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Introdução aos Estudos literários II:<br />

Literatura, Correntes teórico-críticas


Universidade Estadual<br />

de Santa Cruz<br />

Reitor<br />

Prof. Antonio Joaquim da Silva Bastos<br />

Vice-reitora<br />

Profª. Adélia Maria Carvalho de Melo Pinheiro<br />

Pró-reitora de Graduação<br />

Profª. Flávia Azevedo de Mattos Moura Costa<br />

Diretor do Departamento de Letras e Artes<br />

Prof. Samuel Leandro Oliveira de Mattos<br />

Ministério da<br />

Educação


Ficha Catalográfica<br />

I61 Introdução aos estudos literários II : Literatura, correntes<br />

teórico-críticas : Letras Vernáculas, módulo<br />

3, volume 2 / Elaboração de conteúdo: Sandra Ma-<br />

ria Pereira do Sacramento. – [Ilhéus, BA] : UAB-<br />

UESC, [2010].<br />

148 p. : il. ; anexos.<br />

Inclui bibliografias.<br />

ISBN: 978-85-7455-194-4<br />

1. Literatura – História e crítica. 2. Literatura – Esté-<br />

tica. 3. Estruturalismo. I. Sacramento, Sandra Maria<br />

Pereira do. II. Título: Letras Vernáculas : módulo 3,<br />

volume 2.<br />

CDD 809


Coordenação UAB – UESC<br />

Profª. Drª. Maridalva de Souza Penteado<br />

Coordenação do Curso de Licenciatura em<br />

Letras Vernáculas (<strong>EAD</strong>)<br />

Prof. Dr. Rodrigo Aragão<br />

Elaboração de Conteúdo<br />

Profª. Drª. Sandra Maria Pereira do Sacramento<br />

Instrucional Design<br />

Profª. Msc. Marileide dos Santos de Olivera<br />

Profª. Drª. Gessilene Silveira Kanthack<br />

Revisão<br />

Profª. Msc. Sylvia Maria Campos Teixeira<br />

Coordenação de Design<br />

Profª. Msc. Julianna Nascimento Torezani<br />

Diagramação<br />

Jamile A. de Mattos Chagouri Ocké<br />

João Luiz Cardeal Craveiro<br />

Capa<br />

Sheylla Tomás Silva<br />

LETRAS VERNÁCULAS<br />

<strong>EAD</strong> - UESC


AULA I<br />

AULA II<br />

Sumário<br />

A concepção clássica do artístico .................................................................................. 13<br />

1. INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 15<br />

2. PLATÃO ................................................................................................................... 16<br />

3. LONGINO ................................................................................................................ 17<br />

4. ARISTÓTELES .......................................................................................................... 18<br />

5. HORÁCIO ................................................................................................................ 19<br />

ATIVIDADE .............................................................................................................. 21<br />

RESUMINDO ............................................................................................................ 21<br />

REFERÊNCIAS .......................................................................................................... 22<br />

LEITURA RECOMENDADA ........................................................................................... 22<br />

ANEXO .................................................................................................................... 23<br />

A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX ...........27<br />

1. INTRODUÇÃO ..........................................................................................................29<br />

2. A LIBERDADE ROMÂNTICA .........................................................................................30<br />

3. A VISÃO HISTORICISTA DAS TEORIAS CRÍTICAS DO SÉCULO XIX ...................................42<br />

ATIVIDADE ...............................................................................................................45<br />

RESUMINDO .............................................................................................................45<br />

REFERÊNCIAS ...........................................................................................................46<br />

LEITURA RECOMENDADA ............................................................................................47<br />

ANEXO .....................................................................................................................48<br />

AULA III<br />

A estilística da langue e a da parole ..............................................................................53<br />

1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................55<br />

2 ESTILÍSTICA ..............................................................................................................56<br />

ATIVIDADE ................................................................................................................61<br />

RESUMINDO ..............................................................................................................62<br />

REFERÊNCIAS ............................................................................................................62<br />

LEITURA RECOMENDADA .............................................................................................62<br />

ANEXO 1 ...................................................................................................................63<br />

ANEXO 2 ...................................................................................................................66<br />

AULA IV<br />

O formalismo russo: a autonomia do literário .............................................................. 69<br />

1. INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 71<br />

2. FORMALISMO RUSSO ................................................................................................ 72<br />

ATIVIDADE .............................................................................................................. 77<br />

RESUMINDO ............................................................................................................ 78<br />

REFERÊNCIAS .......................................................................................................... 78<br />

LEITURA RECOMENDADA ........................................................................................... 79<br />

ANEXO I .................................................................................................................. 79<br />

ANEXO II ................................................................................................................ 80


AULA V<br />

O new criticism: a visão imanentista da obra literária ...................................................85<br />

1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................87<br />

2 NEW CRITICISM .........................................................................................................88<br />

ATIVIDADE ................................................................................................................91<br />

RESUMINDO ..............................................................................................................92<br />

REFERÊNCIAS ...........................................................................................................92<br />

ANEXO I....................................................................................................................93<br />

AULA VI<br />

O estruturalismo ..........................................................................................................95<br />

1. INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 97<br />

2. ESTRUTURALISMO .................................................................................................... 98<br />

ATIVIDADE .............................................................................................................105<br />

RESUMINDO ...........................................................................................................105<br />

REFERÊNCIAS .........................................................................................................106<br />

LEITURA RECOMENDADA ..........................................................................................106<br />

ANEXO I .................................................................................................................107<br />

ANEXO II ...............................................................................................................111<br />

AULA VII<br />

A estética da recepção................................................................................................ 115<br />

1. INTRODUÇÃO ......................................................................................................... 117<br />

2. ESTÉTICA DA RECEPÇÃO .......................................................................................... 118<br />

ATIVIDADE ............................................................................................................. 125<br />

RESUMINDO ........................................................................................................... 126<br />

REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 126<br />

LEITURA RECOMENDADA .......................................................................................... 127<br />

ANEXO ................................................................................................................... 128<br />

AULA VIII<br />

A estética da recepção................................................................................................ 133<br />

1. INTRODUÇÃO ......................................................................................................... 135<br />

2. PÓS-ESTRUTURALISMO ............................................................................................ 136<br />

ATIVIDADE ............................................................................................................. 144<br />

RESUMINDO ........................................................................................................... 144<br />

REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 144<br />

LEITURA RECOMENDADA .......................................................................................... 145<br />

ANEXO ................................................................................................................... 146


DISCIPLINA<br />

INTRODUÇÃO AOS<br />

ESTUDOS LITERÁRIOS II:<br />

LITERATURA,<br />

CORRENTES TEÓRICO-<br />

CRÍTICAS<br />

Profª. Drª. Sandra Maria Pereira do Sacramento


A CONCEPÇÃO CLÁSSICA DO ARTÍSTICO<br />

Objetivos Meta<br />

Mostrar os conceitos básicos que digam<br />

respeito à Literatura, a partir da tradição<br />

clássica, com Platão, Aristóteles, Longino e<br />

Horácio.<br />

Ao final desta Aula I, você deverá identificar<br />

as várias concepções acerca do artístico à luz<br />

de Platão, Aristóteles, Longino e Horácio.<br />

1 <strong>aula</strong>


UESC<br />

AULA 1<br />

A CONCEPÇÃO CLÁSSICA DO ARTÍSTICO<br />

1 INTRODUÇÃO<br />

Você, ao longo da Aula I, terá acesso às várias concepções<br />

clássicas acerca do artístico. Platão, Aristóteles, Longino e Horácio<br />

- para o último a literatura é capaz de despertar, no leitor, o êxtase<br />

do sublime - se aproximam da visão conteudística da literatura.<br />

Aristóteles, entretanto, prega a autonomia do artístico; ainda que<br />

tenha sido discípulo do primeiro e procure superá-lo, em grande<br />

medida, ainda que encerre seu pensamento, como os outros, aliás,<br />

vinculado à procura do êidos, isto é, da harmonia perfeita do absoluto,<br />

do mundo das essências.<br />

Antes do início desta Aula I, você deverá ter lido:<br />

• o capítulo 2 de Gêneros Literários, de Angélica Soares;<br />

• o capítulo 3, mais especificamente, da p. 23 à p. 28, de Teoria da Literatura, de Roberto<br />

Acízelo de Souza;<br />

• o capítulo 3, de Teoria da Literatura “ Revisitada”, de Magaly Trindade Gonçalves e Zina C.<br />

Bellodi;<br />

• toda a obra Arte Retórica e Arte Poética de Aristóteles;<br />

• toda a obra A poética clássica de Aristóteles, Horácio, Longino*.<br />

* As referências das obras encontram-se no final da Aula I.<br />

Letras Vernáculas<br />

15<br />

ATENÇÃO<br />

1<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />

SAIBA MAIS<br />

2 PLATÃO<br />

ΙΩΝ — Íon — pertence ao primeiro grupo<br />

dos diálogos de Platão e relata a conversa<br />

entre Sócrates e Íon de Éfeso, um rapsodo<br />

muito conhecido em Atenas. Não sabemos a<br />

data exata da composição; mas, a partir de<br />

diversas informações contidas no texto, é<br />

possível situá-la entre 394 e 391 a.C.<br />

Fonte: http://greciantiga.org/arquivo.asp?num=0337<br />

A República: no século IV a.C., em data<br />

imprecisa, surgiu em Atenas a primeira<br />

concepção de sociedade perfeita que se<br />

conhece. Trata-se do diálogo “A República”<br />

(Politéia), escrito por Platão, o mais brilhante<br />

e conhecido discípulo de Sócrates. As ideias<br />

expostas por ele - o sonho de uma vida<br />

harmônica, fraterna, que dominasse para<br />

sempre o caos da realidade - servirão, ao<br />

longo dos tempos, como a matriz inspiradora<br />

de todas as utopias aparecidas e da maioria<br />

dos movimentos de reforma social, que,<br />

desde então, a humanidade conheceu.<br />

Fonte: http://educaterra.terra.com.br/<br />

voltaire/politica/platao.htm<br />

A concepção clássica do artístico<br />

Platão, filósofo do período clássico da Grécia Antiga, não deixou um<br />

tratado específico sobre literatura. De algumas de suas obras, é que<br />

conseguimos retirar ensinamentos pertinentes ao artístico, como nos<br />

Diálogos, em Fedro, em Íon e em A República.<br />

Nos Diálogos, já aparece a preocupação de formulação de<br />

alguns postulados sobre a arte, em geral, e sobre a poesia, em<br />

particular. Em Fedro, sugere que o poeta deve ser considerado um ser<br />

inspirado, possesso, fora da racionalidade filosófica.<br />

Em Íon, por outro lado, vê o poeta, o rapsodo, como<br />

um ser inspirado por um dom divino; tendo Sócrates<br />

como personagem. Esse, em diálogo com Íon, defende<br />

a opinião de que o rapsodo, ao declamar versos,<br />

contagia os ouvintes com alucinações, pois a poesia,<br />

sendo simulacro, constitui imitação da aparência e<br />

não da realidade. Sócrates, para justificar o conceito<br />

artístico de Platão, pergunta a Íon: Quem poderá<br />

julgar melhor se Homero tratou corretamente da arte<br />

da guerra, um rapsodo ou um general? Defendendo,<br />

em seguida, em favor do general e não do rapsodo,<br />

uma vez que o artista não conhece a natureza e<br />

mesmo a utilização das coisas.<br />

A palavra simulacro guarda o significado de<br />

simular, enganar. Para a literatura, é utilizada como<br />

um princípio de imitação que o poeta faz da chamada<br />

realidade:<br />

Por outro lado, a imitação artística usa o lado ‘inferior’ das<br />

faculdades humanas, e quando ela se dirige ao público é<br />

essa parte inferior que ela procura estimular. Basicamente<br />

a poesia é produto de um conhecimento falho, emprega<br />

as faculdades inferiores da alma humana e estimula<br />

exatamente o que há de ‘desprezível’ no espírito do público<br />

(GONÇALVES; BELLODI, 2005, p.3).<br />

A questão do simulacro foi estudada por Platão, quando fala em A<br />

República sobre o problema do conhecimento na literatura. Para ele,<br />

a imitação da chamada realidade, feita pela poesia, só alcançaria o<br />

terceiro estágio da verdade; enquanto que o produto elaborado pelo<br />

artesão ocuparia o segundo estágio, porque este se encontra mais<br />

próximo da natureza reproduzida; cabendo, entretanto, somente ao<br />

filósofo, o alcance do mundo das ideias, refutando, assim, o simulacro.<br />

Em A República, Platão faz concessão ao poeta desde que esse<br />

16 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

esteja a serviço da educação do povo grego, admitindo somente a<br />

poesia que se adequasse à lei e à razão humana, através de hinos aos<br />

deuses e em louvor aos homens famosos. Em diálogo com Glauco,<br />

afirma:<br />

Quanto a seus protetores, que, sem fazer versos, amam<br />

a poesia, permitiremos que defendam em prosa e nos<br />

mostrem que não só é agradável, mas também útil, à<br />

república e aos particulares para o governo da vida. De<br />

bom grado os ouviremos, porque com isso só temos a<br />

lucrar, se nos puderem provar que aí se junta o útil ao<br />

agradável (PLATÃO, 1994, p.403).<br />

E o princípio utilitarista da literatura ganhou acolhida entre<br />

os romanos e influenciou a cultura ocidental posterior. Ao colocar,<br />

portanto, o literário a serviço do ideológico, com o propósito de<br />

ter existência reconhecida, é necessário ser útil à sociedade grega<br />

na formação de seus concidadãos. A razão, assim, devia conter a<br />

emoção, contrária a qualquer manifestação do desejo, fazendo,<br />

entretanto, concessão ao belo, ao bom e ao justo, quando o artístico<br />

deve estar em comum acordo com a ética.<br />

3 LONGINO<br />

Não se sabe se o pensador grego Longino, de fato, viveu. Fala-se de<br />

um “pseudo-Longino” , entretanto, a obra Do sublime, a ele atribuída,<br />

abriu uma nova concepção do literário, ainda que esteja vinculada ao<br />

pensamento platônico, no que diz respeito à função utilitarista da<br />

literatura.<br />

Do sublime encerra a virtude da literatura como capaz de despertar,<br />

no leitor, o êxtase do sublime, através de técnica artística adquirida<br />

pelo trabalho e afinco do escritor. Longino destaca a importância na<br />

ênfase dada, no texto, ao uso das palavras capazes de empreender<br />

a reflexão no leitor:<br />

Quando, pois, uma passagem, escutada muitas vezes por<br />

um homem e sensato e versado em Literatura, não dispõe<br />

a sua alma a sentimentos elevados, nem deixa no seu<br />

pensamento matéria para reflexões além do que dizem<br />

as palavras, e, bem examinada sem interrupção, perde<br />

em apreço, já não haverá um verdadeiro sublime, pois<br />

dura apenas o tempo em que é ouvida. Verdadeiramente<br />

grande é o texto com muita matéria para reflexão, de<br />

árdua ou, antes, impossível resistência e forte lembrança,<br />

difícil de apagar (1981, p.76-7).<br />

Letras Vernáculas<br />

SAIBA MAIS<br />

Glauco: em A República,<br />

aparece um grupo<br />

de amigos: Sócrates,<br />

dois irmãos de Platão -<br />

Glauco e Adimanto - e<br />

vários outros personagens,<br />

que serão provocados<br />

pelo mestre.<br />

O diálogo vai tratar de<br />

assuntos relacionados<br />

à organização da sociedade<br />

e à natureza<br />

da política. Na República<br />

ideal, concebida<br />

por Platão, o governo<br />

deve estar nas mãos<br />

dos filósofos, que são<br />

aqueles mais próximos<br />

da verdade, da ideia<br />

do bem e da justiça.<br />

A investigação platônica<br />

utiliza o método dialético<br />

(palavra que tem,<br />

na sua origem, a noção<br />

de “diálogo”). Esse procedimento<br />

consiste em<br />

apreender a realidade,<br />

através de posições<br />

contraditórias, até que<br />

uma delas é finalmente<br />

entendida como verdadeira<br />

e a outra como falsa.<br />

A dialética platônica<br />

é um processo indutivo,<br />

que vai da parte para o<br />

todo.<br />

Fonte: http://filosofandoehisto-<br />

riando.blogspot.com/2009/08/<br />

os-dialogos-de-platao.html<br />

17<br />

1<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />

A concepção clássica do artístico<br />

Assim, a leitura de uma obra bem elaborada, capaz de despertar<br />

o êxtase sublime, faz-se ecoar por muito tempo na mente do leitor<br />

atento, ao mesmo tempo em que se dinamiza a potencialidade do<br />

artístico.<br />

4 ARISTÓTELES<br />

Aristóteles, discípulo de Platão, distancia-se do mestre em suas<br />

colocações acerca do artístico. Para quem a literatura é verdadeira<br />

e séria, por princípio, uma vez que o poeta ocupa-se do que poderia<br />

ter acontecido, segundo a verossimilhança ou a necessidade, e não<br />

com o que aconteceu como o faz o historiador. No capítulo IX da sua<br />

Arte Poética, que nos chegou de forma incompleta, afirma “a poesia<br />

é mais filosófica e de caráter mais elevado que a história, porque a<br />

poesia permanece no universal e a história estuda apenas o particular<br />

“(ARISTÓTELES, 1964, p. 278).<br />

Aristóteles, então, destaca a autonomia do artístico, na<br />

medida em que o vê como uma unidade, como um todo orgânico,<br />

em transcendência com a realidade evocada. Por isso, o conceito de<br />

cópia, de mímesis, deve ser entendido como uma espécie de recriação<br />

não assujeitada aos princípios da racionalidade, uma vez que essa<br />

é capaz de criar um mundo coerente em sua universalidade, com<br />

harmonia e perfeição.<br />

A catarse é outro conceito utilizado por Aristóteles, para definir<br />

a purificação dos sentimentos: temor ou piedade, experimentados<br />

pelo expectador, diante da tragédia. O autor propõe que:<br />

[O] terror e a compaixão podem nascer do espetáculo<br />

cênico, mas podem igualmente derivar do arranjo dos<br />

fatos, o que é preferível e mostra maior habilidade no<br />

poeta. [...] Como o poeta deve proporcionar-nos o prazer<br />

de sentir compaixão ou temor por meio de uma imitação,<br />

é evidente que essas emoções devem ser suscitadas nos<br />

ânimos pelos fatos (ARISTÓTELES, 1964, p. 588).<br />

Neste sentido, a obra de arte desperta o prazer e faz<br />

melhorar o espírito. Aristóteles, ao contrário de Platão, que usa o<br />

método dedutivo e normativo para falar da arte, não encerra, em<br />

seus escritos, nenhum preceito a ser seguido pelo artista, é antes<br />

ontológico e indutivo. E o princípio de imitação aristotélico liga-se às<br />

formas literárias na poesia épica e na poesia em geral, na tragédia<br />

e na comédia. Na poesia, ela ocorre de modo indireto, pela mediação<br />

18 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

narrativa; na tragédia e na comédia, de modo direto, através da ação<br />

dos atores.<br />

Logo, Aristóteles inaugura uma concepção do literário, em<br />

que a forma é valorizada em detrimento do conteúdo. Além da Arte<br />

Poética, o filósofo nos deixou a Arte Retórica, em que são colocadas<br />

questões atinentes à persuasão no texto literário, fora do contexto<br />

judiciário. A Retórica, para ele, é comparável à Dialética, no sentido<br />

socrático, isto é, a arte do diálogo. Em resposta a Platão, afirma que<br />

a Retórica, em si, não é má, deve ser, antes, bem usada na ágora, a<br />

serviço da democracia.<br />

A Retórica é útil porque o verdadeiro e o justo o são, por<br />

natureza, melhores que seus contrários. Donde se segue<br />

que, se as decisões não forem proferidas como convém, o<br />

verdadeiro e o justo serão necessariamente sacrificados:<br />

resultado este digno de censura (ARISTÓTELES, 1964, p.<br />

20).<br />

Assemelha-se, portanto, à Dialética e sua tarefa não se resume<br />

a persuadir, mas a discernir os meios a serem utilizados a propósito<br />

de uma questão. A Retórica teve seguidores no mundo clássico e,<br />

na Roma de Cícero, (séc. I a.C) ganhou destaque. Quintiliano, por<br />

exemplo, escreveu Instituições oratórias já no século 1 da Era Cristã,<br />

em que disserta sobre eloquência, através do uso de tropos como<br />

metáfora, sinédoque, metonímia, alegoria, ironia, hipérbole e outros.<br />

A tendência para a imitação é instintiva do homem, desde a infância. Neste ponto distingue-se de todos os outros<br />

seres, por sua aptidão muito desenvolvida para a imitação (ARISTÓTELES, 1964, p. 266).<br />

Quanto à epopéia, por seu estilo corre parelha com a tragédia na imitação de assuntos sérios, mas sem empregar<br />

um só metro simples e a forma narrativa. Nisto a epopéia difere da tragédia (ARISTÓTELES, 1964, p. 270).<br />

A comédia é imitação de maus costumes, não contudo de toda sorte de vícios, mas só daquela parte do ignominioso<br />

que é ridículo. O ridículo reside num defeito e numa tara que não apresentam caráter doloroso ou corruptor<br />

(ARISTÓTELES, 1964, p. 269).<br />

5 HORÁCIO<br />

Horácio é considerado o grande codificador das ideias platônicas<br />

de cunho extraliterário, e dinamizador das ideias do filósofo grego<br />

em toda a Europa, com o princípio de Docere cum delectare, isto é,<br />

Ensinar deleitando, em que a literatura tem algo a ensinar para o seu<br />

leitor. Horácio altera em grande medida os preceitos aristotélicos. E a<br />

teoria desenvolvida durante o período clássico renascentista deve-se<br />

ao que foi codificado por Horácio, poeta da Roma antiga.<br />

Letras Vernáculas<br />

Ontológico: que diz<br />

respeito à ontologia. É a<br />

parte da filosofia, chamada<br />

de “filosofia primeira” por<br />

Aristóteles, denominada,<br />

posteriormente, de<br />

metafísica (pura ou geral).<br />

Etimologicamente, significa<br />

a “ciência do ente”, isto é,<br />

a doutrina do Ser supremo<br />

ou divino.<br />

Fonte: Dicionário de Filosofia,<br />

1969, p.305.<br />

Ágora: praça das antigas<br />

cidades gregas, na qual se<br />

fazia o mercado e onde se<br />

reuniam, muitas vezes, as<br />

assembleias do povo.<br />

Fonte: Novo Dicionário Aurélio<br />

da Língua Portuguesa - Aurélio<br />

Buarque de Holanda Ferreira<br />

19<br />

SAIBA MAIS<br />

1<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />

SAIBA MAIS<br />

Hexâmetro Dactílico: é<br />

uma forma de métrica poética<br />

ou esquema rítmico. É tradi-<br />

cionalmente associado à poe-<br />

sia épica, tanto grega quanto<br />

latina, como, por exemplo, a<br />

Ilíada e a Odisséia de Homero<br />

e a Eneida de Virgílio. Um dác-<br />

tilo é uma sequência de três<br />

sílabas poéticas, a primeira<br />

longa e as duas seguintes<br />

breves. Portanto, o verso<br />

hexâmetro dactílico ideal<br />

consiste em seis (do grego<br />

hexa) pés, cada um sendo<br />

um dactílico. Tipicamente,<br />

porém, o último pé do verso<br />

não é um dactílico, mas sim<br />

um espondeu ou um troqueu,<br />

ou seja, a penúltima sílaba é<br />

sempre longa e a última sí-<br />

laba pode ser breve ou longa.<br />

Fonte: http://greciantiga.org/<br />

arquivo.asp?num=0161<br />

A concepção clássica do artístico<br />

A ars poetica horaciana está encerrada na Epistola ad Pisones.,<br />

carta escrita em hexâmetros dactílicos ao Cônsul romano Lúcio Pisão<br />

e a seus filhos sobre teoria literária, pois esses manifestavam grande<br />

interesse pelas artes e, em especial, pela literatura, tendo sido,<br />

inclusive, preceptor dos infantes. Segundo Pires:<br />

Com sentido altamente normativo, esta epístola é um<br />

verdadeiro código de preceitos a serem seguidos pelos<br />

que pretendiam produzir uma obra-de-arte literária. Sua<br />

importância começou a ser reconhecida por Quintiliano –<br />

algumas gerações mais tarde -, (...) (PIRES, 1989, p.19).<br />

O período clássico, a Idade Média e o Neoclassicismo, com<br />

Boileau serão influenciados, sobremodo, pelos preceitos pragmáticos<br />

horacianos de conceber o artístico. A atenção dada à ordem e à<br />

coerência no uso das palavras, bem como à unidade de tempo, lugar<br />

e ação, fizeram-no ponto de referência para os neoclássicos.<br />

E Rogel Samuel confirma a afirmação: “E a idéia horaciana<br />

de que cada gênero deve ter um único assunto, um caráter, uma<br />

linguagem e um metro apropriado se tornou doutrina central na<br />

crítica dos séculos XVII e XVIII”. (SAMUEL, 2002, p. 49).<br />

A literatura aí é concebida como resultado de um domínio<br />

técnico, ao qual se submete a inspiração, na junção, portanto,<br />

entre talento e arte. Sugere àqueles, que se iniciem neste ofício, a<br />

humildade para receber críticas e o uso do tempo para que o texto<br />

possa ser guardado e avaliado posteriormente, de forma mais detida.<br />

Em sua ars poetica, Horácio afirma:<br />

No âmago das palavras, deverás também ser útil e<br />

cauteloso e magnificamente dirás se, por engenhosa<br />

combinação, transformares em novidades as palavras<br />

mais correntes. Se por ventura for necessário dar a<br />

conhecer coisas ignoradas, com vocábulos recémcriados<br />

e formar palavras nunca ouvidas [...] podes fazêlo<br />

e licença mesmo te é dada. Desde que a tomes com<br />

discrição. Assim, palavras há pouco forjadas, em breve<br />

terão ganho crédito se, com parcimônia, forem tiradas da<br />

fonte grega.<br />

http://www.latim.ufsc.br/986ED7F3-3F3A-4BC2-BBE3<br />

Veja que, para o romano, o literário é consequência de um fazer<br />

trabalhoso, que altera o sentido das palavras usadas na linguagem<br />

corrente. O conceito de conotação, séculos mais tarde, cunhado pelo<br />

estruturalista Roman Jakobson, já se encontra de forma rudimentar<br />

em seus escritos.<br />

20 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

ATIVIDADE<br />

1. Quais os pressupostos teóricos de Platão apresentados nesta <strong>aula</strong>?<br />

2. Em que aspecto Aristóteles se distancia da concepção artística platônica?<br />

3. O que Platão fala acerca da poesia n’Os Diálogos, em Fedro, em Íon e n’A República?<br />

4. O que significa a expressão Docere cum delectare?<br />

5. O que são mímesis e verossimilhança para Aristóteles?<br />

6. Em que medida Longino se aproxima das ideias platônicas acerca do artístico?<br />

7. Por que, para Aristóteles, a Retórica se assemelha à Dialética socrática?<br />

8. Horácio se aproxima das ideias platônicas acerca do artístico?<br />

9. Boileau, responsável pela disseminação, na Europa, do preceito clássico acerca do<br />

artístico, faz que colocações?<br />

RESUMINDO<br />

Você foi apresentado, nesta Aula I, às várias concepções clássicas<br />

acerca do artístico. Deve atentar para o fato de que Platão inaugura o enfoque<br />

do literário, pelo viés do conteúdo, tendo em Longino e em Horácio, da tradição<br />

romana, seus seguidores, enquanto Aristóteles se distancia de seu mestre, ao<br />

valorizar a autonomia do artístico.<br />

Letras Vernáculas<br />

21<br />

1<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />

R E F E R Ê N C I A S<br />

A concepção clássica do artístico<br />

ARISTÓTELES, HORÁCIO, LONGINO. A poética clássica. Tradução<br />

de Jaime Bruna. São Paulo: Cultrix/EDUSP, 1981.<br />

ARISTÓTELES. Arte Retórica e Arte Poética. Tradução de Antônio<br />

Pinto de Carvalho. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1964.<br />

ENCICLOPÉDIA Barsa. São Paulo: Melhoramentos, vol.15, 1966.<br />

GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina C. Teoria da<br />

Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.<br />

Le Petit Larousse Illustré, Larousse. Paris: 1998.<br />

PIRES, Orlando. Manual de Teoria e Técnica Literária. Rio de<br />

Janeiro: Presença, 1989.<br />

PLATÃO. A República. Tradução de Jair Lot Vieira. São Paulo: EDIPRO,<br />

1994.<br />

SAMUEL, Roger. Novo manual de teoria literária. Petrópolis:<br />

Vozes, 2002.<br />

SILVA, Vitor Manuel de A. Teoria da literatura. Coimbra:<br />

Almedina,1975.<br />

SOARES, Angélica. Gêneros Literários. São Paulo: Ática, 2000.<br />

SOUZA, Roberto Acízelo de. Teoria da Literatura. São Paulo: Ática,<br />

2004.<br />

LEITURA RECOMENDADA<br />

ARISTÓTELES. Arte Retórica e Arte Poética. Tradução de Antônio Pinto<br />

de Carvalho. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1964.<br />

ARISTÓTELES, HORÁCIO, LONGINO. A poética clássica. Tradução de<br />

Jaime Bruna. São Paulo: Cultrix/EDUSP, 1981.<br />

GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina C. Teoria da<br />

Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.<br />

SOARES, Angélica. Gêneros Literários. São Paulo: Ática, 2000.<br />

SOUZA, Roberto Acízelo de. Teoria da Literatura. São Paulo: Ática, 2004.<br />

22 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

PLATÃO: nasceu em Atenas, em 428 ou 427 a.C., de pais aristocráticos<br />

e abastados, de antiga e nobre casta. Ao seu temperamento artístico<br />

deu, na mocidade, livre curso, que o acompanhou durante a vida toda,<br />

manifestando-se na expressão estética de seus escritos. Suas obras até<br />

hoje são objeto de análise e apreciação, a mais conhecida, entretanto,<br />

é A República, em que defende, na forma de diálogo, um modelo<br />

aristocrático de poder, governado pelos intelectuais.<br />

Fonte: http://www.mundodosfilosofos.com.br/platao.htm<br />

Ilustração - Fonte: http://www.educ.fc.ul.pt/icm/icm99/icm21/images/images/Plato.gif<br />

ARISTÓTELES: (384-322 a.C) foi um filósofo grego nascido na cidade<br />

de Estagira, na Calcídica, Macedônia, distante 320 quilômetros de<br />

Atenas. Essa cidade foi por muito tempo colonizada pelos jônicos,<br />

e, em virtude disto, ali se falava um dialeto jônico. O nome do pai de<br />

Aristóteles era Nicômaco, um médico. Aristóteles foi criado junto com<br />

um grupo de médicos, amigos de seu pai. Nicômaco chegou a servir a<br />

corte macedônica, a serviço do rei Amintas, pai de Felipe, futuro rei.<br />

Na sua juventude, teria jogado fora seu patrimônio e, aos dezoito anos,<br />

foi para Atenas, a fim de aperfeiçoar sua espiritualidade, e lá ingressou<br />

na Academia, onde se tornou discípulo de Platão, o que marcaria<br />

profundamente sua biografia.<br />

Fonte: hLttp://www.consciencia.org/aristoteles.shtml<br />

Ilustração - Fonte: http://www.ilt.columbia.edu/Publications/Projects/digitexts/aristotle/bio_aristotle.html<br />

HORÁCIO: (65-8 a.C.) poeta latino; nasceu em Venúsia. Dono de estilo<br />

puro e rigoroso, onde a brevidade da metáfora, alia-se à surpreendente<br />

economia verbal. Sua obra exerceu influência na literatura ocidental.<br />

Fonte: Enciclopédia Barsa. vol.15, 1966, p.248.<br />

Ilustração - Fonte: http://www.carpegeel.be/hora.aspx<br />

Letras Vernáculas<br />

ANEXO<br />

23<br />

1<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />

A concepção clássica do artístico<br />

Quintiliano: nasceu em Calahorra, no ano de 35, e faleceu em Roma, no ano<br />

96. Foi professor de retórica, filólogo conceituado e advogado. Recebeu toda<br />

a sua educação em Roma, onde, mais tarde, abriu uma escola de Retórica.<br />

Foi o primeiro professor a ser pago pelo Estado.<br />

Fonte: Le Petit Larousse, 1998, p. 1617.<br />

Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Calahorra,_estatua_de_Quintiliano.JPG<br />

Boileau: Nicolas Boileau - (1636-1711), escritor francês, historiador de Luís<br />

XIV, autor de uma célebre Arte Poética (1674), que contribuiu para disseminar<br />

o ideal literário do classicismo em todo o Ocidente.<br />

Fonte: Le Petit Larousse, 1998, p. 1190.<br />

Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Nicolas_Boileau.jpg<br />

24 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


Suas anotações<br />

______________________________________________________________<br />

______________________________________________________________<br />

______________________________________________________________<br />

_________________________________________________________________<br />

_______________________________________________________________________<br />

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_______________________________________________________________________<br />

_______________________________________________________________________<br />

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__________________________________________________________________________<br />

__________________________________________________________________________<br />

_________________________________________________________________________


2<br />

<strong>aula</strong><br />

A LIBERDADE ROMÂNTICA E A VISÃO HISTORICISTA<br />

Meta<br />

Objetivos<br />

DAS TEORIAS CRÍTICAS DO SÉCULO XIX<br />

Apresentar os conceitos básicos que digam respeito à<br />

Literatura, de acordo com Immanuel Kant e Victor Hugo, na<br />

busca do entendimento da poética e da liberdade românticas;<br />

bem como mostrar a influência da História nas teorias<br />

críticas do século XIX, com Sainte-Beuve, Hyppolyte Taine,<br />

Brunetière e Lanson.<br />

Ao final desta Aula II, espera-se que você esteja dominando<br />

teorias tributárias ao historicismo do século XIX e seus<br />

representantes mais significativos que respondem pelo<br />

Romantismo e pelo Realismo-naturalismo.


UESC<br />

AULA 2<br />

A LIBERDADE ROMÂNTICA E A VISÃO<br />

HISTORICISTA DAS TEORIAS CRÍTICAS<br />

DO SÉCULO XIX<br />

1 INTRODUÇÃO<br />

Nesta Aula II, vamos trabalhar com conceitos básicos que<br />

digam respeito à Literatura, bem como a influência da História nas<br />

teorias críticas do século XIX, com os conceitos de arte para Hegel,<br />

Immanuel Kant e Victor Hugo, na busca do entendimento da poética<br />

e da liberdade românticas; bem como a realista e a naturalista, com<br />

Sainte-Beuve, Hyppolyte Taine, Brunetière e Lanson.<br />

Antes do início desta Aula II, você deverá ter lido:<br />

• os capítulos 7 e 8, de Períodos Literários, de Lígia Cademartori;<br />

• os capítulos 8 e 11, de Introdução à filosofia da arte, de Benedito Nunes;<br />

• o capítulo 6, especificamente, da p. 74 à p. 98 de Teoria da Literatura “revisitada”, de Maria<br />

Magaly Trindade Gonçalves e Zina Bellodi;<br />

• O capítulo 3, especificamente, da p. 28 à p. 33, de Teoria da Literatura, de Roberto Acízelo<br />

de Souza;<br />

• os capítulos 1, 2 e 3 de O Caráter Social da Ficção do Brasil, de Fábio Lucas*.<br />

* As referências das obras encontram-se no final da Aula II.<br />

Letras Vernáculas<br />

29<br />

ATENÇÃO<br />

2<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II:<br />

literatura, correntes teórico-críticas<br />

A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX<br />

2 A LIBERDADE ROMÂNTICA<br />

O Romantismo foi um movimento artístico, político e<br />

filosófico surgido nas últimas décadas do século XVIII, na Europa,<br />

que perdurou por grande parte do século XIX. Caracterizou-se como<br />

uma visão de mundo contrária ao racionalismo, que marcou o período<br />

neoclássico, e buscou um nacionalismo que viria a consolidar os<br />

estados nacionais na Europa. E o princípio historiográfico da época<br />

significou uma grande mudança de perceber o mundo, ao dar destaque<br />

à vida coletiva e aos seus modos de atribuir sentidos comuns, pois<br />

o homem percebeu que vive em comunidade, que lhe dá sentido de<br />

existência. É o que diz Victor Manuel de A. Silva, em sua Teoria da<br />

Literatura (1975):<br />

Logo no dealbar do século XIX, Mme. de Staël demonstrou<br />

na sua obra intitulada De la Littérature, que a literatura<br />

é intimamente solidária com todos os aspectos da vida<br />

coletiva do homem, verificando-se que cada época possui<br />

uma literatura peculiar, de acordo com as leis, a religião e<br />

os costumes próprios dessa época (SILVA, 1975, p. 444).<br />

A partir do Romantismo, o homem percebe-se um ser histórico,<br />

tendo a História e a Crítica literárias condicionadas a uma perspectiva<br />

historicista de ver o fenômeno literário. A História Literária, por<br />

exemplo, estará ligada à filologia em busca da reconstituição e<br />

compreensão dos textos literários do passado e a crítica, por sua vez,<br />

valorizará tudo o que diga respeito ao passado e à sua herança como<br />

justificativa do presente.<br />

Para Paul Valéry, não há possibilidade de definir o Romantismo,<br />

sob pena de prejudicar o rigor lógico, pois o mesmo é multifacetado<br />

em seus temas e motivos. Segundo Alfredo Bosi, em História Concisa<br />

da Literatura Brasileira (1976), trata-se de um momento de definição<br />

alinhada aos valores burgueses no Ocidente, a partir da Revolução<br />

Francesa de 1789, ainda que essa tenha vários desdobramentos<br />

posteriores no século seguinte. Para o estudioso, ocorre uma série<br />

de mudanças, até então nunca vista na Europa, diante de uma nova<br />

classe em ascensão. Neste momento, então:<br />

Definem-se as classes: a nobreza, há pouco apeada<br />

do poder; a grande e a pequena burguesia, o velho<br />

campesinato, o operariado crescente. Precisam-se as<br />

visões da existência: nostálgica, nos decaídos Ancien<br />

Regime; primeiro eufórica, depois prudente, nos novos<br />

proprietários; já inquieta e logo libertária nos que vêem<br />

bloqueada a própria ascensão dentro dos novos quadros;<br />

30 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

imersa ainda na mudez da inconsciência, naquele para os<br />

quais não soara em 89 a hora da Liberdade-Igualdade-<br />

Fraternidade (BOSI, 1977, p.99).<br />

A literatura do período romântico, se,<br />

por um lado, endossará as ideias correntes<br />

burguesas e estará também disponível<br />

para compor as comunidades imaginadas<br />

(ANDERSON, 2008), não tarda a expor as<br />

fraturas advindas da impossibilidade de<br />

implementação da utopia social. Weber<br />

(2004), em sua análise clássica sobre<br />

a modernidade, vai dizer que essa já<br />

nasceu sob a égide da crise, uma vez que<br />

oportuniza a alteração da visão tradicional<br />

do mundo, amparada sobremodo na religião,<br />

substituída pela racionalização, colocando o<br />

homem em três esferas, enquanto pai de<br />

família, trabalhador e cidadão. Göethe, ao<br />

se referir à literatura do período, advoga para o clássico a saúde e,<br />

para o romântico, a doença. Nesse processo, a ânsia de totalização<br />

vai-se colocar para o artista que detém a noção de finitude, em uma<br />

sociedade capitalista cada vez mais burocratizada.<br />

A obra de arte, fruto de um olhar crítico ao que a circunda,<br />

encarna a busca de totalidade, denunciadora de um mundo reificado,<br />

uma vez que o eu não se encontra integrado a ele próprio e ao que<br />

o cerca. A poética que marca o período romântico faz-se estruturada<br />

sobre o símbolo, enquanto a pós-romântica é condicionada pela pre-<br />

sença da alegoria. Tanto o símbolo, quanto a alegoria são tropos, isto<br />

é, figuras de linguagem, que refletem um ideal de unidade, reivin-<br />

dicado por uma época.<br />

O símbolo estrutura-se, ainda, em uma dimensão analógica de<br />

continuidade, enquanto a alegoria já indicia toda a impossibilidade<br />

reclamada pela busca de inteireza. Essa mostra as fraturas de uma<br />

realidade que não foi capaz de gerar o bem-estar apregoado pelo<br />

telos revolucionário, sintetizado na tríade Igualdade – Liberdade –<br />

Fraternidade. Vale destacar que o processo revolucionário francês<br />

estendeu-se por dez anos, sendo visto, por historiadores, em fases:<br />

moderada (1789-1792), radial (1792-1794) e conservadora (1794-<br />

1799). Essa última abriu espaço para o golpe do 18 Brumário, em<br />

alusão ao segundo mês do Calendário Revolucionário Francês, que<br />

esteve em vigor na França de 22 de setembro de 1792 a 1831, com<br />

Letras Vernáculas<br />

SAIBA MAIS<br />

Mundo Reificado: para Marx e Engels, em A<br />

Ideologia Alemã (1986), ao falarem na divisão do<br />

trabalho, afirmam que, na produção mecanizada,<br />

o operário serve à máquina, tornando-se<br />

simples apêndice desta e o princípio subjetivo<br />

da divisão do trabalho desaparece, em face da<br />

objetivação do complexo de produção. Neste<br />

momento, ocorre a alienação, o trabalhador é<br />

distanciado daquilo que produz e o produto do<br />

seu trabalho se torna reificado, isto é, coisa (do<br />

Latim res,rei), porque passa a valer pela própria<br />

realidade. Assim, a crise do artesanato, graças à<br />

Revolução Industrial, com a produção em série,<br />

traz desdobramentos para o social, o econômico<br />

e o ideológico; estendendo-se, dessa sorte, à<br />

arte e ao artista. Um exemplo do processo de<br />

reificação, de objetificação do trabalhador, que<br />

se torna um autômato, encontramos no filme<br />

Tempos Modernos (1931), dirigido e encenado<br />

por Charles Chaplin.<br />

Fonte: SACRAMENTO, 2004, p.45.<br />

Símbolo: aquilo que, por<br />

um princípio de analogia,<br />

representa ou substitui<br />

outra coisa.<br />

Fonte: Novo Dicionário<br />

Aurélio da Língua<br />

Portuguesa - Aurélio<br />

Buarque de Holanda<br />

Ferreira<br />

Alegoria: exposição de<br />

um pensamento sob forma<br />

figurada.<br />

Fonte: Novo Dicionário<br />

Aurélio da Língua<br />

Portuguesa - Aurélio<br />

Buarque de Holanda<br />

Ferreira<br />

31<br />

2<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II:<br />

literatura, correntes teórico-críticas<br />

SAIBA MAIS<br />

Telos: significa fim (finalidade), e que, por sua vez,<br />

remete à ideia de felicidade, à busca da vida boa. O<br />

Bem, em si mesmo, é o fim a que todo ser aspira,<br />

resultando na perfeição, na excelência, na arte<br />

ou na virtude. Todo ser dotado de razão aspira ao<br />

Bem como fim que possa ser justificado pela razão.<br />

Teleologia foi um termo criado por Wolff para indicar<br />

“a parte da filosofia natural que explica os fins das<br />

coisas” ( Log., 1728, Disc. prael.,§ 85). O mesmo<br />

que finalismo (v.).<br />

Fonte: Dicionário de Filosofia, 1998, p. 943.<br />

Igualdade – Liberdade - Fraternidade: trilogia<br />

atribuída ao filósofo Jean-Jacques Rousseau,<br />

de uso corrente durante a Revolução Francesa, a<br />

partir de 1789; quando se inicia um longo período<br />

de convulsões políticas; com desdobramentos de<br />

várias repúblicas, uma ditadura, uma monarquia<br />

constitucional e dois impérios.<br />

Fonte: http://www.mundodosfilosofos.com.br/lea4.htm<br />

Figura 1: Reprodução da pintura de Delacroix La Libertè<br />

guidant le peuple. Neste quadro, aparecem as classes<br />

sociais, aliás, conceito firmado pelo Liberalismo, ainda que<br />

se encontre, no mesmo, unidas por uma única causa: a<br />

Liberdade.<br />

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Eug%C3%A8ne_Delacroix<br />

Teleológico: diz-se de<br />

argumento, conhecimento<br />

ou explicação que relaciona<br />

um fato com sua causa<br />

final.<br />

Fonte: Novo Dicionário Aurélio<br />

da Língua Portuguesa - Aurélio<br />

Buarque de Holanda Ferreira<br />

A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX<br />

a posterior ascensão do General Bonaparte,<br />

que é considerado como o grande responsável<br />

pela consolidação dos ideais burgueses e que<br />

expandiu o militarismo da França e mesmo o da<br />

Europa, de um modo geral.<br />

Kant, em Crítica da faculdade do juízo<br />

(1993), parte de dois tipos de finalidades para<br />

a arte: a finalidade estética e a finalidade<br />

teleológica. O juízo ou finalidade teleológica<br />

diferencia-se do estético porque aquele age se-<br />

gundo as exigências da razão, voltado para um<br />

objetivo, enquanto para o segundo, o objeto<br />

está relacionado a um fim subjetivo, de acordo<br />

com o sentimento de eficácia, experimentado<br />

pelo homem. Estas finalidades, ou juízos<br />

reflexionantes, ficam sob o signo do como se, isto<br />

é, do pensamento hipotético das possibilidades,<br />

como fator transcendental.<br />

O ser humano é capaz de fazer um juízo para<br />

qualificar determina do objeto de Belo ou não, e<br />

o faz desinteressada e contemplativamente,<br />

sendo um prazer subjetivo, porém universal,<br />

capaz de ser comunicá vel. Assim, o Belo tem um<br />

fim em si mesmo, pairando acima dos nexos de<br />

causa-efeito, dos fins objetivos naturais; e, por<br />

isso mesmo, nesta realidade, em suspenso, a<br />

liberdade se instala, visto aguardar a afirmação<br />

do Espírito, detentor dos “fins ideais da ordem<br />

ética” (NUNES, 1991, p. 50).<br />

Kant (1993), como era idealista, advogava<br />

para a ideia, interiorizada em cada um de nós, a<br />

detenção da Beleza, uma vez que esta é univer-<br />

sal, acontece com todos os seres humanos. E<br />

o prazer estético só ocorre devido ao jogo de imaginação. Este<br />

institui-se vindo do sin gular, para, a partir daí, tentar extrair uma<br />

regra universal.<br />

Para Kant, o juízo estético ou de gosto está em conexão<br />

com o comunal, isto é, com a dimensão intersubjetiva (= política),<br />

uma vez que, em sociedade, é ativado o sensus communis, isto é,<br />

uma concor dância das sensações do que seja Belo e harmonioso,<br />

e que depende do discurso para a sua comunicação, implicando a<br />

interação dos homens “como criaturas limitadas à Terra, vivendo<br />

32 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

em comunidades, (...) cada qual precisando da companhia do outro,<br />

mesmo para o pensamento” (ARENDT, 1993, p.37).<br />

O conceito de juízo reflexionante estético alcança uma<br />

ampli tude durante o Romantismo, porque está sustentado sob a<br />

relativização do pensar, do criticar, em relação ao papel do filósofo e<br />

extensivo a qualquer pensante, envol vendo mesmo a própria poiésis<br />

artística. Para Arendt,<br />

Kant insurge-se contra a tradicional distinção hierárquica<br />

que opõe a maioria filosofante à maioria ignorante,<br />

redefinindo-a nos termos da distinção entre o ator<br />

engajado na ação e o espectador crítico e imparcial que,<br />

se permanece alheio ao engajamento, nem por isso<br />

pretende-se portador de uma ver dade contemplada [...]<br />

(1993, p. 114).<br />

Porque o ator é também espectador, visto ambos serem<br />

capazes de dispor da mente pensante. Ator e espectador são manei-<br />

ras de estar no mundo. Assim, o poeta, para o Romantismo, cons-<br />

titui aquele ser superior que é capaz de apreender, em formas, nos<br />

limites da legalidade da imaginação, o Absoluto, que detém toda a<br />

sabedoria.<br />

A obra de arte constitui aquilo que Walter Benjamin (1993)<br />

cha mou de princípio monadológico, isto é, a obra como mônada,<br />

porque vale por si mesma, como objeto estético, mas não pode ser<br />

prescindida da reflexão social, na qual se inscreve, sendo, portanto,<br />

parte de um todo. O Romantizar está condicionado a um conceito que<br />

o irmana a todo o ethos do período chamado Romantismo. E, apesar<br />

de, a prin cípio, lembrar devaneio, alucinação, o termo prende-se a<br />

Romantisieren, que ganha uma amplitude de investigação. Assim,<br />

Novalis o tem “como a habilidade característica do gênio que vincula<br />

os objetos exteriores às idéias ao manipular os objetos exteriores<br />

como se fossem idéias” (apud SCHLEGEL, 1994, p. 12).<br />

Assim, Romantizar e Bildung complementam-se, em termos de ação,<br />

uma vez que o último vem de bilden (= cultivar), como ele mento<br />

de formação, tanto daquele que cultiva, quanto do objeto cultivado,<br />

lembrando-nos a estreiteza desenvolvida entre o jardinei ro e seu<br />

jardim.<br />

No cerne desta questão, encontramos um afã inerente à busca<br />

do contínuo, da totalidade harmoniosa, sem que a categoria de sujeito<br />

fique esquecida. E aspectos, aparentemente contrários, como vida e<br />

espírito, genérico e individual, natureza e cultura, tendem a se fundir<br />

num todo uníssono e orgânico, tornan do-se este ideal romântico uma<br />

espécie de religião secularizada.<br />

Letras Vernáculas<br />

Mônada: por ter<br />

significado diferente de<br />

Unidade (v.), esse termo<br />

designa uma unidade<br />

real inextensa, portanto<br />

espiritual. Giordano Bruno<br />

foi o primeiro a empregar<br />

esse termo nesse sentido,<br />

concebendo a M. Como o<br />

minimum, como unidade<br />

indivisível que constitui<br />

o elemento de todas as<br />

coisas (De minimo, 1591;<br />

De Monade, 1591).<br />

Fonte: ABBAGNANO, 1998,<br />

p.680-690.<br />

Ethos: na Sociologia, é<br />

uma espécie de síntese<br />

dos costumes de um povo.<br />

O termo indica, de<br />

maneira geral, os traços<br />

característicos de um<br />

grupo, do ponto de vista<br />

social e cultural, que o<br />

diferencia de outros. A<br />

palavra ethos tem origem<br />

grega e significa valores,<br />

ética, hábitos e harmonia.<br />

É o “conjunto de hábitos<br />

e ações que visam o bem<br />

comum de determinada<br />

comunidade”. Ainda<br />

mais especificamente, a<br />

palavra ethos significava,<br />

para os gregos antigos, a<br />

morada do homem, isto<br />

é, a natureza.<br />

Fonte: http://www2.fcsh.unl.<br />

pt/edtl/verbetes/E/ethos.htm<br />

33<br />

2<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II:<br />

literatura, correntes teórico-críticas<br />

A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX<br />

Quando esta possibilidade não é alcançada, surge a ironia,<br />

como índice do que Schiller chama de beleza lógica. Neste processo,<br />

o in divíduo abandona qualquer modelo interpretativo anterior, para,<br />

munido de seus próprios aparatos intelectuais, apreender aquilo que<br />

o cerca e ansiar o absoluto. E aí, arte e filosofia imbricam-se, porque<br />

esta, como elemento especulativo, é vista em trajeto de mão dupla<br />

de sensibilização do espírito e espiritualização do sensível, ao tentar<br />

a viabilização do geral, universal, via particular. Particular o geral, eis<br />

a audácia romântica.<br />

Os românticos utilizaram-se, sobremodo, do fragmento, do<br />

ensaio, como possibilidade, na finitude do provisório, do inacabado<br />

concreto. O fragmento vale-se da reflexão estética, que é um modo<br />

de interposição do sujeito cognoscente, entre o dado geral, firmado no<br />

conceito, e a noção de belo, fruto do livre-jogo. Walter Benjamin, em<br />

O Conceito de Crítica de Arte no Roman tismo Alemão, reproduzindo<br />

o famoso fragmento 116 das lições da Atenuam de Schlegel, expõe<br />

acerca da poesia, como medium-de-reflexão, isto é, um meio, uma<br />

forma de reflexão: “melhor flutuar pelas asas da reflexão poética no<br />

intermédio, entre o exposto e o expositor, livre de todo interesse e<br />

potenciar sempre novamente esta reflexão e multiplicá-la como série<br />

infindável de espe lhos” (1993, p.72).<br />

Estriba-se o poeta romântico nos juízos reflexionantes<br />

estéticos, tendo como princípio o dado sentido pelo sujeito. E as<br />

regras aplicadas à arte, segundo Kant, são fornecidas pelo gênio,<br />

que possui talento (= dom natural), anterior à obra realizada, na<br />

esfera da natureza verdadeira. O artista gênio, ao representar uma<br />

determinada realidade, altera papéis até então auto-delimitantes,<br />

diante da vida, isto é, de espectador e ator.<br />

Hannah Arendt aproxima o gênio do ator político, pela sua<br />

to mada de posição, pelo seu juízo crítico, ainda que aquele paire na<br />

possibilidade de concretização, em seu ato investigativo. Neste senti-<br />

do, o artista é espectador porque as decisões mais concretas não de-<br />

pendem de si; ao mesmo tempo, é ator, ao expor sua subjetividade<br />

na polis, sobressaindo a autonomia do ego, além e acima das leis que<br />

faz. Para Walter Benjamin, em sua obra O Conceito de Crítica de Arte<br />

no Romantismo Alemão, a arte deve ser vista na dimensão do mundo<br />

das ideias e não entendida presa a uma circunstância:<br />

Correspondendo a ela, portanto, o Ideal enquanto o a priori<br />

do conteúdo agregado. A Idéia é a expressão da infinidade<br />

da arte e de sua unidade. [...]. Como Idéia entende-se<br />

neste con texto o a priori de um método, [...]. De um tal<br />

a priori parte a filosofia da arte de Göethe (BENJAMIN,<br />

1993, p.72).<br />

34 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

Desse modo, Göethe aproxima-se do Ideal musal de arte dos<br />

gregos, com a soma dos conteúdos puros, quando estes atribuíam às<br />

musas a fonte de inspiração, em consonância com a ação de Apolo,<br />

possuidor dos puros conteúdos, limitados e harmônicos.<br />

Estes puros conteúdos seriam arquétipos invisíveis, presos<br />

a preceitos naturais de origem e harmonia, somente intuíveis, não<br />

alcançados pela obra de arte, sendo as únicas depositárias. Esses<br />

conteúdos puros não podem ser unidos com a natureza mesma, pois<br />

a obra de arte, por ser desinteressada, tem domínio nos seus próprios<br />

conteúdos. Apesar de a natureza verdadeira não aparecer na obra,<br />

paradoxalmente, só é intuível, imageticamente, aí. Neste sentido, o<br />

objeto artístico dá ao conteúdo, isto é, à representação do real, uma<br />

forma comparável a ela mesma.<br />

Portanto, o poeta como o gênio, ao vislumbrar a realidade<br />

criticamente, insere-se em uma dimensão utópica, à procura de uma<br />

or dem social mais humanizada, constituindo-se na possibilidade<br />

de reconciliação da alma com a essência e o sentido da vida, fato<br />

só possível, para Lukács (1974), na Antiguidade Clássica, e, para<br />

Benjamin, na fase pré-capitalista, em que as relações interpessoais<br />

eram próximas, e havia a noção de totalidade, porque era estreita a<br />

aproximação en tre produtor e produto.<br />

Estas constantes não guardam uma inteireza que, a princípio,<br />

poderia parecer; no entanto, sedimentam dados que nos autorizam<br />

identificar, ao longo da Modernidade, um processo contínuo de<br />

dilaceramento da alma humana, diante de um mundo reificado, no<br />

qual não existe qualquer possibilidade de integração e harmonia, uma<br />

vez que até as relações interpessoais viram mercadoria.<br />

O juízo de gosto ou estético kantiano, de acordo com o<br />

posicionamento de H. Arendt, em Lições Sobre a Filosofia Política<br />

de Kant (1993), abre uma possibilidade ao juízo político, sendo<br />

enquadra do, na esfera de mudanças, ao status quo, visto transitarem<br />

pela doxa do contingente, ao contrário do juízo do entendimento ou<br />

do imperativo categórico, calcado o primeiro no necessário racional e<br />

o segundo, no sentido do dever. Assim, a poiesis e a política encon-<br />

tram-se no movimento da descontinuidade, deixando abertura ao<br />

inusitado utópico.<br />

Esta visão dialética de Aufhebung (= superação) não deixa de<br />

considerar todo o ganho da filosofia das Luzes, à qual se acrescenta<br />

a possibilidade romântica, superando-se, assim, qualquer forma de<br />

ex clusão entre religião e ateísmo, de um lado, e espiritualismo e<br />

materialismo , de outro.<br />

Neste sentido, o bildung (= educação), como cultivo, como<br />

Letras Vernáculas<br />

Apolo: filho de Zeus e<br />

Leto, e irmão gêmeo<br />

de Ártemis, deusa<br />

da caça. Era um dos<br />

mais importantes e<br />

multifacetados deuses do<br />

Olimpo.<br />

Fonte: http://www.<br />

mundodosfilosofos.com.br/<br />

apolo.htm<br />

Modernidade: costuma<br />

ser entendida como um<br />

ideário ou visão de mundo<br />

que está relacionada<br />

ao projeto de mundo<br />

moderno, empreendido<br />

em diversos momentos ao<br />

longo da Idade Moderna<br />

e consolidado com a<br />

Revolução Industrial. Está<br />

normalmente relacionada<br />

com o desenvolvimento do<br />

Capitalismo.<br />

Fonte: http://base.d-p-h.info/<br />

pt/fiches/premierdph/fiche-<br />

premierdph-3602.html<br />

35<br />

2<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II:<br />

literatura, correntes teórico-críticas<br />

A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX<br />

autoentendimen to, será utilizado como uma forma de alcançar<br />

o outro, assumindo os artistas, assim, a missão de guias da<br />

sociedade, a qual pretendem re formar, uma vez que esses detêm “o<br />

conhecimento dos segredos da Natureza” (NUNES,1991, p.52), ao<br />

mesmo tempo em que a obra encontra-se livre de regras externas no<br />

seu processo artístico em si, por transitar pelas representações da<br />

imaginação, distantes do conhecimento ob jetivo do Entendimento.<br />

Hegel, em Fenomenologia do Espírito (1992), estabelece<br />

a passagem da consciência imersa em si, destacando a inserção<br />

do humano, a partir dessa última, na dimensão do histórico-<br />

cultural, chegando, no fim da obra, na revelação histórica do<br />

Espírito Absoluto, alcançando as três formas de estar no mundo:<br />

arte: (intuição), religião (representação) e filosofia (conceito). Ele<br />

destaca a possibilidade de homologia entre o espírito e a cultura,<br />

ou entre conceito e história, rumo a uma “história conceituada.”<br />

Entretanto, subsume o sujeito cognoscente, aquele capaz de<br />

conhecer, de entender, enquanto mediador, ao espírito absoluto,<br />

impossibilitando-o de alterar o devir.<br />

No cerne desta questão, encontramos um afã inerente ao<br />

próprio homem, em busca do contínuo, da totalidade harmoniosa,<br />

sem que a categoria de sujeito fique esquecida, algo aventado<br />

como precípuo para a modernidade. A partir dessa, portanto, os<br />

paradigmas passados foram questionados e a arte começa por<br />

refletir a instabilidade do gênero humano, colocando-o em constante<br />

conflito entre os valores anteriores e aqueles que traziam ares de<br />

conquista e emancipação.<br />

Dizemos isso, porque, por conta de movimentos sociais de<br />

libertação, ainda no século XIX, como o Socialismo Utópico, o<br />

Anarquismo, o Marxismo, a Comuna de Paris, o Cartismo, o<br />

Ludismo, entre outros, há uma espécie de reversão da mímesis,<br />

que passa a ceder espaço a uma arte participação, de recusa, uma<br />

vez que o ideário de racionalidade não foi capaz de gerar o bem-<br />

estar esperado, como apregoavam os líderes revolucionários da<br />

aurora da Liberdade.<br />

36 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

SAIBA MAIS<br />

Socialismo Utópico: o pensamento socialista foi primeiramente formulado por Saint-<br />

Simon (1760-1825), Charles Fourier (1772-1837), Louis Blanc (1811-1882) e Robert Owen<br />

(1771-1858). O socialismo defendido por estes autores foi, mais tarde, denominado<br />

de socialismo utópico por seus opositores marxistas (os quais, por oposição, se<br />

autodenominavam socialistas “científicos”), e vem do fato de seus teóricos exporem os<br />

princípios de uma sociedade ideal sem indicar os meios para alcançá-la. O nome vem da<br />

obra Utopia de Thomas More (1478-1535).<br />

Fonte: http://www.mundoeducacao.com.br/historiageral/socialismo-utopico.htm<br />

Anarquismo: é uma filosofia política que engloba teorias, métodos e ações que objetivam a<br />

eliminação total de todas as formas de governo compulsório. De um modo geral, anarquistas são<br />

contra qualquer tipo de ordem hierárquica que não seja livremente aceita e, assim, preconizam<br />

os tipos de organizações libertárias.<br />

Fonte: Enciclopédia Barsa, vol.15, 1966, p.24.<br />

Marxismo: é o conjunto de ideias filosóficas, econômicas, políticas e sociais elaboradas<br />

primariamente por Karl Marx e Friedrich Engels e desenvolvidas, mais tarde, por outros<br />

seguidores. Baseado na concepção materialista e dialética da História, interpreta a vida social<br />

conforme a dinâmica da base produtiva das sociedades e das lutas de classes daí consequentes.<br />

O marxismo compreende o homem como um ser social histórico e que possui a capacidade de<br />

trabalhar e desenvolver a produtividade do trabalho, o que diferencia os homens dos outros<br />

animais e possibilita o progresso de sua emancipação da escassez da natureza, o que proporciona<br />

o desenvolvimento das potencialidades humanas.<br />

Fonte: Enciclopédia Barsa, vol.15, 1966, p. 315.<br />

Comuna de Paris: foi a primeira experiência de ditadura do proletariado na história, governo<br />

revolucionário da classe operária criada pela revolução proletária, em Paris, e durou 72 dias: de<br />

18 de março a 28 de maio de 1871. A Comuna de Paris foi resultado da luta da classe operária<br />

francesa e internacional contra a dominação política da burguesia. A causa direta do surgimento<br />

da Comuna de Paris consistiu no agravamento das contradições de classe entre o proletariado e a<br />

burguesia decorrente da dura derrota sofrida pela França, na guerra contra a Prússia (1870-1871).<br />

O empenho do governo reacionário de Thiers da fazer recair o fardo dos gastos da guerra perdida<br />

sobre os amplos setores da população originou um poderoso movimento das forças democráticas.<br />

Fonte: http://www.marxists.org/portugues/dicionario/verbetes/c/comuna_paris.htm<br />

Cartismo: caracteriza-se como um movimento social revolucionário inglês, ocorrido entre 1836<br />

e 1850, tendo como base a carta escrita pelo radical William Lovett, intitulada Carta do Povo, e<br />

enviada ao Parlamento Inglês. Nesta, encontram-se as seguintes reivindicações políticas: sufrágio<br />

universal, eleições anuais, voto secreto e elegibilidade para os não proprietários.<br />

Fonte: Enciclopédia Barsa, vol.15, 1966, p.100<br />

Ludismo: é o nome do movimento contrário à mecanização do trabalho, trazida pela Revolução<br />

Industrial. Adaptado aos dias de hoje, o termo ludita (do inglês luddite) identifica toda pessoa que<br />

se opõe à industrialização intensa ou a novas tecnologias, geralmente, vinculadas ao movimento<br />

anarcoprimitivista.<br />

Fonte: http://www.suapesquisa.com/industrial/ludismo.htm<br />

Letras Vernáculas<br />

37<br />

2<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II:<br />

literatura, correntes teórico-críticas<br />

SAIBA MAIS<br />

O Terceiro Estado: na<br />

França do Antigo Regime<br />

(Ancien Régime) e durante a<br />

Revolução Francesa, o termo<br />

Terceiro Estado (fr. Tiers État)<br />

indicava as pessoas que não<br />

faziam parte do clero (Primeiro<br />

Estado) nem da nobreza<br />

(Segundo Estado). Desses<br />

termos, veio o nome medieval<br />

da assembleia nacional<br />

francesa: os Estados Gerais<br />

(fr. États Généraux), análogo<br />

ao Parlamento britânico, mas<br />

sem tradição constitucional<br />

dos poderes parlamentares:<br />

a monarquia francesa reinava<br />

absoluta.<br />

Fonte: http://variasvariaveis.sites.<br />

uol.com.br/burguesia.html<br />

Cromwell: segundo Hugo,<br />

seria uma nova forma de<br />

poesia fruto dos tempos<br />

modernos que deveria superar<br />

por completo as velhas<br />

manifestações clássicas que<br />

se prendiam em demasia a<br />

regras fixas. Para chegar até<br />

seu objetivo principal, Hugo<br />

realiza uma espécie de síntese<br />

histórica em que filia as<br />

formas de arte poética a três<br />

momentos do desenvolvimento<br />

histórico da humanidade,<br />

ou melhor, a três idades do<br />

mundo: os tempos primitivos,<br />

de primeiros encantos com<br />

o mundo, que seriam líricos<br />

e teriam nas odes e hinos<br />

suas formas de expressão;<br />

os tempos antigos, em que<br />

já haveria grandes impérios e<br />

acontecimentos narrados em<br />

poemas épicos; e, por fim, os<br />

tempos modernos, que seriam<br />

dramáticos.<br />

Fonte: http://www.<br />

espacoacademico.com.<br />

br/046/46coliveira.htm<br />

A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX<br />

Guardadas as discussões teóricas acerca da origem do<br />

romance, para Julia Kristeva de Le texte du Roman, encontra-<br />

se na narrativa pós-épica medieval, quando ocorre a dissolução<br />

da comunidade europeia sustentada em uma economia natural<br />

fechada e dominada pelo cristianismo (1970, p.19). Diderot, por<br />

sua vez, não identifica qualquer vínculo entre o romance publicado,<br />

a partir do século XVIII, com a produção estética daquele anterior.<br />

E Kristeva identifica a mudança, que o romance tomou, em seus<br />

temas, após a Revolução Francesa. Para a teórica búlgara,<br />

radicada na França:<br />

Por um romance, entendeu-se até hoje um tecido de<br />

acontecimentos quiméricos e frívolos, cuja leitura era<br />

perigosa para o gosto e para os costumes. Gostaria muito<br />

que se encontrasse um outro nome para as obras de<br />

Richardson, que educam o espírito, que tocam a alma,<br />

que respiram por todos os lados o amor do bem, e que são<br />

chamadas de romance (KRISTEVA,1970, p. 29).<br />

Napoleão via o romance como uma forma de ter os pés<br />

no chão, assim, essa narrativa foi considerada como a “revolução<br />

literária do Terceiro Estado”, durante a Restauração, iniciada<br />

em 1840 e esteve, entre as mais publicadas. Foram publicados,<br />

na França, durante o império napoleônico, anualmente, cerca de<br />

quatro mil romances, representando uma dinâmica cultural antes<br />

nunca vista no país!<br />

Enquanto, no teatro, surge o drama, mistura da tragédia<br />

com a comédia, do grotesco com o sublime. No famoso prefácio<br />

do drama Cromwell, publicado em 1827, Victor Hugo coloca toda<br />

a sua verve condoreira em defesa da inspiração e da autonomia<br />

do artista.<br />

Digamo-lo, pois, ousadamente. Chegou o tempo disso, e<br />

seria estranho que, nesta época, a liberdade, com a luz,<br />

penetrasse por toda a parte, exceto no que há de mais<br />

nativamente livre no mundo, as coisas do pensamento.<br />

[...] Não há regras nem modelos; ou antes, não há outras<br />

regras senão as leis gerais da natureza que plainam sobre<br />

toda a arte, e as leis especiais que, para cada composição,<br />

resultam das condições de existência próprias para cada<br />

assunto. [...] O poeta, insistamos neste ponto, não deve,<br />

pois pedir conselho senão à natureza, à verdade, e à<br />

inspiração, que é também uma verdade e uma natureza<br />

(HUGO, 2002, p.30).<br />

Na linha de raciocínio de Paul Valéry, de que não há possibilidade<br />

38 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

de definir o Romantismo, sob pena de prejudicar o rigor lógico;<br />

vamos agora, analisar textos, que representam a visão multifacetada<br />

do romantismo. O primeiro deles é um soneto do poeta brasileiro<br />

Álvares de Azevedo, constante de Lira dos Vinte anos (1994):<br />

Pálida, à luz da lâmpada sombria,<br />

Sobre o leito de flores reclinada,<br />

Como a lua por noite embalsamada,<br />

Entre as nuvens do amor ela dormia!<br />

Era a virgem do mar! Na escuma fria<br />

Pela maré das águas embalada!<br />

Era um anjo entre nuvens d’ alvorada<br />

Que em sonhos se banhava e se esquecia!<br />

Era mais bela! O seio palpitando...<br />

Negros olhos as pálpebras abrindo...<br />

Formas nuas no leito resvalando...<br />

Não te rias de mim, meu anjo lindo!<br />

Por ti – as noites eu velei chorando,<br />

Por ti – nos sonhos morrerei sorrindo!<br />

A imagem evocada pelo eu lírico é da mulher amada em um<br />

sonho. De forma não definida, concentrada, nas duas primeiras estrofes<br />

do poema, essa mulher é descrita como estando mais distante, etérea,<br />

difusa e inatingível: “lâmpada sombria”, “Sobre o leito de flores ela<br />

dormia”, “lua por noite embalsamada”, “Entre as nuvens do amor<br />

ela dormia”, “virgem do mar”, “escuma fria”, “Pela maré das águas<br />

embalada!“, “ ... anjo entre nuvens embalada”, “ ... em sonhos se<br />

banhava e se esquecia”. Por outro lado, nas estrofes seguintes, o ser<br />

amado ganha uma dimensão mais próxima possível de identificação,<br />

confirmando-se em: “... mais bela”, “seio palpitando”, “Negros olhos<br />

as pálpebras abrindo...”, “Formas nuas no leito resvalando”, “Não<br />

rias de mim, meu anjo lindo!”, “... as noites eu velei chorando!”, “...<br />

nos sonhos morrerei sorrindo!”. Apesar de os tercetos colocarem a<br />

mulher mais concreta, ela continua inacessível e distante, pois tudo<br />

não passou de um sonho.<br />

Tal atitude romântica coloca o ser amado em uma dimensão do<br />

sublime e da divindade; confirmando, assim, o que já foi dito acima,<br />

sobre o alcance dos puros conteúdos, presos a preceitos naturais<br />

de origem e harmonia, alcançados pela obra de arte. Os conteúdos<br />

puros, de que fala Kant, em Crítica da faculdade do juízo (1993),<br />

dão à arte uma dimensão desinteressada, porque essa não deve<br />

remeter à realidade mais imediata. Nesta perspectiva, o poema em<br />

Letras Vernáculas<br />

39<br />

2<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II:<br />

literatura, correntes teórico-críticas<br />

A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX<br />

questão alcança o chamado princípio monadológico, Walter Benjamin<br />

(1993) e, da mesma sorte, se confirma o anseio de Romantisieren<br />

(romantizar) e de Bildung (cultivo) do eu poético e daquilo que ele<br />

enaltece, no caso, a figura feminina.<br />

Victor Hugo encerra, ao contrário dos poetas do ultraromantismo,<br />

de cunho escapista, como Álvares de Azevedo, uma opção pelo embate,<br />

frente aos problemas. Em Écrit, carta em versos, de 1846, no quinto<br />

livro, Contemplations, opta pelo enfrentamento revolucionário:<br />

Les Révolutions qui viennent tout venger,<br />

Font un bien éternel dans leur mal passager...<br />

A travers les rumeurs, les cadavres, les deuils,<br />

L’écume, et les sommets qui deviennent écueils,<br />

Les siècles devant eux poussent, désespérés,<br />

Les Révolutions, monstrueuses marées,<br />

Océans faits des pleurs de tout le genre humain.<br />

[ As revoluções que vêm vingar tudo,/Fazem um bem<br />

eterno no seu mal passageiro.../ Através dos rumores, dos cadáveres,<br />

dos lutos,/ Da espuma e dos cumes que se tornam escolhos,/ Os<br />

séculos empurram na sua frente, desesperados,/As revoluções, marés<br />

monstruosas,/Oceanos feitos dos prantos de todo o gênero humano] (apud<br />

PEYRE, 1971, p.87).<br />

Assim, o poeta saúda as revoluções, vistas como solução<br />

para os males da sociedade de então, com possibilidade de um futuro<br />

glorioso para a França. Victor Hugo, assim como Lamartine, outro<br />

artista francês, tiveram grande influência na poética de Castro Alves,<br />

considerado como fiel herdeiro desses mestres. O baiano traz para a<br />

Literatura Brasileira o espírito de combate, alinhado à linha platônica<br />

de poetar; ainda que o Romantismo tenha se oposto ao modelo<br />

clássico, como já vimos acima. Tal sinal foi repetido muito depois,<br />

não mais à luz do Liberalismo, mas sim do Marxismo, por um Carlos<br />

Drummond de Andrade, de A Rosa do Povo, entre outros.<br />

A causa maior defendida por Castro Alves (1964) é a Liberdade<br />

e atreladas a essa a Igualdade e a Fraternidade, universalizadas<br />

para todo o gênero humano, todos, em uma coordenada do espírito<br />

revolucionário de 1789. O poemeto épico O navio Negreiro do baiano<br />

guarda o tom condoreiro, de acordo com o seu antecessor Victor<br />

Hugo, isto é, com o uso de apóstrofes e hipérboles, que encerram a<br />

indignação do eu poético, bem como de hipérbatos, com inversões<br />

tão bruscas, que chegam a confundir o leitor.<br />

No sexto canto, do poema, o eu poético consegue<br />

empreender um embate crucial com os símbolos nacionais e históricos,<br />

que, a princípio, deveriam ser utilizados como índices de referência e<br />

40 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

distinção, mas são rechaçados, pelo que significam.<br />

E existe um povo que a bandeira empresta<br />

P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...<br />

E deixa-a transformar-se em uma festa<br />

Em manto impuro de bacante fria!...<br />

Meu Deus! Meu Deus! Mas que bandeira é esta,<br />

Que impudente na gávea tripudia?!...<br />

Silêncio!... Musa! Chora, chora tanto<br />

Que o pavilhão se lave no teu pranto...<br />

A bandeira, sendo um símbolo nacional, em uma epopeia<br />

clássica, ganharia a dimensão de enaltecimento e não de repulsa.<br />

Tal negação se justifica porque são nações que, em nome do lucro,<br />

- o tráfego dos navios negreiros rendia grandes somas – muitos<br />

viviam deste comércio repugnante; tanto, na África, na Europa, nas<br />

Américas, como no Brasil.<br />

Na estrofe seguinte, ocorre a abominação ao próprio pavilhão<br />

nacional. Especificamente, a instância poética se refere ao fato de o<br />

país ter-se sagrado vencedor da Guerra do Paraguai, há pouco extinta<br />

em março de 1870.<br />

Auriverde pendão de minha terra,<br />

Que a brisa do Brasil beija e balança,<br />

Estandarte que a luz do sol encerra,<br />

E as promessas divinas da esperança...<br />

Tu, que da liberdade após a guerra,<br />

Foste hasteado dos heróis na lança,<br />

Antes te houvessem roto na batalha,<br />

Que servires a um povo de mortalha!...<br />

Para, na estrofe seguinte, em tom de imprecação, através<br />

de vocativos, exortar José Bonifácio de Andrade e Silva, patrono da<br />

Independência do Brasil, a tomar uma providência efetiva contra a<br />

escravidão e, ao mesmo tempo, vindo a condenar a própria descoberta<br />

da América, quando diz:<br />

Fatalidade atroz que a mente esmaga!<br />

Extingue nesta hora o brigue imundo<br />

O trilho que Colombo abriu na vaga,<br />

Como um íris no pélago profundo!...<br />

... Mas é infâmia de mais... Da etérea plaga<br />

Levantai-vos, heróis do Novo Mundo...<br />

Andrada! Arranca este pendão dos ares!<br />

Colombo! Fecha a porta de teus mares!<br />

Letras Vernáculas<br />

41<br />

2<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II:<br />

literatura, correntes teórico-críticas<br />

A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX<br />

Consequentemente, o regime feudal do Absolutismo, com seus<br />

valores e crenças, que motivaram a expansão marítima europeia, são<br />

colocados também em xeque, ao negar a dimensão histórica do feito<br />

de Colombo em 1492; uma vez que o Liberalismo acenava então com<br />

outra coordenada histórica, fundada em dados igualitários para toda<br />

a humanidade.<br />

3 A VISÃO HISTORICISTA DAS TEORIAS CRÍTICAS DO<br />

SÉCULO XIX<br />

Entre outros teóricos, destaca-se Sainte-Beuve (1804-1868)<br />

como um dos principais críticos europeus do século XIX, que institui<br />

o método biográfico de análise literária; porque para ele, é impossível<br />

avaliar uma obra sem conhecer seu autor, seu perfil psicológico e<br />

moral. Esteve muito comprometido com o Positivismo de Augusto<br />

Comte, quando via a História em uma coordenada de progresso,<br />

rumo ao estágio positivo da matematização da vida.<br />

A par de Sainte-Beuve, ocorre a figura de Hyppolyte Taine<br />

(1828-1893). Fortemente influenciado pelas ciências naturais e seus<br />

métodos, em seu determinismo racionalista, e os estende à crítica<br />

da Literatura. Nas palavras de Eduardo Portella et al., em Teoria<br />

Literária (1991):<br />

A concepção literária de Taine exerceu uma larga influência<br />

por seu caráter tão claro quanto racionalista e como se<br />

depreende facilmente, o método literário científico parte<br />

da obra como pretexto para se concentrar no autor e<br />

sobretudo no homem e seu meio social. Predomina ainda<br />

o historicismo em detrimento do literário (PORTELLA et<br />

al.1991, p.23).<br />

Logo, Taine passa a ver a obra artística como produto do meio,<br />

da raça e do momento histórico, pois toda raça vive em um meio<br />

natural e sociopolítico, que age sobre a mesma, em um momento da<br />

evolução histórica.<br />

O método biográfico, portanto, se volta para o meio, na busca<br />

do entendimento da obra. Mas há ainda outros teóricos vinculados ao<br />

historicismo evolucionista como Brunetière, quando viu os gêneros<br />

literários como organismos vivos, com nascimento, crescimento e<br />

morte. Lanson (1857-1934), por sua vez, estabeleceu seu método<br />

de História Literária, semelhante ao filológico, trazendo à luz textos<br />

europeus do passado ainda não estudados.<br />

42 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

Os filmes indicados abaixo se vinculam, por suas temáticas,<br />

ao conteúdo estudado nesta Aula II.<br />

SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS<br />

(1989)<br />

Direção: Peter Weir. Com Robin Williams, Robert Sean<br />

Leonard, Ethan Hawke<br />

Sobre uma escola conservadora dos Estados Unidos<br />

dos anos 50 do século passado, cujo professor de<br />

literatura persuade seus alunos a lerem poesia como<br />

forma de libertação. E reproduz bem a ambiência<br />

vivida pelos poetas do romantismo: Göethe, Schiller,<br />

Novalis e Schlegel, durante o Império alemão do<br />

século XVIII, quando se reuniam em cavernas, em<br />

uma espécie de confraria, para lerem poesias.<br />

O CORCUNDA DE NOTRE DAME<br />

(1956)<br />

Direção: Jean Delannoy. Com Anthony Quinn e Gina<br />

Lollobrigida.<br />

Baseado na obra homônima de Victor Hugo, publicada<br />

em 1831, se centra em torno de três personagens:<br />

a cigana Esmeralda, o corcunda Quasímodo e o<br />

pároco Claude Frollo. Além da atenção ao enredo,<br />

o romance faz menção à sociedade parisiense do<br />

século XV, com a presença de destaque o rei Luís XI.<br />

Tais opções de enfoque, utilizadas por Victor Hugo,<br />

respondem pela ânsia de liberdade romântica em<br />

relação aos clássicos. Trata-se de uma temática que<br />

expõe as mazelas socias de uma época, mas ainda<br />

presente no século XIX, quando a obra foi escrita.<br />

Letras Vernáculas<br />

43<br />

2<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II:<br />

literatura, correntes teórico-críticas<br />

SINFONIA DE PRIMAVERA<br />

(1983)<br />

Direção: Peter Shamony. Com Nastassja Kinski e<br />

Rodolf Hoppe.<br />

Baseado na vida do compositor romântico Robert<br />

Schumann, reflete a ambiência da sociedade do<br />

Império alemão, do século XVIII.<br />

O CORTIÇO<br />

(1977)<br />

Direção: Francisco Ramalho Jr.Com Betty Faria,<br />

Armando Bógus, Mário Gomes<br />

Baseado na obra homônima do escritor maranhense<br />

Aloísio de Azevedo. Obra e filme estão muito<br />

comprometidos em interpretar a realidade à luz do<br />

Naturalismo, em que o homem é visto como produto<br />

do meio, da raça e do momento histórico, sem uma<br />

perspectiva de subjetividade, bem próximo ao<br />

animal.<br />

A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX<br />

44 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

ATIVIDADE<br />

1 Por que, para Paul Valéry, não há possibilidade de definir o Romantismo?<br />

2 Kant, em A Crítica da faculdade do juízo (1993), afirma que a arte<br />

possui dois tipos de finalidade: a finalidade estética e a finalidade<br />

teleológica. Explique.<br />

3 Como Kant define o Belo, a Beleza?<br />

4 Disserte acerca da seguinte afirmação, feita durante a Aula II: A<br />

poética que marca o período romântico faz-se estruturada sobre o<br />

símbolo, enquanto a pós-romântica é condicionada pela pre sença da<br />

alegoria. Estes refletem um ideal de unidade, reivin dicado por uma<br />

época.<br />

5 Qual a concepção de arte em Fenomenologia do Espírito de Hegel?<br />

6 É possível estabelecer um elo entre os puros conteúdos e o desinteresse<br />

artístico defendido por Kant?<br />

7 De que modo as teorias de Sainte-Beuve, Brunetière, Lanson e de<br />

Taine estão em sintonia com a época em que surgiram?<br />

8 Por que o romance foi considerado a “revolução literária do Terceiro<br />

Estado”?<br />

9 Por que Victor Hugo insurge-se contra o modelo clássico?<br />

10 De que forma o historicismo do século XIX influencia a crítica literária<br />

daquele momento?<br />

RESUMINDO<br />

Espera-se que você, ao final da Aula II, tenha apreendido os<br />

conceitos básicos que digam respeito à Literatura, os conceitos de arte<br />

para Immanuel Kant e Victor Hugo, na busca do entendimento da poética<br />

e da liberdade românticas; bem como a influência da História nas teorias<br />

críticas do século XIX, com Sainte-Beuve, Hyppolyte Taine, Brunetière e<br />

Lanson.<br />

Letras Vernáculas<br />

45<br />

2<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II:<br />

literatura, correntes teórico-críticas<br />

R E F E R Ê N C I A S<br />

A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX<br />

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes,<br />

1998.<br />

ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas. Tradução de Denise<br />

Bottman. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.<br />

ARENDT, Hannah. Lições Sobre a Filosofia Política de Kant. Tradução<br />

de André Duarte de Macedo. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1993.<br />

AZEVEDO, Álvares. Lira dos vinte anos. Rio de Janeiro: Garnier,1994.<br />

BENJAMIN, Walter. O Conceito de Crítica de Arte no Romantismo<br />

Alemão. Tradução de Marcio Seligmann-Silva. São Paulo: EDUSP,<br />

Iluminuras, 1993.<br />

BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. São<br />

Paulo: Cultrix, 1976.<br />

BRUGGER, Walter. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Herder, 1969.<br />

CADEMARTORI, Lígia. Períodos Literários. São Paulo: Ática,1997.<br />

CALVET, Jean. Manuel illustré d’histoire de la littérature française.<br />

Paris: J. de Gigord, 1966.<br />

Enciclopédia Barsa. São Paulo: Melhoramentos, vol.15, 1966.<br />

GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina. C. Teoria da<br />

Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.<br />

Grande Dicionário Delta Larousse. Editora Delta: Rio de Janeiro, 1973.<br />

HEGEL, F. Fenomenologia do espírito. Tradução de Paulo Meneses.<br />

Petrópolis: Vozes, 1992.<br />

HUGO, Victor. Do grotesco e do sublime: tradução do “Prefácio de<br />

Cromwell” Tradução de Celia Berretini. São Paulo: Perspectiva, 2002.<br />

HUISMAN, Denis. Dicionário de Obras Filosóficas. São Paulo: Martins<br />

Fontes, 2000.<br />

KANT, Immanuel. Crítica da faculdade do juízo. Tradução de Valério<br />

Rohden e Antonio Marques. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1993.<br />

KRISTEVA, Júlia. Le texte du roman. The Hague: Mouton, 1970.<br />

LUCAS, Fábio. O Caráter Social da Ficção do Brasil. São Paulo: Ática,<br />

1985.<br />

LUKÁCS, Georg. L’âme et les formes. Paris: Gallimard, 1974.<br />

46 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

NUNES, Benedito. Introdução à filosofia da arte. São Paulo: Ática, 1991.<br />

PEYRE, Henri. Qu’est-que c’est le Romantisme? France: Presses<br />

Universitaires de France, col. SUP, 1971.<br />

PORTELLA, Eduardo, et al. Teoria Literária. Rio de Janeiro: Tempo<br />

Brasileiro, 1991.<br />

SACRAMENTO, Sandra. Nação, Identidade e Gênero na Literatura<br />

Brasileira. Rio de Janeiro: Caetés, 2004.<br />

SCHILLER, Friedrich. A educação estética do homem, numa série<br />

de cartas de Friedrich Schiller. Tradução de Roberto Schwarz; Márcio<br />

Suzuki. São Paulo: Iluminuras: 1995.<br />

SCHLERGEL, Friedrich. Conversa sobre a poesia e outros fragmentos.<br />

Tradução de Victor-Pierre Stirnimann. São Paulo: Iluminuras: 1995.<br />

SILVA, Vitor Manuel de A. Teoria da literatura. Coimbra: Almedina, 1975.<br />

SOUZA, Roberto Acízelo de. Teoria da Literatura. São Paulo: Ática, 2004.<br />

LEITURA RECOMENDADA<br />

CADEMARTORI, Lígia. Períodos Literários. São Paulo: Ática, 1997.<br />

GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina. C. Teoria da<br />

Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.<br />

LUCAS, Fábio. O Caráter Social da Ficção do Brasil. São Paulo:<br />

Ática, 1985.<br />

NUNES, Benedito. Introdução à filosofia da arte. São Paulo: Ática,<br />

1991.<br />

SOUZA, Roberto Acízelo de. Teoria da Literatura. São Paulo: Ática,<br />

2004.<br />

Letras Vernáculas<br />

R E F E R Ê N C I A S<br />

47<br />

2<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II:<br />

literatura, correntes teórico-críticas<br />

A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX<br />

ANEXO<br />

Kant: Immanuel Kant ou Emanuel Kant (Königsberg, 22 de abril de<br />

1724 — Königsberg, 12 de fevereiro de 1804) foi um filósofo alemão,<br />

geralmente considerado como o último grande filósofo dos princípios da<br />

era moderna, indiscutivelmente um dos seus pensadores mais influentes.<br />

A filosofia de Kant nos surge como uma filosofia essencialmente trágica,<br />

já que afirma simultaneamente a necessidade da natureza (na Crítica<br />

da Razão Pura) e a exigência de uma liberdade absoluta (na Crítica da<br />

Razão Prática). Em sua terceira grande obra, A Crítica do Juízo, Kant se<br />

esforça por mostrar a possibilidade de uma reconciliação entre o mundo<br />

natural e o da liberdade. A natureza talvez não seja apenas o domínio do<br />

determinismo, mas também o da finalidade que aparece notadamente<br />

na organização harmoniosa dos seres vivos.<br />

Fonte: http://www.mundodosfilosofos.com.br/kant2.htm<br />

Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File: Immanuel_Kant_%28painted_portrait%29.jpg<br />

Paul Valéry: Paul Ambroise Valéry (Sète 1871 – Paris 1945) foi um<br />

filósofo, escritor e poeta francês da escola simbolista, cujos escritos<br />

incluem interesses em matemática, filosofia e música; autor de, entre<br />

outras obras, de Le Jeune Parque (1917) e Charmes (1922).<br />

Fonte: Grande Dicionário Delta Larousse, 1973, p. 2014.<br />

Ilustração - Fonte:http://www.ts4.com/Quotes/QuotePaulValery.html<br />

Weber: Maximillian Carl Emil Weber (Erfurt, 21 de abril de 1864 — Munique,<br />

14 de junho de 1920) foi um intelectual alemão, jurista, economista e<br />

considerado um dos fundadores da Sociologia. Autor de Ética Protestante<br />

e o Espírito do Capitalismo (1905), Cientista e o Político (1921), Ensaios<br />

sobre a Teoria da Ciência (1965).<br />

Fonte: HUISMAN, 2000, p. 609.<br />

Ilustração - Fonte:http://www.ocoruja.com/index.php/2009/max-weber/<br />

Arendt: Hannah Arendt (Linden, 14 de outubro de 1906 — Nova Iorque,<br />

4 de dezembro de 1975) foi uma teórica política alemã, muitas vezes<br />

descrita como filósofa, apesar de ter recusado essa designação. Emigrou<br />

para os Estados Unidos, durante a ascensão do nazismo, na Alemanha.<br />

Entre suas obras de mais destaque estão Origens do Totalitarismo (1951)<br />

e A condição humana (1959).<br />

Fonte: http://www.mundodosfilosofos.com.br/a-condicao-humana-hannah-arendtt.htm<br />

Ilustração - Fonte: http://filosofiaportal.blogspot.com/<br />

48 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

Novalis: Georg Philipp Friedrich von Hardenberg (Oberwiederstedt, Harz,<br />

2 de maio de 1772 — Weißenfels, 25 de março de 1801), Freiherr (Barão)<br />

von Hardenberg, mais conhecido pelo pseudônimo Novalis, foi um dos<br />

mais importantes representantes do romantismo alemão de finais do<br />

século XVIII e o criador da flor azul, um dos símbolos mais duráveis do<br />

movimento romântico.<br />

Fonte: BRUGGER, 1969, p.498.<br />

Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Novalis-1.jpg<br />

Schiller: Johann Christoph Friedrich von Schiller, enobrecido em 1802 (10<br />

de novembro de 1759 em Marbach am Neckar — 9 de maio de 1805 em<br />

Weimar), mais conhecido como Friedrich Schiller, foi um poeta, filósofo e<br />

historiador alemão, e é tido como o mais importante dramaturgo alemão.<br />

Schiller foi um dos grandes homens de letras da Alemanha do século<br />

XVIII, e juntamente com Göethe, Wieland e Herder é representante do<br />

Romantismo alemão e do Classicismo de Weimar. Sua amizade com Göethe<br />

rendeu uma longa troca de cartas que se tornou famosa na literatura<br />

alemã. Sua poesia também é famosa, como por exemplo, a Ode à Alegria<br />

(An die Freude), que inspirou Ludwig van Beethoven a escrever, em 1823,<br />

o quarto movimento de sua nona sinfonia.<br />

Fonte: SCHILLER, 1995, p. 11-26.<br />

Ilustração - Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/File:Friedrich_schiller.jpg<br />

Schlegel: Friederich von Schlegel foi influenciado pela filosofia de<br />

Fichte. Em 1798 tornou-se companheiro (casado só em 1804) de<br />

Dorothea Veit (1763-1839), filha do filósofo judeu Moses Mendelssohn,<br />

cujo gosto literário o fortaleceu nas convicções românticas.<br />

Suas críticas magistrais do Wilhelm Meister, de Göethe, e de peças de<br />

Shakespeare foram incluídas no volume, editado juntamente com August<br />

Wilhelm Schlegel, Interpretações e críticas.<br />

Fonte: http://educacao.uol.com.br/biografias/friedrich-schlegel.jhtm<br />

Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Friederich_von_Schlegel.jpg<br />

Göethe: Johann Wolfgang Von Göethe (1749-1832) foi um importante<br />

romancista, dramaturgo e filósofo alemão. Fez parte de dois movimentos<br />

literários importantes: romantismo e expressionismo. Apresentou<br />

também um grande interesse pela pintura e desenho. Juntamente com<br />

Schiller foi um dos líderes do movimento literário romântico alemão<br />

Sturm und Drang.<br />

Fonte: http://www.suapesquisa.com/pesquisa/goethe.htm<br />

Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Johann_Wolfgang_von_Goethe_%28Josef_<br />

Stieler%29.jpg<br />

Letras Vernáculas<br />

49<br />

2<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II:<br />

literatura, correntes teórico-críticas<br />

A liberdade romântica e a visão historicista das teorias críticas do século XIX<br />

Lukács: Lukács György foi um filósofo húngaro de grande importância<br />

no cenário intelectual do século XX. Segundo Lucien Goldmann, Lukács<br />

refez, em sua acidentada trajetória, o percurso da filosofia clássica<br />

alemã: inicialmente um crítico influenciado por Kant, depois o encontro<br />

com Hegel e, finalmente, a adesão ao marxismo. Seu nome completo era<br />

Georg Bernhard Lukács von Szegedin, em alemão, ou Szegedi Lukács<br />

György Bernát, em húngaro.<br />

Fonte: http://www.unicamp.br/cemarx/marianorma.htm<br />

Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Luk%C3%A1cs_Gy%C3%B6rgy.jpg<br />

Hegel: Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770 —1831) foi um filósofo<br />

alemão. Recebeu sua formação no Tubinger Stift (seminário da Igreja<br />

Protestante em Wurttemberg). Era fascinado pelas obras de Spinoza, Kant<br />

e Rousseau, assim como pela Revolução Francesa. Muitos consideram<br />

que Hegel representa o ápice do idealismo alemão do século XIX, que<br />

teve impacto profundo no materialismo histórico de Karl Marx.<br />

Fonte: BRUGGER, 1969, p. 498 - 499.<br />

Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Georg_Wilhelm_Friedrich_Hegel00.jpg<br />

Julia Kristeva: linguista e crítica literária de expressão francesa nascida<br />

em 1941, em Sófia, na Bulgária. Estudou a literatura a partir de elementos<br />

da linguística e da psicanálise.<br />

Fonte: http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/E/estruturalismo.htm<br />

Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Julia_Kristeva_p1200568.jpg<br />

Diderot: Denis Diderot, escritor francês (Langres, 1713 – Paris 1784).<br />

Filho da pequena-burguesia abastada, estudou em Londres e Paris, sem<br />

escolher profissão determinada, reunindo conhecimentos enciclopédicos.<br />

Ganhou a vida com trabalhos literários subalternos. Publicando, entre<br />

outras obras, Pensées philosophiques (1746), tornou-se suspeito às<br />

autoridades, como materialista e ateu; sua obra prima, entretanto, foi<br />

a Encyclopédie (1750-1772,) a qual reportou todo o conhecimento que<br />

a humanidade havia produzido até sua época. Como crítico de arte, foi<br />

o primeiro leigo a se dedicar à técnica da pintura. Seu ensaio sobre a<br />

arte de atuar constitui a primeira contribuição de valor à crítica do teatro<br />

moderno.<br />

Fonte: Grande Dicionário Delta Larousse, 1973, p.2184.<br />

Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Denis_Diderot_%28Dimitry_Levitzky%29.jpg<br />

50 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

Victor Hugo: escritor francês (Bersançon 1802 – Paris 1885). De 1817<br />

a 1830, é um jovem poeta de carreira, bem dotado, bem pensante e<br />

monarquista. Publica em 1822, Odes et poésies diverses, quatro<br />

meses antes de se casar com Adèle Fouchet. Em 1827, publica o drama<br />

Cromwell. Os acontecimentos políticos de 1830, o desentendimento<br />

conjugal, a ligação amorosa com Jouliette Drouet (1833) determinam<br />

profundamente mudanças nas idéias e na sensibilidade do escritor, que<br />

se afirma cada vez mais chefe do movimento romântico. Em 1841,<br />

é eleito para a Academia Francesa de Letras. Entre suas obras estão<br />

coletâneas líricas, peças de teatro e romances; com destaque para o<br />

drama Hernani, de 1830; o romance Notre Dame de Paris, de 1831; e<br />

Les Misérables, de 1862.<br />

Fonte: Grande Dicionário Delta Larousse, 1973, p. 3423.<br />

Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Victor_Hugo_001.jpg<br />

Hyppolyte Taine: foi crítico, historiador e filósofo francês. Foi o filósofo<br />

do naturalismo. Para ele, se conhecemos a raça, o meio e o momento<br />

histórico, em que o homem foi criado, podemos saber seu pensamento<br />

e seus sentimentos. Suas obras mais importantes são: De l’ intelligence<br />

(1870) e Philosophie da L’ Art (1882).<br />

Fonte: CALVET, 1966, p. 770-771.<br />

Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Hippolyte_taine.jpg<br />

Letras Vernáculas<br />

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2<br />

Aula


Suas anotações<br />

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A ESTILÍSTICA DA LANGUE E A DA PAROLE<br />

Objetivos Meta<br />

Enfocar os conceitos que envolvem a Estilística ligada<br />

à langue e aquela que prioriza a parole.<br />

Ao final desta Aula III, você deverá conhecer os pres-<br />

supostos teóricos da corrente de abordagem do literá-<br />

rio: Estilística.<br />

<strong>aula</strong><br />

3


UESC<br />

AULA 3<br />

A ESTILÍSTICA DA LANGUE A A DA PAROLE<br />

1 INTRODUÇÃO<br />

Nesta Aula III, vamos estudar a corrente teórica Estilística.<br />

Os teóricos Charles Bally, Eugenio Coseriu, Jules Marouzeau dão<br />

ênfase, em seus estudos, à abordagem que privilegia a langue;<br />

ao contrário de Benedetto Croce, Karl Vossler, Leo Spitzer, Dámaso<br />

Alonso e Amado Alonso que veem a parole como princípio explicativo<br />

em suas análises.<br />

Antes do início desta Aula III, você deverá ter lido:<br />

• a obra A Linguagem Literária, de Domício Proença Filho;<br />

• o capítulo 15 de Teoria da literatura, de Victor Manuel de A. Silva;<br />

• o capítulo 1, especificamente, da p. 28 à p. 30, de Teoria Literária de Eduardo Portella, et al;.<br />

• o capítulo 7, especificamente, da p.171 à p.178, de Teoria da Literatura “revisitada” de Maria<br />

Magaly Trindade Gonçalves e Zina Bellodi.*<br />

•<br />

* As referências das obras encontram-se no final da Aula III.<br />

Letras Vernáculas<br />

55<br />

ATENÇÃO<br />

3<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />

SAIBA MAIS<br />

Langue e Parole: língua<br />

versus fala (discurso) é a<br />

dicotomia basilar da linguística<br />

saussuriana. Fundamenta-se<br />

na oposição<br />

social/individual, extraída<br />

da Sociologia: a língua é<br />

da esfera social, ao passo<br />

que a fala é da esfera individual.<br />

Para o mestre<br />

genebrino, linguagem é a<br />

faculdade que o indivíduo<br />

tem de falar uma língua.<br />

Fonte: http://www2.fcsh.unl.pt/<br />

edtl/verbetes/L/lingua.htm<br />

2 ESTILÍSTICA<br />

A Estilística da langue e a da parole<br />

O termo estilística, em outra acepção, já havia sido empregado<br />

no século XVIII pelo filósofo alemão Novalis, como sinônimo de<br />

retórica. No século XX, porém, na esteira do Estruturalismo de<br />

Ferdinand de Saussure, Charles Bally, seu aluno e genro, a partir do<br />

curso de férias ministrado pelo mestre, na Universidade de Genebra,<br />

institui a Estilística moderna, centrada na langue, enquanto expressão<br />

de sentimentos, ao contrário do enfoque linguístico, que se preocupa<br />

somente com a parte intelectual do nosso ser pensante. Para Bally:<br />

A estilística estuda, portanto, os fatos de expressão<br />

da linguagem organizada sob o ponto de vista do<br />

seu conteúdo afetivo, i. e., a expressão dos fatos<br />

da sensibilidade através da linguagem e a ação dos<br />

fatos de linguagem sobre a sensibilidade (BALLY, s/d,<br />

p.16).<br />

Por fato estilístico, se entende como a menor unidade do texto.<br />

O autor, ao fazer determinadas escolhas, entre as previsíveis no código<br />

linguístico, opta por um determinado fato estilístico. Entretanto, Bally<br />

não se dedicou ao texto literário, suas análises descritivas centraram-<br />

se apenas nos recursos estilísticos, em seu sistema de expressão,<br />

colocados pela língua, de modo geral, à disposição dos falantes como<br />

expressão de sentimento.<br />

A Estilística, como a entende o suíço, está para a língua e não<br />

para a fala e, neste sentido, para a norma, previamente, estabelecida<br />

para o usuário da língua. Nas palavras de Eugenio Coseriu:<br />

[Trata-se do] estudo das variantes normais com<br />

valor expressivo-afetivo [no] estudo da utilização<br />

estilística normal das possibilidades que oferece um<br />

sistema daqueles elementos que são normalmente,<br />

na língua de uma comunidade portadores de um<br />

particular valor expressivo (1962, p.105).<br />

Com Jules Marouzeau, ainda que seu enfoque permanecesse<br />

no nível da língua e não da fala, a Estilística moderna passa a incidir<br />

suas análises, em certa medida, no texto literário. Em uma perceptiva<br />

generalizante, de cunho científico, não se detém em um autor, mas<br />

em obras referentes a uma época de uma determinada literatura,<br />

a fim de apreender aspectos do estilo, como o uso de expressões,<br />

que remetem a questões concretas ou abstratas, de clichês, de<br />

construções frasais ou mesmo o vocabulário que aparente imitações<br />

de autores ou supostas influências, entre outros.<br />

56 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

Na linha oposta à Estilística da langue, de filiação linguístico-<br />

positivista, surge a Estilística da parole, fortemente influenciada<br />

pela linguística idealista de raiz romântica. Entre seus grandes<br />

representantes estão: Benedetto Croce, Karl Vossler, Leo Spitzer,<br />

Dámaso Alonso e Amado Alonso.<br />

Benedetto Croce teve o grande mérito de ter tirado a Estética<br />

do âmbito da Filosofia. Para quem a arte constitui um conhecimento<br />

intuitivo, fora da esfera intelectual, pois seus objetivos são intrínsecos<br />

a ela mesma.<br />

A arte não está, como a família platônica entende, a serviço<br />

da moral, ou de uma utilidade, além da expressão. Por apresentar a<br />

linguagem como atividade espiritual e criadora, a Estilística opõe-se<br />

também à visão naturalístico-positivista, que condiciona a arte ao<br />

meio, à raça e ao momento histórico, como viu Taine na segunda<br />

metade do século XIX.<br />

Quer dizer, não existe qualquer realidade lingüística<br />

objetiva, de caráter social e comunitário – a langue<br />

de Saussure -, independentemente dos indivíduos<br />

singulares: existem, sim, atos lingüísticos individuais,<br />

livres criações do espírito, que apenas podem ser<br />

convenientemente estudados se se considerar a<br />

natureza poética (SILVA, 1975, p.601).<br />

Logo, a língua é sempre artística, uma vez que o ato de fala<br />

está pleno de criatividade, ainda que nem toda fala seja digna de ser<br />

preservada para a posteridade, como deve acontecer com a obra de<br />

arte. Sendo o crítico um mediador, de cunho filológico, que deve se<br />

colocar entre a obra e o leitor.<br />

Karl Vossler, por sua vez, foi aquele que instituiu a estilística<br />

literária ou crítica estilística, a partir dos estudos de Vico, Humboldt<br />

e Croce. Sua percepção idealista vê a linguagem como atividade<br />

intuitiva, espiritual, que passa a existir na sua expressão verbal. E<br />

só pode ser considerada arte aquela obra, cuja linguagem sofreu<br />

modificação, somente, alcançada pela intuição individual.<br />

Portanto, a estilística representa para Vossler<br />

o fundamento de toda a lingüística, visto que a<br />

linguagem é primordialmente poesia; e constitui<br />

igualmente o fundamento dos estudos literários,<br />

da crítica estético-literária, já que a poesia é<br />

essencialmente linguagem. Em lugar de estudos<br />

biografistas, sociológicos, moralísticos, etc, a<br />

obra poética exige o estudo do seu texto, da sua<br />

linguagem e da história do idioma em que está<br />

escrita, porque a língua aparece como a matriz que<br />

Letras Vernáculas<br />

57<br />

3<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />

A Estilística da langue e a da parole<br />

alimenta a potencialidade artística do escritor (...)<br />

(SILVA, 1975, p. 603).<br />

Vossler, ainda que visse o objeto estético como autônomo ao<br />

contexto, não deixou de privilegiar as circunstâncias culturais que<br />

precedem ao artístico. Leo Spitzer, por sua vez, foi influenciado<br />

por Vossler e o segue na concepção da arte destituída do contexto<br />

histórico ou de qualquer juízo de valor.<br />

A Estilística de Spitzer valoriza o papel do artista,<br />

constituindo-se como uma ponte entre a Lingüística<br />

e a Literatura. Spitzer considerva a Lingüística como<br />

algo sem alma e a Estilística, para ele, deveria<br />

estabelecer uma ponte com a alma do artista. Foi<br />

influenciado por Freud, o conhecimento da Psicanálise<br />

proporcionou-lhe instrumentos para compreender<br />

certos problemas de Literatura (GONÇALVES;<br />

BELLODI, 2005, p.175).<br />

Cada fato estilístico, presente no texto literário, para Spitzer,<br />

é pleno de gesto, no sentido psicanalítico, que indicia um estado de<br />

alma. Restringe-se, entretanto, em seu enfoque do fenômeno literário,<br />

à análise psicológica e não psicanalítica, uma vez que não chega a<br />

investigar os complexos, causadores das neuroses, estudados por<br />

Freud.<br />

O método de análise literária genética spitziano fez escola e<br />

segue um processo que vai do autor à obra e da obra ao autor. Entre<br />

seus seguidores estão os espanhóis: Dámaso Alonso e Amado Alonso,<br />

entre outros.<br />

Com uma visão não formalista da obra, Damaso Alonso propõe<br />

um método fundamentado de análise, em que enfoca a figura do<br />

crítico e a do leitor comum; além de propor tipologias de estilos: o<br />

conceitual, o afetivo e o imaginário. Evidenciando as interrelações<br />

firmadas entre significante e significado, Eduardo Portella, et al.<br />

(1991) assevera:<br />

Como entre o significante e o significado há inúmeras<br />

relações, a finalidade da Estilística consiste na análise<br />

dessas interrelações. Metodicamente a análise pode<br />

partir do significado para o significante ou de maneira<br />

inversa (PORTELLA et al., 1991, p.29).<br />

Alonso critica Charles Bally porque esse se deteve na langue.<br />

Por ser uma Estilística da parole, seu método recria a intuição do<br />

poeta no texto, ainda que sua essência seja de impossível apreensão.<br />

Portanto, a Estilística, ao estabelecer métodos de análise, veio a<br />

58 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

ocupar tarefas outrora restritas ao campo da Retórica.<br />

Quando se fala em Estilística da langue, está-se levando<br />

em conta a capacidade expressiva constante na própria língua, da<br />

qual o falante se utiliza, sem, de fato, acrescentar algo<br />

de pessoal, enquanto sujeito da enunciação. Neste<br />

tipo de análise, são consideradas somente as<br />

três funções da linguagem, de - Karl Bühler,<br />

posteriormente, ampliadas para seis com<br />

Roman Jakobson - centradas, respectivamente,<br />

na 1ª, 2ª e 3ª pessoas, a saber: função de<br />

exteriorização psíquica, função apelativa e função<br />

de representação. Essas elencam a previsão de uso<br />

do código lingüístico, isto é, o falante, ou extravasa<br />

um sentimento, ou interfere sobre o receptor de sua<br />

mensagem, ou ainda se refere ao mundo representado pelo código.<br />

Vejamos esses usos, em exemplos abaixo:<br />

Vivemos, hoje em dia, com a preocupação constante ecológica.<br />

O Planeta Terra pede socorro! Entretanto, um dos personagens da<br />

charge reproduzida ao lado, leva às últimas conseqüências o seu<br />

compromisso com as gerações futuras.<br />

O referido personagem,<br />

ao se utilizar da 1ª pessoa do<br />

singular: “Eu estou apenas<br />

assegurando meus 15m² de área<br />

verde, seu guarda.”, deixa que o<br />

seu receptor, no caso, o guarda<br />

que o interpela, tenha acesso às<br />

camadas mais profundas do seu<br />

ser, pondo, em evidência, a sua<br />

inquietação, diante de um tema<br />

tão sério para o ser humano.<br />

Trata-se o texto, a seguir, de<br />

uma propaganda, também<br />

comprometida com as questões<br />

ecológicas; mais racional em suas<br />

colocações, ao contrário do nosso<br />

personagem da charge, que age<br />

movido somente pela emoção.<br />

Letras Vernáculas<br />

Figura 1 - Onde estão as áreas verdes?<br />

Fonte: http://ocaosemvenancioaires.<br />

blogspot.com/2009/09/meio-ambientepor-cristian-deves.html<br />

Revista Veja, set. 2009.<br />

59<br />

3<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />

A Estilística da langue e a da parole<br />

Veja que o texto, em destaque, volta-se para o receptor<br />

da mensagem “você”, ou seja, aquele com quem se fala, e faz a<br />

recomendação de como encaminhar o lixo doméstico para a<br />

reciclagem.<br />

Nesta propaganda, o emissor se detém em relatar algo que<br />

diz respeito ao mundo exterior comentado. “Ser forte é do Brasil. O<br />

banco que aumentou o crédito para o País enfrentar a crise também.<br />

Faz diferença ter um banco que é do Brasil.” Ainda que haja um forte<br />

apelo, implícito, sobre o receptor da mensagem, para que se torne<br />

cliente do BB e usuário de seus produtos, a mensagem se utiliza da<br />

3ª pessoa, do que se fala, “O banco”.<br />

Em uma análise estilística de um texto literário, deve-se atentar<br />

para o uso das imagens sugeridas, a partir das escolhas expressivas<br />

utilizadas pelo eu poético. Leia, agora, o fragmento do Poema dos<br />

olhos da amada, presente em Poesia Completa e Prosa (1980), abaixo<br />

reproduzido, de Vinicius de Moraes:<br />

Ó minha amada<br />

Que os olhos teus<br />

São cais noturnos<br />

Cheios de adeus<br />

São docas mansas<br />

Trilhando luzes<br />

Que brilham longe<br />

Longe nos breus...<br />

Revista Veja, set.2009 - Edição 2129, p.5-6.<br />

60 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

Se nos voltarmos para os recursos utilizados pelo poeta, no uso<br />

da camada fônica, isto é, de sons, veremos que ocorre apenas um par<br />

de rimas: teus/adeus; entretanto, a sonoridade, no mesmo, ocorre<br />

devido, principalmente, à aliteração, com a repetição de consoantes<br />

nasais, presentes ao longo do poema: /m/ e /n/, capazes de trazer<br />

para o leitor a sensação do balanço do mar próximo a um cais. Da<br />

mesma sorte que o uso da assonância, com a reincidência de vogais<br />

iguais, que, no caso, são /o/ e /a/, produzindo o mesmo efeito de<br />

previsibilidade do movimento da água, em um ancoradouro. Do ponto<br />

de vista do conteúdo, entre os recursos estilísticos, de que o poeta se<br />

vale, estão: a antítese e a metáfora, respectivamente, luzes/breus;<br />

Que os olhos teus/ São cais noturnos/São docas mansas. Há que<br />

ser chamada a atenção para o uso da parataxe, isto é, de orações<br />

coordenadas: os olhos da amada/são cais noturnos cheios de adeus/<br />

são docas..., predominantes na lírica, que não está preocupada<br />

em relatar o mundo, antes opta pelo extravasamento de emoções;<br />

enquanto a hipotaxe requer um grau de racionalidade esperado<br />

principalmente pela narração, pelo texto em prosa. No poema em<br />

questão, mesmo com a presença de orações subordinadas, essas<br />

são antes coordenadas entre si: trilhando luzes (= que trilham)/ que<br />

brilham longe, longe nos breus.<br />

No ANEXO 1, desta Aula III, reproduzimos uma análise<br />

estilística feita sobre um soneto do poeta português Luís de Camões.<br />

ATIVIDADE<br />

1. Explique o vínculo da Estilística de Charles Bally ao Estruturalismo.<br />

2. Qual a importância dos estudos de Jules Marouzeau para a Estilística?<br />

Letras Vernáculas<br />

SAIBA MAIS<br />

Parataxe: é um recurso<br />

estilístico muito comum<br />

na poesia, facilmente<br />

identificável e que não<br />

tem sido, talvez pela<br />

própria obviedade de<br />

seus efeitos, objeto<br />

de maior atenção da<br />

crítica especializada.<br />

Consiste na conexão de<br />

constituintes linguísticos<br />

(frases ou categorias<br />

sintáticas) por coordenação.<br />

Fonte: http://www.centopeia.net<br />

/secoes/?ver=87&secao=ensaios<br />

&pg=5<br />

Hipotaxe: trata-se de<br />

uma conexão de frases<br />

por subordinação, isto<br />

é, com uma relação de<br />

dependência sintática.<br />

Fonte: http://www.centopeia.<br />

net/secoes/?ver=87&secao=e<br />

nsaios&pg=5<br />

3. Explique o avanço dos estudos estilísticos vistos por Benedetto Croce, Karl Vossler, Leo<br />

Spitzer, Dámaso Alonso e Amado Alonso?<br />

4. Estabeleça a diferença entre a estilística da langue e a da parole.<br />

61<br />

3<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />

R E F E R Ê N C I A S<br />

3 RESUMINDO<br />

LEITURA RECOMENDADA<br />

A Estilística da langue e a da parole<br />

RESUMINDO<br />

Nesta Aula IV, você estudou a corrente literária Estilística, com os<br />

teóricos da langue Charles Bally, Eugenio Coseriu, Jules Marouzeau<br />

e os da parole: Benedetto Croce, Karl Vossler, Leo Spitzer, Dámaso<br />

Alonso e Amado Alonso.<br />

4 REFERÊNCIAS<br />

BALLY, Charles. Traité de stylistique française. Heidelberg: Winter, s/d.<br />

COSERIU, Eugeniu. Teoria del lenguaje y linguística general. Madrid:<br />

Gredos,1962.<br />

GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina. C. Teoria da<br />

Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.<br />

HUISMAN, Denis. Dicionário de Obras Filosóficas. São Paulo: Martins<br />

Fontes, 2000.<br />

MORAES, Vinicius de. Poesia completa e Prosa. Rio de Janeiro: Aguilar,<br />

1980.<br />

PORTELLA, Eduardo et al. Teoria Literária. Rio de Janeiro: Tempo<br />

Brasileiro, 1991.<br />

PROENÇA FILHO, Domício. A Linguagem Literária. São Paulo: Ática,<br />

1992.<br />

REIS, Carlos. Técnica de Análise Textual. Coimbra: Almedina,1976.<br />

SILVA, Vitor Manuel de A. Teoria da literatura. Coimbra: Almedina,<br />

1975.<br />

GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina. C. Teoria da Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.<br />

PORTELLA, Eduardo et al. Teoria Literária. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1991.<br />

PROENÇA FILHO, Domício. A Linguagem Literária. São Paulo: Ática, 1992.<br />

SILVA, Vitor Manoel de A. Teoria da literatura. Coimbra: Almedina, 1975.<br />

62 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

ANEXO 1<br />

CARLOS, Reis. Análise estilística de um soneto de Camões. In. Técnicas de<br />

Análise Textual. Coimbra: Almedina, 1976. p.164-171.<br />

Letras Vernáculas<br />

63<br />

3<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />

A Estilística da langue e a da parole<br />

64 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

Letras Vernáculas<br />

65<br />

3<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />

A Estilística da langue e a da parole<br />

Eugenio Coseriu: linguista romeno que propôs o chamado critério da<br />

intercompreensão, segundo o qual, dois falares podem ser considerados<br />

dialetos da mesma língua se seus falantes conseguem compreender-se<br />

mutuamente; caso contrário, teremos duas línguas diferentes. Falantes<br />

do Português e do Espanhol podem entender-se relativamente, portanto,<br />

seriam dialetos, segundo Coseriu.<br />

Fonte: http://www.aldobizzocchi.com.br/artigo52.asp<br />

ANEXO 2<br />

Ilustração - Fonte: http://www.uni-tuebingen.de/kabatek/coseriu/hauptseite.html<br />

Marouzeau: Jules Marouzeau (1878-1964) propõe que se volte a estilística<br />

para a literatura, não de autores isolados, mas buscando, numa época, os<br />

processos que determinem o estilo. Sua estilística, como a de Bally, é ainda<br />

uma estilística da langue.<br />

Fonte: http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/E/estilistica.htm<br />

Ilustração - Fonte: http://www.anphil.org/es/node/128<br />

Benedetto Croce: foi um historiador, escritor, filósofo e político italiano<br />

(1866-1952). Os seus escritos giram em torno de um largo espectro<br />

temático, sobretudo estético e teoria/filosofia da história. É considerada uma<br />

das personalidades mais importantes do liberalismo italiano no século XX.<br />

Entre suas obras mais importantes, estão: Filosofia da Prática Econômica<br />

e da Ética (1908), Teoria e História da Historiografia (1912) e Ensaios de<br />

Estética (1991).<br />

Fonte: HUISMAN, 2000, p. 583.<br />

Ilustração - Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:B.Croce.jpg<br />

Vossler: Karl Vossler, linguista alemão nascido em Hohenheim, Stuttgart,<br />

cujos trabalhos deram notável impulso aos estudos de estilística literária, e<br />

assim, juntamente com o suíço Charles Bally, são considerados fundadores<br />

da estilística como uma ciência, no início do século XX. Iniciou-se como<br />

lente da Universidade de Heidelberg (1902), ensinou em Wurzburg (1909)<br />

e foi, por duas vezes (1911-1937 e 1945-1947), catedrático de literatura<br />

românica na Universidade de Munique, onde também foi reitor. Influenciado<br />

pelos princípios idealistas de Benedetto Croce, ganhou fama com tratados<br />

metodológicos, em que expressou sua convicção de que a evolução de<br />

uma língua reflete as transformações internas da sociedade que a usa.<br />

Em Munique, cidade onde ficou até sua morte, desenvolveu estudos sobre<br />

literatura românica centrados na análise das formas estilísticas dos grandes<br />

autores e sua relação com os modelos linguísticos de seu tempo.<br />

Fonte: http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/KarlVoss.html<br />

Ilustração - Fonte: http://www.bbaw.de/akademie/kalender/biog-pic-020-vossler.jpg<br />

66 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

Spitzer: Leo Spitzer, nascido em Viena, em 1887, lecionou em universidades<br />

alemãs de 1920 a 1933, quando, fugindo do nazismo, migrou para a Turquia<br />

e, em 1936, para os Estados Unidos, onde passou os 24 anos seguintes como<br />

professor da Universidade Johns Hopkins. Municiado da vasta erudição, que<br />

sua formação em filologia românica lhe proporcionou, e sob a influência<br />

marcante da psicanálise freudiana, Spitzer devotou-se, desde o início da<br />

carreira, a superar o divórcio entre linguística e literatura levado a efeito<br />

pela filologia positivista. Faleceu em 1960.<br />

Fonte: http://www.letras.ufmg.br/poslit/08_publicacoes_txt/er_11/er11_sap.pdf<br />

Ilustração - Fonte: http://www.vwi.ac.at/vierte-wiesenthal-lecture/img/VWI-Event_2009-05-26_02_SWL-004_<br />

Leo-Spitzer.jpg<br />

Dámaso Alonso: Dámaso Alonso y Fernández de las Redondas (Madrid,<br />

22 de outubro de 1898 — 25 de janeiro de 1990) foi um poeta, filólogo e<br />

crítico literário espanhol. Entende por estilo o que é peculiar e diferencial<br />

numa fala. Concebe a existência de três graus de conhecimento da obra: o<br />

do leitor, através de uma intuição totalizadora, que reproduziria a intuição<br />

do autor, da qual se teria originado a obra; o do crítico, como um leitor<br />

excepcional, capaz de exprimir artisticamente as intuições profundas, nítidas<br />

e totalizadoras da obra; e o da análise científica, tarefa da estilística, que, por<br />

ser científica, não atingiria a essência na obra, somente acessível à intuição.<br />

O poema, segundo Dámaso Alonso, consistiria numa sucessão temporal de<br />

sons e num conteúdo espiritual, isto é, num conjunto de significantes e<br />

de significados. O significante seria tanto um fenômeno físico, como uma<br />

imagem acústica.<br />

Fonte: http://dromossudoeste.educacional.net/pdf/literatura/o_estudo_da_literatura.pdf<br />

Ilustração - Fonte: http://sapiens.ya.com/narci3012/dama2.jpg<br />

Vico: Giambattista Vico (1668-1744) foi historiador, jurista e filósofo<br />

italiano. Foi autor de princípios de uma ciência nova acerca da natureza das<br />

nações ou Princípios da Filosofia da História (1725). Discerniu a explosiva<br />

mistura da razão com a mecânica e percebeu, através da nova ciência,<br />

que poderia trazer as mais altas percepções da Renascença para dentro da<br />

metodologia dos primeiros investigadores modernos.<br />

Fonte: HUISMAN, 2000, p.609.<br />

Ilustração - Fonte: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/7a/GiambattistaVico.jpg<br />

Humboldt: foi o filósofo alemão Guilherme Humboldt o primeiro a refletir<br />

sobre o papel da universidade. Ele lançou, em 1809, as bases para a fundação<br />

da universidade de Berlim. Isso marcou o início da reforma do sistema<br />

educacional alemão, cujo modelo propunha que a universidade voltasse a<br />

ser independente e produtora de conhecimento por meio da pesquisa. Tais<br />

fundamentos também se basearam nas reflexões dos pensadores alemães<br />

Hegel, Fichte e Schleiermacher.<br />

Fonte: http://revistaensinosuperior.uol.com.br/textos.asp?codigo=11047<br />

Letras Vernáculas<br />

67<br />

3<br />

Aula


Suas anotações<br />

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4<br />

<strong>aula</strong><br />

O FORMALISMO RUSSO: A AUTONOMIA DO LITERÁRIO<br />

Meta<br />

Objetivos<br />

Evidenciar os pressupostos teóricos do Formalismo Russo e<br />

de seus colaboradores.<br />

Ao final dessa Aula IV, você deverá estar familiarizado com o<br />

Formalismo Russo, enquanto corrente teórica, que privilegia<br />

sobremodo a obra, em detrimento do contexto de onde essa<br />

se origina.


UESC<br />

1 INTRODUÇÃO<br />

AULA 4<br />

O FORMALISMO RUSSO:<br />

A AUTONOMIA DO LITERÁRIO<br />

Ao longo desta Aula IV, estudaremos a teoria do Formalismo<br />

Russo, que prega a autonomia do literário; tendo como principais<br />

integrantes: Roman Jakobson, Boris Eikhenbaun, Wladimir Propp, B.<br />

Tomachevski, I. Tynianov, N.S. Trubetzkói e Victor Chilovski.<br />

Antes do início desta Aula IV, você deverá ter lido:<br />

• capítulo 7, especificamente, da p. 122 à p.122, de Teoria da Literatura “Revisitada” de<br />

Magaly Trindade Gonçalves e Zina C. Bellodi;<br />

• capítulo 1, especificamente, da p.26 à p.28, de Teoria Literária de Eduardo Portella, et al;<br />

• capítulo 2 de Teoria do Conto de Nádia Battella Gotlib;<br />

• livro O Enredo de Samira Nahid de Mesquita*.<br />

*As referências das obras encontram-se no final da Aula IV.<br />

Letras Vernáculas<br />

71<br />

ATENÇÃO<br />

4<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II:<br />

literatura, correntes teórico-críticas<br />

SAIBA MAIS<br />

O formalismo russo: a autonomia do literário<br />

2 FORMALISMO RUSSO<br />

Neokantianos: representantes de uma<br />

corrente reacionária na filosofia burguesa que<br />

surgiu nos meados do século XIX na Alemanha.<br />

Os neokantianos repetiam as teses mais<br />

reacionárias e idealistas da filosofia de Kant e<br />

rejeitavam os elementos do materialismo que<br />

nela havia. Sob a palavra de ordem “voltar a<br />

Kant”, os neokantianos conduziam a luta contra<br />

o materialismo dialético e histórico. Lênin<br />

apresentou uma crítica de todos os aspectos<br />

da filosofia neokantiana no livro Materialismo e<br />

Empiriocriticismo (1909).<br />

Fonte: http://www.marxists.org/portugues/dicionario/<br />

verbetes/n/neokantianos.htm<br />

O Formalismo Russo surge no início do século XX, a partir de<br />

duas associações: O Circulo Linguístico de Moscou, na Rússia, e a<br />

Associação para estudos da Linguagem Poética, Opojaz, em Praga,<br />

capital da antiga Tchecoslováquia, e foi muito<br />

influenciado pela estética das vanguardas<br />

europeias. Teve como principais integrantes<br />

Roman Jakobson, Boris Eikhenbaun, Wladimir<br />

Propp, B. Tomachevski, I. Tynianov, N. S.<br />

Trubetzkói e Victor Chilovski. Esses se opunham<br />

ao regime dominante da antiga União Soviética,<br />

sendo taxados de neokantianos por Trotsky, na<br />

medida em que contestavam o dirigismo exigido<br />

pelo partido no tratamento do literário, de cunho<br />

extrínseco. Em seus estudos, veem a literatura<br />

como um fenômeno autônomo, que necessita<br />

ser explicada por seus componentes internos, intrínsecos e não por<br />

sua gênese, sua origem, seja em relação ao contexto sócio-histórico,<br />

seja em relação à vida do escritor.<br />

Uma das principais contribuições do Formalismo Russo foi<br />

acabar com a dicotomia fundo/forma, criando um conceito<br />

dinâmico de forma, que a identifica com a unidade<br />

da obra, com um todo representativo da obra; a obra<br />

existirá enquanto forma; seus elementos não se somam –<br />

integram-se, correlacionam-se (PIRES, 1989, p. 69).<br />

A princípio, os Formalistas centraram suas análises no texto<br />

poético e definiram como função da ciência da literatura, o estudo da<br />

literariedade, o estranhamento, em seu processo de automação, de<br />

singularização dos objetos. Trata-se daquilo que confere ao poema<br />

a sua característica própria, seu traço distintivo, diferente do uso<br />

comum da língua em seu cotidiano. É o que ocorre na quadra abaixo<br />

do poema Cartas de meu avô, do livro Cinza da Horas, publicado<br />

inicialmente em 1917, constante de Poesia completa e prosa (1977),<br />

do escritor pernambucano Manuel Bandeira.<br />

O meu semblante está enxuto.<br />

Mas a alma, em gotas mansas,<br />

Chora, abismada no luto<br />

Das minhas desesperanças...<br />

Aí, o eu poético, ao atribuir aos substantivos “semblante”,<br />

“alma”, características não elencadas na unidade, que fornece o<br />

72 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

significado a essas palavras, chamada na gramática normativa de<br />

radical, semantema ou lexema, instaura o estranhamento, fazendo<br />

com que ocorra, no nível, somente do poético, a relação de sentido,<br />

antes rechaçada, porque A ≠ B; uma vez que “semblante” não pode<br />

apresentar-se “enxuto”, da mesma forma que “alma não chora”, nem,<br />

muito menos, é passível de ficar “abismada no luto,” isto é, “confinada<br />

em abismo.” Pode-se dizer, no máximo: “que alguém está com o<br />

rosto enxuto,” “que as lágrimas normalmente caem em gotas”, “que<br />

alguém chora pela morte de um ente querido” ou “que esse mesmo<br />

alguém está desesperançado, isto é, sem esperança”. Logo, o uso da<br />

literariedade, instaura a desautomação, no uso cotidiano da língua.<br />

No terceto, abaixo reproduzido, retirado de Poema das Sete<br />

Faces do poeta de Itabira, Carlos Drummond de Andrade, constante<br />

de Poesia e Prosa (1979), o eu poético obtém a literariedade de um<br />

modo bastante engenhoso. Vejamos:<br />

Quando nasci, um anjo torto<br />

Desses que vivem na sombra<br />

Disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.<br />

Como já sabemos, o princípio da literariedade diz respeito<br />

ao processo de desautomação do uso cotidiano do código linguístico.<br />

Então, o eu poético, ao usar as expressões: “anjo torto”, “vivem na<br />

sombra”, “gauche na vida”, não quer dizer que o ser, que habita o<br />

mundo dos espíritos, abaixo de Deus, para os católicos, tenha algum<br />

problema, por exemplo, na coluna vertebral, antes “torto” se refere<br />

a anjo, digamos, “mal acabado”, “fraco”, que previu o futuro do eu<br />

poético “Carlos” e que habita um lugar pouco afortunado, porque<br />

vive na “sombra”, na ausência de luz, quando deveria encontrar-se<br />

na luz, perto de Deus. “Gauche” vem da expressão adverbial francesa<br />

“à gauche”, que quer dizer, em português, “à esquerda”; ao contrário<br />

de “à droit”, “à direita”. Então, o poeta a utiliza para justificar a sua<br />

má sorte e não para se referir a uma localidade situada à esquerda.<br />

A arte, assim, encerra um fim em si mesma, a partir das escolhas<br />

feitas pelo poeta de elementos lexicais ou a disposição dos vocábulos<br />

no verso, as variações rítmicas obtidas, fazendo com que a camada<br />

fônica do poema esteja a serviço do conteúdo veiculado. Neste caso,<br />

o conteúdo só é importante porque se tornou forma, não comparado<br />

esse, entretanto, ao que é encontradiço extraliterariamente.<br />

A idéia básica do Formalismo, em sua evolução, é a<br />

proposição da ‘palavra poética’. Na poesia a palavra não<br />

é percebida simplesmente como forma transparente que<br />

remete a um objeto (denotação), nem é simples explosão<br />

Letras Vernáculas<br />

73<br />

4<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II:<br />

literatura, correntes teórico-críticas<br />

O formalismo russo: a autonomia do literário<br />

de emoções; ela é (pelo seu significado, seu arranjo com<br />

outras palavras no discurso) uma realidade que tem<br />

peso e valor próprios, adquirindo um aspecto quase de<br />

‘substância’. A palavra poética tem dois valores, pois<br />

funciona em termos de ‘signo’, isto é, serve para remeter<br />

a um conceito, mas vale também em si mesma, como<br />

sendo ela própria uma realidade (GONÇALVES; BELLODI,<br />

2005, p.120).<br />

Roman Jakobson, do Círculo Linguístico de Praga, trabalhou<br />

pela especificação da literariedade. Para tanto, ampliou as três<br />

funções da linguagem, já desenvolvidas pelo alemão Karl Bühler:<br />

função representativa, função apelativa e função de exteriorização<br />

psíquica. A primeira está centrada no referente, a segunda, no<br />

receptor e a terceira, no emissor. Jakobson a estas acrescentou a<br />

função fática, centrada no contato, a função metalinguística, no<br />

código, e, finalmente, a função poética centrada na mensagem; sendo<br />

essa última a dominante no texto literário, ainda que não exclusiva.<br />

Em um primeiro momento, os formalistas voltaram-se para<br />

a análise da poesia, em uma perspectiva sincrônica, destituída da<br />

noção de contexto literário e sócio-histórico. Contrário a essa chave,<br />

Tynjanov coloca questões ligadas à diacronia, quando pensa sobre a<br />

complexidade da História Literária e opõe-se à investigação da obra<br />

literária como um sistema reduzido ao seu microcosmo, isto é, à sua<br />

suposta independência em relação a um contexto, seja histórico, seja<br />

individual.<br />

A obra para ele é um sistema e a Literatura é um sistema<br />

também, mantendo relações de interdependência e que<br />

se ordenam para a consecução de determinada finalidade.<br />

Para o estudo da evolução literária, o conceito fundamental<br />

vai ser o de substituição de sistemas. Em tais sistemas<br />

cada elemento tem uma função (PORTELLA et al. 1991,<br />

p. 29).<br />

Função, para Tynjanov, constitui a possibilidade de um<br />

elemento entrar em correlação como elementos do mesmo sistema e,<br />

consequentemente, como o sistema inteiro. Por exemplo, uma obra<br />

literária que pertença a um determinado estilo de época entra em<br />

correlação com outras do mesmo estilo, mas essas estão inseridas<br />

em um sistema maior, seja em relação a uma literatura nacional,<br />

seja ocidental, por exemplo. E a substituição de sistema é que faz<br />

com que os estilos de época, através de determinados mecanismos,<br />

não se repitam. Assim, Tynjanov traz uma visão esquecida pelos<br />

formalistas, que é a da evolução histórica da literatura, estabelecendo<br />

74 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

correlações entre a série literária e as outras séries sociais, como<br />

forma de compreender a substituição de sistemas, tirando, assim, a<br />

literatura da dimensão isolacionista formal.<br />

Os Formalistas, depois de algum tempo, voltaram-se para<br />

a análise do texto narrativo, nas modalidades: romance, novela e<br />

conto. Deram muita importância à noção de tempo para a narrativa,<br />

além de distinguirem a fábula da intriga. A fábula vem a ser a matéria<br />

bruta, sobre a qual o escritor dá forma artística e plasma, através<br />

da intriga, o seu universo ficcional, artístico. Em outras palavras, a<br />

fábula pode ser resumida em poucas palavras, mas a intriga não.<br />

Vladimir Propp dedicou-se a estudar a morfologia dos contos<br />

populares da Rússia, desenvolvendo uma teoria inédita estruturalista,<br />

quando observou uma espécie de invariância corrente nos mesmos,<br />

em suas unidades básicas funcionais. Segundo Gonçalves e Bellodi:<br />

Através da observação de 100 contos maravilhosos, ele<br />

estabeleceu 31 funções, unidades básicas definidas,<br />

não pelas personagens nem pelos ambientes, mas por<br />

papéis que se estruturam dentro da economia narrativa.<br />

A função é definida em termos de finalidade. As 31<br />

funções explicitam todos os contos fantásticos russos.<br />

Propp estabelece que tais funções aparecem sempre<br />

na seqüência por ele descrita. Nem todas as funções<br />

aparecem em todos os contos, mas as que o fazem, em<br />

cada conto, obedecem à seqüência rígida (2005, p.136).<br />

O Formalismo Russo, pressionado pelos marxistas, teve de<br />

se extinguir em 1930. Entretanto, suas ideias se disseminaram pela<br />

Europa e pelo Ocidente, principalmente, pela publicação em francês<br />

por Tzvetan Todorov de seus estudos, em que se encarregou de<br />

perpetuar a importância do arranjo da fatura estética e, ao mesmo<br />

tempo, acentuou o papel do crítico, que, munido de método adequado,<br />

em atenção à autonomia do fenômeno artístico, deveria percorrer<br />

a obra em sua literariedade. E foram Inspirados nas vanguardas<br />

européias e na linguística estrutural, que desenvolvem seu método<br />

crítica literária.<br />

No ANEXO II, você encontrará, de forma detalhada, a<br />

proposta de análise do texto narrativo, baseada no uso das funções,<br />

propostas por Vladimir Propp.<br />

Filmes<br />

Os filmes indicados abaixo vinculam-se, por suas temáticas,<br />

ao conteúdo estudado nesta Aula IV. Nesta, chamamos atenção, logo<br />

Letras Vernáculas<br />

LEITURA RECOMENDADA<br />

Saiba mais sobre Tynjanov em:<br />

Fonte:http://www2.fcsh.unl.pt/<br />

edtl/verbetes/C/convencao_<br />

literaria.htm<br />

75<br />

4<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II:<br />

literatura, correntes teórico-críticas<br />

O formalismo russo: a autonomia do literário<br />

no início, para o fato de os formalistas russos terem sofrido influência<br />

das vanguardas, na medida em que essas revolucionaram a mímesis,<br />

modo de representar, esteticamente, a chamada realidade; dando<br />

total autonomia ao artista. O desenvolvimento das vanguardas<br />

europeias do século 20 está intimamente relacionado aos artistas da<br />

geração anterior, que abriram caminho para as gerações seguintes.<br />

Os expressionistas, os impressionistas, os pós-impressionistas, os<br />

surrealistas, e até mesmo os realistas foram os verdadeiros pioneiros<br />

das transformações artísticas, que marcariam a arte moderna. O<br />

grupo da Rússia, ao pregar a autonomia da fatura estética, pensou<br />

em um método de análise, que privilegiou não a realidade evocada,<br />

mas os recursos de que se valeram o artista, isto é, todos os recursos<br />

próprios do artístico, como os fônicos, sintáticos e semânticos,<br />

visando ao encontro da literariedade.<br />

Assim, os filmes O gabinete do Doutor Caligari (1919) centra-<br />

se, no expressionismo alemão, uma das vanguardas européias<br />

das mais importantes e Um cão andaluz (1928) baseia-se em um<br />

sonho do pintor do surrealismo Salvador Dali, nascido na Catalúnia,<br />

Espanha, mas radicado na França.<br />

O GABINETE DO DOUTOR CALIGARI<br />

Direção: Robert Wiene. Com Werner Krauss<br />

e Conrad Veidt.<br />

http://www.webcine.com.br/filmessc/drcaliga.htm<br />

UM CÃO ANDALUZ<br />

Direção: Luis Buñel. Roteiro: Salvador Dalí.<br />

Com Luis Buñel, Salvador Dali e Jeanne Rucas.<br />

h t t p : / / a n a m o r f o s e s . b l o g s p o t .<br />

com/2006/08/um-co-andaluz-1928.html<br />

76 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

ATIVIDADE<br />

1. Como a literatura é vista pelos formalistas russos?<br />

2. O que é a literariedade?<br />

3. Identifique funções da linguagem nos fragmentos abaixo reproduzidos, de acordo<br />

com Jakobson:<br />

a) Lucília: (Avança na direção do pai) Não! Isso não! Papai! Proteste, grite, fale<br />

alguma coisa. Não fique assim! Não fique assim, pelo amor de Deus!<br />

Helena: Lucília! (Jorge Andrade)<br />

b) “De tudo, ao meu amor serei atento<br />

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto<br />

Que mesmo em face do maior encanto<br />

Dele se encante mais meu pensamento.” (Vinicius de Moraes)<br />

c) “Porém já cinco Sóis eram passados<br />

Que dali nos partíramos, cortando<br />

Os mares nunca d’ outrem navegados,<br />

Prosperamente os ventos assoprando,<br />

Quando ua noute, estando descuidados<br />

Na cortadora proa vigiando,<br />

Ua nuvem que os ares escurece<br />

Sobre nossas cabeças aparece.” (Luís de Camões )<br />

d) “ Com a lâmpada do Sonho desce aflito<br />

e sobe aos mundos mais imponderáveis,<br />

vai abafando as queixas implacáveis,<br />

da alma o profundo e soluçado grito.” (Cruz e Sousa)<br />

4. Qual a diferenças entre fábula e intriga para os formalistas?<br />

5. Em que medida Tynjanov se distancia, em sua abordagem do fenômeno literário, dos<br />

outros formalistas russos?<br />

6. Por que a abordagem feita por Vladimir Propp dos contos populares russos pode ser<br />

considerada estruturalista?<br />

7. Os formalistas hoje são criticados pelo excesso de formalismo na abordagem do<br />

literário, devido ao fato de desprezarem o conteúdo veiculado na obra, seja de cunho<br />

individual, seja coletivo. Isto procede?<br />

8. Explique o princípio de literariedade, de estranhamento, na estrofe abaixo:<br />

Letras Vernáculas<br />

77<br />

4<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II:<br />

literatura, correntes teórico-críticas<br />

R E F E R Ê N C I A S<br />

O formalismo russo: a autonomia do literário<br />

Vozes veladas, veludosas vozes,<br />

Volúpias dos violões, vozes veladas,<br />

Vagam nos velhos vórtices velozes<br />

Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas<br />

(Cruz e Sousa)<br />

9. Qual a importância de Tzvetan Todorov para os estudos formalistas?<br />

Ao longo desta Aula IV, estudamos a teoria Formalismo Russo,<br />

que privilegia a obra como uma fatura estética autônoma, em detrimento<br />

do contexto de onde essa se origina. Seus principais integrantes Roman<br />

Jakobson, Boris Eikhenbaun, Wladimir Propp, B. Tomachevski, I. Tynianov,<br />

N.S. Trubetzkói e Victor Chilovski.<br />

RESUMINDO<br />

ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia e Prosa. Volume único.<br />

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1979.<br />

ANDRADE, Jorge. A moratória. Rio de Janeiro: Agir, 2000.<br />

BANDEIRA, Manuel. Poesia completa e prosa. Volume único. Rio<br />

de Janeiro: Nova Fronteira, 1977.<br />

CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. Lisboa: Rei dos Livros, 2002.<br />

CRUZ E SOUSA. Obra composta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar,<br />

1995.<br />

GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina. C. Teoria da<br />

Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.<br />

GOTLIB, Nádia Battella. Teoria do Conto. São Paulo: Ática, 1999.<br />

MESQUITA, Samira Nahid. O Enredo. São Paulo: Ática, 1994.<br />

MORAES, Vinicius de. Poesia completa e Prosa. Volume único. Rio<br />

de Janeiro: Nova Aguilar, 1980.<br />

PIRES, Orlando. Manual de Teoria e Técnica Literária. Rio de<br />

Janeiro: Presença, 1989.<br />

PORTELLA, Eduardo et al. Teoria Literária. Rio de Janeiro: Tempo<br />

Brasileiro, 1991.<br />

78 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

LEITURA RECOMENDADA<br />

GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina. C. Teoria da Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.<br />

GOTLIB, Nádia Battella. Teoria do Conto. São Paulo: Ática, 1999.<br />

MESQUITA, Samira Nahid. O Enredo. São Paulo: Ática, 1994.<br />

PORTELLA, Eduardo et al. Teoria Literária. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1991.<br />

Letras Vernáculas<br />

ANEXO I<br />

Tzvetan Todorov: é um filósofo e linguista búlgaro, radicado na<br />

França, desde 1963, em Paris. Após completar seus estudos, passou a<br />

frequentar então os cursos de Filosofia da Linguagem, ministrados por<br />

Roland Barthes, um dos grandes teóricos do Estruturalismo. Todorov<br />

foi professor da École Pratique de Hautes Études e na Universidade de<br />

Yale, além de Diretor do Centro Nacional de Pesquisa Científica de Paris<br />

(CNRS). Atualmente, é Diretor do Centro de Pesquisa sobre as Artes<br />

e a Linguagem da mesma cidade. Publicou um número considerável<br />

de obras, que estão traduzidas em vinte e cinco idiomas, na área de<br />

pesquisa linguística e da teoria literária.<br />

Fonte: http://www.editorabarcarolla.com.br/nossos-autores/tzvetan-todorov<br />

Ilustração - Fonte: http://ilmestieredileggere.files.wordpress.com/2009/02/tzvetan-todorov.jpg<br />

79<br />

4<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II:<br />

literatura, correntes teórico-críticas<br />

O formalismo russo: a autonomia do literário<br />

ANEXO II<br />

PANDOLFO, Maria do Carmo. Análise da Narrativa. In: Eduardo<br />

Portella et al, Teoria Literária. Rio de Janeiro: Tempo<br />

Brasileiro,1991, p.131-139.<br />

80 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

Letras Vernáculas<br />

81<br />

4<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II:<br />

literatura, correntes teórico-críticas<br />

O formalismo russo: a autonomia do literário<br />

82 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

Letras Vernáculas<br />

83<br />

4<br />

Aula


Suas anotações<br />

______________________________________________________________<br />

______________________________________________________________<br />

______________________________________________________________<br />

_________________________________________________________________<br />

_______________________________________________________________________<br />

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__________________________________________________________________________<br />

_________________________________________________________________________


Meta<br />

Objetivos<br />

O NEW CRITICISM:<br />

Ao final desta Aula V, você deverá apreender os pressupostos<br />

teóricos do New Criticism.<br />

5<br />

<strong>aula</strong><br />

A VISÃO IMANENTISTA DA OBRA LITERÁRIA<br />

Evidenciar a corrente teórica New Criticism, que, como o Formalismo<br />

Russo, valoriza a obra literária em uma perspectiva<br />

autônoma, imanentista.


UESC<br />

AULA 5<br />

O NEW CRITICISM:<br />

A VISÃO IMANENTISTA DA OBRA LITERÁRIA<br />

1 INTRODUÇÃO<br />

Nesta <strong>aula</strong>, vamos abordar a corrente teórica New Criticism,<br />

que, como o Formalismo Russo, valoriza a obra literária em uma<br />

perspectiva autônoma, imanentista.<br />

Antes do início desta <strong>aula</strong>, você deverá ter lido:<br />

capítulo 7, especificamente, da p. 122 à p.129, de Teoria da Literatura “revisitada”, de Maria<br />

Magaly Trindade Gonçalves e Zina. C. Bellodi;<br />

capítulo 5, especificamente, da p.81 à p. 82, de Novo manual de teoria literária, de Roger<br />

Samuel;<br />

capítulo A Teoria Literária no século XX, especificamente, da p.47 à p.49, de Teoria da Literatura<br />

de A. Kibédi Varga.*<br />

*As referências das obras encontram-se no final da Aula V.<br />

Letras Vernáculas<br />

87<br />

ATENÇÃO<br />

5<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II:<br />

literatura, correntes teórico-críticas<br />

O new criticism: a visão imanentista da obra literária<br />

2 NEW CRITICISM<br />

O New Criticism surgiu nos Estados Unidos, na década de 30 do<br />

século passado, mas se consolidou somente nos anos 40 e 50, deste<br />

mesmo século, a partir da publicação da obra do poeta e crítico John<br />

Crowe Ransom, The new criticism (1941), voltado para a obra crítica<br />

dos poetas T. S. Eliot, I. A. Richards e Yvor Winter. Como as correntes<br />

críticas: Estilística e o Formalismo Russo, o New Criticism combateu<br />

a visão extrínseca de abordar o fenômeno literário, comprometida,<br />

ora com o historicismo, de cunho positivista, ora impressionista,<br />

praticada, principalmente em jornais, sem um método específico de<br />

análise.<br />

A chave para o entendimento do New Criticism é a estrutura, bem<br />

próxima, portanto, do Formalismo Russo, por ter levado às últimas<br />

consequências a autonomia do literário. Eliot faz a distinção entre<br />

documento e monumento, ao defender o primeiro como característica<br />

da obra de arte:<br />

Na concepção de Eliot, a literatura consiste numa<br />

série de ‘monumentos’ (Eliot, 1920, p. 50) à qual<br />

uma obra nova pode ser adicionada, o que vai<br />

alterar levemente a tradição no seu conjunto. Os<br />

‘monumentos’ em si permanecem intactos, apesar<br />

da adição referida. Quanto ao papel do leitor, Eliot<br />

não o considera (VARGA, s/d, p.49).<br />

Nesta concepção de Eliot, a obra não é documento, mas<br />

monumento, isto é, ela vale por si mesma. A abordagem extrínseca,<br />

por outro lado, prioriza dados históricos, biográficos e sociológicos<br />

encontráveis no artístico.<br />

A leitura crítica defendida deve ser de modo imanentista<br />

(close reading), indutiva, a partir da obra em sua totalidade. A obra<br />

literária não precisa se voltar para o mundo empírico, quantificável,<br />

ainda que do poeta, enquanto sujeito autoral, espera-se que vá à<br />

rua, converse com os amigos, faça compras e as pague, como um<br />

bom cidadão.<br />

Na poesia, por exemplo, o eu poético, uma instância<br />

ficcionalizada, cria um mundo evocado, que não corresponde, de fato,<br />

àquele encontradiço na esquina. E Maria Magaly Trindade Gonçalves<br />

e Zina Bellodi, em Teoria da Literatura “revisitada” (2005), defendem<br />

que:<br />

A análise é um processo de exploração dentro<br />

do poema. Mas o ato criador do poeta também é<br />

88 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

uma atividade exploratória. E o papel do crítico<br />

é fazer a sua exploração. A velha idéia que se<br />

tinha de que o poeta era um comunicador; o New<br />

Criticism, ao contrário, volta-se para a criação do<br />

poeta, focalizando exclusivamente a ela. Há aí um<br />

radicalismo, até compreensível, mas evidente. O<br />

poema é uma experiência total, e é ela que o crítico<br />

deve investigar, não a que é descrita no poema<br />

(2005, p.125-126).<br />

Então, o movimento de valsa, como consta do poema abaixo<br />

reproduzido do poeta romântico brasileiro Casimiro de Abreu, de As<br />

primaveras (1972), não se trata de um documento, com número de<br />

registro, de quando algo aconteceu, como, por exemplo, uma certidão<br />

de nascimento ou de casamento.<br />

A Valsa<br />

Tu, ontem,<br />

Na dança<br />

Que cansa,<br />

Voavas<br />

Co’as faces<br />

E rosas<br />

Formosas<br />

De vivo,<br />

Lascivo<br />

Carmim;<br />

Na valsa,<br />

Tão falsa,<br />

Corrias,<br />

Fugias,<br />

Ardente,<br />

Contente,<br />

Tranqüila,<br />

Serena,<br />

Sem pena.<br />

O “ontem”, de que o eu poético fala, não é aquele marcado pelo<br />

calendário gregoriano. Esse pouco importa para a fruição estética,<br />

para o prazer experimentado pelo crítico ou pelo leitor. Logo, é<br />

possível falar de monumento, de fatura estética plena de autonomia.<br />

E a leitura crítica defendida deve ser de modo imanentista, (close<br />

reading), indutiva, a partir da obra em sua totalidade.<br />

Letras Vernáculas<br />

Imanentista: que diz<br />

respeito ao imanentismo,<br />

que é próprio de algo,<br />

com suas características<br />

peculiares. Em relação<br />

ao texto literário, tratase<br />

da crítica que vê a<br />

literatura como capaz de<br />

produzir sentido, de forma<br />

autônoma, sem depender<br />

do contexto, seja aquele<br />

evocado na obra, seja o das<br />

condições de leitura.<br />

Close reading: ou leitura<br />

analítica minuciosa do<br />

texto, que é assumido como<br />

um meio de realização<br />

linguística autônomo em<br />

relação a quaisquer fatores<br />

extrínsecos, cujo processo<br />

artístico de construção pode<br />

ser revelado pela análise<br />

técnica.<br />

Fonte: http://www2.fcsh.unl.<br />

pt/edtl/verbetes/E/escola_<br />

cambridge.htm<br />

89<br />

5<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II:<br />

literatura, correntes teórico-críticas<br />

Extrínseco: que é exterior;<br />

não pertencente à essência<br />

de uma coisa. [Antôn.:<br />

intrínseco.].<br />

Fonte: Novo Dicionário Aurélio<br />

da Língua Portuguesa<br />

O new criticism: a visão imanentista da obra literária<br />

Por isso é que Renée Wellek defende que a literatura se utilize,<br />

como meio de expressão, de uma instituição social linguística. E<br />

Roger Samuel, em Novo manual de teoria literária (2005), afirma,<br />

confirmando a posição do primeiro:<br />

Para Wellek, a literatura consiste numa instituição<br />

social que utiliza, como meio de expressão, a<br />

instituição social lingüística. Os próprios processos<br />

literários, como a métrica e os símbolos, têm<br />

natureza social, são convenções e normas sociais.<br />

A literatura representa a vida social, além da vida<br />

subjetiva (que também é social). O próprio poeta é<br />

membro da sociedade e possui uma condição social<br />

específica, que recebe um certo grau de consideração<br />

e recompensa (SAMUEL, 2005 p. 82).<br />

Ou seja, as instituições estéticas: categorias gramaticais, a<br />

imagística, o uso conotativo das palavras, a expressividade no nível<br />

fonológico, morfológico e sintático, o ritmo, a harmonia, as técnicas<br />

de composição de um romance, com seus temas, a caracterização dos<br />

personagens, e outras são antes, elementos sociais e utilizados pelo<br />

artista em função de uma comunidade. Wellek, ainda que defenda<br />

a utilidade da literatura, por sua dimensão de cultura, não vê a sua<br />

existência explicável pelos dados extrínsecos que lhe dão origem.<br />

A Literatura é autônoma porque realiza uma forma própria de<br />

conhecimento que não se confunde com as demais, utilizando para<br />

isso a língua de uma maneira própria, criando estruturas que não se<br />

identificam com quaisquer outras (PORTELLA et al, 1991, p. 31).<br />

Como o New Criticism despreza a historicidade da obra<br />

literária, sua predileção voltou-se para a poesia lírica, em detrimento<br />

do romance, ou do drama, por exemplo, muito mais susceptíveis ao<br />

histórico. Assim, a obra literária só exercerá a sua função específica<br />

porque se utiliza, em primeiro lugar, da sua função estética.<br />

O Prof. Afrânio Coutinho, na década de 50 do século<br />

passado, trouxe para o Brasil o New Criticism, que serviu de base<br />

para a sistematização da disciplina acadêmica Teoria da Literatura,<br />

empreendendo mudanças significativas nos currículos dos cursos de<br />

Letras, com a sistematização do conteúdo pertinente a essa área de<br />

conhecimento. Em suas Notas de Teoria Literária (1977), defende a<br />

autonomia da literatura, bem ao gosto do New Criticism e das teorias<br />

mais recentes, que o antecederam, como a Estilística, o Formalismo<br />

Russo e o Estruturalismo.<br />

A Literatura é um fenômeno estético. É uma arte, a<br />

arte da palavra. Não visa ensinar, doutrinar, pregar,<br />

90 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

documentar. Acidentalmente, secundariamente,<br />

ela pode fazer isso, pode conter história, filosofia,<br />

ciência, religião. [...] Mas o seu valor e significado<br />

residem não neles, mas em outra parte, no seu<br />

aspecto estético-literário, que lhe é comunicado<br />

pelos elementos específicos, componentes de sua<br />

estrutura, e pela finalidade precisa de despertar no<br />

leitor o tipo especial de prazer, que é o sentimento<br />

estético (COUTINHO, 1976, p. 8).<br />

Este raciocínio de Afrânio Coutinho é tributário de Aristóteles,<br />

para quem a literatura se detém naquilo que poderia ter acontecido,<br />

enquanto a história, no que aconteceu. Evidentemente que hoje,<br />

com os ganhos do Pós-Estruturalismo, dos Estudos Culturais, do<br />

Pós-Colonialismo, do Feminismo e Pós-feminismo e da Análise do<br />

Discurso, o sentido de verdade passou a ser revisto. Algumas dessas<br />

teorias serão abordadas na Aula VIII desta disciplina, em questão:<br />

Introdução aos Estudos Literários II: Literatura, Correntes Teórico-<br />

Críticas.<br />

ATIVIDADE<br />

1. Os escritos teóricos do poeta Eliot serviram de base para as propostas do New Criticism.<br />

De acordo com o que foi visto na Aula VII, quais foram essas, em linhas gerais?<br />

2. É possível atribuir à noção de monumento, defendida por Eliot, como algo ligado à<br />

transcendência do literário?<br />

3. O que é a leitura imanentista, o close reading, para o New Criticism?<br />

4. Aplique o conceito acima desenvolvido nos fragmentos do poeta maranhense Gonçalves<br />

Dias:<br />

Minha Vida e Meus Amores<br />

Quando, no albor da vida, fascinado<br />

Com tanta luz e brilho e pompa e galas,<br />

Vi o mundo sorrir-me esperançoso:<br />

Letras Vernáculas<br />

Mon Dieu, fais que je puisse aimer!<br />

- Meu Deus, disse entre mim! Oh! Quanto é doce,<br />

Quanto é bela esta vida assim vivida!-<br />

Agora, logo, aqui, além notando<br />

Uma pedra, uma flor, uma lindeza,<br />

Um seixo da corrente, uma conchinha<br />

À beira-mar colhida!<br />

LEITURA RECOMENDADA<br />

GONÇALVES, Maria Magaly<br />

Trindade; BELLODI, Zina.<br />

C. Teoria da Literatura<br />

“revisitada”. Petrópolis:<br />

Vozes, 2005.<br />

SAMUEL, Roger. Novo<br />

manual de teoria literária.<br />

Petrópolis: Vozes, 2002.<br />

VARGA, A. Kibédi. Teoria<br />

da Literatura. Tradução<br />

de Tereza Coelho. Lisboa:<br />

Editorial Presença, s/d.<br />

91<br />

5<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II:<br />

literatura, correntes teórico-críticas<br />

O new criticism: a visão imanentista da obra literária<br />

Foi esta a infância minha; a juventude<br />

Falou-me ao coração: - amemos, disse,<br />

Porque amar é viver.<br />

E esta era linda, como é linda a aurora<br />

No fresco da manhã tingindo as nuvens<br />

De rósea cor fagueira;<br />

Aquela tinha um quê de anelos meigos<br />

Artífice sublime;<br />

Feiticeiro sorrir dos lábios d’ela<br />

Prendeu-me o coração; - julguei-o ao menos,<br />

5. Explique a seguinte afirmação feita anteriormente, nesta unidade:<br />

Como o New Criticism despreza a historicidade da obra literária, sua predileção voltou-se<br />

para a poesia lírica, em detrimento do romance, ou do drama, por exemplo, muito mais<br />

susceptíveis ao histórico.<br />

6. O Prof. Afrânio Coutinho trouxe para o Brasil o New Criticism, na década de 50, do século<br />

R E F E R Ê N C I A S<br />

passado e defende a autonomia do literário. A partir do que foi dito na unidade, disserte<br />

acerca desse posicionamento.<br />

3 RESUMO<br />

RESUMINDO<br />

Nesta Aula V, estudamos a corrente teórica New Criticism, que, como<br />

o Formalismo Russo, valoriza a obra literária em uma perspectiva<br />

autônoma, imanentista.<br />

4 REFERÊNCIAS<br />

ABREU, Casimiro de. As Primaveras. São Paulo: Martins; Instituto<br />

Nacional do Livro, 1972.<br />

COUTINHO, Afrânio. Notas de Teoria Literária. Rio de Janeiro:<br />

Civilização Brasileira, 1976.<br />

DIAS, Gonçalves. Poesias Completas. Rio de Janeiro: Edições de<br />

Ouro, 1968.<br />

GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina. C. Teoria da<br />

Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.<br />

SAMUEL, Roger. Novo manual de teoria literária. Petrópolis: Vozes,<br />

2002.<br />

VARGA, A. Kibédi. Teoria da Literatura. Tradução de Tereza Coelho.<br />

Lisboa: Editorial Presença, s/d.<br />

92 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

John Crowe Ransom: foi um poeta e ensaista norte-americano representante do New<br />

Criticism e membro do grupo Fugitive Group, ligado às tradições sulistas dos EUA. Suas<br />

principais obras são Chills and fever, de 1924 e The new criticism, de 1941. John C.<br />

Ransom, em seu ensaio intitulado Criticism, Inc, traça os aspectos mais relevantes do New<br />

Criticism. Rejeita completamente todo tipo de crítica impressionista, pois o impressionismo<br />

preocupa-se com o efeito da obra sobre o sujeito, enquanto a crítica autêntica deve<br />

preocupar-se com o objeto.<br />

Fonte: http://www.babylon.com/definition/John_Crowe_Ransom/<br />

Ilustração - Fonte: http://famouspoetsandpoems.com/poets/john_crowe_ransom<br />

Eliot: Thomas Stearns Eliot nasceu em Saint Louis, Missouri, Estados Unidos, a 26 de<br />

setembro de 1888, e faleceu em Londres, com 76 anos de idade, a 4 de janeiro de 1965.<br />

Descendentes de emigrantes ingleses que, em meados do século XVIII, se estabeleceram<br />

em Massachusetts, Nova Inglaterra, os Eliot estiveram desde sempre fundamente<br />

vinculados às tradições da Igreja Unitária, destacando-se ainda por sua intensa atividade<br />

cultural. O mais notável dentre tais antepassados foi o Reverendo Andrew Eliot ( 1718-78),<br />

ministro da Igreja Congregacionalista e quase reitor da Universidade de Harvard, cargo<br />

que não assumiu por deliberação voluntária. Cerca de dois séculos, transcorreram até que<br />

o primeiro dos Eliot se transferisse para o Missouri. Foi ele o Reverendo William Greenleaf<br />

Eliot (1811-87), avô do poeta e fundador da Igreja Unitária de St. Louis, bem como<br />

da Universidade de Washington, de que se tornou depois presidente. William Greenleaf<br />

distinguiu-se ainda por seu papel na Guerra de Secessão, quando pugnou pelos ideais<br />

federativos dos Estados do Norte, e pelos diversos opúsculos didático-morais que publicou.<br />

Fontes: http://www.culturapara.art.br/opoema/tseliot/tseliot_db.htm<br />

Richards: o inglês Ivor Armstrong Richards (1893 - 1979) foi crítico literário e de retórica.<br />

Seus livros, especialmente The Meaning, The Meaning, Principles of Literary Criticism e<br />

Philosphy of rhetoric têm forte influência do New Criticism, literário moderno. Richards é<br />

considerado um dos fundadores do comparativismo da literatura de inglesa.<br />

Fonte: http://www.worldlingo.com/ma/enwiki/pt/I._A._Richards<br />

Ilustração - Fonte: http://www.nndb.com/people/047/000117693/<br />

Afrânio Coutinho: (1911 - 2000). Em 1942, foi para os Estados Unidos e, durante cinco<br />

anos, freqüentou cursos na Universidade de Columbia e em outras universidades norte-<br />

americanas, aperfeiçoando-se em crítica e história literária. Na Faculdade de Filosofia<br />

do Instituto Lafayette, criou, em 1951, a cadeira de Teoria e Técnica Literária, primeira<br />

iniciativa do gênero no Brasil, e, em 1965, a Faculdade de Letras da Universidade Federal<br />

do Rio de Janeiro. Foi empossado em 1962 na cadeira 33 da Academia Brasileira de Letras.<br />

Seus ensaios iniciam uma militância em prol da renovação da crítica literária brasileira.<br />

Propagador das novas idéias do New Criticism norte-americano e do movimento formalista<br />

eslavo, ele propõe uma completa reformulação da atividade crítica, que deixa de ser o<br />

mero comentário de livros isolados e se torna uma disciplina de aspirações científicas e<br />

metodológicas, dispensando a improvisação e o amadorismo reinantes. Apesar de ser<br />

inicialmente contestada, a obra de Afrânio Coutinho representa um verdadeiro marco no<br />

pensamento crítico brasileiro, introduzindo uma nova compreensão da literatura. Entre<br />

suas produções, estão: Por uma Crítica Estética (1953); A literatura no Brasil (Org.)<br />

(1955), Da Crítica e da Nova Crítica (1957); Euclides, Capistrano e Araripe (1965);<br />

Conceito de Literatura Brasileira (1960); Antologia Brasileira de Literatura (1965); A<br />

Tradição Afortunada (1968); Crítica e Críticos (1969); Caminhos do Pensamento Crítico<br />

(1974); O Erotismo na Literatura (1979); O Processo de Descolonização Literária (1983);<br />

Crítica e Teoria Literária (1984); Enciclopédia da Literatura Brasileira (1990); Do Barroco<br />

(1984).<br />

Letras Vernáculas<br />

ANEXO 1<br />

Fonte: http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=3733&sid=531&tpl=printerview<br />

Ilustração - Fonte: http://www.ucm.es/info/especulo/numero41/coutinh1.jpg<br />

93<br />

5<br />

Aula


Suas anotações<br />

______________________________________________________________<br />

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_________________________________________________________________________


Meta<br />

Objetivos<br />

6<br />

<strong>aula</strong><br />

Apresentar a corrente teórica Estruturalismo, oriunda do<br />

suíço Ferdinand de Saussure, que, quando transposto para<br />

o entendimento da obra literária, prioriza a sua rede de<br />

significância.<br />

O ESTRUTURALISMO<br />

Ao final desta Aula VI, você deverá identificar os pressupostos<br />

teóricos do Estruturalismo.


UESC<br />

1 INTRODUÇÃO<br />

AULA 6<br />

O ESTRUTURALISMO<br />

Nesta Aula VI, vamos nos deter no Estruturalismo, que segue<br />

a tendência do cientificismo corrente, quando reduz o texto a uma<br />

rede de significância e prioriza a langue, em sua abstração coletiva de<br />

uso. Entre os principais representantes, estão A. J. Greimas, Tzvetan<br />

Todorov e Gérard Genette.<br />

Antes do início desta Aula VI, você deverá ter lido:<br />

• o capítulo 3, de Teoria da Literatura: Uma Introdução, de Terry Eagleton;<br />

• o capítulo 7, especificamente, da p.129 à p. 144, de Teoria da Literatura “revisitada”, de<br />

Maria Magaly Trindade Gonçalves e Zina. C. Bellodi;<br />

• o capítulo 5, especificamente, da p. 82 à p. 83, de Novo manual de teoria literária de<br />

Roger Samuel*.<br />

*As referências das obras encontram-se no final da Aula VI.<br />

Letras Vernáculas<br />

97<br />

ATENÇÃO<br />

6<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />

2 ESTRUTURALISMO<br />

O estruturalismo<br />

O Estruturalismo começa com Ferdinand Saussure, a partir<br />

da publicação, em 1916, do Curso de linguística geral, compilado<br />

por seu genro e discípulo Charles Bally. Saussure vai dizer que o<br />

código linguístico, dividido entre langue, enquanto sistema coletivo,<br />

e parole de uso individual, constitui um sistema, uma estrutura,<br />

cujos elementos só significam na relação estabelecida com o todo;<br />

assim, para haver linguagem é necessário que o significante (cadeia<br />

fônica) e o significado (conteúdo) do signo estejam em relação de<br />

interdependência. Mas é com o Circulo Linguístico de Praga que o<br />

vocábulo estrutura ganha destaque com Mukarovsky, quando fala<br />

de “estrutura melódica”, “estruturas rítmicas”, “estruturas fônicas”,<br />

“estruturas sintáticas” e “estrutura de conteúdo”.<br />

Em consonância com a noção de estrutura literária de<br />

Mukarovsky e outras noções coincidentes ou afins, a crítica<br />

estruturalista será aquela crítica empenhada em descrever,<br />

de modo imanente e com rigor analítico, as relações<br />

instituídas entre os vários elementos componentes de<br />

um dado texto literário e que configuram especificamente<br />

a estrutura desse texto, ignorando propositadamente<br />

problemas de história literária, de erudição bibliográfica,<br />

de interpretação psicologista, etc. (SILVA, 1975, p. 655).<br />

Mukarovsky vê o texto literário como signo, e, ao mesmo<br />

tempo, como uma estrutura de signos e se distingue em dois aspectos:<br />

como artefato (significante) e como objeto estético (significado).<br />

O Estruturalismo segue a tendência do cientificismo corrente,<br />

quando reduz o texto a uma rede de significância e prioriza a langue,<br />

em sua abstração coletiva de uso, sob a justificativa de se debruçar<br />

sobre a estrutura do próprio signo para que esse fosse melhor<br />

observado. Maria Magaly Trindade Gonçalves e Zina C. Bellodi em<br />

Teoria da Literatura “revisitada”(2005), chamam a atenção para a<br />

noção de estrutura, quando se fala de texto literário:<br />

No que se refere à Literatura está mais ou menos claro que<br />

a obra é uma estrutura, um todo orgânico, um sistema<br />

de relações, de tal forma que qualquer alteração imposta,<br />

por exemplo, a um elemento qualquer de um romance<br />

significa alteração na obra toda (GONÇALVES; BELLODI,<br />

2005, p. 131).<br />

O estruturalismo padece do extremo cientificismo a que<br />

se impõe, tornando, muitas vezes, a análise de uma obra literária<br />

98 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

como se fosse uma intervenção cirúrgica à procura de uma base de<br />

significância encontrável em todas as obras. É o que afirma Terry<br />

Eagleton em Teoria da Literatura: Uma Introdução:<br />

A obra não se refere a um objeto, nem é a expressão de<br />

um sujeito individual; ambos são eliminados, e o que resta,<br />

pendendo no ar entre eles, é um sistema de regras. Esse<br />

sistema possui existência autônoma, e não se inclinará às<br />

intenções individuais (EAGLETON, 1997, p.154).<br />

Na análise estrutural, reproduzida a seguir, empreendia por<br />

Anazildo Vasconcelos da Silva, constante de sua obra Lírica Modernista<br />

e Percurso Literário Brasileiro (1978), as palavras de Terry Eagleton,<br />

reproduzidas acima, tornam-se bastante elucidadas.<br />

Adormecida<br />

Uma noite, eu me lembro... Ela dormia<br />

Numa rede encostada molemente...<br />

Quase aberto o roupão... solto o cabelo,<br />

E o pé descalço do tapete rente.<br />

‘Stava aberta a janela. Um cheiro agreste<br />

Exalavam as silvas da campina...<br />

E ao longe, num pedaço do horizonte...<br />

Via-se a noite plácida e divina.<br />

De um jasmineiro os galhos encurvados,<br />

Indiscretos entravam pela sala,<br />

E de leve oscilando ao tom das auras,<br />

Iam na face trêmulos - beijá-la.<br />

Era um quadro celeste... A cada afago,<br />

Mesmo em sonhos a moça estremecia...<br />

Quando ela serenava... a flor beijava-a .<br />

Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia .<br />

Dir-se-ia que naquele doce instante<br />

Brincavam duas cândidas crianças...<br />

A brisa, que agitava as folhas verdes,<br />

Fazia-lhe ondear as negras tranças.<br />

E o ramo ora chegava, ora afastava-se...<br />

Mas quando a via despertada a meio,<br />

Pra não zangá-la... sacudia alegre<br />

Uma chuva de pétalas no seio...<br />

Eu, fitando esta cena, repetia<br />

Naquela noite lânguida e sentida:<br />

- Ó flor, tu és a virgem das campinas...<br />

Letras Vernáculas<br />

99<br />

6<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />

O estruturalismo<br />

Virgem, tu és a flor de minha vida...<br />

Para facilitar a análise, vamos dividir o poema em três<br />

segmentos, considerando o primeiro segmento constituído pelas duas<br />

estrofes iniciais o segundo constituído pelas estrofes três, quatro,<br />

cinco e seis; e o terceiro, pela última estrofe.<br />

No primeiro segmento, o eu lírico propõe os elementos ainda<br />

dissociados em seus contextos, mediante o afastamento espacial<br />

referenciado por “janela” que permite distinguir o dentro (Mulher)<br />

e o fora (Natureza). Só o dentro aparece no campo visualizado,<br />

possibilitando a percepção de detalhes mínimos (“quase aberto o<br />

roupão/ pé descalço”), enquanto o fora permanece visualmente velado<br />

pela “noite”, marcando a presença de seus elementos olfativamente<br />

(“Um cheiro agreste/exalavam as silvas da campina”). Assim, além<br />

da distinção espacial dos elementos, marcada pelo dentro e pelo fora,<br />

há também a distinção em relação ao campo visualizado, velamento/<br />

fora x desvelamento/dentro.<br />

100 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

No segundo segmento, os elementos do espaço fora penetram<br />

o espaço dentro e, desse modo, ingressam no campo visualizado,<br />

dando início a um processo de desvelamento que vai de “silvas”, em<br />

gradação, até “pétalas”:<br />

silvas → jasmineiro → flor → pétala<br />

Como o desvelamento se faz no espaço da mulher, o dentro,<br />

o elemento “flor” e visualizado numa relação de equivalência ao<br />

elemento mulher, que vai permitir ao observador aproximá-las: (“dir-<br />

se-ia que naquele doce instante/brincavam duas cândidas crianças”).<br />

A identificação flor/mulher ocorre em função da combinação de<br />

elementos no espaço contextual dentro. Assim, o processo de<br />

aproximação/afastamento (“quando serenava a flor beijava-a/quando<br />

ela ia beijar-lhe a flor fugia”) referencia tanto o desvelamento quanto<br />

a combinação contextual dos elementos. O desvelamento se faz pela<br />

penetração da natureza no campo visualizado (“De um jasmineiro<br />

os galhos/indiscretos entravam pela sala”) da sala, o espaço dentro.<br />

E a combinação dos elementos se faz mediante a neutralização da<br />

distinção espacial dentro/fora (“Era um quadro celeste”), em que se<br />

acentua o traço da unidade “um quadro” e da plenificação combinatória<br />

“celeste”<br />

Letras Vernáculas<br />

101<br />

6<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />

O estruturalismo<br />

No terceiro segmento, o eu lírico assume o processo de<br />

desvelamento (“Eu fitando esta cena”) e o de combinação (“repetia<br />

naquela noite”), e se permite então aproximar os espaços ou<br />

contextos, em função da equivalência dos elementos (“Ó flor, tu és a<br />

virgem das campinas/Virgem, tu és a flor de minha vida”).<br />

A combinação contextual dos elementos é que permite a<br />

equivalência dos contextos, isto e, flor e virgem no contexto campinas<br />

e virgem é flor no contexto minha vida, verificando-se então a<br />

identificação do eu lírico com a natureza:<br />

Vejamos graficamente o terceiro movimento:<br />

O eu lírico, em função de desvelamento da identificação flor =<br />

virgem (‘”eu fitando esta cena”), combina então os espaços campinas<br />

= minha vida (“repetia naquela noite”), identificando-se com a<br />

Natureza. De modo que a visualização/desvelamento da cena flor =<br />

mulher, conduz à combinação dos espaços campinas = minha vida e<br />

estabelece a identificação do eu lírico com a Natureza.<br />

Recolhendo agora os dados obtidos mediante a análise<br />

proposta, podemos concluir sobre o processo lírico de estruturação<br />

102 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

do poema de Castro Alves. A equivalência verificada no último<br />

segmento entre o Eu e a Natureza, permite-nos dizer que, desde o<br />

início do poema, a natureza constitui uma expressão subjetiva, pela<br />

sentimentalização, sustentada na adjetivação. No primeiro segmento,<br />

os elementos ainda são propostos de forma mais objetiva. A partir<br />

do segundo segmento, os elementos de fora são sentimentalizados<br />

e passam a valer como significantes do eu lírico, assim (“os galhos<br />

indiscretos/que iam na face trêmulos... beijá-la”), o (“ora chegava/<br />

ora afastava-se”), marcam a presença do eu lírico. De modo que o<br />

processo de desvelamento observado em relação à Natureza, pode<br />

ser tomado como processo de desvelamento do desejo do eu lírico.<br />

Que os elementos sentimentalizados valem como significantes duma<br />

expressão subjetiva, como significação do eu lírico, está bem claro na<br />

comparação de dois versos que aparecem no início e no fim do poema:<br />

“Via-se a noite plácida e divina”, em que há uma certa objetividade<br />

ou um certo sentido objetivo em “noite” e “Naquela noite lânguida e<br />

sentida”, em que a “noite”, ao ser sentimentalizada, torna-se agora<br />

pura expressão subjetiva.<br />

Os elementos do Espaço Externo aqui representados pelo fora,<br />

são sentimentalizados, tornados significantes estruturantes duma<br />

expressão subjetiva no Espaço Lírico. Desse modo, pensamos que<br />

a análise do texto de Castro Alves comprova a concepção de lirismo<br />

romântico proposta.<br />

(In: Lírica Modernista e Percurso Literário Brasileiro, p.24-28).<br />

Vê-se, pois, que a análise feita no poema Adormecida de<br />

Castro Alves, antes de mais nada, segmentou-o, visando à apreensão<br />

minuciosa de suas partes constitutivas. E, em reação ao reducionismo,<br />

a que havia chegado a crítica, muitos teóricos, entre eles, o francês<br />

Roland Barthes, tentam resgatar o prazer da leitura de um texto<br />

literário. Barthes propõe-se a apreender o texto em sua corporeidade,<br />

enquanto elemento capaz de despertar no leitor prazer, por se tratar<br />

de uma atividade intelectual que não dispensa o sensual. No texto<br />

teórico S/Z (1970), propõe a substituição da análise estrutural pela<br />

análise textual, em que o texto é esmiuçado em suas lexias, unidades<br />

de significação, em atenção à estruturação e à estrutura do mesmo.<br />

Entre outros teóricos, voltados para a noção estrutural de ver o texto<br />

literário, tendo a França como a grande disseminadora, estão: A. J.<br />

Greimas, Tzvetan Todorov e Gérard Genette.<br />

Em Fronteiras imaginárias (1971), Fábio Lucas procura<br />

sintetizar as características básicas do Estruturalismo e de sua<br />

vertente no campo da crítica literária.<br />

Letras Vernáculas<br />

103<br />

6<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />

O estruturalismo<br />

De modo geral, podemos dizer que o Estruturalismo tem<br />

contribuído, no pensamento contemporâneo, para deixar<br />

estabelecidos os seguintes princípios:<br />

a) o primado da totalidade;<br />

b) o interrelacionamento dos fatores. Nesse entrelaçamento,<br />

predomina a interdependência, pois a estrutura constitui<br />

um todo formado de elementos solidários;<br />

c) uma rede de relações se estabelecendo, torna-se<br />

prioritário estudá-la, mais do que as partes, os elementos<br />

ou as substâncias correlacionadas, que formam o todo;<br />

d) além de uma articulação no plano da consciência,<br />

reconhece-se uma articulação no plano do inconsciente,<br />

fundamental, pois estabelece a continuidade da história<br />

ou do discurso, interceptados por hiatos ou mentiras<br />

(símbolos);<br />

e) o conhecimento deve afeiçoar-se a jogos de oposições<br />

do tipo sincronia-diacronia (o mais difundido), língua-fala,<br />

chave da lingüística saussuriana), significante-significado,<br />

som-sentido (Valéry já dizia que o poema não passa de uma<br />

‘hesitação entre o som e o sentido’), expressão-conteúdo,<br />

sociedade-indivíduo, ciência-ideologia (vale dizer: ‘saber<br />

rigoroso’ e ‘consciência deformada’), sintagma-paradigma<br />

(LUCAS,1971, p.47-48).<br />

Saussure, ao afirmar que o sujeito falante faz o recorte da<br />

realidade, não se ateve, entretanto, ao fato de que atribuía, ao mesmo<br />

tempo, ao código linguístico, isto é, à soma de todos os signos desse<br />

código, o qualificativo natural.<br />

Assim, o Estruturalismo acabou por reforçar uma perspectiva, de<br />

certa sorte, idealista, quando enfatiza que o significado encontra-se<br />

preso a uma essência de origem primeva, sem levar em conta as<br />

condições enunciativas de sua realização; reduzindo a enunciação<br />

a um leque universal de estruturas. Da mesma sorte, quando<br />

transposto para a análise literária, acabou por expôr a literatura a<br />

uma espécie de previsibilidade, retirando o sujeito racional cartesiano<br />

de seu pedestal, supostamente detentor da prerrogativa de fazer o<br />

recorte da realidade.<br />

No anexo desta Aula VI, você tem à sua disposição o modelo<br />

de análise da narrativa, de acordo com o modelo de A. J. Greimas,<br />

feita por Maria do Carmo Pandolfo, constante da obra organizada por<br />

Eduardo Portella, Teoria Literária (1991).<br />

104 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

ATIVIDADE<br />

1. Por que Mukarovsky vê o texto literário como signo e, ao mesmo tempo, como<br />

estrutura de signo?<br />

2. Por que o Estruturalismo acaba esquecendo-se da noção de subjetividade e<br />

de referente?<br />

3. Use as suas palavras para comentar a citação feita durante a <strong>aula</strong>, retirada da<br />

obra Fronteiras imaginárias (1971), de Fábio Lucas:<br />

4. Pesquise as críticas feitas na atualidade ao Estruturalismo?<br />

5. Comente a seguinte citação:<br />

O Estruturalismo mantém um certo parentesco com<br />

outras correntes críticas, principalmente o Formalismo,<br />

na medida em que volta sua atenção para a obra em si<br />

e não seus condicionamentos genéticos (GONÇALVES;<br />

BELLODI, 2005, 130).<br />

6. Por que Roland Barthes se distancia dos estruturalistas na abordagem do texto<br />

literário?<br />

RESUMINDO<br />

Nesta Aula VI, tratamos da corrente teórica Estruturalismo, que segue<br />

a tendência do cientificismo corrente, quando reduz o texto a uma rede de<br />

significância e prioriza a langue, em sua abstração coletiva de uso. Entre<br />

os principais representantes, nos detivemos nos estudos de A.J. Greimas,<br />

Tzvetam Todorov e Gérard Genette.<br />

Letras Vernáculas<br />

105<br />

6<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />

R E F E R Ê N C I A S<br />

O estruturalismo<br />

BARTHES, Roland. S/Z. Tradução de Maria de Santa Cruz; Ana<br />

Mafalda Leite. Lisboa: Edições 70, 1970.<br />

EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: Uma Introdução. Tradução<br />

de Walter Dutra. São Paulo: Martins Fontes, 1997.<br />

GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina. C. Teoria da<br />

Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.<br />

LUCAS, Fábio. Fronteiras imaginárias. Rio de Janeiro: Cátedra/<br />

MEC, 1971.<br />

PORTELLA, Eduardo; et al. Teoria Literária. Rio de Janeiro: Tempo<br />

Brasileiro, 1991.<br />

SAMUEL, Roger. Novo manual de teoria literária. Petrópolis:<br />

Vozes, 2002.<br />

SILVA, Anazildo Vasconcelos da. Lírica Modernista e Percurso<br />

Literário Brasileiro.Rio de Janeiro: Editora Rio, 1978.<br />

SILVA, Vitor Manuel de A. Teoria da Literatura. Coimbra: Almedina,<br />

1975.<br />

LEITURA RECOMENDADA<br />

EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: Uma Introdução. Tradução de Walter Dutra. São Paulo: Martins<br />

Fontes, 1997.<br />

GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina. C. Teoria da Literatura “revisitada”. Petrópolis:<br />

Vozes, 2005.<br />

SAMUEL, Roger. Novo manual de teoria literária. Petrópolis: Vozes, 2002.<br />

106 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

Letras Vernáculas<br />

ANEXO I<br />

PANDOLFO, Maria do Carmo. Análise da Narrativa. In:<br />

Eduardo Portella et al, Teoria Literária.Rio de Janeiro:<br />

Tempo Brasileiro,1991, p-144-152.<br />

107<br />

6<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />

O estruturalismo<br />

108 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

Letras Vernáculas<br />

109<br />

6<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />

O estruturalismo<br />

110 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

Roland Barthes: foi um escritor, sociólogo, crítico literário, semiólogo<br />

e filósofo francês. Formado em Letras Clássicas em 1939 e Gramática e<br />

Filosofia em 1943 na Universidade de Paris, fez parte da escola estruturalista,<br />

influenciado pelo lingüista Ferdinand de Saussure. Crítico dos conceitos<br />

teóricos complexos que circularam dentro dos centros educativos franceses<br />

nos anos 50. Entre 1952 e 1959 trabalhou no Centre national de la recherche<br />

scientifique - CNRS.<br />

Letras Vernáculas<br />

ANEXO II<br />

Fonte: http://www.almedina.net/catalog/autores.php?autores_id=383<br />

Ilustração - Fonte: http://www.dialogocomosfilosofos.com.br/wp-content/uploads/2009/11/Roland-Barthes.jpg<br />

111<br />

6<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />

O estruturalismo<br />

Tzvetan Todorov: é um filósofo e linguista búlgaro radicado na França<br />

desde 1963 em Paris. Após completar seus estudos, passando a frequentar<br />

então os cursos de Filosofia da Linguagem ministrados por Roland Barthes,<br />

um dos grandes teóricos do Estruturalismo. Todorov foi professor da École<br />

Pratique de Hautes Études e na Universidade de Yale e Diretor do Centro<br />

Nacional de Pesquisa Científica de Paris (CNRS). Atualmente é Diretor do<br />

Centro de Pesquisa sobre as Artes e a Linguagem da mesma cidade. Publicou<br />

um número considerável de obras, que estão hoje traduzidas em vinte e<br />

cinco idiomas, além disso, produziu vastíssima obra na área de pesquisa<br />

linguística e teoria literária.<br />

Fonte: http://www.wook.pt/authors/detail/id/16389<br />

Ilustração - Fonte: http://teratoblog.files.wordpress.com/2009/08/tzvetan-todorov.jpg<br />

Gérard Genette (nascido em 1930, em Paris) é um crítico literário francês e<br />

teórico da literatura que construiu a sua própria abordagem poética a partir<br />

do cerne do estruturalismo. É um dos responsáveis pela reintrodução do<br />

vocabulário em uma retórica crítica literária, por exemplo, termos como Tropo<br />

e metonímia. Adicionalmente seu trabalho sobre narrativa, mais conhecido<br />

em Inglês através da seleção Narrativa do Discurso: um ensaio em Método,<br />

tem sido de importância. Sua influência internacional não é tão grande como<br />

a de alguns outros identificados com o estruturalismo, como Roland Barthes<br />

e Claude Lévi-Strauss; seu trabalho é mais frequentemente incluído em<br />

seleções ou discutido em obras secundárias do que estudado em seu próprio<br />

direito.<br />

Fonte: http://deztreze.wordpress.com/2009/12/16/leitura-de-a-literatura-como-tal-de-gerard-genette/<br />

Ilustração - Fonte: http://ak2.static.dailymotion.com/static/video/183/296/15692381:jpeg_preview_large.jpg<br />

A.J. Greimas: Algirdas Julius Greimas, ou Algirdas Julien Greimas (Tula,<br />

Rússia, 9 de março de 1917 - Paris, 27 de fevereiro de 1992), foi um linguista<br />

lituano de origem russa, que contribuiu para a teoria da Semiótica e da<br />

narratologia, além de ter empreendido diversas pesquisas sobre mitologia<br />

lituana.<br />

Fonte: http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/M/modalidade.htm<br />

Ilustração - Fonte: http://www.anyksta.lt/user_img/9291_GREIMAS.jpg<br />

112 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


Suas anotações<br />

______________________________________________________________<br />

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__________________________________________________________________________<br />

_________________________________________________________________________


Meta<br />

Objetivos<br />

A ESTÉTICA DA RECEPÇÃO<br />

7<br />

<strong>aula</strong><br />

Focalizar os grandes representantes da corrente teórica<br />

Estética da Recepção, Hans Robert Jauss e Wolfgang Iser,<br />

que se opuseram às abordagens anteriores de ver o artístico,<br />

por não levarem em conta, o leitor.<br />

Ao final desta Aula VII, você deverá ter apreendido os<br />

conteúdos referentes à Estética da Recepção.


UESC<br />

1 INTRODUÇÃO<br />

AULA 7<br />

A ESTÉTICA DA RECEPÇÃO<br />

A Estética da Recepção teve, entre seus grandes representantes,<br />

Hans Robert Jauss e Wolfgang Iser e, em linhas gerais, criticou as<br />

correntes teóricas anteriores pelo caráter imanentista e sincrônico de<br />

ver a obra literária e pelo desprezo em relação ao leitor.<br />

Antes do início desta Aula VII, você deverá ter lido:<br />

• capítulo 2, de Teoria da Literatura: Uma Introdução, de Terry Eagleton;<br />

• capítulo A Interação do Texto com o Leitor, de Wolfgang Iser;<br />

• capítulo O Prazer Estético e As Experiências Fundamentais da Poiesis, Aishesis e Katharsis,<br />

de Hans Robert Jauss;<br />

• capítulo Recepção e Interpretação, de Horst Steinmetz;<br />

• livro Estética da recepção e história da Literatura, de Regina Zilberman.<br />

* As referências das obras encontram-se no final da Aula VII.<br />

Letras Vernáculas<br />

117<br />

ATENÇÃO<br />

7<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />

SAIBA MAIS<br />

Hermenêutica: é um ramo da filosofia<br />

que se volta para a compreensão<br />

e interpretação da Bíblia e de textos<br />

escritos, de um modo geral. A palavra<br />

deriva do nome do deus grego Hermes,<br />

o mensageiro dos deuses, a quem os<br />

gregos atribuíam a origem da linguagem<br />

e da escrita e considerado o patrono da<br />

comunicação e do entendimento humano.<br />

Fonte: ABBAGNANO, 1998, p. 497.<br />

Imanentista: Que diz respeito ao<br />

imanentismo, que é próprio de algo, com<br />

suas características peculiares. Em relação<br />

ao texto literário, trata-se da crítica que<br />

vê a literatura como capaz de produzir<br />

sentido, de forma autônoma, sem depender<br />

do contexto, seja aquele evocado na obra,<br />

seja o das condições de leitura. A crítica<br />

imanentista já foi vista na Aula V: O New<br />

criticism: A visão imanentista da obra<br />

literária.<br />

2 ESTÉTICA DA RECEPÇÃO<br />

A estética da recepção<br />

A Estética da Recepção ou Teoria da Recepção surge na<br />

década de 60, do século passado, na Universidade de Constância,<br />

na Alemanha, e muito tributária da Hermenêutica<br />

de H.G. Gadamer. Essa corrente crítica está ligada às<br />

comunidades interpretativas pensadas por Stanley<br />

Fish, quando propõe uma nova historiografia para<br />

a literatura, ao ser levado em conta a produção, a<br />

recepção e a comunicação. Nesta proposta, autor-<br />

obra-leitor não podem ser vistos sem uma relação<br />

dinâmica, na medida em que a leitura de um texto<br />

literário depende das condições sócio-histórica, que<br />

lhe dão sentido.<br />

Teve, entre seus grandes representantes, Hans<br />

Robert Jauss e Wolfgang Iser e, em linhas gerais,<br />

criticou as correntes teóricas anteriores pelo caráter<br />

imanentista e sincrônico de ver a obra literária e<br />

pelo desprezo em relação ao leitor. Em investigações<br />

anteriores, a figura do receptor ficou restrita à catarse,<br />

em Aristóteles, e à função conativa, do formalista russo<br />

Jakobson, sem que o responsável pela completude de<br />

sentido, de fato, fosse valorizado em relação ao texto lido.<br />

Na verdade, a estética da recepção elegeu o leitor para objeto<br />

da teoria literária, desinteressando-se da figura do autor e<br />

da produção do próprio texto. Adotou, como fundamento<br />

básico, a unidade triádica do processo hermenêutico<br />

(Gadamer), ou seja, o entendimento na confluência de<br />

três momentos – comunicação, interpretação, aplicação<br />

- hauridos através de três leituras: 1ª) leitura perceptiva,<br />

imediata (compreensão); 2ª) leitura refletida, reflexiva<br />

(interpretação); 3ª) leitura pesquisadora do horizonte<br />

histórico determinante da gênese e do efeito da obra; que<br />

permite distinguir os horizontes passados do atual, pelo<br />

confronto da leitura contemporânea com todas as outras<br />

merecidas até então (aplicação) (PIRES, 1989, p.103).<br />

Ao trazer o leitor para o primeiro plano, a Estética da Recepção<br />

coloca por terra a crença em possíveis interpretações corretas do<br />

fenômeno literário. Para tanto, o leitor deve estar atento a estratégias<br />

de leitura a serem adotadas e, ao mesmo tempo em que é indispensável<br />

o domínio do repertório de temas pertinentes ao artístico e de um<br />

certo protocolo de leitura, diante do texto literário, que pode ser<br />

118 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

lido de forma não-pragmática, ou pragmática. Para Steinmetz (s/d,<br />

p.154), em Teoria da literatura, obra organizada por Kibédi Varga<br />

“As teorias da recepção consideram muitas vezes que existem, por<br />

um lado os textos literários, e, por outro, os textos pragmáticos, que<br />

teriam formas de funcionamento diferentes”.<br />

Isto é, na leitura pragmática, o leitor procura ligá-la ao<br />

cotidiano, concreto, enquanto, na não-pragmática, não ocorre essa<br />

aplicação automática, antes a fruição estética impede tal uso. Em<br />

textos, como na parábola, usada nos textos sagrados, nas fábulas, ou<br />

nos apólogos, é possível, sem dificuldade, proceder às duas leituras:<br />

não-pragmática e pragmática.<br />

Um apólogo – texto narrativo de natureza alegórica – visa<br />

a ensinar, através de personagens inanimadas, que tomam forma<br />

humana. Na Estética, II, de Hegel, encontramos a seguinte definição<br />

para o mesmo:<br />

Pode-se considerar o apólogo como uma parábola que não<br />

utiliza apenas, e a título de analogia, um caso particular<br />

a fim de tornar perceptível uma significação geral de tal<br />

modo que ela fica realmente contida no caso particular<br />

que, no entanto, só é narrado a título de exemplo especial<br />

(HEGEL, 1993, p. 223).<br />

Logo, no caso, de Um Apólogo, do escritor brasileiro Machado<br />

de Assis, reproduzido, em parte, abaixo, presta-se à leitura não-<br />

pragmática e, ao mesmo tempo, pragmática. Pois o comportamento,<br />

de cada uma das personagens, a Agulha e a Linha, respectivamente,<br />

pode ser estendido para um grupo maior de seres humanos, que tem<br />

o mesmo procedimento diante da vida<br />

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:<br />

— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir<br />

que vale alguma cousa neste mundo?<br />

— Deixe-me, senhora.<br />

— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar<br />

insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.<br />

— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem<br />

cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu.<br />

Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.<br />

— Mas você é orgulhosa.<br />

— Decerto que sou.<br />

Letras Vernáculas<br />

119<br />

7<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />

— Mas por quê?<br />

A estética da recepção<br />

— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é<br />

que os cose, senão eu?<br />

— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os<br />

cose sou eu e muito eu?<br />

— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro,<br />

dou feição aos babados...<br />

— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por<br />

você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...<br />

— Também os batedores vão adiante do imperador.<br />

— Você é imperador?<br />

— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo<br />

adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo.<br />

Eu é que prendo, ligo, ajunto...<br />

(In: Obra Completa, Vol. II, 1985, p. 555-556).<br />

Em uma leitura não-pragmática, parabólica, o texto<br />

vale por si mesmo, isto é, não necessita de referências externas para<br />

produzir sentido, logo, sendo uma narrativa, os seus elementos é que<br />

seriam objeto de análise como: a composição dos personagens, em<br />

suas ações, o uso do tempo, o espaço, onde ocorre o enredo, o uso<br />

do discurso direto, ou do indireto etc. Por outro lado, em uma leitura<br />

pragmática, o texto se justifica pelos dados extra-textuais evocados,<br />

como, por exemplo, o fato de a Agulha e a Linha estarem sempre<br />

discutindo, por se sentirem uma superior à outra. Tais falas refletem<br />

as posições antagônicas de classe social, vividas no cotidiano das<br />

pessoas do II Império no Brasil.<br />

Por isso, Wolfgang Iser chama a atenção para certa necessidade<br />

de instrumentalização do leitor no ato de fruição estética. Nas palavras<br />

de Terry Eagleton, o posicionamento do alemão de confirma em:<br />

Para ler, precisamos estar familiarizados com as técnicas<br />

e convenções literárias adotadas por determinada obra;<br />

devemos ter certa compreensão de seus ‘códigos’,<br />

entendendo-se por isso as regras que governam<br />

sistematicamente as maneiras pelas quais ela expressa<br />

seus significados (EAGLETON, 1997, p. 107).<br />

Para Iser, a leitura eficiente é aquela que força o leitor a sair<br />

dos hábitos convencionais de leitura, que viola os modos normativos<br />

120 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

de ver e sentir, rumo a uma nova consciência e à aquisição de novos<br />

códigos de entendimento, ao preencher os vazios, os hiatos. Em A<br />

Interação do Texto com o Leitor (1979), o integrante da Escola de<br />

Constância afirma:<br />

Como atividade comandada pelo texto, a leitura une<br />

o processamento do texto ao efeito sobre o leitor. Esta<br />

influência recíproca é descrita como interação (p.83).<br />

Em suma, portanto, o vazio no texto ficcional induz e guia<br />

a atividade do leitor (...) (p.130).<br />

Assim, vazio, carência, campo e figura de relevância são termos<br />

que estabelecem uma estrutura de comunicação entre o leitor e o<br />

texto. O vazio textual chama o leitor a preencher espaços de sentido<br />

à luz de sua experiência anterior à leitura atual. A carência constitui<br />

os implícitos textuais, não conhecidos pelo leitor, que acionam a<br />

sua imaginação com projeções de sua fantasia pulsional. O campo<br />

responde ao ponto de vista assumido pelo leitor diante da diegese,<br />

isto é, da intriga, às posições tomadas. A figura de relevância, por<br />

sua vez, proporciona, ao leitor a tomada de consciência, o domínio<br />

de um ponto de vista, indispensável para a compreensão. Ainda nas<br />

palavras de Iser:<br />

Dois pontos precisam ser enfatizados. 1. Precisamos<br />

compreender a estrutura do vazio como um tipo ideal, em<br />

torno do qual se realiza a participação do leitor no texto.<br />

2. A mudança de lugar do vazio não será compreendida se<br />

pensarmos que as suas diferentes ‘cunhagens’ decorrem<br />

da existência de um arsenal de diferentes tipos de vazio.<br />

Ao contrário, o vazio derivado do campo referencial é<br />

preenchido por meio da estrutura de tema e horizonte. Esta<br />

estrutura faz com que o vazio mude de lugar, de modo que<br />

a sua variação de posição assinala a necessidade definida<br />

de indeterminação, tarefa a ser realizada pela atividade de<br />

constituição do leitor. Neste sentido, a mudança do vazio<br />

assinala o caminho a ser percorrido pelo ponto de vista<br />

do leitor, guiado pela seqüência auto-regulada a que se<br />

entrelaçam as qualidades estruturais do vazio (p.131).<br />

O tema, então, significa aquilo que o texto encerra, a ideia<br />

recorrente no mesmo. E esse sempre gravita em torno de um<br />

horizonte, em sua possibilidade mais alargada de sentido.<br />

Outro filósofo influente do início do século XX, Karl Popper, fala<br />

de uma espécie de horizonte de expectativa:<br />

Com esta expressão aludo à soma total de nossas<br />

espectativas [sic] conscientes, subconscientes ou inclusive<br />

Letras Vernáculas<br />

121<br />

7<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />

A estética da recepção<br />

enunciadas explicitamente numa linguagem (...). Os<br />

diversos horizontes de espectativas [sic] diferem não<br />

só pelo seu maior ou menor grau de consciência, mas<br />

também pelo seu conteúdo. Em todos os casos, porém,<br />

o horizonte de espectativa [sic] desempenha a função<br />

de um quadro de referência: nossas experiências, ações<br />

e observações só adquirem significado pela sua posição<br />

nesse quadro (apud, PIRES, 1989, p.105).<br />

O horizonte de expectativa, de alguma forma, potencializa<br />

o caráter de multissignificação do texto literário. Portanto,<br />

quanto mais cheia de indeterminações, mais a obra é passível de<br />

interpretações. Paradoxalmente, a potencialidade da obra a leva a<br />

várias interpretações, até mesmo conflitantes.<br />

Como exemplo, tomemos um excerto do Capítulo XXIV:<br />

“Curto, mas alegre” do romance Memórias póstumas de Brás Cubas<br />

de Machado de Assis, aplicando: vazio, carência, campo, figura de<br />

relevância, tema e horizonte de expectativa.<br />

(...) Não digo que a Universidade me não tivesse ensinado<br />

alguma; mas eu decorei-lhe só as fórmulas, o vocabulário,<br />

o esqueleto. Tratei-a como tratei o latim: embolsei três<br />

versos de Virgílio, dois de Horácio, uma dúzia de locuções<br />

morais e políticas, para as despesas da conversação.<br />

Tratei-os como tratei a história e a jurisprudência. Colhi de<br />

todas as coisas a fraseologia, a casca, a ornamentação...<br />

(1985, v. I, p. 545).<br />

Vazio: o leitor começa a acionar, em sua memória, outras<br />

leituras feitas, que podem ajudá-lo a preencher o vazio do sentido<br />

textual.<br />

Carência: neste momento da leitura, o leitor ainda não<br />

apreendeu o conteúdo textual em toda a sua extensão.<br />

Campo: o leitor pode vir a atribuir ao comportamento de Brás,<br />

à sua personalidade pouco comprometida com os compromissos;<br />

uma vez que não fez grande coisa na vida, nem por ele próprio, e,<br />

muito menos, pelo Brasil. Neste momento, o leitor assume um ponto<br />

de vista sobre o conteúdo textual que lhe dá suporte para prosseguir<br />

em sua leitura.<br />

Figura de relevância: já de posse de um ponto de vista, tomado<br />

a partir do campo, o leitor já possui um ponto de vista acabado acerca<br />

do personagem que foi capaz de fazer mau uso do que lhe foi ensinado<br />

na Universidade.<br />

Tema: os problemas da Educação<br />

Horizonte: educação<br />

122 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

Portanto, em uma leitura não-pragmática, parabólica, de:<br />

(...) mas eu decorei-lhe só (...) o esqueleto. Tratei-a<br />

como tratei o latim, embolsei três versos de Virgílio, dois de<br />

Horácio, uma dúzia de locuções morais e políticas, para as<br />

despesas da conversação. Tratei-os como tratei a história<br />

e a jurisprudência. Colhi de todas as coisas a fraseologia,<br />

a casca, a ornamentação... (1985, v. I, p. 545).<br />

O leitor é levado a perceber a desautomação no uso de<br />

expressões, que, na linguagem do cotidiano, não caberiam. Decora-<br />

se, isto é, traz-se de cor, de coração, um texto, uma lição, mas não<br />

um esqueleto; da mesma forma, trata-se alguém de certa maneira,<br />

não a Universidade, a história, a jurisprudência. Colhem-se flores,<br />

frutos, não frases, ou, muito menos, casca, ornamentação. Ou ainda,<br />

ninguém embolsa (= colocar no bolso) versos ou locuções, ou ainda,<br />

conversação não constitui nenhuma despesa.<br />

Em linhas gerais, Brás quis dizer que foi um aluno medíocre,<br />

que ficou somente com a superficialidade do que lhe foi ensinado na<br />

Universidade. Por outro lado, em uma leitura pragmática, percebe-se<br />

toda a crítica feita à sociedade brasileira do II Império, superficial,<br />

bacharelesca e pouco séria, ainda que se tenha diplomado na<br />

Universidade de Coimbra, em Portugal.<br />

A leitura pragmática de um texto literário fez com que o<br />

escritor do realismo francês Gustave Flaubert acabasse indo às<br />

barras do tribunal porque, em Madame Bouvary, tece críticas à<br />

sociedade francesa de então. Em uma primeira instância, seus<br />

juízes o condenaram, devido à leitura feita em seu alcance de<br />

aplicabilidade; entretanto, só conseguiu se livrar da condenação,<br />

devido à possibilidade de leitura não-pragmática.<br />

Além de Wolfgang Iser, o teórico Hans Robert Jauss, por seu<br />

turno, na esteira de Gadamer, passa a valorizar também a História<br />

para os estudos literários e vê a obra como forma e resposta às<br />

indagações do leitor. Regina Zilberman, em Estética da recepção e<br />

história literária (1989), destaca a importância do papel do leitor no<br />

ato da leitura:<br />

(...) Como o mestre, recupera a história como base do<br />

conhecimento do texto; e, igual ao outro, pesquisa seu<br />

caminho por uma via que permite trazer de volta o intérprete<br />

ou o leitor, sua defesa predileta na luta intelectual contra<br />

as correntes teóricas indesejadas (ZILBERMAN, 1989, p.<br />

12).<br />

Letras Vernáculas<br />

123<br />

7<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />

A estética da recepção<br />

É, mais do que tudo, o legado platônico está presente na<br />

Estética da Recepção, ao trazer de volta a noção de que a verdade<br />

está no belo e no bem. E, ao considerar a literatura como um sistema,<br />

que se define na produção, na recepção e na comunicação, acaba por<br />

relacionar autor, obra e leitor.<br />

Jauss estabelece três categorias fundamentais para a fruição<br />

estética, encontradas em uma retrospectiva sobre a história do prazer<br />

estético: Poiesis, Aishesis e Katharsis, quando afirma em A Literatura<br />

e o Leitor: Textos de Estética da Recepção (1979), obra organizada<br />

por Luiz Costa Lima:<br />

Designamos por poiesis, compreendida no sentido<br />

aristotélico da ‘faculdade poética’, o prazer ante a obra que<br />

nós mesmos realizamos, que Agostinho ainda reservava<br />

a Deus e que, desde o Renascimento, foi cada vez mais<br />

reivindicada como distintivo do artista autônomo (p.79-<br />

80).<br />

A aisthesis designa o prazer estético da percepção<br />

reconhecedora e do reconhecimento perceptivo,<br />

explicado por Aristóteles pela dupla razão do prazer ante<br />

o imitado; na estética aristotélica, a palavra aisthesis<br />

não é empregada propriamente neste sentido, mas, já<br />

na abertura da estética como disciplina autônoma, com<br />

Baumgarten, ela se coloca com o significado básico de<br />

um conhecimento através da experiência e da percepção<br />

sensívies. Enquanto experiência estética receptiva básica,<br />

a aisthesis corresponde assim a determinações diversas<br />

da arte: como ‘pura visibilidade’ (Konrad Fiedler), que<br />

corresponde à recepção prazerosa do objeto estético<br />

como uma visão intensificada, sem conceito ou através<br />

do processo de estranhamento (Chklovski), como uma<br />

visão renovada; como ‘contemplação desinteressada da<br />

plenitude do objeto’ (Moritzer Geiger); como experiência<br />

da ‘densidade do ser’ (J.P. Sartre), em suma, como<br />

‘pregnância perceptiva complexa’ (Deter Henrich).<br />

Legitima-se, desta maneira, o conhecimento sensível, face<br />

à primazia do conhecimento conceitual.<br />

Designa-se por katharsis, unindo-se a determinação de<br />

Górgias com a de Aristóteles, aquele prazer dos efeitos<br />

provocados pelo discurso ou pela poesia, capaz de conduzir<br />

o ouvinte e o expectador tanto à transformação de suas<br />

convicções, quanto à libertação de sua psique (...) (p.80).<br />

Tais categorias fundamentais da fruição estética encontram-<br />

se respaldadas na tradição crítica anterior, como, por exemplo, em<br />

Aristóteles, em Kant e em Baumgarten, filósofo alemão, do século<br />

XVIII, pai da estética. E Luís Costa Lima, em Teoria da Literatura em<br />

124 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

suas fontes (1983), argumenta:<br />

Se a hermenêutica literária, assim como a teológica ou<br />

jurídica, deve chegar à aplicação, partindo da compreensão<br />

e passando pela interpretação, esta aplicação de um lado<br />

pode desembocar numa ação prática, mas, de outro, pode<br />

satisfazer um interesse não menos legítimo, o de medir<br />

e ampliar, na comunicação literária com o passado, o<br />

horizonte da experiência própria, a partir da experiência<br />

de outros (v. 2, p.313).<br />

Jauss sugere, então, que o leitor substitua a pergunta “O que<br />

o texto disse?” por “O que o texto me diz e o que eu digo sobre o<br />

texto?” Só assim seria possível a aplicação daquilo que foi lido.<br />

ATIVIDADE<br />

1. Leia o fragmento, reproduzido abaixo de O Primo Basílio do autor do realismo<br />

português Eça de Queirós, e proceda às duas leituras: não-pragmática e pragmática,<br />

isto é, uma voltada para uma dimensão parabólica de ver o artístico e outra de cunho<br />

aplicativo na realidade, a partir do que era pregado pela sociedade burguesa da época,<br />

em que a obra foi escrita.<br />

Estavam de pé, no meio da sala.<br />

- Não te vás! Basílio!<br />

Os seus olhos profundos tinham uma suplicação doce. Basílio<br />

pousou o chapéu sobre o piano; mordia o bigode, um pouco<br />

nervoso.<br />

- E para que queres tu estar só comigo? – disse ela. – Que<br />

tem que venha gente? – E arrependeu-se logo daquelas<br />

palavras.<br />

Mas Basílio, com um movimento brusco, passou-lhe o braço<br />

sobre os ombros, prendeu-lhe a cabeça, e beijou-lhe na<br />

testa, nos olhos, nos cabelos, vorazmente (QUEIRÓS, 1979,<br />

p. 44).<br />

2. Regina Zilberman, em Estética da recepção e história literária (1989), na citação<br />

abaixo, fala acerca da Estética da Recepção, mais especificamente sobre o conceito<br />

usado por Jauss para se referir ao leitor. Comente a afirmação, em um parágrafo de no<br />

máximo dez linhas.<br />

[...] a estética da recepção apresenta-se como uma teoria<br />

em que a investigação muda de foco: do texto enquanto<br />

estrutura imutável, ele passa para o leitor, o ‘Terceiro Estado’,<br />

[...], seguidamente marginalizado, porém não menos<br />

Letras Vernáculas<br />

125<br />

7<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />

A estética da recepção<br />

importante, já que é condição de vitalidade da Literatura<br />

enquanto instituição social (1989, p. 10-11).<br />

3. Qual é o processo hermenêutico triádico de leitura para Gadamer?<br />

4. Por que Wolfgang Iser chama a atenção para certa necessidade de instrumentalização<br />

do leitor no ato de fruição estética?<br />

5. Hans Robert Jauss valoriza a História para os estudos literários e vê a obra como<br />

forma e resposta às indagações do leitor. Refute a afirmação ou reforce-a, utilizando<br />

a argumentação do texto da Aula VIII, quando se aborta o referido teórico:<br />

R E F E R Ê N C I A S<br />

RESUMINDO<br />

Você foi apresentado, nesta Aula VII, aos grandes representantes da<br />

corrente teórica Estética da Recepção: Hans Robert Jauss e Wolfgang Iser, que<br />

passaram a valorizar a recepção do artístico, chamando o leitor para a cena.<br />

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins<br />

Fontes, 1998.<br />

EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: Uma Introdução. Tradução<br />

de Walter Dutra. São Paulo: Martins Fontes, 1997.<br />

HEGEL. Estética II, 2c. Lisboa: Guimarães Editores, Lisboa, 1993.<br />

HUISMAN, Denis. Dicionário de Obras Filosóficas. São Paulo:<br />

Martins Fontes, 2000.<br />

ISER, Wolfgang. A Interação do Texto com o Leitor. In: Luiz Costa<br />

Lima (Org.). A Literatura e o Leitor: Textos de Estética da Recepção.<br />

Tradução de Luiz Costa Lima; Peter Naumann. Revisão de Heidrum<br />

Krieger. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. p. 83-132.<br />

JAUSS, Hans Robert. O Prazer Estético e As Experiências Fundamentais<br />

da Poiesis, Aishesis e Katharsis. In: Luiz Costa Lima (Org.). A<br />

Literatura e o Leitor: Textos de Estética da Recepção. Tradução de<br />

Luiz Costa Lima; Peter Naumann. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.<br />

p.63-82.<br />

LIMA, Luiz Costa. Teoria da Literatura em suas fontes<br />

2. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1983. 2 vol.<br />

126 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

MACHADO DE ASSIS. Obra Completa. Vols. II e II. Rio de Janeiro:<br />

Nova Aguilar, 1985.<br />

PIRES, Orlando. Manual de Teoria e Técnica Literária. Rio de<br />

Janeiro: Presença, 1989.<br />

QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. São Paulo: Abril Cultural, 1979.<br />

STEINMETZ, Horst. Recepção e Interpretação. In: A. Kibédi Varga<br />

(Org.). Teoria da Literatura. Tradução de Tereza Coelho. Lisboa:<br />

Editorial Presença, s/d, p.149-165.<br />

ZILBERMAN, Regina. Estética da recepção e história da Literatura.<br />

São Paulo, Ática, 1989.<br />

LEITURA RECOMENDADA<br />

EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: Uma Introdução. Tradução de Walter Dutra. São Paulo:<br />

Martins Fontes, 1997.<br />

ISER, Wolfgang. A Interação do Texto com o Leitor. In: Luiz Costa Lima (Org.). A Literatura e o<br />

Leitor: Textos de Estética da Recepção. Tradução de Luiz Costa Lima; Peter Naumann. Revisão de<br />

Heidrum Krieger. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. p. 83-132.<br />

JAUSS, Hans Robert. O Prazer Estético e As Experiências Fundamentais da Poiesis, Aishesis e Katharsis.<br />

In: Luiz Costa Lima (Org.). A Literatura e o Leitor: Textos de Estética da Recepção. Tradução de Luiz<br />

Costa Lima; Peter Naumann. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. p.63-82.<br />

STEINMETZ, Horst. Recepção e Interpretação. In: A. Kibédi Varga (Org.). Teoria da Literatura.<br />

Tradução de Tereza Coelho. Lisboa: Editorial Presença, s/d, p.149-165.<br />

ZILBERMAN, Regina. Estética da recepção e história da Literatura. São Paulo, Ática, 1989.<br />

Letras Vernáculas<br />

127<br />

7<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />

A estética da recepção<br />

Fish: Stanley Fish nasceu em 1938, em Rhode, na Islândia. É um<br />

importante teórico da literatura e professor universitário nos Estados<br />

Unidos. Dedicou-se a estudar a obra do poeta inglês John Milton e seus<br />

ensinamentos, vincularam-se ao pósmodernismo. Escreveu 10 livros<br />

e se descreve como um “anti-fundacionalista”. Hoje, o tipo de questões<br />

teóricas que pré-ocupam o estudioso do fenômeno literário tende a<br />

concentrar-se, auto-reflexivamente, nos conceitos que dominam num<br />

dado momento histórico e nos conceitos que sempre dominaram a própria<br />

história da linguagem. Como propõe Stanley Fish, o principal divulgador<br />

da reader-response criticism norte-americana, a literatura não pode conter<br />

propriedades formais pretensamente definidoras do que é ou não é a<br />

literatura: “A literatura é o produto de um modo de ler, de um acordo<br />

comunitário acerca daquilo que deverá contar como literatura, que leva<br />

os membros da comunidade a prestar um certo tipo de atenção a criarem<br />

literatura.” (Is There a Text in This Class?, 1980). O “modo de ler” não<br />

é fixo, mas varia ao longo dos tempos, por isso, Fish propõe a estética<br />

não como sendo a especificação definitiva de propriedades literárias e<br />

não literárias, mas sim “uma descrição do processo histórico pelo qual<br />

tais propriedades emergem”. O conceito de “comunidade interpretativa”<br />

surge então como coroamento deste conhecimento relativo da natureza da<br />

literatura: “Os sentidos não são propriedade nem de textos fixos e estáveis<br />

nem de leitores livres e independentes, mas de comunidades interpretativas<br />

que são responsáveis tanto pela configuração das atividades do leitor como<br />

pelos textos que essas atividades produzem.”<br />

Anexo<br />

Fonte: http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/E/estetica_recepcao.htm<br />

Ilustração - Fonte: http://humanitiesalaska.blogspot.com/2008/01/stanley-fish-on-value-or-lack-thereof.html<br />

Wolfgang Iser: junto com o colega teórico Hans Robert Jauss, Iser é<br />

o maior expoente da estética da recepção, que fundamenta suas bases<br />

na própria crítica literária alemã e sua teoria vê o texto como um local<br />

de produção e proliferação de significados. Sendo cético em relação à<br />

objetividade do texto da crítica formalista, Iser privilegia a experiência<br />

da leitura de textos literários como uma maneira de elevar a consciência<br />

ativamente, realçando o centro da mesma na investigação de significados.<br />

O estudo da fenomenologia de Husserl, Ingarden, Gadamer, Poulet<br />

influenciaram e contribuíram para o seu trabalho.<br />

Fonte: http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/E/estetica_recepcao.htm<br />

Ilustração - Fonte: http://liternet.bg/iser/gallery2.htm<br />

128 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

JAUSS: Hans Robert Jauss, discípulo da hermenêutica de Gadamer, foi<br />

membro da Escola de Constance e um dos mais inflexíveis dos críticos da<br />

estética da recepção. É o grande responsável pela divulgação da Estética<br />

da Recepção, nas décadas de 1970 e 1980. No seu ensaio nuclear, “A<br />

Literatura como Provocação” (1970), procurou ultrapassar os dogmas<br />

marxistas e formalistas que não privilegiam o leitor no ato interpretativo<br />

do texto literário e reforçou o conceito de horizonte de expectativas como<br />

impulsor da interpretação: “Uma obra não se apresenta nunca, nem mesmo<br />

no momento em que aparece, como uma absoluta novidade, num vácuo<br />

de informação, predispondo antes o seu público para uma forma bem<br />

determinada de recepção, através de informações, sinais mais ou menos<br />

manifestos, indícios familiares ou referências implícitas. Ela evoca obras<br />

já lidas, coloca o leitor numa determinada situação emocional, cria, logo,<br />

desde o início, expectativas a respeito do ‘meio e do fim’ da obra que, com<br />

o decorrer da leitura, podem ser conservadas ou alteradas, reorientadas ou<br />

ainda ironicamente desrespeitadas, segundo determinadas regras de jogo<br />

relativamente ao gênero ou ao tipo de texto.” (A Literatura como Provocação,<br />

trad. de Teresa Cruz, Veja, Lisboa, 1993, pp.66-67). Qualquer obra de<br />

arte literária só será efetiva, re-criada ou “concretizada”, quando o leitor a<br />

legitimar como tal, relegando para plano secundário o trabalho do autor e<br />

o próprio texto criado. Para isso, é necessário descobrir qual o horizonte de<br />

expectativas, que envolve essa obra, pois todos os leitores investem certas<br />

expectativas nos textos, que leem, em virtude de estarem condicionados por<br />

outras leituras já realizadas, sobretudo, se pertencerem ao mesmo gênero<br />

literário. O melhor indicador para determinarmos o horizonte de expectativas<br />

é a recepção da obra por parte do leitor. Uma crítica imediata ao conceito de<br />

horizonte de expectativas, assim definido, consiste no fato de se apresentar<br />

como uma espécie de instrumento único de análise estética de uma obra<br />

literária.<br />

Fonte: http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/E/estetica_recepcao.htm<br />

Ilustração - Fonte: http://www.vernix.org/marcel/images/people/hans-robert-jauss.png<br />

Gadamer: Hans Georg Gadamer, nascido em 1900. Autor de Verdade e<br />

método (1960), em que desenvolve as grandes linhas da Hermenêutica<br />

filosófica, na qual aborda o problema da verdade, numa perspectiva não<br />

científica. A análise da experiência revelada pela arte permite descobrir um<br />

modelo que tem valor para toda a experiência histórica. A descoberta de<br />

uma obra de arte é um fato histórico que pertence à história. Em A arte<br />

de compreender, Hermenêutica e tradição filosófica (1982), o problema<br />

hermenêutico é colocado em relação à teoria do conhecimento.<br />

Fonte: HUISMAN, 2000, p.18 e p.565.<br />

Ilustração - Fonte: http://erichluna.files.wordpress.com/2009/09/gadamer1.jpg<br />

Letras Vernáculas<br />

129<br />

7<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />

A estética da recepção<br />

Baumgarten: Alexander Gottlieb Baumgarten (1714-1762), filósofo e<br />

esteta alemão, nascido em Berlim. Estudou na Universidade de Halle. Em<br />

1740, foi nomeado professor de filosofia da Universidade de Frankfurt,<br />

onde permanece por 22 anos, falecendo relativamente cedo. O primeiro<br />

curso de estética o ministrou em 1742 naquela universidade. Enquadrou-<br />

se no esquema filosófico de Wolff, o ordenador didático do pensamento<br />

de Leibniz. Na divisão dos temas, inicia claramente pela gnosiologia, para<br />

depois derivar para a metafísica e física, por último, para a ética. Tratando<br />

do conhecimento e apreciando o conhecimento sensível, o interpretou ainda<br />

ao modo de Descartes, como um estágio inferior, ao modo de idéia confusa.<br />

Neste plano da sensibilidade, como uma gnoseologia inferior (= gnosiologia<br />

inferior), desenvolveu o estudo do que também denominou estética. Tem<br />

Baumgarten o mérito de haver tratado em separado o sentimento da<br />

apreciação da arte e do belo, em geral, enquadrando-o embora como um<br />

conhecimento sensível.<br />

Fonte: http://www.cfh.ufsc.br/~simpozio/novo/2216y605.htm<br />

Ilustração - Fonte: http://liternet.bg/iser/gallery2.htm<br />

Popper: Karl Raimund Popper, filósofo e epistemólogo austríaco, nascido<br />

em 1902. Autor de Lógica e Pesquisa Científica (1934), em que coloca que<br />

a hipótese científica está longe de corresponder ao registro passivo de<br />

dados experimentais, sendo mais da ordem da conjetura. Em Miséria do<br />

Historicismo (1957), entende que o historicismo constitui uma doutrina,<br />

segundo a qual as ciências sociais tem por missão descobrir as leis gerais<br />

do desenvolvimento histórico, leis que lhes permitiriam prever com exatidão<br />

o futuro da história humana. Em Conjecturas e refutações (1963), Popper<br />

desenvolve a tese de que, para distinguir a ciência da pseudociência, é<br />

necessário correr o risco de que a teoria científica só é científica, de fato,<br />

se puder ser invalidada por um teste de experiência. E, finalmente, em<br />

Conhecimento Objetivo (1972), o filósofo propõe a elaboração de uma<br />

teoria objetiva (ou objetivista) do conhecimento que rompa definitivamente<br />

com o ponto de vista subjetivista tradicional, ou seja, com o racionalismo<br />

cartesiano e com o empirismo de Locke, Hume ou Berkeley.<br />

Fonte: HUISMAN, 2000, p. 76, p.77, p. 348 e p. 377.<br />

Ilustração - Fonte: http://www.bfg-muenchen.de/files/images/popper.jpg<br />

130 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


Suas anotações<br />

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Meta<br />

Objetivos<br />

8<br />

<strong>aula</strong><br />

Trabalhar com os conceitos da corrente teórica Pós-<br />

estruturalismo, em sua crítica ao modelo binário da metafísica<br />

ocidental.<br />

O PÓS-ESTRUTURALISMO<br />

Ao final desta Aula VIII, você deverá conhecer os conteúdos<br />

referentes ao Pós-Estruturalismo.


UESC<br />

1 INTRODUÇÃO<br />

AULA 8<br />

A ESTÉTICA DA RECEPÇÃO<br />

Estudaremos, nesta Aula VIII, a corrente teórica Pós-<br />

estruturalismo, que, como o próprio nome sugere, vai criticar o<br />

Estruturalismo, na medida em que esse é visto como tributário do<br />

modelo binário de ver o mundo, em pares dicotômicos, na esteira<br />

da metafísica ocidental. Entre os principais representantes, estão o<br />

franco-argelino Jaques Derrida e os franceses Michel Foucault e Jean-<br />

François Lyotard, que balizaram a História do Ocidente.<br />

As metanarrativas, sistemas discursivos de legitimação, foram<br />

postas a serviço do Ocidente, desde a Grécia antiga, e impuseram<br />

a absolutização dos lugares enunciativos, em que o dissenso e a<br />

fragmentação tornaram-se banidos em nome da ordem e da exclusão.<br />

O relato mítico, a filosofia, e a literatura encerraram, a princípio,<br />

tal desiderato, como os grandes balizadores comportamentais a<br />

prescreverem e a encerrarem a melhor maneira de dar sentido ao<br />

mundo.<br />

Antes do início desta Aula VIII, você deverá ter lido:<br />

• o capítulo 3 de Teoria da Literatura: Uma Introdução de Terry Eagleton;<br />

• o capítulo 9, especificamente, as p. 190, p.191, p.192, p.193, p. 200 e p.205 de Teoria<br />

da Literatura “revisitada” de Maria Magaly Trindade Gonçalves e Zina. C. Bellodi;<br />

• capítulo 8 de Novo manual de teoria literária de Roger Samuel;<br />

• os capítulos 6 e 8 de A Condição Pós-moderna de Jean-François Lyotard;<br />

• os capítulos 4 e 11 de As Idéias Filosóficas Contemporâneas na França de Christian<br />

Descamps.<br />

*As referências das obras encontram-se no final da Aula VIII.<br />

Letras Vernáculas<br />

135<br />

ATENÇÃO<br />

8<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />

O pós-estruturalismo<br />

Os referidos relatos ancoraram-se em uma perspectiva<br />

monística, em que a hortodoxia constitui a pedra de toque a velar<br />

por sua manutenção e, mais do que tudo, para a sua naturalização.<br />

A esses se somaram outros, como os de cunho religioso judaico-<br />

cristãos, respaldados no judaísmo e no catolicismo; o Colonialismo/<br />

Imperialismo e as grandes ideologias, na esteira do Iluminismo francês,<br />

tanto de direita, quanto de esquerda. Subsidiários desses, podemos<br />

acrescentar ainda os paradigmas dicotômicos, que estabeleceram<br />

relações entre nações: centro/periferia; entre gêneros: homem/<br />

mulher; entre classes sociais: hegemônica/não-hegemônica e entre<br />

etnias: branco/negro. Se recorrermos ao discurso da ciência, por<br />

outro lado, no processo interpretativo da realidade sócio-histórica,<br />

veremos que, quase sempre, são discursos - amparados em uma<br />

racionalidade constitutiva -, que disfarçam arbitrariamente os cortes<br />

e são incapazes de redimensionar algumas escalas, legitimadas em<br />

valores perenes.<br />

2 PÓS-ESTRUTURALISMO<br />

Há muito que o radicalismo do Estruturalismo vinha sofrendo<br />

fortes restrições. Barthes em S/Z (1970), ao analisar o conto<br />

Sarrasine de Balzac, indaga-se sobre a possibilidade de o signo ser<br />

neutro, à luz da noção de Saussure, quando se refere ao código<br />

linguístico capaz de fazer representar o chamado real, de forma<br />

autônoma, isenta de qualquer interesse, na medida em que, para<br />

haver linguagem, é preciso que significante e significado se remetam<br />

de forma arbitrária. E, trazendo para a análise literária, a crítica é<br />

uma forma de metalinguagem, que trata o texto literário em uma<br />

estrutura delimitada; por outro lado, esse deve ser tratado enquanto<br />

escrita, isto é, em sua produtividade, e o leitor é chamado a fazer<br />

parte dessa estruturação em aberto. Barthes, assim, passa da obra<br />

ao texto e flagra a pretensão representativa da atitude natural da<br />

literatura chamada realista; para quem, em vez de se caracterizar o<br />

signo como natural, dever-se-ia vê-lo em sua intervenção sobre a<br />

realidade, pois, na literatura, não há originalidade, nem autor, uma vez<br />

que qualquer obra é produto da intertextualidade com outros escritos<br />

que a antecedem. Assim, a noção de representação é questionada<br />

e Terry Eagleton, em Teoria da Literatura: Uma Introdução (1997),<br />

tece comentários sobre a pretensão de a palavra ser a própria coisa,<br />

e não sua representação parcial, entre outras formas de interpretar<br />

o mundo.<br />

136 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

Na ideologia do realismo ou da representação, as palavras<br />

são tidas como ligadas aos pensamentos ou objetos que<br />

veiculam de maneira certa e incontroversa: a palavra<br />

torna-se a única maneira adequada de se ver tal objeto,<br />

ou de se expressar tal pensamento (EAGLETON, 1997, p.<br />

187).<br />

Tal pretensão, isto é, do signo como representação ou<br />

reflexo, neutro em sua nomeação, nega a sua própria condição de<br />

produtividade e, mais do que tudo, o fato de o mundo ser complexo<br />

e múltiplo.<br />

O Pós-Estruturalismo já estava sendo gestado, de certa sorte,<br />

no Estruturalismo, quando esse se voltou para a explicação do código<br />

linguístico, em seu funcionamento como linguagem.<br />

O termo pós-estruturalismo entrou em uso teórico-crítico<br />

em 1970, junto com pós-modernismo (Jean Baudrillard,<br />

Jean François Lyotard), pós-criticismo (Frederic Jameson)<br />

e desconstrução (Jacques Derrida).<br />

Pós-estruturalismo não é uma escola unificada de<br />

pensamento ou mesmo de movimento, mas o termo<br />

é muito usado no discurso da crítica. A maioria dos<br />

autores freqüentemente etiquetados pela palavra pós-<br />

estruturalismo (Jacques Derrida, Michel Foucault e Roland<br />

Barthes) raramente caracteriza seu trabalho como tal, e<br />

confessa não compartilhar nenhuma doutrina ou método<br />

único (SAMUEL, 2002, p. 125-126).<br />

O Pós-estruturalismo, como o próprio nome sugere, vai criticar<br />

o Estruturalismo, na medida em que esse é visto como tributário do<br />

modelo binário de ver o mundo, em pares dicotômicos, na esteira da<br />

metafísica ocidental.<br />

Em A escrita e a diferença (1967) e em Gramatologia (1973),<br />

Derrida lança as bases da teoria da desconstrução, ao tentar<br />

desconstruir o pensamento logofonocêntrico, isto é, amparado em<br />

monismos, como o conceito de verdade (logo) e da palavra viva<br />

(fono), calcado na metafísica, quando essa vincula a retórica à lógica<br />

e o estilo ao significado, como se esse estivesse imune aos efeitos da<br />

escrita. Para Derrida, a escrita não deve ser vista como uma sujeição<br />

servil à fala, em substituição a essa última, pois toda linguagem é<br />

metafórica e, tanto a filosofia, como o direito e a literatura constituem-<br />

se enquanto linguagens figuradas, e trabalham sempre para tornar a<br />

ambiguidade como injunção da verdade.<br />

Derrida cria o neologismo différance, a partir dos verbos de<br />

língua francesa différer e diférer, que, respectivamente, querem dizer<br />

Letras Vernáculas<br />

137<br />

8<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />

O pós-estruturalismo<br />

adiar, diferir e citar, deferir. La différance vem a ser a constituição<br />

mesma do signo, em sua condição vicária, isto é, em seu processo de<br />

significação, está sempre no lugar de algo. E Descamps, em As Idéias<br />

Filosóficas Contemporâneas na França (1991), elucida-nos como<br />

ocorre essa condição do signo, de certa sorte, precária:<br />

Os mecanismos de auto-afetação,de ‘diferança’, destroem<br />

a linha régia da presença em si. Deslocar as figuras da<br />

identidade, da origem, é desconstruir as oposições<br />

seculares entre natureza/cultura, presença/ausência,<br />

sujeito/objeto, inteligível/sensível. A tarefa é imensa já<br />

que esses rochedos não param de freqüentar os grandes<br />

textos (DESCAMPS, 1991, p. 111).<br />

O signo, assim, para justificar sua existência, precisa definir-<br />

se pelo que não é, pela sua ausência, ainda que simule a presença;<br />

por exemplo, o signo gato só se torna linguagem quando há a relação<br />

de significância estabelecida, a chamada dupla articulação, entre<br />

significante (cadeia fônica), composto por seus fonemas, e significado<br />

(evocação mental de um ser, cuja existência é encontradiça nos<br />

telhados das casas ou em seus porões). Portanto, /g/ /a/ /t/ /o/,<br />

enquanto significante, só existe porque se opõe, se diferencia, por<br />

exemplo, de /s/ /a/ /p/ /o/, que remete a um outro significado,<br />

que não o primeiro, sempre em um processo de adiamento da<br />

perfeita articulação entre significante e significado. Restando sempre<br />

um componente de significado, que não foi incluído, na pauta da<br />

metafísica ocidental, ao qual Derrida chama de suplemento, em<br />

outras palavras, não se encontra representado no código linguístico<br />

e, consequentemente, em todo o sistema de atribuição de sentido.<br />

A crítica desconstrucionista procura demonstrar como<br />

os textos podem ser abalados em seus sistemas lógicos<br />

dominantes e o faz assinalando os pontos somáticos – os<br />

aporia ou impasse de significado – onde a significação<br />

textual se torna vulnerável, perde coesão e se abre a<br />

contradições (PIRES, 1989, p.130).<br />

Logo, a desconstrução centra sua crítica aos monismos, que<br />

se opõem ao dialogismo, ao pluralismo, à diferença, quando incide<br />

suas análises em textos, visando evidenciar a vulnerabilidade de<br />

significação, que balizaram todos os centros excludentes dos pares<br />

dicotômicos ocidentais: centro/periferia, branco/negro, homem/<br />

mulher etc.<br />

Tais monismos encontram-se em qualquer área, em piadas,<br />

138 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

em novelas televisivas, em propagandas. Na literatura, tem um<br />

grande registro nas histórias da literatura. Na literatura brasileira, por<br />

exemplo, ocorre quando a figura do negro é colocada como subalterna<br />

ou da mulher sempre em um papel de dependência em relação ao<br />

homem, encerrando, em última instância, um preconceito velado,<br />

incapaz de problematizar o que já está instituído na sociedade.<br />

No poema, abaixo reproduzido, da poeta Adélia Prado (1991),<br />

encontramos um questionamento aos papéis pré-determinados.<br />

Através de pontos somáticos, de aporias ou impasses de significado,<br />

que não se sustentam, quando questionados, tornam-se passíveis de<br />

revisão:<br />

Enredo para um tema<br />

Ele me amava, mas não tinha dote<br />

só os cabelos pretíssimos e uma beleza<br />

de príncipe de estórias encantadas.<br />

Não tem importância, falou a meu pai,<br />

se é por isto, espere.<br />

Foi-se com um bandeira,<br />

E ajuntou ouro para me comprar três vezes.<br />

Na volta me achou casada com D. Cristóvão<br />

Estimo que sejam felizes, disse.<br />

O melhor do amor é sua memória, disse meu pai.<br />

Demoraste tanto, que... disse D. Cristóvão.<br />

Só eu não disse nada, nem antes, nem depois.<br />

Logo, o desconstrucionismo centra sua crítica aos monismos,<br />

que se opõem ao dialogismo, ao pluralismo, quando incide suas análises<br />

em textos, visando evidenciar a vulnerabilidade de significação. A<br />

questão das relações de gênero, calcadas no patriarcalismo legitima-<br />

se em um dos pares dicotômicos da tradição ocidental homem/mulher,<br />

em que o segundo par foi sempre visto como menor, destituído da<br />

razão, necessitando da intervenção do primeiro para existir. E Adélia<br />

Prado coloca, em sua poesia, esse silenciamento posto sobre a<br />

mulher - ela nunca fala - condicionada, que é, no caso, ao pai e ao<br />

pretendente escolhido pelo primeiro. Negando assim o livre arbítrio,<br />

pregado pelo racionalismo, para escolher o seu amor.<br />

O filósofo E. Husserl, do Romantismo alemão, foi quem usou<br />

pela primeira vez, na introdução de sua obra Origem da Geometria,<br />

traduzida, em 1968, para o francês, o termo desconstrução. É<br />

bom que se diga que desconstrução não significa destruição, mas<br />

a possibilidade de ler aquilo que o texto esconde em suas partes<br />

significativas, que, a primeira vista, pode passar despercebida.<br />

Letras Vernáculas<br />

139<br />

8<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />

O pós-estruturalismo<br />

Nesta perspectiva, o monismo está para a tradição, para<br />

aquela concepção de mundo que se opõe à multiplicidade da vida,<br />

de que os seres não são perenes mas mutáveis, negando, portanto,<br />

a pluralidade dos fenômenos, e se fecha ao diálogo, porque esse<br />

pode levar à discórdia, à não adesão ao que o outro diz. Por isso,<br />

o russo Mikhail Bakhtin, dissidente do Formalismo Russo, já<br />

havia detectado, em obras publicadas no início do século XX, como<br />

Problemas da poética de Dostoiévski (2005) e A cultura popular na<br />

Idade Média e no Renascimento. O Contexto de François Rabelais<br />

(2008), muito antes do Pós-Estruturalismo, que a linguagem, que o<br />

sentido atribuído aos fenômenos, não pode ser considerado fora de<br />

seu uso, sem o embate de visões ideológicas, rumo ao pluralismo,<br />

em síntese, ao pensamento democrático, que convive com variadas<br />

opiniões.<br />

Michel Foucault, grande conhecedor da filosofia de Nietzsche,<br />

questionou não a relação da verdade com as coisas, mas a forma<br />

como os discursos são instituídos como princípio de verdade, seja na<br />

medicina, seja na sociedade, em geral; chamando atenção para como<br />

os jogos de verdade e exclusão são engendrados, isto é, organizados<br />

socialmente.<br />

Decifrar a história das idéias não é tanto visar um<br />

estabelecimento do verdadeiro e sim perceber arranjos<br />

que articulam jogos de verdade e de exclusão, que<br />

estabelecem o tolerado e o intolerável (DESCAMPS, 1991,<br />

p.40).<br />

Logo, o que é tolerável é aquilo que foge às normas da exclusão,<br />

o que é aceito. Entre suas obras mais famosas, estão História da<br />

Loucura (2003), As palavras e as coisas (1999), A arqueologia do<br />

saber (1997) e Vigiar e Punir (1977) e todas elas, guardadas as<br />

temáticas de cada uma, encerram a concepção de que o cidadão<br />

encontra-se atravessado por discursos que o precedem. Ele apregoa,<br />

em última instância, a morte do sujeito cartesiano, aquele que se diz<br />

racional, fruto do seu livre arbítrio, uma vez que não somos autores<br />

dos nossos discursos, mas meros veículos para aqueles que estão<br />

legitimados por instâncias sociais.<br />

Para Foucault, o poder não se encontra em instâncias<br />

fechadas, isto é, em instituições, mas de forma difusa na estrutura<br />

social. Roberto Machado estudioso da teoria foucaultiana, adverte,<br />

em Ciência e Saber: A trajetória da Arqueologia de Foucault (1981).<br />

140 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

O Estado não é o ponto de partida necessário, o foco<br />

absoluto que estaria na origem de todo tipo de poder<br />

social e de que também se deveria partir para explicar<br />

a constituição dos saberes nas sociedades capitalistas<br />

(MACHADO, 1981, p.190).<br />

Alerta-nos, entretanto, que o poder do Estado instituído em<br />

uma sociedade também exerce sua coerção, entre os cidadãos, entre<br />

outras microfísicas, isto é, aquilo que não é percebido, mas que coage<br />

para a manutenção de uma verdade.<br />

Então, as regras de sujeição disciplinar vão determinar as<br />

fronteiras do permitido e do não permitido, porque se embasam<br />

em pares que se opõem: alto/baixo, claro/escuro, natureza/cultura,<br />

homem/mulher, centro/periferia. Em Vigiar e Punir, Foucault vai nos<br />

dizer que as disciplinas atravessam o corpo social e a realidade mais<br />

concreta do ser humano – o próprio corpo – como uma rede, sem que<br />

suas fronteiras sejam delimitadas, através de: Métodos que permitem<br />

o controle minucioso das operações do corpo, que asseguram a<br />

sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de<br />

docilidade-utilidade (FOUCAULT, 1977, p.139).<br />

Jean-François Lyotard, outro pós-estruturalista francês,<br />

escreve, no final da década de 70 do século passado, A condição<br />

Pós-moderna (1988), em que elenca as metanarrativas, isto é, as<br />

narrativas que respaldaram crenças e comportamentos da tradição do<br />

mundo ocidental, essas sempre numa perspectiva de totalidade, seja<br />

de cunho religioso, seja político-ideológico, que, a partir da década de<br />

50, após a Segunda Guerra Mundial, começaram a ser questionadas.<br />

A crítica feita por Lyotard ao continuísmo historicista pretende colocar<br />

por terra toda uma hegemonia que legitimou o próprio conceito de<br />

razão, vindo desde a Antiguidade Clássica, presa ao mundo das<br />

Ideias, à tradição socrático-platônica e às religiões judaico-cristãs,<br />

que, para se manterem, colocaram o mundo sempre balizado em<br />

pares dicotômicos, cujo segundo elemento da díade é sempre visto<br />

em posição de falta, de demérito. Justificando, dessa forma, o avanço<br />

sobre continentes, o imperialismo europeu e, ao mesmo tempo, o seu<br />

sistema patriarcal corrente.<br />

Vejamos como o pós-estruturalismo incide sua crítica nos<br />

valores ocidentais tidos como sagrados e plenos de verdade. Por<br />

exemplo, em uma leitura próxima do que faziam os formalistas e<br />

os estruturalistas, fragmentos do canto I, abaixo reproduzidos de<br />

Os Lusíadas (2002) do poeta português Luís de Camões, podem ser<br />

analisados do ponto de vista da cadeia fônica: rimas, assonâncias,<br />

ecos, versos decassílabos, em rimas cruzadas e emparelhadas,<br />

Letras Vernáculas<br />

141<br />

8<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />

conforme o esquema ABABABCCC.<br />

Os portugueses encerram a positividade:<br />

Alcançaram mares nunca dantes<br />

navegados;<br />

Passaram além da Trapobana;<br />

São guerreiros com superioridade aos<br />

humanos;<br />

Entre gente remota edificaram/Novo<br />

Reino;<br />

Têm memórias gloriosas do Reino<br />

português;<br />

Dilataram a Fé;<br />

Como são heróis, têm condições de se<br />

libertarem da lei da Morte;<br />

Suas obras são valorosas;<br />

O eu poético, como é o porta-voz da<br />

nação lusa, tem engenho (inteligência)<br />

e arte (domina seus versos, sabe<br />

escrever a sua literatura).<br />

O pós-estruturalismo<br />

Em relação ao conteúdo, os versos se estruturam em uma<br />

rede de significação, que remete a uma série de predicações, sempre<br />

alusivas à qualificação positivada do feito luso, por esse povo ter<br />

contornado a África e chegado às Índias, com o objetivo primeiro de<br />

expandir a fé cristã e levar aos colonizados a chamada civilização.<br />

X<br />

As armas e os Barões assinalados<br />

Que, da Ocidental praia Lusitana,<br />

Por mares nunca dantes navegados<br />

Passaram ainda além da Trapobana,<br />

Em perigos e guerras esforçados<br />

Mais do que prometia a força humana,<br />

E entre gente remota edificaram:<br />

E também as memórias gloriosas<br />

Daqueles Reinos que forma dilatando<br />

A Fé, o império e as terras viciosas<br />

De África e de Ásia andaram devastando.<br />

E aqueles que por obras valorosas<br />

Se vão da lei da Morte libertando:<br />

( Luís de Camões)<br />

Os habitantes da África e da Ásia encerram<br />

a negatividade:<br />

Habitam terras viciosas (cheias de<br />

vícios).<br />

142 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

Caso se opte por uma análise mais de cunho conceitual,<br />

isto é, do ponto de vista do conteúdo, à luz das leituras, que se<br />

propuseram a rever o racionalismo ocidental, como, por exemplo,<br />

o pós-estruturalismo, os estudos culturais ou o pós-colonialismo,<br />

teremos muito a dizer. A colonização de povos ditos primitivos há<br />

algum tempo vem sendo revista, a partir de acontecimentos que<br />

marcaram o mundo ocidental, como, as duas grandes guerras do<br />

século XX; a invasão das tropas soviéticas na Hungria, em 1956,<br />

e a denúncia de atrocidades cometidas contra a população local;<br />

a descolonização de domínios europeus em outros continentes;<br />

a entrada dos filhos do operariado em Universidades Abertas, na<br />

Europa, nos anos 50 do século passado; o movimento estudantil de<br />

1968, em Paris, com o apoio das feministas. Tais fatos constituem<br />

elementos desencadeadores do que veio depois em termos de crítica.<br />

A crítica, seja ao status quo, seja ao texto literário, requer,<br />

mais do que um empreendimento, uma postura política, de quem<br />

a faz, em forma de agência, em performace insidiosa. As teorias<br />

críticas então ganham uma dimensão muito mais ampla, na medida<br />

em que o teórico não pode mais se eximir do mundo e, nesta linha<br />

de ação, estão os estudos culturais, o pós-colonialismo e a crítica<br />

feminista, com forte vínculo com o pós-estruturalismo. Por isso que<br />

Derrida atribui à metafísica qualquer sistema que dependa de base<br />

inatacável, de um princípio primeiro de fundamentos inquestionáveis,<br />

sobre o qual se pode construir toda uma hierarquia de significações<br />

(EAGLETON, 1997, p.182).<br />

Portanto, as metanarrativas - sistemas discursivos de<br />

legitimação balizadores comportamentais a prescreverem e a<br />

encerrarem a melhor maneira de dar sentido ao mundo - foram<br />

postas a serviço do Ocidente, desde a Grécia antiga, e impuseram<br />

a absolutização dos lugares enunciativos, isto é, a dissolução de<br />

conflitos, para que o dissenso e a fragmentação se tornassem banidos<br />

em nome da ordem e da exclusão.<br />

Veja mais sobre as teorias pós-estruturalistas em:<br />

Letras Vernáculas<br />

PARA CONHECER<br />

• http://revistacult.uol.com.br/website/dossie.asp?edtCode=A0CEA9A1-CE22-4AC5-AB1B-<br />

A9D302E460AB&nwsCode=9B76170A-0C06-44C7-8A53-D71166EA8B33<br />

• http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/M/micronarrativa.htm<br />

143<br />

8<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />

ATIVIDADE<br />

R E F E R Ê N C I A S<br />

O pós-estruturalismo<br />

1. Qual a crítica feita pelo Pós-estruturalismo ao Estruturalismo?<br />

2. É possível vincular o Pós-estruturalismo ao Pós-modernismo, ao Pós-criticismo e à<br />

desconstrução e quais os seus representantes?<br />

3. Derrida critica o pensamento logofonocêntrico. O que ele quer dizer com isso?<br />

4. Se a relação entre significante e significado, como fala Saussure, é sempre arbitrária,<br />

como entender a noção de suplemento usada por Derrida?<br />

5. O monismo se opõe ao dialogismo, ao pluralismo. Dê exemplos de como ocorre um<br />

e outro, em obras literárias ou em outras produções de cultura, como em textos de<br />

propagandas.<br />

6. Faça uma pesquisa em ditados populares, que trazem em seus conteúdos os<br />

impasses de significados de que fala Derrida.<br />

RESUMINDO<br />

Estudamos, nesta Aula VIII, o Pós-estruturalismo, que, em seus<br />

princípios epistemológicos, reveem todo o aparato do edifício ideológico<br />

da tradição ocidental; estruturado em pares dicotômicos, cujo elemento<br />

participante do primeiro deles é sempre o balizador de ver o mundo, enquanto<br />

o segundo encontra-se representado a partir daquele.<br />

CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. Lisboa: Rei dos Livros, 2002.<br />

BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoiévski. Tradução<br />

de Paulo Bezerra. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005.<br />

BAKHTIN, Mikhail. A Cultura Popular na Idade Média e no<br />

Renascimento: o contexto de François Rabelais. Tradução de Yara<br />

Frateschi Vieira. São Paulo/ Hucitec/Editora Universidade de Brasília,<br />

2008.<br />

BARTHES, Roland. S/Z. Tradução de Maria de Santa Cruz; Ana Mafalda<br />

Leite. Lisboa: Edições 70, 1970.<br />

DERRIDA, Jacques. L’écriture et la différence. Paris: Seuil, 1967.<br />

DERRIDA, Jacques. Gramatologia. Tradução de Miriam Schnaiderman<br />

e Renato Janine Ribeiro. São Paulo: Perspectiva, 1973.<br />

DESCAMPS, Christian. As Idéias Filosóficas Contemporâneas na<br />

144 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

França. Tradução de Arnaldo Marques. Rio de Janeiro: Jorge Zahar<br />

Editor, 1991.<br />

EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: Uma Introdução. Tradução<br />

de Walter Dutra. São Paulo: Martins Fontes, 1997.<br />

FOUCAULT, Michel. A Arqueologia do Saber. Tradução de Luis Felipe<br />

Baeta Neves. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997.<br />

FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas. Tradução de Salma<br />

Tannus Muchail. São. Paulo: Martins Fontes, 1999.<br />

FOUCAULT, Michel. História da loucura. Tradução de José Teixeira<br />

Coelho. São Paulo: Perspectiva, 2003.<br />

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Tradução de Lygia M. Pondé<br />

Vassalo. Petrópolis: Vozes, 1977.<br />

GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina. C. Teoria da<br />

Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.<br />

HUISMAN, Denis. Dicionário de Obras Filosóficas. São Paulo:<br />

Martins Fontes, 2000.<br />

LYOTARD, Jean-François. A Condição Pós-moderna. Tradução de<br />

José Bragança de Miranda. Lisboa: Gradiva, 1988.<br />

MACHADO, Roberto. Ciência e Saber: a trajetória da arqueologia de<br />

Michel Foucault. Rio de Janeiro: Graal, 1991.<br />

PIRES, Orlando. Manual de Teoria e Técnica Literária. Rio de<br />

Janeiro: Presença, 1989.<br />

PRADO, Adélia. Poesia reunida. São Paulo: Siciliano,1991.<br />

SAMUEL, Roger. Novo manual de teoria literária. Petrópolis:<br />

Vozes, 2002.<br />

LEITURA RECOMENDADA<br />

Letras Vernáculas<br />

R E F E R Ê N C I A S<br />

DESCAMPS, Christian. As Idéias Filosóficas Contemporâneas na França. Tradução de Arnaldo Marques. Rio de<br />

Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1991.<br />

EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: Uma Introdução. Tradução de Walter Dutra. São Paulo: Martins Fontes, 1997.<br />

GONÇALVES, Maria Magaly Trindade; BELLODI, Zina. C. Teoria da Literatura “revisitada”. Petrópolis: Vozes, 2005.<br />

LYOTARD, Jean-François. A Condição Pós-moderna. Tradução de José Bragança de Miranda. Lisboa: Gradiva, 1988.<br />

SAMUEL, Roger. Novo manual de teoria literária. Petrópolis: Vozes, 2002<br />

145<br />

8<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />

O pós-estruturalismo<br />

Anexo<br />

Derrida: Jacques Derrida nasceu em El-Biar, Argélia, em 15 de julho de<br />

1930. Os anos de infância e de adolescência foram passados numa Argélia<br />

marcada pela colonização e pela guerra. Em 1949, mudou-se para Paris<br />

e ingressou no curso preparatório para a École normale supérieure, sendo<br />

admitido ali três anos mais tarde. Completou seus estudos superiores com a<br />

dissertação O problema da gênese na filosofia de Husserl. Em 1956, é aceito,<br />

na agrégation e recebe uma bolsa de special auditor para a Universidade<br />

de Havard, em Cambridge, para consultar ali microfilmes dos inéditos de<br />

Husserl, de quem começa a traduzir L’ Origine de la geométrie. Em junho<br />

de 1957, casa-se com Marguerite Aucouturier, com quem terá dois filhos:<br />

Pierre, em 1963, e Jean, em 1967. Publica, em 1967, seus três primeiros<br />

livros: Gramatologia, A Escritura e a Diferença e A Voz e o Fenômeno. A<br />

partir de então, se avolumam as publicações e sua atuação como professor<br />

palestrante se estende a várias universidades na Europa e fora dela. A partir<br />

de 1975, nos Estados Unidos, depois de ter dado seminário na Universidade<br />

Johns Hopkins, passa a ensinar, algumas semanas por ano, em Yale, junto<br />

com Paul de Man e Hillis Miller. Intensifica-se, nessa época, sua relação com<br />

os Estados Unidos, quando grande parte de sua obra começa a ser traduzida<br />

ali. Jacques Derrida esteve no Brasil por duas ocasiões. Em 1995, num evento<br />

organizado pela USP e PUC-SP, o Professor profere, no grande auditório do<br />

MASP, a palestra História da Mentira: prolegômenos, cuja tradução foi feita<br />

por Jean Briant e publicada em Estudos Avançados 10 (27), pela Edusp<br />

em 1996. Em junho de 2001, participou junto com René Major, no Rio de<br />

Janeiro, dos Estados Gerais da Psicanálise. Os principais temas discutidos<br />

foram: 1. Derrida e a Psicanálise; 2. Hospitalidade e Amizade; 3. Crueldade<br />

e Soberania; 4. O Futuro do Homem Face à Tecnologia. Faleceu, em Paris, 8<br />

de outubro de 2004.<br />

Fonte: http://www.unicamp.br/iel/traduzirderrida/biografia.htm<br />

Ilustração - Fonte: http://www.religion.ucsb.edu/projects/irreconcilabledifferences/Derrida.jpg<br />

Husserl: Edmund Husserl (1859-1938), filósofo alemão fundador da<br />

Fenomenologia, um método para a descrição e análise da consciência,<br />

através do qual a filosofia tenta alcançar uma condição estritamente<br />

científica. Para ele, a base filosófica para a lógica e a matemática precisa<br />

começar com uma análise da experiência que está antes de todo pensamento<br />

formal. Isto o obrigou a um intenso estudo dos empiristas ingleses John<br />

Locke, George Berkeley, David Hume, e John Stuart Mill, e a familiarizar-se<br />

com a terminologia da lógica e da semântica derivadas daquela tradição,<br />

especialmente, a lógica de Mill. Husserl é autor de Investigações Lógicas<br />

(1900-1901), Filosofia como ciência rigorosa (1911), Idéias para uma<br />

Fenomenologia e uma Filosofia Fenomenológica Puras (1913), Lições para<br />

uma Fenomenologia da Consciência Interna do Tempo (1928). Lógica Formal<br />

e Lógica Transcendental (1929) e Meditações Cartesianas e Conferências de<br />

Paris (1931).<br />

Fonte: HUISMAN, 2000, p. 125, p.147, p.183, p. 319, p.320 e p. 540.<br />

Ilustração - Fonte: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/8f/Edmund_Husserl_1900.jpg<br />

146 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


UESC<br />

Bakhtin: Mikhail Mikhailovich Bakhtin (1895 - 1975) nasceu em Orel, ao<br />

sul de Moscou, mas cresceu entre Vínius e Odessa, cidades fronteiriças<br />

com grande variedade de línguas e culturas. Mais tarde, estudou Filosofia e<br />

Letras na Universidade de São Petersburgo, abordando em profundidade a<br />

formação em filosofia alemã. Dedicou a vida à definição de noções, conceitos<br />

e categorias de análise da linguagem com base em discursos cotidianos,<br />

artísticos, filosóficos, científicos e institucionais. Em sua trajetória, notável<br />

pelo volume de textos, ensaios e livros redigidos, esse filósofo russo não<br />

esteve sozinho. Foi um dos mais destacados pensadores de uma rede de<br />

profissionais preocupados com as formas de estudar linguagem, literatura<br />

e arte, que incluía o linguista Valentin Voloshinov (1895-1936) e o teórico<br />

literário Pavel Medvedev (1891-1938). Um dos aspectos mais inovadores da<br />

produção do Círculo de Bakhtin, como ficou conhecido o grupo, foi enxergar<br />

a linguagem como um constante processo de interação mediado pelo diálogo<br />

e não apenas como um sistema autônomo, como via a linguistica estrutural.<br />

Fonte: revistaescola.abril.com.br/.../filosofo-dialogo-487608.shtm/<br />

Ilustração - Fonte: http://linguisticadeldiscurso.blogspot.com/<br />

Foucault: Michel Foucault (1926- 1984) foi professor de História dos<br />

Sistemas de Pensamento no Collège de France de 1970 a 1984. Autor das<br />

seguintes obras, nas quais analisa a construção da verdade – os biopoderes<br />

e as disciplinas - para o Ocidente: História da Loucura (1961), As Palavras e<br />

as coisas, uma arqueologia das ciências humanas (1966), A Arqueologia do<br />

saber (1969), Vigiar e Punir (1975) e História de sexualidade (1976).<br />

Fonte: HUISMAN, 2000, p.16, p. 270, p. 271, p.422, p. 568.<br />

Ilustração - Fonte: http://www.phillwebb.net/History/TwentiethCentury/continental/%28Post%29Structuralisms/<br />

Foucauldian/Foucault/Foucault.htm<br />

Nietzsche: Friedrich Wilhelm Nietzsche, filósofo alemão (1844 - 1900), que<br />

teceu duras críticas à modernidade, por isso se justifica sua influência entre<br />

os pós-estruturalistas. Para Nietzsche, a verdade se tornou uma multidão<br />

de metáforas e metonímias, ou seja, relações humanas. Mas elas parecem<br />

objetivas e incriadas. O homem só conhece o efeito das leis da natureza,<br />

e não elas mesmas. A atividade do conhecer é um meio de se atingir a<br />

potência. Para se contrapor à ilusão em que vivemos, devemos desenvolver<br />

uma força artística. O mundo que percebemos é uma obra de arte dos sentidos<br />

e do intelecto da concepção de conhecimento deriva a noção kantiana do<br />

conhecimento com atividade constituinte e legisladora. Nietzsche é contra a<br />

humanização do mundo. Entre suas obras, estão: Nascimento da tragédia<br />

(1872), Humano, Demasiado Humano (1878-1886), Assim falava Zaratustra<br />

(1813-1815), Gaia Ciência (1883-1887), Além do bem e do mal (1886),<br />

Genealogia da moral (1887), Vontade de Poder (1901) e Ecce homo (1908).<br />

Fonte: http://www.mundodosfilosofos.com.br/nietzsche.htm<br />

Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Nietzsche187c.jpg<br />

Letras Vernáculas<br />

147<br />

8<br />

Aula


Introdução aos estudos literários II: literatura, correntes teórico-críticas<br />

O pós-estruturalismo<br />

Lyotard: Jean-François Lyotard (1924 -1998) foi um filósofo dos mais<br />

importantes filósofo francês que pensou a sobre a pós-modernidade.<br />

Lecionou filosofia no ensino secundário, na Argélia, e no superior, como na<br />

Universidade de Sorbonne, de Nanterre e de Vincennes, por mais de trinta<br />

anos. Recebeu o título de professor agregado em filosofia, em 1958, e o título<br />

de doutor em Letras, em 1971. Dedicou-se durante longos anos a trabalhos<br />

teóricos e práticos no grupo “Socialismo ou Barbárie” e em Pouvoir ouvrier.<br />

Em 1979, deu <strong>aula</strong>s na Universidade de São Paulo. Foi membro do Collège<br />

International de Philosophie, professor emérito da Universidade de Paris,<br />

professor de francês na Universidade da Califórnia (Irvine). Mudou-se para a<br />

Emory University, Atlanta,Estados Unidos, em 1995, onde lecionou francês<br />

e filosofia. É autor de: Economia Libidinal (1974), A condição Pós-moderna<br />

(1979) e O Litígio (1983).<br />

Fonte:http://www.estacaoliberdade.com.br/autores/lyotard.htm<br />

Ilustração - Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Jean-Francois_Lyotard_cropped.jpg<br />

148 Módulo 3 I Volume 2 <strong>EAD</strong>


Suas anotações<br />

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