^r^história S - Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro

cpvsp.org.br

^r^história S - Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro

29/03/82

ANO II

NUMERO

^fomia

«O

if \

***:*&.

^ à

^r^história S

oaKtnw ^


SIWPICAUSMO

METALÚRGICOS REJEITAM PROPOSTA DA FIESP

E QUEREM NOVAS NEGOCIAÇÕES

Cerca de cinco mil metalúrgicos, reuni-

dos ontem em assembléia no estádio Pri-

meiro de Maio, em Vila Eudides, Saio Ber-

nardo do Campo, rejeitaram por esmaga-

dora maioria, 10 dos 30 itens do "pacote"

de contrapropostas apresentado quinta-

feira pelo Grupo 14 da Federação das

Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp)

a sete sindicatos da categoria (São Ber-

nardo e Diadema, São José dos Campos,

Itu, Ribeirão Preto, Santa Bárbara D 1 Oes-

te, São Caetano e Santo André) e demais

sindicatos do Interior, encabeçados pela

Federação dos Metalúrgicos. Os me-

talúrgicos aprovaram a proposta apresen-

tada a assembléia pela diretoria do Sindi-

cato de São Bernardo e Diadema, liderado

por Jair Meneguelli, de rejeição de 10 itens

do "pacote" da Fiesp, sendo que os três

principais deles são o índice de produtivi-

dade (5% para quem ganha até três

salários mínimos; 2,8% para os que estão

na faixa entre três a dez mínimos e o rea-

juste do INPC de 39,3% para quem ganha

acima de 10 mínimos), os critérios para

pagamento das horas entras e também os

critérios para demissão. Entre os 20 itens

aceitos, o principal deles é o piso salarial

de Cr$ 25.680,00, embora o pedido inicial da

categoria fosse de 41 mil cruzeiros.

O Sindicato dos Metalúrgicos de São

Bernardo e Diadema, representando cerca

de 105 mil trabalhadores metalúrgicos, in-

sistirá esta semana na reabertura de nego-

ciações com a Fiesp, quando pretende

apresentar 18 itens fixados pela diretoria e

cujos pontos principais são os seguintes:

produtividade de 15% para toda a catego-

ria ; estabilidade até 31 de março do próxi-

mo ano para os atuais empregados e para

os admitidos durante a vigência da con-

venção coletiva de trabalho; constituição

em cada empresa de uma Comissão de

Fábrica como órgão de representação sin-

dical dos trabalhadores; r/ajuste trimes-

tral; salário profissional; horas extras

(25% de acréscimo quando prestadas de

pegunda a sexta-feira, 35% quando presta-

das sábados e domingos e 100% quando

prestadas nos domingos e feriados); aviso

prévio escalonado e férias em dobro.

: A proposta da Fiesp sobre horas extras e

critérios de demissão e que. foi rejeitada é

a seguinte: acréscimo de 25% de hora ex-

tra trabalhada de segunda a sexta-feira

até 30 horas semanais; 50% de acréscimo

quando exceder 30 horas extras mensais e

35% quando trabalhadas aos. sábados e do-

mingos. As empresas limitarão a rotativi-

dade mensal da mão-de-obra a 2,5% em

fábricas na faixa de 100 a 200 trabalhado-

res; 2% ao mês na faixa de 200 a 1.000 tra-

balhadores e 1,5% acima de mil trabalha-

dores. Em caso de necessidade de demis-

sões acima desses índices, aplica-se o se-

guinte critério: demissão para aqueles que

desejarem; dispensa dos aposentados ou

que estão próximos a aposentadoria sem

prejuízo desta e finalmente, aos trabalha-

dores com menos tempo de casa. Aqueles

que forem atingidos pela demissão recebe-

rão, além dos direitos fixados em lei, mais

um salário e 15% a mais por ano de traba-

lho, sendo que este último critério somente

se aplicara àqueles que têm mais de três

anos de casa.

O "pacote" apresentado pela Fiesp não

fez qualquer referência às comissões de

fábrica e reajuste trimestral, dois pontos

em que o Sindicato insiste em discutir. Os

de mais itens apresentados e aceitos apre-

sentam poucas novidades em relação aos

contratos coletivos de trabalho dos anos

anteriores. Jair Meneguelli, ao referir-se a

esses pontos, aceitos pela assembléia, afir-

mou que "eles não vão mudar o destino da

classe trabalhadora".

POUCASCHANCES

A assembléia que rejeitou o "pacote" da

Fiesp decidiu ainda marcar para a próxi-

ma sexta-feira, na sede do sindicato, às 19

horas, uma reunião de toda a categoria pa-

ra voltar a discutir a campanha salarial.

No sábado, às 10 horas da manhã, no mes-

mo local, será feita uma segunda reunião

para discutir a mesma questão. Jair Me-

neguelli, ao insistir na necessidade de ne-

gociações, afirmou qué elas na realidade

não ocorreram, sendo "errôneo afirmar

que os empresários negociaram, uma vez

que eles sequer chegaram a considerar a

pauta de proposta apresentada pelo Sindi-

cato" e que continha 43 itens.

"Daremos mais esse prazo para os pa-

trões considerarem nossas propostas e en-

quanto isso nós vamos nos organizando nos

oairros, nas Igrejas e nos locais de traba-

lho", afirmou o presidente dos metalúrgi-

cos de São Bernardo e Diadema. Contudo,

as chances de negociações parecem remo-

tas, uma vez que quinta-feira a Fiesp afir-

mou que "essa é a última palavra" dos

empresários. O empresário Walter Sacca

afirmou que "agora, a gente só vai voltar a

negociações para o acordo de 1983".

As chances de ser deflagrada uma greve

geral da categoria parecem igualmente

remotas e os diretores do Sindicato afir-

mam que a organização do trabalhador de-

ve ser na fábrica, nos locais de trabalho.

"Se os patrões não derem um bom aumen-

to e se o Tribunal tomar a mesma decisão,

não der um bom aumento, vamos organi-

zar a categoria para a luta nas fábricas",

afirmou Osvaldo Bargas, secretário do

Sindicato.

Diante da recusa da assembléia em acei-

tar a proposta de reajuste, a Fiesp deverá

encaminhar a questão para dissídio coleti-

vo, na Justiça do Trabalho. Segundo análi-

ses feitas pelos diretores do Sindicato, no

dissídio, se mantidas as últimas decisões

em torno de 4% de produtividade em fai-

xas salariais de 3 a 10 salários, isso pode

ajudar um pouco a categoria, uma vez que

a principal parcela se encontra nesta fai-

xa. Mas os diretores temem que a decisão

judicial prejudique a categoria em relação

ao piso.

"GOZAÇÕES"

Jair Meneguelli insistiu no fato de que a

seu ver não houve negociações entre em-

pregados e patrões, mas sim um "pacote"

ae cima para baixo. "Presenciamos uma

farsa de negociação. Não houve negocia-

ção, embora nossa pauta apresentasse 43

itens. Nas conversas que tivemos «!Íes (os

empresários) queriam informações deta-

lhadas. Nós tivemos que nos submeter a

gozações e no último dia 25 nos foi apresen-

tado o "pacote" com o sentido de que ou

pega ou larga, como se a ciasse trabalha-

dora fosse composta de animais", afirmou

Meneguelli. Disse ainda que "só agora, de-

pois do í>acote é que deveríamos começar

as negociações verdadeiras".

Meneguelli disse ainda que "se eles não

aceitam nossas propostas, nós não aceita-

mos as deles..Em negociações é preciso

ter mobilidade. Enquanto isso, continuare-

mos a organizar os trabalhadores e não te-

mos pressa em fazer a greve". A respeito

do pouco comparecímento à assembléia, o

presidente do Sindicato afirmou não se

preocupar "porque os que aqui vieram são

os mais conscientes e se encarregarão de

transmitir as decisões aos seus colegas de

trabalho, na segunda-feira".

FOLHA DE S. PAULO

29/3/82

O advogado do Sindicato, Almir Pazia-

noto afirmou por sua vez, que insistiu com

os empresários na questão da representa-

ção, uma vez que nas conversações do ano

passado a Fiesp havia rejeitado o pedido

nesse sentido afirmando que estava estu-

dando um modelo único de representação

e que seria negociado com todas as catego-

rias de trabalhadores. "Ao fazermos a co-

brança este ano, os empresários disseram

que o estudo realmente havia sido feito

mas que não foi aprovado por todos os di-

retores da Fiesp e que nesse caso ele foi ar-

quivado", disse Pazianoto.

LULA

Luis Inácio da Silva, Lula, ex-presidente

do Sindicato dos Metalúrgicos de São Ber-

nardo e Diadema e presidente nacional do

Partido dos Trabalhadores (PT), compa-

receu á assembléia no estádio Primeiro de

Maio e lamentou o pouco comparecímento

de metalúrgicos. Lula afirmou que "o pa-

pel de vocês que vieram aqui é na segunda-

feira chagar às fábricas e darem um pu-

xão de orelha nos companheiros que não

vieram aqui, porque agora não é hora de

baixar a cabeça".

Lula apoiou a decisão da diretoria do

Sindicato de São Bernardo e Diadema em

rejeitar o índice oferecido pelos em-

presários e disse: "Não existe saída para a

classe trabalhadora se ela ficar de cabeça

baixa."

£55E ftflD 0£ 0E5f MPREGO

á Co!2*» D« 0P0SW •

\

u,..


SlHVlVAÚSmO

JOÃO FERRADOR ARREPACA AS HANGAS

ET TEMPO 25/3/82

No dia 28 de março no estádio de Vila Euciides. a assembléia dos

metalúrgicos de São Bernardo do Campo define um marco decisivo para

a campanha de 500 mil operários do estado. E toda a classe

trabalhadora do pafs está de olho no ABC.

Por R«gi* MoraM

As principais reivindicações dos

metalúrgicos são as seguintes:

estabilidade no emprego; rea-

juste e aumento de salário trimestrais;

representação sindical dentro das empre-

sas: piso salarial (41 mil); salário profis-

sional; redução da jornada de trabalho

sem redução de salários. Além disso, há

uma pauta de reivindicações dirigida ao

governo, baseada, fundamentalmente

nos pontos definidos pela CONCLAT.

Desde o inicio da campanha, voltou a

ocorrer â separação entre o ABC e a

Federação-(estadual) dos metalúrgicos.

>ó que. desta vez. são sete os sindicatos

fora do "acórdão": S. Bernardo. S.

André, S. Caetano. Itú. St. Bárbara do

Oeste, S. José dos Campos. Ribeirão

Preto. O fato é apontado por alguns pele-

gos e seus aliados reformistas como uma

divisão provocada por^uns poucos sindi-

catos",

O que no entanto esses especialistas de

ilusionismo sindicai escondem é que "os

poucos sindicatos" reúnem 350 mil dos

500 mil que estão em campanha. Quem

divide? Mas não é só aí que se mostra a

dura tarefa dos pelegos e seus aliados, na

tentativa de manter a ciasse trabalhadora

desunida. A prática do ABC, e que se

espalhou para outros centros, é a de

reunir, organizar os operários para a luta.-

E a dos sindicatos que ficaram com a

Federação? Esforçaram-se para fazer as

assembléias aprovarem uma resolução na

qua! os operários atribuíam à direção do

sindicato e da Federação o direito de

negociar o acordo e assiná-lo. Quem

divide a classe trabalhadora?

Aprendizagem

Os operários de S. Bernardo costu-

mam dizer que. a cada ario, estão desco-

brindo uma forma diferente de-luta. Em

1978, as greves dos "braços cruzados":

entrar na fábrica, desligar as máquinas,

assembléia no refeitório ou no pátio da

empresa, negociação direta. Em 1979,

greve geral da categoria, decretada em

assembléia no estádio de Vila Eucíides.

assembléias diárias no estádio, ningiftm

vai às fábricas, a não ser para os piquetes

de persuasão. Em 1980: aprendendo com

a repressão do ano anterior, organização

de retmiões por fábrica e bairro, forma-

ção de um comafido de greve amplo,

descentralizando as decisões de uma dire-

toria sindicai exposta diretamente à pri-

são. Em 1981. como diz a diretoria, "acei-

tamos o acordo numa boa e-não ganha-

mos nada, só perdemos".

Os operários de São Bernardo não

estão desmoralizados nem esmorecidos.

Procuram, isso sim, descobrir a forma de

luta conveniente para 1982. Uma grande

quantidade de "gente nova", que parti-

cipou anonimamente das greves anterio-

res, aprendeu, com essas lutas, a *1azer

sindicalismo". São esses os ativistas e o

termômetro da briga.

De qualquer modo, algumas pistas

começam a aparecer. Nos últimos oito

meses, cerca de 25 mobilizações foram

registradas na categoria, sendo que delas,

15 foram greves por fábrica. Os motivos

foram: políticos (contra a condenação de

Lula e seus companheiros), solidariedade

(contra as demissões e, no caso da Volks.

greve de um dia, em protesto contra a

morte de um operário) e porcondições

específicas de trabalho e salário.

Nessas lutas, juntam-se duas formas de

ação: a "espontânea" (m^ilização inde-

pendente da diretoria, ainda que resul-

tado de sua propaganda, da aprendiza-

gem anterior etc) e a organizada. Isto é,

aquela em que o diretor de base acompa-

nhou e orientou diretamente alguns

passos da luta. Essas formas de ação e os

motivos de greve têm mostrado a possi-

bilidade de juntar as lutas específicas e

formas de organização na fábrica, com a

campanha salarial, as lutas mais gerais, e

a questão da organização do operário

num ftível mais amplo, o do sindicato, o

inter-sindical e assim pordiante. Isso apa-

rece nitidamente no material impresso do

sindicato, onde freqüentemente uma luta

local é relacionada com a situação e pers-

pectivas mais gerais da classe trabalha-

dora brasileira.

Sindicalismo político

Talvez por esse motivo, se tem dito que

o "sindicalismo de São Bernardo c polí-

tico". Isso não é apenas papo de ministro

do Trabalho, f; conversa também de

muitos sindicalistas conciliadores, que

pretendem com isso "queimar" a "gera-

ção lulista". Na verdade, o sindicalismo

autentico é político, sim. em vários senti-

dos. Ele é político, por exemplo, na me-

dida em que aponta, dentro dos enormes

limites da estrutura sindical existente, um

modelo de organização, de trabalho de

base. Ele é político também na medida em

que funciona como uma verdadeira

cunha dentro do movimento sindical do

país, empurrando-o para diante, apoian-

do articulações anti-pelegas e assim por

diante. E é político também na medida

em que não deixa de ostrar à sua base o

caráter do governo que dirige o país.

As reivindicações mais sentidas e mais

imediatas da classe trabalhadora cm

nosso pais — salário, emprego, liberdade

— se transformam, quase que imediata-

mente, numa questãode segurança nacio-

nal, e não é por simples "tara repressiva"

dos generais. É que elas acabam exigindo

uma discussão de toda a política econô-

mica do governo. Nisso, ao que parece, os

sindicalistas e políticos "anti-ABC con-

cordam. Só que, pelo jeito, eles acham

que isso é tarefa "de políticos" e que a

classe trabalhadora e seus organismos

devem respeitar as formalidades impos-

tas pelo estado dos patrões. Os acusado-

res do ABC não primam nem mesmo pela

coerência imediata. Afinal, quase todos

eles se filiaram com grande estardalhaço

em partidos políticos, inclusive o presi-

dente do sindicato metalúrgico paulis-

tano, o Joaquinzão, atual dirigente do

esquizofrênico PTB de Ivete Vargas e

Jânio Quadros.

Como disse um operário da Ford, "o

problema não é fazer política, mas qual

política: a nossa ou a deles".

ABC DO

SINDICALISMO

EM TEMPO

25/3/82

A utilização da máquina sin-

dical em proveito das mobiliza-

ções e organizações de base I

movimento operário é uma üçao

que alguns sindicatos, como o de

S. Bernardo, bancários de S.

Paulo, e outros, tentam espalhar

para outros pólos do pajsr A

edição de boletins diários, infor-

mando e formando a categoria, e

não apenas sobre seus proble-

mas imediatos, é um exemplo.

A organização da campanha

deste ano é outro. Primeiro,

foram selecionadas 150 das 600

empresas da base, isto é, aquelas

que reúnem 85% da categoria.

Em seguida, um trabalho inten-

so de reuniões e assembléias por

fábrica, grupos de fábrica e bair-

ros, levando à discussão da pla-

taforma reivindicativa, das for-

mas de luta e à formação de uma

comissão de mobilização, vín-

culo entre o sindicato e o interior

das empresas.

A comissão de mobilização,

que discute mais intensamente o

encaminhamento da campanha,

foi tirada em reuniões de fábrica,

com membros eleitos, indicados

ou apresentados voluntariamen-

te, procurando-se estabelecer os

seguintes critérios: a representa-

tividade na fábrica; o interesse

do companheiro, candidato

potencial à repressão dos pa-

trões; estar empregado. Pon 5 -^

alguns dos membros da comis-

são, mesmo sendo demitidos,

permanecem nela, pela sua expe-

riência de luta organizada, da

qual a categoria não pode abrir

mão.


S^mCAUSUO

O CONANDO DE

MOBILIZAÇÃO,

DE NOVO REUNIDO

JORNAL DA TARDE

29/3/82

Além de avaliar os

resultados da greve,

os servidores

debaterão as punições.

; Apesar da suspensão da greve,

o movimento do funcionalismo

prossegue, hoje com uma reunião

do Comando de Mobilização, às 19

horas, na sede da Associação dos

Servidores do Hospital das Clíni-

cas. Em pauta, uma avaliação dos

resultados da paralisação da sema-

na passada, bem como o que fazer

diante das primeiras punições jíi

anunciadas: suspensão do traba-

lho, por um mês, da presidente da

União dos Diretores de Escolasdo

Magistério Oficial, Cecília Vascén

eelos Lacerda Guaraná, e dos pro

fessores Antônio Geraldo Justino,

Regina Maria Pacca de Líntez e

Mirian Nallini Marques.

• Outro problema a ser esclare-

cido é a convocação recebida por

alguns líderes do movimento para

depor no Dops. Na semana passada

compareceu à sede da Associação

dos Funcionários do HC um poli-

cial intimando Agapito José da Sil-

va, diretor da entidade, Oscarlino

Marcai e Magno de Carvalho, res-

pectivamente presidente e secretá-

río-geràl da Federação Paulista

dos Servidores Públicos, para que

prestassem esclarecimentos sobre

á greve na tarde da última sexta-

feira — no mesmo horário da as-

sembléia geral do funcionalismo,

líenhum dos três estava presente e

^secretária só recebeu a intima-

Çio de Agapito, que acabou não

indo ao Dops. O advogado Idibal

Pivetta, representando os dirigen-

tes, entrará hoje em contato com as

autoridades para resolver a si-

tuação.

Enquanto isso, o presidente da

Comissão Justiça e Paz, José Gre-

gori, tentará abrir negociações

com o secretário da Fazenda, Afon-

so Celso Pastore, visando a obter

Um índice melhor de reajuste sala-

rial.

Com o mesmo objetivo, o fun-

cionalismo municipal começa a se

preparar para a audiência de ama-

nhã, às 14 horas, com o prefeito

Rfcynaldo de Sarros. Quando soli-

cQaram o encontro, deixaram claro

qjie a intenção era começar já ali

aísC negociações.

. Os servidores estão sendo con-

vocados pelas suas associações pa-

ra uma reunião aberta na sede do

Sindicato dos Metalúrgicos, às 15

horas do próximo sábado, quando

será feita uma avaliação do movi-

rtiento.

E A COMISSÃO PRO-CUT 9

EM TEMPO 25/3/82

Sem dúvida, vanfi campa-

nha como a do ABC é uma

questão nacional, em todos

os sentidos. As greves de

1978-79-80, mostraram isso

muito bem. Por isso, uma

coordenação do movimento

sindical nacional teria nela o

maior interesse. Quando

dizemos isso a Oswaldo Bar-

gas, secretário do sindicato de

S. Bernardo, ele coca a cabe-

ça e diz: *- "Olha, o movi-

mento sindical em seu con-

junto não tem conseguido

assumir as lutas concretas da

classe trabalhadora. Você

veja quanta gente fala em

HUMILHADOS E OFENDIDOS

EM TEMPO 25/3/82

O funcionalismo público reivin-

dica um reajuste de 140%. Desde a

implantação da ditadura militar em

1964 até 1978, os funcionários do

estado mais rico do país sofreu uma

perda salarial anual de aproxima-

damente 4.6%. Nos anos seguintes,

já sob o governo Matuf, o avil-

tamento do salário dos funcionários

cresceu a uma escala de 14,2% por

ano. Há algum mistério no fato de

que esta greve do funcionalismo

traga um tal ímpeto de raiva contra

a ditadura, encarnada na figura

deste rei da patifaria que


SIWPICÂLÍSMO

OPERÁRIOS DA REPÚBLICA FEDERAL ALEHÃ

TROCAF1 SALÁRIOS POR MAIS EMPREGOS

TECOCrO G. MEBSNER

FRANKFURTEDÜSSELDORP

— Os metalúrgicos alemães

chegaram a um acordo salarial

com as empresas {*-> setor, após

três meses de disct3sSo e algu-

mas greves-relümppgo de uma

hora cie dar&çíio. O accrdo —

proposto por um árbitro neutro es-

colhido te comum acordo pelas

duas partes — fixa uma correção

salcriai cio 4,?%, contra uma in-

flsçâo de 5,5 a 6%, prevista para

este ano. Os trabalhadores rei-

vindicavam 7,9% de aumento e as

empresas ofereceram inicialmen-

te 3%.

O acatamento da proposta do

árbitro pelos raataiúrgicos deve-

se à séria crise econômica da

RFA (República Federal da

Alemanha), que provocou um

desempr^Po que já atinge 1.9

milhão üw passoas, número só

superado pelos índices do ime-

diato p6s-£Tierra. Os trabalha-

dores preferiram mais uma vez

perder salário real para evitar

auroT.to no desemprego e têm al-

guma esperança de que o plano

governamental contra o fenômeno

— que criticam fortemente —

surta algum resultado.

Para Ulrích Borsdorf, assessor

do Instituto de Ciências Econô-

micas e Sacieis da DGB (corres-

pondonío ao que pretende ser, no

Brasil, a CUT — Central Ünlca de

Trabalhf.Jcres), o acordo prova,

mais uma vez, que na Europa

praticamente nâo existem sin-

dicatos máLs responsáveis do que

os alemães. Com o que concordam

.empresários ouvidos por um

grupo de Jomiüstas brasileiros.

"È pelo fato ú2 praticamente nâo

termos tido srevos prolongadas

nos últimos anos que nossos

produtos pedv^i ter tâo compe-

titivos nc Exterior", diz um por-

ta-voz da poderosa tndúst^a

Krupp.

Borsdorf confirma: "Em dois

anos, perdamos 1 a 2% do salário

real sem que tenha havido qual-

quer tipo de manifestação

social. "Evlentemente, essa "com-

preensão" sindical para com os

problemas paironais é fruto tam-

bím da crise econômica e do es-

cândalo que envolve a Neue

Heimat (f .ova Pátria), uma em-

presa ccrcírjtora pertencente à

DGB (çp.;3 pcasid um grande im-

pério industrial, comercial e fi-

nanceiro, per exemplo: é dela o

quarto maior b?nco privado do

pais).

Os diretores da Neue Heimat

s2o BCUSãdos de enriquecimento

llfciío. malversação de fundos e

esplCKCf-C doa menos favore-

cidos, os que compraram ou

alugar?m crsas da construtora. O

escândalo — que deve ter reper-

cussões m "■"«'WiArfa brasileira

da Neue Kahnat, a construtora

Anchieta — é considerado aqui na

Alamanba eenao mais grave do

que o "esso Fl!ci;'í", que envolveu

membros do primeiro racalâo

governamental. Ele enfraqueceu

os síndlcaícs e fez com que a

opin??.o pública — inclusive tra-

balhadores — olhasse com des-

confiança os diretores sindicais.

Walter Schraldt, assessor do

departamento econômico do 1G

Metal (sindicato dos metalúr-

gicos, um dos 17 que compõem a

DGB), diz que essa "compreen-

são" sindical nâo deve ser confun-

dida com submissão nem com

acatamento da teoria patronal.

"As empresas afirmam que

salários mais baixos significam

maiores lucros e, portanto,

maiores possibilidades de aumen-

tar o número de empregos, Nós

afirmamos que se o poder de com-

pra é pequeno, as vendas caem e o

emprego nâo aumenta." A luta

sindical alemã vai se concentrar

agora em tentar aprovar um

plano contra o desemprego no

valor de 50 bilhões de marcos em 5

anos, com ênfase na construção,

no aumento dos gastos públicos e

na oferta de trabalho para os

Jovens que procuram emprego

pela primeira vez.

Schmídt nâo acredita que cs sin-

dicatos alemães possam ser

acusados de pelegulsmo. "Nâo

aceitamos uma economia cen-

tralmente planejada nem es-

tamos satisfeitos com o que existe

na RFA. Queremos reformas so-

ciais mais profundas do que as

que foram feitas até aqui. Somos

neo-keyneslanlstas."

SINDICALISMO

BRASILEIROEPT

Os sindicalistas alemães acham

que não deve ser feita qualquer

comparação das suas posições

com as do sindicalismo brasileiro.

As condições nos dois países sâo

extremamente inversas, dizem, a

começar do salário médio de 3.075

marcos mensais (cerca de 210 mil

cruzeiros), percebido pelos perto

de 4,2 milhões de metalúrgicos

alemães. Nâo computados a! o

aumento de 4,2% nem os bene-

fícios à educação, saúde, seguro

social etc.

Ulrich Borsdorf, da DGB, es-

teve recentemente no ABC paulis-

ta e diz ter ficado "multo mal im-

pressionado com as condições de

vida e de trabalho dos metalúr-

gicos. O meio ambiente em que

eles têm de trabalhar é horrível".

Ele afirma que a DGB vê "com

multa preocupação" essa si-

tuação e está tentando influenciar

as matrizes de empresas alemãs

com subsidiárias no Brasil, no

sentido de relações de trabalho

mais humanas. Confessa, porém,

que essas gestões nâo resultaram

em nada, ainda. "A solidariedade

internacional é mais fácil através

de palavras do que pela ação",

frisa ele.

Luís Inácio da Silva, o Lula, é a

figura mais comentada entre os

políticos e sindicalistas alemães

que se encontraram com jornalis-

tas brasileiros. Em segundo lugar

vem o governador Paulo Maluf,

que desfruta porém de poucas

simpatias nesses meios,

Robert Striert, assessor do

departamento internacional do IG

Metal, comenta nâo ter condições

FÜLHA DE S. PAULO

21/3/82

HOUAVORES

de analisar o PT, do qual só co-

nhece o esquema básico. Afirma,

contudo, que na RFA os sindicatos

devem ser independente» de todos

os partidos, mesmo de um PT: "O

PT nâo é, decididamente, o nosso

caminho. Mas não posso aceitar

as punições a Lula e outros sin-

dicalistas." '

Já Ulrich Borsdorf, da DGB.

pensa um pouco diferente. Para

ele, os sindicatos devem ser

neutros partldariamente mas nâo

politicamente: "È normal aqui

um dirigente sindical se candi-

datar a cargos eletivos por qual-

quer partido. Nosso ministro das

Finanças, por exemplo, é um fun-

cionário sindical. E impossível

precisar onde acaba a atividade

sindical e começa a política.

Aceitamos no sindicato membros

de todos os partidos, menos ex-

tremistas de direita e de esquer-

da."

ConCcssa, porém, não saber se o

PT é útil para um sindicalismo

livre no Brasil. "Mas seu êxito

relativo parece indicar que se

constitulnuma válvula de escape

para os problemas sociais. De

qualquer forma, o julgamento de

Lula (que ele assistiu) por um

tribunal militar è razão suficiente

para a solidariedade interna-

cional."

UNIDADE HARCARÂ

A ELEIÇÃO

DA FAFERJ

HORA DO POVO

26/3/82

Pfefto será histórico

Rio de Janeiro — "Estás eleições selarão de uma

vez por toaas a unidade de todas os favelados do Rio

de Janeiro. Dela participarão todos o» presidentes de

associações de favelas do Rio c, nío temos a menor dú-

vida, serio as mais rcptcsciuativas de toda a história

de nossa gloriosa FAFERJ "

Com estas palavras, inneu Guimarães, presidente

da Federação oas Associações de Favelas do Rio deja-

nciro (FAFERJ), e vice-presidente da Confederação

Nacional de Associações de Moradores (CONAM),

definiu o pleito que será realizado em meados de

abril, para escolha da nova diretoria da FAFERJ.

Já foi constituída a junta eleitoral que dirigirá os

trabalhos, integrada por um representante de cada

delegacia zonal da entidade. A constituição da nova

diretoria, cuja missão será de continuar o caminho de

vitórias que a FAFERJ vem trilhando na atual gestão,

está sendo debat ida nas reuniões semanais oue a dire-

toria realiza, juntamente com o Conselho ot Repre-

sentantes, em sua sede na Favela dojacarezinho.

Irineu Guimarães está confiante que a FAFERJ

sairá deste pleito muito mais forte, unida e coesa, com

a presença de todas as comunidades na grande luta em

prol das melhorias para as favelas.


MORAPORES

ACORDO RA FAFERJ

DUROU CINCO FINUTOS

JORNAL DO BRASIL

28/3/82

Os dois presidentes da Fafeij, Jonas

Rodrigues e Irineu Guimarães, se en-

contraram ontem à tarde, no Sindicato

dç>8 Metalúrgicos, para selar a incorpo-

ração entre os dois grupos que reclama-

vam o controle da entidade. Abraçados,

posaram ps.ra fotos, apertaram as mãos,

prometeram cumprir o acordo e com

cinco minutos de assembléia estavam

brigando para decidir como será o regis-

tro de chapas para a escolha da nova

diretoria da Faíeij unlflcada.

— Esse acordo só foi possível graças

à incorporação PP e PMDB — admitiu

Jonas Rodrigues, egresso do extinto PP

e apolaao peio Oovemo do Estado. Para

Irineu Guimarães, assessorado por um

grupo de militantes do PMDB. a unida-

de Já tinha sido tentada três vezes por

ele, sempre esbarrando no seu opositor.

Agora, com a incorporação, a situação

mudou:

— É um avanço político — senten-

ciou, dizendo que também trabalhou

por essa Incorporação partidária.

A assembléia geral da Paferj, convo-

cada em editais diferentes pelos dois

autoproclamados presidentes, começou

às 17h20min, com a participação de 69

presidentes de associações de favelas.

Além deles, duas autoridades estaduais

— o Secretário Municipal de Desenvol-

vimento Social e o Subsecretário, Vi-

cente Barreto e Luiz Bahia, respectiva-

mente.

FARISEUS APAVORADOS

COH emim

HORA DO POVO 26/3/82

Um grupclho de fariseus

desesperados está procurando

cinicamente subverter as vitó-

rias do Congresso Nacional

das Associações de Moradores,

o maior e mais represenativo

congresso popular da história

do Brasil. Na sua histérica ten-

tativa golpista, são alimenta-

dos pela escória da imprensa

venal, ojornal do Brasil, a que

veio se juntar o ' 'O Estado de

S5o Paulo".

Esses elementos procuram

ridiculamente impedir que a

poderosa entidade nacional

dos moradores, a CONAM, a

maior jâ criada no país, avan-

ce '?_. i, .í ficun-

ciam sua impotência para im-

pedir que entidades estaduais

como a FAMERJ, no Rio de Ja-

neiro,- e a FRACAB, no Rio

Grande do Sul, se coloquem à

frente do movimento dos mo-

radores, representando suas

expectativas c liderando suas

lutas por uma vida melhor.

GOIPISMO IMPOTENTE

São os Ki::mos que conspi-

ram de tocas as formas para

impedir a organização do es-

petacular Congresso de fun-

dação da CONAM. Não con-

seguindo, a ele compareceram

procurando tumultuar o bom

andamento dos trabalhos ate

serem ffagorosamente derro-

tados. Os golpistas, agora,

querem passar por cima do

que os moradores do Brasil in-

teiro decidiram, querem evi-

tar que as diretrizes do Con-

gresso deliberadas por mais de

5.000 delegados, 4.000 obser-

vadores e nada menos que

1.568 entidades - incluindo

todas as federações estaduais e

uniões municipais - sejam

abandonadas para dar lugar

ao seu imobilismo e i sua ati-

tude esmagada diante do fas-

cismo.

Os politicólogos falidos do

jornal da Condessa chegaram

a gastar a página editorial in-

teira com uma verborréia

"aconselhando" os morado-

res a não exigirem sua partici-

pação nas decisões governa-

mentais c a não lutarem por

seus direitos, procurando inu-

tilmente atingir a CONAM.

Evidentemente, a cansativa

churumela não atraiu a nin-

guém, c só confirmou a deca-

dência do jornal. Isso ficou

dato pelo fracasso das formi-

dáveis "previsões" do pas-

quim durante a incorporação

do PP ao PMDB. Primeiro, ao

dizer que a incorporação não

era possível. Foi. Segundo,

que o PP não a aprovaria.

Aprovou. Depois, que o go-

verno não deixaria. Apesar de

seu desespero, o governo teve

que engolir a unidade das

oposiçôes. Por último, o JB

'' previu'' que o TSE rejeitaria

a incorporação. O TSE decep-

cionou os "sábios" da Aveni-

da Brasil. No caso "dos mora-

dores, os desejos senis doJB

estão ainda mais longe de te-

rem qualquer pé na realida-

de.

FARISEUS ANTIQUADOS

Em tão má companhia, os

fariseus querem afastar o mo-

vimento dos moradores e.

particularmente, sua entida-

de maior, a CONAM, das

grandes questões nacionais.

Têm horror a uma entidade

contemporânea, atuante,

presente aos grandes temas

que afetam aos moradores, ca-

paz de promover empreendi-

mentos da envergadura de

um "Canta Brasil", o maior

show da história da música

popular brasileira, como to-

dos sabem.

Mas não adianta. As enti-

dades de moradores são peças-

chave através da qual se dará a

participação direta dos mora-

dores nas administrações re-

gionais e municipais.

Esses são os fatos. Os mora-

dores decidiram que querem a

democracia, e assim será. O

regime ou qualquer fariseu

que teimar em se colocar con-

tra essa realidade será irreme-

diavelmente marginalizado

do processo político, como,

aliás, já está acontecendo. Ésó

pagar pra ver.

ASSOCIAÇÕES CARIOCAS

t.

ECEM

A CONAM

VOZ DA UNIDADE

19/3/62

A Federação das Associações de Mora-

dores do Rio dé Janeiro, presidida por Jõ

Resende, por 44 votos contra i I, decidiu não

reconhecer a Confederação Nacional de

Associações de Moradores Conam. criada

no mês passado, durante congresso rcah/ado

em São Paulo, e marcado por man^hras

golpistas desenvolvidas pelos atuais dirigentes

da recém criada entidade nacional.

Com 82 associações presentes, das quais 60

com direito de voto, a reunião do conselho da

Federação das Associações de Moradores do

Rio de Janeiro aprovou documento onde

esclarece a decisão da entidade tomada

"diante do fato dessa confederação ter sido

criada num processo que nâo corresponde ao

caráter dos movimentos de associações de

moradores, em ambiente autoritário e antide-

mocráiico, e ainda por existir nos estatutos

dispositivos que impedem a livre decisão das

associações de moradores de se filiar ou não à

entidade,

A posição assumida pela Federação das

Associações de Moradores do Rio de Janeiro

acompanha decisão já tomada pela Federação

das Associações de Moradores de Bairros do

Rio Grande do Su! a Fracab —, que

também não reconheceu a Conam e denun-

ciou publicamente os membros de seu

conselho que insistiram em permanecer na

direção da entidade nacional, contrariando a

vontade da bancada gaúcha presente ao

Congresso Nacional de Associações de

Moradores.

Na opinião de Jô Resende, presidente da

Famerj. sem o apoio das duas entidades, "a

Conam está praticamente inviabilizada".

Agora, lodo o esforço da Famerj será con-

centrado no fortalecimento e ampliação das

associações de moradores nos bairros cario-

cas, aguardando melhor oportunidade para a

criação de uma entidade nacional que

garanta a representatividade necessária e um

justo e correto relacionamento com as assücia-

ções dos bairros, assegurando assim a autono-

mia do movimento em relação às correntes

políticas e procurando basear a unidade do

movimento em sólidos princípios democráti-

cos.


MOTIAVÕKES

ASSOCIAÇÕES TENTAM AFASTAR MR-8

0 ESTADO DE S. PAULD 28/3/82

üm movimento Já Iniciado no Rio, que

se estende agora ao Rio Orande do Sul e

que nos próximos dias estará chegando a

todos os Estados onde existam associa-

ções de bairros organizadas, pretende eli-

minar a crescente manipulação pelo MR-

8, um grupo de extrema esquerda que

defende a luta armada para a solução dos

problemas do País, dessas entidades. Ho-

je, em Porto Alegre e em mais sete cidades

do interior gaúcho, dezenas de associa-

ções formalizar&o uma decisão ja tomada,

visando a sanear os quadros da Federação

Rio-Grandense de Associações Comunitá-

rias e de Amigos de Bairros, Pracab: pre-

tendem afastar seu presidente, Washing-

ton Ayres. a vice-presidente, Edi Qlrardi, e

o secretário, Joaquim de Lucena, acusa-

dos de participar das agressões físicas

contra delegados de todo o Pais que nos

dias 16 e 17 de Janeiro criaram, em São

Paulo, a confederação Nacional de Asso-

ciações de Moradores, e de colaborar para

fraudar a votação que aprovou a formação

da entidade.

A Conam foi a maior conquista do

MR-8, na escalada para o controle de

todos os movimentos de reivindicações

populares. Com a implantação de '•apare-

lhos", especialmente nas vilas, a organiza-

ção poderia eleger facilmente seus candi-

date» paia diversos postos, nas pfoximas

eleições, segundo denunciam líderes gaú-

chos que estão combatendo a manipula-

ção que ocorre na Pracab e que articula-

ram a mobilização que hoje poderá resul-

tar no afastamento dos três dirigentes. O

MR-8 não é citado especificamente nos

diversos documentos entregues durante

est« semana ao Estado, mas as ligações

com o Jornal Hor» de Povo, vinculado

aquela corrente da extrema esquerda, tem

sido amplamente apontados,

A vice-presidente, Edi Girardí, integra

as "brigadas" ecarregadas da venda do

Jornal pelas ruas da cidade. Um de seus

prilicipaís redatores em São Paulo, Rodol-

fo, é filho de Joaquim Lucena, cuja famí-

lia, há multo tempo atuando em diversos

bairros, também é conhecida como "Fa-

mília Buscapé". Washington Ayres não é

relacionado diretamente com A Hor* do

Povo e, inclusive, pertence ao PDT, en-

quanto «eus colegas de diretoria são filia-

dos ao PMDB, por exijo partido Gtrardi

pretende disputar uma cadeira na Câmara

de Vereadores de Porto Alegre ou na As-

sembléia Legislativa. PDT e PMDB, aliás,

praticamente controlam a Pracab, pois

somente um outro partido está lá repre-

sentado, o PT, e com apenas um membro.

PiNANCtAMENTO

A campanha, para os candidatos da

extrema esquerda, está na rua. Ayres e

Lucena não confirmam, mas sabe-se que

A Hora do Povo tem patrocinado, inclusi-

ve, a impressão de cartazes que começam

a ser espalhados e que também podem ser

encontrados em outras regiões do País.

Tém tarjetas e riscos vermelhos marcan-

tes, uns criticando o "pacote da previdên-

cia", outros anunciando eleições em sindi-

catos e alguns começando a divulgar can-

didatos.

Não estariam faltando recursos para

tudo isso. A Fracab, pêlos estatutos, deve-

ria receber contribuições das associações,

mas na préüca isso n£o ocorre. Apesar

disso, consegue manter um órgão oficial,

tablóide, no estüo da Hora do Povo. O

grupo que combate a manipulação condu-

zida pelo MR-8, exigiu recentemente os

endereços e a relação das associações filia-

da* e a prestação de contas da Diretoria

Executiva referente ao ano passado, mas

não foi atentido, embora o Estatuto asse--

gure esse direito. O Conselho Deliberativo.'

eleito, que representa o grupo desconten-

te, simplesmente não recebe mais nenhu-

ma informação, principalmente quando

quer saber qualquer coisa sobre es contas,

para descobrir de onde sai o dinheiro para

manter certas iniciativas. Enquanto issio,

segundo denúncia de oito membros de

departamentos da entidade, tamoem em

conflito com a diretoria executiva, "pes-

soas estranhas ao movimento comunitá-

rio, ou seja, que não fazem parte da Dire-

toria Executiva, do Conselho Deliberativo

e que, oficialmente, não detêm cargo al-

gum nos departamentos, têm livre acesso

aos arquivos da Fracab, executando tare-

tas que não lhes dizem respeito, utilizando

as dependências da Fracab para ativida-

des particular e, também, apresentando-

se em manifestações públicas em nome da

Federação".

TENTATIVAS DE INFILTRAÇÃO

Os incidentes ocorridos no dia 7 deste

mês, quando se realizava na Assembléia

Legislativa do Rio Orande do Sul uma

assembléia da comissão pró-criação da

Federação Rtograndense de Mulheres, são

um exemplo. Tudo ia bem, até que apare-

ceu um grupo identificado como do MR-8,

dizendo representar a Fracab. Embora o

Conselho Deliberativo da entidade Já ti-

vesse decidido que somente apoiará a

criação da Federação depois das eleições

deste ano (segundo comunlcaçãa enviada

pelo presidente desse órgão, Júlio Enes de

Araújo à comissão pró-criação), o grupo

de mulheres exigia em plenário a criação

imediata. Mas acabou prevalecendo a po-

sição da maioria e o assunto continua em

discussão.

Estudantes secundaristas e pp-ssoas

estranhas ao movimento de bairros estão

sendo indicados pelo MR-8 para a direção

de associações fantasmas. Sabendo das

datas das eleições em cada associação, e

das que estão desativadas, embora exis-

tam no papel, o mesmo grupo tem indica-

do chapas, iludido os líderes de vilas e,

assim, tem avançado sobre grande núme-

ro das associações existentes e que vem

sendo criadas no Rio Orande do Sul. Mul-

tas dessas associações acabam nem exis-

tindo de fato, como Já tem sido provado

pelo Conselho Deliberativo, e servem ape-

nas para dar quorum às votações manipu-

ladas pelo MR-8 e seu grupo de represen-

tantes na Fracab.

' Muitos casos têm revoltado o Conse-

lho Deliberativo. Em Novo Hamburgo, on-

de funcionava normalmente o Centro de

Associações de Moradores, mas que não

era ligado ao MR-8. os simpatizantes des- -

ta organização de extrema-esquerda cria-

ram a União das Associações de Morado-

res, mas que não era ligado ao MR-8. Só

que os simpatizantes desta organização

de extrema-esquerda criaram a União daí

Associações e, para suas reuniões, somen-

te convocam os dirigentes desta última

entidade, ignorando os demais. Em Santa

Maria e Gravataí, têm ocorrido problemas

semelhantes, e são os dirigentes destas

cidades que têm dado o quorum necessá-

rio para algumas decisões denunciadas

como arbitrárias, que estão sendo toma-

das pela Diretoria Executiva que o Conse-

lho Deliberativo pretende afastar hoje.

PÂRTIPOS

PT OUER FORTALECER

SUA ALTERNATIVA

DIFERENCIADA

0 ESTADO DE S. PAULO

28/3/82

O Partido dos Trabalhadores deve-

rá fortalecer sua "alternativa política

diferenciada da oposição liberal bur-

guesa, colocando a questão do poder

político do ponto de vista dos trabalha-

dores", conforme o que Já foi aprovado

ontem no encontro nacional que está

promovendo em São Paulo, para defi-

nir sua plataforma às próximas eleições

e aprovai- sua Carta Eleitoral.

No segundo dia do encontro, que

reúne cerca de 400 delegados no Insti-

tuto Sedes Sapientlae, nas Perdizes, e

que será encerrado hoje à tarde, o PT.

também lançou ontem a primeira edi-

ção do seu "Jornal dos Trabalhadores",

órgão quinzenal que deverá sair com 50

mil exemplares nos próximos números.

A matéria de destaque desse primeiro

número é a Previdência Social, com o

"protesto do» assalariados pelo aumen-

to do valor mensalmente descontado

dos seus salários", que o governo vai

impor aos trabalhadores, para resolver

os problemas decorrentes "da sua má

administração previdenciária". O parti-

do também Já decidiu marcar para o

próximo dia 12 o debate de Luís Ignáclo

da Silva com o ministro Jair Soares,

sobre esse assunto, que será transmiti-

do pela televlsSo, no Programa Ferreira

Netto — o ministro havia deixado as

alternativas de 6 ou 12 de abril, para

que o presidente nacional do PT esco-

lhesse a data.

Já a Carta Eleitoral, que está sendo

aprovada nesse encontro, num de seus

principais tópices, destaca que a parti-

cipação do PT nas eleições "não nos

deve levar a confundir a conquista de

executivos estaduais e municipais co-

mo sendo a conquista do poder. Eles

devem servir como alavanca na organi-

zação e mobilização do» trabalhadores

na perspectiva da construção do poder

popular". O documento analisa ainda a

conjuntura atual e propõe uma tática

eleitoral, cujo ponto principal é a luta

pela reaiizaçào de eleições, considera-

das de fundamental importância para o

PT, no sentido de proporcionar aos

trabalhadores "uma oportunidade de

expressar maciçamente sua avaliação

política do regime e das diferentes for-

ças partidárias, aumentando a sua or-

ganização e consciência políticas". En-

tre os objetivos para a próxima campa-

nha eleitoral entende ainda que o PT

deve "constituir-se na expressão parti-

dària que aglutine os trabalhadores nu-

ma proposta fundamentada na luta

contra a ditadura, nos interesses e nas

reivindicações do movimento operáio e

popular".

Esse encontro também aprovou on-

tem a criação do Instituto "Wilson Pi-

nheiro", homenagem ao presidente do

Sindicato dos Trabalhadores Rurais do

Acre, "assassinado em frente ao sindi-

cato no dia 21 de Julho de 1980". As

principais atividades desse Instituto de

estudos, pesquisa e assessoria do PT,

estarão voltadas para "formação políti-

ca, serviços técnicos jurídicos, adminis-

trativos, de planejamento e trabalhis-

tas",

O encontro do PT ainda aprovou

ontem o encaminhamento de moção ao

presidente João Figueiredo, propondo

o reconhecimento, pelo gevemo brasi-

leiro, do "estado de beügerância em El

Salvador". Essa moção de apoio 'ao

povo de El Salvador, Nlcarágun e Gua-

temala", exige que "o governo bFMlM <

ro assegure a representatividade da

Frente Farabundo-Marci para a Liber-

tação Nacional e da Frente Democráti-

ca Revolucionária, apoiando a propos-

ta de negociação feita por ambas na 37'

Assembléia Geral da ONU".


PARTI WS 8

GOVERNO DOS TRABALHADORES

A palavra de ordem "governo dos

trabalhadores", tal como é emprega-

da hoje no Brasil, é uma versão da

anti^ palavra de ordem do movimento

í operário do "governo operário" ou "governo

operário e camponês". A fórmula "governo

operário e camponês" apareceu pela primeira

vez em 1917, na agitação dos bolcheviques.

Naquela altura, representava apenas uma

denominação popular para o conceito

marxista de "ditadura do protetariado", isto é.

de um Estado operário, um Estado organizado

de tal modo que o poder seja exercido pelas

massas trabalhadoras, c não pela burguesia e

por seus representantes, como acontece sempre

nos Estados capitalistas.

A inclusão das palavras "e camponês" na

Rússia


PASTIVOS E ELEIÇÕES

'O PT DEVE ORGANIZAR NÚCLEOS NAS FÁBRICAS' EM TEMPO 25/3/82

Em Tempo entrevista Francisco Carlos de Souza,

metalúrgico petista de Santo Amaro, São Paulo, um dos

principais organizadores de uma experiência para dentro do

PT: o núcleo por categoria.

O núcleo dos trabalhadores metalúrgicos de Santo Amaro

mantém trabalho de base em várias fábricas; publica

boletins e organiza cursos de formação sindical e política

para grupos de fábrica.

O núcleo foi o principal patrocinador da secretaria sindical

do PT da região, e reúne regularmente vinte a trinta

operários.

Como você avalia esta iniciativa do

PT de articular a sua intervenção

no movimento sindical?

Chico - Isto é uma questão funda-

mental. Até hoje, o debate sobre o PT,

ficou muito naquela de se o PT é um par-

tido ou uma frente. Hoje, este debate já

está superado e quando se chega na ques-

tão sindical, no tipo de relação que o PT

deve ter com o movimento operário, é

que as coisas passam a se esclarecer mais.

Desde os sindicalistas, passando pelos

intelectuais, pela Igreja, e até pela

esquerda organizada, cada um procura

fazer valer suas opiniões.

— E, no seu entender, quais sSo estas

opiniões?

Chico - Era primeiro lugar, temos os

sindicalistas, em particular os de São Ber-

nardo. Eles acreditam mesmo é no sindi-

cato, pois ele permite um trabalho direto

com os trabalhadores. Os sindicatos

foram tão importantes na mobilização

Para a burguesia,

o sindicalismo

é um rodo de desviar o

potencial revolucionário da

dasse para transformações

dentro da sociedade. Por isso,

é fundamental poKtizar

a atuação sindical.

para as greves, na elaboração de propos-

tas mais politizadas como a estabilidade,

o congelamento de preços, que o partido

acaba sendo visto como algo para as

outras lutas que não a sindical.

O sindicato acabou assumindo, além

das reivindicações econômicas, reivindi-

cações políticas. Daí o pessoal não dar

tanta importância à questão do partido,

não se preocupar em fazer também os

núcleos por fábrica, seção ou categoria.

De um outro lado, com uma visão dife-

rente, existem alguns setores da Igreja

que têm uma concepção de partido como

um reflexo das lutas populares. Não é um

partido para orientar, para preparar

quadros operários com condição de

dirigir suas lutas. É o tal partido como

"caixa de ressonância".

— Mas você tinha falado em três ou

quatro opiniões...

Chico - Há uma terceira que coloca a

questão da autonomia dos sindicatos em

relação aos partidos quase como uma

barreira entre o PT e o movimento sindi-

cal. Esse pessoal é o mesmo que defende a

tal teoria do proletariado ir conseguindo

espaços dentro da sociedade burguesa, ir

democratizando algumas instituições, ir

construindo sua organização sem nunca

colocar a questão do poder. Eu acho esta

visão muito perigosa, e eu não acredito

que ela leve o PT para onde a gente quer

que ele vá, ou seja, um PT de luta e mobi-

lização, de organização para, no futuro,

tomar o poder.

— Mas como você vê a questão da

autonomia dos sindicatos em relaçlo aos

partidos?

Chico - Várias pessoas falam nisso, eu

também, mas os militantes do partido

devem ter uma política única para atuar

no movimento sindical, senão vamos

sempre levar ferro da peiegada e dos refor-

mistas.

Mas, sobre isso, eu acho que nós temos

que partir do seguinte: a classe operária é

submetida pela ideologia burguesa numa

sociedade como a nossa. É do rompi-

mento com ela que poderemos chegar

aonde queremos. A burguesia procura

fazer com que no sindicalismo seja colo-

cado em jogo apenas as barganhas do

valor da força de trabalho. Nós, os ope-

rários entramos ai apenas como uma

mercadoria. Para a burguesia, o movi-

mento sindical, o sindicalismo é simples-

mente um jogo para iludir a classe operá-

ria. Para eles, o sindicalismo é um meio

de desviar o potencial revolucionário da

classe para transformações dentro da

sociedade. Falar então em autonomia do

A intervenção sindical

do PT, unido, articulado,

é uma condição

até mesmo para manter a

unidade do movimento operário.

movimento sindical em relação aos parti-

dos, como se todos os partidos fossem

iguais, é não perceber que a tarefa do PT é

exatamente provocar o rompimento do

sindicalismo com esta situação. Os

patrões têm tudo a seu favor. Precisamos

ter, pelo menos, um partido nosso, que

não esteja debaixo dos pés da burguesia.

— Mas, quem fala em autonomia,

aponta a ANAMPOS como um meio

para atuar no movimento sindicai...

Chico - Eu dou grande importância à

ANAMPOS, mas hão acredito que ela

seja suficiente para cumprir o que o ?T

deveria cumprir no movime.rto sindical.

O PT precisa crescer junto à classe ope-

rária; precisa construir núcleos por cate-

gorias, núcleos por fábrica, por local de

trabalho.

— Mas, fala-se também que | uma inter-

venção mais agressiva do PT poderia le-

var a uma polarização artificial do movi-

mento, a uma sectarizaçSo...

Chico - Acho que o que pode secta-

rizar é menos a atuação do partido em si e

mais a política a ser levada. Se o PT levar

uma política de respeito às entidades; se

procurar dar força à uma intervenção

unitária no movimento, mesmo sendo

minoritário, não vejo onde poderá haver

polarização artificial.

— Uma intervenção sindical agressiva

do PT não poderia levar a uma divisão do

movimento em partidos e à criação de

várias centrais sindicais?

Chico - Acho o contrário disso. O

movimento sindical brasileiro viveu

muito tempo debaixo da pressão desta

estrutura sindical, que sufocou a unidade

da classe. O corporativismo é muito forte.

Quando as coisas começam a se movi-

mentar, conseguir consolidar uma cons-

ciência unitária, conseguir resistir às

provocações e manobras dos patrões dos

reformistas, não é fácil. É preciso uma

consciência muito forte do que se pre-

tende no movimento sindical, da impor-

tância da manutenção da unidade.

Senão, vai cada um para o sen k»do,

fazendo sua política. Trocá-se a umüade

por razões de momento, não se percebe o

buraco que se abre dentro da própria

classe. Por isso que o PT intervir articu-

lado, unido, é uma condição até mesmo

para manter a unidade do movimento

operário.

— Então, como o PT deve intervh- no

movinwnto sindicai?

3

E na fábrica que se dá

a exploração do capitalismo

e é lá que temos de

consolidar o PT, para

que os trabalhadores

sintam que este

é o seu partido.

Chico - Organizando núcleos por

categoria, núcleos por fábrica. É na

fábnea que se dá a exploração do capi-

talismo sobre os trabalhadores. E lá que

começa nossa luta. e é lá que nós temos

que consolidar o PT, para que os traba-

lhadores sintam que este é o seu partido;

que é preciso transformar esta sociedade

numa sociedade diferente, sem explora-

dos ou exploradores.


ELEIÇÕES IO

ELEIÇÕES LEVAM POLÍTICOS A PROCURAR LÍDERES COMUNITÁRIOS

JORNAL DO BRASIL 28/3/82

Conslderatíos até pouco tempo pre-

senças indesejadas nos gabinetes, os

deres dos movimentos comunitários

de associações de bairro começam a

sentir, com a proximidade das eleições,

sinais de mudança no relacionamento

com as autoridades. O presidente da

Associação dos Moradores e Amigos da

Praça Saenz Pefla (Amapra), Francisco

Alencar, foi informado pela assessoria

do Palácio Guanabara que o projeto da

entidade para construção de um parque

na área que a Companhia do Metrô

desapropiou está sobre a mesa do Go-

vernador Chagas Freitas.

Na área das chamadas comunidades

carentes, completou-se ontem, com a

realização da assembléia geral da Fede-

ração das Associações de Favela do Rio

de Janeiro (Fafeij), a montagem do es-

quema que reúne as diversas correntes

do PMDB fluminense no apoio à candi-

datura do Deputado Miro Teixeira ao

Governo estadual. Realizada sob o sig-

no da incorporação, a assembléia mar-

cou o fim das hostilidades entre as fac-

ções de Jonas Rodrigues da Silva, do

extinto PP, e de Ireneu Guimarães, do

PMDB, que há três anos disputavam na

Justiça a presidência da Fafeij.

Plebiscito

Os moradores da Tijuca aguardaram

de Julho a dezembro do ano passado

uma audiência com o Governador Cha-

gas Freitas. Nâo conseguiram, mesmo

depois de terem entregue um abaixo-

assinado de 31 mil signatários, pedindo

a transformação dos terrenos desapro-

priados pelo Metrô na Rua Dr. Sattami-

nl em parque.

— Pol uma surpresa — conta Fran-

cisco Alencar — quando, semana passa-

da, recebi um telefonema do assessor

especial, Osvaldo Henrique. Ele disse

que o Governador Chagas Freitas vê

com muito carinho nosso movimento e

quer conversar conosco sobre o projeto

do parque na Dr. Sataminl."

O presidente da Amapra reconhece

que as associações de bairro precisam

alcançar "uma grande vitória" que com-

pense as derrotas sofridas com as tenta-

tivas de modificar os projetos da auto-

estrada Lagoa—Barra e da via paralela

à Rua das Laranjeiras.

No caso da Praça Saens Pefta, ele

considera que "o jogo por enquanto está

zero a zero", à espera de uma definição

do Governo estadual. A data prevista

para inauguração do metrô na Tijuca é

15 de maio. Se até lá nâo houver respos-

ta das autoridades, Francisco Alencar

fará um plebiscito no bairro, "com res-

posta sim ou nâo para a pergunta: Você

quer que os terrenos do metrô sejam

transformados em parque?"

Compromisso

Das idas e vindas à Prefeitura e ao

Palácio Guanabara, o presidente da

Amapra diz ter recolhido um ensina-

mento: "Se o povo brasileiro náo está

preparado para votar, as autoridades

não estão preparadas para a democra-

cia. Parece que há uma tática de nunca

negar, mas nada fazer para concretizar

o sim."

— O Governo atual — continuou —

foi muito ruim e nunca recebeu uma

Gilberto Negreiros

associação de bairro. Uma coisa que dà

esperança é que todos os candidatos a

governador já assumiram compromisso

de ouvir as associações de bairro. Isso é

sintoma de que elas, sem dúvida algu-

ma. Já começam a ter um peso político

na vida de cidade.

Para o presidente da Associação dos

Moradores e Amigos de Laranjeiras,

Luís Kaufman, náo há dúvida: os convi-

tes que tem recebido para participar de

cerimônias na Região Administrativa

"são reflexos do ano eleitoral."

— O papel político das associações

— acentuou Luís Kaufman —• ê compro-

meter todos os candidatos, sem distin-

ção de Partido, com as nossas reivindi-

cações. Todos temos consciência de que

a partidarização será o fim da associa-

ção, porque provocará a divisão em

correntes pró e contra.

Medo do diálogo

Cora o anúncio da Secretaria Munici-

pal de Obras, marcando para abril a

implantação da via expressa de tráfego

na Rua Jardim Botânico, tudo indica

que a associação de moradores do bair-

ro softerá uma derrota já na primeira

grande campanha a que se lança. O

presidente Márcio Meirelles sabe que

enfrenta uma corrida contra o tempo e

poderio da máquina administrativa

Disse ter notado que "estão acelerando

as obras para que sejam concluídas

antes que haja uma mobilização maior

dos moradores."

Amanhã, Márcio Meirelles fera a últi-

ma tentativa de diálogo: enviará um

oficio à Secretaria Municipal de Obras

pedindo que os moradores da Jardim

Botânico tenham acesso ao projeto da

via expressa Ao mesmo tempo, tentará

a adesão dos comerciantes para a cam-

panha, que considera "uma tentativa de

domestlcar o automóvel."

— Nâo se pode submeter um bairro a

uma modificação tão profunda como

essa de transformar a Rua Jardim Botâ-

nico em via expressa, onde será permiti-

da a velocidade de 80 quilômetros por

hora, sem ouvir os moradores. Será que

as autoridades têm medo de dialogar?

— Indagou.

No manifesto que lançou contra o

projeto da via expressa, a associação do

Jardim Botânico lembra que este é um

ato eleitoral, ao advertir que "os mora-

dores náo esquecerão nunca de manifes-

tar sua Inconformidade pelas decisões

nocivas ao bairro tomadas por esta ad-

ministração, em todas as oportunidades

que tiverem."

Experiência acumulada

Ao contrário das associações de bairro,

as entidades que congregam os moradores

de favelas tém acumulada uma

experiência de transação com o poder

constituído que vem desde a criação da

Fafeij, em 1963.

Há três anos, quando o grupo lidera

do por Irineu Guimarães e

grupo uuera- .i VJ fjt' ^ V"

apoiado pelo , ■ i ^ ':.. _ : .3j \

MR-8 promoveu eleição na i Faferj e as- i' A ,"'■.;' v J

sumiu a presidência, a corrente do Governador

Chagas Freitas veio em socorro

de Jonas Rodrigues da Silva. Daí

resultou na cisão, e tanto Irineu como

Jonas passaram a reivindicar a condição

de presidente legítimo e a acusa-

SZ

rem-se de presidir uma "diretoria para-

lela."

Em outubro do ano passado, senten-

ça da r Vara Cível reconheceu Irineu

Guimarães como único presidente da

Fafeij. O grupo de Jonas recorreu ao

Tribunal de Justiça e o processo foi

distribuído á 8* Câmara Cível. A decisão

era considerada iminente, quando ocor-

reu a incorporação do PP ao PMDB.

Na última quarta-feira, a incorpora-

ção finalmente chegava à Faferj. Irineu

e Jonas assinaram um protocolo com-

prometendo-se a realizar nova eleição

na entidade que reúne as associações de

favelados. As primeiras providências fo-

ram tomadas na assembléia-geral de

ontem, com a escolha dos integrantes

do tribunal eleitoral — comissão que

presidirá a eleição — e a concessão de

anistia aos contribuintes em atraso.

€1- 6fíHHAM(?'i)

'_ r

/''

'*Mi\iyM -?■

?

em.'. .//

^

-■■(■

i>0


ECOmÁTA

COMO ANDA

FOLHA DE

28/3/82

JOÃO SABÓIA

G governo tem procurado jus-

tificar a politica econômica re-

cessiva, posta em prática no ano

passado, apresentando seus re-

sultados favoráveis — o su-

perávit na balança comercial e o

declínio das taxas de inflação.

No caso do setor externo, o défi-

cit de US| 2,8 bilhões na balança

comercial em 1980 foi transfor-

mado num superávit de ÜS$ 1,2

bilhão em 1981. Quanto à infla-

ção, o Índice de Preços por

Atacado-Disponibilidãde Inter-

na (DPA) caiu de 121,3% para

94,3%, enquanto o índice Geral

de Preços (IGP) passou de

110,2% para 95,2% tio período.

Até mesmo o INPC apresentou

uma pequena queda, passando

de 96,3 para 91,2%.

Neste início de 1982, porém,

tudo parece ter se modificado.

As exportações caíram e a infla-

ção aumentou. No caso desta

última, as taxas mensais que an-

davam próximas a 4% durante o

último trimestre de 1981, supe-

ram agora os 6%. Este resultado

é de certa forma surpreendente,

na medida em que não ocorre-

ram modificações nos rumos da

política .econômica. Procurare-

mos ao longo deste artigo apro-

fundar um pouco esta questão,

na tentativa de um melhor en-

tendimento sobre a atual ques-

tão infladooária.

Em primeiro lugar é preciso

reconhecer que a inflação é um

problema crônico no País. Nos

últimos sete anos o Brasil obteve

sistematicamente a terceira

maior taxa de inflação do mun-

do. Em meados da década de 70

éramos superados apenagjpeio

Chile e Argentina. Atualmente,

apenas a Argentina e Israel pos-

suem maiores índices infla-

ciohários que o Brasil.

Quanto á queda da inflação no

ano passado, melhor seria

caracterizá-la como estabiliza-

ção. Embora os indicadores

me^onadoc acima rpresentem

resultados mais favoráveis em

1981 do que em 1980, outros indi-

cam um comportamento distin-

to. Assim, o índice de Preços ao

Consumidor do Rio de Janeiro

passou de 86,3% para 100,6% du-

rante o período.

Ao se estudar o comportamen-

to desagregado da inflação du-

rante o ano passado, nota-se cla-

ramente uma melhor perfor-

mance para os preços dos produ-

tos agrícolas. Enquanto os pro-

dutos industriais experimenta-

ram uma evolução de preços de

99,6% no DPA (oferta global), os

produtos agrícolas tiveram um

crescimento de 70,7%. Por outro

lado, o item alimentação apre-

sentou um dos melhores resulta-

dos em relação ao INPC no ano

passado, com um aumento de

78,1%, superando apenas os arti-

gos de vestuário (77,0%). Com-

portamento similar é encontra-

do com o índice do Custo de Vida

do Dieese para a cidade de São

Paulo, onde a elevação de pre-

ços dos alimentos em 1981 foi de

77,7%, inferior ao crescimento

médio dos preços (88,0%).

Como afirmamos acima, é

preciso reconhecer que durante

os últimos meses de 1981 os índi-

ces inflacionários se apresenta-

ram em baixa. Teria sido esta

queda real? Porque, então, esta-

ria havendo uma elevação este

inltío do ano? ^

Em nossa opinião, o governo

forçou a queda da inflação no fi-

nal do ano passado, adiando

uma série de reajustes de preços

administrados peio.própríq, go-

verno, para o início deste ano.

Isto inclui o preço dos cigarros,

gasolina, serviços públicos, etc.

Por Outro lado, os gêneros ali-

mentícios, por alguma razão

ainda não muito clara para nós,

têm apresentado grandes eleva-

ções de preços no início de 1982.

Assim, enquanto o INPC acumu-

lado em janeiro e fevereiro foi

de 14,5%, o item alimentação se

elevou em 15,1%. O mesmo ocor-

reu em relação ao Índice de Pre-

ços ao Consumidor do Rio de Ja-

neiro, que aumento 14,2% duran-

te o mesmo período, enquanto o

preço da alimentação se elevou

em 17,5%.

Os resultados para a inflação

neste .início de ano são bastante

preocupantes, colocando mais

uma vez em xeque toda a políti-

ca econômica do governo, espe-

cialmente agora, quando o de-

semprego está em alta. A conti-

nuar com estes números, é

possível que repitamos este ano

taxas de inflação semelhantes

ou mesmo superiores às do anô

passado. A recente elevação da

taxa de correção monetária

mensal de 5% para 5,5%,- após

vários meses em que ela se

apresentava em queda, é um re-

conhecimento implícito da re-

versão do processo inflackmário

por parte do governo.

João SalxHa é proffsi.or da Faculdade de

Economia e Administração e da COPPE.

pesquisador do Instituto de Economia In-

dustriai da VFRJ. e co-edltor do Boletim

Conjuntura Industriai do lEI-UFRJ.

11

PAINEL eGQNDMICO

FOLHA DE S. PAULO 26/3/82

j.^ersislenie queda do niúice tíe naciona-

lização dos veículos brasileiros levanta

uma ponta do véu sobre a estranha estraté-

gia nacional de conquista de mercados, que

consiste em vender cada vez mais no exte-

rior produzindo cada vez menos no Brasil.

Conquista-se o mundo e perde-se a própria

casa.

A exportação de automóveis deu um salto

surpreendente nos últimos anos, mas a con-

trapartida Interna, ao contrário do que se

poderia esperar, foi o enfraquecimento da

Indústria nacional de autopeças. As expor-

tações de veículos avançam, empurrando

para trás a indústria de componentes.

De acordo com um empresário do setor

de autopeças, o que agrava ainda mais a si-

tuação é o regime de "draw back", pelo

qual as montadoras podem importar com-

ponentes para a montagem de velemos que

serão vendidos no mercado externo.

Por essa via. chega-se à conclusão sur-

preendente de que exportar, para o País,

significa também fechar Indústrias nacio-

nais e reduzir as oportunidades de empre-

go. As exportações, nessas circunstâncias,

provocam efeito idêntico ao das impor-

tações. £ mais uma das conseqüências ad-

versas da administração do Brasil pela sua

divida externa.

O problema não se limita à Indústria de

autopeças, mas atinge também direta e In-

diretamente outros setores da Indústria, co-

mo o de bens de capital. Se o componente

não é fabricado no Brasil, o fabricante de

componentes não faz encomendas de má-

quinas à indústria nacional de máquinas.

Como resultado, estreita-se o mercado para

ambos os setores da Indústria que, desta

maneira, se enfraquecem frente ao concor-

rente do exterior—fortalecido.

Falando dias atrás no 3. ° Congresso e3.'

Mostra Brasileira de Pequena e Média Em-

presa, o diretor da Cacex,Benedito Morei-

ra, ressaltou, a propósito das exportações,

que "o Importante para o Pais é ocupar es-

paço a qualquer preço no exterior para des-

locar seus adversários ". .

A qualquer preço?

O PNB emagrece

As estimativas preliminares das contas

nacionais para 1981 mostram com clareza

quão violenta foi a contração das atividades

econômicas nesse ano. Observa-se que o

Produto Nacional Bruto (PNB) caiu 4,7%,

bem mais, portanto, que a queda oficial do

Produto interno Bruto (PIB), que foi de

3,5%.

A diferença entre o PNB e o PIB é que o

primeiro subtraí do PIB as rendas líquidas

enviadas ao exterior (Juros elucros), repre-

sentando, assim, um conceito mais adequa-

do do ponto de vista contábil.

Convém lembrar também, observa o eco-

nomista José Serra, que as estimativas de

contração do PIB só não apresentaram um

resultado pior porque as autoridades deci-

diram mudar na última hora as ponde-

rações dos diferentes setores. Mesmo as-

sim, tais estimativas terão que ser revistas,

pois a queda do produto industrial foi maior

do que a utilizada pela Fundação Getúlío

Vargas para calcular a queda do PIB. A

FGV considerou que a redução da produção

industrial em 1931 havia sido de 8,4%, ruas,

segundo dados recentes do IBGE, a queda

foi maior ainda — 9,6%.

Mesmo sem essa correção, a conclusão é

que em 1981 o Pais ficou bem mais pobre: o

PNB por habitante caiu cerca de 7,5%.


tcouomA 12

ACHATAMENTO SALARIAL SÓ PE60Ü FAIXAS NA PONTA DA

ALOYSIO BIONDI

O "eçnagamento da ciasse média" provocado

pela políbca palaríal voltou a ser apontado por li-

oeranças empresariais como a principal causa

do fraco comportamento das vendas do

çoménao, nas prmcipais regiões metropolitanas

do País, neste primefro trimestre do ano. Parale-

lamente a esías críticas, centenas de pequenos

empresários reunidos em São Paulo se pronun-

ciaram a favor d® mudanças na lei. a partir,

porém, ('e outro âr^ntulo: a impossibilidade, se-

Sggfo «es, tís conceder reajustes acima do

INPC às fateas salariais mais hfàx»&i diante, in-

clusive, da insatisfatória evolução dos oeftódk».

?ai-s0 abdndc», assim a oportunidade que o mi-

nistro Delim Neto esperava» para introduzir no-

vas Kiocãiieaçdes na política salarial, após as

tentativas fracassadas de 1981. No entanto, a

perda de peger aquisitivo da classe média não

pwte ser atribuída à política salarial — e, sim, a

fatores como o violento aumento na cobrança do

unposto de Renda (como a Federação do

Comércio demonstrou em magnífico trabalho de

análise divulgado no final de 1981). Ou à poste-

nc? elevaçSo nas contribuições ao INPS e à ele-

vaçfij nas taxas de juros (sem falar em fatores

ecjrutursis, como o oncarecimento dos serviços

que ela utiliza).

Em poucas palavras, a perda de poder aquisi-

tivo da classe média e suas conseqüências sobre

a ccouomiasSa mais umadistorçãoresultante da

cotesa de remsnüos.cm que se transformou a

política econô:aica.

PESO INSIGNIFICANTE

! Desd^ que o ministro Delfim Neto conseguiu,

no final de 80, introduzir uma primeira alteração

ha lei salarial, faia-se muito no "achatamento

dos laiárics mais altos". A análise é irreal.

Pela lã "velha", de 1979, os salários recebiam

reajustes semestrais progressivos: o INPC mais

10% psra a fabia de um a três salários mínimos;

ftpãsps o INPC, para a faixa de três a dez

salários míixn*n: acima de dez salários míni-

mm, S3% áxs ÍKPC. Com as alterações, o reajuste

obri^torio foi alterado para as faixas mais al-

tas: ce 10 a 15 salários mínimos, foi mantido o

índice tís 8D% do INPC; de 15 a 20 salários míai-

teos-perém, o reajuste passou a ser de 50% do

li IPÍI e. flaalmeato, acima de 20 salários mím-


ECaMOMIA

A BARRA DO DESEMPREGO AINDA VAI ENGROSSAR

Desemprego é coisa que nunca laitou no

Brasil. Dos 40 milhões de brasileiros em

idade de trabalhar, nem metade tem carteira

assinada ou qualquer outro tipo de vínculo

com um emprego. Desse enorme grupo, uns

poucos trabalham por conta própria e a

grande maioria vive de bico, sem emprego

fixo, fazendo os biscates que consegue

arrumar. No ano passado, porém, o

problema ficou ainda mais sério. Com a

recessão que se instalou no país, mais de 1

milhão de trabalhadores, só na indústria,

perderam suas vagas. Eles foram se juntar

aos quase 2 milhões que tentaram e nem

sempre conseguiram ingressar no mercado

de trabalho, formando um exército de 3

milhões de desempregados — sem contar o

pessoal da construção civil e de outros

setores não industriais.

Em 1982, outro milhão c meio de

trabalhadores estarão chegando ao merca-

do de trabalho. Também para eles as vagas

não serão suficientes. Apesar das promes-

sas - de Brasília, mesmo com eleições, a

economia brasileira atravessará mais um

ano de crise. O próprio governo, por meio

do Ministério do Trabalho, estima que 1,5

milhão de trabalhadores vão bater às portas

do Sistema Nacional de Emprego (Sine) até

o final do ano. E é ainda o próprio governo

que acredita não ser possível arranjar

recolocação para mais de um terço desse

pessoal.

O governe diz que a culpa é da crise do

petróleo e da recessão mundial, mas essa

história já não cola mais. Mesmo que fosse

verdade, por que os trabalhadores é que

devem pagar o pato? O governo também diz

que o desemprego está sendo provocado

pela lei salarial. Ora, isso já é demais. Só

quem não entende nada acredita que

baixando os salários as demissões acabam.

A lei salarial não é nenhuma maravilha.

Quando muito ela repõe o poder aquisitivo

dos trabalhadores das faixas mais baixas -

e mesmo assim logo a inflação come o

reajuste. Nos custos das empresas, os

salários pesam cada vez menos e nem por

isso os patrões deixam de mandar embora

seus operários. Eles dispensam os operários

porque caiu a venda dos produtos que

fabricam — e quem prestar atenção vai ver

que a venda caiu. entre outros motivos.

JORNAL DOS TRABALHADORES

2 a 15/3/82

porque os salários estão baixos.

A verdade é outra. A recessão dá

economia é a causa do desemprego. E essa

recessão está sendo provocada pelo governo

porque ele não tem coragem de enfrentar os

credores da dívida externa. Essa dívida

cresceu tanto que os banqueiros colocaram

o governo na parede. Ou o Brasil arrumava

dólares para pagar o muito que já devia ou

não teria mais empréstimos para cobrir a

dívida. As autoridades, então, deram um

tranco na turma que comprava muito no

exterior ou produzia coisas que usavam

artigos importados. Automóveis, por

exemplo, que bebem petróleo. Ou eletro-

domésticos, que utilizam plásticos, também

produzidos com petróleo, cobre, alumínio

etc. — tudo coisa importada. Para não

vender tantos automóveis, geladeiras e

televisores, arrochou-se o salário da classe

média que consumia tudo isso. Resultado:

desemprego de operários, empobrecimento

da classe média.

Ao lado do governo, os patrões também

devem ser responsabilizados pelo desem-

prego que afeta a classe trabalhadora. Eles

estão interessados em promover a rotativi-

dade da mão-de-obra, pois essa manobra

permite manter os salários baixos. Isso sem

falar no sistema de trabalho vigente nas

fábricas e escritórios, que obriga o

trabalhador a aumentar sua jornada de

trabalho em troca de míseras horas extras.

Com isso, as empresas driblam alguns

custos sociais ao preço de um incontável

número de empregos.

Juntamente com esse expediente, os

patrões passaram a utilizar um outro,

aproveitando a recessão provocada pelo

governo: há indícios fortes de que eles estão

demitindo mais operários do que poderia

fazer supor a queda na produção. Fazendo

uso do fantasma do desemprego, os patrões

estão promovendo um aumento de produti-

vidade movido pelo combustível do medo.

Trabalha-se além da conta para garantir o

posto. Prova disso é o aumento no total de

acidentes do trabalho, registrado em vários

departamentos assistenciais de sindicatos.

O trabalhador dá mais do que pode, vai

para o trabalho até com febre e, para não

perder a vaga, perde até a saúde.

13


ZHVtUCJAS

60 ANOS DO COMUNISMO BRASILEIRO

GAZETA DEnOCRATICA 19/3/82

Março de 1922. Dias posteriores

às ondas grevistas de 1917 e às jor-

nadas de luta contra a guerra inter-

imporialista e em defesa da jovem

República Soviética. No dia 25, 9 dele-

gados — Abílio de Nequete. Astro-

gildo Pereira. Cristiano Cordeiro,

Hermogèneo Silva. João Costa Pi-

menta, Joaquim Barbosa. José Elias

da Silva, Luis Peres e Manuel Cen-

dóm ■— representando cerca de oito

dezenas de comunistas de vários

estados, lundaram o Partido Comu-

nista do Brasil — PCB. Surgia, então,

a organização política que viria a ter a

maior tradição e continuidade em

toda a história nacional. Atravessou

quatro décadas como organização

unitária dos comunistas. Em começos

dos anos sessenta, mudou sua deno-

minação para Partido Comunista Bra-

sileiro — PCB. Sofreu uma dissidên-

cia em 1962. que passou a se chamar

Partido Comunista do Brasil — PC do

B. Após o golpe de estado de 1964. o

Partido Comunista Brasileiro viveu

grande luta interna, e novas dissidên-

cias vieram a dar origem às organi-

zações políticas que adotaram os

caminhos da guerrilha urbana e rural

como forma de luta para por fim à

ditadura. Na segunda metade dos

anos setenta, o PCB entrou em pro-

funda crise, dividindo-se em várias

correntes internas. Simultaneamente,

novas forças assumiram o mar xis mo-

leninismo, criando uma situação, no

inicio da década de oitenta, onde

4 organizações políticas passaram a

reivindicar o comunismo e o marxis-

mo-leninismo: o Partido Comunista

Brasileiro (PCB), o Movimento Revo-

lucionário 8 de Outubro (MR-8). a

Unidade Comunista (UC) e o Partido

Comunista do Brasil (PC do B).

TRAJETÓRIA MARCADA PELA

REPRESSÃO

Nestes sessenta anos de existência

real. o movimento comunista brasi-

leiro esteve na legalidade apenas

entre 1945 e 1947. Durante 58 anos

tem vivido proscrito. alternando pe-

riódicos de brutal perseguição com

fases de semi-legalidade.

Os governos da república velfía —

Bemardes e Washington Luiz — trata-

vam a organização política e sindical

dos trabalhadores como "caso de

oolícia". Após o movimento democrá-

tico e anti-imperialista de 35. o Partido

Comunista viveu um dos seus mais

duros períodos, com massivas pri-

sões, torturas e assassinatos de seus

membros e simpatizantes. O PCB foi

praticamente desorganizado pela

policia política do Estado Novo. Seu

der mais conhecido. Luis Carlos

Prestes, ficou preso de 1936 a 1945.

sob as mais duras condições carce-

rárias. Reorganizado na Conferência

da Mantiqueira (1943). o PCB con-

quistou a legalidade em 1945. tornan-

do-se em meses o partido de maior

número de filiados no Brasil da época.

Adquiriu grande presença na vida

nacional. Com a cassação do registro

legal, em 1947, de novo os comunistas

foram alvo de perseguição. Retorna-

ram à semi-legalidade no período dê

JK. Após o golpe de estado de 1964.

nova onda repressiva. O governo

Mediei reviveu o Estado Novo. che-

gando mesmo a superá-lo em número

de prisões, torturas e assassinatos de

comunistas e democratas de outras

correntes ideológicas. Em 1975.

durante,o governo Geisel-Golbery. 10

membros do Comitê Central foram

desaparecidos. Com a conquista da

anistia e das relativas liberdades

democráticas no período Figueiredo,

o movimento comunista voltou a se

expressar publicamente, embora con-

tinuando proscrito.

JORNADAS DEMOCRÁTICAS E

NACIONALISTAS

A MARCA DO COMUNISMO

BRASILEIRO

Nestes sessenta anos a marca do

movimento .comunista brasileiro tem

sido a luta pelas liberdades democrá-

ticas, por melhores condições de vida

e trabalho para o operariado e o con-

lunto da população e pela indepen-

dência nacional. Nos anos vinte com-

bateu a oligarquia da república velha e

desempenhou grande papel na orga-

nização sindical dos trabalhadores.

Nos anos trinta constituiu-se uma bar-

reira contra a fascistizaçào do Brasil,

bloqueando a ascençào do intogralls-

mo. Nos anos quarenta desempenhou

decisivo papel na entrada do Brasil n,a

11 Guerra, ao lado das forças democrá-

ticas. Teve importante papel na rede-

mocratização em 45. desenvolvendo a

organização política e sindical dos tra-

balhadores e aprofundando as con-

quistas democráticas. Teve atuação

de proa na luta pelo monopólio estatal

do petróleo, nos anos cinqüenta. Par-

ticipou de todos os movimentos que

visavam a manutenção da legalidade

democrática — garantia da posse de

Juscelino e de Jango. Durante o perío-

do de maior democratização da vida

nacional de que sei tem noticia, no

início dos anos sessenta, fei^e ativo

papel na luta pelas reformas de base.

No pós-64. os comunistas defenderam

a frente democrática para por fim à

ditadura e redemocratizar o Brasil, e

tiveram um papei de vanguarda na luta

pelas liberdades democráticas.

O QUADRO ATUAL

No PCB a luta interna tornou-se

pública. Há divergências frente à

caracterização do momento atual da

vida brasileira. Uns defendem'a atual

etapa da revolução como democrática .

e nacional, outros como socialista. Há

divergências também em relação ã

amplitude da frente democrática

necessária de ser constituída para a

conquista da democracia. No plano

internacional, os chamados "euroco-

mumstas" condenam como 'anti-

democráticos" os modelos de socia-

lismo da URSS e dos demais países

socialistas, posição contrária a maio-

ria do Partido. Luis Carlos Prestes,

secretáno-geral por quadro décadas

(1943 a 1980). rompeu publicamente

com o PCB. não concoroando com a

formação de uma ampla frente demo-

crática e propondo a constituição de

um governo anti-imperialista. anti-mo-

nopolista e anti-latifundiáno como

alternativa à ditadura. Erte conjunto

de posições enfrenta-se no processo

de realização do Vil Congresso.

O Movimento Revolucionário 8 de

Outubro - MR-8 — assume o mar-

xismo-lemnismo e a defesa da URSS e

da Comunidade Socialista Propõe a

"realização de uma revolução nacio-

nal e democrática paia por fim ao

14

regime ditatorial e conquistar um

governo democrático-popular que

inicie a transição para o socialismo". O

MR-8 considera-se o principal partido

marxista-leninista do Brasil, "a espi-

nha dorsal da reconstrução do Par-

tido Comunista como uma organiza-

ção unitária".

A Unidade Comunista (UC). tal

como a maioria do PCB e õ MR-8.

assume-se como marxista-leninista e

defende a "URSS e a Comunidade

Socialista como a vanguarda da futa

pela paz. pela democracia e pelo pro-

gresso". Considera que "o objetivo

atual dos trabalhadores brasileiros é a

composição de uma ampla frente de-

mocrática para por fim à ditadura e

conquistar um governo democrático,

fruto da união nacional de todas as

forças anti-ditatoriais". Defende "a

revolução socialista brasileira que

entrará na ordem do dia quando o pro-

letariado organizado política e sindi-

calmente, conquistar reais condi-

ções de assumir a direção da socie-

dade brasileira". Propõe a "unilicação

de todos os comunistas brasileiros

num único partido".

O Partido Comunista do Brasil (PC

do B) alinha-se internacionalmente

com as posições da Albânia, que con-

sidera a URSS e os demais países

socialistas como "degenerados" e de

"capitalismo restaurado". Propõe a

formação de uma "frente para a con-

quista de um governo democráti^j de

unidade popular". Considera-se o

único partido realmente comunista,

taxando as demais organizações de

"revisionistas" ou "pequeno-burgue-

ses".

. A LEGALIDADE, UM REQUISITO

DA DEMOCRACIA

A ilegalidade dos comunistas brasi-

lerros é um atestado da relatividsde

das nossas conquistas democráticas.

A mais ampla liberdade de organiza-

ção e expressão política e sindical é o

requisito básico da democracia. Não

existe um único pais no mundo onde

os comunistas estejam proscritos que

não seja uma ditadura absoluta ou

relativamente fascista. Os argumentos

de que não é possível a legalidade dos

comunistas porque "eles não defen-

dem a democracia " não confere com a

realidade brasileira. Tampouco é ver-

dadeira a afirmação de que "onde os

comunistas chegam ao poder, tor-

nam-se o único partido constituído".

Tal afirmação somente se realizou em

países que foram alvo de agressões

externas visando desestabilizar o novo

regime E menos verdadeira ainda é a

afirmativa segundo a qual os comu-

nistas querem chegar ao poder pela

luta armada". Insurreições e guerras

CIVIS — sofc direção comunista — só

aconteceram em países sob ditaduras

fascistas, onde a única forma de fazer

política e sindicalismo passava ou

passa necessariamente pelo recurso

extremo à auto-defesa armada.

Continua com todo o vigor da atua-

lidade o voto dado pelo Juiz Sá Fialho,

no célebre julgamento que cassou o

registro do PCB em 1947 "No hori-

zonte da longa estrada percorrida, se

divisa, nos dias recentes das histórias

dos povos, que o desapai ocnnento

dos Partidos Comunistas dos quadros

legais coincide com o eclipse da

democracia".

(Antônio Sérgio Martins).


TtmtUCJAS 15

NOVOS DELíRIOS DO SECTARISMO

EM TEMPO 25/3/62

Por Jíslio Tavares

o nosso

ponto de

vista. Lula é

um buro-

crata e seu

interesse é

manter seus

privilégios.

Portanto,

tem interes-

ses distintos

aos dos trabalhadores. Achamos

que. nesse sentido, não existe

uma diferença de qualidade

entre ète e Joaquim". Foi exata-

mente o que li, estarrecido,

recentemente, num documento

da Convergência Socialista.

Já há vários meses que vínha-

mos sendo procurados, por

companheiros do PT. preocupa-

dos com as posições que a CS

estava expressando. Dessa vez.

além da preocupação muito

mais acentuada, nos trouxeram

documentos dessa organização.

Queriam saber nossa avaliação

sobre os pontos que di/iam res-

peito ào PT.

A Convergência Socialista foi.

na sua origem, "um movimento

que visava aglutinar os que se

reivindicavam do socialismo e

que queriam cuminhar na via de

um partido sociaüsta.democrá-

tico, massivo e profundamente

enraizado no seio dos trabalha-

dores e dos setores populares. A

este movimento coube o mérito

de, no Congresso Metalúrgico

de Lins, no início de 79. ter

puxado o lançamento da pro-

. posta de construção de um par-

tido dos trabalhadores. Foi uma

readequação da proposta de

partido socialista, não sua nega-

ção. O PT que queríamos cons-

truir — nesta época eu próprio

dirigente da CS — seria um par-

tido de massas, socialista, que

concretizasse a organização

independente dos trabalhadores.

Partíamos da visão que, com as

greves, com o novo prooesso de

luta de classes, com o novo

ascenso, tinha surgido eestava se

desenvolvendo uma corrente no

seio dos trabalhadores que

caracterizávamos como passis-

ta. Dessa corrente participavam

Lula, Marcílio, Jacó Bittar e

tantos outros. Ela era para nós a

expressão maior, mais avan-

çada, do novo proletariado. E

s^ria a única que poderia viabi-

lizar, no seu desenvolvimento

r eal. o PT. Portanto, a única que

poderia ser, de fato, a direção do

PT, neste momento.

A política que se tinha e que já

era muito débil e empírica.

Partia, portanto, de uma carac-

terização do novo ascenso da

luta dos trabalhadores e da

caracterização desta nova van-

guarda como classista.

Rompemos com a Conver-

gência Socialista em fins de 79. E

fizemos, sobre isso, uma decla-

ração à imprensa, através de um

texto. Buscávamos delimitar as

nossas diferenças. Tínhamos, no

entanto, uma base comum, que

eram as caracterizações acima

referidas. Isso, no entanto, como

lemos nos documentos que che-

garam agora às nossas mãos, foi

radicalmente mudado. Não exis-

te mais. A nova direção da CS

considera hoje que estas carac-

terizações estão entre as "mil

imbecilidades claramente opor-

tunistas" que dizia a CS naqueles

tempos: "até metade de 80 carac-

terizávamos a direção de Lula

como classista, com quem deve-

ríamos trabalhar lealmente co-

mo forma de possibilitar-lhe um

avanço cada vez maior. Tanto.

estava arraigada esta caracter-

rização que fizemos uma confe-

rência nacional para autocriti-

car-nos e mudá-la", explica o

documento.

Na nova caracteri/ação da CS

esta corrente sindicai passou de

classista para ser uma corrente

burocrática. *Portanto (diz o

documento) tem interesses dis-

tintos aos dos trabalhadores.

Achamos que. neste sentido, não

existe uma diferença de quali-

dade entre êle (Lula) e Joaquim.

A diferença com Joaquim é polí-

tica e não social".

Um absurdo! Joaquim é um

dos mais importantes pelegos,

um dos mais tradicionais e peri-

gosos traidores da classe operá-

ria da América Latina. É objeti-

vamente um agente da burguesia

no seio da classe operária, E a

direção da CS simplesmente diz

que a diferença entre eles é ape-

nas política...

"Classismo;

mi! rnibecitidadcs"

Para a direção da CS "a buro-

cracia lulisfa é socialmente parte

da burocracia pelega e como

toda burocracia não é parte da

classe operária e é historica-

mente contra-revolucionária.

Ela tem interesses distintos aos

do proletariado, estando descar-

tada a possibilidade de que essa

burocracia evolua para posições

rcvoluciopárias. quaisquer que

sejam as diferenças que tenham

com o conjunto da burocracia

pelega ou por mais progressivo

que seja o papel que cumpre".

Por isso. continua o argumento.

"... o projeto político que a buro-

cracia lulista procura concreti-

zar ao construir o PT, um pro-

jeto na melhor das hipóteses

oportunista c provavelmente

um partidoi operario-burguês. e

que este projeto e antagônico ao

projeto político dos revolucio-

nários"... " dizer que Q projeto

político da burocracia c antagô-

nico ao nosso não significa igno-

rar que estes projetos coincidem

conjunturalmente em um único

ponto, a construção do PT tomo

partido operário". E, concluin-

do, diz. "é necessário ver que

Lula por um lado constrói um

partido operário, porém cons-

trói para colaborar com a bur-

guesia. E não para colaborar

daqui a dez ou quinze anos, mas

agora. É necessário dizer que

Lula tem um projeto frente-

populista para o PT".

Por nosso lado, continuamos

a considerar a corrente sindica-

lista, da qual Lula c sua. expres-

são mais elevada, como classista.

Sua caracterização, seu papel

fundamental na construção do

PT, na construção da organiza-

ção política independente dos

trabalhadores enquanto classe

social revolucionária e aí, neste*

contexto, qual deva ser o papel

dos marxistas revolucionárias,

tudo isso os expressamos larga-

mente, não só pelas páginas do

nosso jornal, mas também atra-

vés de um caderno lançado por

nós nacionalmente: "O PT c o

Partido Revolucionário no Bra-

sil".

Explicito as nossas posições

sobre estes pontos: nós que rom-

pemos com a CS e somamos as

nossas forças às que faziam o

ET, defendemos o PT como par-

tido, e defendemos a can ri-

zação da corrente classista e seu

papel como fundamental na

construção do PT. Como uma

corrente interna do PT vemos

que entre o Projeto hoje hege-

mônico do partido e nossas posi-

ções não existe antagonismo,

mas sim "convergência". Os

desacordos, quando acontecem,

entre as nossas posições e as de

companheiros da corrente clas-

sista, nós os colocamos aberta-

mente. Muitas vezes duramente,

sem meios termos. E o fazemos,

inclusive dessa forma, porque

vemos o seu papel como impres-

.'cindivei na luta peta construção

do P1' enquanto um verdadeiro

partido. Isso ficou explícito, por

exemplo, na divergência que

tivemos em relação ao jornal do

PI quando foi aprovado, na

direção nacional, um projeto

que víamos como não o melhor,

como o que tinha mais dificul-

dades de ser viabilizado rápida e

massivamente.

Grupos não estaiinistas,

cada vez mais sectários

Para nós a corrente classista

vai muito além das suas direções

sindicais, propriamente ditas.

Estas, no entanto, ainda tem

uma importância fundamental

na expressão e consolidação da

mesma. Essas direções sindicais,

e principalmente Lula, são a ex-

pressão mais nítida do movi-

mento e desenvolvimento de

à


TElWf.NCIAS

continuação da

da paç;ina anterior

NOVOS DELÍRIOS. . .

uma nova vanguarda de ativis-

tas, de combatentes. Uma van-

guarda desigual, tanto regional

como setorialmente, tanto polí-

tica como onjanicamente. O seu

desenvolvimento político e ideo-

lógico mais completo só foi, e só

é possível, por novas condições

estruturais e políticas. Entre

estas, a profunda crise do

regime, crise que é cada vez mais

global. Crise que tem uma das

suas expressões na impossibili-

dade dos panidos burgueses,

com o ; poio dos seus aliados

reformistas e pelcgos, canaliza-

rem o descontentamente do

movimenta operário e popular

para uma alternativa burguesa

global ao regime militar. E essa

impossibilidade se dá, inclusive,

pelo surgimento de uma corren-

te que, ainda que no seu primei-

ro momento fosse obreirista, no

seu desenvolvimento foi enten-

dendo que enfnecessário os tra-

balhadores se organizarem poli-

ticamente de forma independen-

te. Uma corrente que surge e se

desenvolve não só independente

dos partidos auto-proclamados

"únicos e verdadeiros" partidos

revolucionários da classe operá-

ria, PC e.PC do B, mas em nega-

ção a eles. E sem ser compreen-

dido por muitos grupos da es-

querda não estalinista, pelo

menos em toda sua profundi-

dade e potencialidade. Quanto

aos "partidos"'estaünistas, o sur-

gimento e desenvolvimento da

corrente chssista expressa, mais

uma vez, objetiva e abertamente,

que estão fracassados historica-

mente. Para os grupos não

estalinistas, que não compreen-

deram o fenômeno do surgimen-

to e desenvolvimento dessa cor-

rente, eía tem sido um dos fato-

res, um dos motores, de suas

crises internas.

O caso da CS é especial, tem

peculiaridades próprias. Tinha

uma compreensão, que poderia

até ser ainda limitada, do signi-

ficado dessa corrente, mas a

negou. Algo realmente trágico.

, Infelizmente,

A QUESTÃO DA LEGALIDADE

DO PCB

VOZ DA UNIDADE 25/3/62

Salomão Malina

A Resolução Política do Comitê Central do PCB, de

maio de 1979 que aparece publicada no volume

PCB, Vinte Anos de Política, 1958/1979. Ciências

Humanas, S, Paulo. 1980 -, afirma explicitamente que.

"enquanto não for conquistada a legalidade do PCB. a,

democracia estará mutilada", e que "o reconhecimento do

d.reiio à organização legal dos comunistas significará

uma decisiva vitória do conjunto das forças que lutam

contra o regime c por uma soiução democrática para a'

situação do pais"

Nesta formulação, que boje nos parece mais valida do

que nunca, estão contidas duas probiemalicas a

específica dos comunistas e a do conjunto das forças

democráticas.

Realmente, a legalidade do PCB. é de um lado. um

problema particular do^ comunistas. As condições da

vida social brasileira já demonstraram, a nosso ver, d»,

forma mais que suficiente que a conquista do direito a

eúsíencia legal do PCB é. hoje. uma condição essencial

para que oa comunistas construam um grande partido,

popular •.■ democrático, revolucionário c dr ruassav

Entendemos que a luta peta legalidade envolve, natural-

mente, o combate às várias modalidades de anti-

comunismo; a legalidade estritamente jurídica (o registro

partidário) é o requisito para que os comunistas possam

superar os anacronismos que impedem a sua plena

participação política, social e cultural.

Mas, de outro lado, a questão que aparece como

específica dos comunistas interessa ao conjunto das

forças democráticas. Na medida em que a repressão e a

discriminação dos comunistas é o traço comum e

unificador de todas as tendências autoritárias e ditatoriais

brasileiras, o combate conseqüente a estas tendências

implica, obrigatoriamente, a defesa da legalidade para o

PCB. Para o conjunto das forças democráticas, portanto,

a existência legal do PCB relaciona-se à sua própria

condição: a legalidade do PCB é uma garantia para a sua

plena liberdade de ação (aliás, o exemplo de unidade que

os comunistas vêm dando à frente democrática neste país

é o aval do seu compromisso com a democracia). Por isto,

aqueles segmentos da oposição ao atual regime que não

estendem ao PCB a reivindicação da legalidade ainda não

se conscientizaram dos verdadeiros problemas da vida

política biasileira.

16


TEUVtNCJAS 17

continuação da página anterior: A QUESTÃO

Aqui. é preciso dar destaque, ainda, à manipulação dos

preconceitos anti-comunistas pelas forças reacionárias.

Sempre que se quis conter ou liquidar os movimentos

progressistas, o pretexto foi o anti-comunismo. E este

pretexto nunca aimgiu apenas os comunista^ oi e é í,

sistemática menu- insTrumentâU/ado contra ■••ia- as."

forças democráticas ( ombater o anti-comuiu!.nio pcns,

e uma tarefa de ««)d> - >-, democratas brasilenoi.. .iuaiquer ■

que seja o seu enqiiadramentu ideológico

F evidente qiR a ilisrassão sobre a legalidade IO PCB

p vii!' /;.. vi.H. : !'.\'ao

brasileira, a ^oí-jiiáí; coniunista v-n.r ..': ,

resumiodo em > ia a extensão doi>i»iíuco>

que yivemo* •.-onstitui o núcieiv de ^ursiSo

democrática. í n- Jos traçtis ma;- anactcrissa» da

formação .sócia; brasileira tem sido a capacu ...Je Ja-,

classes dominantes dc.excrcerem a sua dominaçâojH>líüca

de uma forma excludente — elas sempre encontraram

mecanismos que marginalizam o povo do processo da

intervenção política. A questão democrática brasileira.

hoje mais agudamente que ontem, põe-se exatamente

nestes termos; manter esta forma de dominação (que

pode adquirir matizes mais ou menos liberais, mas

sempre adjetivos) ou substituí-la. No primeiro caso, a

questão democrática não se resolve, perpetuando-.se nun,

dilema abalado intermitentemente pelas "sistoles e

diástoles" (para retomar a imagem do general Golbery)

do tradicional golpísmo brasileiro. No segundo.

solucióna-«e a questão democrática, com uma ruptura

radical e qualitativa na nossa vida política.

Ora, a solução da questão democrática, abròidu 05

espaços para a intervenção política organizada das

grandes massas trabalhadoras (que têm o seu eixo de

gravidade centrado no proletariado urbano), supõe a

existência legal e plena do PCB, como o partido político

que expressa os interesses globais e históricos da classe

operária. Sem este pressuposto, será impossível reverter o

IWTERNACIOWÂL

MORTES E VIOLÊNCIA NA ELEIÇÃO SALVADORENHA

FOLHA DE S. PAULO

Clóvis Rossi,

Enviado especial

SAN SALVADOR - Mal o Sol se le-

vantou detrás do vulcão de San Salva-

, dor.oue domina toda a zona Norte da

cidadecomeçou um inferno de fogo e

sangue que acabou se transformando

,emuina parte importante das elei-

ções na capital deste devastado país

centro-americano. A guerrilha ata-

cou com toda a força os bairros-

satéíites de Cuscatancingo, Mejíca-

nos. Ayutuxtepeque, San Antônio

Abad e mais uma parte de Cíudad

Delgado, além da cidadezinha de

modelo excludente que, ao discriminar o PCB,

discrimina, de um modo ou de outro, todos os partidos

democrán. ■ >.s que procuram responder, progressista e

coerentcnu-f.U' aos aiiNfios do povo brasileuo.

O SOCM '.sino. tanibcm, não c mais u: a aspiração

exclusiva i-i classe operária. Sob o capitalismo dos

monopólios significativo;* setores da população como

as camaua- nédias utoana^. os nleicctuais podem

encontra; '■■■ socialism* a melhor alternativa para as

ma/elas ■•n-a íávei> d. sistema capitalista. Por isto

mesmo, a cgaiidade & PCB, partido que desde a sua

ongcft! envti:na >>s ideais sociaiuitas no Hrasü, atende .;

nci. .■Ssid.u!'

centrada 1.

un..

expressa-

posvhiii'. •

!. .oini.u:

pelo proíi'

Apopa, a 12 km de San Salvador, blo-

queando o processo eleitoral pelo me-

nos em Cuscatancingo e Apopa. Em

San Antônio Abad, dò^ guerrilheiros

foram mortos pelo Exército, inclusi-

ve uma mulher. Todos mostravam si-

nais de um tiro na cabeça e o sangue

se espalhava peia rua, manchando

até a placa de um caminhão estacio-

nado nas imediações.

Salvo em Apopa, uma tensa calma

descia sobre a cidade por volta de 14

horas, porque a guerrilha iniciou a re-

tirada, considerando cumpridos os

seus objetivos.

Até o momento em que escrevo (12

horas em El Salvador, 15 no Brasil),

ic expressã-i de uma .ontade rK>Ktica que

.:,-,T!,! fomwção social marcada pela "v ;

prussiana ':■• to; pos&ivd isolá-los e liquidá-los. O s

cnraizamenio na sociedade brasileira, portanto. coloc.Yai

questão da sua legalidade como situada muito além ua

"ilusão de classe": é uma possibilidade objetiva e concre-..

da qual podedepender, em boa medida, a própria

conquista do socialismo no Brasil.

náo havia um balanço oficial de mor-

te» e feridos, mas a Cruz Verde infor-

mou à "Folha" que só em Cuscatan-

cingo houve sete mortos. E, em Ayu-

tuxtepeque, ficou ferido o cinegrafis-

ta chueno Carlos Rus, 47 anos, do ca-

nal 7-TV Educativa, que caiu na linha

de fogo e recebeu três tiros, um na

garganta, outro no peito e o terceiro

no braço. Rus está no Hospital Rosa-

les e a Cruz Verde considera "regu-

lar" o seu estado.

Na zona Sul, entretanto, a votação

se desenvolveu normalmente, com

longas filas de eleitores esperando na

porta dos colégios, onde estavam ins-

taladas as seções eleitorais, que tra-


WTmUACJOKAL 18

continuação de página anterior; MORTES E VIOLÊNCIA

balhavam em ritmo lento, dada a

complexidade do mecanismo de vota-

ção: primeiro, os fiscais verificavam

È3 a cédula de lâe^Utede tío votaittc

já r 2ó havia sido marcada, com tinta

isdslàvel e iavisívei, com a frase "ya

voto". Para descobrir a marca, o fis-

cal usava uma lanterna de luz ultra-

violeta, única possibilidade de desco-

brir a frase-código. Depois, entrega-

va ao eleitor a cédula com os seis

símbolos coloridos dos partidos con-

cerrantes e, depositado o voto na ur-

ca de vidro, que o deixava à mostra,

riscava o dedo do cidadão com a mes-

ma tinta, em um segundo item de

ideatíficação, para evitar que a mes-

ma pessoa votasse duas vezes (como

r&am registro eleitoral, cada um vo-

tou onde quis e, sem a tinta mágica,

poderia depositar quantos votos dese*

jasse, em diferentes seções

eleitorais).

Os incidentes em outros pontos de

San Salvador também aconteceram:

uma bomba no colégio Francisco Me-

nendez, importante ponto de votação,

por exemplo. Mas os combates esti-

varam efetivamente concentrados na

zesa Norte, um aglomerado de bair-

rca populares que" a guerrilha já ha-

via atacado há 19 dias, chegando a to-

mar a prefeitura de Cuscatancingo.

Lá, comentava Edgar Cornejo

Kaz, fundador da Cruz Verde, ao re-

gressar de uma missão de resgate,

n n3o se pode entrar. Só se ouvem

bombas c balas". E ora a pura verda-

de: intenso tiroteio mantinha o bair-

ro, de sete mil pessoas, isolado e sem

votação alguma. Das colinas, uma

coluna guerrilheira de aproximada-

mecte 180 homens, sob o comando de

"comandante Chepe", chegava a de-

safiar os soldados pelo rádio, interfe-

rirão na onda do Exército

"Perros, desejeri de luchar por los

yackis, uiian-se a nosotroe", gritava

"Cfeepe" ao rádio,sem obter qualquer

resposta.

Ele e seus homens iniciaram a reti-

rada pouco antes do meio-dia, em di-

reção ao cerro de Guazapa, o vulcão

extinto que parece um inexpugnável

santuário guerrilheiro.

Em Mejicanos, ao lado de Cusca-

tancingo, balas e votos se mistura-

vam, gerando pânico nas pessoas.

Gilberto Suarez, membro da Junta

Eleitoral Municipal, admitia que 60

por cento dos mesários não haviam

comparecido, com medo. Por isso, a

votação se arrastava ainda mais len-

tamente e muitas mesas só abriram

por volta de 9 horas, duas horas de-

pois do horário oficialmente determi-

nado. Uma delas se instalou nos fun-

dos da escola "República dei Japon",

tendo ao fundo, na parede verde, uma

inscrição rebelde: "Organizemonos

para Ia Lucha — Solo Combatiendo

Triunfaremos."

O VOTO A PÉ

O sistema de transporte coletivo

não funcionou, tal como se imagina-

va,e os eleitores que náo têm carro se

deslocavam a pé em busca dos pontos

de eleição. Na Troncal dei Norte, a

estrada que leva à zona norte do pais,

a falta de transportes oferecia um

cenário impressionante: centenas e

centenas de pessoas caminhavam pe-

la estrada, rumo aos pontos de vota-

ção, ou em Ciudad Delgado, bairro

periférico da capital, ou em Apopa,

cidadeziaha a 12 km de San Salvador.

Com isso, a Troncal se transformava

de estrada em rua para pedestres.

E pedestres aterrorizados, que pa-

ravam os carros da imprensa inter-

nacional, únicos a circular, pedindo-

lhes informações sobre a situação. As

informações não eram boas, eviden-

temente: a guerrilha sitiara a Escola

Vicente Acosta, único local de vota-

ção em Apopa, desde as oito horas da:

manhã, e tiroteios intermitentes mas

intensos se travavam, afugentando os

eleitores. Formavam-se, então, duas

(«--tentes na Troncal dei Norte: uma'

vüia para San Salvador, desistindo

de votar ou procurando as urnas da

Ciudad Delgado, e outra ainda cami-

nhava rumo a Apopa, onde, at^ "^io-

dia, as urnas permaneciam fechadas.

Na altura da Colônia San Antônio,

no Km 11 da Troncal. a estrada esta-

va interrompida pela aglomeração ás

gente, que fugia do tiroteio ocomdo

no bairro de casas humildes. San An-

tônio faz parte de Ayutuxtepque, ou-

tra das cidades-satélites de San Sal-

vador onde os tiroteios foram Inten-

sos — e o ponto onde ficou ferido o ci-

negrafista chileno.

No QG da Cruz Verde, o rádio e os

três telefones não paravam de tocar

um só minuto — e geralmente trans-

mitindo informações codificadas co-

■ mo 10-35, .indicação para "enfrenta-

miento". Ás ambulâncias com as

bandeiras brancas e as cruzes verdes

disparavam para todos os pontos

3uentes, retirando feridos ou aten-

endo pessoas que passavam mal.

"Até às 4h30 da madrugada, só

havíamos atendidos casos de mater-

nidade, depõe Rogelio Cabrera, res-,

ponsável pelo posto. Mas. depois, co-

meçaram as enamadas do 10-35, que,

não pararam mais.

Até um dos homens da Cruz Verde,

Nelson Campos, 1» anos, ficou ferido,

ao receber um tiro na perna, durante

os combates em Mejicanos. E os cha-

mados não se limitavam ao 10-35; ha-

via também o pânico dos eleitores a

gerar feridos, como aconteceu na es-

cola "Republica dei Brasil", perto do

Zoológico. Ali, havia tanta aglomera-

ção de gente que os eleitores começa-

ram a temer um ataque da guerrilha

e a empurrar-se uns aos outí w até

que uma senhora gorda caiu ao s0lo e

foi pisoteada pelos ansiosos eleitores.

Bombas, até meio-dia, Haviam

duas, segundo registros da Cruz Ver-

de: a do Colégio Francisco Menen-

dez, a poucas quadras do QG da "qui-

pe de socorro, e nas imediaçc-- do

r 'Liceo Cristiano". N,

GUERRA SERÁ TOTAL SE A EXTREMA DIREITA VENCER

FOLHA DE S. PAULO 23/3/82

SAN SALVADOR (Do enviado espe-

desfilaram nos ultime» meses os con- combatem e são combatidos pela escial

Clóvis Rossi) - Em 1932, o presi-

juntos de "mariachis" tocando típicas qu&da política e militar, cujo volume

dünte salvadorenho, Maximiliano Her- "cumbias" para animar a campanha cresceu extraordinariamente em funnsrdaz

Martinej, "El Brujo", mandai

eleitoral dos seis partidos que disputam ção da violência institucionalizada emincluir

no Código Penal um artigo pelo vagas na Assembléia Constituinte a ser pregada contra a população durante 50

qual se condenava à. prisão quem ma-

eleita hoje — a grande esperança da anos de regimes militares impenítentes

tasse uma formiga. Entrevistado pelo

Democracia Cristã e do governo norte- e pela injustiça social representada pe-

"New York Times", o ditador de turno americano de devolver aos homens o lu- lo virtuaT controle do. pais pelas "14

exilícou: "E, um crime maior matar gar de privilégio ocupado pelas formi- famílias", que, na verdade, são poucas

uma formiga do que um homem, por- gas em El Salvador.

mais (290 a 250).

que o homem, ao morrer, reencarna e a

Uma esperança extremamente O principal representante da,

formiga merre definitivamente.,

tênue, porque, à marcha fúnebre e aos extrema direita é o ex-major Roberto

Nos^SO anos seguintes,- as formigas '-mariachis", há que acrescentar D' Aubudsspn, 38 anos, definido pelo excontinuaram

a ter melhor sorte do que também os boletins do "Plomo Infor- embaixador norte-americano em San

cs seres humanos neste país de 5 «ü- mativo", o noticiário da Frente Fara- Salvador, Robert Wbite. como um

íhõfts de habitantes e do tamanho oe

bundo Marti de Libertação Nacional, a "matador psicopata". D'Aubuisson

Sergipe (21 mil km quadrados), o me- coligação formada no ano passado pe- criou, para as eleições, a Aliança Repunor

e o mais densamente povoado da

las quatro organizações guerrilheiras blicana Nacionalista (Arena), que seus

América Central: ao terminar 1961, o

que, desde o início dos anos 70, lutam inimigos políticos consideram a versão

Socorro Jurídico do Arcebispado deSan, contra o regime. Ê a presença e a força eleitoral dos "esquadrões da morte"

Salvador contabilizava 1.200 assassina- da guerrilha que dá às eleições carac- cuja paternidade se atribui também a

tos por mês, uma sangria talvez sem terísticas inéditas, só encontráveis aqui ele. Sua plataforma é simples: "Com o

precedentes na recente Históna

e na Guatemala: nas umas, a extrema povo e as Forças Armadas unidas em

Universal.

direita, herdeira de Maximiliano Her- um governo forte, em três meses, o país

Agora, os cadáveres continuara apa- nandez e entrincheirada em seus pri- poderia ser pacificado."

-recendo todas os dias, ém tenebrosas vilégios, enfrenta um centro empalide- A Democracia Cristã, principal rival

pilhas, tão rotineiras que não merecem

cido, empenhado em reformas tímidas eleitoral da Arena, calcula que a pacifimais

que pequenas notas nos jornais do e no desejo de fazer a civilização predo- cação de D' Aubuisson custará as vidas

mundo inteiro. Mas a marcha fúnebre minar sobre a selvageria na vida políti- de 500 mil salvadorenhos — e aplainaiá

não soa isoladamente. Ao lado dela. ca. Além das urnas, direita e centro

7


IMTERNACIOWAL

continuação da página anterior: GUERRA SERÁ TOTAL

ria de vez o caminho para a vitória da

guerrilha- Em todo caso, D'Aubuisson

nâo está sozinho à direita: com os mes-

mos ideais, aparecem o Partido de Con-

ciliação Nacional, criado em 1961 para

legalizar a permanência dos militares

no poder, o Partido de Orientação Po-

pular, liderado por José Antônio Me-

drano, o criador da Orden, o grupo pa-

ramilitar incumbido de impor a paz Sãs

cemitérios na área rural, e o Partido da

Ação Nacional, que como a Arena atrai

os empresários


IMTE^MCIÚNAL

continuação da página anterior: GUERRA SERÁ TOTAL

na e na prática: na teoria, os cinco ou

seis mu homens em armas exigiriam,

de acordo com a clássica regra de dez

soldados para cada guerrilheiro, um

exército de 50 ou 60 mil homens. E o

Exército salvadorenho, incluindo as

forças policiais, não passa dos 20 mil

Na prática, o que se vê é que o

Exército no máximo empurra proviso-

riamente a guerrilha de alguns san-

tuários para as montanhas, mas ela

volta, até mais forte, dois ou três meses

depois.

Resta saber sé a hipótese inversa — a

guerrilha bater o Exército —é viável O

crescente auxílio norte-americano, o

retorno dos 1.600 soldados especialmen-

te preparados nos Estados Unidos, uma

PMqulto do

BANCO DE DADOS — "TOIHA"

Estimativas moderadas indicam

que por volta de 35 mil salvadore-

nhos já pereceram durante a guer-

ra civil desencadeada em 1977. Ê

muito, sobretudo quando se leva

em conta que o país tem 4,3 mi-

lhões de habitantes e uma su-

perfície só três vezes maior que a

Grar-ie Sâo Paulo.

Eis uma cronologia sumária da

escalada da violência.

1977

Janeiro — Comando do Erp —

Exército Revolucionário do Povo

— seqüestra Roberto Poma, dire-

tor de Turismo do governo e exige

resgate de 1 milhão de dólares. O

resgate foi pago, mas Roberto Po-

ma foi morto pelos seqüestradores.

Abril — o chanceler Maurício

Borgonovo é seqüestrado por mem-

bros das Forças Populares de Li-

oertaçâo Farabundo Marti — FPL

— que exigiam a libertação de ^37

presos políticos. O corpo do seqües-

trado é encontrado dia U de maio,

crivado de balas, nos arredores de

San Salvador.

13 de maio - A "União Guerrei'

ra Branca", organização de direi-

to, que Já havia assassinado o pa-

dre Retulio Grande, volta a matar.

Desta vez foi o jesuíta Alfonso Na-

varro Oviedo e um adolescente,

vingando a morte de Borgonovo.

14 de Julho — O coronel Osmin

Aguirre, de 82 anos, ex-presidente

de El Salvador, é assassinado por

comando da FPL em frente de

sua casa.

17 de setembro — Em novo ata-

que, membros da FPL matam o

reitor da Universidade Nacional de

El Salvador, Carlos AlfaroCastillo.

30 de outubro — Durante o enter-

ro tíe dois grevistas, mortos pela

policia dois dias antes, um grupo

armado atacou a polícia e matou

dois policiais. 1978

^ ,1.' de Janeiro — A Embaixada do

eventual memona do ambiente político

em função das eleições (ainda que de

legitimidade mais que discutível) — tu-

do isso parece indicar que também essa

alternativa é de difícil concretização,

ao menos a curto prazo.

O mais lógico, portanto, seria a via da

negociação, para a qual se conhecem

apenas os termos da oposição político-

militar: a depuração das Forças de Se-

gurança e um governo "amplamente

representativo" de todos os setores

econômicos e sociais dispostos a parti-

cipar de uma solução negociada, segun-

do Guilíermo Ungo.

Não está claro se há, de fato,*setores

econômicos dispostos a apostar na ne-

gociação. A história salvadorenha,

A ESCALADA DE ASSASSINATOS

FOLHA DE S. PAULO 2-9/3/82

México em San Salvador é invadi-

da por grupo armado pertencente à

Frente de Açáo Popular Unificada

— Fapu — que ocupa também um

escritório da OEA, sede da Cruz

Vermelha e fazem 150 reféns. É

exigida a libertação de todos os

presos políticos do país.

197»

29 de janeiro — Um grupo de di-

reita invade uma igreja de San Sal-

vador e mata o padre Ortis Luna,

que dava aula de catecismo.

9 de maio — Reprimindo mani-

festação em favor dos ocupantes

das embaixadas da França e Costa

Rica, a polícia mata 21 participan-

tes da mesma. Mais 6 pessoas mor-

rem no dia seguinte, quando nova -

manifestação é realizada.

39 de maio — Hugo Wey, único di-

plomata suiço em El Salvador é

morto quando deixava sua casa, no

bairro de Escalón, em San

Salvador.

14 de setembro — A jornalista

norte-americana Kathy Boker é

morta quando cobria uma passeata

no centro de San Salvador.

1980

24 de Março — O arcebispo de

San Salvador, d.Oscar Romero, de

63 anos, é assassinado numa capela

durante a celebração de uma mis-,

sa. Dois dias defwis explodiam 27

bombas em todo o pafe, numa açâd

tida como represália da esquerda

a»tra a direita, acusada da morte

doprelado. ■ '

26 de Março — Morrem 100 pe&

soas, em todo pais, durante os pro-

testos contra o assassínio do arce-

bispo Romero.

31 de Março — A Guarda Nacio^

nal e a polícia matam 40 pessoas a

ferem 200 na praça Barrios, em

frente a Catedral Metropolitana de,

San Salvador durante o enterro dó

prelado.

14 de Julho — Agências interna-'

cionais informavam que haviam

morrido em El Salvador, desde o

20

aliás, evtaencia o contrário: o empresa-

riado se entrincheirou em privilégios e

na manipulação do poder político até le-

var à situação-limite que o pais hoje vi-

ve. Estes setores se expressam pela

Arena de D^ubuisson, pelo PCN e pelo

POP, cujas campanhas eleitorais se ba-

searam exatamente na tentativa de de-

monstrar que o reformismo da DC só

arrasará o país.

Como as Forças Armadas tampouco

parecem preparadas para aceitar pas-

sivamente uma depuração que afaste

chefes como o general Guilermo Gar-

cia, o panorama fica suficiente obscuro

para que se tema que as formigas conti-

nuarão a viver melhor que os seres hu-

manos em El Salvador.

início do ano, 3.313 pessoas em con-

seqüência das lutas políticas.

18 de Julho — Explode bomba de

alto poder no gabinete do embaixa-

dor da Nicarágua em El Salvador,'

A embaixada estava ocupada, há 6

dias por 212 camponeses que bus-

cavam proteção contra a policia è

a Guarda Nacional.

5 de Dezembro — Quatro freiras

norte-americanas da Ordem

Maryknoll, Ita Ford, Maura Ciar:,

ke, Dorothy Kazel e Jean Donovam

são mortas a tiros. O exército é

acusado da matança.

6 de Dezembro—A Anistia Inter-

nacional acusa o exército de San

Salvador de ter morto 6 lideres da

oposição. a,

1981

5 de Janeiro — O presidente do

Instituto Nacional de Reforma

Agrária de EI Salvador, Rodolfo

Vieira, e os técnicos norte-

americanos, Michael Hammer e

Mark Peariman, são mortos a tiros

por dois homens na lanchonete do

hotel Sheraton, em San Salvador.

25 de Julho —.Os corpos de 8S

pessoas decapitadas são localiza-

dos nas cidades de Santa Ana e

Sonsonate. O crime é atribuído a

grupos paramilítares de direita.

1982

3 de Março — O major Roberto

DAubisson, líder da extrema-

direita, sofre dois atentados no dia

anterior: o primeiro na cidade de

San Vicente, quando descia do seu

helicóptero. Quatro soldados mor-

reram e o major saiu ileso.

19 de Março — Os jornalistas ho-

landeses, Jacobus Andries Koster,

Hans Lodewij, Jan Cornelis Ghuis-

per e Johannes Willensem morrem

na província de Chalatanango, no

Norte de El Salvador quando tenta-

vam documentar combates entre d

exército e os rebeldes. J.â.


IMTERNÂCIOMAL

E L SALVADOR

Um país ensangüentado e espezinha-

do caminha hoje para um simulacro de

eleição que nada promete de válido para

a definição do seu destino.

Os dados, neste raso, foram lança-

dos muito antes — e mal lançados, sobre-

tudo a partir do enfoque dado à América

«entrai pela diplomacia tnilitarizada do

Departamento de Estado.

A crise centro-americana estava pa-

ra explodir há muito tempo — e os El A,

neste panorama, terminaram de perder

as condições morais e práticas de exercer

influência quando prolongaram inutil-

mente a agonia do regime insustentável

de Anastasio Somoza.

Somoza, no caso, foi o último de

uma série de tiranos e tiranetes que os

EUA tiveram a veleidade de apoiar —

por comodismo ou por incapacidade de

olhar com mais penetração e sutileza

para uma realidade afinal tão próxima.

Essa trágica incompreensão trans-

formou a América Central numa das

regiões mais infelizes do mundo — opri-

mida pela simples proximidade de um

gigante econômico e obrigada a suportar

(muitas vezes por interferência desse gi-,

gante) — os Somozas, os Batistas, os

Trujülos, os Duvaliers.

O fim de Somoza e o destino subse-

qüente da Nicarágua poderiam ter servi-

do de alerta aos artífices da diplomacia

norte-americana. Não serviram — como

se pode deduzir, dentre outros fatores,

pela intensa atividade que anda desen-

volvendo o General Vernon Walters.

Seria uma lástima confundir o Gene-

ral Walters, pessoa de reduzidíssima en-

vergadura intelectual, com um diploma-

ta. Mas em diplomata, pelo visto, está

transformado o General Walters, o que é

«m grosseiro subproduto do equívoco a

que se deixou atrair em pouco tempo a

política externa do Governo Reagan na

América Central.

Estamos de volta aos círculos infer-

nais do passado. Derruba-se o Governo

na^Guatemala, como se derrubara, em

1954, o Governo Arbenz — depois do que

a Guatemala se transformou em um dos

muitos matadouros centro-americanos.

Conseqüência de um enfoque '"anti-

eomunista" que elimina as nuanças, de-

turpa os problemas, cega o entendimen-

to. Se revoluções "anticomunistas" na

EDITORIAL DO JORNAL DO BRASIL

26/3/62

América Central resolvessem alguma coi-

sa, desde 1954 a Guatemala teria ingres-

sado no caminho da tranqüilidade e da

paz. Enveredou pelo caminho contrário.

El Salvador pode não ser "um novo

Vietnam". Há diferenças óbvias entre os

dois casos. Mas há, no mínimo, erros

comuns — como o de supor que, no

Vietnam, estava-se combatendo, por pes-

soas interpostas, as grandes potências

comunistas — União Soviética e China.

Não era verdade: o motor da guerra era o

impulso de Hanói no sentido da reunifi-

cação do país — impulso tão forte que foi

militarmente bem-sucedido, embora des-

de então (como previra Mao Tsé-tung em

convertes com Ho Chi-minh) o país te-

nha-se tornado economicamente enfer-

mo. Nesses casos, como é óbvio, a URSS

aproveita para ajudar.

Também em El Salvador, os EUA

preparam-se para combater fantasmas

i— e para cometer erro sobre erro. O

equívoco já assume proporções grotes-

cas: o Kissinger regional da diplomacia

americana é o General Vernon Walters,

de reíenda e comprovada pequenez de

horizjafttes.

A custa do esforço de modelar os

fatos, o Sr José Nepoleón Duarte foi

transformado em "homem de centro". A

verdade é que ele não tem qualquer sinal

que o diferencie num cenário marcado

pela evolução de "esquadrões da morte"

que escolhem tranqüilamente os seus al-

vos. Entre estes foram incluídos, nos

últimos dias, quatro jornalistas — sacri-

ficados porque cumprem e sua missão de

divulgar o que se passa.

Com esta grande encenação — que a

farsa eleitoral ajuda — quer-se apressar

a fatídica entrada americana: não tanto

para ver chegar os marines* como para

pôr a mão em "Ia plata americana , ^

ansiosamente desejada e esperada —

como em Saigon. Com essa plata pode-se

fazer tudo — até comprar armas novas,

que —- como em Saigon — terminam

tomando destino oposto ao previsto. En-

quanto os cadáveres se empilham, salva-

dorenhos e guatemaltecos — os atores do

momento — tornados ardilosos pelo so-

frimento e pela desesperança, brincam

com os dedos que lhes são estendidos pelo

protetor sobranceiro e ludibriávei.

O terror "anticomunista" é o biom-

bo para todas as aventuras e todos os-

abusos.

21


JNTEWACIÕHAL

continuação da página anteriDr: EL SALVADOR

Desconfiava desse degfecho o Coro-

nel Majano, membro dito liberal da Jun-

ta salvadorenha afastado do Governo no

fmaí de 1980 quando ainda parecia haver

em EI Salvador uma tênue possibilidade

de "reconciliação nacionar. Falava-se,

naquela época, em diálogo entre a Junta

imbuída de propósitos reformistas e uma

Frente Democrática Revolucionária que

incluía praticamente de tudo, de empre-

sários a guerrilheiros. O diálogo foi cor-

tado pelo assassinato de cinco líderes

significativos da Oposição de esquerda —

e Majano foi empurrado para fora do

Governo.

Pouco depois, abriu-se novamente

uma possibilidade de diálogo com o fra-

casso da "ofensiva final" decretada pela

guerrilha. Mas nesse momento, o Secre-

tário de Estado Alexander Haig resolveu

''traçar a linha" de contenção da "ex-

pansão soviética" — exatamente em ter-

ril:'>rio salvadorenho.

Desde que se traçou essa Unha, as

coisas tornaram-se muito mais confusas

na região e em El Salvador.

Agora, fala-se novamente em diálo-

go. Diálogo de quem com quem? Negocia-

rão os EUA por intermédio do México,

país-protótipo da corrupção interna e da

ambivalência externa? Não se vê em que

isso poderia ajudar: os EUA não têm

condições morais de encaminhar esse

debate, tendo em vista políticas ainda

recentíssimas com o apoio a Somoz» e a

desenvoltura como que o General Wal-

ters continua a articular revoluções "an-

ticomunistas" totalmente ineptas neste

contexto.

Para atenuar o seu mal-estar, os

atuais artífices da política americana

argumentam com a "intensa militariza-

ção da Nicarágua", que seria "excessiva

para as suas necessidades defensivas".

Curiosa situação, em que os EUA se

encarregam de avaliar as necessidades

defensivas da Nicarágua. Que cálculo é

esse, tendo em vista o desproporcional

poder de fogo de que os EUA dispõem

não só frente à Nicarágua, como em

relação á região como um todo?

Na raiz de todo este terrível imhro-

glio é provável que esteja o fato de que os

atuais articuladores da diplomacia norte-

americana são pessoas sem a necessária

sofisticação para o cargo. O "jogo pesa-

do" do General Haig não parecia tão

impróprio quando ele era Comandante

das forças da OTAN: a OTAN já se ia

inferiorizando frente ao Pacto de Varsó-

via; e no cenário europeu, séculos de

tradição diplomática ajudavam a filtrar a

impulsividade deste Cipião americano.

Transposto para a América Central,

o enfoque generalizante de Haig produ-

ziu desde o início uma impressão penosa

de total desproporção entre os métodos e

os objetivos. Houve alarme nas Capitais

européias — de que ainda se sentiam os

efeitos retardados na recente virita do

Ministro alemão Hans-Dietrich Genscher

a Washington. Falando da América Cen-

tral e do resto do mundo, Genschcr

parecia querer transmitir aos norte-

americanos a importância de um certo

sangue-frio na análise do cenário inter-

nacional. Lembrou que se os EUA têm

problemas, a União SovMtica não está em

situação mais confortável, com a crise

não resolvida da Polônia, com a resistên-

cia afegã, com o novo rosto enigmático da

China e com o artritismo econômico que

afeta todo o bloco socialista. Poderia ter

acrescentado que depois do exemplo

cubano, a URSS não se mostre disposta a

aceitar novos dependentes numa ragiâo a

que, por motivos óbvios, só costuma

conceder uma prioridade insignificante.

Os EUA ganhariam se aprendessem

com os europeus, a arte da acomodação,

do julgamento em perspectiva, desapai-

xonado.

Em vez disso, parecem arrastados

novamente, na América Central, a um

velho e malfadado instintivismo, à febre

dos julgamentos peremptórios. O proble-

ma da América Central ' a infiltraçào

comunista? É muito mais o de uma região

esmagada, onde geração sobre geração

aprendeu a conviver com a violência e a

desprezar o poderoso visinho, de atitu-

des incompreensíveis e tantas vezes injus-

tificadas.

Sobre este terreno, o General Haig

não construirá a sua Muralha de Adria-

no. O Secretário de Estado pode ser um

bom patriota — como dia o ex-Secretário

Kissinger. Mas não conseguiu mostrar

que é um diplomata. Confiar ao General

Walters a coordenação da política cen-

tro-americana é programar a repetição

— agravada pelo tempo" decorrido — de

todos os erros norte-americanos na Amé-

rica Central.

22


I«TERWACIOMAL

SÔ OS PARTIDOS DE DIREITA CONCORREM

San Salvador (do correspondente) —

Os salvadorenhos que forem votar hoje não

saberão em quem estão votando, pois so-

mente listas parciais de candidatos foram

divulgadas, restritamente, depois de encer-

rada a campanha de propaganda eleitoral.

Mas, estarão votando nas idéias que foram

ostensivamente divulgadas através dos

meios de comunicação de massa, nas últi-

mas semanas, pelos seis Partidos inscritos,

todos de direita.

Os seis Partidos são os seguintes:

Partido Democrata Cristão — Foi fun-

dado nos anos 50, mas só começou a atuar

ativamente na década de 60, quando Joâe

Napoleón Duarte, atual Presidente da Jun-

ta civil-militar, foi eleito duas vezes para a

Prefeitura de San Salvador. Como os de-

mais Partidos democrata-cristãos. sua

ideologia se baseava nos princípios sociais

da Igreja e em determinados momentos

usou uma linguagem revolucionária. Duar-

te tomou-se o maior lider popular do país,

vencendo a eleição presidencial de 1972,

quando o PDC aliou-se ao MNR de tendên-

cia social-democrata e com a UDN, setor

moderado do Partido Comunista. Mas

Duarte não pôde assumir, pois os militares

não deixaram e puseram no seu lugar o

Coronel Arturo Armando Molina. Mais tar-

de, em março de 80, Duarte aceitou o convi-

te dos militares e participou da Junta Re-

volucionária de Governo. Mas a maioria

acabou deixando essa Junta e foi nomeada

outra, restrita à Democracia Cristã e um

setor das Forças Armadas. Desde março de

80, Duarte é membro efetivo da Junta, e em

dezembro daquele ano passou a ser Presi-

dente da Junta, chefiando o Poder Executi-

vo mas sem autoridade sobre as Forças

Armadas.

Aliança Renovadora Nacionalista

(Arena) — Depois da Democracia Cristã,

este é o Partido aparentemente mais forte

de El Salvador nesta eleição, embora tenha

sido criado recentemente pela ultradirelta

local, liderada pelo Major da reserva Rober-

to d'Aubuisson, ex-chefe do Serviço de In-

teligência Militar e acusado formalmente

de comandar esquadrões da morte respon-

sáveis por assassínios de dirigentes políti-

cos. "Ele é um assassino patológico", disse

nó Congresso norte-americano o ex-

Embaixador dos Estados Unidos em San

Salvador, Robert Whlte, quando lhe pedi-

ram uma opinião sobre d'Aubuisson. Mas,

apesar disso, a Arena teve uma campanha

publicitária muito bem planejada (por uma

agência norte-americana) e è inegável o

carisma do Major, que saiu da clandestini-

dade para formar o seu Partido. Ele conse-

gue capitalizar o radicalismo existente no

pais e obtém uma boa aceitação em diver-

sos setores da sociedade que, cansados da

violência política, não se importam com as

fórmulas sugeridas pela Arena de usar mais

violência para se chegar à paz.

JORNAL DO BRASIL ?8/3/82

Partido Popular Salvadorenho — Um

pequeno Partido de direita fundado em

1966, propondo um regime democrático li-'

beral de livre empresa. O máximo que

conseguiu foram quatro deputados em

1968. Em 72, seu candidato à presidência

teve apenas 35 mil votos entre mais de 800'

mil cédulas contadas. Para a eleição de

hoje, seu lider Francisco Quiftonez não

aceitou a proposta de coalizão com outros

Partidos e provavelmente não terá nenhum

deputado.

Açào Democrática — Este Partido foi

criado no ano passado pelo advogado René

Fortin Magana e seus principais dirigentes

são profissionais liberais, gerentes de em-

presas, industriais e comerciantes. Sua pre-

tensão é ganhar o apoio da classe média e

seu programa defende um regime democrá-

tico, com a restauração do estado de Direi-

to. Sua campanha, como a dos demais,

também se baseou em criticas ao PDC.

acusado de usar o aparato estatal ao seu

favor na propaganda eleitoral. Acredita-se

que terá chance de fazer algum deputado.

Partido de Orientação Popular — Este

é outro pequeno Partido que participará de

uma eleição pela primeira vez. Foi fundado

durante o Governo autoritário do General

Carlos Humberto Romero t77-79), para se

opor ao programa oficial e defender os

interesses de pequenos empresários agríco-

las e industriais. De ideologia conservado-

ra, o POP está sendo dirigido pelo General

José Alberto Medrano e se acredita que

terá apoio de setores agrários incluindo

camponeses, como os que pertencem à Or-

den, grupo paramilitar anticomunista, que

atua no interior do país. Uma das bandeiras

do POP foi a férrea oposição à limitada

reforma agrária que começou a ser realiza-

da pelo Governo da Junta militar-

democrata-cristá. Nâo há dúvidas de que o

POP fará alguns deputados.

Partido de Conciliação Nacional — O

Coronel Júlio Adalberto Rivera deu um

golpe militar em 25 de janeiro de 1961 e

depois fundou o seu próprio Partido, o

PCN. que participou das eleições para a

Assembléia Constituinte, em 1962. Não teve

dificuldades. Afinal, nào houve Oposição e

aprovou-se o que o Coronel queria. O PCN

sobreviveu â queda de Rivera e. até se

fortaleceu em sucessivas alianças com os

militares que subiam ao Poder. O Partido

afirma buscar a conciliação entre os traba-

lhadores e os empresários e é a favor de

certas reformas, mas condena tanto o co-

munismo como o comunitarismo, proposto

pela Democracia Crista. O PCN é relativa-

mente forte, contando com cabos eleitorais

de muitos anos no interior do país e nesta

campanha apresenta um mártir: seu princi-

pal ideólogo, Rafael Rodriguez Gonzalez,

foi assassinado no dia 26 de janeiro deste

ano por um esquadrão fantasma.

23


EMTTlEVirTA 2*

Para Florestan Fernandes, o choque entrei,

revolução e contra-revolução em sociedades

do capitalismo da periferia, como no Brasil,

não é algo ocasional, de reuure/a militar ou

manifestação de uma crise particular. Nestas

sociedades, o processo político é permanente-

mente instável: "o biombo democrático revela

facilmente a ditadura de classes queé o Estado

capitalista e a oscilação entre a normalidade e a

exceção é freqüente e rápida".

Para entender o que gera esta instabilidade,

"c preciso sair da ótica de evolução política que

ocorreu na Inglaterra, na França e nos Estados

Unidos. Temos de pensar nos marcos próprios

da América Latina, de uma burguesia que é

forte para comandar as sociedades capitalistas

da periferia, para dirigir, o desenvolvimento

• econômico possível, mas que não é suficiente-

mente forte para enfrentar o imperialismo.

Então são obrigadas a fazer alianças no plano

jcultural, político e econômico e da autonomia

cultural, político e econômico e assim perdem

em grande parte a soberania da nação, da

iniciativa e da autonomia como e enquanto

classe".

"Essa burguesia, delimitada por tal situação

econômica, não tem como encaminhar

reformas sociais, uma "revolução dentro da

ordem", conceito quí é usado para designar a

revolução burguesa quando ela, por exemplo,

gera á reforma agrária, quando implementa

uma reforma urbana consistente, quando

acelera .e aprofunda a revolução nacional,

quando fornece a largas parcelas da população

recursos educacionais e.assisíenciais ou, ainda,

quando'é capa?, de aceitar a pressão de outros

setores da sociedade, principalmente das

massas trabalhadoras urbanas c rurais".

Fascismo ou socialismo

Assim, a burguesia "busca inalteravelmente

inibir a revolução dentro da ordem com o

maior afinco c resolução. Milhões de exemplos

demonstram isso. O melhor, entre todos,

refere-se à posição de uma ala inovadora da

igreja Católica e à desaprovação extrema que

ela provoca na burguesia. A ótica do

-evangelho dos pobres" abre-se diretamente

para a revolução dentro da ordem. Se as classes

burguesas não estivessem presas a um circuito

histórico estático, veriam na Igreja Católica

um aliado inestimável e alargariam as malhas

da "conciliação" até sua rede de atividades

libertárias. Ela é a primeira instiluição-chave

que avança no sentido de quebrar o nó çórdio

do impasse, que pesa sobre a sociedade civil e a

i organização do Estado, separando a "defesa

do oprimido" da "ameaça do comunismo",

ultrapassando a paralisia burguesa sem

reforçar o extremismo e fincando o solo

histórico a emergência de uma democracia de

participação ampliada, de crescimento pro-

gressivo e auto-regulado".

Mas "toda sociedade de classes tem

diriamismos que não podem ser inibidos ou

reprimidos indefinidamente... o certo é que

mais ou menos ditadura e o mais ou menos

democracia traduz uma debilidade orgânica'

insuperável. Classes burguesas sem rumo ou de

rumos ambíguos prenunciam tempestades,

que sob o capitalismo "tardio", nas nações

centrais e periféricas, ou levam ao fascismo ou

conduzem ao socialismo,

como um escudo protetor, prolongando a

combinação do poder indireto de classe ao

poder autocrátteo do Estado ditatorial.

Contudo, na medida em que essa combinação

encontra uma resistência encarniçada na

imensa maioria, a tendência natural é a de fazer

da ditadura uma espécie de pião, para que dela

saia um novo regime de partidos, dócil ao

Estado e poroso a modalidades rnais modernas

A DITADURA EM QUESTÃO EM TEMPO 25/3/82

e muito mais corruptas e destrutivas de

clienfelismo e patronagem",

"O poder real das classes possuidoras foi,

apesar das aparências, reduzido e relalivizado.

Embora por vias canhestras, soltou-se c

cresceu um espaço comum a todas as classes,

dentro da ordem burguesa e através dele

desprendem-se certas tendências à universali-

zação da cidadania e da justiça sociaP*.

"No momento presente, a ditadura não tem

•meios para impor o seu discurso, as suas

normas, as suas decisões supremas como fez a

Junta Militar em 1968. Não pode nem

reproduzir o estilo, por assim dizer, olímpico

da ditadura de Geisel. Nós temos um

presidente que estende a mão e usa recursos

que não precisam ser analisados. Basta

comparar a figura dos dois presidentes, a

maneira como eles encarnam o presidencialis-

mo ditatorial para saber que alguma coisa

aconteceu com a substância da ditadura".

Mas é preciso entender que "não foram as

íü."ças organizadas da sociedade brasileira que

desgastaram a contra-revolução c conduziram

o governo ditatorial às atuais perplexidades.

Foram suas forças espontâneas que emergiram

das alterações mais recentes no regime de

classes e que renasceram do esmagamento

ditatorial na esfera das atividades sindicais,

religiosas, políticas e estudantis".

O fato é que "a industrialização maciça

fortaleceu o proletariado e projetou politica-

mente um setor de ponta com capacidades

hegemônicas; a forte migração rural-urbana

criando as cidades-inchadas fomentaram

tensões insuperáveis e um potencial político

explosivo; a maior penetração do capitalismo

no campo desencadeou a proletarização e

multiplicou os conflitos pela posse da terra,

pela sindicalização rural e pela mobilização

dos índios, posseiros e boias-frias".

Foi sobre esta base social explosiva que

cresceram as principais contradições da

ditadura. Em primeiro lugar, "o pseudo-

sistema de dois partidos, um do governo e

outro da oposição consentida, permitiu que o

protesto popular se aglutinasse no partido de

oposição. A ditadura se via diante de

plebiscitos eleitorais e na contingência de

enfrentar riscos crescentes no uso da simulação

política". Em segundo, "os antagonismos de

classe emergem com grande vitalidade e já não

é o poder de coação da ditadura que os

paraliía, mas a falta de meios autônomos

organizados de luta política das classes

trabalhadoras que os enfraquecem e os

afastam de alvos decisivos".

Neste quadro, "a tendência natural para as

classes dominantes consiste em usar a ditadura

Abre-se, assim, "um período típico de

transição da sociedade de classes quando uma

massa maior de trabalhadores por condições

sociais, materiais e políticas conseguem

enfrentar a supremacia burguesa em alguns

níveis e forçam o seu espaço político próprio

para deixar de ser uma mera cauda eleitoral da

burguesia. As classes dominantes respondem

naturalmente a este processo tentando alargar

a base política do Estado e criar instituições

mais fortes, como ocorreu em vários países da

Europa e dos Estados Unidos".

Novamente, as expectativas não deveriam

ter como referência os países do capitalismo

central. "O dilema para as classes dominantes

na América Latina reside neste fato: até agora

não foi possível passar pelo centro do poder

militarizado. do poder autocrático essa

transformação. Alguns países, como a

Argentina, o Chile e o Uruguai conseguiram

durante algum tempo contornar problemas

nesta área, mas recentemente já não consegui-

ram. Nas condições do capitalismo monopolis-

tas já não conseguiram".

"No Brasil, mais recentemente alguns setores

da burguesia nacional, especialmente aqueles

que defendem uma saída pelo centro se

articularam através do PP. Na verdade, eles

estavam procurando saídas através das quais

as classes burguesas reabsorvessem a autono-

mia que foram perdendo progressivamente,

para restabelecer um novo equilíbrio entre os

militares e os setores das classes dominantes. A

burguesia teve êxito? Está patente que não.

E não foi apenas porque os vários setores da

burguesia estão divididos entre si. Ela não teve

êxito porque não conseguiu encontrar uma

fórmula que permitisse uma conciliação entre

as soluções que vem desse poder relativamente

autonomizado e as fórmulas políticas que são

equacionadas em termos conservadores pelos

estratos mais reacionários da burguesia. A

burguesia tem de conciliar com os seus vários

estratos, tem de conciliar com potências

externas, com os militares, com os trabalhado-

res: todas estas necessidades de conciliação

significam impotência para a burguesia já que

ela não tem meios próprios para equacionar

seus problemas.

Nós continuamos a ver tanto no setor

militar, como no político, como no empresarial

setores tentando sair do circuito, pretendendo

uma absorção paulatina do estado de exceção.

Não podem ir, no entanto, muito longe porque

a burguesia não tem meios de avançar sozinha,

não tem meios de alimentar o processo.

"Há muitas esperanças pairando no ar.

Inclusive a esperança mais forte de que a

implosão da ditadura estaria próxima, como

produto dos impasses do poder militar ou

como efeito de uma "bola de neve" eleitoral, de

impacto incontrolável pelo governo estabele-

cido". No entanto, afirma Florestan, "o ma!

das esperanças é que elas, por si mesmas, não

movem a história".

E será necessário entender os mecanismos de

sobrevivência da ditadura, o que lhe dá

vitalidade apesar da crise profunda, para gerar

a sua desagregação.

Para Florestan, "o que garante a sobrevivên-

cia e reprodução (da ditadura) não é o apoio

popular, nem mesmo o apoio das i orcas

armadas: é a autonomia do Sistema, as

pressões ambíguas que ele recebe de sua base

nacional e estrangeira, a falta de cristalização

de um movimento popular contra a ditadura

capaz de derrotar o governo ditatorial,

deixando o sistema solto no vácuo^e

condenado como uma excrescência política".

A autonomia do sistema se refere ao fato de

que este "evoluiu no sentido de tomar-se um

centro lodo-poderoso do executivo ditatorial e


ENTREVISTA

continuação da página anterior: A DITADURA EM QUESTAü

o poder mihiar adquiriu, de fato, o caràter de

fonte de qualquer manifestação da vontade

coletiva dos estratos estratégicos das classes

dominantes. O 'consenso nacional" destas

classes deixou de ser um fator determinante

das decisões tcnadas em seu nome (e com seu

beneplácito, explicito ou implícito)". A grande

conseqüência política desta autonomia é a

enorme liberdade de movimentos do sistema

que "pode manejar a seu bel prazer todos os

organismos e funções do aparato do Estado e

do governo, sem exceção".

A ambigüidade da burguesia

Essa vantagem da ditadura se combina com

outra, com o fato de que "cs setores burgueses

que chegam à oposição legal à ditadura

raramente avançam até as últimas conseqüên-

cias, prevalecendo uma oposição construtiva

que gostaria de ter uma desagregação da

ditadura sem rupturas.e sem conflitos no seio

da própria burguesia. Estas pressões ambíguas

conferem à ditadura um amplo espaço poütico

no qual ela pode movimentar-se. defender-se e

até ganhar elasticidade para ser o que não é".

Por outro lado, a "oposição prudente" permite

que a ditadura absorva as suas crises internas.

Por último, essa ambigüidade burguesa é

funcional à reprodução da ditadura. Ela apoia

ou incentiva a "debilitação e a pulverização das

manifestações mais vivas e fortes do protesto

operário ou da ira popular, fazendo com que a

maior força social de transformação da

sociedade seja desviada de seu movimento

histórico real. Assim, o "antiditatorialismo é

freado pela dinâmica da oposição legal à

ditadura e pela ausência de uma sólida

impulsão antiburguesa e socialista das classes

proletárias, às quais falta, parcial ou global-

mente, meios de ação inconformista ao nível

político".

Deste modo, nem o caminho eleitoral, nem

os impasses milhares e divergências burguesas

sao capazes de gerar a queda da ditadura. "Ou

os interesses das classes dominantes paralisam

o segundo movimento, antes dele se tornar

decisivo ou os processos ditatoriais de

dissuasão e de repressão destróem a firmeza do

primeiro movimento, confinando-o a áreas de

atrito e de desgaste que não possuem

significado mortal para a capacidade de

iniciativa da ditadura".

As eleições de 82

A debilidade da ditadura consiste exatamen-

te na sua incapacidade de manipular satisfato-

namente este quadro, gerando contradições

que se aguçam agora para as eleições de 82.

Em primeiro higar, as classes burguesas não

responderam de modo univoco à programação

subentendida na "reforma dos partidos" e a

ditadura não conseguiu renovar suas bases

políticas para, através dela, marchar na direção

ae uma gradual absorção do polo militar. Em

segundo, o partido aitemativo (o PP) teve de

lançar-se no campo político da oposição e

competir com partidos que desenvolviam

programas de combate efetivo à ditadura e

acabou por se dissolver. As restrições e

imbições impostas à. reorganização partidária

nao impediram que o PMDB ressurgisse com

r^ 3 eitoral e 0 "kq" 6 de P artidos tâo

iraauz; como se esperava, o esmagamerito

oaquelas forças sociais que a guerra civil oculta

dorres 0 ^ " nã0 conScguiu nem dest uir nem

f

Em conseqüência, "por mais que a ditadura

procurasse (mpecilhos para a mobilização

VnWs' 0! ncsta área Que acabaram

v-^tt, 0 J Uma das contradições ooliticas mais

Violentas do regime"

Ac-ò tSLê.6 ano-6 do

gúvQ.SLno F-tguc-cAecío

e aoò dzzolto de

dltaduifia milltan.

^omo-ó otvJÍK

¥íofi


NÚT1CJA GEKAL 26

A IGREJA NO BANCO DOS RÉUS JORNAL DÜS TRABALHADORES 2 a 15/3/82

Paulo Vannuchí

Presos em setembro de 81, os padres france-

ses Aristides Camio e Francisco Gouriou deve-

rão ser juígados nas próximas semanas.

Enquadrados na Lei de Segurança Nacionai,

em artigos que prevêem penas de 8 a 30 anos de

reclusão, os missionários serão levados ao tri-

bunal militar ao lado de 13 posseiros que

foram maltratados pela Polícia Federai. Na

região do Araguaia, eles lutaram pela defesa de

suas terras com o apoio da Igreja.

A posição que a Igreja católica firma, nos

últimos anos, ao lado do direito dos pobres,

podç ser explicada por sua maneira de enten-

der a propriedade, conforme o último docu-

mento da CNBB, Solo Urbano e Açio Pasto-

ral, aprovado em Itaici em fevereiro: "O ensi-

namento da Igreja sobre o direito de proprie-

dade é bem definido por Santo Tomás de

Aquino, que o enuncia em dois princípios. Pri-

meiro: Deus destinou os bens a todos os

homens. Segundo: é necessária a partilha tanto

para a boa gestão dos bens como para a paz,

pois a falta de partilha é fonte de conflitos.

Nesta perspectiva, vê-se que o primordial no

direito de propriedade é garantir a distribuição

dos bens e, portanto, da terra para todos, e não

sua concentração nas mãos de alguns" (n." 73).

O cardeal de São Paulo. Dorn Paulo Evaris-

to Arns. costuma dizer que, no Brasil, não há

conflito entre Igreja e Estado, mas sim entre

Estado e povo; se a Igreja coloca-se ao lado do

povo, é natural que ela seja atingida pelo poder

antipopular. De fato, nesses 18 anos de regime

autoritário, a Igreja teve vários de seus mem-

bros sob a mira da Segurança Nacional: foram

assassinados os leigos Raimundo Ferreira

Lima, o "Gringo"; Sanío Dias da Silva, Anísio

Pereira da Silva e o cacique Ângelo Kretã. O

padre Henrique Pereira Neto morreu sob tor-

turas no Recife, Frei Tií o de Alencar Lima veio

a falecer em conseqüência das sevicías sofri-

das no cárcere, e os padres Rudolf e Penido

Bumier tiveram suas vidas sacrificadas por

balas assassinas na região amazônica. Vários

bispos foram enquadrados na LSN e Dom

Adriano Hipólito. de Nova Iguaçu, foi seqües-

trado e torturado,

Essa repressão à Igreja explica-se por sua

opção preferencial pelos pobres, definida em

Pucbla (1979). representando uma desligiti-

mação do Estado que, sem a sacralidade que o

revestia, tem agora seu verdadeiro caráter capi-

talista e autoritário exposto a todos. O poder

militar não tem as bênçãos dos céus. Ao con-

trário, a Igreja revela as entranhas desse poder

nas denúncias em defesa dos direitos humanos.

E, de certa forma, mina as bases que o susten-

tam com o trabalho conscientizador das

Comunidades Eclesiais de Base (hoje, 80 mil

em todo o país).

Tanto para os setores da situação como para

os da oposição, nem sempre é fácil analisar a

importância da Igreja hoje no Brasil e na Amé-

rica Latina. Os dois estavam acostumados a,

muitas vezes, encará-la como "ópio do povo".

Historicamente é verdade que a burguesia fez

dela esta constatação de Marx. Mas poucas

vezes os apreciadores do filósofo alemão per-

ceberam que ele constatara também o caráter

libertador da religião, "protesto contra a

miséria real". Essa capacidade de o fenômeno

religioso expressar a luta de classes já fora há

tempos analisada por Engek em seus livros

"Cristianismo Primitivo" e "A guerra campo-

nesa na Alemanha". Hoje, a história da Amé-

rica Latina comprova que, de fato, a religião

pode ser fator de libertação: basta observar a

atuação das comunidades cristãs "campesinas"

em países como Nicarágua, El Salvadore Gua-

temala.

Quanto ao fato de a Igreja sentar-se no

"banco dos réus. ao menos para ela, não é novi-

dade: seu Fundador, Jesus Cristo, morreu

como prisioneiro político, crucificado pela

ocupação romana na Palestina do século 1.

DOI-CODIS PERMANECEM HAS NAO CONSERVARÃO AS SIGLAS

JTRNAL PO BPASTL 28/3AS2

Brasííia — A sigla DOI-CODI desa-

pareceu. Um oScial ligado ao gabinete

do Ministro do Exército, que confirmou

a informação, explicou que isso nâo

significa que o Destacamento de Opera-

ções Internas e o Centro de Operações

de Defesa Interna tenham, simplesmen-

te, sido extintos. Os dois órgãos conti-

nuarão a existir — só que sem o nome e

redimensionados. Esse redimensiona-

mento foi admitido pelo General Antô-

nio Ferreira Marques, chefe do Estado-

Maior do Exército.

Na tarde de quinta-feira, ao desem-

barcar na Capital federa! para partici-

par de uma reunião do Alto Comando

do Exército, o General Sérgio de Ary

Pires, Comandante do II Exército, res-

pondeu irritado a uma pergunta sonre o

assunto; "Nâo é verdade, náo vai acabar

nada". B o nome, general, muda? —

indagou um joraalista."Nâo sei. Isso eu

não pei", replicou Pires.

"O assunto náo está em pauta, é só o

que posso dizer", declarou'na semana

passada o chefe do Centro de Comuni-

cação Social do Exército, general Otá-

vio Rezende, "Eu respondo pelo órgão

que dirijo", explicou o General, "e sei

que ele está crescendo. Agora, se os

outros estão sendo reduzidos, eu não

sei." Um coronel, ex-comandante de

uma guamição de Polícia Militar no Sul

do pais, comenta; "Não vejo razão para

mudar nada". •

A sigla, entretanto, desapareceu —

garante o oficial diretamente ligado ao

gabinete do Ministro do Exército, Nesse

tempo de abertara política, explicou o

informante, náo há razão para manter-

se o DOI-CODI funcionando como

quando de sua criação em 1970. Seu

efetivo, disse, o oficial, foi realmente

reduzido, nâo signiScando isso, necessa-

riamente, que seja uma coisa definitiva,

pois, sendo preciso, o órgão será reati-

vado.


NOTICIA GERAL

NO PARANÁ^ BÓIAS-FRIAS TEM MUITO TRABALHO

E POUCA SEGURANÇA

LONDRINA — Cerca de

dois mil trabalhadores rurais

de Londrina estão viajando

ilegalmente todos os dias,'

arriscando suas vidas em

caminhões inseguros. A

denúncia è do presidente do

Sindicato dos Trabalhadores

na Lavoura de Londrina,

Oslres Cordeiro Weiss, que

pretende procurar o Coman-

do da Policia MUitar do

município para solicitar a

reativação da "operação

bóia-fria", criada há dois

anos por inicisüva dos sin-

dicatos da Kigiào, mas hoje

suspensa.

"As irregularidades são

muitas e sempre aumentam

quando escasseia a mão-de-

obra rural", explica Cor-

deiro. Segundo ele. os pro-

dutores dos municípios de

Ural e Assai têm feito pu-

blicidade em emissoras de

rádio de Londrina, procuran-

do trabalhadores para a

colheita de algodão, ofere-

cendo de Cr$ 150a Ci$ 200 por

arroba. "Mcs a escassez de

mão-de-obra é generaliza-

da", assegura.

ATÉ CRIANÇAS

Santa Margarida, distrito,

do municipto de Bela Vista do

Paraíso, a 40 quilômetros de

Londrina, é uma das lo-

calidades nort¶naenses

de maior concentração de

"bóias-frias". "Aqui existem

.pelo menos quatro mil tra-

balhadores volantes". In-

forma Renato Augusto Mar-

tini, presidie do Sindicato

dos Trabalhedores Rurais de

Bela Vista, sediado em Santa

Margarida.

Marüni aflrma que, em-

bora muitos "bóias-frias"

viagem para longe, a maior

parte trabalha no próprio

município, onde a cultura do

algodão cresceu cerca de

70%, em relação ao ano pas-

sado.

"Há trabalho até para as

O^SALKãíO

crianças, mas o transporte

continua avacalhado", obser-

va MartinL Ele conta que Já

fiscalizou as viagens dos

trabalhadores, mas não en-

controu apoio da policia psra

reprimir os abusos, come-

tidos tanto pelos empregado-

res quanto pelos motoristas ou

pelos "gatos" (empreiteiros

de mão-de-obra). "Ninguém

obedece as normas do Con-

selho Nacional de Trânsito e

a convenção coletiva de

trabalho, que impfiem me-

didas de segurança para os

caminhões que fazem o trans-

porte", assegura.

Os "bólas-frlas" de Santa

Margarida estão sendo con-

' tratados para colher algodão

nos municípios paulistas de

Nantes e lepê. "Eles viajam

cerca de 100 quilômetros em

pé, sobre carrocerlas comuns

de caminhões geralmente

velhos e maiconservados",

afirma o presidente do Sin-

dicato.

Para ele, as chuvas que

caíram no final da semana

passada agravaram o pro-

blema de escassez de mão-

de-obra no Norte do Paraná

— a colheita terá que ser

feita num espaço de tempo

menor, exigindo mais gente.

"Além disso — conta de

os produtores paulistas estão

procurando os 'bóias-frias'

paranaenses, oferecendo Ci$

210 por arroba." Martini lem-

bra que além do salário dos

trabalhadores, os fazen-

deiros pagam aos "gatos"

Cr$ 20,00 por arroba colhida,

além de Cr$ 50 por passa-

geiro, ao dono do caminhão.

"Muita gente da região de

Centenário do Sul tem ido

para as fazendas paulistas,

correndo o risco de aciden-

tes", informa.

ESVAZIAMENTO

O problema da falta de

mão-de-obra na lavoura

paranaense deveu-se à

evasão da população rural.

FOLHA DE S. PAULO

21/3/82

ocorrida em grande escala

na década passada.

O Instituto Brasileiro de

Geografia e Estatística (IB-

GE) atribui a evasão ao

"modelo de crescimento da

agricultura que privilegia a

expansão de cultivos de alto

valor comercial", associado

às "profundas mudanças na

base técnica do processo

produtivo" e à "rees-

truturação fundiária". Em

outras palavras: lavouras

anuais mecanizáveis — como

a soja — e a concentração da

propriedade rural em menor

número de mãos, fizeram o

trabalhador do campo mi-

grar. Isso acentuou o grau de

urbanização das principais

cidades paranaenses e prin-

cioalmente levou muitos

trabalhadores a procurarem

as áreas de fronteira agrícola

do Centro-Oeste e Note do

País.

AH-.-OTiMjoioTi/Ml

^ HoíjA-exT^/

Segundo o IBGE, a po-

pulação rural de Santa Ca-

tarina caiu de 65,37%, era

1S70. para 43,94%, em 1990. A

zona algodoeira de Assai —

que exige muita mão-de-obra

nesta época, para a colheita

de algodão — registrou o

maior crescimento negativo

do Estado, na década de 70: a

população total diminuiu

3,27% ao ano.

A população da região de

Paranaval (Nordeste) dimi-

nuiu em 86 mil pessoas nes-

ta década, a de Apucarana

(CentroOeste) perdeu 140

mil habitantes, a de

Umuarama 231 mil e a de

Campo Mourão (entre o Nor-

te e o Oeste) ficou sem 198

mil moradores na zona mraL

As regiões de Londrina e

Maringá, mais populosas do

Norte paranaense, tiveram

aumento populacional, mas

somente na área urbana —

perderam. Juntas, 277 mU

habitantes da zona rural, na

última década.

27

More magazines by this user
Similar magazines