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F

FÓRUM PERMANENTE DE TEATRO

RECORDAR SETÚBAL COM FAFE NO HORIZONTE

palcos

Revista

# 04

novembro ‘12

FERNANDO SOARES

o encenador em discurso directo


editorial

Hoje é o dia em que a Palcos lança o seu número quatro, dando a conhecer algumas

novidades no que diz respeito ao seu quadro de colaboradores. Após uma

reorganização interna do elenco directivo, a qual correspondeu também a alterações

na composição do quadro de colaboradores da revista trazendo um novo colaborador

permanente, o Doutor João Maria André - Professor Catedrático na Faculdade de Letras

da Universidade de Coimbra, onde lecciona as áreas de Filosofia e do Teatro,

colaborando também como tradutor, dramaturgo e encenador da Cooperativa

Bonifrates, de Coimbra e do Teatro Académico de Gil Vicente, do qual foi Diretor de

2001 a 2005.

Os destaques deste número vão para o X Fórum Permanente de Teatro realizado em

parceria com o GATEM - Grupo de Animação e Teatro Espelho Mágico, contando com o

apoio do Município de Setúbal, nos dias 5, 6 e 7 de Outubro últimos - um Fórum em que

Norberto Ávila e a sua dramaturgia foram alvo de uma merecida homenagem.

Fernando Soares formador de atores, presença habitual dos Fóruns Permanentes da

Federação Portuguesa de Teatro, será a figura que Manuel Ramos Costa irá entrevistar

nas “conversas de bastidores”. Ficaremos também a conhecer um pouco mais sobre

Fafe e o Grupo de Teatro Vitrine, que será o anfitrião do próximo Fórum Permanente de

Teatro, nos dias 25, 26 e 27 de Janeiro de 2013.

Por intermédio do professor João Maria André seremos conduzidos, a partir desta

edição, a uma reflexão sobre o Teatro como instrumento pedagógico, sobre a

articulação entre arte e educação como forma de potenciar a(s) aprendizagem(s).

Também o doutor Rui Sérgio, da Fundação Inatel, sob a rubrica “boca de cena”, abordará

o papel do Teatro de Amadores no movimento cultural nacional, bem como o

contributo que a Fundação Inatel, nosso parceiro no Concurso Nacional de Teatro, tem

dado no apoio à cultura amadora tradicional.

Na senda de revelação de novos textos dramatúrgicos vamos prosseguir com a

apresentação de mais um pequeno texto de teatro escrito por Elvira Oliveira do Teatro

Ensaio Raúl Brandão (Guimarães) intitulado “Tudo menos imitações”

É pois com o contributo de pessoas que vivem, pensam, sentem e amam o Teatro, que a

Federação Portuguesa de Teatro continua este seu percurso de defesa intransigente

desta arte e divulgação das suas mais-valias.

Fernando Rodrigues

Director

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editorial

conversas de bastidores

fernando soares

estreia

x fórum permanente de

teatro

programa de sala

grupo nun’ álvares

fafe

boca de cena

teatro amador: uma

referência local, um

movimento nacional

reportório

teatro, arte e educação (i)

sem palco

Tudo menos imitações

FICHA TÉCNICA

Propriedade

Federação Portuguesa de

Teatro

Praça José Afonso, 15 E

C. C. Colina do Sol, Loja 55

2700-495 Amadora

geral@fpteatro.pt

www.fpteatro.pt

Director

Fernando Rodrigues

Conselho Editorial

Sandra Paula Barradas, Luis

Mendes, Bruno Gomes e José

Teles

Colaboradores permanentes

Manuel Ramos Costa e João

Maria André

Colaboraram neste número

Rui Sérgio e Orlando Alves

Grafismo e Paginação

Gabinete de Comunicação /

Federação Portuguesa de

Teatro

Periodicidade Semestral

Edição Digital

Os textos propostos para edição

d e verã o re m e t i d o s p a ra

revista.palcos@fpteatro.pt ,

sendo objecto de avaliação

prévia, por parte do Conselho

Editorial.

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conversas de bastidores

FERNANDO SOARES

«ESTOU CÁ NA LUTA!»

Manuel Ramos Costa

Dramaturgo e Encenador

Ouvi-lo dizer poesia é um encanto. Vê-lo a representar é uma emoção. Enche um

palco. Enche uma alma. É das pessoas mais afetuosas e solidárias com quem já me cruzei

neste pequeno mundo das artes. E bom. Bom em tudo o que faz, em tudo o que diz. O seu

gesto é certeiro e acertada a sua palavra. Sempre.

Atravessou a vida trabalhando e partilhando o pão da boca e do espírito. Fez o que

estava ao seu alcance pela sua terra e pelas pessoas que reuniu à sua volta, nelas incutindo

o gosto pelas coisas da História e da Cultura. Ensinou-as a voar e aceitou com prazer

submeter-se tardiamente às provas do teatro ensinado, com sucesso. É um profissional

que se mantém fiel à pessoa e ao artista que sempre foi. Muito humano. Muito talentoso.

Muito crítico e exigente para consigo mesmo. E para com os outros também.

A vida rebenta-lhe nas mãos sempre abertas e derrama-se-lhe por entre os dedos

em acesas paixões, paixões que o envolvem mas nunca o conseguem prender. Ele não é

dele. Disso sempre teve consciência. É dos mundos. É das primaveras. Das palavras. Dos

silêncios e… de Deus.

Partilhámos de alguns acontecimentos culturais e naqueles em que ele foi o

principal mentor, vi-o sempre maior do que ele próprio se podia imaginar: Queria,

idealizava, encorajava e, fazendo mexer todos os cordelinhos da cena, soltava a obra, para

que as pessoas a pudessem agarrar pelos sentidos. Vê-lo a encenar, é ver os pássaros ao

tempo de fazerem os ninhos, com a mestria de quem sabe ir mais alto e mais longe… E,

como os pássaros, sempre humilde, sempre apaixonado e atento aos sóis, luas e ventos da

vida.

Ei-lo assim, tal como penso, aqui e agora, no diálogo que se segue.

MRC – O que te dizem as palavras «sol» e «Liberdade»?

FS – Há palavras que de tão «comuns» e de tão orgânicas que se tornaram, que dizer o que

significam e ou falar delas como que se complica; é como explicar, porventura, porque e

como se respira. Da importância delas – das palavras – temo que, de as ter por tão

adquiridas, perder a dimensão da sua real substância e importância. Isto preocupa-me

cada vez mais. Direi, no entanto, que Sol e Liberdade são como a mesma coisa, porquanto

absolutamente indispensáveis. Quero tê-los sempre e que saiba merecê-los.

MRC – Fotografia?

FS – Hoje manipula-se, tira-se e coloca-se o que se quiser nela. Conceptualmente, ao longo

dos anos teve importâncias diferentes. Hoje faço dela uma ferramenta de pintura; direi:

fotografo o que gostaria de pintar.

MRC – Poesia?

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FS – Recorro ao Prof. José Hermano Saraiva. Poesia é A Alma da Gente.

MRC – Teatro?

FS – Livros e livros, mestrados e doutoramentos sobre a sua história, o que é e para que

serve. Fico ainda pela resposta anterior: teatro é A Alma da Gente.

MRC – Foi o teatro que te encontrou ou foste tu que encontraste o teatro?

FS – Tenho a certeza absoluta que foi ele que chegou muito antes de mim.

MRC – O que é ser-se ator?

FS – Voltamos ao problema das definições, não é? O Herberto Hélder disse: (…) ninguém

ama tão corporalmente como o ator (…). Com o corpo e com a alma. É verdade. O ator é

isso.

MRC – Como ator, qual foi a peça em que

te estreaste? Conta como foi.

FS – O Doido e a Morte, de Raul Brandão,

já lá vão trinta e tal anos, no Teatro dos,

então, TLP do Porto, com direção do Raul

Leite. «Profissionalmente» A Lição de E.

Ionesco, há cerca de doze anos, no Teatro

do Noroeste, em Viana do Castelo, com

direção do Jorge Castro Guedes. Foi

muito agradável, uma e outra. Tempos

diferentes, maturidade diferente,

recursos diferentes, mas experiências

muito boas, até porque se tivessem sido

más, ter-me-ia ficado por aí.

MRC – Além de ator és também

encenador. Como te vês num e noutro

papel? Estas duas pessoas dão-se bem?

Completam-se? Ou preferem trabalhar

separadamente?

FS – Ser-se as duas coisas ao mesmo tempo e no mesmo espetáculo é muito complicado.

Tenho muita dificuldade em fazê-lo. Falta espaço de leitura. Distanciação. Geralmente,

quando interpreto e dirijo arranjo uma cobaia para de vez em quando poder sair e

observar.

MRC – Quais foram os projetos teatrais mais marcantes da tua vida artística?

FS – Não gosto muito de algumas coisas que fiz, sobretudo das que pelo trabalho que me

deram, e pela qualidade que atingiram e da importância que tiveram para a

comunidade, se perderam no caminho. Reconheço que em alguns projetos não fui

suficientemente criterioso na escolha das pessoas em quem deleguei a continuidade

desse projeto. Tirando isso, tive e tenho o privilégio de, independentemente da valia e

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dimensão dos projetos que criei e onde estive e estou envolvido, ter aprendido muito com

tudo e em tudo, e ter dado o meu contributo para que outras pessoas, mormente jovens, se

tenham igualmente enriquecido com esses trabalhos. No entanto, pelo contexto em que se

desenvolve e pelas características muito particulares, atribuo uma satisfação e

importância particulares ao trabalho que faço no contexto escolar e prisional.

MRC – Que tipo de encenador és tu? Ou melhor, como ages e conduzes um elenco que

vais encenar? És duro? Implacável?

FS – Os atores com quem trabalho terão essa resposta. Seguramente que uns gostarão,

outros não. Não me preocupe esse juízo. Preocupa-me, sim, o preparar-me o melhor

possível para o meu trabalho, fazer uma avaliação constante do que faço e partilho com

os que comigo trabalham. Interessa-me sempre as pessoas. O espetáculo não é um fim em

si mesmo. Criar laços pessoais fortes com todos é o que desejo. Não sei trabalhar doutro

modo. Parte significativa do tempo de ensaios, ocupo-o a refletir sobres coisas passíveis de

constituírem pontes objetivas para os conteúdos do texto que estou a trabalhar, e isto pela

simples razão de que, sobretudo no contexto Associativo e escolar, me interessar

primeiramente que os atores crescem como seres humanos, e só depois vêm aspetos

artísticos. Em relação aos atores, não trabalho com «atores» para quem o teatro é uma

«coisa» sem regras, sem respeito, sem humildade, sem estudo e sem trabalho. Quando isto

acontece alguém fica a mais. Como em qualquer atividade, há trabalho e correlativas

responsabilidades inerentes às funções de cada um. Se cada um cumprir as suas o

resultado surge. Prefiro um ator, que, mesmo sem grandes recursos, esteja sempre

disponível para trabalhar, aprender e ensinar. O Teatro precisa é desta gente. Os outros

não acrescentam nada.

MRC –Dizem que não há propriamente uma dramaturgia portuguesa. Mesmo assim,

que autores nacionais mencionarias dignos de serem representados?

FS – Dizes bem: diz-se. Mas diz-se tanta coisa não é? Poesia para crianças? Literatura

para crianças? Literatura africana? Dramaturgia clássica? Etc., etc. Já agora: será que

existe dramaturgia sem dramaturgos? Não me interessa essa discussão. O que sei é que

existem dramaturgos portugueses que escrevem excelentes textos. Para além dos

habituais «clássicos«, gosto particularmente de outros «clássicos», e refiro apenas alguns

que já trabalhei: Luís de Sttau Monteiro, Luís Francisco Rebelo, Hélder Costa, Luísa Costa

Gomes, José Jorge Letria, Jaime Rocha, e mais alguns.

MRC – Que balanço fazes do teatro em Portugal desde a revolução dos cravos? Achas

que, finalmente, o nosso país está bem servido e no bom caminho?

FS – Falar do Teatro em Portugal é como falar de quase de tudo, não é? Se hoje dizemos

que isto não está nada bem, é porque o que se fez – na forma e conteúdo – não foi feito

convenientemente. Não se projetou; não se articulou. O resultado não podia ser outro.

MRC – Mesmo tendo em conta as fragilidades do teatro feito nas associações, que

valores ou importância lhe conferes?

FS – A máxima importância. Qualquer atividade artística sendo orientada competente e

responsavelmente, constituiu uma excelente ferramenta no desenvolvimento integrado

do ser humano. Digo, há muito tempo, que o teatro Associativo tem a oportunidade de

criar sem os constrangimentos do mercado e de grupos. Existe a maior das liberdades

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para o fazer. Todavia e observando o panorama do teatro Associativo, noto que existe um

défice significativo a vários níveis, desde logo formação, e quando digo formação, não me

refiro somente a questões técnicas. Repara: quem vai assistir aos espetáculos? Dos

projetos Associativos onde trabalhei e trabalho, travo uma grande luta no sentido de

sensibilizar os atores a assistirem a espetáculos sejam eles feitos por quem quer que seja.

Dificilmente vão. É uma questão cultural no sentido alargado do termo. É necessário

trabalhar neste campo. O ator tem de ser espectador. Tem de ser cúmplice.

MRC – És licenciado em Teatro. Uma licenciatura tardia. Porquê?

FS – Sempre gostei do ensino. Organizei a minha vida para tirar a licenciatura e poder

desaguar no ensino. Infelizmente a conjuntura não favorece o desenvolvimento do meu

desejo. Este ano não arranjei escola para trabalhar, mas aguardo melhor sorte para o ano.

Não deito a toalha ao chão, isso não. Enquanto não vir os novos fazerem mais e melhor,

estou cá na luta.

MRC – Fala-nos da tua experiência no Teatro S. João. Foi assustadora? Conta.

FS – Nunca programei a minha carreira artística. Não tinha nem tenho condições para o

fazer. Muitas outras coisas me ocupam. Tudo foi acontecendo do modo mais natural. Há

sempre alguém que vai reparando no que vou fazendo. Reconheço por isso, que de vez em

quando sou um privilegiado. E aconteceu, como tinha já acontecido em relação ao Teatro

do Noroeste, à Seiva Trupe, ao Teatro do Bolhão ACE e a outros convites na área da Poesia.

Reconheço, no entanto, que trabalhar no Teatro Nacional teve um encanto particular,

sobretudo pelo que ganhei em ter trabalhado com o Nuno Carinhas, um ser humano

extraordinário, e o ter privado e partilhado o meu trabalhado com um conjunto de colegas

excelentes. Foi tudo muito natural, muito tranquilo. Aguardo a chegada de Fevereiro para

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me reencontrar com todos para voltarmos a apresentar Alma de Gil Vicente. Tenho

saudades.

MRC – O que estás presentemente a fazer, quer como ator quer como encenador?

FS – Até Fevereiro, faço várias coisas. Como não arranjei escola para trabalhar este ano,

estou a ultimar uma nova versão do Padre António Vieira (a partir dos sermões da

Sexagésima e de Santo António aos Peixes), que vou interpretar. Como encenador estreio

em Dezembro O Espelho e ainda A história da Boneca Abandonada, em dois projetos

Associativos.

MRC – Todos somos atraídos por projetos que, pela sua grandeza ou pela sua

envergadura, vamos adiando. Quais são os teus, em ambos os casos (ator e encenador)?

FS – Gostava de ter condições (ao nível de produção), para refazer: Portas Abertas (a

partir da vida e obra do Padre Américo). Zé do Telhado e Camilo Castelo Branco. Refazer O

Barão de Sttau Monteiro e gostava muito de fazer O coração de um pugilista de Lutz

Hubner.

MRC – O que te apraz dizer sobre os fóruns realizados pela Federação Portuguesa de

Teatro?

FS – Um trabalho necessário e de grande utilidade. No entanto, e já o comuniquei, entendo

que devem redefinir, especialmente, o que se pretende com o vetor da formação.

MRC – Que recado darias aos jovens que pensam estudar e fazer carreira no teatro?

FS – Que não se esqueçam de que estão em Portugal. Que isso não os impeça – apesar de tal

- de ter os seus sonhos e de os tentar materializar. Mas que sejam pragmáticos. «Dois

licenciados em Teatro, por uma prestigiada escola americana, reencontraram-se alguns

anos mais tarde e perguntam um ao outro quase em simultâneo: em que restaurante

trabalhas?”

MRC – Além do Teatro, que outras artes te emprestam alegria de viver?

FS – Poesia, sobretudo poesia. Direi até que mais que o teatro. Tenho também vontade de

voltar a pintar, e de me organizar para ter tempo para o cântico gregoriano.

MRC – Fora da tua ação profissional, quais são os elos mais importantes que te prendem

à vida?

FS – Filhos e netos, os amigos, as saudades da infância e dos que já não tenho comigo. Ter

tempo para ler o muito que falta ler, ouvir a muita música que tenho, e estar simplesmente

aqui no meio do monte com os meus cães usufruindo tudo com que a natureza me

presenteia constantemente, e ser merecedor de tudo isso.

MRC – Olhando para trás, que dirias, hoje, de ti mesmo?

FS – Os poetas dizem isso muito bem. O Albano Martins disse: «Pertence-te ser homem e

afirmar todos os dias que tens um compromisso: ser claro e brando como a luz e, como ela,

necessário, e não deixar crescer à tua porta ervas daninhas.» Cada dia que passa é um dia

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a menos, não é? Ficará quase tudo por fazer, no entanto, tento manter esse compromisso

… O Pessoa dizia: (…) para ser grande sê inteiro (…) Sê tudo em cada coisa (…) Põe

quanto és no mínimo que fazes (…) Espero que os que me recordarem o façam com a

maior das indulgências. Isso me «dará» um grande sossego.

MRC – Gostas das pessoas?

FS – Um dia destes disseram-me que estou menos falador. Sabes, tenho um medo enorme

de dizer ou fazer o que não devo, sobretudo aos de quem gosto. Tenho medo, se isso

acontecer, de não ter tempo nem capacidade para o remediar. Isto apavora-me

terrivelmente.

MRC – De Deus?

FS – Volto a Pessoa: (…) nunca o vi. Mas se Deus é as flores e os montes e o luar e o sol,

então acredito nele. Acredito nele a toda a hora.

E depois deste diálogo, apraz-me dizer, para terminar, que na sua voz, na voz que

lhe vem do seu interior, todas as palavras são mais palavras. E sempre magníficas.

Mérito seu. Privilégio nosso ouvi-lo.

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estreia

X FÓRUM PERMANENTE DE TEATRO

Setúbal 2012

O Grupo de Animação e Teatro Espelho

Mágico e a Federação Portuguesa de Teatro

organizaram o Fórum, o Município de Setúbal

e a Escola Secundária Sebastião da Gama

foram os parceiros em toda a plataforma

logística, os apoios chegaram do Inatel, do

IPDJ e do TAS – Teatro de Animação de

Setúbal.

José Teles

Director do Fórum Permanente de Teatro

180 participantes... 20 companhias... Este é o saldo, positivo, da décima edição do

Fórum Permanente de Teatro que aconteceu em Setúbal entre os dias 5 e 7 de

Outubro de 2012.

Compareceram as associadas: Acção Teatral

Artimanha, Agaiarte - Associação Gaia Arte

Estúdio, Alma de Ferro - Grupo de Teatro -

Associação Cultural de Torre de Moncorvo,

CEGADA - Grupo de Teatro, Cénico de S.

Joaninho - Clube Recreativo de São Joaninho,

Contacto - Companhia de Teatro Água

Corrente de Ovar, GETAS - Centro Cultural de

Sardoal, Gota TeatrOficina, Grupo de

Animação e Teatro Espelho Mágico, Grupo de

Teatro Palha de Abrantes, Grupo Mérito

Dramático Avintense, Gruta Forte - Grupo de

Teatro Amador, Metamorphose - Centro de Divulgação Artística, Páteo das Galinhas

Teatro de Bico, Teatro Independente de Loures, Teatro Nova Morada, Teatro Olimpo -

Associação Recreativa e Teatral dos Jovens e Amigos de Constantina, Teatro Passagem

de Nível, Teatro Vitrine - Grupo Cultural e Recreativo Nun'Alvares, Tin.Bra (Grupo de

Teatro Infantil de Braga) e ainda, a não associada Grupo Citânia Associação Juvenil.

Dividiram-se pelos paineis de Formação de Actores, com os formadores - PORFIRIO

LOPES; FERNANDO SOARES; JORGE FRAGA; CARLOS ALVES; HUGO SOVELAS;

POMPEU JOSÉ; de Encenação com ILDA TEIXEIRA; de Iluminação com PAULO PRATA

RAMOS; de Cenografia e Adereços com os formadores JOÃO FONSECA BARROS e RITA

TORRÃO respectivamente; Desenho de Som com PEDRO ESTEVES; de Caracterização

com AURORA GAIA, Escrita Criativa com MANUEL RAMOS COSTA e o Painel de

Dirigentes Associativos com a formadora SANDRA PAULA BARRADAS.

O autor homenageado, NORBERTO ÁVILA, marcou presença física e com a sua obra,

UMA NUVEM SOBRE A CAMA e HISTÓRIAS DE HAKIM.

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Sexta-feira, dia 5 de

Outubro em Portugal - dia

d e c o m e m o r a r a

Implantação da Republica

- na cidade sadina de

Setúbal - o GATEM, Grupo

Animação e Teatro Espelho

Mágico, implanta o cenário

no Palco do renovado

Fórum Luisa Todi.

Dos mais diversos pontos

do País, começam a chegar

os participantes do Fórum

Permanente de Teatro,

para a formação, a aprendizagem, em suma, para participar num encontro em que o

objectivo principal, tal como o dos ideais Republicanos, é a educação.

Com o auditório do Fórum Luisa Todi, praticamente esgotado, inicia-se o espectáculo,

“PINÓQUIO” - adaptação livre de Céu Campos da obra de Carlo Collodi e assim são

recebidos pela associada anfitriã e pela população da cidade os participantes no X

Fórum. No final, tempo houve para constatar que este era o primeiro espectáculo de

teatro a acontecer após a renovação do Luisa Todi e como tal relembrar Carlos César,

actor do Teatro de Animação de Setubal, por ter sido esta a sua “casa”, foi um imperativo.

Sábado, 6 de Outubro, logo pela manhã o secretariado está aberto, a credenciação é

efectuada e no Auditório, a Cerimónia de Abertura começa no horário previsto, as

alocuções são de boas vindas ao auditório renovado, à cidade e ao Fórum de Teatro, e,

após se constatar que as bandeiras, incluindo a Nacional, estavam correctamente

colocadas (não fosse acontecer como ao Presidente da República, no dia anterior nas

comemorações da Implantação da República) o fórum arranca para o seu principal

objectivo, os painéis de formação, em salas da Escola Secundária Sebastião da Gama.

Após o jantar, de novo Teatro no Luisa Todi, desta vez: “GRADIM À JANELA DA

AUSÊNCIA” de Manuel Ramos Costa, pela CONTACTO – Companhia de Teatro Água

Corrente de Ovar. Pela noite dentro, na Sociedade Musical Recreativa União

Setubalense a tertúlia do Fórum com

música ao vivo pelo “Os Canto Hondo” e

ainda tempo para poesia de vários

participantes, dos quais destacamos a

prestação de Aurora Gaia e Fernando

Guerreiro. É neste ambiente que os

subscritores do Manifesto 1% para a

Cultura apresentam o seu projecto.

Domingo de manhã os painéis recomeçam,

com o ânimo de terminar e apresentar os

resultados obtidos. Interrompem para o

almoço, com a companhia dos golfinhos na

sala dos Bombeiros e está na hora de voltar

ao Fórum (a avenida até parecia que se

tinha engalanado para nos receber). Dona

Luísa Todi, esperava-nos à porta com o seu

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melhor vestido de noite de ópera. Entrámos, agradecemos a todos, ouvimos a

Presidente do Município agradecer a realização desta edição na sua Cidade,

curiosamente a primeira capital de distrito onde este evento se realiza e partimos para

a apresentação do espectáculo produzido no âmbito deste fórum:

“UMA NUVEM SOBRE A CAMA” de Norberto Ávila

Encenação e Interpretação: Formadores e Formandos dos Painéis de Actores

Orientados pelos respectivos Formadores

Cenografia e Adereços: Formandos dos Painéis de Cenografia e Adereços

Iluminação – Formandos do Painel de Iluminação

Sonoplastia: Formandos do Painel de Desenho de Som

Caracterização: Formandos do Painel de Caracterização

O autor dava-nos sinais de reconhecimento pelo trabalho e mostrando-nos isso, na

Sexta-feira, ainda na estação dos comboios chega-nos sorridente, carregando a capa

onde trazia uma exposição de cartazes da apresentação pelo mundo duma das suas

obras “Histórias de Hakim”. Assiste e intervém em todos os momentos do Fórum,

participa em painéis tanto com ideias como, noutros, na concepção plástica.

Falámos bastante, sobre o seu currículo, sobre a sua obra, encetámos contactos...

Tirámos uma fotografia todos, assumindo a postura de que se tinha cumprido o Fórum.

Despedimo-nos até à décima primeira edição do Fórum, com a certeza que o

saberíamos muito em breve.

Encetam-se contactos com o Teatro Vitrine e confirma-se:

XI Fórum Permanente de Teatro - FAFE - 25, 26 e 27 de Janeiro 2013

Até lá.

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programa de sala

O Grupo Nun' Álvares foi fundado a 6 de Novembro

de 1932. O objetivo primeiro, era dar ocupação aos

jovens que os ajudasse na sua formação pessoal.

Inicialmente aberto a rapazes, as raparigas

esporadicamente tinham tido alguma atividade. Só

no ano de 1975 é que se tornaram membros de

pleno direito com a alteração dos estatutos.

As primeiras atividades, foram música coral e teatro. Hoje, o Nun`Álvares, além destas

atividades, tem também Patinagem Artística, Hóquei em Patins, Futsal (7 equipas

masculinas e femininas) Danças de Salão, Hip Hop, Ginástica, Kick Boxing, Música

Regional e Aulas de Viola.

Para toda esta atividade dispõe o Grupo Nun` Álvares de sede própria com pavilhão

desportivo acoplado e outras infraestruturas. Mas antes de aqui chegar, o GNA que

começou num local provisório dum salão paroquial e depois de percorrer uma série de

instalações, felizmente instalou-se na sede atual.

Hoje é Coletividade de Utilidade Pública, Medalha de Ouro de Mérito Concelhio e

Medalha de Prata do Município (Mérito e Gratidão) entre outras distinções.

Teatro Vitrine

Depois duma ação de formação de teatro

levada a efeito pela Câmara Municipal,

um grupo remanescente dessa ação

juntou-se para fazer teatro. Sentindo

necessidades do ponto de vista

organizacional e logístico, socorreram-se

do GNA que os acolheu de braços abertos,

fundindo-se com alguns elementos já

residentes e designados de “TEATRO

VITRINE“, dedicados ao lema “Em representação de um sonho“.

A Atividade deste grupo tem sido contínua e hoje é já um ponto de referência no meio

artístico fafense.

Vários são os trabalhos e temáticas apresentadas, tentando a valorização pessoal e a

satisfação do público amante de teatro.

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FAFE

sala de visitas do minho

Fafe é uma jovem cidade do Minho, mas com origens antigas. Por aqui andaram povos

como os Lusitanos e os Romanos que deixaram marcas consideráveis, hoje pontos

atrativos aos visitantes. É uma terra, pequena, mas com valor, pois possui inúmeros

monumentos e agradáveis espaços verdes.

É também conhecida pelo lema “ Com Fafe ninguém fanfe”, lema esse que apareceu

quando, há muitos anos atrás, se fez justiça a favor do Visconde Moreira de Rei. Nesse

tempo, como agora, o lema provoca um sorriso de simpatia por todos os fafenses.

Talvez por isso e por ser uma pequena cidade que tão bem acolhe os visitantes, Fafe foi e

ainda é considerada a Sala de Visitas do Minho, estando situada a 32 km da capital de

distrito, Braga.

O concelho de Fafe possui uma

á r e a d e 2 1 9 , 0 9 k m 2

aproximadamente, de que

fazem parte 36 freguesias, às

q u a i s s e e n c o n t r a m

circundadas pelos concelhos

de Cabeceiras de Basto,

Guimarães, Póvoa de Lanhoso,

Felgueiras e Vieira do Minho.

Fafe situa-se num vale entre a

Serra da Lameira, os Montes da

Penha e outras montanhas.

Numa vista aérea destacam-se

t r ê s r i o s l a d e a d o s p o r

arvoredo e que se espreguiçam

pela periferia da cidade. São eles o Rio Ferro que tem a sua nascente para o lado de

Moreira de Rei, o Rio do Bugio que inicia o seu percurso para os lados de S. Gens e o Rio

Vizela que acolhe os outros dois e desagua no Rio Ave.

O Rio Vizela está enriquecido com uma barragem na freguesia de Queimadela, podendo

proporcionar aos visitantes o agradável sossego e frescura de uma praia fluvial ladeada

pela verdura da natureza.

O concelho de Fafe possui alguns monumentos históricos, deixados pelos primeiros

povos que por aqui passaram, tais como a civilização castreja de que é testemunho o

castro de St.º Ovídeo onde podemos ver vestígios das suas construções, e onde foi

encontrada a estátua de um guerreiro Galaico, atualmente exposto no Museu Martins

Sarmento em Guimarães.

Existem ainda duas igrejas de estilo Românico apesar de se encontrarem já bastante

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capitais.

adulteradas, são elas a Igreja

Românica de Arões, construída

no séc. XIII e a Igreja de S. Gens

que é o que resta de um antigo

Mosteiro de traça Românica.

Existem ainda residências

apalaçadas de arquitetura com

fortes marcas brasileiras, uma

vez que foram construídas por “

brasileiros de torna-viagem “

como forma de investir os seus

Nestas arquiteturas é de salientar a Igreja Matriz de St.ª Eulália (séc. XVIII-XIX), o Solar

do Santo Velho (séc. XVIII), o Solar da Luz (séc. XVIII-XIX) e o Teatro-Cinema construído

em 1923 que apresenta uma bela fachada pintada.

A Casa do Penedo situa-se na freguesia de Várzea Cova, concelho de Fafe, na região norte

de Portugal, devendo o seu nome ao facto de ter sido construída entre quatro rochas de

grandes dimensões que integram a própria estrutura da casa.

M a i s c o n c r e t a m e n t e , e s t a

edificação localiza-se na Serra de

Fafe, a 10 km a nordeste do centro

da cidade de Fafe, em direção a

Cabeceiras de Basto.

A sua construção foi iniciada em

1972 e durou cerca de dois anos,

tratando-se de uma residência

r u ra l , u t i l i z a d a p e l o s s e u s

proprietários como destino de

férias.

A Casa do Penedo integra-se

completamente na sua paisagem

rural envolvente. A sua construção

é na sua totalidade feita em rocha, à exceção das portas, janelas e telhado.

O interior apresenta também um estilo rústico, onde a mobília, as escadas e os

corrimões são feitos de troncos. O sofá, pensado ao estilo rústico, é feito em betão e

madeira de eucalipto e pesa 350 kg, fazendo desta casa um local a visitar e que tem

despertado a curiosidade de muitos turistas ao longo do mundo, face a sua

originalidade e beleza. Não possui qualquer instalação eléctrica.

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oca de cena

O TEATRO AMADOR:

Uma referência local,

um movimento nacional

Rui Sérgio

Fundação INATEL

Hoje, quando o país atravessa uma crise que todos conhecemos, provocada por uma

crise mundial, que teve mais ou menos impacto na portuguesa, segundo as várias

sensibilidades políticas, constatamos que cada vez mais sectores da sociedade civil são

apoiados com programas governamentais ou europeus.

É a função do Estado Social? Não é a função do Estado Social? A Realidade é que estes

apoios existem, são indispensáveis à sobrevivência individual e coletiva. No entanto,

ninguém diz que são subsídiodependentes. Por que razão os únicos

subsídiodependentes neste país são as Mulheres e os Homens que teimam em a fazer

Teatro em Portugal? É claro que é uma batalha antiga. É claro que o teatro em Portugal

está em crise mesmo antes de existir crise em Portugal.

É um chavão “o teatro está a passar uma grande crise”. Mas é importante que se

continue a falar da crise no teatro, porque sempre ouvi falar em crise no teatro. Quando

se deixar de falar na crise do teatro em Portugal, a questão é: o que é que aconteceu ao

teatro em Portugal? O que é que aconteceu a Portugal?

Os apoios à cultura são fundamentais e não são exclusivos de Portugal. É fundamental

que a Secretaria de Estado da Cultura continue a apoiar o teatro em Portugal. É

necessário que as regras sejam definidas e claras. Que haja espaço para as companhias

que fazem parte do tecido teatral português, que haja espaço para os novos projetos de

novos criadores que vão surgindo das escolas de formação, que haja espaço para o

teatro amador. Que haja espaço para o Teatro em Portugal. Mas é preciso ter

consciência que os apoios do poder central ficam aquém dos orçamentos

apresentados. É necessário diversificar a origem das receitas e dos suportes

financeiros. Aqui, os Teatros Municipais têm um papel importante como

dinamizadores da atividade Cultural da região.

Exponenciar a atividade das estruturas profissionais e amadoras da região fazedoras

de cultura, diversidade e qualidade, coproduzir espetáculos com as Companhias de

Teatro subsidiadas pela Secretaria de Estado da Cultura, sediadas na região, privilegiar

as relações com as estruturas locais a nível programático, são alguns dos vetores de

atuação que os Teatros e Centros Culturais Municipais devem ter. Um Teatro Municipal

não pode ser, não deve ser apenas barriga de aluguer das grandes produções nacionais,

com as figuras mediáticas do momento.

O papel da Fundação INATEL é o apoio à Cultura Amadora Tradicional. No caso

específico do Teatro Amador existem dois programas de apoio: o PACA – Programa de

Apoio à Cultura Amadora e o PAAM – Programa de Apoio às Associações em

Movimento. Mas o seu papel não se reduz apenas a estes dois programas. A formação

de acordo com as necessidades dos grupos a nível distrital, após o levantamento feito

nas visitas técnicas que vão de norte a sul do país e ilhas, dirigidas por profissionais da

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área; a parceria com a Federação Portuguesa de Teatro Amador e com a Câmara

Municipal da Póvoa do Lanhoso, no que diz respeito ao Concurso Nacional de Teatro;

os Concursos de Dramaturgia “Novos Textos” e “Prémio Miguel Rovisco” para

incentivar a dramaturgia nacional; o apoio à Produção Teatral, com o apoio direto ao

grupo de teatro Amador, vencedor do Concurso Nacional que vai produzir a

encenação do texto vencedor do Concurso de Dramaturgia.

É assim um projeto global, utilizando todas as atividades referentes ao teatro, numa

perspetiva formativa que se reflita na qualidade do espetáculo e dar uma maior

visibilidade ao Teatro Amador que se faz em Portugal e que é sistematicamente

esquecido.

A importância da intervenção na área da cultura amadora, as capacidades e

voluntarismo e a predisposição para trabalhar em rede com a Fundação formam um

património único que deverá ser aprofundado. Trata-se, acima de tudo, de saber

defender e valorizar uma matriz de saberes e de práticas, sem a pretensão de impor

modelos culturais preconcebidos, estritamente ligados às raízes do nosso património

cultural, promovendo em simultâneo uma melhor fruição dos tempos livres, através

de ações de incentivo que valorizem as iniciativas locais. Esta é uma parceria

estratégica permanente, pautada por critérios de qualidade e de estímulo à

criatividade e ao desenvolvimento das práticas teatrais amadoras.

As associações teatrais são afinal pequenos / grandes centros culturais, são aquilo

que podemos apelidar de Pontos de Cultura (utilizando um termo de um programa

que atualmente é desenvolvido no Brasil).

Estes pontos culturais estruturam-se de maneiras diferentes, não têm uma matriz

única, um modelo pré-definido, mas têm um ponto em comum: a cultura, uma prática

cultural que atravessa a sociedade portuguesa, que é transversal à sociedade. Sejam

grupos de teatro, etnográficos, musicais que se dediquem à recolha das tradições

populares e à recolha da tradição oral, que tenham uma prática formativa, pedagógica

é esta a diversidade cultural, estes sabores e paladares, as cores que faz com que um

pequeno país seja grande e forte.

Quando se caminha para uma sociedade ultraliberal, sem rumo, à beira do abismo,

esta forma de ser, de estar, esta diversidade cultural, esta diversidade de intervenção

na comunidade cria capacidade de resistir, de operarmos as mudanças necessárias

para o nosso desenvolvimento comunitário, local e regional.

Estes pontos de cultura são fundamentais na comunidade. São pontos de encontro,

são pontos onde se definem identidades, diferenças. Numa sociedade global, estes

pontos de cultura são espaços em que as pessoas podem e devem agir localmente. A

Cultura não é estática, é dinâmica. Ela desenvolve-se, muda com o passar do tempo.

Não é um produto ou um conjunto de produtos, é um processo de e em

desenvolvimento. Um processo que origina riqueza e não apenas riqueza cultural. Os

pontos de cultura são um motor local e comunitário no dinamismo, na produção de

ideias, na criação de uma identidade, de uma imagem. Esta participação ativa, este

interferir na realidade não é o futuro, mas ajuda a fazer o futuro.

Para a INATEL Cultura é estratégico potenciar e aprofundar as relações de

colaboração e parceria com as associações culturais amadoras e garantir uma política

nacional de apoios estruturados. O Teatro Amador tem um papel fundamental nesta

riqueza cultural, neste refazer de consciências.

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eportório

TEATRO ARTE E EDUCAÇÃO (I)

João Maria André

Professor Catedrático

Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

Não constitui qualquer novidade que o teatro tem um enorme potencial educativo. Se já

no século XIX os principais responsáveis pela construção dos teatros nacionais

afirmaram esse potencial, ele viu-se profundamente reconhecido quando, na

passagem do século, e por efeito de uma coincidência de esforços que atravessaram

toda a Europa, se começaram a implementar os programas deTeatro de Arte” que

haveriam de dar o nome, em primeiro lugar à companhia estabelecida em França por

Paul Fort, na sequência do Théâtre Libre de Antoine, logo a seguir à companhia de

Stanislavski e Nemirovitch-Dantchenko, e pouco depois, na Alemanha, à companhia de

Georg Fuchs, constituindo, igualmente uma bandeira, na Inglaterra, da acção

desenvolvida por Edward Gordon Craig. Na mesma altura, Maurice Pottecher

estabelecia como divisa do seu Théâtre du Peuple, em Bussang, as palavras “Pela Arte,

para a Humanidade”, aliando assim à explícita intervenção artística, uma clara intenção

pedagógica do povo e para o povo.

A longo do século XX essa intenção foi recorrentemente retomada, em nome de várias

estéticas, sendo de destacar, sobretudo, todo o trabalho desenvolvido por B. Brecht em

torno do teatro épico na sua aliança com um teatro didáctico, visando

simultaneamente preencher o fim da arte, que é o divertimento, e a sua articulação com

os dinamismos transformadores da sociedade. E, inspirado pelo mesmo objectivo de

articular fecundamente a arte com a vida social, toda a actividade desenvolvida por

Augusto Boal com o seu “teatro do oprimido” numa feliz convergência com a

“pedagogia do oprimido” de Paulo Freire, se traduziu numa elevação do espectador à

qualidade de actor, não apenas do teatro, mas também do mundo em que vive, como ele

expressivamente refere num texto significativamente intitulado “a arte na política e a

política da arte”: “o espectador, invadindo a cena, transforma-se em escultor, em

músico, em poeta, em suma, entrando em cena e, mostrando, em acção, sua vontade,

sendo actor, sendo protagonista, o espectador se transforma em cidadão”.

Nas últimas décadas do século XX, esta articulação entre teatro, arte e educação viu-se

significativamente aprofundada por toda a atenção que, por um lado, foi sendo

concedida ao projecto de uma educação artística e de uma educação pela arte, e que,

por outro lado, no domínio da psicologia e das ciências cognitivas, levou à descoberta

de outras dimensões da inteligência, para além das dimensões estritamente lógicas,

postulando uma razão que pensa sentindo e que sente pensando, e superando assim a

dicotomia que se foi instaurando ao longo de séculos no pensamento ocidental entre

inteligência e emoção e entre razão e paixão, dicotomia essa que é herdeira de uma

outra mais antiga e perturbadora e que se prende com o dualismo entre a alma, o

espírito, a mente ou a consciência e o corpo, na sua dimensão física e material. O

cruzamento destas tendências e a sua concretização pedagógica deu origem ao

desenvolvimento dos serviços educativos que, constituindo extensões

complementares importantes dos diversos equipamentos culturais como museus,

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teatros, salas de exposições, cinemas, casas da música, casas da cultura ou

conservatórios, se vêm afirmando como as interfaces mais interventivas nesta aliança

entre arte e educação. No nosso país, constituiu um momento alto neste percurso rumo

à valorização da educação artística a realização da Conferência Mundial sobre

Educação Artística, em Lisboa, em Março de 2006, e da Conferência Nacional sobre

Educação Artística, no Porto, em Outubro de 2007.

A articulação entre arte e educação, suposta no conceito de educação artística, seja na

esfera do teatro, seja na esfera da música, do cinema, da pintura ou de outra qualquer

disciplina artística, remete para diferentes experiências e para diferentes caminhos no

âmbito da educação e da pedagogia e seria um erro olhá-los a todos como se de uma

única realidade se tratasse. Esses diferentes caminhos poderiam configurar-se

fundamentalmente a partir de três tipos: a educação pela arte, a educação para a arte e

a educação na arte. Qualquer um destes três tipos mobiliza diferentes estratégias,

deferentes competências e visa objectivos diferentes, ainda que em todos eles se

procure fazer uma educação em que a arte é mobilizada enquanto campo especial de

intervenção pedagógica.

A educação pela arte implica a mobilização dos recursos artísticos num contexto mais

vasto da educação e tendo em vista finalidades que podem ultrapassar os objectivos

estritamente artísticos. Assim, quando, numa aula de Filosofia, a propósito de uma

reflexão sobre as mudanças conceptuais envolvidas por um revolução científica, se

leva uma turma a ver a peça Galileu Galilei de Bertolt Brecht, promovendo depois um

debate na aula sobre os problemas suscitados pela peça, aquilo que se está

desenvolver é o que se poderá considerar, em termos rigorosos, uma estratégia de

educação pela arte. O mesmo se diga se, em vez de uma peça de teatro, se convidarem

os alunos a ver o filme O Gran Torino, de Clint Eastwood, como forma de sensibilização

para a multiculturalidade que atravessa as cidades actuais, para os problemas de

identidade histórico-social que essa multiculturalidade suscita, e para as diferentes

respostas, que vão do confronto político-ideolológico à indiferença ou ao diálogo e à

interacção e cooperação interculturais, que as diferença de culturas podem motivar.

Também se um professor de inglês, para situar os seus alunos num contexto mais vivo

de aprendizagem da língua, os levar a assistir a uma peça de teatro em inglês,

trabalhando depois algum do vocabulário e da linguagem mobilizados nessa

experiência, é igualmente uma estratégia de educação pela arte no contexto do ensino

da língua inglesa aquilo que nesta experiência está a ser implementado. Finalmente, se

num determinado município em que se registam problemas significativos de violência

doméstica, os serviços culturais organizarem um conjunto de actividades culturais a

artísticas, tendo em vista uma consciência crítica sobre situações sociais de

desigualdade de género e uma mudança efectiva de práticas comportamentais,

recorrendo a um ciclo de filmes ou a um conjunto de peças de teatro e de recitais de

poesia em que o problema da violência e da igualdade/diferença esteja presente, é

ainda, mais uma vez, uma estratégia de educação pela arte que essa Câmara Municipal

está a adoptar. Significa isto que, em todos estes casos, a arte não funciona tanto como

um fim em si mesmo, mas como um recurso no contexto de um projecto educativo mais

global que visa ou o ensino/aprendizagem de competências específicas no âmbito de

uma disciplina do curriculum escolar (como o ilustram os exemplos das Línguas ou da

Filosofia a que atrás fizemos referência), ou a implementação de uma consciência

crítica e de uma educação para uma cidadania activa e responsável, tirando partido dos

valores políticos e morais que atravessam uma peça de teatro ou um filme, para além

dos seus valores estritamente estéticos.

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A educação pela arte tem grandes vantagens, mas tem, ao mesmo tempo um grande

perigo, sendo necessário estar suficientemente consciente, tanto das vantagens,

quanto dos perigos. As vantagens têm sobretudo a ver com o facto de se inscrever no

quadro do que poderíamos designar como um paradigma estético para a educação,

que é claramente distinto de um paradigma técnico ou tecnológico. Enquanto o

paradigma técnico ou tecnológico é um paradigma analítico, predominantemente

lógico, instrumental, objectivante e fragmentador, um paradigma estético é um

paradigma holístico, unificador, que mobiliza uma razão sensível e afectiva e se

relaciona com a realidade de uma maneira envolvente, unificadora, integradora e

interdisciplinar do ser humano no relacionamento com a sociedade, com a natureza e

com o mundo que o rodeia. O paradigma estético mobiliza uma inteligência emotiva,

enquanto o paradigma tecnológico mobiliza apenas uma inteligência lógica. O que

significa que o paradigma estético da educação pela arte é um paradigma voltado para

o homem todo e para todos os homens, na sua dimensão comunitária e ecológica e na

solidariedade que, dentro de cada um, se estabelece entre as suas diferentes vertentes

ou esferas, e que, numa projecção para fora, se estabelece com a comunidade dos

homens e com a comunidade da natureza. Mas a educação pela arte tem também um

grande risco, ao qual convém estar atento para o prevenir e para não incorrer nas suas

perversas consequências: o risco de instrumentalizar a própria arte em relação a fins

que lhe são estranhos ou exteriores, transformando-a assim não num fim em si mesmo,

que visa o prazer estético da sua contemplação, do seu exercício e da criação, mas num

meio ao serviço de outros objectivos que nada têm a ver com a própria arte. No caso do

teatro, utilizar o teatro como um mero meio panfletário de ideias políticas, visando

doutrinar os espectadores, transmitindo-lhes valores e pautas de acção e ensinandolhes

como devem agir em vez de despertar a sua consciência crítica e estimulá-los a

pensar pela sua própria cabeça (como algumas experiências da utilização da arte em

regimes totalitários demonstram com toda a evidência), estar-se-ia a fazer uma

“educação pela arte” que seria a negação da própria Arte e que seria, por isso, mesmo

um mau serviço ao teatro, à arte e à cultura.

Mas a educação pela arte não esgota as formas de educação artística. Duas outras

formas concretizam diferentes estratégias de cruzamento entre arte e educação: a

educação para a arte e a educação na arte. A elas voltaremos em futuras reflexões.

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sem palco

TUDO MENOS IMITAÇÕES

Elvira Oliveira

Teatro Ensaio Raul Brandão

Texto produzido no âmbito do painel de escrita criativa, orientado por Manuel

Ramos Costa, no VI Fórum Permanente de Teatro de Amadores, em Ansião,

Outubro 2010.

Sentados à mesa do pequeno-almoço, pai e filha conversam.

Filha – Pai, tens de me comprar um grande bolo de aniversário.

Pai – Não queres mais nada?

Filha – Nada? Mas quem é que nada aqui? Então eu não faço anos na semana que vem?

Pai – Sim, e depois? Desde o Natal que ainda não paraste de pedir coisas para o teu

aniversário. Achas que nado em dinheiro?

Filha – (Num aparte a meia voz) – Afinal, sempre há aqui alguém que nada... Nem que

seja a seco. (Continua, agora directamente para o pai) Só te peço aquilo a que tenho

direito. Não és tu que és o meu pai?

Pai – (com alguma ironia amarga) Não. Tu é que és a minha filha, ora esta!

(Mais condescendente) Pronto, diz lá que bolo queres e como é que queres.

Filha – Agora já estamos a entender-nos. Quero um bolo único, grande e especial.

Pai – Especial, como? Um bolo é um bolo, ponto final.

Filha – Isso é o que tu pensas e o que tu dizes, mas eu não quero um bolo igual ao das

minhas amigas. Tem de ser um muito especial, já disse!

Pai – Como é que se faz um bolo, hem? Não é com ovos, açúcar, farinha, chocolate, leite,

etc., etc.? Pode levar este ingrediente em vez do outro, mais ou menos quantidade, este

ou aquele enfeite, mas não deixa de ser um bolo.

Filha – É... o bolo dito normal, que as pessoas, ditas normais, mordem e mastigam de

boca cheia e ficam a falar com ele empastelado nos dentes: “ Ai... es...te

bo...lo...está...mesmo ...uma....maravilha, nham, nham, nham!” Que nojo!

Pai – Mas, então se não é um bolo desses, que tipo de bolo é que tu queres? Não conheço

outros...

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Filha – És mesmo, atrasado, retrógrado, pai, tecla 3! Sei lá!... Tu é que és mais velho, é

que tens mais conhecimentos (de novo num aparte) Pelo menos é o que está sempre a

dizer. Descobre tu. Eu só te digo que quero um bolo único, para surpreender as minhas

amigas. Nada que seja igual, nada que se tenha visto antes, entendes? Ou queres que te

faça um desenho?

Pai – Sim, claro, claro, parece-me que já entendi, minha filha querida. Podes ficar

descansada que o teu bolo será mesmo especial. Surpreenderás tudo e todos.

Filha – Ainda bem, já não era sem tempo. Cansas a minha beleza com tantas perguntas e

tantas hesitações. Vê se começas a ser um pai à maneira, mais moderno. Começo a ficar

cansada de viver contigo.

No dia do aniversário, com o salão cheio de amigas e amigos ruidosos, a filha num

vestido único, inventado por um estilista também único, grita para o pai:

Filha – Pai! Pai! Então esse bolo, quando é que o trazes? Estamos todos à espera.

Pai – (do outro aposento) – Já levo, minha filha, já levo!

Aparece com uma enorme caixa que quase não passa na porta do salão e parece

extremamente pesada.

Pai – Ufa! Que peso! Ora aqui está o teu bolo, podes abrir.

Filha – (abre a caixa e dá um grito) – Mas aqui não há nenhum bolo!...

Pai – Ai isso é que há, minha filha. É tal como pediste enorme, único, nada igual aos

inúmeros bolos que vemos por aí fora, nada de imitações!

Filha – Eu não vejo bolo algum, pai!

Pai – Ah, não? Mas olha, ele está aí, bem ao teu gosto, para surpreenderes os teus

amigos e amigas, de acordo com o teu pedido, já te disse.

Filha – Pai, estás a gozar comigo, a humilhar-me diante dos meus amigos...(chora com

raiva)

Pai – Mas não foste tu que me disseste que eu seria um atrasado mental se não

descobrisse o bolo que tanto querias? Não foste tu que pediste um bolo diferente de

todos os outros bolos, que não levasse nenhum dos ingredientes do costume, que não

tivesse a decoração habitual, que não, que não, que não... Pois, aí tens. Queres, por

acaso, bolo mais inimitável do que este? Até tu ficaste surpreendida, confessa!

Filha – (chora ainda mais, mas agora sem raiva) Perdoa-me, pai. Eu mereci a lição. Sei o

quanto me amas, o quanto te tens esforçado para me educares e dares tudo o que quero.

Tens sido um pai ÚNICO! Amo-te muito! Perdoa-me!

Ambos se abraçam num inimitável abraço, porque os abraços entre pais e filhos são

sempre únicos, inimitáveis.

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