capitulo 63 - Departamento de Cirurgia e Anatomia
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Protocolo Clínico e<br />
<strong>de</strong> Regulação para o<br />
Escroto Agudo<br />
INTRODUÇÃO E JUSTIFICATIVA<br />
<strong>63</strong><br />
Marcelo Ferreira Cassini<br />
Silvio Tucci Junior<br />
O escroto agudo caracteriza-se por quadro <strong>de</strong> dor escrotal <strong>de</strong> instalação recente,<br />
em geral acompanhada por aumento unilateral da bolsa testicular. A<br />
abordagem <strong>de</strong>ve ser orientada para afastar o risco <strong>de</strong> o testículo se tornar<br />
inviável e, portanto, é centrada na i<strong>de</strong>ntifi cação da necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> intervenção<br />
cirúrgica <strong>de</strong> urgência.<br />
O manejo do escroto agudo orientado pelas medidas <strong>de</strong> prevenção das suas<br />
sequelas visa alertar para os riscos do diagnóstico frequente <strong>de</strong> “orquiepididimite”,<br />
às vezes feito <strong>de</strong> modo displicente e que acarretará uma conduta<br />
ina<strong>de</strong>quada e a consequente atrofi a isquêmica testicular, fonte <strong>de</strong> problemas<br />
médico-legais e da perda funcional do órgão, conhecida como “castração por<br />
negligência”.<br />
O diagnóstico diferencial <strong>de</strong>ve ser consi<strong>de</strong>rado principalmente entre torção<br />
<strong>de</strong> apêndices intraescrotais, epididimite e orquite agudas.<br />
ABORDAGEM DO ESCROTO AGUDO NA ATENÇÃO BÁSICA<br />
(Fluxograma <strong>63</strong>-1)<br />
Na atenção básica, caracteriza-se a natureza da dor, se tipo em cólica ou constante,<br />
sua duração (<strong>de</strong> horas a dias), seu caráter recidivante ou não, a presença<br />
<strong>de</strong> irradiação, o aparecimento insidioso ou abrupto e a presença ou não <strong>de</strong><br />
manifestações clínicas associadas, como náuseas, vômitos e febre. Deve-se,<br />
ainda, avaliar a história <strong>de</strong> trauma ou queixas miccionais irritativas associadas.<br />
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Protocolo Clínico e <strong>de</strong> Regulação para o Escroto Agudo<br />
torções <strong>de</strong> cordão espermático e <strong>de</strong> apêndices são as situações mais<br />
frequentes até a puberda<strong>de</strong> e a primeira constitui uma emergência cirúrgica.<br />
Acomete crianças e adolescentes, mas há casos <strong>de</strong>scritos em idosos. Tem início<br />
abrupto, com dor intensa, unilateral no escroto, às vezes irradiada para a<br />
região inguinal ou abdominal inferior ipsilateral, espontânea ou após esforço,<br />
associada a náuseas, sem febre, que ocasionalmente surge à noite e acorda o<br />
paciente.<br />
O fator predisponente é a anatomia testicular no escroto, com o completo<br />
envolvimento do testículo, epidídimo e porção distal do cordão espermático<br />
pela túnica vaginal, sem que haja a fi xação posterior do epidídimo à sua face<br />
interna. Essa variação anatômica, acrescida da ausência do ligamento testicular<br />
(Gubernaculum testis), permite que ambos, testículo e epidídimo, fl utuem<br />
livremente <strong>de</strong>ntro da túnica vaginal, tal qual o badalo <strong>de</strong> um sino. Deve-se<br />
salientar que essas alterações anatômicas congênitas são, em geral, bilaterais.<br />
Episódios recorrentes <strong>de</strong> dor testicular frustra po<strong>de</strong>m também ser relatados,<br />
com torção e <strong>de</strong>storção espontâneas dos elementos do cordão. A torção<br />
extravaginal, mais rara, além <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r acometer também testículos não <strong>de</strong>scidos,<br />
ocorre exclusivamente no período intrauterino ou neonatal,quando a túnica<br />
vaginal se encontra frouxamente a<strong>de</strong>rida ao músculo dartos, permitindo<br />
a torção do cordão espermático em bloco.<br />
A torção dos apêndices intraescrotais é também frequente e tem apresentação<br />
clínica semelhante. Uma particularida<strong>de</strong> sua é que o quadro álgico po<strong>de</strong>,<br />
às vezes, se restringir à região superior do testículo comprometido, on<strong>de</strong> se<br />
localizam as hidáti<strong>de</strong>s <strong>de</strong> Morgagni, apêndices testiculares e epididimários,<br />
estruturas embriológicas remanescentes do ducto mülleriano e <strong>de</strong> Wolff, respectivamente.<br />
Ocorrem, em geral, em crianças entre os 7 e 12 anos, po<strong>de</strong>ndo<br />
ser a dor menos intensa e mais insidiosa, praticamente sem outras manifestações<br />
sistêmicas.<br />
A epididimite aguda bacteriana constitui a causa mais frequente <strong>de</strong> escroto<br />
agudo no adulto, sendo muito rara em meninos pré-púberes. A via <strong>de</strong> contaminação<br />
mais habitual é a canalicular, retrógrada, por germes Gram-negativos<br />
em idosos ou por agentes sexualmente transmitidos (Neisseria, Chlamydia, Ureaplasma)<br />
em homens mais jovens. Basicamente é um quadro escrotal doloroso<br />
<strong>de</strong> início insidioso, progressivo, frequentemente unilateral, com sinais fl ogísticos,<br />
que se localiza inicialmente no epidídimo e em seguida po<strong>de</strong> acometer<br />
também o testículo levando à hiperemia da bolsa escrotal. Associa-se a manifestações<br />
sistêmicas, como febre e astenia; queixas miccionais, como disúria<br />
e polaciúria; secreção uretral; e antece<strong>de</strong>ntes <strong>de</strong> manipulação uretral, como<br />
sondagens ou cirurgias prostáticas.<br />
A orquite aguda, doença rara no jovem pré-puberal, manifesta-se com <strong>de</strong>sconforto<br />
sistêmico e dor intensa local. Deve sempre ser diferenciada da torção<br />
<strong>de</strong> cordão espermático ou <strong>de</strong> um tumor <strong>de</strong> testículo. Sua etiologia mais<br />
frequente é a viral, secundária a caxumba. É em geral unilateral, evoluindo
SIM<br />
Melhora?<br />
NÃO<br />
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Fluxograma <strong>63</strong>-1 Abordagem do paciente com escroto agudo.<br />
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grau variável <strong>de</strong> atrofi a testicular e comprometimento da fertilida<strong>de</strong>, com<br />
febre alta, prostração, dor e aumento <strong>de</strong> volume local.<br />
O exame físico do paciente com escroto agudo é bastante útil na <strong>de</strong>fi nição<br />
diagnóstica. Na torção <strong>de</strong> cordão espermático po<strong>de</strong>-se i<strong>de</strong>ntifi car o testículo<br />
afetado em posição alta na bolsa (redux testis), com o epidídimo eventualmente<br />
anteriorizado, além <strong>de</strong> e<strong>de</strong>ma e eritema locais. O testículo contralateral, examinado<br />
com paciente em pé, po<strong>de</strong> encontrar-se horizontalizado <strong>de</strong>vido à anomalia<br />
<strong>de</strong> sua fi xação (sinal <strong>de</strong> Angel). Outras vezes, a palpação do conteúdo<br />
escrotal está impossibilitada <strong>de</strong>vido à dor, sendo que um testículo endurecido,<br />
<strong>de</strong> consistência lenhosa, signifi ca infarto do mesmo e pior prognóstico. Ao<br />
contrário da orquite ou epididimite, em que a elevação manual do escroto provoca<br />
alívio da dor (sinal <strong>de</strong> Prehn), na torção <strong>de</strong> cordão este alívio geralmente<br />
não ocorre. Na torção dos apêndices intraescrotais po<strong>de</strong>-se ocasionalmente<br />
i<strong>de</strong>ntifi car um nódulo escuro no polo superior do testículo. Na epididimite<br />
aguda, o epidídimo encontra-se endurecido, em parte (cauda) ou no todo. O<br />
envolvimento testicular é muito frequente. O toque retal po<strong>de</strong> sugerir prostatite<br />
adjacente. Antece<strong>de</strong>ntes <strong>de</strong> parotidite recente ajudam no diagnóstico <strong>de</strong><br />
orquite aguda.<br />
Quanto aos exames complementares, o sedimento urinário alterado e a presença<br />
<strong>de</strong> bactérias na urocultura reforçam o diagnóstico <strong>de</strong> orquiepididimite<br />
aguda. No diagnóstico diferencial das diversas doenças que se apresentam sob<br />
a síndrome do escroto agudo, po<strong>de</strong>-se lançar mão da cintilografi a radioisotópica<br />
e da ultrassonografi a com Doppler, que mostrarão fl uxo sanguíneo testicular<br />
normal ou aumentado nos casos <strong>de</strong> orquite/epididimite contra ausência<br />
<strong>de</strong> perfusão na torção <strong>de</strong> cordão. Entretanto, se tais testes não estiverem acessíveis<br />
<strong>de</strong> imediato, ou se houver dúvidas na sua interpretação, a conduta cirúrgica<br />
não <strong>de</strong>ve ser postergada. Isso <strong>de</strong>corre do fato <strong>de</strong> o testículo tolerar mal<br />
a isquemia, com taxas <strong>de</strong> preservação próximas a 80% quando a intervenção<br />
se impõe com menos <strong>de</strong> 6 horas, caindo para menos <strong>de</strong> 20% com período <strong>de</strong><br />
isquemia superior a 12 horas.<br />
A tentativa <strong>de</strong> <strong>de</strong>storção manual, se possível, é sempre útil, pois, se bemsucedida,<br />
abreviará o tempo <strong>de</strong> sofrimento testicular e po<strong>de</strong>rá transformar a<br />
cirurgia (orquidopexia bilateral) em procedimento eletivo.<br />
O diagnóstico preciso das doenças que constituem a síndrome do escroto<br />
agudo nem sempre é possível. Quando não se pu<strong>de</strong>r excluir a possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
torção <strong>de</strong> cordão, a conduta será a exploração cirúrgica emergencial: é melhor<br />
operar um caso <strong>de</strong> epididimite aguda do que tratar inadvertidamente, <strong>de</strong> modo<br />
conservador, a necrose isquêmica testicular secundária à torção do cordão<br />
espermático.<br />
A abordagem cirúrgica via inguinal em lactentes, ou escrotal (mediana) em<br />
crianças maiores e adultos, visa a <strong>de</strong>storção do cordão e avaliação da viabilida<strong>de</strong><br />
do testículo, se necessário for, inclusive com biópsia <strong>de</strong> congelação. Evi<strong>de</strong>nciando-se<br />
necrose isquêmica testicular, faz-se a orquiectomia. Na dúvida,
Protocolo Clínico e <strong>de</strong> Regulação para o Escroto Agudo<br />
preserva-se o órgão. É imperioso que se faça a fi xação do testículo acometido,<br />
assim como do contralateral. Quando na cirurgia se encontra torção <strong>de</strong> apêndice<br />
testicular, o tratamento consiste na simples excisão da hidáti<strong>de</strong> isquêmica,<br />
sem necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> exploração contralateral ou fi xação testicular.<br />
As <strong>de</strong>mais doenças agudas escrotais, epididimite, orquite ou torção <strong>de</strong><br />
apêndice, confi rmadas clínica ou ultrassonografi camente, são tratadas com<br />
repouso domiciliar, suspensão escrotal, analgésicos e anti-infl amatórios não<br />
hormonais (AINHs). O emprego <strong>de</strong> antibióticos na epididimite <strong>de</strong>ve ser a<strong>de</strong>quado<br />
ao agente etiológico.<br />
BIBLIOGRAFIAS<br />
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