Cartas - Revista Metrópole

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Cartas - Revista Metrópole

Índice

Cartas

Amigos,

Queria dizer que eu gosto pra caramba

da revista de vocês. Texto inteligente,

escrito de forma simples e de fácil

entendimento, com sarcasmo na

medida certa. Eu adoro isso!

Ivan

Isabella, Dorothy e um povo

macaqueado

Em referência à reportagem da revista

Metrópole nº 12, com a Dr.ª Malu

Fontes. Acredito que a construção

de uma sociedade mais justa, (não

macaqueada como disse a Dr.ª Malu

Fontes) passa pelo respeito à família, ao

próximo, aos valores morais e às

religiões que professam: Respeito e

Amor ao Próximo; Justiça e Caridade,

entre outros valores virtuosos. Então

quero expressar meu repúdio pelo mau

exemplo da Dr.ª Malu e parabenizar

as pessoas que, na frente da casa

dos Nardoni e da DP, exercitaram a

Cidadania. Acredito que, na posição

de professora, gestora de educação da

sociedade, muito contribuiria se ao

invés de incitar o ódio e expressar-se

de forma tão radicalmente virulenta,

incentivasse o exercício da cidadania

e o respeito ao próximo. Espero que a

doutora professora e jornalista faça uma

reflexão e entre numa fase de progressão

Cívica e humana.

Alírio Cavalcanti Ferreira

Revista Metrópole - junho de 2008

capa

Lado B dos

prefeituráveis 04

comportamento

Amores fálicos 09

esporte

Os velhos

pegueteiros 12

polícia

Pedagogia do

medo 18

comportamento

Um filho pra chamar

de seu 38

comportamento

Profissão: Fiscôla 40

Ao ler o encarte da revista nº 12, na

síntese de sua biografia, onde afirma

que sua terra natal não tinha nada para

oferecer aos seus moradores, fiquei a

imaginar o quanto você deve ter lutado

e o que motivou e/ou proporcionou a

sua vitória na vida, já que naquelas plagas

poderiam ser oferecidas oportunidades

comercias, mas nunca culturais, como

seu caso. Hoje, jovens moram nas

cidades com conforto e tecnologias

maravilhosas à disposição e ficam a se

queixar de problemas emocionais e outras

babaquices.

Moacir Paes

Você e Ronaldo Fenômeno

Li o seu artigo no periódico Metrópole

edição n.º 12, no qual você discorre sobre

a implicância das pessoas com a palavra

doutor. Você foi de uma infelicidade

atroz ao chamar de “horda de ignorantes”

aqueles que rejeitam o uso indiscriminado

do pronome doutor e ao dizer que o

“problema reside justamente em reconhecer

superioridade”.

Anésio Pereira Júnior

Valdenor 1 x 0 Democracia

Queria, antes de tudo, parabenizar a

Revista Metrópole pelo seu primeiro

aniversário. Depois queria comentar

sobre a cara-de-pau de alguns vereadores

sobre a compra dos carros. Cara-depau

é quem aceitou os veículos. Mas

mais cara-de-pau ainda é quem roda de

segurança

Cadeia alimentar 44

sinuca de bico

com Walter

Pinheiro 47

enchendo o saco

Fomos atrás da galera

do programa CQC 48

Mercedes e faz a maior pose de certinho

porque não aceitou o carro. Se eu tivesse

uma Mercedes, também não iria querer

andar de Corsa.

Carol Ribeiro

Gente, que foto engraçada foi aquela

de Valdenor Cardoso que vocês

publicaram? No maior bocejo enquanto

segurava o mastro da pátria bandeira.

Muito simbólica!

Reinaldo Gomes

No escurinho do cinema pornô

Se um dia qualquer mínima curiosidade

de conhecer os cinemas pornôs se

passou por minha cabeça, a matéria

de Pablo Reis sobre o assunto acabou

com ela irremediavelmente. E os

cinemas ficam assim, no meio da rua,

com cartazes expostos para qualquer

criança ver. Nojento, porco e imoral.

Definitivamente não me parece um

lugar agradável para apreciar a sétima

arte.

João Carlos Costa

E-mails com críticas, sugestões e

elogios devem ser encaminhados

para redacao@revistametropole.com.br.

Por questão de espaço,

eventualmente não publicaremos na

íntegra as mensagens recebidas.

metrópole

entrevista

Fernando Henrique

Cardoso 28

De cara limpa

fucs fucs

Pingue-pongue

sexual com a

Drª Gilda Fucs 15

olhos da cara

Nossa seção

de consumismo

inútil 17

artigos

Juliana Cunha

Curriculum vitæ:

subempregos 16

Alexandre

Soares Silva

Eles que começaram 23

Antonio Risério

Será que é por aí? 24

O problema de conseguir uma entrevista boa é que, no número seguinte, você precisa

aparecer com uma melhor ainda. Na edição passada, entrevistamos o deputado Fernando

Gabeira (PV-RJ), que nos recebeu em seu apartamento, no Rio de Janeiro. Nesta trazemos

Fernando Henrique Cardoso falando sobre sua trajetória na vida pública, a relação com

Luís Eduardo Magalhães, a vinda da Ford para a Bahia e, é claro, sobre Lula e as próximas

eleições presidenciais. No dia da entrevista, a ex-primeira-dama Ruth Cardoso ainda não

tinha falecido. Para o próximo número a gente vai entrevistar, sei lá, Fernando Pessoa. Para

esquentar o período pré eleições municipais, fizemos o Sinuca de Bico com o candidato

petista - que finalmente foi definido! Tem também a matéria Lado B dos prefeituráveis

mostrando que, nesta corrida eleitoral, tudo que se move é alvo. Bastou a nossa equipe

entrevistar as pessoas certas e ter um pouquinho de memória para te fazer pensar algumas

vezes antes de decidir o seu voto. Na matéria Pedagogia do medo, fomos desvendar o que

está por trás da delinquência juvenil organizada. Gangues de escolas ultrapassam os muros

das instituições e instauram o medo entre professores e colegas e até moradores dos bairros

adjacentes às escolas. Ainda sobre a questão da segurança, nossa reportagem visitou

a Colônia Penal Lafayete Coutinho, no bairro de Castelo Branco, para conferir o sabor

indigesto do sistema carcerário baiano.

Revivemos o tempo que Salvador possuía circuito de automobilismo. Da avenida

Centenário saiu o famoso Lulu Geladeira, que nunca perdeu nenhuma corrida e fez história

no já esquecido mundo do automobilismo da Bahia. Fomos atrás dos famigerados

“fiscais de rola”, os fiscôlas, que povoam os banheiros públicos em busca de um lance

do pênis alheio. Na mesma sintonia trazemos a matéria Amores Fálicos, que relata um

pouco do universo dos travestis. Temos ainda artigos dos mesmos colunistas de sempre,

matéria sobre a adoção de crianças, a nossa coluna de consumismo que resolveu abrir a

mão de vaca e sortear todos os itens (não se acostumem, é só nesta edição) e entrevista

com os integrantes do Custe o Que Custar (CQC), programa da Bandeirantes que vem

conquistando audiência e se propõe a ser o novo Pasquim. Enfim, somos os mesmos de

sempre, ou apenas levemente piores. •

Renato Pinheiro

A Amazônia e outros

bichos 37

Mário Kertész

Dança das cadeiras 50

Expediente

Revista Metrópole

Uma publicação da Editora KSZ

Publisher Mário Kertész

Diretor-Executivo Chico Kertész

Conselho Editorial André Ferraro, André

Bastos Teixeira e Marcelo Kertész

Redator-Chefe André Bastos Teixeira

Redação James Martins, João Gabriel

Galdea, Juliana Cunha, Lara Thomazini e

Luana Rocha

Colaboradores A. Costa Pinto,

Alexandre Soares Silva, Antonio Risério,

Elieser César, F. Pelosta, Gilda Fucs,

Matheus Santana, Pablo Reis, Renato

Pinheiro e ouvintes da Metrópole FM

Projeto Gráfico Marcelo Kertész

Diagramação Paulo Braga

Ilustrações Allan Sieber, Carla Barth,

Daniel Moretti, Guilherme Lepca,

Luciano Scherer, Rui Sousa, Sara Victória,

Thiago Campos

Produção Marcos Antonio Cruz

Produção Gráfica Evandro Brandão

Fotos Geraldo Melo, Valter Pontes

(Coperphoto) e divulgação

Revisão Paulo Reis

Metrópole - Rua Conde Pereira

Carneiro, 226 - Pernambués

CEP 41.100-010 - Salvador - BA

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Os artigos e matérias assinados não

expressam necessariamente a opinião do

Grupo Metrópole.


04

Capa

Lado B dos prefeituráveis

O que os principais candidatos à sucessão municipal têm a esconder?

Da redação

Da mesma forma que retocam suas fotos

cada vez mais maquiadas e trabalhadas

graficamente, quem já ocupou ou pleiteia

cargos públicos através do voto popular tenta

esconder os seus erros, omissões, falhas e

acordos feitos na calada da noite em benefício

próprio, de empresários ou poderosos

que, de uma forma ou outra, contribuíram

para a sua eleição.

Enquanto prometem solucionar todos

os problemas da terceira maior capital

do país, os quatro candidatos mais competitivos

na disputa pela sucessão municipal

- Antonio Carlos Magalhães Neto (DEM),

Antonio Imbassahy (PSDB), João Henrique

Carneiro (PMDB) e Walter Pinheiro (PT) -

fingem esquecer por completo os escândalos,

dossiês, fofocas, intrigas e acusações de que

já foram alvo. A Revista Metrópole resolveu

relembrar a eles alguns percalços em seus

caminhos, fazendo um perfil sobre o “lado

b” de cada um.

Dos quatro candidatos, o neo-tucano Antonio

Imbassahy e o peemedebista João

Henrique são os únicos que têm experiência

no Executivo. Sob a liderança do ex-senador

Antonio Carlos Magalhães (1927/2007), Imbassahy

comandou a Prefeitura de Salvador

por oito anos (97/2004). Nas propagandas

de rádio e televisão, nos debates e discursos,

Imbassahy gosta de dizer que, durante muito

tempo, foi considerado o melhor prefeito do

Brasil por institutos de pesquisa.

De fato, o Ibope e o Datafolha, dois

dos principais institutos brasileiros, sempre

avaliaram positivamente a administração Imbassahy.

O que o prefeito esconde, no entanto,

é que, naquela época, a administração

municipal funcionava como uma “secretaria”

do governo estadual. O tucano apenas capitalizava

as obras. Somente o ex-governador

Paulo Souto (DEM), por exemplo, executou

as principais obras que ajudaram a levantar a

popularidade de Imbassahy - a revitalização

do Dique do Tororó, a iluminação nas praias,

as etapas da recuperação do centro histórico,

o Parque Costa Azul, a quarta pista da avenida

Luís Viana Filho (Paralela), as avenidas

Gal Costa e Luís Eduardo Magalhães, entre

outras.

Em tom de piada, o senador Antonio

Carlos Magalhães lembrava sempre que

Souto era o responsável pelas obras. “Imbassahy,

não adianta. O Paulo Souto fez o

Dique, você quer tomar para si a obra, mas

o povo pensa que fui eu quem fez”, dizia

ACM, durante algumas caminhadas com o

ex-prefeito.

Após assumir a Prefeitura, Imbassahy promoveu demissão em massa

Há quase quatro anos sem trabalhar e mantendo

um elevado padrão de vida, Imbassahy

deve ao senador ACM a sua carreira política.

Depois que rompeu com o ex-presidente do

Congresso, no segundo semestre de 2005, o

tucano disputou uma eleição e o resultado foi

vexatório: ficou em terceiro lugar na corrida

para o Senado, perdendo para João Durval

Carneiro e Rodolpho Tourinho.

“Imbassahy nunca teve idéia administrativa,

sempre foi um marionete do senador

Antonio Carlos Magalhães”, afirmou o vereador

Sandoval Guimarães (PMDB). Irônico,

o ministro Geddel Vieira Lima (Integração

Nacional) classifica o ex-prefeito como o

candidato “genérico” do grupo carlista. “O

(candidato) original é o deputado ACM Neto,

e o genérico, o Imbassahy.”

Um deputado que conviveu com Antonio

Imbassahy na Assembléia Legislativa da

Bahia lembra que ele sempre foi subserviente

ao senador ACM. “Todas as quintas-feiras o

Imbassahy ia ao prédio do ‘Correio da Bahia’

(na época o jornal funcionava na avenida Luís

Viana Filho) para contar as fofocas para Antonio

Carlos Magalhães. Ele entregava os deputados

que criticavam o grupo comandado

por ACM e até mesmo pessoas do mesmo

grupo que, por questão de princípio, não

votavam em alguns projetos de interesse dos

carlistas.”

Retribuição

Político “profissional”, como definiu o expresidente

Fernando Henrique Cardoso, o senador

Antonio Carlos Magalhães incentivava

os “relatórios” apresentados por Imbassahy até

como forma de manter o controle absoluto

na Assembléia e intimidar os parlamentares

que não seguiam a sua orientação. E pagava

com mimos políticos. Um desses mimos foi

a eleição de Imbassahy para a presidência da

Casa. O candidato natural do grupo carlista

era o deputado Luiz Braga (já falecido).

O deputado teve

um câncer no fígado

e, no primeiro diagnóstico,

os médicos

deram a ele 60 dias de

vida. Desesperado, foi

para Boston (Estados

Unidos), mas os médicos

se recusaram a

operá-lo, alegando que

a doença apresentava

um estágio avançado.

Foi então que, por intermédio

de ACM, o

deputado foi operado

em Londres e conseguiu

uma sobrevida de

mais de dez anos. Na

época da eleição para

a AL, todos os deputados

que integravam

a base carlista davam

como certa a vitória de Braga.

Mais uma vez, ACM agiu com mão de

ferro. “Ele mandou dizer a todos nós que o

seu candidato à presidência era o Imbassahy,

e ao Luiz Braga, ACM mandou dizer que

ele lhe devia a vida. Ou seja, cobrou a fatura

e impôs Imbassahy como presidente da

Casa”, conta um ex-deputado baiano, que

conviveu com o ex-prefeito na AL. Depois

de ocupar a presidência da AL, ACM transformou

Imbassahy em governador-tampão.

O então senador deixou o Palácio de Ondina

(na época, era governador da Bahia pela terceira

vez) para disputar uma vaga no Senado

e o seu vice, Paulo Souto, não pôde assumir

porque era candidato ao governo. Quando

deixou o governo, Imbassahy foi repreendido

publicamente pelo senador ACM porque

autorizou a emissão de dezenas de passagens

aéreas. “Parece que o Imbassahy não entendeu

que governar é manter a austeridade e

não esbanjar o dinheiro público”, comentou

Antonio Carlos Magalhães.

Demissão em massa

Pouco tempo depois de assumir a prefeitura

pela primeira vez, Imbassahy promoveu

uma das maiores demissões em massa das

administrações públicas municipais. Com

uma só canetada, desempregou 4.741 funcionários

da Limpurb e se recusou a pagar os

direitos trabalhistas, sob a alegação de que as

contratações eram ilegais. Somente em 96,

já na administração João Henrique Carneiro,

é que o FGTS (Fundo de Garantia do

Revista Metrópole - junho de 2008

05


06

Tempo de Serviço) dos demitidos começou

a ser liberado.

“A prefeitura negociou um empréstimo de

R$ 55 milhões junto à Caixa Econômica Federal,

a serem pagos em 140 parcelas. É bom

salientar que o FGTS não era recolhido pela

administração passada”, disse, à época, o então

secretário Luís Carlos Café. “Além de demitir

milhares de funcionários, o ex-prefeito

ainda perseguiu a maior parte dos servidores.

Na verdade, ele posava de democrata, mas,

com os seus comandados, utilizava métodos

ditatoriais”, afirmou Sandoval Guimarães.

Um funcionário que trabalhou diretamente

com Imbassahy e pediu para não ser

identificado conta que o ex-prefeito sempre

foi inseguro. “Eu participei de várias reuniões,

ele ouvia os técnicos, mas sempre consultava o

senador Antonio Carlos Magalhães na hora da

decisão. A palavra final era sempre de ACM.

Consultava diretamente ou através do Jaime

Magalhães, irmão de ACM, que ele empregou

em seu gabinete nos dois mandatos em que

exerceu o cargo.”

Embora se apresente como o prefeito

que mais trabalhou para os pobres, Antonio

Imbassahy, logo em seu primeiro ano de

administração, aumentou em até 199% o

IPTU das áreas carentes. “Nos oito anos de

sua administração, a prefeitura perseguiu ambulantes,

servidores públicos e moradores de

baixa renda, mas sempre foi generosa com os

ricos”, afirma Sandoval Guimarães. “Em 99,

por exemplo, uma área de interesse ambiental

foi repassada pelo município ao condomínio

Vela Branca, na Pituba”, acrescentou.

Outro nome que atormenta a vida política

de Imbassahy é o de Aldely Rocha, ex-secretária

municipal da Saúde. Em agosto de 2004,

Aldely Rocha foi acusada de aplicar no mercado

financeiro cerca de R$ 4 milhões, verba

“Na verdade, Imbassahy posava de

democrata, mas, com seus comandados

utilizava métodos ditatoriais”

- Sandoval Guimarães

Durante 15 dias,

os deputados

oposicionistas

dormiram em

colchonetes dentro

do prédio da AL.

O único que não

apareceu foi

justamente João

Henrique

do governo federal destinada exclusivamente

ao programa de combate à desnutrição. No

mesmo mês, o Ministério Público propôs uma

ação de improbidade administrativa contra a

ex-secretária.

Nome de confiança do ex-prefeito, Aldely

Rocha conviveu com denúncias de irregularidades

desde que tomou posse. Em agosto

de 2001, por exemplo, os jornais publicaram

que André Luís Dias Fontes, seu filho, abriu

a empresa Ártico Instalações Térmicas Ltda.

e ganhou contratos sem licitação, prestando

serviços em mais de 80 postos de saúde.

De acordo com a Câmara Municipal, que

apurou a denúncia na época, o negócio foi

intermediado pelo Liceu de Artes e Ofícios,

cujo diretor-superintendente à época, Nelson

Issa, é primo do empresário Ângelo Neves

Issa, então sócio do filho da ex-secretária.

Em novembro de 2001, Aldely Rocha

foi acusada de firmar contratos com a Hype

Tecnologia e Informática, empresa que tinha

como sócios o seu sobrinho, Marco Vinício

Dias Brito e Cristiana Domingos Imbassahy,

sobrinha do ex-prefeito. “Os oito anos da gestão

Imbassahy foram de completo abandono

ao social”, disse a vereadora Vânia Galvão,

atual presidente do diretório municipal do

PT. “A única coisa que Imbassahy fez bem foi

torrar o dinheiro em publicidade.”

Em dezembro de 2001, Imbassahy teve

de conviver com outro escândalo envolvendo

a Secretaria Municipal da Saúde. O órgão

contratou, sem licitação pública, a empresa

Mitti Andaimes Ltda., por R$ 611.646,37

para construir 30 módulos temporários de

postos de saúde.

“Foram muitas as irregularidades durante

a administração Imbassahy. Durante esta

campanha, certamente, estes fatos voltarão

à tona”, ressalta o vereador Sandoval Guimarães,

que atualmente cumpre o quarto

mandato. Finalmente em 2004, último ano

da administração Imbassahy, o juiz Rubem

Dário Peregrino Cunha, da 6ª Vara da Fazenda

Pública, determinou a prisão da secretária

Aldely Rocha por descumprimento de ordem

judicial (ela desrespeitou um concurso público

e realizou nova seleção). Aos que o indagavam

sobre a proteção à secretária, Imbassahy

respondia que não poderia demitir Aldely

Rocha porque ela era protegida de dona Arlete

Magalhães, viúva do senador ACM.

Sem reajuste

Os oito anos da administração Imbassahy

foram marcados pelo arrocho salarial.

Os servidores não tiveram aumento (em

alguns casos, apenas o repasse da inflação)

e os aumentos nas tarifas de ônibus foram

constantes - em 2001 e 2003 -, gerando a

chamada “Revolta do Buzu”, que paralisou

completamente a cidade e provocou grandes

transtornos à população (o protesto aconteceu

em setembro de 2003). “Imbassahy

quer vender para os eleitores que tem influência

no governo Jaques Wagner, o que é

uma mentira deslavada”, acrescentou Lúcio

Vieira Lima.

Ajuda a parentes

Também com experiência administrativa,

o prefeito João Henrique Carneiro

gosta de ter parentes no poder. Ajudou

a eleger o pai (o ex-governador e agora

senador João Durval), a mulher (a deputada

estadual Maria Luíza), o irmão Sérgio

Carneiro (deputado federal) e o cunhado

Sérgio Brito (deputado federal). Nos 12

anos em que atuou como deputado estadual,

João Henrique soube atrair as atenções

da mídia, embora fosse um parlamentar

ausente.

“Ele não participava de nada, apenas

elaborava projetos midiáticos e ingressava

com ações na Justiça”, disse o deputado

Gildásio Penedo (DEM), que conviveu

com o prefeito na AL. “Ele monopolizava

o tempo do partido (na época, o PDT) na

televisão e sempre apresentava medidas populares,

que nem sempre obtinham sucesso

nos tribunais”.

Outro deputado que conviveu com João

Henrique, mas prefere não ser identificado,

conta que, quando o grupo carlista dominava

a Assembléia, os deputados de oposição

resolveram montar um acampamento em

plenário como forma de protesto contra

a não participação de parlamentares em

comissões técnicas de forma proporcional,

como estabelece o regimento. Durante 15

dias, os deputados oposicionistas dormiram

em colchonetes dentro do prédio da AL. O

único que não apareceu foi justamente João

Henrique. “Ele alegou que estava gripado”,

disse o deputado.

No enterro do ex-deputado Paulo Jackson,

que morreu no dia 19 de maio de 2000,

em um acidente de ônibus, João Henrique

chegou atrasado e não compareceu ao velório.

“Ele disse que estava reunido com a

juventude do PDT, o que demonstra que

ele nunca teve consideração pelos colegas”,

afirmou o mesmo deputado. Com fama

de pão-duro, durante todo o período em

que atuou como deputado, João Henrique

Carneiro almoçava no bandejão subsidiado

pela Assembléia.

Começo conturbado

Em junho de 1997, João Henrique se

viu envolvido em uma tentativa de extorsão.

O deputado Maurício Trindade, na

época filiado ao PSDB, tentou extorquir o

empresário mineiro Omar Braga e usou o

nome de João Henrique durante o ato de

corrupção. O empresário gravou as conversas

que teve com Maurício Trindade. Na

gravação, Maurício fala com o empresário

mostrando intimidade com João Henrique,

que na época era deputado estadual,

e tenta extorquir 15% de uma licitação

no valor de R$ 8 milhões para compra de

leite por parte da prefeitura (com verba

do governo federal). Após as denúncias,

Maurício Trindade deixou a chapa de João

Henrique.

Os primeiros meses da atual administração

também foram tumultuados. O Ministério

Público da Bahia abriu uma ação

com base em acusações da ex-secretária

municipal de Comunicação Simone Souto

Maior. A ex-secretária apontou diversas

irregularidades que vão desde o superfaturamento

do serviço de produtoras de tevê

à prefeitura até a tentativa de pagar com

dinheiro público convites de uma formatura

da qual a primeira-dama, Maria Luiza,

era a paraninfa. Na primeira etapa, as denúncias

foram feitas particularmente por

Simone ao prefeito. Depois, a ex-secretária

levou à promotora Rita Tourinho vários

documentos sobre as acusações.

No poder, João Henrique esqueceu os

pedidos de liminares encaminhados à Justiça

na época em que era deputado. “A taxa

de lixo, que tanto o incomodava quando

estava na Assembléia, foi mantida em seu

governo, o que demonstra uma total incoerência.

Também foram mantidas a taxa de

iluminação pública e a cobrança excessiva

de multas”, afirmou Gildásio Penedo. Além

disso, João Henrique entregou as principais

pastas de seu governo ao PSDB e permitiu

o escândalo das barracas de praia,

Revista Metrópole - junho de 2008

07


08

a paralisação das obras do metrô, o caos

na saúde (pasta controlada pelo PT até o

rompimento com a administração municipal)

e o aparelhamento da Educação, com

o PC do B.

ACM Neto e o nepotismo

Herdeiro de uma das mais tradicionais

famílias políticas da Bahia nos últimos 50

anos, o deputado federal Antonio Carlos

Magalhães Neto não gosta de falar sobre o

início de sua carreira. Em 1999, com um

mês no serviço público, ele ganhou uma

promoção que elevou o seu salário-base em

186%. Contratado como oficial de gabi-

ACM Neto ameaçou

dar uma surra no

Presidente. Depois

voltou atrás e pediu

desculpas

nete da Secretaria da Educação (saláriobase

de R$ 364) no começo daquele ano,

ACM Neto passou a receber R$ 1.040 de

salário-base em sua nova função: secretário

de gabinete do órgão.

Durante o reinado de ACM na Bahia,

o nepotismo foi constante. Filha do deputado

federal Luís Eduardo Magalhães,

morto em abril de 98, Carolina Pimentel

de Magalhães também foi funcionária estadual,

sendo admitida, sem concurso, na

assessoria técnica da Secretaria de Indústria

e Comércio, também como DAS-3.

No final da década de 90, Antonio

Carlos Magalhães presidia o Congresso e

propôs uma CPI (Comissão Parlamentar

de Inquérito) para investigar corrupção

e nepotismo na Justiça. Enquanto isso,

ele tinha ao menos 11 parentes ocupando

cargos no governo do Estado, na Prefeitura

de Salvador e no Judiciário. No Congresso,

onde cumpre o seu segundo mandato,

ACM Neto teve uma atuação importante

na CPI que apurou o mensalão. Comunicativo

e obstinado, ameaçou dar uma surra

no presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O

nervosinho voltou atrás e pediu desculpas

logo depois.

“O presidente da República, ou qualquer

um dos seus que tiver a coragem de se

meter na minha frente, assim como disse

o senador Arthur Virgílio, tomará uma

surra. Não me intimido. Tenho coragem

e vou até o fim. Não mexam com os meus

nem comigo, porque estou pronto para me

defender”, disse ACM Neto, em discurso

feito no dia 1º de novembro de 2005.

“ACM Neto gosta de dizer que é o novo

e tem soluções novas para Salvador. Quero

saber quais são essas soluções e de onde ela

vai tirar o dinheiro. O que precisa ficar

bem claro é que o deputado ACM Neto é

o grande representante de uma época que

foi varrida do mapa político do Estado”,

afirmou o ministro Geddel Vieira Lima.

Repactuação política

A vida do deputado federal Walter Pinheiro,

candidato do PT na sucessão municipal,

não será fácil durante a campanha.

Nos três primeiros anos da administração

João Henrique, o PT foi aliado do governo

e ocupou cargos importantes. “Quem é

que vai criticar a saúde? Quem ocupou a

secretaria três anos e meio e sucateou todo

o sistema? Eles (o PT) não têm autoridade

nenhuma para falar mal do governo, até

porque fizeram parte da atual administração”,

acrescenta Geddel Vieira Lima.

Além de apoio, Walter Pinheiro, que é

evangélico, teve pelo menos cinco encontros

com João Henrique nos últimos 12

meses. Em todos, prometeu que não seria

candidato à sucessão. No entanto, pressionado

pelo governador Jaques Wagner -

que refutava a idéia de o deputado Nelson

Pellegrino ser, pela quarta vez consecutiva,

o candidato do PT -, Pinheiro entrou na

disputa, provocando uma profunda irritação

no PMDB. “O Pinheiro sempre

falou em repactuação política e indicou

secretários para a prefeitura. Agora, como

ele pode falar alguma coisa?”, ressaltou

Geddel Vieira Lima.

Outro problema que Pinheiro vai enfrentar

durante a campanha é o assassinato

do servidor Neylton Souto da Silveira,

dentro de um dos prédios da Secretaria

Municipal da Saúde, no começo do ano

passado. De acordo com as investigações,

Neylton foi morto porque descobriu diversas

irregularidades praticadas dentro da

secretaria, na época comandada pelo PT.

A ex-subsecretária da SMS, Aglaé Souza,

e a consultora Tânia Pedroso, apontadas

como mandantes, têm no currículo diversos

trabalhos realizados para o PT. Durante

a crise do mensalão, Pinheiro admitiu a

possibilidade de se filiar ao PSOL, influenciado

pelas conversas constantes com as

deputadas Luciana Genro e Babá e pelo

desgaste do PT. Isso o impediu de ser nomeado

ministro no segundo mandato do

presidente Lula. A amigos, Lula confessou

que “não confia” em Walter Pinheiro, que

faltou com o apoio em um momento difícil

do seu governo. •

notas da Metrópole

Naufrágio da

Educação

Há mais de três meses, as

crianças do norte da Ilha de

Maré estão sem o barco-escola

da prefeitura de Salvador,

que leva os estudantes para

o colégio mais próximo.

Famílias sorteiam quais filhos

irão estudar, pois pagam 20

reais por criança em uma

embarcação que não oferece

sequer salva-vidas. O Jornal da

Band denunciou a situação.

Depois disso, a capitania dos

portos apreendeu a embarcação

irregular. Agora, nem pagando

os meninos conseguem estudar.

Comportamento

Amores fálicos

Mulher-espada, o travesti oferece “algo mais” à sua ardente clientela

Elieser César

A ambigüidade começa pelo gênero e

termina com a constatação do membro viril

escondido entre as pernas e pronto para a

estocada, se o cliente também for chegado

a agasalhar a manjuba. Afinal é o travesti ou

a travesti? Os dicionários Aurélio e Houaiss

consignam os dois tratamentos, por considerar

o vocábulo um substantivo de dois gêneros.

Porém, como nas ruas da cidade, sobretudo

à noite, quando todos os gatos são pardos e

todos os amores permitidos, a confusão não

acaba aí. Para muitos gramáticos, só se deve

empregar o substantivo feminino quando se

trata de uma mulher trajada com roupas de

homem, em um espetáculo teatral ou quando

uma lésbica se veste como homem e se comporta

como macho. Já no caso dos homossexuais

siliconizados, com peitões ao estilo

air-bag e nádegas monumentais, a referência

é mesmo o travesti.

Desfeita a dúvida, passemos a uma

questão de psicologia amorosa e engenharia

erótica: que poder de sedução exercem

“essas mulheres com algo a mais”? Como os

travestis são considerados nos miasmas dos

amores clandestinos, profissionais do sexo

capazes de fisgar símbolos da masculinidade,

como o jogador Ronaldo, recentemente

envolvido em um quadrangular seminal?

Presidente da Associação dos Travestis de Salvador,

a sugestiva ATRAS, o travesti Milena

Passos, que prefere o substantivo feminino

Mariquinha abriu

a porta?

Depois que a filha de Xororó

(não Junior, Sandy) marcou seu

casamento com Lucas Lima, da

Família Lima, os rumores sobre

sua gravidez começaram a ser

ventilados pela Internet. Apesar

de a emprenhadura não estar

confirmada, a data e o local do

casório já foram divulgados:

será no dia 12 de setembro,

numa fazenda próxima a

Campinas (SP). O babado é

forte visto que Sandy já havia

declarado que só casaria depois

que terminasse a faculdade de

Letras, o que só deve acontecer

em dezembro.

No, no, no

Depois que a cantora britânica

Amy Winehouse desmaiou em

casa e foi parar no hospital, os

médicos a advertiram: ou você

larga as drogas ou, na próxima

(leia-se: próxima overdose)

você não vai agüentar. O

tablóide The Sun comentou a

preocupação dos médicos de

Amy que segundo a publicação,

“estão preocupados com a

possibilidade de a cantora de 24

anos não chegar aos 25”. Será

que depois dessa, a junkie passa

a dizer “no, no, no” às drogas?

para designar as falsas meninas, o homem

vai atrás (epa!) do travesti em busca de uma

mulher perfeita, mais exuberante do que a

fêmea autêntica, pelo porte feminino estereotipado,

como bunda grande e seios fartos.

“A travesti não se sente mulher, se sente mais

poderosa do que a mulher”, atesta Milena,

que, há dois anos, atua na ATRAS, “por amor

à militância”.

Estudioso da sedução exercida pelos travestis,

o antropólogo norte-americano Don

Kulick, professor da Universidade de Nova

Ha ha ha

Empolgado com a chegada do

lateral-direito Apodi “Alonso”

ao Santos, o técnico Cuca fez

um trocadilho com o nome

do novo reforço do time da

Baixada Santista. Depois de

aprovar a atuação do jovem

atleta revelado pelo Vitória,

em um teste, e elogiar as suas

características ofensivas, Cuca

comentou: “Ele é jogador de

frente, de apoio. Apoio: por

isso, Apodi. Se ele fosse jogador

mais de defesa, seria Marcadi.”

Oxe! Será que Cuca tomou um

Bacardi antes de fazer essa piada

infame?

York, que lançou recentemente no país o livro

Travestis, prostituição, sexo, gênero e cultura

no Brasil, fruto de uma pesquisa realizada com

travestis de Salvador, em meados dos anos 90,

admite: “Embora acompanhasse os travestis

todas as noites, não consegui distinguir um

cliente típico”, revelou Kullick, em recente

entrevista à revista Época, da editora Globo.

Lançado no Brasil pela editora da Fundação

Osvaldo Cruz (Fiocruz), o livro de Kullick

despeja um jato de luz sobre o perfil quase

sempre oculto dos homens que procuram os

amores fálicos. Depois de colher depoimentos

sobre 138 programas executados em

um mês, o antropólogo constatou que em

52% dos casos os clientes queriam sodomizar

o parceiro; outros 19% desejavam

sexo oral, 18% se mostraram sequiosos

por trocar a posição ativa pela passiva e

2% pediram para ser masturbados. ‘‘Não

é irrelevante que 27% dos homens da

amostragem quisessem ser penetrados

pelos travestis’’, observou Kullick à reportagem

da Época e emendou com o

desconto: “Mas esses homens não são

maioria, como os travestis geralmente

afirmam”. Os homens que se deixam

penetrar são chamados de “mariconas”

pelas “mulheres-espadas”.

Milena Passos, da ATRAS, confirma

que, entre a ansiosa clientela

de suas colegas, há muitos homens

casados e de alto poder aquisitivo.

Alguns chegam a levar também uma

Revista Metrópole - junho de 2008

09


10

mulher para o motel para o que, na desabrida

nomenclatura erótica, se costuma chamar de

“um baita surubão”. Também em entrevista à

Época, a psicóloga Maria Rita Kehl relativizou:

“Entendo que os homens que só se realizam

sexualmente com travestis possam estar mal

resolvidos em sua orientação sexual. Mas considerar

que todos os que gostam de travestis

são homossexuais acovardados é uma redução

preconceituosa”.

Já a cientista social Larissa Pelucio afirma

que o travesti não é um homem vestido de

mulher, “mas um tipo de expressão de gênero

diferente da homossexualidade exacerbada ou

caricatura”. Larissa é autora do estudo “Mulher

com algo mais – corpos, gêneros e prazeres

no mercado sexual travesti”. No estudo, ela

coletou depoimentos dos chamados T-Lovers

— homens fissurados na ausência de fissura

frontal dos travestis. Segundo a pesquisa, os

T-Lovers consideram que a “mulher é fresca

com sexo anal e que a travesti sabe fazer sexo

oral e mulher não”.

Blog T

Conforme a pesquisadora, os depoimentos

mostram também que os homens que procuram

os travestis têm tesão pelo pênis da

mulher-espada. Já muitos dos travestis não

gostam de penetrar e só o fazem a pedido do

cliente.

De fato, em muitos casos os papéis se invertem:

quem come é comido e quem é chupado,

chupa. Veja este depoimento de um T-Lover:

“Não importa quem dá, quem come, se os dois

dão. Importa que eu tenho ali aquele mulherão

e é minha”. Já outro amante de travestis,

prenhe de saudades, postou o seguinte depoimento

na Blog T, interativo e voltado para a

troca de experiências entre os T-Lovers : “Eu a

via ali naquela esquina quase todos os dias, mas

notas da Metrópole

Unicórnio veado

Um veadinho com um único

chifre no centro da cabeça

(como os unicórnios míticos),

tem chamado atenção de

pesquisadores e curiosos de todo

o mundo. O animal nasceu em

cativeiro, no Centro de Ciências

Naturais de Prato, região da

Toscana, na Itália. Acredita-se

que ele tenha nascido com uma

falha genética, pois seu irmão

gêmeo tem dois chifres e não é

tão afrescalhado.

nunca havia saído com ela. No sábado acabei

fazendo um programa bem gostoso num hotel

da região. Ela tem um pau médio, peludinho,

mas bem grosso, que fica duro com uma rapidez

fantástica e é delicioso de chupar. Um

detalhe importante: ela gosta de beijar na boca

e beija gostoso, com voracidade, com força.

Não beijinho fingido. Ela é ativa e passiva e

fode bem gostoso, sem pressa”.

Larissa Pelucio sublinha que o que a maioria

desses homens busca nas travestis é sexo com

“uma mulher com algo mais”. Um travesti com

20 anos na prostituição concedeu o seguinte

depoimento a Larissa Pelucio: “Homem quer

no travesti pinto! Ela pode ter peito, ela pode

ter quadril, se ela não tiver pinto ela pena, entendeu?

A cientista social diz que “o que esses

Falando nisso...

O Supremo Tribunal

Federal (STF) resolveu, por

unanimidade, arquivar uma ação

penal contra o deputado federal

Clodovil Hernandes (PR-SP),

que estava sendo acusado de

crime ambiental. O estilista

do Congresso teria cometido o

delito na área conhecida como

Sertãozinho do Léo, na cidade

de Ubatuba (SP). Constava,

no processo, que ele “suprimiu

vegetação capoeira em estágio

inicial e aterrou o local por meio

de terraplanagem”. Foi aplicado

o “princípio da insignificância”,

pois a mata era virgem e Clodô

teria se recusado a deflorá-la.

homens buscam nas travestis não é só um pênis,

mas um certo tipo de feminino associado à

passividade e à dominação. É sugestivo o nome

“boneca” para se referirem a elas”. Segundo ela,

muitos desses clientes afirmam que “as travestis

sabem exatamente o que fazer para satisfazêlos;

que gostam de sexo anal; que não fingem

orgasmos”.

A pesquisadora denuncia que os travestis

são as maiores vítimas da homofobia. Segundo

ela, 34,4% das pessoas trans entrevistadas foram

vítimas de discriminação e abusos por colegas e

professores na escola. Um em cada dois travetis

já sofreu algum tipo de violência física e quase

três entre quatro deles denunciaram ter sido

vítimas de ameaças e xingamentos, sem falar nos

assassinatos que dificilmente são investigados.

“Não importa quem dá, quem come, se os

dois dão. Importa que eu tenho ali aquele

mulherão e é minha” - Depoimento de T-lover

FOTOS: COPERPHOTO

Gillette

A apresentadora Adriane

Galisteu não desmentiu um

suposto “affair” que estaria

tendo com a cantora Ana

Carolina. Vistas diversas

vezes juntas, desde abril, a

apresentadora não foi muito

conclusiva ao comentar sobre

sua suposta relação com a

cantora, bissexual assumida.

“Tem determinados assuntos

que são tão delicados que

é melhor deixar falar. Não

tô ligando para responder

nem que sim, nem que não”,

declarou Galisteu, que posou

para a Playboy passando a

gillette na xereca.

Casa de bonecas

No alto da Ladeira da Preguiça, nas imediações

da Igreja de Nossa Senhora da Conceição

da Praia, na Cidade Baixa, fica a casa

das bonecas, um sobrado que abriga a pensão

de Tânia Moraes, uma baiana de Sento Sé,

município da região do rio São Francisco.

Tânia administra sua casa com mão-de-ferro

– quando precisa ser enérgica com as meninas

– e com zelo maternal – nos momentos em

que necessita ser compreensiva com as suas

protegidas.

Atualmente, moram 10 travetis na pensão.

“Eu sou a única mulher na casa e me dou bem

com todas. Tenho muitos anos vivendo com

as bichas. Aqui sou conhecida como mamãe”,

gaba-se Juliana Vieira. “Mamãe” e “madrinha”

são tratamentos dispensados pelos travestis

mais novos aos colegas ou prostitutas mais

velhos.

Em um dos quartos da pensão, Maria

Eduarda, um travesti magro e de cabelos oxigenados,

de 25 anos, arruma os cabelos de Karin,

de 28 anos, que pode facilmente se passar por

uma morena jambo. Karin se embeleza para

trabalhar à noite na orla marítima. Ela diz que

é formada em letras, pela Famasul, de Recife,

e que ensinava na Escola Luiz Guerra, em

Cabo do Santo Antônio, de onde saiu por

não suportar mais a perseguição dos alunos e

até dos colegas de magistério.

“Estou fazendo o que gosto. Eu não sei se

seria feliz se tivesse nascido mulher. Só tenho

raiva do preconceito, de homens que contratam

os nossos serviços de noite e de dia nos

olha com desprezo. Mariconas!”, devolve. Maria

Eduarda é de Petrolina (PE), tem curso de

cabeleireiro e também gosta da vida que leva.

“Gosto muito de me arrumar, de me produzir,

colocar maquiagem, usar tamancos, sandálias,

Ó paí, ó

De volta a Salvador para as

filmagens da série “Ó Paí,

ó”, o ator Lázaro Ramos

ficou impressionado com

a escalada da violência na

cidade. Notícias de chacinas

e execuções impressionaram

o ator, em visita a parentes na

Federação. Lázaro se assustou

com o clima de insegurança

no lugar e escreveu um artigo

para um jornal local. No texto,

ele lamenta que as pessoas não

possam “pôr o rosto na janela”

após horário determinado por

bandidos e afirma não acreditar

que a violência tenha se tornado

uma constante na cidade.

Paredão

Salvador e Simões Filho vivem

a expectativa do lançamento

de duas candidaturas para suas

câmaras municipais. Adriano

Castro, o Didi do Big Brother

Brasil 1, e Djairo Chagas, um

dos gêmeos que participaram

do BBB 6, ambicionam uma

vaga na câmara de vereadores de

suas cidades. Além de ex-BBB,

o soteropolitano Didi é artista

plástico. Já o simões-filhense

Djairo é músico, e disse que

não abandonará o ofício caso

seja eleito. “Se o Gilberto Gil

consegue ser ministro e cantor,

porque eu não conseguiria?”,

questiona.

muitas sandálias, batons, perfumes,

muito brilho”, revela.

“Sou mais eu do que qualquer

mulher”, desafia a desinobida

Karin. “Ela é danada

mesmo. Bonita. Poderosa”,

confirma Waleska, de 23 anos,

outra das meninas da pensão de

Dona Tânia. Segundo as fálicas

garotas , o programa varia de R$

50 a R$ 80 e, entre os clientes,

estão homens casados, jovens e

até viúvos. Para quem aprecia o

gênero, um programa mais barato

pode ser feito no “varejão”

das Sete Portas, onde o boquete

pode custar de R$ 10 a R$ 15.

Preocupada com a imagem da

classe, Milena Passos, que levou

a reportagem da Metrópole ao

harém dos travestis, se preocupa:

“Mas que pergunta é essa? Olhe, não vá

colocar nada negativo. Fale dos aspectos positivos

das travestis. Diga que a maioria é de

família pobre e discriminada no mercado de

trabalho. Diga também que, em Manaus, eu

tenho uma amiga travesti engenheiro civil, que

trabalha com um vistoso chapéu nos canteiros

de obra e algumas delas trabalham em lojas de

magazines”. Pronto! Tá dito, Milena.

Alessandra é loira, tem 25 anos, os peitos

grandes e experiência internacional, pois

trabalhou em Milão, a Meca dos travestis do

mundo inteiro, para onde pretende voltar.

Ela diz que cursou engenharia civil em Aracaju,

mas abandonou devido ao preconceito

e à discriminação. Alessandra garante que o

europeu é bem mais educado do que o homem

brasileiro e revela que, em Milão, o trabalho

é bem mais rentável, com o programa

começando em € 100 (em torno de R$ 500).

A “mamãe” dos travecos em frente à sua Casa das Bonecas

Alfinetadas

O autor de novelas Gilberto

Braga resolveu criticar algumas

das atrizes que já encarnaram

personagens suas. Depois de

dizer que não tinha “química”

com Vera Fischer, ele virou

suas baterias para Alessandra

Negrini, protagonista de

“Paraíso Tropical”. Segundo

Braga, Cláudia Abreu é quem

iria interpretar Paula e Taís,

mas engravidou. “Ela não tem a

empatia da Cláudia. Tanto é que

todos os prêmios quem ganhou

foi a Camila Pitanga (a Bebel).

Se Cláudia tivesse feito as

gêmeas, todos os prêmios seriam

dela”, sacaneou o noveleiro.

“Com o meu trabalho, consegui casa e carro

em Aracaju”. Orgulhosa de suas meninas,

“que não fazem muito barulho e não brigam

entre si”, Dona Tânia, a dona da pensão das

bonecas, confidencia: “Eu as trato como filhas.

Educo elas e elas me educam. Quando

uma dela chega braba, eu chamo e dou uns

conselhos”.

Agora, se o leitor que está no final desta

reportagem for um daqueles caras que perceberem

que mulher não é mesmo à sua praia,

só lhe resta deixar a preguiça de lado, subir,

arfante, à ladeira da pensão de Dona Tânia e

procurar uma das meninas para fazer um teste

drive, o iniciático T-D, como, no burburinho

e no borbulhar dos amores fálicos, é chamada

a primeira experiência com um travesti. Só

não pode, motorista imprevidente, derrapar

nas pistas, como Ronaldo que saiu do ataque

para reforçar a retaguarda. •

Revista Metrópole - junho de 2008

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Esporte

Os velhos pegueteiros

Os mais jovens talvez duvidem, mas a Avenida Centenário já foi circuito de corrida

Matheus Santana

O público que se aglomera nas calçadas

e barrancos reclama da demora. Todos estão

ansiosos para ouvir o ronco barulhento dos

motores envenenados. No mesmo instante,

a poucos quilômetros dali, o homem

mais poderoso do estado também não esconde

a irritação. Ele saiu cedo do Palácio

de Ondina, a fim de não se atrasar, mas o

engarrafamento na Ladeira da Barra o pegou

de surpresa. Na Avenida Centenário, a

multidão se empolga. Os 14 pilotos estão

enfileirados no grid de largada e nenhum

deles consegue disfarçar o nervosismo. A

maior preocupação é com a lama na pista. A

chuva fez um estrago grande e é preciso ter

cuidado para evitar derrapagens. Enquanto

isso, o motorista do veículo oficial ouve

calado os gritos do governador, que esbraveja

sem parar. A solenidade é no centro da

cidade e os dois sabem que vai ser impossível

chegar na hora certa. Dada a largada,

Arialdo Pinho, José Luis Bastos e Roberto

Fiúza partem na frente. Após a curva do

Calabar, Arialdo aproveita o menor peso de

seu carro e assume a ponta. Ele mantém a

liderança e vence a disputa atingindo quase

200 km/h no fim da reta do Chame-Chame.

Enquanto a bandeira quadriculada tremula,

o carro do governador não chega sequer aos

20 km/h.

A situação aconteceu há 36 anos, em

outubro de 1972. Foi a última vez que a

Avenida Centenário se transformou em

um circuito de corrida. No dia seguinte, as

competições automobilísticas foram proibidas

em Salvador. Uma sugestão do então

governador Antônio Carlos Magalhães acatada

pelo prefeito Clériston Andrade. Na

época, muitos concordaram com a medida

por considerar que as disputas

representavam riscos, além de

acarretar transtornos àqueles que

moravam nas áreas próximas, uma

vez que o trânsito era modificado

por causa dos eventos, gerando

engarrafamentos como o que tanto

aborreceu ACM.

“O couro comia!”

O empresário e fazendeiro

Carlos Medrado tinha 24 anos

quando chegou em quinto lugar

na competição derradeira de

1972. Ele era um dos bons pilotos

da época e o automobilismo estava

em primeiro lugar na sua lista

de atividades. Medrado passava a

maior parte do tempo dirigindo

automóveis ou trabalhando na

oficina. “A gente construía carro

com dinheiro da mesada. Nós deixávamos

de ir a festas para preparar

motores e fazer ajustes nos veículos”,

conta. Medrado está com

60 anos e guarda em um quarto,

ao lado da garagem de sua casa,

lembranças do tempo em que pisava fundo

no acelerador. São recortes de jornal, capacetes,

luvas, macacões e peças de carros.

Nas fotos, jovens pilotos com costeletas à

Emerson Fittipaldi - o ídolo do momento - e

os automóveis que faziam mais sucesso na

época. “Este Fusca aqui era o meu”, mostra

Mário “Português” hoje é dono de uma oficina na Barros Reis

FOTOS: COPERPHOTO

Medrado cheio de orgulho, “mas também

havia Puma, Karman Ghia, Alfa Romeo,

Simca Tufão e Ford Corcel”.

As provas na Centenário também contribuíram

para domar os “pegueteiros” da

época. Transformados em pilotos de verdade

(com carteirinha e tudo!), as loucuras ao volante

aconteciam apenas nas disputas oficiais.

“Éramos filhinhos de papai, sabe? Corríamos

por prazer e, antes da Centenário, fazíamos

muito ‘pega’ lá na Barra. O couro comia!”,

confessa Medrado. Sempre que passa de carro

pela avenida, a nostalgia pega carona e o

fazendeiro sessentão volta a ser, por alguns

segundos, o destemido piloto do passado. O

impulso inicial é o de acelerar até o limite,

mas a prudência adquirida com a idade dá

um freio no fugaz ímpeto juvenil.

Corações acelerados

Numa tarde de quarta-feira, antigos rivais

se reencontraram para dar uma entrevista.

Não foi fácil reunir tanta gente em um dia de

semana. Antes do papo, eles trocam olhares

e percebem as mudanças. Mário “Português”

está com o cabelo todo branco. Medrado

engordou. Babinho está mais calvo. José Luis

Bastos continua bonitão, mas virou um galã

enrugado. Para sujeitos acostumados com a

velocidade, é um choque perceber como a

vida corre tão depressa. Os dez homens reunidos

no canteiro que divide as duas pistas

da Centenário são ex-mecânicos e ex-pilotos

que aceleravam muito na avenida nas décadas

de 60 e 70.

Não era necessário fazer perguntas. Bastava

ficar quieto e ouvir a conversa - rica

em detalhes - para voltar no tempo, sentir o

cheiro da borracha dos pneus, ouvir os gritos

do público e o som dos motores mais potentes

da cidade. “Era um poste por segundo de

As provas na Avenida Centenário também

contribuíram para domar os “pegueteiros”

daquela época

um lado e o córrego do outro lado. A gente

tinha de andar bem certinho porque senão

batia no poste ou tomava banho no riacho”,

relembra José Luis Bastos.

Os 3.090m do circuito eram percorridos

no sentido contrário ao fluxo de veículos

dos dias normais. “Isso evitava que o pessoal

ficasse treinando durante a semana e fazendo

maluquice”, explica Medrado. Uma das curvas

preferidas da turma era a que fica entre

o Shopping Barra (que só foi construído 15

anos depois) e o final da Rua Celso Torres,

na Graça. “Eu fazia ela quase toda com o pé

lá embaixo”, gaba-se José Luis. Esta mesma

curva é um problema para quem trafega hoje

pela Centenário. A inclinação que favorecia

os pilotos é um desafio para os atuais motoristas.

Muitos derrapam e alguns até já

caíram com seus veículos no córrego central.

A emoção do passado está na contramão da

imperfeição do presente.

O papo entre eles prossegue quase sem

vírgulas. Os assuntos se fundem. Cada

personagem relembra uma boa história e

enquanto uma é contada, outra entra na

pauta sem que a anterior tenha terminado.

As recordações fazem os olhos de Mário

Monteiro ficarem cheios de lágrimas. “Era

lindo”, diz baixinho. Mário nasceu em Portugal,

numa pequena vila chamada Soito, na

Serra da Estrela. Desde menino, era apaixonado

por carros. Veio morar em Salvador aos

18 anos para aprender mecânica com o tio

Manoel Martins Monteiro, dono de uma oficina

na Barroquinha. O tio o ensinou também

a dirigir. Mário foi piloto, mas a grande

Revista Metrópole - junho de 2008

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14

especialidade era preparar motores. Com o

sotaque lusitano que jamais deixou de ser sua

marca, Mário conta que “adorava trabalhar

nos carros. Tinha tudo nas mãos e quando

não tinha, fabricava”. Aos 75 anos, passa o

dia vestido com um macacão azul surrado

e sujo de graxa. Ele é dono de uma oficina

na Avenida Barros Reis. “Não vou parar de

trabalhar com isso nunca”.

Lulu Geladeira, o mito

Qualquer um que tenha competido nas

corridas da Avenida Centenário ou simplesmente

ouviu falar nessas disputas não titubeia

ao ouvir a pergunta sobre quem foi o

melhor piloto da época. Um nome se impõe

com a força de um motor de 500 cavalos.

“Lulu Geladeira foi o professor de todos

nós”, diz José Luis Bastos. “Lulu era o mais

experiente, o que mais conhecia de mecânica

e o que tinha o melhor carro”, analisa Medrado.

Mário Monteiro define Lulu como

“o mais corajoso e o mais raçudo”.

Marcar uma entrevista com o lendário

piloto é como guiar em asfalto com óleo.

Qualquer vacilo e você sai da pista. Eu fiquei

no vácuo durante quase uma semana e

jamais deixei que ele se distanciasse muito.

Nos primeiros telefonemas, Lulu evitou me

dar o endereço de sua residência, apesar de

eu ter insistido bastante, e alegou falta de

tempo para entrevistas. “Eu te ligo quando

der”, prometeu. Nunca ligou. Fiquei ainda

mais curioso. O que um homem de 80 anos

faz que o deixa ocupado por tantas horas?

Após algumas tentativas, consegui. Ele

finalmente me disse onde morava e pediu

que eu o visitasse durante a noite. Esperei

por mais de uma hora até que finalmente

Luis Pereira dos Santos apareceu. O mito

das pistas é um senhor baixinho (cerca de

1,60m) cabelo branco e usa óculos de lentes

grossas. Chegou com um bonezinho da

Ferrari perguntando se a entrevista seria

rápida. Não foi, mas ele não reclamou.

Ao contrário do que os preparativos

Com seu Puma envenenado, Lulu Geladeira se tornou o único grande ídolo do automobilismo em Salvador

pareciam indicar, a conversa foi tranqüila e

o entrevistado se mostrou bastante receptivo.

Lulu não é um mito por acaso. Ele venceu

todas as corridas que disputou na Centenário

(na última, em 1972, não participou) e também

no circuito Virgílio Távora, em Fortaleza.

Era mais velho que a maioria dos pilotos

daquela geração, começou a participar de

provas de rua na década de 50, quando as

disputas eram realizadas no Farol da Barra.

Quando a Avenida Centenário entrou em

cena, Lulu era o mais profissional entre os pilotos

amadores da cidade. Fez parte da escuderia

AF, comandada por Caria Ribeiro, um

empresário apaixonado por automobilismo.

“Nós sempre desenvolvíamos uma novidade

nos carros. Quando as outras equipes conseguiam

imitar, a gente já havia inventado

outra coisa diferente”. Lulu conta que, desde

aqueles tempos, a mulherada se empolgava

com os pilotos e que o mais vencedor era

também o mais assediado. “Um enxame,

rapaz! Só que eu já era casado e não dava

espaço”, diz Lulu com jeito tímido.

Com seu Puma envenenado, Lulu Geladeira

se tornou o único grande ídolo do

automobilismo em Salvador. A origem do

apelido não tem nenhuma relação com a

frieza nas pistas. Luis trabalhava desde a adolescência

em uma empresa de refrigeração.

Os motores de geladeira foram os primeiros

com os quais ele teve contato.

No fim da entrevista, tirei a dúvida sobre

as atividades diárias de Lulu. Ele é aposentado,

mas continua trabalhando. Faz serviços

de manutenção em máquinas industriais.

Perguntado se um dia voltaria a competir,

Lulu Geladeira deu a resposta que se espera

de um campeão. “Só se for em um bom carro

e eu sentir que tenho condição de vencer. Só

assim eu volto”. •

Fucs-Fucs

Este é um espaço dedicado a quem gosta e a quem tem curiosidade pelo tema “Sexo”. Aqui os leitores podem

tirar suas dúvidas com a sexóloga Gilda Fucs. Basta enviar sua pergunta para fucs@revistametropole.com.br

que nós publicaremos. Não se preocupe se você é broxa ou frígida, sua identidade será mantida em sigilo.

P, 42 anos, solteiro

Queria sua opinião sobre como o homem atual se sente perdendo

a totalidade do controle na hora do sexo.

Gilda Fucs - Uma relação sexual não deve ser um cenário de

adversários, que substituem a busca de proporcionar prazer mútuo

por uma disputa de quem domina, garantindo, assim, uma

imagem e um poder maiores. É um ato de intimidade máxima e

de entrega bilateral, onde ambos devem proporcionar ao outro

tudo o que mais os excita e agrada, desde, porém, que não atinja

seus valores morais e éticos.

Seu fã, 55 anos, casado

Ando muito preocupado e muitas vezes, até no trabalho,

eu fico pensando na minha ereção, que tem diminuído a

cada dia, chegando até a falhar. Sei que a mulher tem prazer

quando é penetrada. Adoro minha mulher e nem quero

imaginar vir a perdê-la.

Gilda Fucs - Por séculos, o homem considerou o seu pênis o

único patrocinador físico e emocional do orgasmo e prazer femininos,

isso acontecendo num ato de penetração. Sempre achou também

que o clímax da relação acontece com o momento simultâneo do

orgasmo da mulher e da ejaculação

masculina. Para os

seguidores dessa idéia, haverá

uma preocupação e uma cobrança

constantes de ereção,

o que agora gera ansiedade,

podendo resultar em toda

sorte de disfunções eréteis.

A mulher não obrigatoriamente

precisa, para obtenção

do seu orgasmo, ser penetrada

pelo pênis; é muito ou tão

importante para ela ser simbolicamente penetrada, afetiva e emocionalmente.

Mulher precisa ser bem acariciada, ser alvo de preâmbulos

demorados nos locais e da forma que mais a excita e aí sim o orgasmo

pode vir. Agora a coincidência de ambos terem o orgasmo ao mesmo

tempo é uma idéia totalmente ultrapassada.

J, 20 anos, solteiro

Não sei se gostaria que uma menina de 19 anos com quem

estou saindo soubesse que só transei uma vez. Há necessidade de

ela saber? Como posso fazer a transa bem gostosa para ela?

Gilda Fucs - Você é quem tem que examinar se “há necessidade”

de ela saber. Mas se der vontade de contar, conte. Tem gente que só

transou uma vez, mas que é ótimo porque já havia captado “a alma”

do que é uma relação.... Tudo que você já sabia fazer de gostoso antes

você terá de fazer na transa. O resto, na penetração, seria legal que

ambos não perdessem a oportunidade de passar pela experiência única

na vida, na qual os dois exploram as sensações juntas, descobrindo

aos poucos.

P, 31 anos, solteiro

Quando me interesso por alguém, meu sentimento começa de

formas opostas: sinuosa ou direta. A paixão pode começar estrondosa

ou do nada, achando a pessoa carismática e interessante. Então,

quando me dou conta, estou apaixonado. É normal?

Gilda Fucs - Sua pergunta diz respeito a uma célebre questão: é

normal ser quem a gente é? É normal ter uma dinâmica de namorar. É

absolutamente normal ter dois ou três modos de se apaixonar. Imagine

se você não dispusesse de um modo, uma linguagem ou uma forma

de se apaixonar e isso ficasse solto no nada? Para ficar mais sossegado,

talvez, você preferisse saber de antemão se existem outras pessoas assim,

se seu jeito já foi testado, se está completamente divulgado e se você está

no caminho certo. Está tudo bem com seu modo de receber as ondas

da paixão, ora em ondas lentas, ora em ondas que quebram tudo. •

Revista Metrópole - junho de 2008

15


16

Juliana Cunha

Curriculum vitæ: subempregos

O horário do trabalho era 14h. Eu chegava

14:15h e ficava sentada na escada do saguão.

Aí, quando dava 14:30h, entrava na sala da

produtora bem devagarzinho, me espremia

entre as caixas até chegar na minha mesa

e espalhava tudo que estivesse na minha

mochila pela mesa, pra parecer que estava

lá há dias. Quem chegava à sala pensava que

eu estava confinada ali, que morava ali. Tinha

lencinho umedecido, sanduíche embalado em

papel laminado. 14:50h o pescoço do chefe

pendia para a esquerda e ele acordava. Era sempre

para a esquerda e quase sempre14:50h. Daí

ele me olhava sentada na minha mesa cheia de

coisas, convicto de que eu sempre estive ali e ele

sempre esteve acordado.

No meu segundo emprego, o horário era 13:30h,

mas o chefe havia assistido a uma palestra motivacional e

achava que a gente devia chegar sempre antes dos nossos

superiores. Então o horário é 13:00h, concluí. Não,

o horário é 13:30h, ele disse.

No dia em que fui contratada para o terceiro

emprego, o encarregado do RH disse que nosso

horário seria flexível, “afinal, vocês trabalham

com criação, criatividade”. A gente chegava às

8h e podia sair assim que o trabalho terminasse.

Ou seja, nunca. Foi aí que eu contraí Síndrome

de Estocolmo e comecei a gostar dos chefes.

Ainda não me considero curada, mas nunca

mais trabalhei em um lugar que não tivesse relógio

de ponto.

Quando eu voltei do programa de estágio na Disney,

me senti altamente preparada para o mercado de trabalho. Por

três meses, fui explorada por profissionais. Olhava para as gerentes

de RH brasileiras e pensava: amadoras. Nenhuma dinâmica de duas

O Mickey era cheio de dignidade.

Ele chegava em casa e ouvia

música clássica. Meu aceno como

Mickey faria Al Pacino pensar:

isso é que é classe

horas de duração, nenhum processo seletivo com quinze etapas teria

o mesmo efeito da frase “in our country” que as RHs da Disney

encaixavam de quando em quando. Lá eu era o Mickey. Se o serviço

fosse no Brasil, bastaria que me vestisse de Mickey e curtisse o cheiro

de chulé de dentro daqueles bonecos. Mas na Disney não. De noite,

Juliana Cunha, 20, é escritora e estudante de Letras. juliana.cunha@revistametropole.com.br

quando nos colocavam nos beliches, eu abria o laptop debaixo do

lençol e assistia repetidas vezes aos filmes do Mickey. Logo reparei

que não poderia acenar rebolativamente como uma Margarida

qualquer. O Mickey era cheio de dignidade. Ele chegava em casa

e ouvia música clássica. Meu aceno como Mickey faria Al Pacino

pensar: isso é que é classe.

Comecei a trabalhar como caixa em uma franquia do McDonald´s.

Os funcionários das filiais que pertenciam à corporação vestiam fardas

feitas por Alexandre Herchcovitch. Eu tinha que usar adereços

natalinos no natal, pascais na Páscoa e por aí vai. Eu não era o papai

Noel. Do pescoço para baixo, era uma funcionária do McDonald´s

comum. Do pescoço para cima, surgiam adereços carnavalescos,

antenas de Chapolin... Era o traço pessoal dos donos da franquia. No

São João, tinha que afastar a cortina de palha que me cobria os olhos

para conferir o troco. Foi então que entrei para a CUT e formulei a

proposta de Adicional por Humilhação Pública. •

Revista Metrópole - junho de 2008


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Polícia

Pedagogia do medo

Estudantes aprendem o ABC do crime dentro das escolas de Salvador

F. Pelosta e A. Costa Pinto

Professora de inglês, Renata (nome fictício)

é um farrapo emocional. Atravessa

apressada os corredores da Escola Estadual

Luiz Viana Filho, em Brotas, para

refugiar-se na diretoria. Trêmula, acaba de

ser ameaçada em plena sala de aula por um

dos seus alunos, um adolescente que não

aparenta ter mais de 17 anos, mas já tem

sangue nos olhos. Na primeira semana de

junho, a Metrópole flagra o momento de

desespero: “ele disse que eu nunca mais vou

voltar a dar aula na vida”, denuncia.

COPERPHOTO

Quem manda na sala de aula é um tal

de Lulinha (nome também fictício). Aliás,

ele e um grupo de arruaceiros que não

deixa a professora Regina “contribuir para

a formação de jovens”. A diretora tenta minimizar

o fato; mesmo tendo sido obrigada

a chamar a polícia diversas vezes, considera

natural o comportamento do adolescente.

Talvez porque ela mesma não queira enxergar

que vive cercada, na sua própria sala,

de armários e gavetas trancafiados com correntes

e cadeados. “A gente vê muitos furtos,

sabe? Mas os alunos não chegam a assaltar,

não”, subestima. Já Renata não foge

à realidade: “é triste

dizer isso, mas

eles são uma

gangue”.

Está claro

que ali não é o professor que dá as ordens.

Uma espécie de pedagogia às avessas parece

ter roubado a tranqüilidade daquela

e de muitas outras instituições de ensino

de Salvador. As 37 ocorrências mensais

registradas, em média, pela Ronda Escolar

da Polícia Militar, com base nos dados

fornecidos de 2007, não dimensionam a

real situação. A Delegacia do Adolescente

Infrator (DAI) registra por semana cinco

queixas de violência.

Histórias de brigas, tiroteios, rixas de

grupos, uso de drogas, tentativas de assassinatos

e homicídios propriamente ditos

tornaram-se parte da rotina educacional.

Um aprendizado de violência. Titular da

DAI, a delegada Claudenice Matos declarou

à imprensa que uma das soluções seria a instalação

de detectores de metais nas escolas.

Uma espécie de

pedagogia às avessas

parece ter roubado a

tranqüilidade daquela

e de muitas outras

instituições de ensino

de Salvador

Em 28 de março, três homens não tiveram dificuldades em

fuzilar com seis tiros no tórax e na cabeça o estudante Renan

Pereira dos Santos, de 15 anos, no pátio do Colégio Estadual

Francisco da Conceição Menezes, no Cabula V. Renan cursava

a 7ª série no Colégio Roberto Santos. Os homicidas saíram de

bicicletas sem serem incomodados. Ninguém os identificou.

Assim como não há quem fale publicamente sobre o tiroteio

entre traficantes na rua dos dois colégios em fins de maio. Os

criminosos disputam a boca-de-fumo na localidade próxima

de Timbalada.

O tráfico aparece como pano de fundo na maioria dos casos.

E nessa guerra ficam sitiados professores, alunos e funcionários.

Exemplar é a suspensão das aulas decretada por bandidos nas

escolas do Alto das Pombas e do Calabar, em 12 de junho. A

briga entre traficantes de duas escolas no bairro do Garcia e

do Calabar impediu que os alunos fossem à escola. “Muitos estudantes

que moram

em outros bairros pedem

transferência. Os

traficantes não deixam”,

confirma um

funcionário da Escola

Estadual Hildete Lomanto,

no Garcia.

A polícia denuncia

casos em que o

crime organizado

chega a matricular

seus “soldados” nos

colégios. São supostos

alunos que vão

todos os dias para

a escola, mas não

se registra qualquer

freqüência deles nas

cadernetas. “Infelizmente,

o tráfico descobriu esse filão e se encontra infiltrado nas

escolas. É um público muito mais fácil de cooptar”, diz o comandante

da Ronda Escolar, capitão Ubiracy Vieira. As instituições

instaladas em bairros tomados pelo tráfico são as mais problemáticas.

Tanto que a Ronda Escolar não tem trégua em colégios do

Nordeste de Amaralina, Santa Cruz e Boca do Rio.

Numa audiência pública que debateu a criminalidade no entorno e

dentro dos colégios - na sede do Ministério Público Estadual (Nazaré),

realizada em 13 de junho -, a promotora Márcia Guedes afirmou que a

presença dos criminosos gera evasão. “Quem estuda nesses lugares acaba

por faltar às aulas com medo de se tornar mais uma vítima”.

Mas não só faltam os que ocupam as carteiras escolares. A continuar

a escalada de terror nas escolas da periferia, aos poucos se sentirá a ausência

também daqueles que ensinam. “Estou cansada deste trabalho”,

repetia, exausta, a professora Renata.

Rixas acabam em morte

Fonte: Ronda Escolar da PM (2007). Não foram fornecidos dados em relação ao ano de 2008.

Mas quando o tráfico não dá as cartas, os próprios alunos se

encarregam de perpetrar atos de violência. Em maio, uma briga

entre dois estudantes do Colégio Polivalente, no Cabula, quase

termina em morte. Depois de uma discussão, um deles foi embora,

mas voltou

armado. “A sorte

é que avisaram

ao outro, e ele se

intocou por aí”,

conta um aluno

do 2º ano do ensino

médio. Por

diversas vezes, a

polícia foi chamada

para coibir

ações dos bandos.

Com freqüência,

súcias de estudantes

do próprio

Polivalente

pulam os muros

baixos do colégio

vizinho, a Escola

Estadual Visconde de Itaparica, para roubar os pertences

de outros estudantes. “Temos alunos mais novos, apenas do

ensino fundamental. Eles se aproveitam disso para roubar

aqui dentro”, denuncia o próprio vice-diretor da Visconde

de Itaparica, João Max de Oliveira.

Revista Metrópole - junho de 2008

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20

A rivalidade entre grupos de adolescentes

nas escolas muitas vezes pode

ser fatal. Volta e meia, um novo caso de

morte nas imediações ou até dentro das

instituições de ensino retorna às páginas

dos jornais. O último assassinato desse

tipo aconteceu em abril, quando um estudante

de 13 anos, do Centro Educacional

Santa Rita, disparou contra a cabeça

do rival Ruan Sérgio da Silva Ferreira,

16 anos, aluno do Colégio Adventista

de Itapagipe, ambos situados no Bairro

Machado. Em uma briga por um estojo

no Colégio Estadual Henriqueta Marques

Catharino, no Engenho Velho da

Federação, uma garota de 14 anos levou

uma facada na cabeça, aplicada por uma

colega. O uso de armas de fogo por es-

Volta e meia, um novo caso de morte nas

imediações ou até dentro das instituições

retorna às páginas dos jornais

tudantes também é apontado como fato

comum pela própria polícia. Segundo

a Ronda Escolar, recentemente foram

apreendidos revólveres e pistolas nos colégios

Manoel Devoto, no Rio Vermelho,

e no Rômulo Almeida, na Boca do Rio.

Particulares tentam

camuflar violência

Um fiscal de corredor com pé quebrado

ao tentar segurar um aluno no Antônio

Vieira, no Garcia; encontros nada amistosos

entre mini-gangues desse mesmo colégio

e o do Dois de Julho; um outro estudante

flagrado com um canivete no Isba,

em Ondina. Os dados da Ronda Escolar

registram apenas 20% das ocorrências nas

escolas particulares. Dirigentes do Sindicato

dos Professores no Estado da Bahia

(Sinpro) afirmam que colegas não fazem

denúncias por medo de represálias. Já as

direções das instituições negam a existência

do problema. •


Alexandre Soares Silva

Eles que começaram

Nelson Rodrigues tentou reabilitar a

palavra “reacionário”, aceitando que o chamassem

assim e escrevendo um livro sobre

si mesmo, e as suas idéias, com esse título.

Mas ao mesmo tempo desdisse tudo declarando

que “no duro, no duro, eu não sou

reacionário”, e “eles, marxistas, é que são

reacionários”. Foi, portanto, uma tentativa

flácida de reabilitação da palavra.

Bom, eu sou reacionário, no sentido

simples de que todas as minhas idéias políticas

são uma reação às idéias políticas dos

outros. De nojo, para ser claro. Se nunca

ouvisse uma idéia política, não teria nenhuma

para contrapor, e realmente não

choraria por isso.

Todos os meus heróis foram assim:

gente sem idéia política nenhuma, mas

que desenvolveram algumas por nojo. Não

tinham a menor idéia de como organizar a

sociedade - de como distribuir água, dividir

poderes, taxar galinhas, proibir vacas,

criar leis, legalizar isto ou criminalizar

aquilo - e nem queriam ter. Não nasceram

com almas de síndico, não faziam política

estudantil.

Esse tipo de pessoa favorece um mercado

livre e um estado nanico porque esse é o

sistema menos chato de todos. Não quero

que o estado se envolva na produção de

manganês porque não quero participar de

tamanha chatice, e se deixasse isso na mão

dos políticos teria que me interessar pela

coisa de alguma maneira. É tão melhor

deixar que o mercado tome conta disso. Só

depois vêm análises do quão mais eficiente

o mercado é do que o governo para fazer

quase qualquer coisa no mundo. Acho bom

quando provam isso, mas no fundo nem

precisava dessa confirmação para preferir

um sistema que me permite refocilar gostosamente

na minha necessidade existencial

de não-envolvimento em chatices.

Nunca vi um aluno com

talento para alguma coisa real

se envolver com

política estudantil

Mas quem nasceu com alma de síndico

não pode permitir que tudo se resolva

assim tão facilmente. Aí entra a esquerda.

Acredite, eu não nasci de direita, e a rigor

nem sei o que é isso. De fato ninguém de

direita sabe muito bem o que é a direita

– só temos uma reação natural de horror

a essa aberração que é uma pessoa de

esquerda. Irmanados nesse horror, ou se

preferir, nojo (é um pouco dos dois), algumas

pessoas sentem a necessidade de lutar

contra essa criatura - o Político Estudantil,

o Síndico do Mundo - e formam vários

tipos de movimentos: conservadorismo

burkeano, libertarianismo randiano, etc

etc, embora o que exista no início não seja

nem razões nem paixões políticas, mas só

um nojo reacionário e sensato.

Nunca vi um aluno com talento para

alguma coisa real se envolver com política

estudantil. Um aluno com talento para

medicina vai se ocupar de medicina, um

com talento para física vai se ocupar de

física e um com talento nenhum vai se

ocupar de organizar e chatear todos os

outros. Vai interromper aulas e ir até a

frente e propor coisas que vão variar entre

o cretino, o absurdo e o pífio. Vai falar

com a paixão política que caracteriza as

pessoas de esquerda – porque lhes dou

isso, são eles que realmente se interessam

por essas coisas.

Enquanto isso, no fundo da sala, eu

e as pessoas como eu batemos a testa no

tampo da mesa, suspirando e dizendo Jesus

Cristo e esperando que a aula volte

ao seu curso. De tanto nojo, às vezes desenvolvemos

filosofias contrárias, e nos

tornamos politizados e tal. Mas foram

eles que começaram. •

Alexandre Soares Silva, 39, é tradutor e escritor, com quatro livros publicados.

alexandre.silva@revistametropole.com.br Revista Metrópole - junho de 2008 23


24

Antonio Risério

Será que é por aí?

“Somos jovens jovens jovens”. Começava

assim – direto, sem vírgulas – um

poema de que eu gostava muito, quando

jovem. E de que continuo a gostar ainda

hoje. Um poema russo de princípios do

século que passou. Seu autor? Se não me

falha a memória, Burliuk, agitador de

primeira, na linha de frente do experimentalismo

russo, naquela época. Sujeito

extravagante, criativo, ousado, amigo de

Maiakóvski, militante “futurista”. Do

mesmo Maiakóvski que, num daqueles

seus rasgos poéticos bem típicos, declarou

em alto e bom som, com todas as letras,

que jamais chegaria à “indecente idade

do bom senso”. Maiakóvski e Burliuk:

jovens jovens jovens – para sempre.

Mas o que é mesmo “ser jovem”? Eis aí

uma coisa que varia no tempo e segundo

as diversas configurações culturais dos

grupos humanos, diriam historiadores

e antropólogos. É engraçado. O próprio

conceito de “jovem”, de “juventude”, vai

mudando no tempo. Mas é assim mesmo.

Dizem os historiadores que a invenção

da “infância” é algo recente. Que houve

épocas e lugares em que a “infância”

não foi vista, percebida e definida como,

digamos assim, uma fase ou etapa específica

da vida do ser humano. Uma crian-

O próprio conceito

de “jovem”, de

“juventude”, vai

mudando no tempo

ça era, então, percebida e tratada como

uma espécie de adulto-em-miniatura. A

criança-criança, criança como tal, seria

criação histórica e culturalmente recente,

no mundo ocidental-europeu. Daí aquelas

crianças vestidas com roupas de gente

grande que aparecem em desenhos e outros

coloridos de muito antigamente.

Mas por que é mesmo que estou falando

disso? Ah, sim, porque o jovem

e a juventude, tal como hoje os vemos,

retratamos e pensamos, também não

existiram assim desde sempre. As classificações

das diversas fases da vida das

pessoas são mutáveis, descoincidentes.

Sempre que falo, em certos meios, que a

América, no século 16, foi uma aventura

da juventude européia, acabo tendo de

me explicar. Sim, Diogo Álvares Caramuru

chegou “muito moço” à Bahia –

mas que juventude era mesmo aquela?

O que era ser “muito moço”, em fins da

Idade Média, iniciozinho do

“mundo moderno”?

Recorro sempre, aliás, ao

historiador português Oliveira

Marques, que cita, a propósito,

a “teoria das idades”

estabelecida por um rei também

português, D. Duarte. O

rei delimitava a “adolescência”

entre os 14 e os 21 anos de

idade, idade em que o sujeito

ingressava no período da

“mancebia”. Dos 14 anos em

diante, dizia o rei, as pessoas

já se achavam em idade de

casar. Ao chegar aos 21, tinham

acabado de crescer. Aos

28, “percalçavam toda força

e verdadeiro fornimento do

corpo”. Quando chegavam

aos 35, começava o declínio,

caminho sem volta da velhice.

Velhice que se instalava de vez

quando o indivíduo completava

seus 50 anos de idade,

bem ou mal vividos.

E por que a América foi

uma viagem-aventura da juventude

européia? Bem, Caramuru

deve ter chegado por

aqui tendo entre 14 e 18 anos

de idade, não mais que isso.

Cortez, o terror do México,

veio com 19 – a mesma idade

que tinha José de Anchieta

quando desembarcou na Terra

do Brasil. Estácio de Sá foi

governador aos 17 anos. E assim

por diante, que exemplos

não faltam. Aliás, o cronista

João de Barros, em “Décadas

da Ásia”, fala da “mancebia

juvenil” que embarcou na esquadra de

Pedro Álvares Cabral, naquela viagem em

que as embarcações acabaram avistando o

Monte Pascoal e a turma desceu em terra

firme pisando na areia da região de Porto

Seguro, onde moças índias andavam

ainda mais nuas do que as mocinhas que

hoje circulam ali pelos litorais do Arraial

d’Ajuda e de Trancoso, velha aldeia catequética

dos jesuítas.

Mas passemos das moças índias às atuais

mocinhas de tanga e topless. De uma a

outra “juventude”. No caso de um rapaz

tupinambá ou tupiniquim, por sinal, as

coisas pareciam mais claramente definidas.

Quando o menino tupi nascia, ganhava

logo uma miniatura de arco e flecha. Crescia

aprendendo a usar aquilo. Treinando

sempre mais a pontaria. Na caça e na pesca,

evidentemente. Mas o grande lance

era mesmo acertar um alvo humano, um

índio de alguma aldeia adversária. Mesmo

porque só depois que matasse um outro

índio, de uma outra aldeia, o rapaz tupi

tinha o direito de casar, de ter a sua mu-

lher, a menos, é claro, que preferisse ir

para a rede com outros homens, já que a

veadagem era coisa comum entre aqueles

indígenas.

Hoje, pelo menos para mim,

a “juventude” se tornou um conceito

meio complicado, porque

mais me sugere uma espécie de

definição pelo avesso. Quer dizer,

a definição é só aparentemente positiva,

afirmativa. Mas, reparando

bem, ela vai se mostrar como uma

definição pela negação – ou, talvez

mais verdadeiramente, por uma

soma de renúncias. Não quero

fazer nenhum ensaio ou breve estudo

aqui, mesmo porque não me

sinto preparado para isso. Não sou

estudioso do assunto, nem vivo

pensando sobre o tema.

Mas que o eventual leitor faça

um teste. Pergunte a alguém de

classe média, por exemplo, a um

amigo casado, que já tenha ultrapassado

a casa dos 30 anos de idade,

tenha filho ou filha, emprego

e casa ou apartamento alugado,

como ele vê “o jovem”, como define

“a juventude”. Aposto que o tal

amigo, se não for muito estúpido

ou desligado, vai dizer mais ou menos

o que se segue. Que o jovem é

uma pessoa ainda atravessando um

período de indefinição na vida,

buscando verdades, fazendo escolhas,

testando possíveis caminhos.

Que a juventude é um tempo de

experiências e riscos. Que jovens

são afoitos e irresponsáveis – e que

até mesmo têm o direito de ser

irresponsáveis, porque ainda não

assumiram a barra de constituir

família, ter de trabalhar, pagar escola

das crianças, etc., etc.

Ou seja: o jovem é a pessoa que

ainda não é um adulto. Óbvio, não

Antonio Risério, 54, é antropólogo, poeta e escritor. antonio.riserio@revistametropole.com.br

é? Dito de outro modo, seu amigo adulto

define a juventude pelas renúncias que

Pena, como diz a garotada, que

não exista “ctrl z” na vida

ele teve de fazer para deixar de ser jovem.

Renunciar ao risco, à indefinição, à procura,

às experiências, à irresponsabilidade.

E esse retrato é ambivalente. O sujeito

que renunciou a tudo isso – renunciou a

ser “jovem jovem jovem”, instalando-se

na “indecente idade do bom senso” –, ao

mesmo tempo que aceita que a juventude

é assim mesmo, a encara de dois ângulos.

De um, acha que a juventude é algo que

precisa ser deixado para trás. De outro,

idealiza esta mesma juventude. Idealiza

o monte de coisas a que foi obrigado a

renunciar – para se tornar adulto.

É claro que isso não é tudo. Estou falando

da visão adulta mediana da média jovem,

digamos, em péssimo português. Embora,

de certa forma, a visão da juventude

como “categoria sociológica” particular,

específica, na verdade, não vá muito além

disso. Encontramos, também aí, a visão

da juventude como “fase preparatória”, da

juventude como período de adestramento

social, de ajustamento produtivo. Psicólogos,

por sua vez, tratariam essa mesma

transitoriedade em termos afetivo-sexuais

e coisas do gênero. De qualquer sorte, para

lembrar os pássaros, a juventude aparece

como um tempo de “muda”: da plumagem

de cores variáveis, plumagem indecisa e

cambiante da juventude, para a plumagem

monocromática estável da vida adulta.

Só que, como o lance não é meramente

biológico, a troca de plumagem implica

renúncia de cores e nuances.

Mas será que tem de ser assim mesmo?

Não sei. Não sei nem mesmo porque, de

repente, sem mais nem menos, comecei a

escrever sobre essas coisas. Talvez porque

esteja ficando velho, quem sabe. Embora,

como no verso de Burliuk, me sinta “jovem

jovem jovem”. E ainda esteja longe

de ingressar – se é que um dia o farei – na

indecente idade do bom senso. Pena, apenas,

como diz a garotada, que não exista

“ctrl z” na vida. •

Revista Metrópole - junho de 2008

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anuncio

anuncio

Revista Metrópole - junho de 2008


FHC

Metrópole Entrevista

Fernando Henrique foi por duas vezes

consecutivas, presidente do Brasil

(1997/2003) e se distinguiu como

professor e pesquisador. Viveu exilado

no Chile e na França durante parte

do regime militar. Voltou ao Brasil

em 1968, quando assumiu, através de

concurso público, a cátedra de Ciência

Política da USP. Eles nos recebeu em

sua sala no Instituto FHC, em São

Paulo, e falou sobre a perseguição

que sofreu durante o regime militar, a

formação política de Lula, a intervenção

do Banco Econômico, a vinda da

Ford para a Bahia e afirmou que o

presidente da República que ele mais

admira é Getúlio Vargas. No dia

da entrevista, a ex-primeira-dama

Ruth Cardoso estava viva e durante

a conversa ele citou como D. Ruth

esteve presente na sua trajetória.

FOTOS: GERALDO MELO

“O Lula é macunaímico, é

um herói que não tem

características específicas,

que se adapta ”

Revista Metrópole – Presidente, há pouco

tempo, quando Zuenir Ventura fez o livro sobre

Maio de 68, ele me disse que havia uma relação

de amor e ódio entre o senhor e o presidente

Lula. É verdade isso mesmo?

Fernando Henrique Cardoso – Ódio não.

Nem dele por mim, nem de mim por ele.

RM – E amor?

– Aí talvez seja verdadeiro, pois temos

uma história comum. Eu sempre gostei

do Lula como pessoa. O Lula é brasileiro,

ele é macunaímico, é um herói que não

tem características específicas, não no

sentido de mau caráter, ele uma vez se definiu

como uma metamorfose ambulante,

se adapta e tal. Ele tem muita empatia,

então, mesmo agora, quando encontro

com Lula, a relação é normal. Não acho

que ele tenha ódio por mim.

RM – Mas quando você faz críticas ao governo

dele, ele fica muito zangado...

– Ele fica sim. E para as críticas que ele

fazia a mim, que eram muito mais pesadas,

eu nunca liguei. Ele nunca chegou a mim

e disse nada. Nos últimos tempos ele tem

andado menos obcecado comigo, fazendo

menos comparações descabidas. Cada

governo vive um momento diferente, não

tem porque ficar comparando, são outras

circunstâncias. Quando Lula foi candidato,

na primeira eleição contra o Serra, ele foi lá

ao Palácio, já como presidente eleito. Era a

primeira vez que ele ia lá e eu convidei ele

pra jantar porque tinha uns presidentes do

Mercosul. Ele chegou antes e ficamos andando

nos corredores do Palácio quando ele

perguntou o que eu achava do slogan “Lulinha

paz e amor”. Eu disse que havia achado

bom porque ele era um pouco disso mesmo

e não era um slogan falso. O Lula é basicamente

um dirigente sindical, portanto, um

negociador. Quando o Lula diz, e ele diz isso

com freqüência, “ah, eu não sou de esquerda

nem de direita”, é verdade. “Eu sou torneiro

mecânico”, ele sempre disse essas coisas,

os outros que não acreditavam que ele fosse

assim. Por outro lado, como ele sempre foi

esperto, ele usou o PT pra subir e as outras

pessoas achavam que o Lula era a mesma coisa

que alguns porta-vozes do PT. O Lula era

basicamente um líder sindical, um negociador

e um conservador, não é uma pessoa que

queira quebrar as coisas. Eu diria que ele tem

um temperamento menos reformista que o

meu, ele quer ajeitar. No fundo, a ideologia

do Lula é a do catolicismo popular, pessoas

de boa vontade que sentam ao redor da mesa

e resolvem as coisas. Não é do catolicismo da

esquerda, que quer luta de classes. Quando

ele chama o Bush de “meu companheiro”, o

pessoal aqui treme de emoção, isso reforça a

idéia de negociar. Agora não tenho mais proximidade

com ele, pode ter mudado. Mas

quando as pessoas mudam, o fundamental

se mantém, suas características. eu acho que

uma pessoa assim não vai ter ódio de outra

pessoa.

RM – Em 64 você estava onde, presidente?

Quando começou a ser perseguido?

– Imediatamente. Eu era professor da

USP. Tinha 33 anos, já tinha feito meu dou-

toramento e a livre docência, e estava me

preparando para fazer o concurso de cátedra.

Eu era também membro do conselho universitário.

Bem antes de 64, houve uma eleição

aqui em São Paulo para os antigos alunos

da USP que tinham direito a um representante

lá. Nós estávamos no movimento de

reforma da universidade, houve uma aliança

entre os professores jovens da Medicina com

o pessoal da Filosofia para mudar as coisas,

contra a faculdade de Direito e a Politécnica,

“O Lula era um negociador e um conservador.

Ele tem um temperamento menos reformista

que o meu, ele quer ajeitar ”

basicamente, e nós fizemos aliança com Economia,

com o Delfim. Aí eu fui candidato a

presidente e o Delfim a suplente. O Delfim

era a direita moderada. Direita é modo de

dizer. Ele era uma pessoa conservadora, mas

moderna. Houve uma briga tremenda e nós

ganhamos as eleições. Aqui em São Paulo

existia uma influência muito grande de uma

organização secreta formada por um alemão

fugido da Revolução de 1848 e que organizou

uma sociedade secreta de direita que se

manteve por muito tempo com influência

nos tribunais, na polícia, nos professores e

a bucha se voltou contra mim. Teve uma

tremenda mobilização dos advogados,

delegados, foi uma coisa de massa, cinco

mil votos e eu ganhei e fui para o conselho.

A partir daí ganhei mais visibilidade

e passei a ter mais influência no conselho

universitário. Quando o Carvalho Pinto

foi governador de São Paulo, o Plínio de

Arruda Sampaio - que foi meu colega de

Revista Metrópole - junho de 2008

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30

curso primário - era muito influente junto

ao Carvalho Pinto. Ele era chefe da

Casa Civil. Nós fizemos um complô com

o Plínio e com Helio Bicudo, o assessor

especial do Carvalho Pinto, para mudar o

reitor. Conseguimos ganhar a votação do

conselho, colocamos o nome de um professor

da (faculdade de) medicina. A partir

daí eu passei a ser uma espécie de líder

da maioria no conselho universitário. Depois

o Gama e Silva (ministro da Justiça

do regime militar e redator e locutor do

AI-5) foi nomeado reitor. Eu sentava no

conselho universitário ao lado do professor

de Direito Luis Eulálio de Bueno Vidigal.

Era engraçado porque eu tinha muita

influência, mas ele me considerava comunista

porque eu tinha feito esse movimento,

queria reforma na universidade, queria

pesquisa, mas ao mesmo tempo ficavam

surpresos porque eu sempre fui uma pessoa

polida, eles não entendiam muito.

Tempo depois, esses velhos ficaram meus

amigos, brigávamos muito, mas íamos

jantar juntos, coisa de brasileiro. O Gama

não era desse grupo, o Gama era muito

considerado pelo pessoal mais tradicional,

mas o Gama acabou sendo reitor porque

não queríamos o Zeferino Vaz, que era um

grande professor...

RM – Que depois veio a ser reitor...

– Ele foi reitor da Unicamp. Então

o Gama virou reitor. Em 1964 eu era

membro do conselho universitário, o que

naquele tempo era uma posição importante.

Nós fizemos a FAPESP. Essa instituição

de pesquisa foi o grupo ao qual

eu pertencia que fez. Eu tinha bastante

influência junto aos estudantes, aos professores.

Quando veio o golpe começou a

correr boatos de que iam me prender. Eu

fui até a faculdade e havia lá uma grande

confusão. O pessoal mais ligado à esquerda,

curiosamente, achava que era o golpe

do João Goulart que ia prevalecer e estavam

contra o Jango. Eu disse que estavam

loucos porque ia sair um manifesto dos

professores contra o Jango, que estava

caindo. Pra você ver como o Brasil estava

confuso. Pra dizer como era minha posição,

em 13 de março, no famoso comício

da central, eu estava no Rio

de Janeiro. Meu pai tinha sido

deputado pelo PTB, mas com

muito apoio da esquerda, do

partidão. Meu pai era General,

mas nessa época já estava

afastado do exército. Depois

que ele foi pro Rio, ele morava

na (rua) Conselheiro Lafayete,

no Ponto 6, no mesmo

prédio do Carlos Drummond

de Andrade. Nesse dia 13 de

março, todos os apartamentos

tinham uma vela acesa porque

ia ter um grande comício do

Jango na Central do Brasil, e

a classe média estava contra o

Jango. Eu fui pegar um trem

na central para ir pra São Paulo.

Pegamos o trem eu, o Plínio

de Arruda Sampaio, o José

Gregori e o genro do Jânio,

Mastrobuono. Fomos jantar e

depois fomos para a cabine e

começamos a conversar sobre

o que estava acontecendo no

Brasil. A nossa idéia era que

quem ganhasse ia acabar nos

perseguindo, mesmo o Jango, porque ele

não tinha simpatia pela coisa populista e

todos nós estávamos na mesma posição.

Mas isso não queria dizer nada porque

outro lado achava que a gente estava ligado

ao Jango. Eu era amigo do Darcy

Ribeiro, porque o Darcy era antropólogo,

e minha mulher é antropóloga, e meu

cunhado era antropólogo que trabalhava

com o Darcy. O Darcy era muito amigo

do meu pai e da minha mãe. Ele morava

no Engenho de Dentro e era diretor do

Museu do Índio. Quando eu ia ao Rio nós

íamos tomar banho de mar com o Darcy.

O Darcy virou o homem importante do

Jango. Um dia ele me telefonou dizendo

que ia a São Paulo e eu disse que se ele

vinha era melhor falar com o grupo dos

onze porque eles haviam tentando matar

o Pinheiro Neto, que foi ministro da

Agricultura, e poderiam tentar algo contra

o Darcy. Tudo foi gravado pelo Darcy,

então, achavam que eu tinha ligação com

o governo. Eu era um acadêmico, tinha

posição de esquerda, mas não tinha ligação

com a política. Em 64 inventaram

“Eu era considerado

comunista porque

queria reforma na

universidade, mas

sempre fui uma

pessoa polida ”

que iam me prender. Confundiram um

amigo meu, o Bento Prado, um filósofo,

comigo e quiseram prender o Bento. Me

avisaram e eu não fui mais para a faculdade.

Depois começaram a me procurar

e eu fui pra casa do meu pai, mas resolvi

não dormir lá porque estavam prendendo

todo mundo, por isso fui para casa de

um amigo meu no centro de São Paulo.

Depois resolvi me esconder no Guarujá,

na casa de um amigo meu que era dono

de uma empresa, depois a Ruth (Cardoso)

foi também e os boatos eram muito

grandes de prender e eu só pensava em

escrever a tese de cátedra para concluir

meu concurso. Aí chegamos à conclusão

que era melhor eu ir embora do Brasil.

A Ruth ainda foi falar com um ex-professor

da Faculdade de Direito, que foi

ministro do Trabalho do Dutra, Onório

Monteiro, que era afilhado da avó da

Ruth. Ele telefonou para o secretário de

segurança, que afirmou que Onório estava

enganado, que eu não era somente teórico

e sim prático e que a polícia estava atrás

de mim. Através de um outro amigo meu,

Mauricio Segal, filho de Rosan Segal, arranjaram

um maneira de eu ir embora do

Brasil. Fui para a Argentina acreditando

que ficaria dois meses. Eu tinha ligações

na Argentina, já fiz pesquisa lá e tem um

amigo meu de Paris, Jose Nuno, que foi

ministro da cultura de Nestor Kirchner.

Fiquei na casa do Pepe Nuno, sempre

com a ilusão de que ia voltar. O pessoal

de sociologia me convidou para ficar

na Argentina, até que recebi um convite

para ir pra Cepal, no Chile, onde fiquei

quatro anos. Depois, passei um ou dois

anos na França porque perdi o lugar na

USP e havia um inquérito contra mim. A

história de toda a minha geração foi mais

ou menos essa. Ir para o Chile foi muito

bom, escrevi livros, fiquei famoso na sociologia

a partir do Chile, mas em 64 eu

estava aqui e caí nessa história sem saber

muito bem do que se tratava.

RM – Presidente, outro dia eu conversei

com Plínio de Arruda Sampaio e ele disse

que havia conversado com você sobre a idéia

de formar o PT e que, depois, você desistiu e

ingressou no PMDB.

– Não é que eu desisti. O Plínio sempre

foi meu colega, quando ele foi para o

Chile, ficou na minha casa. Nós sempre fomos

muito colegas, mas o Plínio sempre foi

mais conservador. Ele era democrata-cristão,

do grupo do Carvalho Pinto. Depois

ele foi para os Estados Unidos e foi ficando

muito radicalizado na visão dele, uma visão

basicamente católica, camponesa, MST. Eu

cogitei fazer um partido, não sei se um PT,

mas já estava no PMDB. Quando o PT foi

feito eu já era senador suplente pelo PMDB.

Em 1978 eu competi com o Franco Montoro.

Competi, mas não pra ganhar. Foi o

Ulisses que fez isso para juntar um grupo

de intelectuais a favor do partido...

RM – E naquela época o suplente de senador

era o segundo mais votado...

– Isso. Eu ganhei mais votos que o

Cláudio Lembo, que era da Arena, e fiquei

suplente do Montoro. Quando houve

aquela coisa do Lula, quem era próximo

do Lula era eu. Durante a minha campanha

para senador, Lula encontrou o Chico

de Oliveira no avião e mandou o recado

que queria falar comigo. Eu tinha conhecido

o Lula, porque ele trabalhava com

Paulo Vidal...

RM – O Chico era do Cebrap?

– Era, eu também. Eu fundei

o Cebrap. Em 1973 nós estávamos

fazendo uma pesquisa

sobre o movimento sindical e o

Lula foi lá com o Paulo Vidal

para ser entrevistado. O Lula

ainda não era nada. Em 77, ele

era presidente do sindicato. O

sindicato era uma coisa potente,

muito mais do que os partidos.

Tinha carro, gráfica... Eu

até me surpreendi. Eu participei

de todas as greves, fui um

dos mais ativos. Quando houve

intervenção no sindicato do

Lula, eu estava jantando com

ele e o Fernando Morais num

boteco perto do sindicato. O

Lula foi levado pela onda para

fazer o PT. Acho que quem criou o PT foi

a convergência socialista, mas usando um

outro líder sindical de Santo André, Benedito

Marcílio que era deputado federal e

competia com Lula. Na verdade, Lula não

queria entrar em partido nenhum. Ele não

gostava de partido, ele gostava do sindicato.

Eu até tive a ilusão de levar ele pra

conversar com Ulisses, mas nem Ulisses

entedia a importância disso naquela época,

nem o Lula estava disposto. Quando

começou essa idéia de fundar o partido,

eu posso ter conversado com o Plínio, mas

eu achava que o PT nascia com uma camisa

de força dos velhos partidos de esquerda

européia e escrevi isso na época.

Não era um partido moderno. Falava que

era partido dos trabalhadores, e isso é uma

classe minguante, tinha que ser dos assalariados.

Acabou virando dos assalariados

na prática, mas a idéia inicial era limitada.

Eu achava que tínhamos que combater o

regime e que o MDB juntava as forças necessárias

e era cedo para fazer uma cisão

com o PT.

RM – Em 1985 o senhor foi candidato

a prefeito, eu também fui candidato a prefeito

de Salvador e até vim aqui participar

da sua campanha. O senhor perdeu por

1% dos votos. Como é que explica aquela

derrota?

– Eu me lembro que você veio aqui

“Eu tinha posição de

esquerda, mas não

tinha ligação com a

política”

fazer campanha para mim. Quando a

gente perde a eleição, a culpa é de quem

perdeu.

RM – É, isso é verdade.

– Quando eu perdi, diziam que era

traição e tudo mais. Eu acho que não

tem nada disso. Dei um coquetel na minha

casa, chamei todo mundo, agradeci

a todos, inclusive aos que eu sabia que

tinham realmente traído e disse: “Olha,

quem perdeu fui eu”. Porque eu acho

isso. A gente perde porque não desempe-

Revista Metrópole - junho de 2008

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nha bem em dado momento, né? O César

Maia e a Tutu, filha do Jânio, disseram:

“Ah, aquilo foi roubado”. Naquela época

havia muita fraude mesmo, mas nunca

entrei nesse detalhe. O César dizia, sei lá,

“caiu muito o número de votos brancos e

nulos, não pode ser”. Enfim, eu acho que

eu perdi porque eu perdi, porque não tive

competência para enfrentar o Jânio, porque

ele era uma façanha. Não tinha experiência

melhor do que perder pro Jânio

Quadros. Eu até tive uma operação

de apendicite ou sei lá o quê e o Brizola

veio me ver e me disse uma coisa que

me impressionou bastante: “Olha, você

sabe que eu perdi a eleição pra prefeito

em Porto Alegre... A melhor coisa na

vida de um político é perder uma eleição.

Porque senão você pensa que vai

ganhar sempre e tal.” É consolo para os

derrotados, mas a derrota é uma experiência

também importante, não é?

RM – É verdade.

– O Hélio Jaguaribe, que é meu amigo,

foi na minha casa e disse: “Você não pode

deixar a política, você tem que ser candidato

a deputado, porque senador você

não vai conseguir, é muito arriscado”. E

eu achava mesmo isso. Eu tinha sido senador,

eu tinha sido eleito, ou melhor, eu

tinha substituído o Montoro quando ele

foi ser governador, eu virei senador, perdi

a eleição de prefeito... Minhas chances

seriam pequenas. Até que vi as pesquisas,

e eu disparava nas pesquisas para senador.

Porque o eleitorado sempre faz uma justiça

distributiva. Se perdeu em um, agora

vou dar uma chance. É uma coisa meio

psicológica assim. Tive seis milhões de

votos, eu tinha um comitê só, não tinha

dinheiro. Mário teve um pouco mais que

eu, mas Mário tinha uma máquina imensa

e ganhamos os dois a eleição. Aí, assim,

perdi para prefeito e no ano seguinte virei

senador com meus próprios votos.

RM – Itamar Franco gosta

muito de dizer que foi ele quem

elegeu o senhor presidente da

República com o Plano Real.

– O Plano Real me elegeu,

mas não foi Itamar que me elegeu

(risos). Eu que sustentei o

governo do Itamar com o Plano

Real. Eu gosto do Itamar.

O Itamar é difícil, né?

RM – Muito difícil.

– Mas isso é uma coisa contra

os fatos. Se o Itamar não tivesse

me nomeado ministro, eu

não teria feito o Plano Real. Se

o Itamar não tivesse me apoiado,

eu não teria feito o Plano

Real. Então, dá a César o que

é de César. Mas, é... Eu ganhei

por causa do Plano Real.

RM – No fim do governo de

Fernando Collor se dizia que o senhor desejava

muito um apoio do PSDB para sustentar

o governo Collor. Foi verdade isso?

– Não. Eu estava na Europa, na Rússia,

quando comecei a receber telefonemas

dizendo que o Jorge Bornhausen,

que era Chefe da Casa Civil, queria

falar comigo. Eu estava na Rússia, naquela

época era difícil falar no telefone

lá, aí não falei. Fui pra Roma, fui para

Bolonha, que eu tinha uma reunião na

“Eu acho que perdi porque perdi, porque

não tive competência para enfrentar o

Jânio, que era uma façanha”

Universidade de Bolonha, e de lá eu falei

com o Serra que dizia “olha, quero que

você seja ministro e tal”. Cheguei aqui e

estava Pimenta da Veiga me esperando,

muito interessado que nós abríssemos as

conversações com o governo. O PSDB

tinha tomado uma decisão de não falar.

Eu e Montoro fomos contra essa decisão

e ganhamos. Havia uma reunião na casa

do Sérgio Machado, que hoje é presidente

da Petrobras Distribuidora. Uma reunião

grande, com a direção do Partido e

decidiram que eu e o Tarso iríamos falar

com o Collor. Fomos. O Collor sempre

me tratou bem, o conheci quando era

deputado. Logo que foi eleito, o Collor

mandou Carlos Chiarelli ir lá em casa

dizer que gostaria que eu fosse Ministro

do Exterior. Eu disse: “Não, eu apoiei o

Lula no segundo turno, não teria cabimento”.

Aí dessa segunda vez, ele disse:

“Fernando, você precisa me ajudar a

convencer o Tarso a aceitar o ministério”.

Aí, ele me chamava de Fernando,

eu também chamava ele de Fernando, eu

disse: “Fernando, a gente veio aqui pra

isso, a gente veio aqui pra te ouvir”. Já

estava feito o governo. Eles queriam o

PSDB para enfeite do bolo. Eu no Exterior

e Tarso no Minas e Energia. Aí

eu disse: “Olha Fernando, o Tarso tem

razão, a gente não pode aceitar”. Aí ele

disse “ah, mas eu queria vocês aqui, que

a gente pudesse falar com franqueza”,

aquela coisa. O Collor é muito bem

apessoado, muito convincente e não

havia aquela onda toda. PC ainda não

estava no ar, ninguém sabia disso. Mas

não foi por isso. Eu disse: “Nós não podemos

fazer isso. A gente veio aqui saber

o que você está pensando, voltamos

e dizemos que somos ministros? Isso aí

vai ficar feio”. Saímos eu e o Tarso dali.

No carro eu falei assim: “Olha Tarso, se

você quiser, tudo bem, eu não quero, eu

não vou”. E ele disse que também não

ia. E por que não ir? Porque ele não discutiu

nada, do que ia fazer, da política.

Estava tudo montado, porque estava tudo

acertado, ele simplesmente queria a gente

ali. Telefonei pro Mário Covas e disse

“Mário, venha para a reunião porque vai

ser uma decisão” e contei. Aí o Mário foi

na televisão, ele já ia na televisão, e disse

que não aceitaria nunca. Então todo

mundo disse que o Mário não deixou que

eu fosse. Não, não foi isso. Aí chegamos,

o Mário foi e houve uma tremenda briga

entre o Mário e, pasmem, Ciro Gomes.

Porque o Ciro queria porque queria que

nós fôssemos.

RM – Agora, já na sua presidência,

qual foi o papel de Luís Eduardo Magalhães?

Parece que o senhor teve grande

afeto por ele.

– Era uma pessoa competente e cumpridora.

O Luís Eduardo era um dos

poucos políticos brasileiros que era liberal.

Eu não sou, sou social-democrata.

Mas ele era conseqüentemente liberal.

Na visão da economia, em tudo ele agia

como liberal. E ele comandava a câmera,

tinha poder sobre a câmera. Eu e ele

sempre nos entendemos muito bem. Eu

gostava muito do Luís Eduardo e acho

que ele sempre era verdadeiro. O Luís

ajudou muito. Ele tomava decisões, enfrentava

e tinha uma relação muito direta

comigo.

RM – E Antonio Carlos Magalhães?

– Antonio Carlos era uma coisa mais

complexa. Porque Antonio Carlos é capaz

daquilo que o Lula é: ter amor e

ódio, não é? E de alternar com relação

à mesma pessoa, a depender do momento.

Foi assim comigo o tempo todo. Ele

tinha um pouco de ciúme da relação minha

com o Luís...

RM – É verdade.

– Luís segurava Antonio Carlos com

mais ímpeto. Depois que o Luís morreu,

apesar daquele primeiro movimento, no

dia em que ele voltou a Brasília, quando

foi muito receptivo comigo, ele começou

a agir comigo de uma forma bastan-

te complicada. Ninguém fez maior oposição

ao meu governo do que ele. O Lula

não fazia oposição a mim naquele tempo.

O PT fazia, mas o Lula não, não tinha

nem força pra fazer. O Antonio Carlos

tinha e realmente manobrou muito

e tal. Morreu com paixão por mim de

novo. Mas Antonio Carlos era isso, você

conheceu bem Antonio Carlos. Então, a

relação era sempre difícil. Ajudou e atrapalhou,

dependendo do momento.

RM – Eu trabalhei com ele 14 anos e

tivemos uma relação de amor e ódio também.

Foi um inimigo meu terrível.

– Com todo mundo ele era assim. Ele

não foi o inimigo estável. Agora, uma pessoa

de grande inteligência política. Sabia

definir o adversário. Tinha capacidade cênica

e capacidade de dizer o que o jornalista

gosta, de dar informação, era inteligente.

Não era um homem de cultura, não

era um homem de formação, mas muito

inteligente. Quando queria agradar, agradava

como ninguém. Acho que ele tem

um mérito: conheço pouco a Bahia, mas

acho que ele tinha amor pela Bahia. E outro

mérito dele também: ele costumava só

indicar pessoas competentes. Ele buscava

uma coisa muito difícil que é subordinação

e competência. É difícil, né?

RM – (risos) É isso mesmo! Presidente,

Angelo Sá, em entrevista que ele me deu,

ele disse o seguinte: o Banco Econômico,

ele reconhece que estava numa situação

extremamente difícil. Ele tentou vender

o Banco Econômico ao Bamerindus. Na

época, o dono do Bamerindus era seu ministro

da Agricultura, Andrade Vieira. E

Maurício Schulman era o presidente do

Bamerindus. Estava tudo certo para isso

quando ele, Angelo Sá, acha que houve

a interferência de José Serra e de Sérgio

Mota porque não queriam que houvesse

o crescimento do PTB de Andrade Vieira

junto com o PFL de Antonio Carlos Magalhães,

já que Ângelo era de certa forma

ligado a Antonio Carlos Magalhães e que

isso teria sido a razão política para o fato

de o Banco Econômico ter sido, inclusive,

o único banco que foi decretada a intervenção

e que deixou de funcionar, porque

o Nacional no dia seguinte funcionou, outros

bancos mudaram de dono, mas continuaram

funcionando...

– Se eu me recordo, não houve qualquer

palavra nem de Serra nem de Sérgio

Motta nessa matéria. Essa matéria foi

“Quando a gente

perde a eleição,

a culpa é de quem

perdeu”

Revista Metrópole - junho de 2008

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levantada pelo Ministério da Fazenda,

muito fechadamente.

RM – Pedro Malan e Gustavo Loyola,

na época.

– É. Os dois são pessoas ultra-reservadas.

Eu descrevo o que eu sei, está nesse

meu livro (A Arte da Política) no detalhe.

Sempre que eu podia, eu registrava

tudo que estava acontecendo e eu não

tenho referência a conversas minhas com

Serra ou com Sérgio Mota sobre isso.

Tem muitas referências com Luís Eduardo,

Antonio Carlos, Daniel Dantas pra

tentar salvar o Banco, muitas confusões,

mas a pressão veio foi do Banco Central.

E houve um desentendimento ali

que não foi certo, eu falei alguma coisa

a Antonio que não estava correta, eu estava

mal informado. Antonio Carlos tomou

ao pé da letra o que eu disse e falou

que eu ia fazer uma intervenção do tipo

Raet (Regime da Administração Especial

Temporária) a mesma que foi feita no

Banespa, que não fechou e eu disse que

faria e depois o Malan me disse: “Olha,

não dá pra fazer essa”, explicou a razão.

Mas, as razões que chegaram a mim sempre

foram técnicas, eu não me lembro

de ter havido qualquer pressão política.

Uma coisa muito mais difícil pra mim

foi fechar o Banco Nacional, porque era

da família da minha nora, era dos Magalhães

Pinto. Mesmo assim a gente agiu

com a mesma conduta, como as regras

mandam. Inclusive exagerando. Nós fizemos

um decreto tornando responsáveis

“ACM achou que

ia fazer a mesma

intervenção feita

no Banespa com o

Econômico”

os acionistas majoritários, com isso eu

congelei os bens de toda a família da minha

nora. Eu queria ser muito estreito.

Com o Banco Econômico também. Eu

torcia para ter uma solução, não por ele,

por causa do Ângelo, mas por causa da

Bahia. Não se conseguiu. O pessoal do

Banco Central era muito fechado, dizia

Fernando Henrique Cardoso contou que, no caso da intervenção do Banco Econômico, ele forneceu uma informação equivocada para ACM

que não tinha condição. Mas eu não me

lembro que houvesse isso, até porque o

Sérgio Mota sempre teve ligações muito

boas com Antonio Carlos. Por incrível

que pareça, os dois se davam bem. Duvido

que o Sérgio Mota se jogasse contra

uma coisa do interesse dele. E a essa altura,

o que é que o Serra era?

RM – Quando Luís Eduardo morreu o

senhor estava na Espanha, ia até participar

de uma solenidade com o rei da Espanha.

Dizem que Antonio Carlos Magalhães

pressionou muito o senhor pra voltar

para o enterro.

– Não. Ana Tavares, minha assessora

de imprensa que era muito amiga do

Luís Eduardo, me contou da morte. Aí a

gente pensou “como é que faz agora? A

gente vai estar brindando o rei enquanto

o Luís Eduardo está sendo enterrado?”.

Criou-se um clima de constrangimento

e nós decidimos suspender a viagem. Foi

isso que aconteceu, Antonio Carlos não

fez nada.

RM – O caso da instalação da Ford na

Bahia. Em um determinado momento,

Antonio Carlos Magalhães, que era presidente

do Senado, recolheu-se em Porto Seguro

e disse “Só saio daqui, só falo quando

o presidente tomar uma providência”. Porque

parece que dependia do senhor assinar

uma medida provisória no sentido de prorrogar

o sistema automotivo do nordeste.

É verdade?

– É verdade. Não sei se Antonio Carlos

fez isso, mas que dependia, dependia. Eu

botei o Pedro Parente para discutir esse

assunto. Eu queria a Ford no Rio Grande

do Sul. Aquilo tinha uma importância

estratégica. Ia a General Motors para

lá, então, indo a Ford, formava um pólo

no Rio Grande do Sul. Isso permitiria

que a Argentina fornecesse auto-peças, o

que seria bom com o Mercosul. Eu sou

de São Paulo, era São Paulo quem fornecia

essas peças, mas eu sou um estadista,

não um provinciano. Ganhou o PT, impediu

que a Ford fosse no Rio Grande

do Sul. Aí eu achava bom que fosse para

a Bahia, para poder espalhar a produção.

Eu tenho muito orgulho, porque quando

eu assumi só tinha indústria de automóveis

em São Paulo e uma em Minas.

E quando eu saí tinha na Bahia, Rio de

Janeiro, Goiás, Paraná. Eu realmente me

empenhei em distribuir a industrialização.

Paguei um preço por isso aqui em

São Paulo. O Mário não gostou.

RM – Dizem que o senhor perde

o amigo, mas não perde a piada.

É verdade isso?

– Eu não gosto de perder o amigo,

mas da piada eu gosto mais.

RM – Kassab ou Alckmin na prefeitura

de São Paulo?

– Eu estou com Alckmin. Eu fui o primeiro

a dizer que nós deveríamos fazer

uma aliança com o DEM e apoiar Kassab.

Eu achava melhor o Alckmin se preservar

para caso do Serra se afastar. Quando eu

digo isso, o Aécio pensa que eu já escolhi

o Serra. Eu adoro Aécio, mas não é isso,

a política é dinâmica. Nesse momento o

Serra tem mais força, daqui a pouco sei lá

quem vai ter. Nós estamos sem candidato

para o governo de São Paulo se o Serra

sair, e o Geraldo seria um candidato bom,

mas ninguém convenceu o Geraldo disso.

Eu sou um PSDB. O Geraldo se colocou,

é um bom candidato...

RM – Mas vai dividido o PSDB?

– Pois é, eu sou contra essa divisão,

acho que deveriam apoiar o Geraldo. Reitero:

o Kassab é um bom prefeito. Teria

sido melhor se houvesse capacidade política

para nos unirmos. Já que não houve,

você tem que ficar com o pedaço que você

tem. Se derrotarem eventualmente o Geraldo

na convenção, como é que fica nacionalmente?

Isso pode ter repercussão so-

“Antonio Carlos era uma coisa mais

complexa. Porque Antonio Carlos é capaz

daquilo que o Lula é: ter amor e ódio”

bre o Serra. Eu não estou na política ativa,

militante, partidária, desde que sai da presidência.

Posso ter alguma influência, mas

não é meu papel ter influência cotidiana,

ter voto no diretório. Quando eu digo que

estou com o Geraldo é na análise, não na

política prática.

RM – Dizem que o que senhor mais sente

falta da presidência é o helicóptero.

– Piscina, helicóptero e cinema, o bom

cinema do Palácio.

RM – Não pensa em voltar à

presidência?

– Não, nem a nenhum cargo eletivo.

Eu fiz 77 anos, o Brasil precisa de gente

mais nova. Acho muito ruim uma pessoa

que já foi ficar se acotovelando, tentando

tirar espaço dos outros.

RM – Fora Fernando Henrique Cardoso,

qual o presidente do Brasil que o senhor mais

admira?

– Por incrível que pareça, é o Getúlio

Vargas. Com um porém: ele foi ditador.

Sem porém, é o Juscelino.

RM – E personagem política?

– Ulisses Guimarães. Era um político

de fibra. Político tem que ficar sozinho se

estiver convencido.

RM – E o governo de Lula?

– O Lula como pessoa, como líder é

um grande comunicador, tem talento, tem

prestígio e tem razões para isso. Acho que

o governo tomou decisões corretas de manutenção

da política macroeconômica.

Sou favorável ao sistema de bolsas, que ele

ampliou e foi o meu governo quem criou.

Ele pegou um momento da história econômica

do país favorável, por que não fazer a

distribuição? Agora, eu não vejo esse governo

ter eficiência, coerência. E o partido é antiquado,

acha que tem que ter os políticos,

os militantes, não dá valor ao profissional.

E fizeram essa aliança que eu nunca entendi.

Em 2003, depois daquela transição que

nós fizemos, eu imaginei que o Lula fosse,

em algum momento, fazer uma convergência

entre o PSDB e o PT. Ao invés disso ele

definiu que o inimigo é o PSDB e se aliou

ao que há de pior na política brasileira para

obter maioria. Houve um retrocesso no

avanço do Estado, como algo independente

do governo, nas áreas econômicas, uma

politização à antiga.

RM – O senhor acha que hoje José Serra é

a pessoa mais habilitada à Presidência?

– É, eu acredito. Se ele tiver competência

política para juntar todo mundo. Porque

o competidor interno dele, o Aécio,

tem competência. •

Revista Metrópole - junho de 2008

35


C

M

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CM

MY

CY

CMY

K

Renato Pinheiro

A Amazônia e outros bichos

Uma esculhambação de dimensões amazônicas se abate

de modo especialmente intenso sobre a nossa floresta tropical

desde que o ícone ambiental Marina da Silva cedeu lugar no

Ministério do Meio Ambiente ao pragmático Carlos Minc,

ícone da rapidez em licenciamentos ambientais no Rio de

Janeiro.

Em tese, pouco muda na política ambiental brasileira

com a troca de guarda ministerial. Nunca se deu mesmo

grande pelota para essa área, em termos práticos. O negócio

quase sempre é fazer rebuscados discursos sobre ética

sócio-ambiental e desenvolvimento sustentável, na busca do

aplauso fácil e de manchetes róseas, do orgasmo múltiplo

de ongueiros e ambientalistas de vários matizes – sem que a

esses discursos corresponda, necessariamente, alguma coisa

real ou mensurável.

O ministro Minc chegou fazendo barulho, ameaçando

requisitar as Forças Armadas para a proteção de parques e

reservas ambientais e entrando em rota de colisão com o devastador

de Mato Grosso, perdoem, com o governador de Mato

Grosso, Blairo Maggi. Mas barulho mesmo quem aproveitou

para fazer foi a comunidade internacional. Elevando Marina

Silva ao patamar de guardiã insubstituível da floresta tropical,

a gringalhada carregou nas tintas e entrou pesado contra a

capacidade do Brasil de cuidar adequadamente das suas

reservas naturais, dos “pulmões do planeta”.

Renato Pinheiro, 54, é jornalista. renato.pinheiro@revistametropole.com.br

A quem, afinal, pertence a Amazônia? – chegou a questionar,

em editorial, o vetusto New York Times. E ele mesmo

respondeu: pertence ao mundo, é um patrimônio da

humanidade. Lula disse, com propriedade, que “a Amazônia

brasileira tem dono” e, embora não explicitasse, pareceu

ter deixado claro que esse dono é o Brasil. Já o sueco Johan

A gringalhada entrou pesado

contra a capacidade do

Brasil de cuidar das suas

reservas naturais

Eliassch (que é consultor do primeiro-ministro inglês Gordon

Brown) garantiu que por quaisquer US$ 50 bilhões

quem quiser compra toda a floresta amazônica. Para provar

sua tese, ele mesmo já tinha comprado 160 mil hectares

de terras no Mato Grosso e Amazonas e, lá, posto abaixo

milhares de árvores.

Mas quem é mesmo, então, o dono dessa zorra?

Os gringos bio-piratas, as ONGs fajutas, os ladrões de

patentes, os eco xiitas de fachada, os índios de verdade e

os de ocasião? Parece que todo mundo é dono da Amazônia

e, sendo assim, convenhamos que é justo eu também

querer a minha parte. Vou requisitar tal direito em juízo,

qualquer hora dessas.

Corta para os índios. Vamos a Roraima. Estão demarcando

reservas por lá e a idéia é que, o mais breve possível,

quase um quarto do estado passe a ser, legalmente, dos

índios. Claro que há mais interesses nesse amazônico

imbróglio do que apenas os interesses das tribos de

Roraima.

Claro, também, que é preciso preservar terras realmente

indígenas, especialmente de tribos não conectadas,

como as recentemente reveladas no Acre.

Mas, é preciso pegar leve. Tribo alguma precisa, para

sobreviver, de uma área quase do tamanho do estado de

Sergipe. Tem coisa por trás disso aí. Assim como não dá

para deixar os verdadeiros índios ao Deus dará, também

não é possível ficar eternamente disseminando pela Amazônia

malandras reservas raposas serras do sol.

O ministro Marco Aurélio Mello, do STF, observou de

forma singela e precisa que originalmente os índios ocupavam

todo o território nacional e que se formos radicalizar nessa

história de devolver áreas ocupadas em tempos pretéritos, logo

logo será preciso demarcar toda a cidade do Rio de Janeiro e

devolvê-la aos tamoios. Tem razão o ministro, do jeito que a

coisa caminha, não restará pedra sobre pedra. Será tudo dos

índios. E o que sobrar, vai ficar com os quilombolas. •

Revista Metrópole - junho de 2008

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38

Comportamento

Um filho pra chamar de seu

Casais enfrentam burocracia e dificuldades para adotar crianças em Salvador

Da redação

Ela queria adotar uma criança negra que

tivesse entre quatro e nove anos de idade.

Mesmo não sendo o perfil mais requisitado

– a maioria das pessoas procuram meninas

brancas e recém-nascidas – teve que esperar

longos seis meses, entre o dia em que foi até

o Juizado da Infância e da Juventude de Salvador

e o momento em que pôde enfim levar

seu filho para casa.

Além de ter de reunir toda a papelada para

o processo, com documentos como certidão

negativa de antecedentes criminais e de sanidade

mental, a professora baiana N.M.,

que prefere não se identificar, precisou ter

jogo de cintura para lidar com os funcionários

do Juizado. “Sempre me trataram bem,

com respeito, mas há pouca gente para muito

trabalho, por isso as coisas demoram a andar.

Você precisa telefonar, ir até lá, ficar em cima

para que cuidem com carinho do seu caso”,

conta.

Assim como tantas outras mães adotivas,

N. acredita que todas essas exigências

na adoção são itens necessários para a

segurança da criança e dos futuros pais.

“Eu não diria que o processo é burocrático,

ele é apenas cuidadoso”, diz Tereza Noguerol,

fundadora do grupo de apoio “Viver Adoção”

e também mãe adotiva.

O que faz com que as pessoas passem tanto

tempo nas listas de espera por uma criança

não é apenas a burocracia (como se não fosse

Cagadas da SET

A SET, definitivamente, não

tem critérios na condução

do tumultuado trânsito de

Salvador. Veja alguns exemplos:

Silvana Carvalho já adotou duas crianças e agora pensa na terceira adoção

suficiente) do sistema, mas também as exigências

colocadas por elas. Segundo Marcel

Medeiros, assistente jurídico do juizado do

menor de Salvador, existem 65 crianças na

cidade disponíveis para adoção e um banco

de adotantes de cerca de 150 pessoas. “A preferência

é por meninas entre zero e dois anos.

Os meninos estão sempre em desvantagem. E,

quanto maior a idade deles, menor as chances

de serem adotados”, afirma.

Estimativas do Centro de Capacitação e

Incentivo à Formação de Profissionais (Cecif)

indicam que existem no país 36 pretendentes

para cada criança entre zero e dois anos.

Obstrução

No Túnel Américo Simas,

onde não existe nenhum

porquinho para colocar

moedas, um carro de

transporte de valores fica

parado com seus funcionários

do lado de fora do veículo.

O local, com certeza, não é

adequado para isso.

COPERPHOTO

Quando a idade sobe para o intervalo de dois

a cinco anos, o número de pretendentes cai

para cinco por criança. Para os pequenos que

têm entre cinco e sete anos, a situação piora.

Existem, apenas, um pretendente para cada

duas crianças.

Medeiros diz que o número de crianças

para adoção varia. Em Salvador, especificamente,

nove meses depois do carnaval, a fila

de crianças sem pais cresce consideravelmente.

“Já chegamos a ter 800 crianças disponíveis

nesses períodos. Muitos bebês são frutos da

loucura dessa festa e boa parte deles é indesejada”,

relata o assessor jurídico.

Tomando sol

Experimente andar com seu

braço do lado de fora de um

carro para ver o que um agente

da SET fará com você. Mas

você pode argumentar que

aprendeu com o agente acima:

como tomar um solzinho sem

sair do seu carro.

A baiana N.M. contrariou essa tendência,

pós folia momesca, há um ano, adotou um

menino de três anos. Ela planeja ter novos

filhos adotivos fazendo estripulias pela casa.

Em sua opinião, muitas mulheres optam por

pegar um bebê porque querem ter a sensação

de que a criança saiu da barriga delas. “Não

tive isso e não sinto falta. Quando meu filho

chegou ficou aninhado nos meus braços. Foi

como uma gestação”, explica.

Silvana Carvalho, que dá palestras sobre

o tema e comanda um grupo de apoio a pais

adotivos, optou pela adoção de duas crianças

ainda bebês. Ela fez essa escolha por acreditar

ser mais fácil lidar e educar recém-nascidos.

Desde sempre, explica às crianças, hoje com

cinco e dois anos, que são filhos “do coração

e não da barriga”. Para ela, “toda adoção é um

risco. A história que eles carregam nunca vai

se apagar e um dia podem querer conhecer os

pais e até ir embora daqui. Eu e meu marido

apostamos no amor que damos a eles”.

O marido de Silvana não pode ter filhos e

eles já pensam numa terceira adoção. Desta

vez, ela quer uma criança mais velha, mas

o marido prefere outro recém-nascido. Na

opinião de Silvana, a escolha por uma adoção

tardia não deve ser motivada pelo desejo

de ajudar uma criança carente ou de se

fazer justiça social. “Isso é um equívoco. A

maternidade não pode ser confundida com

filantropia, nem com um gesto de caridade”,

ressalta.

Para Cheila Queiroz, coordenadora do

grupo de apoio “Viver Adoção”, mesmo as

crianças que são adotadas quando bebês têm

o direito de saber que não são filhos biológicos

dos pais que a criam.

Quem estiver interessado em adotar uma

criança deve ir ao Juizado da Infância e da

Juventude de sua cidade. Qualquer pessoa

Escolinha da SET

A SET faz escola. No carro

da Superintendência de

Transportes Públicos (STP),

o motorista, bem à vontade,

com os bracinhos do lado

de fora, reforça a tese de que

quem deve cobrar, quase

nunca dá exemplo de como

proceder corretamente.

que tenha mais de 18 anos e cuja diferença

de idade entre ela e a criança pretendida seja

de, no mínimo, 16 anos, está apta a adoção.

Para isso, basta ir ao Juizado da Infância e

da Juventude de sua cidade com carteira de

identidade, certidão de casamento (se houver),

atestado de sanidade física e mental,

certidão negativa de antecedentes criminais

e atestado de idoneidade moral (com firma

reconhecida).

Após o pedido, uma assistente social seleciona

crianças que tenham o perfil estipulado

pelo pretendente. A partir daí, o casal ou a

pessoa interessada vão ao lar onde essa criança

está e, caso sintam empatia por ela, passam a

visitá-la com a freqüência e durante o período

que o Juizado julgar apropriado. A professora

N. visitou seu filho três vezes por semana ao

longo de um mês.

Caso o pretendente não simpatize com a

criança, a assistente social apresenta outras

até que ele se decida. O contato mais intenso,

contudo, só acontece se a pessoa realmente

gosta daquela criança e pensa em adotá-la.

Mesmo visitando com freqüência, não existe

a obrigação da adoção ao final desse período.

“Fiquei quase um mês em contato com um

garoto de sete anos de quem gostei muito,

mas, no final, vi que ele necessitava de cuidados

que eu, como mãe solteira, não poderia

dispor”, conta N.

Se a pessoa já tem uma criança para adotar,

ela deve ir ao Juizado junto com os pais do

adotando, que deverão assinar um documento

para destituição do chamado “pátrio poder”. O

profissional especializado é fundamental para

que problemas como os sofridos pelo casal de

camelôs, que perdeu e depois recuperou a guarda

do próprio filho de um ano e oito meses,

não ocorram. O bebê ficou durante sete meses

com uma professora, amiga dos pais biológicos,

que conseguiu a guarda provisória da criança

ao dizer que a encontrou abandonada em uma

caixa de papelão. “É por essas e outras que

Uma professora, amiga dos pais biológicos,

conseguiu a guarda provisória da criança ao

dizer que a encontrou abandonada em uma

caixa de papelão

precisamos ser exigentes com a documentação

e no acompanhamento do processo”, diz

Medeiros, assessor do Juizado. •

Revista Metrópole - junho de 2008

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40

Comportamento

Profissão: Fiscôla

Eles se espalham por banheiros públicos para saciar o prazer de averiguar o pau alheio

Pablo Reis

Sim, eu precisei ser fiscôla durante uma

semana, mas com tamanha falta de vocação

que se fosse uma profissão regulamentada,

regida por um conselho, teria meu registro

cassado em tão pouco tempo que o acesso

a qualquer banheiro vagabundo de churrascaria

de beira de estrada seria vetado. “Nos

termos da lei, de acordo com

convenções de ética e normatização,

a saber, averiguar,

medir, encarar, fazer carinha

de quem está se deleitando e

ainda se oferecer para ajudar

na balançadinha, o senhor

está formalmente destituído

do cargo de fiscôla”.

Ser fiscôla, ao contrário

de uma profissão, é uma vocação,

algo como uma arte,

como Michelangelo não precisou

de faculdade para esculpir

e nem Cuíca de Santo

Amaro alisou banco de

universidade para destruir

reputações com sarcasmo e

rimas de memorização rápida. Para motivos

de apresentação, fiscôla é o nome carinhoso

de um popular personagem da crônica social

contemporânea: o fiscal de rola. Se você não

conhece e nunca ouviu falar, sorte sua.

São despudorados que ficam ali inertes,

dando olhadas para os lados enquanto fin-

notas da Metrópole

Português

confirmado

A gafe durou pelo menos

72 horas e ficou exposta

em outdoors na Paralela e

na Avenida Antonio Carlos

Magalhães. Um anúncio da

Super Chopada de Medicina,

dia 9 de agosto, tentava

empolgar o público a assistir

ao show do grupo de pagode

gem verter água (como diziam os velhos machos

sertanejos). Ficam se massageando por

minutos. Se houver cinco ou seis mictórios

livres distantes de você e mesmo assim ele

chegar ao seu lado, como se o resto estivesse

ocupado e apertado, pode crer, é fiscôla.

A definição de fiscôla não é feita a partir

de uma mera observação empírica ou arbitrária

para saber se alguém passa mais tem-

po do que o necessário em ato de micção

contemplativa. É um feito comprovado pela

ciência a partir de uma combinação de experimentos

e pesquisas. Sabe-se, por exemplo,

que o volume máximo suportado pela bexiga

humana é de 500 ml. E que um fluxo urinário

menor do que 15ml/s já é indicativo

Jeito Moleque. O chamamento

era um só: COMFIRMADO.

Até perceberem a desafinada

gramatical, os autores da

pérola em letras garrafais

levaram três dias, tempo

suficiente para apagar uma

perninha do M que tanto

incomodaria Aurélio Buarque

de Holanda.

de alguma obstrução da uretra ou falha no

aparelho excretor. Nesse caso, 35 segundos

seria tempo suficiente para executar o serviço

sem maiores envolvimentos emocionais, com

a frieza de um magarefe dilacerando vísceras

bovinas, ou como o tenista Roger Federer ganha

mais um torneio de Grand Slam. Mesmo

assim, vamos dar uma margem de erro de 90

segundos regulamentares entre abrir o zíper e

dar a última balançadinha.

Passou de

um minuto e meio,

pode ter certeza, é

fiscôla.

O fiscôla típico

renega o olhar oblíquo

que se estabelece

na troca de uniforme

de um time

de futebol, aquela

coisa meio envergonhada

de quem

não quer fitar diretamente

o objeto

da curiosidade. O

fiscôla padrão tem

o olhar reto e olímpico.

Ele encara como se tivesse autoridade

completa do ato e errado fosse quem quisesse

se ocultar.

O banheiro do 2° piso do Iguatemi é

uma espécie de Meca da fiscôlagem. É um

dos mais mencionados nas ligações anônimas

para a Rádio Metrópole, ou sempre

Tá acontecendo

Banho de luz, banho de asfalto,

guarda municipal, atendimentos

do Samu. Todos os argumentos

de João Henrique para pedir

mais quatro anos aos eleitores

foram utilizados na campanha

institucional em outdoor da

Prefeitura de Salvador. A questão

não é nem avaliar se se tratou

de campanha política explícita.

O fato é o desserviço à língua

portuguesa prestado pelo slogan

da administração. Falado, na

informal oralidade do idioma,

ainda vai, mas escrito em

letras garrafais “pode acreditar,

ta acontecendo” não parece

benefício algum à educação.

que o tema é suscitado em uma roda de meia

dúzia que invariavelmente se dizem ofendidos

com a atitude.

Não há estatísticas confiáveis sobre a

quantidade de fiscôlas dispersos pela capital

baiana. Apesar de terem uma função fiscalizadora,

não estão reunidos em entidade

de classe. Vagam espalhados por banheiros

sem uma rota de migração explicável. Voltaram

ao banheiro do terminal rodoviário

desde que a taxa de utilização (coisa de 50

centavos por uma mijadinha) deixou de ser

cobrada. Naquele espaço, a existência de

um tipo ainda mais inusitado: o fiscal dos

fiscôlas. É o funcionário que passa meio

expediente sentado em um banquinho

defronte ao átrio de mictórios, como se

estivesse ali para auxiliar qualquer demanda

urgente. Mas não, a real função dele é

intimidar a ação invasiva dos delinqüentes

visuais. Fiscôla é bom para olhar, jamais

para ser olhado.

O fiscôla pode não se considerar viado,

exerce seu papel social sem ter traumas de

masculinidade. Para M. Carlos começou

com a curiosidade de medir o pau dos outros

na adolescência. Hoje, adulto, pai de

um casal jovem, age como um hobby. Visita

banheiros com o olhar por vezes milimétrico,

já que não pode usar uma trena, prefere

exercitar a capacidade de avaliar tamanhos e

formas por meio de analogias: aquele parece

um desodorante feminino, este fica mais

para um churro pela metade.

A atuação deles geralmente é negada,

mas no Iguatemi um segurança faz ronda

a cada 20 minutos na porta do banheiro

para verificar a normalidade no local ou se

alguém esqueceu do mundo cá fora. Um

gordinho no Shopping Barra só falta criar

um crachá pra si mesmo com a inscrição:

Populista das antigas

Um vídeo feito por estudantes

da Faculdade de Comunicação

da UFBA, em 1996, já mostrava

os perigos da prática demagógica

do radialista Raimundo Varela,

que abriu mão da candidatura

a prefeito de Salvador, mesmo

liderando as pesquisas. O

trabalho “Raimundo Varela,

um símbolo populista”

chegou à conclusão de que

o aproveitamento da mídia

para construir uma imagem

paternalista é sempre uma

sedução para demagogos. Uma

das autoras do trabalho é a

jornalista Rosana Jatobá, hoje

apresentadora da Rede Globo.

Grandes esperanças

Enquanto o pré-candidato do

PT à prefeitura municipal,

Walter Pinheiro, desmanchavase

em desculpas a Olívia Santana

pelo desprezo ao PC do B, o

governador Jaques Wagner

mostrava uma forma inusitada

de demonstrar esperança na

chapa PT/PSB. Ele avisou

que no segundo turno do

campeonato eleitoral vestiria a

camisa do PMDB, junto com o

prefeito João Henrique. É mais

ou menos como o Presidente

da República revelar que, numa

eventual final da Copa do

Mundo, não teria problema em

torcer para a Argentina.

fiscôla oficial do perímetro. Ele cerca os

usuários do WC com a vigilância de um

perdigueiro farejando saciedade.

Banheiro do 3° piso do Shopping Piedade,

bem vindo à fortaleza da fiscôlagem. Ou, a

depender de quem olha, à visão do inferno.

Quem entra num momento de mais empolgação,

se assusta e lamenta ter deixado tanta

cerveja acumulada para um único jorro de

despedida. Alguns saem fugindo indignados,

outros rindo da própria sorte. A arquitetura do

espaço de 3,5m² com oito mictórios dispostos

em duas fileiras de três e de cinco é, por si, uma

sugestão de fiscôlagem. Algumas vezes, os cinco

vasos ficam desocupados enquanto os outros

três são disputados por ávidos observadores.

É mais assustador, por exemplo, ao se deparar

com um rapaz manuseando o pau com

um ritmo de fabricante de argila, naquilo que

os fiscôlas chamam delicadamente de “esmerilhar”

a pica. Mantém o membro em uma

consistência “pururuca”, que é um estado físico

de quase ereção, em que não se observa a

flacidez de um marshmallow e nem a rigidez

de uma vela de sete dia. É uma morfologia

intermediária, tipo uma mangueira de gás.

O Inominável

O apresentador Jorge Kajuru

foi condenado, em primeira

instância, a pagar R$ 20 mil

ao bispo Edir Macedo, líder

da Igreja Universal e dono da

Record. Kajuru falou mal do

clérigo no programa “Kajuru

na Área”, do SBT de Ribeirão

Preto. Ele foi condenado por

injúria e difamação. A pena

prevê ainda o pagamento

de R$ 1 mil por dia, caso o

apresentador volte a falar o

nome do bispo. Edir Macedo, a

partir de agora, é um inominável

para Kajuru, que vai recorrer da

decisão da Justiça.

Este é representante legítimo da categoria do

Performático Apreciador de Olhares ou, simplesmente,

o PAO.

O auxiliar de serviços gerais que pega o turno

de tarde e fica até às 22h convivendo com

toda a silenciosa troca de olhares é como uma

mulher sinuosa em pé num coletivo lotado,

tamanho o desconforto que demonstra. Val,

o apelido pelo qual prefere ser chamado, não

aparenta tanto asco na hora de recolher o papel

higiênico usado de um balde como quando

entra e se depara com os olhares gulosos no

mictório. “O pior é quando estão se pegando,

aí tenho que chamar o segurança”, resmunga

ele, um moreno magro de quase 30 anos que

outro dia recebeu uma proposta no banheiro

e quase responde na força bruta.

O formando em jornalismo pela Faculdade

Jorge Amado, Tedson Souza, encarou

a selva de azulejos e porcelanato por vontade

própria para finalizar um trabalho de

conclusão de curso sobre sexo público. A

escolha de uma série de reportagens de rádio

o levou a descobrir que alguns locais se

tornam guetos de devassidão: da fiscôlagem,

os mais atrevidos passam à prática. “Geral-

Revista Metrópole - junho de 2008

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mente são homens casados, até com filhos,

que vão nesses locais para extravasar o desejo

reprimido pelo preconceito”, sugere Tedson,

que descobriu uma comunidade no Orkut

chamada Clube do Banheiro SSA para troca

de confidências e experiências. No fórum,

os redutos mais cotados atualmente são do

Iguatemi Businness Flat, avaliado como discreto

e limpinho, e do Bompreço do Chame-

Chame, onde “rola de tudo na madrugada”,

segundo os freqüentadores.

Aproveitadores

de escada

Investigadores do cacete alheio fazem parte

de um segmento voyeurístico cujo correspondente

feminino engloba os aproveitadores da

escada. São aqueles pós-adolescentes que se

reuniam no ângulo privilegiado do térreo da

Faculdade de Comunicação da UFBA para averiguarem

toda a semiótica contida na minissaia

Magari é o apelido

de um fiscôla

assumido na cidade

de Nazaré das

Farinhas. Tem como

um dos passatempos

favoritos entrar

em banheiro para

conferir a dimensão

alheia

notas da Metrópole

Salva-te, Ideli

A senadora Ideli Salvatti (PT-

SC) sofreu um acidente, no dia

17 de junho, que lhe rendeu sete

pontos na cabeça e ferimentos

no rosto, após ficar presa numa

escada rolante do aeroporto

de Guarulhos (SP). A petista,

por recomendação médica,

ficará afastada alguns dias de

seu trabalho no Senado e das

agendas em Santa Catarina.

Apesar dos ferimentos, a

senadora passa bem e já está

sã e salva(tti).

de uma caloura indo para a aula no segundo

andar. Ou no Salvador Shopping, onde as escadas

translúcidas parecem ideias para esse tipo

de observação. Dentro do vestiário esportivo

de um clube no Costa Azul, outro dia, um nadador

desautorizou o instrutor de tênis a usar

o chuveiro no box ao lado. “Amigo, não ligue

esse aí não porque vai deixar a água fraca

aqui”. Seria um simples aviso de alguém que

não quisesse ser prejudicado em uma ducha

quente. Bastou um complemento de frase

para revelar-se mais do que alguém tentando

livrar-se dos odores de uma sessão de treinos

ou do cloro impregnado no cabelo. “Você

pode usar esse chuveiro aqui da frente”. Na

visão do instrutor, o candidato a atleta queria

que ele fosse para o vestíbulo bem na frente

dele, onde oferecesse uma visão completa do

material. “Eu maldei logo que era viado”.

Poderia ser o caso não de homossexualismo,

mas de um fiscôla aflorando.

O novo Lewinsky

A senadora democrata Hillary

Clinton, que se retirou da

disputa pela candidatura

à presidência dos EUA,

compareceu ao espetáculo

“South Pacific”, na Broadway,

e foi cumprimentar o brasileiro

Paulo Szot, vencedor do

prêmio Tony, Oscar do

teatro americano. Szot estava

emocionado por tê-la na platéia

e cantou uma música para a

senadora. O ator comentou o

assédio do público feminino

nos shows e revelou que, nessa

temporada, recebeu apenas

uma cantada. Será que Hillary

resolveu dar o troco em Bill?

Magari é o apelido de um fiscôla assumido

na cidade de Nazaré das Farinhas. Não se

identifica para não atrapalhar o trabalho em

uma empreiteira, onde já chegou a reunir mil

homens em uma obra (“e só três mulheres,

eu era uma delas”, diverte-se). Ele se sentia

como se estivesse em uma Disney da fiscôlagem,

quando boa parte ia para o vestiário

em fim de expediente. Aí, fiscôlava em alta.

Percebia que alguns fitavam a cintura alheia

com uma boa dose de interesse disfarçado.

Depois, ia investigar e descobria que o cidadão

era bem casado, pai de filhos. “Esses são

os curiosos”.

A diferença dele para a maioria dos fiscôlas

é que é bicha declarada, embora tenha

uma ética própria no trato com os relacionamentos.

“Mais vale uma amizade na mão

do que uma penetração”. Ele é uma espécie

de fiscôla ideológico, um xiita em termos

de voyeurismo peniano.

COPERPHOTO

Nicole ou Nicolau?

Parte I

Ronaldo Fenômeno não toma

‘tenência’ mesmo. A sua mais

recente pulada de cerca foi, mais

uma vez, mal sucedida e pode

ter dado um fim definitivo ao

seu noivado com Bia Antony,

grávida do ex-careca. Careca de

saber da fama de mulherengo do

quase ex-jogador, Bia se picou

para Paris, onde pretende parir

seu filhote em paz. Ronaldo

foi atrás, para tentar se explicar

sobre o suposto envolvimento

com a modelo Nicole Bahls.

Ele garante que Nicole, dessa

vez, não era Nicolau.

Uma intervenção entrou para a antologia

da crônica esportiva na Bahia. Um fotógrafo

contemporâneo, depois representante de associação

de classe, aguardava o final das partidas

como o momento mais sublime do que o gol.

Era a hora de ir para o vestiário da equipe

vencedora, ver todos aqueles atletas de alma

e prepúcios lavados, a pretexto de finalizar o

trabalho, como se fosse do interesse público

fotografar o vestiário.

O fiscôla, não com esse nome, é uma entidade

que ganhou a internet por um vídeo

de uma apresentação de stand up comedy do

pernambucano Murilo Gun. Na esquete

sobre os constrangimentos em um banheiro

masculino, ele conta a dificuldade de lidar

com os vizinhos de mictório sem ser considerado

“fiscal de rola”. Nesse momento,

a platéia delira com a lembrança.

Um fiscôla de camisa regata entra no

banheiro do Iguatemi seguido por um rapaz

com gel no cabelo em formato moicano.

Há mictórios livres, mas os dois se posicionam

lado-a-lado. Fica olhando de baixo

pra cima em diagonal e depois passa a olhar

desconfiado para trás, procurando perceber

Nicole ou Nicolau?

Parte II

Nicole (ou Nicolau) Bahls, a

modelo que teria se envolvido

com Ronaldo Fenômeno

recentemente, afirma que foi

ameaçada (provavelmente por

alguém ligado ao ex-craque

da Seleção) após anunciar que

venderia as fotos que tirou ao

lado dele, na cama do Hotel

Fasano, em São Paulo. A suposta

existência das fotos teria sido o

principal motivo para o novo

rompimento do jogador com

a noiva Bia Antony. A modelo

desistiu de vender as fotos, que

foram oferecidas a alguns jornais

e revistas por R$ 10 mil.

Mobiliário urbano

A expectativa de período de

chuvas em Salvador coloca

em pânico os usuários de

ônibus. Os abrigos de coletivo

desenvolvidos pela empresa

JC Decaux, detentora dos

direitos de exploração de

todo o mobiliário urbano da

capital, são um terror para os

passageiros. Bonitinhos, mas

ordinários, eles não protegem

ninguém da água.

se alguém está espionando. Sim, ele está

sendo observado em seu ato de observar,

mas até com certa piedade.

Sim, porque alguns momentos, eu tive

que me tornar fiscôla, por isso uma certa

solidariedade aos meus pares. De tanto

entrar em banheiro, terminei confundido

com um dos que seriam investigados. O

diálogo absolutamente surrealista foi inevitável

com um segurança na porta do WC

do Iguatemi:

- Senhor, por gentileza...

- Não é bem o que você está pensando,

eu...

- Senhor, eu não sou pago pra pensar,

apenas preciso limpar a barra. Há lugares

próprios pra isso.

- Mas eu tô fazendo um trabalho...

- Tudo bem, o senhor pode considerar

trabalho e tal, mas já é a quarta vez que o

senhor entra aqui em 20 minutos. Aí já é

trabalhar demais.

- Não, meu velho, é uma reportagem,

você pode, inclusive, me ajudar com ela.

- Não, muito obrigado. Prefiro ficar

de fora.

Dedos ligeiros

Daniel Sinfrônio é autoproclamado

o recordista de

furtos na Bahia. Ele calcula

ter 130 prisões em sua carreira

como lanceiro – o tipo de

bandido capaz de tirar uma

carteira do bolso do paletó

sem que a vítima perceba.

Recentemente preso na

delegacia de Periperi, declarou

estar na hora de aposentar-se

como “artista” – sim, ele acha

que faz arte por não precisar

usar um revólver para tomar

um objeto de cobiça. Não sem

antes “fazer mais dois roubos

para ter um caixa e comprar

umas galinhas no interior”.

Banheiro do 3° piso

do Shopping Piedade,

bem vindo à fortaleza

da fiscôlagem

- A reportagem é sobre fiscôlas.

- Fiz o quê?

- Fiscôla, fiscal de rola, que vai pro banheiro

público olhar o pau dos outros.

- Ah, sim. Hummm... o senhor tem certeza

que está feliz com isso?

E com essa dúvida a reportagem termina,

não sem antes um comentário de ordem da

higiene pessoal. Impressionante é perceber

que pelo menos metade – eu reitero, metade

– dos caras que saem do banheiro público

passa direto pela pia, como se a torneira

fosse tóxica. Quer dizer que de cada 10 usuários,

cinco vertem água sem lavar as mãos

depois. E eu tenho certeza que pelo menos

um destes já lhe deu um cumprimento de

mão bem apertado depois de manusear o

pau. Mas isso já é uma outra história. •

Revista Metrópole - junho de 2008

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Segurança

Cadeia alimentar

A alimentação cotidiana de uma colônia penal na capital baiana

Luana Rocha

Na Colônia Penal Lafayete Coutinho, antiga

Pedra Preta (nome cunhado devido à existência de

uma antiga pedreira no local), em Castelo Branco,

o café da manhã é servido cedo. Às 6h da manhã

as primeiras vasilhas com alimentação para os 305

detentos em regime semi-aberto que estão no local

começam a ser distribuídas. O cardápio é constituído

de pão, café, batata ou banana e acabou. Mesmo

com autorização da Secretaria de Justiça, Cidadania

e Direitos Humanos (SJCDH), fui orientada a

aguardar o diretor do presídio, Everaldo Carvalho,

na portaria do local para poder entrar. Tive direito a

sentar e esperar junto com os agentes penitenciários

que ficam na entrada. Apresentei-me como repórter

e fui questionada sobre o assunto que gostaria de

tratar no presídio. Expliquei que a matéria seria

sobre a comida nas penitenciárias. Minha resposta

foi seguida por um profundo desagrado. “Por que

a imprensa só olha para os presos e nunca para os

agentes? Veja a comida que nos servem”, disse um

deles. Olhei para o lado: havia uma bandeja com um

pão que parecia ter saído do forno há pelo menos

três dias, uma fatia de melancia com um vermelho

duvidoso e uma caneca com café e leite. Antes que

eu respondesse algo, outro agente se antecipou:

“Porque dá ibope”.

Às 8h, o diretor de segurança da colônia chegou.

Foi-me permitido adentrar no presídio com celular

e bolsa. Não fui revistada. Segundo o diretor do

presídio, este não é o procedimento padrão. Todas

A comida dos detentos da Colônia Penal Lafayete Coutinho é servida em vasilhas dos próprios internos

as pessoas são vistoriadas antes de entrar no local.

Existe um detector de metais, mas não está funcionando.

O diretor garante que não existem grandes

problemas na cadeia.

Ao entrar no presídio, uma surpresa. A colônia

parece o lugar perfeito para mandar os filhos nas

férias. Uma espécie de praça arborizada com bancos

localiza-se na parte central da Lafayete. Tudo isso

em meio a um monte de andaimes. A cadeia está

em reforma sem previsão para o término das obras.

Fui levada pelo diretor de segurança para conversar

com a supervisora de nutrição do presídio. Gilma

Almeida explicou que é responsável pela fiscalização

dos serviços prestados pela empresa que fornece os

alimentos dos presos, a Nutriz, sediada em Brasília.

A empresa usa a estrutura do Estado (água, luz e

espaço físico) e prepara os alimentos dentro da cadeia.

Onze funcionários se alternam no local. Por

determinação da empresa, nenhum detento pode

trabalhar na cozinha. Segundo o responsável pela

Nutriz, os motivos são higiene e segurança. “Mexer

com alimentação exige um cuidado maior com

higiene e requer profissionais qualificados. Além

disso, existe a questão da segurança, pois na cozinha

possuímos objetos cortantes que podem servir para

outros fins que não os alimentares”, contou.

Os alimentos são servidos em vasilhas plásticas

pertencentes aos detentos. Existe uma vasilha

padrão fornecida pelo governo, mas está em

falta. Cada compartimento possui uma etiqueta

com o nome do preso. A quantidade de comida

é medida por quilogramas. Mesmo assim, “de vez

em quando, um pega a vasilha do

FOTOS: COPERPHOTO

outro ou então tenta pegar o alimento

duas vezes”, conta Gilma.

Durante os finais de semana, a

quantidade de comida distribuída

é maior. Pelo menos na Lafayete

Coutinho não presenciamos cenas

como as que foram recentemente

divulgadas na mídia. Em um presídio

do Ceará, o alimento estava

sendo servido em sacos plásticos.

A alegação é que os presos estavam

derretendo os pratos para fabricar

armamentos.

Antes de a comida ser servida,

há uma prova para experimentação.

Uma comissão formada por

três pessoas (a própria Gilma, a

coordenadora administrativa e

a enfermeira do presídio) come

o alimento antes de ser servido.

A comida só volta se estiver estragada. Caso esteja

sem sal ou tempero ela não é considerada inadequada.

“O sabor do alimento é muito subjetivo”,

afirma Gilma.

No momento da entrega dos alimentos, uma divisão:

a distribuição é diferenciada para os detentos

“azuis” e “amarelos”. Os presos que possuem um colete

azul são aqueles que trabalham na cadeia e podem

circular livremente no local. São espécies de presos de

confiança. Já os que usam um fardamento amarelo ficam

confinados num espaço reservado e só podem sair

do local acompanhado por um agente. Os “amarelos”

são presos que acabaram de sair do regime fechado e

foram transferidos para lá por estarem próximos ao

fim da pena, e os considerados mais indisciplinados.

Mas essa não é uma posição imutável. Os amarelos

podem se tornar azuis e os azuis também podem

voltar a ser amarelos.

Segundo Gilma, o procedimento na escolha dos

alimentos é feito da seguinte forma: o cardápio oferecido

pela empresa é recebido mensalmente e ela

observa se ele é adequado à “realidade do presídio”.

Essa realidade leva em consideração, de acordo com

Comidas que os presos

rechaçam, como uma tal

“fritada espanhola”, são

cortadas do menu

ela, o interesse dos detentos. Comidas que os presos

rechaçam, como uma tal “fritada espanhola”, que leva

carne, ovo e salsicha na composição, além de língua

e xinxim, são cortados do menu. Repulsas nada surpreendentes.

“Eles nunca estão satisfeitos, claro, mas

a gente busca agradar ao máximo”. Essa insatisfação,

segundo o diretor adjunto do presídio, Manoel Alves,

pode gerar conflitos. “Aqui os detentos já fizeram

greve de fome e isso pode causar uma mobilização

maior, se as queixas não forem atendidas”. Segundo

Alves, rebeliões por causa da comida nunca ocorreram

na Lafayete Coutinho. “Aqui as queixas são resolvidas

na conversa”, acredita ele.

Tá tudo muito bom,

tá tudo muito bem

Como fazer uma matéria como esta e não ouvir

os detentos que diariamente comem no presídio?

Impossível. Mas ouvir os detentos escolhidos pelos

diretores e cercados pelos agentes penitenciários

não é uma forma muito eficaz de coletar informações

deles. Foi assim que os diretores da Lafayete

Coutinho procederam. Preso por homicídio há

sete anos, Rogério Alves Silva,

29 anos, disse achar a comida

normal. “Acho que só deveria

aumentar a quantidade, mas,

no geral, dá pra engolir”. A

opinião é compartilhada por

Rosalvo Lima dos Santos, condenado

há três anos e quatro

meses por furto. “No início

da pena eu estava na Gercc

(Grupo de Repressão a Furtos

e Roubos, Furtos de Veículos,

de Repressão a Roubos em

Coletivos) e, em comparação

ao que comia lá, isso aqui é o

paraíso”.

Segundo Denise Tourinho,

Coordenadora da Gestão Integrada

das Ações Penais da

Secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos,

houve uma grande mudança na maneira de

fornecer alimentos aos detentos. “Fizemos reuniões

com nutricionistas de todas as unidades para

chegarmos a uma melhor forma de distribuir a

comida. Isso foi uma coisa inovadora, porque an-

Revista Metrópole - junho de 2008

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tes os nutricionistas sequer eram ouvidos”.

Além disso, segundo Denise, nunca houve

uma preocupação com alguns detentos,

que podem ser considerados “especiais”.

“Os presos da Unidade Especial Disciplinar

(UED), que são considerados os mais

perigosos, e do Hospital de Custódia não

tinham uma alimentação específica, sendo

que esse procedimento era necessário

porque muitos detentos tomam remédios

controlados que causam angústia, insônia,

dentre outros e que, portanto, necessitam

de comidas mais bem elaboradas”.

Panelinha

Segundo Everaldo, antigamente existia

uma única empresa “fantasiada” em outros

nomes que era responsável pelo fornecimento

do alimento dos presos. A Lemos Passos,

que já foi Santa Clara, monopolizou, durante

décadas, o preparo dos alimentos dos

sistemas prisionais. A abertura de licitação

Dez empresas

participaram do

processo licitatório

este ano

para empresas responsáveis pelos alimentos

surgiu em decorrência do número crescente

de reclamações em relação à qualidade da

comida. Denise afirmou que, certa vez, a

Lemos Passos afirmou que “não se devia dar

tanta comida para a UED”. “Isso soa absurdo,

porque na UED os presos não podem

receber lanches de fora, então a quantidade

de comida deve ser maior”.

Este ano, dez empresas, inclusive de outros

estados, participaram do processo. A Nutriz

ganhou por operar com os preços mais baixos

e possui contrato com a Lafayete Coutinho até

o dia 27 de junho, mas ganhou a licitação com

contrato vigente por mais um ano. A empresa

serve 448 refeições no café da manhã, 480 no

almoço, 448 no jantar e 50 lanches. O valor

diário da contratação fica por R$ 9.416,00.

Cada detento custa ao Estado R$1,4 mil. O

gasto médio por preso no Brasil é de R$1,5

mil. “Nossa postura é garantir os direitos fundamentais

de quem está preso. Hoje existe

uma preocupação maior com higiene, por isso

agora foram incluídos instrumentos de fiscalização

para verificar se os editais estão sendo

cumpridos à risca”, afirmou Denise. •

com Walter Pinheiro

Depois de desbancar o amigo Nelson Pelegrino na disputa interna pela vaga de candidato do PT para a

prefeitura de Salvador, o deputado federal Walter Pinheiro agora força a amizade com a vereadora Olívia

Santana, do PC do B. Mesmo desconfiado com a nossa Sinuca de Bico, ele confiou à nossa seção a bandeira

de paz e reconciliação com a “afrodescendentona”.

M – Walter Pinheiro, o senhor pode

responder às perguntas da nossa Sinuca de

Bico?

Walter Pinheiro – Depende do bico

da sinuca... (risos). Mas vá lá.

M – Então. O senhor acha que se a eleição

fosse no período de Natal, os eleitores dariam

mais bolas pra você, Pinheiro?

– Não. Como eu sou Pinheiro, eu tenho

a impressão de que bolas não, mas árvore de

Natal com certeza.

M – O senhor e o prefeito João Henrique

são evangélicos, portanto, dois homens

iluminados por Deus. Na sua opinião,

em quem o Todo Poderoso deve lançar um

banho de luz extra nessa campanha pela

prefeitura?

– Como eu acredito mais em Deus, e não

sou iluminado por Deus, porque é muita

presunção, eu espero que ele não derrame

banho de luz, mas pelo menos as bênçãos

Dele sobre mim.

M – Pois é. Até porque, se luz desse jeito,

Da Luz já seria prefeito de Paris (a

cidade luz), não é verdade?

– Com certeza. Se luz desse

jeito, solução pra isso, vagalume

seria prefeito.

M – O pinheiro de Natal

simboliza a Virgem Maria,

pros católicos. E o pinheiro

do PT, simboliza o quê?

Um virgem na corrida

pela prefeitura?

– Não. É madeira

de lei! (risos)

FOTO: DIVULGAÇÃO

M – A vereadora Olívia Santana (PC

do B) quase quebrou o “colega” Paulo

Magalhães Jr. (DEM) no pau, na disputa

pela liderança da bancada de oposição na

Câmara Municipal de Salvador. Soube

que ela tá retada com o senhor... Se, por

acaso, o senhor cruzasse com a Negona

numa encruzilhada, em plena meia-noite

de sexta-feira 13, não teria medo de levar

um cachação da vereadora?

– Que nada. A Negona é uma figura

doce, suave. Se eu me encontrasse com

ela de noite, na realidade, nós íamos

conversar tranqüilamente sobre a nossa

vitória em Salvador.

M – Então o senhor ainda conta com

uma reconciliação, uma aliança com a

comunista...

– Com certeza. E pode ser em plena

sexta-feira 13.

M – Pra terminar, o que o candidato

Walter Pinheiro tem a dizer para o povo

de Salvador, para convencê-los a votar

no senhor e não nos seus concorrentes, em

outubro próximo?

– A minha mensagem para o povo

de Salvador é que chegou a hora de

Salvador ter um prefeito que possa

devolver o amor que muita gente pediu

ao soteropolitano para amar a cidade. Tá

na hora de inverter a lógica. A cidade

amar o soteropolitano. •

Revista Metrópole - junho de 2008

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Por

James Martins e

João Gabriel Galdea Eles estavam à solta, mas nós

Enchendo o saco

Rafael Cortez

Repórter

Revista Metrópole – Você deu em cima da

presidenta argentina Cristina Kirchner e do presidente

do Equador, Rafael Correa. O que você tem contra os

presidentes barbudos, sem um dedo e com bursite?

– (risos) Ai, meu caro, é comprometedora essa

história de que eu dei em cima do Rafael Correa,

porque foi uma confusão, derivada do excesso de álcool que eu

tomei naquelas férias peruanas... Agora...

M – Confundiu ele e tudo com o segurança...

– Confundi. Normal, né? Às vezes eu confundo minha mulher

com a Cristina, no escuro. Mas eu não tenho nada contra o Lula,

pelo contrário, apenas não o chamaria de gostoso, porque é o

presidente do nosso País, né? É a mesma coisa de a gente chamar

nosso pai... Diga, paizão, você tá uma delícia.

M – Dizem que há um paradoxo entre você e o Danilo. Na verdade

ele seria o cortês e você o gentil. Você faria esse troca-troca?

– Olha, tudo o que se referir a um troca-troca entre Danilo e eu

está absolutamente aprovado. Uma vez que nós estamos há muito

tempo juntos, namorando, e eu queria dizer pra vocês que eu sou o

ativo da relação, o Danilo é um cara que mexe muito bem.

M – Ele não é inexperiente nesse sentido?

– Não, nesse sentido não, ele é safadinho, sem-vergonha, cachorro.

M – Segundo Francis Bacon, o homem cortês está certo de que o

seu coração não será jamais uma ilha solitária. Se você fosse canibal e

estivesse em uma ilha solitária com Francis, você fritaria o coração dele

com bacon e comeria o homem, certo?

– (risos) Do Francis Bacon? É, antes do Ronald McDonald,

né? Ou algo assim... Pode colocar aí que não só comeria, como

lamberia os meus dedinhos felizes. E também os nove dedinhos do

Presidente da República brasileira.

Danilo Gentili

Repórter

(inexperiente)

Revista Metrópole – Danilo, o Bamerindus

quer saber: você é “gentili” que faz?

– (risos) Na verdade eu sou “gentili”

que enrola, né? Eu enrolo tão bem que

tem gente que acredita que eu faço mesmo

alguma coisa.

M – Agora, o Danilo é inexperiente porque é um cara muito

“tranquili”, ou isso tudo é só “fachadi”?

– É, eu sou tranqüilo mesmo.

M – E é inexperiente também?

– Sou inexperiente também...

M – Em tudo?

– Em tudo, em muitas coisas. Sou inexperiente em

entrevistar, nunca tinha feito nada parecido, mas até em coisa

que eu sou experiente, por exemplo, colocar Coca-cola no copo,

eu derrubo, eu erro o copo, derrubo a garrafa. Vivo fazendo

coisas do tipo.

M – Leão Lobo deu em cima de você, não foi? Naquela matéria

que você fez. Como foi?

– Pois é. Ele deu muito em cima de mim, e tinham umas

coisas mais legais ainda que a Bandeirantes mandou cortar da

entrevista.

M – Você veio à Bahia fazer o stand-up na festa de um ano

da Revista Metrópole. Bebeu, comeu, dançou, agora a gente quer

saber: e aí, gostou da comida dos baianos?

– Gostei, gostei muito. Mas eu não comi comida de baiano

quando fui aí não, só tinha macarrão.

Marcelo Tas

Apresentador

Revista Metrópole – Oi Marcelo, como Tas?

– Vou bem, obrigado, trabalhando muito,

mas a pergunta é velha, hein, meu caro?

M – É verdade. Essa foi péssima. Agora,

quando você fazia o repórter Ernesto Varela (que

ficou famoso por suas entrevistas com políticos e

celebridades, fazendo perguntas pouco convencionais), você sentia

vontade de sair dando tapas em mesas, distribuindo cartões (verdes e

vermelhos) e retirando candidaturas na hora do ‘vamo’ ver?

– Não, nunca fiz ou faria isso. O Ernesto Varela sempre soube

manter a elegância e a educação. Mesmo diante de entrevistados

suspeitos e caras-de-pau como Paulo Maluf e José Sarney.

M – CQC (TV Bandeirantes) é considerado o novo Casseta &

Planeta (TV Globo). Você também curte o Casseta ou sua careca do

Ronaldo Fenômeno “clássico” lhe inspira a dizer que não?

– Admiro a moçada do Casseta & Planeta, principalmente

por conseguir manter o humor depois de 14 anos no ar. Fazer

televisão não é bolinho. Mas não concordo que o CQC seja o

“novo Casseta & Planeta”. Nossa matéria-prima é outra. Somos 7

homens de terno e microfone na mão. Tratamos de contar histórias

jornalísticas com humor. Já o Casseta & Planeta usa personagens,

perucas e mulheres de biquíni.

M – ‘Pra terminar, Marcelo Tas, eu quero saber o que é que CQC

quando crescer?

– Eu gostaria de ser um cidadão que tem orgulho de viver

no Brasil.

João Gabriel Galdea, 22, e James Martins, 26, apresentam o programa Cacete Armado,

toda quinta-feira, às 22h, na Rádio Metrópole.

joao.galdea@revistametropole.com.br / james.martins@revistametropole.com.br

corremos atrás e fomos encher o

saco da galera do programa CQC

(Custe o Que Custar), da Band, que

tem se especializado em encher a

paciência dos políticos brasileiros.

Veja isso!

Oscar Filho

Repórter

Revista Metrópole – Oscar Filho, o que

CQC quando for pai?

– Eu quero ser... Putaqueopariu... Eu

quero ser mais endinheirado, mais paciente e

menos ansioso.

M – Quer ser um provedor? Não de Internet, mas da família...

– Isso.

M – Sandra Corveloni acabou de ganhar a Palma de Ouro no

Festival de Cannes. Quando é que a gente vai poder papar o Oscar?

– Quem é ‘a gente’?

M – ‘A gente’ é... eu, por exemplo... o Brasil, enfim...

– Puta, no dia em que... No dia em que... Que o brasileiro

perceber que o povo brasileiro, os artistas brasileiros, têm muito

mais talento do que se imagina.

M – Você se engraçou, flertou com Andréa Albertini, aquele travesti

do Ronaldo, o Fenômeno. Mudando de pau pra cacete, literalmente,

a atriz Lindsay Lohan recusou uma proposta de US$ 1 milhão para

assumir publicamente que é gay. É verdade que você está querendo

assumir a sua homossexualidade custe o que custar?

– (risos) Olha, eu tô querendo sim, mas ninguém me paga

nem um real, cara. Nem de graça aqui. Então, pô, tá difícil. Vou

me manter dentro do armário por enquanto.

M – Mas por R$ 10 você não aceitaria não?

– Ah, talvez por R$ 11.

M – Um vale transporte?

– Pode ser. Então vamos combinar assim: R$ 11 mais um vale

transporte e mais uma coxinha. •

Revista Metrópole - junho de 2008

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Mário Kertész

Dança das cadeiras

Com a proximidade das eleições municipais, muitas coisas se modificaram

no cenário político local. Em 2004, quando João Henrique

foi eleito prefeito de Salvador, junto com ele e a sua vitória histórica

de ruptura, veio um monte de partidos, digamos, “aliados”. Muitos

deles permaneceram na gestão até resolverem caminhar sozinhos para

anunciar candidaturas próprias. A partir de então, aliados passaram

a ser inimigos e rivais históricos se juntaram em laços indissolúveis.

Há cerca de um mês, passado esse período de muitas indefinições,

rachas e cisões, a sucessão municipal, enfim,

começa a se desenhar efetivamente. Sem os

antigos companheiros, João Henrique

conseguiu fechar aliança com Edvaldo

Brito (PTB), que será o seu vice.

Depois que o PT pulou fora do

barco de JH, o segundo problema foi

definir quem seria o candidato da legenda.

Foram meses de brigas, discussões

intermináveis, prévias e, enfim,

uma resolução aos 45 do segundo

tempo: Walter Pinheiro, deputado

federal, foi escolhido para disputar a

prefeitura pelo partido. O nome do

deputado era o preferido pelo governador

Jaques Wagner, embora, mantendo

a postura conciliadora de sempre, o mesmo

não tenha externado isso publicamente.

Pinheiro venceu as prévias da legenda,

em detrimento da pré-candidatura de

Nelson Pelegrino, que, caso ganhasse,

sairia candidato pela quarta vez.

Essa indefinição de um candidato do PT, além do

desgaste provocado, atrasou a formação de alianças do partido para

as eleições, causando o afastamento do PTB, do PPS e do PR, apesar

de formarem a chamada base de apoio ao governo Wagner. Mas os

problemas continuaram a acontecer mesmo depois da definição do

PT. A dúvida, a partir de então, passou a ser a seguinte: quem seria

o vice de Pinheiro? O candidato convidou e Lídice da Mata (PSB)

O PC do B faz biquinho para

ser contemplado com “afagos”

governamentais

aceitou a vaga. Mas o problema é que o mesmo convite teria sido feito

à vereadora Olívia Santana, candidata pelo PCdoB. O partido não

gostou. Sentiu-se um partido menor, descartável e chegou a ameaçar

a saída comunista da base aliada do PT. Agora sair para onde? Coube

a Pinheiro fazer mea culpa e pedir desculpas aos comunistas. Assim é

melhor. Amansa o ânimo que está, apenas, exaltado, porque o vermelho

comunista pode explodir de raiva, mas jamais vai deixar a boquinha

de estar alinhado ao poder.

E, analisando racionalmente, mesmo com o alto índice de rejeição,

Lídice da Mata é muito mais influente politicamente e mais

conhecida em Salvador do que a inflamada Olívia. Então, para mim,

o que o PC do B faz é biquinho para ser contemplado com “afagos”

governamentais.

Do outro lado da disputa aparecem dois ícones

do carlismo, que, por enquanto, lideram as

pesquisas. Um, ACM Neto, que é considerado

representante do chamado neo-carlismo

que deseja se desvincular do estigma

negativo dos anos de domínio carlista

no Estado e reforçar os aspectos positivos.

E ao que parece, ACM Neto tem

alcançado esse objetivo. Além disso,

ele conseguiu costurar uma competente

aliança trazendo o apoio do

PR, do PRB e o apoio do ex futuro

candidato Raimundo Varela, misto

de apresentador e eterno candidato ao

que pintar por aí. Na outra ponta, porém,

aparece Antonio Imbassahy. Nascido,

educado, moldado e criado no berço

carlista, o agora tucano tenta se dissociar

da imagem que o apresentou

para o mundo com uma idéia de

“renovação”. Contudo, é considerado

o carlista genérico, enquanto

ACM Neto, o autêntico. Ele

também foi protagonista da aliança

mais rápida da história: durou menos de 24 horas. Numa reunião

com o presidente da Assembléia Legislativa Marcelo Nilo e o antigo

pré-candidato e agora aliado de ACM Neto, Varela, Imbassahy

tentou levar o radialista para ser vice em sua chapa. Foram protagonistas

de uma comédia pastelão: viajaram para São Paulo, onde

seriam ungidos pelo governador Serra, de lá foram para Brasília

assistir ao fim de um casamento não consumado e voltaram para

Salvador com sorrisos amarelos e desculpas esfarrapadas. Varela,

com 40 segundos de televisão, não tinha o que fazer. Nadou, nadou

e novamente morreu na praia. Mais uma candidatura tipo as de

Marcos Medrado: começa na frente das pesquisas, vai desidratando

e consegue acordos excelentes. Foi assim que Medrado se tornou

vice-prefeito de Imbassahy durante oito anos, apesar do conceito

que ACM tinha sobre ele e que fazia questão de tornar público.

Conceito pouco elogiável, diga-se de passagem. E, agora, Imbassahy

terá como vice Miguel Kertzman (PPS), antigo partidão, mais um

que saiu da órbita do PT, assim como o PTB e o PR. Até o dia

05 de outubro muita água poderá rolar e veremos quem não irá se

afogar, porque a disputa está absolutamente indefinida e não deve

acabar no primeiro turno. •

O BRASIL CRESCE

E DIMINUI AS DESIGUALDADES.

A VIDA DOS BAIANOS

MELHORA.

Aqui na Bahia, você pode ver ações que reduzem reduzem as desigualdades

sociais e melhoram a qualidade da educação. E também obras de infra-estrutura que fortalecem a

economia e geram mais empregos, resultado do trabalho do Governo Federal em parceria com o Estado,

municípios e a iniciativa privada.

Veja algumas das ações em andamento:

• Desenvolvimento da logística de transporte do

Estado, com investimentos de mais de 3 bilhões de

reais em estradas, porto e aeroportos. Obras como

as das rodovias BR-101 e BR-135 vão trazer mais

conforto e segurança para os usuários.

• 6,1 bilhões de reais para obras no setor energético,

como no Gasoduto de Catu, já trazem milhares de

empregos e vão gerar mais energia para o Brasil crescer.

• 305 municípios baianos recebem obras de

saneamento e urbanização, com recursos de 2,9

bilhões de reais, para melhorar a qualidade de vida

da população.

www.maisbrasil.gov.br

• 12 novas escolas técnicas federais para levar

ensino profi ssionalizante de qualidade a mais

de 14 mil alunos.

• 7 pólos universitários para ampliar o acesso ao

Ensino Superior.

• Mais de 117 mil agricultores familiares

têm crédito, assistência técnica e segurança

com o Pronaf.

• 1,4 milhão de famílias levam uma vida mais

digna com o Bolsa Família.

MAIS BRASIL

PARA MAIS

BRASILEIROS

Revista Metrópole - junho de 2008


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