Terra dos Anjos

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Terra dos Anjos

Terra dos Anjos


Q

INTRODUÇÃO

uando comecei a escrever “Terra dos Anjos” meus planos para

esse livro eram outros. Esse deveria ser o primeiro livro da “Saga

dos Anjos”, mas devido alguns problemas que acabei tendo com

outras histórias tive que excluir “Terra dos Anjos” da saga.

A primeira coisa que me veio à cabeça quando me

deparei com os problemas que apareceram foi modificar a

história, o que de uma forma ou outra tive que fazer. Comecei a

procurar os pontos onde deveria mudar e descobri que

mudança não seria a salvação para a saga, então retirei e

adicionei alguns capítulos e cenas e resolvi terminar “Terra dos

Anjos” sem grandes alterações e criar uma história nova para

ser o 1º livro oficial da saga.

“Eterno” – título escolhido pelos leitores – seria o 1º

de 3 livros da saga. A história seguiria a mesma base que foi

usada para escrever “Terra dos Anjos” (ou TDA como foi

apelidado pelos leitores), porém, com um enredo melhor

trabalhado, mais solido, sem tantos erros como acabou

acontecendo com TDA.

No momento “Eterno” e da a “Saga dos Anjos” estão

temporariamente cancelados. Não sei se os problemas de TDA

me desanimaram ou se acabei perdendo o amor pela história,

mas não tenho planos para a saga (nem sei se voltarei com ela).

De qualquer forma espero que leiam TDA como uma

previa de “Eterno”, um aquecimento e caso “Eterno” volte a ser

escrito, que não o crucifique e nem a saga.

Espero que curtam muito essa história e que, mesmo

com os erros e problemas, vocês possam amar-la tanto quanto

eu a amei enquanto escrevia.

Um super abraço para todos

– Felipe Reino


PRÓLOGO

...Depois que terminei a frase não sei dizer bem o que

aconteceu. Uma luz forte atingiu toda a sala. Estava certa de que

tudo isso que estava acontecendo era um sonho. Um sonho

muito estranho. Provavelmente eu iria acordar e pensar em

escrever um livro sobre esse sonho maluco. Mas isso não era um

sonho.


01. MUDANÇA DE ROTINA

S

empre precisei de mais tempo para qualquer coisa do que meus

irmãos. Aqueles dois patetas! Banho, cabelo, se arrumar,

comer… Até para escrever eu era mais lerda do que eles. Era!

Graças a Deus os dois se mudam hoje. Toni – Antonio Montês

Filho – o mais velho dos três filhos da dona Michele Montês,

sempre foi o queridinho da casa. Seu rosto beirando a perfeição

era uma cópia masculina do rosto da mamãe. Porém seus belos

olhos verdes e cabelos castanhos dourados eram 100% “made in

papai” Senhor Antonio Montês. Ele era alto, bonito, olhos

lindos, músculos na medida, bom jogador, tinha bom emprego,

se eu não fosse irmã dele até eu me apaixonaria.

Já meu outro irmão, Patrick Montês, era exatamente o

oposto. Olhos cor de mel, como os da mamãe e os meus,

cabelos negros, um sorriso avassalador e um corpo igualmente

na medida – como o do Toni-, só pecava com os maus hábitos.

Patrick era mal-humorado, péssimo aluno e só queria saber de

sua banda ridícula. Apesar dos dois serem irmãos, se alguém de

fora os analisar vai achar que um dos dois é adotado ou

qualquer coisa do tipo.

Os dois irão se mudar no mesmo dia, mas por motivos

opostos. Toni vai viajar a trabalho – orgulho da casa –, já Patrick

vai entrar em turnê com sua banda, ele acredita que poderá se

tornar o próximo Kurt Cobain, e eu finalmente poderei ficar com

a casa só pra mim.

– Patrick, Alice e Michele! – berrou meu pai da escada –

querem fazer o favor de se apressarem.


Era só o que me faltava. Meu pai, que nunca foi de

chamar a minha atenção por isso, parece que resolveu agir igual

aos dois. Realmente não espero que ele esteja treinando para

substituí-los. Eu não sei se sobreviverei.

– Já estou pronto papai – ouvi Patrick gritando,

enquanto descia as escadas correndo. Toni, como sempre, já

estava na porta. Por ele nós já teríamos ido há trinta minutos.

– Alice, você ainda não está pronta? – papai continuava.

– Já estou pronta, amor. – desta vez minha mãe quem

descia as escadas. Droga, agora só faltava a mim! E o pior: não

estava pronta.

Tive que descer do jeito que estava. Meu cabelo

incrivelmente liso na raiz, mas que ia encaracolando ao decorrer

até chegar às pontas estava mais preto do que de costume.

Minha pele branca estava rosada devido à maquiagem feita as

pressas. Meus 1,65 de altura estavam devidamente tapados

com meu jeans básico, minha blusa amarela com uma pequena

estampa rodeando a gola e meu tênis preto surrado. Resultado

de tudo: estava me achando feia e não podia fazer nada para

modificar isso.

Entramos no carro. Eu, como sempre, tive que ficar no

meio. No maldito meio. Todos que me conhecem sabem que eu

gosto de ficar na janela, imersa em meus pensamentos, mas

quando os dois estão juntos sempre sobra pra eu ter que ficar

na porcaria do meio. Ainda bem que isso é só por hoje. Tudo

bem que Patrick vai voltar daqui a cinco meses, mas pelo menos

vai ter lugar pra nós dois e ninguém precisara brigar pela janela.


Assim que chegamos ao aeroporto meu pai decidiu

testar minha paciência. Mesmo que ele não tenha notado isso.

– Filha, pode pegar as malas dos seus irmãos no portamalas?

– meu pai sempre gostou de abusar de mim quando eu

estou estressada, mas dessa vez ele pegou pesado. Não estava

pra esses tipos de coisas. Não para meus irmãos! Eles têm mãos,

que carreguem os dois!

– Alice, obedeça a seu pai! – dois contra um era

covardia. Fui obrigada a levar as malas dos dois. Duas malas.

Apenas duas malas, foi o que eu disse.

Deixamo-los no portão de embarque. Os olhos de Dona

Michele já estavam lacrimejando.

– Eu desejo muita sorte para os dois – dizia, ou melhor,

choramingava a mamãe.

– Juízo na cabeça de vocês. Principalmente você Patrick!

– completava o papai enquanto entregava uma das malas ao

Toni. – Você não vai dizer nada para seus irmãos Alice?

– Já vão tarde!

– Alice! – Berrou minha mãe.

– Deixe-a mamãe. Sabemos que ela sentira muita falta

da gente, não é Patrick?

Alice.

– Ela só não quer é dar o braço a torcer! Pode falar


Não respondi, apenas mostrei a língua para os dois e

virei às costas. Sabia que estava sendo infantil, agindo feito uma

garota de 6 anos de idade ao invés de agir feita uma de 16 que

sou. Mas sabia também que o que eles diziam era a mais pura

verdade. Apesar de odiar-los por natureza, eu sentiria muita

falta daqueles dois patetas dentro de casa. Estávamos no

aeroporto e ficamos lá até o avião decolar e sumir no céu.

Como já esperava, papai me deu aquele velho sermão.

Sempre se equilibrando entre os extremos da seriedade com os

da raiva.

– Alice, o que deu em você?

– Pai! Por favor, hoje eu não estou bem – tentei dizer

isso com a maior delicadeza que me foi possível.

– Filha, seu pai tem razão. Não precisava falar assim com

seus irmãos! – mamãe falava como se tivesse uma pomba da

paz em sua garganta. Qualquer sermão, por mais serio que

fosse, dito por ela soa como um conselho amigo, sereno.

– Você hoje estava impossível! – completou papai.

– Vocês dois não entendem! – e acho que nem eu.

Quando chegamos ao estacionamento, o nosso carro foi

a primeira coisa que vi. Como não poderia notar aquela coisa

grande, linda, brilhando pra vida, reluzindo todo o seu

esplendor. Era uma Mercedes preta, linda mesmo. Acho que

nunca gostei tanto de um objeto quanto eu gostei dessa

Mercedes. Não sou de ligar para carros e velocidade, mas

aquela Mercedes me enfeitiçou, porém, não conseguia chamá-la


de Mercedes, nem de Beleza Negra como meu pai. Apesar de

achá-la magnífica, apesar de toda sua exuberância, ainda assim

eu só conseguia chamá-la de carro.

No carro o silêncio foi predominante e estava quase

certa de que continuaria assim até que chegássemos em casa.

Durante toda a silenciosa viajem de volta para casa fiquei,

digamos que, distraída em meus pensamentos enquanto

observava cada árvore passando por mim e sumindo em

questão de segundos. Lembrei do meu professor de física,

sempre dizendo que o movimento é relativo. Tudo depende

do ponto de vista de quem vê. Do meu ponto de vista, tudo

ao meu redor estava em alta velocidade. O sol estava bem forte

e por alguns momentos o reflexo dele no vidro me cegava, mas

ainda assim, continuava olhando. A rua em movimento me

hipnotizava, era como se o mundo estivesse acelerando,

correndo mais rápido do que devia. A casa agora era só minha!

Chega de Patrick quase arrombando a porta do banheiro

enquanto me penteio; chega de Toni dizendo que se eu não

terminar de tomar meu café logo, não poderá me levar até a

escola e principalmente; chega de ser a casulinha da casa!

De repente as árvores e postes começaram a diminuir a

velocidade. A rua começará a ser bem familiar para mim.

Estávamos chegando em casa. Voltávamos àquela velha casa de

sempre, agora com dois moradores a menos.

– Essa casa já parece mais parada sem os dois aqui! –

Mamãe continuava a choraminga. Perguntava-me se quando eu

fosse embora a mamãe também choraria.

– Acho que continua a mesma coisa – Ainda estava

agindo feito uma criança.


– Eu vou subir e tomar um banho. Vou aproveitar que

tirei o dia de folga hoje e descansar. – Papai sempre foi um

homem de negócios, engenheiro formado, estava sempre em

sua firma trabalhando.

Quando Toni disse que queria fazer engenharia, papai

teve uma reação inesperada. Melhor dizendo ESTRANHA.

Respirou fundo, afrouxou a gravada, passou a mão sobre sua

cabeça quase calva, se não fosse por uns poucos cabelos que lhe

restavam sobre as laterais da cabeça, soltou o ar, subiu as

escadas, abriu a janela do meu quarto e gritou:

– Teremos outro engenheiro na casa!

Todos que estavam na rua concentraram seus olhares

para a minha janela que ficou conhecida como “a janela do

engenheiro”. Foi um dos dias mais constrangedores da minha

vida.

Hoje ele tinha tirado o dia de folga especialmente para

levar meus irmãos ao aeroporto. Não era todo dia que ele fazia

isso, por tanto, me senti um pouco enciumada de não ter tido

esse tipo de consideração até hoje.

Depois que se passaram algumas horas comecei a sentir

falta da bagunça que era a casa quando os dois estavam aqui.

Da mamãe gritando com Patrick por ter deixado o prato sujo

sobre a mesa do computador, do Toni reclamando da barulheira

que o Patrick fazia enquanto ensaiava com a banda na garagem.

Até do papai – depois de reclamações do Patrick – dizendo para

“eu sair logo do banheiro ou senão…” Nunca soube o que vinha

depois do senão, mas nunca acreditei que ele realmente faria


alguma coisa. Não imaginei que sentiria tanta falta de dois seres

que, até então, eu odiava como nunca odiei na minha vida.

Eu estava de férias, então não tinha nada pra fazer.

Liguei a TV no meu quarto, mas a programação não tinha nada

de interessante. Nenhuma noticia nova sobre nenhum dos meus

artistas favoritos, parecia até uma conspiração para me prender

diante o tédio que aquele dia se tornará. Tentei ver se tinha

alguma novidade no meu e-mail: VOCÊ TEM (0) MENSAGENS

NOVAS. Por alguns minutos fiquei observando meu quarto,

reparando nos detalhes que não tinha reparado antes, como um

pequeno rasgado no papel de parede, perto da janela, o meu

violão nunca usado continuava no mesmo lugar, deitado no

canto, do lado do guarda-roupa a direita da porta do quarto – 5

aulas e nunca mais voltei –. Meus CDs estavam da mesma

maneira que os deixei, jogados na mesa de computador ao lado

da janela. Alguns DVDs na escrivaninha, ao lado da mesa de

computador, junto com vários livros e revistas femininas. Na

mesinha, ao lado da minha cama, estavam meu celular, alguns

anéis, e quase caído, meu binóculo. O ventilador de teto estava

ligado na velocidade media, havia ainda a máquina fotográfica

que tinha ganhado de natal na mesa do computador, junto aos

CDs e a minha ampulheta cuja cor da areia gerava discussões a

todos que viam; seria ela azul ou verde? Ainda olhando a mesa

do computador, estava minha mochila velha do lado da mesa,

cheia de revistas em quadrinhos. Em cima da mochila, uma caixa

de sapatos com livros de contos românticos da minha mãe e,

ainda, em cima da caixa, alguns CDs velhos que eu iria jogar fora

algum dia.

Pensei seriamente em arrumar meu quarto. Levantei e

comecei a guardar os CDs que estavam espalhados pela mesa de

computador, mas o tédio cansa então parei.


Resolvi que iria ler. Peguei uma versão adaptada do livro

A volta do parafuso de Henry James. Comecei. Já havia lido

aquele livro umas três vezes, adorava-o, mas desta vez estava

tão absorta em meus pensamentos que nem prestei atenção no

que lia, apenas lia. Quando dei por mim novamente, havia

notado que tinha se passado duas horas e eu ainda estava na

página oito do livro. Realmente não estava conseguindo me

concentrar, talvez não quisesse. Nunca imaginei que a saudade

de ter meus irmãos em casa me viria tão rápido e me atingiria

tão forte assim. Voltei a verificar meu e-mail: VOCÊ TEM (0)

MENSAGENS NOVAS. Estava iniciando uma súbita e frenética

vontade de gritar, como meu pai fez no dia em que descobriu

que Toni seguira engenharia, mas – graças a Deus – meu senso

de ridículo me impediu de cometer tal alto de insanidade e fui

obrigada a gritar mordendo meu travesseiro, para abafar o som.

Sabia exatamente o motivo de estar assim: MINHA ROTINA

FORA MUDADA.


02. LEMBRANÇAS

stava sentindo ódio de mim mesma agora. Não podia acreditar

Eque estava com saudades daqueles patetas dos meus irmãos.

Isso era totalmente desprezível, inaceitável e imperdoável. Eu

sempre tive certeza de que quando me visse livre daqueles dois

eu faria uma festa, mas estava com saudades. Saudades de

tudo, até mesmo do que eu achava que não sentiria saudades. É

incrível como o costume de conviver com alguém que você

odeia pode lhe fazer.

Hoje quando acordei – as 10:00 – e fui tomar banho,

achei que estava louca. No meio do banho podia jurar que havia

ouvido o Patrick gritando para eu sair logo e quando sai, pude

ouvi quase que claramente ele dizer o seu famoso “finalmente,

guria” que só ele sabia falar.

Desci e fui tomar o café, não iria nem almoçar hoje.

Estava de roupão e com os cabelos úmidos e ainda não

penteados. Peguei o pão e procurei pelo queijo e o presunto,

mas só achei margarina. Por que não compravam manteiga?

Eles sabem que detesto margarina. Desisti do pão e fui pegar

alguns biscoitos. Não gostava muito de biscoitos pela manhã,

mas é melhor que ficar com fome ou comer pão com margarina.

Pensava em tomar leite – não sei por que ficam dizendo que

leite é coisa de criança – mas o cheiro forte do café me

hipnotizou. Senti-me como naqueles desenhos em que a fumaça

da comida fazia o formato de uma mão e puxava o personagem

até ele, quase me pude sentir flutuando.


Sentei-me à mesa sozinha, era raro nos reuníamos na

mesa para comer seja lá o que for. Exceto por aqueles domingos

em que o papai fazia um belo de um churrasco e chamava os

vizinhos, mas de qualquer forma não era a mesa da copa. Era a

mesa da varanda, de madeira, larga e comprida, pareciam

àquelas mesas dos castelos, porém um pouco menor e menos

elegante. Meus irmãos que adoravam aqueles churrascos. Eles

sempre faziam questão de ir comprar as carnes e o carvão. Eles

ficavam tão felizes que eu era quase capaz de amar os dois.

Talvez esses fossem os únicos dias em que eu ficava feliz deles

serem meus irmãos, eram dias de paz. Acho que vou sentir falta

desses domingos. Nossa cozinha me fazia lembrar muito eles,

havia quase que uma serie humorística gravada naquelas

paredes. Como quando o Patrick resolveu dar uma de cozinheiro

e quase pôs fogo na casa. Ou quando o Toni trouxe a primeira

namorada para conhecer a família, foi oferecer um refrigerante,

mas não conseguia abria a garrafa e quando abriu ele havia

sacudido tanto ela que voou refrigerante pra tudo que é lado.

Odiava admitir isso, mas, essa casa não era a mesma sem os

dois aqui.

Fui me trocar depois que terminei de tomar café.

Parecia impossível, mas esse ano eu não fui a lugar nenhum. Era

chato ter que ficar em casa, era chato ter como entretenimento

apenas a TV e o computador, era chato não viajar. Essa sem

sombras de dúvidas estava sendo as piores férias da minha

vida. Monotonia era a palavra predominante em minhas férias.

Queria tanto fazer alguma coisa, mas o que?

A principio pensei em dormir, era a única coisa que

poderia fazer naquele momento. Queria fazer algo diferente

pelo menos uma vez na vida, algo que fugisse da rotina tedioso

de todo dia. As minhas opções de entretenimento sempre foram


claras: Ler livros repetidos – precisava com urgência ir para uma

livraria -, assistir a televisão e sua programação ridícula e sem

cultura, apesar de ter a opção dois onde posso escolher algum

filme da vasta coleção de DVDs que tenho em casa. Podia jogar

algum jogo no quarto de Patrick, mas só de imaginar aquele

cômodo imundo, cheirando a suor e comida estragada, com

roupas intimas espalhadas entre a mesa do computador e a

televisão já quase posso sentir o vomito saindo garganta a fora.

Eu poderia até tentar arrumar alguma coisa por lá, mas não

seria eu se fizesse algum tipo de caridade ao pateta 2.

Fiquei imaginando o que estaria fazendo aqueles dois

uma hora dessas? Com certeza algo mais produtivo do que eu –

apesar de que o Patrick só produz gazes tóxicos e enjôo coletivo.

Tinha os meus CDs, mas não iria mexer neles agora.

Deitei em consequência da falta do que fazer, coisa tipicamente

minha.

Comecei a pensar na vida – outra coisa chata que faço –

e na minha imensa “sorte” em não viajar para lugar algum

nessas férias.

Resolvi sair um pouco, para refrescar a cabeça, não

tinha rumo, deixaria que meu “instinto aventureiro” me levasse.

Mas sabia que não poderia demora. Disse a minha mãe que iria

à sorveteria. Se eu dissesse que andaria por ai, sem rumo, sem

destino, deixando o meu instinto me levar ela me colocaria em

uma camisa de força.

Peguei meu relógio e coloquei alguns anéis. Reparei que

eu tinha que pintar as unhas, estavam horríveis! Peguei minha

chave e fui para onde meu coração quisesse.


Assim que sai da porta parecia que tinha tido um dejá

vù. Eram as mesmas pessoas, fazendo as mesmas coisas, nos

mesmos lugares. Era como se nada tivesse mudado desde a

ultima vez que sai. As ruas estavam do mesmo jeito do dia

anterior, as lojas pareciam ter os meus clientes – apesar de

saber que eram outros -, nada mudava. Não que eu esperasse

que as coisas mudassem de um dia para o outro, mas essa

cidade estava assim há quase 16 anos. A cidade de Vila Bela era

a pior cidade que alguém poderia escolher para morar. Era

inacreditável em como a cidade era parada. Não tem nem como

acreditar que isso algum dia foi a cidade que meus pais

contavam.

Como meu pai sempre dizia:

– Essa cidade era viva. Ela não era uma simples cidade,

parecia ter vida própria. Com suas festas, muitas vezes sem

motivos, que reunia toda uma rua e todos participavam. Era

uma verdadeira folia. Eu mesmo já organizei, quando jovem,

algumas dessas festas.

Papai sempre contava, com muito orgulho como se

fosse algo realmente merecedor de uma medalha de honra ao

mérito, sobre as festas que organizava. Ele ainda contava que

todos os feriados que lhe era permitido, a prefeitura organizava

desfiles, com bandas, dançarinos, era quase um carnaval fora de

época.

Parece que minha mentira se tornou verdade, quando vi

estava seguindo direto para a sorveteria. Estava morta de calor

mesmo, precisava de algo para refrescar o corpo.


Nesse momento achei que a escola seria uma boa

opção, algo incomum de se pensar. Talvez fosse o fato de estar

com os amigos – todos de férias – e sobre a diversão extra de

todo dia. Minha vida estava realmente um saco, parada. Tinha

vontade de estrangular a mim mesma de tão nervosa e inquieta

que estava. E para piora ainda o meu quase curto, encontrei a

última pessoa no mundo que gostaria de encontrar.

Quando cheguei, dei de cara com Roger, um colega de

classe. Quando me viu ele abriu um sorriso gigantesco, parecia

que estava chegando a sua frente uma princesa saída dos seus

sonhos mais pervertidos. Sim, porque um garoto com aquela

cara de safado devia ter vários sonhos pervertidos. Nós não

tínhamos muita afinidade, mas isso por minha parte. Ele sempre

tentou se aproximar de mim, e eu sempre pulava fora.

– Oi, Alice! – disse sorrindo.

– Oi Roger. – respondi totalmente sem expressão.

– Comprar sorvete? – não, vim ver se tem o novo álbum

da Beyoncé.

falso.

– Sim, vim comprar sorvete. – respondi com um sorriso

Assim que virei fiz uma careta de ódio e depois conferi

para ver se ele realmente não tinha visto. Estava olhando o

sorvete de frutas vermelhas. Não sei se era implicância, mas o

simples fato de estar do lado de Roger já era o suficiente para

deixar meu dia mais odioso. Sempre diziam que eu estava era

apaixonada por ele. Se ele tem algum interesse por mim eu não

sei, mas eu NUNCA. Até que ele era um rapaz bonito, com belos


olhos azuis, cabelos lisos e loiros, uma pele de dar inveja e uma

boca incrivelmente perfeita com um corpo tão em forma que

nem parecia um garoto de 15 anos. Verdade seja dita: ele era

lindo. Pode até ser burrice minha deixar um cara assim passar

por mim e eu não fazer nada, mas havia algo nele que me

enojava.

– Você não foi viajar? – continuou ele a me torturar.

– Não, não. Fiquei por aqui mesmo. – estava com medo

de estar sendo simpática de mais e ele entender isso de outra

forma. – E você, não quis viajar? – a pergunta foi automática.

Não deveria ter prosseguido com essa conversa.

– Bem, eu fui para a casa de praia do meu pai. Mas não

ficamos muito por lá. Meu pai tinha negócios para resolver.

– Entendo. – disse enquanto pegava uma bola de flocos

e seguia para as coberturas.

– Você vai estudar na escola de Vila Bela esse ano?

– Claro. – onde mais eu iria estudar? Era a única escola

da cidade. Além do mais, é a dois quarteirões da minha casa.

Posso ir a pé.

– Eu também vou estudar lá esse ano. Será que vamos

pegar a mesma sala de novo? – se a vida for justa não.

– Como podemos saber né? – paguei a moça no caixa e

segui em direção a porta. Ele pagou rapidamente e correu atrás

de mim.


– Você vai ao primeiro dia de aula?

– Sim. – fui curta e grossa.

– Que bom!

– Até mais então. – não esperei a resposta. Sai sem

olhar pra trás.

Quando cheguei em casa o sorvete já tinha acabado.

Joguei o pote no lixo e segui para a sala. Queria assistir um

pouco de televisão. Lavei as mãos na pia da cozinha e enxuguei

sobre a calça, passando as palmas da mão e depois balançando

ao ar.

Na sala descobri que minha mãe estava deitada,

assistindo pela milionésima vez ao… E o vento levou.

Ela deve ter começado cedo, ou eu demorei demais na

sorveteria, porque quando cheguei estava exatamente na cena

em que Scarlett jura nunca mais sentir fome, seguindo depois da

histórica trilha sonora e das lágrimas da minha mãe descendo.

Não sei como minha mãe consegue assistir aquele filme imenso

tantas vezes assim. Nem eu que gosto de assistir filmes

repetidos tenho tanta disposição.

Subi para meu velho e querido quarto. Fui assistir

televisão por lá. A minha televisão era menor que a da sala, mas

quebrava o galho.

Estava passando um programa de fofocas. Como todo

mundo adora saber o que os artistas estão fazendo, eu fiquei


assistindo. Deitei na minha cama e fiquei abraçada com um dos

meus ursos de pelúcia. Fechei os olhos e abri novamente.

Levei um grande susto, como num piscar de olhos minha

televisão desligou e as luzes apagaram? Teria tido alguma queda

de energia e eu não percebi?

Levantei e fui olhar meu celular. Dia 25 de janeiro.

Estava explicado, já havia amanhecido. Não acredito que tinha

dormido 17 horas seguidas! Não era por acaso que estava com

fome.

Fui tomar banho. Depois do banho, peguei meu habitual

roupão de todo dia e desci para tomar meu café, com os cabelos

úmidos. Desta vez olhei primeiro para ver se papai tinha

comprado queijo e presunto, estavam lá. Peguei o pão, parti e

coloquei primeiro o presunto, e por cima do presunto o queijo.

Novamente sozinha, tomei meu café da manhã do jeito que

gostava. Era estranho quando algo aparecia diferente do

habitual. Engraçado, eu detesto tanto a monotonia e a mesmice

desta cidade, mas quando minha rotina muda eu fico perdida.

Talvez eu não fosse me acostumar caso as coisas na cidade

começassem a mudar.

Mamãe desta vez estava colocando algumas roupas

para lavar, nem me ouviu descendo. Papai sempre dizia que eles

podiam contratar uma empregada para cuidar da casa, mas

mamãe se recusava a entregar a casa para uma desconhecida.

Ela sempre dizia que adorava ser uma dona de casa e nada a

faria querer parar com isso. Passei na área de serviço para dar

bom dia para ela. Ela me deu um beijo, mas afastou as mãos o

máximo que pode, estavam molhadas.


Aos poucos comecei a me sentir enérgica. Sabia

exatamente o que iria fazer: ARRUMAR O QUARTO.

Não podia desperdiçar toda essa energia, tinha dormido

17 horas, não tinha lugar para preguiça no meu corpo.

Subi para meu quarto. Comecei pelo básico, arrumando

a cama e guardando algumas roupas sujas no cesto de roupas

sujas. Liguei o computador e abrir meu e-mail. Não esperei

carregar a página, fui ao armário guardar as roupas de cama,

agora já dobradas. As cobertas ficavam no compartimento de

cima, que eu não alcançava direito. Resultado; as cobertas

caíram em cima de mim. Lá fui eu dobrar todas as cobertas de

novo.

Depois de dobrar – novamente – todas as cobertas,

resolvi pegar a cadeira do computador. Foi então que notei, na

caixa de entradas do meu e-mail, o alerta: VOCÊ TEM (1)

MENSAGENS NOVAS


03. E-MAILS

Era uma e-mail de Toni. Aquele adorável pateta havia acabado de

chegar ao hotel. Mandou um belo e-mail, cheio de amor e

saudades:

Oi Alice, tudo bem com vc?

Eu acabei de chegar ao hotel (que é

muito elegante, por sinal).

Estou no notebook – que está com pouca

bateria – por isso vou ser breve.

Diga ao papai e a mamãe que eu estou bem

e que Patrick já encontrou com o resto

da banda. Eles pegaram o ônibus da

“turnê” e seguiram para o Rio de

Janeiro. Tudo está indo as mil

maravilhas, até agora. Creio que nesse

momento Patrick já deve estar conhecendo

o local onde vai tocar. Eu vou encontrar

com alguns amigos aqui em Vitória.

Bjos do seu mano que você tanto adora

Toni

Nossa! Eu realmente adoro esse meu irmão. Assim

como a Rainha Elizabeth vem todos os dias trazer o chá das

17:00 para mim. Mas que eu estava com saudades, isso já era –

infelizmente – fato!


Depois desse e-mail eu quase havia me esquecido do

que estava fazendo. Só me lembrei mesmo quando vi três

cobertas – duas totalmente desnecessárias, estavam na minha

cama por costume – dobradas em meu colo. Peguei a cadeira do

computador, subi e coloquei-as sem problemas. Depois da cama

arrumada, das roupas sujas já no cesto de roupas sujas e a

roupa de cama devidamente guardada, comecei a tirar tudo do

lugar.

Eu sempre fui do tipo que quando começa uma

arrumação em meu quarto, coisa rara, tenho que tirar

absolutamente tudo do lugar. Mesmo que depois eu acabe

colocando exatamente do mesmo jeito.

Comecei pela escrivaninha. Tirei os DVDs, as revistas,

alguns livros, a câmera fotográfica – que estava na mesa do

computador, mas acabou parando na escrivaninha –, um

caderno e minha agenda. Coloquei tudo em minha cama e

prossegui, agora com a mesa de computador. Tirei alguns

cordões e anéis que estavam lá, a ampulheta e também

coloquei na cama. Os CDs também tive que tirar. E as coisas da

minha mesinha também. Tudo para cama. A mesinha que fica

do lado da minha cama estava arrumada, mas meu hábito de

tirar tudo do lugar falou mais alto.

Varri, tirei poeira, teias de aranhas e tudo o que podia

estar “emporcalhando” meu quarto. O aparelho de som estava

alto – não muito – e a música estava me animando ainda mais.

Depois de tudo limpo, comecei a reorganizar as coisas. Peguei a

caixa do microondas que estava na garagem e subi com ela para

meu quarto. Usaria como lixão. Guardei os CDs que eu ficaria no

lugar e joguei fora os CDs que havia gravado, mas por algum

motivo não me valiam de nada. Revistas eu não costumava jogar


fora, mas havia algumas que eu nem gostava mais. Pro lixo. Meu

caderno de anotações já estava com anotações desnecessárias,

lixo.

Ao fim mais coisas foram do que voltaram. Foi uma

ótima arrumação. Meu quarto agora estava um brinco, tão

limpo quanto quando a minha mãe o arruma com seu jeito todo

especial de ser.

Desci. Já estava na hora do almoço. Mamãe, como

sempre, já havia deixado um prato na pia, visando a minha

altura e a do armário, ela já espera que acidentes aconteçam

caso eu mesma tenha que pegar os pratos. O almoço estava

com um cheiro agradável e reconfortante. Um verdadeiro

prêmio depois de uma árdua arrumação no quarto.

Antes de botar meu almoço, fui à sala, com o prato vazio

na mão. Mamãe estava assistindo TV, desta vez o jornal local.

Botei minha comida, peguei o suco e segui para subir, mas

voltei. Lembrei do e-mail de Toni e resolvi falar logo com a

mamãe. Sentei ao lado dela. Seu olhar era tão sereno e angelical

que às vezes duvidava que ela fosse minha mãe. Queria muito

ser igual a ela, tão linda, sempre feliz, com uma paz interior tão

grande – mesmo que às vezes essa paz seja irritante.

Aproximei-me um pouco mais e esperei que ela

perguntasse. Não perguntou. Resolvi falar logo.

– Mãe, o Toni mandou um e-mail hoje, mais cedo.

– Meu Deus! Como ele está?


– Ele disse que está bem, já está no hotel e Patrick já

seguiu para o Rio com a banda.

– Que ótimo! Diga a eles que desejo toda a sorte do

mundo, que já estou morrendo de saudades e espero vê-los

logo! – Dona Michele sabia muito bem como dizer qualquer

coisa sem sair de seu tom de voz calmo e angelical.

Não subi, resolvi terminar de almoçar ali na sala. Minha

mãe já havia terminado o almoço, mas ainda estava com o prato

vazio nas mãos. Agora ela olhava as notícias locais, chatas e

tediosas. Era quase inconfortável que outras cidades sejam mais

movimentadas que Vila Bela. Não queria os crimes e

assassinatos, mas quem sabe um show ou um desses eventos,

algo que pudesse me trazer um pouco de diversão e de

preferência de graça – ou quase.

Minha mãe parecia um pouco triste e repetia cada vez

que uma notícia trágica era exibida, “Pobre rapaz, tão jovem!”

ou “Como essa juventude está perdido, 17 anos e já envolvido

em drogas”. Acho que isso é coisa de época. Minha mãe viveu

em uma época onde o mundo era mais “colorido” e as coisas

eram mais simples, eu já sou da era onde tudo tem que ser na

hora, pra hoje. Achava triste ver todas essas pessoas se

perdendo, mas não ficava chocada como minha mãe, já havia

me acostumado a essa loucura toda que o mundo está se

tornando.

– Quer que eu leve o seu prato? – perguntei me pondo

na frente dela e estendendo a mão.

– Ah sim, por favor! – minha mãe deu um sorriso leve e

agradecido.


Coloquei o meu prato e o prato da mamãe na pia. Subi

para o quarto. Estava muito calor, então abri a janela e liguei o

ventilador. A energia acumulada de 17 horas de sono não havia

se dissipado totalmente, então desci e resolvi lavar louça, ajudar

um pouco a mamãe, ela deve estar cansada.

Comecei pelos talheres, segui para os pratos e copos e,

por fim, lavei as panelas. Estava tão absorta de tudo enquanto

lavava que nem notei as horas passando. Depois de tudo lavado,

guardei os talheres na gaveta e os copos no armário. Os pratos e

as panelas tive que deixar para minha mãe guardar, também

não queria acidentes.

Minha mãe chegou para conferir meu trabalho, aprovou

e colocou os pratos no armário. Eu a invejava por conseguir

colocar os pratos com tanta facilidade no armário. A última vez

que tentei colocar pratos no armário quase fui para no prontosocorro,

cheio de corte e cacos de porcelana na pele. Os partos

caíram da minha mão, direto para o chão. O pulo que dei

naquele dia foi uma daquelas manobras que você faz uma vez

para nunca mais, pura sorte, e fico agradecida com isso.

Quando fui para meu quarto resolvi checar meu e-mail.

Estava tão sozinha e sem nada para fazer que se não ocupasse

minha mente com algo, acho que acabaria enlouquecendo.

Havia chegado ao ponto de querer arrancar a minha cabeça do

pescoço e jogar handball com ela.

A internet estava lerda, para variar, e minha paciência

nunca foi muito grande. Batia levemente a cabeça na mesa do

computador, enquanto esperava a pagina abrir para finalmente

entrar com minha senha e esperar mais um pouco. Quando

finalmente o meu e-mail abriu, depois de muita espera, o alerta:


VOCÊ TEM (1) MENSAGENS NOVAS. Desta vez era Patrick, o

pateta dois. Respirei bem fundo – lá vem bomba – pensei um

pouco e abri a mensagem. Era um e-mail aparentemente

normal, sem imagens estranhas e nem links para vídeos infames

que Patrick – sabe lá por que – achava que eu ficaria feliz em

ver. Era uma mensagem normal, para meu alivio. Mas minha

paciência com os dois patetas da cidade de Vila Bela era do

tamanho de uma formiga bebê. E a mensagem de Patrick havia

extrapolado esse limite, por mais normal que fosse.

Oi Alice, tudo bem com vc?

Eu acabei de chegar ao hotel (que é

muito show).

Estou adorando isso aqui. O lugar onde

vamos tocar é muitoooo bom!

Diga ao papai e a mamãe que eu estou

bem, que o Toni já deve estar no hotel

há tempos e, provavelmente, nesse

momento deve estar com os amigos, em

Vitória. Tudo está indo as mil

maravilhas, até agora. Vou ensaiar um

pouco com a banda.

Bjos do seu mano que você tanto adora

Patrick

Era quase uma xerox do e-mail que Toni havia me

enviado mais cedo. Eles devem ter combinado isso só para me

enfurecer. Conseguiram. Mas tentei ser racional e madura,

comecei a contar até dez. Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Seis.


Se… Se… Se aqueles dois estivessem aqui eu os mataria. Eu não

sou de me irritar com coisa pouca, mas quando o assunto é os

dois patetas eu perco o controle.

Desci e fui ver a mamãe. Estava arrumando a casa. Vi o

DVD de Romeu & Julieta separado na mesinha da sala. Já sabia

qual era o “clássico do cinema” do dia. Subi com a música tema

do filme na cabeça. Adorava-a, mesmo ela me deixando um

pouco deprimida quando me lembro do trágico fim do casal.

Podia esperar muitas lagrimas para hoje. Pela parte da mamãe e

por minha também – esse eu iria assistir.

– Mãe, quando for assistir ao filme, me chama! – gritei

enquanto subia os degraus.

No meu quarto, liguei a televisão e fiquei assistindo ao

programa de fofocas. Não tinha nada melhor mesmo. Depois de

uns minutos mamãe me chamou.

– Filha! Já vou colocar o filme. – oba, vai começar a

sessão choradeira. Meu pai havia alugado o filme uma vez e viu

no primeiro encontro válido dos dois. Eles nunca consideravam

o primeiro encontro de verdade como válido, não entendia o

motivo, mas também nunca me interessei muito em saber.

Peguei a pipoca, que já estava pronta na panela, o

refrigerante e apertei o play. O filme começou.


4. FOFOCAS

E

ra manhã outra vez. Mais um dia havia passado e minha vida

continuava a mesma, gostando ou não. Levantei cedo, tomei

banho, coloquei meu roupão de todo dia e fui ver se mamãe já

tinha feito o café. Pelo cheiro que senti logo que desci as

escadas, o café estava acabando de sair.

Papai, para minha surpresa, ainda estava na mesa. Eu

realmente havia acordado cedo. Estranhei-o ainda não estar

totalmente arrumado para o serviço.

– Pai, o que aconteceu que ainda não está vestido?

– Hoje eu resolvi chegar mais tarde. Estou muito cansado.

– O Toni e o Patrick mandaram e-mails!

– Sua mãe me contou. Pode dizer que estou muito feliz e

desejo toda sorte do mundo pros dois!

– Claro, claro! Pode deixar. – eu adoro falar com aqueles

dois mesmo.

Sentei na cadeira ao lado esquerdo do papai, onde sempre

me sento. Quando os meus irmãos estão aqui eles costumam

comer em seus quartos, ou na sala. Acho que eu sou a única que

gosta da mesa. Papai só sentava conosco nos cafés da manhã,

para ler seu jornal.

Depois de tomar meu café, subi imediatamente. Fui

responder o e-mail dos dois. Para economizar tempo, mandei a

mesma mensagem para os dois:


Oi, pateta!

Estou feliz que tenham

chegado em segurança

nos seus respectivos

lugares. Odiaria que

vcs morressem. Quero

vcs vivos, para poder

torturar os dois, bem

devagar, depois podem

morrer a vontade.

Mamãe e papai

desejaram sorte,

felicidade e tudo

mais.

Bjs

Mari, sua irmã do

coração.

Não tava nem ai se tinha sido um pouco grossa na

mensagem. Eles mereciam. Às vezes acho que preciso de um

psicólogo para entender o motivo de tanto ódio gratuito pelos

meus irmãos. Bem, na verdade não é tão gratuito, eles

aprontam, mas as vezes acho que exagero.

Quando desci, mamãe estava assistindo um programa de

culinário. A apresentadora de meia idade loira e dentuça estava

ensinando receitas de comidas típicas do Brasil durante toda a

semana.

– Já! – fui curta e objetiva e minha mãe entendeu

exatamente do que eu estava falando.

– E o que eles disseram? – minha mãe perguntava da sala.


– Eles ainda não responderam – dei um pequeno grito da

cozinha.

– A mãe da Milena ligou! – minha mãe agora estava na

cozinha.

– Serio, nem ouvi o telefone tocar!

– Ela disse que já estão em casa e perguntou se você não

queria dar uma passada por lá!

– Claro, vou daqui a pouco para lá!

Milena era a minha melhor amiga na infância, mas agora

ela mudou um pouco. Ainda somos amigas, porém, pensamos

de modo diferente, o jeito como ela vê a vida, suas atitudes, nós

somos bem diferentes. Desde que seu pai começou a subir na

vida ela e a mãe começaram a perder a humildade, já via o dia

em que eu romperia a amizade que tenho com Milena por causa

disso.

Quando cheguei à casa de Milena o carro ainda estava com

o porta malas aberto e o pai de Milena estava carregando as

malas.

– Quer uma ajudinha senhor Marcelo? – perguntei assim

que o vi com duas malas na mão e uma pequena mala no ombro

direito.

– Seria uma grande ajuda! Pode pegar aquela mala ali, a

direita! Não está pesada, são apenas alguns vestidos da Milena.

– a peguei. Como ela disse, não pesava, então peguei outra,

meio verde.

– Se estiver muito pesado você não precisa carregar! –

Acho que era o único que não havia perdido a humildade ainda.


– Não, não! Eu consigo carregar até mais! – estava sendo

sincera. Aquelas malas não pesavam nem a metade das malas

que eu e minha mãe fazemos quando vamos viajar.

– Você é realmente um amor de menina! – ele entrou e eu

o segui.

Deixei a mala junto a outras que estavam em frente a

escada. A mãe de Milena, Susana, estava na cozinha bebendo

água.

– Alice, quanto tempo! – seus cabelos loiros estavam tão

fortes e brilhantes que chamaram mais atenção do que qualquer

outra coisa.

– Realmente! – respondi tentando não fechar os olhos e

não ficar cega.

– A Milena está no quarto! – agradeci a deixa.

– Que bom! Vou subir para falar com ela. – mesmo de

longe ainda se via aquele cabelo brilhando feito neon. Quando

sai de perto dele quase pude sentir como se tivesse ficado muito

tempo fitando uma lâmpada de 100 watts.

– Mili? – perguntei batendo na porta.

–Alice! – ela parecia feliz em me ver. – Entre querida,

quanto tempo! Esse 1 mês e meio que passei fora realmente fez

diferença!

E como tinha feito. Seu corpo parecia ter mudado

consideravelmente para 1 mês e meio. Suas pernas estavam

mais grossas e sua cintura era quase de modelo. Notei que ela

provavelmente iria parar de usar bojo, seus seios também

estavam maiores, mas não fiquei reparando nisso. Os cabelos

loiros e lindos dela estavam em sua cor natural, nada berrante


como a mãe. Seus olhos azuis faziam o contraste perfeito com

sua boca avermelhada e sua pele branca. Talvez ela tivesse razão

para se sentir superior, ela era a garota mais linda da cidade.

Botamos o papo em dia, apesar de que os assuntos que ela

conversava agora não eram de meu interesse, exceto um.

– Alice, sabe no que eu estava pensando?

– O que? – disse enquanto ajudava a arrumar as coisas.

– Nós podíamos marcar de ir ao shopping!

– Ótima idéia, mas quando?

– Amanhã!

– Amanhã?!

– Sim. Por que deixar para outro dia o que se pode fazer

amanhã.

– Não é bem assim o ditado. – eu iria aceitar o convite. Só

estava tirando uma com a cara dela.

– Ah Alice, vamos. Podemos chamar a Bia e a Mel!

Bianca e Melissa eram outras amigas de turma. Elas

sempre moraram em Vila Bela, mas – acredite se quiser – só nos

conhecemos quando fomos para a mesma sala há três anos.

– Tudo bem, eu vou! – resolvi parar de brincar.

– Estou com um pouco de fome! – disse Milena passando a

mão na belíssima e em forma barriga.

– Eu também. Ainda não almocei. – repeti o gesto.


– Vamos à lanchonete da Lucia? Eu estava com saudades

dos pratos naturebas dela. – Milena deu um salto e se pôs de pé.

– Ótima idéia! – respondi com o mesmo entusiasmo.

– Então eu vou ligar para as meninas! Vou ver se as duas

podem ir conosco. – Milena pegou seu celular e começou a

discar

– Desde quando as duas estão de volta? – perguntei

desconfiada.

– Desde ontem! Elas me mandaram um e-mail avisando. –

Milena respondia como se isso fosse óbvio demais para ser

perguntado. Não pude evitar de me senti excluída.

Elas tagarelaram um bom tempo. Mel ligou para Bia e as

três ficaram conversando na mesma chamada – acho. Nunca

entendi direito como isso funciona, mas adorava.

– Tudo certo, as duas já estão indo para lá! – Milena estava

mais animada agora.

– Então o que estamos esperando?

Descemos as pressas. Falamos rapidamente com a mãe de

Milena e fomos direto para a lanchonete.

Chegamos à lanchonete juntas. Bia já foi guardando nossos

lugares, Milena foi falar com a Lúcia, a dona da lanchonete –

nessas horas via salvação para nossa amizade. Lúcia era uma

mulher simpática, mas não mexam com ela ou terão que se

responsabilizar pelas conseqüências. A lanchonete era bem

grande, havia dois andares. Era um típico restaurante natureba,

com o estilo rústico, com moveis em madeira, lustres e

esculturas de barro. Sempre gostei daquela lanchonete, tinha

uma linda vista da cidade morta de Vila Bela. Acho que era o

único lugar da cidade que parecia ter vida.


– Então garota, me conta como foi de férias? – Mel

perguntava para Milena.

– Muita coisa aconteceu, depois eu conto melhor para

vocês!

– Eu tenho muita coisa pra contar, minhas férias foram

ótimas! – disse Bia que me fez acreditar que eu era a única que

não havia viajado nessas férias.

Nós pedimos alguns sanduíches e suco de morango com

hortelã. Conversamos sobre bobagens e riamos muito. Estava

feliz em reencontrar minhas amigas depois da onda de

depressão súbita que me abateu quando meus irmãos viajaram.

Não falamos nada de útil, até Isa tocar no assunto.

– Vocês ficaram sabendo do Sr. Guedes? – Isa puxou o

assunto

A Família Guedes era a família mais antiga da cidade.

Viviam ali há quase 60 anos. A mulher do Sr. Guedes havia

falecido não faz muito tempo. Pobre Senhor Gudes, ficou

arrasado com a morte da esposa, realmente inconsolável. Mais

de 50 anos de casados e ainda pareciam se amar tanto quanto

quando eram jovens, era lindo ver o casal que conseguiu ficar

junto por tanto tempo e com a mesma intensidade de quando

começaram a namorar.

– Diga, diga! – Milena já estava curiosa.

– Dizem que ele vai se mudar. – Mel ficou se equilibrando

entre os tons “mistério” e “fofoca”, mas acabou ficando com o

tom de fofoca.

– Pobre Sr. Guedes, deve ser difícil para ele perder a

mulher depois de... De muitos anos juntos! Soube que ele está

indo para Itália, morar com o filho mais velho. – completou Bia.


– Mas isso não é tudo – Mel voltou ao tom de mistério,

mas por pouco tempo, o tom preferido dela era de fofoca

mesmo – Ouvi dizer que já vendeu a casa há alguns meses, mas

como a família estava na Espanha só poderão se mudar em

fevereiro. Parece que eles estão com alguns assuntos a resolver

por lá.

– Nossa, que coisa! – Eu e Milena falamos em coro.

– Mas isso não é tudo – Mel prosseguiu.

– Meu Deus garota! – Bia interrompeu – Você estava

fazendo alguma investigação da nova família da cidade, tipo,

pegou a ficha completa dos indivíduos? – Todos riram.

– Engraçadinha. Vão querer saber ou não?

– Mesmo se nós disséssemos “não” você falaria, então... –

Bia continuou brincando.

– Parece que o nome da família é “Devón”, eles são quatro:

O marido, a esposa e dois filhos. – ela fazia as contas nos dedos

– Parece que é uma garota, mais velha, e um garoto – Isa deu

bastante ênfase a palavra garoto.

– Será que é gatinho? – Milena já ficou animada.

– Para o bem de todas nós é melhor que seja um deus! –

completou Bia.

– Tomara que seja um desses galãs de filmes teen que nós

ficamos assistindo. – Mel deixou seu comentário.

– Mas Mel, vem cá – disse Bia enquanto levantava uma

sobrancelha e se debruçava na mesa, como que vai contar um

segredo – Como você consegue todas essas informações?


– Eu tenho meus contatos – disse Mel, rindo

maliciosamente.

Todas continuaram comentando sobre como queriam que

o garoto fosse. Eu tive que me resumir apenas em dar um

sorriso sem sal e balançar a cabeça concordando com tudo. Já

via que esse ano as coisas seriam bem diferentes em Vila Bela.


6. SHOPPING

epois que voltamos da lanchonete, liguei para minha mãe. Falei

Dque iria dormir na casa de Milena esta noite. Disse também que

iria ao shopping com Milena, Bia e Mel no dia seguinte. Ela não

disse nada para me impedir, apenas perguntou se tinha tudo

ocorrido bem na viajem com Milena e os pais dela. Disse que

sim.

Subimos eu e Milena para o quarto, não tínhamos

terminado a arrumação pós-viajem que tínhamos prometido a

mãe dela. O quarto de Milena sempre foi imenso.

Depois que terminamos tudo – mesmo – descemos para

jantar. Ao contrario da minha casa, na casa de Milena todos

comiam na mesa, como uma “família” de verdade.

Depois que terminamos de jantar, Milena e eu subimos. Ela

foi arrumar a cama, estava exausta da viagem. Depois que arruei

minha cama – no chão – e colocou uma camisola. Eu já estava

com a minha, mas Milena nunca gostou de ficar pela casa com

roupas de dormir. Diferente de mim, ela não se sentia nenhum

pouco incomodada em ficar nua na minha frente. Já eu, não

sabia onde enfiar a cara quando isso acontecia.

Ela deitou e em poucos minutos já estava dormindo. Eu

ainda estava sem sono, ficar trocando o dia pela noite dá nisso

mesmo. Peguei o abajur na escrivaninha e coloquei no chão, ao

lado da minha “cama”. Peguei um livro da série Gossing Girl e

comecei a ler. Aos poucos o sono foi chegando, de mansinho,

mas foi chegado, até que não deu mais para agüentar. Guardei o

livro, coloquei o abajur na escrivaninha, o apaguei e voltei para

me apagar na cama.

Quando acordei, Milena estava pulando no banheiro.

Apesar de ser fora do quarto, podia ouvi-la cantarolando uma

música qualquer. Assim que ela saiu, eu entrei. Tomei um banho

bem rápido e corri para o quarto. Havia um vestido lindo em

cima da cama quando voltei. Era um vestido xadrez, colorido.


Sua estampa parecia ter sido pintada a giz de cera e não tinha

dúvidas de que era o vestido que eu iria usar hoje.

– Então, gostou? – perguntou Milena – Comprei para você.

– Deu para notar, o vestido é a minha cara! Amei demais,

muito obrigada. Só não te dou um abraço agora porque estou

meio molhada!

– Não esquenta não. O importante e que você gostou.

Milena já estava vestida. Estava com uma blusa listrada de

azul e branco, uma jaqueta verde e uma calça jeans com

manchas brancas. Peguei o vestido e corri para o closet. O

vestido havia ficado perfeito em mim, estava realmente

maravilhoso. Nós íamos começar a nos arrumar melhor – cabelo,

maquiagem e até unhas já que tínhamos tempo – quando a mãe

de Milena gritou:

– Mili, Bianca e Melissa já chegaram. Elas estão subindo!

Logo as meninas já estavam no quarto. Bia estava perfeita.

Seus cabelos castanhos escuros estavam belíssimos, realçando

seus olhos cor de mel. Ela vestia um vestido jeans, com um

modesto decote que estava coberto por um lenço colorido, com

um cinto listrado, também colorido. Já Mel estava com seus

cabelos assumidamente crespos com um novo corte, menor e

moderno, uma blusa bem colorida, uma saia amarela e muitos

acessórios.

Apesar de já estarem prontas, Bia e Mel ajudaram a

arrumar a mim e a Milena. Ficamos conversando sobre varias

coisas inúteis e sobre os mistérios dos garotos, além da torcida

para que aparecesse algum gatinho no shopping.

A mais animada de todas era a Bia, quase não parava de

falar. Eu – como sempre – era a estraga prazer. Adorava estar

com as meninas, fofocar e falar sobre gatinhos, mas às vezes as

meninas exageravam.


Nós íamos com o primo de Milena, Ricardo, ou melhor,

Rick. Ele era mais velho, 19 anos, porém sempre nos dava

carona para onde quer que fossemos. Ele era um cara legal,

divertido, totalmente desencanado, além de ser lindo. Seus

olhos azuis, cabelo castanho claro e músculos perfeitos o faziam

sonho de consumo de quase todas as garotas da cidade. Milena

vivia dizendo que se ninguém pegasse, ela pegava, mas o Rick

estava sempre muito bem acompanhado. Eu já tive a esperança

de um dia ele me querer, mas acho que ele me vê apenas como

aquela garotinha sem graça de 6 anos atrás. Já eu, não o via

como o garoto chato e implicante de quando tinha 13 anos, ele

havia crescido. E como!

Já eram 10:18 quando Rick chegou para nos levar. Ele

estava com seu carro conversível, óculos escuros, uma jaqueta

marrom, calças jeans e os cabelos menores do que a última vez

que havia visto.

– Rick, cada dia que passa você está mais perfeito! – disse

Mel.

– Mel, doce da minha vida, querida Mel. São seus olhos! –

disse Rick, tirando os óculos de um jeito que só ele sabe. Sexy e

sedutor. – Então, estão prontas?

– Há muito tempo, não é garotas? – respondeu Milena.

– Então o que estão esperando? Entrem logo no carro –

Rick fez um sinal com a mão, convidando todas para entrarem

em seu carro.

Bia foi a primeira a subi. Ela foi na frente, deixando Milena

um pouco irritada. O resto de nos sentou atrás, claro. Rick

seguiu sorridente como sempre era. Parecia não ter problemas

na vida. E não devia ter mesmo! O cara era lindo, tinha um bom

emprego, um carro legal, uma garota diferente toda noite, o que

um cara pode querer mais da vida?


O shopping era em outra cidade, não me surpreendia que a

única coisa que poderia animar a cidade de Vila Bela estivesse

fechado há 10 anos.

Quando chegamos, Bia resolveu sair do carro de uma

forma bem diferente. Pulou para fora, sem abrir as portas. Além

de Rick, nenhuma de nós quis repetir o ato.

O shopping estava relativamente cheio. Mas nada que não

pudéssemos enfrentar. Fomos direto para as lojas de roupas –

viciadas. Rick foi encontrar uns amigos em uma loja de artigos

esportivos e disse que se precisássemos dele era só ligar.

Provamos varias e varias roupas. Brincamos de combinar e

saímos gastando nossa mesada de três meses. Foi muito

divertido, como deveria ter sido. Estava dando graças a Deus,

pelo menos isso para dar uma animada nas minhas férias. Havia

roupas de tudo que é jeito, de varias lojas diferentes. Saímos da

ultima loja e fomos tomar sorvete.

– Gente, o sorvete pode esperar? – perguntou Mel.

– O que você quer fazer? – Milena foi bem direta.

– É que preciso fazer xixi – respondeu Mel cruzando as

pernas. Pela cara dela parecia mesmo apertada.

– Está bem, vamos! Você parece que vai explodir! – disse

Milena, já seguindo para o banheiro. Era engraçado como nós

sempre tratávamos Milena como se fosse a líder do grupo. E ela

agia feito uma líder.

Encontramos com Rick, por sorte, e ele se ofereceu para

esperar com as bolsas na porta do banheiro.

– Mas eu vou ficar sozinho? – perguntou quando viu que

todas nós estávamos indo ao banheiro.

– Rick, meu querido, não queremos quebrar um ritual que

já dura há séculos. – começou Milena.


– Pois é Rick, amiga que é amiga nunca deixa a outra ir ao

banheiro sozinha! – continuou Bia.

– Mas o que vocês tanto fazem lá? – perguntou

inocentemente Rick.

– Isso vocês, homens, nunca irão saber! – terminou Mel,

abrindo a porta do banheiro. Eu tive que me resumir em um

sorrisinho constrangido, dar de ombros e entrar.

No banheiro todas ficaram no espelho, exceto claro, Mel

que foi para a primeira porta aberta que viu. Tinha poucas

pessoas no banheiro, então deu para fofocar um pouco.

– Hoje o shopping está meio fraquinho – começou Milena –

Quase não vi nenhum garoto realmente decente.

– Mas não se pode ganhar sempre – falou Bia enquanto

retocava o batom.

– Eu tinha esperanças de encontrar alguém. – Milena

parecia realmente chateada.

– Meninas, vocês ficariam chateadas se eu saísse um

pouco. Preciso beber água! – estava começando a ficar com a

boca seca.

– Que é isso menina! Vá, não queremos que ninguém

morra de desidratação. – Bia exagerando.

Realmente estava precisando beber água. Enquanto bebia

água tive a sensação de estar sendo observada. Ignorei. Mas a

sensação estava mais forte. Não tinha muita gente no local, mas

mesmo assim não dava para ver direito. Rick estava falando no

celular, de costas para mim. Havia três mulheres saindo do

elevador e um casal entrando no outro. Uns moleques ficavam

rindo em frente à porta do banheiro masculino, mas não

olhavam para mim. Até que eu o vi. Olhando pela janela da

porta da saída de emergência.


Havia um garoto, me observando como sentia. Ele parecia

me vigiar, parecia querer me proteger. Apesar de não conseguir

ver seu rosto direito, seus olhos estavam bem nítidos. Ele

parecia não se importar de saber que eu já o tinha visto, parecia

que queria ser pego. As meninas saíram do banheiro. Olhei para

elas, estavam rindo, olhei de volta e ele já não estava mais lá.

Corri para a porta e olhei pela mesma janela.

– O que foi Alice? – perguntou Bia.

– Não, nada. Apenas achei ter visto alguém aqui. –

respondi ainda olhando para janela.

– Seja lá quem for já não está mais ai – disse Milena, que

olhou pela janela assim que sai. – Eu que não gostaria de estar

nesse corredor sozinha. Ele me assusta!

Realmente o corredor era assustador. Era largo de paredes

brancas. Havia ventilação, pois sentia sair pelas frestas das

portas, mas não se via de onde elas surgiam. E com certeza não

teria dado tempo de ninguém sumir dali.

Voltamos às compras. Rick fez a gentileza de nos

acompanhar nessas ultimas compras do dia. Foi um verdadeiro

cavalheiro, carregando as sacolas, dando sua opinião sobre as

roupas e ainda fazendo todas nós rirem com suas piadas

hilariantes.

No final das compras fomos todos á praça de alimentação.

Comemos uma pizza gigante, sem medo, estava deliciosa.

Conversamos mais um pouco. Rick contou algumas histórias que

aconteceram com ele é o irmão dele, coisas que só se vê em

seriados humorísticos para adolescentes, enquanto nós apenas

riamos muito.

A volta foi mais tediosa. Já tínhamos conversado tudo o

que tínhamos para conversar, fofocado tudo o que tinha para

fofocar, cumprimos nossas expectativas de compras, agora só

nos restava comentar sobre o que compramos e o que

aconteceu nesse longo dia no shopping. Mas mesmo assim eu só


conseguia manter uma coisa em minha cabeça: Quem era

aquele garoto?

E os últimos dias de janeiro se vão. Chega fevereiro. As aulas

estavam prestes a começar.


6. O NOME DELE É DANIEL DEVÓN

eliz ou infelizmente o mês de janeiro havia acabado. Foi rápido e

Ftedioso, talvez um dos meses mais solitários de toda minha vida.

Eu já estava farta de ficar sem fazer nada, absolutamente nada.

Pela primeira vez estava feliz em acordar para ir à escola, pelo

menos lá eu encontraria os meus amigos, teria algo o que fazer e

não ficaria o dia inteiro dormindo e assistindo televisão.

Fui tomar meu banho, como todos os dias. Às vezes achava

que minha vida era um eterno dejá vu, sempre se repetindo.

Quando desci para tomar café, não senti o cheiro de pão e café

fresco de sempre. Olhei a cozinha, estava vazia e intacta. Subi

correndo pelas escadas e fui direto para o quarto da minha mãe.

Ela ainda estava deitada, mas não estava dormindo.

– Mãe, o que aconteceu? – perguntei.

– Não acordei bem hoje, me desculpe. Eu não pude

preparar seu café!

Coloquei a mão em sua testa, estava quente.

– Mãe você está com febre! Até parece que eu vou deixar

você descer nessas condições. Pode deixar que eu me viro. Já

tomou algum remédio? – perguntei quase sem respirar.

– Já sim! Seu pai me deu o remédio que o meu medico

sempre indica em casos como esse!

– E onde está ele agora? – perguntei nervosa.

– Ele foi à padaria. Disse que iria comprar pão, mas não

demoraria.

– Tudo bem, mas nem pense em se levantar da cama. Vou

preparar algo para você!


Sai do quarto e deixei a porta encostada. Enquanto descia

as escadas, ouvi um barulho de porta abrindo. Era o papai!

– Alice, acordou. Comprei pão! – meu pai foi colocando os

pães em cima da mesa e continuou – Acho que já deve ter visto

a sua mãe.

– Ela está com febre, mas já vou preparar o café dela!

– Não precisa. Você vai acabar se atrasando para escola,

hoje não é o primeiro dia de aula? – nesse momento papai

pegava algumas frutas.

– Sim, mas eu não vou deixar a mamãe assim. Hoje eu não

vou! – respondi furiosa pelo papai achar que eu era tão

insensível assim.

– Mas filha, não precisa! Eu vou ficar cuidando da sua mãe,

pode ir!

– Hum, vai cuidar bem dela? – perguntei brincando.

– Claro que vou, eu cuido da sua mãe desde antes de você

nascer. Apesar de que ela é quem tem talento para cuidar das

pessoas. Confesso que ela cuida muito mais de mim do que eu

dela, ela é quase como meu anjo da guarda! – Ele riu e eu o

acompanhei.

– Tudo bem, mas só se a mamãe achar que não vai precisar

de mim!

Subi e fui olhar a mamãe de novo. A febre ainda estava

alta, mas não muito. Acho que o papai daria conta de cuidar dela

sozinho, sabia que a mamãe iria me mandar para escola, mas

perguntei mesmo assim:


– Mãe, você acha que pode ficar sozinha com o papai ou

prefere que eu fique?

– Claro que eu posso ficar sozinho com seu pai! Já fiquei

sozinho com ele tantas vezes, o que de ruim poderia acontecer?

Pode ir filha, eu vou ficar bem! – Ela sorria, mas sua voz já não

era tão angelical como costuma ser. Sua voz estava triste.

– Serio, não vai mesmo precisar de mim?

– Já disse, pode ir!

– Então está bom, eu vou! – Me despedi dela, dei um beijo

e sai. Antes de fechar a porta, coloquei o rosto entre a abertura

da porta e perguntei, só de brincadeira:

– Tem certeza mesmo?

– VAI! – respondeu rindo. Desta vez parecia mais com a

velha Michele de sempre.

Não cheguei a tomar café. Peguei uma maçã e fui comendo

pelo caminho. Apesar de poder chegar alguns minutos atrasado

no primeiro dia de aula, eu queria chegar antes da primeira aula

começar. Fui apressando o passo.

Não precisei andar muito para reparar uma movimentação

estranha na antiga casa dos Guedes. A casa dos Guedes – que

agora seria dos Devón – era no final de minha rua, por isso,

quase sempre passava por ela quando ia para qualquer lugar.

Havia dois caminhões de mudanças e um carro preto do

qual não sei a marca, apenas que era bonito, parado em frente à

casa. Eles deviam ter chegado cedo, parecia que as coisas

estavam bem adiantadas. Tentei ver se conseguia achar alguém

da nova família, mas não consegui. Só se via os carregadores de

uniforme. Bem, acho que teria muito tempo para conhecê-los,

continuei andando.

Assim que cheguei à escola dei de cara com Milena, Mel e

Bia. As três acenaram para mim e eu segui correndo para perto


delas. Não voltamos ao shopping desde daquela vez, mas

comentávamos de um novo dia de comprar.

A escola havia sido reformada. Mas pouca coisa tinha

realmente mudado. As paredes, antes apenas brancas, agora

eram todas brancas e azuis, seguindo as cores da logomarca da

escola. A quadra foi repintada e as redes foram trocadas. Foram

colocados azulejos – também brancos e azuis – até a metade da

parede na secretaria. Ainda não tinha visto o laboratório de

ciências e nem a sala de informática, mas essas acredito não

terem passado de uma pintura básica. O pátio agora tinha

lixeiras com cores para cada tipo de lixo. Parecia que a cantina

também receberá uma reforma, mas não notava muitas

diferenças.

Quando subimos, as salas não pareciam muito diferentes.

Todas foram repintadas e o quadro negro trocado, fora isso era

tudo a mesma coisa. A nossa sala esse ano seria a última do

corredor do terceiro andar.

Apesar de a cidade ser pequena, a escola vivia cheia. Todos

na cidade estudam ou estudaram nela. Era difícil ver algum

aluno novo. Isso acontecia quando alguém de fora da cidade

resolvia matricular seu filho – sabe Deus o motivo – na escola ou

quando alguém se mudava para a cidade.

Bem, esse ano eu já esperava que novidades acontecessem

dês do dia em que Mel disse que a família Devón se mudaria

para a cidade. E assim que entrei na sala, pude ver a primeira

mudança.

Três mesas após a minha, estava ele, sentado olhando para

a janela. Assim que entrei, ele desviou o olhar para mim. Ele era

o garoto mais lindo que eu já havia visto na vida.

Ele tinha cabelos lisos e pretos que estavam

estrategicamente bagunçados, um corpo na medida para sua

idade, uma boca encantadora e um olhar sedutor. Ele era

perfeito em todos os sentidos. Não tinha como negar que, desta

vez, acho que iria gostar de ter a rotina quebrada. Seus olhos

verdes claros continuavam a me fitar, como se estivesse me

decorando. E a cada vez em que seu peito se estufava inspirando


o ar, minha respiração era cortada. Parecia que ele me roubava

o ar.

Não sei quanto tempo ficamos nos olhando. Só fui lembrar

mesmo que estava na escola quando Mili me “acordou”,

empurrando-me para dentro da sala. Mesmo depois que entrei,

ele continuou me olhando. Parecia que estava me vigiando,

querendo me proteger, como o garoto do shopping. Foi então

que me veio à lembrança, o garoto do shopping! Seria ele? Não,

acho impossível. Mas será?

Assim que sentei senti mais olhos em minha direção.

Estava assustada, o que será que todos estavam me olhando de

forma tão estranha. Resolvi olhar melhor, claro, os olhares não

eram para mim, eram para ele.

Toda a sala estava olhando para aquele novo aluno. Seu

rosto de anjo e beleza descomunal pelo visto não havia atraído

somente a mim. Senti-me mal por ele, deveria estar sendo

horrível ser novo aluno e já chamar toda a atenção para si. Ele

não parecia ser do tipo que gosta de chamar a atenção, e aos

pouco vi em seu rosto o desconforto de estar sendo observado

pela sala toda. Na verdade a cara dele era mais de

constrangimento, acho que principalmente por causa dos

comentários. Todos – até mesmo os garotos – estavam

admirados com sua beleza. Também pudera, ele conseguiu, pelo

menos de mim, o titulo de novo “gatão da sala”, talvez até da

escola.

Por alguns instantes, aquela angústia que sempre tenho

quando minha rotina é mudada começou a invadir-me de tal

forma que chegava a doer. Talvez não tenha sido tão bom esse

garoto aparecer por aqui.

As outras aulas foram a mesma coisa, troca de olhares,

comentários, suspiros e batimentos cardíacos a mil por hora. E

no intervalo do lanche não foi diferente. Os comentários só

aumentaram, agora era oficial, ele havia se tornado o garoto

mais bonito da escola. Até mesmo os funcionários comentavam

sobre sua beleza e eu, obvio, não tive para onde fugir.


– Alice, você já falou com o aluno novo? – perguntou Jane,

uma colega minha do 3º ano.

– Ainda não. – respondi meio sem jeito.

– Mas ele é da sua sala, não é? – ela parecia muito

interessada.

– Sim, ele é!

Foi a pergunta mais repetida que os alunos das outras

classes fizeram para os alunos do 2º ano. Todos queriam saber

de onde saiu aquele garoto que ainda não sabia sequer o nome.

Isso me incomodava muito.

O intervalo acabou, mas os comentários não. A aula

seguinte era de literatura. Havia comentários de que a

professora antiga tinha se demitido, mas não se sabe ao certo o

motivo. Parece que ela desistiu de ser professora para cuidar

dos negócios da família, que não eram pequenos.

Assim que entramos na sala a professora nova entrou

também. A surpresa foi geral. Ninguém esperava uma

professora de literatura nova e bonita, ou melhor, nova e linda.

Era tão incrivelmente linda quanto o aluno novo. Seus cabelos

lisos e pretos estavam em um coque. Sua pele branca parecia de

porcelana, olhos verdes e um corpo de dar inveja a qualquer

garota. Ela também tinha uma fisionomia angelical, porém era

mais exótica. Ela provavelmente devia ser uma Devón. Sem

dúvida, as pessoas mais lindas que já vi.

– Olá, classe. Meu nome é Amanda Devón, serei a nova

professora de literatura de vocês. Espero conseguir ser tão boa

quanto à professora antiga de vocês, soube que era excelente.

Bem, esse é meu primeiro dia aqui, por tanto, gostaria que cada

um de vocês levantasse e dissesse nome e idade, começando

por essa fila.


Ela começou pela fila ao lado da porta, a minha seria a

terceira e ultima fila. Havia 23 alunos na sala, mas esse numero

costumava crescer com o tempo até chegar a capacidade

máxima de 40 alunos. Como só havia o Devón – cujo primeiro

nome ainda não conhecia – de aluno novo, nem prestei atenção.

Alguns eu até podia remendar, pois já conhecia exatamente o

modo de falar de cada pessoa na sala.

Olhei rapidamente para trás. Ele ainda me observava, com

os mesmo olhar de vigilância que manteve dês da primeira aula

sobre mim, somente sobre mim. Não sabia se me sentia

lisonjeada, constrangida ou irritada com isso, só sabia que me

sentia estranhamente angustiada com a sensação forte de rotina

rompida.

A segunda fileira já havia acabado e a terceira já estava se

apresentando. Não demorou muito para chegar minha vez.

– Bem, acho que todos já me conhecem. Meu nome é Alice

Montês e tenho 16 anos. – piada infame, estava muito nervosa,

mas pelo menos todos riram. Até a professora deu um sorriso

simpático.

A fila seguiu com Milena e Mel, quando finalmente chegou

a hora dele. Era estranho como nenhum professor perguntou

por seu nome. Provavelmente ele já deve ter conhecido todos os

professores, a irmã dele deve ter apresentado a todos.

Virei-me para vê-lo falar. Ele era ainda mais lindo de pé.

Seus olhos continuavam fixos em mim, depois se viraram para

sala.

– Meu nome é Daniel Devón, tenho 15 anos.

Pela primeira vez pude ouvir sua voz. Era incrivelmente

bela. Tinha um tom angelical, doce que combinava com seu

rosto. Mas também era uma voz firme e segura. Ele era

realmente perfeito. Daniel Devón. Sentia que nunca esqueceria

esse nome. Acredito que seja impossível esquecer o nome da

pessoa mais linda que já vi. A angustia tomou conta de mim


outra vez, agora mais forte e arrebatadora. Sabia exatamente o

que isso queria dizer: NOVA ROTINA SENDO CRIADA.

Após todos terem se apresentado, Amanda começou a

passar a matéria.

– Este é apenas um texto de introdução. Não iremos nos

aprofundar agora. Por isso, não se preocupem; o texto é

pequeno.

Ela passou um quadro inteiro. Em comparação ao que

tínhamos no ano, um quadro realmente era pequeno. Antes de

terminar o ultimo parágrafo, Amanda foi chamada a sala da

diretoria. Parece que a pauta dela já estava pronta.

Assim que ela saiu Daniel se levantou e veio até minha

cadeira. Agora sim, todos os olhares estavam voltados para mim.

O garoto mais lindo da escola, que se manteve calado durante

todas as aulas, veio a minha cadeira.

– Acho que seremos bons amigos. – foram as primeiras

palavras que ele trocava comigo. Muito estranho. Que tipo de

garoto se apresenta com “acho que seremos bons amigos”?

– Q-q-que bom. Então quer dizer que você é um Devón?

– Parece que sim! Você não precisa se preocupar, a

Amanda não ficou com raiva de você. – eu fiz cara de quem não

entendeu – Por causa da piada.

– Ah, sim! Bom saber. – já nem lembrava daquela “piada”.

– Eu mudei para a mesma rua que você mora!

– Sim, eu sei. Mas como você sabe disso?

– Eu te vi saindo de sua casa e passando pela minha casa.

– Você... Você... Me viu? M-m-as como? – estava ficando

assustada – Eu não vi ninguém.


– Eu estava dentro do carro.

– Dentro do... Carro? Ah, claro! – estava sentindo minha

pele corar.

– Espero te ver mais vezes. Agora vou para o meu lugar.

Amanda já deve estar voltando!

Ele voltou para o lugar. Sabia que se fosse qualquer outro

garoto eu não teria ficado tão nervosa e envergonhada e isso

era ruim. Isso era muito ruim.

Como ele disse, não demorou muito e Amanda já estava de

volta. Ela terminou o parágrafo, mas poucos voltaram a copiar.

Estavam todos comentando o que acabava de acontecer. Daniel

Devón, que se manteve calado em todas as aulas, finalmente

resolveu falar com alguém. E esse alguém era justamente eu.

Não estava gostando nada de ouvir as pessoas fofocando

sobre mim. Odiava ser o centro das atenções. Gostava que me

notassem, mas não gostava de ser o único assunto de todos. Eu

realmente precisava de uma consulta com um psicólogo,

urgente.

Já estava vendo tudo, claramente. Esse ano sem dúvida

não seria igual aos outros, não mesmo. Era como se eu pudesse

prever o meu futuro, que não estava nada agradável. Estava

prevendo varias fofocas, cochichos, murmúrios e mais milhares

e milhares de olhares incansáveis sobre mim. Não sei o porquê,

mas sentia que esse Daniel realmente estava disposto a se torna

um grande amigo meu. Mas com tantas garotas na sala, mais

bonitas, mais encorpadas, mais disponíveis a alterações de

rotina, ele tinha que escolher justamente a mim, a mim!

Realmente podia prever o meu futuro. Sabia exatamente o

que me aguardava e sabia que não iria gostar nada mesmo. Mas

parece que não existe escapatória, esse ano é o ano das

mudanças e minha rotina não seria apenas interrompida, ela

seria reescrita. Senti-me extremamente repetitiva, mas esse era

o ano da mudança de rotina, e era uma mudança realmente

descomunal.


7. INVASÃO

inalmente a aula havia acabado, não estava mais suportando

Faquilo. Estive ao ponto de pensar que poderia enlouquecer se

ficasse mais um segundo ali, com ele me olhando e eles

fofocando sobre mim. Quando sai da classe pude ouvir algumas

garotas contando para outras salas o que havia acontecido. Meu

Deus, logo a escola inteira iria ficar sabendo! Não sei se estarei

viva até o fim do ano. No corredor, indo para a saída da escola, o

vi com a irmã. Ele ainda me observava, e agora todos estavam

vendo que o que andam cochichando nos últimos minutos era

verdade. Acho que, de todas as fofocas já contadas, essa foi a

que se espalhou mais rápido, deveria estar no livro dos recordes.

Senti uma mão tocar meu ombro antes de chegar à porta.

Era Roger, aquele infeliz sonhador.

– Vocês estão namorando? – perguntou meio inseguro.

– Vocês quem? – perguntei já sabendo do que se tratava.

– Você e o aluno novo, o Devón. – ele ainda estava

inseguro.

– NÃO! – fiz uma cara de brava e sai. Ele veio atrás e

continuou

– Mas ele falou com você hoje.

– Sim, acho que todos já sabem. – estava ficando nervosa.

– Mas por que ele falou só com você? – ele veio para

minha frente.

– Oras como vou saber! – essa história já estava me

irritando.


Quando sai da escola, segui para o pátio. Precisava ficar

sozinha um pouco. Passei pelo estacionamento e o vi com a

irmã, que tinha acabado de bater a porta do carro. Ele me viu e

veio para minha direção, lindo e perfeito, como um anjo. Mesmo

estando furiosa com o pandemônio que minha vida estava se

tornando por causa dele, não conseguia ficar nervosa quando via

os belos olhos verdes com um sorriso perfeito vindo para perto

de mim.

– Oi, de novo! – ele estava mais perfeito do que me

lembrava.

– Oi – respondi dando um sorriso tosco.

– Desculpe a confusão que acabei criando. – disse

enquanto passava a mão sobre a nuca.

– Que povo louco não é? – tentei não dizer o que

realmente estava pensando – Fica fazendo de uma simples

conversa um espetáculo de circo. – continuei com o sorriso

tosco.

– Que bom que não está com raiva de mim! – ele ficou

mais animado.

– De você? Não tenho motivos para ficar com raiva de você

– mas acho que estava – Os outros que exageraram! – isso era

verdade.

– Será que posso te dar uma carona? – perguntou

apontando para o carro – Bem, não eu. Mas a Amanda não vai

se importar.

– Vamos evitar mais comentários e deixar essa carona para

próxima, depois que a poeira da fofoca abaixar.

Acenei para ele e ele fez um sinal positivo com o dedo. Sua

expressão era de quem havia acabado de dar a maior mancada,

mas não parecia chateado por ter recusado.


Quando fui para quadra, vi que as meninas estavam me

espionando. Até minhas melhores amigas estavam tirando o dia

para me aporrinhar com esse assunto! Segui em direção a elas já

fazendo minha cara de quem estava com “as macacas”.

– Que bonito, meninas, me espionando. – disse antes

mesmo de chegar perto delas.

– Nós só queríamos saber se você... – Mel tentou se

explicar, mas a interrompi.

– Nada de “mas”! Vocês são minhas amigas, ou pelo menos

acho, deveriam me ajudar a calar a boca de todo mundo. Mas o

que vocês estão fazendo, me apunhalando pelas costas,

querendo saber o que eu estava conversando para terem o que

fofocar, não é?

– Alice, é isso que pensa da gente? – perguntou Bia

fazendo cara de inocente.

– É exatamente isso! Quem não as conhece que as compre.

– tentei ser menos agressiva e disse isso mais

descontraidamente.

– Desculpa, prometemos não fazer mais isso – disse Bia,

em nome de todas.

– Fazer o que? Se é ruim com vocês, pior sem! – fiz sinal

com a mão para me seguirem. Todas vieram atrás e nenhuma

tocou no assunto mais comentado do dia seguinte. Sim, porque

esse assunto ainda ia passar por muitas bocas antes de acabar.

Quando cheguei em casa, um susto. Meu pai, sentado á

mesa, junto com outro homem e minha mãe – que parecia estar

bem melhor que de manhã – na sala, com uma mulher. O

homem, de uns 40 anos, estava vestido com uma roupa social,


de pasta na mão e conversava seriamente com meu pai. Já a

mulher, de uns 30 e poucos, estava vestindo um belo vestido

azul, não muito justo nem muito folgado. Mas o que mais me

espantou foi a beleza dos dois. Ele tinha cabelos pretos, olhos

verdes, aparentava ter um corpo em forma, uma voz firme e

decidida. Já a mulher tinha longos cabelos também pretos, olhos

cor de mel, uma pele tão perfeita que nem parecia ter passado

pela adolescência, ou pelas espinhas. Seu rosto e voz eram tão

calmos e angelicais quanto os da mamãe. Ela era a primeira

pessoa que conheci – além da mamãe – que tinha esse perfil.

Fiquei sem ação, já sabia exatamente de quem se tratavam. Só

podiam ser eles, os Senhor e Senhora Devón, que outras pessoas

no mundo poderiam ser tão lindas e angelicais quanto a essa

família. Nesse momento cheguei a cogitar que eles haviam sido

feito em laboratório, unido o que há de melhor nos seres

humanos, não havia condições de uma pessoa normal nascer tão

perfeita.

– Alice, você já voltou! – disse meu pai. – Quero lhe

apresentar o Sr. Miguel Devón.

Como imaginei, eram os Devón. Ele sorriu para mim e seu

sorriso me fazia lembrar o de Daniel. Estendeu a mão para me

cumprimentar, fiz o mesmo.

– Eu e o Sr. Devón estávamos discutindo alguns assuntos.

Nós estamos firmando uma sociedade! – meu pai falava isso

com um imenso orgulho e um sorriso no rosto tão igualmente

imenso. – Aquela é a esposa dele, Sra. Ângela Devón.

A Sra. Devón levantou-se do sofá e minha mãe seguiu

atrás. Ela também me cumprimentou, mas acrescentou dois

beijos. Eu mantive a educação e novamente fiz o mesmo.

– Mas ela já é uma mocinha! – disse a Sra. Devón –

Provavelmente você já deve conhecer os meus filhos.


– Sim, já conheço. O Daniel é da minha sala. Já a Amanda

eu conheceria de qualquer forma. – respondi, novamente

mantendo a educação. – Mas você é muito nova para ter uma

filha da idade da Amanda.

– Que amor! Só mais velha do que aparento. Pode

acreditar. A Amanda tem apenas 20 anos. Eu casei cedo, pouco

mais velha que você. – ela começou a sorrir. Sua voz realmente

era tão angelical quanto à da mamãe.

– Mas mesmo assim, você ainda parece ser muito jovem! –

meu ápice de educação foi na “retirada”. – Bem, se me dão

licença, eu ainda não troquei de roupa, então, se me permitem

eu vou subindo. Com licença.

Subi rapidamente para o quarto. Os Devón não me veriam

mais por hoje, só desceria quando fossem embora, todos eles.

Começava a ficar com medo do que poderia acontecer comigo

dali pra frente, com tantas mudanças acontecendo. A minha

rotina já estava sendo modificada e reescrita. Não sabia mais o

que seria de mim agora, com tantas mudanças aparecendo em

minha vida. Nunca imaginei que o meu maior desejo iria se

tornar o meu pior pesadelo.

Fui tomar um banho, tinha que jogar um pouco de água na

cabeça. Enquanto a água escorria pelo meu corpo e se dissipava

no ralo, mantive meus pensamentos no passado. Parecia um

bom momento para lembrar como minha vida era. Já estava

digerindo algumas coisas e já sabia que podia dividir minha vida

em antes e depois dos DeVale. Depois comecei a imaginar no

que minha vida se tornaria, mas não fazia idéia. Imaginava

fofocas, cochichos e nada mais.

Depois que terminei de tomar banho, fui para porta e dei

uma olhada pela greta que abri, aparentemente os dois já

tinham ido embora. Voltei ao banheiro para apagar a luz que

havia deixado acesa e troquei de roupa. Arrisquei-me e resolvi

descer. Não havia ninguém na sala. Fiquei aliviada, não poderia


voltar ao meu quarto se eles estivessem lá, e se eu quisesse

manter minha educação.

Fui para cozinha e achei que estava tendo uma visão. Era

Daniel Devón sentado na mesa? Sim, era Daniel Devón sentado

na mesa!

– Oi, outra vez! – disse quando me viu.

– O-o-oi. – estava totalmente sem graça.

– Alice, achei que você tinha morrido no banheiro. Venha

por seu almoço! – minha mãe me viu e depois olhou para o

Daniel. – A Sra. Devón pediu para que ele almoçasse aqui hoje.

Eles ainda estão arrumando as coisas e ela não pode fazer o

almoço, espero que não se importe.

– N-n-não, não. – estava mesmo constrangida – Eu não me

importo.

Olhava para ele com a cabeça meio tombada para

esquerda. Não sabia bem o que estava sentindo, mas sabia que

eu não estava em meu estado normal.

– Você está muito bonita! – meu rosto corou

instantaneamente. Ele queria acabar comigo.

Sentei-me à mesa e, para minha surpresa, minha mãe

sentou junto. Em plena segunda-feira, Dona Michele se sentou a

mesa para almoçar. Esses Devón estão fazendo milagres.

Minha mãe resolveu dar uma de repórter investigativa e

começou a interrogar o pobre do Daniel Devón.

– Então Dani, posso te chamar de Dani? – ela começou.

– Claro! Você também Alice, se quiser. – ele queria me

deixar vermelha.


– Então Dani – recomeçou – O que trousse vocês para essa

cidade?

– Estávamos procurando um lugar tranquilo.

– Mas deixar a Espanha para vir para cá, não estavam bem

por lá?

– Sim, estávamos. Mas meu pai tinha uma vida muito

corrida por lá. Ele resolveu passar todos os negócios dele para o

Brasil. A vida vai continuar corrida, porém, menos do que era na

Espanha.

– E de que parte da Espanha você era? – ela parecia

interessada.

Ele fez cara de quem havia sido pego na mentira, mas

respondeu.

– Morávamos em Valencia. Mas já moramos em Barcelona

e em Madrid. – esse comentário me deixou ainda mais

desconfiada. O que alguém que já morou em Madrid poderia

querer em uma cidade como Vila Bela? Seria esse mais um dos

Mistérios de Vila Bela?

– Mas vocês escolheram vir para cá por que mesmo? – a

pergunta que eu não deveria ter feito.

– Meu pai, queria uma vida mais tranquila. – ele parecia

não ter gostado muito da pergunta.

– Mas Dani, quer dizer que você também tem 16 anos. –

continuou minha mãe.

– Sim, acho que posso dizer que tenho. – respondeu

sorridente. – Farei daqui a um mês


– Mas você é muito bonito. Bonito demais. Viu Alice, como

ele é bonito? – minha mãe havia perdido o senso do ridículo. O

alarme “minha mãe estava me envergonhado” começou a tocar.

– Mas a Alice também é muito bonita! – ele disse olhando

nos meus olhos. Uma crise de tosse começou naquele

momento. Havia sido pega de surpresa!

– Alice, você está bem? – perguntou ele se levantando para

me ajudar.

– Não, não. Pode deixar, já estou melhor! Se me dão

licença, eu vou subir. Já estou mais que satisfeita!

Sai da mesa e nem tentei ver se eles continuaram

conversando ou se ficaram de boca aberta com a minha súbita

retirada. Tranquei a porta. Estava começando a ficar com medo

de abri-la e dar de cara com a família Devón em peso na minha

sala de estar. O que era isso, uma invasão?

Logo ouvi a porta bater. Minhas pernas tremeram!

– Quem é? – perguntei desejando que não fosse o Devón.

– Sua mãe!

– Você está sozinha?

– Tecnicamente.

Havia deitado na cama. Levantei-me, fui devagar à porta e

abrir uma pequena fresta. Depois de conferir que Daniel não

estava lá abri completamente a porta.

– O que foi aquilo lá embaixo? – perguntou minha mãe

indignada.

– Não foi nada! – menti.

– Como assim nada? – minha mãe estava menos nervosa.


– Não sendo nada. – continuava mentindo.

– Não posso acreditar que você, que nunca ligou para

receber meninos em casa, está envergonhada. – mãe realmente

tem um sexto sentido.

Queria muito dizer a ela que a presença dele me

incomodava. Não por nada que ele tem feito, pelo contrario, ele

era o garoto mais divinamente perfeito que já havia conhecido.

E mesmo que não fosse, só o conheço há algumas horas, mas

por causa de um motivo tão banal que teria vergonha de

confessar para mim mesma.

– Mãe, não foi nada. Juro. – tive que continuar mentindo. –

Eu só quero ficar um pouco só.

– Tudo bem, mas não faça isso de novo. O pobre do garoto

ficou lá sozinho, achando que tinha feito algo que te magoou.

Você não pode agir desse jeito!

– Tudo bem mãe.

Assim que ela saiu, atirei a revista que estava fingindo ler

na porta. Ouvi minha mãe dizendo um “Pare de tacar coisas na

porta”. Estava furiosa comigo mesma por ter pagado aquele

mico. O que ele deve estar pensando de mim agora? Deve estar

achando que sou uma louca, desequilibrada e totalmente fora

de controle. Bem, louca eu realmente era, um pouco.

Desequilibrada nem tanto, apenas quando algo me enfurecia.

Agora, fora de controle, era a primeira vez que ficava assim. Isso

não era nada legal!

Tentei dormir. Apaguei as luzes e fechei as cortinas. Rolei

uma, duas, três, quatro vezes e nada do sono vir. Tentei ler

novamente, mas não conseguia me concentrar em nenhuma

linha. Tentei novamente dormir, mas o sono resolveu sair de

férias, enquanto as minhas tinham acabado. Tentei escrever,

mas só saia frases sem sentido. Andei pelo quarto, totalmente

confusa e quis gritar, mas tive que prender o grito, o que só

piorou minha situação.


Passei a tarde toda me alternando da cama para as

revistas, das revistas para os cadernos e dos cadernos de volta

para cama. Era um ciclo que parecia não ter fim.

Fui mexer no computador – quebrando o ciclo que

perdurou durante 3 horas – e fui verificar meu e-mail, que não

via há tempos. VOCÊ TEM (11) MENSAGENS NOVAS.

Abri uma por uma. Havia várias de notícias de artistas, de

lojas que era cadastrada e alguns do horóscopo mentiroso que

previu um mês repleto de alegrias, inovações e crescimento

espiritual, além do aparecimento de um amor arrebatador, mas

nada que pudesse me impedir de cometer uma loucura e me

atirar da janela.

Resolvi ligar para Mili, mas meu celular estava

descarregado. Não tinha um telefone no quarto e o telefone da

casa ficava na sala e outro na cozinha. Sabia que ele

provavelmente já não estava mais lá. Quer dizer, ele não estava

lá, já tinha ido embora, mas não quis arriscar sair do quarto e

dar de cara com um deles, aquela família perfeitamente perfeita.

Voltei ao ciclo cama-revistas-caderno-cama, mas não por

muito tempo. Já estava chegando ao fim da tarde, uma hora eu

teria que sair daquele quarto. Minha barriga estava roncando de

fome, já fazia mais de 5 horas que eu estava naquele quarto e

não havia almoçado quase nada.

Tomei coragem e abri a porta. Como esperava, não havia

ninguém além da minha mãe na casa. Desci e esperei a janta

sair. Estava imaginando o horror que deveria estar meu rosto.

Fiquei sentada na frente da televisão. Minha mente estava

longe, bem longe e estava repetindo a mesma frase: Mari, você

precisa ir ao psicólogo!


8. OLHOS PROTETORES

s coisas estavam indo terrivelmente mal para mim. O dia

A

anterior tinha sido um... Nem sei como chamar o dia anterior.

Estava indiscutivelmente mal por tudo o que vinha acontecendo.

As coisas estavam mudando rápido demais e eu não podia fazer

nada. Isso era irritante, estar totalmente indefesa a tudo o que

estava me rodeando.

Minha mãe, desde ontem, já estava melhor. Sua febre

havia sumido totalmente. Estava como sempre foi, linda e

perfeita. O anjo de sempre. Apesar do mico que ela me fez pagar

no dia anterior, naquele maldito almoço, não estava zangada

com ela.

Fui para a escola, desejando inutilmente que ele não

estivesse por lá. Não podia suportar outro dia como aquele. Mas

a vida é cruel e não demorou muito para eu vê-lo novamente.

Ele estava segurando a porta do carro enquanto sua irmã

ajeitava em seu colo alguns livros. Continuei andando e

tentando ignorá-lo. Foi impossível.

Ele estava mais lindo e radiante do que no dia anterior.

Como sempre, mal pude respirar enquanto o via sorrindo. Tentei

passar rápido, para não ser percebida. Não sei se conseguiria

dizer “não”, caso ele me oferecesse carona de novo. Ele estava

com um camisa regata verde, uma calça jeans básica – como

quase todos os garotos da escola – e com um boné que ele teria

que tirar assim que entrasse na sala de aula.

Como já esperava, foi impossível não notar quando passei.

Ele me viu e acenou para mim. Não me surpreenderia se caísse

dura no chão, totalmente sem ar, conjunto olhar

perfeito+sorriso arrebatador são realmente fatais. Assim que me

aproximei, ele me chamou.

– Alice, que bom te ver! – ele abriu um sorriso de orelha a

orelha.


– Acho que você é a primeira pessoa que fica feliz em me

ver acabando de acordar. Devo estar um caco! – eu estava

realmente um caco.

– Que é isso, você está linda! – começava a achar que

deveria me acostumar a ficar corada constantemente. Pelo

menos perto dele.

– Você às vezes fala coisas que não entendo. – disse isso

bocejando.

– Agora eu que não entendo!

– É a segunda vez que me acha bonita em menos de 34

horas.

– Você não quis dizer 24? – estava realmente com sono.

Misturando com o nervosismo de estar ao lado dele só podia dar

nisso.

– Eu disse 34 não é? – ele balançou a cabeça

afirmativamente. – Que mico.

Amanda, que já estava dentro do carro desde que

começamos a conversar, chamou Daniel para entrar. Tinha

esquecido que ela também estava ali.

– Ah, Alice! Você quer uma carona? – perguntou ele.

– Bem... – como imaginei, não consegui dizer não para

aquele sorriso. – Eu aceito desta vez. Estou muito cansada.

– Então entre! – ele abriu a porta para mim e estendeu a

mão oferecendo-me ajuda para entrar no carro. Estava a cada

dia que passava mais encantada e mais angustiada com Daniel

Devón.


– Então, o que achou da escola? – perguntei já me

arrependendo de ter aceitado a carona.

– A escola é boa. Não gostei muito das alunas. Apensar de

nenhuma ter vindo falar comigo, senti que elas eram muito

superficiais e oferecidas. Só pelos olhares você já notava isso.

– E você me acha superficial e oferecida? – estava com

medo do que ele pensava sobre mim.

– NÃO – disse alto e com tom de indignação. – Não te achei

nada disso. Pelo contrario, te achei a mais normal e decente

garota da sala. Por isso que só falei com você. – ele tinha que

dizer isso? Estava corada de novo.

– Assim você me deixa sem graça! – falei com um sorriso

inocente.

– Estou vendo, seu rosto esta vermelho! – ele ria feito

criança quando faz uma travessura. E eu, ficava mais vermelha

com isso.

– Mas deve ter outras garotas decentes na escola.

– Sim, até que tem! Mas você foi a única por quem eu me

interessei. Para ser amigo sabe? – já nem fazia idéia de que cor

estava meu rosto, mas com certeza não estava em sua cor

natural.

Quando dei conta do que estava preste a fazer, fiz Amanda

parar o carro.

– O que foi Alice? – perguntou ela.

– Não, não. Não é nada de mais!

– O que foi? – agora Daniel perguntava.


– Só não quero que as pessoas fiquem pensando coisas que

não estão acontecendo. Ontem já tiveram assunto para uma

semana de fofocas, se me virem saído do seu carro, não sei nem

o que será do meu mês! Vamos aproveitar que estou a um

quarteirão da escola, ninguém de lá passando no momento e

não piorar mais ainda a nossa situação! – me senti estranha

dizendo nossa situação. Mal nos conhecíamos e já tínhamos um

assunto em comum.

Assim que sai do carro – e de perto daquele anjo –

continuei seguindo para a escola normalmente, como se nada

tivesse acontecido. Estava me odiando por ter aceito carona

deles, mas sabia que qualquer pessoa no meu lugar faria o

mesmo, ou pior.

Cheguei à escola pouco depois deles. O carro já estava no

estacionamento e eles já haviam entrado. Milena, Bia e Mel já

estavam me esperando.

– O que aconteceu Alice? – Bia perguntou.

– Não é nada! – respondi em um dos momentos mais

criativos da minha vida.

– Ela só parece estar com sono! Olha a cara de sonsa que

ela está. – Milena sempre sabia como animar uma pessoa.

– Nossa Milena, não fale assim da garota! – Mel querendo

mostrar que era amiga me “defendendo”.

– Vamos entrar! – finalizei o assunto.

Quando entramos na sala de aula – como já imaginava –

ele já estava sentado a mesa, me esperando. Já via que a minha

vida se repetiria constantemente. Creio que isso seja bom.

Sentei em meu lugar e tentei ignorá-lo. Era impossível, mas

acho que havia conseguido. Mesmo sem olhar para trás um

segundo sequer, pude sentir o olhar dele sobre mim. Já podia


até imaginar como estavam aqueles lindos olhos verdes, me

vigiando.

No intervalo do lanche a vigilância continuava. As garotas

agora estavam mais seguras para falar com ele, mas ele quase

que as ignorava por completo. Ele dava atenção, afinal, ele é um

cavalheiro, mas seus olhos continuavam me fitando. Sentia uma

ponta de ciúmes de todas aquelas garotas, consigam falar

normalmente com ele. Se fosse eu no lugar delas, estaria no

mínimo ga-gaguejando.

O intervalo acabou e todos voltaram as suas respectivas

salas. No longo corredor que antecede minha humilde sala,

tentei falar com ele. Não sei o motivo desse súbito ato de

loucura, mas precisava ouvir sua voz.

– Daniel! – disse encostando a mão no ombro dele.

– Sim. – respondeu acenando com a cabeça e me olhando.

– Você está melhor? – não acredito que fiz essa pergunta.

– Eu, não entendi! – ele fez cara de confusão.

– Esquece, vamos entrar. – não podia continuar com

aquela conversa.

A aula seguiu normalmente – já estava me acostumando

com os olhos protetores dele. Tentei não parecer ridícula, não

olhando para trás durante toda a aula. Estava conseguindo.

Assim que a última aula acabou, recusei o convite de voltar

com as meninas, precisava ficar sozinha. Bia, Mel e Milena

acharam muito estranho, mas não perguntaram nada a respeito.

Resolvi ficar na quadra. Depois que a aula acabava aquilo

virava quase que uma quadra fantasma, imensamente espaçosa.

Sentei, no chão, coloquei as mãos sobre a cabeça e comecei a

chorar. Sentia vergonha de estar chorando por algo que


considerava tão bobo. Quem no mundo chora por ter a rotina

mudada?

Levantei-me, tirei a poeira – inexistente – da roupa e

conferi se ninguém tinha visto o meu momento “mocinha de

novela mexicana”. Não havia ninguém. As meninas não estavam

ali, tentando ver o motivo deu não ter seguido junto com elas.

Sabia que não ter acompanhado-as só confirmava o que elas

desconfiavam, mas não liguei. Dei uma olhada melhor na quadra

e no começo dela, bem longe, estava ele me observado. Que

vergonha eu sentia naquele momento. Também sentia muita

raiva, ele não devia estar espionando as pessoas dessa forma.

Estava muito confusa e sempre achando que iria explodir a

qualquer momento. Estava tensa, insegura, com muito medo e

raiva. Sentia um ódio imenso em meu peito por aquele Daniel,

mas não conseguia saber o motivo de todo esse ódio

desaparecer sempre que o via. Estaria eu realmente louca?

Daniel e sua família eram algum tipo de mágicos que retiram

ódio com olhar? Ou pior! Estaria eu começando a me apaixonar

pelo meu indesejado segurança particular?

Fui para a casa, bem devagar. Tentei dizer a mim mesma

para se controlar, tentar ser mais racional e madura ou se não

iria enlouquecer de verdade.

Tentei por varias vezes pensar em coisas que me

deixassem feliz. Acabei cometendo o ridículo de cantar “My

Favorite Things” de A Noviça Rebelde. Obviamente não adiantou

nada, apenas serviu para eu dizer alguns palavrões. Alguns

muitos palavrões.

Entrei em casa. Minha mãe estava na cozinha, totalmente

recuperada da febre, fazendo o almoço.

– Alice, já estava ficando preocupada! – disse enquanto

enxugava as mãos no avental. – Diga, por que demorou?

– Fiquei um pouco mais na escola. Para pensar. – não

estava mentindo. – Vou subir e tomar um banho! Estou com um

pouco de dor de cabeça!


– Estou vendo, pela sua cara! Quer que eu leve o prato

para você no quarto, acho melhor você ficar deitada. – mamãe

com sua voz aveludada.

– Não precisa. Estou bem, é só uma dor de cabeça mesmo.

Subi e fui tomar banho. Novamente chorei. Agora a água

do chuveiro disfarçava minhas lágrimas. Tanta confusão, tanta

raiva, tanta loucura e choro, tudo isso em menos de uma

semana. Realmente estava sendo muito difícil para mim tudo o

que estava acontecendo. Sai do banho, mas continuei um bom

tempo no banheiro, parada olhando a válvula do chuveiro.

Quando sai do banheiro e fui fechar a cortina da janela,

adivinha quem encontrei? Ele, rondando a minha casa. Aquilo já

começava a ficar desagradável. Ele estava a um passo de perder

o titulo de cavalheiro para ganhar o de inconveniente.


9. BRIGAS

stava tão estranhamente confusa com tudo o que estava

Eacontecendo que havia perdido a noção do tempo. Peguei meu

relógio para ver as horas: 17:00. Minha cabeça estava realmente

flutuando em pensamentos insípidos e desagradáveis. Precisava

urgentemente, então resolvi ir a casa de Milena.

Desci as escadas e tomei um copo d’água. Minha mãe –

para minha surpresa – não estava na sala. Presumi que estivesse

no quarto e acertei.

– Mãe, vou na casa da Mili! – minha mãe arrumava o

guarda-roupa.

– Você já está melhor? – ela perguntou enquanto dobrava

uma camisa do meu pai.

– Sim, já estou melhor! – estava ficando boa na arte da

mentira.

– Tem certeza? – Dona Michele sempre desconfiada.

– Sim, tenho certeza! – tentei evitar transparecer não estar

tão bem quanto dizia estar.

– Pode ir! – minha mãe respondeu dobrando outra camisa.

O caminho para a casa de Milena nunca foi tão longo

quanto desta vez. Meu corpo doía tanto, principalmente minha

cabeça. Nunca imaginei que toda essa mudança repentina fosse

começar a me deixar doente.

Quando cheguei a casa de Milena estava levemente soada.

Não só pelo calor que estava fazendo nos últimos dias, mas

também por conta do nervosismo e da alta tensão que minha

vida estava se tornando desde que apareceu esse Daniel Devón.


– Diga Alice! – disse Milena assim que trancou a porta do

quarto.

– Eu estou muito mal – comecei pelo óbvio.

– Isso já posso ver, mas o que está te deixando assim?

– São todas essas mudanças. Essas mudanças que estão me

deixando louca! – disse enquanto me jogava na cama. – Primeiro

os meus irmãos que se vão. Depois a nova família se mudando

para mesma rua que eu. A escola muda, muda professora e

ainda... Aparece... – dei um suspiro profundo antes de

continuar. – Aparece ele!

– Ele quem? – perguntou Milena.

– Oras, o Daniel! – disse meio zangada. Milena depois que

voltou da viajem parece que se perdeu totalmente, estava

demorando em raciocinar coisas óbvias. – Ele é a principal razão

para eu estar assim. Tudo por causa daquela simples conversa

na sala de aula! Viu como as pessoas me olhavam hoje?

– Vi, pareciam que estavam morrendo de ciúmes.

Principalmente o Roger, não parava de ficar falando mal do

DeVale.

– E quem liga para o que o Roger está pensando? –

consegui rir da piada. – Não entendo o que ele viu em mim. Ele

podia ter agido como um garoto comum e escolhido uma

daquelas... Garotas mais “gostosas”, como eles mesmos dizem.

– Não entende? Quem garante que ela não goste de

garotas mais simples e comuns? – ela estava ajudando muito

falando assim, mas eu não ligava.


– Mili, eu não sei o que esta acontecendo comigo. – botei a

mão na testa – Minha única certeza nisso tudo é que eu não

estou legal. Guria faça alguma coisa!

– Eu? – ela perguntou meio irônica.

– Você! – respondi no mesmo tom. – O que eu posso fazer?

– ela começou a mexer em seu enorme guarda-roupa. – Você

sabe que eu sou péssima para dar conselhos!

– Mas você é minha amiga!

– Mas não sou psicóloga! Fora que é como o ditado diz “Se

conselho fosse bom não se dava, se vendia”. Alice, você sabe

que esse problema não será resolvido com o que quer que eu

fale. Acho que não posso fazer nada por você!

Milena me levou até a porta. Hoje havia sido um longo dia

e foi bom desabafar com a Milena, mesmo que ela não tenha

me ajudado muito, mas só o fato dela me ouvir já era o

bastante.

– Fica bem amiga! – Milena dizia mandando um beijo pela

porta meio aberta.

– Eu vou ficar! – dei um tchau com a mão esquerda e segui

de volta para casa.

Sai da casa de Milena e corri para a minha casa. Já

esperava que Daniel Devón estivesse em algum lugar me

vigiando. Olhei para todos os cantos que pude, mas não vi

ninguém. Comecei a achar que estava ficando paranóica.

Cheguei na hora do jantar, nem um minuto antes e nem

um minuto depois. Os dias, que começaram quentes no inicio do

ano, estavam dando os primeiros sinais de que iria mudar. As

tardes começaram a ficar mais frescas, porém o sol continuava

razoavelmente forte. Minha mãe não estava com raiva de mim,

mas também não gostou de me ver chegando na hora do jantar,

o combinado era antes, mas ela relevou.


Assim que terminei o jantar, peguei um pouco mais de

suco e subi para o meu quarto. Estava muito inquieta, e isso me

incomodava muito. Minha vida estava se tornando um

pandemônio, um inferno. Não sei bem como explicar, mas não

podia ficar parada. Andei em círculos seguindo as linhas do meu

tapete listrado redondo. As cores pretas e brancas do tapete

pareciam se movimentar enquanto girava e girava feito uma

maluca. Se alguém me visse rodando sem motivo algum com

certeza cogitaria possessão ou coisa do tipo.

Quando comecei a ficar tonta fui obrigada a parar. Cai no

chão, zonza de tanto rodar. Coloquei a mão na cabeça, balancei

para os lados e deitei no chão, sobre o tapete. Tive sorte de não

vomitar tudo o que havia comido, seria um problema se isso

tivesse acontecido.

Quando me senti melhor – da tontura – fui instintivamente

para a janela, ver se o Daniel estaria ali como estava mais cedo.

Apesar de escuro, pude vê-lo passando pela minha rua,

novamente. Qual era a desse garoto? Que interesse ele poderia

ter pela minha pessoa? Será que ele não se manca? Estava

falando igual ao Patrick. Ele passou direto, sem olhar para a

janela. Isso me fez pensar se eu não estaria exagerando quanto

a ele. Já era estranho o bastante ele ficar me olhando na escola,

mas me perseguindo? Comecei a pensar que poderia realmente

estar ficando paranóica, que essas “perseguições” não passavam

de coincidências que eu entendia errado. Sem dúvida era mais

provável que eu estivesse enlouquecendo do que ele estar me

perseguindo.

Fechei a cortina da janela – outra vez. Minha mãe sempre

abria a cortina da janela, ela detestava ficar na escuridão. Fiquei

por alguns instantes na frente da janela, segurando o choro.

Consegui – desta vez.

Estava ficando cansada. Apesar de não ter feito nada além

de dormir durante o dia, meu corpo parecia ter passado por um

dia de trabalho pesado, estava estranhamente exausta. Dizem

que os problemas cansam, e agora sei que é realmente verdade.

Sai da janela e fui deitar na cama. Respirei fundo e esperei

a minha cabeça esfriar um pouco. O silêncio era quase que


absoluto naquele momento, se não fosse pelos ruídos que

vinham da rua e o som – bem baixo – da televisão na sala eu

pensaria que, além de louca, eu tinha ficado surda. Meu corpo

começava a se solta, relaxando os músculos, e por alguns

segundo quase pude esquecer-me de tudo. Deitei e no mesmo

instante dormi.

Como já esperava, me atrasei para a escola. Corri para o

banheiro e tomei o banho mais para acordar do que para me

limpar. Foi um dos banhos mais rápidos de minha vida. Corri

para a cozinha, meu pai já tinha saído, peguei uma pêra e corri

para a porta. Nem me despedi da minha mãe, que ficou

magoada com isso.

Quando cheguei perto da casa dele, o carro já não estava

mais lá. Fiquei feliz por não encontrá-lo, mas uma carona até

que seria de excelente ajuda.

Quando cheguei à escola – atrasada – tentei entrar na sala

sem ser percebida, mas era tarde, o professor tinha me visto. O

Sr. Christopher, professor de biologia, me ignorou e continuou

seguindo com o que estava dizendo. Tinha sorte de estar no

inicio do ano, caso contrario estaria muito encrencada.

A aula seguiu muito bem – apesar do atraso. O professor

foi gentil comigo deixando-me ficar na aula, mas sabia que seria

apenas desta vez. O Sr. Christopher, apesar de não aparentar, já

tinha mais de 30 – 35 para ser mais exata. Seus olhos pretos

ficavam escondidos atrás dos óculos, os cabelos mantinham um

corte social e sua voz era um tanto afeminada para o meu gosto.

Eu não estava sentindo os olhos de Daniel hoje. Estranhei

não ter aquela sensação. Estava realmente muito enlouquecida.

Uma hora estava desejando que ele parasse de me espionar,

agora estava sentindo falta daquele olhar vigilante sobre mim.

Olhei para trás, queria saber se ele realmente não estava

olhando para mim, ou se era apenas eu que já havia me

acostumado com o olhar. Ele realmente não estava olhando,

estava escrevendo. Ele me viu e desviou o olhar. Acho que eu

estava fazendo tempestade em copo d’água. Quando olhei para

frente novamente, dei de cara com o Sr. Christopher.


– Além de chegar atrasada, ainda fica enrolando para

copiar a matéria?! – a voz dele realmente me irritava. – Muito

bonito, espero que não venha chorando depois quando estiver

precisando de ponto.

Criatura asquerosa esse professor Christopher,

praticamente todos na sala o odiavam. Além de ser uma pessoa

extremamente implicante, prepotente e cheio de sim, era um

mau cantor. De vez em outra ele resolvia estragar músicas dos

Beatles. Ele costumava ficar tirando a pobre da Mel do serio

dizendo “Mel, eu não te acho feia. Mas também não te acho

bonita.” Ou então “Mel, você é feia até virada do avesso”.

As aulas que antecederam o intervalo do lanche não

tiveram nada de relevante. Foram aulas normais que – por

alguns minutos – cheguei a achar que estava em minha rotina

normal.

O intervalo do lanche chegou, e toda a sensação de rotina

que não foi mudada sumiu. Sentamos eu, Milena, Bia e Mel na

mesma mesa – como sempre. O assunto do momento em todas

as outras mesas ainda era Daniel Devón , ou melhor, eu e o

Daniel Devón. Em nossa mesa ignorávamos completamente o

assunto, mas em consideração a mim do que em vontade geral.

Milena estava quase que visivelmente desconfortada em ficar

calada, Mel ainda mantinha a compostura de fingir, Bia era a

única que parecia realmente querer me ajudar a abafar o

assunto.

– Então... – Milena tentou puxar um assunto. – Você não

achou que a aula de espanhol foi chata hoje?

– Sim, foi. – respondi sem nenhuma emoção.

– Aquele professor é tão chato! – continuou Milena. – Não

sei como consegue aquelas garotas lindas.

– Realmente não sei. – continuava sem emoção.


Bia e Mel se resumiam a ficar caladas, apenas observando.

Eu tentava não gritar, estava quase conseguindo. Tive que fazer

uma manobra ninja para não sair berrando pelo refeitório,

consegui.

As pessoas rondavam a nossa mesa e comentavam. Era

desconfortável ver todos comentando sobre mim. Maldita

cidade pequena e abandonada! Nada acontece por aqui, e

quando acontece vira isso que minha conversa com o Devón

virou.

Vivian e Marcelo do 1º ano e Matheus da nossa classe se

sentaram na nossa mesa.

– Então meninas, o que estão fofocando? – começou

Vivian.

– Podemos nos sentar? – Matheus perguntou.

– Claro, sentem-se! – Bia respondeu por todas.

– Aposto que estavam falando sobre o novo namorado da

Alice! – Tinha que ser o Marcelo! – Ele... Não é... Meu namo.. –

as palavras pareciam não querer sair, mas saíram. – Ele não é

meu namorado.

– Desculpe! Mas está todo mundo comentando, achei que

era verdade.

Coloquei a mão fechada em punho sobre a boca para

segurar a vontade de chorar. A sensação de angustia estava

voltando, com mais força.

O intervalo do lanche acabou pouco depois, subimos

todos. Enquanto passávamos pela escada do segundo andar

senti uma mão sobre meu ombro, era Roger. Ele me olhava com

raiva.

– Por que você está andando com o Devón? – ele falou em

tom de possessão.


– Eu não estou andando com o Devón. – disse irritada. – E

mesmo que tivesse, eu não tenho obrigação nenhuma de te dar

alguma satisfação.

– Mentirosa! – ele quase cuspiu em minha cara. – Eu sei

que está mentindo!

– Garoto – ele havia conseguido me enfurecer. – Você acha

que é quem para falar assim comigo? Eu não te devo explicações

da minha vida. Para de me tratar como se tivéssemos alguma

coisa! Deixe de ser idiota!

Todos estavam olhando para mim. Estavam espantados

comigo.

– Obrigado Roger, ajudou a piorar minha situação! – já

estavam todos olhando para mim mesmo, um pouco mais de

atenção sobre mim não faria diferença.

A aula seguinte havia sido trocada. O professor de

matemática teve que mudar de horário. Ele estava em outra

escola e os horários não batiam. Agora seria aula de educação

física. Nunca fui uma atleta nata, mas mandava bem nos

esportes. Toda a raiva que Roger me fez passar, extravasei no

jogo de handball.

– Nossa Alice, vai com calma! – disse Mel.

– Nunca te vi tão agressiva. – completou Bia.

– Vocês viram como ele falou comigo! - me defendi. – Eu

não podia deixar barato.

– Sim, eu sei! Ele foi um idiota mesmo. – continuou Mel –

Mas isso não é motivo para você descontar em nós, que não lhe

fizemos nada.

– Eu sei, eu sei. Estou tentando me controlar.


– Tente mesmo! – Milena apareceu do nada – ou quase.

Tentei mesmo me controlar, mas não consegui. A raiva que

sentia era tão grande que tinha que descontar em algo.

A aula de física acabou. Estava com a bola na mão, Roger

estava encarregado de recolher os objetos do jogo. Quando

cheguei perto dele, ao invés de jogar a bola dentro do barriu

onde as bolas ficavam, joguei a bola em seu peito. A bola caiu e

o barriu caiu em seu pé. Ele gritou de dor e eu me senti vingada.

As últimas aulas foram suportáveis. Já estava mais calma e

tentava não olhar para cara do Roger, pelo menos por hoje.

Depois que as aulas acabaram, todos comentavam sobre

meu ataque – compreensivo – na escada. Será que eu deveria

começar a me acostumar a ser o assunto do dia, todo dia?

Quando sai pelo portão, senti novamente uma mão sobre

meu ombro, porém maior que a mão de Roger. Olhei para trás,

era Daniel.

– Você parece meio irritada. O que aconteceu? – ele andou

com sua mão em meu ombro e automaticamente segui junto

com ele para o estacionamento.

– Você não ficou sabendo? – ele deu de ombros – O Roger,

aquele cretino, vai me dizer que não ouviu ninguém

comentando.

– Vocês brigaram não é? – ele fez cara de chateação. – Eu

ouvi comentários, mas não entendi bem o que aconteceu.

– Para explicar direito o que aconteceu temos que voltar

no tempo. Pronto para ouvir uma longa história? – nesse

momento notei que estava dentro do estacionamento.

– Pode começar! A Letícia ainda deve estar resolvendo

algumas coisas na secretaria. – ele encostou o braço direito no

carro.


– Dês da 5ª série que dizem que ele é apaixonado por mim.

No começo eu nem acreditei, mas cada dia que passa fica mais

difícil achar o contrario. Eu nunca dei esperanças, ele que se

encheu delas sozinho, mas até então era só isso, ele não me

dava problemas. Esse ano eu não sei o que deu nele, ele

começou a ficar possessivo e hoje foi a gota d’água. Ele queria

saber se eu estava ficando com você.

– É o que foi que você disse? – ele perguntou confuso.

– A verdade, que não estávamos ficando. Ele enlouqueceu

e disse que eu estava mentindo e, como eu já não estava bem,

gritei com ele na escada.

ar.

– Que idiota! – disse ele olhando para o chão e chutando o

– Foi o que eu disse.

– E você está legal? – ele voltou a olhar para mim. Sua

fisionomia era de que estava oferecendo um obro para chorar.

– Na medida do possível. Eu queria mesmo era que toda

essa loucura que minha vida se tornou parasse. Ou pelo menos

essa angustia que está em meu peito.

Ele olhou para mim com uma cara de quem não sabia o

que dizer. Amanda chegou logo após terminarmos a conversa,

cheia de livros. Ele entrou no carro, acenou para mim e foi

embora. Estava começando a gostar mais de Daniel e ficar mais

tranquila e conformada com a nova rotina.


10. HISTÓRIAS DE DORMIR

Quando estava voltando da escola, fiquei pensando no Devón.

Queria entender o que ele era, ou melhor, o que ele significava

para mim. Às vezes eu tinha certeza de que eu o odiava, sabia

que era errado – ele não era o culpado da minha instabilidade

emocional –, mas mesmo assim o odiava. Já hoje, quando estava

conversando com ele no estacionamento, senti algo diferente,

mágico, não sei explicar. Acho que fui dura demais na minha

avaliação sobre ele, Daniel parecia ser um garoto legal mesmo e

não era a primeira vez que me mostrava isso.

Assim que cheguei em casa, corri para almoçar. Estava

morrendo de fome e tudo o que aconteceu na escola nessa

manhã parece ter aumentado mais ainda a minha fome.

O almoço já estava pronto quando cheguei e meu prato já

estava na pia, só precisei colocar a comida nele. Almocei na

cozinha mesmo, estava precisando pensar e sabia que isso não

aconteceria se fosse para a sala. Por fim resolvi sentar a mesa,

comer como uma pessoa normal.

Depois que terminei o almoço, lavei os pratos que estavam

na pia – já começava a me acostumar a fazer isso – e depois subi

para meu quarto. Aos poucos tudo em mim começava a relaxar

e eu estava começando a ficar mais leve e despreocupada.

À tarde eu não fiz absolutamente nada. Passei a tarde

inteira em meu quarto, mexendo no computador. Estava

procurando por qualquer coisa que pudesse me interessar.

Primeiro pesquisei noticias sobre alguns cantores que

gosto. Olhava meu gosto eclético e me perguntava se alguém

que curte a futilidade do mundo pop pode realmente ser

apaixonada pelo expressivo e barulhento heavy metal. Isso sem

dúvida foi resultado da minha grande curiosidade, ou melhor, da

grande curiosidade que tinha quando era criança, hoje já não

era tão curiosa. Minha mãe dizia que se soubesse que me

chamar de Alice traria para mim a curiosidade da personagem

dos contos de fadas ela nunca teria me batizado com esse nome.


Depois pesquisei sobre alguns filmes que estreariam nos

meses de fevereiro para março. Como já esperava eram poucos.

Havia alguns filmes de terror, o sétimo volume de uma franquia

de filmes de psicopata, alguns vários filmes infantis, duas

comedias românticas e uma comédia adolescente estúpida. Já

via que cinema não seria a minha opção de lazer durante esses

dias e teria que me contentar com a minha coleção de DVDs.

Pesquisei também sobre algumas noticias que estavam

rolando ao redor do mundo. Gostava de ficar atualizada sobre o

que anda acontecendo no mundo, estava ficando muito alienada

a minha vida sendo modificada que precisava de algumas

válvulas de escape para poder sobreviver esse ano.

Comecei a editar algumas fotos minhas. Tinha tempo que

não fazia isso e tinha tempo que não tirava fotos, então tive que

editar fotos antigas, fotos de uma época mais feliz da minha

vida. Vendo aquelas fotos e pensando daquela forma eu tive

certeza de que precisava parar de me martirizar tanto por causa

das mudanças que estavam ocorrendo na minha vida. Eu

sobreviveria ilesa a tudo isso, eu sabia que era apenas eu querer

e sorrir para o novo mundo que estava sendo criado bem diante

dos meus olhos. Esse mundo não existe meus irmãos, mas existe

o Daniel Devón e eu devia tomar isso como uma coisa boa.

Meu humor ia mudando de acordo com a música que

estava ouvindo. Sempre que tocava uma música mais alegre,

meu humor melhorava e quando era uma música mais

depressiva, eu também ficava mais depressiva. Eu realmente

estava em um show de instabilidade emocional e decidi por tirar

todas as músicas depressivas de minha lista de reprodução e

substituí-las por músicas mais animadas.

Voltei a pesquisar coisas na internet. Tinha que aproveitar

que a internet estava de bem com a vida – muito rápida para o

estado normal dela – e fazer tudo o que pudesse fazer. Comecei

a pesquisar sobre histórias sobrenaturais e achei um site muito

legal sobre fatos sobrenaturais reais, ou que eram para parecer

reais.


Havia uma lista imensa com vários tópicos e temas. Cliquei

em fantasmas e a primeira história que apareceu foi a de uma

garota escocesa. Era uma história típica de fantasma. A garota

morava com os pais em uma rancho que dizia ser assombrado,

mas a família não acreditava nisso. Mas a menina começou a ver

pessoas mortas andando pelo corredores e foi dada como louca

quando contou isso aos pais. Dias mais tarde a menina foi

misteriosamente encontrada morta, no celeiro, lugar onde

supostamente aconteceu o massacre que os vizinhos haviam

alertado. A filha então começou a assombrar os pais.

– Que história idiota! – disse a mim mesma.

Escolhi outra história, ainda no tópico de fantasmas. O caso

do prédio da Rua 18, que era tão real que nem dizia onde

aconteceu. Essa história contava sobre um prédio onde há

muitos anos foi cena de um massacre, todos as 112 pessoas que

estavam hospedadas no prédio, incluindo funcionários, foram

mortos pelo dono do prédio, com um taco de baseball. Quando

o prédio foi reaberto os hospedes reclamavam de problemas nas

instalações do prédio, pois as luzes acendiam e apagavam,

chuveiros ligavam sozinhos e ar condicionados que abaixavam a

temperatura no meio da noite. Houve um hospede que ficou

louco após se hospedar no quarto 217, onde supostamente era

o quarto mais assombrado de todo o prédio.

Havia muitas outras histórias sobre fantasmas, mas essas

duas já tinham sido o suficiente para mim. Não acreditava que

eles queriam fazer essas histórias se passarem por reais.

Mudei de tópico, fui para casos paranormais. Não havia

muitas histórias ali, a que mais me interessei foi o caso da

mexicana que podia ver a morte das pessoas antes delas

acontecerem. Ela chegou a ser presa, acreditavam que ela era a

responsável pelas mortes, mas ela continuou prevendo e as

mortes continuaram acontecendo.

Já estava desistindo daquele site de histórias “reais”

quando vi um link para outro site, piscando para mim. O nome

do site era “Como falam os anjos” e apenas pelo layout já via


que não era um site qualquer. Era um site para jovens e

amadores escritores de romances onde o tema era anjos. Havia

vários autores e varias histórias, mas uma dela me chamou a

atenção. Era uma história curta, mas muito interessante.

A história se passava no século XVII e contava o romance

de Joseph e Julie. Julie era uma camponesa simples e humilde e

Joseph o herdeiro do trono do reino de Anchar. Os dois se

conhecem após Joseph, em uma de suas caminhadas pelo

bosque, salva Julie de alguns ladrões que a perseguia. Joseph se

apaixona por Julie, mas sabe que o amor dos dois não seria

possível. Julie também sabe que nunca poderá ter o amor de

Joseph, pois além dela ser uma simples camponesa, ela era um

arcanjo.

– Joseph! – Julie disse com lagrimas nos olhos. – Sabe que

nós nunca poderíamos concretizar esse sentimento.

– Mas eu irei lutar por você Julie! – Joseph segurava a mão

de Julie como se fosse a última vez que a tocaria.

– Você enfrentaria seus pais e todo o reino se fosse preciso,

eu sei! – Julie soltava a mão de Joseph e se virava para ele. –

Mas é a mim? Eu não posso enfrentar algo que está além dos

meus poderes!

– Eu... – Joseph não sabia o que dizer.

– É melhor desistirmos dessa loucura. – Julie agora voltava

a olhar para Joseph. – Eu irei embora para sempre de sua vida!

Será melhor assim, esquecermos uns dos outros.

– Saibas que o dia em que partires será o dia mais infeliz

que toda minha vida presenciará!

– Não se mártires meu amor. Não deixe que a dor destrua

esse seu rosto que foi feito para sorrir! – Julie tocava os lábios de

Joseph. – Eu ficarei bem, voltarei para meu lugar, para casa.

– Julie, eu sempre soube que tamanha perfeição não

poderia ser humana. Nunca haverá outra mulher em minha vida!

– Não diga bobagens Joseph querido, você merece ser feliz

e será, mas não comigo! Eu que serei eternamente sua, meu

amado Joseph.


Julie saiu da torre abandonada e desapareceu na floresta.

Joseph continuou ali, parado, vendo o grande amor de sua vida

partir diante dos seus olhos. Ele faria alguma coisa para impedir,

se tivesse certeza de que adiantaria. Seu peito estava apertado e

sua garganta estava fechando, como se estivesse sendo

estrangulado, fazia anos que não chorava e já tinha perdido o

hábito.

Depois daquela tarde, Joseph nunca mais viu Julie outra

vez. Ela cumpriu o que havia prometido e desapareceu para

sempre da vida de Joseph, ela voltou para casa. Joseph, com o

tempo, acabou aos poucos esquecendo os dias quentes de verão

que havia passado com Julie e alguns anos depois conheceu

outra garota, herdeira de um reino vizinho, pela qual se

apaixonou e se casou. Ele depois acabou esquecendo até do

rosto de Julie e essa história de amor acabou virando apenas um

sonho, guardado em um velho baú empoeirado, jogado em um

canto qualquer da memória. Mas Julie foi diferente, ela não

esqueceu. Julie sofreu até os últimos minutos com o amor que

nunca pode ter. Ela até pensou, uma vez, em voltar e tentar se

reaproximar de Joseph, e voltou, mas ela o viu tão feliz com sua

nova mulher e seu recém-nascido filho que resolveu enterrar

para sempre o seu amor junto com ela, no fundo do imenso rio

onde se beijaram pela primeira vez.

– Que história triste! – pensei. – Pobre Julie.

Quando olhei para o relógio já passava das 19:00 horas e

eu havia perdido totalmente a hora. No mesmo minuto minha

mãe batia em minha porta.

– Alice, você não vai jantar?

– Já estou descendo!

– Não demore, já coloquei seu prato em cima da pia!

Coloquei o link do site em meus favoritos e fechei a janela

do navegador.


Passei o jantar inteiro pensando na história que havia lido.

No triste fim de um amor que poderia ter sido lindo. Mas o que

aquele cretino do Joseph estava pensando? Ele disse que seria

para sempre da Julie e a primeira que aparece já sai casando?

Que ridículo!

Depois do jantar eu subi novamente e minha mãe veio

atrás de mim.

– Alice, você ficou nesse quarto o dia todo! – ela sabia que

eu estava estranha. – O que está acontecendo?

– Não sei! – surto de sinceridade. – São tantas coisas que

estão acontecendo comigo, está tudo mudando tão rápido que

estou confusa.

– Aposto como boa parte disso tudo é por causa dos

Devón, ou melhor, do Daniel Devón! – minha mãe dava um

sorriso sapeca e eu balancei a cabeça positivamente. – Você não

acha que pode estar gostando desse garoto? – ela disse em um

tom preocupado.

– Não! Acho que não! – realmente não sabia.

– Pense direitinho, separe cada sentimento, analise e tente

descobrir! – minha mãe, que estava sentada na minha cama, se

levantou.

– Tudo bem! – dei um sorriso sem graça.

Minha mãe fechou a porta e desceu. Eu continuei ali,

sentada, tentando separar os sentimentos, estava sendo difícil,

mas acho que conseguiria.

Primeiro: Angustia. Isso provavelmente vinha da saudade

dos meus irmãos patetas e de toda essa mudança. Mas às vezes

quando nos apaixonamos, a principio, também ficamos

angustiados, com um aperto no coração.

Segundo: Insegurança. Estava insegura por não saber

exatamente o que me aguardava, com tudo mudando tão


apidamente acho que deve ser normal ficar um pouco insegura,

coisa que também acontece quando estamos apaixonados.

Terceiro: O emocional. Não sei bem se isso é um

sentimento propriamente dito, mas com certeza era algo que

estava sendo afetado em mim. Provavelmente o meu emocional

estava afetado devido a angustia e insegurança que estava

sentindo.

Quarto: Paixão e Ódio. Os dois estavam andando quase

que em conjunto comigo. Não sabia se eu amava ou odiava

Daniel Devón e queria muito descobrir isso. Precisava entender

ser essa angustia e insegurança tinha origem em um amor

recém-nascido pelo Daniel Devón e descobrir se isso seria algo

positivo ou negativo em minha vida.

Não adiantou muita coisa separar os sentimentos, mas já

pude ter uma noção maior do que estava acontecendo dentro

de mim.

Resolvi dormir mais cedo, estava com muito sono e ficava

surpresa com isso, afinal, fiquei o dia inteiro sentada na frente

do computador.

Assim que deitei o sono feito e caiu sobre mim como uma

pedra, no mesmo instante já estava no fantástico mundo

imaginário dos sonhos.

“Alice!” uma voz me chamava.

“Eu estou aqui, estou aqui!” estava muito escuro.

“Alice!” a voz continuava a me chamar “Venha até mim

Alice!”

“Mas onde você está?” eu não enxergava nada.

“Siga o coelho branco Alice” as luzes se acenderam. Estava

em uma floresta e havia um coelho, saltitando rumo ao norte e

fui atrás dele como a voz me mandava.

“Você está atrasado coelhinho?” perguntei inutilmente, ele

não era um coelho falante.

Quando cheguei a uma pequena montanha – pequena

mesmo, devia ter uns dois metros de altura – o coelho

desapareceu.


“Suba Alice, suba!” continuava sem saber de quem era a

voz que estava me chamando.

Eu subi e a montanha parecia bem maior agora, mas não

demorei muito para chegar ao topo dela. Uma corda desceu e

caiu sobre minha cabeça.

“Puxe uma vez e quiser descer o elevador e duas para

subir” a voz agora parecia cômica.

Eu puxei uma vez e um pequeno quadrado feito de

madeira desceu e se colocou poucos centímetros acima dos

meus pés. Puxei a corda duas vezes e o quadro começou a subir.

Quando chegamos ao céu o elevador parou. Agora eu não

estava mais em uma floresta, estava em uma torre abandonada,

exatamente como eu imaginara que fosse a torre da história.

“Que bom que conseguiu chegar aqui!” a voz agora vinha

detrás de mim. Virei e descobri o dono da voz misteriosa.

Era Daniel Deluve, vestindo um traje típico do século XVIII,

um traje digno de um príncipe. Quando olhei novamente para

mim reparei que também estava com um traje típico do século

XVIII, mas não era nada parecido com um traje que uma

princesa usaria, era um traje de camponesa.

“Você sabe que o nosso amor é impossível!” Daniel falava

com uma certa angustia.

“Nosso amor?” estava confusa.

“Mas eu estarei sempre com você Alice, pode ter certeza

disso” ele chegou perto de mim e segurou minha mão.

“Mas você vai embora?” perguntei confusa.

“Eu tenho que ir, não posso ficar!” ele segurava mais forte

minhas mãos. “Mas não se preocupe, eu realmente estarei

sempre ao seu lado, eu sou seu anjo Alice! SEU ANJO!”

Dei um pulo da cama. Meu coração estava a mil e não

conseguia pensar em mais nada além de três coisas: Daniel era

mais que um simples amigo para mim, a história que havia lido

tinha mexido muito comigo e maldita hora que minha mãe foi

colocar meu nome de Alice, agora o coelhinho branco vive me

perseguindo.


11. FESTA DO PIJAMA

onsegui voltar a dormir depois do sonho estranho. De manhã já

C

nem me lembrava – ou pelo menos fingia não lembrar.

Não queria ir à escola, mas não tive escolha. Ainda não

sabia direito o que pensava de Daniel Devón e queria um tempo,

mais tempo para pensar, corrigindo-me.

Quando cheguei à escola, Milena e Bia estavam

conversando no corredor principal, perto do bebedouro e a 5

minutos da nossa sala.

– Alice! – Melina gritou surpresa. – Não esperava te ver por

aqui hoje.

– Por quê? – perguntei confusa.

– Depois de ontem, você estava tão estranha. Achei que

pudesse estar passando mal!

– Mas eu estou ótima! – tentei parecer bem.

– Você sabe que sou sincera e não sei mentir? – Milena já

preparava uma alfinetada, não havia conseguido transparecer

saúde e disposição.

– O que está errado comigo? – já fui adiantando o lado

dela.

– Não sei... Essa sua cara de leite desnatado que azedou

não está me convencendo.

– Não sabia que estava tão ruim assim! – respondia meio

desapontada comigo mesma e passando a mão esquerda sobre

o rosto.


– Você está péssima! – ela colocava a mão no coração e

fazia cara de piedade. – Mas nós vamos dar um jeito em você

rapidinho!

Milena deu uma piscada para Bia, que sorriu. Pouco antes

de seguirmos para sala Mel chegou.

– E então garotas, o que perdi? – ela se apoiava sobre o

meu ombro e o da Bia.

– Nada! A Alice ainda está com cara de leite desnatado que

não deu certo, então, tecnicamente, você não perdeu nada. –

Milena.

– Nossa Mili! Isso é jeito de falar com a Alice? – disse Mel

indignada.

– Mas ela está péssima mesmo! – Milena se defendia.

– E assim você só vai conseguir deixá-la pior! – retrucava

Mel em minha defesa.

– Gente, eu estou bem! – tentei de novo.

– Está bom! – Milena falava com um tom irônico.

– Vamos entrar? – Bia, que havia se mantido calada,

encerrou o assunto.

Dentro da sala de aula foi razoavelmente melhor. Devón

continuava me olhando e as pessoas continuavam comentando,

mas isso já não estava me irritando tanto quando nos primeiros

dias.

– Alice, precisamos fazer alguma coisa por você! –

cochichou Bia em meu ouvido.


–Não entendi – respondi imaginando se estava com cara

de quem fosse digno de pena.

– Gente, eu não disse que vou fazer algo especial para

todas nós? – Milena interrompeu a conversa.

– Mel, já está tudo certo. Não se preocupe. – Bia

“tranquilizava” Melissa.

– E eu serei a última, a saber, o que está acontecendo? –

perguntei finalmente conseguindo mostrar um pouco de animo

em meu rosto.

– Sim, será! – Milena respondeu encerrando o assunto.

No intervalo do lanche, Melissa e Bia se juntaram a Milena

em um canto do refeitório e ficaram fofocando. Fui obrigada a

ficar esperando elas armarem a surpresa que fariam para mim.

Resolvi sentar na mesa ao lado da parede e encostei a cabeça

sobre ela.

As meninas chegaram super animadas. Eu levantei a

cabeça e esperei pelo que elas tinham planejado.

– Esteja pronta as 19:00! – Milena começou.

– Para o que? – perguntei sonolenta.

– Para a nossa festa do pijama! – todas responderam em

coro. Meu desanimo ao receber a notícia desapontou as

meninas que aos poucos desfizeram os rostos alegres.

– Achei que teria uma reação diferente! – Bia falou

olhando para Milena e depois para Mel.

– Desculpem meninas, mas hoje eu não sei... – tentei

inventar uma desculpa para não ir.

– Não aceitamos “não” como resposta! – Milena.


– Vamos Alice! – Bia foi para minha frente, se agachou e

segurou minhas mãos. – Vai ser bom para você. Estamos todas

vendo que você não está legal.

– Alice? – Mel perguntava fazendo uma voz dengosa.

Suspirei fundo, me levantei, balancei a cabeça e respondi

que sim. As meninas começaram a pular e me abraçaram, se

esquecendo de que estavam no meio do refeitório.

Depois que o intervalo do lanche acabou todas voltamos

mais animadas para a sala e comentando sobre a festa do

pijama. Seria na casa de Milena, ao contrario das últimas festas

do pijama que estávamos organizando no ano passado, sempre

na casa da Bia.

As últimas aulas passaram lentamente, uma verdadeira

crueldade para mim. As meninas não pararam de falar um

minuto sobre a festa do pijama e eu estava a ponto de ter uma

contusão no pescoço de tanto balançar a cabeça. Daniel estava

começando a fazer amizades na sala, mas ainda continuou me

vigiando.

Quando a aula acabou sai e fui imediatamente para casa.

As meninas pediram para esperar, mas eu realmente não estava

bem. Começava a sentir algo dentro de mim, queimando, uma

sensação estranha.

Entrei dentro de casa e corri para meu quarto. Deitei-me e

fiquei rolando na cama por um bom tempo, não sei dizer

quanto, mas sei que foi muito tempo. Acabei adormecendo e fui

acordada por minha mãe.

– Alice, Bia ligou dizendo para não se esquecer da festa do

pijama na casa de Milena!

– Eu sei. – respondi desanimada.

– Filha, você está se sentindo bem? Você nem almoçou

hoje. – minha mãe passava a mão sobre minha testa conferindo

se estava com febre.


– Eu estou bem, só estou com um pouquinho de dor de

cabeça.

– Querida, temos que te levar ao médico! Você está tendo

muitas dores de cabeça, isso não é normal para uma garota da

sua idade.

– Eu sei, eu sei! – sentei na cama. – Que horas são?

– Já são 17:00! – ela respondeu e depois conferiu no

relógio.

– Eu vou arrumar as coisas para a festa do pijama.

– Tem certeza de que está bem para ir? – ela voltava a

conferir minha temperatura.

– Sim, estou! – respondi me levantando. – Fora que as

meninas insistiram tanto, não posso furar com elas.

– Tudo bem, pode ir. Mas se você sentir mal, pode ligar

que eu vou te buscar!

– Acho que não será preciso. – respondi dando um sorriso

amarelo.

Minha mãe desceu e eu fui pegando o necessário. Minha

escova de dentes, um colchonete e, claro, meu pijama.

Fui tomar banho e esperar até a hora de ir para casa de

Milena. Comi alguma coisa em casa e sai 18:48, fui comprar

alguns potes de sorvete. Minha mãe me levou de carro até a

padaria e depois para a casa de Milena. Não era longe, eu

poderia ir á pé mesmo, mas levando um colchonete nas costas

não daria muito certo.

Cheguei à casa de Milena as 19:00 em ponto. Bia já estava

lá e Mel chegou alguns minutos depois de mim e a chuva, por

incrível que pareça, chegou depois que todas nós já estávamos

dentro da casa de Milena.


A chuva pegou todos de surpresa. A previsão havia dito

que seria uma chuva passageira, mas a chuva discordava disso e

ficava cada vez mais forte e grossa. Os pingos batiam na janela

como besouros e algumas vezes nos dava alguns sustos, mas

não sustos maiores que os dos raios e trovões que chegaram

quando o chuvisco virou chuva de verdade.

– Acho que estamos ilhadas dentro de casa! – Mel brincou.

– Ainda bem que não precisaríamos de sair hoje. – Bia.

– Então essa festa do pijama veio em boa hora! –

completou Milena. Eu como sempre fui obrigada a sorrir e ser

educada.

Quando subimos para o quarto consegui me divertir.

Assistimos filmes, tiramos fotos, nos entupimos de sorvete,

dançamos e ficamos falando sobre temas que só eram tocados

nas festas de pijama com nosso jogo de perguntas e respostas.

– Agora é minha vez! – disse Bia tirando um papel cortado

da caixa de sapatos. – Quem responde é a... Mili!

– Eu de novo? – Milena perguntava indignada.

– Você de novo! – Bia ria maliciosamente. – A última vez

que conversamos sobre isso você havia dito que não, agora

quero saber se ainda mantém a resposta.

– Sobre o que? – Milena já imaginava o assunto, mas

queria ter certeza.

– Você já viu o Rick pelado? – antes de terminar a pergunta

Bia já estava se acabando de rir e dando pulinhos de ansiedade.

– Bem... Não exatamente pelado. – ela estava

envergonhada. – Mas eu o vi saindo da piscina de casa dele com


uma sunga branca, e vocês sabem o que acontece com tecido

branco quando ele fica molhado, hum...

As meninas começaram a gritar e eu entrei no coro, mas

para acompanhá-las.

– Conta, conta. – Mel ficava batendo com as mãos no chão.

– Conta o que? – Milena ria inocentemente.

– Era... Grande? – estava visível o interesse de Mel.

– Como disse, não deu para ver com detalhes, mas parecia

ser! – Milena ria e seu rosto ficava mais vermelho do que

pimenta. Outra leva de gritos invadiu o quarto, mas dessa vez eu

fiquei mais recatada e apenas bati as mãos no chão.

– Agora vamos ver quem pergunta... – Bia mexia na caixa

com os nomes de todas nós – Finalmente, Mili!

– Finalmente mesmo! Já estava cansada de responder. –

Milena sacudiu a caixa e tirou um papel. – Vamos ver... Quem

responde é... Alice! Sua primeira pergunta.

Meu rosto provavelmente havia ficado branco naquele

minuto e pude sentir minha boca secar de repente.

– Pronta para responder? – ela olhava para mim sedenta.

– Acho que estou. – respondi insegura.

– Vou ser boa com você e te fazer uma pergunta simples. –

ela pigarreou e fez um rápido mistério. – Alice, você está ou não

namorando escondido com o Daniel Devón?

– Não! – respondi mais alto do que devia. – Que loucura!

Não, não, não!

– Calma. – disse Milena fazendo uma linha imaginaria com

as mãos. – Foi só uma pergunta. Mas você está gostando dele

não está?


– Eu? go-go-gostando? Eu? – disse o segundo “eu” lenta e

inocentemente.

– Acho que já temos a resposta para essa pergunta. –

Milena tirou a próxima a perguntar, Mel.

Depois dessa, ninguém mais quis fazer perguntas sobre

esse assunto de novo. Respondi mais quatro vezes depois da

primeira pergunta e perguntei três até que resolvemos para a

brincadeira.

A chuva ainda não havia ido embora, mas os trovões tinha

cessado. Todas nós já estávamos exaustas e prestes a ir dormir

quando Milena chegou com uma bandeja na mão, um copo,

folhas de papel e uma caneta.

– O que é isso? – Bia perguntou assustada.

– Vocês vão ver! Corte vários pedaços quadrados de papel

e escrevam o alfabeto e números de zero a nove e coloquei um

papel escrito “sim” e outro “não”, depois organizem em um

circulo.

– Garota você sabia que isso é perigoso? – perguntou Mel.

– Então você já conhece a brincadeira?

– Alguém pode me dizer do que se trata? – Bia continuava

sem entender nada.

– É a brincadeira do copo! – respondi. – Resumidamente

você vira o copo de cabeça para baixo, mentaliza espíritos bons

e tenta prende-los no copo. Depois é só perguntar.

– Credo, que brincadeira horrível! – Bia fazia cara de nojo.

– Eu não vou brincar disso!

– Via sim! – Milena ordenou. – Precisamos de você!


– Mas isso me dá medo. – Bia virou de costas para Milena e

ficou emburrada feito criança.

– Pode desfazer essa cara de choro e vir brincar, todas nós

vamos chamar espíritos! – Milena continuava a dar ordens.

Depois de convencer a Bia a brincar, todas nós fizemos o

circulo.

– Agora é colocar o dedo aqui é ver no que vai dar? – Bia

perguntava quase tremendo.

– E não se esqueça de mentalizar espíritos bons. Pensem

nos seus parentes queridos de preferência.

– Tem que ser parente que morreu? – perguntou Bia.

– Claro! – Milena respondeu zangada.

Começamos a mentalizar. Eu estava sendo péssima amiga

e não estava mentalizando espíritos bons, estava mentalizando

o Daniel, quando o copo mexeu.

– O que foi isso? – perguntou Bia com medo.

– Shhh! – Milena, que estava de olhos fechados, perguntou

abrindo os olhos. – Tem um espírito ai?

O copo se moveu lentamente a palavra “sim” e depois

voltou para o meio do circulo.

– V-v-v-vocês estão m-m-m-mexendo o co-co-copo? –

perguntou Bia gaguejando de medo.

– Silencio! É claro que não! – Milena respondeu como se

tudo aquilo fosse algo de extrema seriedade. – Você é um

espírito bom? – o copo andou para o “sim”. – Poderia responder

nossas perguntas? – Milena continuava seria.


O copo não andou nem para o “sim” e nem para o “não”.

Primeiro andou para a letra “T” depois foi para a “A”, seguiu

para a “L”, “V”, “E” e parou na “Z”

– TALVEZ? – Milena agora estava indignada.

As meninas perguntaram sobre garotos, estudos e trabalho

quando, por fim, o copo começou a se mexer por livre e

espontânea vontade. O copo-espírito começou a escrever

palavras sem que perguntássemos e formou a seguinte frase:

“EU SEI O QUE ELE É”.

– Do que você está falando? – perguntou Milena. O copoespírito

se moveu para o “A”, seguiu para o “N”, foi para o “J” e

parou no “O”.

– Que anjo? – perguntou Mel. Nesse momento meu

coração gelou. Estaria o copo-espírito falando de Daniel Devón?

– Ahhhh! – Bia gritou jogando o copo longe.

– Garota o que você fez? – Milena estava furiosa. –

Quebrou a corrente! Agora o espírito pode estar preso dentro

do quarto.

– Não, não! Isso não! – Bia começou a chorar.

– Vamos ficar calmas! – Mel tentava tranquilizar as garotas.

Ninguém dormiu naquela noite. Bia e Milena estavam com

medo do espírito ainda estar no quarto, Mel cuidava das duas e

eu estava perplexa com o que havia lido: “EU SEI QUEM ELE É”

“ANJO”. Daniel Devón o que você está aprontando?


12. TROCANDO BILHETES

dia havia amanhecido e todas nós havíamos dormido

Opessimamente. Tudo por causa da fantasmagórica brincadeira

do copo. Depois que consegui pegar no sono, os pensamentos

que me manteve acordada até as 05:00 da madrugada já havia

desaparecido. Nenhuma de nós estava com a menor vontade de

ir à escola. Nem vontade, nem disposição.

Depois que tomamos café, fomos rapidamente nos

arrumar e quase voamos para a escola. A nossa sorte era que, de

todas nós, a casa da Milena era a mais próxima da escola e não

demoramos muito para chegar.

Parecíamos um bando de zumbis, rastejando no meio da

rua, tamanho o sono que estávamos. Milena se entupiu de

maquiagem para tapar qualquer marca de noite mal dormida.

Bia ainda estava com medo de o espírito estar atrás dela e eu e

Mel já tínhamos esquecido.

Chegando a escola segundos antes do portão fechar.

Tomamos um “chá de energia”, corremos o máximo que

pudemos e passamos pela fresta do portão, feito aqueles filmes

de espionagem. Mas o importante é que chegamos a tempo.

Na sala todos notaram o nosso estado deplorável, mas

ninguém comentou. Hoje teríamos aula da Amanda, no segundo

horário, e isso me fazia lembrar que Daniel estava bem ali,

poucos centímetros atrás de mim, me observado. Isso já não me

incomodava tanto.

O professor de biologia estava atrasado e isso deu tempo

para Milena se maquiar melhor e ajudar a Bia a se maquiar

também, agora que o medo do fantasma havia passado. Eu

simplesmente encostei a cabeça na mesa e esperei até ouvir a

voz do professor.

– Bom dia alunos! Desculpem o atraso, mas tive uns

probleminhas de família e... Milena e Bianca o que vocês estão

fazendo?


Levantei minha cabeça imediatamente. O professor devia

estar com sérios problemas em casa, sua voz estava

horrivelmente perturbada e sua paciência estava visivelmente

afetada.

– Já estamos guardando! – Milena respondia mostrando

que estava guardando as maquiagens na mochila, passo a passo.

As meninas voltaram para seus lugares e eu tentava

manter minha cabeça centrada no que o professor iria dizer,

mas estava difícil.

Alguns minutos depois que o professor começou a passar a

matéria no quadro, recebi um bilhete de Milena.

– O que é isso? – sussurrei para ela.

– Um bilhete, dele. – ela respondeu apontando com os

olhos para a cadeira de Daniel.

Peguei o bilhete e olhei para a cadeira dele, estava

conversando com outros garotos. Abri o bilhete.

O que aconteceu? Você está bem? Seu

rosto parece de um zumbi! Mas um zumbi

bonito!

Dani

Ri do bilhete e respondi

Estou bem. Foi só uma noite mal dormida!

Existe zumbis bonitos?

Passei de volta para Milena. Milena passou para Mel que

passou para Daniel que respondeu. Daniel passou para Mel que

passou para Milena e que, por fim, passou para mim.


O que aconteceu para sua noite se

tornar uma noite mal dormida? Sim, acho

que existem!

O ciclo de troca de bilhetes se repetiu.

Uma brincadeira que eu, Mili, Bia e Mel

fizemos que deixou todo mundo acordado. Não

sabia que existiam zumbis bonitos, me apresenta

um quando achar?

Passei o bilhete de volta.

Que tipo de brincadeira? Se ele não

quiser comer o meu e o seu cérebro, posso

tentar!

Milena já começava a ficar visivelmente cansada de ser o

“mensageiro”.

Já ouviu falar da brincadeira do copo? Ah!

Chega de zumbis.

Bilhete!

Vocês sabiam que isso é perigoso?

Chega de zumbis!

Preferi não olhar a cara da Milena.

Sabíamos! Sabe que conseguimos pegar um

(ou alguém mexeu muito o copo). O espírito

disse que você é um anjo!

Passando o bilhete.


Serio? E você acreditou nisso?

Os outros alunos começavam a notar o passa-repassa de

bilhetes.

Não sei. Ele estava falando a verdade? Você

é mesmo um anjo?

Passei o bilhete.

Quem sabe? E se eu for?

Desta vez houve uma pequena mudança no “ciclo”

– Por favor, quer trocar de lugar com a Mel? Eu posso pedir

ao professor!

– É a última. Vou colocar um fim nessa conversa! – escrevi

para conversarmos depois, mas o bilhete não chegou até ele.

– Que bonito dona Milena e dona Alice! – o professor

pegou bruscamente o bilhete da mão de Milena.

– Eu não tenho nada com isso não! Estava sendo só o

“mensageiro”! – Milena se defendia e me prejudicava.

– Vamos ver o que estava escrito aqui! – ele leu

rapidamente o bilhete – Então quer dizer que o Sr. Devón estava

no meio da conversa? Que coisa feia! – o professor falava em

claro tom de deboche, o que me fez ficar irritada, mas não mais

que o que ele fez depois.

– Vocês querem que eu leia a conversa deles? – o

professor estava sendo cruel.

– Leia! – a sala inteira também estava.

– Então eu vou ler!


Como já era de imaginar, a sala inteira riu de nossa

conversa. Daniel, coitado, já não sabia onde enviar a cabeça de

tanta vergonha. Eu, sem dúvida, estava vermelha. Mas não era

de vergonha, era de ódio! O professor não tinha esse direito.

Já era de se esperar também que fossemos para

coordenação. E foi exatamente isso que aconteceu. Eu, Milena e

Daniel fomos todos tirados da sala de aula.

– A coordenadora ainda não voltou! Vocês podem esperar

ali. – disse a secretaria temporária. A secretaria oficial estava de

licença maternidade e se fosse ela, teríamos sido melhor

tratados.

Ficamos sentados nas cadeiras de espera. Milena resolveu

refazer a maquiagem e usou o banheiro dos professores para

isso. Eu e Daniel ficamos sozinhos.

– Você vem sempre aqui? – ele dizia com um sorriso largo

no rosto.

– Algumas vezes! – olhava para o chão e mantinha meu

sorriso amarelo.

– Então você é uma menina má?

– Só um pouquinho. – ainda estava com raiva do professor

de biologia, mas consegui responder isso com o tom cômico

necessário. – E você? Já esteve muitas vezes em situações como

essa?

– É pra ser sincero? – ele estava vermelho.

– Eu fui sincera! – ri.

– Não exatamente como essa, mas já fui algumas vezes

para coordenação. – ele parecia achar graça na palavra

“coordenação”.


– Então você também é um garoto mau! – disse isso mais

alto do que devia.

– Será que iremos receber algum castigo cruel? – ele

perguntou com um meio riso no rosto.

– Acho que não. Provavelmente iremos para uma sala

escura, com um cara mau que vai nos bater em uma corrente e

nos deixar pendurados de cabeça para baixo.

Ele riu alto e eu o acompanhei. Estávamos nos divertindo e

até havia esquecido o motivo de estar ali. Teria esquecido se a

secretaria temporária não tivesse nos lembrado que logo, logo

receberíamos uma bela ocorrência.

Milena saiu do banheiro com o rosto tão cheio de

maquiagem que parecia uma artista de circo. A palhaça

entrando no picadeiro.

– Você acha que exagerei? – eu e Daniel nos entreolhamos,

levantamos uma das sobrancelhas e respondemos em coro:

SIM!

Esperamos a primeira aula quase toda. Que tipo de

coordenadora era essa que saia em pleno inicio de aulas? A Sra.

Elga estava ficando decadente!

Quando ela voltou – quase no segundo horário – nos olhou

com cara de nojo e mandou nós três entrarmos.

– O que vocês aprontaram desta vez? Vocês são 2º ano,

certo? – ela falava com uma voz arrogante e prepotente. Sem

dúvida ela se acha a única dona da verdade.

Ela pegou o bilhete que o professor de biologia havia nos

dado e nos fez assinar uma ocorrência, a primeira do ano. Bela

maneira de se começar um novo ano escolar.

Chagamos a sala no exato momento em que a professora

Amanda havia entrado. Voltamos aos nossos lugares e ninguém

mais trocou bilhetes depois disso.

As aulas seguiram normalmente e, novamente, o assunto

da hora do intervalo tinha o meu nome e o de Daniel envolvido.

O nome da Milena nem foi lembrado, provavelmente ela deve


ter tido um ataque quando descobriu. Mesmo o assunto se

passando apenas na minha sala, não demorou muito para a

escola inteira ficar sabendo.

– Que coisa mais chata! – disse enquanto batia a lata de

refrigerante na mesa do refeitório. – Esse povo não tem mais o

que fazer?

– Parece que nunca viram alguém indo para a

coordenação! – Bia também estava indignada.

– Oi! – Daniel sorrindo, como sempre. – Posso me sentar

com você?

– Claro! – respondi sem pensar duas vezes. Já estavam

falando de mim mesmo, um pouco mais de fofoca não iria fazer

diferença.

– Pelo jeito vocês são as celebridades da escola! – Milena

falava com uma ponta de ciúmes. – Você se tornou a garota

mais popular da escola, mesmo sem querer!

– Não acho que somos “populares”. – Daniel parecia meio

confuso.

– Não, vocês apenas são o casal mais comentado do

momento! – Mel ria sozinha da piada.

– Não entendo o que esse povo viu em vocês? – Milena

continuava com ciúmes.

– Vamos falar de alguma coisa agradável? – tentei encerrar

o assunto, mas Milena não permitiu.

– Você é mesmo um anjo? – Milena apoio a cabeça na mão

esquerda e ficou fitando Daniel.


– Como? – Daniel estava confuso, mas eu já havia

entendido onde ela queria chegar.

– O bilhete. Você disse que era um anjo! – ela o lembrava.

– Não, não! – ele balançava as duas mãos em um gesto

negativo. – Eu não disse que era um anjo, eu perguntei se eu

fosse um! – ele começava a se atrapalhar.

– Mas o espírito disse que você era um anjo. – ela tentava

me atingir.

– Não! – interrompi. – O copo não disse que ele era um

anjo!

– Realmente, o copo não disse. – Milena arregalou os olhos

e me fitou maldosamente. Havia acabado de notar a burrice que

havia feito.

– Eu supus que fosse o Daniel! – tive que admitir.

– Mas qual foi o motivo para tal suposição? – Milena

realmente estava querendo ser “a chata”.

– Por favor! Eu vou para outra mesa. – sai enfurecida.

Mel, Bia e Daniel foram atrás de mim. Milena continuou

por lá, feliz da vida. Eu sentei na única mesa vazia do refeitório,

ao lado dos banheiros. Do jeito que aquilo fedia, não era

surpresa estar vazio.

– Alice, não ligue para as implicâncias da Mili! – Mel

tentava me acalmar.

– Eu não consigo! - estava muito nervosa. – Aquela garota,

de uns dias para cá, está me dando nos nervos!

– Mas é o jeito dela! – Mel tentava defender Milena. – Ela

pode não ser a melhor das amigas, mas ela sempre está com

você!


– O problema é que eu acho que a Mili não me considera

mais como amiga. Pelo menos não da forma como eu a

considero, ou considerava. – já não sabia o que pensava da

Milena.

– Isso tudo é culpa minha! – Daniel falava em um tom

desesperador.

– Não pense assim! – quase gritei. – Você não tem culpa

nenhuma da repentina mudança de comportamento da Mili.

– É Dani, pode parar com isso! – Bia já começava a ficar

mais a vontade com Daniel.

– Mas é inegável que isso começou depois que entrei na

escola. – ele ainda se martirizava.

– Na verdade não! – fui sincera. – A Mili já está mudada faz

algum tempo.

– Desde que ela “subiu” suas atitudes começaram a

mudar. – Bia.

– Ainda assim me sinto um pouco culpado por tudo o que

está acontecendo. – Daniel não tinha jeito.

– Para com isso garoto! – Mel ria.

Milena não voltou a sentar com a gente. Depois que o

intervalo do lanche acabou, nenhuma de nós falamos com

Milena durante as últimas aulas. E segui assim durante quase

toda a semana.


13. FELIZ ANIVERSÁRIO

mês de fevereiro passou bem rápido. Passou muito rápido. Mas

Ofoi tempo o suficiente para eu e Daniel nos tornarmos bons

amigos.

Esperava dias melhores para o mês de março quando a

mãe de Dani apareceu em minha casa.

– Michele! – disse Dona Ângela assim que minha mãe abriu

a porta.

– Ângela, querida, entre! – minha mãe e Dona Ângela já

estavam muito amigas. Sempre acho que as duas já se

conheciam e estavam me escondendo isso.

Dona Ângela entrou, botou a pequena bolsa em cima da

mesa e sentou-se. Era domingo e minha mãe estava preparando

o almoço.

– Eu vim para lhe entregar isso! – Dona Ângela entregava

um pequeno envelope branco para mim.

“Alice, você está convidada para

comemorar junto comigo o meu 16º

aniversário.

Será no dia 12 de março na minha casa,

as 18h00min.

Espero por você!

Atenciosamente

Daniel Devón”

O convite havia sido escrito a mão, por ele mesmo. Ver a

letra dele novamente me fez lembrar o dia em que fomos para a


coordenação. Nunca mais voltamos para lá depois daquele dia.

Pelo menos não para levar uma ocorrência.

– Mas é sexta agora! – disse espantada. – O Dani não me

contou nada.

– Isso é a cara dele! Ele sempre diz que ficar lembrando do

aniversario dele antes da hora é como se estivesse pedindo

presente antecipado. – Dona Ângela respondeu sorridente.

– Mas eu também, que cabeça a minha. Poderia ter

perguntado! – retruquei colocando a mão que segurava o

envelope na cabeça enquanto relia rapidamente o bilhete na

outra mão. – Pode ter certeza que irei comparecer.

– Você não que ficar? Já estou terminando o almoço. –

minha mãe esquecendo que ela também era uma dona de casa.

Mais elegante, tenho que confessar, mas ainda uma dona de

casa.

– Eu também estou preparando o almoço por lá. Mas fica

para outro momento! – Dona Ângela sorridente como sempre.

– Claro! – Dona Michele havia feito uma cara de quem

tentava parecer não estar envergonhada.

– Eu vim apenas para isso mesmo! – Ângela se despedia. –

Obrigada pelo convite. Você sabe que se fosse outra ocasião eu

aceitaria, mas gosto de passar os domingos com a minha família.

– Minha família no momento está desfalcada, mas sei

exatamente o que quer dizer! – minha mãe levou Ângela para a

porta.

No dia seguinte a primeira coisa que fiz foi falar com Dani.

Eu e ele agora vamos para a escola juntos sempre.


– Dani! – disse acenando para ele. – Poderia ter me dito

que seu aniversario era esse mês!

– Tecnicamente eu disse! – ele sorria maliciosamente. – No

primeiro dia em que almocei na sua casa, lembra?

– Mais ou menos! – fiz um sinal com a mão. – Mas de

qualquer forma você poderia ter lembrado!

– Não gosto muito disso.

– Sua mãe comentou ontem. Quando ela foi entregar o seu

convite. – estava com ele na minha mochila, não sabia o porquê,

mas o convite estava lá.

– Não ligue! – Amanda destravava as portas do carro com o

controle. O barulho das portas se abrindo veio na minha cabeça

antes mesmo de acontecerem. – Meu irmão é cheio de manias

estranhas. Vamos?

As primeiras aulas – como quase sempre – passaram sem

problemas. A minha única surpresa foi todos estarem

comentando da festa de Dani na sexta. A escola toda estava

comentando, muitos com empolgação, alguns com desdenho,

mas todos estavam comentando. Dani havia se tornado um

garoto popular e eu – mesmo sem querer isso – acabei me

tornando popular também. Era horrível ver como as pessoas são

falsas e repulsivas quando querem algo. Todos os que me

esnobavam no ano passado, agora só faltava lamber o chão em

que eu pisava.

– Pelo jeito você está preparando uma super festa! –

Milena dizia enquanto comia uma maça verde. Ela estava menos

agressiva e arrogante, mas ainda estava se sentido a mais

importante das garotas.


– Acho que minha casa aguenta boa parte dessas pessoas.

– Dani respondia meio envergonhado. Para quem preferia

manter o aniversário em segredo, até que ele convidou muita

gente.

– Eu nunca fui à sua casa! – Bia dizia aos suspiros. – Mas

pelo que vejo da fachada, a casa é realmente enorme.

– Eu sempre a achei exagerada. – Dani agora estava serio.

Mas que a casa dele era grande, isso era incontestável. A casa

dele deveria ser umas quatro da minha, isso sem contar a

varanda e o quintal dos fundos.

Na véspera do aniversário a casa dos Devón estava

totalmente voltada para o aniversario de Dani. Eles nem

pareciam mais àquela família discreta que sempre foram.

Pareciam querer fazer da festa de Dani um evento memorável.

Fiquei imaginando como deveria ser as festas na Espanha.

Eu havia me oferecido para ajudar, mas eles não deixaram.

Eu era convidada e só poderia ver a decoração da festa no dia.

De vez em quando eu tentava espiar, mas não conseguia ver

nada além das lâmpadas e alguns vários panos brancos e

vermelhos. Eu invejava aquela festa. Parecia incrível, nem

quando fiz a minha festa de 15 anos não tive tanto trabalho –

mas eu não moro em uma casa que tem mais portas do que o

necessário.

Quando finalmente chegou a sexta, na escola já estavam

todos ansiosos para conhecer a casa de Dani. A essa altura,

todos já sabia que seria um festão e poucos disseram que não

iriam à festa. Dani não havia ido à escola, algo mais que

compreensivo visto as ameaças de que poderia voltar para casa

cheirando a ovo e farinha.

À noite finalmente estava chegando. Eram 16:45 quando

comecei a me arrumar. Essa seria a festa do ano, sem dúvida, eu

precisava estar linda.

Achava engraçado que por mais que tentasse, a única coisa

que me vinha à cabeça enquanto me arrumava era se Dani me


acharia bonita. Já fazia algum tempo que eu estava começando a

me sentir diferente em relação ao Dani.

Escolhi um dos meus vestidos cinza, um colete preto com

uma meia também preta. Peguei minha bolsa com a estampa da

bandeira da Inglaterra e sapatos altos. Meus sapatos nunca

foram muito grandes, então fazia pouca diferença.

Meu cabelo estava cacheado. Havia feito especialmente

para a festa. Fiz uma maquiagem não muito carregada e passei

um perfuminho básico.

Quando cheguei à festa – as 18:00 em ponto – a música já

estava tocando. Como eu, Bia, Mel e Milena havíamos ajudado a

escolher a lista que tocaria na festa, muitas das músicas eu já

conhecia. A casa estava enchendo e não parava de chegar

pessoas, como havia imaginado, o evento do ano.

– Alice! – Dani me chamou.

Quando vi Dani quase cai para trás. Botei a mão no

pescoço e tentei respirar normalmente. Ele estava lindo. Seu

cabelo estava molhado e um pouco bagunçado, estava com uma

camisa branca social com os três primeiro botões abertos e as

mangas dobradas até o cotovelo. Usava uma calça preta, nem

muito justa e nem muito larga e seu rosto estava radiante, o que

já era o bastante para deixar o meu vermelho.

– Seu presente! – sorri e entreguei as duas camisas regatas,

uma azul e outra preta.

– São lindas! – ele sorria e me abraçava. Era outra coisa

que já não controlava mais. Toda vez que ele me abraçava, meu

coração disparava loucamente. Ele estava tão cheiroso.

Somente depois disso que reparei na decoração da festa.

Havia lâmpadas por todo a casa. Todas as mesas estavam

cobertas por panos brancos e vermelhos, com um cartão

dobrado em um triângulo com o nome de cada convidado.


– Não estou vendo o meu nome em nenhuma mesa. –

disse desapontada.

– Você vai sentar comigo! – levei um susto, mas ele não

viu.

Dani pegou minha mão e me direcionou até sua mesa.

Estava apavorada. Continuei reparando a decoração da festa. O

salão de festas, no quintal da frente, estava com uma decoração

que me fazia lembrar shows acústicos. Toda em madeira, havia

algumas esculturas e vasos de barro. O teto estava com vários

origamis vermelhos pendurados por cordas.

– Você está linda! – ele passou o dedão sobre meu queixo.

– Obrigada! – estava vermelha. Novidade? – Você também

está lindo!

Ele sorriu e me fez sentar e depois sentou-se ao meu lado.

Por pouco tempo. Ele parecia meio afobado, sem saber se

dedicava toda a atenção dele para mim ou se cumprimentava os

convidados.

– Pode ir falar com eles! – dei um sorriso sem graça.

– Mas não saia daí! – ele levantou o dedo indicador. – Eu

volto logo.

Dani foi falar com alguns convidados, abriu os presentes e

mostrou a mesa. Realmente não demorou muito para ele voltar

até onde estava.

– Você quer dançar? – ele estendia a mão.

– Tudo bem! – respondi por impulso.

Estava tocando um reggae e depois iniciou outra música,

desta vez era uma balada mais agitadinha e bem adolescente.

– Ainda bem que você veio! Essa festa seria muito chata

sem você! – ele agora estava serio.


– Nossa, você não acha que está indo depressa? – acho que

não preciso dizer de que cor estava meu rosto.

– Não acho! – ele fazia cara de confusão. – Quer dizer, eu

nunca fiz isso antes.

– Isso? – estava confusa, mas imaginava do que ele estava

falando.

– Dani! – Bia havia chegado. – Não vai vir me dar um

abraço?

– Eu sou o aniversariante, você que devia vir me dar um

abraço! – ele respondeu brincalhão. Olhou rapidamente para

mim e silibei para ele ir.

Continuei dançando, desta vez sozinha e em um canto mais

escondido.

– A Bia estragou o clima entre vocês, não é? – Jane, a

garota do 3º ano.

– Não estava rolando nada! – respondi balançando a

cabeça negativamente.

– Como não? Todos estavam vendo!

– Vocês enxergam coisas inexistentes! – olhava as outras

pessoas dançando.

– Acho que você é quem se fingi de cega! – ela falava em

um tom mais serio.

– Jane! – fingi indignação.

– Alice! – ela repetiu no mesmo tom e depois riu.

Acompanhei os risos.


Desta vez Dani demorou um pouco mais a voltar. Comi

algumas coisas que me serviram e fiquei sentada. Senti-me

estranha em ser a única sentada na mesma mesa em que o Dani.

Nem a família dele estava sentado naquela mesa. Nem naquela,

nem em mesa nenhuma, estavam fazendo sala para os

convidados mais adultos.

Havia chegado a hora mais esperada. Todos foram para o

salão de festas com a decoração acústica, onde o bolo foi

colocado.

– Vamos cantar parabéns? – perguntaram em algum lugar

no meio da multidão.

A música foi abaixada e as luzes foram apagadas, ficando

apenas acesas as luzes dos postes que estavam no quintal.

Fiquei na torcida para que ninguém puxasse o famoso “com

quem será” e para mim sorte – é surpresa – ninguém fez isso.

A festa continuou e agora Dani tinha a liberdade de se

dedicar totalmente a mim. Isso era péssimo. Ou não?

Depois de comer uns pedaços de bolo, muitos voltaram

para dançar de novo. Algumas músicas estavam se repetindo,

mas poucos repararam. Dani e eu estávamos sentados, bebendo

refrigerante.

– Está gostando da festa? – ele perguntou e deu uma

golada de refrigerante.

– Acho que todo mudo está gostando! Fazia tempo que

não víamos uma festa tão legal. – novamente observava as

pessoas dançando.

– Se você gostou, para mim, já é o suficiente. – ele segurou

minha mão e meu coração quase pulou pela boca.


– Eu não sei como dizer. Eu realmente nunca fiz isso. –

Dani não olhava para mim. – Eu até treinei o que iria dizer. Sei

que é ridículo, mas eu treinei como deveria falar com você.

– Dani? – estava assustada.

– Alice, eu... Eu... Juro que... Tentei evitar, mas não

consegui. – Dani agora olhava em meus olhos.

– Dani o que você está falando? – ainda estava assustada.

– Alice...

Suas mãos não paravam de acariciar a minha, até que ele

se inclinou sobre a mesa e puxou minha cabeça para perto dele.

O inevitável havia acontecido. Ele realmente estava me

beijando. Aquilo era real.

Ignoramos as pessoas vibrando com o tão aguardado beijo

que agora estava acontecendo. Fiquei sem palavras para

descrevê-lo.

Sua boca era macia e quente. Parecia estar fervendo mais

ainda. Suas mãos estavam trêmulas, assim como as minhas e

parecia que o mundo acabaria naquele momento.

Aos poucos os gritos foram sumindo e nossas mentes já

ignoravam totalmente a multidão. Pelo menos a minha estava

assim. Quanto mais tentava fugir daquele beijo, mais sedento a

boca de Dani ficava. Sua língua incontrolável fazia-me sentir

como se nunca houvesse sido beijada. Foi algo realmente

avassalador.

Quando percebemos novamente a multidão nos olhando,

demos conta do que estávamos fazendo. Dani estava tão

vermelho quanto eu deveria estar. Todos batiam palmas e

gritavam “finalmente”. Nós nos contemos em apenas ri

envergonhados e tentar sair o mais discretamente possível.


– Isso porque não estava rolando nada entre vocês.

Imagina se tivesse? – Jane passou rápido.

Consegui sobreviver à festa depois do beijo. Não repetimos

o beijo, mas também não saímos um do lado do outro. Acredito

que agora era oficial. Estávamos mesmo namorando. Ou eu

esperava que estivéssemos. A festa já havia chegado ao meio,

ainda faltava muito para acabar.


14. FIM DE FESTA

lgumas pessoas já tinham ido embora naquela hora. Apesar de

A

ainda ter muitos convidados, já podíamos dizer que a festa havia

sido um sucesso. Desde que a festa começou já podíamos dizer

isso. Mas agora era oficial. Tudo havia saído perfeitamente bem

e as pessoas pareciam satisfeitas. Pelo menos de fome ninguém

pode reclamar, houve comida para duas vezes mais convidados.

Ainda não tinha ganhado coragem para falar com Dani

sobre o beijo. Ele também não tocou no assunto. Mas o seu

rosto já denunciava que ele conversaria comigo, em particular. O

meu provavelmente estava antecipadamente constrangido e

nervoso. Estava tendo um presságio de segunda na escola. Isso

pode acabar sendo um “problema” para mim.

– Eu acho que já vou indo. – tentei fugir da conversa.

– Não! Espera! – ele me segurou pelo braço. – Fique. Eu

quero falar com você.

– Mas eu não sei se... – respirei fundo. – Tudo bem.

– Obrigado. – ele soltou meu braço.

Estava com um pouco de medo do que poderia acontecer

daqui para frente. Não saber o que me espera sempre foi uma

coisa terrível para mim. Estaria eu pronta para mais uma

mudança? Às vezes me sinto a pessoa mais chata e idiota do

mundo por pensar assim.

Bia, Mel e Milena – que estavam “perdidas” pela casa –

apareceram novamente no meu campo de visão.

– Me diz que foi verdade. – Bia mal chegou perto de mim e

já se mostrava empolgada com o beijo. Obviamente essa

animação toda era por conta disso.


– Vocês estão falando... – comecei, mas Mel me

interrompeu.

– Sim, do beijo!

– O beijo! – suspirei.

– Aaaaaah! – todas gritaram juntas – Aconteceu mesmo.

As meninas ficaram pulando e batendo palmas. Até mesmo

a Milena, que de uns tempos para cá estava fria comigo entrava

no grupo das quase “tietes” do novo casal de Vila Bela. Novo

casal? Comecei a me sentir confusa.

– Calma gente, foi só um beijo. – tentei fazer-las calarem a

boca.

– Como assim só um beijo? – Bia parecia querer que todos

soubessem do que estávamos conversando.

– Fale mais alto, acho que o pessoal da Finlândia não

conseguiu te ouvir! – disse com meu sarcasmo plagiado de um

seriado americano que havia assistido.

– Desculpe. Não consigo conter minha emoção. – Bia

balançava freneticamente as duas mãos.

– Se ver! – respondi um pouco mais sorridente.

– É como foi? – Mel já ia me puxando para a mesa mais

próxima. Agora que parte dos convidados havia indo, tinha

mesas sobrando.

– Como assim? – me fiz de sonsa.

– Oras, como foi o beijo? – Mel colocou as mãos na cintura.


– O que vocês querem saber exatamente? – continuei me

fazendo de sonsa.

– Tudo o que as palavras puderem contar! – Bia

novamente não conteve suas emoções.

– Se você puder ser mais discreta, eu agradeceria. – fiz

sinal com a mão pedindo para ela se acalmar.

– Claro, sem problemas! – ela respirou fundo e tentou se

acalmar. Aparentemente havia conseguido.

– Vocês acreditariam se eu dissesse que não sei o que

senti? – elas me olharam com cara feia.

– Como assim não sabe? – Bia estava confusa.

– Eu não sei explicar, foram muitas coisas que acabei

sentindo no momento! – respondi.

– E isso é... Bom? – perguntou Milena.

– Acho que pode ser dito que sim! – respondi sorridente. –

Senti apenas sensações boas. Algumas foram estranhas, mas

ainda assim boas.

– Então isso que dizer que foi bom? – Bia tentava

entender.

– Acredito que sim. É posso dizer que sim!

As meninas gritaram feito loucas e novamente tive que

pedir para se acalmarem. Milena começava a mostrar um pouco

de ciúmes, mas nada que pudesse estragar o fim de festa.


As pessoas começavam a ir embora. Agora sim a casa

estava começando a esvaziar. Já era quase 01:00 da madrugada

quando a casa finalmente ficou “vazia”.

– Desculpe te fazer ser a última da festa a ir embora. – Dani

saia da porta da varanda e seguia em direção ao salão de festas

com decoração acústica.

– Você tem sorte dos meus pais confiarem muito na sua

família. Estou besta de minha mãe ainda não ter me telefonado.

– me aproximava dele.

– Acho que isso é bom! – ele sorriu.

– Acho que se eu pedisse, eles até me deixariam dormir

aqui. – o que eu estava dizendo?

– Não acho que será necessário. Ao menos que você

queira. Ficaria honrado em te receber na minha casa. – ele agora

estava a poucos centímetros de mim.

– Também acho que não será necessário! – tentei não

parecer oferecida.

– Acho que sabe o que quero conversar com você? – ele

pegou minha mão.

– É! Acho que sei. – tentei fazê-lo soltar minha mão, mas

não consegui.

– Olha, se eu fui meio...

– Não! – eu o interrompi. – Você foi perfeito. Foi tudo

perfeito.

– Então você não está chateada com o beijo? – ele parecia

aliviado.


– Não. Chateada não. Talvez confusa, mas chateada... Nem

um pouco. – apertei a mão dele.

– Eu simplesmente não conseguia mais aguentar. Eu queria

isso desde que te vi, no colégio. Linda. – ele fitava minhas mãos

e as acariciava.

– Muita coisa aconteceu desde que te conheci. Muitas

loucuras se passaram em minha cabeça, mas não quero falar

nisso agora. – eu levei a mão dele até o meu rosto.

– Alice... Eu acho que estou me apaixonando por você. –

meu coração disparou.

– Eu também acho que estou apaixonada por você.

Aproximei meu corpo ao dele. Não podia perder a

oportunidade. Nesse instante eu já não pensava mais em escola.

Não pensava nos meus pais, nem nas meninas. A única coisa que

me interessava naquele momento era ter os lábios de Dani

juntos aos meus. Mas não foi isso que aconteceu.

– Alice, eu ainda não posso. – ele soltou minhas mãos.

– Como assim? – fiquei confusa.

– Ainda não posso me envolver totalmente. Tem algumas

coisas que eu preciso te falar, mas não agora. – ele fitava

diretamente os meus olhos.

– Diga-me agora! – disse delicadamente.

– Não posso. Tudo tem seu tempo. Na hora certa eu

contarei. – ele se virou.

– Então... – já começava a entender.


– Eu precisava daquele beijo para ter certeza de que era

isso que eu queria. – Dani dizia um pouco afobado.

Ele ainda estava de costas para mim. Caminhei até ficar de

frente para ele outra vez. Ele olhava o chão. Peguei o seu queixo

com os dedos, levantei sua cabeça e a deixei olhando para mim.

– É era isso mesmo o que você queria?

– Alice... Era exatamente isso que eu queria. Melhor, você

é exatamente tudo o que eu mais quero agora! – ele segurava

minha mão novamente.

– Mas então?...

– Como eu disse, ainda existem coisas que você não sabe

sobre mim. Coisas que são importantes, mas devem esperar

pelo momento certo para serem reveladas. – ele estava muito

serio.

– E o que vamos fazer com nós dois? – estava sendo mais

racional do que imaginei que seria.

– Continuaremos como éramos. – ele deu um pequeno

sorriso. – Acho que agora não precisaremos mais policiar nossos

encontros na escola. Provavelmente, a essa altura, todos

devem estar certos de que estamos namorando.

– Acho que teremos que fingir. – também de um pequeno

sorriso.

– Acho que podemos! – ele beijou minha mão.

– Dani... – eu queria dizer alguma coisa, mas não sabia. Um

rápido silêncio pairou no ar.


– Você tem certeza que está bem assim? – Dani perguntou

serio. Seu rosto parecia preocupado.

– Sim, está! – respondi um pouco insossa.

Ficamos alguns minutos nós olhando. O vento frio da

madrugada fazia os nossos corpos tremerem, mas não

estávamos ligando muito para isso.

– Dani? – quebrei o silêncio. – Posso te pedir uma coisa?

– O que? – ele estava sem expressão.

– Pode me beijar de novo?

Ele não respondeu, apenas agiu. Desta vez o beijo foi

diferente. O primeiro beijo veio de supetão, quase não pude

pensar e sentir. Esse beijo foi mais mágico, como o momento.

Sua boca sobre a minha fazia o meu corpo esquentar. Esse beijo

foi um pouco mais demorado e pude sentir melhor os seus

lábios, seu corpo, sua pele. Desta vez tudo havia ganhado uma

cor diferente, um gosto. Estava me sentindo diferente também,

como se estivesse soprando vida dentro de mim.

Quando o beijo acabou a sensação que tive foi de que

estava me despedindo de minha alma. Sentia que meu corpo

começava a se tornar apenas uma carcaça vagando pela terra.

– Eu te levo até em casa! – ele disse quase sussurrando. –

Já está um pouco tarde e pode ser perigoso.

– Tudo bem. – não quis contestar.

– Então vamos!

Ele me levou até a porta de casa. Minha mãe já estava indo

me buscar quando cheguei. Ela agradeceu a Dani e perguntou se


estava tudo bem ele voltar sozinho. Estava tudo bem até para eu

voltar sozinha, Dani não teria problemas com isso.

Assim que entrei fui direto para meu quarto. Minha mãe

não foi atrás de mim como imaginara, provavelmente pensou

que eu deveria estar cansada demais. E realmente estava. Hoje

teria sido um dia normal se não fosse pelos beijos. Aqueles

beijos.

Achei que fosse demorar em dormir. Estava mais cansada

do que aparentava. Só tive tempo de trocar de roupas e escovar

os dentes, depois disso bati na cama e dormi feito criança.

Não me lembrava do que havia sonhado quando acordei

de manhã, mas sabia que provavelmente deveria ter sido uma

reprise dos beijos que aconteceram na noite anterior.

Por alguns minutos pensei já ser segunda-feira, mas só por

alguns minutos.

Havia acordado mais cedo do que imaginei que acordaria,

09:48. Tomei um banho para acordar de vez e fui tomar o café

da manhã. Melhor dizendo, tentei tomar o café da manhã. Ainda

estava entendendo tudo o que eu e Dani conversamos na noite

anterior e sabia que ficaria o final de semana todo entendendo.

O sábado havia chegado frio demais. Os dias frios estavam

dando os primeiros sinais de vida e resolvi que ficaria em casa.

Dani não me procurou, imaginei que não iria me procurar. Fui ler

um livro. Não escolhi, apenas peguei. Obviamente a leitura foi

apenas um pretexto para não me deixar sem fazer nada. Lia, lia,

lia, mas não compreendia o que estava escrito. Minha mente

estava concentrada no que estaria se tornando o meu

relacionamento com Dani agora e no que ele poderá se tornar.


15. SURPRESAS DESAGRADÁVEIS

eu final de semana foi confuso. Muito confuso. Minto, não foi

Mmuito confuso, mas eu acabei tornando uma confusão que nem

consigo explicar. Mas a confusão de meu final de semana tinha

nome e sobrenome: Daniel Devón.

A noite de domingo foi a pior de todas. Realmente não

fazia a menor idéia de como agir na escola. Não sabia se deveria

fingir que éramos namorados, se esclareceríamos para todos

que o beijo foi apenas um impulso ou se existiria outra desculpa.

Sei que Dani havia dito para fingirmos. Isso eu entendi

perfeitamente, o grande problema era que eu não sabia se

conseguiria fingir. Eu não faça a mínima idéia de onde podemos

ir e de qual era o limite da farsa e isso me deixou confusa.

Na manhã de segunda eu acordei antes do despertador.

Minha cabeça estava um pouco mais leve. Coloquei algumas

músicas adolescentes dos anos 90, bem agitadas e bem

grudentas para animar minha manhã. Havia conseguido.

Quando desci para tomar café meu rosto já estava bem

melhor, mas isso não significava muita coisa. A pressão que

estava sobre mim no fim de semana havia passado. Talvez tenha

aceitado o inevitável. Mas a minha dúvida sobre o que iria fazer

ainda estava em minha cabeça. Acho que eu só descobriria

mesmo quando chegasse a hora.

Quando passei pela casa de Dani ela estava na porta. Ele

me viu e acenou para mim. Fiz o mesmo. Pensei em seguir direto

e não falar com ele, mas sabia que seria melhor não trazer

dúvidas de que alguma coisa mudou. Estava indo e voltando da

escola com ele há varias semanas e era melhor não mudar isso.

– Você já ia passando direto? – ele havia percebido o meu

desvio.

– Sim! – disse timidamente.


– Por quê? – ele levantou os ombros e estendeu as mãos

com as palmas para cima.

– Não sei! – disse torcendo a boca e balançando a cabeça

negativamente.

– Você está louquinha! – ele riu.

– Acho que sim! – acompanhei seu riso. – O que vamos

fazer hoje? – perguntei aproveitando que Amanda ainda não

havia saído.

– O que combinamos? – ele novamente estendeu as mãos

com as palmas para cima e levantou os ombros, mas desta vez o

ombro direito estava mais elevado e sua cabeça virada para o

mesmo lado.

– E o que combinamos exatamente? – queria ter certeza.

– Que não vamos mudar nada. Vamos continuar agindo

como antes! – ele dizia isso de forma tranquila e quase

confortante.

– Mas todos estão certos de que estamos namorando!

– Todos sempre acharam que namorávamos. – ele seguiu

para mais perto do portão. – Eles sempre nos viram como

possíveis namorados. Agora eles só vão ter certeza. – Ele fazia

tudo parecer bem mais simples.

Amanda chegou pouco depois de terminarmos a conversa.

Entramos no carro e seguimos para escola. Estava aliviada de

realmente não precisar fingir que estávamos namorando. Acho

que no fundo eu sabia que não precisaria, mas eu estava

passando por tantas mudanças, tantas loucuras que não me


admiraria se eu acordasse uma manhã dessas dentro de um

quarto branco, amarrada em uma camisa de força.

Fiquei calada o tempo todo dentro do carro. Sabia que

provavelmente a Amanda deveria ter ouvido os comentários do

beijo entre eu e Dani e possivelmente estava achando que

tínhamos “oficializado” o namoro, mas ainda não tinha a

liberdade de dizer certas coisas na frente de Amanda.

– Você está nervosa? – Dani perguntou delicadamente

segurando minha mão.

– Um pouco. Não sei. – não olhava para ele.

– Você não precisa fazer nada de diferente! – ele me

tranquilizava, mas eu fazia questão de ficar me torturando.

Chegamos à escola como sempre. Até chegarmos ao pátio,

na visão de toda a escola. Todos estavam nos olhando diferente.

Alguns estavam constrangidos, outros estavam perturbados,

muitos se mordendo de inveja. Ninguém estava agindo

normalmente.

– Calma! – Dani sussurrou perto do meu ouvido. – Eu estou

aqui com você. Tudo vai ficar bem!

– Eu estou com medo! – respondi baixinho.

– Não se preocupe. Eu estou aqui! – ele apertava minha

mão. Mas provavelmente não tão forte quanto eu estava

apertando a dele.

– Vamos logo para a sala. Não estou vendo o pessoal da

nossa classe aqui. Eles já devem ter entrado. – disse baixinho.

Quando entramos na sala a vontade que tive era de não ter

acordado hoje. Assim que abrimos a porta, todos estavam

dentro da sala. Havia uma decoração, cheia de balões em forma

de coração, varias fitas vermelhas penduradas no teto e uma

faixa bem grande escrito “Alice e Daniel, FINALMENTE!”


– Meu Deus! – disse lentamente quando vi a palhaçada

que haviam preparado.

– O que é isso? – Dani perguntou super sem jeito.

– É uma festa surpresa. Para vocês! – Milena apareceu com

a resposta. – Estamos comemorando o fim da farsa!

Se as palavras infantil e egoísta tivessem forma física

provavelmente a Milena seria a primeira da espécie. Meu rosto

devia estar vermelho e visivelmente zangado. Estava morrendo

de ódio da Milena e do qual imatura ela podia ser. Puxei-a pelo

braço e a levei para fora da sala. O corredor estava vazio. Ou

quase.

– O que você tem na cabeça? – perguntei lutando para

manter o tom baixo e não chamar atenção. Digo... Mais atenção.

– Oras, estou apenas comemorando um fato que deveria

virar feriado. Nem que fosse municipal. – ela respondeu em

deboche.

– Garota deixa de ser ridícula! – novamente tentei manter

o tom baixo.

– Ridícula é você que se fez de santinha o tempo todo, mas

na verdade estava fazendo sabe lá o que com o Dani pelas

costas de todo mundo! – ela se exaltou um pouco.

– Do que você está falando? Você está louca? Eu e o Dani

sempre fomos apenas amigos! – estava começando a me exaltar

também.

– Vai contar essa para outra. Eu sei que você sempre foi

gamada nele desde que o viu. – ela quase cuspia em minha cara.

– Não vou negar. Realmente eu me senti atraída pelo Dani

desde que o vi pela primeira vez. Mas nós nunca escondemos

nada de ninguém, éramos o que sempre dizíamos ser: AMIGOS!


– Alice! – sua voz saiu de se tom e desafinou em um ruído

agudo demais para não fazer uma cara feia.

– Você foi uma grande egoísta Mili. Você pensou apenas

em me atingir, mas não pensou que isso também atingiu ao

Dani! Se o seu problema é comigo, atinja a mim e não a nós! –

começava a alterar meu tom.

– Alice! – ela já não sabia o que falar.

– Eu sempre amei você. Você sempre foi mais que uma

amiga para mim. Você sempre foi uma irmã. É uma pena que

você tenha mudado tanto e esquecido todos os momentos

bacanas que vivemos juntas.

Eu entrei. Dani estava sendo “zoado” pelo colegas, mas

parecia feliz. Eu estava feliz por essa brincadeira de péssimo

gosto não ter atingido tanto quando imaginei que atingiria. Pelo

menos ele não aparentava ter sido atingido.

Milena entrou pouco depois que entrei. Seu rosto estava

impecável, como se nada tivesse acontecido. Se bem a conheço

ela deve ter chorando – provando que ainda tem um coração –

foi ao banheiro, se arrumou e voltou.

– Que palhaçada é essa aqui. – o professor de biologia

havia entrado na sala.

– Ha, ha! – ele estava nervosinho. Não mais que eu, com

certeza. – Achei muita graça disso. Quem foi o bonitinho que

organizou isso? Foi você senhorita Alice?

– Fala serio não é professor!? Para que eu faria um circo

desses? – respondi mostrando que também não estava nos

meus melhores dias.


– Eu vou pegar uma água e quando voltar quero a sala

limpa! Se eu levar uma advertência por causa de vocês e não irei

perdoar NINGUÉM!

Antes de ele sair da sala, todos – inclusive eu – estavam

arrumando a sala. Todos nós sabíamos que quando ele se irrita

quem sofre somos nós. Já aconteceu uma vez dele levar uma

advertência da diretoria da escola por causa da classe. O

resultado disso foram provas mais difíceis, trabalhos atrás de

trabalhos e quadros e mais quadros lotados.

Quando voltou a sala ainda não estava completamente

limpa, mas ele relevou. A aula seguiu bem e ninguém comentou

nada sobre eu e Dani. Melhor, ninguém comentou nada sobre

nada. A sala estava em silêncio total. Apenas o vento e os ruídos

vindos de outras salas.

– Nossa! Achei que a sala estivesse vazia! – disse a

professora de história que estava passando pelo corredor e veio

conferir o que estava acontecendo.

– Olhando assim parecem até anjinhos! – o professor de

biologia falava com um sorriso irônico no rosto. Irônico e

debochado.

Quando a aula de biologia havia acabado tudo voltou ao

normal. Minha paz havia acabado. Pude ouvir os colegas de Dani

perguntarem se já havia dormindo juntos e pude sentir o

constrangimento de Dani respondendo a cada minuto “não”.

– Então Alice... – Bia veio falar comigo.

– NÃO! – respondi automaticamente de tanto ver Dani

repetindo.

– Está louca menina? – Bia ria da minha cara.

– Desculpe! – fiquei vermelha. – Só estou um pouquinho...

Nervosa.


– Você é o Dani não estão namorando não é? – ela

cochichou.

– Como?... – cochichei também.

– Eu pude ver pelo jeito como você está. – ela parou de

cochichar, mas manteve o tom baixo. – Também achei ridículo a

“festa” que a Milena organizou, mas você não ficaria furiosa

desse jeito se não tivesse alguma coisa errada.

– Ele quer um tempo. Ele disse que tem uma coisa para me

contar. – confessei.

– Então nem tudo está perdido. – ela sorriu.

– Mas me conte... – voltei a cochichar. – Você percebeu

tudo isso apenas pela minha reação? – Você é uma garota

previsível Alice. E pude notar pelo Dani também, totalmente

desconfortável tentando de todas as formas não dizer “Ela não é

minha namorada”.

A professora de matemática entrou na sala e todos

voltaram para seus lugares. Estava muito surpresa com a Bia.

Tão pouco tempo que somos amigas, mas mesmo assim ela me

conhece melhor do que a Milena com quem tinha uma relação

de irmã desde sempre. Como nós nos enganamos com as

pessoas!

As outras aulas seguiram bem na medida do possível. Os

comentários continuaram, vários pedidos de beijos foram

recusados e muitas vaias foram realizadas após cada recusa.

Sobrevivi melhor do que imaginava.

Na hora da saída foi o alivio que buscava desde que entrei

na sala. Finalmente estaria “fugindo” dos amigos canibais que

tinha. Pois era exatamente a sensação que tive durante todas as

aulas, eles queriam um pedaço de mim. Queriam minha carne,

minha alma no prato do almoço. Nunca imaginei que ficaria por

tanto tempo rodeada por tantas pessoas. Se não fosse trágico

seria cômico.


No carro com Dani a coisa foi ainda mais complicada.

Tivemos que desconversar sobre o assunto. Amanda fingia não

ouvir, mas sabia que estava atenta a nossa palavras. Eu sentia

isso pela sua feição. Ela parecia querer vigiar o Dani.

Em casa a primeira coisa que fiz foi tomar um banho. Era

incrível como um banho muitas vezes ajuda a colocar as idéias

em ordem. Fiquei pensando se no dia seguinte seria assim

também. Esperava que não. Mas já estava tranquila, diferente

daquilo não seria. Eu já estava começando a traçar um “plano

estratégico” para sobreviver até Dani me dizer o que ele

esconde de mim. Se é que ele esconde algo de mim.

Não almocei. Comi uma maça e subi para meu quarto.

Fiquei um pouco deitada e me via me transformando em uma

sedentária. Minha cabeça estava começando a se acostumar a

ficar cheia de conturbações e besteiras. Ela já havia se

acostumado a ficar sempre ativa. Pelo menos minha mente não

era “oficina do diabo” como diz o ditado, já que ela nunca estava

vazia,

Sai um pouco e fui a praça da cidade. Estava torcendo para

as coisas melhorarem nos dias seguintes e esperava que isso

acontecesse. Faria o pedido a uma estrela se houvesse alguma

no céu naquele momento. Pelo menos dentro do meu limitado

campo de visão.

Voltei para casa renovada. Um passeio sempre faz bem.

Não fui direto para meu quarto, fiquei na varanda, sentada e

esperando a tarde ir embora. Já estava me sentindo mais forte e

preparada para enfrentar tudo o que tivesse que enfrentar.

Começava a entender que se eu quisesse ficar com o Dani para

mim teria que fazer certos sacrifícios. E sentia que mais

sacrifícios viriam pela frente.


16. VOCÊ É UM ANJO

s semanas que sucederam à infame “festa surpresa” foram mais

A

tranquilas do que imaginei que seriam. Dani e eu continuamos

agindo normalmente, como se nada tivesse acontecido. As

pessoas continuaram pensando que tinham certeza sobre o

nosso “namoro” e tudo seguia perfeitamente bem. Talvez bem

até demais em comparação aos loucos tsunamis de

acontecimentos que inundaram minha vida desde que o ano

começou.

Minha mente estava tão cansada quanto meu corpo. Não

conseguia entender nada que era dito na sala de aula. Era uma

segunda-feira, e o meu final de semana havia sido bem

cansativo.

Ajudei minha mãe a limpar a casa na sexta-feira, fui com

meu pai até o escritório dele e o ajudei a arrumar umas

papeladas de projetos. Organizei tudo em pastas com cores

diferentes. Para projetos a analisar coloquei em pastas

amarelas. Projetos aprovados em pastas verdes. Projetos em

execução, pastas brancas e projetos concluídos em pastas

pretas.

O domingo foi o dia mais tranquilo. Só tive que ajudar no

almoço que minha mãe havia encasquetado de fazer para os

Devón. Foi um belo domingo. Por mais estranho que pareça,

ninguém nunca mais havia comentado sobre o beijo. Não

imaginei que um assunto tão “serio” pudesse passar tão

despercebido.

Pensei varias vezes em contar para mim mãe, mas sempre

que tentava algo me travava e eu não conseguia contar. Eu sabia

que ela iria entender perfeitamente bem e não iria implicar, mas

eu não conseguia comentar isso com minha mãe.


Na última aula, uma lembrança do inicio do mês me passou

pela cabeça quando recebi um bilhete de Bia – desde que

começamos a nos estranhar Milena mudou de lugar com a Bia.

Como eu já esperava, o bilhete era de Dani.

Preciso muito falar com você. Muito mesmo!

Espere-me no estacionamento depois desta

aula, o assunto é grave.

Esteja preparada.

Daniel

P.S., Não precisa responder o bilhete, apenas

esteja lá!

Fiquei muito apavorada com aquele bilhete. Olhei para ele

e fiz uma cara de espanto erguendo as duas mãos com as

palmas para cima até a altura dos ombros. Ele apenas me olhou

mais friamente e levantou a sobrancelha direita. Ele estava

muito serio e eu com muito medo.

De repente a aula pareceu demorar muito mais que de

costume. Minha ansiedade estava a mil e estava suando de

nervosa. Sem dúvida eu não estaria preparada para ouvir seja lá

o que for que o Dani fosse contar para mim.

Um pouco antes de a aula terminar, um aluno do 1º ano

avisou que Amanda queria falar com Dani.

– Você não sai antes de mim! – ele sussurrou.

O resultado disso foi eu ter sido a última a sair. Já havia se

passado 10 minutos quando decidir não esperar mais. Estava

furiosa com Dani. Não só por ter me feito esperar como por me

preocupar sem motivo. Afinal, se o assunto fosse tão importante

ele não teria se esquecido de mim.

O corredor estava um verdadeiro breu. A única iluminação

era dos raios de sol que entravam pelas janelas fechadas –

algumas com cortinas. Apesar de conseguir enxergar o


ambiente, fiquei com um pouco de medo e esbarrei em algumas

coisas. O silêncio me apavorava de uma forma absurda.

Meus passos pelos corredores pareciam mais altos que de

costume. Não havia ninguém no prédio. Todos haviam descido

para a cantina, era o horário de almoço. Eu estava totalmente

sozinha.

Minha fama de “garota comportada” não havia me

ajudado naquele momento. Se fosse outro aluno,

provavelmente a coordenadora já teria mandado descer a muito

tempo, mas como todos sabem que eu não seria capaz de fazer

nenhum tipo de “vandalismo” a única coisa que ela disse foi

“Não demore muito! Sabe que sua mãe se preocupa fácil”.

Ela é minha mãe eram muito amigas – o que às vezes me

era útil – mas hoje o trabalho as separou. Elas ainda conversam

e saem de vez ou outra, mas nada de muito frequente.

Por alguns instantes achei que tivesse cometido o ridículo

de me perder. Estudei nessa mesma escola desde que tinha 7

anos, me perder aqui seria o cumulo.

Vi a porta do banheiro feminino e masculino aberta. Dei

uma espiada nas duas e entrei no banheiro feminino. A

esperança de encontrar alguém me fazia sentir menos medo.

Não havia ninguém – como eu já esperava. Acendi a

lâmpada e fiquei me olhando no espelho. Meu rosto estava

pálido e meus olhos arregalados, não estava entendendo o

motivo de tanto medo.

Apaguei a lâmpada e sai. Assim que sai do banheiro

esbarrei com Dani na porta. Levei um grande susto e gritei

enquanto ele me segurava e me fazia ver que era ele.

– Por que não avisou que estava por perto? – perguntei

ainda agitada pelo susto.

– Pensei que já tinha descido! – ele sussurrou.

– Antes tivesse. Por que demorou tanto? – disse em tom

normal, não muito alto, mas ele pediu para que baixasse a voz.


– Não faça tanto barulho! – ele voltou a sussurrar. Sua

respiração estava descontrolada e ele estava visivelmente

nervoso.

– Por quê? – perguntei agora sussurrando também.

– Shhh! – ele colocou o dedo indicador na frente da boca.

Seus olhos estavam fixos em uma das janelas sem cortina.

Ele parecia estar querendo ouvir algo que estava acontecendo

fora do prédio. Ele me puxou devagar e segurou minha mão.

Nesse momento não pude evitar querer mais que a mão dele

segurando a minha. Eu queria novamente seus lábios sobre os

meus.

– Nós estamos fugindo de alguma coisa? – perguntei sem

esperar resposta. Mas acabei recebendo uma.

– Sim. – ele respondeu totalmente híspido.

De repente ele parou. Ele parecia estar prestando atenção

em algo que acontecia no 3º andar do prédio. Resolvi prestar

atenção também, ouvi passos.

– Deve ser a faxineira! – respondi voltando ao meu tom de

voz normal, sem sussurros.

– Shhh! – ele novamente colocou o dedo indicador na

frente da boca.

Os passos foram ficando mais altos e mais próximos de

onde estávamos. Dani começou a andar, bem devagar e

gesticulou com a cabeça para segui-lo. Os passos retomaram e

pareciam nos acompanhar. O medo que estava sentindo alguns

minutos atrás havia voltado. A ausência de outros sons além dos

passos da pessoa no 3º andar estavam sendo piores que

qualquer filme de terror que já assisti. Pelo menos nos filme


temos o consolo de que tudo aquilo é irreal, mas no meu caso, o

perigo era de verdade.

Dani e eu seguimos até a escada que descia para o 1º

andar. O corredor aparentava estar mais longo e nossos passos

lerdos não ajudavam muito. Onde estão os funcionários da

escola quando precisamos?

– Não seria melhor verificarmos quem está lá em cima? –

um surto de coragem nasceu em mim.

– Acredite. Você não vai querer saber! – ele continuou

seguindo com seus passos lentos e não olhou nenhum segundo

para mim.

– Você sabe quem está lá em cima? – sussurrei.

– Sim. – ele respondeu novamente híspido.

– Então qual o motivo dessa palhaçada? – ainda estava

sussurrando.

– Como eu disse, você não vai querer saber! – desta vez ele

olhou diretamente para mim e voltou a observar o teto.

– Você já está me deixando nervosa! – parei de sussurrar.

– Alice? – ele, que havia mantido o corpo levemente

agachado, se endireitou e deixou o corpo ereto. – Você lembra

quando me disse que havia brincado do jogo do copo?

– Sim! – voltei a sussurrar.

– Lembra do que o espírito te disse?

– Sobre o anjo?


– Exatamente! – ele levantou o dedo. – Lembra da sua

desconfiança?

– Sobre você? – perguntei sem sussurrar, mas falando

baixo.

– Isso mesmo! – ele ainda sussurrava. – Lembra do que

você pensou que eu era?

– Será que você pode ser mais direto? – aumentei meu

tom de voz, mas ainda estava no “nível baixo”.

– Se eu te dissesse que tudo era verdade, você acreditaria?

– ele parecia constrangido.

– Tudo bem, o que está acontecendo? – fiquei nervosa.

– Eu simplesmente não posso te explicar assim, agora, mas

se fosse tudo verdade? – ele enrolou.

– Dani, eu não estou gostando dessa história! – minha voz

estava aflita.

– Só responda! – agora ele havia alterado seu tom de voz.

– Eu não sei. Acho que sim. – estava confusa.

– Então você acredita que possam existir anjos e que eles

podem se passar por humanos. – ele estava ficando nervoso.

– Acho que sim. – estava confusa e nervosa.

Os passos pararam e nós também, assim como a estranha

conversa que estávamos tendo. O silêncio era total novamente.

A respiração de Dani e a minha eram as únicas coisas que

conseguia ouvir.

Olhei para cima, prestando atenção no que poderia estar

acontecendo no 3º andar. Um carro de som passou pela rua da


escola, fazia propaganda sobre as ofertas da semana de um

supermercado. Se não fosse tão apavorante a cena seria cômica.

O carro de som passou, o silêncio voltou a ser absoluto e nós

ainda estávamos parados.

Os passos voltaram. Agora pareciam estar descendo as

escadas. Dani me puxou para dentro de uma sala e me colocou

no fundo da sala, atrás das cadeira.

– Fique ai! – ele foi até a porta.

– C-c-c-claro – disse para mim mesma.

Ele voltou para perto de mim e depois olhou pela janela.

– Alice, você tem que dizer que sabe o que sou! – ele

estava quase que emitindo som nenhum. Sua voz estava muito

baixa e quase não pude ouvi-lo.

– Como assim? – sussurrei.

– Você ainda não percebeu? – ele parecia extremamente

preocupado.

– Percebi? – estava muito confusa.

– A nossa conversa. Você não entendeu essa nossa

conversa? – ele estava aflito.

– Eu... Eu... Eu sei! – quase gritei.

Os passos agora estavam altos e claros. A pessoa que

estava no 3º andar já estava no mesmo que o nosso. E estava a

cada vez se aproximando mais e mais da sala onde estávamos.

– O que você sabe? – ele começava a suar.

– Eu sei o que você é! – novamente quase gritei.


– É o que eu sou Alice, o que eu sou? – os passos se

aproximavam ainda mais da sala onde estávamos e parecia

andar mais rápido do que quando estava no 3º andar.

– Você.. Você.. – estava muito confusa.

– Vamos Alice, você precisa dizer!

Eu não fazia a menor idéia do que deveria dizer. Estava

muito confusa e amedrontada. Aquele – sem sombras de dúvida

– estava sendo o pior momento de toda minha vida. Então, o

obvio me passou pela cabeça. Mas seria mesmo isso?

– Eu sei o que você é! – recomecei. – Daniel Devón, você é

um ANJO!.

Depois que terminei a frase não sei dizer bem o que

aconteceu. Uma luz forte atingiu toda a sala. Ela vinha do corpo

de Dani. Estava certa de que tudo isso que estava acontecendo

era um sonho. Um sonho muito estranho. Provavelmente eu iria

acordar e pensar em escrever um livro sobre esse sonho maluco.

Mas isso não era um sonho.

Havia fechado os olhos, a luz era muito forte. Não vi como

nem quando, mas assim que senti a luz diminuir abri os olhos.

Não acreditei no que havia visto. Dani estava com assas. Eram

longas, grandes e brancas assas. Seu físico também havia

mudado.

– Mas o que? – pensei.

Dani virou para mim e pude notar melhor na sua nova

forma física.

Seus olhos haviam mudado de cor, estavam prateados.

Seus cabelos haviam embranquecido e seu corpo aparentava

estar mais forte. Seu rosto estava levemente mudado, parecia

uns três anos mais velho.

– Eu juro que te explico tudo melhor depois! – ele virou de

costas novamente. – Não saia daí, vou resolver um problema!


Ele deixou a sala e uma sensação estranha me invadiu. Não

sabia o que estava acontecendo, apenas imaginava. Para mim só

haviam duas opções para o que havia acabado de presenciar:

1: Eu estava enlouquecendo e brevemente iria para um

hospício.

2: Dani precisava me explicar muita coisa.


16. GRANDES REVELAÇÕES

Fiquei por pouco tempo parada atrás das cadeiras. Ouvi

passos – agora de duas pessoas – e sai do “esconderijo”.

Continuei na sala, estava com muito medo de seguir para o

corredor. Tentei não fazer. Minha cabeça estava muito confusa e

talvez fosse o momento mais confuso de toda minha vida. O que

havia acabado de presenciar ficava se repetindo em minha

cabeça a toda hora. Em minha mente o que havia acabado de

ver era uma cena de filme, que nunca poderia acontecer de

verdade.

O silêncio voltou. Meu medo cresceu. Dani desapareceu.

Estava começando a duvidar da minha saúde mental. Teria eu

fantasiado toda aquela cena? Seria tudo uma ilusão da minha

cabeça?

Voltei ao meu “esconderijo”. Meu medo estava dominando

o meu corpo. Minha cabeça estava quase gritando de tanta dor.

Ela nunca havia sido preparada para processar um fato como

esse e agora estava entrando em curto-circuito. Resolvi desafiar

o medo. Não podia deixar Dani sozinho. Sai da sala

Não havia ninguém pelo corredor. Não havia uma alma

viva. Pelo menos não humana. Andei pelo corredor em passas

de tartaruga. Não ouvia nada, apenas a minha respiração.

Aos poucos fui chegando até a escada que levava ao 1º

andar. Eu estava confusa e assustada demais para lembrar que

ainda teria que passar por outra escada para chegar ao térreo.

– Dani? – sussurrei quase sem emitir som algum.

A sensação que tive foi de estar totalmente sozinha no

mundo. Como se nada mais além daquele prédio existisse e eu

estivesse condenada a vaga por toda a eternidade naquele

corredor do 2º andar. Nunca mais eu passaria por ele como

antes.


– Dani? – tentei de novo, mas ninguém respondeu.

Mesmo depois de ter visto o que eu vi, ainda queria estar

com Dani. Acho que o que havia presenciado naquela sala era

tão surreal que meu cérebro simplesmente ignorou,

transformou o fato em um sonho, uma fantasia.

Continuei seguindo em passos de tartaruga até,

finalmente, chegar à escada que dava acesso ao 1º andar. Era

como um alivio. O 2º andar agora representava para mim algo

ameaçador.

Apesar de não ter nenhuma diferença entre o 2º e o 1º

andar, sentia-me como se tivesse atravessado um portal, ido

para outra dimensão, saído do inferno. O 1º andar parecia até

mais bonito, mas sabia que era pura imaginação.

– Dani, cadê você? – sussurrava para mim mesma agora

permitindo ser ouvida.

Assim como o 2º andar, o primeiro estava muito silencioso.

O chão brilhava, sinal de que a faxineira havia acabado de limpar

o chão. Continuei andando e vi que as portas das salas estavam

todas abertas. Passei direto, sem olhar.

De repente o medo voltou a me assombrar. Dani havia

sumido e ainda não tinha descoberto quem ou o que estava

perambulando pelo 3º andar. Apressei os passos. À medida que

caminhava, maior era o medo que sentia. Estava pedindo a Deus

que algo acontecesse logo, pelo menos eu morreria sabendo.

Minhas preces foram atendidas quando passei pela

penúltima sala do corredor.

– Aaaaaah! – gritei repetidas vezes quando esbarrei em

algo que saia da penúltima sala. Era a faxineira, como previa no

inicio.

– Calma garota! – ela me segurava pelos ombros enquanto

tentava fugir. – Calma, calma! O que foi que aconteceu?


Aos poucos – quando voltei para realidade – fui voltando

ao meu estado normal. O susto havia passado e levado com ele

todo o medo que estava sentindo.

– Não... Não foi... Nada. Não foi nada! – respondi

balançando a cabeça.

Ela me olhou com uma expressão estranha. Provavelmente

estava pensando que eu enlouqueci ou algo assim. Talvez ela

tenha razão. Muita coisa do que aconteceu hoje não fez o

menor sentido para mim.

Já era quase 13:00 quando finalmente sai da escola. Minha

mãe devia estar tendo um enfarte nesse momento, sem saber

que quem deveria ter enfartado era eu.

– Oi filha! – minha mãe estava estranhamente tranquila.

– O-o-oi?! – respondi confusa.

Fiquei encarando-a.

– O que foi? – ela perguntou rindo.

– Você não estava preocupada? – joguei uma indireta bem

direta.

– Eu deveria? – seu tom parecia cômico.

– Eu chego da escola quase 1 hora depois do habitual e

você fica assim?

Ela riu, aproximou-se de mim e riu novamente.

– Qual é a graça? – estava zangada.


– Nenhuma!

– Então...? – fiquei batendo o pé direito repetidas vezes no

chão, com os braços cruzados.

– Me ligaram da escola avisando que você estava

perambulando pelos corredores! – ela ainda mantinha o tom

cômico.

– Foi o Dani! – respondi fazendo bico. – Ele que pediu.

– Eu sei! – ela sorria inocentemente.

– Como assim? – me assustei.

– Ele esteve aqui! – ela olhou pela janela. – Disse que se

quiser conversar com ele era para ir até lá, na casa dele.

Por alguns minutos eu realmente pensei que tudo aquilo

que tinha visto havia sido um sonho estranho. Começava a

desconfiar que realmente fosse real.

– Mãe? – virei para ela com os braços ainda cruzados. –

Você notou alguma coisa de diferente no Dani?

– No Dani? – ela riu.

– No Dani! – afirmei.

– Não! – ela foi seguindo para cozinha. – Ele estava

diferente?

– Você realmente não viu nada de anormal? – insisti.

– Anormal como? – Sei lá. Anormal do tipo... Com asas?

– Você está bem? – minha mãe parecia achar graça em

tudo.


– Afff! Esquece! – fiz um sinal com a mão para ela

continuar o que estava fazendo.

– Você não vai ver o que o Dani que? – minha mãe

perguntou enquanto subia a escada.

– Agora não! – fui híspida demais com ela.

Realmente não sei o motivo de não ter ido naquele exato

momento a casa de Dani. Provavelmente estava começando a

cair na real e precisava de um tempo para digerir o que havia

visto e guardar espaço para tudo o que Dani iria me contar.

Deitei em minha cama e fiquei fitando o teto. Seria mesmo

verdade tudo o que havia visto? Se sim, por quê? É aquela coisa

toda de “diga o que sou”? Dani seria mesmo um anjo?

Minha reflexão que era para esclarecer acabou me dando

mais perguntas. Isso não era algo que a mente humana estava

preparada para entender. Só um lunático ou uma criança

entenderia, acreditaria e aceitaria tudo o que eu vi numa boa.

Levantei-me e segui para a casa de Dani. Se fosse para

enfrentar o dragão para perder, que diferença faria estar ou não

de armadura?

Cheguei a casa dele como quem havia acabado de ser

chamado pra guerra. Não estava pronta para nada do que ele

fosse me dizer. Não sei se estaria pronta um dia, mas tinha que

enfrentar-lo.

– O Daniel está? – perguntei.

Quem havia me atendido era o pai dele. Era raro o Sr.

Devón estar em casa, então, acabei ficando um pouco

constrangida em chamar Daniel de Dani.

Ele me convidou para entrar, muito educado como sempre.

Sentei-me no imenso sofá branco da sala. A espera era

angustiante. Ao mesmo tempo em que queria explicações sobre

tudo o que havia acontecido, desejava para que esse momento

não chegasse nunca.


Dani desceu.

– Já esperava por você! – ele cochichou e depois voltou ao

seu tom normal. – Vamos para o meu quarto?

– Ah, claro!

O segui. O silêncio voltava a ser minha companhia. Não

pensava em nada, apenas em querer que isso terminasse o mais

rápido possível.

– Acho que... – tentei puxar assunto.

– Espere! – ele respondeu sem olhar para mim.

Entramos em seu quarto. Ele olhou para os lados e fechou

a porta à chave. Eu estremeci. Ele sentou ao meu lado, segurou

minha mão e me olhou carente, parecia uma criança que havia

feito algo errado e estava pedindo desculpas.

– Acho que você não deve estar entendendo nada. – ele

parecia tranquilo.

– Acertou!

– Desculpe ter feito você passar por aquilo tudo, mas era a

única forma de te proteger! – ele continuava segurando minha

mão.

– Me proteger? – o fiz soltar minha mão. – Do que você

está falando?

– Você viu o que aconteceu, não viu? – ele continuava

tranquilo.

– Eu não sei o que eu vi! – estava nervosa.

– Como não? Você não se lembra?


– Eu não sei do que eu me lembro! – engrossei um pouco a

voz.

– Acredite! Apenas acredite! – estava estranhando sua

tranquilidade.

– Acreditar no que? – fiz-me de sonsa.

– Em tudo o que você viu! – sua paciência comigo

começava a ser admirável.

– Eu não sei...

– Não sabe o que? – ele voltou a segurar minha mão.

– Eu não sei se quero acreditar no que vi! – respondi

fitando o chão.

– Mas deve! Só assim poderei te proteger sem medo. – sua

voz estava suave.

– Me proteger do que? – disse baixinho.

Dani bufou. A paciência dele parecia começar a se esgotar.

Respirou fundo e segurou minha outra mão.

– Acho que deve começar do principio. – ele fechou os

olhos e, novamente, respirou fundo. – Você se lembra do que

você disse que eu era?

– Sim! Eu disse... Disse que... Você... Era... Um... Anjo! –

precisava respirar fundo para afirmar isso.

– Ótimo! – ele sorriu.


– Mas sinceramente, acho que não sei mais o que isso quer

dizer! – provavelmente ele pensou que estava louca. Ou então

que era uma burra.

– Nós existimos há muito tempo. – ele começou a falar. –

Há milhões de anos. Estamos espelhados pelo mundo, vivendo e

agindo como pessoas normais. Mas não somos pessoas normais.

Não somos sequer pessoas.

– Do que você está falando?

– Oras Alice, de nós! Os anjos! – Pela primeira vez desde

que começamos a conversar ele alterou o tom de voz.

– Calma! Vamos com calma! – estendi a mão esquerda.

– Infelizmente não dá mais para esperar. As coisas estão

ficando pesadas demais para os meus ombros e os da Amanda.

– O que a Amanda tem haver com isso tudo? – me assustei.

– Todos nós somos anjos! Na verdade, guardiões. – ele

parecia estar triste em constatar o fato. – Eu, a Amanda, a

Ângela, o Miguel... Todos nós...

– Mas como? – estava confusa.

– Não sei como explicar. Nós apenas estamos aqui, para te

proteger. Para proteger a todos vocês!

– Eu ainda não sei se entendo. – Ou pelo menos queria não

estar entendendo.

– Protegemos todos os humanos ameaçados por seres

sobrenaturais!


– Seres... Sobre... Como assim seres sobrenaturais? –

estava assustada.

– Seres maus, como espíritos. – Ele sorriu. – Vampiros,

lobisomens...

– Você está de brincadeira comigo! – pela primeira vez

achei que tudo não passasse de uma brincadeira.

– Não, não! É a pura verdade! – ele sorriu novamente. – E

acredite, eles não são tão bonzinhos quanto aparecem nos livros

e filmes, principalmente os vampiros.

Essa história já estava começando a ficar confusa e cômica

demais para mim. Precisei de um tempo para entender que Dani

realmente estava falando serio, que tudo o que havia visto e

ouvido era verdade.

– Então... O que está atrás de mim? – comecei a me

convencer. – Digo, que tipo de criatura estava atrás de mim?

– A mais perigosa de todas! – ele me deixou com muito

medo. – Era um guardião!

Fiquei extremamente confusa nessa hora.

– Mas os guardiões não protegem os humanos? –

perguntei.

– Alice, você está pronta para uma história. Uma longa

história? – ele foi para a porta.

– Longa história?

– Uma longa história que vai te mudar para sempre. De

uma forma irreversível. Você está pronta? – ele abriu a porta.

– Acho que estou. – disse um pouco confusa.


– Então vamos descer!

Seguimos para a sala. Eu estava voltando a ficar com medo,

o meu novo amigo companheiro. E o pior, tinha uma terrível

impressão de que isso ainda iria ficar mais complicado e

estranho do que já estava.

– Já contou a ela? – a mãe de Dani perguntou. Dani apenas

olhou para ela.

Seguimos eu, Dani, Amanda e o senhor e senhora Devón

até a varanda dos fundos. Eles me fizeram sentar em uma

cadeira e começaram a se entreolhar. Fiz o mesmo.

– Alice? – Dona Ângela começou. – A essa altura você já

deve saber o que somos.

– Sim! – respondi ainda confusa.

– E como você está lidando com isso? – perguntou o Sr.

Miguel Devón com a voz um pouco rouca.

– Eu ainda não estou lidando com isso. – fui sincera.

– Mas você está entendendo o que está acontecendo aqui?

– quem perguntava agora era Amanda.

– Acho que sim! – tentei esboçar um sorriso. Não consegui.

– E o que você pensa disso? Acha ruim? – Sr. Devón outra

vez. Senti-me em um interrogatório.

– Por enquanto eu não estou achando muita coisa. –

novamente fui sincera.

– Você está com medo? Confusa? – Dona Ângela.

– Com medo? Não! De vocês pelo menos não! Confusa?

Muito! – já não tinha certeza de nada.


– Você realmente está pronta para ouvir? – Dani

perguntou.

– Sim!

Eles se entreolharam novamente. Seus rostos pareciam

perguntar “quem começa?” e eu ficava ainda mais confusa do

que antes. Dani começou:

– Como eu já havia dito, a história que vou contar vai

transformar sua vida para sempre.

Dani parecia estar enrolando, como se não quisesse me

contar. A essa altura do campeonato eu estava pouco me

lixando para minha vida. Ela já estava mudada desde que o vi

pela primeira vez.

– Nós, os guardiões, estamos no mundo a milhares de

anos. – Dani enrolando outra vez.

– Nós protegemos os humanos! – Amanda tomou a

palavra. – De todas as coisas sobrenaturais. Isso é a nossa

“profissão”!

– Nós vivemos em uma terra chamada Deluve. – a palavra

voltou para Dani.

– Deluve? – perguntei para mim mesma.

– É um reino flutuante. Uma ilha que está sempre

mudando de lugar. – Ângela respondeu.

– Como foi dito, Deluve é um reino. Nós moramos lá,

quando não estamos “trabalhando”. – Dani continuou. – E lá

que observamos tudo o que acontece aqui na Terra.

– Você está entendendo? – Amanda.

– Acho que sim. – respondi um pouco lerda.


– Mas não são todos que veem até a Terra para proteger

os humanos. Nós, os guardiões, somos um tipo de classe,

nascemos para fazer isso. – Dani parecia não saber como

explicar.

– E como Deluve é um reino, temos o nosso rei. Quero

dizer, temos a Família Real! – Sr. Miguel interrompeu.

– Que história! – sussurrei.

– E é ai que você entra na história. – Amanda entrou em

minha frente.

– Como assim? – estava assustada.

– Apesar de todo o esforço do nosso Rei, Deluve é um lugar

como outro qualquer, cheio de maldades, inveja e ganância. –

Ângela.

– Há 16 anos, um grupo de guardiões que foram chamados

de “Íncubos” invadiram o reino. – Dani começou, mas o

interrompi.

– Íncubos, tipo a lenda? – perguntei.

– Quase! Eles não eram demônios. Mas também não eram

anjos. – Dani voltou a falar – O líder deles, Kass, planejou uma

vingança contra o Rei Damario, o rei de Deluve, quando ele o

expulsou das tropas da realeza.

De repente esqueci de que se tratava de uma história real

e que tinha meu nome envolvido. Realmente achei que era uma

lenda daquelas que tanto gosto.

– Nós guardiões nascemos com poderes especiais, típicos

de guardiões, como prever o futuro ou ler as mentes, mas Kass


era diferente. Ele tinha um poder a mais. Ele tinha o poder de

matar guardiões. – Dani fez cara de medo.

– Matar? Estão me dizendo que vocês não morrem? –

perguntei quando voltei para “realidade”.

– Nós somos imortais! – completou Amanda.

– Imortais? – estava confusa.

– Imortais! – Dani respondeu com certa repudia.

– Mas continuando... – Sr. Miguel o fez voltar à história.

– Kass era o único guardião com esse poder. Depois dos

membros da Família Real, ele era o guardião mais poderoso de

todos. – Dani começou a ficar misterioso. – Ele iniciou então

uma rebelião e muitos dos guardiões passaram para seu lado.

Kass descobriu uma maneira de compartilhar o seu poder com

outros guardiões e assim eles iniciaram o massacre.

– Massacre? – perguntei novamente para mim mesma.

– Eles começaram a matar diversas jovens moças, em mais

de sua maioria, importantes. – Dani continuou. – Eram sempre

filhas ou esposas de pessoas envolvidas com a Família Real ou

com o Rei Damario. Por isso foram chamados de Íncubos.

– Mas ninguém fez nada contra isso? – perguntei

apavorada.

– Nós até que tentamos. – Ângela começou a falar. – Mas

ele era muito esperto!

– Ele utilizava truques de ilusionismo e feitiços para sumir

sem deixar pistas. – completou Sr. Devón.


– A Família Real, principalmente o Rei Damario, estavam

muito aflitas com a impotência deles quanto ao caso e não

sabiam o que fazer. – Dani voltou à história. – Então o Rei

Damario resolveu fazer algo muito arriscado, mas que era a

única solução. Ou a última esperança.

– O que? – estava a ponto de roer as unhas.

– Sabe o motivo de Kass ter poderes superiores ao dos

outros guardiões? – Dani.

– Qual? – perguntei sussurrando.

– Ele havia sido fruto de um relacionamento entre uma

humana com um guardião. – Dani se sentou ao meu lado. – E foi

exatamente isso que o Rei Damario fez, se envolveu com uma

humana e teve uma filha com ela.

– Filho com humana? – estava confusa.

– Filha! Ela nasceria, ele a traria para Deluve e a

transformaria em adulta para ser a arama secreta no combate

contra os Íncubos. – Dani parecia ser o único a conhecer a

história.

– Mas Kass descobriu o plano antes e eliminou a humana. –

Ângela interrompeu.

– Ou foi isso que ele pensou. A humana com que o Rei

Damario se relacionou era outra. – Dani continuou a contar a

história. – O Rei Damario tinha muitos truques e sabia que Kass

tentaria ler sua mente. O Rei Damario então, criou uma figura

humana descerebrada, como um robô, um humanóide e fez com

que Kass pensasse que havia conseguido penetrar em sua mente

e colocou a imagem da humanóide como sendo a humana com

quem havia se relacionado.


– Que história! – disse baixinho.

– Então, depois de meses em guerra, nasceu Melisa, a filha

do Rei Damario com a humana. Estava tudo pronto, mas o plano

acabou não sendo necessário. As tropas do reino, assim como

Kass, haviam aprendido alguns truques e se fortificaram com

isso e a tropa do Rei Damario acabou dando conta do recado

prendendo todos os rebeldes assassinos.

– E a Melisa?

– Foi deixada na Terra, para segurança dela. A mãe havia

morrido no parto. Melisa havia nascido em forma de guardião,

com asas, é nenhum humano suportaria dar a luz a esse tipo de

criatura. – Amanda respondeu.

– O Rei Damario mandou então uma de suas guardiãs

descer a Terra para cuidar de Melisa. A guardiã havia se

apaixonado por um humano e pediu para ser transformada em

humana. – Dani voltou a contar a história. – O Rei Damario

aceitou, com a condição de que cuidasse de Melisa como se

fosse fruto dela.

– E ela aceitou! – Dona Ângela.

– A guardiã mudou de nome e mudou o nome de Melisa,

para proteger a ambas. – Amanda tomou o lugar de Dani. – Eles

vivem até hoje como humanos.

– E onde eles estão agora? – Perguntei inocentemente.

– Você ainda não percebeu onde você aparece nessa

história? – Amanda perguntou.

– Eu... Não sei! – fui sincera. Ou quase.

– Alice? Você é a Melisa! Filha e herdeira do reino Deluve!


18. O PLANO DE ATAQUE

Era como se uma bomba tivesse caindo em cima de mim.

Algo muito pesado, do qual eu não podia suportar. A minha

vontade naquele momento era de correr e fugir, ir para um lugar

bem distante, onde só existisse a mim de preferência.

– Você tem certeza? – minha voz falhou em cada palavra. –

Vocês não estão me confundindo com outra pe... Digo, com

outro anjo?

– Não! – Ângela respondeu com a voz reconfortante que só

ela e minha mãe sabiam fazer. – Sabemos que tudo isso está

sendo muito difícil para você. Nós podemos sentir a sua

confusão só de olhar em seus olhos.

– Eu ainda não consigo acreditar! – um choro começava a

nascer. – Vocês têm certeza?

Dani acenou com a cabeça e segurou minha mão. As

expressões em seu rosto também eram reconfortantes.

– Eu posso sair um pouco? – perguntei.

– Aonde você vai? – Dani perguntou preocupado.

– Para algum lugar que possa respirar! – respondi já

saindo.

– Espere, a história ainda não acabou! – Amanda gritou

enquanto corri.

– Deixe-a! – ouvi Dani dizer – Eu cuido dela!


Corri até o portão e fui para a calçada. Estava confusa

demais para perceber que não havia me distanciado o suficiente

de toda aquela história bizarra.

Meus pensamentos agora eram seres incontroláveis. A

confusão em minha mente havia se tornado algo indescritível e

por varias vezes achei que iria cair dura no chão. Eu não estava

mais pensando comigo mesma, nem digerindo, nem tentando

entender o que havia ouvido. Eu estava entorpecida, neutra,

morta. A única coisa viva em minha cabeça eram as palavras

“Você é a Melisa! Filha do Rei Damario e herdeira do Reino

Deluve!” que se repetiam em minha cabeça, piscando feito

neon.

Olhei rapidamente para dentro da casa dos Devón. Dani

estava na porta, parado, me observando. Respirei fundo. As

palavras ainda se repetiam em minha cabeça. Tapei os meus

ouvidos – inutilmente, claro – como se isso pudesse abafar algo

que está dentro de minha cabeça.

Fechei os olhos e sentei na calçada. Se estava ou não

passando alguém na rua eu não sei, mas isso também não

importava.

“Você é Melisa! Filha do Rei Damario e herdeira do Reino

Deluve”

Abri os olhos, Dani estava do meu lado. Ele não dizia nada.

Levantei-me e voltei para dentro da casa dos Devón.

– Você está melhor? – perguntou Ângela. Não respondi.

Sentei-me novamente onde havia me sentado, respirei

fundo e fitei a todos. Não dizia uma palavra sequer. Nem eu,

nem eles. Os Devón pareciam querer adivinhar o que eu estava

pretendendo fazer. Eu estava sem reação.

– Você quer continuar a falar do assunto? – Dani

perguntou delicadamente.

– Acho.. Que... Não! – respondi quase sussurrando.


– Se você achar melhor, pode se deitar e descansar um

pouco. – Dani mantinha seu tom suave. Quase reconfortante, se

não fosse a pressão da minha atual “realidade”.

– Acho que não será necessário. – menti.

– Tem certeza? – Amanda quem perguntava agora.

– Tenho! – menti novamente. – Será que... Vocês... Algum

de vocês... Será que... Bem... Alguém pode chamar a minha... A

minha mãe?

Todos olharam como se já esperassem por esse pedido.

Amanda se levantou e saiu. O silencio reinava naquele

momento. Eu era o centro das atenções, todos estavam a minha

volta, olhando para mim, preocupados. Sentia-me como se

estivesse sendo idolatrada, talvez já estivesse começando a

digerir toda aquela história absurda.

– Ela está voltando! – O Sr. Devón quebrou o silencio.

Virei o rosto e vi, ao longe, Amanda vindo para o jardim e,

a seguindo, minha mãe. A julgar por suas expressões de

preocupação, ela já estava sabendo de tudo o que aconteceu

nas últimas horas.

– Ela já está aqui! – disse Amanda.

– Será que vocês podem... – não precisei completar a frase,

todos começaram a se retirar do jardim.

Minha mãe olhava para mim aflita. Eu tentava demonstrar

segurança, mas acredito que não estava conseguindo.

– Acho que você já deve estar sabendo. – minha mãe

iniciou.

– É realmente tudo verdade? – estava quase chorando

outra vez.


– Por mais estranho que possa parecer!

– Mas como...?

– Eu sei que deve estar sendo muito assustador para

você...

– Não! – interrompi – Assustador não. Confuso. Muito

confuso!

– Você vai ficar bem! – minha mãe tentava me reconfortar

– Todos nós sabemos que você é forte e logo irá entender tudo.

Acho que não vai demorar para você despertar novamente. –

minha mãe estava sorridente.

– Bem... Eu não sei. Mas acho que depois que tudo isso

passar, talvez eu possa voltar a viver normalmente. Despertar.

– Não! Eu estou falando de outro despertar!

– Outro? – estava confusa.

– O despertar do seu poder de guardiã!

Minha garganta secou nesse momento. Se eu já estava

confusa antes, depois dessa declaração fiquei totalmente

perdida. Meus sonhos nunca haviam sido tão reais. Sim, voltei a

acreditar que tudo não passava de um sonho.

– Eu... Meu... Como assim? – não sabia exatamente o que

estava perguntando.

– Você ainda é uma guardiã. O fato de suas asas terem

desaparecido não quer dizer nada.

– Então eu não virei uma humana? – foi muito estranho

perguntar isso.


– Não. Para sua segurança, o seu poder foi apenas

adormecido. Suas asas não voltam, mas nem serão necessárias,

seu poder já será o bastante! – minha mãe parecia, apesar de

tudo, feliz em estar contando isso para mim.

– Meu poder será o bastante para o que? – estava

intrigada.

– Caso seja necessário que você lute!

Se eu estivesse bebendo algo, provavelmente aquela cena

clichê da pessoa que cospe a bebida com o susto estaria

acontecendo no exato momento em que minha mãe terminasse

a frase.

– Acho melhor chamar os outros! – minha mãe se

levantou.

Logo a varanda voltou a ficar cheia de Devón. Tentei rir da

situação, que poderia dizer que está rodeada de anjos?

– Explique-me! – lembrei do “Caso seja necessário que

lute”. – Que história é essa de lutar?

– Como disse, a família real havia planejado você como

uma arma secreta para destruir o Kass. – novamente Dani era

quem explicava.

– Mas esse Kass não já havia sido capturado? – perguntei

afobada.

– Nunca foi dito que o Kass havia sido capturado. –

Amanda resolveu tomar a palavra.

– Como assim? Vocês disseram! – me desesperei –

Disseram que as tropas do rei haviam aprendido truques...

– E prendido os rebeldes assassinos! – Dani completou a

frase.


– Kass nunca foi encontrado! – Ângela começou a explicar.

– Ele era muito esperto e fugiu antes de ser capturado. Ninguém

nunca mais ouviu falar dele até...

– Até? – obriguei-a terminar.

– Até agora. – Dani quem completou a frase. – Lembra dos

passos no 3º andar da escola?

– Como poderia esquecer? – respondi nervosa.

– Era o Kass! – ele respondeu serio.

– Mas... Mas... Você o viu? – estava quase pronta para ser

colocada em uma camisa de força.

– Na verdade não. Ele desapareceu antes de encontrá-lo! –

Dani.

– Mas então como você sabe que era ele? – devia estar

visivelmente apavorada.

– Nós, os guardiões, podemos nos comunicar através de

pensamentos. Nós podemos... Sentir a presença de outros

guardiões. – Desta vez quem explicava era Amanda. – E quando

conhecemos bem um guardião, acabamos sentindo a sua...

Como posso dizer... A sua “alma”.

– Eu senti que era o Kass! – Dani voltou a falar – Eu quase

pude ouvir o que ele pensava.

– Espere um pouco! – interrompi. – Vocês não podem ler

as mentes um do outro?

– Essa eu explico! – minha mãe que havia se mantido

calada. – Nós não podemos ler os pensamentos, não dos


guardiões. Nós podemos ler mentes humanas, para poder

proteger-las da melhor maneira possível, mas os guardiões...

– Os guardiões são um caso diferente. – Ângela tomou a

palavra. – Nós não lemos as mentes de outros guardiões. Nós

apenas nos comunicamos através de pensamentos.

– Só quem pode fazer isso são os membros da família real!

– Dani completou a frase. – O Kass acabou adquirindo essa

habilidade por causa de seu poder extra.

– O poder da família real ainda é muito maior que o de

Kass, mas ele tem seus “méritos”. – Amanda.

– Tem uma coisa eu ainda não entendi. – estava

começando a aceitar algumas coisas. – Como Kass conseguiu

agir por tanto tempo se a família real é mais poderosa que ele?

– Esse é um fato confuso. – Sr. Devón começou a falar. – O

Rei Damario e o guardião mais poderoso, mas ele não é filho de

humanos.

– Isso realmente faz tanta diferença? – perguntei.

– E ai que a história fica confusa. Nós não conseguimos

entender o motivo de um filho de humano ser mais poderoso do

que um filho de guardiões. – Sr. Devón ainda tinha a palavra. –

Mas esse fato faz diferença!

– Se não fosse a inteligência de Rei Damario e seus

conhecimentos em aprimorar seu poder, Kass sem dúvida teria

vencido a guerra! – quem falava agora era Ângela.

– Então o Kass não é poderoso, é apenas esperto? – tentei

entender.

– Esperto até demais! – Sr. Devón respondeu.


– Vamos recapitular tudo para ver se eu entendi. – disse

tentando evitar uma dor de cabeça – Eu na verdade sou Melisa,

filha do Rei Damario. Fui criada para ser a “arma secreta” das

tropas reais contra Kass e os “Íncubos”, mas acabei sendo

deixada na Terra após Kass desaparecer e sua tropa ser

capturada. – respirei fundo. Relembrar tudo aquilo não era bom.

– Agora, 16 anos depois, Kass reaparece e eu posso acabar

virando a arma secreta.

– Quase! – Amanda me corrigiu.

– O que foi então? – forcei-me a lembrar do que havia

esquecido.

– Você só errou em um detalhe! – Dani.

– Qual? – estava confusa.

– Você já não é mais tão secreta! – Amanda respondeu.

– Ele voltou a Terra depois de descobrir que você ainda

estava viva! – Dani contava a “novidade”. – E pelo que pude

sentir, ele andou “treinando” durante o tempo em que

desapareceu.

– Então agora ele está mais forte? – fiquei assustada.

– Sim. Mais forte que nunca! – Dani me apavorou ainda

mais.

Meu nervosismo naquele momento era tão grande que

cheguei a pensar que vomitaria. Eram coisas demais para uma

única cabeça. Eram mudanças demais até para uma pessoa que

aceita bem mudanças. Eram perigos demais até mesmo para

quem era um imortal.

– Vocês querem que eu lute? – minha voz estava tremula.


– Nós realmente esperamos que não seja necessário! –

Ângela respondeu.

– E vocês já têm algo em mente? – minha mãe perguntou.

– Para ser sincero, sim! – Dani respondeu.

– E o que seria? – perguntei nervosa e curiosa.

– Na verdade nós não descartamos a possibilidade de você

ter que lutar. – Ângela votou a me preocupar.

– Nós pensamos assim – Dani começou a explicar. – Kass

provavelmente não deve estar sozinho, caso o contrario nunca

teria vindo.

– Por quê? – essa história era realmente longa.

– Você sabe o motivo de nunca ter despertado os seus

poderes? – Amanda perguntou.

– Acho que nem faço idéia! – respondi. – Quando nós

estamos na Terra, perdemos um pouco de nosso poder. –

Amanda respondeu.

– Devido a nossa forma humana, nós ficamos mais fracos. –

Ângela continuou explicando.

– Nossas asas são parte fundamental de nosso poder! –

Dani era quem mais falava. – Sem elas nós nos tornamos

quase... Mortais.

– Mas você... Você se transformou! – o lembrei do fato que

havia acontecido mais cedo.

– No nosso mundo existem muitas regras, como no seu. –

Dani continuou falando. – E uma delas e nunca revelar a sua

forma de guardião aos humanos.


– Mas você não é totalmente humana! – Miguel

completou, enquanto minha mãe olhava tudo apreensiva.

– E nem totalmente guardiã. – Dani voltou a falar. – Nós só

podemos nos revelar... Digo... Aparecer como guardião na Terra,

caso um humana diga, de livre e espontânea vontade, o que nós

somos de verdade.

– Mas eu não disse aquilo de livre e espontânea vontade! –

me revoltei. – Fui quase que forçada a falar aquilo.

– O seu caso é diferente. – Miguel tomou a palavra. – Você

não é uma humana comum. Parte de você é guardiã. Você não é

apenas uma simples terráquea. Você é Melisa, uma deluviana

herdeira de um reino inteiro.

– Tive que fazer aquilo, era para seu próprio bem! – Dani,

como sempre, voltou a falar – Se você não dissesse o que eu era,

Kass poderia ter nos encontrado e destruído a mim e a você.

– Mesmo estando sem as asas, o Kass ainda é mais

poderoso que todos nós. – Amanda se ajoelhava e segurava

minha mão.

– Por isso precisava me garantir. – Dani tomou a palavra. –

Separados, nós não conseguiríamos derrotá-lo, mas juntos...

– Juntos vocês podem derrotá-lo! – completei a frase.

– Eu não diria com total certeza, nunca podemos afirmar,

mas temos grandes possibilidades de vencer. Grandes mesmo! –

Dani continuou a falar.

– Isso que aconteceu aqui não é comum, nunca que mais

de um guardião desceu a Terra para proteger a mesma pessoa. –

Ângela começou a falar.


– Ele provavelmente está pensando que estou apenas eu te

vigiando. – Dani voltou a explicar. – E já deve ter estar sabendo

que você sabe da minha verdadeira “identidade”, por isso fugiu.

– Nós vamos armar uma emboscada. – Amanda agora

parecia muito animada.

– Ela vai acontecer da seguinte maneira. – Já começava a

enjoar de ouvir apenas Dani falando – Ele provavelmente vai

voltar em breve. Não dou dois dias e ele estará por aqui de

novo, com reforços.

– Não serão muitos, talvez uns três ou quatro. – Miguel

acrescentou.

– Isso nós deixa em uma pequena desvantagem, já que

serão cinco contra quatro, sendo que um desses cinco vale por

três! – Dani voltou à explicação. – Não poderemos usar um

ataque direto, deverá ser algo bem elaborado. Já esperávamos

que ele aparecesse, tivemos tempo de pensar em vários planos.

– Nós iremos tentar atrair o Kass, separado dos seus

companheiros, para o alto da montanha. – Miguel começou a

explicar. – Eu, Amanda e Danilo ficaremos por dar conta do

“reforço” de Kass.

– Diego? – achei que tinha ouvido errado.

– Ah! Desculpe. – Miguel sorriu envergonhado. – Danilo é

um guardião intermediário.

– Guardião intermediário? – já estava acostumada a ficar

confusa.

– Todo guardião quando desce para Terra tem um

intermediário. Ele cuida da comunicação entre Deluve e a Terra.

– Ângela começou a explicar. – Danilo é o nosso Guardião


intermediário. Você nunca o viu, ele não pode aparecer perto de

humanos, pois tem que manter sua forma de guardião, mas

agora você poderá conhecê-lo.

– Ele é um excelente lutador. – Dani – Não é comum

guardiões intermediários lutarem, mas esse não é um caso

comum.

– Voltando... – Miguel nos lembrou do que estava

contando. – Eu, Amanda e Danilo vamos lutar com o grupo de

Kass. Dani e Ângela ficaram por conta do Kass.

– Mas como vocês vão separá-los de seu grupo? –

perguntei.

– Você terá que nos dar uma pequena ajuda. – Miguel me

assustou. – Teremos que usar você como isca.

– Eu? – perguntei alongando o máximo que pude a palavra.

– Não se preocupe! Estaremos todos a espreita,

escondidos. Você vai ficar bem! – a tentativa de Miguel em me

tranquilizar não foi bem sucedida.

– Como vocês vão se esconder? – perguntei visivelmente

apavorada. – Vocês não disseram que os guardiões podem sentir

um aos outros?

– Sim, isso é verdade! – Dani sorriu. – Mas se você se

lembra bem, dissemos que a família real também aprendeu

truques durante a guerra contra os Íncubos. Um deles foi

disfarçar a nossa... Presença.

– E o que eu teria que fazer? – comecei a aceitar a idéia.

– Kass é muito esperto, mas quando está obcecado por

algo sua cabeça não funciona direito. – Miguel agora tomava o


lugar de Dani. – Ele está obcecado em te destruir e, assim,

destruir o Rei Damario.

– O que você tem que fazer e atraí-lo para nossa

emboscada. – Dani voltou a falar. – Avisaremos quando ele

estiver por perto e você sairá sozinha, até o alto da montanha.

– Nós estaremos te vigiando! – Miguel voltava a me

reconfortar. – Caso Kass resolva atacar, nós estaremos na sua

cola. Nada de ruim vai te acontecer, eu juro!

– Não acredito que ele ataque antes, ele irá preferir estar

em um lugar vazio, que não tenha ninguém – Dani voltou a falar.

– Provavelmente ele não vai nem sacar que não tem sentido

uma garota ir sozinha ao alto de uma montanha.

– Ele verá que não tem ninguém por perto e dispensará os

“guarda-costas” – Miguel continuou a explicar. – Mas eles

ficaram de tocaia, sem dúvida, e será nesta hora que

atacaremos.

– Eu e Ângela já estaremos no topo, te esperando. – Dani

quem falava. – Ângela te levará para um lugar seguro, enquanto

eu ficarei dando cobertura para ela e os outros. Vou diverti-lo

um pouquinho.

– Ângela voltará e ajudará Dani. – Miguel – Depois que

terminarmos com os capangas de Kass, iremos ajudar-los. Isso é,

caso ainda seja necessário.

– Você entendeu tudo? – Dani perguntou delicadamente.

– Só tenho uma dúvida. – perguntei levantando os dois

dedos indicadores. Abaixei um. – Como vocês tem certeza de

que o Kass reagirá exatamente desta maneira?


– Nós não temos certeza. – Ângela explicou. – Não tem

como ter certeza absoluta, mas conhecendo o Kass como o

conhecemos, ele agirá mais ou menos desta forma. Não

podemos confirmar que será assim, mas estamos contando com

isso.

– E vocês sabem quando ele volta? – perguntei.

– Como disse, não dou dois dias para ele estar aqui

novamente. – Dani respondeu.

Olhei para todos. Já não sabia o que sentia. Não estava

mais tão confusa, mas ainda não havia digerido toda a história.

Dentro de dois dias teria que por minha vida em risco para

salvar a mesma, depois disso... Eu já não sabia de

absolutamente nada.

– Será que eu posso ficar sozinha? – pedi delicadamente.

Todos saíram. Segurei o braço de Dani, impedindo que

fosse.

– Você fica! – ordenei.

– Acho que eu sei o que você quer falar. – Dani sorriu.

– O que será de nós dois agora?

– Tudo dependerá do fim desta luta. Posso não sair bem

sucedido. O Kass ainda pode matar guardiões!

– Mas e se tudo der certo?

– A escolha estará em suas mãos. Você decidirá se o que

tivemos ainda tem condição de continuar.

– Eu...


– Alice, eu só quero que você saiba de uma coisa. – Dani

segurou minha mão – Nada do que aconteceu foi intencional,

nada! Eu realmente te amo. Alice, eu-te-amo!

Meu coração sentiu a mesma emoção de quando o beijei

pela primeira vez. A única diferença e que agora era mais forte,

intenso.

– Eu também te amo. – estava sem palavras.

– Eu não vou deixar que nada lhe aconteça. Nada. Você se

tornou a coisa mais importante de minha vida. Você se tornou o

motivo de minha existência! – Dani estava tremendo. – Eu sei

que essas palavras são clichês, mas são verdadeiras. Você se

tornou mais do que um simples “trabalho”, eu não te protejo

mais por obrigação. Alice você me transformou, eu já não sei

fazer nada em minha vida sem você, se alguma coisa acontecer a

você... Eu nunca irei me perdoar.

Eu estava muda. As palavras de Dani me tocavam e eu

queria falar, mas não sabia o que dizer. Dani tremia muito,

parecia nervoso e eu angustiada em vê-lo abrindo seu coração e

tendo em troca o meu silencio.

– Dani... – tentei – Estou ainda muito confusa. Acredito que

você entenda, mas uma coisa ainda continua a mesma: meu

sentimento por você. Eu nunca senti nada igual por ninguém,

nem poderia. Eu sou sua, enquanto você me quiser eu serei sua

e nada que aconteça irá mudar isso. Eu sou sua por toda a

eternidade, se isso me for permitido!

Um minuto de silêncio invadiu-nos. Eu podia ouvir nossas

respirações. Suas mãos ainda seguravam firmes as minhas e eu

voltava a ficar sem palavras. Aos poucos minha respiração se

descontrolava e minhas mãos começavam a soar. O silêncio era

a única coisa que tínhamos naquele momento, além de nós dois.

Suas mãos soltaram a minha. Seus olhos olharam diretamente

nos meus. Estava paralisada. Seus braços seguraram-me pela


cintura e me puxaram para perto dele. De repente, eu estava lá,

ao beijos outra vez. Beijos fervidos, queimando toda minha

boca, queimando meu corpo, me transformando em fogo. As

lagrimas que desciam do meu rosto evaporavam com meu

corpo em chamas. Foi a primeira vez que havia sentido o meu

corpo queimar daquela forma. E isso era bom. Muito bom.


19. KASS REAPARECE

Havia se passado exatos dois dias desde que descobri a

minha verdadeira história. Ainda estava confusa e perdida,

porém, estava lidando melhor do que no principio.

Dani e o resto dos Devón ficaram repassando o plano

varias vezes, tentando descobrir se realmente era isso que devia

ser feito. Nada foi mudado realmente, o principal ainda era o

mesmo: Eu seria isca viva.

Deitei enquanto esperava por uma salvação. Uma salvação

que nunca chegaria. Tive muitos sonhos estranhos durante esses

dois dias que se passaram. Sonhava varias vezes que tinha asas e

voava por um lugar estranho, desconhecido. Sonhava também

com um ser sem rosto, com um corpo musculosamente

ameaçador, quase diabólico. Era o Kass, ou melhor, a imagem

que criei para o Kass. Era terrível.

Na escola a desculpa que deram para justificar as minhas

faltas era de que estava doente. Minha mãe foi pessoalmente a

diretoria avisar que não estava bem, como se fizesse alguma

diferença. Acredito que nunca mais voltaria para lá, depois de

tudo, nem tenho certeza se ainda estarei viva.

Tentei ser menos pessimista e pensar positivo. Os Devón

eram guardiões, seres com uma incrível força e poder, eles me

protegeriam de qualquer coisa. Eu sou a filha do rei deles, eles

não podem voltar para noticiar a minha morte. Havia deixado de

ser pessimista para ser egoísta. Ótima troca.

O meu único conforto nessa história toda era o Dani. Meu

amor por ele crescia cada vez mais. Ele era tão paciente comigo,

carinhoso, atencioso, teria enlouquecido ser não fosse por ele.

Minha mãe também estava sendo uma verdadeira mãe.

Assim como meu pai. Os dois estavam sendo maravilhosos

comigo, não teria chegado até onde cheguei sem o apoio desses

três.

Naquele momento eu senti falta dos dois patetas. Fazia

tempo que não pensava neles, meus queridos irmãos. Toni

mandava alguns e-mails de vez em outra. Já Patrick parecia ter


se esquecido de nós, mas ainda assim eu queria que os dois

estivessem aqui. Qualquer coisa que me fizesse esquecer por

alguns instantes o que toda aquela história estava me causado já

era de grande ajuda.

Naquela manhã eu havia recebido visitas especiais.

Algumas inesperadas, mas não menos especiais.

– Alice, desculpe não ter vindo antes. – Bia já se

acomodava no sofá da sala com a sua mochila vermelha e

branca.

– Nós viemos ver como você está! – Mel sentava entrava

delicadamente, deixando suas sandálias na porta, junto ao

tapete. – Nós não queríamos trazer, mas ele insistiu muito!

Meio timidamente, Roger era quem entrava. Sentou-se ao

meu lado e deixou Mel sentar no chão, tendo apenas uma

almofada amarela entre as pernas. Estavam tão aflitos e

preocupados, se eles soubessem da verdade.

– E a Milena? – perguntei.

– A Mili não quis vir. – Bia respondeu. – Ela ainda está meio

“brigada” com você.

– Mas eu estou aqui! – Roger tentava ser simpático.

– Acredite se quiser, mas fiquei feliz que tenha vindo. –

disse com um sorriso meio torto.

Não tentei fingir cara de doente, provavelmente eu estava

muito abatida. Talvez se tentasse fingir não convenceria tão

bem.

– Nós trouxemos as matérias que você perdeu, mas se

quiser podemos copiar para você! – Bia sempre solidaria. Como

se eu tivesse com cabeça para lembrar que estava perdendo

matéria, quanto mais copiar.


– Nós não aparecemos antes por que não tivemos tempo

mesmo. Você sabe, chegando semana de provas a escola inteira

enlouquece! – Mel completou.

– Muito obrigada! – ainda estava com o sorriso torto –

Vocês não sabem o bem que estão me fazendo!

– Amigas são para isso! – Bia e Mel falaram em coro e

depois caíram na gargalhada.

De repente vejo o rosto de Roger ficar mais vermelho que a

mochila da Bia. Olho para trás, era Dani saindo da cozinha. Seu

rosto era serio e parecia não ter gostado muito de ver o Roger

sentado ao meu lado. E pela cara do Roger, acho que o

sentimento foi recíproco.

– Não sabia que você estava com visitas. – Dani estava

serio. Realmente parecia não ter gostado de ver o Roger ali.

– Mas nós esperávamos te ver por aqui! – Bia disse rindo,

enquanto Mel a acompanhava. Pareciam não ter percebido o

clima tenso entre os únicos homens dentro daquela casa.

– Mas nós não trouxemos só tarefas de escola não! – Bia

brincou.

– Nós trouxemos também Christina Aguilera! – Mel tirava

dois discos da Christina Aguilera da mochila de Bia. – Sabemos

que você não gosta de cantoras gritonas, mas foi o primeiro

disco que vi.

– Tudo bem, o que vale é a intenção. – acho que dessa vez

deu um sorriso mais bonitinho.

– O que é isso? É água? – Mel perguntou para Dani

quebrando os olhares de fúria que ele lançava para Roger.


– Sim, sim! – ele respondeu ainda olhando para Roger. – É

a água que a Alice pediu. Tome! – Ele veio até mim e me

entregou a água.

– Você está cuidando dela? – Mel continuou perguntando.

– Sim, eu estou ajudando! – um sorriso maléfico nasceu na

boca de Dani. – Não é isso que fazem os namorados? Cuidam da

sua amada?

Dani se debruçou sobre mim e me deu um rápido beijo,

mas o suficiente para fazerem Mel e Bia gritarem feito loucas.

Não entendi direito o motivo de Dani estar agindo dessa forma,

ele não era desse tipo de coisa. Mas tive que confessar, foi bom

vê-lo sentindo ciúmes de mim.

Roger não sabia onde enfiar a cara. Parecia uma barata

tonta, olhava pro lado e pro outro sem saber o que fazer.

Automaticamente Dani sentou ao meu lado assim que Bia

saiu. Ele havia parado de olhar feio para Roger. Não demorou

muito para Roger inventar uma desculpa e sair daquela situação

constrangedora.

– Dani? – me levantei – Vem aqui rapidinho?

– Sim! – ele sorriu meio constrangido e saímos um pouco

de perto das meninas, mas continuando no campo de visão das

duas.

– O que foi aquilo? – sussurrei rindo.

– Aquilo o que? – se fez de bobo.

– Aquela cena com o Roger! – continuei sussurrando –

Você não é disso!

– Ah! – ele sorriu – Aquilo... Bem... Foi uma brincadeirinha.

Eu também tenho direito de me divertir um pouco.


– Obrigada! – sorri – Fez um grande favor!

– Estamos aqui para isso. E você precisa estar relaxada! –

Dani ficou serio.

– Relaxada? – perguntei.

– Não vai demorar muito para o Kass estar de volta! – Dani

me lembrava de tudo o que eu queria esquecer. – Estou

estranhado ele não ter aparecido até agora.

– Isso será realmente necessário? – tentava fugir da

responsabilidade que me foi entregue.

– Você sabe que não terá outra forma! – ele agora dava um

sorriso leve.

– A esperança e a última que morre! – deu um sorriso meia

boca e voltei para o sofá.

– Podemos colocar a Christina para gritar? – Mel mostrava

os dois discos para mim.

– Podem! – sorri como se estivesse me rendendo. Mas

minha cabeça estava em outro lugar.

As meninas ficaram a tarde toda comigo. Ficamos

fofocando, brincando, ouvindo musica. Foi uma tarde agradável,

por algumas horas pude esquecer-me do que estava me

atormentando.

Quando as meninas foram embora, tudo o que havia me

esquecido voltou e explodiu feito uma bomba na minha cabeça,

tudo de uma vez só. Infelizmente existem coisas que não duram

para sempre.

Dani havia saído algumas horas antes das meninas.

Provavelmente foi vigiar o bairro, como ele fez todos os dois dias


que se passaram, esperando para ver se consegue sentir o Kass.

Depois que as meninas saíram, ele voltou.

– Você está mais tranquila? – ele perguntou me abraçando.

– Um pouco. – menti.

– Tem certeza. – ele me abraçou um pouco mais forte e me

deu um beijo na testa.

– Tenho! – deitei em seu peito.

– Então eu vou acreditar! – senti a ironia em sua voz. Ele

não havia acreditado.

Deitei em seu colo e ele começou a mexer em meu cabelo.

Era incrível saber que o amor era igual, era único, o mesmo

sentimento para toda forma de vida. Até mesmo para os anjos.

– Dani? – perguntei impulsivamente.

– O que foi? – ele sorria preocupado.

– E se não der certo? – estava pessimista. – E se alguém

morrer nessa batalha? E se eu morrer? E se você... Morrer?

– Pare com isso agora mesmo! – ele estava nervoso. –

Ninguém irá morrer! Pare de desejar isso.

– Mas o Kass...

– O Kass não poderá fazer nada se seguimos direitinho com

o plano! – fui interrompida.

– Ele ainda não apareceu! Se ele desistiu? – outra pergunta

impulsiva.


– Seria ótimo, mas acho impossível! – Dani respondeu

fitando a janela, estava começando a chover – Kass ainda

acredita que se matar você poderá atingir com mais facilidade a

família real. O Rei Damario ficaria arrasado em saber de sua

morte, mas nunca deixaria isso abater o seu poder e

enfraquecer toda a defesa criada para proteger o Reino Deluve.

– E depois dessa batalha? Se sairmos vitoriosos, o que será

de mim? – me levantei e olhei diretamente para Dani.

– Você deverá decidir o que é melhor para você! – ele

olhou o chão. – Você pode ficar e fingir que tudo isso não existiu

ou... Poderá vir conosco para Deluve e se torna uma guardiã real

e herdar todo o reino, já que você e a única herdeira natural do

trono.

– Isso que me incomoda! – minha voz falou. – Essa coisa de

herdeira de um reino e muito surreal para mim. Toda essa

história é muito surreal para mim, não sei se eu saberia o que

fazer no seu mundo.

– Mas eu não poderei ficar se você decidir continuar aqui!

Um barulho de carro interrompeu nossa conversa. Estava

parado na frente da minha casa. Minha mãe desceu –

provavelmente também ouviu o carro.

Eu e Dani nos entreolhamos, até que bateram na porta.

Minha mãe foi ver quem era.

– Alô família! – essa voz era extremamente familiar.

– Patrick! – gritei!

– Oi? – ele olhou para mim sentada ao lado de Dani.

– Desculpe! – Dani se levantou. – Eu sou o Daniel Devón.


– O Dani é o amiguinho da Alice, se mudou há alguns

meses para o bairro! – minha mãe já cortava qualquer

comentário ciumento que Patrick pudesse fazer.

– Você não iria voltar só daqui a um mês? – perguntei

fazendo-o esquecer o Dani.

– Tivemos alguns problemas e acabaram cancelando alguns

shows. – ele ainda olhava feio para Dani.

– Como foram as coisas por aqui? – ele perguntou sem tirar

os olhos de Dani. – Além da mudança dos Devón para a antiga

casa dos Guedes, não houve nada de interessante.

– Mãe, pode colocar essas malas no meu quarto enquanto

eu pego as outras no taxi? – finalmente ele havia parado de fitar

o Dani.

– Claro! – minha mãe pegou duas malas e subiu para o

quarto do Patrick.

Patrick saiu e foi pegar outras duas malas e me chamou

para pegar mais duas. Dani levou as malas para mim, apesar da

cara feia que Patrick havia feito. Eu fiz questão de levar pelo

menos uma mala para Patrick parar com a birra.

– Você é muito amigo da Alice? – senti um tom enciumado

na voz de Patrick.

– Sim, somos muito amigos! – Dani respondeu com um

sorriso malicioso no rosto que, por sorte, não foi visto por

Patrick.

– Você nunca me disse nada sobre ele! – Patrick ainda

estava dando uma de irmão ciumento.

– Você nunca mais deu noticias! – respondi um pouco

debochada. – Fora que eu não tenho que te dar satisfações da

minha vida.


Patrick olhou para mim enfurecido. Se ele pudesse teria me

matado apenas com aquele olhar – para minha sorte, isso é

impossível.

Arrumamos tudo no quarto de Patrick e depois descemos.

Patrick desceu junto. Eu e Dani conversamos um pouco e

aproveitamos que Patrick estava indo tomar banho para

conversar sobre assuntos mais sérios do que ciúme besta de

irmão.

– Alguma coisa do Kass? – perguntei quando vi que a

expressão de Dani havia mudado.

– Não sei. Por enquanto não! – Dani me abraçou. – Mas

acho que ele está seguindo para cidade.

– Você está sentindo? – perguntei aflita.

– Não exatamente. – ele olhava confuso. – Eu posso sentir

alguém chegado, ou melhor, um guardião.

– Mas você não tem certeza se é o Kass? – ficava mais

aflita.

– Talvez, parece estar acompanhado. Não tenho certeza,

mas acho que pode ser ele e mais dois. – Dani estava serio. –

Provavelmente estão por perto. Alice, eu vou me encontrar com

os outros, se acabar sendo confirmado que é realmente o Kass

eu venho e te busco!

– E o que eu faço enquanto isso? – pergunta boba.

– Continue agindo como se não soubesse de nada! Tente

não pensar em nada suspeito, Kass pode tentar ler sua mente. –

Dani falava como se isso fosse muito fácil.

Ele me deu um rápido beijo e saiu. Dei alguns tapinhas no

rosto e fui moldando uma cara de inocente enquanto subia para

o quarto. Tranquei a porta e fiquei andando pelo quarto até


ouvir a porta do banheiro abrir. Bateram na porta do meu

quarto.

– Sim? – perguntei.

– Seu amiguinho já foi? – um tom irônico e debochado

saíram rasgados da garganta de Patrick na palavra “amiguinho”.

– Palhaço! – respondi com raiva. – Já foi!

– O que você está fazendo trancada no quarto? – e os

velhos tempos voltaram.

– Não te interessa! – minha raiva estava aumentado.

– Você vai sair? – ignorei por alguns segundos.

– Vou sair, o que você tem haver com isso? – perguntei

abrindo a porta.

– Nada! Achei que como seu irmão preferido voltou de

meses de viajem, sei lá... Achei que você fosse querer ficar com

ele.

Abracei-o e dei um beijo em seu rosto.

– Pronto! Satisfeito? Já teve o meu afeto sincero, agora

que sair da porta do meu quarto? – gritei.

Ele saiu e eu fechei a porta do meu quarto com força. Pude

ouvir minha mãe perguntado se já estávamos brigando. A porta

do meu quarto bateu novamente.

– Eu já pedi para sair da frente da porta do meu quarto! –

gritei bem alto. A sensação – apesar de irritante – era boa, me

fazia lembrar a época em que eu achava que tinha problemas de

verdade.


– Sou eu, sua mãe! – disse por trás da porta.

Abri rapidamente a porta e fiz um sinal com a mão para ela

entrar. Fechei a porta com chave e minha mãe sentou na minha

cama, e eu sentei na cadeira do computador mas logo levantei.

– O que aconteceu? – minha mãe sussurrou já imaginando

do que se tratava.

– O Dani, ele disse que sentiu um guardião. – também

sussurrei – Ele acha que esse guardião é o Kass, e que está

acompanhado de mais dois outros guardiões.

– Mas ele tem certeza? – minha mãe ficou aflita.

– Certeza, certeza ele ainda não tem. – sentei ao lado da

minha mãe – Mas ele acha que pode ser o Kass. Ele foi para casa

por isso, para confirmar, e depois voltará aqui para dizer. E se

realmente for o Kass...

– Você tem que se acalmar Alice! – minha mãe parava de

sussurrar, mas ainda mantinha o tom de voz baixo. – Não fique

pensando nisso, tem pensar em outra coisa. Não sabemos se o

Kass poderá querer ler sua mente.

– O Dani me alertou sobre isso! – voltei a me levantar.

– Agora o importante e você se acalmar, não pensar nisso e

esperar. – minha mãe tentava me reconfortar.

– Esperar? Não pensar nisso? Como? – entrei em

desespero.

– Você não confia neles? Eles vão te proteger! – minha

mãe levantou e segurou minha mão.


– Eu não estou preocupado apenas comigo. Eu não

importo se algo acontecer comigo! – comecei a aumentar meu

tom de voz – Eu não me perdoaria se por minha causa algo

acontecesse com eles. O Kass pode matar-los!

– Alice, eles são os melhores no que fazem! Você tem que

confiar neles. – a voz da minha mãe era realmente

reconfortante.

Por alguns instantes o silêncio pairou sobre o meu quarto,

até que a porta bateu.

– Seu amiguinho está na sala! – ouvi Patrick falando.

– Mande-o subir! – minha mãe gritou sem abri a porta.

– Mãe, ele é amigo da senhora também? – ele parecia

enojado.

– O garoto, não enche! – gritei. – Vai logo dizer para o Dani

subir.

Pude ouvir resmungos de Patrick durante toda a sua

descida pelas escadas. Ouvi passos e depois uma leve batida na

porta. Corri e abri. Como já esperava, era o Dani.

– Entre, entre! – disse fazendo o mesmo gesto com a mão

que fiz para mim mãe.

– E então? – minha mãe estava aparentemente mais calma

do que eu.

– Você está pronta? – as palavras de Dani já diziam tudo.

Era o Kass.

Corremos escada a fora e saímos de casa. Dani estava

sempre muito alerta.


– Ele ainda não está aqui na cidade, mas já está chegando.

Conseguimos senti-lo com clareza. – Dani começou a explicar. –

Ele deve chegar aqui em 15 minutos.

– Como eu vou saber se ele já chegou? – perguntei

tentando não ficar aflita.

– Você vai sentir! – ele respondeu segurando meus

ombros.

– Como assim? – estava confusa, o que já deixava de ser

novidade.

– Desde que chegamos o seu poder de guardiã começou a

despertar, bem lentamente, mas começou a despertar. – Dani

começava a explicar mais outra história. – Você não percebeu a

diferença, mas nós sim.

– E por que isso? – perguntei.

– Estar na presença de guardiões fez seu poder renascer.

Kass é muito poderoso, e todo esse poder irá influenciar e muito

no despertar do seu poder. – Dani parecia animado. – Você

saberá quando ele chegar. Eu e Ângela vamos para a montanha.

Miguel e Amanda estarão atrás de você, escondidos, mas

estarão lá.

– Eu não sei se estou pronta. – por pouco não gaguejei.

– Vai dar tudo certo! Confie em nós. – Dani piscou um olho

e saiu em uma velocidade incrível para o alto da montanha.

Comecei a andar pela calçada, por enquanto sem um

destino. Tentava procurar pelos Devón, eles realmente estavam

bem escondidos. Continuei andando, até que algo forte bateu

em meu peito. Foi um pulsar estranho. De repente algo

apareceu em minha mente, eram três seres. Algo queimou


dentro de mim, coloquei a mão direita sobre o peito e abaixei

minha cabeça, era o Kass. Segui para a montanha.

Um medo inexplicável correu pelo meu corpo. Tentava não

me apavorar, mas estava sendo difícil. A queimação em meu

peito aumentava e a imagem dos três seres parecia estar se

aproximando de mim. O caminho para a montanha nunca

pareceu tão longo e quando cheguei parecia ter passado uma

eternidade – sendo que menos de 10 minutos haviam se

passado.

– Até agora.. – evitei o impulso de pensar no plano.

Continuei seguindo a montanha. O queima no meu peito

continuava a aumentar. Agora eu quase podia sentir algo atrás

de mim. A imagem dos três seres começava a desaparecer e

apenas a sensação da presença deles permaneceu, porém mais

forte.

A montanha também parecia maior e mais cansativa.

Tentava não sentir medo, mas estava sendo difícil. Minha mente

estava pensando em meu irmão, e estava misturada com o

medo. Tentei fazer uma imagem lógica do motivo de estar

subindo a montanha sozinha, mas não conseguia tirar o medo e

o meu irmão da cabeça. Por um instante achei graça do que

estava acontecendo, estava usando o meu irmão como meio de

distração da mente.

O silêncio que envolvia a subida a montanha foi

interrompido por um barulho estranho de passos. Achei que

estava morrendo de tão forte que estava a queimação em meio

peito. Ele estava mais perto do que eu imaginava. Parei antes de

chegar no topo da montanha, olhei para trás, ele estava lá, não

muito distante. O silêncio voltou a dominar a montanha.

Ficamos nos olhando a distância, até que repentinamente, ele

estava na minha frente, sorrindo.

– Esse lugar não é muito perigoso para uma garota tão

bonita como você? – falou um ser que estava mais a frente do

que os outros dois. Provavelmente o Kass.


Deixei-o sem resposta. Não sabia o que falar. Ele era

divino. Seu rosto era quase como uma escultura, delicado e

elegante. Era um rosto quase harmonioso, perfeito. Sua voz era

doce e segura, cheia de encantos. Era uma voz sedutora. Muito

sedutora. Nunca havia ouvido uma voz tão bela. Seu corpo era

quase tão perfeito quanto o do Dani e seu cabelo curto o

deixava ainda mais atraente. Cabelos negros, diferente dos

olhos, azuis cristalinos. Sua beleza era tão grande que chegava a

altura da beleza de Dani, quase superava. Tudo nele parecia

angelical, exceto o sorriso. Seu sorriso era diabólico, maléfico.

Era o sorriso de um demônio.

– Quem é você? – fiz-me de besta.

– Quem sou eu? Você não sabe? – sua voz perdia um

pouco o tom sedutor e se tornava debochada. – Acho que não

importa muito quem sou eu, apenas quem é você! E eu sei

quem-é-você!


20. A BATALHA

A queimação em meu peito havia cessado. Eu continuava

parada, sem saber o que deveria fazer. Eu ainda estava longe do

topo da montanha e não havia sido preparada para esse tipo de

encontro com o Kass.

– Vocês me enganaram direitinho! – ele rodeava-me –

Quase que eu ponho tudo a perder indo para o Reino Deluve e

te deixando aqui. Viva.

– Do que você está falando? – novamente fiz-me de besta.

– Você sabe exatamente o que estou dizendo! – ele

passava as mãos sobre meus cabelos. – Você é uma garota

muito inteligente.

– Eu ainda não sei do que você está falando. – desejei que

alguém aparecesse logo.

– Você está me fazendo de palhaço? – ele se irritou. – Acha

que eu já não tinha notado que isso era uma armadilha?

Minha garganta secou, assim como minha boca.

Provavelmente eu estava branca. Ele descobriu tudo. Agora sim

eu não tinha a menor idéia do que deveria fazer. Nenhum dos

Devón apareciam e eu estava apavorada.

– Eu sei do seu amiguinho! – ele sorriu. – Onde ele está?

Pode aparecer!

Por alguns instantes fiquei aliviada, ele não sabia dos

outros. Ainda não estava tudo perdido, poderíamos surpreendêlo

com o susto. Mas isso seria o suficiente?


– Se ele não quer aparecer, vou forçar-lo a mostra o rosto!

– ele olhou para mim e em poucos segundos sua mão estava em

meu pescoço. Demorei um pouco para perceber que estávamos

a mais ou menos dois metros distante de onde estávamos.

– Seria mais interessante te matar na frente dele, mas se

ele não quer aparecer! – um instinto de sobrevivência caiu sobre

mim. Mordi sua mão e corri inutilmente.

– Não fuja de mim! – Ouvi-o dizer com risos debochados.

Ele era muito rápido. Rápido demais. Minha garganta

estava doendo e podia sentir a sua mão vindo novamente para

meu pescoço.

– Então é assim que você quer? – ele olhava furioso para

mim. – Então será como desejar!

Ele se preparou para dar-me um tapa. Pude ver sua mão

vindo em direção ao meu rosto. Fechei os olhos e esperei pelo

golpe, mas ele não veio. Senti uma sombra atrás de mim. Abri os

olhos, era Dani. Ele segurava firme o braço de Kass, sua

expressão era seria e ele estava em sua forma de guardião.

– Então era como eu já desconfiava! – Kass parecia não se

importar em estar com o braço direito imobilizado por Dani. –

Você já contou tudo a ela. A princesa Melisa já sabe de tudo.

– Parece que sim! – Dani continuava muito serio. Tão serio

quanto no dia em que descobri a sua verdadeira forma.

– E o que você pretende fazer comigo? – Kass empurrou

Dani que praticamente voou meio metro de onde estava.

Dani, depois de parar no ar, voltou para frente de Kass no

mesmo segundo.

– Matar você! – Dani respondeu a pergunta.


– E você pode fazer isso? – Kass andava em direção a Dani,

fazendo-o andar para trás, o encarando e balançando o dedo

indicador negativamente. – Isso apenas eu posso fazer!

– E o Rei Damario também! – Dani ainda estava serio.

– Ridículo! – Kass ria e gritava estranhamente. – Isso é

absolutamente ridículo! Damario é um inútil, um velho podre,

cretino. Ele nem merecia ser rei!

– Se não ele, quem poderia ser rei? Você? – Dani agora

mostrava um pouco de humor debochado.

– Sim! Eu seria melhor rei que aquele reino de parasitas

poderia ter! – Kass começava a falar feito um louco. – Aquele

reino não foi feito para pessoas como Damario, sem pulso firme,

sem voz ativa. Não se é um bom líder sem que os outros tenham

medo de você!

– Não me faça rir Kass! – Dani agora falava um pouco mais

alto que de costume. – Você é o inútil, o cretino, o ridículo da

história!

– Não fale besteiras seu bosta! – Kass estava furioso. –

Quem é você, ser insignificante! Você ainda vai estar aqui,

beijando os meus pés. Criatura imunda.

– Eu ignoro cada palavra saída dessa sua boca suja Kass. –

Dani parecia ter se irritado também. – Você é um louco, acha

que conseguiria vencer a tropa do reino?

– Eu vou acabar com você! – Kass pulou para cima de Dani

e socou seu rosto. Meu coração quase pulou pela boca.


– Devagar! – Dani estava deitado no chão. – Não se ataca

alguém dessa forma. – Dani chutou o peito de Kass o fazendo

voar ate o alto das arvores, depois se levantou.

Kass caiu no chão e ficou alguns segundos parado. Dani foi

até ele e tento golpear-lo na cabeça com o pé, mas foi impedido

por Kass que o jogou novamente no chão com as mãos.

– Como é que vai ser? – Kass começou a rir – Vamos lutar

de verdade ou ficar nesse joguinho de maricas?

– Mestre Kass! – Um dos capangas de Kass apareceu do

nada. Só nesse momento que reparei o sumiço dos dois. – Têm

outros deles, estão vindo até aqui!

– Cretino e imundo! – Kass estava muito mais que furioso –

Você trousse outros?

– Você também! – Dani respondeu com ironia.

– Mostrem-se cretinos! – Kass gritou. – Apareçam!

– Nós estamos bem aqui! – Amanda aparecia por detrás

das arvores, a esquerda de Kass. – Nós estamos todos aqui!

– Quanta petulância! Mandarem justo vocês para

acabarem comigo! – ele parecia rir da situação. – Tudo bem, não

tem importância. Eu vou matar cada um de vocês!

– O tempo passa, mas as suas piadinhas não mudam! –

Ângela ria.

– Zombem de mim, eu já não ligo. Vamos ver quem sairá

rindo no fim. – Kass fitava furioso para todos. – E então? Vamos

lutar?

Kass saltou até o alto das árvores e depois caiu em cima de

Ângela dando-lhe uma cotovelada no rosto. Ângela por sua vez,

o segurava pela perna e o joga em direção a uma árvore, mas


Miguel o pega antes de colidir e o joga no chão. Os movimentos

de todos eram tão rápidos que quase não pude acompanhar.

Eu estava apavorada com o que estava acontecendo, ver

tudo aquilo e não poder fazer nada era terrível. Tentei desviar o

olhar, mas era impossível.

Os capangas de Kass estavam apanhando de Amanda e

Dani, enquanto Kass tentava se sair bem contra Ângela e Miguel.

– Como vocês pretendem me impedir de destruí-la? – Kass

zombava de Ângela enquanto ela o segurava pelo pescoço.

– Nós temos nossos truques! – Ângela respondeu tão

calmamente que nem parecia estar no meio de uma batalha.

Dani e Amanda brincavam com os capangas de Kass. Dani

rodava e tacava um deles no chão – podia quase sentir a dor – e

Ângela fazia o mesmo. Provavelmente eu teria rido dessa cena

se não estivesse tão preocupada com o que poderia acontecer

ao Dani e aos outros Devóns.

Kass continuava levando a pior quando voltei a minha

atenção para luta dele. Cheguei a pensar se os Devóns não

teriam exagerado quando a descrição de sua força e sua

esperteza. Talvez essa fosse a intenção.

Não demorou muito para Kass reagir e jogar Ângela

montanha a baixo, o que me deixou preocupada. Os olhos de

Kass estavam furiosos e a forma como ele agia também. Parecia

não estar gostando de apanhar mais do que os seus adversários.

Notei que meus olhos estavam jorrando lágrimas e que

minha roupa começava a ficar molhada. Olhei melhor e descobri

que não eram lágrimas – apesar de estar realmente chorando –

o que jorrava em meu rosto e molhava minha roupa eram

pingos de chuva, estava chuviscando há algum tempo e não

havia percebido – ou melhor, havia esquecido.

Kass correu feito louco em direção a Miguel, que desviou

do ataque. Dani e Amanda continuavam lutando contra os

capangas de Kass e até o momento os Devóns estavam levando

a melhor. Dani parecia outra pessoa, estava agressivo e violento.


Amanda ainda mantinha a graciosidade de sempre, mas Dani,

ele estava muito mudado. Apesar de toda agressividade Dani

ainda parecia muito preocupado e me deixava preocupada com

o destino desta luta, mesmo vendo que Kass estava perdendo

feio.

De repente o foco de Kass foi mudado e ele foi correndo

para cima de Dani, deixando Miguel e Ângela para trás.

– Dani cuidado! – tentei gritar, mas minha voz não saia.

Kass continuou correndo e Dani o viu vindo, mas não

desviou como fez Miguel, ele agarrou Kass com os braços e o

virou jogando-o de costas para o chão. Como desde o principio

da luta, tudo foi tão rápido que quase não pude entender o que

havia acontecido. Os capangas de Kass aproveitaram o desvio de

atenção e atacaram Amanda de surpresa que foi jogada ao chão

e imobilizada pelos dois brutamontes. Ângela correu para ajudar

Amanda enquanto Miguel voltava a lutar contra Kass.

O jogo estava mudando completamente. Kass agora estava

reagindo e com um único golpe jogou Dani e Miguel para longe.

Os dois correram e ele pulou para cima de uma árvore, os dois

foram juntos e sumiram no meio da floresta. Amanda, que já

estava livre dos capangas de Kass, também adentrou montanha

acima junto com Ângela. Eu estava sozinha agora.

Fiquei completamente apavorada. Não sabia o que fazer e

aquela repentina mudança na batalha me amedrontava demais

para conseguir pensar em qualquer coisa. A idéia de Dani e os

Devóns estarem sendo mortos enquanto eu ficava parada ali,

feito uma daquelas árvores estúpidas, me deixava com um

sentimento de total inutilidade. Sentia que minha existência não

servia para nada e que minha única utilidade era atrapalhar a

vida de Dani.

Tentei correr e ir atrás deles, mas meus pés não queriam

me obedecer. E mesmo se obedecessem, eles eram rápidos

demais, poderiam estar em qualquer lugar, eu não os acharia.


Cai de joelhos no chão e depois me joguei entre as folhas

secas – que estavam molhadas devido à chuva que havia

aumentado. Não sei por quanto tempo fiquei ali, jogada no

chão, talvez nunca saberei. Pude sentir a lama secar em meu

rosto, sinal de que eu fiquei bastante tempo deitada. Eu estava

morrendo. Foi quando aconteceu.

Uma dor imensa queimava em meu corpo, algo terrível

demais para eu não me lembrar de já ter sentido. Minha cabeça

parecia ter um ser imenso, loco para perfurá-la e sair. Meu

coração parecia cansado, assim como minha respiração. Meus

olhos queimavam pelo simples fato de estarem abertos. Meus

gritos eram monstruosos e involuntários, a dor era muito

grande, como se estivesse sendo cortada em pedaços.

Provavelmente se passasse alguém por perto e me ouvisse gritar

daquela forma acharia que estava sendo devorada por algum

animal, mas a sensação não deveria ser muito diferente.

Estava de olhos fechados, mas sentia que quanto mais a

dor aumentava, maior era o sensação de que meu corpo estava

sendo mudado. Sentia meus músculos e cabelos crescerem,

minha força parecia estar crescendo, era como se estivesse

sofrendo – literalmente – uma metamorfose. Senti minha pupila

dilatar e a dor se tornar insuportável a ponto de pensar que isso

era um sinal. Sim, só podia ser um sinal: Dani estava morrendo e

eu, de alguma forma, estava sentindo as suas dores.

Levada por esse pensamento deixe-me ser tomada pela

dor – que já estava incontrolável – e esqueci completamente de

qualquer coisa. Para mim já não importava mais nada, se Dani

havia realmente morrido, eu já não tinha mais nada o que fazer

nesse mundo.

A sensação de estar sendo esquartejada e toda a imensa

dor que sentia aos poucos foram deixando espaço para outra

sensação inédita. Depois de tanta dor, tudo que eu conseguia

sentir agora era paz, uma sensação de extrema glória. Seria essa

a sensação de morrer?

Abri os olhos, ainda estava na montanha. Estava tentando

entender o que aconteceu, mas ainda não achava uma

explicação, até reparar melhor no meu cabelo. Eram longas


madeixas brancas, chegavam a bater na minha cintura, mas a

surpresa estava em outro lugar. Elas estavam bem atrás de mim,

grandes e esplendorosas asas brancas. Eu havia me

transformado em Melisa, guardiã e herdeira do trono de Deluve.

Fiquei por alguns minutos tentando notar outras

diferenças, como meu corpo que estava mais forte.

Provavelmente meus olhos estavam prateados, como os de Dani

quando o vi em sua forma de guardião. Foi então que lembrei o

que estava acontecendo.

Corri montanha adentro, na direção em que eles haviam

seguido. Durante esse simples ato senti inúmeras coisas

mudadas. Minha velocidade estava maior, minha visão havia

melhorado e estava mais ampla, minha audição também estava

muito mais sensível e eu sentia um cheiro família, um cheiro que

já havia sentido outras vezes, mas só agora pude reparar

melhor. Sem dúvida era o cheiro de Dani.

Estava correndo feito uma leoa atrás da caça, minha

autoconfiança também estava maior e me sentia invencível,

uma sensação que nunca havia sentido antes – estava sendo o

dia de novíssimas experiências.

Dei uma rápida parada para ver onde estava e tive uma

surpresa tão bela quanto terrível. Eu estava exatamente no topo

da montanha, não havia mais nada para subir e continuava

sozinha. Continuava completamente sozinha. Não havia nenhum

rastro de Dani ou dos outros Devóns, nem de Kass e seus

capangas. Estava novamente apavorada.

“Olhe para o céu!” – uma voz muito família ecoou em

minha cabeça.

– Dani? – apenas pensei.

“Sim! Olhe para o céu princesa!” – definitivamente era a

voz de Dani.

Obedeci e olhei para o céu. Eles estavam lá, bem no alto.

Provavelmente nenhum ser humano poderia enxergar-los,


minha visão realmente estava alcançando um campo muito

maior que imaginara.

Fiquei parada por alguns instantes até que vi a luta parar.

Kass estava olhando para mim. Ele desceu feito um cometa,

faltando apenas chamas de fogo ao seu redor, logo estava bem a

minha frente, bufando em meu rosto.

– Princesa Melisa! – ele fazia reverencia – É uma honra

poder finalmente conhecer-la, mas com certeza não é maior que

a honra de poder matar-la!

– Eu duvido muito! – aticei-o.

– Você ficou muito mais bonita assim! – ele passava as

mãos em meus cabelos – Se junte a mim, seja a rainha do meu

reino. Seja minha Melisa, não me faça ter que desperdiçar uma

beleza tão rara como a sua.

– Onde você aprendeu a montar suas falas? Em algum gibi

de histórias espaciais? – Dani aparecia bem atrás dele.

– Daniel, Daniel, Daniel... Você não aprende? – ele riu.

Andei em direção a Dani e o segurei pela cintura,

encarando seriamente a Kass e aos dois capangas que seguiam

para trás do “todo poderoso” deles.

– Meu corpo e minha alma serão sempre de Daniel! – disse

com tanta confiança que me senti a mulher-maravilha, só me

faltava à roupa vermelha. – É a ele que eu amo.

– Se é assim... – Kass seguiu em minha direção, mas foi

impedido por Dani.

– Ângela, explique a ela enquanto brincamos um pouco

com eles! – Dani gritou enquanto jogava Kass para o chão.

Amanda e Miguel correram para cima dos capangas de Kass.


– Alice, escute bem! – Ângela falava rápido. – Você não

pode lutar ainda com o Kass. Nós não acreditávamos que você

poderia realmente se transformar em guardiã, mas vamos ao

que interessa. – fiquei nervosa e aliviada. – Não tivemos tempo

para preparar-la para uma luta desse tipo, mas você terá que

agir.

– Agir? – perguntei.

– Só você pode matar o Kass! – ela continuava a falar

rápido.

– Mas você disse que eu não posso lutar! – apavorei-me.

– Você não pode lutar, mas pode matar-lo. Para isso você

não precisa lutar. Basta arrancar o coração do Kass.

– Arrancar o coração? – disse engolindo a seco cada

palavra.

– Sabe o motivo de nenhum outro guardião não poder

matar o outro? – ela olhava para trás, vigiando a briga.

– Qual? – perguntei automaticamente.

– Nenhum de nós conseguimos perfurar outro guardião.

Podemos perfurar qualquer coisa, menos outro guardião, assim

como um humano desarmado não pode perfurar o outro. Você

está me entendendo?

– Acho que sim! – respondi também vigiando a luta.

– Nem o Damario consegue isso. Ele destrói os guardiões

através das magias que aprendeu, mas você e o Kass são

diferente, vocês podem perfurar todas as coisas.


– Você está querendo dizer que eu terei que perfurar o

peito de Kass? – perguntei esquecendo-me por um segundo a

briga que estava acontecendo.

– Não apenas isso. – Ângela continuava falando rápido. -

Terá que arrancar o coração também. É a única forma de matarlo!

– Mas como farei isso? – o pavor tomou todo o meu corpo

e expulsou a recém chegada autoconfiança.

– Você terá que ser rápida.

Ângela saiu e entrou na luta. Fiquei paralisada, assistindo a

Kass e seus capangas tentarem se aproximar de mim e sendo

impedidos por Dani e os demais.

Eles estavam piores do que da última vez que os

acompanhei. Todos os dois grupos estavam dando o melhor de

si e eu não enxergava nenhuma deixa para poder por um fim a

todo esse pesadelo.

Novamente uma sensação de inutilidade me veio à mente.

Estava transformada, mas ainda assim não podia ajudar o amor

da minha vida. Mas eu podia ajudar, ou melhor, eu era a peça

chave de tudo aquilo, era responsabilidade minha terminar de

vez com tudo isso. Mas continuei observando.

Dani parecia estar sedento pela cabeça de Kass e o sacava

feito louco. Os capangas de Kass apanhavam ainda mais de

Ângela, Amanda e Miguel. Kass reagia quase sempre da mesma

maneira, jogando Dani para longe e correndo em minha direção,

parecia totalmente perturbado e desequilibrado. Miguel às

vezes o segurava e o afastava de mim e Dani acabava sempre

voltando a socar-lo. Amanda e Ângela usavam golpes que me

faziam lembrar passos de bale, de tão graciosos, mas o resultado

era catastrófico. Olhar as duas tão aparentemente frágeis e tão

misteriosamente fortes me fez questionar o tamanho real de

minha força.


Os capangas de Kass começavam a perder a força, os

Devóns pareciam ganhar. O único que continuou estável era

Kass, que parecia não ter levado um golpe sequer e estava

sempre revidando.

Toda a minha alma estava implorando para ir e fazer

alguma coisa, qualquer coisa, mas meu corpo estava paralisado,

uma pedra. Eu não entendia o que acontecia comigo, seria o

medo que me paralisou daquela forma? Eu podia fazer tudo

aquilo acabar, então o que eu estava esperando?

Os capangas de Kass continuavam a sofrer nas mãos de

Amanda e Ângela. Deveria ser muito vergonhoso para os dois

apanhar de mulheres. Ainda mais julgando pelo tipo dos dois,

bem machões.

Se isso fosse um filme eu provavelmente estaria torcendo

para o mocinho apanhar bastante, eu sempre fui do contra

quando o assunto é briga de vilão e mocinho. Mas isso não era

um filme, e o mocinho – que também era a pessoa que mais

amava no mundo – poderia morrer de verdade nessa luta.

Ouvi Miguel olhar diretamente para Dani e logo em

seguida vi Dani soltando Kass, que fez o que veio tentando

desde o inicio, chegar até mim. Kass veio com tudo e quase

conseguiu. No momento não havia entendido qual era o plano

dos dois e quase pude sentir Kass me estraçalhando, fechei os

olhos instintivamente e esperei, mas nada aconteceu. Abri um

meio olho e vi que Kass estava parado, bufando em minha

frente. Fiquei sem entender nada. Olhei melhor e vi Dani e

Miguel o segurando pelo braço, um de cada lado. Dani olhou

para mim e acenou com a cabeça para Kass. A principio não

consegui entender, mas depois ouvi uma voz em minha cabeça

que deixou tudo bem claro.

“O coração” – a voz era de Dani. – “Arranque o coração”

Imaginar a cena me deixou enojada. Ter que eu mesma,

com as minhas mão, arrancar o coração de outro ser era muito

nojento e repulsivo para mim. Mas essa não era hora para

vômitos, tinha que agir.


– Alice, o que está esperando? – Miguel gritou.

– Alice, acorde! – Dani.

– Alice, eu vou te matar! – Kass deu a palavra final se

soltando dos dois.

Fechei os olhos novamente. Eu havia falhado com todos.

Havia falhado com Dani. eu iria morrer e tudo seria apenas por

minha causa, eu mesma seria a culpada de minha morte, até

que senti algo escorrer pelo meu braço. Só então que notei que

estava esticado. Abri os olhos e vi Kass, olhando para mim. As

suas feições eram um híbrido de estremo ódio e prazer

absoluto. Ele parecia estar gostando de ter sido morto, mas

odiando não ter me matado. Ao contrario do que imaginei, não

era sangue que escorria pelo meu braço, – pelo menos não

vermelho – era um liquido espesso e de cor prateada. Minha

mão estava dentro de seu peito, como se tivesse sido engolida, e

pude sentir algo pulsar bem ao lado dela.

“Arranque o coração” – novamente a voz de Dani ecoava

em minha cabeça.

Agora não havia outra saída, o destino de todos estava

nessa “simples” atitude. Fechei os olhos novamente e deixei os

meus instintos agirei por mim. Segui a pulsação e segurei firme

no coração de Kass, um grito horrendo tomou toda a montanha.

Continuei apertando enquanto o grito crescia e finalmente

tomei coragem e puxei com toda a minha força. Ouvi algo cair.

– Pegue! – ainda estava de olhos fechados. – Leve para

longe de mim. Para bem longe!

Alguém pegou o coração de Kass. Senti uma presença

familiar, parecia uma mulher. Ainda estava aprimorando os

meus novos sentidos, presumi que fosse Amanda pelo cheiro.

Senti alguém me abraçar, era Dani – esse eu já reconhecia antes

de me tornar Melisa.


– Está tudo bem! – a voz dele sempre me acalmava. – Pode

abrir os olhos!

Abri os olhos bem devagar, não tinha mais motivos para

deixar-los fechados. Olhei ao meu redor, havia acertado, era

realmente Amanda quem havia levado o coração de Kass. Os

capangas de Kass estavam imobilizados por Ângela e Miguel e

tive medo de ter que arrancar os corações dos dois.

– O que vai acontecer com os dois? – perguntei.

– Eles não são mais perigosos! – Dani riu. – Nunca foram

tão perigosos, mas agora, são quase inofensivos. Quem os

deixava mais poderoso era Kass, agora que ele morreu...

– Mas.. – iniciei alguma coisa, não saiu nada.

– Eles serão levados para Deluve. – Dani olhava para o chão

um pouco triste.

Olhei para o chão instintivamente e ele estava lá, estirado,

totalmente sem vida. Suas grandes asas estavam visivelmente

duras, seu corpo estava tão enérgico quanto uma rocha e, sem

saber, eu estava chorando.

– Agora está tudo acabado? – perguntei em altos suspiros.

– Sim! Está tudo acabado! – Dani respondeu.

– Acho que quero ir para casa. – virei o rosto, não

aguentava mais olhar para aquilo.

– Vamos, eu te levo! – Dani sempre prestativo.

A chuva havia parado já algum tempo. Parecia estar ali

apenas para fazer o clima típico de batalha final, como nos

filmes. Parecia clichê demais um belo por do sol terminando

aquela longa tarde de horror.


Olhei para Dani ao meu lado, com seu longo e musculoso

braço sobre meus ombros. Estávamos andando em velocidade

normal – a humana – e não falamos nada até chegarmos ao

meio da montanha, onde tudo começou.

– O que foi? – perguntei assustada.

– Acho que não iriam acreditar muito em você caso

dissesse que está voltando de uma festa à fantasia! – Dani riu.

Por um instante fiquei sem entender nada, até que senti

um leve bater de asas atrás de mim.

– Vamos lá, respire fundo. – Dani segurou minhas mãos.

– Como? – meu raciocínio sempre fica lento depois de

grandes emoções.

– Para voltar a ser humana, eu estou te ensinando como se

faz! – ele achava muita graça.

– Ah claro! Desculpe. – senti meu rosto corar.

– Respire fundo e feche os olhos, pode parecer ridículo,

mas depois que pegar a pratica você só precisará pensar e já

estará se transformando, seja em guardiã ou em humana.

– Tudo bem! – me senti em uma aula de educação física. E

eu estava tendo um caso com o professor.

– Sem abrir os olhos, deixe as mãos do jeito que eu

colocar! – ele juntou minhas mão e entrelaçou meus dedos. –

Agora puxe como se estivesse se alongando. Mentalize sua

forma humana. Continue alongando.

A sensação agora não era tão terrível como da vez em que

me transformei. Não houve dor, nem sensação de estar sendo


esquartejada, mas também não houve nenhuma glória e

esplendor. Melhor dizendo, não houve nada.

– Já podemos voltar para casa! – ouvi Dani dizendo.

Abri os olhos e Dani já não estava mais em sua forma de

guardião – e nem eu. continuamos descendo a montanha sem

falar nada. Ele quis me levar no colo, mas em um ato de piedade

e burrice eu recusei.

– Acho que temos muito a conversar! – sorriu.

– Sim, nós temos um assunto muito serio a resolver.


21. ADEUS?

DANIEL DEVÓN

Ela finalmente estava melhor. Acho que nunca havia visto a

Alice sentindo-se tão leve desde que descobriu sua verdadeira

origem. Senti-me muito culpado por trazer tanta confusão à vida

dela, mas era inevitável. Apesar de ter me apaixonado por ela,

eu ainda tinha que cumprir minha missão, só não imaginei que

seria tão sofrido, mas agora nada mais importava, o que a

ameaçava já estava morto e não havia perigo contra ela.

– Você está bem? – ela perguntava tão delicadamente que

parecia uma melodia, uma doce melodia, tocando meus

ouvidos.

– Eu estou! – respondi sem deixar transparecer minha real

preocupação. Ela acreditou.

Quando chegamos até a sua casa senti algo pairando sobre

mim. Era Patrick, ou melhor, eram os olhos de Patrick me

fitando furiosamente. Eu não havia conquistado nem uma lasca

de confiança dele.

– Você ainda está emburrado? – Alice perguntava com um

sorriso inocente, o sorriso que me manteve vivo e firme em

minha missão.

– Eu? Emburrado? Imagina! – Patrick desceu a escada

lentamente, parecia não gostar da presença de outro homem

dentro de sua casa.

– Mas é o que parece! – Alice manteve o belíssimo sorriso

no rosto.


– Vejo que seu amiguinho virou visitante frequente! – Ele

realmente não me queria ao lado da sua irmã. Nunca imaginei

que seria uma ameaça a Alice.

– Dani, sobe comigo? – o convite agora era mais tentador

do que antes.

– Pro seu quarto? – Patrick queria estar em meu pescoço,

apertado com toda a sua força. Seu desejo em fazer isso era tão

grande que quase pude sentir-lo se concretizado.

– Eu acho melhor eu ficar aqui e te esperar na sala! –

queria evitar confusões.

– Eu também acho melhor! – Patrick olhava para mim

como se vigiasse o tesouro mais precioso do mundo. Não era

mentira, ele realmente tentava proteger o tesouro mais

precioso do mundo.

– Eu já discordo plenamente! – odiava quando Alice fazia

isso. Ela realmente gosta de provocar. – Venha Dani, vamos

subir!

Tentei evitar o encontro de olhares entre mim e o Patrick,

mas os pensamentos e desejos dele estavam tão fortes que,

antes de aproximar-me, já estava com todas as terríveis imagens

das 1001 formas como ele pretendia me matar. Nenhuma delas

eram boas.

– Acho que seria melhor a minha mãe participar da

conversa. – Alice olhou rapidamente para trás, provavelmente

vendo se o irmão estava ouvindo. – Nós decidiremos o meu

destino!

– Não só o seu, mas o meu também! – lembrei-a de que

agora tudo o que diz respeito a ela, também diz respeito a mim.


– Claro! – ela sorriu constrangida. Era encantador.

Fomos até a porta do quarto da Sra. Michele. Eu, claro,

fiquei na porta esperando. Obviamente não demorou muito

para Alice sair do quarto com a mãe.

– Filho, eu vou à casa dos Devóns! – Sra. Michele,

delicadamente, avisava a Patrick que resmungou alguma coisa

que nem mesmo eu pude entender.

No caminho para minha casa Alice contava, com todos os

detalhes, tudo o que havia acontecido na montanha. Eu estava

repleto de alivio e alegria por ver que ela estava recuperando-se

rápido de tudo o que havia lhe acontecido nos últimos dias.

Sentia-me tão culpado, mas agora vendo-a melhor eu pude ficar

de consciência tranquila, minha pequena princesa não sofreria

mais por nada que eu pudesse fazer.

– Então... Sei que estão todos ansiosos para o que tenho a

dizer. – Alice começou assim que nos reunimos na sala.

– Você tem muitas decisões a tomar agora! – Amanda

sorriu naturalmente. Ela nunca foi de deixar-se abalar.

Alice começou a dizer o quanto o ano foi difícil e agradecer

por tudo o que fizemos. Senti-me horrível por não prestar

atenção em uma única silaba do que ela dizia, minha mente

estava no Miguel.

Miguel parecia temer a decisão de Alice. Seus receios

quanto ao fato dela não querer voltar conosco eram grandes,

pude senti-los em minha mente.

“Você está realmente bem?” perguntei a Miguel.

“Estou!” ele respondeu. Provavelmente se estivéssemos

em uma conversa normal ele teria respondido híspido.

“Você não tentou entrar na mente dela?! Tentou? Lembra

do que combinamos?” deixei-me levar pela emoção e expressei


alguns traços de preocupação no rosto, que foram rapidamente

identificados por Alice.

– Algum problema Dani? – ela perguntou assim que viu

meu rosto aflito.

– Nenhum! – refiz meu rosto. Ela voltou a discursar.

“Você leu a mente da Alice?” voltei com o assunto.

“E precisa? Eu estou sentindo que ela não irá voltar

conosco!” ele tentava não olhar para mim.

“Vocês querem, por favor, prestarem atenção no que a

Alice está dizendo!” Ângela nos enviou o alerta. Nossa

“conversa” devia estar sendo “alta” demais.

– Hoje eu renasci. Eu me transformei em uma guardiã. –

comecei a prestar atenção no que Alice dizia. – E tudo isso que

aconteceu me fez pensar. Talvez eu ainda não tenha tido a

oportunidade de pensar, acho que me entendem?

– Claro, claro! – respondi tentando convencer de que havia

prestado atenção em tudo o que ela disse.

– Eu gostaria de ter mais tempo para pensar, mas acho que

não adiantaria muita coisa. – Alice recomeçou. – Eu já venho

“trabalhando” nessa decisão há algum tempo e acho que... Acho

que não! Eu não poderia voltar com vocês.

Tirando a Sra. Michele e a Alice, todos que estavam na sala

ouviram os lamentos de Miguel quanto à decisão. Eu não o

entendia, trazer-la de volta não era a missão dele, era a minha,

eu que falhei – eu nem tentei – acabei deixando os meus

sentimentos por ela me afetar. Eu fui testemunha de como ele

estava sempre atento a sua parte da missão, que era fazer a

ronda pela cidade.


– Tem certeza que não existe uma forma de você mudar de

idéia? – Ângela perguntou sentando-se ao lado de Alice.

– A minha vida é aqui! – ela levantou-se. – Tudo o que eu

tenho esta aqui, nessa cidadezinha pacata. Meus pais, irmãos,

amigos... Tudo!

– Eu entendo! – Ângela parecia decepcionada.

– Você não sente a mínima vontade de conhecer as suas

origens? – Miguel estava um pouco afobado. Algo nada típico de

sua parte.

– Eu não sei... Talvez, mas... Isso já me trousse tanta

confusão! – Alice estava tranquila, rindo, do jeito como eu

gostava de ver-la.

– Acho que não temos mais nada a fazer aqui! – Miguel

levantou-se. Estava confuso sobre toda essa... Decepção

exagerada que Miguel estava tendo.

Não podíamos simplesmente deixar tudo e ir embora como

queria Miguel. Tínhamos que ajeitar toda a bagunça que

fizemos.

Miguel deixou com o Sr. Antonio todas as propriedades

que tinha, assim como seu cargo e ações da empresa. Amanda

despediu-se – com lagrimas nos olhos – da escola e das suas

classes, o que deixou a diretora uma fera, teria que arrumar uma

substituta quase no final do semestre. Ângela despediu-se de

algumas amizades que havia feito no bairro e eu despedi-me do

pessoal da escola. Roger parecia um tanto satisfeito em ver-me

partir, mas isso eu já havia presumido.

Arrumamos inutilmente nossas malas. Não tínhamos nada

o que levar, mas ainda devíamos aparentar ser uma família de

humanos que esta voltando para Espanha. Ficamos uma semana

fingindo estar preparando os últimos detalhes para o nosso

regresso, de certa forma estávamos. Melhor dizendo, eu estava.


– Então é assim que a história termina? – perguntei

tentando conformar-me com o meu novo destino.

– Infelizmente, acho que sim! – Alice parecia fazer o

mesmo.

– Ainda está em tempo de mudar de opinião! – um pingo

de esperança nasceu em meu coração no momento desta

proposta.

– Dani, nós já conversamos sobre isso! – ela aproximou-se

de mim – Eu não saberia viver no seu mundo. Não sei se me

acostumaria a ser uma princesa, herdeira de um trono. Dani...

Eu não saberia viver com toda essa... Responsabilidade.

– Eu não vou mentir, mas eu não entendo! – indignei-me –

Eu estaria lá, com você! Eu estaria te ajudando!

– Dani, você sabe que não é só isso! – ela respondeu

sorrindo.

– Nós dois... Esse será mesmo o fim?

– Será? – ela levantou uma das sobrancelhas – Pensando

melhor agora, acho que não é o fim!

– Como? – perguntei.

– O que eu sinto por você é grande demais, muito forte e

não vai acabar assim de uma hora para outra. – ela gesticulava o

ato da evaporação.

– Desculpe... Eu ainda acho que você poderia voltar

conosco! – tentei.


Ela sorriu, aproximou-se mais um pouco e me beijou. Senti

um gosto amargo nesse beijo, diferente do fervidos beijos

anteriores, era o gosto amargo da despedida. Seria esse o último

beijo? Estava totalmente perdido, sem saber o que deveria

fazer.

Olhei em seu rosto, haviam lágrimas, eu tentava entender

os motivos que ela havia me dado e não conseguia chegar a um

entendimento. Na verdade eu não conseguia mesmo era aceitar

que poderia ser a última vez que a veria.

– Dani... Você vai me perdoar um dia? – perguntava Alice

um pouco entristecida.

– Eu não tenho nada para perdoar! – sorri – Mesmo não

aceitando bem a sua decisão, eu não acho que você tenha

errado comigo.

– Mas eu estou te magoando.

– Não vou dizer que me enchi de felicidade, mas eu vou

ficar bem! – respondi o suficientemente convincente.

– Não se esqueça de mim! – ela sorriu inocentemente.

– Isso nunca aconteceria! – cheguei mais perto e segurei

sua mão – Eu serei eternamente seu, minha amada Alice.

– Isso me lembra alguma coisa! – ela pensou alto.

– Desculpe? – não queria invadir a mente dela.

– Não é nada. Apenas uma história boba que li. Apesar de

que agora ela não parece tão boba. Pobre Julie.

– Acho que devo ignorar isso também certo? – sorri.


Ela olhou para mim, largou minha mão e sorriu. Apesar de

tudo, seu rosto realmente parecia mais feliz. Talvez eu não

devesse tentar forçar-la a se junta a nós, talvez fosse melhor ela

fica aqui, no mundo dela.

– Eu queria que você ficasse. – ela voltou a segurar minha

mão. – Você poderia ficar!

– Alice, eu queria que você viesse. – respondi – Você

poderia vir!

– Acho que entendi o que quis dizer! – ela sorriu

constrangida.

– E então? Você vai voltar a viver a sua vida pacata de

antes de todos nós chegarmos? – abri um largo sorriso para

apagar a sensação de solidão que invadira meu peito.

– Aquela minha vida não volta nunca! – ela sorriu tentando

disfarçar o que realmente estava sentindo. Esse rosto nunca me

enganou.

– Eu acho que fui o culpado. – diminui meu sorriso. Ela

achou graça.

– Você entrou na minha vida feito um furacão! – ele seguiu

alguns passos à frente – Passou por ela, bagunçou tudo e vai

embora, assim como apareceu.

ela.

– Mas eu não estou te abandonando! – fui em direção a

– E nem eu estou dizendo isso! – ela virou-se para mim. –

Dani, essa decisão foi muito dolorida.

– Eu... Entendo. – respondi.


– Vai ser difícil voltar a viver sem você! – E mais uma vez as

suas feições se entristeceram.

– Para mim também será uma árdua tarefa. – contagiei-me

com a tristeza de Alice. – Mas você estará com a sua família,

seus amigos...

– E você também! – novamente ela forçou um sorriso. Fingi

que acreditei e sorri também.

– Acho que é verdade.

– Você vai poder voltar para me ver? – ela perguntou

esperançosa.

– Infelizmente não poderei voltar! – as feições de decepção

apareceram no mesmo instante no rosto de Alice.

– Por quê?

– Eu não tenho permissão para vir a Terra “fora do

serviço”. – sempre acho graça chamar o que faço de “serviço”. –

Eu teria que desistir da minha vida de guardião. Eu teria que

morrer como guardião e ser transformado em humano para

ficar na Terra.

– E eu poderei ver você? – ela encheu-se de esperança

novamente. – Agora que sou guardiã...

– Não! – tive que decepcioná-la outra vez – Você ficará na

Terra, logo seus poderes morreram outra vez!

– Mas eu pensei...

– Alice, é por isso que eu quero tanto que volte conosco! –

perdi o controle de minha voz – Você é tudo o que eu tenho

agora, eu não saberia mais viver sem você!


– Então não viva sem mim! – ela parecia ainda não ter

entendido.

– Eu já disse que enquanto eu for guardião eu não poderei

ficar na Terra! – voltei a explicar – Eu não tenho permissão, eu

não poderia. Vem comigo!

– Dani, eu não sei se é exatamente isso que eu quero! – ela

virou-se para mim de costas – Eu não saberia viver no seu

mundo. Eu não conseguiria viver naquelas condições, naquela

posição. Eu sei que eu não seria uma boa herdeira.

– Eu saberia viver na Terra. Eu pelo menos tentaria se me

dessem a oportunidade.

– Dani, não faz assim! – ela começava a dar indícios de que

iria chorar.

– Desculpe-me! – aproximei-me dela – Eu não queria dizer

isso, mas entenda, eu estou desesperado!

– Eu acredito em suas palavras. Posso sentir! – ela olhou

para mim. Estava chorando.

– Eu não queria que você chorasse. Desculpe-me por está

fazendo isso com você.

– Você não está fazendo nada! – ela enxugava as lágrimas.

– Eu só espero que tente ser feliz, foi uma decisão sua! –

arrependi-me de ter dito isso assim que terminei a frase. Elas

soaram duras demais para uma despedida.

– Eu digo o mesmo a você quanto ao “tentar ser feliz”. –

ela não havia gostado.


Por alguns momentos nos olhamos. Eu começava,

involuntariamente, a fazer-la odiar-me. Pelo menos eu estava

odiando a mim mesmo naquele momento. Em toda a minha

longa vida eu nunca havia sido tão egoísta, em nenhum

momento eu quis tentar entender o lado dela, isso deixou-me

angustiado.

– Eu só quero que saiba que te amo. Eu te amo Alice! –

gritei.

– Eu também te amo! Eu vou estar sempre te amando.

Sempre. – ela respondeu emocionada.

Pude sentir os outros guardiões chegando. Miguel estava

um pouco triste e eu ainda não havia entendido o motivo.

– Eles estão chegando! – sorri.

– Eles quem? Os Devóns?

– Sim, os Devóns! – era engraçado ouvir Alice chamando-os

assim, mas eu gostava. Depois de tanto tempo eu sentia-me em

uma verdadeira família.

– Eu quero me despedir deles também! – ela voltava a

sorrir, mas agora era um sorriso triste, distante.

– Eles também vão querer despedir-se de você!

Assim que os outros guardiões chegaram Alice foi iniciando

o ritual de despedida. Abraços, beijos, choros e mensagens de

saudade rodeavam esse momento. Eu queria não ter que passar

por isso, não era justo eu passar por isso. Eu estava sendo

torturado. A cada “adeus” parecia que uma parte de mim era

brutalmente e dolorosamente arrancada. Eu estava sendo

dilacerado. Eu queria muito encontrar uma solução, algo que

pudesse deixar-me viver esse amor que tanto me consumiu e


transformou. Esse era o sentimento mais puro e verdadeiro que

eu tinha, não queria perde-lo, foi então que lembrei. Eu havia

dito a solução há poucos minutos e não tinha percebido.

– Dani... Eu vou sentir muito a sua falta! Você não faz idéia

de o quanto. – ela continuava o choro que foi iniciado no

primeiro adeus dito por Ângela.

– Eu se que você vai sentir muita falta, mas não se

preocupe, ela passará mais rápido do que você imagina. –

respondi.

– Mas do que está falando? – ela sorriu desconfiada.

– Espere e verá! – deixei-a no suspense.

– Acho que isso é um adeus? – ela estava parando de

chorar.

– Não! – corrigi – Isso é apenas um “Até breve”!

~ FIM ~


AGRADECIMENTOS

Primeiramente a Deus e minha família, sem eles eu não

seria nada.

Gostaria de agradecer as meninas, Letícia R. Soares,

Lorayne C. Nogueira, Yasmin Miller e Mikaela S. Souza por terem

me apoiado desde o inicio de toda essa loucura e vibrado com

cada novo capítulo que ficava pronto. Obrigado meninas!

Queria agradecer também as minhas leitoras fieis Pryh,

Yoh e Nah, que sempre eram presença no blog de TDA. Garotas,

muito obrigado, pode acreditar que sem vocês eu não teria

terminado essa história.

Gostaria de agradecer a todos que acompanharam a

história no blog, mesmo não se manifestando. Todos que de

alguma forma ajudaram ou estão ajudando a divulgar TDA.

Queria deixar um agradecimento especial para o Henri B.

Neto, autor de “Terra das Sombras”, que me ofereceu uma

grande ajuda quando precisei e me aconselhou quando estava

em dúvida. Muitíssimo obrigado.


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