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An official publication of the Brazilian Society of Periodontology ISSN-0103-9393

Braz J Periodontol - September 2012 - volume 22 - issue 03

FATORES DE RISCO ASSOCIADOS À DOENÇA

PERIODONTAL EM UMA COMUNIDADE NORDESTINA DE

BAIXA RENDA

Risk factors associated with periodontal disease in a community northeast of low income

Mychele Cavalcante de Andrade Martins 1 , Maria Cleuba de Araújo Freire Neta 1 , Jordania Rodrigues Landim 1 , Helvia Menezes

Gurgel 1 , Sharmênia de Araújo Soares Nuto 2 , José Ueleres Braga 3

1 Cirurgiã-dentista, Universidade de Fortaleza (UNIFOR), Fortaleza, Ceará, Brasil.

2 Doutora em Ciências da Saúde, Universidade de Fortaleza (UNIFOR), Fortaleza, Ceará, Brasil.

3 Doutor em Epidemiologia, Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil. da UERJ.

Recebimento: 04/05/12 - Correção: 16/07/12 - Aceite: 15/08/12

RESUMO

Buscando discutir a situação de saúde periodontal de adultos e idosos, o presente estudo tem como objetivo estudar

a relação existente entre a doença periodontal e os fatores sócio-econômicos e demográficos em uma comunidade

nordestina de baixa renda, identificando a influência destes na saúde gengival e periodontal a fim de subsidiar o

desenvolvimento de programas direcionados a populações semelhantes. Tomou-se por referência os indicadores

adotados pelo SB Brasil, utilizando as medidas índice periodontal comunitário (CPI) e a perda de inserção periodontal (PIP)

e as características sexo, idade, classe econômica e raça ou cor dos indivíduos para investigação. Foram examinados e

entrevistados 141 indivíduos. A média de sextantes hígidos foi de 0,4 para homens, e 0,7 para mulheres, e a presença

de cálculo superou os quesitos sangramento e bolsa em ambos os sexos. O grupo de idosos apresentou 74,7% de

sextantes excluídos, com uma média de 0,2 sextantes hígidos. Em relação à classe econômica, a presença de cálculo

revelou as maiores médias, com destaque para as classes C e D, que apresentaram os valores 2,06 e 2,23. As piores

condições foram detectadas entre homens, idosos, negros e aqueles pertencentes a classes econômicas mais baixas.

UNITERMOS: Periodontia, Inquéritos Epidemiológicos, Fatores de risco. R Periodontia 2012; 22:47-53.

INTRODUÇÃO

Os levantamentos básicos de saúde bucal são estratégias

importantes para estimar o estado da saúde bucal de uma

população e suas necessidades em um dado momento,

permitindo um planejamento de ações de saúde (Silva et al,

2010). É crescente a preocupação de pesquisadores sobre

a saúde bucal de adultos e idosos enquanto objeto de

investigação (Gesser et al, 2001). Adultos e idosos costumam

ter atenção odontológica deficiente ou baseada em práticas

não conservadoras, assistidos, muitas vezes, apenas em

situações de urgência, tendo como consequência a perda

dos elementos dentários (Vargas et al, 2005 e Colussi et al,

2004).

A gravidade das condições de saúde bucal da população

brasileira exige, além de estudos sobre magnitude das

doenças e agravos bucais, pesquisas sobre os fatores não

biológicos que interferem no processo saúde-doença.

As doenças periodontais vão além de uma inflamação

causada por bactérias específicas, compreendendo uma

relação multifatorial entre o agente agressor e as defesas do

hospedeiro. O ambiente social atua como um agente que

interfere na susceptibilidade à doença periodontal destrutiva.

Compondo esse ambiente estão: família, políticas de saúde,

atitudes, educação, emprego e nível sócio-econômicocultural

(Bretz, 1996, Loesch et al 1997 e Robinson et al,

1998). Os fatores sócio-econômicos são considerados,

atualmente, como fatores de risco das condições de saúde

bucal da população (Cimões et al, 2007, Segundo et al, 2004

e Baldani et al, 2002).

Desta forma, buscando discutir a situação de saúde

periodontal de adultos e idosos, o presente estudo tem

como objetivo estudar a relação existente entre a doença

periodontal e os fatores sócio-econômicos e demográficos

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nos indivíduos adultos e idosos que vivem em uma

comunidade nordestina de baixa renda, avaliando a influência

destes fatores na saúde gengival e periodontal, a fim de

subsidiar o desenvolvimento de programas direcionados às

populações semelhantes.

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo transversal com abordagem

descritiva e analítica. Realizou-se na Comunidade do

Dendê e cercanias, local onde a população deste trabalho

habita, situada no bairro Edson Queiroz, no município de

Fortaleza-CE. Para demarcar e conhecer a população de

um amplo projeto sobre a saúde dessa comunidade, no

período de outubro de 2007 a abril de 2008, foi realizada

um cadastramento, a avaliação do número de habitantes

e também o georreferenciamento das residências da

área, denominada de fase zero da pesquisa, onde foram

cadastrados 3.718 domicílios e 10.892 moradores (Moura

et al, 2010).

A amostra desse estudo inclui indivíduos de dois grupos: o

primeiro de adultos com idades de 35 a 44 anos, e o segundo

de idosos entre 65 e 74 anos de idade, de ambos os sexos.

As faixas etárias pesquisadas seguiram o padrão utilizado

pelo SB Brasil (Brasil, 2001). O cálculo da amostra desse

estudo baseou-se na prevalência de doença periodontal,

adotando-se o nível de significância de 5%, sendo a amostra

selecionada, por domicílio, de forma aleatória simples. A

amostra foi composta por 5,8% dos moradores adultos,

correspondendo a 83 examinados, e 18,4% dos idosos

cadastrados na fase zero, ou seja, 58 indivíduos. Dentro

da amostra do estudo, existiram recusas dos participantes,

não localização dos indivíduos ou de seus domicílios, além

dos domicílios demolidos ou fechados. O alto percentual de

domicílios não visitados (23,0%) pode ser tanto devido aos

endereços incompletos como à rapidez dos deslocamentos

urbanos (Martins et al 2011).

Os desfechos desse estudo são os diagnósticos e níveis

de gravidade da doença periodontal e têm por referência os

critérios adotados pelo SB Brasil (Brasil, 2001), utilizando os

índices: Community Periodontal Index (Índice periodontal

Comunitário) - CPI e a Perda de Inserção Periodontal - PIP,

estimando a destruição acumulada durante a vida útil

da inserção periodontal. O CPI aborda quatro condições:

sangramento gengival, cálculo, bolsas de 4-5 mm e bolsas

de 6 mm ou mais, em que a cavidade bucal é dividida em

sextantes. Um sextante deveria ser examinado somente se

existissem dois ou mais dentes presentes, desde que não

estivessem indicados para exodontia. Na ausência dos dentes

índices em um sextante qualificado para o exame, todos os

dentes remanescentes naquele sextante foram examinados

e a pior situação registrada.

O PIP complementa o CPI, com os mesmos sextantes e

dentes indicadores considerados, sob as mesmas condições,

ressaltando que o dente no qual foi registrada a pior condição

para o CPI não será necessariamente o mesmo para o PIP,

sendo a visibilidade da junção cemento-esmalte a principal

referência para a realização do exame.

Um dos critérios adotados para avaliar a condição

periodontal foi através da consolidação do CPI máximo e

PIP máximo, que representa a pior condição de CPI e PIC

encontrada por indivíduo.

As perguntas do questionário demográfico e

socioeconômico se referiam a idade, sexo, raça ou cor do

indivíduos e sua classe econômica. A idade em anos foi

comprovada a partir da data de nascimento dos participantes.

O sexo, de acordo com a classificação de gênero masculino

ou feminino. A característica raça/cor foi considerada segundo

a autodeclaração do indivíduo, sendo possíveis as seguintes

classificações: amarelo, branco, indígena, negro e pardo

(Brasil, 2001). A classe econômica foi obtida de acordo com

o “Critério de Classificação Econômica Brasil” que utiliza o

levantamento de características domiciliares (presença e

quantidade de alguns itens domiciliares de conforto e grau

escolaridade do chefe de família) para diferenciar a população,

abandonando a pretensão de classificar a população em

termos de “classes sociais”, sendo possíveis as seguintes

classificações: A1, A2, B1, B2, C, D e E (Associação Nacional

de Empresas de Pesquisa, 2010), em ordem decrescente de

condição sócio-econômica.

A coleta foi realizada por seis alunos do curso de

Odontologia da Universidade de Fortaleza, e a equipe

composta por três examinadoras e três anotadoras, que

previamente à coleta, foram submetidas a um processo de

calibração como previamente descrito (Brasil, 2001). Através

da estatística Kappa, mediu-se a reprodutibilidade diagnóstica

dos examinadores, cujos resultados foram 0,83 para o CPI e

de 0,80 para o PIP (Brasil, 2001).

Visitas a esses moradores específicas para esse estudo

ocorreram no período de janeiro a outubro de 2010. Os

exames foram realizados com paciente sentado com a cabeça

para trás, em cadeiras comuns dentro de seus domicílios,

sob luz natural, utilizando apenas espelho bucal e sonda

periodontal tipo OMS e de acordo com a técnica preconizada

pela Organização Mundial de Saúde (OMS, 1999).

Os formulários foram revisados e um banco de dados

foi criado usando o aplicativo EPIINFO e sua análise feita

com o aplicativo estatístico STATA 9.0 (StataCorp, 2007).

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Avaliou-se a magnitude de doença periodontal e perda de

inserção periodontal na população estudada considerando

a ocorrência desses no sextante mais afetado e o número

de sextantes comprometidos, segundo características dos

indivíduos.

Para estudar os fatores associados à ocorrência de bolsa

periodontal, os indivíduos foram classificados pela presença

ou ausência dessa condição. Assim indivíduos com sextantes

hígidos, presença de sangramento ou de tártaros foram

considerados sem bolsa periodontal. Aqueles com bolsa de 3

a 7 milímetros foram classificados como portadores de bolsa.

Os indivíduos, que possuíam todos os sextantes excluídos,

foram retirados do calculo das medidas de associação e o

nível de significância estatística usado foi de 5%.

O estudo não gerou riscos aos seus participantes e

atendeu aos princípios da autonomia, beneficência, não

maleficência e justiça conforme disponibilizados na Resolução

196 de 1996 do Conselho Nacional de Saúde. O projeto de

pesquisa recebeu aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa

em Seres Humanos da UNIFOR, Ceará em 02 de junho de

2008, sob parecer 150/2008 e sob registro no CEP de 08-167

e CAAE 1550.0.000.037-08. Todos os participantes assinaram

o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. A privacidade e

o sigilo das informações dos indivíduos foram rigorosamente

respeitados por todos os pesquisadores e demais profissionais

envolvidos nas etapas da pesquisa, da mesma forma como as

informações obtidas a partir dos procedimentos específicos

do projeto. Os nomes dos indivíduos participantes não

apareceram em publicações nem estiveram acessíveis a

terceiros.

RESULTADOS

Em relação aos valores máximos do CPI, somente 29

(20,6%) indivíduos possuíam pelo menos 1 sextante com a

presença de bolsas periodontais. Enquanto que ao analisar o

PIP máximo, 14 (9,8%) indivíduos apresentaram os níveis de

perda de inserção acima de 9 mm. Pode-se destacar que 30

(21,28%) examinados eram desdentados totais, não sendo

avaliados pelos índices periodontais (tabela 1). No total de

examinados, excluíram-se 260 (74,71%) sextantes devido

ausência de elementos dentários.

Quando analisado o índice CPI quanto ao sexo, a média

de sextantes hígidos foi de 0,43 para os homens e 0,69 para as

mulheres. O escore presença de cálculo superou os quesitos

sangramento e bolsa, tendo média de 2,19 para os homens

e 2,07 para as mulheres (tabela 2).

No grupo de adultos, com idades entre 35 e 44 anos, a

média de sextantes hígidos foi de 0,93, e na faixa de idosos,

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acima de 65 anos, foi de 0,15, sendo a presença de calculo,

o maior escore encontrado, respectivamente 2,87 e 1,00

(tabela 2).

Em relação à classe econômica, a presença de cálculo

revelou as maiores médias, com destaque para as classes C

e D, que apresentaram os valores 2,06 e 2,23. Analisando os

examinados segundo raça/cor, ressaltam-se os negros, com

maior representatividade na amostra, tendo apresentado a

presença de calculo de 2,15 (tabela 2).

TABELA 1 - númEro dE indivíduoS SEgundo cPi E PiP máximoS.

Número de

sextantes

acometidos

Indivíduos por CPI

máximo

Indivíduos por

PIP máximo

n % n %

0 5 3,5 52 36,9

1 2 1,4 25 17,8

2 74 53,2 20 14,2

3 20 14,2 7 4,9

4 9 6,4 7 4,9

não avaliados 30 21,3 30 21,3

TABELA 3 – fatorES aSSociadoS à ocorrência dE BolSa

SEgundo caractEríSticaS

Características

de exposição

Sexo

Risco

relativo

Intervalo de

Confiança 95%

Valor

de p

Masculino 1 0,413

Feminino 0,73 0.37 - 1.55

Grupo etário

35 – 44 anos 1 0,411

65 - 72 anos 1,38 0,64 - 2,98

Raça/cor

Branco 1 0,594

Amarelo excluído

Negro 0,49 0,12 - 2,08

Pardo 0,20 0,02 - 2,03

Indio 0 0,00 – 0,00

Classe econômica 0,992

B2 0 0,00 – 0,00

C 0,95 0,45 – 2,00

D 1

E excluído

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TABELA 2 - númEro dE ExaminadoS SEgundo EScorE dE cPi (média E intErvalo dE confiança doS SExtantES afEtadoS) SEgundo caractEríSticaS

Características

Sexo

Número

examinados

Hígido

Presença de

Sangramento

CPI

Presença de

Cálculo

Bolsa de 4-5 mm

Média IC de 95% Média IC de 95% Média IC de 95% Média IC de 95%

masculino 41 0,43 0,09-0,78 0,21 0,05-0,38 2,19 1,63-2,75 0 0

feminino 100 0,69 0,45-0,92 0,33 0,14-0,51 2,07 1,68-2,45 0,06 0,01-0,10

Grupo Etário

35 a 44 anos 83 0,93 0,64-1,23 0,48 0,25-0,71 2,87 2,49-3,26 0,03 0,00-0,07

acima 65 anos 58 0,15 0,01-0,29 0,03 0,01-0,82 1 0,60-1,39 0,05 0,00-0,10

Classe Econômica

Raça/Cor

B2 5 0,2 0,19-0,59 0,2 0,19-0,59 2 0,23-3,76 0 0,00- 0,00

C 83 0,79 0,49-1,09 0,3 0,14-0,45 2,06 1,64-2,47 0,04 0,00-0,09

D 52 0,38 0,18-0,58 0,3 0,01-0,59 2,23 1,69-2,76 0,03 0,01-0,09

E 1 0 0,00- 0,00 0 0,00- 0,00 0 0,00- 0,00 0 0,00- 0,00

Amarelo 2 0 0,00- 0,00 0 0,00- 0,00 0 0,00- 0,00 0 0,00- 0,00

Branco 5 0 0,00- 0,00 0,2 0,19-0,59 2,4 0,36-4,43 0 0,00- 0,00

Indígena 2 1 0,97-2,97 0 0,00- 0,00 2,5 0,46-5,46 0 0,00- 0,00

Negro 118 0,58 0,37-0,78 0,33 0,17-0,50 2,15 1,81-2,49 0,04 0,00-0,07

Pardo 14 1,14 0,29-1,99 0,07 0,06-0,21 1,85 0,61-3,09 0,07 0,06-0,21

Os escores do CPI foram dicotomizados em “sem bolsa”

e “com bolsa” para o cálculo das medidas de associação

em relação às variáveis sexo, grupo etário, etnia e classe

econômica. Os indivíduos do sexo feminino tiveram menor

risco de ter bolsa periodontal, entretanto sem significância

estatística (tabela 3).

Em relação ao grupo etário, os idosos tiveram 1,38 vezes

mais risco de ter bolsa periodontal, mas sem significância

estatística. De acordo com a etnia, ser negro, pardo ou índio

tem menor risco de ter bolsa periodontal (sem significância

estatística). E por fim, os pesquisados pertencentes à

classe econômica B2 e C possuem o menor risco de ter

bolsa periodontal, em relação à classe econômica D (sem

significância estatística). Não foi possível calcular o risco relativo

em relação à etnia amarelo e a classe econômica E, pois não

houve entrevistados suficientes.

DISCUSSÃO

No que se refere à doença periodontal, a literatura é rica

em evidências sobre a relação entre alterações sistêmicas,

fatores sociais e estado de saúde do periodonto (Medeiros

et al, 2006).

Um dos fatores sociais mais relevantes é a renda familiar, a

qual representa uma medida sócio-econômica que influencia

diretamente inúmeros outros fatores que agem como

elementos diferenciadores no acesso à saúde e na exposição

aos riscos para várias doenças, incluindo as bucais (Boing et

al, 2005 e Locker & Ford, 1994).

A relação entre o fator sócio-econômico e a doença

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periodontal foi verificada desde o primeiro levantamento

epidemiológico brasileiro em 1986, no qual se observou que a

condição periodontal não sadia estava presente em 69,6% dos

pesquisados inseridos no grupo cuja renda familiar era acima

de cinco salários-mínimos, aumentando para 75,3% entre

os que recebiam até dois salários-mínimos, sendo o cálculo

a condição mais registrada (Brasil, 1988). Neste estudo esta

relação também pode ser observada, já que os pesquisados

pertencentes à classe econômica B2 e C possuem o menor

risco de ter bolsa periodontal, em relação à classe econômica

D (sem significância estatística).

Gesser et al (2001) ressaltam que a população de menor

renda e escolaridade apresentaram maior deficiência na

escovação, sendo mais susceptíveis ao surgimento de cálculo

e sangramento gengival. Este achado também foi confirmado

no presente estudo, pois neste estudo a variável classe

econômica, com destaque para as classes C e D, apresentou

as maiores médias no escore presença de calculo.

Ferreira et al (2001) e Segundo et al (2004) apontam vários

indicadores de risco potenciais para a doença periodontal, tais

como sexo masculino, idade avançada e baixas condições

sócio-econômicas ou educacionais. Esses achados se refletem

no presente estudo, no qual os homens apresentaram média

de dentes hígidos por sextante menor que as mulheres, assim

como os idosos em relação aos adultos.

Indivíduos das classes econômicas C e D apresentaram

bolsa periodontal de 4-5 mm, o que não ocorreu nas pessoas

da classe B2, as quais possuem média menor de sangramento

e cálculo que as encontradas para as classes C e D. Este

padrão também é encontrado no estudo de Cimões et al

(2007), no qual a classe de maior renda teve menor perda

dentária por doença periodontal.

Neste estudo também foi verificado que a pior condição

mais frequente encontrada para o CPI foi a presença de cálculo

(53,19%) e, quanto ao PIP, predominou a perda de inserção

de 0 a 3 mm (36,88%). Apesar da dificuldade de comparações

entre os estudos, devido a diferenças de metodologia, podese

verificar que o mesmo ocorreu nos estudos de Reis et al

(2005), no qual a freqüência de cálculo por sextante foi de

29,02%, observada em 55,06% dos indivíduos e a perda de

0 a 3 mm foi de 24,04% por sextante, verificada em 37,08%

dos examinados.

Gaião et al (2005) observaram que, dos sextantes

presentes, 83,8% apresentavam cálculo, e Meneghim et al

(2002) relataram uma média de 32,1% dos sextantes com

cálculo e 75,7% com perda de 0 a 3 mm. Já nos estudos

de Silva et al (2004) e Segundo et al (2004), o padrão mais

encontrado foi divergente, sendo observado, em 70,4%

dos idosos, maior prevalência de periodontos hígidos, e em

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79,3% dos adultos, perda de inserção maior que 4 mm,

respectivamente.

A grande quantidade de cálculo observada transparece

a enorme deficiência dos serviços odontológicos, sendo

necessária a inter venção do profissional, através de

tratamentos clínicos simples e que podem ser prestados na

atenção básica, não subestimando o potencial agressivo e

cumulativo da doença periodontal (Antunes et al, 2008).

De acordo com SB-Brasil (Brasil, 2004) para região

Nordeste, a frequência para sextantes sadios e com cálculo

para adultos de 35 a 44 anos foi a mesma, 26,21%. No

levantamento epidemiológico de saúde bucal de Fortaleza

(Fortaleza, 2010), a condição mais encontrada foi sextante

sadio, 34,84%. Nesta pesquisa a maior situação encontrada

foi relativa à presença de cálculo de 53,19%.

No grupo de idosos a característica mais significativa são

os sextantes excluídos, com percentuais semelhantes de 78%

para o nordeste brasileiro, 61,96% para a cidade de Fortaleza

e 74,71% para a comunidade do Dendê. Tal perfil também

foi encontrado nos estudos de Medeiros e Rocha (2006),

Segundo et al (2004) e Meneghim et al (2002), afirmando

que o número de sextantes excluídos aumenta com a idade,

em virtude da progressão da doença, ocasionando perdas

dentárias. Tal condição é um fator que agrava a verificação

da condição periodontal, pois a prevalência de edentulismo é

alta, como observado no estudo de Moreira et al (2011), que

identificou na cidade de Botucatu-SP, a prevalência de 63,17%.

É sabido algumas limitações dessa pesquisa, pois alguns

estudos (Baelum et al.,1993, Baelum et al.,1995) criticam a

utilização dos índices CPI e PIP na interpretação de estudos

epidemiológicos transversais. Outra limitação refere-se a

presença nos resultados da condição cálculo maior que

a presença de sangramento, apesar de termos utilizado

o tempo de observação após a sondagem de 10 a 30

segundos, critérios recomendados pelos pesquisadores que

desenvolveram o CPI (Brasil, 2001). Pode-se ressaltar ainda

que nos critérios utilizados (Brasil, 2001), a pior condição deve

ser referenciada, então a presença de calculo, não quer dizer

necessariamente que não houve sangramento.

Tem-se ainda como limitação a dificuldade de interpretação

de dados epidemiológicos da doença periodontal, devido às

inconsistências metodológicas para avaliação dessa doença.

Não é possível, por conseguinte, avaliar com precisão a

prevalência das doenças periodontais e afirmar um declínio

mundial (Papapanou, 1996).

Enquanto a doença é avaliada através de perda de

inserção clínica acumulada, a retenção da dentição natural

em idades mais avançadas implica maior prevalência nestes

grupos. Contemporâneos estudos epidemiológicos devem,

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idealmente, empregar o exame dos tecidos periodontais em

pelos menos dois dentes por sextante, pois estimativas de

gravação parciais são geralmente enviesadas, especialmente

quando a prevalência da doença é baixa (Papapanou, 1996).

Como alternativa a essa problemática, Sá et al (2012) utilizaram

apenas o critério da presença de mobilidade dentária ou não

direcionando somente para a necessidade de tratamento

odontológico.

CONCLUSÃO

Diante do exposto, observa-se que é imprescindível

desenvolvimento e direcionamento de programas preventivos

e reabilitadores, -os especificamente para ressalta a

necessidade de uma maior interação entre profissional

e paciente, motivação quanto à escovação e uso do fio

dental nos dentes remanescentes, orientação de dieta e

do uso regular dos serviços odontológicos, aumentando e

qualificando a promoção de saúde.

ABSTRACT

Attempt to discuss the periodontal status of adults and

the elderly, this study aims to analyze the relationship between

periodontal disease and the socio-economic and demographic

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1- Silva RHA, Bastos JRM, Mendes HJ, Castro RFM, Camargo LMA. Cárie

dentária, índice periodontal comunitário e higiene oral em população

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associadas a fatores socioeconômicos. Rev Saúde Pública 2001;

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2005; 10(4):1015-1024.

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Bras Epidemiol 2004; 7(1):88-97.

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blood glucose in patients with marginal periodontitis. J Dent Res

2000; 27(8):537-541.

7- Robinson PG, Sheiham A, Challcombe SJ, Wren MWD, Zakrzewsha

factors in a community northeast of low income, measuring

the influence of gingival and periodontal health in the order

to subsidize the development of programs directed at similar

populations. With reference to the criteria adopted by the SB

Brazil, using the indices: Community Periodontal Index (CPI)

and Periodontal Attachment Loss (PIP) and the variables: sex,

age group, economic class and race / color for investigation.

We examined and interview 171 individuals. The average

healthy sextants was 0.43 for men and 0.69 for women, and

the presence of calculus and bleeding exceeded questions

pouch in both sexes. The elderly group had 74.71% of sextants

excluded, with an average of 0.15 healthy sextants. The dental

calculus is present in an average of two sextants in each of

the variables analyzed, carrying in the mouth a key factor

for the onset of periodontal disease, causing inflammation

shown. Thus, it is essential to the development and direction

of programs targeted to older adults, leading brands in the

smile of exclusion which were submitted by the dentistry of

the past.

UNITERMS: Periodontics, Health Surveys, Risk Factors.

** Pesquisa financiada através do Edital PPSUS – MS/

CNPq/FUNCAP/SESA 02/2008, apoiado também por PROBIC/

UNIFOR e PAVIC/UNIFOR

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Endereço para correspondência:

Mychele Cavalcante de Andrade Martins

Rua Gerôncio Brígido Neto, 60 – Ap. 301 – Praia do futuro

CEP: 60.182-280 – Fortaleza – Ceará

E-mail: mychele_andrade@hotmail.com

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