biopirataria desafia o brasil a tomar conta da amazônia - Fucapi
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T&C Amazônia, Ano 1, n o 3, Dez de 2003<br />
Biopirataria Desafia o Brasil a Tomar Conta <strong>da</strong> Amazônia<br />
BIOPIRATARIA DESAFIA O<br />
BRASIL A TOMAR CONTA DA<br />
AMAZÔNIA<br />
Com 5 milhões de hectares,<br />
correspondentes à metade de todo o Território<br />
Nacional, e uma bacia hidrográfica que<br />
concentra um terço de to<strong>da</strong> água doce existente<br />
no planeta, a Amazônia Brasileira está sendo<br />
alvo de uma escala<strong>da</strong> crescente por seus<br />
recursos naturais, devido à ação dos chamados<br />
biopiratas, em sua maioria turistas e<br />
pesquisadores estrangeiros, que fazem o<br />
contrabando <strong>da</strong>s riquezas <strong>da</strong> fauna e <strong>da</strong> flora<br />
amazônica, movimentando mundialmente US$<br />
20 bilhões / ano e constituindo a que hoje já é<br />
a terceira ativi<strong>da</strong>de ilícita do planeta, graças<br />
sobretudo ao interesse <strong>da</strong> indústria químico -<br />
farmacêutica internacional em conhecer e<br />
absorver como matéria-prima as 20 mil<br />
espécies botânicas e as mais de 100 mil<br />
espécies de bichos, vertebrados, invertebrados<br />
e microorganismos <strong>da</strong> Região.<br />
Apesar de tão rica e por isso mesmo<br />
exalta<strong>da</strong> no mundo inteiro, entretanto, a<br />
Biodiversi<strong>da</strong>de Amazônica continua a ser um<br />
desafio para todos que por ela se interessam .<br />
Os pesquisadores que se dedicam a estu<strong>da</strong>r a<br />
diversi<strong>da</strong>de <strong>da</strong> vi<strong>da</strong> na Região, se ressentem<br />
de que até agora somente 1% de todo o<br />
potencial amazônico seja conhecido e que, por<br />
falta de fundos de amparo à pesquisa, o Brasil,<br />
muitas vezes, tenha que comprar de fora uma<br />
tecnologia desenvolvi<strong>da</strong> a partir de uma amostra<br />
furta<strong>da</strong> <strong>da</strong> sua Amazônia. Nesta reportagem,<br />
eles são uníssonos ao afirmar que a falta de<br />
uma política nacional estratégica para orientar<br />
7
as ações de Ciência e Tecnologia, a falta de<br />
interesse e investimentos em pesquisa no Brasil<br />
e a incapaci<strong>da</strong>de, também <strong>brasil</strong>eira, de se<br />
transformar conhecimento em inovação são os<br />
principais fatores para que o interesse<br />
internacional recaia de forma ca<strong>da</strong> vez mais<br />
acentua<strong>da</strong> sobre a Região, embora a<br />
inexistência de uma legislação que permita punir<br />
a <strong>biopirataria</strong> também seja uma dificul<strong>da</strong>de a<br />
ser venci<strong>da</strong>.<br />
O BRASIL PRECISA ASSUMIR O<br />
COMANDO E DEFINIR AS REGRAS<br />
PARA O INTERCÂMBIO<br />
Para se combater a <strong>biopirataria</strong> é preciso<br />
que se compreen<strong>da</strong> ca<strong>da</strong> um dos fatores que<br />
contribuem para a sua existência, ou seja, a<br />
consciência internacional ca<strong>da</strong> vez mais clara<br />
sobre as múltiplas possibili<strong>da</strong>des ofereci<strong>da</strong>s pela<br />
vi<strong>da</strong> na Amazônia; a inexistência de uma política<br />
nacional estratégica para Ciência e Tecnologia;<br />
o interesse crescente pelos conhecimentos<br />
tradicionais, que reduzem o tempo e o custo<br />
<strong>da</strong>s pesquisas científicas; a defasagem <strong>brasil</strong>eira<br />
em pesquisa, desenvolvimento e produção; a<br />
falta de uma legislação que regule a exploração<br />
dos recursos naturais e, ain<strong>da</strong>, a exclusão<br />
social. A opinião é do pesquisador e professor<br />
<strong>da</strong> Universi<strong>da</strong>de Federal do Amazonas,<br />
Frederico Arru<strong>da</strong>, recentemente nomeado<br />
também o presidente do Grupo de Trabalho de<br />
Assessoria e Articulação – GTAA, criado pela<br />
Assembléia Legislativa do Estado para a<br />
formulação de um Anteprojeto de Lei para<br />
disciplinar o acesso aos recursos genéticos do<br />
Amazonas.<br />
Frederico Arru<strong>da</strong> explica que<br />
considerando-se a grande extensão do cinturão<br />
de biodiversi<strong>da</strong>de existente ao longo <strong>da</strong> linha do<br />
equador, a possibili<strong>da</strong>de de se encontrarem<br />
8<br />
Biopirataria Desafia o Brasil a Tomar Conta <strong>da</strong> Amazônia<br />
recursos genéticos e modelos moleculares que<br />
venham a beneficiar a indústria químico -<br />
farmacêutica é enorme. Segundo ele, o “grande<br />
caldeirão” em que a Natureza trabalha ao longo<br />
de tantos anos, gerando e mantendo a vi<strong>da</strong> ,<br />
apesar <strong>da</strong> agressão <strong>da</strong>s devastações, é<br />
inimitável até pelo mais moderno e bem<br />
equipado laboratório do mundo, e que por este<br />
motivo torna-se, ca<strong>da</strong> vez mais, foco <strong>da</strong><br />
atenção mundial, que tem a <strong>biopirataria</strong> apenas<br />
como uma de suas facetas.<br />
O INTERESSE INTERNACIONAL<br />
Quase tão atraente quanto a diversi<strong>da</strong>de<br />
<strong>da</strong> vi<strong>da</strong> na Amazônia para os grandes<br />
laboratório internacionais - segundo ele - são<br />
os conhecimentos tradicionais, que embora já<br />
não sejam os mesmos, devido à grande erosão<br />
cultural sofri<strong>da</strong> ao longo dos últimos anos, ain<strong>da</strong><br />
são muito expressivos e determinantes quanto<br />
se trata de economizar tempo e reduzir custos<br />
nas pesquisas científicas. “Mexer no caldeirão<br />
que a Natureza criou custa caro, frente a enorme<br />
diversi<strong>da</strong>de” – afirma o professor – e é aí que<br />
os conhecimentos tradicionais, que na sua<br />
opinião já deveriam, há muito, ter sido<br />
equiparados em importância às outras formas<br />
de conhecimento e ao conhecimento científico,<br />
tornam-se ain<strong>da</strong> mais valiosos e<br />
consequentemente interessantes para os<br />
financiadores <strong>da</strong> <strong>biopirataria</strong>. “O binômio grande<br />
extensão de biodiversi<strong>da</strong>de X conhecimento<br />
tradicional é irresistível para quem sabe<br />
transformar conhecimento em inovação” -<br />
destaca.<br />
Outro aspecto de fun<strong>da</strong>mental<br />
importância que o Brasil precisa corrigir para<br />
efetivamente combater a Biopirataria – na opinião<br />
de Arru<strong>da</strong> - é a exclusão social, que vitima a<br />
T&C Amazônia, Ano 1, n o 3, Dez de 2003
grande maioria <strong>da</strong> socie<strong>da</strong>de <strong>brasil</strong>eira e que<br />
pode ser considera<strong>da</strong> um fermento para o tráfico<br />
de recursos genéticos e modelos moleculares.<br />
Ele explica que os excluídos <strong>da</strong> Amazônia<br />
perderam o mítico, a cosmovisão e até o sentido<br />
de beleza dos conhecimentos tradicionais, mas<br />
não perderam o conhecimento em si, real e<br />
objetivo, até porque para sobreviver precisam<br />
aplicá-lo diariamente e assim tornam-se<br />
cúmplices <strong>da</strong> <strong>biopirataria</strong>, que passa a tirar<br />
proveito destes excluídos, <strong>da</strong> mesma forma que<br />
o narcotráfico do Rio de Janeiro usa aqueles<br />
que vivem nos morros cariocas.<br />
O foco do interesse internacional pela<br />
Amazônia associado à reali<strong>da</strong>de social do País<br />
e à total inexistência de uma política nacional<br />
estratégica para as ativi<strong>da</strong>des de Ciência e<br />
Tecnologia, volta<strong>da</strong> to<strong>da</strong> a biomassa <strong>brasil</strong>eira,<br />
incluindo não só a Amazônia, mas também Mata<br />
Atlântica, Serrado e Alagados, tornam-se fatais<br />
para estimular os biopiratas e as indústrias que<br />
os patrocinam, sobretudo considerando-se que<br />
eles são muito melhores que os <strong>brasil</strong>eiros<br />
quanto se trata de pesquisa, desenvolvimento<br />
e produção. Segundo Frederico Arru<strong>da</strong>,<br />
enquanto o Brasil não adotar uma estratégia de<br />
relacionamento internacional em relação à<br />
biodiversi<strong>da</strong>de amazônica, a <strong>biopirataria</strong> vai<br />
continuar a existir, a despeito de to<strong>da</strong>s as ações<br />
punitivas que se queira adotar, até porque com<br />
o avanço tecnológico as amostras que<br />
interessam aos grandes laboratórios podem ser<br />
envia<strong>da</strong>s por meios virtuais e livres de qualquer<br />
tipo de fiscalização. “As medi<strong>da</strong>s punitivas são<br />
importantes e precisam existir, mas não são<br />
decisivas “- arremata.<br />
ESTATÉGIA PARA PESQUISA,<br />
DESENVOLVIMENTO E PRODUÇÃO<br />
O professor <strong>da</strong> Universi<strong>da</strong>de do<br />
T&C Amazônia, Ano 1, n o 3, Dez de 2003<br />
Biopirataria Desafia o Brasil a Tomar Conta <strong>da</strong> Amazônia<br />
Amazonas é categórico ao afirmar que uma<br />
política estratégica de C&T é fun<strong>da</strong>mental e<br />
decisiva , pois jamais o Brasil conseguirá<br />
vencer sozinho o desafio de conhecer e<br />
explorar de forma sustentável a biodiversi<strong>da</strong>de<br />
amazônica. A estratégia, portanto, a ser<br />
adota<strong>da</strong>, segundo ele defende, é a de<br />
intercâmbio em pesquisa, desenvolvimento e<br />
produção com os países do Primeiro Mundo,<br />
que “é o que vai abrir caminho também para<br />
que possamos usufruir de uma repartição justa<br />
e equitativa sobre a exploração dos recursos<br />
genéticos nacionais, como se apregoa nos<br />
meios jurídicos”. Para Frederico Arru<strong>da</strong>, a<br />
reali<strong>da</strong>de atual pode ser li<strong>da</strong> <strong>da</strong> seguinte forma<br />
: o Brasil tem a Amazônia, mas não a conhece<br />
e nem dispõe de recursos para conhecê-la e<br />
muito menos explorá-la, enquanto o Primeiro<br />
Mundo dispõe dos recursos, reconhece o valor<br />
<strong>da</strong> Amazônia, mas não possui a Amazônia e<br />
como o Brasil não tem política, nem Lei para<br />
regular e disciplinar a exploração <strong>da</strong> Região, o<br />
único meio do acesso internacional torna-se a<br />
<strong>biopirataria</strong>. Essa reali<strong>da</strong>de, segundo Frederico<br />
Arru<strong>da</strong>, é um contra-senso. Na opinião dele, o<br />
Brasil precisa assumir o comando e determinar<br />
as regras .<br />
Ao definir uma política estratégica de<br />
C&T o País vai estimular – segundo o professor<br />
- também os investimentos de empresas<br />
idôneas que têm interesse de investir na<br />
Amazônia, mas que por não terem uma<br />
definição clara de seus direitos e deveres,<br />
abandonam a idéia e lançam - se em outras<br />
investi<strong>da</strong>s, bem distantes <strong>da</strong>qui. “ O Brasil perde<br />
por todos os lados” – enfatiza Arru<strong>da</strong>. Neste<br />
sentido ele destaca também a importância de<br />
se implementar uma legislação que discipline o<br />
acesso aos recursos genéticos <strong>brasil</strong>eiros, uma<br />
vez que, no seu entendimento, a MP 2186 -16<br />
9
de 2000, além de inibir a pesquisa básica, na<strong>da</strong><br />
acrescenta de efetivo para o controle <strong>da</strong><br />
<strong>biopirataria</strong>. “Sem definição de como a<br />
exploração deve ser feita, acaba-se por ter que<br />
conviver com ela de forma ilícita e desordena<strong>da</strong>,<br />
além de perderem-se os investimentos idôneos<br />
“- destaca.<br />
LEGISLAÇÃO EM BLOCO<br />
Especificamente sobre legislação, o<br />
professor apregoa a implementação de uma<br />
legislação geral para o acesso à biodiversi<strong>da</strong>de<br />
amazônica e a ela se relacionando um conjunto<br />
de leis estaduais, que contemplem as<br />
peculiari<strong>da</strong>des de ca<strong>da</strong> Estado. Ele recomen<strong>da</strong><br />
ain<strong>da</strong> que na legislação a ser adota<strong>da</strong><br />
nacionalmente estejam previstos acordos com<br />
os demais países amazônicos, justamente para<br />
garantir uma coerência legislativa <strong>da</strong> Amazônia<br />
como um todo frente às negociações<br />
internacionais. Frederico Arru<strong>da</strong> enfatiza que<br />
implementar a legislação é fun<strong>da</strong>mental também<br />
para se criar e consoli<strong>da</strong>r uma consciência<br />
nacional e internacional sobre a importância <strong>da</strong><br />
fauna e <strong>da</strong> flora amazônicas.<br />
OS GANHOS PARA O AMAZONAS<br />
Como presidente do GTAA, grupo de<br />
trabalho que elaborou o anteprojeto que Lei para<br />
disciplinar o acesso à Biodiversi<strong>da</strong>de no<br />
Amazonas, Frederico Arru<strong>da</strong> explica que a<br />
proposta dispõe também sobre a proteção do<br />
patrimônio genético , o conhecimento tradicional<br />
associado e a repartição de benefícios, no<br />
âmbito estadual, e que se aprova<strong>da</strong> em forma<br />
de Lei trará ganhos bastante significativos. Entre<br />
eles, ele destaca um inédito sistema de registro<br />
do conhecimento tradicional, que coloca nas<br />
mãos do Estado a responsabili<strong>da</strong>de pela guar<strong>da</strong><br />
deste conhecimento, bem como de assegurar<br />
10<br />
Biopirataria Desafia o Brasil a Tomar Conta <strong>da</strong> Amazônia<br />
os direitos <strong>da</strong>s populações detentoras deste<br />
conhecimento. Para Frederico Arru<strong>da</strong> este<br />
dispositivo é importante não só no presente<br />
como também no futuro próximo e distante, pois<br />
possibilita o resgate <strong>da</strong>s bases, hoje perdi<strong>da</strong>s,<br />
<strong>da</strong> cultura tradicional. No anteprojeto proposto<br />
pelo GTAA o conhecimento tradicional é<br />
também equiparado ao conhecimento científico.<br />
Outro benefício contemplado no<br />
anteprojeto, que Frederico Arru<strong>da</strong> destaca como<br />
de especial importância, é o que determina que<br />
para acessar a biodiversi<strong>da</strong>de no Estado do<br />
Amazonas, quer para fins de pesquisa, quer<br />
para fins comerciais, os interessados terão,<br />
obrigatoriamente, que estabelecer um acordo<br />
de parceria com pelo menos uma <strong>da</strong>s<br />
instituições locais de ensino, pesquisa e<br />
desenvolvimento, que por sua vez deverão<br />
estar devi<strong>da</strong>mente credencia<strong>da</strong>s. Ele explica<br />
que esta é uma importante garantia para<br />
assegurar que o conhecimento sobre a<br />
biodiversi<strong>da</strong>de esteja em nossas mãos, ou seja,<br />
para “evitar que outros saibam mais sobre a<br />
nossa região do que nós mesmos” – arremata.<br />
Concluindo a sua análise, Frederico<br />
Arru<strong>da</strong> arremata que o combate efetivo à<br />
<strong>biopirataria</strong> passa por um ciclo de fatores que<br />
interagem entre si , como ele destacou, e que<br />
ao invés de se debater contra uma reali<strong>da</strong>de<br />
irrefutável o que o Brasil precisa fazer é<br />
aumentar a sua competência como detentor<br />
<strong>da</strong>s riquezas amazônicas, ditar as regras e<br />
assumir o comando de um amplo intercâmbio<br />
internacional para fins <strong>da</strong> preservação e <strong>da</strong><br />
exploração responsável <strong>da</strong> Amazônia.<br />
Biopirataria deve ser vista como<br />
oportuni<strong>da</strong>de para inovação<br />
Para Charles Clement, pesquisador do<br />
T&C Amazônia, Ano 1, n o 3, Dez de 2003
Inpa na área de botânica, a <strong>biopirataria</strong> precisa<br />
ser vista como um sinal do mercado ou uma<br />
oportuni<strong>da</strong>de para se redirecionar a pesquisa<br />
científica no Brasil, que ain<strong>da</strong> peca por valorizar<br />
projetos totalmente desconectados <strong>da</strong> deman<strong>da</strong><br />
mercadológica e que por isso mesmo, em sua<br />
maioria, acabam por não obter aplicabili<strong>da</strong>de<br />
prática. Sobretudo quando se trata de pesquisas<br />
sobre a biodiversi<strong>da</strong>de amazônica, segundo<br />
Charles Clement, transformar conhecimento<br />
em inovação continua sendo um desafio que<br />
só pode ser vencido com a união <strong>da</strong> cultura<br />
científica e tecnológica, geradora do<br />
conhecimento, à cultura empreendedora,<br />
geradora <strong>da</strong>s idéias inovadoras. Para defender<br />
o seu ponto de vista, entretanto, o botânico diz<br />
ser necessário considerarem-se uma série de<br />
fatores e, sobretudo a magnitude do universo<br />
ao qual se referem as pesquisas na Amazônia.<br />
Para Clement, a afirmação de que o<br />
futuro <strong>da</strong> Amazônia está ligado à sua<br />
Biodiversi<strong>da</strong>de, idealiza<strong>da</strong> como o “ouro verde”<br />
e difundi<strong>da</strong> como fonte inesgotável de riquezas,<br />
não passa de um sonho, uma vez que para se<br />
fazer uma afirmação é necessário que se<br />
conheça a reali<strong>da</strong>de a que ela se refere e no<br />
caso <strong>da</strong> Amazônia o conhecimento ain<strong>da</strong> é , e<br />
não se pode afirmar que um dia deixará de ser,<br />
um grande desafio. Para fun<strong>da</strong>mentar a<br />
irrefutável amplitude bioamazônica, o<br />
pesquisador se socorre <strong>da</strong> legislação que define<br />
biodiversi<strong>da</strong>de como a “variabili<strong>da</strong>de de<br />
organismos vivos de to<strong>da</strong>s as origens,<br />
compreendendo, dentre outros, ecossistemas<br />
terrestres, marinhos e outros ecossistemas<br />
aquáticos e os complexos ecológicos de que<br />
fazem parte; incluindo ain<strong>da</strong> a diversi<strong>da</strong>de<br />
dentro <strong>da</strong>s espécies e dos ecossistemas”.<br />
A partir do que afirma MP 2186-16 de<br />
2000, ele destaca os grandiosos números <strong>da</strong><br />
T&C Amazônia, Ano 1, n o 3, Dez de 2003<br />
Biopirataria Desafia o Brasil a Tomar Conta <strong>da</strong> Amazônia<br />
biodiversi<strong>da</strong>de amazônica, que reúne cerca de<br />
180 línguas indígenas nativas, 5 a 7 mil animais<br />
vertebrados, 15 a 20 mil espécies de plantas<br />
superiores, 20 a 100 mil microorganismos, e 1<br />
a 10 milhões de animais invertebrados. Em<br />
contraparti<strong>da</strong>, o pesquisador informa que<br />
somando-se o conhecimento científico ao<br />
conhecimento tradicional, acumulados ao longo<br />
de 10 mil anos de investimentos financeiro e<br />
vivencial , não se chegou ain<strong>da</strong> a 1% de<br />
conhecimento <strong>da</strong> biodiversi<strong>da</strong>de amazônica, já<br />
incluindo as plantas medicinais que ele<br />
considera as “vedetes” do interesse e do<br />
noticiário internacional.<br />
Para ilustrar o quanto é complexo de falar<br />
<strong>da</strong> bio<strong>amazônia</strong>, Charles Clement enfatiza que<br />
somente 100 espécies comestíveis são<br />
atualmente conheci<strong>da</strong>s e que destas apenas<br />
duas, milho e mandioca, se tem em domínio e<br />
isto porque sempre formaram a base <strong>da</strong><br />
alimentação indígena. Ele cita também os<br />
animais, entre os quais apenas o pato se<br />
conseguiu domesticar até hoje. Analisando<br />
todos os <strong>da</strong>dos que apresenta, o pesquisador<br />
conclui que qualquer afirmação categórica<br />
sobre a biodiversi<strong>da</strong>de amazônica não<br />
corresponde à reali<strong>da</strong>de, uma vez que não se<br />
sabe ain<strong>da</strong> o que ela, efetivamente, nos oferece<br />
ou <strong>desafia</strong> a conhecer e usufruir. Clement<br />
comenta que “por traz <strong>da</strong> arrogância <strong>da</strong> nossa<br />
ciência, temos muito mais a aprender do que a<br />
afirmar”.<br />
A FALTA DE INVESTIMENTOS<br />
Prosseguindo em sua análise sobre a<br />
potencial biodiversi<strong>da</strong>de amazônica e as<br />
dificul<strong>da</strong>des que se precisa ultrapassar para<br />
conhecê-la, Charles Clement destaca a falta<br />
11
de investimentos públicos em pesquisa ,<br />
informando que os grandes laboratórios<br />
internacionais, que movimentam cerca de 350<br />
bilhões de dólares por ano, investem mais em<br />
pesquisa e desenvolvimento do que o Ministério<br />
<strong>da</strong> Ciência e Tecnologia do Brasil tem investido<br />
até hoje. Ele fala de 300 a 350 milhões de<br />
dólares para obtenção de um só remédio, o que<br />
justifica o enorme interesse no acesso ao<br />
conhecimento tradicional indígena, também<br />
fruto de pesquisa, observação e<br />
experimentação. O pesquisador explica que no<br />
método científico, que se baseia nas<br />
in<strong>da</strong>gações fun<strong>da</strong>mentais de se a substância<br />
poder fazer efeito e em segui<strong>da</strong> de se ela não<br />
faz mal à saúde, são necessárias cerca de 300<br />
mil amostras de uma planta para se chegar a<br />
uma média de 10 mil para serem efetivamente<br />
estu<strong>da</strong><strong>da</strong>s, enquanto com a união com<br />
conhecimento científico com o conhecimento<br />
tradicional, que já sabe por experiência pelo<br />
menos a primeira resposta para as duas<br />
in<strong>da</strong>gações científicas, as pesquisas já partem<br />
<strong>da</strong>s 10 mil amostras úteis, proporcionando uma<br />
economia de 5 a 10 anos em termos de tempo<br />
de pesquisa e cerca de 50 % na redução dos<br />
custos. Neste sentido ele acredita que o Centro<br />
de Biotecnologia <strong>da</strong> Amazônia - CBA possa vir<br />
a <strong>da</strong>r uma grande contribuição se efetivamente<br />
se dedicar a estu<strong>da</strong>r os fitofarmacos, que<br />
dispensam o conhecimento específico sobre<br />
ca<strong>da</strong> uma de suas substâncias e apresentam<br />
como desafio apenas a interação delas, o que<br />
pode reduzir significativamente o valor e o tempo<br />
de retorno dos investimentos em pesquisa.<br />
“Mesmo assim, entretanto, afirma, pesquisar a<br />
biodiversi<strong>da</strong>de dos recursos naturais<br />
amazônicos ain<strong>da</strong> é um desafio também em<br />
investimentos financeiros. A pergunta que ele<br />
submete à avaliação de todos é a de que se<br />
12<br />
Biopirataria Desafia o Brasil a Tomar Conta <strong>da</strong> Amazônia<br />
com todos os investimentos feitos ao longo de<br />
10 mil anos não conseguimos conhecer 1% <strong>da</strong><br />
nossa biodiversi<strong>da</strong>de, quantos mais serão<br />
necessários até que possamos afirmar que<br />
pode existir exploração sustentável para a<br />
biodiversi<strong>da</strong>de amazônica?<br />
“O desafio é enorme e precisamos<br />
entender que sem esforços efetivos, será<br />
impossível vencê-lo “- afirma Charles Clement,<br />
acrescentando que sempre que houver um<br />
potencial não conhecido e portanto não<br />
explorado em um determinado lugar, haverá, na<br />
mesma proporção, pessoas de outros lugares<br />
empenha<strong>da</strong>s em assumir esta exploração, o que<br />
explica a tão denuncia<strong>da</strong> <strong>biopirataria</strong> na<br />
Amazônia. Para exemplificar o espaço vazio<br />
que existe entre a potenciali<strong>da</strong>de amazônica e<br />
o conhecimento que se tem dela, Charles<br />
Clement <strong>conta</strong>biliza que existem hoje 590<br />
grupos de pesquisa, dos quais 4% de<br />
encontram no Brasil e dos quais apenas a<br />
metade se dedica a pesquisar a biodiversi<strong>da</strong>de<br />
amazônica, como a Fiocruz, por exemplo, que<br />
por não estar situa<strong>da</strong> na Amazônia, na ver<strong>da</strong>de<br />
pesquisa apenas componentes <strong>da</strong> Região.<br />
Paralelamente a esta falta de grupos de<br />
pesquisa localizados na Amazônia, o<br />
pesquisador entende que a situação se acentua<br />
pela grande concorrência que se registra em<br />
torno dos insuficientes recursos do CNPQ, que<br />
a ca<strong>da</strong> 8 mil projetos apresentados , só<br />
consegue financiar cerca de 800, entre eles<br />
alguns projetos do Inpa, que por sua vez muitas<br />
vezes fica sem dinheiro até para alimentar os<br />
seus peixes-boi.<br />
A POBREZA DA PESQUISA NO BRASIL<br />
“A ver<strong>da</strong>de - afirma Charles Clement – é<br />
que para se fazer pesquisa os interesses e os<br />
T&C Amazônia, Ano 1, n o 3, Dez de 2003
investimentos precisam ser reais e efetivos e o<br />
que acontece hoje no Brasil é o inverso disso.<br />
Segundo ele, as instituições de pesquisa <strong>da</strong><br />
Amazônia, como Inpa, Goeldi, Embrapa e as<br />
universi<strong>da</strong>des possuem recursos apenas para<br />
se manterem como instituições e registram um<br />
déficit muito grande também em relação ao<br />
salários dos seus melhores cérebros e por isto<br />
mesmo estão perdendo-os para o Sul, Sudeste<br />
ou países do Primeiro Mundo, dotados de uma<br />
predisposição muito maior de investir em<br />
pesquisa amazônica. Este fator, segundo<br />
Clement, faz com que o nível <strong>da</strong> pesquisa<br />
científica no Brasil tenha perdido competência,<br />
ao longo <strong>da</strong> última déca<strong>da</strong>, prejudicando ain<strong>da</strong><br />
mais a quali<strong>da</strong>de e a confiabili<strong>da</strong>de do<br />
conhecimento que se tem sobre a<br />
biodiversi<strong>da</strong>de regional e assim também<br />
acentuando o interesse internacional e a<br />
consequente <strong>biopirataria</strong>.<br />
CONHECIMENTO ALIADO ÀS IDÉIAS<br />
Para Clement, para se combater a<br />
<strong>biopirataria</strong> é preciso em primeiro lugar reverter<br />
a imagem negativa que se tem sobre ela. Para<br />
ele, que a vê apenas como a expressão <strong>da</strong><br />
deman<strong>da</strong> do mercado internacional, os sinais<br />
<strong>da</strong> <strong>biopirataria</strong> estão sendo desprezados<br />
enquanto deveriam ser aproveitados para<br />
orientar a direção <strong>da</strong>s pesquisas. Neste sentido,<br />
ele cita o caso <strong>da</strong> aranha caranguejera, que tem<br />
hoje deman<strong>da</strong> comprova<strong>da</strong> no mercado<br />
internacional e por isso mesmo deveria estar<br />
também no foco de atenção dos pesquisadores.<br />
Clement afirma que a <strong>biopirataria</strong> nasce no<br />
grande vazio que existe entre a comuni<strong>da</strong>de de<br />
ciência e tecnologia e o mercado e assim só<br />
pode ser evita<strong>da</strong> com investimentos em<br />
pesquisa, porém orientados pela deman<strong>da</strong> do<br />
mercado, ou seja, pelo empreendedorismo.<br />
T&C Amazônia, Ano 1, n o 3, Dez de 2003<br />
Biopirataria Desafia o Brasil a Tomar Conta <strong>da</strong> Amazônia<br />
Aqui no Amazonas, em especial, temos<br />
muita biodiversi<strong>da</strong>de e pouco empreendedores,<br />
e menos ain<strong>da</strong> os que efetivamente se<br />
interessam pela biodiversi<strong>da</strong>de. Para o<br />
pesquisador, a maior causa dessa<br />
desproporção é a visão que se formou, vicia<strong>da</strong><br />
na Zona Franca de Manaus, ao longo dos<br />
últimos 30 anos. Na opinião do pesquisador, a<br />
Zona Franca eliminou as ativi<strong>da</strong>des<br />
empreendedoras do interior do Estado, que é<br />
onde se concentra a biodiversi<strong>da</strong>de, e<br />
enquadrou o empreendedorismo <strong>da</strong> capital ao<br />
comércio e somente agora que o modelo<br />
começa a <strong>da</strong>r sinais e não mais corresponder<br />
às expectativas de desenvolvimento, todos<br />
começam a voltar a enxergar novos caminhos<br />
de empreendedorismo no Estado. Ele afirma<br />
que ao se comparar a atual reali<strong>da</strong>de econômica<br />
do Amazonas e do Pará, que não sofreu<br />
influência do modelo Zona Franca, percebe-se<br />
lá as iniciativas empreendedoras locais são<br />
bem mais acentua<strong>da</strong>s.<br />
Charles Clement explica também que<br />
muito se fala <strong>da</strong> bioripataria internacional, mas<br />
que na ver<strong>da</strong>de existe também a <strong>biopirataria</strong><br />
nacional, que na<strong>da</strong> mais é do que o<br />
aproveitamento de resultados de pesquisa<br />
desperdiçados aqui e aproveitados pelas praças<br />
centrais do País. Como exemplos ele cita o<br />
cubiu, que foi estu<strong>da</strong>do pelo Inpa durante 25 anos<br />
e que hoje é altamente comercializado como<br />
manã no Sul; o guaraná, cujo grande produtor<br />
nacional é a Bahia; e a pupunha para palmito,<br />
que o próprio Clement pesquisou e que hoje é<br />
altamente utiliza<strong>da</strong> no Sudeste, enquanto na<br />
Amazônia continua a ser comi<strong>da</strong> apenas como<br />
fruto cozido. “O sentido também é de<br />
apropriação de um conhecimento gerado e não<br />
aproveitado. Portanto, o problema não é a<br />
<strong>biopirataria</strong> e sim o nosso descaso com o<br />
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potencial que temos à nossa frente, ou seja, a<br />
nossa falta de empreendedorismo” - afirma,<br />
destacando ain<strong>da</strong> que o primeiro biopirata<br />
interessado no Brasil foi Pedro Alvares Cabral.<br />
Para ele, portanto, o desenvolvimento <strong>da</strong><br />
Amazônia passa, necessariamente, pela<br />
associação <strong>da</strong> geração do conhecimento, razão<br />
de ser <strong>da</strong>s instituições de ensino e pesquisa, à<br />
geração de idéias, que deveria ser a principal<br />
tarefa <strong>da</strong>s instituições de pesquisa e<br />
desenvolvimento e que decorre <strong>da</strong> leitura que<br />
só uma visão empreendedora pode fazer dos<br />
sinais que vêm do mercado. A partir <strong>da</strong> parceria<br />
entre o talento do pesquisador e o talento do<br />
empreendedor, Charles Clement apregoa a<br />
renovação do sangue <strong>da</strong>s instituições locais,<br />
investimentos com retorno previsível, doutores<br />
atuando em incubadoras de empresas e o<br />
empreendedorismo como matéria curricular dos<br />
cursos de Biotecnologia.<br />
SENSIBILIZAÇÃO E LEGISLAÇÃO<br />
PRECISAM CAMINHAR JUNTAS<br />
Lúcia Rapp Py Daniel, pesquisadora do<br />
Inpa na área de piscicultura e membro do<br />
Conselho de Gestão do Patrimônio Genético –<br />
CGEN do Ministério do Meio Ambiente, sugere,<br />
em face <strong>da</strong> complexibili<strong>da</strong>de <strong>da</strong> questão, uma<br />
sensibilização nacional e internacional capaz de<br />
criar consciência sobre a importância de se<br />
conservar a fauna e a flora de uma região ou<br />
país, uma vez que os casos de <strong>biopirataria</strong> que<br />
têm se registrado atualmente são através de<br />
turistas estrangeiros, que estão fora do rigor <strong>da</strong><br />
lei.<br />
Ela explica que a legislação que o Brasil<br />
montou para regular o acesso e a remessa do<br />
patrimônio genético, através <strong>da</strong> MP 2186-16, de<br />
23 de agosto de 2000, e que criou o próprio<br />
Conselho que ela integra, recai principalmente<br />
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Biopirataria Desafia o Brasil a Tomar Conta <strong>da</strong> Amazônia<br />
sobre as grandes empresas internacionais de<br />
fármacos e extratos e sobre os pesquisadores,<br />
que por viverem de pesquisa se sentiram<br />
profun<strong>da</strong>mente injustiçados. Neste sentido, ela<br />
faz questão de destacar que apesar de todos<br />
os empecilhos que a MP tem causado à<br />
comuni<strong>da</strong>de científica nacional e internacional,<br />
que desde 2001 tem muitas de suas ativi<strong>da</strong>des<br />
congela<strong>da</strong>s ou atuando na ilegali<strong>da</strong>de, a<br />
legislação, por outro lado, obriga os<br />
pesquisadores a encararem de frente problemas<br />
que há muito tempo vinham sendo adiados.<br />
Como ganho mais importante ela cita a<br />
necessi<strong>da</strong>de de compromisso e muita<br />
responsabili<strong>da</strong>de <strong>da</strong>s ativi<strong>da</strong>des de pesquisa em<br />
relação à biodiversi<strong>da</strong>de <strong>brasil</strong>eira, deixando<br />
claro que propostas de uso ou conservação<br />
devem obedecer sempre a critérios que gerem<br />
repartição de benefícios e reconhecimento. Para<br />
exemplificar a importância <strong>da</strong> inovação jurídica,<br />
Lúcia Py Daniel relembra o caso <strong>da</strong> seringa,<br />
exporta<strong>da</strong> para a Malásia pelos ingleses em<br />
apenas algumas sementinhas e que acabou<br />
transformando aquele país no principal<br />
exportador mundial <strong>da</strong> borracha, sem que o<br />
Brasil recebesse qualquer benefício deste<br />
mercado.<br />
Casos como o <strong>da</strong> seringa - segundo a<br />
pesquisadora- acontecem há muito tempo no<br />
Brasil e com prejuízos incalculáveis à economia<br />
e à biodiversi<strong>da</strong>de nacional e se ressentiram <strong>da</strong><br />
falta de uma legislação pertinente. Ela explica<br />
que desde 2001, o CGEN, com base na MP<br />
2186-16, delibera e normatiza todos os<br />
procedimentos ligados ao acesso e à remessa<br />
de informação genética proveniente de<br />
organismos biológicos e do conhecimento<br />
tradicional, proveniente de comuni<strong>da</strong>des locais<br />
e indígenas, encontrados no território <strong>brasil</strong>eiro,<br />
seja para fins de pesquisa ou para fins<br />
T&C Amazônia, Ano 1, n o 3, Dez de 2003
comerciais. A maior dificul<strong>da</strong>de, entretanto,<br />
segundo a pesquisadora, é que a <strong>biopirataria</strong><br />
pode expressar-se de forma clara, na<br />
apreensão de uma material vivo sendo<br />
contrabandeado num aeroporto, quanto pode<br />
ser críptica, na forma de um extrato vegetal<br />
patenteado e exportado para laboratórios<br />
estrangeiros, sem que sequer se tome<br />
conhecimento.<br />
T&C Amazônia, Ano 1, n o 3, Dez de 2003<br />
Biopirataria Desafia o Brasil a Tomar Conta <strong>da</strong> Amazônia<br />
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