EXPIRAÇÃO 01

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EXPIRAÇÃO 01

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pablo lobato

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QuAnDO A IMAgEM EncOntRA uMA sAíDA DE AR

Eduardo Jorge

O ano é 1972. Ao nos levar a um passeio por Roma, Federico Fellini não deixa

de lado os subterrâneos da capital italiana. O metrô da cidade encontra-se em

construção. O curioso é que esses subterrâneos aparecem em obras. A linha

do progresso atravessa e perfura diversas camadas de tempo, isto é, diversas

imagens inscritas e incrustadas abaixo da cidade. Essa mesma linha corta e cruza

as manchas, modula-as em avanços que atualizam a convivência, enfim, o que

chamam novos rumos da civilização. O muro subterrâneo que traz uma marca do

suporte é atravessado. Assim, uma das cenas mais intensas do filme é justamente

esta: a broca abre acidentalmente uma das catacumbas e revela nas paredes

internas afrescos que, ao entrarem em contato com o ar externo, se apagam. Elas

desaparecem no instante desse contato com o ar e, por conseguinte, com o olhar.

Os afrescos, portanto, antes de desaparecerem, eram imagens de um arquivo

incerto porque não estavam inventariados. Era aquilo que estava sob a ordem do

desconhecido.

A diferença é que antes tais imagens sepultadas estavam vivas. Existiam sem

o regime do olhar. Anunciavam em seu silêncio um outro tempo: aquele que

desaparece com os avanços da civilização. De imediato surge uma hipótese

tautológica que a imagem para existir não prescinde do ar, do sopro, quer dizer,

de uma respiração. Mesmo a que se apaga com esse contato. A imagem, se


quisermos prolongar essa hipótese, não apaga o corpo que a constituiu. Aliás,

será em seu ritmo que o corpo que a inspirou e a expirou terá algum tipo de

sobrevivência.

As imagens existem senão por um contato. um contato precedido pelo

toque. 1 Inclusive as que existem por intermédio dos meios eletrônicos, nos quais

o diafragma (o músculo) marca uma intensidade de abertura para a captação das

imagens. O aparecimento e o desaparecimento das imagens decorrem justamente

de movimentos vitais do corpo: sístole-diástole, inalar-exalar, inspirar-expirar.

Expirar é uma palavra muito precisa porque expirar é um retorno. um gesto mínimo

de retorno ao mundo real. De retorno e de afirmação da sentença estou vivo. Por

isso as imagens respiram (e sem pulmões): elas se fazem vivas. Outro regime de

vida, seguramente, mas modo distinto de vida que vivemos desde as cavernas.

E por isso uma suspeita a partir da experiência–Fellini: ver é uma experiência

intensiva que modifica a imagem e está diretamente ligada a uma experiência de

gasto, de dilapidação. Essa seria a dimensão mais material da imagem, menos

simbólica. Decorre disso que o gesto de criar imagens é o mesmo de afirmar o

arquivo; afinal, sobressai uma imagem (trágica) que emerge do embotamento das

anteriores. A mão, ao inscrever algo novo sob o regime do visível, não deixa de

produzir um documento, rastro à luz, ao ar.

O ano é 2010. Em Expiração 01, mais que um culto ao desaparecimento e ao

apagamento, o gesto de Pablo Lobato é simples e contundente: Lobato devolve as

imagens ao ar que seu corpo captou, inspirou, inalou. Pablo propõe uma respiração

artificial, e o artista, ao respirar por máquinas, afirma no tempo presente um

ethos: estamos vivos. Essa afirmação que marca um elogio do instante não é tão

ingênua, porque, ao dispor de uma respiração outra, a da imagem, Pablo cria uma

1 Esse toque segue junto ao que assinalou Jacques Aumont: “O olho vê, mas também toca: há

na visão percepções óticas, puramente visuais, e percepções hápticas, visuais–táteis”. AuMOnt,

Jacques. O olho interminável. cinema e pintura. são Paulo: cosac & naify, 2004. p. 148. O toque

seria ainda uma operação de ir e vir, ou seja, o corpo de quem olha é tocado pela imagem. Ver g.

Didi-Huberman. O que vemos, o que nos olha. são Paulo: Ed. 34, 1998.


nova lição de anatomia: abre o corpo do cinema enquanto ele respira e mostra

nessa abertura, plena de ar, cenas que não formarão uma sequência ou um

filme, uma ficção ou um documentário. simplesmente Pablo Lobato devolve a

fragmentos de imagens suas autonomias de sentido, que não ficarão suspensas

a uma cena anterior ou posterior ou ainda a uma narrativa maior que as estruture

enquanto sintaxe audiovisual. sua força e intensidade residem no valor de

trecho. Esse foi um modo encontrado por Pablo Lobato de manter firmes esses

trechos, captados no decorrer da vida, sem a necessidade de uma edição que os

conectassem. Mesmo assim, Pablo joga com a montagem, com a edição em uma

dimensão mais vital, mais corporal, afinal imagens brutas entram em cena para

desaparecer, imagens que o artista capta, inspira, há mais de uma década com

sua câmera de mão.

O procedimento de Expiração 01 partilha de uma estranha simetria com os

subterrâneos de Roma, de Fellini. As imagens desaparecem ao contato com o

olhar. no entanto, antes, existe uma espécie de lance de dados. O procedimento

aparentemente é simples: um programa – acaso e determinação – fornece um

número entre um e trinta, marcando a quantidade de dias que aqueles trechos

existirão no espaço expositivo. uma vez disparados, os vídeos apresentam ano,

mês, dia e hora em que a imagem foi inspirada e expirada, depois a marcação

segue para uma etiqueta. Expiradas as imagens, resta um branco e no branco um

frame esmaecido que imprime à imagem uma condição e eficácia fantasmáticas.

Eficaz no seu desaparecimento, como em um dos vídeos de Lobato feito na capela

sistina, onde, após um pedido de silêncio, é dito em vários idiomas que “é proibido

filmar e fotografar”. como um afresco subterrâneo de Fellini, essa imagem

desaparecerá. Ou melhor, será devolvida. Devolver as imagens ao mundo, ao ar.

Arremessá-las ao acontecimento.

tomando o excerto de Fellini, suspeita-se que todas as imagens guardam um

germe de arquivo. Afinal, quando elas não permanecem sempre em contato

com o olhar, permanecem silenciosamente em contato entre elas mesmas na

brancura que lhes é própria. Elas não se dão à mostra em toda a sua duração.


Mesmo com uma discussão em torno da natureza efêmera da imagem, cada

imagem exposta não se situa apenas no campo nítido de visão, ela esvai-se para o

gesto, para o comportamento, para o pensamento e até mesmo para a suspensão

do pensamento, quando ela aciona biologicamente risos ou lágrimas. Afirmar

que a imagem é efêmera é assegurar-se de uma garantia de que ela não nos

sobreviverá. Ledo engano. corpo e imagem, duas formas de vida intimamente

ligadas, em contato via rituais dos mais elaborados aos mais simples. Dois

modos distintos de respiração: com e sem pulmões. Diante desses modos de

vida, sem dúvida, que surge um impasse, um impasse que põe em dúvida quem é

mais efêmero que o outro. Pablo Lobato, ao abrir o corpo do cinema, opera uma

mudança de sinal em relação à duração do corpo diante da imagem. A imagem

em Expiração 01 não é efêmera, mas existe como relação, como encontro com

o corpo no instante (de um a trinta, enquanto se respira) e depois desliza para o

incognoscível porque perdemos a imagem de vista, logo, do saber.

A devolução de Pablo Lobato segue para o campo incognoscível da imagem, um

mistério que chamamos de fim. Acontece que esse instante incapturável não é

um fim. Mas contínuos fins. E começos. É a convivência de vários tempos, de

vários instantes presentes que o cinema ensaia capturar, que a escrita ousa, que

o pensamento tenta, que a linguagem enfrenta, mas sempre parecem ficar e

se satisfazer com os vestígios daquilo que lhes é exterior. Expiração 01 é feita

de contínuos fins e começos. Pablo Lobato sugere metamorfoses. Mesmo com

uma equipe de programadores, o artista não doma o acaso, não possui o controle

sobre seu acervo em vias de desaparecer. Desaparecer? De se transformar.

seja em objeto plástico, em texto ou na força bruta de um trecho que ficará

biologicamente na memória, fisicamente no corpo de alguém ou invisível, se

acreditarmos, suspenso no ar.

Eduardo Jorge é mestre em Estudos Literários (Teoria da Literatura) pela

Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

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