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Introdução aos Estudos literários II:<br />
Literatura, Correntes teórico-críticas
Universidade Estadual<br />
de Santa Cruz<br />
Reitor<br />
Prof. Antonio Joaquim da Silva Bastos<br />
Vice-reitora<br />
Profª. Adélia Maria Carvalho de Melo Pinheiro<br />
Pró-reitora de Graduação<br />
Profª. Flávia Azevedo de Mattos Moura Costa<br />
Diretor do Departamento de Letras e Artes<br />
Prof. Samuel Leandro Oliveira de Mattos<br />
Ministério da<br />
Educação
Ficha Catalográfica<br />
I61 Introdução aos estudos literários II : Literatura, correntes<br />
teórico-críticas : Letras Vernáculas, módulo<br />
3, volume 2 / Elaboração de conteúdo: Sandra Ma-<br />
ria Pereira do Sacramento. – [Ilhéus, BA] : UAB-<br />
UESC, [2010].<br />
148 p. : il. ; anexos.<br />
Inclui bibliografias.<br />
ISBN: 978-85-7455-194-4<br />
1. Literatura – História e crítica. 2. Literatura – Esté-<br />
tica. 3. Estruturalismo. I. Sacramento, Sandra Maria<br />
Pereira do. II. Título: Letras Vernáculas : módulo 3,<br />
volume 2.<br />
CDD 809
Coordenação UAB – UESC<br />
Profª. Drª. Maridalva de Souza Penteado<br />
Coordenação do Curso de Licenciatura em<br />
Letras Vernáculas (<strong>EAD</strong>)<br />
Prof. Dr. Rodrigo Aragão<br />
Elaboração de Conteúdo<br />
Profª. Drª. Sandra Maria Pereira do Sacramento<br />
Instrucional Design<br />
Profª. Msc. Marileide dos Santos de Olivera<br />
Profª. Drª. Gessilene Silveira Kanthack<br />
Revisão<br />
Profª. Msc. Sylvia Maria Campos Teixeira<br />
Coordenação de Design<br />
Profª. Msc. Julianna Nascimento Torezani<br />
Diagramação<br />
Jamile A. de Mattos Chagouri Ocké<br />
João Luiz Cardeal Craveiro<br />
Capa<br />
Sheylla Tomás Silva<br />
LETRAS VERNÁCULAS<br />
<strong>EAD</strong> - UESC
AULA I<br />
AULA II<br />
Sumário<br />
A concepção clássica do artístico .................................................................................. 13<br />
1. INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 15<br />
2. PLATÃO ................................................................................................................... 16<br />
3. LONGINO ................................................................................................................ 17<br />
4. ARISTÓTELES .......................................................................................................... 18<br />
5. HORÁCIO ................................................................................................................ 19<br />
ATIVIDADE .............................................................................................................. 21<br />
RESUMINDO ............................................................................................................ 21<br />
REFERÊNCIAS .......................................................................................................... 22<br />
LEITURA RECOMENDADA ........................................................................................... 22<br />
ANEXO .................................................................................................................... 23<br />
A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX ...........27<br />
1. INTRODUÇÃO ..........................................................................................................29<br />
2. A LIBERDADE ROMÂNTICA .........................................................................................30<br />
3. A VISÃO HISTORICISTA DAS TEORIAS CRÍTICAS DO SÉCULO XIX ...................................42<br />
ATIVIDADE ...............................................................................................................45<br />
RESUMINDO .............................................................................................................45<br />
REFERÊNCIAS ...........................................................................................................46<br />
LEITURA RECOMENDADA ............................................................................................47<br />
ANEXO .....................................................................................................................48<br />
AULA III<br />
A estilística da langue e a da parole ..............................................................................53<br />
1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................55<br />
2 ESTILÍSTICA ..............................................................................................................56<br />
ATIVIDADE ................................................................................................................61<br />
RESUMINDO ..............................................................................................................62<br />
REFERÊNCIAS ............................................................................................................62<br />
LEITURA RECOMENDADA .............................................................................................62<br />
ANEXO 1 ...................................................................................................................63<br />
ANEXO 2 ...................................................................................................................66<br />
AULA IV<br />
O formalismo russo: a autonomia do literário .............................................................. 69<br />
1. INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 71<br />
2. FORMALISMO RUSSO ................................................................................................ 72<br />
ATIVIDADE .............................................................................................................. 77<br />
RESUMINDO ............................................................................................................ 78<br />
REFERÊNCIAS .......................................................................................................... 78<br />
LEITURA RECOMENDADA ........................................................................................... 79<br />
ANEXO I .................................................................................................................. 79<br />
ANEXO II ................................................................................................................ 80
AULA V<br />
O new criticism: a visão imanentista da obra literária ...................................................85<br />
1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................87<br />
2 NEW CRITICISM .........................................................................................................88<br />
ATIVIDADE ................................................................................................................91<br />
RESUMINDO ..............................................................................................................92<br />
REFERÊNCIAS ...........................................................................................................92<br />
ANEXO I....................................................................................................................93<br />
AULA VI<br />
O estruturalismo ..........................................................................................................95<br />
1. INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 97<br />
2. ESTRUTURALISMO .................................................................................................... 98<br />
ATIVIDADE .............................................................................................................105<br />
RESUMINDO ...........................................................................................................105<br />
REFERÊNCIAS .........................................................................................................106<br />
LEITURA RECOMENDADA ..........................................................................................106<br />
ANEXO I .................................................................................................................107<br />
ANEXO II ...............................................................................................................111<br />
AULA VII<br />
A estética da recepção................................................................................................ 115<br />
1. INTRODUÇÃO ......................................................................................................... 117<br />
2. ESTÉTICA DA RECEPÇÃO .......................................................................................... 118<br />
ATIVIDADE ............................................................................................................. 125<br />
RESUMINDO ........................................................................................................... 126<br />
REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 126<br />
LEITURA RECOMENDADA .......................................................................................... 127<br />
ANEXO ................................................................................................................... 128<br />
AULA VIII<br />
A estética da recepção................................................................................................ 133<br />
1. INTRODUÇÃO ......................................................................................................... 135<br />
2. PÓS-ESTRUTURALISMO ............................................................................................ 136<br />
ATIVIDADE ............................................................................................................. 144<br />
RESUMINDO ........................................................................................................... 144<br />
REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 144<br />
LEITURA RECOMENDADA .......................................................................................... 145<br />
ANEXO ................................................................................................................... 146
DISCIPLINA<br />
INTRODUÇÃO AOS<br />
ESTUDOS LITERÁRIOS II:<br />
LITERATURA,<br />
CORRENTES TEÓRICO-<br />
CRÍTICAS<br />
Profª. Drª. Sandra Maria Pereira do Sacramento
A CONCEPÇÃO CLÁSSICA DO ARTÍSTICO<br />
Objetivos Meta<br />
Mostrar os conceitos básicos que digam<br />
respeito à Literatura, a partir da tradição<br />
clássica, com Platão, Aristóteles, Longino e<br />
Horácio.<br />
Ao final desta Aula I, você deverá identificar<br />
as várias concepções acerca do artístico à luz<br />
de Platão, Aristóteles, Longino e Horácio.<br />
1 <strong>aula</strong>
UESC<br />
AULA 1<br />
A CONCEPÇÃO CLÁSSICA DO ARTÍSTICO<br />
1 INTRODUÇÃO<br />
Você, ao longo da Aula I, terá acesso às várias concepções<br />
clássicas acerca do artístico. Platão, Aristóteles, Longino e Horácio<br />
- para o último a literatura é capaz de despertar, no leitor, o êxtase<br />
do sublime - se aproximam da visão conteudística da literatura.<br />
Aristóteles, entretanto, prega a autonomia do artístico; ainda que<br />
tenha sido discípulo do primeiro e procure superá-lo, em grande<br />
medida, ainda que encerre seu pensamento, como os outros, aliás,<br />
vinculado à procura do êidos, isto é, da harmonia perfeita do absoluto,<br />
do mundo das essências.<br />
Antes do início desta Aula I, você deverá ter lido:<br />
• o capítulo 2 de Gêneros Literários, de Angélica Soares;<br />
• o capítulo 3, mais especificamente, da p. 23 à p. 28, de Teoria da Literatura, de Roberto<br />
Acízelo de Souza;<br />
• o capítulo 3, de Teoria da Literatura “ Revisitada”, de Magaly Trindade Gonçalves e Zina C.<br />
Bellodi;<br />
• toda a obra Arte Retórica e Arte Poética de Aristóteles;<br />
• toda a obra A poética clássica de Aristóteles, Horácio, Longino*.<br />
* As referências das obras encontram-se no final da Aula I.<br />
Letras Vernáculas<br />
15<br />
ATENÇÃO<br />
1<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />
SAIBA MAIS<br />
2 PLATÃO<br />
ΙΩΝ — Íon — pertence ao primeiro grupo<br />
dos diálogos de Platão e relata a conversa<br />
entre Sócrates e Íon de Éfeso, um rapsodo<br />
muito conhecido em Atenas. Não sabemos a<br />
data exata da composição; mas, a partir de<br />
diversas informações contidas no texto, é<br />
possível situá-la entre 394 e 391 a.C.<br />
Fonte: http://greciantiga.org/arquivo.asp?num=0337<br />
A República: no século IV a.C., em data<br />
imprecisa, surgiu em Atenas a primeira<br />
concepção de sociedade perfeita que se<br />
conhece. Trata-se do diálogo “A República”<br />
(Politéia), escrito por Platão, o mais brilhante<br />
e conhecido discípulo de Sócrates. As ideias<br />
expostas por ele - o sonho de uma vida<br />
harmônica, fraterna, que dominasse para<br />
sempre o caos da realidade - servirão, ao<br />
longo dos tempos, como a matriz inspiradora<br />
de todas as utopias aparecidas e da maioria<br />
dos movimentos de reforma social, que,<br />
desde então, a humanidade conheceu.<br />
Fonte: http://educaterra.terra.com.br/<br />
voltaire/politica/platao.htm<br />
A concepção clássica do artístico<br />
Platão, filósofo do período clássico da Grécia Antiga, não deixou um<br />
tratado específico sobre literatura. De algumas de suas obras, é que<br />
conseguimos retirar ensinamentos pertinentes ao artístico, como nos<br />
Diálogos, em Fedro, em Íon e em A República.<br />
Nos Diálogos, já aparece a preocupação de formulação de<br />
alguns postulados sobre a arte, em geral, e sobre a poesia, em<br />
particular. Em Fedro, sugere que o poeta deve ser considerado um ser<br />
inspirado, possesso, fora da racionalidade filosófica.<br />
Em Íon, por outro lado, vê o poeta, o rapsodo, como<br />
um ser inspirado por um dom divino; tendo Sócrates<br />
como personagem. Esse, em diálogo com Íon, defende<br />
a opinião de que o rapsodo, ao declamar versos,<br />
contagia os ouvintes com alucinações, pois a poesia,<br />
sendo simulacro, constitui imitação da aparência e<br />
não da realidade. Sócrates, para justificar o conceito<br />
artístico de Platão, pergunta a Íon: Quem poderá<br />
julgar melhor se Homero tratou corretamente da arte<br />
da guerra, um rapsodo ou um general? Defendendo,<br />
em seguida, em favor do general e não do rapsodo,<br />
uma vez que o artista não conhece a natureza e<br />
mesmo a utilização das coisas.<br />
A palavra simulacro guarda o significado de<br />
simular, enganar. Para a literatura, é utilizada como<br />
um princípio de imitação que o poeta faz da chamada<br />
realidade:<br />
Por outro lado, a imitação artística usa o lado ‘inferior’ das<br />
faculdades humanas, e quando ela se dirige ao público é<br />
essa parte inferior que ela procura estimular. Basicamente<br />
a poesia é produto de um conhecimento falho, emprega<br />
as faculdades inferiores da alma humana e estimula<br />
exatamente o que há de ‘desprezível’ no espírito do público<br />
(GONÇALVES; BELLODI, 2005, p.3).<br />
A questão do simulacro foi estudada por Platão, quando fala em A<br />
República sobre o problema do conhecimento na literatura. Para ele,<br />
a imitação da chamada realidade, feita pela poesia, só alcançaria o<br />
terceiro estágio da verdade; enquanto que o produto elaborado pelo<br />
artesão ocuparia o segundo estágio, porque este se encontra mais<br />
próximo da natureza reproduzida; cabendo, entretanto, somente ao<br />
filósofo, o alcance do mundo das ideias, refutando, assim, o simulacro.<br />
Em A República, Platão faz concessão ao poeta desde que esse<br />
16 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
esteja a serviço da educação do povo grego, admitindo somente a<br />
poesia que se adequasse à lei e à razão humana, através de hinos aos<br />
deuses e em louvor aos homens famosos. Em diálogo com Glauco,<br />
afirma:<br />
Quanto a seus protetores, que, sem fazer versos, amam<br />
a poesia, permitiremos que defendam em prosa e nos<br />
mostrem que não só é agradável, mas também útil, à<br />
república e aos particulares para o governo da vida. De<br />
bom grado os ouviremos, porque com isso só temos a<br />
lucrar, se nos puderem provar que aí se junta o útil ao<br />
agradável (PLATÃO, 1994, p.403).<br />
E o princípio utilitarista da literatura ganhou acolhida entre<br />
os romanos e influenciou a cultura ocidental posterior. Ao colocar,<br />
portanto, o literário a serviço do ideológico, com o propósito de<br />
ter existência reconhecida, é necessário ser útil à sociedade grega<br />
na formação de seus concidadãos. A razão, assim, devia conter a<br />
emoção, contrária a qualquer manifestação do desejo, fazendo,<br />
entretanto, concessão ao belo, ao bom e ao justo, quando o artístico<br />
deve estar em comum acordo com a ética.<br />
3 LONGINO<br />
Não se sabe se o pensador grego Longino, de fato, viveu. Fala-se de<br />
um “pseudo-Longino” , entretanto, a obra Do sublime, a ele atribuída,<br />
abriu uma nova concepção do literário, ainda que esteja vinculada ao<br />
pensamento platônico, no que diz respeito à função utilitarista da<br />
literatura.<br />
Do sublime encerra a virtude da literatura como capaz de despertar,<br />
no leitor, o êxtase do sublime, através de técnica artística adquirida<br />
pelo trabalho e afinco do escritor. Longino destaca a importância na<br />
ênfase dada, no texto, ao uso das palavras capazes de empreender<br />
a reflexão no leitor:<br />
Quando, pois, uma passagem, escutada muitas vezes por<br />
um homem e sensato e versado em Literatura, não dispõe<br />
a sua alma a sentimentos elevados, nem deixa no seu<br />
pensamento matéria para reflexões além do que dizem<br />
as palavras, e, bem examinada sem interrupção, perde<br />
em apreço, já não haverá um verdadeiro sublime, pois<br />
dura apenas o tempo em que é ouvida. Verdadeiramente<br />
grande é o texto com muita matéria para reflexão, de<br />
árdua ou, antes, impossível resistência e forte lembrança,<br />
difícil de apagar (1981, p.76-7).<br />
Letras Vernáculas<br />
SAIBA MAIS<br />
Glauco: em A República,<br />
aparece um grupo<br />
de amigos: Sócrates,<br />
dois irmãos de Platão -<br />
Glauco e Adimanto - e<br />
vários outros personagens,<br />
que serão provocados<br />
pelo mestre.<br />
O diálogo vai tratar de<br />
assuntos relacionados<br />
à organização da sociedade<br />
e à natureza<br />
da política. Na República<br />
ideal, concebida<br />
por Platão, o governo<br />
deve estar nas mãos<br />
dos filósofos, que são<br />
aqueles mais próximos<br />
da verdade, da ideia<br />
do bem e da justiça.<br />
A investigação platônica<br />
utiliza o método dialético<br />
(palavra que tem,<br />
na sua origem, a noção<br />
de “diálogo”). Esse procedimento<br />
consiste em<br />
apreender a realidade,<br />
através de posições<br />
contraditórias, até que<br />
uma delas é finalmente<br />
entendida como verdadeira<br />
e a outra como falsa.<br />
A dialética platônica<br />
é um processo indutivo,<br />
que vai da parte para o<br />
todo.<br />
Fonte: http://filosofandoehisto-<br />
riando.blogspot.com/2009/08/<br />
os-dialogos-de-platao.html<br />
17<br />
1<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />
A concepção clássica do artístico<br />
Assim, a leitura de uma obra bem elaborada, capaz de despertar<br />
o êxtase sublime, faz-se ecoar por muito tempo na mente do leitor<br />
atento, ao mesmo tempo em que se dinamiza a potencialidade do<br />
artístico.<br />
4 ARISTÓTELES<br />
Aristóteles, discípulo de Platão, distancia-se do mestre em suas<br />
colocações acerca do artístico. Para quem a literatura é verdadeira<br />
e séria, por princípio, uma vez que o poeta ocupa-se do que poderia<br />
ter acontecido, segundo a verossimilhança ou a necessidade, e não<br />
com o que aconteceu como o faz o historiador. No capítulo IX da sua<br />
Arte Poética, que nos chegou de forma incompleta, afirma “a poesia<br />
é mais filosófica e de caráter mais elevado que a história, porque a<br />
poesia permanece no universal e a história estuda apenas o particular<br />
“(ARISTÓTELES, 1964, p. 278).<br />
Aristóteles, então, destaca a autonomia do artístico, na<br />
medida em que o vê como uma unidade, como um todo orgânico,<br />
em transcendência com a realidade evocada. Por isso, o conceito de<br />
cópia, de mímesis, deve ser entendido como uma espécie de recriação<br />
não assujeitada aos princípios da racionalidade, uma vez que essa<br />
é capaz de criar um mundo coerente em sua universalidade, com<br />
harmonia e perfeição.<br />
A catarse é outro conceito utilizado por Aristóteles, para definir<br />
a purificação dos sentimentos: temor ou piedade, experimentados<br />
pelo expectador, diante da tragédia. O autor propõe que:<br />
[O] terror e a compaixão podem nascer do espetáculo<br />
cênico, mas podem igualmente derivar do arranjo dos<br />
fatos, o que é preferível e mostra maior habilidade no<br />
poeta. [...] Como o poeta deve proporcionar-nos o prazer<br />
de sentir compaixão ou temor por meio de uma imitação,<br />
é evidente que essas emoções devem ser suscitadas nos<br />
ânimos pelos fatos (ARISTÓTELES, 1964, p. 588).<br />
Neste sentido, a obra de arte desperta o prazer e faz<br />
melhorar o espírito. Aristóteles, ao contrário de Platão, que usa o<br />
método dedutivo e normativo para falar da arte, não encerra, em<br />
seus escritos, nenhum preceito a ser seguido pelo artista, é antes<br />
ontológico e indutivo. E o princípio de imitação aristotélico liga-se às<br />
formas literárias na poesia épica e na poesia em geral, na tragédia<br />
e na comédia. Na poesia, ela ocorre de modo indireto, pela mediação<br />
18 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
narrativa; na tragédia e na comédia, de modo direto, através da ação<br />
dos atores.<br />
Logo, Aristóteles inaugura uma concepção do literário, em<br />
que a forma é valorizada em detrimento do conteúdo. Além da Arte<br />
Poética, o filósofo nos deixou a Arte Retórica, em que são colocadas<br />
questões atinentes à persuasão no texto literário, fora do contexto<br />
judiciário. A Retórica, para ele, é comparável à Dialética, no sentido<br />
socrático, isto é, a arte do diálogo. Em resposta a Platão, afirma que<br />
a Retórica, em si, não é má, deve ser, antes, bem usada na ágora, a<br />
serviço da democracia.<br />
A Retórica é útil porque o verdadeiro e o justo o são, por<br />
natureza, melhores que seus contrários. Donde se segue<br />
que, se as decisões não forem proferidas como convém, o<br />
verdadeiro e o justo serão necessariamente sacrificados:<br />
resultado este digno de censura (ARISTÓTELES, 1964, p.<br />
20).<br />
Assemelha-se, portanto, à Dialética e sua tarefa não se resume<br />
a persuadir, mas a discernir os meios a serem utilizados a propósito<br />
de uma questão. A Retórica teve seguidores no mundo clássico e,<br />
na Roma de Cícero, (séc. I a.C) ganhou destaque. Quintiliano, por<br />
exemplo, escreveu Instituições oratórias já no século 1 da Era Cristã,<br />
em que disserta sobre eloquência, através do uso de tropos como<br />
metáfora, sinédoque, metonímia, alegoria, ironia, hipérbole e outros.<br />
A tendência para a imitação é instintiva do homem, desde a infância. Neste ponto distingue-se de todos os outros<br />
seres, por sua aptidão muito desenvolvida para a imitação (ARISTÓTELES, 1964, p. 266).<br />
Quanto à epopéia, por seu estilo corre parelha com a tragédia na imitação de assuntos sérios, mas sem empregar<br />
um só metro simples e a forma narrativa. Nisto a epopéia difere da tragédia (ARISTÓTELES, 1964, p. 270).<br />
A comédia é imitação de maus costumes, não contudo de toda sorte de vícios, mas só daquela parte do ignominioso<br />
que é ridículo. O ridículo reside num defeito e numa tara que não apresentam caráter doloroso ou corruptor<br />
(ARISTÓTELES, 1964, p. 269).<br />
5 HORÁCIO<br />
Horácio é considerado o grande codificador das ideias platônicas<br />
de cunho extraliterário, e dinamizador das ideias do filósofo grego<br />
em toda a Europa, com o princípio de Docere cum delectare, isto é,<br />
Ensinar deleitando, em que a literatura tem algo a ensinar para o seu<br />
leitor. Horácio altera em grande medida os preceitos aristotélicos. E a<br />
teoria desenvolvida durante o período clássico renascentista deve-se<br />
ao que foi codificado por Horácio, poeta da Roma antiga.<br />
Letras Vernáculas<br />
Ontológico: que diz<br />
respeito à ontologia. É a<br />
parte da filosofia, chamada<br />
de “filosofia primeira” por<br />
Aristóteles, denominada,<br />
posteriormente, de<br />
metafísica (pura ou geral).<br />
Etimologicamente, significa<br />
a “ciência do ente”, isto é,<br />
a doutrina do Ser supremo<br />
ou divino.<br />
Fonte: Dicionário de Filosofia,<br />
1969, p.305.<br />
Ágora: praça das antigas<br />
cidades gregas, na qual se<br />
fazia o mercado e onde se<br />
reuniam, muitas vezes, as<br />
assembleias do povo.<br />
Fonte: Novo Dicionário Aurélio<br />
da Língua Portuguesa - Aurélio<br />
Buarque de Holanda Ferreira<br />
19<br />
SAIBA MAIS<br />
1<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />
SAIBA MAIS<br />
Hexâmetro Dactílico: é<br />
uma forma de métrica poética<br />
ou esquema rítmico. É tradi-<br />
cionalmente associado à poe-<br />
sia épica, tanto grega quanto<br />
latina, como, por exemplo, a<br />
Ilíada e a Odisséia de Homero<br />
e a Eneida de Virgílio. Um dác-<br />
tilo é uma sequência de três<br />
sílabas poéticas, a primeira<br />
longa e as duas seguintes<br />
breves. Portanto, o verso<br />
hexâmetro dactílico ideal<br />
consiste em seis (do grego<br />
hexa) pés, cada um sendo<br />
um dactílico. Tipicamente,<br />
porém, o último pé do verso<br />
não é um dactílico, mas sim<br />
um espondeu ou um troqueu,<br />
ou seja, a penúltima sílaba é<br />
sempre longa e a última sí-<br />
laba pode ser breve ou longa.<br />
Fonte: http://greciantiga.org/<br />
arquivo.asp?num=0161<br />
A concepção clássica do artístico<br />
A ars poetica horaciana está encerrada na Epistola ad Pisones.,<br />
carta escrita em hexâmetros dactílicos ao Cônsul romano Lúcio Pisão<br />
e a seus filhos sobre teoria literária, pois esses manifestavam grande<br />
interesse pelas artes e, em especial, pela literatura, tendo sido,<br />
inclusive, preceptor dos infantes. Segundo Pires:<br />
Com sentido altamente normativo, esta epístola é um<br />
verdadeiro código de preceitos a serem seguidos pelos<br />
que pretendiam produzir uma obra-de-arte literária. Sua<br />
importância começou a ser reconhecida por Quintiliano –<br />
algumas gerações mais tarde -, (...) (PIRES, 1989, p.19).<br />
O período clássico, a Idade Média e o Neoclassicismo, com<br />
Boileau serão influenciados, sobremodo, pelos preceitos pragmáticos<br />
horacianos de conceber o artístico. A atenção dada à ordem e à<br />
coerência no uso das palavras, bem como à unidade de tempo, lugar<br />
e ação, fizeram-no ponto de referência para os neoclássicos.<br />
E Rogel Samuel confirma a afirmação: “E a idéia horaciana<br />
de que cada gênero deve ter um único assunto, um caráter, uma<br />
linguagem e um metro apropriado se tornou doutrina central na<br />
crítica dos séculos XVII e XVIII”. (SAMUEL, 2002, p. 49).<br />
A literatura aí é concebida como resultado de um domínio<br />
técnico, ao qual se submete a inspiração, na junção, portanto,<br />
entre talento e arte. Sugere àqueles, que se iniciem neste ofício, a<br />
humildade para receber críticas e o uso do tempo para que o texto<br />
possa ser guardado e avaliado posteriormente, de forma mais detida.<br />
Em sua ars poetica, Horácio afirma:<br />
No âmago das palavras, deverás também ser útil e<br />
cauteloso e magnificamente dirás se, por engenhosa<br />
combinação, transformares em novidades as palavras<br />
mais correntes. Se por ventura for necessário dar a<br />
conhecer coisas ignoradas, com vocábulos recémcriados<br />
e formar palavras nunca ouvidas [...] podes fazêlo<br />
e licença mesmo te é dada. Desde que a tomes com<br />
discrição. Assim, palavras há pouco forjadas, em breve<br />
terão ganho crédito se, com parcimônia, forem tiradas da<br />
fonte grega.<br />
http://www.latim.ufsc.br/986ED7F3-3F3A-4BC2-BBE3<br />
Veja que, para o romano, o literário é consequência de um fazer<br />
trabalhoso, que altera o sentido das palavras usadas na linguagem<br />
corrente. O conceito de conotação, séculos mais tarde, cunhado pelo<br />
estruturalista Roman Jakobson, já se encontra de forma rudimentar<br />
em seus escritos.<br />
20 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
ATIVIDADE<br />
1. Quais os pressupostos teóricos de Platão apresentados nesta <strong>aula</strong>?<br />
2. Em que aspecto Aristóteles se distancia da concepção artística platônica?<br />
3. O que Platão fala acerca da poesia n’Os Diálogos, em Fedro, em Íon e n’A República?<br />
4. O que significa a expressão Docere cum delectare?<br />
5. O que são mímesis e verossimilhança para Aristóteles?<br />
6. Em que medida Longino se aproxima das ideias platônicas acerca do artístico?<br />
7. Por que, para Aristóteles, a Retórica se assemelha à Dialética socrática?<br />
8. Horácio se aproxima das ideias platônicas acerca do artístico?<br />
9. Boileau, responsável pela disseminação, na Europa, do preceito clássico acerca do<br />
artístico, faz que colocações?<br />
RESUMINDO<br />
Você foi apresentado, nesta Aula I, às várias concepções clássicas<br />
acerca do artístico. Deve atentar para o fato de que Platão inaugura o enfoque<br />
do literário, pelo viés do conteúdo, tendo em Longino e em Horácio, da tradição<br />
romana, seus seguidores, enquanto Aristóteles se distancia de seu mestre, ao<br />
valorizar a autonomia do artístico.<br />
Letras Vernáculas<br />
21<br />
1<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />
R E F E R Ê N C I A S<br />
A concepção clássica do artístico<br />
ARISTÓTELES, HORÁCIO, LONGINO. A poética clássica. Tradução<br />
de Jaime Bruna. São Paulo: Cultrix/EDUSP, 1981.<br />
ARISTÓTELES. Arte Retórica e Arte Poética. Tradução de Antônio<br />
Pinto de Carvalho. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1964.<br />
ENCICLOPÉDIA Barsa. São Paulo: Melhoramentos, vol.15, 1966.<br />
GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina C. Teoria da<br />
Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.<br />
Le Petit Larousse Illustré, Larousse. Paris: 1998.<br />
PIRES, Orlando. Manual de Teoria e Técnica Literária. Rio de<br />
Janeiro: Presença, 1989.<br />
PLATÃO. A República. Tradução de Jair Lot Vieira. São Paulo: EDIPRO,<br />
1994.<br />
SAMUEL, Roger. Novo manual de teoria literária. Petrópolis:<br />
Vozes, 2002.<br />
SILVA, Vitor Manuel de A. Teoria da literatura. Coimbra:<br />
Almedina,1975.<br />
SOARES, Angélica. Gêneros Literários. São Paulo: Ática, 2000.<br />
SOUZA, Roberto Acízelo de. Teoria da Literatura. São Paulo: Ática,<br />
2004.<br />
LEITURA RECOMENDADA<br />
ARISTÓTELES. Arte Retórica e Arte Poética. Tradução de Antônio Pinto<br />
de Carvalho. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1964.<br />
ARISTÓTELES, HORÁCIO, LONGINO. A poética clássica. Tradução de<br />
Jaime Bruna. São Paulo: Cultrix/EDUSP, 1981.<br />
GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina C. Teoria da<br />
Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.<br />
SOARES, Angélica. Gêneros Literários. São Paulo: Ática, 2000.<br />
SOUZA, Roberto Acízelo de. Teoria da Literatura. São Paulo: Ática, 2004.<br />
22 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
PLATÃO: nasceu em Atenas, em 428 ou 427 a.C., de pais aristocráticos<br />
e abastados, de antiga e nobre casta. Ao seu temperamento artístico<br />
deu, na mocidade, livre curso, que o acompanhou durante a vida toda,<br />
manifestando-se na expressão estética de seus escritos. Suas obras até<br />
hoje são objeto de análise e apreciação, a mais conhecida, entretanto,<br />
é A República, em que defende, na forma de diálogo, um modelo<br />
aristocrático de poder, governado pelos intelectuais.<br />
Fonte: http://www.mundodosfilosofos.com.br/platao.htm<br />
Ilustração - Fonte: http://www.educ.fc.ul.pt/icm/icm99/icm21/images/images/Plato.gif<br />
ARISTÓTELES: (384-322 a.C) foi um filósofo grego nascido na cidade<br />
de Estagira, na Calcídica, Macedônia, distante 320 quilômetros de<br />
Atenas. Essa cidade foi por muito tempo colonizada pelos jônicos,<br />
e, em virtude disto, ali se falava um dialeto jônico. O nome do pai de<br />
Aristóteles era Nicômaco, um médico. Aristóteles foi criado junto com<br />
um grupo de médicos, amigos de seu pai. Nicômaco chegou a servir a<br />
corte macedônica, a serviço do rei Amintas, pai de Felipe, futuro rei.<br />
Na sua juventude, teria jogado fora seu patrimônio e, aos dezoito anos,<br />
foi para Atenas, a fim de aperfeiçoar sua espiritualidade, e lá ingressou<br />
na Academia, onde se tornou discípulo de Platão, o que marcaria<br />
profundamente sua biografia.<br />
Fonte: hLttp://www.consciencia.org/aristoteles.shtml<br />
Ilustração - Fonte: http://www.ilt.columbia.edu/Publications/Projects/digitexts/aristotle/bio_aristotle.html<br />
HORÁCIO: (65-8 a.C.) poeta latino; nasceu em Venúsia. Dono de estilo<br />
puro e rigoroso, onde a brevidade da metáfora, alia-se à surpreendente<br />
economia verbal. Sua obra exerceu influência na literatura ocidental.<br />
Fonte: Enciclopédia Barsa. vol.15, 1966, p.248.<br />
Ilustração - Fonte: http://www.carpegeel.be/hora.aspx<br />
Letras Vernáculas<br />
ANEXO<br />
23<br />
1<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />
A concepção clássica do artístico<br />
Quintiliano: nasceu em Calahorra, no ano de 35, e faleceu em Roma, no ano<br />
96. Foi professor de retórica, filólogo conceituado e advogado. Recebeu toda<br />
a sua educação em Roma, onde, mais tarde, abriu uma escola de Retórica.<br />
Foi o primeiro professor a ser pago pelo Estado.<br />
Fonte: Le Petit Larousse, 1998, p. 1617.<br />
Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Calahorra,_estatua_de_Quintiliano.JPG<br />
Boileau: Nicolas Boileau - (1636-1711), escritor francês, historiador de Luís<br />
XIV, autor de uma célebre Arte Poética (1674), que contribuiu para disseminar<br />
o ideal literário do classicismo em todo o Ocidente.<br />
Fonte: Le Petit Larousse, 1998, p. 1190.<br />
Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Nicolas_Boileau.jpg<br />
24 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
Suas anotações<br />
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2<br />
<strong>aula</strong><br />
A LIBERDADE ROMÂNTICA E A VISÃO HISTORICISTA<br />
Meta<br />
Objetivos<br />
DAS TEORIAS CRÍTICAS DO SÉCULO XIX<br />
Apresentar os conceitos básicos que digam respeito à<br />
Literatura, de acordo com Immanuel Kant e Victor Hugo, na<br />
busca do entendimento da poética e da liberdade românticas;<br />
bem como mostrar a influência da História nas teorias<br />
críticas do século XIX, com Sainte-Beuve, Hyppolyte Taine,<br />
Brunetière e Lanson.<br />
Ao final desta Aula II, espera-se que você esteja dominando<br />
teorias tributárias ao historicismo do século XIX e seus<br />
representantes mais significativos que respondem pelo<br />
Romantismo e pelo Realismo-naturalismo.
UESC<br />
AULA 2<br />
A LIBERDADE ROMÂNTICA E A VISÃO<br />
HISTORICISTA DAS TEORIAS CRÍTICAS<br />
DO SÉCULO XIX<br />
1 INTRODUÇÃO<br />
Nesta Aula II, vamos trabalhar com conceitos básicos que<br />
digam respeito à Literatura, bem como a influência da História nas<br />
teorias críticas do século XIX, com os conceitos de arte para Hegel,<br />
Immanuel Kant e Victor Hugo, na busca do entendimento da poética<br />
e da liberdade românticas; bem como a realista e a naturalista, com<br />
Sainte-Beuve, Hyppolyte Taine, Brunetière e Lanson.<br />
Antes do início desta Aula II, você deverá ter lido:<br />
• os capítulos 7 e 8, de Períodos Literários, de Lígia Cademartori;<br />
• os capítulos 8 e 11, de Introdução à filosofia da arte, de Benedito Nunes;<br />
• o capítulo 6, especificamente, da p. 74 à p. 98 de Teoria da Literatura “revisitada”, de Maria<br />
Magaly Trindade Gonçalves e Zina Bellodi;<br />
• O capítulo 3, especificamente, da p. 28 à p. 33, de Teoria da Literatura, de Roberto Acízelo<br />
de Souza;<br />
• os capítulos 1, 2 e 3 de O Caráter Social da Ficção do Brasil, de Fábio Lucas*.<br />
* As referências das obras encontram-se no final da Aula II.<br />
Letras Vernáculas<br />
29<br />
ATENÇÃO<br />
2<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II:<br />
literatura, correntes teórico-críticas<br />
A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX<br />
2 A LIBERDADE ROMÂNTICA<br />
O Romantismo foi um movimento artístico, político e<br />
filosófico surgido nas últimas décadas do século XVIII, na Europa,<br />
que perdurou por grande parte do século XIX. Caracterizou-se como<br />
uma visão de mundo contrária ao racionalismo, que marcou o período<br />
neoclássico, e buscou um nacionalismo que viria a consolidar os<br />
estados nacionais na Europa. E o princípio historiográfico da época<br />
significou uma grande mudança de perceber o mundo, ao dar destaque<br />
à vida coletiva e aos seus modos de atribuir sentidos comuns, pois<br />
o homem percebeu que vive em comunidade, que lhe dá sentido de<br />
existência. É o que diz Victor Manuel de A. Silva, em sua Teoria da<br />
Literatura (1975):<br />
Logo no dealbar do século XIX, Mme. de Staël demonstrou<br />
na sua obra intitulada De la Littérature, que a literatura<br />
é intimamente solidária com todos os aspectos da vida<br />
coletiva do homem, verificando-se que cada época possui<br />
uma literatura peculiar, de acordo com as leis, a religião e<br />
os costumes próprios dessa época (SILVA, 1975, p. 444).<br />
A partir do Romantismo, o homem percebe-se um ser histórico,<br />
tendo a História e a Crítica literárias condicionadas a uma perspectiva<br />
historicista de ver o fenômeno literário. A História Literária, por<br />
exemplo, estará ligada à filologia em busca da reconstituição e<br />
compreensão dos textos literários do passado e a crítica, por sua vez,<br />
valorizará tudo o que diga respeito ao passado e à sua herança como<br />
justificativa do presente.<br />
Para Paul Valéry, não há possibilidade de definir o Romantismo,<br />
sob pena de prejudicar o rigor lógico, pois o mesmo é multifacetado<br />
em seus temas e motivos. Segundo Alfredo Bosi, em História Concisa<br />
da Literatura Brasileira (1976), trata-se de um momento de definição<br />
alinhada aos valores burgueses no Ocidente, a partir da Revolução<br />
Francesa de 1789, ainda que essa tenha vários desdobramentos<br />
posteriores no século seguinte. Para o estudioso, ocorre uma série<br />
de mudanças, até então nunca vista na Europa, diante de uma nova<br />
classe em ascensão. Neste momento, então:<br />
Definem-se as classes: a nobreza, há pouco apeada<br />
do poder; a grande e a pequena burguesia, o velho<br />
campesinato, o operariado crescente. Precisam-se as<br />
visões da existência: nostálgica, nos decaídos Ancien<br />
Regime; primeiro eufórica, depois prudente, nos novos<br />
proprietários; já inquieta e logo libertária nos que vêem<br />
bloqueada a própria ascensão dentro dos novos quadros;<br />
30 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
imersa ainda na mudez da inconsciência, naquele para os<br />
quais não soara em 89 a hora da Liberdade-Igualdade-<br />
Fraternidade (BOSI, 1977, p.99).<br />
A literatura do período romântico, se,<br />
por um lado, endossará as ideias correntes<br />
burguesas e estará também disponível<br />
para compor as comunidades imaginadas<br />
(ANDERSON, 2008), não tarda a expor as<br />
fraturas advindas da impossibilidade de<br />
implementação da utopia social. Weber<br />
(2004), em sua análise clássica sobre<br />
a modernidade, vai dizer que essa já<br />
nasceu sob a égide da crise, uma vez que<br />
oportuniza a alteração da visão tradicional<br />
do mundo, amparada sobremodo na religião,<br />
substituída pela racionalização, colocando o<br />
homem em três esferas, enquanto pai de<br />
família, trabalhador e cidadão. Göethe, ao<br />
se referir à literatura do período, advoga para o clássico a saúde e,<br />
para o romântico, a doença. Nesse processo, a ânsia de totalização<br />
vai-se colocar para o artista que detém a noção de finitude, em uma<br />
sociedade capitalista cada vez mais burocratizada.<br />
A obra de arte, fruto de um olhar crítico ao que a circunda,<br />
encarna a busca de totalidade, denunciadora de um mundo reificado,<br />
uma vez que o eu não se encontra integrado a ele próprio e ao que<br />
o cerca. A poética que marca o período romântico faz-se estruturada<br />
sobre o símbolo, enquanto a pós-romântica é condicionada pela pre-<br />
sença da alegoria. Tanto o símbolo, quanto a alegoria são tropos, isto<br />
é, figuras de linguagem, que refletem um ideal de unidade, reivin-<br />
dicado por uma época.<br />
O símbolo estrutura-se, ainda, em uma dimensão analógica de<br />
continuidade, enquanto a alegoria já indicia toda a impossibilidade<br />
reclamada pela busca de inteireza. Essa mostra as fraturas de uma<br />
realidade que não foi capaz de gerar o bem-estar apregoado pelo<br />
telos revolucionário, sintetizado na tríade Igualdade – Liberdade –<br />
Fraternidade. Vale destacar que o processo revolucionário francês<br />
estendeu-se por dez anos, sendo visto, por historiadores, em fases:<br />
moderada (1789-1792), radial (1792-1794) e conservadora (1794-<br />
1799). Essa última abriu espaço para o golpe do 18 Brumário, em<br />
alusão ao segundo mês do Calendário Revolucionário Francês, que<br />
esteve em vigor na França de 22 de setembro de 1792 a 1831, com<br />
Letras Vernáculas<br />
SAIBA MAIS<br />
Mundo Reificado: para Marx e Engels, em A<br />
Ideologia Alemã (1986), ao falarem na divisão do<br />
trabalho, afirmam que, na produção mecanizada,<br />
o operário serve à máquina, tornando-se<br />
simples apêndice desta e o princípio subjetivo<br />
da divisão do trabalho desaparece, em face da<br />
objetivação do complexo de produção. Neste<br />
momento, ocorre a alienação, o trabalhador é<br />
distanciado daquilo que produz e o produto do<br />
seu trabalho se torna reificado, isto é, coisa (do<br />
Latim res,rei), porque passa a valer pela própria<br />
realidade. Assim, a crise do artesanato, graças à<br />
Revolução Industrial, com a produção em série,<br />
traz desdobramentos para o social, o econômico<br />
e o ideológico; estendendo-se, dessa sorte, à<br />
arte e ao artista. Um exemplo do processo de<br />
reificação, de objetificação do trabalhador, que<br />
se torna um autômato, encontramos no filme<br />
Tempos Modernos (1931), dirigido e encenado<br />
por Charles Chaplin.<br />
Fonte: SACRAMENTO, 2004, p.45.<br />
Símbolo: aquilo que, por<br />
um princípio de analogia,<br />
representa ou substitui<br />
outra coisa.<br />
Fonte: Novo Dicionário<br />
Aurélio da Língua<br />
Portuguesa - Aurélio<br />
Buarque de Holanda<br />
Ferreira<br />
Alegoria: exposição de<br />
um pensamento sob forma<br />
figurada.<br />
Fonte: Novo Dicionário<br />
Aurélio da Língua<br />
Portuguesa - Aurélio<br />
Buarque de Holanda<br />
Ferreira<br />
31<br />
2<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II:<br />
literatura, correntes teórico-críticas<br />
SAIBA MAIS<br />
Telos: significa fim (finalidade), e que, por sua vez,<br />
remete à ideia de felicidade, à busca da vida boa. O<br />
Bem, em si mesmo, é o fim a que todo ser aspira,<br />
resultando na perfeição, na excelência, na arte<br />
ou na virtude. Todo ser dotado de razão aspira ao<br />
Bem como fim que possa ser justificado pela razão.<br />
Teleologia foi um termo criado por Wolff para indicar<br />
“a parte da filosofia natural que explica os fins das<br />
coisas” ( Log., 1728, Disc. prael.,§ 85). O mesmo<br />
que finalismo (v.).<br />
Fonte: Dicionário de Filosofia, 1998, p. 943.<br />
Igualdade – Liberdade - Fraternidade: trilogia<br />
atribuída ao filósofo Jean-Jacques Rousseau,<br />
de uso corrente durante a Revolução Francesa, a<br />
partir de 1789; quando se inicia um longo período<br />
de convulsões políticas; com desdobramentos de<br />
várias repúblicas, uma ditadura, uma monarquia<br />
constitucional e dois impérios.<br />
Fonte: http://www.mundodosfilosofos.com.br/lea4.htm<br />
Figura 1: Reprodução da pintura de Delacroix La Libertè<br />
guidant le peuple. Neste quadro, aparecem as classes<br />
sociais, aliás, conceito firmado pelo Liberalismo, ainda que<br />
se encontre, no mesmo, unidas por uma única causa: a<br />
Liberdade.<br />
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Eug%C3%A8ne_Delacroix<br />
Teleológico: diz-se de<br />
argumento, conhecimento<br />
ou explicação que relaciona<br />
um fato com sua causa<br />
final.<br />
Fonte: Novo Dicionário Aurélio<br />
da Língua Portuguesa - Aurélio<br />
Buarque de Holanda Ferreira<br />
A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX<br />
a posterior ascensão do General Bonaparte,<br />
que é considerado como o grande responsável<br />
pela consolidação dos ideais burgueses e que<br />
expandiu o militarismo da França e mesmo o da<br />
Europa, de um modo geral.<br />
Kant, em Crítica da faculdade do juízo<br />
(1993), parte de dois tipos de finalidades para<br />
a arte: a finalidade estética e a finalidade<br />
teleológica. O juízo ou finalidade teleológica<br />
diferencia-se do estético porque aquele age se-<br />
gundo as exigências da razão, voltado para um<br />
objetivo, enquanto para o segundo, o objeto<br />
está relacionado a um fim subjetivo, de acordo<br />
com o sentimento de eficácia, experimentado<br />
pelo homem. Estas finalidades, ou juízos<br />
reflexionantes, ficam sob o signo do como se, isto<br />
é, do pensamento hipotético das possibilidades,<br />
como fator transcendental.<br />
O ser humano é capaz de fazer um juízo para<br />
qualificar determina do objeto de Belo ou não, e<br />
o faz desinteressada e contemplativamente,<br />
sendo um prazer subjetivo, porém universal,<br />
capaz de ser comunicá vel. Assim, o Belo tem um<br />
fim em si mesmo, pairando acima dos nexos de<br />
causa-efeito, dos fins objetivos naturais; e, por<br />
isso mesmo, nesta realidade, em suspenso, a<br />
liberdade se instala, visto aguardar a afirmação<br />
do Espírito, detentor dos “fins ideais da ordem<br />
ética” (NUNES, 1991, p. 50).<br />
Kant (1993), como era idealista, advogava<br />
para a ideia, interiorizada em cada um de nós, a<br />
detenção da Beleza, uma vez que esta é univer-<br />
sal, acontece com todos os seres humanos. E<br />
o prazer estético só ocorre devido ao jogo de imaginação. Este<br />
institui-se vindo do sin gular, para, a partir daí, tentar extrair uma<br />
regra universal.<br />
Para Kant, o juízo estético ou de gosto está em conexão<br />
com o comunal, isto é, com a dimensão intersubjetiva (= política),<br />
uma vez que, em sociedade, é ativado o sensus communis, isto é,<br />
uma concor dância das sensações do que seja Belo e harmonioso,<br />
e que depende do discurso para a sua comunicação, implicando a<br />
interação dos homens “como criaturas limitadas à Terra, vivendo<br />
32 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
em comunidades, (...) cada qual precisando da companhia do outro,<br />
mesmo para o pensamento” (ARENDT, 1993, p.37).<br />
O conceito de juízo reflexionante estético alcança uma<br />
ampli tude durante o Romantismo, porque está sustentado sob a<br />
relativização do pensar, do criticar, em relação ao papel do filósofo e<br />
extensivo a qualquer pensante, envol vendo mesmo a própria poiésis<br />
artística. Para Arendt,<br />
Kant insurge-se contra a tradicional distinção hierárquica<br />
que opõe a maioria filosofante à maioria ignorante,<br />
redefinindo-a nos termos da distinção entre o ator<br />
engajado na ação e o espectador crítico e imparcial que,<br />
se permanece alheio ao engajamento, nem por isso<br />
pretende-se portador de uma ver dade contemplada [...]<br />
(1993, p. 114).<br />
Porque o ator é também espectador, visto ambos serem<br />
capazes de dispor da mente pensante. Ator e espectador são manei-<br />
ras de estar no mundo. Assim, o poeta, para o Romantismo, cons-<br />
titui aquele ser superior que é capaz de apreender, em formas, nos<br />
limites da legalidade da imaginação, o Absoluto, que detém toda a<br />
sabedoria.<br />
A obra de arte constitui aquilo que Walter Benjamin (1993)<br />
cha mou de princípio monadológico, isto é, a obra como mônada,<br />
porque vale por si mesma, como objeto estético, mas não pode ser<br />
prescindida da reflexão social, na qual se inscreve, sendo, portanto,<br />
parte de um todo. O Romantizar está condicionado a um conceito que<br />
o irmana a todo o ethos do período chamado Romantismo. E, apesar<br />
de, a prin cípio, lembrar devaneio, alucinação, o termo prende-se a<br />
Romantisieren, que ganha uma amplitude de investigação. Assim,<br />
Novalis o tem “como a habilidade característica do gênio que vincula<br />
os objetos exteriores às idéias ao manipular os objetos exteriores<br />
como se fossem idéias” (apud SCHLEGEL, 1994, p. 12).<br />
Assim, Romantizar e Bildung complementam-se, em termos de ação,<br />
uma vez que o último vem de bilden (= cultivar), como ele mento<br />
de formação, tanto daquele que cultiva, quanto do objeto cultivado,<br />
lembrando-nos a estreiteza desenvolvida entre o jardinei ro e seu<br />
jardim.<br />
No cerne desta questão, encontramos um afã inerente à busca<br />
do contínuo, da totalidade harmoniosa, sem que a categoria de sujeito<br />
fique esquecida. E aspectos, aparentemente contrários, como vida e<br />
espírito, genérico e individual, natureza e cultura, tendem a se fundir<br />
num todo uníssono e orgânico, tornan do-se este ideal romântico uma<br />
espécie de religião secularizada.<br />
Letras Vernáculas<br />
Mônada: por ter<br />
significado diferente de<br />
Unidade (v.), esse termo<br />
designa uma unidade<br />
real inextensa, portanto<br />
espiritual. Giordano Bruno<br />
foi o primeiro a empregar<br />
esse termo nesse sentido,<br />
concebendo a M. Como o<br />
minimum, como unidade<br />
indivisível que constitui<br />
o elemento de todas as<br />
coisas (De minimo, 1591;<br />
De Monade, 1591).<br />
Fonte: ABBAGNANO, 1998,<br />
p.680-690.<br />
Ethos: na Sociologia, é<br />
uma espécie de síntese<br />
dos costumes de um povo.<br />
O termo indica, de<br />
maneira geral, os traços<br />
característicos de um<br />
grupo, do ponto de vista<br />
social e cultural, que o<br />
diferencia de outros. A<br />
palavra ethos tem origem<br />
grega e significa valores,<br />
ética, hábitos e harmonia.<br />
É o “conjunto de hábitos<br />
e ações que visam o bem<br />
comum de determinada<br />
comunidade”. Ainda<br />
mais especificamente, a<br />
palavra ethos significava,<br />
para os gregos antigos, a<br />
morada do homem, isto<br />
é, a natureza.<br />
Fonte: http://www2.fcsh.unl.<br />
pt/edtl/verbetes/E/ethos.htm<br />
33<br />
2<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II:<br />
literatura, correntes teórico-críticas<br />
A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX<br />
Quando esta possibilidade não é alcançada, surge a ironia,<br />
como índice do que Schiller chama de beleza lógica. Neste processo,<br />
o in divíduo abandona qualquer modelo interpretativo anterior, para,<br />
munido de seus próprios aparatos intelectuais, apreender aquilo que<br />
o cerca e ansiar o absoluto. E aí, arte e filosofia imbricam-se, porque<br />
esta, como elemento especulativo, é vista em trajeto de mão dupla<br />
de sensibilização do espírito e espiritualização do sensível, ao tentar<br />
a viabilização do geral, universal, via particular. Particular o geral, eis<br />
a audácia romântica.<br />
Os românticos utilizaram-se, sobremodo, do fragmento, do<br />
ensaio, como possibilidade, na finitude do provisório, do inacabado<br />
concreto. O fragmento vale-se da reflexão estética, que é um modo<br />
de interposição do sujeito cognoscente, entre o dado geral, firmado no<br />
conceito, e a noção de belo, fruto do livre-jogo. Walter Benjamin, em<br />
O Conceito de Crítica de Arte no Roman tismo Alemão, reproduzindo<br />
o famoso fragmento 116 das lições da Atenuam de Schlegel, expõe<br />
acerca da poesia, como medium-de-reflexão, isto é, um meio, uma<br />
forma de reflexão: “melhor flutuar pelas asas da reflexão poética no<br />
intermédio, entre o exposto e o expositor, livre de todo interesse e<br />
potenciar sempre novamente esta reflexão e multiplicá-la como série<br />
infindável de espe lhos” (1993, p.72).<br />
Estriba-se o poeta romântico nos juízos reflexionantes<br />
estéticos, tendo como princípio o dado sentido pelo sujeito. E as<br />
regras aplicadas à arte, segundo Kant, são fornecidas pelo gênio,<br />
que possui talento (= dom natural), anterior à obra realizada, na<br />
esfera da natureza verdadeira. O artista gênio, ao representar uma<br />
determinada realidade, altera papéis até então auto-delimitantes,<br />
diante da vida, isto é, de espectador e ator.<br />
Hannah Arendt aproxima o gênio do ator político, pela sua<br />
to mada de posição, pelo seu juízo crítico, ainda que aquele paire na<br />
possibilidade de concretização, em seu ato investigativo. Neste senti-<br />
do, o artista é espectador porque as decisões mais concretas não de-<br />
pendem de si; ao mesmo tempo, é ator, ao expor sua subjetividade<br />
na polis, sobressaindo a autonomia do ego, além e acima das leis que<br />
faz. Para Walter Benjamin, em sua obra O Conceito de Crítica de Arte<br />
no Romantismo Alemão, a arte deve ser vista na dimensão do mundo<br />
das ideias e não entendida presa a uma circunstância:<br />
Correspondendo a ela, portanto, o Ideal enquanto o a priori<br />
do conteúdo agregado. A Idéia é a expressão da infinidade<br />
da arte e de sua unidade. [...]. Como Idéia entende-se<br />
neste con texto o a priori de um método, [...]. De um tal<br />
a priori parte a filosofia da arte de Göethe (BENJAMIN,<br />
1993, p.72).<br />
34 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
Desse modo, Göethe aproxima-se do Ideal musal de arte dos<br />
gregos, com a soma dos conteúdos puros, quando estes atribuíam às<br />
musas a fonte de inspiração, em consonância com a ação de Apolo,<br />
possuidor dos puros conteúdos, limitados e harmônicos.<br />
Estes puros conteúdos seriam arquétipos invisíveis, presos<br />
a preceitos naturais de origem e harmonia, somente intuíveis, não<br />
alcançados pela obra de arte, sendo as únicas depositárias. Esses<br />
conteúdos puros não podem ser unidos com a natureza mesma, pois<br />
a obra de arte, por ser desinteressada, tem domínio nos seus próprios<br />
conteúdos. Apesar de a natureza verdadeira não aparecer na obra,<br />
paradoxalmente, só é intuível, imageticamente, aí. Neste sentido, o<br />
objeto artístico dá ao conteúdo, isto é, à representação do real, uma<br />
forma comparável a ela mesma.<br />
Portanto, o poeta como o gênio, ao vislumbrar a realidade<br />
criticamente, insere-se em uma dimensão utópica, à procura de uma<br />
or dem social mais humanizada, constituindo-se na possibilidade<br />
de reconciliação da alma com a essência e o sentido da vida, fato<br />
só possível, para Lukács (1974), na Antiguidade Clássica, e, para<br />
Benjamin, na fase pré-capitalista, em que as relações interpessoais<br />
eram próximas, e havia a noção de totalidade, porque era estreita a<br />
aproximação en tre produtor e produto.<br />
Estas constantes não guardam uma inteireza que, a princípio,<br />
poderia parecer; no entanto, sedimentam dados que nos autorizam<br />
identificar, ao longo da Modernidade, um processo contínuo de<br />
dilaceramento da alma humana, diante de um mundo reificado, no<br />
qual não existe qualquer possibilidade de integração e harmonia, uma<br />
vez que até as relações interpessoais viram mercadoria.<br />
O juízo de gosto ou estético kantiano, de acordo com o<br />
posicionamento de H. Arendt, em Lições Sobre a Filosofia Política<br />
de Kant (1993), abre uma possibilidade ao juízo político, sendo<br />
enquadra do, na esfera de mudanças, ao status quo, visto transitarem<br />
pela doxa do contingente, ao contrário do juízo do entendimento ou<br />
do imperativo categórico, calcado o primeiro no necessário racional e<br />
o segundo, no sentido do dever. Assim, a poiesis e a política encon-<br />
tram-se no movimento da descontinuidade, deixando abertura ao<br />
inusitado utópico.<br />
Esta visão dialética de Aufhebung (= superação) não deixa de<br />
considerar todo o ganho da filosofia das Luzes, à qual se acrescenta<br />
a possibilidade romântica, superando-se, assim, qualquer forma de<br />
ex clusão entre religião e ateísmo, de um lado, e espiritualismo e<br />
materialismo , de outro.<br />
Neste sentido, o bildung (= educação), como cultivo, como<br />
Letras Vernáculas<br />
Apolo: filho de Zeus e<br />
Leto, e irmão gêmeo<br />
de Ártemis, deusa<br />
da caça. Era um dos<br />
mais importantes e<br />
multifacetados deuses do<br />
Olimpo.<br />
Fonte: http://www.<br />
mundodosfilosofos.com.br/<br />
apolo.htm<br />
Modernidade: costuma<br />
ser entendida como um<br />
ideário ou visão de mundo<br />
que está relacionada<br />
ao projeto de mundo<br />
moderno, empreendido<br />
em diversos momentos ao<br />
longo da Idade Moderna<br />
e consolidado com a<br />
Revolução Industrial. Está<br />
normalmente relacionada<br />
com o desenvolvimento do<br />
Capitalismo.<br />
Fonte: http://base.d-p-h.info/<br />
pt/fiches/premierdph/fiche-<br />
premierdph-3602.html<br />
35<br />
2<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II:<br />
literatura, correntes teórico-críticas<br />
A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX<br />
autoentendimen to, será utilizado como uma forma de alcançar<br />
o outro, assumindo os artistas, assim, a missão de guias da<br />
sociedade, a qual pretendem re formar, uma vez que esses detêm “o<br />
conhecimento dos segredos da Natureza” (NUNES,1991, p.52), ao<br />
mesmo tempo em que a obra encontra-se livre de regras externas no<br />
seu processo artístico em si, por transitar pelas representações da<br />
imaginação, distantes do conhecimento ob jetivo do Entendimento.<br />
Hegel, em Fenomenologia do Espírito (1992), estabelece<br />
a passagem da consciência imersa em si, destacando a inserção<br />
do humano, a partir dessa última, na dimensão do histórico-<br />
cultural, chegando, no fim da obra, na revelação histórica do<br />
Espírito Absoluto, alcançando as três formas de estar no mundo:<br />
arte: (intuição), religião (representação) e filosofia (conceito). Ele<br />
destaca a possibilidade de homologia entre o espírito e a cultura,<br />
ou entre conceito e história, rumo a uma “história conceituada.”<br />
Entretanto, subsume o sujeito cognoscente, aquele capaz de<br />
conhecer, de entender, enquanto mediador, ao espírito absoluto,<br />
impossibilitando-o de alterar o devir.<br />
No cerne desta questão, encontramos um afã inerente ao<br />
próprio homem, em busca do contínuo, da totalidade harmoniosa,<br />
sem que a categoria de sujeito fique esquecida, algo aventado<br />
como precípuo para a modernidade. A partir dessa, portanto, os<br />
paradigmas passados foram questionados e a arte começa por<br />
refletir a instabilidade do gênero humano, colocando-o em constante<br />
conflito entre os valores anteriores e aqueles que traziam ares de<br />
conquista e emancipação.<br />
Dizemos isso, porque, por conta de movimentos sociais de<br />
libertação, ainda no século XIX, como o Socialismo Utópico, o<br />
Anarquismo, o Marxismo, a Comuna de Paris, o Cartismo, o<br />
Ludismo, entre outros, há uma espécie de reversão da mímesis,<br />
que passa a ceder espaço a uma arte participação, de recusa, uma<br />
vez que o ideário de racionalidade não foi capaz de gerar o bem-<br />
estar esperado, como apregoavam os líderes revolucionários da<br />
aurora da Liberdade.<br />
36 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
SAIBA MAIS<br />
Socialismo Utópico: o pensamento socialista foi primeiramente formulado por Saint-<br />
Simon (1760-1825), Charles Fourier (1772-1837), Louis Blanc (1811-1882) e Robert Owen<br />
(1771-1858). O socialismo defendido por estes autores foi, mais tarde, denominado<br />
de socialismo utópico por seus opositores marxistas (os quais, por oposição, se<br />
autodenominavam socialistas “científicos”), e vem do fato de seus teóricos exporem os<br />
princípios de uma sociedade ideal sem indicar os meios para alcançá-la. O nome vem da<br />
obra Utopia de Thomas More (1478-1535).<br />
Fonte: http://www.mundoeducacao.com.br/historiageral/socialismo-utopico.htm<br />
Anarquismo: é uma filosofia política que engloba teorias, métodos e ações que objetivam a<br />
eliminação total de todas as formas de governo compulsório. De um modo geral, anarquistas são<br />
contra qualquer tipo de ordem hierárquica que não seja livremente aceita e, assim, preconizam<br />
os tipos de organizações libertárias.<br />
Fonte: Enciclopédia Barsa, vol.15, 1966, p.24.<br />
Marxismo: é o conjunto de ideias filosóficas, econômicas, políticas e sociais elaboradas<br />
primariamente por Karl Marx e Friedrich Engels e desenvolvidas, mais tarde, por outros<br />
seguidores. Baseado na concepção materialista e dialética da História, interpreta a vida social<br />
conforme a dinâmica da base produtiva das sociedades e das lutas de classes daí consequentes.<br />
O marxismo compreende o homem como um ser social histórico e que possui a capacidade de<br />
trabalhar e desenvolver a produtividade do trabalho, o que diferencia os homens dos outros<br />
animais e possibilita o progresso de sua emancipação da escassez da natureza, o que proporciona<br />
o desenvolvimento das potencialidades humanas.<br />
Fonte: Enciclopédia Barsa, vol.15, 1966, p. 315.<br />
Comuna de Paris: foi a primeira experiência de ditadura do proletariado na história, governo<br />
revolucionário da classe operária criada pela revolução proletária, em Paris, e durou 72 dias: de<br />
18 de março a 28 de maio de 1871. A Comuna de Paris foi resultado da luta da classe operária<br />
francesa e internacional contra a dominação política da burguesia. A causa direta do surgimento<br />
da Comuna de Paris consistiu no agravamento das contradições de classe entre o proletariado e a<br />
burguesia decorrente da dura derrota sofrida pela França, na guerra contra a Prússia (1870-1871).<br />
O empenho do governo reacionário de Thiers da fazer recair o fardo dos gastos da guerra perdida<br />
sobre os amplos setores da população originou um poderoso movimento das forças democráticas.<br />
Fonte: http://www.marxists.org/portugues/dicionario/verbetes/c/comuna_paris.htm<br />
Cartismo: caracteriza-se como um movimento social revolucionário inglês, ocorrido entre 1836<br />
e 1850, tendo como base a carta escrita pelo radical William Lovett, intitulada Carta do Povo, e<br />
enviada ao Parlamento Inglês. Nesta, encontram-se as seguintes reivindicações políticas: sufrágio<br />
universal, eleições anuais, voto secreto e elegibilidade para os não proprietários.<br />
Fonte: Enciclopédia Barsa, vol.15, 1966, p.100<br />
Ludismo: é o nome do movimento contrário à mecanização do trabalho, trazida pela Revolução<br />
Industrial. Adaptado aos dias de hoje, o termo ludita (do inglês luddite) identifica toda pessoa que<br />
se opõe à industrialização intensa ou a novas tecnologias, geralmente, vinculadas ao movimento<br />
anarcoprimitivista.<br />
Fonte: http://www.suapesquisa.com/industrial/ludismo.htm<br />
Letras Vernáculas<br />
37<br />
2<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II:<br />
literatura, correntes teórico-críticas<br />
SAIBA MAIS<br />
O Terceiro Estado: na<br />
França do Antigo Regime<br />
(Ancien Régime) e durante a<br />
Revolução Francesa, o termo<br />
Terceiro Estado (fr. Tiers État)<br />
indicava as pessoas que não<br />
faziam parte do clero (Primeiro<br />
Estado) nem da nobreza<br />
(Segundo Estado). Desses<br />
termos, veio o nome medieval<br />
da assembleia nacional<br />
francesa: os Estados Gerais<br />
(fr. États Généraux), análogo<br />
ao Parlamento britânico, mas<br />
sem tradição constitucional<br />
dos poderes parlamentares:<br />
a monarquia francesa reinava<br />
absoluta.<br />
Fonte: http://variasvariaveis.sites.<br />
uol.com.br/burguesia.html<br />
Cromwell: segundo Hugo,<br />
seria uma nova forma de<br />
poesia fruto dos tempos<br />
modernos que deveria superar<br />
por completo as velhas<br />
manifestações clássicas que<br />
se prendiam em demasia a<br />
regras fixas. Para chegar até<br />
seu objetivo principal, Hugo<br />
realiza uma espécie de síntese<br />
histórica em que filia as<br />
formas de arte poética a três<br />
momentos do desenvolvimento<br />
histórico da humanidade,<br />
ou melhor, a três idades do<br />
mundo: os tempos primitivos,<br />
de primeiros encantos com<br />
o mundo, que seriam líricos<br />
e teriam nas odes e hinos<br />
suas formas de expressão;<br />
os tempos antigos, em que<br />
já haveria grandes impérios e<br />
acontecimentos narrados em<br />
poemas épicos; e, por fim, os<br />
tempos modernos, que seriam<br />
dramáticos.<br />
Fonte: http://www.<br />
espacoacademico.com.<br />
br/046/46coliveira.htm<br />
A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX<br />
Guardadas as discussões teóricas acerca da origem do<br />
romance, para Julia Kristeva de Le texte du Roman, encontra-<br />
se na narrativa pós-épica medieval, quando ocorre a dissolução<br />
da comunidade europeia sustentada em uma economia natural<br />
fechada e dominada pelo cristianismo (1970, p.19). Diderot, por<br />
sua vez, não identifica qualquer vínculo entre o romance publicado,<br />
a partir do século XVIII, com a produção estética daquele anterior.<br />
E Kristeva identifica a mudança, que o romance tomou, em seus<br />
temas, após a Revolução Francesa. Para a teórica búlgara,<br />
radicada na França:<br />
Por um romance, entendeu-se até hoje um tecido de<br />
acontecimentos quiméricos e frívolos, cuja leitura era<br />
perigosa para o gosto e para os costumes. Gostaria muito<br />
que se encontrasse um outro nome para as obras de<br />
Richardson, que educam o espírito, que tocam a alma,<br />
que respiram por todos os lados o amor do bem, e que são<br />
chamadas de romance (KRISTEVA,1970, p. 29).<br />
Napoleão via o romance como uma forma de ter os pés<br />
no chão, assim, essa narrativa foi considerada como a “revolução<br />
literária do Terceiro Estado”, durante a Restauração, iniciada<br />
em 1840 e esteve, entre as mais publicadas. Foram publicados,<br />
na França, durante o império napoleônico, anualmente, cerca de<br />
quatro mil romances, representando uma dinâmica cultural antes<br />
nunca vista no país!<br />
Enquanto, no teatro, surge o drama, mistura da tragédia<br />
com a comédia, do grotesco com o sublime. No famoso prefácio<br />
do drama Cromwell, publicado em 1827, Victor Hugo coloca toda<br />
a sua verve condoreira em defesa da inspiração e da autonomia<br />
do artista.<br />
Digamo-lo, pois, ousadamente. Chegou o tempo disso, e<br />
seria estranho que, nesta época, a liberdade, com a luz,<br />
penetrasse por toda a parte, exceto no que há de mais<br />
nativamente livre no mundo, as coisas do pensamento.<br />
[...] Não há regras nem modelos; ou antes, não há outras<br />
regras senão as leis gerais da natureza que plainam sobre<br />
toda a arte, e as leis especiais que, para cada composição,<br />
resultam das condições de existência próprias para cada<br />
assunto. [...] O poeta, insistamos neste ponto, não deve,<br />
pois pedir conselho senão à natureza, à verdade, e à<br />
inspiração, que é também uma verdade e uma natureza<br />
(HUGO, 2002, p.30).<br />
Na linha de raciocínio de Paul Valéry, de que não há possibilidade<br />
38 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
de definir o Romantismo, sob pena de prejudicar o rigor lógico;<br />
vamos agora, analisar textos, que representam a visão multifacetada<br />
do romantismo. O primeiro deles é um soneto do poeta brasileiro<br />
Álvares de Azevedo, constante de Lira dos Vinte anos (1994):<br />
Pálida, à luz da lâmpada sombria,<br />
Sobre o leito de flores reclinada,<br />
Como a lua por noite embalsamada,<br />
Entre as nuvens do amor ela dormia!<br />
Era a virgem do mar! Na escuma fria<br />
Pela maré das águas embalada!<br />
Era um anjo entre nuvens d’ alvorada<br />
Que em sonhos se banhava e se esquecia!<br />
Era mais bela! O seio palpitando...<br />
Negros olhos as pálpebras abrindo...<br />
Formas nuas no leito resvalando...<br />
Não te rias de mim, meu anjo lindo!<br />
Por ti – as noites eu velei chorando,<br />
Por ti – nos sonhos morrerei sorrindo!<br />
A imagem evocada pelo eu lírico é da mulher amada em um<br />
sonho. De forma não definida, concentrada, nas duas primeiras estrofes<br />
do poema, essa mulher é descrita como estando mais distante, etérea,<br />
difusa e inatingível: “lâmpada sombria”, “Sobre o leito de flores ela<br />
dormia”, “lua por noite embalsamada”, “Entre as nuvens do amor<br />
ela dormia”, “virgem do mar”, “escuma fria”, “Pela maré das águas<br />
embalada!“, “ ... anjo entre nuvens embalada”, “ ... em sonhos se<br />
banhava e se esquecia”. Por outro lado, nas estrofes seguintes, o ser<br />
amado ganha uma dimensão mais próxima possível de identificação,<br />
confirmando-se em: “... mais bela”, “seio palpitando”, “Negros olhos<br />
as pálpebras abrindo...”, “Formas nuas no leito resvalando”, “Não<br />
rias de mim, meu anjo lindo!”, “... as noites eu velei chorando!”, “...<br />
nos sonhos morrerei sorrindo!”. Apesar de os tercetos colocarem a<br />
mulher mais concreta, ela continua inacessível e distante, pois tudo<br />
não passou de um sonho.<br />
Tal atitude romântica coloca o ser amado em uma dimensão do<br />
sublime e da divindade; confirmando, assim, o que já foi dito acima,<br />
sobre o alcance dos puros conteúdos, presos a preceitos naturais<br />
de origem e harmonia, alcançados pela obra de arte. Os conteúdos<br />
puros, de que fala Kant, em Crítica da faculdade do juízo (1993),<br />
dão à arte uma dimensão desinteressada, porque essa não deve<br />
remeter à realidade mais imediata. Nesta perspectiva, o poema em<br />
Letras Vernáculas<br />
39<br />
2<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II:<br />
literatura, correntes teórico-críticas<br />
A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX<br />
questão alcança o chamado princípio monadológico, Walter Benjamin<br />
(1993) e, da mesma sorte, se confirma o anseio de Romantisieren<br />
(romantizar) e de Bildung (cultivo) do eu poético e daquilo que ele<br />
enaltece, no caso, a figura feminina.<br />
Victor Hugo encerra, ao contrário dos poetas do ultraromantismo,<br />
de cunho escapista, como Álvares de Azevedo, uma opção pelo embate,<br />
frente aos problemas. Em Écrit, carta em versos, de 1846, no quinto<br />
livro, Contemplations, opta pelo enfrentamento revolucionário:<br />
Les Révolutions qui viennent tout venger,<br />
Font un bien éternel dans leur mal passager...<br />
A travers les rumeurs, les cadavres, les deuils,<br />
L’écume, et les sommets qui deviennent écueils,<br />
Les siècles devant eux poussent, désespérés,<br />
Les Révolutions, monstrueuses marées,<br />
Océans faits des pleurs de tout le genre humain.<br />
[ As revoluções que vêm vingar tudo,/Fazem um bem<br />
eterno no seu mal passageiro.../ Através dos rumores, dos cadáveres,<br />
dos lutos,/ Da espuma e dos cumes que se tornam escolhos,/ Os<br />
séculos empurram na sua frente, desesperados,/As revoluções, marés<br />
monstruosas,/Oceanos feitos dos prantos de todo o gênero humano] (apud<br />
PEYRE, 1971, p.87).<br />
Assim, o poeta saúda as revoluções, vistas como solução<br />
para os males da sociedade de então, com possibilidade de um futuro<br />
glorioso para a França. Victor Hugo, assim como Lamartine, outro<br />
artista francês, tiveram grande influência na poética de Castro Alves,<br />
considerado como fiel herdeiro desses mestres. O baiano traz para a<br />
Literatura Brasileira o espírito de combate, alinhado à linha platônica<br />
de poetar; ainda que o Romantismo tenha se oposto ao modelo<br />
clássico, como já vimos acima. Tal sinal foi repetido muito depois,<br />
não mais à luz do Liberalismo, mas sim do Marxismo, por um Carlos<br />
Drummond de Andrade, de A Rosa do Povo, entre outros.<br />
A causa maior defendida por Castro Alves (1964) é a Liberdade<br />
e atreladas a essa a Igualdade e a Fraternidade, universalizadas<br />
para todo o gênero humano, todos, em uma coordenada do espírito<br />
revolucionário de 1789. O poemeto épico O navio Negreiro do baiano<br />
guarda o tom condoreiro, de acordo com o seu antecessor Victor<br />
Hugo, isto é, com o uso de apóstrofes e hipérboles, que encerram a<br />
indignação do eu poético, bem como de hipérbatos, com inversões<br />
tão bruscas, que chegam a confundir o leitor.<br />
No sexto canto, do poema, o eu poético consegue<br />
empreender um embate crucial com os símbolos nacionais e históricos,<br />
que, a princípio, deveriam ser utilizados como índices de referência e<br />
40 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
distinção, mas são rechaçados, pelo que significam.<br />
E existe um povo que a bandeira empresta<br />
P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...<br />
E deixa-a transformar-se em uma festa<br />
Em manto impuro de bacante fria!...<br />
Meu Deus! Meu Deus! Mas que bandeira é esta,<br />
Que impudente na gávea tripudia?!...<br />
Silêncio!... Musa! Chora, chora tanto<br />
Que o pavilhão se lave no teu pranto...<br />
A bandeira, sendo um símbolo nacional, em uma epopeia<br />
clássica, ganharia a dimensão de enaltecimento e não de repulsa.<br />
Tal negação se justifica porque são nações que, em nome do lucro,<br />
- o tráfego dos navios negreiros rendia grandes somas – muitos<br />
viviam deste comércio repugnante; tanto, na África, na Europa, nas<br />
Américas, como no Brasil.<br />
Na estrofe seguinte, ocorre a abominação ao próprio pavilhão<br />
nacional. Especificamente, a instância poética se refere ao fato de o<br />
país ter-se sagrado vencedor da Guerra do Paraguai, há pouco extinta<br />
em março de 1870.<br />
Auriverde pendão de minha terra,<br />
Que a brisa do Brasil beija e balança,<br />
Estandarte que a luz do sol encerra,<br />
E as promessas divinas da esperança...<br />
Tu, que da liberdade após a guerra,<br />
Foste hasteado dos heróis na lança,<br />
Antes te houvessem roto na batalha,<br />
Que servires a um povo de mortalha!...<br />
Para, na estrofe seguinte, em tom de imprecação, através<br />
de vocativos, exortar José Bonifácio de Andrade e Silva, patrono da<br />
Independência do Brasil, a tomar uma providência efetiva contra a<br />
escravidão e, ao mesmo tempo, vindo a condenar a própria descoberta<br />
da América, quando diz:<br />
Fatalidade atroz que a mente esmaga!<br />
Extingue nesta hora o brigue imundo<br />
O trilho que Colombo abriu na vaga,<br />
Como um íris no pélago profundo!...<br />
... Mas é infâmia de mais... Da etérea plaga<br />
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo...<br />
Andrada! Arranca este pendão dos ares!<br />
Colombo! Fecha a porta de teus mares!<br />
Letras Vernáculas<br />
41<br />
2<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II:<br />
literatura, correntes teórico-críticas<br />
A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX<br />
Consequentemente, o regime feudal do Absolutismo, com seus<br />
valores e crenças, que motivaram a expansão marítima europeia, são<br />
colocados também em xeque, ao negar a dimensão histórica do feito<br />
de Colombo em 1492; uma vez que o Liberalismo acenava então com<br />
outra coordenada histórica, fundada em dados igualitários para toda<br />
a humanidade.<br />
3 A VISÃO HISTORICISTA DAS TEORIAS CRÍTICAS DO<br />
SÉCULO XIX<br />
Entre outros teóricos, destaca-se Sainte-Beuve (1804-1868)<br />
como um dos principais críticos europeus do século XIX, que institui<br />
o método biográfico de análise literária; porque para ele, é impossível<br />
avaliar uma obra sem conhecer seu autor, seu perfil psicológico e<br />
moral. Esteve muito comprometido com o Positivismo de Augusto<br />
Comte, quando via a História em uma coordenada de progresso,<br />
rumo ao estágio positivo da matematização da vida.<br />
A par de Sainte-Beuve, ocorre a figura de Hyppolyte Taine<br />
(1828-1893). Fortemente influenciado pelas ciências naturais e seus<br />
métodos, em seu determinismo racionalista, e os estende à crítica<br />
da Literatura. Nas palavras de Eduardo Portella et al., em Teoria<br />
Literária (1991):<br />
A concepção literária de Taine exerceu uma larga influência<br />
por seu caráter tão claro quanto racionalista e como se<br />
depreende facilmente, o método literário científico parte<br />
da obra como pretexto para se concentrar no autor e<br />
sobretudo no homem e seu meio social. Predomina ainda<br />
o historicismo em detrimento do literário (PORTELLA et<br />
al.1991, p.23).<br />
Logo, Taine passa a ver a obra artística como produto do meio,<br />
da raça e do momento histórico, pois toda raça vive em um meio<br />
natural e sociopolítico, que age sobre a mesma, em um momento da<br />
evolução histórica.<br />
O método biográfico, portanto, se volta para o meio, na busca<br />
do entendimento da obra. Mas há ainda outros teóricos vinculados ao<br />
historicismo evolucionista como Brunetière, quando viu os gêneros<br />
literários como organismos vivos, com nascimento, crescimento e<br />
morte. Lanson (1857-1934), por sua vez, estabeleceu seu método<br />
de História Literária, semelhante ao filológico, trazendo à luz textos<br />
europeus do passado ainda não estudados.<br />
42 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
Os filmes indicados abaixo se vinculam, por suas temáticas,<br />
ao conteúdo estudado nesta Aula II.<br />
SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS<br />
(1989)<br />
Direção: Peter Weir. Com Robin Williams, Robert Sean<br />
Leonard, Ethan Hawke<br />
Sobre uma escola conservadora dos Estados Unidos<br />
dos anos 50 do século passado, cujo professor de<br />
literatura persuade seus alunos a lerem poesia como<br />
forma de libertação. E reproduz bem a ambiência<br />
vivida pelos poetas do romantismo: Göethe, Schiller,<br />
Novalis e Schlegel, durante o Império alemão do<br />
século XVIII, quando se reuniam em cavernas, em<br />
uma espécie de confraria, para lerem poesias.<br />
O CORCUNDA DE NOTRE DAME<br />
(1956)<br />
Direção: Jean Delannoy. Com Anthony Quinn e Gina<br />
Lollobrigida.<br />
Baseado na obra homônima de Victor Hugo, publicada<br />
em 1831, se centra em torno de três personagens:<br />
a cigana Esmeralda, o corcunda Quasímodo e o<br />
pároco Claude Frollo. Além da atenção ao enredo,<br />
o romance faz menção à sociedade parisiense do<br />
século XV, com a presença de destaque o rei Luís XI.<br />
Tais opções de enfoque, utilizadas por Victor Hugo,<br />
respondem pela ânsia de liberdade romântica em<br />
relação aos clássicos. Trata-se de uma temática que<br />
expõe as mazelas socias de uma época, mas ainda<br />
presente no século XIX, quando a obra foi escrita.<br />
Letras Vernáculas<br />
43<br />
2<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II:<br />
literatura, correntes teórico-críticas<br />
SINFONIA DE PRIMAVERA<br />
(1983)<br />
Direção: Peter Shamony. Com Nastassja Kinski e<br />
Rodolf Hoppe.<br />
Baseado na vida do compositor romântico Robert<br />
Schumann, reflete a ambiência da sociedade do<br />
Império alemão, do século XVIII.<br />
O CORTIÇO<br />
(1977)<br />
Direção: Francisco Ramalho Jr.Com Betty Faria,<br />
Armando Bógus, Mário Gomes<br />
Baseado na obra homônima do escritor maranhense<br />
Aloísio de Azevedo. Obra e filme estão muito<br />
comprometidos em interpretar a realidade à luz do<br />
Naturalismo, em que o homem é visto como produto<br />
do meio, da raça e do momento histórico, sem uma<br />
perspectiva de subjetividade, bem próximo ao<br />
animal.<br />
A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX<br />
44 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
ATIVIDADE<br />
1 Por que, para Paul Valéry, não há possibilidade de definir o Romantismo?<br />
2 Kant, em A Crítica da faculdade do juízo (1993), afirma que a arte<br />
possui dois tipos de finalidade: a finalidade estética e a finalidade<br />
teleológica. Explique.<br />
3 Como Kant define o Belo, a Beleza?<br />
4 Disserte acerca da seguinte afirmação, feita durante a Aula II: A<br />
poética que marca o período romântico faz-se estruturada sobre o<br />
símbolo, enquanto a pós-romântica é condicionada pela pre sença da<br />
alegoria. Estes refletem um ideal de unidade, reivin dicado por uma<br />
época.<br />
5 Qual a concepção de arte em Fenomenologia do Espírito de Hegel?<br />
6 É possível estabelecer um elo entre os puros conteúdos e o desinteresse<br />
artístico defendido por Kant?<br />
7 De que modo as teorias de Sainte-Beuve, Brunetière, Lanson e de<br />
Taine estão em sintonia com a época em que surgiram?<br />
8 Por que o romance foi considerado a “revolução literária do Terceiro<br />
Estado”?<br />
9 Por que Victor Hugo insurge-se contra o modelo clássico?<br />
10 De que forma o historicismo do século XIX influencia a crítica literária<br />
daquele momento?<br />
RESUMINDO<br />
Espera-se que você, ao final da Aula II, tenha apreendido os<br />
conceitos básicos que digam respeito à Literatura, os conceitos de arte<br />
para Immanuel Kant e Victor Hugo, na busca do entendimento da poética<br />
e da liberdade românticas; bem como a influência da História nas teorias<br />
críticas do século XIX, com Sainte-Beuve, Hyppolyte Taine, Brunetière e<br />
Lanson.<br />
Letras Vernáculas<br />
45<br />
2<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II:<br />
literatura, correntes teórico-críticas<br />
R E F E R Ê N C I A S<br />
A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX<br />
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes,<br />
1998.<br />
ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas. Tradução de Denise<br />
Bottman. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.<br />
ARENDT, Hannah. Lições Sobre a Filosofia Política de Kant. Tradução<br />
de André Duarte de Macedo. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1993.<br />
AZEVEDO, Álvares. Lira dos vinte anos. Rio de Janeiro: Garnier,1994.<br />
BENJAMIN, Walter. O Conceito de Crítica de Arte no Romantismo<br />
Alemão. Tradução de Marcio Seligmann-Silva. São Paulo: EDUSP,<br />
Iluminuras, 1993.<br />
BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. São<br />
Paulo: Cultrix, 1976.<br />
BRUGGER, Walter. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Herder, 1969.<br />
CADEMARTORI, Lígia. Períodos Literários. São Paulo: Ática,1997.<br />
CALVET, Jean. Manuel illustré d’histoire de la littérature française.<br />
Paris: J. de Gigord, 1966.<br />
Enciclopédia Barsa. São Paulo: Melhoramentos, vol.15, 1966.<br />
GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina. C. Teoria da<br />
Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.<br />
Grande Dicionário Delta Larousse. Editora Delta: Rio de Janeiro, 1973.<br />
HEGEL, F. Fenomenologia do espírito. Tradução de Paulo Meneses.<br />
Petrópolis: Vozes, 1992.<br />
HUGO, Victor. Do grotesco e do sublime: tradução do “Prefácio de<br />
Cromwell” Tradução de Celia Berretini. São Paulo: Perspectiva, 2002.<br />
HUISMAN, Denis. Dicionário de Obras Filosóficas. São Paulo: Martins<br />
Fontes, 2000.<br />
KANT, Immanuel. Crítica da faculdade do juízo. Tradução de Valério<br />
Rohden e Antonio Marques. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1993.<br />
KRISTEVA, Júlia. Le texte du roman. The Hague: Mouton, 1970.<br />
LUCAS, Fábio. O Caráter Social da Ficção do Brasil. São Paulo: Ática,<br />
1985.<br />
LUKÁCS, Georg. L’âme et les formes. Paris: Gallimard, 1974.<br />
46 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
NUNES, Benedito. Introdução à filosofia da arte. São Paulo: Ática, 1991.<br />
PEYRE, Henri. Qu’est-que c’est le Romantisme? France: Presses<br />
Universitaires de France, col. SUP, 1971.<br />
PORTELLA, Eduardo, et al. Teoria Literária. Rio de Janeiro: Tempo<br />
Brasileiro, 1991.<br />
SACRAMENTO, Sandra. Nação, Identidade e Gênero na Literatura<br />
Brasileira. Rio de Janeiro: Caetés, 2004.<br />
SCHILLER, Friedrich. A educação estética do homem, numa série<br />
de cartas de Friedrich Schiller. Tradução de Roberto Schwarz; Márcio<br />
Suzuki. São Paulo: Iluminuras: 1995.<br />
SCHLERGEL, Friedrich. Conversa sobre a poesia e outros fragmentos.<br />
Tradução de Victor-Pierre Stirnimann. São Paulo: Iluminuras: 1995.<br />
SILVA, Vitor Manuel de A. Teoria da literatura. Coimbra: Almedina, 1975.<br />
SOUZA, Roberto Acízelo de. Teoria da Literatura. São Paulo: Ática, 2004.<br />
LEITURA RECOMENDADA<br />
CADEMARTORI, Lígia. Períodos Literários. São Paulo: Ática, 1997.<br />
GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina. C. Teoria da<br />
Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.<br />
LUCAS, Fábio. O Caráter Social da Ficção do Brasil. São Paulo:<br />
Ática, 1985.<br />
NUNES, Benedito. Introdução à filosofia da arte. São Paulo: Ática,<br />
1991.<br />
SOUZA, Roberto Acízelo de. Teoria da Literatura. São Paulo: Ática,<br />
2004.<br />
Letras Vernáculas<br />
R E F E R Ê N C I A S<br />
47<br />
2<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II:<br />
literatura, correntes teórico-críticas<br />
A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX<br />
ANEXO<br />
Kant: Immanuel Kant ou Emanuel Kant (Königsberg, 22 de abril de<br />
1724 — Königsberg, 12 de fevereiro de 1804) foi um filósofo alemão,<br />
geralmente considerado como o último grande filósofo dos princípios da<br />
era moderna, indiscutivelmente um dos seus pensadores mais influentes.<br />
A filosofia de Kant nos surge como uma filosofia essencialmente trágica,<br />
já que afirma simultaneamente a necessidade da natureza (na Crítica<br />
da Razão Pura) e a exigência de uma liberdade absoluta (na Crítica da<br />
Razão Prática). Em sua terceira grande obra, A Crítica do Juízo, Kant se<br />
esforça por mostrar a possibilidade de uma reconciliação entre o mundo<br />
natural e o da liberdade. A natureza talvez não seja apenas o domínio do<br />
determinismo, mas também o da finalidade que aparece notadamente<br />
na organização harmoniosa dos seres vivos.<br />
Fonte: http://www.mundodosfilosofos.com.br/kant2.htm<br />
Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File: Immanuel_Kant_%28painted_portrait%29.jpg<br />
Paul Valéry: Paul Ambroise Valéry (Sète 1871 – Paris 1945) foi um<br />
filósofo, escritor e poeta francês da escola simbolista, cujos escritos<br />
incluem interesses em matemática, filosofia e música; autor de, entre<br />
outras obras, de Le Jeune Parque (1917) e Charmes (1922).<br />
Fonte: Grande Dicionário Delta Larousse, 1973, p. 2014.<br />
Ilustração - Fonte:http://www.ts4.com/Quotes/QuotePaulValery.html<br />
Weber: Maximillian Carl Emil Weber (Erfurt, 21 de abril de 1864 — Munique,<br />
14 de junho de 1920) foi um intelectual alemão, jurista, economista e<br />
considerado um dos fundadores da Sociologia. Autor de Ética Protestante<br />
e o Espírito do Capitalismo (1905), Cientista e o Político (1921), Ensaios<br />
sobre a Teoria da Ciência (1965).<br />
Fonte: HUISMAN, 2000, p. 609.<br />
Ilustração - Fonte:http://www.ocoruja.com/index.php/2009/max-weber/<br />
Arendt: Hannah Arendt (Linden, 14 de outubro de 1906 — Nova Iorque,<br />
4 de dezembro de 1975) foi uma teórica política alemã, muitas vezes<br />
descrita como filósofa, apesar de ter recusado essa designação. Emigrou<br />
para os Estados Unidos, durante a ascensão do nazismo, na Alemanha.<br />
Entre suas obras de mais destaque estão Origens do Totalitarismo (1951)<br />
e A condição humana (1959).<br />
Fonte: http://www.mundodosfilosofos.com.br/a-condicao-humana-hannah-arendtt.htm<br />
Ilustração - Fonte: http://filosofiaportal.blogspot.com/<br />
48 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
Novalis: Georg Philipp Friedrich von Hardenberg (Oberwiederstedt, Harz,<br />
2 de maio de 1772 — Weißenfels, 25 de março de 1801), Freiherr (Barão)<br />
von Hardenberg, mais conhecido pelo pseudônimo Novalis, foi um dos<br />
mais importantes representantes do romantismo alemão de finais do<br />
século XVIII e o criador da flor azul, um dos símbolos mais duráveis do<br />
movimento romântico.<br />
Fonte: BRUGGER, 1969, p.498.<br />
Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Novalis-1.jpg<br />
Schiller: Johann Christoph Friedrich von Schiller, enobrecido em 1802 (10<br />
de novembro de 1759 em Marbach am Neckar — 9 de maio de 1805 em<br />
Weimar), mais conhecido como Friedrich Schiller, foi um poeta, filósofo e<br />
historiador alemão, e é tido como o mais importante dramaturgo alemão.<br />
Schiller foi um dos grandes homens de letras da Alemanha do século<br />
XVIII, e juntamente com Göethe, Wieland e Herder é representante do<br />
Romantismo alemão e do Classicismo de Weimar. Sua amizade com Göethe<br />
rendeu uma longa troca de cartas que se tornou famosa na literatura<br />
alemã. Sua poesia também é famosa, como por exemplo, a Ode à Alegria<br />
(An die Freude), que inspirou Ludwig van Beethoven a escrever, em 1823,<br />
o quarto movimento de sua nona sinfonia.<br />
Fonte: SCHILLER, 1995, p. 11-26.<br />
Ilustração - Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/File:Friedrich_schiller.jpg<br />
Schlegel: Friederich von Schlegel foi influenciado pela filosofia de<br />
Fichte. Em 1798 tornou-se companheiro (casado só em 1804) de<br />
Dorothea Veit (1763-1839), filha do filósofo judeu Moses Mendelssohn,<br />
cujo gosto literário o fortaleceu nas convicções românticas.<br />
Suas críticas magistrais do Wilhelm Meister, de Göethe, e de peças de<br />
Shakespeare foram incluídas no volume, editado juntamente com August<br />
Wilhelm Schlegel, Interpretações e críticas.<br />
Fonte: http://educacao.uol.com.br/biografias/friedrich-schlegel.jhtm<br />
Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Friederich_von_Schlegel.jpg<br />
Göethe: Johann Wolfgang Von Göethe (1749-1832) foi um importante<br />
romancista, dramaturgo e filósofo alemão. Fez parte de dois movimentos<br />
literários importantes: romantismo e expressionismo. Apresentou<br />
também um grande interesse pela pintura e desenho. Juntamente com<br />
Schiller foi um dos líderes do movimento literário romântico alemão<br />
Sturm und Drang.<br />
Fonte: http://www.suapesquisa.com/pesquisa/goethe.htm<br />
Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Johann_Wolfgang_von_Goethe_%28Josef_<br />
Stieler%29.jpg<br />
Letras Vernáculas<br />
49<br />
2<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II:<br />
literatura, correntes teórico-críticas<br />
A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX<br />
Lukács: Lukács György foi um filósofo húngaro de grande importância<br />
no cenário intelectual do século XX. Segundo Lucien Goldmann, Lukács<br />
refez, em sua acidentada trajetória, o percurso da filosofia clássica<br />
alemã: inicialmente um crítico influenciado por Kant, depois o encontro<br />
com Hegel e, finalmente, a adesão ao marxismo. Seu nome completo era<br />
Georg Bernhard Lukács von Szegedin, em alemão, ou Szegedi Lukács<br />
György Bernát, em húngaro.<br />
Fonte: http://www.unicamp.br/cemarx/marianorma.htm<br />
Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Luk%C3%A1cs_Gy%C3%B6rgy.jpg<br />
Hegel: Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770 —1831) foi um filósofo<br />
alemão. Recebeu sua formação no Tubinger Stift (seminário da Igreja<br />
Protestante em Wurttemberg). Era fascinado pelas obras de Spinoza, Kant<br />
e Rousseau, assim como pela Revolução Francesa. Muitos consideram<br />
que Hegel representa o ápice do idealismo alemão do século XIX, que<br />
teve impacto profundo no materialismo histórico de Karl Marx.<br />
Fonte: BRUGGER, 1969, p. 498 - 499.<br />
Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Georg_Wilhelm_Friedrich_Hegel00.jpg<br />
Julia Kristeva: linguista e crítica literária de expressão francesa nascida<br />
em 1941, em Sófia, na Bulgária. Estudou a literatura a partir de elementos<br />
da linguística e da psicanálise.<br />
Fonte: http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/E/estruturalismo.htm<br />
Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Julia_Kristeva_p1200568.jpg<br />
Diderot: Denis Diderot, escritor francês (Langres, 1713 – Paris 1784).<br />
Filho da pequena-burguesia abastada, estudou em Londres e Paris, sem<br />
escolher profissão determinada, reunindo conhecimentos enciclopédicos.<br />
Ganhou a vida com trabalhos literários subalternos. Publicando, entre<br />
outras obras, Pensées philosophiques (1746), tornou-se suspeito às<br />
autoridades, como materialista e ateu; sua obra prima, entretanto, foi<br />
a Encyclopédie (1750-1772,) a qual reportou todo o conhecimento que<br />
a humanidade havia produzido até sua época. Como crítico de arte, foi<br />
o primeiro leigo a se dedicar à técnica da pintura. Seu ensaio sobre a<br />
arte de atuar constitui a primeira contribuição de valor à crítica do teatro<br />
moderno.<br />
Fonte: Grande Dicionário Delta Larousse, 1973, p.2184.<br />
Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Denis_Diderot_%28Dimitry_Levitzky%29.jpg<br />
50 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
Victor Hugo: escritor francês (Bersançon 1802 – Paris 1885). De 1817<br />
a 1830, é um jovem poeta de carreira, bem dotado, bem pensante e<br />
monarquista. Publica em 1822, Odes et poésies diverses, quatro<br />
meses antes de se casar com Adèle Fouchet. Em 1827, publica o drama<br />
Cromwell. Os acontecimentos políticos de 1830, o desentendimento<br />
conjugal, a ligação amorosa com Jouliette Drouet (1833) determinam<br />
profundamente mudanças nas idéias e na sensibilidade do escritor, que<br />
se afirma cada vez mais chefe do movimento romântico. Em 1841,<br />
é eleito para a Academia Francesa de Letras. Entre suas obras estão<br />
coletâneas líricas, peças de teatro e romances; com destaque para o<br />
drama Hernani, de 1830; o romance Notre Dame de Paris, de 1831; e<br />
Les Misérables, de 1862.<br />
Fonte: Grande Dicionário Delta Larousse, 1973, p. 3423.<br />
Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Victor_Hugo_001.jpg<br />
Hyppolyte Taine: foi crítico, historiador e filósofo francês. Foi o filósofo<br />
do naturalismo. Para ele, se conhecemos a raça, o meio e o momento<br />
histórico, em que o homem foi criado, podemos saber seu pensamento<br />
e seus sentimentos. Suas obras mais importantes são: De l’ intelligence<br />
(1870) e Philosophie da L’ Art (1882).<br />
Fonte: CALVET, 1966, p. 770-771.<br />
Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Hippolyte_taine.jpg<br />
Letras Vernáculas<br />
51<br />
2<br />
Aula
Suas anotações<br />
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A ESTILÍSTICA DA LANGUE E A DA PAROLE<br />
Objetivos Meta<br />
Enfocar os conceitos que envolvem a Estilística ligada<br />
à langue e aquela que prioriza a parole.<br />
Ao final desta Aula III, você deverá conhecer os pres-<br />
supostos teóricos da corrente de abordagem do literá-<br />
rio: Estilística.<br />
<strong>aula</strong><br />
3
UESC<br />
AULA 3<br />
A ESTILÍSTICA DA LANGUE A A DA PAROLE<br />
1 INTRODUÇÃO<br />
Nesta Aula III, vamos estudar a corrente teórica Estilística.<br />
Os teóricos Charles Bally, Eugenio Coseriu, Jules Marouzeau dão<br />
ênfase, em seus estudos, à abordagem que privilegia a langue;<br />
ao contrário de Benedetto Croce, Karl Vossler, Leo Spitzer, Dámaso<br />
Alonso e Amado Alonso que veem a parole como princípio explicativo<br />
em suas análises.<br />
Antes do início desta Aula III, você deverá ter lido:<br />
• a obra A Linguagem Literária, de Domício Proença Filho;<br />
• o capítulo 15 de Teoria da literatura, de Victor Manuel de A. Silva;<br />
• o capítulo 1, especificamente, da p. 28 à p. 30, de Teoria Literária de Eduardo Portella, et al;.<br />
• o capítulo 7, especificamente, da p.171 à p.178, de Teoria da Literatura “revisitada” de Maria<br />
Magaly Trindade Gonçalves e Zina Bellodi.*<br />
•<br />
* As referências das obras encontram-se no final da Aula III.<br />
Letras Vernáculas<br />
55<br />
ATENÇÃO<br />
3<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />
SAIBA MAIS<br />
Langue e Parole: língua<br />
versus fala (discurso) é a<br />
dicotomia basilar da linguística<br />
saussuriana. Fundamenta-se<br />
na oposição<br />
social/individual, extraída<br />
da Sociologia: a língua é<br />
da esfera social, ao passo<br />
que a fala é da esfera individual.<br />
Para o mestre<br />
genebrino, linguagem é a<br />
faculdade que o indivíduo<br />
tem de falar uma língua.<br />
Fonte: http://www2.fcsh.unl.pt/<br />
edtl/verbetes/L/lingua.htm<br />
2 ESTILÍSTICA<br />
A Estilística da langue e a da parole<br />
O termo estilística, em outra acepção, já havia sido empregado<br />
no século XVIII pelo filósofo alemão Novalis, como sinônimo de<br />
retórica. No século XX, porém, na esteira do Estruturalismo de<br />
Ferdinand de Saussure, Charles Bally, seu aluno e genro, a partir do<br />
curso de férias ministrado pelo mestre, na Universidade de Genebra,<br />
institui a Estilística moderna, centrada na langue, enquanto expressão<br />
de sentimentos, ao contrário do enfoque linguístico, que se preocupa<br />
somente com a parte intelectual do nosso ser pensante. Para Bally:<br />
A estilística estuda, portanto, os fatos de expressão<br />
da linguagem organizada sob o ponto de vista do<br />
seu conteúdo afetivo, i. e., a expressão dos fatos<br />
da sensibilidade através da linguagem e a ação dos<br />
fatos de linguagem sobre a sensibilidade (BALLY, s/d,<br />
p.16).<br />
Por fato estilístico, se entende como a menor unidade do texto.<br />
O autor, ao fazer determinadas escolhas, entre as previsíveis no código<br />
linguístico, opta por um determinado fato estilístico. Entretanto, Bally<br />
não se dedicou ao texto literário, suas análises descritivas centraram-<br />
se apenas nos recursos estilísticos, em seu sistema de expressão,<br />
colocados pela língua, de modo geral, à disposição dos falantes como<br />
expressão de sentimento.<br />
A Estilística, como a entende o suíço, está para a língua e não<br />
para a fala e, neste sentido, para a norma, previamente, estabelecida<br />
para o usuário da língua. Nas palavras de Eugenio Coseriu:<br />
[Trata-se do] estudo das variantes normais com<br />
valor expressivo-afetivo [no] estudo da utilização<br />
estilística normal das possibilidades que oferece um<br />
sistema daqueles elementos que são normalmente,<br />
na língua de uma comunidade portadores de um<br />
particular valor expressivo (1962, p.105).<br />
Com Jules Marouzeau, ainda que seu enfoque permanecesse<br />
no nível da língua e não da fala, a Estilística moderna passa a incidir<br />
suas análises, em certa medida, no texto literário. Em uma perceptiva<br />
generalizante, de cunho científico, não se detém em um autor, mas<br />
em obras referentes a uma época de uma determinada literatura,<br />
a fim de apreender aspectos do estilo, como o uso de expressões,<br />
que remetem a questões concretas ou abstratas, de clichês, de<br />
construções frasais ou mesmo o vocabulário que aparente imitações<br />
de autores ou supostas influências, entre outros.<br />
56 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
Na linha oposta à Estilística da langue, de filiação linguístico-<br />
positivista, surge a Estilística da parole, fortemente influenciada<br />
pela linguística idealista de raiz romântica. Entre seus grandes<br />
representantes estão: Benedetto Croce, Karl Vossler, Leo Spitzer,<br />
Dámaso Alonso e Amado Alonso.<br />
Benedetto Croce teve o grande mérito de ter tirado a Estética<br />
do âmbito da Filosofia. Para quem a arte constitui um conhecimento<br />
intuitivo, fora da esfera intelectual, pois seus objetivos são intrínsecos<br />
a ela mesma.<br />
A arte não está, como a família platônica entende, a serviço<br />
da moral, ou de uma utilidade, além da expressão. Por apresentar a<br />
linguagem como atividade espiritual e criadora, a Estilística opõe-se<br />
também à visão naturalístico-positivista, que condiciona a arte ao<br />
meio, à raça e ao momento histórico, como viu Taine na segunda<br />
metade do século XIX.<br />
Quer dizer, não existe qualquer realidade lingüística<br />
objetiva, de caráter social e comunitário – a langue<br />
de Saussure -, independentemente dos indivíduos<br />
singulares: existem, sim, atos lingüísticos individuais,<br />
livres criações do espírito, que apenas podem ser<br />
convenientemente estudados se se considerar a<br />
natureza poética (SILVA, 1975, p.601).<br />
Logo, a língua é sempre artística, uma vez que o ato de fala<br />
está pleno de criatividade, ainda que nem toda fala seja digna de ser<br />
preservada para a posteridade, como deve acontecer com a obra de<br />
arte. Sendo o crítico um mediador, de cunho filológico, que deve se<br />
colocar entre a obra e o leitor.<br />
Karl Vossler, por sua vez, foi aquele que instituiu a estilística<br />
literária ou crítica estilística, a partir dos estudos de Vico, Humboldt<br />
e Croce. Sua percepção idealista vê a linguagem como atividade<br />
intuitiva, espiritual, que passa a existir na sua expressão verbal. E<br />
só pode ser considerada arte aquela obra, cuja linguagem sofreu<br />
modificação, somente, alcançada pela intuição individual.<br />
Portanto, a estilística representa para Vossler<br />
o fundamento de toda a lingüística, visto que a<br />
linguagem é primordialmente poesia; e constitui<br />
igualmente o fundamento dos estudos literários,<br />
da crítica estético-literária, já que a poesia é<br />
essencialmente linguagem. Em lugar de estudos<br />
biografistas, sociológicos, moralísticos, etc, a<br />
obra poética exige o estudo do seu texto, da sua<br />
linguagem e da história do idioma em que está<br />
escrita, porque a língua aparece como a matriz que<br />
Letras Vernáculas<br />
57<br />
3<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />
A Estilística da langue e a da parole<br />
alimenta a potencialidade artística do escritor (...)<br />
(SILVA, 1975, p. 603).<br />
Vossler, ainda que visse o objeto estético como autônomo ao<br />
contexto, não deixou de privilegiar as circunstâncias culturais que<br />
precedem ao artístico. Leo Spitzer, por sua vez, foi influenciado<br />
por Vossler e o segue na concepção da arte destituída do contexto<br />
histórico ou de qualquer juízo de valor.<br />
A Estilística de Spitzer valoriza o papel do artista,<br />
constituindo-se como uma ponte entre a Lingüística<br />
e a Literatura. Spitzer considerva a Lingüística como<br />
algo sem alma e a Estilística, para ele, deveria<br />
estabelecer uma ponte com a alma do artista. Foi<br />
influenciado por Freud, o conhecimento da Psicanálise<br />
proporcionou-lhe instrumentos para compreender<br />
certos problemas de Literatura (GONÇALVES;<br />
BELLODI, 2005, p.175).<br />
Cada fato estilístico, presente no texto literário, para Spitzer,<br />
é pleno de gesto, no sentido psicanalítico, que indicia um estado de<br />
alma. Restringe-se, entretanto, em seu enfoque do fenômeno literário,<br />
à análise psicológica e não psicanalítica, uma vez que não chega a<br />
investigar os complexos, causadores das neuroses, estudados por<br />
Freud.<br />
O método de análise literária genética spitziano fez escola e<br />
segue um processo que vai do autor à obra e da obra ao autor. Entre<br />
seus seguidores estão os espanhóis: Dámaso Alonso e Amado Alonso,<br />
entre outros.<br />
Com uma visão não formalista da obra, Damaso Alonso propõe<br />
um método fundamentado de análise, em que enfoca a figura do<br />
crítico e a do leitor comum; além de propor tipologias de estilos: o<br />
conceitual, o afetivo e o imaginário. Evidenciando as interrelações<br />
firmadas entre significante e significado, Eduardo Portella, et al.<br />
(1991) assevera:<br />
Como entre o significante e o significado há inúmeras<br />
relações, a finalidade da Estilística consiste na análise<br />
dessas interrelações. Metodicamente a análise pode<br />
partir do significado para o significante ou de maneira<br />
inversa (PORTELLA et al., 1991, p.29).<br />
Alonso critica Charles Bally porque esse se deteve na langue.<br />
Por ser uma Estilística da parole, seu método recria a intuição do<br />
poeta no texto, ainda que sua essência seja de impossível apreensão.<br />
Portanto, a Estilística, ao estabelecer métodos de análise, veio a<br />
58 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
ocupar tarefas outrora restritas ao campo da Retórica.<br />
Quando se fala em Estilística da langue, está-se levando<br />
em conta a capacidade expressiva constante na própria língua, da<br />
qual o falante se utiliza, sem, de fato, acrescentar algo<br />
de pessoal, enquanto sujeito da enunciação. Neste<br />
tipo de análise, são consideradas somente as<br />
três funções da linguagem, de - Karl Bühler,<br />
posteriormente, ampliadas para seis com<br />
Roman Jakobson - centradas, respectivamente,<br />
na 1ª, 2ª e 3ª pessoas, a saber: função de<br />
exteriorização psíquica, função apelativa e função<br />
de representação. Essas elencam a previsão de uso<br />
do código lingüístico, isto é, o falante, ou extravasa<br />
um sentimento, ou interfere sobre o receptor de sua<br />
mensagem, ou ainda se refere ao mundo representado pelo código.<br />
Vejamos esses usos, em exemplos abaixo:<br />
Vivemos, hoje em dia, com a preocupação constante ecológica.<br />
O Planeta Terra pede socorro! Entretanto, um dos personagens da<br />
charge reproduzida ao lado, leva às últimas conseqüências o seu<br />
compromisso com as gerações futuras.<br />
O referido personagem,<br />
ao se utilizar da 1ª pessoa do<br />
singular: “Eu estou apenas<br />
assegurando meus 15m² de área<br />
verde, seu guarda.”, deixa que o<br />
seu receptor, no caso, o guarda<br />
que o interpela, tenha acesso às<br />
camadas mais profundas do seu<br />
ser, pondo, em evidência, a sua<br />
inquietação, diante de um tema<br />
tão sério para o ser humano.<br />
Trata-se o texto, a seguir, de<br />
uma propaganda, também<br />
comprometida com as questões<br />
ecológicas; mais racional em suas<br />
colocações, ao contrário do nosso<br />
personagem da charge, que age<br />
movido somente pela emoção.<br />
Letras Vernáculas<br />
Figura 1 - Onde estão as áreas verdes?<br />
Fonte: http://ocaosemvenancioaires.<br />
blogspot.com/2009/09/meio-ambientepor-cristian-deves.html<br />
Revista Veja, set. 2009.<br />
59<br />
3<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />
A Estilística da langue e a da parole<br />
Veja que o texto, em destaque, volta-se para o receptor<br />
da mensagem “você”, ou seja, aquele com quem se fala, e faz a<br />
recomendação de como encaminhar o lixo doméstico para a<br />
reciclagem.<br />
Nesta propaganda, o emissor se detém em relatar algo que<br />
diz respeito ao mundo exterior comentado. “Ser forte é do Brasil. O<br />
banco que aumentou o crédito para o País enfrentar a crise também.<br />
Faz diferença ter um banco que é do Brasil.” Ainda que haja um forte<br />
apelo, implícito, sobre o receptor da mensagem, para que se torne<br />
cliente do BB e usuário de seus produtos, a mensagem se utiliza da<br />
3ª pessoa, do que se fala, “O banco”.<br />
Em uma análise estilística de um texto literário, deve-se atentar<br />
para o uso das imagens sugeridas, a partir das escolhas expressivas<br />
utilizadas pelo eu poético. Leia, agora, o fragmento do Poema dos<br />
olhos da amada, presente em Poesia Completa e Prosa (1980), abaixo<br />
reproduzido, de Vinicius de Moraes:<br />
Ó minha amada<br />
Que os olhos teus<br />
São cais noturnos<br />
Cheios de adeus<br />
São docas mansas<br />
Trilhando luzes<br />
Que brilham longe<br />
Longe nos breus...<br />
Revista Veja, set.2009 - Edição 2129, p.5-6.<br />
60 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
Se nos voltarmos para os recursos utilizados pelo poeta, no uso<br />
da camada fônica, isto é, de sons, veremos que ocorre apenas um par<br />
de rimas: teus/adeus; entretanto, a sonoridade, no mesmo, ocorre<br />
devido, principalmente, à aliteração, com a repetição de consoantes<br />
nasais, presentes ao longo do poema: /m/ e /n/, capazes de trazer<br />
para o leitor a sensação do balanço do mar próximo a um cais. Da<br />
mesma sorte que o uso da assonância, com a reincidência de vogais<br />
iguais, que, no caso, são /o/ e /a/, produzindo o mesmo efeito de<br />
previsibilidade do movimento da água, em um ancoradouro. Do ponto<br />
de vista do conteúdo, entre os recursos estilísticos, de que o poeta se<br />
vale, estão: a antítese e a metáfora, respectivamente, luzes/breus;<br />
Que os olhos teus/ São cais noturnos/São docas mansas. Há que<br />
ser chamada a atenção para o uso da parataxe, isto é, de orações<br />
coordenadas: os olhos da amada/são cais noturnos cheios de adeus/<br />
são docas..., predominantes na lírica, que não está preocupada<br />
em relatar o mundo, antes opta pelo extravasamento de emoções;<br />
enquanto a hipotaxe requer um grau de racionalidade esperado<br />
principalmente pela narração, pelo texto em prosa. No poema em<br />
questão, mesmo com a presença de orações subordinadas, essas<br />
são antes coordenadas entre si: trilhando luzes (= que trilham)/ que<br />
brilham longe, longe nos breus.<br />
No ANEXO 1, desta Aula III, reproduzimos uma análise<br />
estilística feita sobre um soneto do poeta português Luís de Camões.<br />
ATIVIDADE<br />
1. Explique o vínculo da Estilística de Charles Bally ao Estruturalismo.<br />
2. Qual a importância dos estudos de Jules Marouzeau para a Estilística?<br />
Letras Vernáculas<br />
SAIBA MAIS<br />
Parataxe: é um recurso<br />
estilístico muito comum<br />
na poesia, facilmente<br />
identificável e que não<br />
tem sido, talvez pela<br />
própria obviedade de<br />
seus efeitos, objeto<br />
de maior atenção da<br />
crítica especializada.<br />
Consiste na conexão de<br />
constituintes linguísticos<br />
(frases ou categorias<br />
sintáticas) por coordenação.<br />
Fonte: http://www.centopeia.net<br />
/secoes/?ver=87&secao=ensaios<br />
&pg=5<br />
Hipotaxe: trata-se de<br />
uma conexão de frases<br />
por subordinação, isto<br />
é, com uma relação de<br />
dependência sintática.<br />
Fonte: http://www.centopeia.<br />
net/secoes/?ver=87&secao=e<br />
nsaios&pg=5<br />
3. Explique o avanço dos estudos estilísticos vistos por Benedetto Croce, Karl Vossler, Leo<br />
Spitzer, Dámaso Alonso e Amado Alonso?<br />
4. Estabeleça a diferença entre a estilística da langue e a da parole.<br />
61<br />
3<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />
R E F E R Ê N C I A S<br />
3 RESUMINDO<br />
LEITURA RECOMENDADA<br />
A Estilística da langue e a da parole<br />
RESUMINDO<br />
Nesta Aula IV, você estudou a corrente literária Estilística, com os<br />
teóricos da langue Charles Bally, Eugenio Coseriu, Jules Marouzeau<br />
e os da parole: Benedetto Croce, Karl Vossler, Leo Spitzer, Dámaso<br />
Alonso e Amado Alonso.<br />
4 REFERÊNCIAS<br />
BALLY, Charles. Traité de stylistique française. Heidelberg: Winter, s/d.<br />
COSERIU, Eugeniu. Teoria del lenguaje y linguística general. Madrid:<br />
Gredos,1962.<br />
GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina. C. Teoria da<br />
Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.<br />
HUISMAN, Denis. Dicionário de Obras Filosóficas. São Paulo: Martins<br />
Fontes, 2000.<br />
MORAES, Vinicius de. Poesia completa e Prosa. Rio de Janeiro: Aguilar,<br />
1980.<br />
PORTELLA, Eduardo et al. Teoria Literária. Rio de Janeiro: Tempo<br />
Brasileiro, 1991.<br />
PROENÇA FILHO, Domício. A Linguagem Literária. São Paulo: Ática,<br />
1992.<br />
REIS, Carlos. Técnica de Análise Textual. Coimbra: Almedina,1976.<br />
SILVA, Vitor Manuel de A. Teoria da literatura. Coimbra: Almedina,<br />
1975.<br />
GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina. C. Teoria da Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.<br />
PORTELLA, Eduardo et al. Teoria Literária. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1991.<br />
PROENÇA FILHO, Domício. A Linguagem Literária. São Paulo: Ática, 1992.<br />
SILVA, Vitor Manoel de A. Teoria da literatura. Coimbra: Almedina, 1975.<br />
62 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
ANEXO 1<br />
CARLOS, Reis. Análise estilística de um soneto de Camões. In. Técnicas de<br />
Análise Textual. Coimbra: Almedina, 1976. p.164-171.<br />
Letras Vernáculas<br />
63<br />
3<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />
A Estilística da langue e a da parole<br />
64 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
Letras Vernáculas<br />
65<br />
3<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />
A Estilística da langue e a da parole<br />
Eugenio Coseriu: linguista romeno que propôs o chamado critério da<br />
intercompreensão, segundo o qual, dois falares podem ser considerados<br />
dialetos da mesma língua se seus falantes conseguem compreender-se<br />
mutuamente; caso contrário, teremos duas línguas diferentes. Falantes<br />
do Português e do Espanhol podem entender-se relativamente, portanto,<br />
seriam dialetos, segundo Coseriu.<br />
Fonte: http://www.aldobizzocchi.com.br/artigo52.asp<br />
ANEXO 2<br />
Ilustração - Fonte: http://www.uni-tuebingen.de/kabatek/coseriu/hauptseite.html<br />
Marouzeau: Jules Marouzeau (1878-1964) propõe que se volte a estilística<br />
para a literatura, não de autores isolados, mas buscando, numa época, os<br />
processos que determinem o estilo. Sua estilística, como a de Bally, é ainda<br />
uma estilística da langue.<br />
Fonte: http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/E/estilistica.htm<br />
Ilustração - Fonte: http://www.anphil.org/es/node/128<br />
Benedetto Croce: foi um historiador, escritor, filósofo e político italiano<br />
(1866-1952). Os seus escritos giram em torno de um largo espectro<br />
temático, sobretudo estético e teoria/filosofia da história. É considerada uma<br />
das personalidades mais importantes do liberalismo italiano no século XX.<br />
Entre suas obras mais importantes, estão: Filosofia da Prática Econômica<br />
e da Ética (1908), Teoria e História da Historiografia (1912) e Ensaios de<br />
Estética (1991).<br />
Fonte: HUISMAN, 2000, p. 583.<br />
Ilustração - Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:B.Croce.jpg<br />
Vossler: Karl Vossler, linguista alemão nascido em Hohenheim, Stuttgart,<br />
cujos trabalhos deram notável impulso aos estudos de estilística literária, e<br />
assim, juntamente com o suíço Charles Bally, são considerados fundadores<br />
da estilística como uma ciência, no início do século XX. Iniciou-se como<br />
lente da Universidade de Heidelberg (1902), ensinou em Wurzburg (1909)<br />
e foi, por duas vezes (1911-1937 e 1945-1947), catedrático de literatura<br />
românica na Universidade de Munique, onde também foi reitor. Influenciado<br />
pelos princípios idealistas de Benedetto Croce, ganhou fama com tratados<br />
metodológicos, em que expressou sua convicção de que a evolução de<br />
uma língua reflete as transformações internas da sociedade que a usa.<br />
Em Munique, cidade onde ficou até sua morte, desenvolveu estudos sobre<br />
literatura românica centrados na análise das formas estilísticas dos grandes<br />
autores e sua relação com os modelos linguísticos de seu tempo.<br />
Fonte: http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/KarlVoss.html<br />
Ilustração - Fonte: http://www.bbaw.de/akademie/kalender/biog-pic-020-vossler.jpg<br />
66 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
Spitzer: Leo Spitzer, nascido em Viena, em 1887, lecionou em universidades<br />
alemãs de 1920 a 1933, quando, fugindo do nazismo, migrou para a Turquia<br />
e, em 1936, para os Estados Unidos, onde passou os 24 anos seguintes como<br />
professor da Universidade Johns Hopkins. Municiado da vasta erudição, que<br />
sua formação em filologia românica lhe proporcionou, e sob a influência<br />
marcante da psicanálise freudiana, Spitzer devotou-se, desde o início da<br />
carreira, a superar o divórcio entre linguística e literatura levado a efeito<br />
pela filologia positivista. Faleceu em 1960.<br />
Fonte: http://www.letras.ufmg.br/poslit/08_publicacoes_txt/er_11/er11_sap.pdf<br />
Ilustração - Fonte: http://www.vwi.ac.at/vierte-wiesenthal-lecture/img/VWI-Event_2009-05-26_02_SWL-004_<br />
Leo-Spitzer.jpg<br />
Dámaso Alonso: Dámaso Alonso y Fernández de las Redondas (Madrid,<br />
22 de outubro de 1898 — 25 de janeiro de 1990) foi um poeta, filólogo e<br />
crítico literário espanhol. Entende por estilo o que é peculiar e diferencial<br />
numa fala. Concebe a existência de três graus de conhecimento da obra: o<br />
do leitor, através de uma intuição totalizadora, que reproduziria a intuição<br />
do autor, da qual se teria originado a obra; o do crítico, como um leitor<br />
excepcional, capaz de exprimir artisticamente as intuições profundas, nítidas<br />
e totalizadoras da obra; e o da análise científica, tarefa da estilística, que, por<br />
ser científica, não atingiria a essência na obra, somente acessível à intuição.<br />
O poema, segundo Dámaso Alonso, consistiria numa sucessão temporal de<br />
sons e num conteúdo espiritual, isto é, num conjunto de significantes e<br />
de significados. O significante seria tanto um fenômeno físico, como uma<br />
imagem acústica.<br />
Fonte: http://dromossudoeste.educacional.net/pdf/literatura/o_estudo_da_literatura.pdf<br />
Ilustração - Fonte: http://sapiens.ya.com/narci3012/dama2.jpg<br />
Vico: Giambattista Vico (1668-1744) foi historiador, jurista e filósofo<br />
italiano. Foi autor de princípios de uma ciência nova acerca da natureza das<br />
nações ou Princípios da Filosofia da História (1725). Discerniu a explosiva<br />
mistura da razão com a mecânica e percebeu, através da nova ciência,<br />
que poderia trazer as mais altas percepções da Renascença para dentro da<br />
metodologia dos primeiros investigadores modernos.<br />
Fonte: HUISMAN, 2000, p.609.<br />
Ilustração - Fonte: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/7a/GiambattistaVico.jpg<br />
Humboldt: foi o filósofo alemão Guilherme Humboldt o primeiro a refletir<br />
sobre o papel da universidade. Ele lançou, em 1809, as bases para a fundação<br />
da universidade de Berlim. Isso marcou o início da reforma do sistema<br />
educacional alemão, cujo modelo propunha que a universidade voltasse a<br />
ser independente e produtora de conhecimento por meio da pesquisa. Tais<br />
fundamentos também se basearam nas reflexões dos pensadores alemães<br />
Hegel, Fichte e Schleiermacher.<br />
Fonte: http://revistaensinosuperior.uol.com.br/textos.asp?codigo=11047<br />
Letras Vernáculas<br />
67<br />
3<br />
Aula
Suas anotações<br />
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4<br />
<strong>aula</strong><br />
O FORMALISMO RUSSO: A AUTONOMIA DO LITERÁRIO<br />
Meta<br />
Objetivos<br />
Evidenciar os pressupostos teóricos do Formalismo Russo e<br />
de seus colaboradores.<br />
Ao final dessa Aula IV, você deverá estar familiarizado com o<br />
Formalismo Russo, enquanto corrente teórica, que privilegia<br />
sobremodo a obra, em detrimento do contexto de onde essa<br />
se origina.
UESC<br />
1 INTRODUÇÃO<br />
AULA 4<br />
O FORMALISMO RUSSO:<br />
A AUTONOMIA DO LITERÁRIO<br />
Ao longo desta Aula IV, estudaremos a teoria do Formalismo<br />
Russo, que prega a autonomia do literário; tendo como principais<br />
integrantes: Roman Jakobson, Boris Eikhenbaun, Wladimir Propp, B.<br />
Tomachevski, I. Tynianov, N.S. Trubetzkói e Victor Chilovski.<br />
Antes do início desta Aula IV, você deverá ter lido:<br />
• capítulo 7, especificamente, da p. 122 à p.122, de Teoria da Literatura “Revisitada” de<br />
Magaly Trindade Gonçalves e Zina C. Bellodi;<br />
• capítulo 1, especificamente, da p.26 à p.28, de Teoria Literária de Eduardo Portella, et al;<br />
• capítulo 2 de Teoria do Conto de Nádia Battella Gotlib;<br />
• livro O Enredo de Samira Nahid de Mesquita*.<br />
*As referências das obras encontram-se no final da Aula IV.<br />
Letras Vernáculas<br />
71<br />
ATENÇÃO<br />
4<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II:<br />
literatura, correntes teórico-críticas<br />
SAIBA MAIS<br />
O formalismo russo: a autonomia do literário<br />
2 FORMALISMO RUSSO<br />
Neokantianos: representantes de uma<br />
corrente reacionária na filosofia burguesa que<br />
surgiu nos meados do século XIX na Alemanha.<br />
Os neokantianos repetiam as teses mais<br />
reacionárias e idealistas da filosofia de Kant e<br />
rejeitavam os elementos do materialismo que<br />
nela havia. Sob a palavra de ordem “voltar a<br />
Kant”, os neokantianos conduziam a luta contra<br />
o materialismo dialético e histórico. Lênin<br />
apresentou uma crítica de todos os aspectos<br />
da filosofia neokantiana no livro Materialismo e<br />
Empiriocriticismo (1909).<br />
Fonte: http://www.marxists.org/portugues/dicionario/<br />
verbetes/n/neokantianos.htm<br />
O Formalismo Russo surge no início do século XX, a partir de<br />
duas associações: O Circulo Linguístico de Moscou, na Rússia, e a<br />
Associação para estudos da Linguagem Poética, Opojaz, em Praga,<br />
capital da antiga Tchecoslováquia, e foi muito<br />
influenciado pela estética das vanguardas<br />
europeias. Teve como principais integrantes<br />
Roman Jakobson, Boris Eikhenbaun, Wladimir<br />
Propp, B. Tomachevski, I. Tynianov, N. S.<br />
Trubetzkói e Victor Chilovski. Esses se opunham<br />
ao regime dominante da antiga União Soviética,<br />
sendo taxados de neokantianos por Trotsky, na<br />
medida em que contestavam o dirigismo exigido<br />
pelo partido no tratamento do literário, de cunho<br />
extrínseco. Em seus estudos, veem a literatura<br />
como um fenômeno autônomo, que necessita<br />
ser explicada por seus componentes internos, intrínsecos e não por<br />
sua gênese, sua origem, seja em relação ao contexto sócio-histórico,<br />
seja em relação à vida do escritor.<br />
Uma das principais contribuições do Formalismo Russo foi<br />
acabar com a dicotomia fundo/forma, criando um conceito<br />
dinâmico de forma, que a identifica com a unidade<br />
da obra, com um todo representativo da obra; a obra<br />
existirá enquanto forma; seus elementos não se somam –<br />
integram-se, correlacionam-se (PIRES, 1989, p. 69).<br />
A princípio, os Formalistas centraram suas análises no texto<br />
poético e definiram como função da ciência da literatura, o estudo da<br />
literariedade, o estranhamento, em seu processo de automação, de<br />
singularização dos objetos. Trata-se daquilo que confere ao poema<br />
a sua característica própria, seu traço distintivo, diferente do uso<br />
comum da língua em seu cotidiano. É o que ocorre na quadra abaixo<br />
do poema Cartas de meu avô, do livro Cinza da Horas, publicado<br />
inicialmente em 1917, constante de Poesia completa e prosa (1977),<br />
do escritor pernambucano Manuel Bandeira.<br />
O meu semblante está enxuto.<br />
Mas a alma, em gotas mansas,<br />
Chora, abismada no luto<br />
Das minhas desesperanças...<br />
Aí, o eu poético, ao atribuir aos substantivos “semblante”,<br />
“alma”, características não elencadas na unidade, que fornece o<br />
72 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
significado a essas palavras, chamada na gramática normativa de<br />
radical, semantema ou lexema, instaura o estranhamento, fazendo<br />
com que ocorra, no nível, somente do poético, a relação de sentido,<br />
antes rechaçada, porque A ≠ B; uma vez que “semblante” não pode<br />
apresentar-se “enxuto”, da mesma forma que “alma não chora”, nem,<br />
muito menos, é passível de ficar “abismada no luto,” isto é, “confinada<br />
em abismo.” Pode-se dizer, no máximo: “que alguém está com o<br />
rosto enxuto,” “que as lágrimas normalmente caem em gotas”, “que<br />
alguém chora pela morte de um ente querido” ou “que esse mesmo<br />
alguém está desesperançado, isto é, sem esperança”. Logo, o uso da<br />
literariedade, instaura a desautomação, no uso cotidiano da língua.<br />
No terceto, abaixo reproduzido, retirado de Poema das Sete<br />
Faces do poeta de Itabira, Carlos Drummond de Andrade, constante<br />
de Poesia e Prosa (1979), o eu poético obtém a literariedade de um<br />
modo bastante engenhoso. Vejamos:<br />
Quando nasci, um anjo torto<br />
Desses que vivem na sombra<br />
Disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.<br />
Como já sabemos, o princípio da literariedade diz respeito<br />
ao processo de desautomação do uso cotidiano do código linguístico.<br />
Então, o eu poético, ao usar as expressões: “anjo torto”, “vivem na<br />
sombra”, “gauche na vida”, não quer dizer que o ser, que habita o<br />
mundo dos espíritos, abaixo de Deus, para os católicos, tenha algum<br />
problema, por exemplo, na coluna vertebral, antes “torto” se refere<br />
a anjo, digamos, “mal acabado”, “fraco”, que previu o futuro do eu<br />
poético “Carlos” e que habita um lugar pouco afortunado, porque<br />
vive na “sombra”, na ausência de luz, quando deveria encontrar-se<br />
na luz, perto de Deus. “Gauche” vem da expressão adverbial francesa<br />
“à gauche”, que quer dizer, em português, “à esquerda”; ao contrário<br />
de “à droit”, “à direita”. Então, o poeta a utiliza para justificar a sua<br />
má sorte e não para se referir a uma localidade situada à esquerda.<br />
A arte, assim, encerra um fim em si mesma, a partir das escolhas<br />
feitas pelo poeta de elementos lexicais ou a disposição dos vocábulos<br />
no verso, as variações rítmicas obtidas, fazendo com que a camada<br />
fônica do poema esteja a serviço do conteúdo veiculado. Neste caso,<br />
o conteúdo só é importante porque se tornou forma, não comparado<br />
esse, entretanto, ao que é encontradiço extraliterariamente.<br />
A idéia básica do Formalismo, em sua evolução, é a<br />
proposição da ‘palavra poética’. Na poesia a palavra não<br />
é percebida simplesmente como forma transparente que<br />
remete a um objeto (denotação), nem é simples explosão<br />
Letras Vernáculas<br />
73<br />
4<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II:<br />
literatura, correntes teórico-críticas<br />
O formalismo russo: a autonomia do literário<br />
de emoções; ela é (pelo seu significado, seu arranjo com<br />
outras palavras no discurso) uma realidade que tem<br />
peso e valor próprios, adquirindo um aspecto quase de<br />
‘substância’. A palavra poética tem dois valores, pois<br />
funciona em termos de ‘signo’, isto é, serve para remeter<br />
a um conceito, mas vale também em si mesma, como<br />
sendo ela própria uma realidade (GONÇALVES; BELLODI,<br />
2005, p.120).<br />
Roman Jakobson, do Círculo Linguístico de Praga, trabalhou<br />
pela especificação da literariedade. Para tanto, ampliou as três<br />
funções da linguagem, já desenvolvidas pelo alemão Karl Bühler:<br />
função representativa, função apelativa e função de exteriorização<br />
psíquica. A primeira está centrada no referente, a segunda, no<br />
receptor e a terceira, no emissor. Jakobson a estas acrescentou a<br />
função fática, centrada no contato, a função metalinguística, no<br />
código, e, finalmente, a função poética centrada na mensagem; sendo<br />
essa última a dominante no texto literário, ainda que não exclusiva.<br />
Em um primeiro momento, os formalistas voltaram-se para<br />
a análise da poesia, em uma perspectiva sincrônica, destituída da<br />
noção de contexto literário e sócio-histórico. Contrário a essa chave,<br />
Tynjanov coloca questões ligadas à diacronia, quando pensa sobre a<br />
complexidade da História Literária e opõe-se à investigação da obra<br />
literária como um sistema reduzido ao seu microcosmo, isto é, à sua<br />
suposta independência em relação a um contexto, seja histórico, seja<br />
individual.<br />
A obra para ele é um sistema e a Literatura é um sistema<br />
também, mantendo relações de interdependência e que<br />
se ordenam para a consecução de determinada finalidade.<br />
Para o estudo da evolução literária, o conceito fundamental<br />
vai ser o de substituição de sistemas. Em tais sistemas<br />
cada elemento tem uma função (PORTELLA et al. 1991,<br />
p. 29).<br />
Função, para Tynjanov, constitui a possibilidade de um<br />
elemento entrar em correlação como elementos do mesmo sistema e,<br />
consequentemente, como o sistema inteiro. Por exemplo, uma obra<br />
literária que pertença a um determinado estilo de época entra em<br />
correlação com outras do mesmo estilo, mas essas estão inseridas<br />
em um sistema maior, seja em relação a uma literatura nacional,<br />
seja ocidental, por exemplo. E a substituição de sistema é que faz<br />
com que os estilos de época, através de determinados mecanismos,<br />
não se repitam. Assim, Tynjanov traz uma visão esquecida pelos<br />
formalistas, que é a da evolução histórica da literatura, estabelecendo<br />
74 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
correlações entre a série literária e as outras séries sociais, como<br />
forma de compreender a substituição de sistemas, tirando, assim, a<br />
literatura da dimensão isolacionista formal.<br />
Os Formalistas, depois de algum tempo, voltaram-se para<br />
a análise do texto narrativo, nas modalidades: romance, novela e<br />
conto. Deram muita importância à noção de tempo para a narrativa,<br />
além de distinguirem a fábula da intriga. A fábula vem a ser a matéria<br />
bruta, sobre a qual o escritor dá forma artística e plasma, através<br />
da intriga, o seu universo ficcional, artístico. Em outras palavras, a<br />
fábula pode ser resumida em poucas palavras, mas a intriga não.<br />
Vladimir Propp dedicou-se a estudar a morfologia dos contos<br />
populares da Rússia, desenvolvendo uma teoria inédita estruturalista,<br />
quando observou uma espécie de invariância corrente nos mesmos,<br />
em suas unidades básicas funcionais. Segundo Gonçalves e Bellodi:<br />
Através da observação de 100 contos maravilhosos, ele<br />
estabeleceu 31 funções, unidades básicas definidas,<br />
não pelas personagens nem pelos ambientes, mas por<br />
papéis que se estruturam dentro da economia narrativa.<br />
A função é definida em termos de finalidade. As 31<br />
funções explicitam todos os contos fantásticos russos.<br />
Propp estabelece que tais funções aparecem sempre<br />
na seqüência por ele descrita. Nem todas as funções<br />
aparecem em todos os contos, mas as que o fazem, em<br />
cada conto, obedecem à seqüência rígida (2005, p.136).<br />
O Formalismo Russo, pressionado pelos marxistas, teve de<br />
se extinguir em 1930. Entretanto, suas ideias se disseminaram pela<br />
Europa e pelo Ocidente, principalmente, pela publicação em francês<br />
por Tzvetan Todorov de seus estudos, em que se encarregou de<br />
perpetuar a importância do arranjo da fatura estética e, ao mesmo<br />
tempo, acentuou o papel do crítico, que, munido de método adequado,<br />
em atenção à autonomia do fenômeno artístico, deveria percorrer<br />
a obra em sua literariedade. E foram Inspirados nas vanguardas<br />
européias e na linguística estrutural, que desenvolvem seu método<br />
crítica literária.<br />
No ANEXO II, você encontrará, de forma detalhada, a<br />
proposta de análise do texto narrativo, baseada no uso das funções,<br />
propostas por Vladimir Propp.<br />
Filmes<br />
Os filmes indicados abaixo vinculam-se, por suas temáticas,<br />
ao conteúdo estudado nesta Aula IV. Nesta, chamamos atenção, logo<br />
Letras Vernáculas<br />
LEITURA RECOMENDADA<br />
Saiba mais sobre Tynjanov em:<br />
Fonte:http://www2.fcsh.unl.pt/<br />
edtl/verbetes/C/convencao_<br />
literaria.htm<br />
75<br />
4<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II:<br />
literatura, correntes teórico-críticas<br />
O formalismo russo: a autonomia do literário<br />
no início, para o fato de os formalistas russos terem sofrido influência<br />
das vanguardas, na medida em que essas revolucionaram a mímesis,<br />
modo de representar, esteticamente, a chamada realidade; dando<br />
total autonomia ao artista. O desenvolvimento das vanguardas<br />
europeias do século 20 está intimamente relacionado aos artistas da<br />
geração anterior, que abriram caminho para as gerações seguintes.<br />
Os expressionistas, os impressionistas, os pós-impressionistas, os<br />
surrealistas, e até mesmo os realistas foram os verdadeiros pioneiros<br />
das transformações artísticas, que marcariam a arte moderna. O<br />
grupo da Rússia, ao pregar a autonomia da fatura estética, pensou<br />
em um método de análise, que privilegiou não a realidade evocada,<br />
mas os recursos de que se valeram o artista, isto é, todos os recursos<br />
próprios do artístico, como os fônicos, sintáticos e semânticos,<br />
visando ao encontro da literariedade.<br />
Assim, os filmes O gabinete do Doutor Caligari (1919) centra-<br />
se, no expressionismo alemão, uma das vanguardas européias<br />
das mais importantes e Um cão andaluz (1928) baseia-se em um<br />
sonho do pintor do surrealismo Salvador Dali, nascido na Catalúnia,<br />
Espanha, mas radicado na França.<br />
O GABINETE DO DOUTOR CALIGARI<br />
Direção: Robert Wiene. Com Werner Krauss<br />
e Conrad Veidt.<br />
http://www.webcine.com.br/filmessc/drcaliga.htm<br />
UM CÃO ANDALUZ<br />
Direção: Luis Buñel. Roteiro: Salvador Dalí.<br />
Com Luis Buñel, Salvador Dali e Jeanne Rucas.<br />
h t t p : / / a n a m o r f o s e s . b l o g s p o t .<br />
com/2006/08/um-co-andaluz-1928.html<br />
76 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
ATIVIDADE<br />
1. Como a literatura é vista pelos formalistas russos?<br />
2. O que é a literariedade?<br />
3. Identifique funções da linguagem nos fragmentos abaixo reproduzidos, de acordo<br />
com Jakobson:<br />
a) Lucília: (Avança na direção do pai) Não! Isso não! Papai! Proteste, grite, fale<br />
alguma coisa. Não fique assim! Não fique assim, pelo amor de Deus!<br />
Helena: Lucília! (Jorge Andrade)<br />
b) “De tudo, ao meu amor serei atento<br />
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto<br />
Que mesmo em face do maior encanto<br />
Dele se encante mais meu pensamento.” (Vinicius de Moraes)<br />
c) “Porém já cinco Sóis eram passados<br />
Que dali nos partíramos, cortando<br />
Os mares nunca d’ outrem navegados,<br />
Prosperamente os ventos assoprando,<br />
Quando ua noute, estando descuidados<br />
Na cortadora proa vigiando,<br />
Ua nuvem que os ares escurece<br />
Sobre nossas cabeças aparece.” (Luís de Camões )<br />
d) “ Com a lâmpada do Sonho desce aflito<br />
e sobe aos mundos mais imponderáveis,<br />
vai abafando as queixas implacáveis,<br />
da alma o profundo e soluçado grito.” (Cruz e Sousa)<br />
4. Qual a diferenças entre fábula e intriga para os formalistas?<br />
5. Em que medida Tynjanov se distancia, em sua abordagem do fenômeno literário, dos<br />
outros formalistas russos?<br />
6. Por que a abordagem feita por Vladimir Propp dos contos populares russos pode ser<br />
considerada estruturalista?<br />
7. Os formalistas hoje são criticados pelo excesso de formalismo na abordagem do<br />
literário, devido ao fato de desprezarem o conteúdo veiculado na obra, seja de cunho<br />
individual, seja coletivo. Isto procede?<br />
8. Explique o princípio de literariedade, de estranhamento, na estrofe abaixo:<br />
Letras Vernáculas<br />
77<br />
4<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II:<br />
literatura, correntes teórico-críticas<br />
R E F E R Ê N C I A S<br />
O formalismo russo: a autonomia do literário<br />
Vozes veladas, veludosas vozes,<br />
Volúpias dos violões, vozes veladas,<br />
Vagam nos velhos vórtices velozes<br />
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas<br />
(Cruz e Sousa)<br />
9. Qual a importância de Tzvetan Todorov para os estudos formalistas?<br />
Ao longo desta Aula IV, estudamos a teoria Formalismo Russo,<br />
que privilegia a obra como uma fatura estética autônoma, em detrimento<br />
do contexto de onde essa se origina. Seus principais integrantes Roman<br />
Jakobson, Boris Eikhenbaun, Wladimir Propp, B. Tomachevski, I. Tynianov,<br />
N.S. Trubetzkói e Victor Chilovski.<br />
RESUMINDO<br />
ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia e Prosa. Volume único.<br />
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1979.<br />
ANDRADE, Jorge. A moratória. Rio de Janeiro: Agir, 2000.<br />
BANDEIRA, Manuel. Poesia completa e prosa. Volume único. Rio<br />
de Janeiro: Nova Fronteira, 1977.<br />
CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. Lisboa: Rei dos Livros, 2002.<br />
CRUZ E SOUSA. Obra composta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar,<br />
1995.<br />
GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina. C. Teoria da<br />
Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.<br />
GOTLIB, Nádia Battella. Teoria do Conto. São Paulo: Ática, 1999.<br />
MESQUITA, Samira Nahid. O Enredo. São Paulo: Ática, 1994.<br />
MORAES, Vinicius de. Poesia completa e Prosa. Volume único. Rio<br />
de Janeiro: Nova Aguilar, 1980.<br />
PIRES, Orlando. Manual de Teoria e Técnica Literária. Rio de<br />
Janeiro: Presença, 1989.<br />
PORTELLA, Eduardo et al. Teoria Literária. Rio de Janeiro: Tempo<br />
Brasileiro, 1991.<br />
78 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
LEITURA RECOMENDADA<br />
GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina. C. Teoria da Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.<br />
GOTLIB, Nádia Battella. Teoria do Conto. São Paulo: Ática, 1999.<br />
MESQUITA, Samira Nahid. O Enredo. São Paulo: Ática, 1994.<br />
PORTELLA, Eduardo et al. Teoria Literária. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1991.<br />
Letras Vernáculas<br />
ANEXO I<br />
Tzvetan Todorov: é um filósofo e linguista búlgaro, radicado na<br />
França, desde 1963, em Paris. Após completar seus estudos, passou a<br />
frequentar então os cursos de Filosofia da Linguagem, ministrados por<br />
Roland Barthes, um dos grandes teóricos do Estruturalismo. Todorov<br />
foi professor da École Pratique de Hautes Études e na Universidade de<br />
Yale, além de Diretor do Centro Nacional de Pesquisa Científica de Paris<br />
(CNRS). Atualmente, é Diretor do Centro de Pesquisa sobre as Artes<br />
e a Linguagem da mesma cidade. Publicou um número considerável<br />
de obras, que estão traduzidas em vinte e cinco idiomas, na área de<br />
pesquisa linguística e da teoria literária.<br />
Fonte: http://www.editorabarcarolla.com.br/nossos-autores/tzvetan-todorov<br />
Ilustração - Fonte: http://ilmestieredileggere.files.wordpress.com/2009/02/tzvetan-todorov.jpg<br />
79<br />
4<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II:<br />
literatura, correntes teórico-críticas<br />
O formalismo russo: a autonomia do literário<br />
ANEXO II<br />
PANDOLFO, Maria do Carmo. Análise da Narrativa. In: Eduardo<br />
Portella et al, Teoria Literária. Rio de Janeiro: Tempo<br />
Brasileiro,1991, p.131-139.<br />
80 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
Letras Vernáculas<br />
81<br />
4<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II:<br />
literatura, correntes teórico-críticas<br />
O formalismo russo: a autonomia do literário<br />
82 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
Letras Vernáculas<br />
83<br />
4<br />
Aula
Suas anotações<br />
______________________________________________________________<br />
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_________________________________________________________________<br />
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Meta<br />
Objetivos<br />
O NEW CRITICISM:<br />
Ao final desta Aula V, você deverá apreender os pressupostos<br />
teóricos do New Criticism.<br />
5<br />
<strong>aula</strong><br />
A VISÃO IMANENTISTA DA OBRA LITERÁRIA<br />
Evidenciar a corrente teórica New Criticism, que, como o Formalismo<br />
Russo, valoriza a obra literária em uma perspectiva<br />
autônoma, imanentista.
UESC<br />
AULA 5<br />
O NEW CRITICISM:<br />
A VISÃO IMANENTISTA DA OBRA LITERÁRIA<br />
1 INTRODUÇÃO<br />
Nesta <strong>aula</strong>, vamos abordar a corrente teórica New Criticism,<br />
que, como o Formalismo Russo, valoriza a obra literária em uma<br />
perspectiva autônoma, imanentista.<br />
Antes do início desta <strong>aula</strong>, você deverá ter lido:<br />
capítulo 7, especificamente, da p. 122 à p.129, de Teoria da Literatura “revisitada”, de Maria<br />
Magaly Trindade Gonçalves e Zina. C. Bellodi;<br />
capítulo 5, especificamente, da p.81 à p. 82, de Novo manual de teoria literária, de Roger<br />
Samuel;<br />
capítulo A Teoria Literária no século XX, especificamente, da p.47 à p.49, de Teoria da Literatura<br />
de A. Kibédi Varga.*<br />
*As referências das obras encontram-se no final da Aula V.<br />
Letras Vernáculas<br />
87<br />
ATENÇÃO<br />
5<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II:<br />
literatura, correntes teórico-críticas<br />
O new criticism: a visão imanentista da obra literária<br />
2 NEW CRITICISM<br />
O New Criticism surgiu nos Estados Unidos, na década de 30 do<br />
século passado, mas se consolidou somente nos anos 40 e 50, deste<br />
mesmo século, a partir da publicação da obra do poeta e crítico John<br />
Crowe Ransom, The new criticism (1941), voltado para a obra crítica<br />
dos poetas T. S. Eliot, I. A. Richards e Yvor Winter. Como as correntes<br />
críticas: Estilística e o Formalismo Russo, o New Criticism combateu<br />
a visão extrínseca de abordar o fenômeno literário, comprometida,<br />
ora com o historicismo, de cunho positivista, ora impressionista,<br />
praticada, principalmente em jornais, sem um método específico de<br />
análise.<br />
A chave para o entendimento do New Criticism é a estrutura, bem<br />
próxima, portanto, do Formalismo Russo, por ter levado às últimas<br />
consequências a autonomia do literário. Eliot faz a distinção entre<br />
documento e monumento, ao defender o primeiro como característica<br />
da obra de arte:<br />
Na concepção de Eliot, a literatura consiste numa<br />
série de ‘monumentos’ (Eliot, 1920, p. 50) à qual<br />
uma obra nova pode ser adicionada, o que vai<br />
alterar levemente a tradição no seu conjunto. Os<br />
‘monumentos’ em si permanecem intactos, apesar<br />
da adição referida. Quanto ao papel do leitor, Eliot<br />
não o considera (VARGA, s/d, p.49).<br />
Nesta concepção de Eliot, a obra não é documento, mas<br />
monumento, isto é, ela vale por si mesma. A abordagem extrínseca,<br />
por outro lado, prioriza dados históricos, biográficos e sociológicos<br />
encontráveis no artístico.<br />
A leitura crítica defendida deve ser de modo imanentista<br />
(close reading), indutiva, a partir da obra em sua totalidade. A obra<br />
literária não precisa se voltar para o mundo empírico, quantificável,<br />
ainda que do poeta, enquanto sujeito autoral, espera-se que vá à<br />
rua, converse com os amigos, faça compras e as pague, como um<br />
bom cidadão.<br />
Na poesia, por exemplo, o eu poético, uma instância<br />
ficcionalizada, cria um mundo evocado, que não corresponde, de fato,<br />
àquele encontradiço na esquina. E Maria Magaly Trindade Gonçalves<br />
e Zina Bellodi, em Teoria da Literatura “revisitada” (2005), defendem<br />
que:<br />
A análise é um processo de exploração dentro<br />
do poema. Mas o ato criador do poeta também é<br />
88 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
uma atividade exploratória. E o papel do crítico<br />
é fazer a sua exploração. A velha idéia que se<br />
tinha de que o poeta era um comunicador; o New<br />
Criticism, ao contrário, volta-se para a criação do<br />
poeta, focalizando exclusivamente a ela. Há aí um<br />
radicalismo, até compreensível, mas evidente. O<br />
poema é uma experiência total, e é ela que o crítico<br />
deve investigar, não a que é descrita no poema<br />
(2005, p.125-126).<br />
Então, o movimento de valsa, como consta do poema abaixo<br />
reproduzido do poeta romântico brasileiro Casimiro de Abreu, de As<br />
primaveras (1972), não se trata de um documento, com número de<br />
registro, de quando algo aconteceu, como, por exemplo, uma certidão<br />
de nascimento ou de casamento.<br />
A Valsa<br />
Tu, ontem,<br />
Na dança<br />
Que cansa,<br />
Voavas<br />
Co’as faces<br />
E rosas<br />
Formosas<br />
De vivo,<br />
Lascivo<br />
Carmim;<br />
Na valsa,<br />
Tão falsa,<br />
Corrias,<br />
Fugias,<br />
Ardente,<br />
Contente,<br />
Tranqüila,<br />
Serena,<br />
Sem pena.<br />
O “ontem”, de que o eu poético fala, não é aquele marcado pelo<br />
calendário gregoriano. Esse pouco importa para a fruição estética,<br />
para o prazer experimentado pelo crítico ou pelo leitor. Logo, é<br />
possível falar de monumento, de fatura estética plena de autonomia.<br />
E a leitura crítica defendida deve ser de modo imanentista, (close<br />
reading), indutiva, a partir da obra em sua totalidade.<br />
Letras Vernáculas<br />
Imanentista: que diz<br />
respeito ao imanentismo,<br />
que é próprio de algo,<br />
com suas características<br />
peculiares. Em relação<br />
ao texto literário, tratase<br />
da crítica que vê a<br />
literatura como capaz de<br />
produzir sentido, de forma<br />
autônoma, sem depender<br />
do contexto, seja aquele<br />
evocado na obra, seja o das<br />
condições de leitura.<br />
Close reading: ou leitura<br />
analítica minuciosa do<br />
texto, que é assumido como<br />
um meio de realização<br />
linguística autônomo em<br />
relação a quaisquer fatores<br />
extrínsecos, cujo processo<br />
artístico de construção pode<br />
ser revelado pela análise<br />
técnica.<br />
Fonte: http://www2.fcsh.unl.<br />
pt/edtl/verbetes/E/escola_<br />
cambridge.htm<br />
89<br />
5<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II:<br />
literatura, correntes teórico-críticas<br />
Extrínseco: que é exterior;<br />
não pertencente à essência<br />
de uma coisa. [Antôn.:<br />
intrínseco.].<br />
Fonte: Novo Dicionário Aurélio<br />
da Língua Portuguesa<br />
O new criticism: a visão imanentista da obra literária<br />
Por isso é que Renée Wellek defende que a literatura se utilize,<br />
como meio de expressão, de uma instituição social linguística. E<br />
Roger Samuel, em Novo manual de teoria literária (2005), afirma,<br />
confirmando a posição do primeiro:<br />
Para Wellek, a literatura consiste numa instituição<br />
social que utiliza, como meio de expressão, a<br />
instituição social lingüística. Os próprios processos<br />
literários, como a métrica e os símbolos, têm<br />
natureza social, são convenções e normas sociais.<br />
A literatura representa a vida social, além da vida<br />
subjetiva (que também é social). O próprio poeta é<br />
membro da sociedade e possui uma condição social<br />
específica, que recebe um certo grau de consideração<br />
e recompensa (SAMUEL, 2005 p. 82).<br />
Ou seja, as instituições estéticas: categorias gramaticais, a<br />
imagística, o uso conotativo das palavras, a expressividade no nível<br />
fonológico, morfológico e sintático, o ritmo, a harmonia, as técnicas<br />
de composição de um romance, com seus temas, a caracterização dos<br />
personagens, e outras são antes, elementos sociais e utilizados pelo<br />
artista em função de uma comunidade. Wellek, ainda que defenda<br />
a utilidade da literatura, por sua dimensão de cultura, não vê a sua<br />
existência explicável pelos dados extrínsecos que lhe dão origem.<br />
A Literatura é autônoma porque realiza uma forma própria de<br />
conhecimento que não se confunde com as demais, utilizando para<br />
isso a língua de uma maneira própria, criando estruturas que não se<br />
identificam com quaisquer outras (PORTELLA et al, 1991, p. 31).<br />
Como o New Criticism despreza a historicidade da obra<br />
literária, sua predileção voltou-se para a poesia lírica, em detrimento<br />
do romance, ou do drama, por exemplo, muito mais susceptíveis ao<br />
histórico. Assim, a obra literária só exercerá a sua função específica<br />
porque se utiliza, em primeiro lugar, da sua função estética.<br />
O Prof. Afrânio Coutinho, na década de 50 do século<br />
passado, trouxe para o Brasil o New Criticism, que serviu de base<br />
para a sistematização da disciplina acadêmica Teoria da Literatura,<br />
empreendendo mudanças significativas nos currículos dos cursos de<br />
Letras, com a sistematização do conteúdo pertinente a essa área de<br />
conhecimento. Em suas Notas de Teoria Literária (1977), defende a<br />
autonomia da literatura, bem ao gosto do New Criticism e das teorias<br />
mais recentes, que o antecederam, como a Estilística, o Formalismo<br />
Russo e o Estruturalismo.<br />
A Literatura é um fenômeno estético. É uma arte, a<br />
arte da palavra. Não visa ensinar, doutrinar, pregar,<br />
90 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
documentar. Acidentalmente, secundariamente,<br />
ela pode fazer isso, pode conter história, filosofia,<br />
ciência, religião. [...] Mas o seu valor e significado<br />
residem não neles, mas em outra parte, no seu<br />
aspecto estético-literário, que lhe é comunicado<br />
pelos elementos específicos, componentes de sua<br />
estrutura, e pela finalidade precisa de despertar no<br />
leitor o tipo especial de prazer, que é o sentimento<br />
estético (COUTINHO, 1976, p. 8).<br />
Este raciocínio de Afrânio Coutinho é tributário de Aristóteles,<br />
para quem a literatura se detém naquilo que poderia ter acontecido,<br />
enquanto a história, no que aconteceu. Evidentemente que hoje,<br />
com os ganhos do Pós-Estruturalismo, dos Estudos Culturais, do<br />
Pós-Colonialismo, do Feminismo e Pós-feminismo e da Análise do<br />
Discurso, o sentido de verdade passou a ser revisto. Algumas dessas<br />
teorias serão abordadas na Aula VIII desta disciplina, em questão:<br />
Introdução aos Estudos Literários II: Literatura, Correntes Teórico-<br />
Críticas.<br />
ATIVIDADE<br />
1. Os escritos teóricos do poeta Eliot serviram de base para as propostas do New Criticism.<br />
De acordo com o que foi visto na Aula VII, quais foram essas, em linhas gerais?<br />
2. É possível atribuir à noção de monumento, defendida por Eliot, como algo ligado à<br />
transcendência do literário?<br />
3. O que é a leitura imanentista, o close reading, para o New Criticism?<br />
4. Aplique o conceito acima desenvolvido nos fragmentos do poeta maranhense Gonçalves<br />
Dias:<br />
Minha Vida e Meus Amores<br />
Quando, no albor da vida, fascinado<br />
Com tanta luz e brilho e pompa e galas,<br />
Vi o mundo sorrir-me esperançoso:<br />
Letras Vernáculas<br />
Mon Dieu, fais que je puisse aimer!<br />
- Meu Deus, disse entre mim! Oh! Quanto é doce,<br />
Quanto é bela esta vida assim vivida!-<br />
Agora, logo, aqui, além notando<br />
Uma pedra, uma flor, uma lindeza,<br />
Um seixo da corrente, uma conchinha<br />
À beira-mar colhida!<br />
LEITURA RECOMENDADA<br />
GONÇALVES, Maria Magaly<br />
Trindade; BELLODI, Zina.<br />
C. Teoria da Literatura<br />
“revisitada”. Petrópolis:<br />
Vozes, 2005.<br />
SAMUEL, Roger. Novo<br />
manual de teoria literária.<br />
Petrópolis: Vozes, 2002.<br />
VARGA, A. Kibédi. Teoria<br />
da Literatura. Tradução<br />
de Tereza Coelho. Lisboa:<br />
Editorial Presença, s/d.<br />
91<br />
5<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II:<br />
literatura, correntes teórico-críticas<br />
O new criticism: a visão imanentista da obra literária<br />
Foi esta a infância minha; a juventude<br />
Falou-me ao coração: - amemos, disse,<br />
Porque amar é viver.<br />
E esta era linda, como é linda a aurora<br />
No fresco da manhã tingindo as nuvens<br />
De rósea cor fagueira;<br />
Aquela tinha um quê de anelos meigos<br />
Artífice sublime;<br />
Feiticeiro sorrir dos lábios d’ela<br />
Prendeu-me o coração; - julguei-o ao menos,<br />
5. Explique a seguinte afirmação feita anteriormente, nesta unidade:<br />
Como o New Criticism despreza a historicidade da obra literária, sua predileção voltou-se<br />
para a poesia lírica, em detrimento do romance, ou do drama, por exemplo, muito mais<br />
susceptíveis ao histórico.<br />
6. O Prof. Afrânio Coutinho trouxe para o Brasil o New Criticism, na década de 50, do século<br />
R E F E R Ê N C I A S<br />
passado e defende a autonomia do literário. A partir do que foi dito na unidade, disserte<br />
acerca desse posicionamento.<br />
3 RESUMO<br />
RESUMINDO<br />
Nesta Aula V, estudamos a corrente teórica New Criticism, que, como<br />
o Formalismo Russo, valoriza a obra literária em uma perspectiva<br />
autônoma, imanentista.<br />
4 REFERÊNCIAS<br />
ABREU, Casimiro de. As Primaveras. São Paulo: Martins; Instituto<br />
Nacional do Livro, 1972.<br />
COUTINHO, Afrânio. Notas de Teoria Literária. Rio de Janeiro:<br />
Civilização Brasileira, 1976.<br />
DIAS, Gonçalves. Poesias Completas. Rio de Janeiro: Edições de<br />
Ouro, 1968.<br />
GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina. C. Teoria da<br />
Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.<br />
SAMUEL, Roger. Novo manual de teoria literária. Petrópolis: Vozes,<br />
2002.<br />
VARGA, A. Kibédi. Teoria da Literatura. Tradução de Tereza Coelho.<br />
Lisboa: Editorial Presença, s/d.<br />
92 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
John Crowe Ransom: foi um poeta e ensaista norte-americano representante do New<br />
Criticism e membro do grupo Fugitive Group, ligado às tradições sulistas dos EUA. Suas<br />
principais obras são Chills and fever, de 1924 e The new criticism, de 1941. John C.<br />
Ransom, em seu ensaio intitulado Criticism, Inc, traça os aspectos mais relevantes do New<br />
Criticism. Rejeita completamente todo tipo de crítica impressionista, pois o impressionismo<br />
preocupa-se com o efeito da obra sobre o sujeito, enquanto a crítica autêntica deve<br />
preocupar-se com o objeto.<br />
Fonte: http://www.babylon.com/definition/John_Crowe_Ransom/<br />
Ilustração - Fonte: http://famouspoetsandpoems.com/poets/john_crowe_ransom<br />
Eliot: Thomas Stearns Eliot nasceu em Saint Louis, Missouri, Estados Unidos, a 26 de<br />
setembro de 1888, e faleceu em Londres, com 76 anos de idade, a 4 de janeiro de 1965.<br />
Descendentes de emigrantes ingleses que, em meados do século XVIII, se estabeleceram<br />
em Massachusetts, Nova Inglaterra, os Eliot estiveram desde sempre fundamente<br />
vinculados às tradições da Igreja Unitária, destacando-se ainda por sua intensa atividade<br />
cultural. O mais notável dentre tais antepassados foi o Reverendo Andrew Eliot ( 1718-78),<br />
ministro da Igreja Congregacionalista e quase reitor da Universidade de Harvard, cargo<br />
que não assumiu por deliberação voluntária. Cerca de dois séculos, transcorreram até que<br />
o primeiro dos Eliot se transferisse para o Missouri. Foi ele o Reverendo William Greenleaf<br />
Eliot (1811-87), avô do poeta e fundador da Igreja Unitária de St. Louis, bem como<br />
da Universidade de Washington, de que se tornou depois presidente. William Greenleaf<br />
distinguiu-se ainda por seu papel na Guerra de Secessão, quando pugnou pelos ideais<br />
federativos dos Estados do Norte, e pelos diversos opúsculos didático-morais que publicou.<br />
Fontes: http://www.culturapara.art.br/opoema/tseliot/tseliot_db.htm<br />
Richards: o inglês Ivor Armstrong Richards (1893 - 1979) foi crítico literário e de retórica.<br />
Seus livros, especialmente The Meaning, The Meaning, Principles of Literary Criticism e<br />
Philosphy of rhetoric têm forte influência do New Criticism, literário moderno. Richards é<br />
considerado um dos fundadores do comparativismo da literatura de inglesa.<br />
Fonte: http://www.worldlingo.com/ma/enwiki/pt/I._A._Richards<br />
Ilustração - Fonte: http://www.nndb.com/people/047/000117693/<br />
Afrânio Coutinho: (1911 - 2000). Em 1942, foi para os Estados Unidos e, durante cinco<br />
anos, freqüentou cursos na Universidade de Columbia e em outras universidades norte-<br />
americanas, aperfeiçoando-se em crítica e história literária. Na Faculdade de Filosofia<br />
do Instituto Lafayette, criou, em 1951, a cadeira de Teoria e Técnica Literária, primeira<br />
iniciativa do gênero no Brasil, e, em 1965, a Faculdade de Letras da Universidade Federal<br />
do Rio de Janeiro. Foi empossado em 1962 na cadeira 33 da Academia Brasileira de Letras.<br />
Seus ensaios iniciam uma militância em prol da renovação da crítica literária brasileira.<br />
Propagador das novas idéias do New Criticism norte-americano e do movimento formalista<br />
eslavo, ele propõe uma completa reformulação da atividade crítica, que deixa de ser o<br />
mero comentário de livros isolados e se torna uma disciplina de aspirações científicas e<br />
metodológicas, dispensando a improvisação e o amadorismo reinantes. Apesar de ser<br />
inicialmente contestada, a obra de Afrânio Coutinho representa um verdadeiro marco no<br />
pensamento crítico brasileiro, introduzindo uma nova compreensão da literatura. Entre<br />
suas produções, estão: Por uma Crítica Estética (1953); A literatura no Brasil (Org.)<br />
(1955), Da Crítica e da Nova Crítica (1957); Euclides, Capistrano e Araripe (1965);<br />
Conceito de Literatura Brasileira (1960); Antologia Brasileira de Literatura (1965); A<br />
Tradição Afortunada (1968); Crítica e Críticos (1969); Caminhos do Pensamento Crítico<br />
(1974); O Erotismo na Literatura (1979); O Processo de Descolonização Literária (1983);<br />
Crítica e Teoria Literária (1984); Enciclopédia da Literatura Brasileira (1990); Do Barroco<br />
(1984).<br />
Letras Vernáculas<br />
ANEXO 1<br />
Fonte: http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=3733&sid=531&tpl=printerview<br />
Ilustração - Fonte: http://www.ucm.es/info/especulo/numero41/coutinh1.jpg<br />
93<br />
5<br />
Aula
Suas anotações<br />
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Meta<br />
Objetivos<br />
6<br />
<strong>aula</strong><br />
Apresentar a corrente teórica Estruturalismo, oriunda do<br />
suíço Ferdinand de Saussure, que, quando transposto para<br />
o entendimento da obra literária, prioriza a sua rede de<br />
significância.<br />
O ESTRUTURALISMO<br />
Ao final desta Aula VI, você deverá identificar os pressupostos<br />
teóricos do Estruturalismo.
UESC<br />
1 INTRODUÇÃO<br />
AULA 6<br />
O ESTRUTURALISMO<br />
Nesta Aula VI, vamos nos deter no Estruturalismo, que segue<br />
a tendência do cientificismo corrente, quando reduz o texto a uma<br />
rede de significância e prioriza a langue, em sua abstração coletiva de<br />
uso. Entre os principais representantes, estão A. J. Greimas, Tzvetan<br />
Todorov e Gérard Genette.<br />
Antes do início desta Aula VI, você deverá ter lido:<br />
• o capítulo 3, de Teoria da Literatura: Uma Introdução, de Terry Eagleton;<br />
• o capítulo 7, especificamente, da p.129 à p. 144, de Teoria da Literatura “revisitada”, de<br />
Maria Magaly Trindade Gonçalves e Zina. C. Bellodi;<br />
• o capítulo 5, especificamente, da p. 82 à p. 83, de Novo manual de teoria literária de<br />
Roger Samuel*.<br />
*As referências das obras encontram-se no final da Aula VI.<br />
Letras Vernáculas<br />
97<br />
ATENÇÃO<br />
6<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />
2 ESTRUTURALISMO<br />
O estruturalismo<br />
O Estruturalismo começa com Ferdinand Saussure, a partir<br />
da publicação, em 1916, do Curso de linguística geral, compilado<br />
por seu genro e discípulo Charles Bally. Saussure vai dizer que o<br />
código linguístico, dividido entre langue, enquanto sistema coletivo,<br />
e parole de uso individual, constitui um sistema, uma estrutura,<br />
cujos elementos só significam na relação estabelecida com o todo;<br />
assim, para haver linguagem é necessário que o significante (cadeia<br />
fônica) e o significado (conteúdo) do signo estejam em relação de<br />
interdependência. Mas é com o Circulo Linguístico de Praga que o<br />
vocábulo estrutura ganha destaque com Mukarovsky, quando fala<br />
de “estrutura melódica”, “estruturas rítmicas”, “estruturas fônicas”,<br />
“estruturas sintáticas” e “estrutura de conteúdo”.<br />
Em consonância com a noção de estrutura literária de<br />
Mukarovsky e outras noções coincidentes ou afins, a crítica<br />
estruturalista será aquela crítica empenhada em descrever,<br />
de modo imanente e com rigor analítico, as relações<br />
instituídas entre os vários elementos componentes de<br />
um dado texto literário e que configuram especificamente<br />
a estrutura desse texto, ignorando propositadamente<br />
problemas de história literária, de erudição bibliográfica,<br />
de interpretação psicologista, etc. (SILVA, 1975, p. 655).<br />
Mukarovsky vê o texto literário como signo, e, ao mesmo<br />
tempo, como uma estrutura de signos e se distingue em dois aspectos:<br />
como artefato (significante) e como objeto estético (significado).<br />
O Estruturalismo segue a tendência do cientificismo corrente,<br />
quando reduz o texto a uma rede de significância e prioriza a langue,<br />
em sua abstração coletiva de uso, sob a justificativa de se debruçar<br />
sobre a estrutura do próprio signo para que esse fosse melhor<br />
observado. Maria Magaly Trindade Gonçalves e Zina C. Bellodi em<br />
Teoria da Literatura “revisitada”(2005), chamam a atenção para a<br />
noção de estrutura, quando se fala de texto literário:<br />
No que se refere à Literatura está mais ou menos claro que<br />
a obra é uma estrutura, um todo orgânico, um sistema<br />
de relações, de tal forma que qualquer alteração imposta,<br />
por exemplo, a um elemento qualquer de um romance<br />
significa alteração na obra toda (GONÇALVES; BELLODI,<br />
2005, p. 131).<br />
O estruturalismo padece do extremo cientificismo a que<br />
se impõe, tornando, muitas vezes, a análise de uma obra literária<br />
98 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
como se fosse uma intervenção cirúrgica à procura de uma base de<br />
significância encontrável em todas as obras. É o que afirma Terry<br />
Eagleton em Teoria da Literatura: Uma Introdução:<br />
A obra não se refere a um objeto, nem é a expressão de<br />
um sujeito individual; ambos são eliminados, e o que resta,<br />
pendendo no ar entre eles, é um sistema de regras. Esse<br />
sistema possui existência autônoma, e não se inclinará às<br />
intenções individuais (EAGLETON, 1997, p.154).<br />
Na análise estrutural, reproduzida a seguir, empreendia por<br />
Anazildo Vasconcelos da Silva, constante de sua obra Lírica Modernista<br />
e Percurso Literário Brasileiro (1978), as palavras de Terry Eagleton,<br />
reproduzidas acima, tornam-se bastante elucidadas.<br />
Adormecida<br />
Uma noite, eu me lembro... Ela dormia<br />
Numa rede encostada molemente...<br />
Quase aberto o roupão... solto o cabelo,<br />
E o pé descalço do tapete rente.<br />
‘Stava aberta a janela. Um cheiro agreste<br />
Exalavam as silvas da campina...<br />
E ao longe, num pedaço do horizonte...<br />
Via-se a noite plácida e divina.<br />
De um jasmineiro os galhos encurvados,<br />
Indiscretos entravam pela sala,<br />
E de leve oscilando ao tom das auras,<br />
Iam na face trêmulos - beijá-la.<br />
Era um quadro celeste... A cada afago,<br />
Mesmo em sonhos a moça estremecia...<br />
Quando ela serenava... a flor beijava-a .<br />
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia .<br />
Dir-se-ia que naquele doce instante<br />
Brincavam duas cândidas crianças...<br />
A brisa, que agitava as folhas verdes,<br />
Fazia-lhe ondear as negras tranças.<br />
E o ramo ora chegava, ora afastava-se...<br />
Mas quando a via despertada a meio,<br />
Pra não zangá-la... sacudia alegre<br />
Uma chuva de pétalas no seio...<br />
Eu, fitando esta cena, repetia<br />
Naquela noite lânguida e sentida:<br />
- Ó flor, tu és a virgem das campinas...<br />
Letras Vernáculas<br />
99<br />
6<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />
O estruturalismo<br />
Virgem, tu és a flor de minha vida...<br />
Para facilitar a análise, vamos dividir o poema em três<br />
segmentos, considerando o primeiro segmento constituído pelas duas<br />
estrofes iniciais o segundo constituído pelas estrofes três, quatro,<br />
cinco e seis; e o terceiro, pela última estrofe.<br />
No primeiro segmento, o eu lírico propõe os elementos ainda<br />
dissociados em seus contextos, mediante o afastamento espacial<br />
referenciado por “janela” que permite distinguir o dentro (Mulher)<br />
e o fora (Natureza). Só o dentro aparece no campo visualizado,<br />
possibilitando a percepção de detalhes mínimos (“quase aberto o<br />
roupão/ pé descalço”), enquanto o fora permanece visualmente velado<br />
pela “noite”, marcando a presença de seus elementos olfativamente<br />
(“Um cheiro agreste/exalavam as silvas da campina”). Assim, além<br />
da distinção espacial dos elementos, marcada pelo dentro e pelo fora,<br />
há também a distinção em relação ao campo visualizado, velamento/<br />
fora x desvelamento/dentro.<br />
100 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
No segundo segmento, os elementos do espaço fora penetram<br />
o espaço dentro e, desse modo, ingressam no campo visualizado,<br />
dando início a um processo de desvelamento que vai de “silvas”, em<br />
gradação, até “pétalas”:<br />
silvas → jasmineiro → flor → pétala<br />
Como o desvelamento se faz no espaço da mulher, o dentro,<br />
o elemento “flor” e visualizado numa relação de equivalência ao<br />
elemento mulher, que vai permitir ao observador aproximá-las: (“dir-<br />
se-ia que naquele doce instante/brincavam duas cândidas crianças”).<br />
A identificação flor/mulher ocorre em função da combinação de<br />
elementos no espaço contextual dentro. Assim, o processo de<br />
aproximação/afastamento (“quando serenava a flor beijava-a/quando<br />
ela ia beijar-lhe a flor fugia”) referencia tanto o desvelamento quanto<br />
a combinação contextual dos elementos. O desvelamento se faz pela<br />
penetração da natureza no campo visualizado (“De um jasmineiro<br />
os galhos/indiscretos entravam pela sala”) da sala, o espaço dentro.<br />
E a combinação dos elementos se faz mediante a neutralização da<br />
distinção espacial dentro/fora (“Era um quadro celeste”), em que se<br />
acentua o traço da unidade “um quadro” e da plenificação combinatória<br />
“celeste”<br />
Letras Vernáculas<br />
101<br />
6<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />
O estruturalismo<br />
No terceiro segmento, o eu lírico assume o processo de<br />
desvelamento (“Eu fitando esta cena”) e o de combinação (“repetia<br />
naquela noite”), e se permite então aproximar os espaços ou<br />
contextos, em função da equivalência dos elementos (“Ó flor, tu és a<br />
virgem das campinas/Virgem, tu és a flor de minha vida”).<br />
A combinação contextual dos elementos é que permite a<br />
equivalência dos contextos, isto e, flor e virgem no contexto campinas<br />
e virgem é flor no contexto minha vida, verificando-se então a<br />
identificação do eu lírico com a natureza:<br />
Vejamos graficamente o terceiro movimento:<br />
O eu lírico, em função de desvelamento da identificação flor =<br />
virgem (‘”eu fitando esta cena”), combina então os espaços campinas<br />
= minha vida (“repetia naquela noite”), identificando-se com a<br />
Natureza. De modo que a visualização/desvelamento da cena flor =<br />
mulher, conduz à combinação dos espaços campinas = minha vida e<br />
estabelece a identificação do eu lírico com a Natureza.<br />
Recolhendo agora os dados obtidos mediante a análise<br />
proposta, podemos concluir sobre o processo lírico de estruturação<br />
102 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
do poema de Castro Alves. A equivalência verificada no último<br />
segmento entre o Eu e a Natureza, permite-nos dizer que, desde o<br />
início do poema, a natureza constitui uma expressão subjetiva, pela<br />
sentimentalização, sustentada na adjetivação. No primeiro segmento,<br />
os elementos ainda são propostos de forma mais objetiva. A partir<br />
do segundo segmento, os elementos de fora são sentimentalizados<br />
e passam a valer como significantes do eu lírico, assim (“os galhos<br />
indiscretos/que iam na face trêmulos... beijá-la”), o (“ora chegava/<br />
ora afastava-se”), marcam a presença do eu lírico. De modo que o<br />
processo de desvelamento observado em relação à Natureza, pode<br />
ser tomado como processo de desvelamento do desejo do eu lírico.<br />
Que os elementos sentimentalizados valem como significantes duma<br />
expressão subjetiva, como significação do eu lírico, está bem claro na<br />
comparação de dois versos que aparecem no início e no fim do poema:<br />
“Via-se a noite plácida e divina”, em que há uma certa objetividade<br />
ou um certo sentido objetivo em “noite” e “Naquela noite lânguida e<br />
sentida”, em que a “noite”, ao ser sentimentalizada, torna-se agora<br />
pura expressão subjetiva.<br />
Os elementos do Espaço Externo aqui representados pelo fora,<br />
são sentimentalizados, tornados significantes estruturantes duma<br />
expressão subjetiva no Espaço Lírico. Desse modo, pensamos que<br />
a análise do texto de Castro Alves comprova a concepção de lirismo<br />
romântico proposta.<br />
(In: Lírica Modernista e Percurso Literário Brasileiro, p.24-28).<br />
Vê-se, pois, que a análise feita no poema Adormecida de<br />
Castro Alves, antes de mais nada, segmentou-o, visando à apreensão<br />
minuciosa de suas partes constitutivas. E, em reação ao reducionismo,<br />
a que havia chegado a crítica, muitos teóricos, entre eles, o francês<br />
Roland Barthes, tentam resgatar o prazer da leitura de um texto<br />
literário. Barthes propõe-se a apreender o texto em sua corporeidade,<br />
enquanto elemento capaz de despertar no leitor prazer, por se tratar<br />
de uma atividade intelectual que não dispensa o sensual. No texto<br />
teórico S/Z (1970), propõe a substituição da análise estrutural pela<br />
análise textual, em que o texto é esmiuçado em suas lexias, unidades<br />
de significação, em atenção à estruturação e à estrutura do mesmo.<br />
Entre outros teóricos, voltados para a noção estrutural de ver o texto<br />
literário, tendo a França como a grande disseminadora, estão: A. J.<br />
Greimas, Tzvetan Todorov e Gérard Genette.<br />
Em Fronteiras imaginárias (1971), Fábio Lucas procura<br />
sintetizar as características básicas do Estruturalismo e de sua<br />
vertente no campo da crítica literária.<br />
Letras Vernáculas<br />
103<br />
6<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />
O estruturalismo<br />
De modo geral, podemos dizer que o Estruturalismo tem<br />
contribuído, no pensamento contemporâneo, para deixar<br />
estabelecidos os seguintes princípios:<br />
a) o primado da totalidade;<br />
b) o interrelacionamento dos fatores. Nesse entrelaçamento,<br />
predomina a interdependência, pois a estrutura constitui<br />
um todo formado de elementos solidários;<br />
c) uma rede de relações se estabelecendo, torna-se<br />
prioritário estudá-la, mais do que as partes, os elementos<br />
ou as substâncias correlacionadas, que formam o todo;<br />
d) além de uma articulação no plano da consciência,<br />
reconhece-se uma articulação no plano do inconsciente,<br />
fundamental, pois estabelece a continuidade da história<br />
ou do discurso, interceptados por hiatos ou mentiras<br />
(símbolos);<br />
e) o conhecimento deve afeiçoar-se a jogos de oposições<br />
do tipo sincronia-diacronia (o mais difundido), língua-fala,<br />
chave da lingüística saussuriana), significante-significado,<br />
som-sentido (Valéry já dizia que o poema não passa de uma<br />
‘hesitação entre o som e o sentido’), expressão-conteúdo,<br />
sociedade-indivíduo, ciência-ideologia (vale dizer: ‘saber<br />
rigoroso’ e ‘consciência deformada’), sintagma-paradigma<br />
(LUCAS,1971, p.47-48).<br />
Saussure, ao afirmar que o sujeito falante faz o recorte da<br />
realidade, não se ateve, entretanto, ao fato de que atribuía, ao mesmo<br />
tempo, ao código linguístico, isto é, à soma de todos os signos desse<br />
código, o qualificativo natural.<br />
Assim, o Estruturalismo acabou por reforçar uma perspectiva, de<br />
certa sorte, idealista, quando enfatiza que o significado encontra-se<br />
preso a uma essência de origem primeva, sem levar em conta as<br />
condições enunciativas de sua realização; reduzindo a enunciação<br />
a um leque universal de estruturas. Da mesma sorte, quando<br />
transposto para a análise literária, acabou por expôr a literatura a<br />
uma espécie de previsibilidade, retirando o sujeito racional cartesiano<br />
de seu pedestal, supostamente detentor da prerrogativa de fazer o<br />
recorte da realidade.<br />
No anexo desta Aula VI, você tem à sua disposição o modelo<br />
de análise da narrativa, de acordo com o modelo de A. J. Greimas,<br />
feita por Maria do Carmo Pandolfo, constante da obra organizada por<br />
Eduardo Portella, Teoria Literária (1991).<br />
104 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
ATIVIDADE<br />
1. Por que Mukarovsky vê o texto literário como signo e, ao mesmo tempo, como<br />
estrutura de signo?<br />
2. Por que o Estruturalismo acaba esquecendo-se da noção de subjetividade e<br />
de referente?<br />
3. Use as suas palavras para comentar a citação feita durante a <strong>aula</strong>, retirada da<br />
obra Fronteiras imaginárias (1971), de Fábio Lucas:<br />
4. Pesquise as críticas feitas na atualidade ao Estruturalismo?<br />
5. Comente a seguinte citação:<br />
O Estruturalismo mantém um certo parentesco com<br />
outras correntes críticas, principalmente o Formalismo,<br />
na medida em que volta sua atenção para a obra em si<br />
e não seus condicionamentos genéticos (GONÇALVES;<br />
BELLODI, 2005, 130).<br />
6. Por que Roland Barthes se distancia dos estruturalistas na abordagem do texto<br />
literário?<br />
RESUMINDO<br />
Nesta Aula VI, tratamos da corrente teórica Estruturalismo, que segue<br />
a tendência do cientificismo corrente, quando reduz o texto a uma rede de<br />
significância e prioriza a langue, em sua abstração coletiva de uso. Entre<br />
os principais representantes, nos detivemos nos estudos de A.J. Greimas,<br />
Tzvetam Todorov e Gérard Genette.<br />
Letras Vernáculas<br />
105<br />
6<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />
R E F E R Ê N C I A S<br />
O estruturalismo<br />
BARTHES, Roland. S/Z. Tradução de Maria de Santa Cruz; Ana<br />
Mafalda Leite. Lisboa: Edições 70, 1970.<br />
EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: Uma Introdução. Tradução<br />
de Walter Dutra. São Paulo: Martins Fontes, 1997.<br />
GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina. C. Teoria da<br />
Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.<br />
LUCAS, Fábio. Fronteiras imaginárias. Rio de Janeiro: Cátedra/<br />
MEC, 1971.<br />
PORTELLA, Eduardo; et al. Teoria Literária. Rio de Janeiro: Tempo<br />
Brasileiro, 1991.<br />
SAMUEL, Roger. Novo manual de teoria literária. Petrópolis:<br />
Vozes, 2002.<br />
SILVA, Anazildo Vasconcelos da. Lírica Modernista e Percurso<br />
Literário Brasileiro.Rio de Janeiro: Editora Rio, 1978.<br />
SILVA, Vitor Manuel de A. Teoria da Literatura. Coimbra: Almedina,<br />
1975.<br />
LEITURA RECOMENDADA<br />
EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: Uma Introdução. Tradução de Walter Dutra. São Paulo: Martins<br />
Fontes, 1997.<br />
GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina. C. Teoria da Literatura “revisitada”. Petrópolis:<br />
Vozes, 2005.<br />
SAMUEL, Roger. Novo manual de teoria literária. Petrópolis: Vozes, 2002.<br />
106 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
Letras Vernáculas<br />
ANEXO I<br />
PANDOLFO, Maria do Carmo. Análise da Narrativa. In:<br />
Eduardo Portella et al, Teoria Literária.Rio de Janeiro:<br />
Tempo Brasileiro,1991, p-144-152.<br />
107<br />
6<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />
O estruturalismo<br />
108 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
Letras Vernáculas<br />
109<br />
6<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />
O estruturalismo<br />
110 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
Roland Barthes: foi um escritor, sociólogo, crítico literário, semiólogo<br />
e filósofo francês. Formado em Letras Clássicas em 1939 e Gramática e<br />
Filosofia em 1943 na Universidade de Paris, fez parte da escola estruturalista,<br />
influenciado pelo lingüista Ferdinand de Saussure. Crítico dos conceitos<br />
teóricos complexos que circularam dentro dos centros educativos franceses<br />
nos anos 50. Entre 1952 e 1959 trabalhou no Centre national de la recherche<br />
scientifique - CNRS.<br />
Letras Vernáculas<br />
ANEXO II<br />
Fonte: http://www.almedina.net/catalog/autores.php?autores_id=383<br />
Ilustração - Fonte: http://www.dialogocomosfilosofos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/Roland-Barthes.jpg<br />
111<br />
6<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />
O estruturalismo<br />
Tzvetan Todorov: é um filósofo e linguista búlgaro radicado na França<br />
desde 1963 em Paris. Após completar seus estudos, passando a frequentar<br />
então os cursos de Filosofia da Linguagem ministrados por Roland Barthes,<br />
um dos grandes teóricos do Estruturalismo. Todorov foi professor da École<br />
Pratique de Hautes Études e na Universidade de Yale e Diretor do Centro<br />
Nacional de Pesquisa Científica de Paris (CNRS). Atualmente é Diretor do<br />
Centro de Pesquisa sobre as Artes e a Linguagem da mesma cidade. Publicou<br />
um número considerável de obras, que estão hoje traduzidas em vinte e<br />
cinco idiomas, além disso, produziu vastíssima obra na área de pesquisa<br />
linguística e teoria literária.<br />
Fonte: http://www.wook.pt/authors/detail/id/16389<br />
Ilustração - Fonte: http://teratoblog.files.wordpress.com/2009/08/tzvetan-todorov.jpg<br />
Gérard Genette (nascido em 1930, em Paris) é um crítico literário francês e<br />
teórico da literatura que construiu a sua própria abordagem poética a partir<br />
do cerne do estruturalismo. É um dos responsáveis pela reintrodução do<br />
vocabulário em uma retórica crítica literária, por exemplo, termos como Tropo<br />
e metonímia. Adicionalmente seu trabalho sobre narrativa, mais conhecido<br />
em Inglês através da seleção Narrativa do Discurso: um ensaio em Método,<br />
tem sido de importância. Sua influência internacional não é tão grande como<br />
a de alguns outros identificados com o estruturalismo, como Roland Barthes<br />
e Claude Lévi-Strauss; seu trabalho é mais frequentemente incluído em<br />
seleções ou discutido em obras secundárias do que estudado em seu próprio<br />
direito.<br />
Fonte: http://deztreze.wordpress.com/2009/12/16/leitura-de-a-literatura-como-tal-de-gerard-genette/<br />
Ilustração - Fonte: http://ak2.static.dailymotion.com/static/video/183/296/15692381:jpeg_preview_large.jpg<br />
A.J. Greimas: Algirdas Julius Greimas, ou Algirdas Julien Greimas (Tula,<br />
Rússia, 9 de março de 1917 - Paris, 27 de fevereiro de 1992), foi um linguista<br />
lituano de origem russa, que contribuiu para a teoria da Semiótica e da<br />
narratologia, além de ter empreendido diversas pesquisas sobre mitologia<br />
lituana.<br />
Fonte: http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/M/modalidade.htm<br />
Ilustração - Fonte: http://www.anyksta.lt/user_img/9291_GREIMAS.jpg<br />
112 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
Suas anotações<br />
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Meta<br />
Objetivos<br />
A ESTÉTICA DA RECEPÇÃO<br />
7<br />
<strong>aula</strong><br />
Focalizar os grandes representantes da corrente teórica<br />
Estética da Recepção, Hans Robert Jauss e Wolfgang Iser,<br />
que se opuseram às abordagens anteriores de ver o artístico,<br />
por não levarem em conta, o leitor.<br />
Ao final desta Aula VII, você deverá ter apreendido os<br />
conteúdos referentes à Estética da Recepção.
UESC<br />
1 INTRODUÇÃO<br />
AULA 7<br />
A ESTÉTICA DA RECEPÇÃO<br />
A Estética da Recepção teve, entre seus grandes representantes,<br />
Hans Robert Jauss e Wolfgang Iser e, em linhas gerais, criticou as<br />
correntes teóricas anteriores pelo caráter imanentista e sincrônico de<br />
ver a obra literária e pelo desprezo em relação ao leitor.<br />
Antes do início desta Aula VII, você deverá ter lido:<br />
• capítulo 2, de Teoria da Literatura: Uma Introdução, de Terry Eagleton;<br />
• capítulo A Interação do Texto com o Leitor, de Wolfgang Iser;<br />
• capítulo O Prazer Estético e As Experiências Fundamentais da Poiesis, Aishesis e Katharsis,<br />
de Hans Robert Jauss;<br />
• capítulo Recepção e Interpretação, de Horst Steinmetz;<br />
• livro Estética da recepção e história da Literatura, de Regina Zilberman.<br />
* As referências das obras encontram-se no final da Aula VII.<br />
Letras Vernáculas<br />
117<br />
ATENÇÃO<br />
7<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />
SAIBA MAIS<br />
Hermenêutica: é um ramo da filosofia<br />
que se volta para a compreensão<br />
e interpretação da Bíblia e de textos<br />
escritos, de um modo geral. A palavra<br />
deriva do nome do deus grego Hermes,<br />
o mensageiro dos deuses, a quem os<br />
gregos atribuíam a origem da linguagem<br />
e da escrita e considerado o patrono da<br />
comunicação e do entendimento humano.<br />
Fonte: ABBAGNANO, 1998, p. 497.<br />
Imanentista: Que diz respeito ao<br />
imanentismo, que é próprio de algo, com<br />
suas características peculiares. Em relação<br />
ao texto literário, trata-se da crítica que<br />
vê a literatura como capaz de produzir<br />
sentido, de forma autônoma, sem depender<br />
do contexto, seja aquele evocado na obra,<br />
seja o das condições de leitura. A crítica<br />
imanentista já foi vista na Aula V: O New<br />
criticism: A visão imanentista da obra<br />
literária.<br />
2 ESTÉTICA DA RECEPÇÃO<br />
A estética da recepção<br />
A Estética da Recepção ou Teoria da Recepção surge na<br />
década de 60, do século passado, na Universidade de Constância,<br />
na Alemanha, e muito tributária da Hermenêutica<br />
de H.G. Gadamer. Essa corrente crítica está ligada às<br />
comunidades interpretativas pensadas por Stanley<br />
Fish, quando propõe uma nova historiografia para<br />
a literatura, ao ser levado em conta a produção, a<br />
recepção e a comunicação. Nesta proposta, autor-<br />
obra-leitor não podem ser vistos sem uma relação<br />
dinâmica, na medida em que a leitura de um texto<br />
literário depende das condições sócio-histórica, que<br />
lhe dão sentido.<br />
Teve, entre seus grandes representantes, Hans<br />
Robert Jauss e Wolfgang Iser e, em linhas gerais,<br />
criticou as correntes teóricas anteriores pelo caráter<br />
imanentista e sincrônico de ver a obra literária e<br />
pelo desprezo em relação ao leitor. Em investigações<br />
anteriores, a figura do receptor ficou restrita à catarse,<br />
em Aristóteles, e à função conativa, do formalista russo<br />
Jakobson, sem que o responsável pela completude de<br />
sentido, de fato, fosse valorizado em relação ao texto lido.<br />
Na verdade, a estética da recepção elegeu o leitor para objeto<br />
da teoria literária, desinteressando-se da figura do autor e<br />
da produção do próprio texto. Adotou, como fundamento<br />
básico, a unidade triádica do processo hermenêutico<br />
(Gadamer), ou seja, o entendimento na confluência de<br />
três momentos – comunicação, interpretação, aplicação<br />
- hauridos através de três leituras: 1ª) leitura perceptiva,<br />
imediata (compreensão); 2ª) leitura refletida, reflexiva<br />
(interpretação); 3ª) leitura pesquisadora do horizonte<br />
histórico determinante da gênese e do efeito da obra; que<br />
permite distinguir os horizontes passados do atual, pelo<br />
confronto da leitura contemporânea com todas as outras<br />
merecidas até então (aplicação) (PIRES, 1989, p.103).<br />
Ao trazer o leitor para o primeiro plano, a Estética da Recepção<br />
coloca por terra a crença em possíveis interpretações corretas do<br />
fenômeno literário. Para tanto, o leitor deve estar atento a estratégias<br />
de leitura a serem adotadas e, ao mesmo tempo em que é indispensável<br />
o domínio do repertório de temas pertinentes ao artístico e de um<br />
certo protocolo de leitura, diante do texto literário, que pode ser<br />
118 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
lido de forma não-pragmática, ou pragmática. Para Steinmetz (s/d,<br />
p.154), em Teoria da literatura, obra organizada por Kibédi Varga<br />
“As teorias da recepção consideram muitas vezes que existem, por<br />
um lado os textos literários, e, por outro, os textos pragmáticos, que<br />
teriam formas de funcionamento diferentes”.<br />
Isto é, na leitura pragmática, o leitor procura ligá-la ao<br />
cotidiano, concreto, enquanto, na não-pragmática, não ocorre essa<br />
aplicação automática, antes a fruição estética impede tal uso. Em<br />
textos, como na parábola, usada nos textos sagrados, nas fábulas, ou<br />
nos apólogos, é possível, sem dificuldade, proceder às duas leituras:<br />
não-pragmática e pragmática.<br />
Um apólogo – texto narrativo de natureza alegórica – visa<br />
a ensinar, através de personagens inanimadas, que tomam forma<br />
humana. Na Estética, II, de Hegel, encontramos a seguinte definição<br />
para o mesmo:<br />
Pode-se considerar o apólogo como uma parábola que não<br />
utiliza apenas, e a título de analogia, um caso particular<br />
a fim de tornar perceptível uma significação geral de tal<br />
modo que ela fica realmente contida no caso particular<br />
que, no entanto, só é narrado a título de exemplo especial<br />
(HEGEL, 1993, p. 223).<br />
Logo, no caso, de Um Apólogo, do escritor brasileiro Machado<br />
de Assis, reproduzido, em parte, abaixo, presta-se à leitura não-<br />
pragmática e, ao mesmo tempo, pragmática. Pois o comportamento,<br />
de cada uma das personagens, a Agulha e a Linha, respectivamente,<br />
pode ser estendido para um grupo maior de seres humanos, que tem<br />
o mesmo procedimento diante da vida<br />
Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:<br />
— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir<br />
que vale alguma cousa neste mundo?<br />
— Deixe-me, senhora.<br />
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar<br />
insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.<br />
— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem<br />
cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu.<br />
Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.<br />
— Mas você é orgulhosa.<br />
— Decerto que sou.<br />
Letras Vernáculas<br />
119<br />
7<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />
— Mas por quê?<br />
A estética da recepção<br />
— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é<br />
que os cose, senão eu?<br />
— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os<br />
cose sou eu e muito eu?<br />
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro,<br />
dou feição aos babados...<br />
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por<br />
você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...<br />
— Também os batedores vão adiante do imperador.<br />
— Você é imperador?<br />
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo<br />
adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo.<br />
Eu é que prendo, ligo, ajunto...<br />
(In: Obra Completa, Vol. II, 1985, p. 555-556).<br />
Em uma leitura não-pragmática, parabólica, o texto<br />
vale por si mesmo, isto é, não necessita de referências externas para<br />
produzir sentido, logo, sendo uma narrativa, os seus elementos é que<br />
seriam objeto de análise como: a composição dos personagens, em<br />
suas ações, o uso do tempo, o espaço, onde ocorre o enredo, o uso<br />
do discurso direto, ou do indireto etc. Por outro lado, em uma leitura<br />
pragmática, o texto se justifica pelos dados extra-textuais evocados,<br />
como, por exemplo, o fato de a Agulha e a Linha estarem sempre<br />
discutindo, por se sentirem uma superior à outra. Tais falas refletem<br />
as posições antagônicas de classe social, vividas no cotidiano das<br />
pessoas do II Império no Brasil.<br />
Por isso, Wolfgang Iser chama a atenção para certa necessidade<br />
de instrumentalização do leitor no ato de fruição estética. Nas palavras<br />
de Terry Eagleton, o posicionamento do alemão de confirma em:<br />
Para ler, precisamos estar familiarizados com as técnicas<br />
e convenções literárias adotadas por determinada obra;<br />
devemos ter certa compreensão de seus ‘códigos’,<br />
entendendo-se por isso as regras que governam<br />
sistematicamente as maneiras pelas quais ela expressa<br />
seus significados (EAGLETON, 1997, p. 107).<br />
Para Iser, a leitura eficiente é aquela que força o leitor a sair<br />
dos hábitos convencionais de leitura, que viola os modos normativos<br />
120 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
de ver e sentir, rumo a uma nova consciência e à aquisição de novos<br />
códigos de entendimento, ao preencher os vazios, os hiatos. Em A<br />
Interação do Texto com o Leitor (1979), o integrante da Escola de<br />
Constância afirma:<br />
Como atividade comandada pelo texto, a leitura une<br />
o processamento do texto ao efeito sobre o leitor. Esta<br />
influência recíproca é descrita como interação (p.83).<br />
Em suma, portanto, o vazio no texto ficcional induz e guia<br />
a atividade do leitor (...) (p.130).<br />
Assim, vazio, carência, campo e figura de relevância são termos<br />
que estabelecem uma estrutura de comunicação entre o leitor e o<br />
texto. O vazio textual chama o leitor a preencher espaços de sentido<br />
à luz de sua experiência anterior à leitura atual. A carência constitui<br />
os implícitos textuais, não conhecidos pelo leitor, que acionam a<br />
sua imaginação com projeções de sua fantasia pulsional. O campo<br />
responde ao ponto de vista assumido pelo leitor diante da diegese,<br />
isto é, da intriga, às posições tomadas. A figura de relevância, por<br />
sua vez, proporciona, ao leitor a tomada de consciência, o domínio<br />
de um ponto de vista, indispensável para a compreensão. Ainda nas<br />
palavras de Iser:<br />
Dois pontos precisam ser enfatizados. 1. Precisamos<br />
compreender a estrutura do vazio como um tipo ideal, em<br />
torno do qual se realiza a participação do leitor no texto.<br />
2. A mudança de lugar do vazio não será compreendida se<br />
pensarmos que as suas diferentes ‘cunhagens’ decorrem<br />
da existência de um arsenal de diferentes tipos de vazio.<br />
Ao contrário, o vazio derivado do campo referencial é<br />
preenchido por meio da estrutura de tema e horizonte. Esta<br />
estrutura faz com que o vazio mude de lugar, de modo que<br />
a sua variação de posição assinala a necessidade definida<br />
de indeterminação, tarefa a ser realizada pela atividade de<br />
constituição do leitor. Neste sentido, a mudança do vazio<br />
assinala o caminho a ser percorrido pelo ponto de vista<br />
do leitor, guiado pela seqüência auto-regulada a que se<br />
entrelaçam as qualidades estruturais do vazio (p.131).<br />
O tema, então, significa aquilo que o texto encerra, a ideia<br />
recorrente no mesmo. E esse sempre gravita em torno de um<br />
horizonte, em sua possibilidade mais alargada de sentido.<br />
Outro filósofo influente do início do século XX, Karl Popper, fala<br />
de uma espécie de horizonte de expectativa:<br />
Com esta expressão aludo à soma total de nossas<br />
espectativas [sic] conscientes, subconscientes ou inclusive<br />
Letras Vernáculas<br />
121<br />
7<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />
A estética da recepção<br />
enunciadas explicitamente numa linguagem (...). Os<br />
diversos horizontes de espectativas [sic] diferem não<br />
só pelo seu maior ou menor grau de consciência, mas<br />
também pelo seu conteúdo. Em todos os casos, porém,<br />
o horizonte de espectativa [sic] desempenha a função<br />
de um quadro de referência: nossas experiências, ações<br />
e observações só adquirem significado pela sua posição<br />
nesse quadro (apud, PIRES, 1989, p.105).<br />
O horizonte de expectativa, de alguma forma, potencializa<br />
o caráter de multissignificação do texto literário. Portanto,<br />
quanto mais cheia de indeterminações, mais a obra é passível de<br />
interpretações. Paradoxalmente, a potencialidade da obra a leva a<br />
várias interpretações, até mesmo conflitantes.<br />
Como exemplo, tomemos um excerto do Capítulo XXIV:<br />
“Curto, mas alegre” do romance Memórias póstumas de Brás Cubas<br />
de Machado de Assis, aplicando: vazio, carência, campo, figura de<br />
relevância, tema e horizonte de expectativa.<br />
(...) Não digo que a Universidade me não tivesse ensinado<br />
alguma; mas eu decorei-lhe só as fórmulas, o vocabulário,<br />
o esqueleto. Tratei-a como tratei o latim: embolsei três<br />
versos de Virgílio, dois de Horácio, uma dúzia de locuções<br />
morais e políticas, para as despesas da conversação.<br />
Tratei-os como tratei a história e a jurisprudência. Colhi de<br />
todas as coisas a fraseologia, a casca, a ornamentação...<br />
(1985, v. I, p. 545).<br />
Vazio: o leitor começa a acionar, em sua memória, outras<br />
leituras feitas, que podem ajudá-lo a preencher o vazio do sentido<br />
textual.<br />
Carência: neste momento da leitura, o leitor ainda não<br />
apreendeu o conteúdo textual em toda a sua extensão.<br />
Campo: o leitor pode vir a atribuir ao comportamento de Brás,<br />
à sua personalidade pouco comprometida com os compromissos;<br />
uma vez que não fez grande coisa na vida, nem por ele próprio, e,<br />
muito menos, pelo Brasil. Neste momento, o leitor assume um ponto<br />
de vista sobre o conteúdo textual que lhe dá suporte para prosseguir<br />
em sua leitura.<br />
Figura de relevância: já de posse de um ponto de vista, tomado<br />
a partir do campo, o leitor já possui um ponto de vista acabado acerca<br />
do personagem que foi capaz de fazer mau uso do que lhe foi ensinado<br />
na Universidade.<br />
Tema: os problemas da Educação<br />
Horizonte: educação<br />
122 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
Portanto, em uma leitura não-pragmática, parabólica, de:<br />
(...) mas eu decorei-lhe só (...) o esqueleto. Tratei-a<br />
como tratei o latim, embolsei três versos de Virgílio, dois de<br />
Horácio, uma dúzia de locuções morais e políticas, para as<br />
despesas da conversação. Tratei-os como tratei a história<br />
e a jurisprudência. Colhi de todas as coisas a fraseologia,<br />
a casca, a ornamentação... (1985, v. I, p. 545).<br />
O leitor é levado a perceber a desautomação no uso de<br />
expressões, que, na linguagem do cotidiano, não caberiam. Decora-<br />
se, isto é, traz-se de cor, de coração, um texto, uma lição, mas não<br />
um esqueleto; da mesma forma, trata-se alguém de certa maneira,<br />
não a Universidade, a história, a jurisprudência. Colhem-se flores,<br />
frutos, não frases, ou, muito menos, casca, ornamentação. Ou ainda,<br />
ninguém embolsa (= colocar no bolso) versos ou locuções, ou ainda,<br />
conversação não constitui nenhuma despesa.<br />
Em linhas gerais, Brás quis dizer que foi um aluno medíocre,<br />
que ficou somente com a superficialidade do que lhe foi ensinado na<br />
Universidade. Por outro lado, em uma leitura pragmática, percebe-se<br />
toda a crítica feita à sociedade brasileira do II Império, superficial,<br />
bacharelesca e pouco séria, ainda que se tenha diplomado na<br />
Universidade de Coimbra, em Portugal.<br />
A leitura pragmática de um texto literário fez com que o<br />
escritor do realismo francês Gustave Flaubert acabasse indo às<br />
barras do tribunal porque, em Madame Bouvary, tece críticas à<br />
sociedade francesa de então. Em uma primeira instância, seus<br />
juízes o condenaram, devido à leitura feita em seu alcance de<br />
aplicabilidade; entretanto, só conseguiu se livrar da condenação,<br />
devido à possibilidade de leitura não-pragmática.<br />
Além de Wolfgang Iser, o teórico Hans Robert Jauss, por seu<br />
turno, na esteira de Gadamer, passa a valorizar também a História<br />
para os estudos literários e vê a obra como forma e resposta às<br />
indagações do leitor. Regina Zilberman, em Estética da recepção e<br />
história literária (1989), destaca a importância do papel do leitor no<br />
ato da leitura:<br />
(...) Como o mestre, recupera a história como base do<br />
conhecimento do texto; e, igual ao outro, pesquisa seu<br />
caminho por uma via que permite trazer de volta o intérprete<br />
ou o leitor, sua defesa predileta na luta intelectual contra<br />
as correntes teóricas indesejadas (ZILBERMAN, 1989, p.<br />
12).<br />
Letras Vernáculas<br />
123<br />
7<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />
A estética da recepção<br />
É, mais do que tudo, o legado platônico está presente na<br />
Estética da Recepção, ao trazer de volta a noção de que a verdade<br />
está no belo e no bem. E, ao considerar a literatura como um sistema,<br />
que se define na produção, na recepção e na comunicação, acaba por<br />
relacionar autor, obra e leitor.<br />
Jauss estabelece três categorias fundamentais para a fruição<br />
estética, encontradas em uma retrospectiva sobre a história do prazer<br />
estético: Poiesis, Aishesis e Katharsis, quando afirma em A Literatura<br />
e o Leitor: Textos de Estética da Recepção (1979), obra organizada<br />
por Luiz Costa Lima:<br />
Designamos por poiesis, compreendida no sentido<br />
aristotélico da ‘faculdade poética’, o prazer ante a obra que<br />
nós mesmos realizamos, que Agostinho ainda reservava<br />
a Deus e que, desde o Renascimento, foi cada vez mais<br />
reivindicada como distintivo do artista autônomo (p.79-<br />
80).<br />
A aisthesis designa o prazer estético da percepção<br />
reconhecedora e do reconhecimento perceptivo,<br />
explicado por Aristóteles pela dupla razão do prazer ante<br />
o imitado; na estética aristotélica, a palavra aisthesis<br />
não é empregada propriamente neste sentido, mas, já<br />
na abertura da estética como disciplina autônoma, com<br />
Baumgarten, ela se coloca com o significado básico de<br />
um conhecimento através da experiência e da percepção<br />
sensívies. Enquanto experiência estética receptiva básica,<br />
a aisthesis corresponde assim a determinações diversas<br />
da arte: como ‘pura visibilidade’ (Konrad Fiedler), que<br />
corresponde à recepção prazerosa do objeto estético<br />
como uma visão intensificada, sem conceito ou através<br />
do processo de estranhamento (Chklovski), como uma<br />
visão renovada; como ‘contemplação desinteressada da<br />
plenitude do objeto’ (Moritzer Geiger); como experiência<br />
da ‘densidade do ser’ (J.P. Sartre), em suma, como<br />
‘pregnância perceptiva complexa’ (Deter Henrich).<br />
Legitima-se, desta maneira, o conhecimento sensível, face<br />
à primazia do conhecimento conceitual.<br />
Designa-se por katharsis, unindo-se a determinação de<br />
Górgias com a de Aristóteles, aquele prazer dos efeitos<br />
provocados pelo discurso ou pela poesia, capaz de conduzir<br />
o ouvinte e o expectador tanto à transformação de suas<br />
convicções, quanto à libertação de sua psique (...) (p.80).<br />
Tais categorias fundamentais da fruição estética encontram-<br />
se respaldadas na tradição crítica anterior, como, por exemplo, em<br />
Aristóteles, em Kant e em Baumgarten, filósofo alemão, do século<br />
XVIII, pai da estética. E Luís Costa Lima, em Teoria da Literatura em<br />
124 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
suas fontes (1983), argumenta:<br />
Se a hermenêutica literária, assim como a teológica ou<br />
jurídica, deve chegar à aplicação, partindo da compreensão<br />
e passando pela interpretação, esta aplicação de um lado<br />
pode desembocar numa ação prática, mas, de outro, pode<br />
satisfazer um interesse não menos legítimo, o de medir<br />
e ampliar, na comunicação literária com o passado, o<br />
horizonte da experiência própria, a partir da experiência<br />
de outros (v. 2, p.313).<br />
Jauss sugere, então, que o leitor substitua a pergunta “O que<br />
o texto disse?” por “O que o texto me diz e o que eu digo sobre o<br />
texto?” Só assim seria possível a aplicação daquilo que foi lido.<br />
ATIVIDADE<br />
1. Leia o fragmento, reproduzido abaixo de O Primo Basílio do autor do realismo<br />
português Eça de Queirós, e proceda às duas leituras: não-pragmática e pragmática,<br />
isto é, uma voltada para uma dimensão parabólica de ver o artístico e outra de cunho<br />
aplicativo na realidade, a partir do que era pregado pela sociedade burguesa da época,<br />
em que a obra foi escrita.<br />
Estavam de pé, no meio da sala.<br />
- Não te vás! Basílio!<br />
Os seus olhos profundos tinham uma suplicação doce. Basílio<br />
pousou o chapéu sobre o piano; mordia o bigode, um pouco<br />
nervoso.<br />
- E para que queres tu estar só comigo? – disse ela. – Que<br />
tem que venha gente? – E arrependeu-se logo daquelas<br />
palavras.<br />
Mas Basílio, com um movimento brusco, passou-lhe o braço<br />
sobre os ombros, prendeu-lhe a cabeça, e beijou-lhe na<br />
testa, nos olhos, nos cabelos, vorazmente (QUEIRÓS, 1979,<br />
p. 44).<br />
2. Regina Zilberman, em Estética da recepção e história literária (1989), na citação<br />
abaixo, fala acerca da Estética da Recepção, mais especificamente sobre o conceito<br />
usado por Jauss para se referir ao leitor. Comente a afirmação, em um parágrafo de no<br />
máximo dez linhas.<br />
[...] a estética da recepção apresenta-se como uma teoria<br />
em que a investigação muda de foco: do texto enquanto<br />
estrutura imutável, ele passa para o leitor, o ‘Terceiro Estado’,<br />
[...], seguidamente marginalizado, porém não menos<br />
Letras Vernáculas<br />
125<br />
7<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />
A estética da recepção<br />
importante, já que é condição de vitalidade da Literatura<br />
enquanto instituição social (1989, p. 10-11).<br />
3. Qual é o processo hermenêutico triádico de leitura para Gadamer?<br />
4. Por que Wolfgang Iser chama a atenção para certa necessidade de instrumentalização<br />
do leitor no ato de fruição estética?<br />
5. Hans Robert Jauss valoriza a História para os estudos literários e vê a obra como<br />
forma e resposta às indagações do leitor. Refute a afirmação ou reforce-a, utilizando<br />
a argumentação do texto da Aula VIII, quando se aborta o referido teórico:<br />
R E F E R Ê N C I A S<br />
RESUMINDO<br />
Você foi apresentado, nesta Aula VII, aos grandes representantes da<br />
corrente teórica Estética da Recepção: Hans Robert Jauss e Wolfgang Iser, que<br />
passaram a valorizar a recepção do artístico, chamando o leitor para a cena.<br />
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins<br />
Fontes, 1998.<br />
EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: Uma Introdução. Tradução<br />
de Walter Dutra. São Paulo: Martins Fontes, 1997.<br />
HEGEL. Estética II, 2c. Lisboa: Guimarães Editores, Lisboa, 1993.<br />
HUISMAN, Denis. Dicionário de Obras Filosóficas. São Paulo:<br />
Martins Fontes, 2000.<br />
ISER, Wolfgang. A Interação do Texto com o Leitor. In: Luiz Costa<br />
Lima (Org.). A Literatura e o Leitor: Textos de Estética da Recepção.<br />
Tradução de Luiz Costa Lima; Peter Naumann. Revisão de Heidrum<br />
Krieger. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. p. 83-132.<br />
JAUSS, Hans Robert. O Prazer Estético e As Experiências Fundamentais<br />
da Poiesis, Aishesis e Katharsis. In: Luiz Costa Lima (Org.). A<br />
Literatura e o Leitor: Textos de Estética da Recepção. Tradução de<br />
Luiz Costa Lima; Peter Naumann. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.<br />
p.63-82.<br />
LIMA, Luiz Costa. Teoria da Literatura em suas fontes<br />
2. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1983. 2 vol.<br />
126 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
MACHADO DE ASSIS. Obra Completa. Vols. II e II. Rio de Janeiro:<br />
Nova Aguilar, 1985.<br />
PIRES, Orlando. Manual de Teoria e Técnica Literária. Rio de<br />
Janeiro: Presença, 1989.<br />
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. São Paulo: Abril Cultural, 1979.<br />
STEINMETZ, Horst. Recepção e Interpretação. In: A. Kibédi Varga<br />
(Org.). Teoria da Literatura. Tradução de Tereza Coelho. Lisboa:<br />
Editorial Presença, s/d, p.149-165.<br />
ZILBERMAN, Regina. Estética da recepção e história da Literatura.<br />
São Paulo, Ática, 1989.<br />
LEITURA RECOMENDADA<br />
EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: Uma Introdução. Tradução de Walter Dutra. São Paulo:<br />
Martins Fontes, 1997.<br />
ISER, Wolfgang. A Interação do Texto com o Leitor. In: Luiz Costa Lima (Org.). A Literatura e o<br />
Leitor: Textos de Estética da Recepção. Tradução de Luiz Costa Lima; Peter Naumann. Revisão de<br />
Heidrum Krieger. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. p. 83-132.<br />
JAUSS, Hans Robert. O Prazer Estético e As Experiências Fundamentais da Poiesis, Aishesis e Katharsis.<br />
In: Luiz Costa Lima (Org.). A Literatura e o Leitor: Textos de Estética da Recepção. Tradução de Luiz<br />
Costa Lima; Peter Naumann. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. p.63-82.<br />
STEINMETZ, Horst. Recepção e Interpretação. In: A. Kibédi Varga (Org.). Teoria da Literatura.<br />
Tradução de Tereza Coelho. Lisboa: Editorial Presença, s/d, p.149-165.<br />
ZILBERMAN, Regina. Estética da recepção e história da Literatura. São Paulo, Ática, 1989.<br />
Letras Vernáculas<br />
127<br />
7<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />
A estética da recepção<br />
Fish: Stanley Fish nasceu em 1938, em Rhode, na Islândia. É um<br />
importante teórico da literatura e professor universitário nos Estados<br />
Unidos. Dedicou-se a estudar a obra do poeta inglês John Milton e seus<br />
ensinamentos, vincularam-se ao pósmodernismo. Escreveu 10 livros<br />
e se descreve como um “anti-fundacionalista”. Hoje, o tipo de questões<br />
teóricas que pré-ocupam o estudioso do fenômeno literário tende a<br />
concentrar-se, auto-reflexivamente, nos conceitos que dominam num<br />
dado momento histórico e nos conceitos que sempre dominaram a própria<br />
história da linguagem. Como propõe Stanley Fish, o principal divulgador<br />
da reader-response criticism norte-americana, a literatura não pode conter<br />
propriedades formais pretensamente definidoras do que é ou não é a<br />
literatura: “A literatura é o produto de um modo de ler, de um acordo<br />
comunitário acerca daquilo que deverá contar como literatura, que leva<br />
os membros da comunidade a prestar um certo tipo de atenção a criarem<br />
literatura.” (Is There a Text in This Class?, 1980). O “modo de ler” não<br />
é fixo, mas varia ao longo dos tempos, por isso, Fish propõe a estética<br />
não como sendo a especificação definitiva de propriedades literárias e<br />
não literárias, mas sim “uma descrição do processo histórico pelo qual<br />
tais propriedades emergem”. O conceito de “comunidade interpretativa”<br />
surge então como coroamento deste conhecimento relativo da natureza da<br />
literatura: “Os sentidos não são propriedade nem de textos fixos e estáveis<br />
nem de leitores livres e independentes, mas de comunidades interpretativas<br />
que são responsáveis tanto pela configuração das atividades do leitor como<br />
pelos textos que essas atividades produzem.”<br />
Anexo<br />
Fonte: http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/E/estetica_recepcao.htm<br />
Ilustração - Fonte: http://humanitiesalaska.blogspot.com/2008/01/stanley-fish-on-value-or-lack-thereof.html<br />
Wolfgang Iser: junto com o colega teórico Hans Robert Jauss, Iser é<br />
o maior expoente da estética da recepção, que fundamenta suas bases<br />
na própria crítica literária alemã e sua teoria vê o texto como um local<br />
de produção e proliferação de significados. Sendo cético em relação à<br />
objetividade do texto da crítica formalista, Iser privilegia a experiência<br />
da leitura de textos literários como uma maneira de elevar a consciência<br />
ativamente, realçando o centro da mesma na investigação de significados.<br />
O estudo da fenomenologia de Husserl, Ingarden, Gadamer, Poulet<br />
influenciaram e contribuíram para o seu trabalho.<br />
Fonte: http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/E/estetica_recepcao.htm<br />
Ilustração - Fonte: http://liternet.bg/iser/gallery2.htm<br />
128 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
JAUSS: Hans Robert Jauss, discípulo da hermenêutica de Gadamer, foi<br />
membro da Escola de Constance e um dos mais inflexíveis dos críticos da<br />
estética da recepção. É o grande responsável pela divulgação da Estética<br />
da Recepção, nas décadas de 1970 e 1980. No seu ensaio nuclear, “A<br />
Literatura como Provocação” (1970), procurou ultrapassar os dogmas<br />
marxistas e formalistas que não privilegiam o leitor no ato interpretativo<br />
do texto literário e reforçou o conceito de horizonte de expectativas como<br />
impulsor da interpretação: “Uma obra não se apresenta nunca, nem mesmo<br />
no momento em que aparece, como uma absoluta novidade, num vácuo<br />
de informação, predispondo antes o seu público para uma forma bem<br />
determinada de recepção, através de informações, sinais mais ou menos<br />
manifestos, indícios familiares ou referências implícitas. Ela evoca obras<br />
já lidas, coloca o leitor numa determinada situação emocional, cria, logo,<br />
desde o início, expectativas a respeito do ‘meio e do fim’ da obra que, com<br />
o decorrer da leitura, podem ser conservadas ou alteradas, reorientadas ou<br />
ainda ironicamente desrespeitadas, segundo determinadas regras de jogo<br />
relativamente ao gênero ou ao tipo de texto.” (A Literatura como Provocação,<br />
trad. de Teresa Cruz, Veja, Lisboa, 1993, pp.66-67). Qualquer obra de<br />
arte literária só será efetiva, re-criada ou “concretizada”, quando o leitor a<br />
legitimar como tal, relegando para plano secundário o trabalho do autor e<br />
o próprio texto criado. Para isso, é necessário descobrir qual o horizonte de<br />
expectativas, que envolve essa obra, pois todos os leitores investem certas<br />
expectativas nos textos, que leem, em virtude de estarem condicionados por<br />
outras leituras já realizadas, sobretudo, se pertencerem ao mesmo gênero<br />
literário. O melhor indicador para determinarmos o horizonte de expectativas<br />
é a recepção da obra por parte do leitor. Uma crítica imediata ao conceito de<br />
horizonte de expectativas, assim definido, consiste no fato de se apresentar<br />
como uma espécie de instrumento único de análise estética de uma obra<br />
literária.<br />
Fonte: http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/E/estetica_recepcao.htm<br />
Ilustração - Fonte: http://www.vernix.org/marcel/images/people/hans-robert-jauss.png<br />
Gadamer: Hans Georg Gadamer, nascido em 1900. Autor de Verdade e<br />
método (1960), em que desenvolve as grandes linhas da Hermenêutica<br />
filosófica, na qual aborda o problema da verdade, numa perspectiva não<br />
científica. A análise da experiência revelada pela arte permite descobrir um<br />
modelo que tem valor para toda a experiência histórica. A descoberta de<br />
uma obra de arte é um fato histórico que pertence à história. Em A arte<br />
de compreender, Hermenêutica e tradição filosófica (1982), o problema<br />
hermenêutico é colocado em relação à teoria do conhecimento.<br />
Fonte: HUISMAN, 2000, p.18 e p.565.<br />
Ilustração - Fonte: http://erichluna.files.wordpress.com/2009/09/gadamer1.jpg<br />
Letras Vernáculas<br />
129<br />
7<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />
A estética da recepção<br />
Baumgarten: Alexander Gottlieb Baumgarten (1714-1762), filósofo e<br />
esteta alemão, nascido em Berlim. Estudou na Universidade de Halle. Em<br />
1740, foi nomeado professor de filosofia da Universidade de Frankfurt,<br />
onde permanece por 22 anos, falecendo relativamente cedo. O primeiro<br />
curso de estética o ministrou em 1742 naquela universidade. Enquadrou-<br />
se no esquema filosófico de Wolff, o ordenador didático do pensamento<br />
de Leibniz. Na divisão dos temas, inicia claramente pela gnosiologia, para<br />
depois derivar para a metafísica e física, por último, para a ética. Tratando<br />
do conhecimento e apreciando o conhecimento sensível, o interpretou ainda<br />
ao modo de Descartes, como um estágio inferior, ao modo de idéia confusa.<br />
Neste plano da sensibilidade, como uma gnoseologia inferior (= gnosiologia<br />
inferior), desenvolveu o estudo do que também denominou estética. Tem<br />
Baumgarten o mérito de haver tratado em separado o sentimento da<br />
apreciação da arte e do belo, em geral, enquadrando-o embora como um<br />
conhecimento sensível.<br />
Fonte: http://www.cfh.ufsc.br/~simpozio/novo/2216y605.htm<br />
Ilustração - Fonte: http://liternet.bg/iser/gallery2.htm<br />
Popper: Karl Raimund Popper, filósofo e epistemólogo austríaco, nascido<br />
em 1902. Autor de Lógica e Pesquisa Científica (1934), em que coloca que<br />
a hipótese científica está longe de corresponder ao registro passivo de<br />
dados experimentais, sendo mais da ordem da conjetura. Em Miséria do<br />
Historicismo (1957), entende que o historicismo constitui uma doutrina,<br />
segundo a qual as ciências sociais tem por missão descobrir as leis gerais<br />
do desenvolvimento histórico, leis que lhes permitiriam prever com exatidão<br />
o futuro da história humana. Em Conjecturas e refutações (1963), Popper<br />
desenvolve a tese de que, para distinguir a ciência da pseudociência, é<br />
necessário correr o risco de que a teoria científica só é científica, de fato,<br />
se puder ser invalidada por um teste de experiência. E, finalmente, em<br />
Conhecimento Objetivo (1972), o filósofo propõe a elaboração de uma<br />
teoria objetiva (ou objetivista) do conhecimento que rompa definitivamente<br />
com o ponto de vista subjetivista tradicional, ou seja, com o racionalismo<br />
cartesiano e com o empirismo de Locke, Hume ou Berkeley.<br />
Fonte: HUISMAN, 2000, p. 76, p.77, p. 348 e p. 377.<br />
Ilustração - Fonte: http://www.bfg-muenchen.de/files/images/popper.jpg<br />
130 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
Suas anotações<br />
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Meta<br />
Objetivos<br />
8<br />
<strong>aula</strong><br />
Trabalhar com os conceitos da corrente teórica Pós-<br />
estruturalismo, em sua crítica ao modelo binário da metafísica<br />
ocidental.<br />
O PÓS-ESTRUTURALISMO<br />
Ao final desta Aula VIII, você deverá conhecer os conteúdos<br />
referentes ao Pós-Estruturalismo.
UESC<br />
1 INTRODUÇÃO<br />
AULA 8<br />
A ESTÉTICA DA RECEPÇÃO<br />
Estudaremos, nesta Aula VIII, a corrente teórica Pós-<br />
estruturalismo, que, como o próprio nome sugere, vai criticar o<br />
Estruturalismo, na medida em que esse é visto como tributário do<br />
modelo binário de ver o mundo, em pares dicotômicos, na esteira<br />
da metafísica ocidental. Entre os principais representantes, estão o<br />
franco-argelino Jaques Derrida e os franceses Michel Foucault e Jean-<br />
François Lyotard, que balizaram a História do Ocidente.<br />
As metanarrativas, sistemas discursivos de legitimação, foram<br />
postas a serviço do Ocidente, desde a Grécia antiga, e impuseram<br />
a absolutização dos lugares enunciativos, em que o dissenso e a<br />
fragmentação tornaram-se banidos em nome da ordem e da exclusão.<br />
O relato mítico, a filosofia, e a literatura encerraram, a princípio,<br />
tal desiderato, como os grandes balizadores comportamentais a<br />
prescreverem e a encerrarem a melhor maneira de dar sentido ao<br />
mundo.<br />
Antes do início desta Aula VIII, você deverá ter lido:<br />
• o capítulo 3 de Teoria da Literatura: Uma Introdução de Terry Eagleton;<br />
• o capítulo 9, especificamente, as p. 190, p.191, p.192, p.193, p. 200 e p.205 de Teoria<br />
da Literatura “revisitada” de Maria Magaly Trindade Gonçalves e Zina. C. Bellodi;<br />
• capítulo 8 de Novo manual de teoria literária de Roger Samuel;<br />
• os capítulos 6 e 8 de A Condição Pós-moderna de Jean-François Lyotard;<br />
• os capítulos 4 e 11 de As Idéias Filosóficas Contemporâneas na França de Christian<br />
Descamps.<br />
*As referências das obras encontram-se no final da Aula VIII.<br />
Letras Vernáculas<br />
135<br />
ATENÇÃO<br />
8<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />
O pós-estruturalismo<br />
Os referidos relatos ancoraram-se em uma perspectiva<br />
monística, em que a hortodoxia constitui a pedra de toque a velar<br />
por sua manutenção e, mais do que tudo, para a sua naturalização.<br />
A esses se somaram outros, como os de cunho religioso judaico-<br />
cristãos, respaldados no judaísmo e no catolicismo; o Colonialismo/<br />
Imperialismo e as grandes ideologias, na esteira do Iluminismo francês,<br />
tanto de direita, quanto de esquerda. Subsidiários desses, podemos<br />
acrescentar ainda os paradigmas dicotômicos, que estabeleceram<br />
relações entre nações: centro/periferia; entre gêneros: homem/<br />
mulher; entre classes sociais: hegemônica/não-hegemônica e entre<br />
etnias: branco/negro. Se recorrermos ao discurso da ciência, por<br />
outro lado, no processo interpretativo da realidade sócio-histórica,<br />
veremos que, quase sempre, são discursos - amparados em uma<br />
racionalidade constitutiva -, que disfarçam arbitrariamente os cortes<br />
e são incapazes de redimensionar algumas escalas, legitimadas em<br />
valores perenes.<br />
2 PÓS-ESTRUTURALISMO<br />
Há muito que o radicalismo do Estruturalismo vinha sofrendo<br />
fortes restrições. Barthes em S/Z (1970), ao analisar o conto<br />
Sarrasine de Balzac, indaga-se sobre a possibilidade de o signo ser<br />
neutro, à luz da noção de Saussure, quando se refere ao código<br />
linguístico capaz de fazer representar o chamado real, de forma<br />
autônoma, isenta de qualquer interesse, na medida em que, para<br />
haver linguagem, é preciso que significante e significado se remetam<br />
de forma arbitrária. E, trazendo para a análise literária, a crítica é<br />
uma forma de metalinguagem, que trata o texto literário em uma<br />
estrutura delimitada; por outro lado, esse deve ser tratado enquanto<br />
escrita, isto é, em sua produtividade, e o leitor é chamado a fazer<br />
parte dessa estruturação em aberto. Barthes, assim, passa da obra<br />
ao texto e flagra a pretensão representativa da atitude natural da<br />
literatura chamada realista; para quem, em vez de se caracterizar o<br />
signo como natural, dever-se-ia vê-lo em sua intervenção sobre a<br />
realidade, pois, na literatura, não há originalidade, nem autor, uma vez<br />
que qualquer obra é produto da intertextualidade com outros escritos<br />
que a antecedem. Assim, a noção de representação é questionada<br />
e Terry Eagleton, em Teoria da Literatura: Uma Introdução (1997),<br />
tece comentários sobre a pretensão de a palavra ser a própria coisa,<br />
e não sua representação parcial, entre outras formas de interpretar<br />
o mundo.<br />
136 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
Na ideologia do realismo ou da representação, as palavras<br />
são tidas como ligadas aos pensamentos ou objetos que<br />
veiculam de maneira certa e incontroversa: a palavra<br />
torna-se a única maneira adequada de se ver tal objeto,<br />
ou de se expressar tal pensamento (EAGLETON, 1997, p.<br />
187).<br />
Tal pretensão, isto é, do signo como representação ou<br />
reflexo, neutro em sua nomeação, nega a sua própria condição de<br />
produtividade e, mais do que tudo, o fato de o mundo ser complexo<br />
e múltiplo.<br />
O Pós-Estruturalismo já estava sendo gestado, de certa sorte,<br />
no Estruturalismo, quando esse se voltou para a explicação do código<br />
linguístico, em seu funcionamento como linguagem.<br />
O termo pós-estruturalismo entrou em uso teórico-crítico<br />
em 1970, junto com pós-modernismo (Jean Baudrillard,<br />
Jean François Lyotard), pós-criticismo (Frederic Jameson)<br />
e desconstrução (Jacques Derrida).<br />
Pós-estruturalismo não é uma escola unificada de<br />
pensamento ou mesmo de movimento, mas o termo<br />
é muito usado no discurso da crítica. A maioria dos<br />
autores freqüentemente etiquetados pela palavra pós-<br />
estruturalismo (Jacques Derrida, Michel Foucault e Roland<br />
Barthes) raramente caracteriza seu trabalho como tal, e<br />
confessa não compartilhar nenhuma doutrina ou método<br />
único (SAMUEL, 2002, p. 125-126).<br />
O Pós-estruturalismo, como o próprio nome sugere, vai criticar<br />
o Estruturalismo, na medida em que esse é visto como tributário do<br />
modelo binário de ver o mundo, em pares dicotômicos, na esteira da<br />
metafísica ocidental.<br />
Em A escrita e a diferença (1967) e em Gramatologia (1973),<br />
Derrida lança as bases da teoria da desconstrução, ao tentar<br />
desconstruir o pensamento logofonocêntrico, isto é, amparado em<br />
monismos, como o conceito de verdade (logo) e da palavra viva<br />
(fono), calcado na metafísica, quando essa vincula a retórica à lógica<br />
e o estilo ao significado, como se esse estivesse imune aos efeitos da<br />
escrita. Para Derrida, a escrita não deve ser vista como uma sujeição<br />
servil à fala, em substituição a essa última, pois toda linguagem é<br />
metafórica e, tanto a filosofia, como o direito e a literatura constituem-<br />
se enquanto linguagens figuradas, e trabalham sempre para tornar a<br />
ambiguidade como injunção da verdade.<br />
Derrida cria o neologismo différance, a partir dos verbos de<br />
língua francesa différer e diférer, que, respectivamente, querem dizer<br />
Letras Vernáculas<br />
137<br />
8<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />
O pós-estruturalismo<br />
adiar, diferir e citar, deferir. La différance vem a ser a constituição<br />
mesma do signo, em sua condição vicária, isto é, em seu processo de<br />
significação, está sempre no lugar de algo. E Descamps, em As Idéias<br />
Filosóficas Contemporâneas na França (1991), elucida-nos como<br />
ocorre essa condição do signo, de certa sorte, precária:<br />
Os mecanismos de auto-afetação,de ‘diferança’, destroem<br />
a linha régia da presença em si. Deslocar as figuras da<br />
identidade, da origem, é desconstruir as oposições<br />
seculares entre natureza/cultura, presença/ausência,<br />
sujeito/objeto, inteligível/sensível. A tarefa é imensa já<br />
que esses rochedos não param de freqüentar os grandes<br />
textos (DESCAMPS, 1991, p. 111).<br />
O signo, assim, para justificar sua existência, precisa definir-<br />
se pelo que não é, pela sua ausência, ainda que simule a presença;<br />
por exemplo, o signo gato só se torna linguagem quando há a relação<br />
de significância estabelecida, a chamada dupla articulação, entre<br />
significante (cadeia fônica), composto por seus fonemas, e significado<br />
(evocação mental de um ser, cuja existência é encontradiça nos<br />
telhados das casas ou em seus porões). Portanto, /g/ /a/ /t/ /o/,<br />
enquanto significante, só existe porque se opõe, se diferencia, por<br />
exemplo, de /s/ /a/ /p/ /o/, que remete a um outro significado,<br />
que não o primeiro, sempre em um processo de adiamento da<br />
perfeita articulação entre significante e significado. Restando sempre<br />
um componente de significado, que não foi incluído, na pauta da<br />
metafísica ocidental, ao qual Derrida chama de suplemento, em<br />
outras palavras, não se encontra representado no código linguístico<br />
e, consequentemente, em todo o sistema de atribuição de sentido.<br />
A crítica desconstrucionista procura demonstrar como<br />
os textos podem ser abalados em seus sistemas lógicos<br />
dominantes e o faz assinalando os pontos somáticos – os<br />
aporia ou impasse de significado – onde a significação<br />
textual se torna vulnerável, perde coesão e se abre a<br />
contradições (PIRES, 1989, p.130).<br />
Logo, a desconstrução centra sua crítica aos monismos, que<br />
se opõem ao dialogismo, ao pluralismo, à diferença, quando incide<br />
suas análises em textos, visando evidenciar a vulnerabilidade de<br />
significação, que balizaram todos os centros excludentes dos pares<br />
dicotômicos ocidentais: centro/periferia, branco/negro, homem/<br />
mulher etc.<br />
Tais monismos encontram-se em qualquer área, em piadas,<br />
138 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
em novelas televisivas, em propagandas. Na literatura, tem um<br />
grande registro nas histórias da literatura. Na literatura brasileira, por<br />
exemplo, ocorre quando a figura do negro é colocada como subalterna<br />
ou da mulher sempre em um papel de dependência em relação ao<br />
homem, encerrando, em última instância, um preconceito velado,<br />
incapaz de problematizar o que já está instituído na sociedade.<br />
No poema, abaixo reproduzido, da poeta Adélia Prado (1991),<br />
encontramos um questionamento aos papéis pré-determinados.<br />
Através de pontos somáticos, de aporias ou impasses de significado,<br />
que não se sustentam, quando questionados, tornam-se passíveis de<br />
revisão:<br />
Enredo para um tema<br />
Ele me amava, mas não tinha dote<br />
só os cabelos pretíssimos e uma beleza<br />
de príncipe de estórias encantadas.<br />
Não tem importância, falou a meu pai,<br />
se é por isto, espere.<br />
Foi-se com um bandeira,<br />
E ajuntou ouro para me comprar três vezes.<br />
Na volta me achou casada com D. Cristóvão<br />
Estimo que sejam felizes, disse.<br />
O melhor do amor é sua memória, disse meu pai.<br />
Demoraste tanto, que... disse D. Cristóvão.<br />
Só eu não disse nada, nem antes, nem depois.<br />
Logo, o desconstrucionismo centra sua crítica aos monismos,<br />
que se opõem ao dialogismo, ao pluralismo, quando incide suas análises<br />
em textos, visando evidenciar a vulnerabilidade de significação. A<br />
questão das relações de gênero, calcadas no patriarcalismo legitima-<br />
se em um dos pares dicotômicos da tradição ocidental homem/mulher,<br />
em que o segundo par foi sempre visto como menor, destituído da<br />
razão, necessitando da intervenção do primeiro para existir. E Adélia<br />
Prado coloca, em sua poesia, esse silenciamento posto sobre a<br />
mulher - ela nunca fala - condicionada, que é, no caso, ao pai e ao<br />
pretendente escolhido pelo primeiro. Negando assim o livre arbítrio,<br />
pregado pelo racionalismo, para escolher o seu amor.<br />
O filósofo E. Husserl, do Romantismo alemão, foi quem usou<br />
pela primeira vez, na introdução de sua obra Origem da Geometria,<br />
traduzida, em 1968, para o francês, o termo desconstrução. É<br />
bom que se diga que desconstrução não significa destruição, mas<br />
a possibilidade de ler aquilo que o texto esconde em suas partes<br />
significativas, que, a primeira vista, pode passar despercebida.<br />
Letras Vernáculas<br />
139<br />
8<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />
O pós-estruturalismo<br />
Nesta perspectiva, o monismo está para a tradição, para<br />
aquela concepção de mundo que se opõe à multiplicidade da vida,<br />
de que os seres não são perenes mas mutáveis, negando, portanto,<br />
a pluralidade dos fenômenos, e se fecha ao diálogo, porque esse<br />
pode levar à discórdia, à não adesão ao que o outro diz. Por isso,<br />
o russo Mikhail Bakhtin, dissidente do Formalismo Russo, já<br />
havia detectado, em obras publicadas no início do século XX, como<br />
Problemas da poética de Dostoiévski (2005) e A cultura popular na<br />
Idade Média e no Renascimento. O Contexto de François Rabelais<br />
(2008), muito antes do Pós-Estruturalismo, que a linguagem, que o<br />
sentido atribuído aos fenômenos, não pode ser considerado fora de<br />
seu uso, sem o embate de visões ideológicas, rumo ao pluralismo,<br />
em síntese, ao pensamento democrático, que convive com variadas<br />
opiniões.<br />
Michel Foucault, grande conhecedor da filosofia de Nietzsche,<br />
questionou não a relação da verdade com as coisas, mas a forma<br />
como os discursos são instituídos como princípio de verdade, seja na<br />
medicina, seja na sociedade, em geral; chamando atenção para como<br />
os jogos de verdade e exclusão são engendrados, isto é, organizados<br />
socialmente.<br />
Decifrar a história das idéias não é tanto visar um<br />
estabelecimento do verdadeiro e sim perceber arranjos<br />
que articulam jogos de verdade e de exclusão, que<br />
estabelecem o tolerado e o intolerável (DESCAMPS, 1991,<br />
p.40).<br />
Logo, o que é tolerável é aquilo que foge às normas da exclusão,<br />
o que é aceito. Entre suas obras mais famosas, estão História da<br />
Loucura (2003), As palavras e as coisas (1999), A arqueologia do<br />
saber (1997) e Vigiar e Punir (1977) e todas elas, guardadas as<br />
temáticas de cada uma, encerram a concepção de que o cidadão<br />
encontra-se atravessado por discursos que o precedem. Ele apregoa,<br />
em última instância, a morte do sujeito cartesiano, aquele que se diz<br />
racional, fruto do seu livre arbítrio, uma vez que não somos autores<br />
dos nossos discursos, mas meros veículos para aqueles que estão<br />
legitimados por instâncias sociais.<br />
Para Foucault, o poder não se encontra em instâncias<br />
fechadas, isto é, em instituições, mas de forma difusa na estrutura<br />
social. Roberto Machado estudioso da teoria foucaultiana, adverte,<br />
em Ciência e Saber: A trajetória da Arqueologia de Foucault (1981).<br />
140 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
O Estado não é o ponto de partida necessário, o foco<br />
absoluto que estaria na origem de todo tipo de poder<br />
social e de que também se deveria partir para explicar<br />
a constituição dos saberes nas sociedades capitalistas<br />
(MACHADO, 1981, p.190).<br />
Alerta-nos, entretanto, que o poder do Estado instituído em<br />
uma sociedade também exerce sua coerção, entre os cidadãos, entre<br />
outras microfísicas, isto é, aquilo que não é percebido, mas que coage<br />
para a manutenção de uma verdade.<br />
Então, as regras de sujeição disciplinar vão determinar as<br />
fronteiras do permitido e do não permitido, porque se embasam<br />
em pares que se opõem: alto/baixo, claro/escuro, natureza/cultura,<br />
homem/mulher, centro/periferia. Em Vigiar e Punir, Foucault vai nos<br />
dizer que as disciplinas atravessam o corpo social e a realidade mais<br />
concreta do ser humano – o próprio corpo – como uma rede, sem que<br />
suas fronteiras sejam delimitadas, através de: Métodos que permitem<br />
o controle minucioso das operações do corpo, que asseguram a<br />
sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de<br />
docilidade-utilidade (FOUCAULT, 1977, p.139).<br />
Jean-François Lyotard, outro pós-estruturalista francês,<br />
escreve, no final da década de 70 do século passado, A condição<br />
Pós-moderna (1988), em que elenca as metanarrativas, isto é, as<br />
narrativas que respaldaram crenças e comportamentos da tradição do<br />
mundo ocidental, essas sempre numa perspectiva de totalidade, seja<br />
de cunho religioso, seja político-ideológico, que, a partir da década de<br />
50, após a Segunda Guerra Mundial, começaram a ser questionadas.<br />
A crítica feita por Lyotard ao continuísmo historicista pretende colocar<br />
por terra toda uma hegemonia que legitimou o próprio conceito de<br />
razão, vindo desde a Antiguidade Clássica, presa ao mundo das<br />
Ideias, à tradição socrático-platônica e às religiões judaico-cristãs,<br />
que, para se manterem, colocaram o mundo sempre balizado em<br />
pares dicotômicos, cujo segundo elemento da díade é sempre visto<br />
em posição de falta, de demérito. Justificando, dessa forma, o avanço<br />
sobre continentes, o imperialismo europeu e, ao mesmo tempo, o seu<br />
sistema patriarcal corrente.<br />
Vejamos como o pós-estruturalismo incide sua crítica nos<br />
valores ocidentais tidos como sagrados e plenos de verdade. Por<br />
exemplo, em uma leitura próxima do que faziam os formalistas e<br />
os estruturalistas, fragmentos do canto I, abaixo reproduzidos de<br />
Os Lusíadas (2002) do poeta português Luís de Camões, podem ser<br />
analisados do ponto de vista da cadeia fônica: rimas, assonâncias,<br />
ecos, versos decassílabos, em rimas cruzadas e emparelhadas,<br />
Letras Vernáculas<br />
141<br />
8<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />
conforme o esquema ABABABCCC.<br />
Os portugueses encerram a positividade:<br />
Alcançaram mares nunca dantes<br />
navegados;<br />
Passaram além da Trapobana;<br />
São guerreiros com superioridade aos<br />
humanos;<br />
Entre gente remota edificaram/Novo<br />
Reino;<br />
Têm memórias gloriosas do Reino<br />
português;<br />
Dilataram a Fé;<br />
Como são heróis, têm condições de se<br />
libertarem da lei da Morte;<br />
Suas obras são valorosas;<br />
O eu poético, como é o porta-voz da<br />
nação lusa, tem engenho (inteligência)<br />
e arte (domina seus versos, sabe<br />
escrever a sua literatura).<br />
O pós-estruturalismo<br />
Em relação ao conteúdo, os versos se estruturam em uma<br />
rede de significação, que remete a uma série de predicações, sempre<br />
alusivas à qualificação positivada do feito luso, por esse povo ter<br />
contornado a África e chegado às Índias, com o objetivo primeiro de<br />
expandir a fé cristã e levar aos colonizados a chamada civilização.<br />
X<br />
As armas e os Barões assinalados<br />
Que, da Ocidental praia Lusitana,<br />
Por mares nunca dantes navegados<br />
Passaram ainda além da Trapobana,<br />
Em perigos e guerras esforçados<br />
Mais do que prometia a força humana,<br />
E entre gente remota edificaram:<br />
E também as memórias gloriosas<br />
Daqueles Reinos que forma dilatando<br />
A Fé, o império e as terras viciosas<br />
De África e de Ásia andaram devastando.<br />
E aqueles que por obras valorosas<br />
Se vão da lei da Morte libertando:<br />
( Luís de Camões)<br />
Os habitantes da África e da Ásia encerram<br />
a negatividade:<br />
Habitam terras viciosas (cheias de<br />
vícios).<br />
142 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
Caso se opte por uma análise mais de cunho conceitual,<br />
isto é, do ponto de vista do conteúdo, à luz das leituras, que se<br />
propuseram a rever o racionalismo ocidental, como, por exemplo,<br />
o pós-estruturalismo, os estudos culturais ou o pós-colonialismo,<br />
teremos muito a dizer. A colonização de povos ditos primitivos há<br />
algum tempo vem sendo revista, a partir de acontecimentos que<br />
marcaram o mundo ocidental, como, as duas grandes guerras do<br />
século XX; a invasão das tropas soviéticas na Hungria, em 1956,<br />
e a denúncia de atrocidades cometidas contra a população local;<br />
a descolonização de domínios europeus em outros continentes;<br />
a entrada dos filhos do operariado em Universidades Abertas, na<br />
Europa, nos anos 50 do século passado; o movimento estudantil de<br />
1968, em Paris, com o apoio das feministas. Tais fatos constituem<br />
elementos desencadeadores do que veio depois em termos de crítica.<br />
A crítica, seja ao status quo, seja ao texto literário, requer,<br />
mais do que um empreendimento, uma postura política, de quem<br />
a faz, em forma de agência, em performace insidiosa. As teorias<br />
críticas então ganham uma dimensão muito mais ampla, na medida<br />
em que o teórico não pode mais se eximir do mundo e, nesta linha<br />
de ação, estão os estudos culturais, o pós-colonialismo e a crítica<br />
feminista, com forte vínculo com o pós-estruturalismo. Por isso que<br />
Derrida atribui à metafísica qualquer sistema que dependa de base<br />
inatacável, de um princípio primeiro de fundamentos inquestionáveis,<br />
sobre o qual se pode construir toda uma hierarquia de significações<br />
(EAGLETON, 1997, p.182).<br />
Portanto, as metanarrativas - sistemas discursivos de<br />
legitimação balizadores comportamentais a prescreverem e a<br />
encerrarem a melhor maneira de dar sentido ao mundo - foram<br />
postas a serviço do Ocidente, desde a Grécia antiga, e impuseram<br />
a absolutização dos lugares enunciativos, isto é, a dissolução de<br />
conflitos, para que o dissenso e a fragmentação se tornassem banidos<br />
em nome da ordem e da exclusão.<br />
Veja mais sobre as teorias pós-estruturalistas em:<br />
Letras Vernáculas<br />
PARA CONHECER<br />
• http://revistacult.uol.com.br/website/dossie.asp?edtCode=A0CEA9A1-CE22-4AC5-AB1B-<br />
A9D302E460AB&nwsCode=9B76170A-0C06-44C7-8A53-D71166EA8B33<br />
• http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/M/micronarrativa.htm<br />
143<br />
8<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />
ATIVIDADE<br />
R E F E R Ê N C I A S<br />
O pós-estruturalismo<br />
1. Qual a crítica feita pelo Pós-estruturalismo ao Estruturalismo?<br />
2. É possível vincular o Pós-estruturalismo ao Pós-modernismo, ao Pós-criticismo e à<br />
desconstrução e quais os seus representantes?<br />
3. Derrida critica o pensamento logofonocêntrico. O que ele quer dizer com isso?<br />
4. Se a relação entre significante e significado, como fala Saussure, é sempre arbitrária,<br />
como entender a noção de suplemento usada por Derrida?<br />
5. O monismo se opõe ao dialogismo, ao pluralismo. Dê exemplos de como ocorre um<br />
e outro, em obras literárias ou em outras produções de cultura, como em textos de<br />
propagandas.<br />
6. Faça uma pesquisa em ditados populares, que trazem em seus conteúdos os<br />
impasses de significados de que fala Derrida.<br />
RESUMINDO<br />
Estudamos, nesta Aula VIII, o Pós-estruturalismo, que, em seus<br />
princípios epistemológicos, reveem todo o aparato do edifício ideológico<br />
da tradição ocidental; estruturado em pares dicotômicos, cujo elemento<br />
participante do primeiro deles é sempre o balizador de ver o mundo, enquanto<br />
o segundo encontra-se representado a partir daquele.<br />
CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. Lisboa: Rei dos Livros, 2002.<br />
BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoiévski. Tradução<br />
de Paulo Bezerra. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005.<br />
BAKHTIN, Mikhail. A Cultura Popular na Idade Média e no<br />
Renascimento: o contexto de François Rabelais. Tradução de Yara<br />
Frateschi Vieira. São Paulo/ Hucitec/Editora Universidade de Brasília,<br />
2008.<br />
BARTHES, Roland. S/Z. Tradução de Maria de Santa Cruz; Ana Mafalda<br />
Leite. Lisboa: Edições 70, 1970.<br />
DERRIDA, Jacques. L’écriture et la différence. Paris: Seuil, 1967.<br />
DERRIDA, Jacques. Gramatologia. Tradução de Miriam Schnaiderman<br />
e Renato Janine Ribeiro. São Paulo: Perspectiva, 1973.<br />
DESCAMPS, Christian. As Idéias Filosóficas Contemporâneas na<br />
144 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
França. Tradução de Arnaldo Marques. Rio de Janeiro: Jorge Zahar<br />
Editor, 1991.<br />
EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: Uma Introdução. Tradução<br />
de Walter Dutra. São Paulo: Martins Fontes, 1997.<br />
FOUCAULT, Michel. A Arqueologia do Saber. Tradução de Luis Felipe<br />
Baeta Neves. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997.<br />
FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas. Tradução de Salma<br />
Tannus Muchail. São. Paulo: Martins Fontes, 1999.<br />
FOUCAULT, Michel. História da loucura. Tradução de José Teixeira<br />
Coelho. São Paulo: Perspectiva, 2003.<br />
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Tradução de Lygia M. Pondé<br />
Vassalo. Petrópolis: Vozes, 1977.<br />
GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina. C. Teoria da<br />
Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.<br />
HUISMAN, Denis. Dicionário de Obras Filosóficas. São Paulo:<br />
Martins Fontes, 2000.<br />
LYOTARD, Jean-François. A Condição Pós-moderna. Tradução de<br />
José Bragança de Miranda. Lisboa: Gradiva, 1988.<br />
MACHADO, Roberto. Ciência e Saber: a trajetória da arqueologia de<br />
Michel Foucault. Rio de Janeiro: Graal, 1991.<br />
PIRES, Orlando. Manual de Teoria e Técnica Literária. Rio de<br />
Janeiro: Presença, 1989.<br />
PRADO, Adélia. Poesia reunida. São Paulo: Siciliano,1991.<br />
SAMUEL, Roger. Novo manual de teoria literária. Petrópolis:<br />
Vozes, 2002.<br />
LEITURA RECOMENDADA<br />
Letras Vernáculas<br />
R E F E R Ê N C I A S<br />
DESCAMPS, Christian. As Idéias Filosóficas Contemporâneas na França. Tradução de Arnaldo Marques. Rio de<br />
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1991.<br />
EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: Uma Introdução. Tradução de Walter Dutra. São Paulo: Martins Fontes, 1997.<br />
GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina. C. Teoria da Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.<br />
LYOTARD, Jean-François. A Condição Pós-moderna. Tradução de José Bragança de Miranda. Lisboa: Gradiva, 1988.<br />
SAMUEL, Roger. Novo manual de teoria literária. Petrópolis: Vozes, 2002<br />
145<br />
8<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />
O pós-estruturalismo<br />
Anexo<br />
Derrida: Jacques Derrida nasceu em El-Biar, Argélia, em 15 de julho de<br />
1930. Os anos de infância e de adolescência foram passados numa Argélia<br />
marcada pela colonização e pela guerra. Em 1949, mudou-se para Paris<br />
e ingressou no curso preparatório para a École normale supérieure, sendo<br />
admitido ali três anos mais tarde. Completou seus estudos superiores com a<br />
dissertação O problema da gênese na filosofia de Husserl. Em 1956, é aceito,<br />
na agrégation e recebe uma bolsa de special auditor para a Universidade<br />
de Havard, em Cambridge, para consultar ali microfilmes dos inéditos de<br />
Husserl, de quem começa a traduzir L’ Origine de la geométrie. Em junho<br />
de 1957, casa-se com Marguerite Aucouturier, com quem terá dois filhos:<br />
Pierre, em 1963, e Jean, em 1967. Publica, em 1967, seus três primeiros<br />
livros: Gramatologia, A Escritura e a Diferença e A Voz e o Fenômeno. A<br />
partir de então, se avolumam as publicações e sua atuação como professor<br />
palestrante se estende a várias universidades na Europa e fora dela. A partir<br />
de 1975, nos Estados Unidos, depois de ter dado seminário na Universidade<br />
Johns Hopkins, passa a ensinar, algumas semanas por ano, em Yale, junto<br />
com Paul de Man e Hillis Miller. Intensifica-se, nessa época, sua relação com<br />
os Estados Unidos, quando grande parte de sua obra começa a ser traduzida<br />
ali. Jacques Derrida esteve no Brasil por duas ocasiões. Em 1995, num evento<br />
organizado pela USP e PUC-SP, o Professor profere, no grande auditório do<br />
MASP, a palestra História da Mentira: prolegômenos, cuja tradução foi feita<br />
por Jean Briant e publicada em Estudos Avançados 10 (27), pela Edusp<br />
em 1996. Em junho de 2001, participou junto com René Major, no Rio de<br />
Janeiro, dos Estados Gerais da Psicanálise. Os principais temas discutidos<br />
foram: 1. Derrida e a Psicanálise; 2. Hospitalidade e Amizade; 3. Crueldade<br />
e Soberania; 4. O Futuro do Homem Face à Tecnologia. Faleceu, em Paris, 8<br />
de outubro de 2004.<br />
Fonte: http://www.unicamp.br/iel/traduzirderrida/biografia.htm<br />
Ilustração - Fonte: http://www.religion.ucsb.edu/projects/irreconcilabledifferences/Derrida.jpg<br />
Husserl: Edmund Husserl (1859-1938), filósofo alemão fundador da<br />
Fenomenologia, um método para a descrição e análise da consciência,<br />
através do qual a filosofia tenta alcançar uma condição estritamente<br />
científica. Para ele, a base filosófica para a lógica e a matemática precisa<br />
começar com uma análise da experiência que está antes de todo pensamento<br />
formal. Isto o obrigou a um intenso estudo dos empiristas ingleses John<br />
Locke, George Berkeley, David Hume, e John Stuart Mill, e a familiarizar-se<br />
com a terminologia da lógica e da semântica derivadas daquela tradição,<br />
especialmente, a lógica de Mill. Husserl é autor de Investigações Lógicas<br />
(1900-1901), Filosofia como ciência rigorosa (1911), Idéias para uma<br />
Fenomenologia e uma Filosofia Fenomenológica Puras (1913), Lições para<br />
uma Fenomenologia da Consciência Interna do Tempo (1928). Lógica Formal<br />
e Lógica Transcendental (1929) e Meditações Cartesianas e Conferências de<br />
Paris (1931).<br />
Fonte: HUISMAN, 2000, p. 125, p.147, p.183, p. 319, p.320 e p. 540.<br />
Ilustração - Fonte: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/8f/Edmund_Husserl_1900.jpg<br />
146 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
UESC<br />
Bakhtin: Mikhail Mikhailovich Bakhtin (1895 - 1975) nasceu em Orel, ao<br />
sul de Moscou, mas cresceu entre Vínius e Odessa, cidades fronteiriças<br />
com grande variedade de línguas e culturas. Mais tarde, estudou Filosofia e<br />
Letras na Universidade de São Petersburgo, abordando em profundidade a<br />
formação em filosofia alemã. Dedicou a vida à definição de noções, conceitos<br />
e categorias de análise da linguagem com base em discursos cotidianos,<br />
artísticos, filosóficos, científicos e institucionais. Em sua trajetória, notável<br />
pelo volume de textos, ensaios e livros redigidos, esse filósofo russo não<br />
esteve sozinho. Foi um dos mais destacados pensadores de uma rede de<br />
profissionais preocupados com as formas de estudar linguagem, literatura<br />
e arte, que incluía o linguista Valentin Voloshinov (1895-1936) e o teórico<br />
literário Pavel Medvedev (1891-1938). Um dos aspectos mais inovadores da<br />
produção do Círculo de Bakhtin, como ficou conhecido o grupo, foi enxergar<br />
a linguagem como um constante processo de interação mediado pelo diálogo<br />
e não apenas como um sistema autônomo, como via a linguistica estrutural.<br />
Fonte: revistaescola.abril.com.br/.../filosofo-dialogo-487608.shtm/<br />
Ilustração - Fonte: http://linguisticadeldiscurso.blogspot.com/<br />
Foucault: Michel Foucault (1926- 1984) foi professor de História dos<br />
Sistemas de Pensamento no Collège de France de 1970 a 1984. Autor das<br />
seguintes obras, nas quais analisa a construção da verdade – os biopoderes<br />
e as disciplinas - para o Ocidente: História da Loucura (1961), As Palavras e<br />
as coisas, uma arqueologia das ciências humanas (1966), A Arqueologia do<br />
saber (1969), Vigiar e Punir (1975) e História de sexualidade (1976).<br />
Fonte: HUISMAN, 2000, p.16, p. 270, p. 271, p.422, p. 568.<br />
Ilustração - Fonte: http://www.phillwebb.net/History/TwentiethCentury/continental/%28Post%29Structuralisms/<br />
Foucauldian/Foucault/Foucault.htm<br />
Nietzsche: Friedrich Wilhelm Nietzsche, filósofo alemão (1844 - 1900), que<br />
teceu duras críticas à modernidade, por isso se justifica sua influência entre<br />
os pós-estruturalistas. Para Nietzsche, a verdade se tornou uma multidão<br />
de metáforas e metonímias, ou seja, relações humanas. Mas elas parecem<br />
objetivas e incriadas. O homem só conhece o efeito das leis da natureza,<br />
e não elas mesmas. A atividade do conhecer é um meio de se atingir a<br />
potência. Para se contrapor à ilusão em que vivemos, devemos desenvolver<br />
uma força artística. O mundo que percebemos é uma obra de arte dos sentidos<br />
e do intelecto da concepção de conhecimento deriva a noção kantiana do<br />
conhecimento com atividade constituinte e legisladora. Nietzsche é contra a<br />
humanização do mundo. Entre suas obras, estão: Nascimento da tragédia<br />
(1872), Humano, Demasiado Humano (1878-1886), Assim falava Zaratustra<br />
(1813-1815), Gaia Ciência (1883-1887), Além do bem e do mal (1886),<br />
Genealogia da moral (1887), Vontade de Poder (1901) e Ecce homo (1908).<br />
Fonte: http://www.mundodosfilosofos.com.br/nietzsche.htm<br />
Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Nietzsche187c.jpg<br />
Letras Vernáculas<br />
147<br />
8<br />
Aula
Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />
O pós-estruturalismo<br />
Lyotard: Jean-François Lyotard (1924 -1998) foi um filósofo dos mais<br />
importantes filósofo francês que pensou a sobre a pós-modernidade.<br />
Lecionou filosofia no ensino secundário, na Argélia, e no superior, como na<br />
Universidade de Sorbonne, de Nanterre e de Vincennes, por mais de trinta<br />
anos. Recebeu o título de professor agregado em filosofia, em 1958, e o título<br />
de doutor em Letras, em 1971. Dedicou-se durante longos anos a trabalhos<br />
teóricos e práticos no grupo “Socialismo ou Barbárie” e em Pouvoir ouvrier.<br />
Em 1979, deu <strong>aula</strong>s na Universidade de São Paulo. Foi membro do Collège<br />
International de Philosophie, professor emérito da Universidade de Paris,<br />
professor de francês na Universidade da Califórnia (Irvine). Mudou-se para a<br />
Emory University, Atlanta,Estados Unidos, em 1995, onde lecionou francês<br />
e filosofia. É autor de: Economia Libidinal (1974), A condição Pós-moderna<br />
(1979) e O Litígio (1983).<br />
Fonte:http://www.estacaoliberdade.com.br/autores/lyotard.htm<br />
Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Jean-Francois_Lyotard_cropped.jpg<br />
148 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>
Suas anotações<br />
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