O Uso do Espaço e a Natureza da Cultura. A pesca da lampreia na ...

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O Uso do Espaço e a Natureza da Cultura. A pesca da lampreia na ...

O Uso do Espaço e a Natureza da Cultura.

A pesca da lampreia na Foz do Cávado

Álvaro Campelo

Director do Centro de Estudos de Antropologia Aplicada - UFP

Os estudos históricos e antropológicos sobre a problemática da pesca e das

comunidades piscatórias têm longa tradição na literatura científica portuguesa,

principalmente em monografias de história económica e na antropologia (Coelho 1993,

Graça 1992, Oliveira 1990, Moreira 1987, Fernandez 1991 e1999, Cole 1994, Nunes

1993 e 1999, Leite 1999, Martins 1999, Teresa Soeiro 2001, Campelo 2002a) 1 . Se num

primeiro momento a preocupação científica estava em delimitar geográfica e

historicamente essas comunidades, bem como as artes e direitos que subjaziam a

actividade dos pescadores, num segundo momento prevaleceu os sentidos das vivências

e a especificidade etnográfica. No entanto, em ambos os casos, a contextualização

espacial manifestava-se inultrapassável para a consecução dos objectivos propostos.

Parece-nos, contudo, que esta dimensão, a espacial/ecológica (no sentido lato do termo),

poderia ocupar um lugar mais proeminente, mesmo no campo dos significados

tradicionalmente abordados nesta temática, no sentido em que ela define e condiciona

os actores e a actividade piscatória (espécies, técnicas, estratégias e sentidos).

As implicações ecológicas têm uma tradição dentro da teoria antropológica,

nomeadamente com o materialismo cultural, especificando instituições,

comportamentos sociais, artefactos e técnicas (Harris 1964). Uma antropologia

ecológica tem vindo a sedimentar a sua presença na reflexão antropológica (Vayda

1 Veja-se o caso do número 47/48 – Julho /Dezembro 2001 de Oceanos, editado pela

Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, com o

título: “Os pescadores”. Neste número estão presentes vários artigos, entre os quais um

sobre a Apúlia, “Apúlia, terra de lavradores-sargaceiros e pescadores”, da autoria de

Luís Oliveira Ramos”. Um outro, que trata de elementos mais próximos da nossa

problemática, é o de Teresa Soeiro, “Pescadores de terra adentro”, onde a pesca fluvial,

nomeadamente, a título de exemplo, a do rio Minho e Cávado (este menos tratado) é

assunto de investigação. Também a revista Etnográfica (CEAS-ISCTE), no Vol. III, N.º

2 Ano 1999, apresenta trabalhos sob o título “Comunidades piscatórias: perspectivas

antropológicas”.


1969, Smith 1972, Hardesty 1977, Netting 1977, Duvigneaud 1980, Baker 1993, Tomé

Martin 1996, Moran 2000, Escobar 1999), no seguimento das reflexões entretanto

realizadas nas comunidades agrárias, agora transferidas para espaços e preocupações

mais abrangentes, que vão desde as florestas amazónicas aos espaços urbanos. Sendo

esta longa tradição científica um património da antropologia, a interdisciplinaridade

exigida hoje entre as ciências ditas humanas e sociais e as biológico/cognitivas obrigou

a um regresso ao espaço ecológico para além das implicações da sua morfologia quanto

à cultura material e social.

Quando reflectimos sobre o espaço ecológico podemos fazê-lo, então, com

preocupações e interesses diversificados. No entanto, talvez só introduzindo a dimensão

cognitiva e a sua interdependência biológica e cultural, poderemos reflectir sobre as

implicações das práticas de uma determinada comunidade (Vayda 1969, Boyer 1999).

Um espaço ecológico percebe-se e pratica-se como um modelo de leitura e de acção no

mundo, dentro do sentido de prática significante proposto por Geertz (1989). Será,

assim, possível uma antropologia comparativa que ajude a interpretar determinadas

práticas sociais tendo em conta o espaço ecológico, mas este ultrapassará sempre

definições totalitárias (deserto, montanha, marítimo, etc.) nas especificidades que

apresenta e na história da sua prática.

Ao nos propormos reflectir neste breve texto sobre estas preocupações, demos

oportunidade a sentidos e a questões que surgiram numa pesquisa realizada entre os

pescadores da lampreia na foz do rio Cávado (Campelo 2002a). A abordagem da pesca

da lampreia na foz do Cávado pode, também ela, ser feita sob vários ângulos, seguindo

este ou aquele interesse. Já o fizemos em pormenor sobre alguns desses ângulos,

nomeadamente as técnicas de pesca e significados associados às mesmas (Campelo

2002a) 2 . Aquilo que vamos abordar aqui de forma inicial é a percepção espacial do rio,

enquanto espaço conhecido e dominado, bem como a apropriação do mesmo, por parte

dos pescadores da foz do Cávado. Pretendemos salientar o facto desta percepção

construir uma identidade particular entre estes pescadores, ligada a uma cognição do

mundo, o que tradicionalmente caberia na noção antropológica de “visão do mundo”,

2 Neste trabalho publicado em 2002, e que resultou de uma pesquisa de campo realizada

entre 1998 e 2001,procuramos aliar a experiência de campo à leitura e interpretação dos

dados levantados. Esse objectivo reflecte-se nos “estilos” literários presentes no texto,

procurando, assim, não só expressar sentimentos, dados objectivos, como fornecer uma

interpretação antropológica, com propósitos científicos, mesmo que esteja marcada pela

subjectividade do investigador.


mas que a ultrapassa na medida em que esta pressupõe uma proeminência (ou

exclusividade) do cognitivo sobre o espacial. Assim, para além da organização das

estratégias de vida se centrarem no rio, as características e condições ecológicas que ele

apresenta (determinadas imposições físicas, administrativas, económicas, sociais e

políticas, bem como a configuração ecológica presente no estuário do Cávado, frente a

Esposende) configuram uma história da sua prática, a qual marca as estruturas mentais

da sua percepção e das interacções sociais construídas e a construir.

Os pescadores de Esposende vêm-se limitados nas suas estratégias de pesca, dadas as

características da restinga do Cávado. Há muitos anos que reivindicam o

desassoreamento da barra. Esta realidade física desde sempre impôs restrições nas

opções de pesca, bem como nas artes da mesma. Em consequência disso, depois de

muitas promessas e de muitas desilusões, o rio permanece como a razão da sua

existência. A maior parte das vezes o mar é só uma promessa, quase uma utopia! Raras

vezes ele é o espaço da consumação de um trabalho. No entanto, o mar está sempre no

horizonte dos pescadores de Esposende. Faz parte das suas conversas e permanece

como o lugar de experiências que se conservam na memória particular e colectiva. Dada

essa dificuldade física e atendendo à configuração do estuário do Cávado, bem como à

sua riqueza haliêutica, o rio apresenta-se como o palco onde se jogam as sortes da vida e

as desilusões do desejo. O rio, em Esposende, na maior parte das vezes, é uma crisálida

que não se metamorfoseia em mar.

O uso do espaço no estuário do Cávado está na origem de um discurso cultural. Se

entendemos por discurso cultural o discurso de comunicação de práticas e de saberes,

com a produção de objectos simbólicos (Campelo 2002b: 89-91), então as vivências dos

pescadores da foz do Cávado e o seu mundo simbólico reflectem na relação com o rio o

campo de significados que estrutura o seu discurso cultural. Se a identidade se constrói

na relação, podemos verificar esta relação na interacção destes actores, os pescadores,

com o espaço ecológico do rio, numa constante afirmação dialógica (Augé 1994), um

alter que define o ego, sendo que este só tem sentido no conhecimento profundo e

constantemente procurado e comunicado com o outro. A aprendizagem do estuário

precede a aprendizagem da pesca. Não há artes que ultrapassem essa modelação inicial

ou iniciática. A frase “cresci a brincar no rio” denota essa definição de identidade que é

inatingível para o curioso ou experiente pescador entretanto chegado.


Para a maior parte dos transeuntes da marginal de Esposende o estuário do rio é

“apenas” uma paisagem idílica, onde o olhar se estende em deleites ora solitários, ora

partilhados. Os mais jovens vêm nele o convite a desportos onde podem exibir tanto a

destreza como a virilidade ou o status económico 3 . Há ainda aqueles que o percorrem,

subindo e descendo, no engano de uma vocação marítima. As novas práticas de lazer e

as interferências do turismo sobre o litoral (Barbaza 1970) alteraram o olhar sobre o rio.

Mas para alguns, esse rio é um lugar familiar, vivido quotidianamente, conquistado

desde os tempos da infância e onde já deixaram alguns dos seus entes queridos. “A terra

onde estão os nossos mortos, essa é a minha terra” dizia um nativo norte-americano.

Podemos dizer, colocando-nos na pele de um pescador, que a água onde morreram os

nossos, pertence-nos! Parece-me que este é o sentimento mais notório entre os

pescadores de Esposende em relação ao rio: ele pertence-lhes!

Assistimos, então, a uma apropriação do rio. E é essa apropriação que define o tipo de

relações a estabelecer, seja com o lugar, seja com os outros actores sociais. A

perspectiva proxémica de análise obriga-nos a colocar os sentidos jogados por estes

diferentes intervenientes. O rio é familiar e o uso do rio estabelece a diferença com os

outros actores sociais. Mas os sentidos criados entretanto sobre este espaço comum - a

foz do rio - colidem com os interesses dos pescadores. Actualmente os interesses dos

pescadores ocupam uma parte marginal nas preocupações dos decisores e nos interesses

da cidade. Os “olhares” sobre a foz do Cávado cruzam-se em múltiplos interesses, que

vão desde os da indústria turística, imobiliária e haliêutica, até ao da preservação

ambiental. Não necessariamente opostos, mas quase nunca coincidentes, estes “olhares”

definem estratégias de uso e constróem perspectivas de análise do espaço que informam

não só as práticas dos actores sociais, como as formas de pensar.

Interessa-nos, aqui, analisar, partindo de uma actividade pontual (a pesca da lampreia)

como o pescador de Esposende “olha” o espaço onde actua e como este olhar define a

sua interacção com esse espaço e com os outros actores sociais, constituindo, assim,

uma forma de pensar o mundo.

3 Frequentemente encontramos os pescadores revoltados com as acrobacias dos adeptos

dos desportos motorizados, principalmente das motas de água.


Nascer pescador em Esposende é, como vimos, crescer no rio. Mas continuar pescador

é resignar-se ao rio, perante os limites de acesso ao mar. O rio é uma escola, uma

identidade, quando deveria ser uma introdução ao mar. Encontramos os pescadores

marcados por este identidade e por este limite. Não há futuro para os pescadores

quando o mundo se resume às possibilidades permitidas apenas pelo rio. É verdade que

se vai ao mar, quando a barra o permite. Mas o que mais sobressai nas conversas com os

pescadores é esse limite imposto pela barra. Qual é o pescador que não tem uma história

para contar?: o susto que teve, a volta do barco, a perda das artes, apetrechos… Muitos

foram os que partiram para outros portos e outras profissões devido a este limite 4 .

Noutros lugares (Moreira 1987, Oliveira 1990, Soeiro 1999), com diferentes condições

ecológicas, as comunidades que se especializaram na pesca fluvial desenvolveram

também o trabalho dos campos. Seria, inclusive, a actividade agrícola a principal

ocupação e a pesca um complemento precioso. Neste caso o estatuto de pescador era

sempre problemático, porque não claramente definido, e os lucros da pesca situavam-se

no campo da oportunidade económica, a reflectir-se positivamente no status dos que os

detinham. Em consequência de novas alternativas profissionais complementares à

agricultura, verifica-se hoje uma diminuição drástica destes pescadores fluviais, sendo

que alguns dos que restam o fazem com nostalgia pelo passado. Verificamos isso, por

exemplo, no rio Lima 5 . Os que pescavam nos rios, eram os pescadores que corriam

menos riscos, tanto de vida, como económicos, ao contrário dos que tinham como única

ocupação a pesca. Lembram-nos os nossos avós, em terras mais do interior, as

peregrinações de Inverno dos pescadores da Póvoa (os “filhais de Deus”), mendigando

pão para matar a fome dos longos dias de tempestade! Afastados do mar pelas

intempéries, recorriam à caridade dos agricultores, pedindo esmola ou negociando

ajuda, a ser paga por ocasião de sortes no mar, ou propondo trabalho temporário a troco

de algum dinheiro. Havia, inclusive, comunidades piscatórias que tinham como

estratégia de casamento procurar alguém oriundo de famílias de agricultores, a fim de

4 Encontramos muitos relatos de pescadores que partiram para os portos portugueses de

pesca mais importantes, como o de Leixões, Peniche e Sines. Mas também houve quem

partisse para a Galiza (Vigo). É frequente vermos na marginal de Esposende homens

que esperam por carrinhas que os transportam para alguns desses portos.

5 Em entrevistas com pescadores de Vila Mou / Lanheses verificamos que descrevem

esta actividade de pescador como um “desporto” e um “divertimento”. No entanto

vários foram os que afirmaram reservarem para a pesca da lampreia um lugar especial,

dado o valor económico que ela representa para as suas economias familiares.


suprir as necessidades em momentos de dificuldade (era o caso dos pescadores de Vila

Praia de Âncora). Ser pescador era ser pobre e sujeito aos caprichos de uma natureza

por vezes madrasta (Santos Graça 1995). No caso dos pescadores de Esposende essa

relação com a agricultura faz-se só quando a necessidade impera, pois acreditam-se

como pescadores da costa, mesmo que se especializem nas actividades lucrativas do rio.

Por esta razão não têm a mesma relação com a actividade agrícola como outros

pescadores fluviais, no sentido de fazer dela uma actividade complementar.

Em Esposende, a cidade, ou seja, a sua população, quase esqueceu os pescadores! Sabese

classificar uma possível área onde habitam, mas esquece-se o papel marcante que

tiveram neste aglomerado (o Senhor dos Mareantes, da Misericórdia, disso é

testemunha). No entanto, para aqueles que o são, vislumbra-se o orgulho na pertença a

uma família de pescadores. Mas Esposende tornou-se uma cidade privilegiada pelo

turismo; desejada por migrantes do ócio, bafejados pela fortuna (Ascanio 1994). Parece

não haver espaço para os pescadores! Há muito que a tal reivindicação de uma saída

segura para o mar se faz ouvir. Muitas são as razões invocadas para a não concretização

deste pedido dos pescadores (ecológicas, económicas, etc.). Por pouco o conseguiam

quando as vozes de uns barcos estranhos à pesca pressionaram os decisores… Prova do

alheamento da cidade em relação aos pescadores é o dia de S. João, dia em que os

pescadores organizam uma festa. Na noite de S. João faz-se uma parada onde brilham

crianças e adultos, vestidos no rigor da tradição, carregando vistosos arcos e cantando.

A dado momento do percurso saem para a marginal. O espaço largo convida à

participação ou ao visionamento pela multidão. Ora o que acontece é que nos passeios

da marginal são raros os curiosos e ausentes os foliões! “Trata-se de uma festa dos

pescadores!”, justificava desta forma um amigo a ausência de curiosos! Os pescadores

são, de facto, um grupo à parte e uma cultura particular dentro de uma comunidade cada

vez mais interessada na aparência egoísta e no fruir das mais valias burguesas.

Há, no entanto, um momento no ano em que eles saltam para o primeiro plano da vida

da comunidade. Trata-se da época da pesca da lampreia! É nesta altura que se adquire a

visibilidade perdida, na relação com os outros grupos sociais, e é esta a ocasião para

resgatar algumas das dívidas contraídas em momentos menos bons. É certo que também

a pesca do “machão” (ou enguia branca) é regeneradora de proventos, mas sobre esta

actividade, proibida, não falaremos nesta exposição.


Falemos, então, da pesca da lampreia!

Na maior parte dos rios a norte do Mondego, inclusive, pratica-se a pesca da lampreia.

Talvez os rios Minho, Lima e Cávado tenham mais tradição e mais “artes”, tanto na

forma de a pescar como de a cozinhar. Existem pratos gastronómicos e artes comuns,

desde o arroz de lampreia à lampreia à bordalenga, da pesca com rede de tresmalho à

estacada. Singulares são algumas formas de conservação e de confecção, bem como da

sua pesca: a lampreia no fumeiro do Alto Minho e as célebres pesqueiras do rio Minho,

e as particularidades da pesca no Cávado. Desenvolvamos um pouco estas artes de

pesca no Cávado.

A variedade de artes da pesca da lampreia na Foz do Cávado demonstra uma

extraordinária capacidade de compreensão, por parte do pescador, do espaço ecológico

do estuário. Conforme a zona do rio, a arte varia, e a escolha é feita a partir de um

“olhar” atento e experimentado.

Passemos à descrição dessas artes. Assim, temos:

1. No paredão da foz, a pesca com o “gallheiro”.

2. No molhe que se segue ao paredão, com a “guilheta”.

3. Na embocadura do rio, pesca-se, com o barco fundeado, com a rede e a

“ponteira”

4. Na restinga ou “bicheiro”, com o “bicheiro”, donde recebe o nome.

5. Na velha ponte de Fão, com a “fisga”.

6. Ao longo do rio, percorrendo-o em pequenas embarcações, com rede de

tresmalho, “varrendo” o rio.

7. Nas proximidades da ponte de Fão, com a estacada (com rede de tresmalho fixa

nas estacas e com os “contras” no fundo do rio) e as suas companhas.

8. Mais recentemente (com cerca de três anos) utilizam-se redes fixas a montante

da ponte de Fão, de forma semelhante ao que no rio Minho chamam de

“botirão”, ultrapassando as limitações impostas pelas companhas da estacada

(note-se que a maior parte dos que praticam esta arte também estão ligados à

estacaria ou a outras artes.

9. Ainda no rio, com a chamadapesca à tona”, valendo-se da iluminação da

marginal.

10. E, por fim, nunca vista por nós, mas referida por alguns pescadores, a pesca com

o “molhe”. Trata-se de um conjunto de varas enfaixadas, colocado no rio, onde


as lampreias se fixam pela boca para descansar. Os pescadores, com a ajuda da

ponteira ou guilheta, apanham-nas com uma certa facilidade.

São muitas, como vemos, as artes. Umas mais sujeitas a regras e direitos, como a

estacada, outras, marginais e conflituosas, como a “fisga” na ponte de Fão; umas onde

prevalecem a coragem e engenho individual, como a pesca com o galheiro no paredão, a

fisga na ponte ou o bicheiro na restinga, outras em grupo e partilhadas, como a realizada

no barco com a rede de tresmalho ou a da estacada.

É certo que para além das que exigem mais engenho do que outras, há aquelas que

proporcionam melhores proventos. Daí a afirmação das capacidades individuais e da

destreza inteligente dos do paredão, bem como a inveja dos direitos das companhas da

estacada. No passado alguns “amadores” (Campelo 2002a) saltavam para cima do

paredão da foz. Hoje, com a obrigação das licenças (nem sempre pacíficas), cabe ao

pescador escolher a melhor arte para o momento certo, sabendo que só alguns têm

direito à estacada.

Mas quem quer participar do entusiasmo que a todos percorre durante esta época, esse

tem de subir ao paredão da foz. Ali vivem-se momentos de excitação indiscritíveis. É o

palco por excelência do pescador da lampreia. Multidões de forasteiros acorrem em

noites de bom tempo ou em fins de semana coincidentes com maré propícia. Aqui se

exibem os sinais de pertença (as marcas e cores dos galheiros); aqui se convive e se fala

de aventuras, graças e infortúnios. Assistimos a discussões com as autoridades

marítimas (sobre as licenças e a utilização de lampiões) e à manifestação dos desejos

dos pescadores. Ali estava o palco dos silêncios da espera, dos gritos alegres do

encontro, e do ruído das reivindicações. Pela organização do espaço, a zona da foz é

propícia a toda uma encenação para o exterior da comunidade piscatória, bem como um

lugar que incita à participação das sortes por parte dos amadores. Este encontro

proporciona o envolvimento de todos e é causa de muitas “estórias” à volta da lampreia,

na sua maioria puras fantasias. Os pescadores aproveitam este palco para um pouco de

visibilidade e para ridicualrizar alguns dos presentes, ingénuos ou ignorantes na matéria.

No alto do paredão, os que seguram os galheiros permanecem estáticos e fixos nas rugas

da água, esperando um sinal, um indício da desejada. À sua volta os amigos,

desconhecidos e curiosos comentam e questionam tão desconcertante atenção e espera

(veja-se o caso singular de na faina de 1998-99 termos encontrado um pescador sentado


numa poltrona em cima do paredão!). Só quando a lampreia, depois de uma onda de

tentativas, salta para a calçada, é que os forasteiros compreendem a razão daquele olhar

parado e intrigante. Esse olhar transforma-se num rosto rasgado pela alegria, difícil de

partilhar pelos presentes.

Na pesca da lampreia, a selecção das artes e dos locais de pesca é feita segundo critérios

de oportunidade, de abundância da presa, de artes disponíveis, de capacidade do

pescador ou de direitos adquiridos (estacada). No entanto, estas opções exigem um

conhecimento profundo do espaço de acção, conhecimento que a experiência do

mesmo desenvolve ao longo do tempo, seja da história da comunidade, seja da história

do próprio indivíduo. O que pretendemos afirmar é que esta prática do espaço, a

percepção do meio ambiente, a experiência realizada e os processos mentais

(neurobiológicos) estão em estreita interacção 6 , implicam-se mutuamente e manifestamse

em particulares reacções emocionais e racionais.

António 7 percorre o rio na pequena embarcação motorizada, virando à esquerda e à

direita, como se um mapa estivesse desenhado na superfície das águas. São quatro horas

da manhã e quase não se vê as margens do rio. Busca o lugar propício para a “pesca à

tona”, arte que frequentemente arrisca, se as condições climatéricas e de maré se

juntarem. Para António o rio é a sua casa, como nos diz. Conhece-o como ninguém,

apesar da sua juventude (terá por volta dos 27 anos). Apesar da dureza da vida de

pescador, é aqui que se sente realizado e é aqui que avalia as suas hipóteses de vida. No

cais dos pescadores outros homens passam as horas que antecedem a faina na conversa

e no arranjo das redes. O que mais sobressai nas suas conversas é a incapacidade de

serem compreendidos pelos decisores, pela sociedade em geral. Não são eles, segundo

dizem, os que arruinam o rio e a pesca, mas os industriais e os que andam pelo rio sem

serem pescadores. Como podem eles, questionam, decidir obras e leis para o rio, sem o

conhecerem, sem dependerem dele? As leis, a serem aplicadas em todos os locais, não

6 Veja-se o caso do córtex préfrontal – a parte mais anterior do córtex cerebral – que

teve um particular desenvolvimento ao longo do processo evolutivo de hominização dos

primatas (cf. Deacon 1992). Esta parte do cérebro fornece ao sujeito representações do

mundo, de si e dos outros, as quais são mais ou menos elaboradas conforma a pessoa as

enriqueceu na sua construção ao longo da vida, em função da sua educação, do seu

ambiente cultural e da interacção destes com o meio ecológico. As emoções ou

respostas “primárias” controlam-se através deste saber adquirido, ao mesmo tempo que

as racionalizações dos indivíduos são apropriadas e consequentes quando inseridas

numa memória impregnada pela emoção. Desta forma se compreende a interacção da

biologia e da cultura nas formas do pensar.

7 Nome fictício de uma personagem real.


deixam espaço para a particularidade de cada rio. É certo que reconhecem o facto de

algumas das suas actividades não serem as mais justas, como a pesca do “machão”. Mas

que alternativas têm? Quem dá de comer aos filhos e paga os impostos? Talvez a saída

seja aceitar alguns dos empregos que entretanto a autarquia foi criando com o aumento

da população da, agora, cidade, lugar de veraneantes ou daqueles citadinos que

procuram um pouco de mar para lazer. Alguns já o fizeram, mas a nostalgia do rio e do

mar vê-se nos olhos que circundam o paredão! É neste dilema que vive a maior parte

dos homens pescadores de Esposende: preservar o seu mundo e sentir-se em casa,

permanecendo pescadores mas com dificuldades, ou partir para outras profissões, talvez

mais rentáveis, e entrarem num mundo desconhecido e com pouco sentido. No caso de

Esposende não se trata somente do fosso económico entretanto criado entre um grupo

social que deu origem à comunidade, seu sentido de interacção, e um outro que vive dos

serviços e da especulação imobiliária provocada pela afirmação de um novo paradigma,

o da cidade do lazer. Do lugar piscatório - marginal ao espaço social envolvente, mas

central na afirmação do grupo, das suas expectativas, da sua religiosidade, da

exploração e profundo conhecimento do estuário do Cávado - até à cidade do lazer, vai

uma história social e económica que obrigou a novas visões do mundo. Acontece que,

frequentemente, as marcas e a cultura que deu origem a esta comunidade tendem ao

esquecimento ou à marginalização, como se ainda hoje não existissem alguns dos seus

membros. Esta é uma cultura a preservar, a conhecer, porque revela não só uma

identidade da comunidade, como é a afirmação de uma visão do mundo que estrutura

grande parte das práticas de alguns dos actores sociais que aqui vivem. Grande parte da

produção cultural desta comunidade depende de um domínio do intelecto que se

desenvolveu na forma como produziu, descobriu e seleccionou determinadas práticas e

produtos tendo em conta o estímulo ambiental que disfrutava.

Podemos dizer que o meio ambiente, o espaço do estuário do Cávado, onde os actores

delineam as suas práticas, funciona como um código de leitura e de avaliação de

estratégias a definir ou definidas, ao qual se pode acrescentar os sentidos entretanto

criados e recriados pela experiência desses actores. Como diria Zé Perpétuo, do

romance de Mia Couto “Mar me quer”, “Dispensado de pescar, me dispenso de

pensar”! Ou seja, os pescadores deste estuário “pensam” o espaço, e fazem dele um

sistema de interacções, presente nas histórias dos acontecimentos vividos, na variedade

das artes e dos seus usos, dos conflitos e invejas presentes, da fortuna e da desgraça, a

marca da uma identidade afirmada e do sentido com que constróem o seu quotidiano. A


aprendizagem do rio desde a infância e a prática do mesmo ao longo da vida, estruturou

os sistemas mentais 8 destes homens, a sua cultura ou visão do mundo. Quando se é

obrigado a “ler” a informação disponibilizada por um determinado espaço ecológico, de

forma a optimizá-lo no uso e a partilhar essa informação na interacção social, os grupos

sociais desenvolvem um reportório conceptual, um sistema simbólico que estão

associados a um desenvolvimento da mente (Boyer 1999: 207). As formas cognitivas

estão, assim, dependentes das práticas culturais, abstractas e materiais, na mesma

medida em que estas só podem ser colocadas em prática porque têm capacidades

cognotivas entretanto disponibilizadas pela mente evolutiva.

A exigência que o estuário do Cávado provocou nos pescadores para a optimização do

seu uso obrigou a uma mapeação geográfica e mental. Não se trata de uma mapeação

rígida ou homogénea entre os praticantes, pois ela surge de uma prática adquirida pelo

saber transmitido e experimentado ao longo do tempo, sujeita a mudanças físicas,

culturais e políticas. As mudanças alteraram algumas das percepções do mundo destes

pescadores, como podemos notar no nosso trabalho de campo. Muitas vezes a uma

mudança mais notória, como por exemplo o surgimento de novas leis ou impostos, são

associadas outras, reais ou imaginadas, como se forças externas e inimigas se aliassem

para destruir o seu modo de vida.

Vir até ao pequeno porto dos pescadores, entrar no café que os reúne, sair para o rio,

percorrer o estuário, falar dos problemas que os afectam, discutir as opções de pesca, é

entrar num discurso compreensível, partilhável e onde é possível a crença, por oposição

aos discursos do poder e dos interesses burgueses, supostamente incompreensíveis.

Na relação com o rio cria-se uma linguagem de compreensão do mundo. Falar da foz do

Cávado sem este conhecimento e sem a linguagem do pescador que o percorre é

desconhecer a maior parte dos significados do rio. Mas falar do pescador de Esposende

sem falar do estuário do Cávado é não compreender o mundo que estrutura o seu pensar

e o seu viver. Se a natureza da cultura humana está marcada pela própria evolução das

capacidades cerebrais, pela originalidade de um cérebro altamente complexo com

especializações neuronais localizáveis pela recente tecnologia – podendo-se falar de

uma biologia da cultura ou da sua mútua relação -, esta natureza da cultura não deixa de

estar menos marcada pelo espaço ecológico. É ele o grande motor a provocar a

interacção das práticas humanas com as capacidades mentais disponíveis, especificando

8 Veja-se o questionamento que Geertz faz do sentido da mente no texto “O crescimento

da cultura e a evolução da mente” (1989: 41-61).


umas e desenvolvendo outras, de forma a deixar revelar a extraordinária pluralidade

cultural da comunidade humana, dentro de uma mente comum que por todos é

partilhada.

A cidade de Esposende deve inserir a comunidade dos pescadores, a sua cultura, dentro

dos novos paradigmas sociais e económicos, porque esta comunidade é a razão da sua

origem e a marca da sua originalidade.

BILIOGRAFIA

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