BORGES, Thaysa Silva da Luz Borges - Faculdades Equipe

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BORGES, Thaysa Silva da Luz Borges - Faculdades Equipe

ORTOGRAFIA NAS SÉRIES INICIAIS: MEMORIZAÇÃO E REFLEXÃO

Profª. Thaysa Silva da Luz Borges 1

RESUMO

Neste artigo me proponho a discutir e refletir sobre as práticas

pedagógicas aplicadas nas séries iniciais do Ensino Fundamental

quanto ao ensino da ortografia. Além disso, apresento algumas

propostas de atividades, capazes de levar o aprendiz à construção do

conhecimento.

PALAVRAS-CHAVE

Convenção, hipóteses, aprendizagem.

1 INTRODUÇÃO

Segundo Domingos Paschoal Cegalla, (2002, p.52), ortografia é: “(do grego

orthographia, escrita correta) é a parte da gramática que trata do emprego correto das letras,

dos sinais gráficos na língua escrita”.

A ortografia é uma convenção, algo que foi determinado por alguém; no Brasil, a

determinação é feita pela Academia Brasileira de Letras. Essa convenção com determinado

padrão, ou seja, o da língua culta, é fundamental para a manutenção da Língua Portuguesa. Se

não houvesse uma convenção ortográfica, a língua escrita apareceria, dentro de um mesmo

país, fragmentada pela oralidade de cada região e pelo modo de pronunciar dos falantes,

causando, com o passar do tempo, uma grande confusão, pois ninguém se entenderia mais.

1 Professora e Coordenadora do Instituto Estadual de Educação Maria Angelina Maggi, Três Cachoeiras – RS;

Professora de Português da UNISUL – Universidade do Sul de Santa Catarina; Pós Graduada em Língua

Portuguesa.


Percebeu-se que a convenção ortográfica é necessária e obrigatória para a

manutenção da integridade de uma língua, por isso, ela deve ser ensinada e aprendida. Não se

deve imaginar que esse seja um processo fácil, exige do professor clareza e conhecimento de

como se processa a aprendizagem dessa questão lingüística tão complexa.

Este artigo fundamenta-se num trabalho baseado no contato com professores e

alunos por meio da experiência como Supervisora Escolar e Secretária Municipal de

Educação. Foi ao longo desses vinte e cinco anos de magistério e percebendo as dificuldades

dos professores em trabalhar os “erros” ortográficos de seus alunos que motivei-me a realizar

este estudo e pô-lo em prática, com o intuito de ajudar os colegas das séries iniciais.

2 UMA REFLEXÃO SOBRE O ENSINO DAS NORMAS ORTOGRÁFICAS

A correção ortográfica, antes da análise do discurso, era cobrada drasticamente e

de maneira mecânica, entendia-se que pela repetição o aluno aprenderia a escrita correta das

palavras. Passado esse extremismo, caiu-se em outro, bem pior, a não intervenção durante o

processo ensino/aprendizagem. Não se corrigia o que o aluno produzia para não tolher sua

criatividade; nem se ensinava a escrita correta das palavras, portanto o aluno não aprendia.

Tanto uma atitude quanto a outra, não estão adequadas e o resultado percebeu-se nas

produções dos alunos que chegavam a 8ª série.

É comum entre os professores ainda surgirem dúvidas sobre como trabalhar a

ortografia dos alunos. Isso acontece porque o assunto passou por extremismos e modismos a

que me referi anteriormente, ou seja, abandou-se totalmente um procedimento para adotar

outro que surgiu, sem estudo ou conhecimento necessário para fazê-lo.

sua proposta de ensino:

Maria Luisa Xavier e Maria Isabel H. Dalla Zen têm como princípio orientador de

Professores e professoras ensinam sim e tem um papel importante neste

ato de ensinar, isto significa planejar seu trabalho, marcando seus princípios

teóricos, seus objetivos definindo e implementando ações para atingi-los. Tais ações

envolvem pensar cada passo, selecionar materiais, prever eventos – a isto eu chamo

de escolha de uma metodologia. Este ensinar tem sido tratado como intervenção

pedagógica no processo de construção do conhecimento do(a) aluno(a) e

intervenção aqui não tem nada a ver com autoritarismo, mas opõe-se ao

espontaneísmo (XAVIER E ZEN, p. 18, 2002).

Mas se não estava sendo ensinado como alguém poderia aprender? Se a escola

não ensinar, quando esse aluno vai aprender? E com quem?

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Logicamente a escola precisa ensinar e isso deve começar pela eliminação de

alguns equívocos como, por exemplo, achar que o aluno que lê bastante eliminará todas as

suas dificuldades ortográficas. Com certeza terá maior facilidade, visto que seu vocabulário

básico torna-se mais amplo. Outro equívoco é confundir competência textual com erros

ortográficos. A competência em ortografia é algo particular dentro da competência com a

língua de modo que um indivíduo pode ser muito bom produtor de textos (quanto à dimensões

pragmáticas, sintáticas da composição textual), mas ter problemas com ortografia. Ainda é

necessário para começar o ensino da ortografia, rever atitudes da escola diante do erro. Em

vez de tomar os erros ortográficos de nossos alunos como índices para dar nota, devemos

enxergá-los como indicadores do que precisamos ensinar.

“Os erros são pistas preciosas para o professor planejar seu ensino, para selecionar

e organizar as dificuldades de seus alunos e para ajudá-los a superá-las” (MORAIS, p. 140,

2002).

Para ensinar ortografia, muitos professores recorrem às velhas práticas de cópia,

ditado e exercícios de treino. Porém a maioria não está satisfeita com o resultado obtido e

passa por dúvidas como: quando devo começar a ensinar ortografia? Como devo reagir diante

do erro? Devo corrigir tudo que os alunos escrevem? Como posso inovar para ajudar meus

alunos?

3 QUANDO COMEÇAR O ENSINO DA ORTOGRAFIA? COMEÇAR POR ONDE?

A introdução do ensino da ortografia deve ser de forma sistemática, dando tempo

para que a criança compreenda o complexo sistema de escrita alfabética, ou seja, aprenda o

valor sonoro das letras e possa ler e escrever sozinha pequenos textos. Quando já compreende

a escrita alfabética, consegue ler e escrever seus primeiros textos, mas ainda desconhece a

norma ortográfica, o aprendiz precisa que a escola o ensine, pois a ortografia é uma

convenção social, não tem como descobrir sozinho. Nessa fase inicial de aprendizagem, é

bem compreensível que sejam cometidos muitos erros de ortografia e isso revela que a criança

precisa de ajuda para incorporar as facetas da escrita.

Para iniciar o ensino da ortografia é necessário que a professora faça uma minuciosa

triagem dos erros ao examinar as produções de seus alunos, separando as distintas

dificuldades, pois elas requerem mecanismos de aprendizagem diferenciados.

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As dificuldades regulares (em que há uma regra, um princípio gerador, que leva à

grafia correta) precisam ser ensinadas por meio de estratégias que levem o aprendiz a refletir a

respeito da escrita, compreendendo o fenômeno que ocorre, produzindo, juntamente com o

professor, a regra. Assim, irá compreender e provavelmente, aplicá-la em suas produções

textuais. Quem não cria oportunidades de reflexão sobre as dificuldades ortográficas do

idioma, nunca poderá exigir que o aluno escreva certo.

Já as dificuldades irregulares (nas quais não há uma regra que mostre com segurança

a grafia correta) precisam ser levadas à observação do aprendiz para reconhecer que, em

certos casos, não há regras, é preciso memorizar a forma correta e cabe ao professor usar de

bom senso para investir nas palavras importantes, isto é, naquelas que aparecem com

freqüência nos textos das crianças.

Nesse caso de dificuldades irregulares, o professor precisa levar o aluno a acostumar-

se à consulta ao dicionário sempre que tiver dúvidas, assim irá memorizando,

progressivamente a escrita correta das palavras.

De posse desses dados, deve iniciar pelas regularidades; se julgar necessário, deve

planejar atividades individuais ou grupais, pois as dificuldades de alguns aprendizes, podem

não ser as de outros.

O desafio maior do professor é elaborar situações didáticas que levem à compreensão

das conexões entre a língua e a ortografia. Com criatividades, é possível transformar esse

problema que amedronta alunos e professores numa atividade prazerosa.

4 COMO DEVO REAGIR DIANTE DO ERRO?

Durante o processo ensino/aprendizagem, o professor não precisa se angustiar quanto

às correções dos erros cometidos pelas crianças. Sua atitude diante do erro deve ser a de um

investigador. O erro cometido no texto do aluno deverá ser utilizado para direcionar o seu

planejamento (professor). É impossível querer corrigir tudo e sempre, pois o aprendizado da

ortografia não envolve apenas a memória; é um processo gradual e complexo, que requer

tempo, estímulo e paciência por parte do professor.

É necessário mostrar para o aluno o “porquê” da preocupação com a escrita correta

despertando, desde cedo na sala de aula, um espírito de preocupação com o leitor de seus

escritos, pois a correção e legibilidade tornam a comunicação escrita mais eficiente. Também

é preciso fazer com que perceba que o conhecimento das normas ortográficas ajuda a superar

o medo de se expressar por escrito e, diferentemente do que muitos acreditam, não afeta em

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nada a criatividades. Ao contrário, pois ao dominar as palavras com segurança, as crianças

não precisam parar a toda hora para verificar a grafia e podem voltar a atenção para o

desenvolvimento do texto que estão produzindo.

Quanto à correção do texto do aluno, sugere-se que seja realizada junto com ele,

levando-o a refletir, pensar nas regularidades e irregularidades de escrita que precisa dominar.

Deve-se apontar a diferença entre os erros ortográficos regulares e irregulares, isto estimula o

aluno, pois percebe a real dificuldade que existe na Língua Portuguesa e que não se trata

apenas de incapacidade dele. È preciso ensinar o aluno a usar o dicionário, incentivar o uso

desde as séries iniciais. O professor também deve consultá-lo, isso mostra que, tanto o

professor quanto o aluno, necessitam dele.

Depois de fazer a triagem dos erros cometidos pelos seus alunos o professor não deve

usar o número desses erros como parâmetro de avaliação, mas como indicador do seu

planejamento.

5 SUGESTÕES DE ATIVIDADES

No ensino da ortografia, é preciso, antes de realizar atividades, fazer a triagem dos

erros cometidos nas produções dos alunos para estabelecer o tipo de dificuldade que deverá

ser exercitada. Além disso, é preciso hierarquizar os erros dependendo da série a ser

trabalhada. Os problemas ortográficos mais complexos ficam para as séries maiores.

As atividades relacionadas abaixo podem ser utilizadas em todas as séries do Ensino

Fundamental, cabe ao professor adaptá-las.

1. Sugira que cada aluno construa sua lista de palavras “difíceis” todas as semanas.

2. Ensine o aprendiz a revisar textos em folhas especiais; peça para que faça

correções nos trabalhos dos colegas (é necessário criar laços de amizade e

comprometimento com a aprendizagem).

3. Mostre que a escrita não é a transcrição pura e simples da fala, mas que é uma

convenção com regras definidas. (Utilize as palavras que, ao fazer a triagem dos

erros, você observou que seus alunos escrevem, como as de transcrição da fala.

Exemplo: “leiti”).

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4. Discuta as regras ortográficas com os alunos: solicite pesquisa de palavras cujas

dificuldades há regras. Eles deverão analisar as palavras para criar a regra. Cabe

ao professor estimular e orientar para que a regra construída esteja de acordo com

a norma. Pode ser feita a comparação com as normas que estão nos livros. As

regras podem ser fixadas num lugar especial na sala, formando o canto da

ortografia, onde os alunos consultarão quando tiverem dúvidas.

5. Faça exercícios de fixação utilizando as palavras cuja regra fora criada pelos

alunos: cruzadinha, preencher lacunas com palavras num texto; ditado e outros.

6. Estimule os alunos a duvidar sobre a notação escrita, a produzir transgressões

intencionais e a discutir os porquês de suas dúvidas ou transgressões. Leve-os a

explicitar verbalmente tanto a existência de princípios gerativos (regras) como a

inexistência de regras em outros casos.

7. Trabalhe com pares de palavras; questione com os alunos a classe da qual a

palavra se origina; (Ex. beleza, princesa) incentive comentários, dê dicas,

desafie, valorize o acerto das respostas.

8. Ensine o aluno a usar o dicionário; incentive o seu uso regular.

9. Entregue para o aluno uma folha com frases incompletas. Faça um ditado de

palavras reais e inventadas que exijam o uso de letras que você quer trabalhar (rr

– ss ...). Leia cada uma das frases, ditando as palavras faltantes e explique, caso a

caso, as irregularidades que as crianças encontrarem.

10. Escolha uma história com narrativa simples e de fácil memorização. Peça que um

aluno leia o texto em voz alta e faça a gravação; em seguida, coloque para toda a

turma ouvir.

11. organize-os em grupo e solicite que escrevam a história ouvida. Nessa etapa

alerte para o cuidado com os parágrafos, o emprego de letras maiúsculas e

minúsculas e o encaminhamento das idéias.

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RR NO

MEIO

12. Escolha uma das redações produzidas pelos grupos; apague os nomes, transcreva

ou faça uma cópia em lâmina e oriente uma leitura coletiva. Questione o porquê

das transgressões e ajude os alunos a refletir sobre cada solução encontrada.

13. Apresente uma lista de palavras para que os alunos identifiquem e reescrevam

aquelas que estiverem escritas de maneira diferente da escrita nos livros.

Exemplo: corasão – emossão – canção – massa – toce – caztelo – gis – nariz –

rraiz – rato – carro – porque – carne – corre – morro.

14. Divida os alunos em grupos, peça que procurem em jornais e revistas palavras

com:

RR NO FIM RR NO

COMEÇO

R NO MEIO R NO FIM R NO

COMEÇO

• Solicite que colem cada palavra nas colunas indicadas na folha que receberam.

• A seguir, faça os seguintes questionamentos:

- Alguma coluna ficou em branco?

- Qual?

- Por que você acha que isso aconteceu?

- Qual o som dessas letras nas posições em que estão escritas nas palavras

de cada uma das colunas?

Obs: Fazer uma conclusão final.

15. Faça uma lista de palavras que possuem só uma letra que as diferencie e peça que

expliquem o significado das palavras escritas, e o que aconteceria se trocássemos

as letras. (outra opção é escrever frases trocando as letras das palavras, fazendo

com que as mesmas fiquem fora de contexto, para que percebam a diferença que

a troca de uma simples letra pode provocar).

Ex.: faca vaca foca tonta torta porta

Caça calça alça fruta gruta

Bola bala bota vale fale

Frase: Mamãe colocou as vacas e os garfos na mesa para o jantar.

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16. Música e ortografia podem ser uma ótima combinação. Escolha a regra que

pretende trabalhar e proponha que as crianças transcrevam os versos ou

completem lacunas enquanto ouvem o cantor. “Assim é possível direcionar a

discussão em torno da regra que quer reforçar”.

17. Desenhando e aprendendo ortografia

Faixa etária: a partir dos 7 anos

Série: a partir da segunda série.

Número de participantes: grupos de 4 componentes ou individual.

Principais dificuldades trabalhadas: b/p. frases.

Material necessário: 1 ficha para cada aluno.

1. Divida a turma em grupos de quatro componentes.

2. Dê uma ficha para cada aluno.

3. O professor dita uma palavra e registra a mesma no quadro-negro. Por exemplo:

pote.

4. Cada aluno escreve a palavra na sua ficha, obedecendo à coluna B ou P conforme

a ortografia da mesma.

5. É dado um ponto ao grupo em que um componente falar por primeiro a

correspondente corretamente. No caso do exemplo seria a palavra bote.

6. A atividade termina quando a ficha está cheia de palavras.

7. Vence o grupo que conquistar maior número de pontos.

8. Por último, os alunos redigem uma frase usando cada par de palavras. Segundo o

exemplo, as palavras usadas na frase são pode e bote.

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O trabalho com a normatização ortográfica deve estar contextualizado em situações

em que os alunos tenham razões para escrever corretamente, em que a legibilidade seja

fundamental porque existem leitores de fato para a escrita que produzem. A escola precisa

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assegurar ao aluno a vivência permanente de práticas de leitura, produção de textos e análise

lingüística sobre a ortografia da língua portuguesa.

As formas ortográficas mais freqüentes na escrita, independentemente de serem

regulares ou irregulares, devem ser ensinadas o quanto antes e trabalhadas sempre que for

necessário em qualquer nível de escolaridade. O trabalho desenvolvido pelo professor deve

levar o aluno à descoberta de que existem palavras que tem regras para determinar sua forma

de escrita; que há outras palavras cuja ortografia não é definida por regras e exigem, portanto,

consulta a fontes autorizadas e o esforço de memorização.

Para poder ensinar com criatividade e segurança o professor necessita ter domínio da

normatização ortográfica e ter desenvolvido o hábito próprio de consulta ao dicionário para

poder repassar esse hábito aos seus alunos.

Enfim, o conhecimento das normas ortográficas, além de estimular o aprendizado da

língua oficial do país _ que todos temos obrigação de conhecer bem_ ajuda o aluno a superar

o medo de se expressar por escrito.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CAGLIARI, Luiz Carlos. Alfabetização e lingüística. São Paulo: Scipione, 1991.

CEGALA, Domingos Paschoal, Novíssima Gramática da Língua Portuguesa, São Paulo:

Companhia Editora Nacional, 2002.

FERREIRO, Emília, TEBEROSKY, Ana. Psicogênese da língua escrita, Porto Alegre:

Artes Médicas, 1986.

KLEIN, Lígia Regina. Alfabetização: quem tem medo de ensinar? São Paulo: Cortez, 1996.

MORAIS, Artur Gomes de. O aprendizado da Ortografia, Belo Horizonte: Autêntica

Editora, 2001.

XAVIER, Maria Luisa; ZEN, Maria Isabel H. Dalla. Ensino da Língua Materna, Porto

Alegre: Editora Mediação, 2002.

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