchavos, colocando como mais importante

se galgar cargos nas empresas do que a própria luta, fez

com que a direção da Cosipa, que é forte no momento da

votação, traoalhasse ferrenhamente prá que a cnapa 1 ga-

nhasse. Então, a gente enfrentava, não só a situação, co-

mo a própria empresa, que tem um trabalho de massifica-

ção dos operários muito sofisticado. Para que a gente

possa vir a ganhar, vai ter que ter muito mais elaboração,

tem que ter um crescimento muito maior da própria orga-

nização dentro da fábrica, não só de trabalho de campa-

nha salarial, e a gente não conseguiu caminhar muito na

organização dentro da fábrica.

Q-Após o processo eleitoral, houve represálias aos


Quinzena

membros da oposição? Cano e que continuou a argam

zação da oposição desse período até a outra eleição?

Ckk) - Acabado o processo eleitoral a repressão mon-

tada pela empresa foi bastante de isolar os militantes mais

reconhecidos. Então, se colocava um cara na área admi-

nistrativa, como foi o meu caso, outro num setor distan-

ciado. Só que nós conseguimos superar isto, dado ao

ânimo do pessoal, a disposição. Mesmo a partir da der-

rota de 83, a oposição continuou com pique, fazendo bo-

letins (praticamente mensal) e continuamos até 86.

Q - Pelo que entendi, no início vocês estavam con-

centrados na Cosipa. Nesse processo, vocês consegui-

ram atingir toda a categoria?

Cido - Acontece o seguinte, a categoria metalúrgica

na baixada tem um número maior e mais expressivo, co-

mo força política, a própria Cosipa. Fora dela, a categoria

tem oficinas pequenas e isoladas. Conseguimos alguns

contatos em algumas oficinas, mas pra ter o trabalho em

oficinas isoladas e distantes, tem que haver alguém com

condições de tempo. Então mesmo não tendo feito um

trabalho amplo nas oficinas tivemos um percentual de

votação supreendente, muito grande, dado ao desconten-

tamento do pessoal em relação à direção.

Q - Você que encabeçou essa chapa?

Ckk) - Sim.

Q- E em 86, como foi o processo de formação dessa

nova chapa? Eram os mesmos membros?

Ckk) - É, em 86 ficaram basicamente as mesmas pes-

soas. Houve felizmente, acréscimos, outras pessoas entra-

ram, ela conseguiu desenvolver bem mais. Em 86 a es-

colha da chapa foi da mesma forma, tranqüila, sem dis-

puta. O único problema que houve, realmente, foi quando

o pessoal da chapa 3, que era um pessoal ligado aquela

tendência do PDT - a esquerda - tentou a composição.

Fomos contra e tivemos que fazer convenção, porque a

CUT não percebia que esse pessoal, que tinha rachado

com a diretoria apesar de ter ramificação e trabalho, não

tinha um compromisso sério com a categoria. Nós conhe-

çamos o seu comportamento.

Q — Então havia uma proposta de composição?

Cido — É havia a proposta de composição e a gente

não aceitava de forma alguma.

Q - Esse pessoal formou chapa?

Cido — Eles fizeram uma convenção com a gente, sob

a direção da CUT, por incrível que pareça. Ganhamos

que seria somente uma chapa. Eles desrespeitaram a con-

venção e saíram com a terceira chapa.

Q — Você participou da chapa?

Carios - Não, só participei do processo.

Q — Como você avalia esse processo?

Carlos — Bom. É como o companheiro Cido falou, foi

uma forma natural na escolha da chapa, mas devido aos

problemas que ele coloca, que a própria Central teve er-

ros na forma de dar apoio a oposição, quase que houve

Trabalhadores

apoio só de uma tendência de dentro da Central, o que

talvez até causou prejuízo. A CUT é uma Central Única

do Trabalhador e não pode haver o que está acontecendo

até hoje, que é essa divisão de tendência. Talvez até en-

carem a gente como inimigo porque pertencemos a uma

tendência, a CUT Pfcla Base. A Aiticulaçáo não deu o

apoio para nós.

Q - Nessa época vocês já se definiam CUT Pela Ba-

se?

Ckk) - Desde o começo.

Q - Como foi o processo da eleição?

Cido - No processo da eleição houve problemas jurí-

dicos, porque realmente a direção do sindicato, por mais

democrática que ela se diz ser e progressista e até de es-

querda, a prática dela não corresponde a isso. Então, a

democracia apresentada não vigorou porque a direção do

processo ficava na mão do presidente e eles impunham

encaminhamentos que atendiam a seus interesses. E nas

questões jurídicas que podem favorecer eles criavam im-

pedimentos.

Q - Qual foi o resultado da eleição?

CkJo - A chapa 1 ganhou, nós ficamos em 2 5 lugar - e

a chapa 3 ficou em 3 2 lugar. No 1° turno a chapa 3 aca-

bou se retirando, quer dizer, não se retirou, mas ela redu-

ziu muito o número de votos.

Q - O fato de vocês serem uma corrente minoritária

dentro da CUT influiu nesse resultado?

Cido - Acredito que influiu sim, porque a gente per-

deu muito tempo brigando com a corrente da Articulação

no sentido que ela tivesse mais clareza de como encami-

nhar, onde a gente deveria ter priorizado o trabalho junto

as bases.

Q - Após o resultado da eleição vocês continuaram

avaliando que a posição de não composição foi correta?

Cido — Sim, continuamos avaliando.

Q - Após as eleições houve repressão por parte da

Cosipa em relação aos membros da oposição?

Cido - A represália era a mesma que existia antes, de

separar os militantes de junto da base. Basicamente foi

isso. A coisa se caracterizou mais na greve de dezembro

de 87, quando houve demissões e abalou fortemente a

oposição.

CRECHES COMUNITÁRIAS

Fundação Fé e Alegria do Brasil

Edição CPV, 1989, 3 cadernos, NCz$ 1,50

São três cadernos que fazem uma reflexão sobre a temática Cre-

ches Comunitárias e Educação Popular. O primeiro fala de Cre-

ches Comunitárias: indiciplina - Há solução? O segundo é sobre

alfabetização de jovens e adultos. E o terceiro é um relato de

uma prática educativa em creche comunitária.


- ~ ■p^^

METALÚRGICOS DE SÃO BERNARDO E DIADEMA:

30 ANOS DÈ SINDICATO

Com o crescimento do parque industrial na década de 50, São Bernardo passou a ter uma base metalúrgica maior

do que Santo André. Diante disso, inicia-se a articulação pelo desmembramento sindical, já que o sindicato dos

metalúrgicos sediado em Santo André abrangia todo o ABC. Por outro lado, interessava ao PCB a criação de novos

sindicatos, pois aumentava seu peso eleitoral nas federações sindicais. Assim, em 12 de maio de 1959 é fundado a

Associação Profissional dos Trabalhadores nas Indústrias Metalúrgicas e de Material Elétrico de São Bernardo e

Diadema. Os 71 metalúrgicos presentes na reunião de fundação elegem o sócio n- 1 Lino lizelino Camiel como

presidente. Em 26 de agosto do mesmo ano, outra Assembléia elege a primeira diretoria do sindicato, tendo

Anacleto Potomatti como presidente. O texto que publicamos é um extrato do livro A Rebeldia do Trabalho, um

estudo sobre o significado das greves metalúrgicas desencadeadas no ABC entre 1978/80, de Ricardo Antunes. Ü

autor situa a particularidade desta categoria e sua importância no processo político brasileiro. Imagens da Luta

1905 — 1985, publicado pelo sindicato, é outro livro importante para

quem deseja conhecer a história desta categoria.

Ricardo Antunes

(...)

Qual, então, a particularidade des-

se segmento?

inserido no núcleo dinâmico da in-

dustrialização brasileira recente, o

proletariado metalúrgico do ABC é a

expressão do pólo avançado da nossa

classe operária, onde as contradições

se manifestam de maneira acentuada;

é o "local onde se dá, em grau máxi-

mo, a exasperação das contradições e

das lutas sociais."(1) Esta categoria,

que se originou através da presença

!das empresas monopólicas marcadas

por forte concentração operária, cons-

tituir-se enquanto núcleo moderno do

proletariado brasileiro, cuja origem

remonta à grande indústria tradicional

mas que, através do processo de in-

dustrialização recente, viu germinar

um novo contingente quantitativa e

qualitativamente distinto do anterior,

responsável pela elevação, a um pa-

tamar superior, da própria configura-

ção do proletariado.(2) Com sua obje-

tivaçáo constitui-se uma categoria

que, como vimos anteriormente, foi

capaz de impulsionar, nos anos 78 e

79, através de sua ação, diferentes

setores, desde aqueles vinculados às

indústrias tradicionais, até os que

guardam maiores heranças da socie-

dade colonial. A diaieticidade entre

o novo e o velho ganhou novos con-

temos com a atuação do proletariado

da indústria metalúrgica.

Nas palavras de Florestan Fernan-

des: "É patente que, apesar de todas

as suas insuficiências e deficiências,

o regime de classes introduziu novos

dinamismos de um 'capitalismo avan-

çado' na sociedade civil e que esses

dinamismos começam a operar com

certa desenvoltura, pelo menos nas

regiões nas quais o modelo monopo-

lista de desenvolvimento capitalista

se implantou com maior vitalidade.

A industrialização maciça fortaleceu o

proletariado e projetou politicamente

um setor de ponta com potencialida-

des hegemônimas. A migração rural-

urbana e a reintegração do mercado

fomentam tensões insuperáveis e

formas de comunicação da cultura de

massa que tomam as cidades-incha-

das e a pobreza produzida pelo sub-

desenvolvimento regional um fermen-

to político crescentemente incontrolá-

vel. A internacionalização e a acelera-

ção no desenvolvimento capitalista

não só agravaram desequilíbrios re-

gionais crônicos como plantaram nas

metrópoles um estado de inconfor-

mismo exacerbado, que só não é

mais perigoso para a ordem estabele-

cida porque se manifesta de modo

predominantemente espontâneo e

anómico."(3)

Tudo isso, agregado à penetração

capitalista e às transformações so-

ciais no campo, foi "..suficiente para

pôr em evidência que o regime de

classes, indiferenciado e deprimido

nas regiões nas quais a descoloniza-

ção náo chegou até o fim e até o fun-

do, excluindo o trabalho da categoria

de mercadoria ou inibindo sua valori-

zação através do mercado [..,], apre-

senta um máximo de saturação e de

dinamismo diferenciadores em alguns

pólos industriais densos e fortes. Es-

ses contrastes não traduzem apenas

uma 'contemporaneidade' de fases

::. :. V • : :>;Si^;H; : >

históricas distintas. Eles refletem a

superfície e as profundezas do desen-

volvimento capitalista desigual, em

um ponto no qual o 'atraso relativo'

deixa de servir como um fator de

equilíbrio estático do conjunto e as

'forças de ponta' carregam atrás de si

todas as demais, gerando uma situa-

ção histórica revolucionária de longa

duração. Os diversos momentos de

tensão e de conflito, vinculados ao

mais velho e atrasado e ao mais re-

cente e moderno ganham a luz do dia

e eclodem na cena histórica enca-

deados e em atrito, permitindo que as

'forças de ponta' operem, em escala

nacional, em todos os níveis de orga-

nização, diferenciação e expansão do

regime de classes. "(4)

O florescimento desse novo seg-

mento proletário dá também, quali-

dade nova àquele que o originou: o

migrante, egresso das regiões mais

atrasadas e que, ao inserir-se nos

marcos da fábrica monopolizada, as-

(1) Conforme formulaçáo de Celso Frederico,

in "Por que São Bernardo?" Folhetim,

11/maio/1980, p.12.

(2)Lembre-se que no pré-64, o sindicalismo e

as lutas reivmdicatórias urbanas encontravam no

proletariado das empresas estatais (ferroviários,

marítimos, portuários^ etcj o seu pólo mais com-

bativo e que se constituía enquanto base social do

sindicalismo político dirigido pelo Comando Geral

dos Trabalhadores (CGT). Ver, a este respeito,

Rodrigues, UM., "Sindicalismo e Classe Operária

no Brasil (1930-1964)", em História Geral da Civi-

lização Brasileira, X, Sáo Paulo, Difel, 1981, pp.

539 e seguintes, e Costa, S.A., Estado e Controle

Sindical no Brasil, Sáo Paulo, T.A. Queiroz, 1986,

especialmente a segunda parte.

(3) Fernandes, Florestan, A Ditadura em

Questão, op. cit, p. 53.

(4) ld., ibíd., p.54.


Quinzena

sume sua face autenticamente prole-

tária, de ser social moldado pelo

mundo industrial. Por isso toma-se

inútil - porque insuficiente - querer

diagnosticar a ação do operariado da

indústria automobilística pela sua di-

mensão individual, de migrante que

visualiza e vislumbra sua trajetória ru-

ral-urbana como realização de sua

ascensão social.Tudo isso é fenomê-

nico e mascara o substancialmente

novo, qual seja, que a realidade in-

dustriai transforma o ser que mi-

gra,cuja consciêcia, até então molda-

da pelo contexto agrário e pela crença

no self-made-man, pela "solução indi-

vidual", e que agora se depara com o

mundo fabril, cada vez mais propulsor

de ações coletivas.(5)

Por estas razões parece-nos des-

provido de qualquer veracidade e fun-

damento imputar ao proletariado mo-

derno da indústria automobilística a

especificação de categoria material-

mente privilegiada, elitizada ou aristo-

cratizada, fonte objetiva necessaria-

mente geradora de uma consciência

reformista.

Ao contrário, como vimos nos capí-

tulos destinadas à análise das greves.

sua ação teve uma dimensão detona-

dora do movimento grevista, talvez

assemelhando-se, por isso, mais ao

papel de "vanguarda" assumido pelos

metalúrgicos de lurin ou de Petrogra-

do do que às aristocracias operárias

da Inglaterra ou Estados Unicios.(6)

Enfatizamos que estas considera-

ções limitam-se ao plano da objetiva-

ção do operariado metalúrgico vincu-

lado à indústria automobilística. Numa

realidade concreta marcada pela di-

versidade industrial e onde o processo

de industrialização subordinada não

conseguiu realizar-se de forma autô-

noma e auto-sustentada, o proletaria-

do do ABC paulista representava a

parcela mais desenvolta, dentro da

heterogeneidade que marca o proleta-

riado brasileiro. Inserida numa região

onde destacam-se unidades fabris

com plantas industriais desenvolvidas

e altamente mecanizadas, com alta

composição orgânica de capital, forte

concentração operária, características

estas básicas das indústrias do ramo

automobilístico, a categoria metalúr-

gica do ABC paulista expressa essa

realidade.

(...)

Crônica da Resistência Operária

Milhares de metalúrgicos, armadqs de gana e esperan-

ça, caminham pelas principais ruas de São Bernardo rumo

à Toyota, representante do imperialismo japonês e uma

das empresas que aplicam métodos "modernos" de admi-

nistração de tazer invejar aos seus comparsas nazistas. A

multidão de trabalhadores grita palavras de ordem contra

a exploração. Seu alvo predileto é o governo Sarney. Em

seu meio dissipa-se uma energia contagiante que renova

as esperanças e a certeza da vitória. Cada operário une-se

ao outro por laços profundos; percebe a sua força; sente-

se como sujeito da história. Em seus semblantes a serie-

dade exigida pela luta, mas também a alegria renovada

pelo sentimento de viver com dignidade. A polícia, sus-

tentáculo do Estado burguês e delensor da propriedade

privada dos patrões, não podem compreender o significa-

do de tudo isto. Como de costume, com a arrogância que

lhe é característica quando o adversário é o trabalhador

desarmado, a polícia ataca os operários com bombas. Es-

tes defendem-se com as armas possíveis naquele mo-

mento: garra e pedras. Os policiais apontam revólveres e

disparam. Em meio ao corre-corre e o vaivém, os compa-

nheiros socorrem os feridos.

Sob oalas, disparadas de uma viatura, os companneiros

que socorrem um lerido são obrigados a se protegerem.

Trabalhadores

j5) Quanto aos limites da postura que privilegia

a "origem rural" como componente explicativo

central da atuação do proletariado brasileiro, ver

nossas considerações crfticas em Antunes, R.,

C/asse Operária, Sindicatos..., op. cit., pp. 59-61.

A este respeito Mészáros faz uma referência crítica

decisiva: "É uma simplificação demasiadamente

grosseira dizer que 'as aspirações a melhorar a

posição social' debilitam a consciência de classe

na medida em que os indivfduos buscam essa

melhoria pela ação individual e não pela coletiva.

A 'ação coletiva' em si tampouco constitui nenhu-

ma garantia de justa consciência de classe." Após

mencionar que tudo depende da natureza real dos

objetivos da ação coletiva (se reformistas ou revo-

lucionários), acrescentou: "Ademais, o 'melhorar

de posição' do indivfduo não necessariamente in-

troduz debilitação da consciência de classe. O que

faz ou não depende em boa parte do grau de

consciência de classe do indivíduo, relação impli-

citamente negada por esse modo de ver mecâni-

co-determinista que primeiro postula arbitraria-

mente uma dicotomia entre 'fatos brutos' e 'valores

[...] e depois conclui, e publica triunfante, que as

aspirações a 'melhor posição' - que por definição

(porém só por definição) implicam uma diferente

escala de valores - necessariamente debilitam a

consciência de classe (uma vez mais constatamos

a metamorfose do aprlorismo arbitrário em uma

pretensão de validez empírica)." Conforme Més-

záros, I., "Conciencia...", op. cit., pp. 135-137.

(6) Sobre o papel de "vanguarda" dos metalúr ■

gicos italianos e russos, ver Gramsci, A., "El mo-

vimiento Torinés de los Consejos de Fábrica", Or-

dine Nuovo, in Antônio Gramsci, Antologia, orga-

nizada por M. Sacristan, Siglo XXI Editores, Méxi-

co, 1977, p. 85, e Lenin V., "Infonne Sobre Ia Re-

volución de 1905, in Obras Escogidas, vol. I. Ar-

gentina, Ed. Cartago, 1974, p. 494.

Só num segundo momento é que conseguem colocá-lo a

caminho do hospital. Outros também são socorridos em

meio aos tiros. A diretoria não arreda pé. De cima do car-

ro de som Guiba procura controlar a multidão enfurecida.

Vicentinho, entre tiros de um lado e pedradas do outro

procura conter os ânimos e convence o Capitão França a

ordenar o cessar fogo. Num outro ponto, um trabalhador

perseguido por um policial desfecha-lhe um soco e o leva

a nocaute. Desmaiado, o policial é protegido por seu

agressor, que contém o ânimo de companheiros mais

exaltados. Mais uma vez, o operário, na sua simplicidade,

ensina que a ética revolucionária deve ser respeitada.

Nesse momento, surge uma viatura em disparada. De seu

interior vem uma saraivada de tiros. Os trabalhadores, em

tomo do soldado caído, dispersam-se. A viatura pára,

homens fardados descem recolhem seu companheiro de

infortúnio e saem novamente em disparada. Os metalúrgi-

cos seguem em passeata até a sub-sede em Diadema, se-

guidos por viaturas. No caminho a multidão canta "Prá

não dizer que não falei das flores". Ainda neste dia, via-

turas perseguem um carro do sindicato. No fim de sema-

na, policiais ameaçam e perseguem militantes até seus lo-

cais de moradia. Apesar de tudo, a luta continua.

EQUIPE DA QUINZENA


Jornal da Tarde - 05.05.89

O Estado de São Pauto - 06.05.89

Desde 1980, os metalúrgicos do

ABC não eram vitimas de repressão

em suas greves. Os métodos usados

ontem pela Policia Militar poderiam

ter causado danos maiores, se com-

parados aos empregados pela tropa

de choque há dez anos, quando so-

mente os oficiais portavam armas de

fogo. Ontem, os policiais estavam

equipados com revólveres, espingar-

das e até metralhadoras.

As intervenções policiais nas

greves estão marcadas por tragédias

nos últimos anos. Em 1979, o traba-

lhador na construção civil Orocüio

Martins Gonçalves foi morto com um

tiro. Ao cair, teve seu corpo pisotea-

do e chutado por soldados de Belo

Horizonte, que intervieram na para-

lisação decidida por 15 mil operá-

rios. Duas semanas depois, a Poli-

cia Civil mineira, infiltrada no mo-

vimento de funcionários municipais

da capital, atacou indiscriminada-

mente com cassetetes os manifestan-

tes, causando ferimentos graves em

duas pessoas.

A diretoria do Sindicato dos Metalúrgi-

cos de São José dos Campos condenou on-

tem, em nota oficial distribuída à imprensa, a

ocupação da Philips, que há 15 dias vem

sendo liderada pela Convergência Socialista.

Na nota, a diretoria do Sindicato diz que

"não será com medida de força que se irá

resolver o impasse" e repudia os grevistas

que, desde a semana passada, vêm desres-

peitando sentença judicial que garantia a en-

trada na fábrica de um caminhão-tanque,

transportando nitrogênio, elemento quími-

co vital para que os fomos da indústria não.

Folha de São Paulo - 07.05.89

"Os trabalhadores têm todo o

direito de usar os métodos que

acharem necessários para garantir

as greves, sejam as ocupações, os

piquetes ou quaisquer outros." A

frase está em boletim assinado por

14 militantes da Convergência Socia-

lista, que se define como corrente

interna da Central Ünica dos Traba-

lhadores (CUT) e do Partido dos

Trabalhadores (PT).

Na concepção dia Convergência,

traduzida por Dirceu Travesso, dire-

Uma história de repressões

A segunda vitima fatal entre os

mineiros naquele ano foi o metalúr-

gico Benedito Gonçalves, da Side-

rúrgica Pains em Divinópolis, es-

pancado por soldados da PM quan-

do participava de piquete. Ele ago-

nizou alguns dias, com aneurisma

cerebral. Ainda na greve dos meta-

lúrgicos, Guido Leão dos Santos foi

atropelado e morto, quando era per-

seguido por um cavalariano da PM.

Com as greves iniciadas no

ABC, em 79, em pleno regime mili-

tar, os movimentos de trabalhado-

res cresceram em todo o País e fo-

ram muitas vezes reprimidos pela

polícia. Em São Paulo, em outubro

daquele ano, o operário Santo

Dias da Silva, líder sindical dos

metalúrgicos, foi morto por um

PM com um tiro no peito, quando

fazia piquete em frente de indús-

trias de Santo Amaro. O cardeal

arcebispo de São Paulo dom Paulo

Evaristo Arns celebrou missa de

corpo presente na catedral da Sé e

o enterro de Santo Dias foi marca-

iiiiiiiiiiii

Trabalhadores

do por grande manifestação de

seus companheiros, nas ruas da

cidade.

A ação policial, restrita aos

centros urbanos, sempre com apa-

rato que incluía bombas de gás la-

crimogêneo, transformando as in-

tervenções em batalhas, se trans-

feriu para o campo em 1986. As vi-

timas: o bóia-fria Orlando Correia

e a doméstica Cibele Aparecida

Manuel, mortos a tiros durante a

greve dos cortadores de cana. De-

putados do Partido dos Trabalha-

dores foram acusados de envolvi-

mento no assassínio, mas as inves-

tigações confirmaram que as balas

partiram das armas dos policiais.

Em 1987, foi a vez de o Exército

dissolver a golpes de baioneta a

concentração de trabalhadores em

greve na Itaipu Binacional, em

Foz do Iguaçu. Treze pessoas fica-

ram feridas. O Exército voltou á

cena em novembro do ano passa-

do, guando comandou desocupa-

ção da Companhia Siderúrgica

Nacional, Resultado: três traba-

lhadores mortos o tiros.

Na Philips, Sindicato x Convergência.

oxidem, o que poderá causar um grande

prejuízo. A Philips propôs um aumento de

45% aos 2.650 fiincionários. Os metalúrgi-

cos, em assembléia, na manhã de hoje, deci-

dem se aceitam a proposta.

A empresa só não aceita a não demis

são de alguns grevistas. Ocorre que a ocupa

ção da indústria repetiu o mesmo esquema

utilizado em abril de 85, na General Motore,

quando os grevistas mantiveram em cárcere

privado 370 colegas de trabalho, não cum-

priram ordem judicial de desocupação da

fábrica e ameaçaram destruir as instalações

Para Convergência, ocupação de

fábricas é 6 auto-defesa' em greve

tor do Sindicato dos Bancários de

Sáo Paulo e um dos membros da

corrente, a ocupação "é uma das

formas de autodefesa dos trabalha-

dores contra a intransigência patro-

nal e a violência da polícia".

Os militantes da Convergência

orientaram as ocupações da Man-

nesmann e da Belgo-Mineira, em

Belo Horizonte, e na última terça-

feira deram um "empurrão" para

que a assembléia dos metalúrgicos

de Sáo Bernardo do Campo "atrope-

industriais caso a tropa de choque fizesse

cumprir o mandado judicial.

A Philips descobriu, também, que o

delegado de fábrica e o líder de^ta greve,

Ivan Trevisan, em 85, era funcionário da Ge

neral Motors e foi um dos 500 demitidos por

usta causa, devido à ocupação. Além disso,

outros 20 ex funcionários da GM, que tam-

bém participaram da greve de 85, e foram

demitidos por justa causa, hoje são funcio-

nários da fábrica de televisores e participam

de forma ostensiva na atual greve.

lasse" a direção do sindicato, man-

tendo a greve da categoria. Grupo

de tendência trotsquisla, formado

em janeiro de 1978, a Convergência

disputa espaços na CUT com a

majoritária "Articulaçáo", do pre-

sidente Jair Meneguelli, e a "CUT

pela base", que reúne outros seg-

mentos à esquerda. No 3 o congresso

da central, em 1988, ficou em

terceiro lugar com 16,32% dos votos,

colocando dois membros na executi-

va e 14 na direção nacional.


A Convergência tem militantes

nas direções de alguns sindicatos,

como dos bancários do Rio e Sáo

Paulo e metalúrgicos de Sáo José

dos Campos. Mas é no Sindicato dos

Metalúrgicos de Belo Horizonte e

Contagem que a tendência assume a

maior expressão.

Em Sáo Bernardo do Campo

berço do PT e da CUT, onde o

Sindicato dos Metalúrgicos é contro-

lado pela "Articulaçáo", a Conver-

tência náo ocupa cargos na direçáo.

Intretanto, eslá representada nas

comissões de fábrica e de mobiliza-

ção. Na assembléia de terça-feira,

os convergentes náo conseguiram

espaço para falar, mas distribuíram

boletins defendendo a continuidade

da greve. Eles náo se consideraram

os principais responsáveis pela deci-

são da assembléia, mas criticam a

direção do sindicato por ter insistido

em defender a suspensão do movi-

mento.

As divergências em Sáo Bernardo

começaram pela própria data de

micio da greve. A diretoria do

sindicato indicou e conseguiu apro-

vação para o dia 19 de abril

enquanto a Convergência defendia o

dia 13, logo depois de a Federaçáo

das Indústrias do Estado de Sáo

Paulo (Fiesp) ter proposto uma

antecipação de 15%, no encerramen-

to das negociações coletivas.

O debate sobre eventuais ocupa-

ções, alimentado pela Convergência,

também náo prosperou eiç Sáo

Bernardo. "Aqui náo há espaço para

aventuras", comentou o vice-presi-

dente do sindicato, Heiguiberto Del-

ia Bella Navarro. Na CUT, membros

da "Articulação" admitem que os

métodos da Convergência causam

embaraços à central e estão dispos-

tos a intensificar uma discussão

interna. No momento, porém, acre-

ditam que o governo busca "bodes

expiatórios" para desviar as aten-

ções da causa das greves, radicali-

zadas ou náo, que é a inexistência de

uma política salarial.

"O que fazemos é ajudar os

A CUT E A GREVE DA POLÍCIA CIVIL

Causou polêmica o apoio dado pelo Sindicato dos Bancários do RJ

à greve da Policia Civil do Rio de Janeiro. A QUINZENA

publica duas opiniões sobre o fato.

O Dia- 1.05.89

A CUT e a greve dos policiais

Cvro Garcia

DEVE ter causado espanto o estarda-

lhaço feito pela imprensa em razão do

nosso apoio à greve dos policiais civis

por melhores salários.

Afinal de contas, a posição assumida

pelos bancários, também defendida pela

CUT/RJ e pelo candidato do PT à Presi-

dência da República, Luiz Inácio Lula da

Silva, é um princípio para a classe traba-

lhadora; apoiar todas as lutas que visam a

melhorar as condições de vida do nosso

povo.

Isto náo é nenhuma novidade, pois a

CUT de Pernambuco já havia apoiado a

greve dos policiais civis daquele Estado.

Para nós, é simples: apoiamos este

segmento dos trabalhadores em luta, co-

mo qualquer outro.

Na verdade, o medo dos patrões, ex-

presso pela imprensa, é que nós, trabalha-

dores, consigamos estabelecer uma rela-

ção de solidariedade com os policiais, que

acabe por impedir a utilização desta mes-

ma pohcia na repressão às nossas greves e

a defesa dos interesses patronais.

Os poderosos não querem que este

segmento saia de seu controle, e o mesmo

vale para os policiais militares e os solda-

dos e cabos das Forças Armadas.

Eles não querem que os poUciais to-

mem consciência de que o caminho para

melhorar suas condições de vida passa

pela luta conjunta com os trabalhadores

não fardados.

Causa indignação que aqueles que nes-

tes anos todos foram coniventes com os

esquadrões e os grupos de extermínio, só

falem em combatê-los justamente agora,

quando a Pohcia Civil está em greve.

A imprensa quer inverter as coisas

quando diz que nós estimulamos "inva-

sões" de banco. Ora, quem trabalha nas

agências são os bancários. Quem invadiu

banco nesta greve foram os poUciais mili-

tares a serviço do Moreira e dos banquei-

ros. Tivemos dirètotès do sindicato; fuhcio-

narios do Banerj, espancados pela PM por

tentarem entrar nos locais de trabalho.

Quatro bancários passaram 5 dias presos

por estarem dentro das agências para con-

vencer os colegas a aderir ao movimento.

Todos sabem que na CUT e no PT

existem diferenças. Por exemplo, Jorge

Bittar nos criticou pelo apoio à greve dos

policiais; ao nosso ver de forma equivoca-

da, uma vez que o próprio companheiro

reconheceu que as reivindicações eram

justas.

Mas na hora da luta, é bom que fique

claro, estamos sempre juntos contra a

exploração patronal e a política de fome e

arrocho do Governo Samey, a serviço do

FMI. v

Na verdade, o estardalhaço da impren-

sa é uma tentativa de justificar a última

"Lei de Greve" baixada ditatorialmente

pelo Governo Samey, uma lei que pisoteia

profundamente o direito irrestrito de gre-

ve consagrado pela nova Constituição.

Hole é oj 0 de Maio. Os trabalhadores

de todo o mundo estão unidos, civis e

fardados, na luta por melhores salários e

condições de vida. Neste I o de Maio, além

de lembrarmos os companheiros mortos

pelo Exército em Volta Redonda, falamos

alto e em bom som: as greves e as lutas

continuarão. Náo há lei de greve que segu-

re a justeza e a força as greves das reivindi-

cações dos trabalhadores.

Nós, bancários, seguiremos em frente

com a greve dos companheiros do Banco

do Brasil, do Banco Central, do Meridio-

nal, da Caixa Econômica Federal e do

Baneij.

Neste dia de lutas e comemorações,

estaremos realizando várias assembléias.

A luta continua!

CYRO GARCIA é presidente do Sindicato

dos Bancários do Rio e membro da execu-

tiva nacional da CUT.

trabalhadores a implementarem as

ações decididas democraticamente

por eles ', diz Dirceu Travesso. Para

ele, a radicalização das greves é

resultante da "violência do governo

e dos patrões presente no arrocho

salarial, na intransigência na nego-

ciação e na repressão policial".

O sindicalista coloca os métodos

da Convergência sempre na pers-

pectiva de reação a situações radi-

cais, mesmo no episódio da General

Motors de São José dos Campos, em

1985, quando os grevistas tomaram

funcionários mensalistas como re-

féns e ameaçaram explodir a fábri-

ca. "Náo somos terroristas", diz

Travesso, argumentando que os

membros da Convergência nao par-

ticipam de ações isoladas como a do

bancário Antônio José Bezerra dos

Santos, vítima da explosão de uma

bomba que ele mesmo portava no

interior de uma agência bancária do

Redíe.

Ligações

Perigosas

Jorge Bittar

O Dia - 28.04.89

À opinião pública leu surpresa,

os jornais do Rio, que a Central

K Inlca dos Trabalhadores (CUT) havia

feito uma aliança com policiais

de extrema direita, notórios apologistas

da violência policial e da pura

e simples eliminação dos "bandidos".

Na verdade, a coisa não foi bem

assim.

A Policia estadual vem fazendo

há tempos um movimento em defesa

de seus salários, que, como os da

Imensa maioria da população, estão

muito baixos. Entre soldo e gratificações,

um Investigador ganha pouco

mais de NCz$ 300,00, o que, convenhamos,

é pouco. Assim, náo deixa

de ser justa a reivindicação de

aumento, ainda que, em comparação

com outros setores do funcionalismo

estadual, a Polícia não esteja

tão mal assim. Basta dizer que um

investigador - que tem o salário

mais baixo na carreira policial -

está ganhando mais do que os médicos

ou as professoras da rede estadual

Mas, enfim, estes sáo os critérios

do Governo Moreira.»

Pois bem, o movimento dos policiais

evoluiu para a greve e eles

solicitaram ao Sindicato dos bancários-

que é filiado à CUT- o empréstimo

do carro de som para utilizá-lo

na concentração realizada às portas

da Secretaria de Polícia CiviL Os

bancários acederam e inclusive algumas

de suas lideranças se fizeram

presentes ao local, prestando solidariedade

ao movimento.

Até ai, tudo bem. Ou melhor,

tudo bem se náo houvesse outros

ingredientes na história.


Quinzena

O fato é que os cabeças da greve

- em particular os policiais conheci-

dos pelos vulgos de Sivuca e Formi-

ga - têm uma folha corrida não

multo recomendável. São aponta-

dos como torturadores e Integrantes

do Esqudrão da morte. Mais: ao

mesmo tempo em que mobilizavam

a categoria policial para a luta pelo

aumento, nao perdiam também a

oportunidade de fazer proselitismo

de suas Idéias fascistas, "Nas horas

vagas me divirto matando bandi-

dos" - diz Formiga. "Bandido bom é

bandido morto" - completa Sivuca,

repetindo aquilo que foi o lema de

sua frustrada campanha para verea-

dor pelo PFL, em melo a bravatas

do estilo "já matei mais de 200 mar-

ginais".

E ai a coisa complica. Pois foi

profundamente constrangedor para

a opinião pública ver esse tipo de

M

gente lado a lado com lideranças,

combativas dos bancários. E não se

responsabilize a imprensa pela re-

percussão dos fatos - no caso, ela

não Inventou nada, apenas deu des-

taque a uma questão que, do ponto

de vista Jornalístico, unha realmen-

te interesse: uma hipotética aliança

de sindicalistas autênticos com poli-

ciais acusados de pertencerem ao

lá, ainda, uma outra questão.

Como pano de fundo a isso tudo, há

uma luta dos policiais de extrema-

dlreta para derrubar o atual Secre-

tário de Policia Civil, Hélio Sabóya.

Não somos daqueles que avalizam a

trajetória de Sabóya à frente da.

Secretaria. Por diversas vezes, aliás,

o criticamos duramente. Mas ele ho-

je é alvo da ala fascista da Policia

náo pelos erros que cometeu, mas

em função de acertos - como, por

Trabalhadores

exemplo, marginalizar tipos como

Sivuca, Formiga ou Hélio Vígjo. B-

se Sabóla for derrubado por essa

gente, vamos assistir a transformarse

em política incentivada pela cúpula

policial aquilo que hoje lã é

uma prática - o assassinato de dezenas

de pessoas a cada dia, entre a

população pobre, num Estado que é

governado por um cidadão que prometeu

acabar com a violência em 6

meses.

Dal que, na nossa opinião, mesmo

tendo boas Intenções, os dirigentes

dos bancários acabaram fortalecendo

teses e lideranças fascistas.

Por ingenuidade ou miopia política,

"entraram de gaiato no navio".

JORGE BfTtAR é anganhetro. tuemrm de deputado

federal pato PT a U candUalo a PreMo ac Rio om 88,

Dossiê sobre Repressão a Lavradores na Paraíba

1.0 FATO

Na madrugada do dia 7 de abril de 1989, cerca de 150

famílias de trabalhadores rurais, oriundos dos nove

municípios da região do Brejo Paraibano, ocuparam a

Fazenda Sapucaia, de propriedade do fazendeiro Ca-

milo Oliver Cruz, com 2.400 hectares, no município de

Bananeiras, na Paraíba.

A fazenda é uma área de antigos conflitos de terra on-

de vivem em tomo de 40 famílias em disputa com o

fazendeiro. E permanece improdutiva.

Z DESCRIÇÃO DO OCORRIDO

No sábado, dia 8 de abril, por volta de 14 horas, cerca

de 10 policiais, acompanhados por mais de 20 pistolei-

ros, cercaram o acampamento, todos fortemente ar-

mados. Estavam dirigidos pelos delegado de Polícia,

sr. Francisco de Assis, do município de Bananeiras e

pelo tenente PM, conhecido como Zequinha, do muni-

cípio de Solánea-PB. Tentaram fazer o despejo sem

nenhuma ordem judicial.

Os trabalhadores não aceitaram o despejo e propuse-

ram uma negociação, nomeando uma comissão de

três líderes para conversar, sendo que o delegado

acordou de que somente tomaria uma atitude após as

negociações com o Secretário da Segurança Pública e

com ordem judicial.

A comissão de negociação, composta por Geraldo Pe-

reira, João Luiz e Paula, ao afastarem-se do acampa-

mento, acompanhados pela Polícia foram imediata-

mente presos e levados para a cadeia pública de Ba-

naneiras, onde prestaram depoimento e ficaram presos

até às 24 horas. Na madrugada de domingo, dia 9, por

volta das três horas da manhã, sob forte chuva, um

contingente formado, por aproximadamente, 40 poli-

ciais e pistoleiros, fortemente armados com metralha-

doras, fuzis e revólveres, invadiram o acampamento

com rajadas de metralhadoras e despejaram as famí-

lias, empurrando-as para a estrada, enquanto se apos-

savam de todos os pertences e queimavam todos os

barracos.

Muitos agricultores, apavorados com o frenético tiro-

teio dos policiais, fugiram para a mata. Os que perma-

neceram sofreram todo tipo de agressões, maus tratos,

até sairem da área. Nessa seqüência de maus tratos e

agressões, veio a falecer uma criança de ano e meio.

Luzia de Brito.

Alguns trabalhadores conseguiram abrigo em casas de

pequenos proprietários vizinhos. A polícia os perse-

guiu, invadiu casas, golpeou os proprietários e, num

caso, destruiu todo o telhado com rajadas de metra-

lhadoras. Tudo isso, ainda no escuro, de madrugada.

Os trabalhadores tiveram que caminhar, sob forte

pressão, cerca de 10 Km. a pé, até chegarem ao asfal-

to (rodovia que liga a cidade de Dona Inês, até Belém).

Estavam acompanhando os agricultores, três religiosas

residentes no município de Juarez Távora. Um dos po-

liciais, fardado, ao chegar na rodovia e descobrir que

havia a irmã Jeane Trepanier, primeiro perguntou se,

de fato, ela era religiosa e, com a resposta positiva,

agrediu-a violentamente a socos e pontapés, na frente

de todo mundo, fazendo agressões verbais contra a

Igreja.

Os trabalhadores que fugiram pela mata foram caça-

dos pelos pistoleiros da fazenda, com ajuda dos poli-

ciais, e, um a um, foram pegos e maltratados, sendo

que o trabalhador José Carlos foi levado para a sede

da fazenda, onde foi brutalmente torturado, obrigado a

caminhar descalço sobre brasas, sobre espinhos e

submetido a tentativas de afogamento em água. Para

que, com isso, confessasse quem eram os líderes.

O grupo levou cerca de três dias para poder se reagru-

par no distrito de Canafista, município de Alagoa

Grande.

. CONTATOS COM O GOVERNO

Na segunda-feira, dia 10 de abril, pela manhã, cerca

de 40 trabalhadores, representando o grupo, seguiram

para a capital, João Pessoa, levando consigo, em for-

ma de protesto, o corpo da criança falecida. E ocupa-

ram a sede regional do INCRA.


Com essa atitude solicitavam das autoridades:

1 9 ) audiência com o governador Tarcísio Burity;

2 9 ) uma área para assentamento das famílias;

3 9 ) alimentação até que se procedesse o assentamen-

to;

4 ? ) apuração das violências cometidas pela Polícia e

pelos pistoleiros.

Inicialmente foi marcada audiência para as 15 horas e,

posteriormente, foi cancelada. O governador se recu-

sou a receber os trabalhadores.

Durante todo o dia, na segunda e na terça, os traba-

lhadores permaneceram na sede do INCRA, com o

corpo da criança.

Durante esses dois dias várias personalidaes, o bispo

de João Pessoa, Dom José Maria Pires, deputados fe-

derais da Paraíba, João Agripino e Lúcia Braga e enti-

dades, pressionaram o governador exigindo a audiên-

cia.

Na quarta-feira, dia 12/4, às 8 horas da manha, o go-

vernador Tarcísio Burity e o Secretário de Segurança

Pública, cel. Geraldo Amorim Navarro, receberam ape-

nas uma comissão de três líderes dos acampados.

Nesse mesmo dia, aproveitando a greve dos jornalis-

tas da capital e a falta de notícias, o proprietário Ca-

milo Cruz, publicou matéria paga de página inteira no

principal jornal da cidade, "O Norte", uma carta dirigida

ao Secretário de Segurança, assumindo toda respon-

sabilidade e afirmando que o contingente que fez o

despejo era somente de "empregados" seus. E que o

grupo de ocupantes, se trataria de invasores profissio-

nais e desempregados, que tinham a intenção de ins-

talar um "foco revolucionário", apresentando como

prova, documentos do Movimento Sem Terra, como se

esse movimento fosse alguma organização muito es-

tranha.

Resultado da audiência com governador

a) o governador afirmou que não tem nada a ver com

os lavradores sem terra e a reforma agrária;

b) o Secretário de Segurança Pública garantiu que não

foi a Polícia que fez o despejo. E que foi um ato le-

gal de defesa do proprietário;

c) tratou todos os lavradores com desprezo e disse

que não iria tomar nenhuma providência.

No dia 13/4, quinta-feira, os agricultores abandonaram

a sede do INCRA e regressaram a Canafista. Deixa-

ram o corpo da criança no IML (Instituto Médico Legal)

da capital, até que alguém assuma a responsabilidade

pelo seu assassinato.

4. AS PERGUMTAS AO GOVERNADOR

1) Como que sua Polícia Militar não tem nada a ver,

se no contingente havia diversos soldados fardados

e portando armas privativas das Forças Armadas,

como metralhadoras e fuzis;

2) Se o Govemador não tinha nada a ver, por que o

delegado e o tenente compareceram ao local e efe-

tuaram, inclusive, prisões?

3) Como o govemador explica, pois, os trabalhadores

reconheceram diversos soldados que são conheci-

dos da população na região? E registraram essa

denúncia perante as autoridades e a imprensa

4) Se não eram efetivos da Polícia, por que usavam

armas privativas das Forças Armadas? E, portanto,

não, efetua a apreensão dessas armas?

5) O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra

SKÍÍÍWSSS

Sílíííííííí:

.■.'■■■'.'.■■■.'■■.■■■.■■■■■■ l

;-;::-;::-:-:-x-:::-x-;:: :

iíS*;::*::-:;

Trabalhadores

está organizado oficialmente desde janeiro de 1985,

quando compareceu em seu congresso de funda-

ção, inclusive, um representante do recém eleito

Presidente Tancredo Neves. A opinião pública co-

nhece nossas atividades e sabe que somente nos

obrigamos a realizar ocupações porque o Governo

não cumpre a própria lei da Reforma Agrária que

implantou o Plano Nacional de Reforma Agrária

(decreto 91.766). Nossas posições são públicas. E

editamos um jornal assinado, inclusive, pelo Palácio

do Planalto (Jornal Sem Terra).

6) Perguntamos, quem é o responsável pela não reali-

zação da reforma agrária na Paraíba?

A lei que implantou o Plano Nacional de Reforma

Agrária definia que seriam assentadas em 1985/86,

2.200 famílias; em 1987, 4.400 famílias; em 1988,

6.600 famílias e em 1989, mais 7.400, totalizando

20.600 famílias. E nesse período todo, foram assen-

tadas apenas 97 famílias!

7) A situação de repressão contra os trabalhadores ru-

rais na Paraíba vem de longa data. E mais recen-

temente não foi somente contra o Movimento Sem

Terra que a polícia investiu. Basta lembrar o assas-

sinato do lavrador da Fazenda Gurugy, município de

Conde. E, posteriormente, o atropelamento por fa-

zendeiro e pistoleiros de mais de 50 lavradores, em

frente ao fórum da cidade, quando foi assassinada

mais uma lavradora e feridos dezenas de trabalha-

dores. Na oportunidade, as autoridades culparam

a Igreja e até agora nenhuma providência foi toma-

da.

8) Até quando continuará tanto obscurantismo e tanta

repressão contra os trabalhadores, praticados pela

polícia e com a conivência de todas as autoridades?

5. SITUAÇÃO ATUAL

As famílias que ocuparam a fazenda Sapucaia, conti-

nuam acampadas no município de Alagoa Grande. E

continuam à espera de uma audiência com o govema-

dor para que se resolva definitivamente a sua situa-

ção.

Por isso, pedimos a todas as entidades, personalida-

des e amigos dos trabalhadores rurais sem terra que

enviem mensagens ao Governador Tarcísio Burity,

Palácio da Rendenção, João Pessoa-PB, protestando

contra essa situação e exigindo solução para os

acampados.

S. Paulo, 14/4/89 Direção Nacional - MST

1. Superfície total do Estado 56.372 Km 2

2. Metas previstas no PNRA

Ano N* Famílias Área Necessária (Km 2 )

1985/86 2.200 700

1987 4.400 1.300

1988 6.600 2.000

1989 7.400 2.200

Total 1985/89 20.600 6.200 Km 2

3. Assentamentos realizados pelo Governo (1985 a 1988)

N? de Famílias: 97

N 9 de projetos: 05

Área (ha): 2.388


Quinzena

Folha de São Paulo ■ 7/5/89

DERMI AZEVEDO

Do lUpodogam Local

Trinta anos depois de criadas no

Brasil, as Comunidades Eclesiais de

Base (CEBs) estão deixando de ser

pequenas comunidades de vizinhos e

sofrem os efeitos de uma crise de

identidade, às vésperas do seu

sétimo encontro nacional, marcado

para os dias 10 a 14 de julho

próximo, na diocese de Duque de

Caxias, na Baixada Fluminense, a 25

km do Rio de Janeiro. Os delegados

das CEBs da Arquidiocese de São

Paulo, que irào a esse encontro,

estarão reunidos hoje, no Colégio

Beatíssima Virgem, no bairro do

Morumbi (zona sul paulistana), para

debaterem as teses que levarão à

assembléia de Duque de Caxias.

Apesar da crise de crescimento e

de não conseguirem influir substan-

tivamente nos rumos da Igreja

Católica, as CEBs continuam sendo

o principal espaço de participação

dos leigos na vida da Igreja e para o

diálogo ecumênico entre católicos e

pessoas de outras religiões, sobretu-

do de baixa e média rendas.

História

As primeiras CEBs brasileiras

foram organizadas entre 1960 e 1964

como instâncias de apoio para os

trabalhos paroquiais. Entre os seus

pioneiros, encontram-se o arcebispo

do Rio de Janeiro, d. Eugênio Sales e

o ex-cardeal de São Paulo e adminis-

trador do patrimônio do Vaticano, d.

Agnello Rossi. A desparoquialização

das CEBs (marcada por uma pro-

gressiva autonomia e para um

engajamento crescente na militân-

cia sócio-política) só começou al-

guns anos depois, sob a influência

das decisões do Concilio Vaticano 2"

(1962 a 1965). Um dos sinais da atual

crise das CEBs é, justamente, a sua

reparoquialização.

A latino-amerícanização das CEBs

ocorreu a partir de 1968, quando o

episcopado católico da América La-

tina reuniu-se em assembléia, em

Medellín (Colômbia). Seis anos de-

pois, o papa Paulo 6 o referiu-se

explicitamente às CEBs —qualifi-

cando-as como "uma esperança

para a Igreja"— no seu documento

"Evangelii Nuntiandi", sobre a

evangelização no mundo contempo-

râneo. Em 1979, a conferência epis-

copal de Puebla (México) voltou a

reconhecer oficialmente as CEBs e,

em 1980, na sua visita ao Brasil, o

papa João Paulo 2° deixou com os

bispos uma mensagem para as

Comunidades. A CNBB publicou, em

1982, um estudo sobre as CEBs.

Sociologia das CEBe

Estudadas mais do ponto de vista

teológico que sociológico, as CEBs

mmmm


CEBs mudam de perfil

e sofrem crise de identidade

enfrentam, em primeiro lugar, os

efeitos do crescente êxodo do campo

para a cidade (que faz aumentar'

diariamente a população das perife-

rias urbanas). Uma CEB era forma-

da,inicialmente, por um grupo de

sete a dez famílias (a maioria das

quais vindas do interior) que se

reuniam semanalmente, na casa de

uma delas. As reuniões começavam

(e ainda começam) com a leitura de

um trecho da Bíbüa, fazendo-se,

depois, a aplicação dos ensinamen-

tos bíblicos à realidade social, eco-

nômica, política, cultural e religiosa.

O número relativamente peoueno de

participantes facilitava o debate em

torno das dimensões religiosa e

sócio-poUtica.

Progressivamente, as CEBs foram

aumentando em tamanho e a agre-

gação de mais participantes chegou

a formar grupos de até mil pessoas.

De acordo com o teólogo e sociólogo

belga Joseph Comblin —que traba-

lha na Arquidiocese de João Pessoa

(PB)— essa mudança na estrutura

PERFIL DAS COMUNIDADES ECLESIAIS DE BASE

Trabalhadores

das CEBs está ligada ao reforço das

paróquias e de seus edifícios (tem-

plos e centros comunitários, por

exemplo) e à retomada do controle

clerical.

Segundo a hipótese de Comblin, é

mais fácil, para o vigário, controlar

um agrupamento de mil pessoas,

reunido em um salão paroquial, do

que hegemonizar pastoralmente 50

grupos de 20 pessoas, cada um

Paralelamente, esta centralização

de poderes nas mãos do padre

representaria uma contradição com

o modelo eclesial de "comunhão e

participação", baseado na compre-

ensão da Igreja como "Povo de

Deus" e na divisão corresponsável

dos ministérios (serviços) eclesiás-

ticos.

Um outro fenômeno apontado por

Comblin na realidade das CEBs, no

Brasil, é a sua náo-multiplicação.

Uma das hipóteses para explicar

esse fenômeno seria a pouca consi-

deração que a cultura popular esta-

ria recebendo nas CEBs.

Origem

- se iniciaram nos anos 60

- no Rio Grande do Norte, com d. Eugêncio Salles, e em Barra do Pirai (RJ), com d.

Ângelo Rossi

- inicialmente náo discutiam realidade social

- o Brasil foi o primeiro país do mundo a ter Cebs; hoje elas estáo espalhadas pelo

Terceiro Mundo

Hob,'i

SòoMateu, .ES

v.t6.KjltS

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^l^ SõOPQUMSPI • • ^ voito ««donda (RJ)

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OjuAltoíRS!* CoKia,doW(ftS)

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**^£.

Estrutura

- cerca de 200 mil no pafs

- com líderes leigos eleitos (80% dos líderes sáo mulheres)

- Integradas por 20 a 25 famílias cada (as maiores chegam a reunir mil pessoas)

- promovem reuniões semanais para leitura da Bíblia e discussão sobre a realidade

social, polfbca e econômica

- náo têm verba para operar


Folha de São Paulo - 7/5/89

Da Reportagem Local

O 7" Encontro Intereclesiai das

CEBs reunirá dois mil participan-

tes, de 10 a 14 de julho próximo,

em Duque de Caxias (RJ), e

debaterá o tema "Povo de Deus,

na América Latina, a caminho da

libertação". Seu organizador é o

bispo local, d. Mauro Morelli. Do

total de participantes, 60% serão

leigos, 11% freiras e irmãos, 7%

padres, 7% de outros países da

América Latina, 6% evangélicos,

2% índios, 1% africanos, 2% asses-

sores e 4% convidados, bispos e

encarregados pelos serviços. Até

agora, já confirmaram presença

70 bispos brasileiros e 20 estran-

Boletim Nacional -PT- Abril/89

Juarez Guimarães*

O "mal do transporte"

ganhou corpo ao longo das

últimas décadas e

incorporou-se de tal modo à

vida dos onze e meio

milhões de paulistanos que

já é visto como fatalidade,

como "doença da civiliza-

ção" como um pedaço de

inferno no dia-a-dia de cada

um.

O nó tem várias pontas,

difíceis de desatar. O pri-

meiro deles é o crescimento

vertiginoso e anárquico da

cidade, com grandes massas

sendo empurradas pela es-

peculação imobiliária para

as periferias.

O outro nó é a "cultura

do automóvel": São Paulo

tem 2,5 milhões de automó-

veis! Enquanto em Lon-

dres, 79% das viagens nos

horários de "rush" são efe-

tuadas por transporte cole-

tivo, em São Paulo apenas

60% das pessoas se moviam

pelos meios coletivos de

transporte.

Um terceiro nó: a expe-

riência internacional tem

demonstrado que o trans-

porte coletivo em metrópo-

les do porte de São Paulo

deve basear-se fundamen-

talmente em alternativas de

grande capacidade - metrô e

ferrovias - auxiliadas por

sistemas de ônibus. Em

Londres (12%), Tóquio

Encontro deve reunir 2 mil pessoas

geiros.

O tema central será analisado

em três sub-temas: "A eclesiali-

dade das CEBs, o rosto latino-a-

mericano da Igreja e Igreja e

Libertação". Haverá, também,

destaque para a colaboração ecu-

mênica entre os cristãos, para a

solidariedade latino-americana, a

participação dos militantes das

CEBs na política partidária (com

base em pesquisas e estudos feitos

por teólogos e cientistas sociais),

os desafios pastorais das regiões

urbanas, a reaüdade dos negros

(que formam a maioria da popula-

ção na Baixada Fluminense —no

Rio de Janeiro) e a questão do

trabalho assalariado.

A trilha da estatização

Trabalhadores

A presença da Igreja no mundo

urbano merecerá uma atenção

especial durante os debates. Na

opinião de d. Mauro Morelli, "as

CEBs que conhecemos são ainda

muito territoriais e as cidades

grandes não funcionam à base de

territórios, mas de ambientes".

Ele acrescentou, ainda, que "se

o trabalho é o eixo da questão

social, é difícil exercer o pastoreio

quando se tem um povo em um

grande conglomerado, submetido

aos limites canônicos territoriais".

Quanto à presença evangélica no

Sróximo encontro, d. Mauro Morel-

afirmou que "o ecumenismo

representa a união das energias

dos cristãos para que o nosso povo

tenha vida". (DA)

As iniciativas do PT para enfrentar um dos desafios mais complexos da gestão da prefeitura

(4,7%), Nova Iorque

(38,1%) ou Paris (34%), a

participação dos ônibus no

transporte coletivo é bas-

tante minoritária. Em São

Paulo, cerca de 75% das

pessoas que usam diaria-

mente o transporte coletivo

trafegam por ônibus. Os

ônibus levam 7,5 milhões de

pessoas por dia; o metrô

carrega cerca de dois

milhões de usuários.

O nó seguinte vem de in-

tromissão do privado no

serviço que deveria ser pú-

blico. As companhias priva-

das tocam 70% dos trans-

portados em ônibus. E tra-

zem para o coração da cida-

de o triplo sintoma do "mal

do transporte":

A tarifa cara: no ano de

1985, para os usuários de

quatro viagens diárias, o

gasto em transporte aboca-

nhava 25% do salário míni-

mo. O ônibus cheio: um es-

tudo realizado em 1983 pela

Companhia de Engenharia

de Tráfego (CET) mostrava

que, nos horários de pico,

os ônibus das empresas par-

ticulares carregavam entre

oito e doze pessoas por me-

tro quadrado! O tempo esti-

cado: o trajeto residência-

trabalho-residência conso-

me em média de duas a três

horas para as pessoas que se

utilizam somente de ônibus.

Diante de um quadro tão

problemático, o poder de

fogo imediato do governo

municipal tem limites: a

CMTC exerce diretamente

30% do transporte de ôni-

bus (em geral, as linhas

mais deficitárias). O siste-

ma de metrôs e trens é de

responsabilidade dos gover-

nos estadual e federal.

A herança janista

A política de Jânio para

os transportes seguia a lógi-

ca da privatização e o estí-

mulo à lucratividade dos

empresários do setor.

As tarifas cresceram ao

longo dos quatro anos aci-

ma da inflação. Em setem-

bro de 1988, às vésperas das

eleições e há poucos meses

de deixar o cargo, Jânio fez

um "giro tático": segurou

para baixo a tarifa, nego-

ciando em troca cora os em-

presários o corte da taxa de

gerenciamento do sistema

que os empresários pagam à

CMTC (de 10 a 15%, que

estava embutida na tarifa).

Em dezembro, voltou a rea-

justar a tarifa bem abaixo

da inflação do período: dei-

xou a bomba ligada espe-

rando a chegada do PT...

O trânsito para a maior

privatização estava se fa-

zendo com a transferência

de linhas não rentáveis das

particulares para a CMTC e

vice-versa. Hoje a CMTC

tem 35% da trota mas

transporta apenas 28% dos

passageiros. Jânio retirou

funções da CET, passando-

as às empresas privadas.

Afrouxou a fiscalização so-

bre as concessionárias pri-

vadas.

A CMTC chegou em ja-

neiro com uma dívida ini-

cial quatro vezes maior do

que a receita prevista para

janeiro. Dos seus 3.549 ôni-

bus, 768 estavam encosta-

dos por falta de peças so-

bressalentes, pneus e manu-

tenção (sete vezes maior do

que o limite técnico de tole-

rância). Um sistema de pe-

nalidades, pressões e humi-

lhações pesava sobre os vin-

te mil trabalhadores da

CMTC. Em diversas gara-

gens, até o horário de ba-

nho foi suprimido do expe-

diente para compensar a re-

dução da jornada assegura-

da pela Nova Constituição.

A política do PT

As duas grandes frentes

de intervenção do governo

do PT vão na direção de

uma radical mudança do

sistema viário da cidade e

uma profunda melhoria do

transporte coletivo via esta-

tização do setor.

No primeiro campo,

trata-se de mudanças que


além de alterar a geografia

da cidade, implicam criação

de novos valores culturais.

Trata-se de questionar a

apropriação abusiva do es-

paço urbano pelo automó-

vel por vários caminhos: de-

finindo áreas proibitivas de

circulação de trânsito em

micro-regiões (reutilizando

espaços para lazer, ecologia

etc), racionalizando o siste-

ma viário pela concentração

em grandes corredores.

Para se ter uma idéia,

São Paulo ocupa hoje 1.500

km2. Destes, 450 km2 são

ocupados por vias públicas.

A área excessiva de asfalto

acaba exigindo enormes in-

vestimentos para garantir o

escoamento da água das

chuvas, provoca uma per-

manente erosão do solo,

exige um trabalho de

pronto-socorro incessante

das ruas.

Greves

METALURICOS

DE SÁO BERNARDO

E DIADEMA (SP)

Os trabalhadores metalúrgicos de

São Bernardo e Diadema não aceita-

ram a proposta da Fiesp e continuaram

a greve nesta quinzena. No dia 3/5, ao

propor aos 40 mil metalúrgicos pre-

sentes no Paço Municipal, o fim da

greve, numa Assembléia, a Diretoria

do Sindicato que defendeu o acordo

proposto pela Fiesp de 45%, recebeu

uma enorme vaia. A votação pela ma-

nutenção da greve teve o apoio de

90% dos presentes.

Diretores dos Sindicatos de Santo

André e de São Bernardo foram vaia-

dos e chamados de pelegos quando

João Avamileno, presidente do Sindi-

cato dos Metalúrgicos de Santo An-

dré, cuja assembléia do dia 1/5 deci-

diu voltar ao trabalho, subiu no cami-

nhão de som para discursar. Durante

mais de uma hora, diversos sindica-

listas, entre eles o Vicentinho, presi-

dente do Sindicato e Heguiberto Na-

varro, do Departamento Metalúrgico

da CUT, tentaram argumentar em fa-

vor do acordo, mas também foram

vaiados ao propor a volta ao trabalho.

A CMTC está realizando

experiências pilotos nesta

direção, travando dis-

cussões com comunidades

em áreas críticas.

A Secretaria de Trans-

portes já está tomando ini-

ciativas para preparar a es-

tatização do transporte co-

letivo c implantar a tarifa

social, isto é, subsidiada pe-

lo Estado.

É um processo que exige

intensa luta política e toda

uma preparação técnica.

O primeiro passo que está

sendo dado é o que se pode-

ria chamar de "estatizaçào

do serviço": a prefeitura

passaria a centralizar a arre-

cadação e alteraria os crité-

rios de remuneração dos

serviços prestados pelas

companhias privadas. Ho-

je, os empresários arreca-

dam para si diariamente o

dinheiro com a venda das

passagens e a última plani-

lha de custos confiável data

do governo de Mario Covas

(1982-85).

Para centralizar a arreca-

dação, o que está sendo fei-

to inicialmente é expandir

as lojas de vendas de passes

e vale transporte. Apenas

em março, o potencial de

venda da CMTC aumentou

de 36 para 108 milhões de

passes.

Centralizada a arrecada-

ção, estariam dadas melho-

res condições para pressio-

nar a lucratividade dos em-

presários e melhorar a qua-

lidade dos serviços. Os em-

presários seriam remunera-

dos pelos quilômetros roda-

dos (e não como atualmen-

te, pelo número de passa-

geiros transportados) e por

critérios de qualidade do

Vicentinho afirmou após a assembléia

que "não imaginava que a categoria

fosse rejeitar a proposta". Segundo

ele, em vista de todos os outros sindi-

catos metalúrgicos ligados a CUT (10)

terem aceito voltar ao trabalho, "o

mais certo seria ter seguido o exem-

plo".

Os patrões começaram a fazer de-

missões por justa causa e a polícia

aumentou a repressão.

No dia 4/5 o Tribunal Regional do

Trabalho (TRT) julgou ilegal a greve

dos metalúrgicos de São Bernardo e

Diadema. O juiz Geraldo Passini, que

deu a sentença, justificou sua decisão

dizendo que o sindicato desobedeceu

a justiça ao recusar a determinação

anterior do TRT, que concedeu 29%

de aumento à categoria. Os metalúrgi-

cos reivindicam 84,18% de aumento.

Na sexta-feira, dia 5/5, houve um

confronto entre piqueteiros e polícia

na porta de uma fábrica metalúrgica,

quando os policiais jogaram bombas

de gás lacrimogênio para dispersar os

trabalhadores. Os trabalhadores jo-

gando pedras e indo para o enírenta-

mento braçal, enquanto a polícia co-

meçou a fazer disparos com arma de

fogo. O resultado foram vários feridos

à baia do lado dos trabalhadores e

muitos policiais também feridos com

pedradas e socos. No dia 9/5 houve

um quebra-quebra dentro da Volks-

wagen.

A greve terminou no dia 10/5 com

serviço.

Trabalhadores

Estatizado o serviço e au-

mentado o controle sobre a

frota dos veículos, estariam

dadas as condições para

uma gradativa estatização

das empresas. A estatização

das 31 empresas particula-

res que operam na cidade

exigiria um montante de

cerca de um bilhão de dóla-

res (o orçamento anual da

prefeitura é de 3,3 bilhões

de dólares).

O subsídio à tarifa pode-

ria ser feito inclusive com o

uso do dinheiro arrecadado

pelo Imposto sobre Pro-

priedade de Veículos Auto-

motores (IPVA), do qual a

prefeitura retém SO^o.

'Jornalista

o seguinte acordo: 45% de reposição,

NCz$ 60,00 de abono, 5% em junho,

revisão da justa causa nas demissões e

estudo caso a caso dos demitidos com

possibilidade de readmissão com rea-

bertura das negociações em junho.

QUÍMICOS DO ABC (SP)

Mais duas empresas do setor quí-

mico, a Perstorp com 600 trabalhado-

res e a Ferro Enamel com 400 traba-

lhadores, ambas em São Bernardo,

entram em greve no dia 3/5. Os tra-

balnadores reivindicam reposição de

73,98% a 110%, respectivamente. Os

Químicos oo ABC totalizam sete em-

presas em greve, 150 acordos em se-

parado, beneficiando cerca ae 30 mil

trabalhadores com reposição salarial

de até 49,5%. A categoria tem data-

base em dezembro e soma 45 mil quí-

micos, empregados em 580 empresas

na região. (Fonte: Diária do Grande

ABC)

METALÚRGICOS (SP)

Depois de oito dias de greve, os

3.900 metalúrgicos da Monark, em

São Paulo, voltaram ao trabalho no

dia 4,5% aceitando antecipação de

18% (especializados) e 24% (ajudan-

tes), oferecidas pela empresa. Com os

16% recebidos em março, os trabalha-

dores acumularam reajustes de

36,88% e 43,84%. Segundo o Sindi-

cato dos Metalúrgicos de São Paulo,


Quinzena Trabalhadores

além da Monark, empresas como a

Villares (15%), Pado (20%), Voith

(8%) e Brasilata (20%) já concederam

um segundo reajuste. (.Fonte: FSP,

5/5)

SEM CERVEJA (SP)

Os trabalhadores da Antarctica, da

unidade Presidente Wilson, em São

Paulo, continuaram nesta quinzena a

greve iniciada no dia 24/04. No dia

3/5 houve intervenção da tropa de

choque da Polícia Militar, quando fo-

ram ligadas as casas de máquinas que

se destinam à refrigeração dos produ-

tos exportados. De um total de 4 mil

trabalhadores, pararam 3.500, que rei-

vindicavam reposição salarial de

63,83%. No dia 4/5 o TRT julgou a

greve legal. No dia 5/5 a greve termi-

nou e os trabalhadores conquistaram o

pagamento dos 11 dias parados, não

punição aos grevistas, reajuste salarial

de 10% em cima dos 12% que haviam

obtido em abril e a empresa se com-

prometeu a não recorrer em outras

instâncias da Justiça do Trabalho.

GREVE HISTÓRICA (SP)

Depois de 22 das praticamente sem

operação, o porto de Santos (SP) re-

tomou as atividades. Os trabalhadores

avulsos do porto conquistaram um

reajuste salarial de 126%. Este foi o

mais longo movimento de paralisação

da história do porto, superando a gre-

ve de portuários, de 18 dias, em 1946.

PEDREIRA NA LUTA (SP)

Os Ceramistas e Vidreiros da Nadir

Figueiredo, em Pedreira, venceram a

primeira etapa de sua luta na catego-

ria. Depois de 23 dias de greve, o

TRT de Campinas, julgou a greve le-

gal e determinou que o patrão reajus-

tasse os salários dos operários em

44,6 por cento (sendo 26,05 da URP

de fevereiro, mais 14,29 por cento de

março). Também proibiu a Nadir Fi-

gueiredo de descontar os dias parados.

Os patrões não estão querendo pagar

os dias de greve e por isso recorreram

ao TRT, pagando os dias parados na

torma de vale. Porém os ceramistas

vão partir para a retomada do movi-

mento exigindo o cumprimento da

determinação do TRT, bem como a

readmissão dos 85 companheiros que

foram demitidos por justa causa. Além

disso, exigem a construção de um

restaurante, instalação de exaustores,

turno de 6 horas para algumas seções.

Comissão de Fábrica etc.

VITÓRIA

Em assembléia, no dia 26/4, os

Bancários de SP decidiram suspender

a greve. A proposta arrancada dos

banqueiros não representa tudo que a

categoria queria. No entanto, é uma

vitória, num momento em que os pa-

trões e o governo estão jogando tudo

para manter o arrocho. É necessário

entender bem a importância desta

conquista, pelo seguinte: A categoria

estava em campanha fora da data-ba-

se. Houve muita repressão. Conse-

guiu-se elevar o piso para NCz$

215,00 para quase perto da reivindi-

cação pretendida pelos trabalhadores

que era NCz$ 228,00. Esta elevação

do piso representa um reajuste de 63%

sobre os salários de março. Este é o

maior índice de reajuste conquistado

após o Plano Verão. É bom saber que

a grande parte da categoria ganha piso

salarial. Esta proposta de retomar ao

trabalho que ganhou em São Paulo,

foi tomada no Comando Nacional. A

nível nacional, a greve continuou em

alguns estados mais alguns dias, mas a

tendência foi aceitar este acordo. So-

mente os bancos estatais continuaram

em greve: Banco do Brasil, Caixa

Econômica Federal e vários bancos

estaduais. (Fonte: Folha Bancária

27/4)

BANCO DO BRASIL

Por seis votos favoráveis contra

cinco, o Tribunal Superior do Traba-

lho (TST) julgou no dia 8/5 legal a

greve dos trabalhadores do Banco do

Brasil. O TST rejeitou a reivindicação

salarial de 81%, mas determinou o

pagamento dos 19 dias que durou a

greve e determinou que os grevistas

não sejam punidos por participarem

do movimento. A decisão do TST

obriga ainda a incorporação aos salá-

rios da inflação do Plano Bresser de

26,06% e 4% da produtividade, que

vinham sendo pagos como adianta-

mentos pelo Banco.

Os trabalhadores continuaram o

movimento, mas no dia 10/05, o TST

julgou novamente a greve, e conside-

rou-ailegal após o dia 8/05. No dia

iilil ■:

: :-: v: : : : : v: ■;-: ; : : : : : : : : : : : : : : : : ; : : : : : : : ; : >:

11/05 os bancários retomaram ao tra-

balho. (FSP 9/5/89)

ACESnA(MG)

A greve dos metalúrgicos da Com-

panhia de Aços Especiais (ACES1-

TA), de Timóteo (MG), completou 15

dias no dia 9/5/89. Os 7.500 trabalha-

dores exigem uma reposição salarial

de 84% e aumento real de 5%.

METALÚRGICOS (RJ)

Nesta quinzena continuaram em

greve as seguintes fábricas: Estaleiro

Caneco, General Eletric, Fermasa,

Asca e Lamisa. No dia 28/4 os meta-

lúrgicos da Faet aceitaram a oferta

patronal de um aumento de 35%, além

do índice estipulado pelo Govemo e

retomaram ao trabalho.

MAGISTÉRIO ESTADUAL (RJ)

Depois de uma assembléia tumul-

tuada que durou mais de 4 horas, os

professores da rede estadual de ensino

no RJ em greve há 10 dias decidiram

suspender o movimento e iniciar uma

nova forma de luta para pressionar o

Govemo à atender suas reivindica-

ções: Basicamente um piso de NCzS

470,00 para o pessoal de apoio e

NCzS 610,00 para o magistério, o que

eqüivale a cerca de 200%. A nova

forma de luta serão assembléias, mani-

festações e paralisações intercaladas.

(Fonte: O Fluminense, 29/4)

Curtas

O l 2 DE MAIO NO BRASIL E NO

MUNDO

há 100 anos o Primeiro de Maio se

tomou o dia internacional de luta dos

trabalhadores. A França festejava o

primeiro centenário da sua Revolução

Burguesa e o Congresso da II Interna-

cional dos partidos Socialistas e Ope-

rários estava reunido em Paris. Como

havia leito um ano antes, a central

sindical norte-americana American

Federation oi Labour (AFL), em vir-

tude do massacre de Chicago, os con-

gressistas decidiram organizar com

data fixa, a partir de l 2 de maio, uma

manifestação internacional de trabí


Quinzena

lhadores para reivindicar a jornada de

trabalho de 8 horas, em lugar de 12

horas. Hoje, em 1989, o l 2 de Maio

foi comemorado assim:

DCftS XflLHÓES PARADOS

Dois milhões de trabalhadores co-

memoraram o 1- de maio de braços

cruzados no Brasil. O cálculo é da

Central Única dos Trabalhadores

(CUT).

EM SÃO PAULO

No ABC não houve ato no dia do

trabalhador. Todas as atividades fo-

ram concentadas na Praça da Sé, na

Capital, no ato convocado pela CUT.

A decisão foi política: segundo Arlin-

do Chinaglia, presidente estadual da

CUT, a militância no ABC foi res-

guardada para o lançamento da cam-

panha presidencial do Lula, marcada

para o dia 13/05, em São Bernardo do

Campo.

O l 9 de Maio, em São Paulo, co-

meçou com uma missa do Trabalhador

celebrada por D. Paulo Evaristo Ams.

Logo em seguida começou a concen-

tração na praça, com apresentação de

shows de grupos de música popular.

Aproximadamente participaram do ato

entre 5 e 10 mil pessoas. Houve um

incidente envolvendo grupos Punks e

Neonazistas que insistiram em provo-

car os trabalhadores.

Com algum tumulto estes grupos

foram expulsos da praça e a manifes-

tação seguiu tranqüilamente. Entre os

vários oradores presentes o destaque

foi a presença do Lula.

EM VOLTA REDONDA

A concentração do 1- de Maio no

Rio de Janeiro teve seu ponto maior

em Volta Redonda. Mesmo com chuva,

mais de 3 mil trabalhadores assistiram

a inauguração do memorial projetado

por Oscar Niemeyer em homenagem

aos 3 operários mortos durante a últi-

ma greve dos metalúrgicos da Compa-

nhia Siderúrgica Nacional. A placa

comemorativa foi descerrada pelo pre-

sidente da CUT, Jair MenegheUi. Chi-

co Mendes e o ex-prefeito da cidade e

dirigente da CUT, Juarez Antunes,

também foram homenageados.

Após a inauguração do memorial.

que contou com a presença de repre-

sentantes do Sindicato dos Trabalha-

dores Rurais de Xapuri (ACRE), sin-

dicalistas, parlamentares e Luis Carlos

Prestes j houve um show com grupos

populares.

NO RIO GRANDE DO SUL

Quarenta mil pessoas, na avaliação

da CNBB, ou 13 mil, pela contagem

da Brigada Militar, comemoraram oi 2

de maio numa romaria pelas ruas de

Sapiranga, município a 60 km de

Porto Alegre. Cruzes de madeira e hi-

nos religiosos se misturaram a discur-

sos, bandeiras de partidos e movi-

mentos populares dando um nítido ca-

ráter político à manifestação, organi-

zada pela CNBB e pelas centrais sin-

dicais.

MINAS GERAIS

Os oito mil metalúrgicos da ACE-

SITA, em Timóteo, há 7 dias em gre-

ve, comemoraram o l e de maio reali-

zando um grande ato púbüco no cen-

tro da cidade, seguido de show musi-

cal e a apresentação de um documen-

tário sobre a criação do seu sindicato

em 1952 e a história de luta da cate-

goria no Vale do Aço. O documentá-

rio lembrou o massacre de Ipatinga,

em que, em 7 de outubro de 1963, a

cavalaria da PM daquela cidade, vizi-

nha de Timóteo, matou a tiros 7 me-

talúrgicos da Usiminas, feriu outros

70. Outros atos ocorreram em várias

cidades do estado.

MOSCOU

O desfile oficial do dia do traba-

lhador, na Praça Vermelha, trouxe

inéditas preocupações com a ecologia

e, no finai uma também inédita apre-

sentação de rock'n roll, na frente do

masoléu de Lenin. Cerca de 150 mil

pessoas participaram do desfile de

duas horas de duração, visto em todo

País pela televisão. Balões e flores

coloridas enfeitavam os cartazes que

mencionavam as necessidades econô-

micas sentidas pelo povo soviético,

exortavam à concretização da peres-

troika e revelavam a recente preocu-

pação dos trabalhadores com o meio

ambiente.

ALEMANHA OCIDENTAL

Em Berlim Ociental, houve pro-

testos, saques e destruição nos con-

frontos entre manifestantes e a polícia.

Trabalhadores

Bombas jogadas por mascarados ex-

plodiram junto a estacionamentos. A

polícia usou gás lacrimogêneo e jatos

da água para dispersar os manifestan-

tes.

CHINA

Pela primeira vez, desde 1949, o

governo chinês admitiu retirar da Pra-

ça da Paz Celestial, onde se realizam

as manifestações do l 9 de Maio, os

enormes retratos de Marx, Engels,

Lenin e Stalin. De acordo com a

agência oficial Nova China, no en-

tanto a atitude não significa mudanças

políticas, e foi explicada pelo fato de

que "na maioria dos países só se fes-

tejam os heróis nacionais".

MÉXICO

O Exército controlou a passeata em

que milhares de mexicanos homena-

gearam o l 9 de maio. O cuidado se

deve à preocupação de que não fosse

pemüüdo nenhum ato de protesto

diante do presidente Carlos Salinas,

que abriu o desfile e o assistiu de uma

varanda do Palácio Nacional.

ARGENTINA

Não circularam jornais nem houve

espetáculos públicos e esportivos na

Argentina, que comemorou o dia l 9

de Maio sem manifestações, com reu-

niões programadas pela Igreja, parti-

dos políticos e movimento sindical.

URUGUAI

Em Montevidéu, foi homenageado

a memória do líder guerrilheiro Raul

Sendic, morto na última semana de

abril em Paris. Mais de 75 mil pessoas

participaram da manifestação convo-

cada pela Central Única, ocupando

toda a avenida do Libertador.

OUTROS PAÍSES

A violência marcou o l 9 de maio

na Turquia, onde a polícia reprimiu

um ato proibido. Fala-se em dois

mortos e 16 feridos. Também houve

choques de rua na Tchecoslováquia,

nas Filipinas e na Polônia.

A LUTA CONmNUA...

Por falta de espaço e por não ter

melhores fontes de informação não

colocamos os vários atos que ocorre-

ram nos vários estados do Brasil e em

outros países do mundo.

Mas os poucos exemplos que aqui

registramos só comprovam que a luta

dos trabalhadores está mais forte do

que nunca. A palavra de ordem "A

CLASSE OPERÁRIA É INTERNA-

CIONAL" fez-se ressoar neste l 9 de

maio.


Não Saiu

Mo Jornal

CAMPANHA

DE SOLIDARIEDADE

LUTA PELA TERRA

Nesse momento estão ocorrendo

diversos conflitos de terra, e repressão

contra o Movimento, que exige o

apoio e solidariedade de toda socieda-

de e entidades que apoiam a reforma

agrária.

Pedimos pois que se mobilizem en-

viando telegramas/telex às seguintes

autoridades.

1. RIO GRANDE DO SUL

Seis companheiros do Movimento,

três lavradores, um sindicalista, um

frei franciscano e um pastor lutera-

no iniciaram greve de fome por

tempo indeterminado, no dia 13/4.

Reivindicações ao governo do esta-

do, para que solucione definitiva-

mente a situação das 1.300 famílias

acampadas na fazenda Anoni e no

salto do Jacui.

PEDRO SIMON

Palácio Piratini

90000 Porto Alegre-RS

Telex 51.1123

2. PARAÍBA

Cerca de 200 famílias brutalmente

despejadas da fazenda Sapucaia,

por um grupo paramilitar, formado

pela PM e pistoleiros, foi assassi-

nada uma criança, e torturados vá-

rios companheiros. O Governador

alegou em audiência, que era ape-

nas ação do fazendeiro e deu razão

pro fazendeiro.

As famílias estão acampadas em

Trabalhadores

Canafista, esperando solução.

Exigir do governador terra prós

acampados e investigação do grupo

paramilitar, que alias age em todo

estado.

TARCÍSIO BURITY

Palácio da Redenção

58000 João Pessoa-PB

Telex 832.327

3. MATO GROSSO DO SUL

Mais de mil famílias ocupam há

dois meses a fazenda Itassu, que

era do agrobanco e que está penho-

rada no Banco Central pois o banco

foi a falência. A área é totalmente

improdutiva. Agora o Juiz deu ação

de despejo.

Escrever ao governador pedindo

solução imediata.

MARCELO MIRANDA SOARES

Parque dos Poderes

79013 Campo Grande-MS

Telex 67.2250

■:■;■.-.■-.-.-■■.-.■.■

CONHECER A ECONOMIA PARA LUTAR MELHOR

mÈmmmm

::;;;::-::::>.v;::::v::;::;;:::;;: .::>:•:■-;;:■:■■::;■:■: :-:::o:-:-:;:::-v

Insistindo sempre na necessidade de se fazer análise econômica estrutural e conjuntural, tanto internacional

como nacional, para o direcionamento de nossa luta econômica, política e ideológica,

trazemos neste número os últimos acontecimentos na economia da Argentina e seus efeitos sociais

e políticos, assim como a proposta do PT sobre a questão da Dívida Externa.

O efeito Orlof

No nosso boletim de 6 de abril pas-

sado dissemos que "quando se analisa

o futuro do Plano Verão, a Argentina

vem logo à cabeça. Da mesma forma

que com o Plano Cruzado, a Argenti-

na antecipa o destino do Plano Ve-

rão... Vendo a enorme confusão em

que desembocou o Plano Primavera da

Argentina, não é muito difícil prever o

que nos espera para os próximos me-

ses".

É exatamente esta "síhdrome Ar-

gentina" que a grande imprensa aca-

bou descobrindo nesta semana, para

se analisar o atual desabamento do

Plano Verão.

O jornal A Gazeta Mercantil de 27

de abril fala em manchete que "Efeito

Argentina preocupa o Brasil" falando

das preocupações com a situação eco-

nômica brasleira, o jornal afirma que

"um ingrediente que está aumentando

a preocupação é a dramática deterio-

ração da situação argentina. Desde

que o Plano Cruzado de 1986 suce-

deu, sete meses depois, o Plano Aus-

tral argentino, muitos tem percebido a

evolução do quadro argentino como

uma antencipação do que poderá ocor-

rer no Brasil alguns meses mais tar-

de".

O "efeito Argentina" segundo este

jornal, foi discutido na reunião dos

ministros econômicos e do SNI pela

manhã e voltou à mesa no almoço que

o ministro da Fazenda teve como re-

presentantes do setor privado no Con-

selho Monetário Nacional (CMN).

O QUE SOU HOJE

É bom, portanto, que viagemos um

Economia

pouco para a Argentina para sabermos

o que está se passando neste momento

naquela economia.

Faltam apenas 17 dias para a elei-

ção presidencial na Argentina. O go-

verno do presidente Alfonsin perdeu

completamente o controle da situação

econômica. Com a nova explosão das

cotações do dólar, o austral (moeda

argentina) está reduzido a pó, menos

de quatro anos após a sua criação.

O descontrole atinge o mercado de

câmbio e se reílete na queda dos salá-

rios, no aumento desenfreado do custo

de vida. Nas lojas e supermercados às

vezes, ocorrem duas remarcaçóes por

dia. As taxas de juro se elevam conti-

nuamente, sem qualquer efeito na re-

cuperação do crédito. Isto é o começo

da niperinflação.

Quando foi criado o austral, ele


Quinzena

valia mais de i dóiar. Nos últimos

meses a moeda argentina sofreu uma

desvalorização rápida, que se acen-

tuou nos últimos dois meses. Em ape-

nas 81 dias, o austral perdeu 432% do

seu valor, e na última terça-teira um

dólar valia mais de cem austrais.

Fala-se no perigo de uma convul-

são social. O fantasma do "Caracaço"

(nome dado ao levante popular que

deixou mais de 300 mortos em Cara-

cas, capital da Venezuela, no final de

fevereiro) ronda Buenos Aires. Nos

últimos dias foi reforçado o policia-

mento nos supermercados, diante dos

primeiros casos de revolta dos clientes

contra as sucessivas remarcações de

preços.

Da mesma forma que na Venezue-

la, nesta corrida descontrolada, os

produtos que mais aumentaram de

preço íoram justamente os da cesta

O Estado de São Paulo - 9/5/89

FLAVIO TAVARES

BUENOS AIRES — A con-

fusão domina a Argentina: a es-

peculação desenfreada tomou

conta do pais e a hiperlnflaçâo

abre as portas do caos.

Nas vitrines das grandes lo-

jas, os preços sáo escritos com

giz, para facilitar a remarca-

çâo, em muitos casos refeita

três vezes ao dia. Nas farmácias

faltam remédios, e as clinicas

privadas rejeitam as Interna-

ções ou cirurgias que nâ,o sejam

de urgência, porque os antibió-

ticos escasseiam e não há gaze

nem seringas descartáveis. O

clima é tragimico: na Casa da

Moeda falta tinta e papel para

imprimir dinheiro e, mesmo

trabalhando em três turnos,

não há como atender a demanda

de notas.

Tudo recorda muito o des-

calabro dos últimos meses do

governo de Isabel Perón, em

1976. Naqueles tempos, o caos

levou os argentinos a recebe-

rem como um alivio a fatalida-

de do golpe militar que, derru-

bando o governo, instalou uma

ditadura que criou campos dô

concentração e fez "desapare-

cer" quase vinte mil presos po-

líticos. Agora, outra vez a sen-

sação de fatalidade ronda o

país. Nas eleições de domingo, a

eventual vitória do peronista

Carlos Menem surgirá também

como uma espécie de fatalidade

desse destino quase mórbido da

política argentina, em que —

mais que tentar uma solução —

busca-se uma "saída" do labi-

rinto em que se meteu o pais

nestes anos em que o governo de

básica, como açúcar, farinha, óleo, ca-

fé, etc.

O QUE SERÁS AMANHÃ

Enquanto isto, aqui no Brasil o de-

sânimo começa a atingir tanto o go-

verno quanto os capitalistas privados.

A Folha de S. Paulo dá em grande

manchete, no dia de hoje, que "Amato

teme que o governo perca o controle".

Fala da declaração do presidente da

FIESP, para quem "O governo pode

perder o controle da economia."

A ministra do Trabalho, Dorothea

Wemeck, está avaliando que as lide-

ranças sindicais estão perdendo o

controle sobre as bases, mais radicais.

Falamos na semana passada que

apenas os trabalhadores podem dar um

basta a este jogo sanguinário de su-

cessivos pacotes econômicos e perma-

Clima lembra cenário de 1976

Raul Alfonsín não soube o que

fazer com a democracia.

Nos últimos quatro meses,

houve seis diferentes planos

econômicos (um a cada 20 dias),

quase antagônicos entre si, e

neste caldo de cultivo o austral

desvalorizou-se 525% a partir de

fevereiro. A falta de previsão do

governo não levou em conta se-

quer que o aumento galopante

de preços exigiria aumentar o

meio circulante para atender os

novos preços, de uma caixa do

fósforo a um carro. A parasitá-

ria máquina estatal — mais

preocupada com a burocracia

que com a realidade — trancou

nas gavetas as licenças para im-

portar da Itália e da Alemanha

o papel e a tinta para que o pró-

prio governo imprimisse as no-

tas de mil austrais.

A hiperinflaçâo gerou uma

corrida aos bancos.

Em velocidade, esta corrida

supera as carreira do hipódro-

mo de Palermo, em Buenos Ai-

res, o de melhores puros-san-

gues do Continente, onde agora

fazer apostas é também difícil:

os computadores funcionam

com dificuldade, já que os em-

pregados trabalham em regime

de operaçáo-tartaruga, pedindo

aumentos salariais. Nem os al-

tos Juros Internos — que che-

gam agora a 170% ao mês — con-

seguem reter o dinheiro nos

bancos. Cerca de 60 bilhões de

austrais (quase a metade da ba-

se monetária e mais de 60% do

meio circulante) estão agora

nas mãos do público, que tenta

desfazer-se como pode desse pa-

pel pintado em que sé transfor-

mou a moeda.

Economia

nente arrocho salarial que as classes

dominantes impõem aos trabalhadores.

Agora o governo procura implantar

um ambiente de terrorismo policial

frente ao reerguimento das lutas dos

trabalhadores, jogando sobre estes a

culpa pela desordem da economia.

Mas na medida em que o confronto de

classes ficar mais evidente, também

mais evidentes ficarão os verdadeiros

responsáveis pela situação em que se

encontra a economia. Do mesmo mo-

do que a solução para todos estes pro-

blemas, que somente os trabalhadores

produtivos podem dar.

Extraído do texto "Análise de Conjuntura"

"Situação Econômica Brasileira". Boletirr

Semanal do 13 de Maio - Núcleo de Edu-

cação Popular.

ASSINATURAS: Rua Dona Avelma. 55

Vila Mariana - CEP 041V

São Paulo - SP

Todos se atiram a comprar

dólares, seja em que quantia

for. Compram-se dólares hoje,

para trocá-los de novo em aus-

trais dois ou três dias depois e,

assim, abastecer-se nos super-

mercados ou adquirir outros

bens essenciais, os quais, por

sua vez, aumentam algumas

ocasiões mais do que o próprio

dólar.

PAÍS QUEBRADO

O Estado está literalmente

em quebra. Fechou abril com

despesas superiores a 18 bilhões

de austrais e arrecadou menos

de seis bilhões. Desde março do

ano passado, a Argentina não

paga os juros e serviços da dívi-

da externa e só nesta moratória

de facio está com um atraso de

3,8 bilhões de dólares.

Na última semana, o racio-

namento de energia elétrica foi

suspenso, mas unicamente co-

mo uma medida pré-eleltoral,

para acalmar a irritação de uma

população que ficou, inclusive,

com a programação de televisão

limitada a apenas quatro horas

por dia.

Agora, em alguns momen-

tos do dia, "sobra" energia elé-

trica: por falta de insumos, as

grandes ou pequenas indústrias

diminuíram o ritmo de produ-

ção e também o consumo de ele-

tricidade. Outras estão quase

totalmente paralisadas, como

as multinacionais do setor au-

tomobilístico.

Neste clima de lenta ago-

nia, os argentinos esperam, ir-

ritados, as eleições presiden-

ciais do domingo, mais como

uma fatalidade que uma solu-

ção que renove o pais desfeito.


:

Quinzena Economia

I

■Q

I

CO

s

o

PAÍS

Bolívia

Argentina

Guatemiça

Chile

Brasil

Honduras

Uruguai

Paraguai

Fonte: Banco Mundial

DÍVIDA E ELEIÇÕES

Dívida Externa

(Bilhões de dólares)

4,9

54

2,7

21

112

2,7

4

2.2

Dia da eleição

07/05

14/05

03/11

12/11

15/11

24/11

26/11

01/05

1 DÉFICIT PÚBLICO E PIB

(Déficit público em relação ao Produto Interno Bruto , em %)

i

5

c

P

1 Argentina

8

Brasil*

a

o Chile

Colômbia

1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980 1981 1982 1983 1984 1985 1986

1,1 3,8 4,6 6,6 6,9 14,0 9,8 3.2 3,8 3.5 7,3 15,9 15,1 16,8 12,8 5,9 3,6

2.4 2,1 1,4 0,4 0,1 2,3 2,6 1,8 3.4 1,7 3,0 2,4 2,7 3,5 4,1 4,3 3,49

5,2 12,4 16,7 15,8 6,8 1,7 3,7 1,3 1,7 5,2 2.9 0,8 2,6 2,5 3,9 1,9 1,7

4,0 nd nd nd nd nd nd nd nd 1,4 2.8 5,9 7,6 7,6 6,7 4,3 0,3**

México 1,9 2,3 4,1 5,3 5,8 9,1 7,5 5.2 5,5 7,5 7,9 12,4 14,6 7,6 6.7 8,3 15,2

Peru

Venezuela

0,8

2,6

1,4

2,6

2.9 4,5

7,1 5,1

6,8

2,2

9,6 10,0

7,6 13,2

9.8

11,4

6.2

12.9

1,1

11.5

6.5

13.5

4,9

2.0

3.9

1.5

8.9

2.3

5.0

3.6

2,7

2,3

4.-+

1,2

1970-80 Contabilidade de caução. 1981-86 contabilidade de caixa

* Déficit do , :ovemo Central

.nd - dados não disponíveis

** Superávit

Fonte: 'Política econômica y compartimiento exportador en América Latina", de Jorge Ospina.

Exame - Maio/89

A HERANÇA DO SUCESSOR

O produto interno bruto. PIB, encolheu cerca de 0,4%

em 1988. Para este ano está

prevista uma nova queda, de 0,5% a 1,0%

Como a população aumenta 2% ao ano, a queda do

PIB tomara cada brasileiro,

em média. 5% mais pobre até 1990

Não há recuperação econômica à vista — o nível de

investimentos caiu de 25%

do PIB. nos anos 70, para os atuais 16%

Três congelamentos não seguraram a inflação.

Ha vem de 224% em 1984 para

934% em 1988 e pode chegar este ano a 800%

A folha de salários do funcionalismo absorve

quase 110% da

icceita líquida do governo

de juros sobre suas dívidas interna e externa o

governo federal paga

o equivalente a 6% do PIB por ano

mmm& -y^iyy^y,-,Sí.^

Pequeno guia do Brasil econômico e social

que o próximo presidente vai encontrar

Ainda assim, e apesar da vasta dimensão do país.

60% das cargas são

transportadas por caminhão

Sem investimentos de 6 bilhões de dólares por ano

em geração e transmissão,

em 1994 começará a faltar energia elétrica

Três anos seguidos de safras recordes elevam a

produção de grãos a 70 milhões

de toneladas e garantem a nqueza no campo

Com a redução do poder aquisitivo dos consumidores,

a produção da indústria

de alimentos caiu 3% no ano passado

A produção de veículos passou de 1 milhão de

unidades em 1988, voltando aos níveis

de 1980 — o melhor ano da indústria automobilísuca

O comércio varejista de São Paulo faturou em 1988

3% menos que em 1987,

mas acredita numa recuperação este ano

•:••:■•:-:'•:■■:■:■


Um dos campeões de má saúde no mundo, o Brasil

tem apenas 3,5 leitos de

hospital por 1 000 habitantes

Dos 140 milhões de brasileiros, quase 23%, ou

32 milhões,

são completamente analfabetos

Mas, por falta de vagas no ensino público gratuito,

8 milhões de crianças

de 7 a 14 anos estão fora da escola

Mais de vinte anos após a criação do Sistema

Financeiro da Habitação, há

um déficit de 10 milhões de moradias

Dos 1,5 milhão de quilômetros de estradas do país,

apenas 8,5% têm

algum tipo de pavimentação

Plano Econômico Alternativo de Emergência PT - Dez/88

A

DÍVIDA EXTERNA

dívida externa tem sido o

principal condicionante da

crise brasileira, à medida em

que os pagamentos de juros

e a amortização do principal

transferem anualmente para

o exterior o equivalente a

4,5% do PIB, diminuindo a

capacidade de investimento

e, portanto, o ritmo de cres-

cimento. Por outro lado, os

superávits comerciais gera-

dos para o pagamento desses

juros constituem um dos

principais focos inflacioná-

rios, no momento em que o

Banco Central tem de forne-

cer aos exportadores quan-

tias em cruzados equivalen-

tes aos saldos comerciais, o

que anmp.nta o volume de

moeda em circulação. Paia

obter esse enorme fluxo de

cruzados, o govemo tem

duas alternativas: emite mais

papel moeda, intensificando

a pressão inílacionária, ou

capta esse numerário no

mercado financeiro, pela co-

locação de novos títulos pú-

blicos, aumentando a dívida

interna e puxando a taxa de

juros para cima. Nesse sen-

tido a dívida interna é o ou-

tro lado da moeda da dívida

externa e cresce por causa

AJUSTE

EXTERNO

dela. Por isso, a renego-

ciação soberana da dívida

externa eliminará um dos

principais focos de cresci-

mento da dívida interna.

Diante desse quadro, pro-

pomos:

a) Rompimento do acordo

com o FMI e suspensão

imediata do pagamento da

dívida externa;

b) Convocação imediata da

Comissão Parlamentar de

Inquérito (CPI) da Dívida

Externa, que deverá fazer

um histórico da dívida,

apontar as causas do seu

crescimento e apurar respon-

sabilidades;

c) Convocação de uma Con-

ferência Internacional de to-

dos os países devedores in-

teressados em enfrentar de

forma alternativa a pro-

blemática da dívida externa,

para definir uma estratégia

comum de atuação e a

criação de um Comitê de

Devedores para anular os

acordos anteriores e reenca-

minhar o processo de nego-

ciação;

d) Não reconhecimento do

Comitê de Negociação for-

mado pelos Bancos Credo-

res, que tem demonstrado in-

transigência e menosprezo

pelos interesses do país, e

^1

J

Cerca de 70% dos eleitores da Região Sul,

ou são analfabetos

ou têm o 1.° grau incompleto

A indústria farmacêutica, com um faturamento de 1,98

bilhão de dólares em 1988, exibe um dos menores

consumos per capita do mundo — 13,7 dólares

A informática nacional, protegida pela reserva de

mercado, já supera o faturamento das

empresas estrangeiras e pane agora para fusões

A produção industrial brasileira é a 7.' do mundo

ocidental e eqüivale a

55% da inglesa, a sexta maior

O Brasil é o quarto produtor mundial de ouro. com a

produção de

130 toneladas em 1988

constituição de uma nova

instância de negociação ao

nível dos governos e dos

Bancos Centrais dos países

que sediam os Bancos credores;

e) Exigir a participação do

Brasil e de outros grandes

devedores nas reuniões dos

governos dos países credo-

res para a discussão da dívi-

da externa;

0 Tomar como base de ne-

gociação o valor real da dí-

vida, desvalorizada pelo

deságio do próprio mercado

internacional, que hoje

eqüivale a cerca de 60% do

valor de face dos títulos da

dívida brasileira. Desta ma-

neira, a dívida cairá dos

aproximadamente 110 bi-

lhões de dólares atuais, para

algo em torno de 44 bilhões

de dólares;

g) Os juros correspondentes

ao valor do deságio (60%)

serão depositados num Fun-

do Público de Investimentos

e Políticas Sociais, a ser de-

finido mais adiante, que de-

verá gerir estes e outros re-

cursos oriundos deste Plano

de Emergência;

h) Os juros correspondentes

ao valor da dívida real (res-

tantes 40%) serão deposita-

dos no Banco Central, no

aguardo das negociações;

CONVERSÃO DA DÍVIDA

A conversão da dívida tem

se constituído num foco inflacionário

na medida em

que o Banco Central tem de

fornecer cruzados equivalen-

tes aos dólares convertidos,

e num mecanismo de mani-

pulação de divisas estrangei-

ras, que foge ao controle do

governo. Mas o mais grave é

que a conversão transforma

ama dívida vincenda e de al-

to risco, questionada e em

grande parte negada pelos

devedores, em patrimônio

seguro. Nestas condições, a

conversão paga a dívida e

desestimula os investimentos

que poderiam fluir normal-

mente para o país nos mol-

des tradicionais. De outro

lado, a conversão significará

o compromisso de uma

transferência futura de re-

cursos para o exterior, que-

continuará a pressionar ne-

gativamente a formação das

reservas cambiais do país.

Nesse sentido propomos:

a) A suspensão imediata da

conversão formal e informal

da dívida externa, e o seu

reestudo de acordo com o

estabelecimento de novas

normas de negociação;

b) Congelamento dos recur-

sos destinados às operações

de reemprésümos ("rele-

ding")- Estas operações,

aceitas no último acordo

com o FMI, permitem aos

bancos credores reemprestar,

em moeda nacional, parcelas

equivalentes ao valor do

principal renegociado na ro-

lagem da dívida externa.


Quinzena

Nestas condições, o país,

além de pagar os juros da

dívida, acaba permitindo a

ingerência dos credores na

política creditícia oficial e

transfere recursos adicionais

oriundos das comissões e ta-

xas das operações de reem-

préstimos.

POLÍTICA CAMBIAL

s

E TARIFÁRIA

erá estabelecida uma nova

Política Cambial e Tarifária

mmsmmmm

O Estado de São Paulo - 4/5/89

mrntmm

que priorize as medidas in-

ternas de combate à inflação

e retomada do crescimento.

Isso implica não só diminuir

o fluxo de mercadorias bra-

sileiras mandadas para fora,

para haver maior oferta no

mercado interno, mas

também o barateamento das

importações, principalmente

de insumos básicos (alumí-

nio, cobre etc.), de máquinas

e equipamentos para a

indústria, e de alimentos, pa-

ra quebrar os monopólios in-

ternos e baixar os preços.

Assim, propomos:

a) Maior espaçamento das

desvalorizações do cruzado,

e utilização do índice Único,

a ser definido adiante;

b) Diminuição e, em certos

casos, até eliminação de tari-

fas de importação das indús-

trias já implantadas. As alí-

quotas de importação de-

verão ser tanto menores

quanto mais consolidada es-

tiver a indústria doméstica, e

vice-versa, ampliando-se a

concorrência dos setores já

consolidados e garantindo-se

Medida anti-greve é irreal

Em menos de uma semana de vi-

gência, a Medida Provisória n


Quinzena

não tomou nenhuma mzdoíiva e a

sociedade também nada cobrou de

ninguém.

E, de repente, tem-se a Medida

Provisória n» 50 — defendida pelo ST.

ministro da Justiça sob o olhar riso-

nho e displicente do seu mais segu-

ro violentador, o presidente da CUT!

Tenho a impressão de que os de-

safetos do Governo ainda nem come-

çaram a rir. Faltou aos propositores

da Medida Provisória n" 50. em pri-

O Estado de São Paulo - 5/5/89

meiro lugar, realismo para entender

que as greves obedecem a outras leis,

que não as formuladas pelos ho-

mens: as leis naturais do mercado em

que se degladiam as forças do capi-

tal e do trabalho. Nesse mercado, a

lei escrita (mesmo quando inteligen-

te) atua como balizador das inten-

ções e ações das partes, mas rara-

mente chega a ser um determinante

destas. E faltou também a eles, es-

sencialmente, conhecimento do meio

trabalhista para entender a nature-

As duas legislações

Comparação entre a Lei n?4.330 e a medida Provisória n^SO

za poCítica da enrascada em que se

estavam metendo. Porque se depois

de promulgada a Medida Provisória

n* 50 não acontecer absolutamente

nada e tudo ficar como dantes — co-

mo é que irá ficar a situação para o

Governo, em geral, e para os empre-

sários que vão ter que enfrentar as

greves (agora na mais absoluta im-

punidade), em particular?

Julio Lobet é dirwor 4a Julio Labo* CwMalUraa AaMMia

Lei N2 4.330 Medida Provisória N 9 50

Em assembléia com comparecimento de, no mínimo 2/3 dos

sindicalizados, em primeira convocação. Segunda convoca-

ção: 1/3

Através de publicações de editais em jornais locais, com an-

tecedência mínima de 10 dias. Apuração a cargo de Membro

do Ministério Público do Trabalho.

Serviços de água, luz, esgoto, gás, telecomunicações,

transportes, funerárias, hospitais, venda de alimentos bási-

cos, farmácias, hotéis e indústrias ligadas à segurança na-

cional.

Decretação da greve

Convocação da assembléia

Setores essenciais: definição

Política Nacional

Em assembléia com o comparecimento, no mínimo, de 1/3

dos sindicalizados

Seguindo os critérios determinados pelos estatutos de cada

sindicato. Apuração sem a presença de autoridades.

Da lista ao lado não constam apenas farmácias e hotéis,

mas foram introduzidos outros setores, como a guarda de

substâncias radioativas, controle de vôos, algumas ativida-

des do Banco Central e compensação bancária.

Setores essenciais: restrições à greve

Proibida. Permitida apenas na falta de pagamento. Permitida, desde que observadas algumas exigências, como

comunicação da greve, a patrão e público, com antecedên-

cia mínima de 48 horas, e designação de equipes para a

prestação de serviços inadiáveis e manutenção de equipa-

mentos.

Greve no setor público

Proibida na administração direta da União (Ministérios, Fun- Regulamentação omitida e remetida para futura legislação

oações e Autarquias); Estados, Municípios e Territórios. complementar ã Constituição.

Para garantir a prestação de serviços essenciais; qualquer

Delegado Regional do Trabalho poderia convocar qualquer

pessoa maior de 18 anos.

Requisição civil

A convocação de civis ê mantida, mas passou a ser de ex-

clusiva competência do Presidente da República.

Piquetes

O aliciamento pacífico para a greve é permitido. O direito ao O aliciamento é permitido nos mesmos moldes da Lei n

trabalho é resguardado.

s

4.330.

Penalidades e demissão

As desobediências eram enquadradas no código penal, com

penas de reclusão de seis meses a um ano, multas e expulsão

de estrangeiros participantes de greve. Tudo isso, depois

da demissão.

. m m-M

As penas são mais severas, com prisão até dois anos e dila-

tação da pena quando houver emprego de violência. Tudo

isso, depois da demissão. Em casos menos graves, apenas

advertência, ou suspensão por 30 dias.


Quinzena

-'■''■'-----------— -------w^--_-__

Istoé Senhor - 3/5/89

Toda greve incomoda, diz o presidente da Fiesp, Mário

Amato, mas as greves que mexem com os interesses da

Federação paulista não são das mais incômodas. Envol-

vem somente 25% dos trabalhadores, esclarece Amato.

"Eles não estão conseguindo o que queriam", conclui o

presidente da Fiesp, diante dos microfones da tevê e do rá-

dio. Quem são "eles" não fica bem claro. Os profissionais

do grevismo selvagem ou os fanáticos do recuo institucio-

nal em nome da paz social? Pode-se pensar em uns e ou-

tros. Não há dúvidas, no entanto, de que a visão de Mário

Amato não é a mesma de José Sarney.

Na noite de 27 de abril, o presidente da República esbo-

çou em rede nacional um quadro de calamidade, como se

as greves configurassem uma situação insuportável, muito

além de incômoda. De fato, há greves em todo canto, em

número nunca dantes navegado. A vida é uma parede,

mas também é verdade que a vida nunca foi tão difícil

para tanta gente. Sarney esqueceu-se de expor a calami-

dade que o seu próprio governo representou e representa.

Nunca, como nestes começos de 1989, o Brasil conse-

guiu ser cenário tão perfeito para a agitação social.

Mesmo assim, a larguíssima maioria dos cidadãos não

desmente as suas tradições de resignação. Não serão aba-

ladas pela história patética de um piqueteiro que explode

com sua bomba de fabricação caseira, ou pela ocupação

pacífica de uma fábrica, aliás já liberada. O presidente da

República talvez gostasse que os capuzes usados há um

mès pelos invasores da Mannesmann continuassem ilus-

trando o noticiário, mas não é isso que está acontecendo.

A greve de ocupação revela a sua inconveniência, e os

seus riscos, aos olhos até de alguns enragées genuínos e

modernos. Não é que falte, porém, entre as lideranças sindi-

cais, quem teime em ver o sindicato como instrumento de

revolução. O presidente do Sindicato dos Bancários do

Rio de Janeiro, Cyro Garcia - destacado integrante da

Executiva Nacional da CUT -, proclama que a greve da

Polícia Civil carioca ganha a inefável característica de

"subverter a hierarquia". Garcia é, evidentemente, um pe-

rigoso foragido de outros tempos, arquivados pelo mundo

civilizado. Não é por acaso que se dispõe a alianças com

os autores de lemas do gênero "bandido bom é bandido

morto". Figuras como Garcia não são incomuns nas filei-

ras do sindicalismo nativo. Vale aventar a hipótese, entre-

tanto, de que se trate, mais que de escolados profissionais

da agitação, de vitimas de seu próprio primitívismo.

O atraso mental é o aspecto mais escamoteado e, ao

mesmo tempo, mais determinante da crise de um Pais que

já teve a certeza da proteção divina. O sindicalista Garcia

não é melhor do que o piqueteiro kamikaze. Percebemos,

contudo, que um e outro explicam-se, sem maiores entra-

ves, no rincão de José Sarney, Lcônidas Pires Gonçalves,

Oscar Dias Corrêa. Nós, que ficamos no meio, somos

imolados diariamente na ara desta sanha neandertaiiana.

O sacrificio passa pela incompetência e/ou a má fé de

quem faz a política, sem relevar as classes médias da inca-

pacidade de assumirem seu destino e o povo em geral da sua

resignação tenaz, que os capuzes da Mannesmann, a

bomba tragicômica de Recife ou as falas à Ia Cyro Garcia

estão longe de resgatar.

Teremos, provavelmente, de concluir que somos vitimas

de nós mesmos, sendo que o primitívismo verdc-amarelo

:^:::>::::;;; : i : : ; : : : : :-:v: : :v:v: : : : : : : : :v>x:>>>:x>::;;.>:;::;o;;;:;;-:-:

Política Nacional

Vítimas de nós mesmos

Porque, a esta altura, todos temos culpa em cartório

fica a cada dia mais transparente no confronto da contem-

poraneidade do mundo. Inúmeros países trafegaram neste

século por transições, e as executaram, rápida e eficaz-

mente. A Itália, por exemplo, no imediato pós-guerra, con-

vocou uma Constituinte exclusiva, elaborou uma Consti-

tuição válida até hoje e declarou a greve sempre legítima,

sem cuidar de leis ordinárias para regulamentar o princi-

pio constitucional. Houve tempo em que os burguesotes

nacionais enxergaram a Itália como a pátria das greves

selvagens. Hoje têm de vê-la como um dos países mais ri-

cos do mundo, democrático e capitalista.

A Itália é um bom exemplo. Em 40 e poucos anos de

democracia foi sempre governada pelo centro, centro

mesmo, centro de verdade, até porque a presença de um

grande partido comunista e de uma formidável organiza-

ção sindical obrigou os partidos centristas a permanecerem

inequivocamente na posição mediana, repelindo as seduções

da direita. As últimas décadas provaram que países altamente

industrializados tendem, em função da própria natureza do re-

gime democrático, a ser governados pelo centro. O qual não

se confunde com os últimos herdeiros do nosso sistema oligár-

quico, gente com vocação tanto para a prepotência quanto

para a pantomima, embora sempre disposta, por ignorância

ou grosseria, a dizer-se de centro.

Não se exclua a possibilidade da ignorância. Estes do-

nos do poder já vivem como caricaturas, o que acentua o

fracasso de quem está do outro lado.

Istoé Senhor - 3/5/89

A greve em questão

A Constituição de 88, inovando

sobre o texto anterior, assegurou o RAYMUNDO FAORO

direito de greve, confiando aos tra-

balhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e

sobre os interesses que devam por meio dele proteger. O

fato greve, definível como a suspensão organizada do

trabalho, ficou fora da disciplina legal. Em dois parágra-

fos, todavia, admite-se a presença da lei: para determinar

os serviços ou atividades essenciais e para fixar as res-

ponsabilidades penais, em caso de abuso. A norma cons-

titucional significa, numa leitura atenta, que os trabalha-

dores, por si próprios, uma vez delimitados os serviços

essenciais, devem prover ao seu atendimento, pelo modo

que dispuserem, por seus sindicatos, para proteger as ne-

cessidades inadiáveis da comunidade. Os abusos penali-

zàveis se referem a certas condutas que, ao tempo ou a

propósito das greves, se pratiquem: não aludem, como é

óbvio, á greve, livre das interferências do poder público.

O constituinte, ainda aqui não isento totalmente de ambi-

güidades, fez da greve um exercício de maturidade cres-

cente e pedagógica da classe trabalhadora.

A greve, não só aqui como em muitos países, sobre-

tudo antes de 1945, era considerada uma atividade puní-

vel criminalmente. Ela, no máximo, era tolerada, e, em

certas circunstâncias, proibida. Os estudiosos da matéria

assinalam que, apesar das restrições, nunca, neste último

século, se conseguiu banir a greve das relações de traba-

lho. Como fato, existiu mesmo á margem ou contra a lei.


Quinzena

~ ~ ~ ^ ^ *-

mmmm

:ííí-;;X;X:íX:X:í;

Há variações nos paiscs cio Primeiro Mundo acerca da

maneira de lhe dar uma moldura legal. A Itália, apesar

da restrição constitucional, que a sujeita à lei, só agora,

mais de 40 anos depois da Constituição, cuida de editar

seu estatuto, em meio a discussões intindáveis, nas quais

opinam principalmente os sindicatos.

Assinala um especialista que, no papel, os Estados

Unidos são o mais legalista dos países. Não obstante, em

dez anos de medição (1954-1963), foi o que mais horas

de trabalho perdeu com as greves. Ganhou da Itália, ha-

vida, erroneamente, como o mais grevista dos países. Na

Inglaterra, o legislador se absteve de interferir, até que o

caso judicial ^oo/kes vs. Berna/-í/(1964)reabriu o debate

acerca da limitação á liberdade de greve. O que se enten-

deu, em toda parte, é que a legislação só é eficaz quando

existem, socialmente ou legalmente estruturadas, alterna-

tivas de composição. O processo criminal, em nenhuma

parte, impediu as greves, quer a lei puna os meios ou os

fins. De nada valeram, de outro lado, as distinções, com

tratamento diverso, entre greves políticas e econômicas,

oficiais (deliberadas pelos sindicatos) ou as não-oficiais.

Istoé Senhor - 10/5/89

Pacto dos violentos

As declarações dos generais

LUIZ G BELLUZZO

Leônidas Pires Gonçalves e Newton

Cruz sobre os episódios antisociais

e criminosos ocorridos durante as greves e em

reação a elas, levaram-me a reler um pequeno artigo de

Norberto Bobbío, O pacto dos violentos. O ministro

avançou a hipótese de que a bomba de Volta Redonda

"era uma reação da direita" aos atos de extremismo e

violência praticados durante as greves. Já o general

Newton Cruz justificou a destruição do monumento

"porque ele era uma agressão às Forças Armadas", sugerindo

que o "espírito de corpo" está acima da lei e que

os homens armados pela sociedade para exercer a violência

legítima, isto é, dentro dos limites da lei, podem, impunemente,

fazê-lo em nome próprio.

O Estado detém o monopólio da violência, a violência

disciplinada pela lei e esta ainda é a melhor forma encontrada

pelas sociedades civilizadas para conter a disseminação

da violência privada. Não se trata de defender a

violência do Estado e muito menos a violência de qualquer

Estado, mas de entender que um dos princípios

básicos do Estado de Direito estabelece que a lei determina

quando, como e em que intensidade a violência pode

ser exercida.

Aceitar a discussão nos termos postos pelo ministro

do Exército significa admitir a erosão do poder do Estado,

a reemergência da violência privada como forma

de dirimir os conflitos. Um alto funcionário do Estado

sequer pode admitir a possibilidade de que este processo

tenha curso, seja tolerado e, muito menos, que tenha sido

protagonizado por outros funcionários do Estado.

A sociedade brasileira não tem sido exemplar em suas

exigências de controlar a aplicação cega da lei e este tem

sido, ao longo dos anos, um dos maiores obstáculos para

a consolidação da democracia e do Estado de Direito.

As corporações e grupos sociais, dentro e fora do Estado,

têm revelado uma enorme capacidade de consolidar

seus privilégios puramente através da força. A forma

aperfeiçoada, superior e extrema desta selvageria política

é o golpe de Estado, mas durante os intervalos democrá-

^mmÊmÊmmm xiá x; íSííxí!x

Política Nacional

Temos, nós próprios, a nossa experiência, que desmorali-

zou os diversos c impressionantes aparatos bélicos mobi-

lizados, no regime anterior, contra o ABC.

A greve era vista, especialmente no Brasil, como uma

transgressão penai. Em certo momento, foi equiparada à

guerra civil, sujeita à Lei de Segurança, de má memória.

No momento em que o governo propõe uma lei de greve,

não respeitando o pequeno espaço que lhe reserva a

Constituição, não se teme apenas o ressurgimento de ve-

lhos e anacrônicos fantasmas. Há um risco maior em vis-

ta. Uma lei infiel acs tempos novos trará o perigo de investir

o poder público com a repressão, que, segundo aprende-

mos, tem uma marcha contínua e ascendente. Sob o pre-

texto de proteger as necessidades inadiáveis da comuni-

dade, confiadas á responsabilidade dos grevistas e de sin-

dicatos modernos, poderá voltar a tese de que a greve é

um caso de polícia. Em suma, estamos às vésperas da re-

petição, nas dobras da lei, de voltar a ver a questão so-

cial como uma questão de policia, idéia que não sai da

cabeça de nossas velhas e envelhecidas elites, que fazem

do medo cultivado uma fonte de sua permanência no po-

der.

ticos temos assistido à permanência de situações claras

de desigualdade perante a lei, de impunidade, de des-

prezo pelas instituições, de arrogância particularista.

Bobbío observa que o primeiro grande teórico do Es-

tado liberal, John Locke, havia repetidamente defendido

que só através do governo civil fundado no consenso os

indivíduos saem realmente do estado de natureza, ou

seja, do estado de guerra civil permanente; já o Estado

despótico, cujo poder se baseia na simples força sem

consenso, não é senão a continuação ou a quase cristali-

zação do estado de natureza.

A diferença fundamental entre as duas formas antitéti-

cas de regime político, continua Bobbío, está no fato de

que num regime democrático estas relações de força são

transformadas em relações de direito, ou seja, em rela-

ções reguladas por normas gerais, certas c constantes e,

o aue mais conta, oreestabelecidas.

Folha de São Paulo - 9/5/89

Rumo à centro-esquerda

O encontro municipal de Sào Paulo é mais

um sinal de que o norte da bússola política

do PT se desloca para o centro. Mais

importante do que tudo, revela que os

dirigentes do partido estão conseguindo o

consentimento da maioria de seus militan-

tes para uma conversão ao reformismo.

Com efeito, a Articulação —tendência majo-

ritária do partido— ampliou a sua força na

capital paulista, no exato momento em que

troca a busca da essência da verdadeira

doutrina do socialismo pela possibilidade de

distribuir renda, ampliar direitos, alterar a

prioridade das políticas públicas aqui e

agora; isto é, modificar o capitalismo pela

via das instituições democráticas.

Os números finais do encontro petista são

aproximadamente os seguintes: Articula-

ção, 51%; aliança Poder Popular e Socia-

lismo (PPS), Democracia Socialista (DS),

Partido Comunista Revolucionário (PRC) e

Movimento Comunista Revolucionário

(MCR), 34%; e composição O Trabalho/

Convergência Socialista, 15%. >.

^x~

V fi ". |


Quinzena Política Nacional

Um detalhe particularmente relevante em

relação ao anterior é que a Articulação

obteve, isoladamente, a maioria. Na compo-

sição do Diretório Municipal anterior o

grupo liderado por Luis Inácio Lula da Silva

precisava do concurso do MCR para se

sobrepor às correntes à esquerda do espec-

tro petista. Isolada, a Articulação tinha

apenas 48% contra 52% dos grupos à sua

esquerda. Esta situação de força minoritá-

ria frente a uma aliança das demais

correntes foi um dos fatores determinantes

da vitória de Luiza Erundina na disputa

pela candidatura à Prefeitura de São Paulo;

o outro foi a sua própria divisão.

O resultado indica também que os pro-

blemas práticos de um governo municipal

tiveram o efeito de desgastar as forças mais

esquerdistas, até mesmo porque é difícil

sustentar um discurso e a imagem de

pureza revolucionária quando se está ocu-

pado em impedir a falência da Prefeitura ou

em calcular o preço do asfalto ou do serviço

de coleta de lúco. Ê duro convencer alguém

de que a premissão para que os ambulantes

operem no centro da cidade conduz ao

socialismo.

O corolário da mudança da correlação de

forças interna ao partido é o aumento do

controle do Diretório Municipal e, portanto,

da Articulação sobre o governo da cidade de

São Paulo, que está nas mãos dos grupos

mais à esquerda do partido.

Artur Ribeiro Neto

Esta série objetiva contribuir com a discussão sobre o signi-

ficado das eleições presidenciais na atuai conjuntura e sua

relação com a luta pelo socialismo. Nesse sentido, já publi-

camos textos de várias concepções presentes no movimento

operário. Neste número tratamos de uma experiência interna-

cional da maior importância para aqueles que desejem refletir sobre o tema: a experiência

chilena. O texto é de Antônio Ozaí da Silva, que faz parte da equipe do CPV e é autor do li-

vro História das Tendências no Brasi.

Chile: Uma Revolução Derrotada

A Unidade Popular (UP) constituída pelo Partido Co-

munista, Partido Socialista, Partido Radical, Partido So-

cial Democrata, Movimento de Ação Popular Unitário e

Ação Popular Independente, não foi uma experiência

pioneira na vida política chilena. O PS e o PC, já em

1951, organizam a Frente do Povo (FP) e lançam Allende

como candidato à presidência nas eleições do ano se-

guinte: este obteve uma votação inexpressiva.

Anteriormente às eleições presidenciais de 1958, o PS

e o PC e alguns grupos menores que ingressam na Frente

do Povo, transformam-na em Frente de Ação Popular

(FRAP). Novamente, a Frente lança Allende como candi-

dato, o qual perde por uma pequena margem de votos.

Em 1964, a FRAP, pela terceira vez consecutiva, lança

Allende como candidato: este perde por uma grande mar-

gem de votos para o candidato da Democracia Cristã

(DC), Eduardo Frei.

Quando em 1970, a Unidade Popular disputa mais uma

vez as eleições presidenciais tendo novamente Allende

como candidato, a esquerda chilena além de ter uma ex-

periência acumulada em tomo da formação de Frentes,

tem também uma conjuntura favorável diante do fracasso

e do descrédito do governo democrata cristão. Assim em

4 de setembro de 1970, com a direita dividida em duas

candidaturas - Jorge Alessandri (Partido Nacional) e Ra-

domiro Tomic (Partido Democrata-Cristão) - Salvador

Allende é eleito presidente com 36,3% dos votos.

Mesmo eleito Allende vê-se ameaçado de não tomar

posse. Pois, de acordo com as leis chilenas o candidato

eleito deve ser homologado pelo parlamento, e este com

maioria de direita ameaça não fazê-lo. Após dias de ten-

são e ameaça de conspiração militar, Allende fecha um

acordo com a DC (o "Estatuto de Garantias") garantindo

a sua posse.

Neste "estatuto" o presidente eleito se compromete a

manter-se nos marcos legais vigentes, conservar o "esta-

do de direito" e o "pluralismo político". O "Estatuto"

garante ainda que a UP não intervirá na vida interna das

Forças Armadas e dá à esta o monopólio das armas.

Os subsídios para o ensino privado controlado pela

Igreja são mantidos e o governo popular se compromete a

não confiscar os meios de comunicação.

A 4 de novembro, Allende toma posse e a UP, a partir

de então, procura colocar em prática o seu programa de

caráter nacional, democrático e popular (nacionalização

do cobre, desenvolvimento de uma política internacional

independente, criação da propriedade social a partir da

estatização de determinados setores da economia, estatí-

zação dos bancos, aprofundamento da reforma agrária,

política econômica que visa conter a inflação e garantir

uma significativa redistribuição da renda nacional e forte

impulso de recursos à área social etc.)

A aplicação deste programa objetiva lançar as bases

para a transição ao socialismo e estrategicamente está

calçado sob a concepções predominantes no interior da

UP, segundo a qual anteriormente ao socialismo os tra-

balhadores devem passar pela etapa nacional, democráti-

ca-burguesa. Ainda nesta linha, acredita-se ser possível

através de transformações graduais e do caminho pacífico

chegar ao socialismo. As palavras de Salvador Allende

na abertura dos trabalhos do parlamento, em 21 de maio

de 1971, nos dão um quadro bem claro sobre a estratégia

e a tática da UP:

- "O caminho para construir o socialismo no Chile su-

põe como requisito prévio fundamental que possamos

estabelecer as bases institucionais de ordenação socialista

em pluralismo e liberdade. (...)"

"E de acordo com esta realidade que nosso Programa

de Governo se comprometeu a realizar a sua obra revolu-

cionária respeitando o estado de direito. Não é um sim-

ples compromisso formal, mas o reconhecimento explícito

de que o princípio de legalidade e a ordem constitucional

são substanciais a um regime socialista, apesar das difi-

culdades que encerram para o período de transição. (...)"

"Os céticos e os catastrofistas dirão que não é possí-

vel. Dirão que um Parlamento que tão bem serviu as clas-

ses dominantes é incapaz de transfigurar-se para chegar a

ser o parlamento do povo chileno. Ainda mais enfatica-

mente disseram que as Forças Armadas e os carabineiros,

até agora sustentáculos da ordem institucional que supe-

ramos, não aceitariam garantir a vontade popular decidida

a edificar o socialismo em nosso país. Esqueceram a

consciência patriótica das nossas Forças Armadas como

parte integrante e representativa da nação e como estrutu-

ra do Estado. (...)"

"Por minha parte declaro. Senhores membros do

Congresso Nacional, que, fundando-se esta instituição no

voto popular, nada na sua natureza mesma a impede de

renovar-se para converter-se de fato no Parlamento de


Quinzena

Povo. E afirmo que as Forças Armadas chilenas e o corpo

de carabineiros, guardando fidelidade ao seu dever e à

sua tradição de não intervir no processo político, serão o

apoio de uma ordem social que corresponde à vontade

popular expressa nos termos que a constituição estabele-

ça."

A direita, apesar das declarações de Allende e do es-

paço da UP em evitar radicalismos, vence a sua perplexi-

dade e imobilização do primeiro momento e passa a se

articular com os militares e ao imperialismo americano

para derrubar o governo popular. Enquanto tramam cada

dia mais abertamente, a UP e os partidos que a compõe

desenvolvem uma política que além de procurar freiar o

movimento de massas - para evitar os excessos e contro-

lá-lo quando toma-se impossível freia-lo, dissemina ilu-

sões constitucionalistas e consequentemente, desarma os

trabalhadores para a resistência a qualquer tentativa gol-

pista. Os trabalhadores, apesar disso, se organizam para

resistir às manobras da direita, ocupam fábricas e terrenos

urbanos, formam os "cordões" (Conselhos Comunais Lo-

cais") etc.

Em outubro de 1972, a direita desencadeia um movi-

mento denominado "resistência civil" com o intento de

derrubar o governo. Financiados pelo imperialimo, os

proprietários de caminhões de carga realizam uma parali-

sação. Em seguida, os transportes urbanos, quase todo o

comércio e a maior parte dos profissionais liberais tam-

bém paralisam. Os empresários do setor industrial iniciam

um lock-out (greve patronal) e muitas fábricas param por

falta de transporte e matérias primas. Comandos facistas

executam ações de sabotagem e terrorismo. Em meio ao

caos, estudantes, trabalhadores e a população pobre se

encarregam de suprir com formas alternativas as dificul-

dades impostas pelo movimento direitista.

Após 26 dias, a direita recua de seu objetivo de derru-

bar o governo e negocia. Suas exigências de "garantias

para se chegar em ordem às eleições de março do ano se-

guinte" são aceitas: forma-se um novo gabinete ministe-

rial integrados pelos comandantes do Exército, Marinha e

Aeronáutica. Além disso, o parlamento aprova por unani-

midade a Lei de Controle de Armas, a qual autoriza as

Forças Armadas a atuar ante qualquer denúncia da forma

que lhe convier e dá-lhe o direito de sancionar os even-

tuais culpados à margem do Legislativo e Judiciário. Esta

lei, aprovada num parlamento onde a UP tinha 40% e

sancionada pelo presidente, o qual tem poder de veto, foi

muito útil à direita pois serviu como fachada para repri-

mir e preparar o golpe. Não bastasse isto, o governo e al-

gumas forças que o compõe, especialmente o Partido Co-

munista, procura "jogar água fria" sobre o movimento de

massas para evitar a radicalização e canaliza a energia do

movimento operário e popular para a eleição de março de

1973. Seu lema é "Parar para Consolidar" as conquistas

alcançadas.

A direita deposita esperanças em conseguir eleger dois

terços dos parlamentares nas eleições de março, o que lhe

daria condições de decretar o "impeachement" de Allen-

de. Realizadas as eleições e divulgados os resultados a

direita vê suas expectativas serem frustradas: a UP, ape-

sar de sua política em relação ao movimento de massas e

dos atos desestabilizadores da contra-revolução, obtém

44% dos votos. A burguesia diante deste quadro, mostra-

se incapaz de aceitar a própria democracia burguesa e ca-

naliza todos seus esforços para a concretização do golpe

militar.

Em 29 de junho, parte do Regimento Blindado n^2,

comandado pelo Coronel Souper, ocupa com seus tai>

quês as mas de Santiago e ataca o Palácio Presidencial.

Allende através de cadeia de rádio conclama o povo a

marchar para o centro de Santiago "com o que tivessem

em mãos" e promete distribuir armas "se necessário".

sfiíííííííííííííí

::;:;::;:;:;::^;:::::o:|;:;:;;í

Política Nacional

Algum tempo depois, Allende usa novamente o rádio pa-

ra falar aos trabalhadores e pede-lhes que não mais se di-

rijam ao centro e que mantenham-se nas fábricas. Em

cerca de duas horas, as tropas leais ao governo sob a li-

derança do Comandante e Chefe do Exército, General

Carlos Prats, obtém a rendição dos rebelados.

No mesmo dia uma multidão concentra-se em frente ao

Palácio Presidencial "La Moneda", muitos reclamam a

distribuição de armas e exigem o fechamento do parla-

mento. Allende transforma a manifestação num ato de

homenagem ao "patriotismo das Forças Armadas"; apre-

senta os comandantes das três armas e dos carabineiros

para que sejam saudados pelo povo; elogia, entre outros,

o general Pinochet e Bonilla (Ministro do Interior da

Junta Militar após o golpe) e responde aos reclamos po-

pulares afirmando:

- "Faremos as transformações revolucionárias em plu-

ralismo, democracia e liberdade (...)"

"Não vou fechar o congresso, porque seria absurdo.

Mas, se for necessário, enviarei um projeto de lei para

organizar um plebiscito, para que o povo se pronuncie."

Posicionando-se em relação às palavras de ordem

"Criar, criar, Poder Popular" que ecoavam em meio a

multidão, o presidente declara:

- "Companheiros trabalhadores, temos que nos orgínii-

zar. Criar e criar o Poder Popular, mas não antagônico

nem independente do governo, que é a força fundamental

e a alavanca que os trabalhadores tem para avançar no

processo revolucionário".

O 29 de junho foi uma espécie de ensaio. Os militares

golpistas, o Partido Nacional, a Democracia Cristã e o

imperialismo intensificam os preparativos do golpe. Nas

Forças Armadas o cerco aos militares leais ao Governo

aperta-se e o General Carlos Prats acaba renunciando

diante das pressões e da ineficácia do governo no com-

bate aos golpistas. Com o seu afastamento, o comando do

Exército fica sob o controle do general Augusto Pino-

chet.

Na iminência do confronto o PC desencadeia uma

campanha "contra a guerra civil", apela para o diálogo e

realiza sucessivas manifestações pacifistas. Por sua vez,

Allende tenta a todo custo um acordo com a DC - esta

procura apenas ganhar tempo e não negocia seriamente.

A UP divide-se: o PC, a direita do PS e o grupo de Gas-

murri (a ala do MAPU aliada ao PC) vêem possibilidades

reais de contornar a crise e evitar o golpe dentro da via

legal e constitucional - sua tática é evitar a guerra civil.

O MAPU, com pouco peso no interior da UP, propõe a

preparação da luta armada.

O MIR, uma pequena organização que não fazia parte

da UP, defende a guerra revolucionária prolongada e ir-

regular.

Na manhã de 11 de setembro de 1973, os militares en-

tram em ação: controlam o centro da capital e os pontos

principais nas Províncias (Estados), süenciam pela força

os meios de comunicação da esquerda e bombardeiam o

"La Moneda", a residência oficial do Presidente. Nos

minutos anteriores ao bombardeio o Presidente Allende

fala ao povo pelos microfones da única rádio ainda sob o

controle governamental. Suas palavras refletem o reco-

nhecimento da derrota e não contém qualquer indício de

auto-crítica. Pouco tempo após dirigir-se ao povo, Allen-

de tombou metralhado em confronto com os golpistas. O

povo continuou resistindo por muitos dias, mas sucumbiu

diante da força do inimigo e do seu próprio despreparo.

Estima-se em mais de 20 mil o número de mortos só nos

primeiros dias do golpe. As Forças Armadas, mais uma

vez, confirmam as suas verdadeiras tradições. Da mesma

forma, confirma-se a experiência acumulada em todos os^

mmmm


processos revolucionários: em nenhum deles a classe do-

minante abriu mão de seus privilégios de forma pacífica.

Antes, durante e depois de cada transformação da socie-

dade, a burguesia opôs tenaz e persistente resistência. Os

trabalhadores só concretizaram as revoluções porque es-

tavam preparados para suprimir a resistência burguesa.

Jornal do Campus - £CA - USP - 27/4/89

ha Cadência do Tango

"O peronismo e uma estória de

amor de um povo por um homem de

um homem por um povo".

A frase, dita por alguém em uma

das milhares de "confiterias" de Bue-

nos Aires, os locais onde diariamente

as pessoas se encontram para tomar

café e conversar, principalmente sobre

política. Resume o ideário, a filosofia

embutida no peronismo.

O peronismo reúne diferentes

ideologias, indo desde a extrema es-

querda até à extrema direita; de mode-

rados a revolucionários, de ambos os

lados, e que consegue traduzir com

muita perspicácia o grande anseio do

povo argentino o nacionalismo, algu-

mas vezes até xenófobo.

Sem dúvida alguma, o peronismo é

um movimento populista. Diferente da

Europa, o populismo latino-americano

sempre enfatizou a figura do líder po-

pular, deixando as outras duas variá-

veis, partido e programa, num plano

inferior.

juan Domingo Perón foi quem con-

seguiu tocar mais fundo o povo de um

pais latino-americano. Suas bandeiras

eram as mais óbvias e previsíveis:

justiça social, independência econô-

mica e soberania política. Mas, mais

importante do que isso, ele deu a povo

argentino o que as pessoas mais que-

riam: orgulho nacional.

O argentino, desde a época colo-

nial, sempre buscou a sua identidade,

diferenciando-se, neste sentido, do

brasileiro, por exemplo. Isto talvez

devido ao fato de a Argentina ser o

mais "europeu" dos países do conti-

nente, com uma formação cultural que

lembra muito os padrões britânicos.

Perón adotava uma linha que pode

ser chamada de "verticalista". Era

uma ligação direta, vertical, entre o

povo e o líder. Uma linha aberta que

atravessava as instâncias intermidiá-

rias, entre elas o aparelho do Estado e

a estrutura do seu partido, o Justicia-

Marcelo Sereicikas de Azevedo

Tagil Ramos

m^MSM^Mm

BmiJOGRAFIA

lista, ou melhor. Peronista. Perón ti-

nha horror à burocracia partidária,

embora adotasse uma burocracia sin-

dical. Ele achava que partido tem ten-

dência inevitável a sistematizar-se e,

por isso, o peronismo teria que ser

maior que o partido, teria de quer um

movimento assistêmico, ou mesmo,

anti-sistema. O partido é uma espécie

de nuvem, pairando sobre a sociedade

e atravessada pelos raios de luz que

aproximam o líder carismático do seu

povo e vice-versa.

Perón exercia uma "mística" sobre

o povo argentino, que parece sobrevi-

ver até hoje, passados quase 15 anos

de sua morte. O seu carisma permitia

que ele se referisse a si próprio como

"salvador nacional". Desta forma,

conseguiu reunir, sob uma mesma

égide política, a direita e a esquerda e

os seus anseios nacionalistas. Cada

uma destas correntes tenta explicar o

movimento sob a sua óptica, mas a

verdade é que o peronismo sempre se

revelou uma aliança de classes, con-

vivendo tanto com a burguesia urbana

e agrária, como com o operariado e os

"descamisados", aqueles que migra-

vam do campo para as cidades.

A doutrina peronista deu vida à

"argentinidade" buscada há muito

tempo pelo povo e sintetizava esse

sentimento da seguinte forma: a cultu-

ra argentina é simples, prática, popu-

lar, cristã e humanista.

O discurso peronista pregava o

ufanismo exacerbado, mesclado à va-

lorização do mito de Perón como he-

rói nacional e libertador da Argentina,

num trabalho perfeito de manipulação

ideológica. Em 9 de julho de 1947,

Perón foi a Tocuman para assinar,

num gesto cheio de simbolismo, a

"Ata de Independência Econômica"

argentina. Foi em Tucumán, em 9 de

julho de 1816, que San Martin assinou

a declaração de independência política

argentina. Nos livros de história, as

iiiiiiiiiiiiiiisiisí

Política Nacional

Carlos Altamirano, A Dialética de uma Derrota, Brasi-

liense.

Causa Operária. Chile - As Lições de Uma Derrota

Eder Sader, Um Rumar de Batas, Ed. Polis.

Eder Sater, Democracia e ditadura no Chile, Brasilien-

se.

Fernando Alegria, Salvador AUende, Brasiliense.

. • .>íK¥>:¥í:

im mm-;

Internacional

ilustrações mostravam lado a lado,

com uniformes militares semelhantes,

os mesmos San Martin e Perón. Nas

legendas se via escrito: "El libertador

San Martin" e "El libertador Perón"

Em 1952, Perón recebeu oficialmente,

no Congresso Nacional, em Buenos

Aires, o título de "Libertador da Re-

pública Argentina'.' (MSA)

A

HISTÓRIA

DE UM

MITO

Juan Domingo Perón nasceu em 8

de outubro de 1895 em Buenos Aires

e em 1911 entrou para a escola mili-

tar. Promovido a capitão em 1924,

participou do movimento armado que

derrubou o presidente Hipólito Yrigo-

yen em 1930. Foi adido militar no

Chile (1936) e na Itália (entre 1939 e

1941). Uma das frases de maior reper-

cussão dita por ele nessa época foi:

"Mussolini é o maior homem do sé-

culo, mas cometeu erros que eu não

cometerei".

Em 1943, o já coronel Perón parti-

cipou da derrubada do presidente Ra-

món S. Castillo, que nutria simpatias

pelo Eixo, apesar da posição argentina

de se manter neutra na Segundo Guer-

ra Mundial. A partir daí, Perón come-

çou a se destacar no cenário político

nacional, assumindo a secretaria do

Trabalho e Previdência e buscando

apoio dos meios trabalhistas. Organi-

zou os operários em sindicatos e criou

a Confederação Geral do Trabalho

sob uma única direção. Proclamava a

si mesmo "o primeiro trabalhador".

Sempre se utilizando de expedien-

tes demagógicos, passou a acumular

os cargos de secretário do Trabalho,

de ministro da Guerra e de vice-presi-

dente da Repúbüca.

Uma das suas primeiras jogadas

políticas na ocasião foi a de se colocar

contra os Estados Unidos e o seu em-

baixador em Buenos Aires, Spruille

Braden, que havia acusado Perón ^e


Quinzena Internacional

fascista. Peron não se abateu e com

um discurso político memorável acu-

sou os norte-americanos de imperia-

listas e pediu ao povo que vestisse a

camisa do nacionalismo. A partir daí

Perón passou a ser visto como o de-

fensor das causas nacionais e vigilante

das interferências estrangeiras nos as-

suntos estritamente argentinos. Era

1944, e o slogan "Braden ou Perón"

ajudou-o a vencer as eleições de feve-

reiro de 1946.

Um pouco antes, em outubro de

1945, Perón foi preso por militares,

conservadores descontentes com a sua

política trabalhista. Teve de ser solto

uma semana mais tarde graças a uma

impressionante manifestação popular.

Foi eleito presidente com 55% dos

votos.

O Congresso Nacional o promoveu

a general logo em seguida. Depois de

tomar posse, Perón pôs em prática um

programa de bem-estar social denomi-

nado justicialismo. Aprovou um plano

qüinqüenal que nacionalizou as ferro-

vias, até então pertencentes aos britâ-

nicos. Liquidou os demais partidos e

criou um instrumento próprio de ação

política, o "partido único da revolu-

ção", a que deu o nome de Partido

Peronista.

Em 1949, uma série de medidas,

entre elas a possibilidade de reeleição

e o fim da liberdade de imprensa, deu

forma a uma "ditadura sem disfar-

ces", mas que tinha amplo apoio das

massas.

Foi reeleito em 1951 com 66% dos

votos. Perón, entretanto, não conse-

guiu tirar a Argentina da séria crise

econômica em que ela se encontrava.

A situação tomou-se mais delicada

depois de uma crise com a Igreja ca-

tólica, que lhe valeu a excomunhão

em junho de 1955. Em setembro, uma

rebelião da Marinha e do Exército,

com apoio de alguns setores políticos,

obrigou-o a renunciar e a refugiar-se

no Paraguai, exilando-se mais tarde na

Espanha, de onde continuou a orientar

seus partidários, mantendo a influên-

cia do peronismo na vida argentina.

Provando que o peronismo conti-

nuava vivo, os candidatos do partido

obtiveram 35% dos votos nas eleições

parlamentares de 1962, embora o

pleito tenha sido anulado posterior-

mente. Nas eleições seguintes, em

1963, dificuldades criadas pelos mili-

tares fizeram com que Perón orientas-

se a população a votar em branco co-

mo forma de protesto. No total,

1.700.000 pessoas votaram em bran-

co. Depois de dez anos de intensas ne-

gociações com os comandos militares

argentinos, Perón conseguiu retomar

ao país. Um pouco antes de sua volta,

o candidato peronista às eleições pre-

sidenciais de 1973, Héctor Cámpora,

alcançou 49,5% dos votos e venceu o

pleito. Depois da posse, Cámpora

viajou pessoalmente à Espanha para

acompanhar a volta de Perón à Ar-

gentina, depois de 18 anos de exílio.

Mais de dois milhões de pessoas o

aguardavam no aeroporto de Buenos

Aires para saudá-lo. Cinco dias de-

pois, em 25 de junho, Cámpora re-

nunciou ao cargo e novas eleições

presidenciais foram marcadas para 23

de setembro. Perón foi eleito com

61,85% dos votos

O velho líder conseguiu obter al-

guns êxitos iniciais na economia do

país e também políticos. Algumas or-

ganizações terroristas, como os Mon-

toneros, de tendência peronista, deram

um crédito ao novo governo e cessa-

ram seus ataques. Menos de um ano

mais tarde, em l 9 de junho de 1974,

Perón faleceu, vítima de uma doença

cardíaca, e assumiu a presidência a

vice-presidente, Maria Esteia Martúiez

de Perón, sua terceira esposa.

Dois anos mais tarde ela foi de-

posta por um golpe militar que mer-

gulhou a Argentina em uma ditadura,

onde foram comuns as violações aos

direitos humanos e abusos dos gover-

nantes.

Em 1983, convocadas eleições pre-

sidenciais livres, venceu o candidato

da União Cívica Radical, partido de

oposição ao peronista, Raul Alfonsín.

(MSA)

MENEM:

O HERDEIRO

DE PERÓN

Com a derrota dos peronistas em

1983, chegou-se a pensar que o pero-

nismo estava acabado. Entretanto, o

govemo Alfonsín não conseguiu

contornar a crise econômica que as-

solava o país e, com isso os peronistas

ganharam força novamente.

Nas eleições para governadores das

províncias em 1986, os peronistas

conseguiram eleger 17 de seus candi-

datos, contra apenas três dos radicais.

Era, sem dúvida, a primeira resposta

contra Alfonsín e a prova de que o pe-

ronismo continua vivo, mesmo depois

de uma década da morte de seu cria-

Jlor Entre os governadores peronistas

eleitos, está Carlos Saúl Menem, da

província de La Rioja, a 900 Km de

Buenos Aires, próxima à fronteira

com o Chile. Em julho do ano passa-

do, nas eleições primárias do partido,

que indicaram o candidato peronista

para as eleições presidenciais de 14 de

maio, Menem derrotou o favorito

Antônio Cafiero, governador da pro-

víncia de Buenos Aires e atual presi-

dente do partido. As primárias mostra-

ram que o peronismo continua vivo

pois mais de 1.700.00 compareceram

às umas, muito mais do que se espe-

rava.

Menem consegue encarnar a "mís-

tica" peronista, algo que somente o

velho caudilho possuía. O governador

de La Rioja tem uma qualidade que os

peronistas apreciam muito: a imprevi-

sibilidade política. A sua plataforma é

vaga em muitos pontos, mas o argen-

tino aposta na capacidade do imprevi-

sível para promover as grandes mu-

danças que o país exige.

Menem representa uma ruptura

dentro do atual momento político em

que vive a Argentina. Ele significa

uma volta ao passado, nas melhores

tradições peronistas. Uma tentativa de

reviver os "anos dourados" das déca-

das de 40 e 50, quando Perón apaixo-

nava toda a Argentina.

Alguns analistas políticos dizem

que a vitória de Menem será um retro-

cesso na vida argentina e que o candi-

dato peronista ideal seria Cafiero, pois

ele conseguiria dar uma roupagem no-

va ao movimento, isto é, faria com

que o peronismo revivesse seus me-

lhores dias mas de uma forma que

possibilitasse à economia do país en-

trar no século 21 mais forte e desen-

volvida.

Mas ao contrário de Cafiero, Me-

nem consegue mexer com o senti-

mento do povo, consegue dar vida à

grandiloqüência do argentino, à pas-

sionalidade que o homem argentino

possui em tudo o aue faz, à sua voca-

ção para o trágico. Logo depois de

anunciada a sua vitória nas primárias,

Menem foi para o balcão da Casa de

La Rioja, em Buenos Aires, e discur-

sou perante uma multidão delirante,

que cantava efusivamente o hino pe-

ronista. Todo peronista sempre corre

para um balcão nos momentos de gló-

ria. (MSA)

OPULENCIA

COMO

MEMÓRIA

A Argentina enriqueceu com as

duas guerras mundiais. Uma Europa

arrasada pelos combates precisava de

trigo e carne. Daí o país construiu sua

opulência, A nação caminhava para

um futuro de provável riqueza. Na dé-

cada de 20, chegou inclusive a apre-

sentar o 6 9 PIB da economia mundial.

O que levou um país com tanta

potencialidade ao nível de estagnação

econômica dos dias atuais, com uma

inflação que chegou a atingir, antes

do plano Astral, o patamar de 1.000%

ao ano? Uma das causas reside, com»


Quinzena

certeza, na sua instabilidade política.

Alfonsín será o primeiro presidente,

desde 1952, a cumprir seu mandato.

Golpes militares, um atrás do outro,

fizeram a história desta terra. Por isso

a paixão política ferve no sangue do

argentino, este apreciador do tango,

dança enérgica e ritmada, cuja drama-

ticidade traduz a alma do povo, acos-

tumado aos joguetes do destino.

O processo iniciou-se em 1946 com

a eleição de Juan Domingo Perón.

Seus compromissos com as lideranças

locais levaram-no à nacionalização

dos bancos e das companhias de gás e

telefone, entre outras. Sua marca po-

pulista reorientou a indústria para a

produção de bens de consumo. Nessa

época, os trens partiam das estações

entulhados de sapatos para serem dis-

tribuídos à população carentes.

O poder chegou às mãos de Perón

da maneira mais favorável que um go-

vernante poderia desejar. A Argentina

era uma país credor. Só a Inglaterra

devia-lhe 1 bilhão e 700 milhões de

dólares. Na sua visão, o caudilho em-

preendera o plano de tirar o país da

era agrícola para introduzi-lo na in-

dustrial. Conseguiu um lado de seu

intento. O grande surto desenvolvi-

mentista atraiu multidões para as

grandes cidades, principalmente a ca-

pital, Buenos Aires. As conseqüências

deste surto migratório podem ser sen-

tidas até nos dias de hoje. A Argenti-

na é este ser macrocefálico, onde tudo

se concentra na capital, que é o centro

comercial, financeiro e político do

país. Com seus atuais 10 milhões de

habitantes (um terço da população na-

cional), Buenos Aires tem graves pro-

blemas de distribuição demográfica.

As medidas de perón levaram ao

fortalecimento de uma liderança na-

cionalista, que entrou em choque di-

reto com os interesses americanos no

país. Isso inspirou o golpe de 1955.

Pedro Eugênio Aramburu repudia a

"3 ? Posição de Perón" e adere à

Doutrina de Segurança Nacional, que

legitima a interferência dos Estados

Unidos cada vez que "os inimigos da

democracia" trouxessem ameaça a ela.

O peronismo sofreu a partir daí duros

golpes. Em algumas épocas era pros-

crito, noutras mostrou-se exuberante.

Como hoje, na figura de Carlos Me-

nem, onde novos sonhos surgem a

partir de velhas idéias. (TR)

NO

CÉU,

EVITA

íiíiíá

Todo peronista que se preze acre-

dita que Evita está no céu. Mais do

que um mito, ela é uma santa, em cujo

Istoé Senhor- 10/5/89

Burocracia deve diminuir

Pai da perestroika está insatisfeito

com ritmo das reformas e quer mais

JORGE CALDEIRA

Abel Aganbeguian, o pai da

perestroika, está no Brasil. 0 econo-

mista armênio, de 57 anos, veio dar

aulas na USP e, na qualidade de prin-

cipal formulador da política de inves-

timentos de seu pais, conhecer proje-

tos como Carajás. Aganbeguian é o

responsável por uma verdadeira revo-

lução na economia soviética: o país

despachou 400 mil de seus 2,2 mi-

lhões de burocratas para a produção

e acha pouco; renovou tecnologica-

mente 9.8% de suas máquinas indus-

triais no ano passado e quer mais; au-

mentou os salários e deseja que o

consumo de bens aumente muito até

o final do século; está se abrindo rapi-

damente para o capital estrangeiro;

quer diminuir cada vez mais os con-

troles centrais da economia e

substitui-los por mecanismos de mer-

cado; está insatisfeito com uma infla-

ção de 8% ano passado e quer chegar

aos 6% este ano. Para garantir tudo

isto, aumenta as liberdades políticas e

diminui os gastos com armamentos.

Aganbeguian dirige a seçãu de

Economia da Academia de Ciências

da URSS. mas é mais conhecido por

ler-se tornando o principal assessor

de Mikhail Gorbachev. O objetivo do

amplo plano de reformas que formu-

lou é a retomada do ritmo de cresci-

mento da economia soviética, que ha-

via caído durante os anos 70 e 80

para algo em torno de 3% ao ano. A

idéia é que o país vire o século cres-

cendo entre 7% e 8% ao ano. Para

isso, o parque industrial está sendo re-

feito, para ter níveis de produtividade

e eficiência iguais ou melhores que os

ocidentais. Para Aganbeguian, o cres-

cimento deve acontecer, pela via do

aumento da produtividade na econo-

mia e não mais pelo aumento da ex-

ploração das riquezas naturais de seu

país, onde o desperdício era grande.

A União Soviética produz, por exem-

«- w

Internacional

túmulo são depositadas até hoje pre-

ces e promessas. É fácil imaginar o

diálogo que teve pouco antes de entrar

na Mansão dos Mortos:

- Quem és tu, alma vagante e por

que aqui desejas entrar? - perguntou

Deus.

- Eu sou Eva, a primeira mulher do

paraíso argentino. Sou chamada pelo

meu povo de "La santa de los obre-

ros", "Ia bandera de los humildes".

Neste ano de 1952, em que abandono

o mundo corpóreo, a meu amado ma-

rido, procurará me canonizar. Meu

corpo, que jaz lá embaixo, permanece-

rá embalsamado e, durante longo tem-

po, poderá ser adorado na sede da

Confederação Geral dos Trabalhado-

res. Será seqüestrado por Arambum,

futuro presidente golpista, cujo desejo

mais secreto vai ser o de incinerá-lo

para apagar-me da memória do meu

povo. Como se fosse possível esque-

cer as caridades a que me dediquei

como primeira dama. Como se fosse

plausível esquecer minha atuação no

radioteatro onde muitos se emociona-

ram com as personagens que inter-

pretei. E se este passado artístico é

motivo para que os que me caluniam

me tratarem por "meretriz", estou in-

defesa como Maria Madalena - que

atirem a primeira pedra I

E Deus, do alto de sua onisciência,

disse: "pode entrar e ocupar a posição

que mereceste."

E ela entrou. (TR)

pio, muito aço, mas de baixa quali-

dade. Quer produzir menos e melhor,

e fazer cada vez mais produtos para o

consumo de sua população, cujo nível

é baixo. Vai fechar fábricas ineficien-

tes. Vai ter mais eleições. Em 88, a

economia já cresceu 4,5% e esse cres-

cimento foi puxado pelos setores de

ponta. Mas Aganbeguian quer muito

mais. Abaixo, os principais trechos da

entrevista exclusiva que concedeu a

Istoé Senhor.

? - O conceito básico que o sr. utiliza

em seu livro Perestroika é que a mu-

dança que precisaria haver na econo-

mia soviética é a aceleração no desen-

volvimento econômico até 1990. Gos-

taria de saber se essas metas de ace-

leração estão sendo cumpridas.

R - Alguma aceleração fui conse-

guida, mas em dimensões menores do

que se desejava. A posição está bas-

tante controvertida. Estamos ten-

tando atingir as metas estabelecidas e

tivemos de destinar somas maiores do

que tinha sido planejado para a saúde

e educação. Ao mesmo tempo, a agri-

cultura não se está desenvolvendo

bem e também está se tornando cada

vez mais agudo o problema da produ-

ção. Por isso houve uma sessão plefc

MÜ^^^ÜI


-* Quinzena Internacional

nária do Comitê Central, em março

deste ano, que estabeleceu uma nova

política agrária. Espera-se que isso dê

o empurrão necessário. Conseguimos

atingir as metas quanto aos salários,

que tiveram uma elevação mais rá-

pida do que se esperava, mas isso pio-

rou o equilíbrio do mercado, o que

não se esperava. Assim, criou-se um

desequilíbrio e houve um aumento da

inflação que foi de 8% em 88. Esta-

mos tomando as medidas necessárias

para melhorar a posição financeira.

Quanto ao desenvolvimento indus-

trial, está indo como tinha sido plane-

jado. As indústrias básicas (metalur-

gia etc) estão se desenvolvendo bem;

a indústria de máquinas está em re-

construção. Existe o desenvolvi-

mento, talvez não tanto quanto se

desejaria mas existe um desenvolvi-

mento.

P - O sr. poderia dar números desse

desenvolvimento?

R - A indústria se desenvolve a 4% e

5% ao ano; a agricultura 2% a 3%;

quanto à construção de máquinas e

maquinário, a renovação do maqui-

nário industrial passou de 3%, em

1985, para 9,8% em 88.

P - A base dessa aceleração seria, se-

gundo o sr. escreveu em seu livro, os

aumentos de produtividade maiores

do que os dispêndios com o cresci-

mento do consumo de matérias-

primas (petróleo etc). Isso está se rea-

lizando? Esse aumento de produtivi-

dade é sensível?

R - Sim, houve um aumento de

produtividade de 50% em quatro

anos de perestroika. A produtividade

agora está crescendo a 5% anuais; na

construção e nos transportes entre

6% e 7% e mais ou menos a mesma

coisa na agricultura.

P - Mas esse aumento ocorre por

mais consumo de matérias-primas ou

melhoria de mão-de-obra?

R - Um quarto do aumento da pro-

dução é resultado do aumento do

consumo de insumos e os outros três

quartos são resultado do aumento da

produtividade.

P - Uma outra base da perestroika

era mudar a estrutura da produção

industrial, principalmente nos setores

de tecnologia de ponta e de bens de

consumo. Eu queria saber em que

ritmo está andando essa mudança.

R - Esse é um dos problemas princi-

pais, a mudança da estrutura econô-

mica. Há ai várias diretrizes impor-

tantes. A participação dos produtos

de consumo no total da renda è baixa

demais, apenas 26%. Nos outros

países è 35%, 40%, 45%. Como, de

acordo com a perestroika, uma das

metas principais é a melhoria do nível

de vida da população, estamos desen-

volvendo o mais rapidamente possível

o setor de bens de consumo. Em 89,

por exemplo, o crescimento de produ-

tos de consumo foi de 7%, enquanto o

do restante da economia foi de 3,5%,

como no caso da indústria pesada.

Outra coisa que estamos também in-

centivando é o desenvolvimento de

construção de máquinas eletrônicas,

informática etc. e, sobretudo, na reno-

vação de todo parque industrial. Para

isso, aumentamos consideravelmente

os investimentos nessa área. Nos últi-

mos cinco anos, até 1985, os investi-

mentos de capitais cresceram 24%. E

agora, neste último plano qüinqüenal,

esses investimentos estão crescendo

80%.

P - Quantos rublos se investiu em re-

novação industrial nesse período, de

81 em diante?

R - Mais ou menos 200 bilhões de ru-

blos, nos últimos cinco anos.

P - Isso dá quanto em porcentagem

do produto soviético?

R - Mais ou menos 25% do PIB.

P - Então o governo deve estar com

um grande déficit, resultado desse

produto todo?

R - Sim, ele tem um déficit de 100 bi-

lhões de rublos. Isso representa 13%

do Produto Nacional Bruto. Existem

algumas razões para esse déficit, que

foi feito para aumentar consideravel-

mente os recursos para a esfera so-

cial. Mas os outros dispêndios não di-

minuíram. A receita é menor porque

Viram que lá em

cima havia uma

diminuição e que

podiam fazer?

deixamos o dinheiro com as empresas

menores para que elas consigam o au-

tofinancíamento, mas as obras inicia-

das correm por conta do orçamento

centralizado.

P - A administração central, que está

em déficit, precisa financiar-se em al-

gum lugar.

R - Há várias maneiras de financiar o

déficit: 63 dos 100 bilhões são finan-

ciados por poupança da população,

depositada a longo prazo. A soma to-

tal da poupança na União Soviética é

de 400 bilhões de rublos; desses 400,

tiram-se os 60; e trinta e poucos bi-

lhões ficam por conta do crédito ban-

cário, o que não é normal. Por isso foi

estabelecido um programa muito im-

portante para os anos 89 e 90. O in-

vestimento de capitais vai diminuir

em 15 bilhões de rublos e vão dimi-

nuir também os investimentos em em-

preendimentos deficitários. Também

diminuem muito as despesas totais do

aparelho estatal, além de diminuírem

as despesas com armamentos em

19%.

P - Como é que a União Soviética

conseguiu cortar 400 mil pessoas do

aparelho central e o que foi feito de-

las?

R - Primeiro, está se realizando uma

mudança no sistema de administra-

ção. Estamos passando de um sis-

tema centralizado de administração

para um sistema de mercado e de ne-

cessidades do momento. Por isso, um

aparelho administrativo tão grande

como existia antes simplesmente não

é mais necessário. Também diminuí-

mos o número de autarquias e já esta-

mos fundindo as autarquias. Há tam-

bém outros empreendimentos que

simplificam a estrutura e fazem dimi-

nuir o número de empregados. Qua-

renta por cento de todos os 400 mil de-

mitidos na administração central fo-

ram aposentados. Eles tinham uma

antiga posição e o aparelho se reno-

vava mal, agora há uma renovação

em massa. Os outros 60% foram para

as empresas estatais. Poucos foram

trabalhar em cooperativas ou então

criaram empreendimentos indivi-

duais; em sua grande maioria os fun-

cionários foram trabalhar em em-

preendimentos do governo, como

construção etc. A maioria dos funcio-

nários era engenheiros.

P - Como isso aconteceu?

R - Foi uma coisa difícil e penosa,

que gerou muito descontentamento,

entre os 2,2 milhões de funcionários

que haviam, mas os órgãos centrais

deram o exemplo. O aparelho do Co-

mitê Central do partido foi cortado

pela metade e o número de departa-

mentos foi diminuído em três vezes; o

aparelho do Comitê Central de Plane-

jamento foi diminuído em 37% e os

ministérios viram que lá em cima

houve uma diminuição, então o que

eles podiam fazer? Por isso a pressão

foi muito forte e concentrada.

P - £ daí que vêm as resistências à

mudança?

R - Sim, é um negócio difícil. Por isso

a diminuição não deve ser feita meca-

nicamente, mas simplesmente deve

ser feita uma diminuição da organiza-

ção e também uma repartição dos que

sobram. Ainda assim a opinião pú-

blica diz que a diminuição foi pe-

quena e todos criticam o governo

nesse sentido. A opinião geral é de

que ela deve ser duas ou três vezes

maior. A burocracia ainda continua.

Nessa redução eles mesmos procu-

ram trabalho. E as empresas pagam

salários melhores do que o governo^


Quinzena

no governo o funcionário agora ape-

nas recebe os seus salários, não ganha

Muitos dos

privilégios, das

mordomias, foram

cortados

bonificações. As empresas pagam sa-

lários menores, mas trabalhar no go-

verno traz ainda uma série de vanta-

gens e bonificações.

P - Deixou de ser um privilégio tra-

balhar na administração central, mas

parece que ainda não é um negócio

completamente bom estar nas empre-

sas. Isso significa uma transição in-

completa ?

R - Realmente é um período de tran-

sição. Somente os funcionários im-

portantes do aparelho é que tinham

vantagens, quer dizer, em nível muito

alto, como ministros, ex-ministros etc.

e desses não tem tantos. Mas muitos

de seus privilégios, de suas mordo-

mias, foram retirados.

P - Que tipos de privilégios havia?

R - O número de veículos oficiais foi

diminuído em 40%; parte da alimen-

tação era de graça e agora os funcio-

nários têm de pagar tudo e os salários

não foram aumentados. As autar-

quias tinham os seus hospitais e casas

de repouso etc. e uma parte foi elimi-

nada e destinada às crianças, mas

uma parte ainda ficou. Por exemplo, a

assistência médica dos funcionários é

melhor do que a média. O povo conti-

nua agindo contra esses privilégios.

Um dos pontos do programa eleitoral

de Bóris Yetzin é justamente acabar

com as mordomias.

P - Daí a grande votação.

R - Ele fez um gesto público: saiu da

policliníca privilegiada onde se tra-

tava e foi tratar-se em uma policlínica

do povo. Mas isso naturalmente com

os jornalistas presentes etc. Isso teve

uma repercussão muito grande e tam-

bém a aprovação do povo.

P - Então estamos criando um novo

tipo de político na União Soviética, é

isso ?

R - Alguma coisa boa existe. Eles

conseguem estabelecer um contato

^ w w

&

com a população, com os eleitores,

porque dependem deles. Fazem apari-

ções públicas, promessas, mas natural-

mente serão controlados, embora

ainda não saibam disso.

P - A glasnostya conseguiu reverter a

tendência de queda de crescimento da

economia que o sr. vinha notando nos

dois últimos planos qüinqüenais? Já

está no horizonte, esse novo padrão

de crescimento que o sr. esperava em

seu livro?

R - Sim, nós mudamos naturalmente.

Existem as mudanças, mas não

são aquelas enraizadas no povo

nem radicais e por isso não esta-

mos satisfeitos com elas. Nós espera-

mos uma coisa melhor. Por isso

agora estamos tomando as medidas

adicionais para levarmos essas mu-

danças a um lugar melhor.

P - As metas originais do plano qüin-

qüenal 91/95 continuam?

0 nível de

vida tem de

melhorar muito

rapidamente

R - Sim, nós achamos que a estraté-

gia está certa, mas foram feitas algu-

mas correções. Queremos aumentar

mais a produção de artigos de con-

sumo e também aumentar o número

de construções de moradias, como

também o desenvolvimento da esfera

social. Estamos planejando menos a

produção de bens de capital e tam-

bém nos concentrando menos no de-

senvolvimento da metalurgia etc. Esta-

mos tirando justamente os investi-

mentos dessas áreas e transferindo es-

ses investimentos para a indústria e

bens de consumo etc.

P - Com relação a esses setores, por

exemplo, o sr. cita os tratores da União

Soviética, que havia um excedente de

produção. Esses produtos podem ser

exportados e são competitivos no mer-

cado externo?

R - Não, porque a qualidade é muito

baixa, com exceção dos tratores da

fábrica de Minski, na Rússia branca,

onde um quarto da produção é desti-

nada ao mercado mundial. O aço

quase não se vende.

Internacional -

P - Quase não se vende? A União So-

viética consome 160 milhões de tone-

ladas que produz anualmente?

R - A qualidade desse aço não é boa.

Por isso utilizamos tudo e ainda com-

pramos chapas de aço, canos e tubos

de qualidade melhor do que aquela que

produzimos. Agora estamos recons-

truindo a metalurgia, querendo me-

lhorara qualidade e diminuir o volume.

P - O que a União Soviética precisa

do Brasil, hoje, e o que existe lá que

pode ser útil em termos de comércio

exterior?

R - Acho que há muitas possibilida-

des. Há três niveis de relações comer-

ciais possíveis no campo científico,

educacional e de joint-ventures.

Podem ser em diferentes setores: na

produção de artigos de consumo,

como sapatos, por exemplo, têxteis e

bens de consumo duráveis, como ge-

ladeiras, produtos eletrônicos etc. No

campo de computadores pessoais, na

área de informática, pode existir uma

grande cooperação, como também cer-

tas indústrias muito bem desenvolvi-

das, no Brasil, como a de celulose

etc, e exploração de madeira. Na área

cientifica, por exemplo, pode haver

cooperação no campo da metalurgia,

tecnologia atômica, geração de eletri-

cidade, pesquisas espaciais.

P - Mas a União Soviética não gosta

de comprar produtos, não compra o

computador. Mas compra a fábrica

de computador, é isso?

R - Não. As pessoas estão com-

prando computadores. Oficialmente o

governo não compra, mas individual-

mente, sobretudo as empresas estatais,

as pessoas físicas etc. compram cen-

tenas de milhares de computadores.

P - Quer dizer que hoje a União So-

viética é um mercado a ser procurado

pelas empresas brasileiras?

R - Sim, é um bom mercado para

qualquer pais, tem 287 milhões de ha-

bitantes e uma demanda enorme não

satisfeita, em quase todas as direções.

Comparada a outros países, por ra-

zões históricas, a União Soviética fi-

cou muito para trás no sentido de de-

senvolvimento. O nível de vida é mais

baixo do que o papel do governo e a

força do pais. Por isso o nível de vida

tem de ser melhorado rapidamente,

em ritmo mais acelerado do que nos

outros países. Por isso a demanda da

população vai sempre crescer. •

ERRAMOS Na capa da QUINZENA 69

os textos foram extraídos do jornal:

Na capa da QUINZENA 70 Porantim de maio/86 - ("índio à vista, até hoje" e

a ilustração é de Vladimir Maiacóvski "Eu não vendi. Eu não dei. Essas terras são nossas.")

e a poesia é de Chico Buarque e Porantim de abril/86 - (O que pensam os índios sobre o

Milton Nascimento 19 de abril)

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