VJ SET 2008 A.p65 - Visão Judaica

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VJ SET 2008 A.p65 - Visão Judaica

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editorial

VISÃO JUDAICA • setembro de 2008 Elul / Tishrê 5768 / 5769

Publicação mensal independente da

EMPRESA JORNALÍSTICA VISÃO

JUDAICA LTDA.

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HANA KLEINER

Diretor de Redação

SZYJA B. LORBER

Publicidade

DEBORAH FIGLARZ

Arte e Diagramação

SONIA OLESKOVICZ

Webmaster

RAFFAEL FIGLARZ

Colaboram nesta edição:

Ana Jerozolimski, Antônio Carlos Coelho, Aristide

Brodeschi, Breno Lerner, Daniel Pipes, Eduardo

Kohn, Eduard Yitzhak, Jane Bichmacher de

Glasman, Jonathan Sacks, José Roitberg, Lucie

Geffroy, Marcos Aguinis, Michael Latz, Nahum

Sirotsky, Noah Pollak, Pilar Rahola, Riccardo

Barenghi, Sérgio Feldman, Tashbih Sayyed e

Yossi Groisseoign

Visão Judaica não tem responsabilidade sobre

o conteúdo dos artigos, notas, opiniões ou

comentários publicados, sejam de terceiros

(mencionando a fonte) ou próprios e assinados

pelos autores. O fato de publicá-los não indica

que o VJ esteja de acordo com alguns

dos conceitos ou dos temas.

Contém termos sagrados, por isso trate

com respeito esta publicação.

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Este jornal é um veículo independente

da Comunidade Israelita do Paraná

Reflexões acerca de um novo ano

ais uma vez nos encontramos

no limiar de um novo ano judaico,

o de 5.769, que inicia em

29 de setembro. Entre Rosh

Hashaná, literalmente "cabeça

do ano", e Iom Kipur, o Dia do Perdão,

passam-se dez dias, a que chamamos

de Iamim Noraim, ou Dias Temíveis. É

o período em que devemos refletir sobre

nossos atos, gestos e atitudes, não

só em relação a nós, mas também aos

outros e o mundo que nos circunda.

Tratamos do arrependimento das más

ações, recordando o quão tênue é o

fio que nos mantém vivos e rezamos

em Iom Kipur para que sejamos inscritos

no Livro da

Vida. Nesta edição,

publicamos

alguns artigos

que aprofundam

mais essas questões

e que analisam

com muita

abertura de espí-

rito nosso rela-

Nossa capa

cionamento com o Divino. Podemos

ampliar as perspectivas de reflexão

destes dias extrapolando os limites do

nosso ambiente. Ainda existem guerras,

miséria, fome, sofrimento, doenças

e muita maldade - quer seja sob a

forma de opressão e preconceito às

minorias em todo o planeta, quer seja

por intermédio dos atos terroristas,

objetivando destruir vidas ou tolher

liberdades. Sim, esses aspectos negativos

existem. Porém, não nos esqueçamos

também da existência das coisas

boas que o ser humano tem alcançado

com a graça de D-us: O avanço

tecnológico que pode nos suprir de

alimentos a ponto de acabar com a

fome na face da terra, a vitória sobre

as enfermidades, as tentativas de busca

da paz, ou até mesmo os pequenos

milagres da vida, como o nascimento

de uma criança, que nos traz tanta alegria

e felicidade, deixando-nos esperançosos

com um amanhã iluminado.

Em síntese, cada um de nós deve meditar

sobre como e o que fazer para

melhorar o mundo, praticar o tikkum

olam, o antigo conceito da ética judaica

de "consertar" o mundo, ou

seja, fazer algo a respeito em benefício

de todos.

Nesse contexto de alargar a percepção

das realidades que nos cercam,

estamos próximos de obter a paz

no Oriente Médio? Ou as ameaças do

pequeno Hitler do Irã e de seus asseclas

do Hezbolá no Líbano, ou do Hamas,

em Gaza, devem ser tomadas a

sério a ponto de nos preocupar com a

sobrevivência de Israel e do povo judeu?

As respostas, evidentemente,

não são simples. Existe uma iniciativa

de paz tentada junto ao Al Fatah,

do presidente da Autoridade Palestina,

Mahmoud Abbas. Diz-se que é o

único com quem se pode manter diálogo.

Mas será mesmo que Abbas fala

sério? Aliás, falar, não é tudo. É necessário

agir, mostrar. Enquanto livros

escolares palestinos continuarem a

ensinar ódio aos judeus, os jornais

oficiais persistirem e os sermões das

A capa reproduz a obra de arte cujo título é: "O arrependimento", elaborada com a técnica litografia

e dimensões de 70 x 50 cm, criação de Aristide Brodeschi. O autor nasceu em Bucareste, Romênia,

é arquiteto e artista plástico, e vive em Curitiba desde 1978. Já desenvolveu trabalhos em

várias técnicas, dentre elas pintura, gravura e tapeçaria. Recebeu premiações por seus trabalhos

no Brasil e nos EUA. Suas obras estão espalhadas por vários países e tem no judaísmo, uma das

principais fontes de inspiração. É o autor das capas do jornal Visão Judaica. (Para conhecer mais

sobre ele, visite o site www.brodeschi.com.br).

ACENDIMENTO DAS

VELAS EM CURITIBA

Setembro e Outubro de 2008

Shabat e datas especiais

DATA HORA

26/9 17h54

29/91 17h55

30/92 18h50

3/10 17h57

8/10 3 17h59

10/10 18h00

13/104 18h01

14/105 18h57

17/10 18h03

20/106 18h05

21/107 19h01

1 e 2 Rosh Hashaná

3 Iom Kipur

4 e 5 Sucot

6 Shemini Atzeret

7 Simchat Torá

Humor judaico

A JANELA NO INVERNO

Na primeira noite após a sua volta,

Moisés e Sara estão dormindo. Sara

acorda e diz:

— Moisés, vá fechar a janela, está

muito frio lá fora.

Moisés responde:

— E então, se eu fechar a janela,

será que vai ficar mais quente lá fora?

Falecimentos

Com pesar, comunicamos os falecimentos

de:

SAMUEL KLEIN, dia 5/9/2008 (5 de

Elul de 5768) Sepultado dia 7/9/2008

no Cemitério Israelita do Umbará.

CLARA BOBER, dia 29/8/2008 (28 de

Av de 5768). Sepultada no mesmo dia

no Cemitério Israelita do Umbará.

Datas importantes

29 de setembro

30 de setembro

1º de outubro

2 de outubro

4 de outubro

8 de outubro

9 de outubro

11 de outubro

13 de outubro

14 de outubro

15 de outubro

18 de outubro

20 de outubro

21 de outubro

mesquitas não cessarem a incitação,

é difícil acreditar que queiram paz.

Exercício de futurologia: O Irã atacará,

ou será atacado? No momento isso

parece estar longe de ocorrer. Enquanto

nos Estados Unidos não se definirem as

eleições presidenciais, nada acontecerá.

Em Israel a crise política que deve

acabar na renúncia de Ehud Olmert nos

próximos dias, dará respaldo ao próximo

governo para enfrentar a situação.

Ahmadinejad pode vociferar o quanto

quiser contra Israel, entretanto o mundo

árabe, em especial a Arábia Saudita,

já percebeu que as ameaças atômicas

são contra si também. E a Europa idem.

No fundo, o pequeno déspota de Teerã

tenta com seus arroubos e bravatas desviar

atenção dos iranianos dos seus problemas

maiores, a inflação crescente, o

desemprego galopante e a falta de liberdades.

De uma coisa não devemos

nos esquecer: Todos os que tentaram ao

longo da história eliminar o povo judeu

desapareceram. E Am Israel Chai! Shaná

Tová Tikatevu.

A Redação

Véspera de Rosh Hashaná

1º dia de Rosh Hashaná

2º dia de Rosh Hashaná

Jejum de Guedália

Vaielech / Shabat Shuvá

Véspera de Iom Kipur

Iom Kipur

Shabat Haazinu

Véspera de Sucot

1º dia de Sucot

2º dia de Sucot

Shabat / 3º dia Chol Hamoed

Shemini Atzeret / Hoshaná Rabá

Simchat Torá


Sérgio Feldman *

modernidade e a pós-modernidade

geraram uma

angústia crônica nas pessoas.

Ninguém sabe

quem é? Seres humanos

que não entendem a amplitude

de seu ser: pessoas sem identidade.

Quem sou eu? Quem somos nós?

A pergunta é extremamente complexa.

Não há respostas prontas ou fáceis.

Mas reflexões podem ser encetadas.

Até meados do século XX a grande

maioria das pessoas sabia quem era. As

famílias eram estruturadas de maneira

tradicional e hierarquizadas em torno de

seus elementos mais idosos e o patriarcado

ajudava a conservar valores, princípios

e a identidade familiar, étnica e

cultural do individuo e a sua pertinência

a um determinado grupo ou a alguns

grupos em certos casos. A família, a religião,

as origens e a coesão grupal davam

aos seus componentes uma sensação de

pertinência e de identidade coletiva.

Este processo já se iniciara em alguns

lugares e em parcelas de determinados

grupos em meados do século XIX. A urbanização

e o progresso em todas as

áreas estariam por trás destas mudanças.

Mas isso tendeu a se acelerar nos

últimos cinqüenta anos.

Isso ocorreu tanto entre os judeus

quanto entre os não judeus e foi mais

acentuado no Ocidente e nos centros urbanos.

A tecnologia e o "boom" das comunicações

fizeram do mundo uma "aldeia

global", e esse movimento se expandiu

por todo o mundo, de maneira

diferente, ora de maneira mais aguda e

ora de maneira mais contida.

Os anos 80 e 90 chegaram tal como

um desmanche de uma longa era. Os laços

grupais se "desapertaram" e as pessoas

começaram a ficar mais soltas, sem

pertinência a grupos. Pensadores e teóricos

analisaram e definiram este processo

e o inseriram no que se chama a

"pós-modernidade". Analisemos alguns

exemplos e suas projeções. Nosso foco

será o judaico.

A família tradicional esta desaparecendo.

As mulheres estão trabalhando

há duas ou três gerações e não se limitam

às empresas familiares, ao lado de

marido, filhos e pais, mas na linha de

produção em todo o tipo de empresas.

Isso as tornou menos dependentes e

menos submissas ao poder patriarcal, e

as confrontou com situações que não

ocorriam desde a Pré-história. Modelos

tradicionais de mulheres que se dedicam

apenas a tarefas domésticas e tradicionais

são exclusivos de certas minorias

ou sociedades tradicionais que resistem

e formam baluartes de manutenção

do status feminino pré-moderno. As

mulheres estão em um novo estágio de

sua história: não são mais submissas e

não se bastam com criar filhos e cuidar

das tarefas domésticas.

A tradição tinha no lar seu foco mais

importante de resistência. Nas refeições

Identidade e diversidade

em conjunto, em torno da mesa e nas

conversas entre pais e filhos se moldavam

valores e se definiam os parâmetros

de comportamento e os limites. A

família deve ser reavaliada e repensada.

Ou se volta o relógio da história e se

retoma a família tradicional, ou devemos

readequar as funções educativas do

pai, da mãe e criar um novo cotidiano

de relações que substitua a família tradicional:

o vácuo é perigoso. Filhos sem

pais (ausentes) se tornam órfãos "de

fato" e buscam abrigo em valores estranhos

e na alienação dos padrões de ética

e de comportamento que se almeja

para eles. Onde se colocar?

A Escola tradicional acabou. Uma escola

repressora e controladora se desintegrou

e não foi substituída por uma que

integre o educando, seja criança ou jovem,

na nova realidade. Os pais querem

que a Escola opere magia e milagres preenchendo

o vácuo dos lares: gerando

valores, oferecendo cultura, formação

tecnológica e educativa geral e específica.

A grande maioria das escolas só tem

como parâmetro a formação tecnológica

e profissional. Abundam no país, projetos

educacionais no modelo dos cursinhos.

São escolas de Educação Infantil

ou de Primeiro Grau que estão no modelo

daquele "famoso cursinho" que virou

colegial e universidade, seja um Positivo

ou um Objetivo, apenas como

exemplo. Prestígio para um marketing

que vai "do maternal a universidade":

formação tecnológica e ingresso em carreiras

promissoras. Se em casa não se

passam valores, e se na escola só se ensina

conteúdos e links ou atalhos para a

vida profissional, aonde se aprenderá a

Ética e valores humanos, sejam judaicos,

universais ou humanistas?

Em 1988 criei um programa de Ética

judaica para alunos que freqüentavam o

Departamento de Ensino da ARI, uma Kehilá

(comunidade religiosa) do Rio de Janeiro,

a pedido de um grande amigo e mestre,

o Rabino Roberto Graetz. Executamos

o projeto e o aplicamos com relativo sucesso

para todos os alunos que pretendiam

fazer seu bar mitzvá na ARI. O sucesso se

fez demonstrar com as manifestações dos

alunos e alguns pais. Mitzvá é uma mescla

de ordenação divina ou mandamento com

uma ação humana que ora eleva a pessoa

espiritualmente e ora o faz socialmente,

mas por vezes atua nos dois âmbitos. Mitzvá

é a maneira judaica de ser judeu e agir

na direção de D-us e na direção do Mundo

e seus componentes, em especial os outros

humanos.

Este projeto foi executado por mim

e pela minha excelente equipe de morot

(professoras) na EIBSG em Curitiba.

Fazer do Judaísmo uma ação no mundo

e uma inserção do judeu na sua realidade,

tanto a judaica quanto a universal. O

que nós constatamos naquela época era

que não havia reflexo deste aprendizado

nos lares, na comunidade e na sociedade

em geral. Ética e mitzvót se diluíam

nos projetos da escola. Refletiam em

algumas atividades do movimento juve-

VISÃO JUDAICA setembro de 2008 Elul / Tishrê 5768 / 5769

nil judaico Habonim Dror e se perdiam.

A magnífica experiência dos jovens que

criaram e mantiveram o Projeto OVO na

favela de Vila Pantanal em Curitiba foi

um magnífico exemplo de que havia

compreensão do sentido de ser judeu e

agir, dentro e fora da comunidade. Em

casa, na Kehilá e no mundo. A ética e as

mitzvót eram para as crianças, já os adultos

podiam apenas falar delas. Ficava

uma contradição entre os valores e a

prática deles. E ficava a questão: podemos

ser judeus sem uma prática judaica

de mitzvót? Como trazer os ensinamentos

para vida de adulto?

Isto por que se não alterarmos nossos

conceitos, deixaremos de ter uma identidade.

Quem opta por ser ortodoxo, em

toda a plenitude deste caminho de vida,

escolhe ser recluso do mundo externo e

se separar da sociedade. Esta é uma opção

válida mesmo se for radical. Mas isso

serve apenas a uma minoria de "eleitos".

A maioria são os semi-ortodoxos.

Uma ortodoxia "descafeinada". São

aqueles que fazem de conta que são ortodoxos

ao freqüentar uma sinagoga,

sem realmente ser "guardiões das mitzvót"

(shomrei mitzvót = expressão que

significa um judeu que escolheu ser profundamente

tradicional, ou seja, ortodoxo),

já que estão encenando viver uma

obra dramática que não espelha a sua

realidade. Atores da vida. Isso fraciona a

sua identidade. Um diz que: "eu sou quase

ortodoxo, mas não guardo o Shabat e

nem a Kashrut"; outro diz que: "eu quero

ser ortodoxo, mas ainda não está dando

para ser". Trata-se de um projeto futuro.

Este conflito de identidade tenta

viver numa realidade passada, na qual viveram

os judeus imigrantes na primeira

geração, mas vivenciando a realidade

presente que espelha a realidade da terceira

e quarta gerações: é estar de maneira

anacrônica em dois tempos que não

estão numa mesma dimensão. Ser, mas

não sendo. Qualquer semelhança com

Shakespeare, é mero acaso.

Já, os que abandonam o Judaísmo e

se assimilam, perdem sua identidade de

outra maneira. Negam suas raízes e seu

passado desaparece: tornam-se seres

desmemoriados e sem história familiar.

Uma coisa que nem o psicanalista poderá

ajudar, pois a análise parte de lembranças

e da busca da identidade pessoal

que deve se renovar-se ou corrigirse

ou adaptar-se para superar problemas

e criar a nova identidade sustentada

na sua origem. Sem a memória não

se tem identidade. Assim também se

perdem e se desviam de seu próprio

SER. A História demonstra que, em certos

casos, a sociedade não-judaica muitas

vezes os faz recordar de suas raízes

de maneira traumática.

Os que resolvem optar por uma

identidade judaica inserida na realidade,

terão um trabalho difícil. Buscar ser

judeu e viver no mundo moderno é uma

tarefa difícil. Em primeiro lugar exigirá

estudar e ler muito. Somos o Povo do

Livro. Ler é parte de nossa missão espi-

ritual. Para ser um judeu moderno temos

de aprender muito e ampliar nossos

horizontes judaicos. Em segundo lugar

ser criativo e manter as tradições de

maneira moderna, sem perder a sua essência,

mas mantendo a inserção na realidade.

Para tanto, devemos criar uma

comunidade, seja esta conservadora

(conservative), ou liberal, ou reconstrucionista

ou reformista. Em torno de uma

liderança religiosa, sempre estudar e

entender as experiências de judeus do

mundo todo que optaram por ser judeus

e viver no mundo. Não negar a identidade,

mas ampliar sua pertinência ao

Mundo e a modernidade. Em terceiro

lugar, buscar as soluções judaicas para a

vida. O Judaísmo progressista ampliou

sua inserção no mundo. Nele há espaço

para a participação feminina nos cultos,

para a inserção dos judeus na vida política,

para a discussão dos problemas da

cidadania num país democrático e para

a defesa dos direitos humanos de judeus

e não-judeus, como um todo. É

possível ser judeu e ser cidadão, guardar

as mitzvót de maneira contemporânea

sem perder de vista sua essência

judaica, mas inserindo-as na realidade.

A identidade é preciosa. É o núcleo

de nosso ser. Não podemos negar a identidade,

mas tampouco colocá-la numa

ostra e acharmos que estamos cultivando

uma "pérola", para o Final dos Tempos.

Temos que nos inserir na diversidade,

nas lutas sociais e na realidade do

mundo, mas devemos fazê-lo de maneira

judaica, pois assim não negamos nosso

ser. Um caminho difícil e de uma enorme

complexidade.

No que tange a Família e a Escola não

há soluções fáceis também. Largar a responsabilidade

dos pais na porta da escola

e ir buscar no final da tarde, é achar

que a escola faz milagres. Nada substituirá

a família. A escola pode até ser inserida

na realidade e educar para valores,

mas a família também deve educar.

Se não há tempo e os pais mal vêem seus

filhos? Então deve se "otimizar" (um termo

que os tecnocratas me ensinaram)

as relações familiares em diálogos contínuos

e em celebrações e rituais que em

poucos e especiais momentos propiciem

a discussão de temas em que valores

e padrões sejam discutidos.

Já a escola deveria inserir no seu currículo,

mais ética e mais valores, através

de dinâmicas e discussões constantes. Sugiro

que as escolas judaicas repensem seus

currículos e os moldem com este tipo de

conteúdos práticos que estão em toda a

nossa tradição, na Bíblia e na História Judaica

como modelos de reflexão, debate

e ensino de valores. E tudo com ações práticas

na realidade: nenhuma teoria serve

se não for praticada. E se possível buscar a

ponte entre a tradição e a modernidade

de maneira criativa. Hoje, para se educar

filhos temos que ser mais que pais, temos

que ser sensíveis e atentos a vida e ao

mundo e saber achar a maneira de estar

próximos de nossos filhos mesmo se não

temos quase tempo.

3

* Sérgio Feldman é

doutor em História pela

UFPR e professor de

História Antiga e

Medieval na

Universidade Federal

do Espírito Santo, em

Vitória, e ex-professor

adjunto de História

Antiga do Curso

de História da Universidade

Tuiuti

do Paraná.


4

* José Roitberg é

jornalista. Fotos:

Divulgação Família K.

A primeira

pentaneta da

família K

VISÃO JUDAICA setembro de 2008 Elul / Tishrê 5768 / 5769

Moritz e Bruce Frommer, ramo perdido da família K

Cerca 280 pessoas da família K reuniram-se em Passa Quatro, em Minas Gerais

Cinco gerações em encontro

de família judaica

José Roitberg *

e 29 a 31 de agosto, os descendentes

de Avraham e Roize

Kasjusz (Polônia, 1850), participaram

pela sexta vez do Encontro

Internacional envolvendo

cinco gerações com parentes na

Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Estados

Unidos, Portugal, França, Itália e Israel.

O encontro acontece a cada dois anos

e foi iniciado em 1998, pelos bisnetos e

idealizadores Jacques Wrona z'l, Mathusalém

Casiuch z'l e Vitalis Moritz.

Este ano integrou 280 pessoas em

Passa Quatro, nas montanhas de Minas

Gerais. Os encontros são registrados

em vídeo e muita fotografia. No último

dia, os familiares podem descarregar os

cartões de suas máquinas: foram quase

5 mil fotos em 3 dias, mostrando a

importância da documentação para a

Família K. No quarto do hotel, um canal

especial mostrou vídeos de encontros

anteriores 24 horas.

Ponto alto foi a presença de um primo

dos Estados Unidos, representando um dos

seis ramos da família que havia se perdido,

recentemente descoberto através de

pesquisa na Internet. Pela primeira vez ele

conheceu sua "nova" família. Ainda se espera

encontrar alguém do quinto ramo,

mas a última referência é Varsóvia 1940...

No show de talentos, um casal de bisnetos

se veste como os patriarcas originais

da família para receber todos os seus descendentes

e neste ano, acolher de forma

emocionante o primo perdido.

Comemorando 10 anos, a Família K lançou

seu primeiro livro, coletânea de crônicas

familiares. Ainda como parte dos produtos

de comunicação, destaca-se o folder

genealógico atualizado a cada dois anos,

crachá com nome, parentesco e cor do ramo

e o site da família (www.familiak.com.br).

Uma árvore genealógica de 20 metros foi

criada este ano, com fotos e informações

de cada membro.

A Família K tem como princípio arrecadar

dinheiro para tsedaká, ajudando instituições

judaicas. Durante o evento é

montado um bazar, onde são vendidos

produtos trazidos pelos familiares, fotos,

artesanato, eletrônicos, camisetas, bijuterias,

etc. A renda deste ano foi para:

Lar da Criança Israelita Rosa Waisman

(RJ), Lar da Velhice Israelita Religiosa do

Rio de Janeiro, Sinagoga Beith Yaacov

(RJ), Ten Yad (SP) e Unibes (SP).

"Pelo andar da carruagem, continuaremos

com a presença de cinco gerações,

já que os tetranetos rapidamente estão

chegando à fase de constituírem família

e já há alguns pentanetos. E como sabemos,

os descendentes Kasjusz são fiéis

cumpridores da recomendação divina

"Frutificai e Multiplicai" (Bereshit,

1:28)", profetiza Vitalis.

Atualmente, a geração mais jovem, de

trinetos e tetranetos é quem organiza o

evento. "O que mais me motiva nesta participação

é a consciência e a satisfação

de estar fazendo algo muito importante

para a família, além da possibilidade do

contato com familiares que, se não fosse

desta forma, eu certamente não teria conhecido."

- confessa o trineto Alexandre,

32, e ressalta: "A emoção que sinto ao término

de cada encontro não me deixa dúvidas

sobre o quanto vale a pena participar."


Tashlich - um eco-lógico

Jane Bichmacher de Glasman *

o primeiro dia de

Rosh Hashaná, quando

não coincide com

Shabat, é realizado o

ritual de Tashlich. Consiste

em ir, pouco antes

do pôr-do-sol, até um lugar onde

haja água natural corrente (lagos,

rios ou mar) e também peixes. Lá

meditamos, recitamos alguns salmos

e agitamos simbolicamente os

cantos das roupas. Alguns lançam

na água migalhas de pão, que simbolizam

resíduos desintegrados das

faltas cometidas por nós durante o

ano que se encerra.

Os versos do profeta Miquéias

(especialmente 7:19), recitados no

Tashlich, contêm a explicação para

o costume: "E jogarás (tashlich) teus

pecados nas profundezas do mar".

Naturalmente, sacudir os cantos

da roupa não nos livra de nossos pecados

- mas nos recorda de que devemos

fazer uma boa limpeza no coração

e livrá-lo do mal.

Quando o primeiro dia de Rosh

Hashaná ocorre num Shabat, o Tashlich

é observado no segundo dia.

A prece de Tashlich desperta para

o arrependimento. Lembra a insegurança

da vida do peixe, entre o perigo

da isca e da rede do pescador.

Nossa vida também está repleta de

ciladas e tentações. O peixe também

simboliza o "olho sempre vigilante"

de D-us, pois os peixes não têm pálpebras,

seus olhos estão sempre

abertos. Assim, se nada pode ser oculto

de D-us, também podemos extrair

coragem e esperança da fé nele, pois

Ele nunca dorme 1 .

"Água em hebraico é Maim, palavra

que está presente em Shamaim

que quer dizer céus, pois queremos

que nossa oração chegue lá,

para o reencontro das águas de cima

com as águas de baixo, como no início

da criação do mundo 2 ".

Na Idade Média o Tashlich foi

muitas vezes usado para acusar os

judeus de enfeitiçar a água ou envenená-la,

e os rabis eram obrigados

a proibir a observância do Tashlich

pelas suas comunidades, já que

constituía ameaça às suas vidas.

A pessoas associam o ritual de

Tashlich com "jogar fora" - idéia incorreta,

sob uma perspectiva "ecokasher".

Hoje sabemos que não é

possível jogar nada fora, porque o

"fora" não existe. Ao invés disso, lan-

çamos nossos desacertos ou transgressões

para serem neutralizados,

para que se tornem biodegradáveis,

para que desta forma possam ser

reciclados sem causar poluição.

Refletindo sobre cada erro que simbolicamente

é lançado às águas,

pensando sobre o que aprendemos

com ele, podemos "reciclá-lo",

transformando-o em potencial para

ações positivas.

A água faz parte dos rituais judaicos

de purificação, como os banhos

de imersão na mikve, por

exemplo, que realizamos antes do

Shabat, festas ou momentos especiais.

Em Rosh Hashaná a água simboliza

o meio no qual reciclamos situações

ou relações não resolvidas

até o início do novo ano 3 .

A lágrima é nossa emoção reciclada

através da água. Através do

Tashlich, fazemos um percurso inverso

ao de Narciso, que no mito se

apaixona por sua própria imagem:

lançamos cacos de nosso coração

partido às águas, que são suas imperfeições,

como forma de reficarmos

inteiros, completos. Em Shalom,

cuja raiz significa isso: inteiro, perfeito.

E "nada é mais inteiro que um

coração partido... 4 "

* Jane Bichmacher de Glasman é escritora, doutora em Língua Hebraica, Literaturas e Cultura Judaica, professora adjunta,

fundadora e ex-diretora do Programa de Estudos Judaicos - UERJ.

VISÃO JUDAICA setembro de 2008 Elul / Tishrê 5768 / 5769

Pintura representando a cerimônia

de tashlich, em Rosh Hashaná

NOTAS:

1. Cf. http://

www.chabad.org.br/datas/

rosh/rosh008.html

2. Citando Benjamin Mandelbaum,

em Tashlich: a Cabala

do Desapego

www.cjb.org.br/netsach/

festas/kipur/taschlich.htm

3. Veja www.shalom.org.br/

vidasinagogal/festas/

tashlich.shtml

4. A frase é do Rabi Menachem

Mendel de Kotzk (Polônia,

1787-1859), um dos grandes

líderes hassídicos do século XIX.

Crianças oram durante o tashlich

5


6

* Noah Pollak é escritor

sobre política americana

especializado em temas

relativos a política

externa, Israel e o povo

judeu. Atualmente, ele é

colaborador regular da

publicação

neoconservadora

americana Commentary

Magazine. Além disso, é

editor assistente da

revista Middle East

Quarterly, publicação do

Middle East Forum. Por

dois anos Pollak viveu em

Israel e serviu como editor

assistente da revista

Azure, publicada pelo

Centro Shalem, sediado

em Jerusalém. Pollak

também tem escrito para

a National Review.

VISÃO JUDAICA setembro de 2008 Elul / Tishrê 5768 / 5769

Demonstração de força

Noah Pollak * freqüentemente, tanto antes como mutuamente reforçado, para questio- desproporcional de homens-bomba sui-

depois, as autoridades israelenses tinar sua própria legitimidade. Hoje, em cidas para Israel. Seguiram-se intensas

o dia 9 de junho de 2006, uma nham ajudado seus inimigos a defen- muitas partes da Europa e do Reino batalhas casa a casa. Mais de cinqüenta

praia em Gaza foi atingida por der sua versão.

Unido, e em algumas partes da Amé- residências haviam sido equipadas com

uma explosão que matou sete Israel tem um problema de imagem. rica uma caricatura de Israel que an- explosivos, e enquanto a tática óbvia

membros de uma família pa- Começando com a Guerra do Líbano de tes só florescia nas facções ideológi- teria sido seguir recentes exemplos

lestina. Pouco tempo depois, a 1982, e acelerando rapidamente depois cas, foi popularizada: acredita-se que usados por outros exércitos ocidentais,

televisão da Autoridade Palestina libe- do início da segunda Intifada em 2000, Israel é um opressor sádico, um assas- que usam artilharia ou ataques aéreos

rou um vídeo horroroso, mostrando uma o Estado judeu passou a ser visto em sino cruel de civis, um fomentador para neutralizar a ameaça, as FDI es-

menina de 10 anos gritando entre cor- muitos locais de opinião culta e ilus- implacável de guerras no Oriente Mécolheram, ao invés, continuar com forpos

mortos na praia, e os funcionários trada como uma presença sinistra no dio, e o causador de uma responsabiças terrestres - às custas das vidas de

de um hospital e porta-vozes palesti- cenário mundial. Fundado sobre prinlidade estratégica ameaçadora para os vinte e três de seus soldados de infannos

culpando furiosamente os disparos cípios de direitos humanos, o Estado Estados Unidos e o mundo ocidental. taria - tudo para minimizar as vítimas

de artilharia das Forças de Defesa de de Israel é visto como opressor; Israel A popularidade deste modo de pen- civis palestinas. Foram mortos cinqüen-

Israel (FDI) pelas mortes - embora ne- é retratado como uma nação ocupante sar não evoluiu de forma natural. Foi ta e dois palestinos, quase todos comnhuma

investigação tivesse sido con- com tropas violentas; é chamado de cultivada assiduamente durante várias batentes armados. Mas, nenhum desduzida,

e os acusadores palestinos não "estado apartheid". O próprio sionismo décadas, com as muitas batalhas emtes fatos foi considerado relevante pela

tivessem nenhum modo de saber o que se tornou um importante alvo desta viopreendidas contra Israel durante este mídia ou pelas autoridades oficiais in-

de fato causou a explosão.

lência retórica.

tempo, que serviram como oportuniternacionais. Declarações exultantes de um Antes considerado como uma resdades importantes para aqueles cuja A narrativa "do que houve" em Je-

massacre israelense foram noticiadas posta heróica a pogroms e genocídio, meta é o deslegitimização e o isolanin já havia sido decidida, e exigia his-

como fato, em jornais e transmissões o sionismo agora é culpado por conmento do estado judeu. O caso de tórias de matança em massa e crimes

de TV, ao redor do mundo; grupos de ceder absolvição ideológica para a Muhammad al-Dura, de doze anos, nas de guerra. A agência oficial de notí-

direitos humanos se uniram às conde- perpetração desses mesmos crimes. primeiras semanas da segunda Intifacias palestina declarou que o "massanações;

e, mais uma vez, Israel viu-se Todas estas caricaturas têm por objeda foi um exemplo típico de como se cre do século XXI" tinha sido perpetra-

como objeto de indignação internaciotivo redefinir o caráter básico do sio- construiu esse conceito negativo de do. O enviado da ONU para o Oriente

nal com relação à questão de vítimas nismo e do estado que ele ajudou a Israel. Al-Dura teria sido morto num Médio, Terje Roed-Larsen, descreveu

civis. Se esta história e suas origens criar, debilitando insidiosamente, des- fogo cruzado em Gaza, entre soldados Jenin como "mais horripilante do que

se ajustam perfeitamente a um padrão te modo, tanto a legitimidade do Es- das FDI e palestinos. Um operador ci- se poderia acreditar", e concluiu que

previsível, a reação de Israel à crise tado judeu em sua forma atual, quannematográfico palestino, trabalhando "Israel perdeu toda a base moral nes-

também seguiu o padrão previsível: as to a base moral e ideológica para sua para o canal de notícias francês Frante conflito". Derrick Pounder, um "pe-

FDI cessaram imediatamente as ativi- criação. E esta redefinição foi segurace 2, capturou cenas do fogo cruzado rito forense" da Anistia Internacional,

dades militares em Gaza, e as autorimente bem sucedida: em uma pesqui- num filme, e o vídeo, editado pelo ca- comentou, ao entrar em Jenin, que "as

dades israelenses, em seus níveis mais sa de opinião feita em 2007, pela BBC nal France 2 e então distribuído, sem evidências diante de nós, no momen-

altos, espontaneamente admitiram a World Service, foi pedido aos pesqui- custo, para outras organizações de to, não nos levam a crer que as alega-

culpabilidade das FDI e prometeram sados, em dúzias de países, que clas- mídia. Sem surpresa, Al-Dura foi enções possam não ser verdadeiras e,

uma investigação do incidente. sificassem 27 nações de acordo com terrado antes que uma autópsia, re- portanto, há um grande número de ci-

O último capítulo da história é sua influência positiva ou negativa no moção de balas, ou testes de balístivis mortos debaixo destas ruínas de-

igualmente familiar: ao final das inves- mundo. Israel foi classificado em últica pudessem ser realizados. Anos demolidas bombardeadas que nós vetigações

ficou comprovado que os pamo lugar absoluto - até abaixo do Irã - pois a farsa foi comprovada. Mas até mos." Nos EUA, a National Public Ralestinos

na praia não foram mortos com apenas 17% dos entrevistados di- que isso viesse a público, a Anistia dio, a CNN, e o jornal The Los Angeles

pelas FDI. Ao invés disso, o Hamas tizendo que viam Israel como uma in- Internacional culpou Israel dando um Times repetiram incansavelmente hisnha

minado a parte da praia onde a fluência "principalmente positiva". aval às acusações palestinas e frantórias de atrocidades, e no New York

explosão aconteceu, esperando defen- Entre países ocidentais, Israel se saiu cesas. Em grande parte devido ao sen- Times, o ex-presidente Jimmy Carter

der seu arsenal de foguetes Kassam apenas um pouco melhor: na Austrásacionalismo cinematográfico do inci- acusou Israel de "destruir" Jenin "e

contra missões de comandos israelenlia, Itália, Reino Unido, França, e Grédente. As imagens de Al-Dura morto outros povoados". Na Inglaterra, a imses.

Depois da explosão, homens do cia, Israel é visto como uma influên- foram utilizadas pelo mundo árabe e prensa era a mais gratuita. "O doce e

Hamas rastrearam a praia, removencia "principalmente negativa" por qua- pelas mídias européias como ícones horrível cheiro desagradável de corpos

do estilhaços que poderiam ser usase dois terços das pessoas, e, na Ale- da situação dos palestinos como víti- humanos apodrecidos está em todos

dos como prova. O vídeo sensacionamanha, por mais de três quartos das mas da crueldade israelense. Até mes- lugares, provando que é uma tumba

lista, que capturou as simpatias de pessoas. Da mesma forma, uma pesmo Osama Bin Laden usou isso ao humana", despejou Phil Reeves no In-

jornalistas crédulos, e provocou uma quisa de opinião em 2003 concluiu que, advertir, um mês depois dos ataques dependent. "As pessoas dizem que há

fogueira de afronta pública, se mos- entre europeus, Israel é considerado de 11/9, que "Bush não deve esque- centenas de cadáveres, sepultados

trou, em avaliação objetiva, uma mon- o país mais perigoso no mundo. cer-se da imagem de Muhammad Al- sob o pó". David Blair do Daily Teletagem

mutilada de trechos de vídeo Os subordinados a este fenômeno Dura". Hoje, sabe-se que foi tudo uma graph informou que tropas das FDI

colados e anacronismos não explicá- são o que poderia ser chamado, se a fabricação diabólica, planejada para executaram sumariamente nove hoveis.

Em outras palavras, era uma frau- pessoa quiser ser polêmica, o lobby ser mais um ataque com artilharia pemens, que foram despidos e ficaram

de. A própria explosão aconteceu uns anti-Israel, ou, mais precisamente, sada na guerra maior para destruir a apenas com suas roupas íntimas, "co-

dez minutos depois que a último car- uma cultura dominante de opinião, reputação moral de Israel e das FDI. locados contra um muro e executados

tucho de artilharia das FDI tinha sido compartilhada por organizações de di- Menos de dois anos depois, Israel com simples tiros na cabeça".

disparado na área, e os estilhaços reitos humanos, ONGs, departamen- era outra vez objeto de um "Dois Minu- No final das contas, o único mas-

achados nos corpos das vítimas não tos de Estudos do Oriente Médio e grutos de Ódio Orweliano" ( N.T. período sacre que foi cometido foi conduzido

eram de munições israelenses.

pos em campus universitários, as Na- no qual os membros do partido assis- pela ONU, pelas organizações de aju-

O Hamas, numa tentativa malfeições Unidas, organizações cristãs tiam a um filme, mostrando seus inida internacionais, e pela imprensa inta

de defender Gaza, com certeza ma- "progressistas", e a maioria esmagamigos, e expressavam seu ódio contra ternacional - um massacre da verdatou

seus próprios cidadãos. No fim, nedora da mídia e elite cultural britâni- eles, no livro 1984, de George Orwell), de, que foi planejado, exatamente

nhuma das evidências justificativas cas e européias. Estas facções operam baseado em outra atrocidade inventa- como o enviado da ONU declarou tão

encontradas teve a menor importân- em um estado mais ou menos permada, desta vez na cidade de Jenin, na Sa- presunçosamente, para destruir a recia:

Israel já havia sido julgado e connente de antagonismo a Israel, e em mária. Durante a Operação Escudo putação moral de Israel em sua luta

denado no tribunal da opinião pública nenhuma época prévia da história do Defensivo, tropas das FDI entraram contra a ofensiva terrorista palestina.

mundial nos primeiros poucos dias do estado judeu existiu tal eixo interna- numa parte de Jenin para livrá-la de Mais recentemente, ocorreu o caso da

incidente. E, como tem acontecido, tão cional profusamente consolidado, terroristas, que enviavam um número Segunda Guerra do Líbano, cujos re-


sultados inesperados concentraram a

atenção israelense em falhas militares

e políticas. Esta autocrítica ignorou

em grande parte uma terceira falha,

isto é, a facilidade com que Israel

foi derrotado uma vez mais na mídia.

Dentro dos primeiros dias do começo

da guerra, e sem uma coordenação

consciente, os inimigos de Israel

começaram a debilitar a autodefesa

israelense: Kofi Annan anunciou,

sem uma prova que fosse, que Israel

tinha intencionalmente assassinado

quatro membros da Unifil; grupos de

direitos humanos como a Anistia Internacional

e a Human Rights Watch

(HRW) produziram rapidamente montes

de relatórios condenando o esforço

de guerra de Israel, alegando crimes

de guerra, e ignorando primariamente

o Hezbolá (Kenneth Roth, o diretor

executivo da HRW, acusou Israel

de empreender "guerra indiscriminada"

e acrescentou, sem qualquer comprovação

confiável, que "em alguns

casos, forças israelenses pareceram

ter mirado deliberadamente em civis");

e os jornalistas inundaram a

área com a cobertura das vítimas civis

libanesas, produzindo falsos relatórios

sobre os bombardeios de

Qana, fotografias adulteradas, e histórias

para os noticiários que foram

organizadas e dirigidas pelo Hezbolá.

Em suas excursões no campo de

batalha para repórteres, o Hezbolá foi

longe, chegando a ponto de fabricar

tiroteios em ambulâncias, já que aparentemente

a compensação por usar

estes veículos como acessórios de

produção para a imprensa internacional

era preferível do que usá-los para

ajudar feridos libaneses.

A resposta israelense para as calúnias,

tão previsivelmente lançadas

em sua direção, foi algumas vezes

VISÃO JUDAICA setembro de 2008 Elul / Tishrê 5768 / 5769

Deficientes servem o exército em Israel como voluntários

O exército de Israel adotou uma política

impensável em outros países: a de

admitir em seus quadros soldados portadores

de deficiências, desde cegos até

portadores de síndrome de Down.

Esses militares, alguns com postos de

oficial, não foram recrutados para o serviço

militar obrigatório e não participam

de operações de combate, mas são voluntários.

Danielle Kalifa, que nasceu completamente

cega, é uma das jovens soldadas

da seção de internet de Galéi Tzahal, a

emissora de rádio do Exército Israelense.

Ela se encarrega de transcrever os

programas de rádio para que sejam publicados

no site da emissora.

"Sei que contribuo com algo valioso.

Desfruto cada momento e, com esse serviço,

cumpro meu sonho de toda a vida",

disse ela do seu trabalho.

O tenente Yonatan Cohen, que sofre

competente, mas com freqüência demais

recorreu a táticas familiares e

autodestrutivas: desculpas gratuitas e

autocrítica, servilidade em face a jornalistas

hostis, e uma incapacidade

para fazer sua defesa básica de que

as vítimas civis libanesas eram uma

das metas centrais do Hezbolá no conflito,

precisamente por causa de seu

valor de propaganda. Incrivelmente,

depois do bombardeio em Qana, Israel

prometeu suspender suas operações

aéreas por 48 horas, um gesto para

seus inimigos e aliados também, que,

nos níveis mais elevados de governo

lá, inflamou uma profunda ambivalência

sobre o esforço de guerra.

Lá pelo meio do conflito, a narrativa

da guerra tinha sido distorcida, mudando

de uma na qual Israel estava se

defendendo do ataque de uma organização

terrorista apoiada pelo Irã para

uma na qual Israel estava, mais uma

vez, matando civis com selvageria.

Nas primeiras páginas do New York Times

e do Washington Post, Israel foi

retratado como o agressor quase duas

vezes mais freqüentemente nas manchetes

e exatamente três vezes mais

freqüentemente nas fotografias.

O padrão revelado por estes eventos

mostra um registro perturbador: o

curso de uma ação corrosiva. Em qualquer

crise, seja Al-Dura, Jenin, Líbano,

ou a explosão na praia de Gaza, a

resposta israelense se caracterizou

pelos mesmos silêncios, erros graves

de uma presunção espontânea de culpa;

desculpas antecipadas, autocrítica

desnecessária, promessas de investigação,

e suspensão da ação militar;

um tratamento irresoluto para exatamente

o tipo de acusações incendiárias

que requerem uma resposta enérgica

e consistente; a afirmação de inocência

somente depois que a tempes-

de paralisia cerebral e usa uma cadeira

de rodas, é outro voluntário.

"Não é mais que um metal exterior que

nada tem a ver com minha vontade de fazer,

atuar e contribuir para a sociedade",

disse ele sobre a cadeira de rodas.

Yonatan, o primeiro deficiente a receber

grau de oficial no Exército Israelense,

é responsável pelo contato com

jovens que estão prestes a servir o exército.

Ele percorre o país em visitas a colégios

secundários e outros locais, para

explicar a importância do serviço militar

e encorajar os jovens a "ser parte do esforço

de todos", "Ao me verem, não podem

dar desculpas de que têm problemas

para se alistar. Se eu posso, todos

podem", afirma.

Apesar do tratamento igual sem benefícios

especiais, Danielle e Yonatan

estão cientes de suas limitações, que são

respeitadas pelo exército.

tade da mídia tenha passado; e finalmente,

a recusa em fazer uma ofensiva,

retoricamente ou de outro modo,

contra os indivíduos e organizações

que fizeram a calúnia contra Israel se

tornar um esporte tão vergonhosamente

fácil.

Várias reformas, conceituais e estruturais,

são imperativas. A primeira é a

respeito da Unidade do Porta-voz das

FDI, o pequeno grupo dentro do exército

israelense que se encarrega das relações

com a mídia. Em tempos de guerra,

seus soldados civis são sobrecarregados

pela pesada responsabilidade de

explicar ações militares israelenses para

o mundo. Tem que se tornar uma das

unidades de elite nas FDI.

Um gabinete deveria ser criado

em Jerusalém, onde há um grande

contingente de grupos da imprensa

estrangeira, para estimular o cultivo

das relações com jornalistas. E deveria

ser criado um gabinete de conexão,

de modo a coordenar a estratégia

de mídia e as mensagens entre

as FDI e o governo, com o objetivo de

construir uma estratégia de comunicações

única para toda operação militar

importante.

Para que estas mudanças deixem

sua marca, o próprio governo israelense

tem que adotar um processo de comunicações

mais disciplinado. Hoje,

Israel não tem nenhuma infra-estrutura

de comunicações unificada; cada

Ministério e seção das FDI oferecem

seu próprio porta-voz à imprensa, e o

resultado é uma multiplicidade de declarações

e mensagens, que freqüentemente

deixam Israel na defensiva e

parecendo ser culpado diante de acusações

irrefutáveis. No nível conceitual,

os estrategistas israelenses e os porta-vozes

têm que passar a entender a

imensa importância da comunicação

A jovem viaja sozinha de ônibus diariamente

da cidade costeira de Natania,

onde mora com os pais. Ela decorou as

curvas do caminho para calcular quando

deve saltar do ônibus, no ponto de Yaffo,

em Tel Aviv.

"Agora estão fazendo obras em Sderot

Yerushalaim", disse ela, se referindo

à principal rua do bairro.

"Isso virou uma loucura, mas ao chegar

ligo para um de meus colegas e eles

vêm me buscar no ponto."

Yonatan Litani, o produtor do Galéi

Tzahal on-line, e amigo pessoal de

Danielle, afirma que "não há outra garota

tão especial como ela".

Yonatan Cohen, por sua vez, não pode

viajar sozinho já que, por conta das

sérias limitações motoras, precisa de ajuda

24 horas por dia.

Seu acompanhante filipino, Boboy, já

sabe o nome de todas as unidades em he-

social organizada na guerra moderna.

Isto significa que os israelenses têm

que considerar o papel desempenhado

pelas ONGs e organizações de notícias

empenhadas em deliberar falsas informações.

Estes agentes já não podem

ser agrupados conceitualmente

como terceiros ou observadores neutros

durante os conflitos; eles estão

profundamente implicados na própria

guerra, e como partes de um conflito,

sua presença deve ser tratada com a

máxima seriedade.

Há mais de um ano, as FDI têm

conduzido ataques aéreos em Gaza,

que são destinados a impedir o disparo

de foguetes Kassam para Israel, e

porque o Hamas e os terroristas da

Jihad Islâmica operam intencionalmente

entre civis, estes ataques invariavelmente

matam transeuntes não

envolvidos e criam histórias de notícias

prejudiciais. Seria extraordinariamente

fácil a um governante dar

uma coletiva de imprensa em Sderot

na frente a uma escola destruída por

disparos de foguetes palestinos e explicar

para as câmeras que, enquanto

Israel está atacando o Hamas para

proteger as vidas das crianças israelenses,

o Hamas está enviando suas

crianças em missões suicidas para

operar exatamente esses mesmos dispositivos

de lançamento de foguetes.

Toda vez, depois disso, que Israel atacar

terroristas em Gaza, o porta-voz

israelense poderia martelar nesta tecla,

condenando o fato de o Hamas

usar crianças em ataques terroristas.

Repetindo freqüente e vigorosamente

o bastante, o ocidental comum

pode não estar muito inspirado a gostar

de Israel, mas pelo menos ele começará

a entender a natureza de sua

luta - e a realidade macabra da "resistência"

palestina.

braico e reconhece onde servem os soldados,

de acordo com a cor de suas boinas.

Mas para Danielle, que considera os

colegas de trabalho como uma "família",

e Yonatan, a questão é mais séria do que

apenas um encontro com amigos e reflete

a sociedade israelense em si.

Danielle está convencida de que "se

a comunidade na qual vive não sabe aceitar

as pessoas um pouco diferentes, nunca

chegará a um bom termo".

Yonatan conta que já recebeu todo

tipo de reações. Alguns riram quando o

viram, "mas também há os que reagem

com admiração".

Ele, que considera ter sido "compensado"

por sua limitação física com grande

capacidade intelectual, não tem dúvidas:

"se eu transmito sentimento de

pena, essa será a atitude, mas não é o

que desejo, nem o que devo transmitir",

disse ele.

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VISÃO JUDAICA setembro de 2008 Elul / Tishrê 5768 / 5769

MENSAGEM DA

EMBAIXADORA DE

ISRAEL, TZIPORA

RIMON,

À COMUNIDADE

JUDAICA DO BRASIL,

POR OCASIÃO DO

ANO NOVO JUDAICO

- 5769 E DE SUAS

DESPEDIDAS

Caros amigos,

Como todos os anos quando nos aproximamos no final do mês Elul e

início do Ano Novo em Tishrei, desejo à toda a comunidade judaica do Brasil

meus sinceros votos de sucesso, saúde e prosperidade.

Este ano marca também a minha despedida - encerro na próxima semana

a minha missão como Embaixadora da Israel no Brasil e após 4 anos de

serviço diplomático no país, regresso a Israel.

Foram anos de desafios profissionais, tentando ampliar, cada vez mais a

cooperação entre os dois países. Encontramos vastos campos de interesses

mútuos para dialogar e assinar acordos bilaterais e com o Mercosul e presenciamos,

nos últimos anos, várias visitas oficiais entre os dois países.

Não menos importante, foi para mim a estreita cooperação com a comunidade

judaica do Brasil, que através de sua liderança e integrantes buscamos

meios para reforçar o vínculo e atuação junto a assuntos pertinentes

a Israel e à própria comunidade.

Levarei comigo boas lembranças do Brasil e de todos vocês, sejam nas

comunidades pequenas e grandes, nas organizações, nas escolas e movimentos

juvenis, nas sinagogas e entidades. Agradeço pela colaboração, calorosa

recepção e amizade.

Tenho certeza de que o novo Embaixador, Sr. Giora Becher, encontrará

uma boa receptividade por parte da comunidade e continuará contando com

a costumeira cooperação.

SHANA TOVÁ UMEVORECHET

FELIZ ANO NOVO

VJ INDICA

LIVRO

Compromisso

com a Vida

Rebetsin Esther Jungreis

Editora W-Edith

Perpassando a eterna sabedoria

da Torá, Rebetsin Esther Jungreis

recorda-nos os princípios necessários

para viver uma vida melhor e

mais compromissada. Inspirador e

profundamente emocionante,

este livro tocará seu coração.


VISÃO JUDAICA setembro de 2008 Elul / Tishrê 5768 / 5769

Rosh Hashaná e as maçãs

Breno Lerner *

No mês em que celebramos o Ano Novo, uma história

e receitas de maçãs.

Vocês já ouviram falar de Johnny Appleseeds? Não?

Pois assim ficou conhecido John Chapman, um personagem

interessantíssimo da história americana que viveu

no final do século XVIII.

Chapman passou sua vida tentando convencer as pessoas

que frutas, especialmente a maçã, eram essenciais

à saúde, e espalhou mudas de macieiras por todos os Estados

Unidos, ensinando os colonos como plantá-las, colhê-las

e utilizá-las. Não é à toa que os americanos são

os maiores consumidores de maçã in natura do mundo e

criaram frases com "An apple a day keeps the doctor

away" ou "As american as an apple pie" (embora a torta

de maçãs seja uma invenção inglesa, não americana).

Seja como for, neste mês, aqui vão umas receitinhas de

maçãs para manter a tradição de Rosh Hashaná e para

homenagear o aniversário do bom Johnny Appleseeds que

nasceu em 26 de setembro de 1774.

CRUMBLE DE MAÇÃS

Para a cobertura:

½ xícara de bolacha cream

crackers esfarelada;

Para o recheio:

4 maçãs vermelhas sem casca e

sementes, cortadas em fatias finas

(para não escurecer, banhe-as com

1/4 xícara de nozes picadas; suco de limão);

100 g de manteiga;

4 colheres de sopa de vinho branco;

2 colheres de sopa de açúcar; 1 colher de café de cravo em pó;

1 colher de café de canela em pó; 2 colheres de sopa de açúcar.

COMPOTA SEFARADI DE MAÇÃS

3 maçãs vermelhas sem casca e

sementes;

Suco de 1 limão;

2 xícaras de chá de açúcar;

1 xícara de chá de água;

2 cravos;

2 colheres de sopa de água de rosas.

Corte cada maçã ao meio e coloque

num recipiente com água gelada e o

suco de limão.

Faça uma calda rala com as 3 xícaras

de água, os cravos e o açúcar, 10 a

15 minutos de fervura. Seque as maçãs

e cozinhe-as por 20 minutos na

calda ou até amaciar. Adicione a água

de rosas, coloque tudo numa compoteira,

deixe esfriar e sirva.

CARPACCIO DE MAÇÃS

*Breno Lerner é editor e gourmand, especializado em culinária judaica. Escreve para revistas, sites e jornais. Dá

regularmente cursos e workshops. Tem três livros publicados, dois deles sobre culinária judaica.

9

Misture todos os ingredientes

da cobertura até

formar uma pasta. Misture

os ingredientes do recheio

e coloque em uma

assadeira untada. Cubra

com a cobertura, espalhando-a

bem. Asse em

forno alto por 25 minutos.

4 maçãs verdes;

Suco de 1 limão;

1/2 xícara de alcaparras escorridas;

4 colheres de sopa de azeite;

1 pitada de sal;

Pimenta do reino moída na hora à gosto;

Queijo parmesão ralado grosso à gosto.

Descasque as maçãs, retire as sementes sem partilas

ao meio e fatie as maçãs em rodelas finíssimas.

Cubra com o suco de limão e deixe descansar por uns

minutos. Escorra e reserve o suco do limão. Coloque

no liquidificador metade das alcaparras, azeite, sal e

o suco de limão reservado. Bata até dar liga no molho.

Despeje o molho sobre as rodelas de maçã arrumadas

em uma vasilha e polvilhe com a pimenta do

reino, o queijo ralado e enfeite com a metade das

alcaparras que sobrou. Sirva com torradas.


10

* Ana

Jerozolimski é

jornalista e

correspondente

em Israel do

Semanário

Hebreo-

Uruguay.

VISÃO JUDAICA setembro de 2008 Elul / Tishrê 5768 / 5769

"Não há opção de diálogo com o Hamas",

diz o líder do Al-Fatah, Ziad Abu Ein

Em entrevista destaca: "Temos que recuperar o poder pela força porque o Hamas tem a população de refém".

Ana Jerozolimski *

Ziad Abu Ein, vice-ministro da Autoridade

Palestina, encarregado do tema dos presos em

Israel, é um dos líderes da Al Fatah, a facção

central da OLP, encabeçada pelo presidente da

Autoridade Palestina Mahmud Abbas na Cisjordânia.

Ele analisa com preocupação a situação atual e

está certo de que Israel não os ajudará contra o

Hamas. Para ele Israel é culpado da situação. Essa é

a cabeça de um dirigente palestino que mostra o

quão difícil é chegar a paz com eles.

P: Como avalia a situação interna atual

palestina, após os últimos atos de violência

na Faixa de Gaza?

R: Creio que o Hamas escolheu seu caminho:

continuar ocupando a Faixa de

Gaza, usando seu poder militar para tapar

todas as bocas, para impedir que

qualquer outra facção palestina em

Gaza participe da vida palestina. Este

é seu caminho e não me parece que

exista nenhuma opção de diálogo com

o Hamas na Faixa de Gaza. A única opção

é devolver o poder da Autoridade

Palestina pelas armas. Não há possibilidade

de conversar, porque eles não

escutam e têm sua própria agenda, que

não é a agenda nacional palestina.

P: O que você acredita que seja a agenda

do Hamas?

R: O Hamas adota sua própria estratégia.

Querem construir um estado islâmico

na Faixa de Gaza. Não querem que

exista uma Autoridade Palestina unificada

entre a Cisjordânia e a Faixa de

Gaza. Não querem diálogo. Usam sua

força militar contra a população, não

só contra o Fatah, mas contra outras

facções, inclusive a Jihad Islâmica.

Realmente não me parece que exista

opção de diálogo com o Hamas. A única

coisa que pode salvar a situação é

que o mundo ou os países árabes dêem

ao presidente Mahmud Abbas (Abu Mazen)

a possibilidade de recuperar o poder.

É que um milhão e meio de palestinos

que vivem na Faixa de Gaza são

reféns do Hamas e o dever do Presidente

é libertá-los de suas mãos.

P: Mas o tema não é só se haverá legitimidade

internacional para que Abu

Mazen atue pela força contra o Hamas,

porém se a Autoridade Palestina, ou o

Al Fatah, têm o poder de fazê-lo... É

que o Hamas fortaleceu-se mais ainda

em Gaza.

R: O problema agora é que até o momento

não se tomou a decisão política

de dar esse passo. Um dos nossos erros

é que se deixa que o Hamas continue

nos combatendo, sem tomar uma

decisão de fazer algo a respeito. Nós

temos a maioria na Faixa de Gaza. Mais

de 7.500 membros das forças de segurança

em Gaza, recebem salários da Autoridade

Palestina e são de Abbas.

P: O Hamas tem muito mais homens

que isso, e por certo não se poderia dizer

que não há apoio ao Hamas em

Gaza... E não me refiro só aos resultados

das últimas eleições...

R: Temos que recordar o que aconteceu

quando foi o segundo aniversário

da morte de Yasser Arafat, em novembro.

Em sua memória, um milhão de palestinos

saiu ás ruas para dizer: "sim a

Arafat, sim à OLP, não ao Hamas".

P: É verdade. E houve enfrentamentos

violentos.

R: Sem dúvida. O Hamas abriu fogo contra

a população e matou doze palestinos.

Isso significa que a maioria da população

ali não quer o Hamas. Neste

momento, o Hamas é um poder ocupante

em Gaza, que atua contra os interesses

do povo. Por exemplo, o cerco

imposto à Faixa de Gaza, ajuda o Hamas,

convém a ele. Quando não há cerco,

digamos que algo que se venda por

um dólar, agora custa 20. Usam os canais

de contrabando desde o Egito e ganham

assim milhões por dia. Agem

como a máfia na Faixa de Gaza, controlam

tudo, da gasolina até os cigarros,

tomam posse do que querem.

P: Recordemos que tinha gente que lançava

essas acusações também contra

o pessoal do Fatah, quando controlava

ali a Autoridade Palestina...

R: É o Hamas que age contra os interesses

palestinos, pela força. E devese

tomar a decisão de reverter a situação.

E o elemento mais preocupante é

que entre o Hamas e as outras facções,

há "sangue", muitas coisas passaram

e as pessoas, em algum momento, querem

reagir. Isso é o que mais medo dá,

o que pode chegar a ocorrer.

P: Mas por ora, a Autoridade Palestina

não faz nada diz você, não decide

politicamente fazer algo...

R: Nada. E me enoja. Nós somos responsáveis

por todos na Faixa de Gaza,

mas não se tomam medidas. E temo

pensar o que possa acontecer aqui, na

Cisjordânia, se minha vida corre perigo,

se nós aqui vamos ser ameaçados.

Se não podemos ajudar em nada aos

irmãos de Gaza por que aqui seria diferente?

P: E quem é responsável por esta

situação?

R: O Presidente, o Comitê Central da Al

Fatah. E precisam se decidir de uma vez.

As pessoas na Faixa de Gaza nos perguntam

até quando esperaremos, o

que fazer. Dizem-nos: "Não querem que

lutemos, porque não querem violência,

guerra civil. Está bem. Mas têm algum

plano? Virão pelo mar? Do Egito? De

Israel? Tratarão de alguma forma de

reinstaurar o poder legítimo da Autoridade

Palestina em Gaza? Pensam em

falar com o Hamas?". E nós não dizemos

nada.

P: Que tipo de plano você vê para reverter

a situação?

R: O que lhe posso dizer é que Israel

não entrará nunca em Gaza com seus

tanques para fazê-lo, mas que defenderá

com eles o que está acontecendo

em Gaza.

P: Ao que se refere?

R: Israel defenderá o Hamas com seus

tanques, porque se se libertar um milhão

e meio de palestinos que estão em

Gaza, sejam do grupo que sejam, isso

reduz o problema demográfico para Israel.

Asseguro-lhe que Israel defenderá

um Estado do Hamas na Faixa de

Gaza. Não permitirá que os palestinos

fiquem unidos.

P: Não lhe parece realmente exagerado

acusar Israel pelos problemas internos

palestinos?

R: Quando o Hamas contrabandeia armas

à Faixa de Gaza, Israel não o detém,

mas se fosse contra si, o faria...

P: É contra si. Israel vê com grande

preocupação o contrabando de armas

e não depende só de Israel que se detenha

isso, porém, mais que tudo do

Egito.

R: Mas à Autoridade Palestina, Israel

não permitiu ter armas pesadas. E o

problema é que o Hamas as tem.

P: E crê que a Autoridade Palestina

deveria tratar de entrar de novo

em Gaza?

R: Sim, mas com a ajuda do mundo árabe.

Mas creio que Israel não o permitirá.

Não creio que Israel permitirá que

levemos nossas armas para Gaza para

libertar os palestinos que são ali reféns

do Hamas. Nós podemos fazê-lo sozinhos,

mas unicamente se nos permitirem

trazer nossas armas e por isso digo

que é imprescindível ter autorização internacional.

Se tivermos armas pesadas,

a população nos obedecerá. Sem armas

fortes, a luta pode prolongar-se muito

tempo e correrá muito sangue. Não precisamos

de mais sangue em Gaza.

P: No fundo, já há sérios problemas,

mais além da luta pelo poder. Muita

gente morreu no primeiro grande choque

violento, há mais de um ano, quando

o Hamas tomou o poder em Gaza e

isso deixa aberto o desejo de vingança

em diferentes níveis.

R: Claro que sim. Há uma quebra, uma

fratura na sociedade. Isso é algo muito

profundo e muito sério. Precisamos de

uma liderança forte para acabar com

isto.

P: E a única opção é tratar de libertar

Gaza do Hamas pela força?

R: Sim, não há nenhuma opção de diálogo

com o Hamas. Em sua mentalidade

religiosa, o Hamas não pode aceitar

outros diferentes do Hamas. Crêem

que os não religiosos devem ir ao inferno,

devem ser mortos. É uma forma

de pensar. Se esse pensamento não

muda, não haverá nenhuma oportunidade

de fazer nada. Tampouco em outras

partes do mundo árabe, onde há

outros grupos fundamentalistas, como

a Irmandade Muçulmana.

P: No sábado, Israel permitiu a entrada

de numerosos palestinos do clã de

Ahmed Hiles, identificados com o Al-

Fatah, que fugiram de Gaza após ser

atacados pelo Hamas. Alguns foram

hospitalizados em Israel e outros foram

detidos até que se esclarecesse sua situação.

Finalmente passaram para Jericó

Quem são?

R: Só homens do clã Hiles. As mulheres

ficaram em Gaza. Mas a intenção é organizar-se

de modo que possam passar

para Ramallah, onde está a sede

do governo palestino.

P: Há dúvidas sobre essas pessoas. Em

Israel se diz que de fato, Ahmed Hiles,

o chefe do clã, tinha relações ambivalentes

com o Hamas...

R: É verdade. Ele é amigo pessoal de Al-

Jaabari, o chefe dos batalhões Izz al Din

al-Qassam, o braço armado do Hamas.

P: É verdade que ele não lutou contra

o golpe do Hamas há mais de um ano?

R: É verdade.

P: E para que tinha então tantas armas

em sua casa?

R: É que assim é em Gaza. Esse é o problema.

Ele tinha muitas diferenças com

o pessoal de Muhamad Dahlan.

P: Que também é do Fatah... era ele

chefe da Segurança já nos tempos de

Arafat. Ou seja que a guerra não é só

entre o Hamas e o Fatah...

R: É correto, há muitos problemas...

Mas agora, o urgente, é pôr fim à ocupação

do Hamas em Gaza.


O laudo Olmert -

La Stampa

Riccardo Barenghi *

Sinto-me orgulhoso de ser um cidadão de um país que

permite que a polícia investigue o seu premiê, que não

está acima da lei, mas até mesmo abaixo dela. Ler estas

palavras dá disposição para avançar neste país (Itália), onde

as coisas não vão tão bem, a ponto de um chefe do governo

não só não apreciar suspeitas de que seja investigado,

e retirar dos juízes que apuraram a verdade, a permissão

para isso, como esta ser sua melhor forma de defesa. O país

chamado Israel certamente não vive uma vida fácil, pois

nasceu há sessenta anos.

Nem ele, nem os palestinos que vivem lá puderam encontrar

a paz, e nem convivem em paz com os países árabes

que circundam esse país, mas alguns não permanecem calados.

Estamos falando de um país onde a guerra é a ordem do

dia na verdadeira acepção da palavra - e vamos deixar aqui os

motivos e as injustiças - uma guerra que às vezes é sofrida e,

por vezes, abalada por parte de Israel, e que, no entanto causam

mortes, feridos, destruição. Uma guerra em casa, em

suma, na qual, quando alguém dobra uma esquina tem sempre

a sensação de que algo possa vir acontecer, uma bomba,

um suicida-bomba, um ataque.

Ora, num país desse tipo acontece que a democracia é

tão enraizada e forte, que a suspeita de um primeiro-ministro

demissionário é sem dramas, abrindo caminho para a

sucessão e novas eleições. Nós não somos israelenses, felizmente

não temos guerra em casa, não devemos temer

porque o Irã pretende destruir-nos ou o Hezbolá libanês

dispare contra nós seus foguetes, não temos tanques nas

ruas, não temos inimigos internos ou homens-bombas externos.

Vivemos em paz. Mas nós nunca tivemos um presidente

do Conselho com funções cessadas por suspeita - atenção,

tivemos apenas suspeitos condenados - por parte do

poder judicial. Imagine você, leitor, se Berlusconi ou Prodi,

tal como fez Olmert, convocassem uma entrevista coletiva

de imprensa para dizer: "Sinto-me orgulhoso de ser um cidadão

de um país que permite que a polícia investigue o

seu premiê..."?

O nosso estilo é outro, desdenho e rejeição das acusações

(e até agora essa reação é sagrada, muitas vezes, as

denúncias são infundadas), ao invés de serem comunicadas

as partes, são acusados os magistrdos de serem politizados,

para investigar criam-se comissões de nome diversos por

opositores políticos, ou talvez abram-se contra eles um bom

processo disciplinar do qual resulte a transferência para a

incompatibilidade do ambiente. Há até mesmo o caminho

da demissão: "resistir, resistir, resistir. E, no fim, se você

fizer o mal, aqui vai um belo prêmio Alfano que garante

imunidade e boa vida para os jogadores.

Arriscando uma comparação incorreta e até mesmo ofensiva

para israelenses e palestinos, dizemos que também nós

somos uma nação em guerra. Uma guerra que felizmente

não está causando mortes (exceto aqueles que tenham cometido

suicídio na prisão do julgamento do magistrado Di

Pietro), mas envenena o ar da política e da sociedade civil,

liquida carreiras e cria outras. A guerra começou há quinze

anos e foi essencial para a descoberta do gigantesco pote

da corrupção na política e na indústria, mas somos incapazes

de ver sua conclusão. Isso poderia ocorrer apenas em

um caso: é claro excluindo a hipótese de que a partir de

hoje em diante todos os homens honestos tornaram-se probos.

Isto quer dizer que os políticos estão começando a confiar

nos juízes e promotores, mesmo quando eles estejam

sob investigação por qualquer coisa, mas investigar um político

pode ser para aparecer em cena.

Esse tipo de resultado porém muito improvável, portanto,

é bem provável que talvez tenhamos primeiro que esperar

que os israelenses e os palestinos façam a paz.

* Riccardo Barenghi é editorialista do jornal La Stampa,

de Turim, Itália

Jonathan Sacks *

29/9 - Véspera de Rosh Hashaná -

acendimento das velas 17h55

30/9 - 1º dia de Rosh Hashaná -

acendimento das velas 18h50

31/9 - 2º dia de Rosh Hashaná

xistem momentos em

que o significado de uma

antiga metáfora toma

uma nova dimensão. Isso

é o que aconteceu este

ano. Durante séculos, talvez

milênios, nesta época entre Rosh

Hashaná e Iom Kipur nossos ancestrais

falaram sobre o "Livro da Vida" e

rezaram para ser inscritos nele. Não é

por acaso que quando os judeus falavam

a respeito da vida pensavam sobre

um livro. Outras religiões encontram

santidade em outras coisas - pessoas,

locais, ícones, objetos. Mas a santidade

judaica existe, acima de tudo,

na linguagem. Com palavras, D-us

criou o mundo. Através de palavras,

Ele revelou-Se no Sinai. Através das

palavras, D-us e o povo judeu conectam-se

um ao outro no grande pacto

de amor e redenção. Quando D-us

compôs a Torá, dizem os rabinos, Ele

escreveu-a com letras de fogo negro

sobre fogo branco. Para nós letras, palavras,

frases, livros foram o meio no

qual o mistério da vida foi codificado.

Sabemos agora que isso foi mais que

uma intuição espiritual. É um fato

científico. A decodificação do genoma

humano é um dos notáveis avanços da

ciência. Quarenta e sete anos depois

que Francis Crick e James Watson descobriram

a dupla hélice do DNA, o roteiro

completo do genoma humano foi

transcrito. Ocorre que este é um roteiro

de enorme comprimento e complexidade,

escrito nas quatro letras

que formam o código genético. O expresidente

Clinton chamou-o de linguagem

da criação. Os cientistas simplesmente

declaram: Estamos aprendendo,

dizem eles, a ler o livro da vida.

As conexões entre o genoma humano

e Rosh Hashaná vão mais além - e isso

não é surpresa, porque ambos tratam

dos fundamentos da própria vida. O

primeiro está ao nível da criação. Dizemos

em nossas preces: "hayom haras

olam", "hoje nasceu o universo".

Rosh Hashaná é o aniversário da criação.

Alguns sábios acreditavam que

este foi o dia no qual D-us fez o homem.

Mais do que qualquer geração

anterior sabemos agora a total extensão

e complexidade destes mundos

macro e microscópicos. Contemplando

o espaço exterior, por meio de instrumentos

como o telescópio espacial

Hubble, descobrimos um universo de

um bilhão de galáxias, cada qual com

um bilhão de estrelas. Olhando para o

"pequeno universo" (olam catan), ou

seja, nós, descobrimos que o corpo

humano contém um trilhão de células.

Cada célula contém um núcleo, e

VISÃO JUDAICA setembro de 2008 Elul / Tishrê 5768 / 5769

O Livro da Vida

cada núcleo dois conjuntos do genoma

humano. Cada genoma consiste de

aproximadamente 3,1 bilhões de letras,

informação suficiente para preencher

uma biblioteca de cinco mil livros.

A mente oscila perante tal complexidade

microscópica. Dentro de

uma única célula de tecido vivo a

ciência mapeou um mundo novo, até

agora desconhecido. Da astrofísica até

a microbiologia, os cientistas de hoje

cada vez mais expressam um sentimento

de reverência pela perfeita sintonia

do universo e a pura improbabilidade

de que a vida, com sua complexidade

auto-organizadora tenha emergido

por mero acaso. O físico de Harvard,

Freeman Dyson, escreve: "Quanto

mais eu examino o universo e os

detalhes de sua arquitetura, mais evidências

encontro de que o universo,

de alguma forma, deve ter sabido que

estávamos chegando". Isso é um eco

daquilo que Maimônides escreveu

há mais de oito séculos (Hilkhot Yesodei

haTorah 2:2) quando afirmou

que o caminho para o amor e temor

a D-us é contemplar a maravilha e a

sabedoria da criação.

Há uma outra conexão entre a

ciência e os Dias de Reverência, mas

desta vez menos direta. No decorrer

do Projeto Genoma, foram feitas alegações

de que estamos no limiar de

descobrir a base genética do comportamento

humano. Os médicos há muito

sabem que determinadas doenças

são hereditárias. Maimônides, por

exemplo, sabia que a asma é transmitida

dentro das famílias. Assim também,

debate-se atualmente, são os

traços da personalidade como agressividade,

depressão, até a propensão

ao crime. A partir daí é um curto passo,

porém enganoso, para o determinismo

genético - à idéia de que não

podemos evitar aquilo que somos.

Nosso destino está escrito em nossos

genes. O judaísmo rejeita esta idéia,

ainda mais enfaticamente em Rosh

Hashaná e Iom Kipur. Existe um componente

genético no comportamento.

Maimônides (Hilkhot Deot 1:2)

descreve as várias influências sobre o

caráter. Algumas são genéticas (lefi

teva gufo). Outras têm a ver com a criação,

ambiente e cultura. É isso que

queremos dizer em Iom Kipur, que

somos "ke-chomer beyad hayotser",

"como argila nas mãos do ceramista".

Somos moldados por influências

além de nosso controle. Mas - e isso é

um 'mas' fundamental - jamais perdemos

nossa liberdade. Somos aquilo

que escolhemos ser. Às vezes, fazer a

coisa certa é uma grande luta. A inclinação

para agir de forma diferente

pode ser quase avassaladora, mas

nunca de forma completa. Nenhuma

religião tem se afirmado mais sistematicamente

sobre a liberdade e responsabilidade

humanas. É isso que

nos faz "à imagem de D-us". O escritor

11

Prêmio Nobel Isaac Bashevis Singer

declarou isso muito bem e espirituosamente:

"Temos de acreditar no livre

arbítrio. Não temos escolha!" Nosso

encontro mais profundo com a liberdade

está na experiência de teshuvá.

O completo arrependimento, diz

Maimônides, é quando nos encontramos

exatamente na mesma situação

de quando cometemos um pecado,

mas dessa vez não o repetimos. Todos

os fatores são os mesmos exceto um -

nossa decisão. No âmago da teshuvá

está a idéia de que as circunstâncias

não determinam aquilo que fazemos.

Podemos agir de forma diferente da

próxima vez. Podemos mudar. E se podemos

mudar, não estamos determinados

por nossa dotação genética ou

por qualquer outro fator que não seja

a nossa vontade. Não se pode enfatizar

demais a importância dessa idéia.

Isso significa que na situação humana

nenhuma sina é definitiva, nenhum

destino inevitável. Eis por que o

judaísmo é o supremo argumento para

a esperança. Os grandes vultos de nossa

história foram todos capazes de

mudar. Nas páginas da Torá, vemos

Yossef transformado de um jovem sonhador

em um decidido homem de

ação. Moshê, gago, transforma-se no

mais eloqüente dos profetas. Ruth, a

estranha moabita, torna-se a notável

bisavó do maior Rei de Israel. Esther,

que se considerava incapaz de ajudar,

transforma-se na salvação de seu

povo. Nosso destino não está escrito

em nossos genes. Nossas decisões

são mais que impulsos eletroquímicos

no cérebro. Podemos ser pó da terra,

mas dentro de nós está o sopro de D-us.

A liberdade, porém, nunca é fácil. Precisamos

de ajuda para ser aquilo que

podemos nos tornar. Precisamos de

um código moral para nos lembrar o

que é certo e o que é errado. Precisamos

do apoio da família e da comunidade.

Precisamos de rituais para praticarmos

a coreografia da virtude. Precisamos

de histórias de vidas exemplares

através das quais ampliemos

nossas aspirações. Precisamos de um

senso de distância entre nós e a cultura

à nossa volta, para que não sejamos

levados pela maré. Isso é o que o

judaísmo nos dá e tem dado desde os

dias de Avraham e Sarah. É uma disciplina

apoiada na liberdade. E o mais

importante de tudo - mais importante

até que nossa fé em D-us - é a fé de

D-us em nós, acreditando em nós quando

perdemos a fé em nós mesmos, erguendo-nos

quando caímos, perdoando-nos

quando erramos, dando-nos a

força para assumir riscos e a coragem

para mudar. Existem dois livros da vida.

Um é o genoma humano; o outro é a

história humana. D-us pode ter escrito

o primeiro, mas Ele nos convida a sermos

os co-autores do segundo - porque

se podemos mudar a nós mesmos,

podemos mudar o mundo.

* Jonathan Sacks é professor e rabino-chefe da Inglaterra. (/www.chiefrabbi.org/thoughts/rh2.html) Publicado em

português em www.chabad.org.br


12

VISÃO JUDAICA setembro de 2008 Elul / Tishrê 5768 / 5769

Paradoxos de Oskar

Schindler lembrados

em seu centenário

O destino do empresário alemão Oskar

Schindler, cujo centenário ocorreu há

pouco, é provavelmente um dos mais

paradoxais da história da Alemanha,

onde foi esquecido durante muito

tempo depois de ter salvo centenas de

judeus durante o III Reich.

Michael Latz *

chindler teve seu nome imortalizado

no filme de Steven

Spielberg, "A Lista de Schindler",

mas antes disso, durante

muito tempo, sua história

tendeu ao desaparecimento

da memória coletiva alemã, por figurar

como um personagem incômodo.

O industrial entrou para a história

- graças, em boa parte, ao filme

de Spielberg - como um homem que

burlou os nazistas e conseguiu salvar

da morte pessoas que estavam

sendo envidas às câmaras de gás.

Essa fama lhe rendeu o título de

"justo entre os povos", concedido

pelo Estado de Israel, em 1967.

O fato, no entanto, faz pensar que

Schindler era um opositor do nazismo

o que significa que o fim da guerra

deveria lhe ter aberto melhores

perspectivas de vida.

No entanto, sua biografia mostra

uma imagem completamente

oposta.

Schindler foi um homem de sucesso

durante o III Reich, graças em

parte ao seu oportunismo, enquanto

após a guerra só colheu fracassos,

até a sua morte, na pobreza.

Entre os atos organizados na

Alemanha para o centenário de

Schindler, está a exposição no

Museu Judeu de Frankfurt que explora

exatamente as razões desse

esquecimento.

Depois da guerra, Schindler foi

para a Argentina de onde retornou em

1957, sem sua esposa, Emilia, e viu

fracassada sua tentativa de montar

uma fábrica na localidade de Hanau,

próxima de Frankfurt.

Sua situação se tornou tão precária

que foram praticamente os judeus

salvos por ele durante o III Reich,

que garantiram seu sustento.

"Sua história desaparecia várias

vezes porque era incômoda demais

para a sociedade alemã do pós-guerra

na qual havia muitos cúmplices

dos nazistas", disse Fritz Backhaus,

do Museu Judeu.

"A história de Schindler mostrava

que havia outras possibilidades

de comportamento na época dos nazistas",

acrescentou.

Morte Morte e e homenagem

homenagem

Os últimos anos de Schindler foram

marcados pela pobreza. O industrial

passou a viver em um modesto

apartamento de um quarto,

próximo da estação central de

Frankfurt, e se afundou cada vez

mais no alcoolismo.

Schindler morreu em 1974 na

casa de amigos na cidade de Hildesheim

e seu único legado foi uma

mala na qual cabiam todos os seus

pertences e onde estava a famosa

lista com os nomes dos judeus que

havia salvado.

O corpo de Schindler foi transportado

a Jerusalém, onde foi enterrado

em um cemitério católico.

Apesar de outras homenagens,

como a da Cruz Federal de Mérito em

1965, sua história sempre tendia ao

desaparecimento cada vez que tentavam

recordá-la.

Agora, além da exposição de

Frankfurt, foi produzido um selo dos

correios - em comemoração ao centenário

- que lembra sua história.

Um canal de televisão, além disso,

exibiu "A Lista de Schindler", e os

jornais do dia lembraram o controverso

empresário.

Esquecimento

Esquecimento

O esquecimento destinado a

Schindler durante muitos anos não

ocorreu apenas na Alemanha. Nem

na cidade tcheca Svitany, onde nasceu;

nem na polonesa Cracóvia, onde

teve sua primeira fábrica, utilizada

para salvar judeus da morte certa,

recebeu comemoração especial.

Svitany dedicou a ele um pequeno

museu, porém negou o título de

cidadão honorário póstumo. E na Cracóvia

não existe uma única rua que

lembre seu nome nem uma exposição

permanente sobre sua vida.

Na República Tcheca, Schindler

tende a ser visto como um alemão

que colaborou com os nazistas. E na

Polônia, segundo o jornal Gazeta Wyborcza,

teme-se que possíveis homenagens

obscureçam o que foi feito

por alguns poloneses que também

salvaram vidas.

* Michael Latz é jornalista da Associated Press e da Agência Efe, em Berlim

Biologia ao contrário

Véspera de Iom Kipur 8/10 - acendimento das velas 17h59

E este será um estatuto perpétuo

para vós; no sétimo mês, no dia dez,

afligireis vossas almas… Vayicrá 16:29

No Mundo Vindouro, não há comida

nem bebida… Talmud, Berachot

O ser humano consiste de um corpo e

uma alma - um invólucro físico de carne,

sangue, nervos e osso, habitado e vitalizado

por uma força espiritual descrita pelos

mestres chassídicos como "literalmente

uma parte do D-us acima".

A sabedoria comum afirma que o espírito

é mais elevado que a matéria, e a alma

mais sagrada (i.e., mais próxima do Divino)

que o corpo. Esta concepção parece se

originar no fato de que Iom Kipur, o mais

sagrado dia do ano - no qual atingimos a

altura da intimidade com D-us - é ordenado

pela Torá como um dia de jejum, um

dia no qual aparentemente abandonamos

o corpo e suas necessidades para nos devotar

exclusivamente a atividades espirituais

de arrependimento e prece.

Na verdade, no entanto, um dia de jejum

traz um relacionamento mais profundo,

e não mais distante, com o corpo.

Quando uma pessoa se alimenta, é nutrida

pela comida e bebida que ingere. Num

dia de jejum, a vitalidade vem do próprio

corpo - da energia armazenada em suas

células. Em outras palavras, nos dias menos

sagrados, é uma força externa (a energia

na comida e bebida ingeridas) que

mantém o corpo e a alma juntos; em Iom

Kipur, a união do corpo e da alma deriva

do corpo em si.

Iom Kipur, assim, oferece um sabor do

estado culminante da criação conhecido

como o "Mundo Vindouro". O Talmud nos

diz que no Mundo Vindouro, "não há comida

nem bebida", uma declaração que às

vezes é entendida como implicando que

em seu estado supremo e mais perfeito, a

criação é inteiramente espiritual, destituída

de corpos e de tudo que é físico. O ensinamento

cabalista e chassídico, no entanto,

descreve o Mundo Vindouro como um

mundo no qual a dimensão física da existência

não é abolida, mas preservada e elevada.

O fato de "não haver comida nem

bebida" no Mundo Vindouro não é devido

a uma ausência de corpos e vida física, mas

ao fato de que neste mundo futuro, "a alma

será nutrida pelo corpo" em si, e a simbiose

de matéria e espírito que é o homem

não exigirá quaisquer fontes externas de

nutrição para sustentá-lo.

Dois Dois veículos

veículos

O físico e o espiritual são ambos criações

de D-us. Ambos vieram a existir por

Ele, a partir do nada, e cada qual leva a

marca de seu Criador nas qualidades específicas

que o definem.

O espiritual, com sua abstração e sua

transcendência de tempo e espaço, refle-

te o sublime e a infinidade de D-us. O espiritual

é também naturalmente submisso,

reconhecendo prontamente sua subserviência

a uma verdade mais elevada.

São estas qualidades que tornam o espiritual

"sagrado" e um veículo de relacionamento

com D-us.

Por outro lado, o físico é concreto, egocêntrico

e imanente - qualidades que o tornam

"mundano" em vez de sagrado, que o

marcam como um ofuscamento, em vez de

uma manifestação, da verdade Divina. Pois

o inequívoco "Eu sou" do físico desmente

a verdade de que "não há ninguém mais

além d'Ele" - que D-us é a única fonte e

fim de toda a existência.

Em última análise, no entanto, tudo

vem de D-us; cada aspecto de toda criação

Sua tem sua fonte n'Ele e serve para

revelar Sua verdade. Portanto, num nível

mais profundo, as próprias qualidades que

tornam o físico "profano" são as qualidades

que o tornam a mais sagrada e Divina

das criações de D-us. Pois o que é o "Eu

sou" do físico, se não um eco do ser inequívoco

de D-us? Qual é a tangibilidade

do físico se não uma intimação do absoluto

de Sua realidade? O que é o "egoísmo"

do físico se não um desdobramento,

embora remoto, da exclusividade de

D-us expressa no axioma: "Não há ninguém

mais além d'Ele?"

Atualmente, o mundo físico nos mostra

apenas sua face superficial, na qual as

características Divinas estampadas nele

são corrompidas como uma ocultação em

vez de uma revelação, da Divindade. Hoje,

quando o objeto físico nos transmite "Eu

sou", expressa não a realidade de D-us,

mas uma existência independente, autosuficiente,

que desafia a verdade Divina.

Porém no Mundo Vindouro, o produto do

trabalho de uma centena de gerações para

santificar o mundo material, a verdadeira

face do físico, virá à luz.

No Mundo Vindouro, o físico será nada

menos que um veículo de Divindade para

o espiritual. De fato, em muitos aspectos,

superará o espiritual como um transmissor

da Divindade. Pois enquanto o espiritual

expressa várias características Divinas

- a infinidade, transcendência de D-us, etc.

- o físico expressa o ser de D-us.

Hoje, o corpo deve olhar para a alma

como seu guia moral, como sua fonte de

conscientização e apreciação de todas as

coisas Divinas. Porém no Mundo Vindouro

"a alma será nutrida pelo corpo". O corpo

físico será uma fonte de Divina percepção

e identificação mais elevada que a própria

visão espiritual da alma.

Iom Kipur é um sabor deste mundo

futuro de biologia ao contrário. É, portanto

um dia no qual "somos sustentados

pela fome", extraindo nosso sustento

do próprio corpo. No mais sagrado dos

dias, o corpo se torna uma fonte de vida

e nutrição, em vez de seu receptáculo.

(www.chabad.org.br).


eituras e cantos se sucedem,

formando uma leve cacofonia.

Ouve-se a batida da porta da

sinagoga, ao sabor das entradas

e saídas das crianças. Do

lado das mulheres, à esquerda, ouvem-se

sussurros animadíssimos entre

duas recitações murmuradas. Do

lado dos homens, à direita, sorrisos e

saudações com as mãos são trocados

na menor oportunidade.

Então, chega o momento em que

duas poltronas são instaladas uma na

frente da outra, diante do estrado central.

A assembléia inteira se mantém

em silêncio. O bebê é colocado na

posição sentada, sobre os joelhos de

seu pai. Não longe deles, o mohel (que

pratica a circuncisão) prepara os seus

acessórios: uma faca, um frasco e pedaços

de algodão. A multidão aglutina-se

em volta deles. Armado de uma

pequena faca de dois gumes, o mohel

se debruça sobre o sexo do recém-nascido,

enquanto um homem, em pé, enxuga

a testa suada do jovem pai, que

está ocupado a controlar as gesticulações

do seu filho. Câmeras de vídeo

e de telefones celulares são erguidas

em direção à cena.

Alguns minutos mais tarde, em

meio aos gritinhos estridentes das mulheres,

o bebê aparece acima da platéia,

carregado pelos braços erguidos

do seu pai. Os cantos em hebraico ressoam

sob o teto alto da sinagoga.

Numa sala contígua, um aparador está

repleto de ensopados, de saladas e de

peixes grelhados. E o pai, em meio aos

seus comensais, serve a quem quiser

fartas doses de uísque e de vodca!

Discurso Discurso contra contra Israel

Israel

Esta cerimônia de circuncisão

está sendo realizada na grande sinagoga

Yusef Abad, em pleno centro de

Teerã, a capital da anti-sionista República

Islâmica do Irã. É difícil imaginar

que este lugar, que mais se parece

com um prédio administrativo,

situado no coração de um bairro residencial,

acolhe toda semana centenas

de judeus de Teerã.

Afinal, a alguns quarteirões de lá,

sobre os muros da capital, todos podem

ler slogans arrasadores tais

como "Down with Israel" ("Vamos

acabar com Israel"). Disseminado no

Irã desde a revolução islâmica de

1979, o discurso antiisraelense tem

se mostrado ainda mais insistente

agora que Mahmoud Ahmadinejad

ascendeu à presidência do país. Em

outubro de 2005, alguns meses depois

da sua eleição, retomando declarações

feitas pelo aiatolá Khomeini,

Ahmadinejad conclamou a "riscar

do mapa o Estado de Israel", que ele

comparou com um "tumor".

Algumas semanas mais tarde, ele

afirmou que os ocidentais "inventaram

o mito do massacre dos judeus". Então,

o regime dos mulás organizou um

concurso "internacional" de caricaturas

sobre o tema da Shoá. Mais tarde,

nos dias 11 e 12 de dezembro de 2006,

o mundo inteiro assistiu, incrédulo, a

uma enésima provocação da presidência

iraniana: a organização em

Teerã de uma conferência sobre o Holocausto,

para a qual havia sido convidada

a quase-totalidade dos negacionistas

(pessoas que questionam a

veracidade de fatos históricos como

este) do planeta.

Durante dois dias, eles se dedicaram

a questionar as provas do genocídio

dos judeus pela Alemanha nazista

e a fazer do sionismo o produto

de uma gigantesca impostura. Desde

então, não se passa um mês sequer

sem que declarações de um gosto duvidoso

venham ilustrar a nova estratégia

iraniana de demonização dos

judeus e de Israel.

Contudo, a comunidade judaica

iraniana, que inclui cerca de 30 mil

membros, é a mais importante do

Oriente Médio - fora do Estado hebraico.

Com mais de 2.700 anos de

existência, ela é também a mais antiga

diáspora judaica viva do mundo.

Assim como acontece na maior parte

dos países muçulmanos, ela compartilha

com a comunidade cristã o estatuto

de minoria protegida (dhimmis),

reservado aos fiéis que acreditam

no Livro Sagrado.

Reconhecidos como integrantes

de uma minoria religiosa, os judeus estão

livres para praticarem seu culto

nas suas sinagogas, para celebrarem

seus casamentos, etc. Mas eles não

gozam dos mesmos direitos que os

muçulmanos (entre outros, os que dizem

respeito aos direitos de herança)

e não podem aceder a empregos nas

altas esferas da administração pública

ou no exército.

Açougues Açougues kosher

kosher

"Nós praticamos a nossa religião

em toda serenidade e nada nos falta",

declara Farhad Aframian, o jovem redator-chefe

da revista judaica "Ofogh-

Bina". "Nós temos cerca de vinte sinagogas

em Teerã, além de escolas

judaicas, de creches para as nossas

crianças mais novas, de alguns açougues

kosher (em conformidade com os

preceitos judaicos), do nosso próprio

VISÃO JUDAICA setembro de 2008 Elul / Tishrê 5768 / 5769

Como é ser judeu no Irã

Lucie Geffroy *

Na república islâmica do presidente

Mahmoud Ahmadinejad, vivem

atualmente cerca de 30 mil judeus. Esta

comunidade, que goza da liberdade de

culto é até mesmo representada no

Parlamento - por um único deputado.

* Lucie Geffroy é

jornalista e enviada

especial ao Irã. Artigo

publicado no jornal

francês Le Monde em

22/2/2008. Tradução:

Jean-Yves de

Neufville.

hospital, etc. No interior das nossas

sinagogas, as pessoas fazem o que

querem. O governo não nos incomoda.

Nós temos até mesmo o direito de

consumir álcool para as necessidades

das nossas cerimônias!".

Nas ruas de Teerã, o visitante se

depara muito raramente com judeus

trajando um solidéu. A maior parte

dentre eles o usa pouco antes de entrar

na sinagoga. Além disso, as mulheres

judias, mesmo se elas se diferenciam

geralmente por meio de roupas

sedosas e coloridas, respeitam

estritamente o código relativo ao vestuário

que é imposto pela lei islâmica,

trajando o lenço e o "mantô" que

esconde as formas femininas. Será

este um sinal de desconfiança?

"Nós não queremos chamar as

atenções sobre nós. Nós sabemos que

a nossa discrição é uma condição para

a nossa relativa liberdade", responde

Arash Abaie, 36 anos, um professor de

religião judaica, dono de uma editora

de livros em hebraico e leitor na sinagoga

Yusef Abad. Em sua opinião, não

há nenhuma contradição importante

no fato de ser judeu em terra de Islã.

"Não existem guetos ou bairros exclusivamente

judeus no Irã. Nós estamos

integrados e não sentimos hostilidade

alguma por parte dos nossos compatriotas",

prossegue. "É importante

saber também que nós, judeus do Irã,

nos definimos em primeiro lugar e acima

de tudo como iranianos".

Contudo, é difícil imaginar, ainda

assim, que as declarações negacionistas

e as múltiplas provocações do presidente

Ahmadinejad possam ter deixado

os judeus iranianos indiferentes.

Por intermédio do porta-voz Moris

Motamed, o seu único representante

no Parlamento, a comunidade judaica

condenou oficialmente essas afirmações.

Quando Mahmoud Ahmadinejad

questionou a existência do Holocausto,

dois anos atrás, o deputado organizou

uma coletiva de imprensa para

protestar publicamente contra essas

declarações.

Na ocasião, ele afirmou que o Holocausto

é um fato histórico verídico

e que todo questionamento desta tragédia

humana constitui um insulto

para todos os judeus do mundo. Entretanto,

para Moris Motamed, estas

provocações não representam uma

ameaça direta para com a comunidade.

"Ahmadinejad nada mais faz do

que retomar o discurso dos seus predecessores.

Logo nos dias que se seguiram

à revolução, Khomeini fez explicitamente

a distinção entre os sionistas

e os judeus, dizendo: 'Nós respeitamos

o judaísmo, mas nós desprezamos

o sionismo'. Os slogans que

nós ouvimos ainda atualmente têm

como alvo Israel na sua condição de

potência ocupante. Eles não são antisemitas

e não nos alvejam. Esta di-

13

ferenciação é fundamental para nós",

clama Moris Motamed.

Ele não esconde que já lhe ocorreu

em várias oportunidades de

apoiar publicamente o povo palestino,

quando ele considera isso necessário.

Além disso, a Associação Judaica

de Teerã, conforme ela mesma

lembra no seu panfleto de apresentação,

andou protestando regularmente

contra "os crimes do regime

israelense e as violações dos direitos

humanos para com os palestinos".

Distanciamento

Distanciamento

Contudo, não é menos verdadeiro

que havia evidentemente uma segunda

intenção anti-semita no fato de organizar

um concurso de caricaturas

sobre o tema da Shoá ou na negação

do Holocausto. "Nós não somos ingênuos.

As provocações de Ahmadinejad

visam a justificar a designação de Israel

como inimigo externo. Isso lhe

permite desviar as atenções das pessoas

em relação aos problemas internos",

analisa o deputado, impassível.

Esta luta contra o "regime sionista

usurpador", que constitui a pedra angular

da política externa do país, é

também uma maneira de atrair para

si as simpatias dos países árabes da

região, com o objetivo de fazer do Irã

a maior potência do Oriente Médio.

As declarações presidenciais tampouco

comovem a população além do

normal. Moses, 51 anos, que trabalha

como gerente de uma loja de têxteis

prefere levar isso na brincadeira. "O

que vocês querem? Deixem-no falar!

Ele é um ditador. Ele é louco. Todo

mundo sabe disso. Para nós, o que ele

pode vir a dizer não muda nada". "Já

faz muitos anos que nós ouvimos os

mesmos discursos; a gente nem presta

mais atenção ao que eles dizem.

Isso faz parte do cenário", comenta

Robin, um estudante de inglês. Este

distanciamento pode ser explicado,

segundo Arash, pelo pouco interesse

que suscitam estas questões específicas.

"Os judeus do Irã não costumam

se meter a fazer política. Aqui, é muito

difícil encontrar livros a respeito da

história do Holocausto. De tal forma

que até mesmo os judeus iranianos não

têm uma grande consciência da Shoá.

Esta tragédia não os diz respeito pessoalmente".

O Iom HaShoá, que relembra

o Holocausto, é um dos poucos

eventos do calendário hebraico que

não são celebradas no Irã.

A necessidade (ou a obrigação)

que os seus membros têm de se integrarem

juntos é uma característica

desta comunidade. Em todo caso, este

é um dos objetivos reivindicados pela

Organização das Mulheres Judias, fundada

já faz sessenta anos, que é a

mais antiga associação judaica do Irã.

continua na próxima página


14

VISÃO JUDAICA setembro de 2008 Elul / Tishrê 5768 / 5769

"Nós organizamos regularmente

concertos, e ainda conferências abertas

para todas as confissões, de modo

a incentivar os intercâmbios com uma

maioria de pessoas", sublinha Marjan

Yashayayi, que é membro ativa da organização

e diretora da biblioteca da

Associação Judaica de Teerã. "E nós

temos muito orgulho por constatar que

há muito mais universitários muçulmanos

do que judeus que vêm consultar

e emprestar os nossos livros sobre a

religião e a cultura hebraicas".

Da mesma forma, apesar da existência

de escolas judaicas, muitas são

as famílias que preferem inscrever os

seus filhos nas escolas muçulmanas,

de maneira que eles possam se integrar

melhor e aprender as bases do

Islã. Tanto mais que no concurso de

entrada na universidade, cada aluno,

qualquer que seja a sua confissão,

deve passar uma prova de "ciências

Orações numa sinagoga em Teerã. Homens separados das mulheres

Professor judeu iraniano ensina hebraico em escola da comunidade

Acendimento das velas de shabat por meninas judias iranianas: tradições

mantidas, em parte

islâmicas". Portanto, para não ficar a

ver navios na hora de responder a uma

pergunta sobre a data da morte do

sétimo imã, mais vale ter freqüentado

um colégio muçulmano.

Contudo, à medida que a conversa

se estende, os judeus iranianos

que encontramos se arriscam a queixas.

"Não é tão fácil assim ser judeu

no Irã", afirma Esther. "A minha irmã

era chefe de equipe numa companhia

farmacêutica de mais de 200 empregados.

Ela estava prestes a se tornar

gerente - todos os funcionários

estavam de acordo com isso. No último

momento, a diretoria lhe enviou

uma nota explicando que se ela quisesse

o cargo, ela teria de se converter

à religião muçulmana. Uma

vez que ela recusou, eles lhe pediram

para se demitir".

Vínculos Vínculos econômicos

econômicos

Daniela, 13 anos, freqüenta um colégio

muçulmano. Ela explica, por sua

vez, que de vez em quando, certos alunos

a chamam de "inimiga. "É verdade

que em certos casos nossa religião

constitui um obstáculo. Mas, o nosso

destino é muito mais invejável que o

dos bahaï's, por exemplo", reconhece

Marjan, fazendo referência aos 350

mil seguidores da fé bahai uma dissidência

do Islã que surgiu no século 19.

"A situação dos judeus do Irã não é

pior que a de outras minorias", confirma

Parvaneh Vahidmanesh, que está

preparando um doutorado e um livro

sobre a história dos judeus no Irã.

"Uma minoria perseguida, os

bahai's são proibidos de celebrarem

o seu culto. Os judeus, que geralmente

são comerciantes, engenheiros

ou médicos, gozam de mais poderes

e de riquezas do que os cristãos

e os zoroastristas. Eles têm a

sorte de terem desenvolvido vínculos

econômicos com os muçulmanos

e de contarem com ajudas da diáspora

americana e israelense".

Proibido Proibido viajar viajar para para Israel

Israel

Apesar da ruptura dos laços diplomáticos

entre o Irã e Israel, os judeus

iranianos mantêm algumas relações

com o Estado hebraico. Sobretudo por

intermédio da família. Muitos deles

têm um primo, um tio, um irmão ou

avôs que vivem em Tel-Aviv ou em Jerusalém,

uma vez que por ocasião da

fundação do Estado de Israel, em 1948,

e depois durante a revolução de 1979,

uma parte muito importante da comunidade

judaica do Irã emigrou.

Kamran, que é pai de três filhos, é

comerciante em Ispahan. Três das suas

irmãs moram em Jerusalém. Ele vai

visitá-las todos os anos. "Está escrito

com grande destaque no nosso passaporte:

'é terminantemente proibido

viajar para Israel'. Portanto, para visitarmos

a nossa família, nós precisa-

mos passar por Chipre ou pela Turquia

e, em Jerusalém, as autoridades emitem

para nós um visto sobre uma folha

destacada", conta.

"As minhas irmãs ligam regularmente

para mim e nós comunicamos

muito por e-mail. Elas se preocupam

em saber como as coisas andam para

nós aqui, principalmente desde que

Ahmadinejad está no poder. É verdade

que durante o governo Khatami [o

presidente anterior, reformista, que

governou de 1997 a 2005], a gente se

sentia mais à vontade, mais livre para

se expressar. Mas eu as tranqüilizo:

por enquanto, nós não temos muito

do que nos queixar".

Naquela noite de sexta-feira, às

vésperas do shabat, toda a pequena

família está reunida. Na sala de estar,

o televisor está ligado e mostra o

programa em persa da Rádio Israel,

apresentado por iranianos de Jerusalém.

O filho primogênito, Jonathan, 23

anos, é também um leitor assíduo do

Jerusalem Post e do Haaretz, os quais

ele consulta on-line para, segundo

ele, se informar do que está acontecendo

em Israel.

Da mesma forma que muitos jovens

da sua idade, ele não quer se contentar

com os jornais iranianos, que,

na sua maioria, estão submetidos à

censura. Um estudante de informática,

Jonathan se sente bem integrado.

Mais tarde, durante a noite, ele emitirá

ainda assim algumas reservas: "Na

qualidade de judeus, nós sabemos que

profissionalmente encontraremos obstáculos.

Nenhum de nós pode esperar

fazer carreira no exército ou tornar-se

um alto-funcionário. Nem pretender

conseguir um cargo de advogado ou

de magistrado. Então, uma vez que os

veículos de comunicação, as editoras

ou o setor da educação são completamente

islamizados, a maioria dentre

nós prefere se orientar rumo a setores

mais neutros, tais como a engenharia,

a medicina, a farmácia".

Contudo, por nada neste mundo Jonathan

partiria para viver em Israel

("Eu amo o meu país e eu teria medo

demais dos atentados"), mas ele compreende

que certos iranianos tenham

esta vontade. No final de dezembro,

um grupo de cerca de quarenta imigrantes

judeus, auxiliados financeiramente

pela Agência Judaica, desembarcou

em Tel-Aviv diante das objetivas

das câmeras e das máquinas fotográficas

de dezenas de jornalistas. A

Agência Judaica declarou então que

estes homens e mulheres haviam deixado

o seu país por causa de um antisemitismo

crescente. É difícil saber ao

certo onde pára a verdade e onde começa

a manipulação política, comenta

Arash, que, entretanto, constata que

eventos desta natureza, amplamente

repercutidos pelos meios de comunicação

iranianos, só fazem piorar a ima-

gem dos judeus no Irã.

Em novembro de 2007, o The

Guardian havia dado conta de "um

número crescente de emigrações de

judeus do Irã para Israel, por causa

das tensões crescentes entre os dois

países", e citava o exemplo de Benyamin,

um jovem professor de hebraico

que teria sido ameaçado de morte por

ser suspeito de espionagem a serviço

de Israel.

Entre Entre provocação provocação e e tolerância

tolerância

O próprio Moris Motamed reconhece

que, volta e meia, as tensões internacionais

provocam confusões até

mesmo na vida cotidiana dos judeus

iranianos. Em Shiraz, no sul do país,

durante o verão de 2006, em plena

guerra entre Israel e o Hezbolá, organização

apoiada por Teerã, uma loja

mantida por judeus, por exemplo, foi

alvo de um atentado a bomba, perpetrado

por um grupo de muçulmanos

extremistas.

Nesta cidade conhecida pelo seu

conservadorismo, a desconfiança em

relação aos jornalistas se faz sentir de

uma maneira muito mais nítida do que

em Teerã. Aliás, esta não foi a primeira

vez que Shiraz tornou-se palco de

incidentes graves. Nesta cidade, até

hoje, a recordação do "caso dos treze

judeus" está viva nas mentes. Em

2000, treze estudantes e professores

de religião judeus haviam sido presos

e encarcerados por "espionagem em

proveito da entidade sionista". Eles só

vieram a ser libertados alguns anos

mais tarde, como resultado de uma

importante mobilização internacional.

Benyamin, que fora um destes treze

prisioneiros, e que nós encontramos

em Ispahan, hoje é rabino. Ele nos explica

de antemão que não quer falar

novamente deste acontecimento, preferindo

se contentar em nos fazer visitar

o banho das abluções da principal

sinagoga de Ispahan. No que vem

a ser mais um sintoma da ambigüidade

da situação da comunidade judaica

do Irã, entre provocações, humilhações

e tolerância.

"Há séculos e mais séculos que no

Irã, os judeus e os muçulmanos vivem

juntos, respeitando uns aos outros. Se

compararmos com o que aconteceu na

história mundial é possível afirmar que

nós estamos nos saindo até que bem",

resume Marjan. "No fundo deles mesmos,

muitos judeus iranianos esperam

representar um modelo para os palestinos

e os israelenses. Nós somos provas

vivas de que é possível viver em

paz, apesar das diferenças. Seria legal

se você pudesse colocar isso no

seu artigo", havia insistido Marjan.

Dito e feito.

Atendendo a pedidos, ou por iniciativa

da autora, os nomes de algumas das pessoas

entrevistadas foram alterados.


VJ INDICA

Lugar Nenhum

na África

Alemanha, 2001

Título original: Nirgendwo in Afrika

Título alternativo: Nowhere in

Africa

Gênero: Drama

Duração: 141 min.

Tipo: Longa-metragem Colorido

Prêmios: Vencedor de 1 Oscar

Distribuidora: Imovision

Diretora: Caroline Link

Roteiristas: Caroline Link,

Stefanie Zweig

Elenco: Juliane Köhler, Merab Ninidze,

Sidede Onyulo, Matthias Habich,

Lea Kurka, Karoline Eckertz, Gerd Heinz, Hildegard Schmahl,

Maritta Horwarth, Regine Zimmermann, Gabrielle Odinis,

Bettina Redlich, Julia Leidl, Mechthild Grossmann, Joel

Wajsberg

Sinopse

Em 1938, pouco antes de estourar a 2ª Guerra Mundial, a

família judia Redlich foge da Alemanha e se instala no Quênia,

na África. Lá o advogado Walter Redlich passa a trabalhar

numa fazenda, enquanto sua mulher Jettel, filha de

uma família burguesa, tenta se adaptar à nova vida. Regina,

a filha do casal, cresce e aprende a língua e os costumes

locais, encontrando no cozinheiro Owunor um amigo. Quando

a guerra está acabando Walter recebe uma proposta

para atuar como juiz em Frankfurt. Depois de tantos anos

em que aprenderam a amar o novo país, Jettel e Regina

começam a duvidar se voltarão para a Alemanha com ele.

VISÃO JUDAICA setembro de 2008 Elul / Tishrê 5768 / 5769

FILME Leprevost requer votos de

O deputado estadual Ney Leprevost apresentou

dia 10/9 à mesa de trabalhos da Assembléia

Legislativa do Paraná votos de louvor e

congratulações ao jornal Visão Judaica. "Senhor

Presidente", diz o requerimento assinado pelo

parlamentar, "o deputado subscritor do presente,

no uso de suas atribuições regimentais

requer, Votos de Louvor e Congratulações ao

Jornal Visão Judaica. Sala de Sessões, 10 de

setembro de 2008". Ney Leprevost, deputado

estadual.

Em sua justificativa, o deputado observa que

se trata de "justa homenagem ao Jornal Visão

Judaica, que é um veículo independente da

Comunidade Israelita do Paraná, destinado a

transmitir à colônia judaica os fatos que acontecem

no mundo, no

Brasil e no nosso Estado, sempre focado na

liberdade através da paz e da informação com

isenção e imparcialidade, pregando a igualdade

e a justiça entre os povos, solidarizando-se aos

que sofrem perseguição, dando-lhes apoio e

incentivo para superar as adversidades".

louvor e congratulações

ao Visão Judaica

15


16

VISÃO JUDAICA setembro de 2008 Elul / Tishrê 5768 / 5769

OLHAR

Descobertas técnicas contra bactérias

Pesquisadores da Universidade Hebraica de

Jerusalém encontraram novas formas de eliminar

bactérias inativas as quais parecem resistir

aos antibióticos. Os antibióticos são o tratamento

preferido contra as infecções de bactérias

e enfermidades, mas aparentemente demonstrou-se

que muitas doenças não podem

ser tratadas simplesmente com a administração

de antibióticos. Sub-populações de algumas

bactérias podem resistir a antibióticos letais

decrescendo seu metabolismo, permanecendo

"adormecidas" por dias e esperando o momento

oportuno para voltar a atacar. Os pesquisadores

estudaram estas bactérias inativas e descobriram

duas novas formas para eliminá-las.

(Universidade Hebraica de Jerusalém).

Técnicas contra bactérias II

HIGH-TECH

○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

A primeira técnica é submeter a bactéria a uma

dose fresca de nutrientes junto com o tratamento

do antibiótico, e a segunda técnica é infectando

essas bactérias inativas com um vetor

fágico-vírus que ataca as bactérias. Em ambos

os casos o percentual de bactérias inativas que

sobreviveu foi reduzido significativamente. A

biofísica Nathalie Balaban, do Instituto de Física

Racah na Universidade Hebraica; a estudante

de doutorado Orit Gefen; e o estudante de mestrado,

Sivan Perl, recentemente relataram suas

descobertas em Proceedings of the Nacional

Academy of Sciences USA and Plos Biology. Sua

pesquisa mostra que sub-populações da bactéria

E. Coli passam a ser persistentes aos tratamentos

com antibióticos. No entanto, eles

descobriram que durante um curto período de

tempo depois que as bactérias foram expostas

O LEITOR

ESCREVE

Oportunidade para jovens médicos

Prezados amigos do Visão Judaica:

Se por acaso vocês souberem de jovens judeus,

de ambos os sexos, que terminaram a faculdade

de medicina e querem fazer especialização

em cirurgia-geral aqui em Israel, digam a

eles para me escreverem, ok.?

A especialização aqui é de 6 anos e recebem

salário que não dá para ficar como Bill Gates,

mas dá para viver bem... Quatro anos numa enfermaria

cirúrgica e dois anos de rotação em

departamentos cirúrgicos como cirurgia pediátrica,

neurocirurgia, cirurgia de tórax, urologia,

plástica, anestesia/UTI, etc. Têm que passar por

duas provas. A primeira é uma prova escrita, na

metade da especialização, sobre assuntos básicos.

A segunda é oral, no fim da especialização,

perante três bancas de examinadores. São obri-

a uma nova fonte de alimento, estas renovam

sua atividade bacterial. Dessa forma os cientistas

aproveitaram esse momento para expor

as bactérias a uma dose de antibiótico, o que

reduziu notavelmente as bactérias inativas que

conseguiram sobreviver. (Universidade Hebraica

de Jerusalém).

Técnicas contra bactérias III

Os resultados bem sucedidos da experiência

podem levar ao desenvolvimento de novos caminhos

para vencer bactérias desse tipo, que

são a causa central dos fracassos nos tratamentos

por meio de antibióticos em muitas

doenças, como por exemplo, a tuberculose. Os

resultados estabelecem um desafio às concepções

aceitas no que se refere a bactérias inativas,

e propõem um modelo alternativo ao

processo de desenvolvimento das bactérias em

questão. Segundo a dra. Balaban "estes resultados

podem conduzir a uma nova terapia de

vetor fágico para combater infecções que persistem

apesar dos antibióticos". (Universidade

Hebraica de Jerusalém).

Técnicas contra bactérias IV

Junto com o professor Oppenheim, da Universidade

Hadassa, da Escola de Medicina, a equipe

também estudou a interação entre as bactérias

inativas e o vetor fágico. Eles procuraram

determinar se a inatividade se desenvolve

ou não como um mecanismo de defesa contra

o ataque provocado pelo vetor fágico, permitindo

à bactéria, deste modo, sobreviver sob

condições de stress. A equipe mostrou que a

existência de bactérias inativas provê vantagens

quando a população é atacada por um

vetor fágico lisógeno (vetor fágico que reside

dentro da bactéria por algumas gerações e só

então se multiplica e ataca). Entretanto, a inatividade

não provê proteção quando as bactérias

são atacadas pelo vetor fágico lítico que

se reproduz e extermina imediatamente. (Universidade

Hebraica de Jerusalém).

gados a fazer uma certa quantidade de cada tipo

de operação.

Antes disso, há necessidade de ulpan pra

aprender a língua (lá se vão 6 meses) e uma

prova de medicina para saber se ele/ela é

digno(a) do titulo de médico em Israel.

Quer dizer, é preciso pensar em aliá (imigração).

Prometo lugar de trabalho, mas não prometo

shiduch… (possibilidade de casamento...).

Moshe Rosenblatt, médico - Israel

Desejando um bom Ano Novo

Aos editores do VJ:

Olá! Shalom aleichem! Le Shaná Tová Ticatevu

Vetechatem Shaná Tová 5769

Luiz Dalanhol - Por e-mail

Para escrever ao jornal Visão Judaica

basta passar um fax pelo telefone:

0**41 3018-8018 ou e-mail para

visaojudaica@visaojudaica.com.br

Irã e Israel brincam com fogo

Nahum Sirotsky *

O anúncio da Rússia de que a central

atômica que vem construindo

para o Irã pode ficar pronta em dezembro

é um complicador do quadro

mundial. Aparentemente é feito

como resposta à assistência americana

à Geórgia e o acordo de construir

plataformas de mísseis na Polônia.

Moscou não aceita os argumentos

americanos de que são defesas contra

estados considerados inconfiáveis

como o Irã.

A notícia sobre a central iraniana

só aumenta as preocupações de

Israel que prefere acreditar que as

ameaças do presidente iraniano devem

ser levadas a sério. Ele se tiver a

oportunidade, procuraria destruir o

estado judeu. Numa central nuclear

para a produção de energia também

se tem como subproduto matériaprima

para fabricar a Bomba.

O mundo está concentrado em

muitas diversas questões como a crise

econômica, eleições americanas,

recrudescimento da guerra no Afeganistão,

ameaça e tragédias humanitárias

em vastas regiões onde faltam

alimentos e a seca agride a crise

entre Estados Unidos, Europa e a Rússia,

os sinais de inflação na China.

Não faltam preocupações.

O Oriente Médio atravessa etapa

de paradoxos. Os países produtores

de petróleo estão abarrotados de lucros

e numa expansão tipo mil e uma

noites. Atraem iniciativas e investimentos

de empresas de todas as nacionalidades.

Quem pode vem vender,

pois não faltam compradores

nem de clubes de futebol. Mas nos

países não produtores de petróleo,

como o Egito, faltam recursos para

atender as populações. O contexto

não é favorável a novas complicações.

Guerras seriam o pior negócio

possível para os que prosperam e os

que sofrem carências.

Ahmadinejad, o presidente

iraniano, porém, tem sua visão e planos.

Um atual parlamentar israelense,

um baixinho e avançado em idade,

representante do Partido dos

Aposentados, tem a solução. Afirma

que é possível o rapto do iraniano e

entregá-lo a um tribunal internacional.

O baixinho com o sorriso de um

bisavô foi o planejador e dirigente de

uma das mais atrevidas operações do

século passado. O homem que raptou

Eichmann, que vivia incógnito em

Buenos Aires. Era o oficial alemão

nazista encarregado da "Solução Final",

a matança dos judeus europeus

e em todos os territórios que Hitler

conquistasse. O plano resultou no

genocídio de seis milhões de judeus.

Eichmann foi raptado, levado a Is-

rael, julgado e condenado a morte, o

primeiro e até agora único na história

do país a pagar tal preço. O governo

iraniano reclamou nas Nações

Unidas contra a sugestão. É o receio

do Mossad, serviço secreto de Israel,

aliás, que obriga Nasrala, o líder do

Hezbolá, e os líderes do Hamas a viverem

em abrigos secretos, bunkers,

com receio de serem capturados ou

assassinados.

Na revista Euro Atlantic Quarterly,

de julho.(http://meforum.org) por

sua vez, Michael Rubin escreve que a

Comunidade Internacional tem seu

foco em apenas uma parte da questão

iraniana. No país, o debate é sobre

a economia. Ahmadinejad prometeu

levar os benefícios da venda

do petróleo "à mesa de todos". E o

que se enfrenta internamente são inflação

e falta de alimentos. Davoud

Danesh-Jafari declarou que os governos

não são julgados por boas intenções,

porém pelos fatos. E renunciou

ao cargo de Ministro da Fazenda. O

que acontece é que a política econômica

se traduz em inflação de até 30

por cento. Alguns produtos tiveram

seus preços aumentados em 90 por

cento. A Associação dos Açougueiros

reclamou que estavam comprando

menos carne. Atribui-se a Rafsanjani

ex-presidente, a afirmação de que

"não se melhora a economia com o

aumento do número de mendigos".

O presidente chegou a determinar

um limite para o custo do dinheiro.

"Quando se emitiu notas de cem mil

rials a solução do governo foi a de

cortar os zeros".

O texto da revista afirma que as

medidas de austeridade adotadas falharam

devido a falta de disciplina na

política fiscal. Escreveu o jornal Aftab-e

Yazd, reformista, "que os erros

das políticas do governo prejudicam

mais do que as sanções dos estrangeiros!"

Sanções decididas pelas Nações

Unidas para obrigarem o governo

a abrir seu trabalho na área nuclear

à inspeção internacional. Não abre.

O presidente pede ao povo que

tenha fé. E foi lembrado que o aiatolá

Khomeini, o líder da revolução que

fez do Irã um país islâmico, afirmava

que "não se faz revolução ao preço

de uma melancia".

O Irã não teria uma economia para

resistir a sanções mais rigorosas, agora,

com a crise entre americanos e europeus

com a Rússia, pouco prováveis.

Mas o presidente não parece duvidar

que é sua missão preservar a pureza

da mensagem do Islã. Israel é um elemento

estrangeiro num Oriente Médio

muçulmano. Nunca se sabe até

aonde a força de ideologias será imposta

como a determinante decisiva

de políticas. É o perigo que oferecem.

* Nahum Sirotsky é jornalista, correspondente da RBS e do Último Segundo/IG em

Israel. A publicação desta coluna tem a autorização do autor.


O festim das hienas

Eduardo Kohn *

As imagens ficaram na retina, e nos fizeram pensar, uma

vez mais, nas diferenças entre os que idolatram a morte e os

que crêem na vida como valor supremo. As imagens não mostraram

sangue nem atos de violência, mas as telas de TV brilhavam

como se estivessem banhadas em sangue e os primeiros

planos eram dos rostos do desprezo e o ódio.

As imagens daquela quarta-feira, 16 de julho no Líbano,

mostraram como todo o governo daquele país esperou na escadinha

de um avião junto a um tapete vermelho um desprezível

assassino a quem eles denominaram "herói nacional",

um homem cujo nome não interessa registrar, que para ser

"herói" entre seus pares matou um pai diante de sua filha de 4

anos, e depois matou a menina e, ainda por cima, esmagou

seu crânio com a culatra de seu fuzil até que a cabeça da pequena

ficou arrebentada.

Quarta-feira 16 de julho foi feriado no Líbano para receber

esse criminoso. Festa nas ruas, bailes e bandeiras ao vento. Assassinar

alguém indefeso sempre é coisa de covardes desprezíveis,

mas em determinados lugares do nosso planeta, isso é de

"heróis". Na selva, nem as hienas compartilhariam essa opinião.

Por que está livre alguém assim? Porque, apesar de muitas

autoridades governamentais de vários lugares, intelectuais,

formadores de opinião, Israel é uma democracia fundada em

valores. E os soldados israelenses devem estar em sua terra.

Se não estão vivos, seus restos mortais não devem ser objetos

do festim das hienas. Claro que a decisão de Israel de

trocar os restos dos dois soldados israelenses, seqüestrados

pelo Hezbolá em território israelense, por duas centenas de

corpos de terroristas e por assassinos, agora "heróis" no Líbano,

foi uma decisão muito complexa e que contrariou muitos

cidadãos israelenses.

E em contexto semelhante, não deve ser complexo compreender

tanto a dúvida como o sofrimento. Mas os dois soldados

israelenses deviam voltar à sua terra e aos seus entes

queridos, e seus restos não deviam continuar entre o escárnio

e as mentiras dos imorais que os assassinaram.

O prestigioso jornalista do Haaretz, Shmuel Rosner define

claramente o conceito que moveu Israel a fazer uma

troca desse tipo:

"Israel é uma sociedade onde todos se conhecem, na qual

o destino de cada soldado preocupa cada cidadão. É uma sociedade

que exige o serviço militar de cada jovem, homem ou

mulher, uma sociedade na qual o Estado de guerra é o habitual

há 60 anos, e na qual a solidariedade nacional é sempre uma

questão existencial. Para uma sociedade assim, olhar nos olhos

de um pai ou uma esposa de um soldado seqüestrado e dizerlhes

que o preço a pagar para trazer de volta seu ou marido

mesmo que esteja morto, é algo que nenhuma autoridade

pode fazer nem irá fazer".

Em conseqüência, o Hezbolá, seus patrões no Irã, seus cúmplices

no Líbano e em várias partes do mundo, continuarão

celebrando a morte, o assassinato, e todas as sevicias possíveis

de que o homem é capaz de cometer contra seu próximo.

E continuarão qualificando seus festejos de "vitória contra o

imperialismo" e outras frases feitas de que tanto gostam os

que acreditam no terrorismo e o definem como "luta social".

Enquanto isso, outros no Oriente Médio continuarão sonhando

com a paz entre povos e entre governos. Um sonho

que já se tornou fragmentos mais vezes do que se possa contar.

E aquela quarta-feira 16 de julho teve um novo e brutal

tropeção, desta vez pela mão do presidente da Autoridade

Palestina, Abu Mazen. Era uma oportunidade para ficar calado

e passar despercebido, ou para dar uma mensagem que realmente

estimulasse os sonhos. Ao invés disto, saudou a "libertação"

de um assassino desprezível, "herói" no Líbano.

Não só perdeu uma oportunidade, como voltou a demonstrar

quem é quem. Ao fim e ao cabo, por trás das fotos coloridas

nos belos palácios, está é a realidade. E se alguém tivesse

esquecido por algum momento de otimismo humano, Abu Mazen,

no final das contas, fez bem em fazer retornar todos ao

mundo da verdade.

* Eduardo Kohn é vice-presidente Executivo da B'nai B'rith Latinoamericana.

Publicado originalmente pelo website Por Israel.org

(www.porisrael.org).

VISÃO JUDAICA setembro de 2008 Elul / Tishrê 5768 / 5769

Sucot - A Festa das Cabanas

Véspera 13/10 - acendimento das velas 18h01

m período alegre é iniciado

com a festa de

Sucot, compensando o

solene período de

Rosh Hashaná e Iom Kipur.

Há mitsvot nas quais utilizamos

apenas algumas partes de nosso corpo,

por exemplo: a mitsvá de tefilin,

filactérios, que envolve o braço e a

cabeça; tefilá, prece, envolve a mente

e o coração e assim por diante.

Em Sucot, temos uma mitsvá (preceito)

singular, que é a construção

de uma sucá; a única mitsvá que literalmente

envolve a pessoa de corpo

inteiro, com suas vestes materiais.

A sucá nos lembra das Nuvens

de Glória que rodearam nosso povo

durante suas peregrinações pelo deserto

a caminho da Terra Prometida.

Todos então viram a especial proteção

Divina, que D-us lhes concedeu

durante aqueles anos difíceis.

Mas embora as Nuvens de Glória desaparecessem

no quadragésimo

ano, na véspera da entrada na Terra

de Israel, nunca cessamos de acreditar

que D-us nos dá Sua proteção,

e esta é a razão de termos sobrevivido

a todos nossos inimigos em todas

as gerações.

A A sucá sucá

sucá

Para que o judeu não se esqueça

de seu verdadeiro propósito na

vida, D-us, em Sua infinita sabedo-

ria e bondade, nos faz deixar nossas

casas confortáveis nesta época,

para habitar numa frágil sucá,

cabana, por sete dias.

A sucá nos lembra que confiamos

em D-us para nossa proteção, pois a

sucá não é nenhuma fortaleza, nem

ao menos fornecendo um telhado sólido

sobre nossa cabeça. Lembra-nos

também de que a vida nesta terra é

apenas temporária.

As As refeições refeições na na sucá

sucá

Durante a festa de Sucot, os homens

devem comer diariamente

numa sucá (cabana) especialmente

construída para este fim. Nestes

sete dias, não é permitido comer fora

da sucá qualquer refeição que contenha

pão ou massa. Há aqueles que

não costumam beber nem ao menos

um copo de água fora da sucá.

Nos primeiros dois dias e noites

da festa, o kidush, prece sobre o vinho,

antecede a refeição. Nas duas

primeiras noites, é obrigatório comer

na sucá ao menos uma fatia de pão

(além do kidush), mesmo que esteja

chovendo. Nos outros dias, se chover,

é permitido fazer as refeições

dentro de casa.

Confiança Confiança em em em D-us D-us

D-us

Refletir sobre a sucá nos dá uma

ampla visão do significado de fé em

D-us e da extensão de Sua Divina Pro-

Jaques Wagner e Clara Ant na Conib:

Justiça Social e o prestigio de Israel

Durante a 37ª Convenção Anual

da Confederação Israelita do Brasil

(Conib), realizada dia 25 de novembro

de 2006, em São Paulo, o governador

da Bahia Jaques Wagner, destacou:

"Cada vez que temos um representante

da comunidade judaica

em um posto público, isso se reflete

como algo positivo para todos nós.

E, como judeu, lutarei pelo que todos

desejamos, a justiça social".

Já a assessora especial do presidente

Luiz Inácio Lula da Silva, Clara

Ant, destacou que "no primeiro

mandato, as relações entre Brasil e

Israel se ampliaram. O governo brasileiro

atuou em defesa da inclusão

de Israel no Mercosul e o intercâmbio

entre os dois países cresceu em

diferentes áreas. Foi criado um grupo

de interlocução entre os dois países,

que já se reuniu no Brasil, e

acaba de se reunir em Israel". Mais

adiante, Clara Ant observou que "o

governo de Israel foi prestigiado.

Pela primeira vez em dezesseis anos

um ministro israelense foi recebido

pelo presidente da República, disse

referindo-se a Ehud Olmert, então

ministro da Indústria e Comércio israelense",

- acrescentando que - "há

uma disposição mútua nas relações

bilaterais e só podem crescer em benefício

dos dois países, como tem

sido no âmbito da tecnologia, educação,

entre outros".

A Assessora lembrou também

que o presidente foi o primeiro a

assinar documento contra o antisemitismo,

citando a frase emblemática

dita pelo presidente Luiz

Inácio Lula da Silva no Dia Internacional

de Recordação do Holocausto

- data estabelecida pela

ONU, em novembro de 2005. Celebrado

em 27 de janeiro de 2006,

em solenidade promovida no serviço

religioso do Shabat, na sinagoga

da Congregação Israelita Paulista

(CIP) em conjunto com a B'

nai B'rith do Brasil, o presidente

Lula foi enfático ao dizer: "Mesmo

que não houvesse judeus no Brasil

eu combateria o anti-semitismo".

17

vidência. Vamos para a sucá durante

a Festa da Colheita depois de haver

colhido o fruto dos campos.

Se uma pessoa recebeu a bênção

Divina e sua terra produziu com

fartura, seus estoques e adegas estão

repletos, alegria e confiança preenchem

seu espírito - aí a Torá a leva

a abandonar a casa e residir em uma

frágil sucá, para ensiná-la que nem

riquezas, nem posses, nem terras são

proteções na vida; somente D-us é que

sustenta, mesmo os que habitam em

tendas e cabanas e oferece uma proteção

de confiança. E se alguém está

empobrecido e seu trabalho não conheceu

a bênção Divina; se a terra

não deu o seu produto, se o fruto da

árvore não foi armazenado em celeiros

e se está incerto e temeroso

ao encarar o perigo da fome nos

dias de inverno que se aproximam,

também encontrará repouso para

seu espírito na sucá. Lembrará como

D-us hospedou-nos em Sucot no deserto;

nos sustentou e nos abasteceu,

não nos deixando faltar nada.

A sucá o ensinará que a Divina Providência

é segurança melhor do que

qualquer bem material, pois não

abandona os que verdadeiramente

crêem em D-us. A sucá o ensinará a

ser forte e corajoso, feliz e tranqüilo,

mesmo na aflição e na dificuldade.

(www.chabad.or.br).

Além do governador Jaques Wagner,

da assessora do presidente

Lula, Clara Ant, a convenção da Conib,

naquela data contou ainda com

as presenças da embaixadora de Israel

no Brasil Tzipora Rimon; do presidente

da Confederação Israelita do

Brasil e do Congresso Judaico Latino-Americano

Jack Leon Terpins; do

diretor do Congresso Judaico Mundial

para a América Latina Manuel

Tenenbaum, do então presidente do

Rabinato da Congregação Israelita

Paulista rabino Henry Sobel, da vicepresidente

da Fundação Victor Civita

Claudia Costin, dos vice-presidentes

da Conib Osias Wurman e Cláudio

Lottenberg, e de presidentes e

representantes de cada uma das comunidades

judaicas brasileiras.

A Conib tem filiadas no Amazonas,

Bahia, Brasília, Ceará, Minas

Gerais, Pará, Paraná, Pernambuco,

Rio Grande do Norte, Rio Grande do

Sul, Rio de Janeiro, Santa Catarina e

São Paulo. O Amapá também esteve

representado na Convenção.


18

* Marcos Aguinis é

escritor, conferencista,

médico psicanalista, foi

ministro da Cultura da

Argentina, onde

desempenhou um papel

fundamental na

redemocratização do país.

É autor dos livros "La cruz

invertida" e "La gesta del

marrano". Conferência

proferida por ele na

Universidade de Tel Aviv,

em 15 de maio de 2008,

por ocasião do 60º

aniversário da

Independência de Israel.

VISÃO JUDAICA setembro de 2008 Elul / Tishrê 5768 / 5769

er judeu não é uma infelicidade,

às vezes é uma catástrofe.

Vocês se dão conta,

que até com este microfone

há problemas…

Antes de falar vou dizer umas

palavras (perdoem o lugar comum).

Quero agradecer a presença deste público

fantástico, que lota tão grande

auditório. Agradecer as palavras do

vice-reitor Raanan Rein. Agradecer a

presença do embaixador argentino, demais

embaixadores da América Latina

e os representantes da Espanha. Agradecer

aos amigos desta dinâmica universidade.

E agradecer de novo a esta

multidão de israelenses que viajou de

diferentes pontos do país: significa

para mim uma honra intensa, inesquecível

e comovedora.

Trouxe uma pequena ajuda de memória,

porque quando me pus a pensar

sobre o que se poderia dizer nesta

oportunidade, temi que os submeteria

a um soporífero seminário, e vocês não

merecem tamanho castigo.

O tema soa arrogante: Orgulho de

ser judeu. Nos últimos meses circula

um texto de título similar: Eu adoro ser

judeu. Recebi inúmeras felicitações de

vários países, mas lamento decepcioná-los:

não é meu. Eu não o escrevi,

não costumo usar a palavra "adoro",

exceto quando pretendo seduzir uma

mulher... É evidente que foi escrito em

Israel, porque faz referências àqueles

que foram protagonistas da epopéia

revelada por seus cidadãos. Eu não

tive essa honra, como tantos milhões

de judeus que temos seguido com o

coração nas mãos, mas sem padecer

os sacrifícios que aqui tiveram lugar

para a resistência e a construção.

Em outras ocasiões e em vários textos

expliquei minha rejeição a que se

diga que em 1948 "criou-se" o Estado

de Israel. Isso é mentira e produz erros.

O Estado de Israel existia desde

muito antes: em 1948 proclamou-se

sua Independência. Já latejava um efervescente

Ishuv, havia sido fundada a

Universidade de Jerusalém, funcionava

o Technion, dava concertos a Orquestra

Filarmônica inaugurada por

Arturo Toscanini, investigava o Instituto

de Ciências de Rehovot, vibrava

o cenário do teatro Habima, floresciam

escolas agrícolas, multiplicavam-se os

kibbutzim, edificavam-se as cidades e

moshavim, algumas sobre a areia ou

rochas, era sólida a rede civil e se

constituíram heróicas organizações de

defesa. Tudo isso era uma realidade

indiscutível. O Estado de Israel foi sendo

erigido desde o ermo com lágrimas,

suor, sangue e um oceano de idealismo.

Em 1948 levantou-se o pano de

fundo para alcançar a etapa que faltava:

sua soberania. Não foi - como di-

O orgulho de ser judeu

Marcos Aguinis *

zem os antiisraelenses ignorantes -

"uma invenção das Nações Unidas", ou

dos Estados Unidos. Os EUA naquela

época não eram um aliado incondicional

e fizeram esforços para atrasar a

Independência.

Cumprido este esclarecimento, me

limitarei a cinco razões que justificam

meu orgulho de sentir-me judeu. É

necessário fazê-lo, porque se tende a

desprezar a enorme herança que temos

recebido. É certo que seu sabor é

agridoce, porque contém tragédia e

criatividade. Mas entre as rajadas dessa

tragédia e criatividade, foi desenvolvendo-se

uma obsessão pela cultura.

Um marco histórico foi sem dúvida

o exílio babilônico, há 2.600 anos.

Ali surgiu o imperioso anseio por conhecer

os textos escritos que vinham

se acumulando desde séculos e proviam

uma identidade repleta de nostalgia

e emoção. Esses textos começaram

a ser lidos ao povo, hábito que se

consolidou após o regresso a Eretz Israel

sob a liderança de Ezra e Nehemias.

Mas não foi um rito insignificante,

mas uma revolução cultural. Até

então todas as castas sacerdotais das

numerosas religiões existentes, mantinham

seu poder mediante o segredo

dos livros. Só os sacerdotes tinham

acesso à palavra e os mandatos dos

deuses. Essa tradição foi subvertida

pelos judeus. Decidiram que a

Torá fosse lida para toda a comunidade,

hábito que vige até os nossos

dias e foi imitado depois pelas

outras religiões monoteístas. O Livro

deixou de ser a propriedade de

alguns privilegiados para converterse

num bem comum.

Mas junto com essa revolução, a

seguir veio outra, mais radical ainda.

Com efeito, meio milênio antes da era

comum suprimiu-se a praga do analfabetismo!

O judeu foi o primeiro povo

que deixou de ter analfabetos ao instituir

o Bar Mitzvá, rito que implica na

incorporação à comunidade de Israel

mediante a leitura dos livros sagrados.

Sem leitura, não há incorporação. Foi

um terremoto histórico, sem paralelo.

Pena que o patriarcado que existia

- e ainda subsiste -, não levou em

conta as mulheres. Mas ao menos desapareceram

os varões analfabetos.

Esta situação excepcional explica a

produção em massa de literatura no

antigo Israel. Segundo o historiador

inglês e católico Paul Johnson, Israel

produziu mais textos que a Grécia clássica.

Muitos textos foram queimados,

esquecidos ou não conseguiram entrar

no cânone do Tanach, e quase esteve

a ponto de ser excluído nada menos

que O Cântico dos Cânticos. Um amor

intenso pela letra escrita manteve-se

e se potencializou sem cessar. Não é

estranho que as sinagogas, sejam os

lugares mais reverenciados onde se

guardam as palavras escritas. As le-

tras foram a pátria portátil dos judeus.

Cuidaram-nas e as burilaram. Não é

casual que seja chamado de o povo

do Livro. O Tanach reluz no alto, porque

é uma obra maior da literatura

universal. Ali não só há crônicas, poesia,

narrações, sonhos, amores, pregações,

sabedoria, ensinamentos, profecias,

piedade, rancor e contradições,

mas até a germinação de gêneros literários

que tardaram muito em florescer,

como, por exemplo, a novela.

Costuma-se dizer que a primeira

novela foi Dom Quixote. Entre parêntesis,

recordo uma anedota de alguém

pouco lido que foi comprá-lo. Disse ao

vendedor que desejava um exemplar

de Dom Quixote. De la Mancha? - perguntou.

Não, o da mancha não. Quero

um limpinho porque é para presentear...

Fecho o parêntesis e continuo.

No Tanach também há novela.

Uma delas é admirável: o Livro de Jó.

É novela porque tem sua estrutura, fluidez,

segredos, mistérios e detalhes

emotivos e sensoriais que correspondem

a esse gênero. Nem sequer se

sabe se Jó foi judeu, tampouco onde

viveu. A trama inicia com um assombroso

diálogo entre D-us e o diabo,

depois se sucedem as armadilhas que

geram estremecimentos e suspense.

Bem, este aspecto cultural e literário

está muito arraigado na mentalidade

judaica. Recordemos que no shteitl

mais pobre, mais distante e isolado,

sempre alguém desempenhava a tarefa

de professor para ensinar as

crianças. Vibra como testemunho a

inesquecível canção em iídiche Oifn

Pripechick. Não importava se a docência

era exercida numa choça ou uma

cova. Bastava que ardesse um braseiro

e, ao abrigo de seu calor amoroso,

os pequenos aprendessem o abc.

Essa ginástica mental tornou o judaísmo

um seminário perpétuo, uma

comunidade vasta que todo o tempo

estuda e discute. Por isso não devem

alarmar-nos os conflitos que atormentam

o interior de Israel: nós os judeus,

estamos acostumados aos conflitos

de mais variada cor e a debatê-los.

Depois que chegar a paz, não se iludam

com a idéia de una paz absoluta,

porque se alçarão velhos problemas

e novos, a polêmica será intensa.

Não obstante, jamais será o fim

do mundo. O povo judeu segue debatendo,

é parte de sua natureza ou,

para ser objetivo, resultado de uma

história muito particular.

Antes de concluir este ponto, sinto-me

obrigado a assinalar que recebi

numerosas queixas sobre os perigos

que nos últimos anos perturbam

o alto nível da educação israelense.

Sua prioridade parece ter

afrouxado. Não é bom. A imaginação

deve acender castiçais e encontrar

os recursos que mantenham vigorosa

a qualidade educativa. Isso con-

feriu a este país força, energia e

ideais que nunca devem murchar.

O segundo ponto de minha exposição

refere-se ao monoteísmo ético.

Houve monoteísmos na antiguidade,

não foi exclusividade do povo de

Israel. Havia monoteísmo no Egito sob

Akenaton ou Amenhotep IV (como o

prefiram chamar). Os incas impuseram

o culto do Sol, também deus único.

Mas não existia o monoteísmo ético,

e essa categoria inovadora foi mérito

exclusivo do povo de Israel, seus líderes

e profetas. Um monoteísmo que

exige moral que se estabeleceu mediante

um pacto. O pacto compromete

D-us, a comunidade e cada um de

seus membros. Aí se hierarquizou a

responsabilidade do indivíduo. Foi um

pacto que sacraliza a vida, os direitos

e as obrigações de cada pessoa, que

compromete o cuidado com o planeta,

com os animais e um respeito sem

precedentes pelo diferente, pelo estrangeiro.

Marcou uma ascensão espetacular

da qualidade humana em

todos os ardores, como um vento cheio

de pólen cujo destino era espargir-se

ao resto do universo.

O monoteísmo ético incluía a fraternidade

da raça humana. Todos viemos

de um casal mítico, Adão e Eva.

E como se não fosse suficiente, houve

um dilúvio e depois se consolidou

a origem comum a partir de outro pai

de todos: Noé.

No monoteísmo ético hierarquizouse

a liberdade. Por quê? Porque somos

livres para agir bem ou agir mal, e serão

castigados os que agirem mal e

serão premiados os que agirem bem.

Os direitos individuais, reiteradamente

ceifados por tiranias de direita ou

de esquerda, foram consagrados desde

a antiguidade e estão profundamente

enraizados na mentalidade judaica.

Se algo parece insuportável a

essa mentalidade, é a escravidão, a

opressão. Todos os povos remontam

suas origens a um fenômeno heróico.

O judeu, por outro lado, à ofensa da

escravidão. Desde crianças nos ensinam

a repetir que "fomos escravos no

Egito". O sofrimento não se esquece

para que se torne uma benção do presente,

ou seja, para que amemos e

defendamos a liberdade. Também para

que compreendamos o sofrimento dos

que não são livres. Por isso não é casualidade

que todos os movimentos

libertários da história contaram com

uma desproporcional presença judaica.

O envolvimento com os que são

perseguidos, oprimidos ou discriminados

é tão intenso entre os judeus que

conduziu sua participação destacada

inclusive em movimentos anti-semitas,

como foi o stalinismo.

A solidariedade tornou-se moeda

comum. Tão comum que gerou um

sem-número de piadas, muitas delas

centradas no hábito da coleta para


fins nobres. São incontáveis as organizações

que realizam coletas dentro do

povo judeu. Ferve a responsabilidade

pelo outro. A tal extremo que se alguém

for pedir apoio, é como se fosse fazer

um presente, porque dá-lhe a ocasião

de fazer uma mitzvá. Lembram a piada

do mendigo judeu que fazia coleta numa

sinagoga de Paris (estou falando do século

XVIII ou XIX) e comunicaram-lhe que

o ricaço que habitualmente lhe destinava

as moedas havia saído de férias?

O mendigo reagiu indignado: "Como!

Com meu dinheiro ele foi se divertir?"

Outra anedota, do mesmo tipo, referese

a dois irmãos pobres que vão ao banco

dos Rotschild para receber um estipêndio

mensal. Um falece e o sobrevivente

pergunta ao caixa: "E a parte do

meu irmão?" "Temos registrado que seu

irmão morreu". "Diga-me - reagiu o

mendigo - quem é o herdeiro de meu

irmão? Eu ou Rotschild?"

Outro elemento notável do monoteísmo

ético, que ainda não foi reconhecido

devidamente, é o compromisso

com a ecologia. O fato de deixar descansar

a terra e respeitar os animais

merece admiração. No Tanach existem

abundantes versículos de inspirada poesia

sobre árvores, frutos, flores, plantas,

vales e colinas, que se amam e elogiam.

Theodor Herzl, antes de morrer,

criou o Keren Kayemet. Sua missão, além

de comprar terras para permitir um crescimento

legal da comunidade, foi plantar

árvores e fertilizar a terra. Esta antiga

terra, em quase toda sua extensão,

sofria abandono, depredação, deserto.

O objetivo do Keren Kayemet era devolver

a este país o esplendor que teve na

antiguidade e que tinha desaparecido:

o bosque. Os bosques de Israel, quase

todos, são produto de um esforço gigantesco

e admirável.

Passo ao terceiro ponto. Um dos

grandes orgulhos que podemos ter é

que sendo tão poucos, nós, judeus produzimos

uma enorme quantidade de paradigmas.

Repassemos os patriarcas,

juízes, reis e profetas de mais de dois

mil anos. Seus nomes continuam sendo

evocados e usados até o dia de hoje em

todo o mundo, em diversas culturas e

até diferentes religiões, com as modificações

impostas pela cor dos idiomas.

Esses paradigmas têm força porque dão

vida a traços de uma profunda humanidade.

Reúnem aspectos recônditos, conformam

uma enciclopédia de emoções,

impulsos, tendências, desejos, medos,

heroísmos, lealdades e deslealdades.

Foram gravados na consciência humana

com suas infinitas sutilezas. Muito

antes que os gênios do Renascimento

e a modernidade descrevessem a inveja,

o fratricídio, o egoísmo, o altruísmo,

o amor, esses paradigmas já tinham

sido cinzelados. O amor, nesses paradigmas,

estendeu-se às mais diversas

manifestações: amor a D-us, aos pais,

aos filhos, aos irmãos, aos cônjuges,

aos amigos, aos estrangeiros. O amor

de Abraham e Sara, de Isaac e Rebeca,

de Jacob e Raquel, de Ruth e Boaz, de

David e Betsabé, de Salomão e Sulamita,

etc. Protagonizaram fatos que des-

nudam a complexidade da vida, e são

recordados como se tivessem ocorrido

ontem. Para os judeus, os distantes patriarcas

são como tios avós, só nos falta

colocar sua fotografia na sala da

casa. Os gregos também produziram paradigmas

gigantescos, mas não são

parte íntima da vida cotidiana grega

moderna, não são parte inseparável da

família, ficam no passado, maravilhoso,

mas passado. Entre os judeus, por

outro lado, esses nomes continuam no

tempo presente.

Os paradigmas mantiveram sua primavera

na etapa pós-bíblica com Hilel,

Jesus, Filon de Alexandria. Nomes e

mais nomes. Pulo séculos e chego a

Maimônides quem, além de produzir

uma obra exemplar, nos deixou ensinamentos

de enorme força e formulação

humilde, como por exemplo: "Sou uma

pessoa que nem sempre pode ter razão".

Aí existe também sensatez e objetividade:

os seres humanos podem

equivocar-se. Outro paradigma foi

Moshé Mendelsohn, o avô do compositor

Felix Mendelsohn. Tinha uma corcunda,

e essa corcunda o impedia de

amar uma moça muito bela. Uma tarde

ela lhe disse: "Veja, reconheço suas

qualidades excepcionais, fala de uma

maneira fascinante e merece minha

franqueza: sua corcunda me impede de

amá-lo". Mendelsohn respondeu: "Essa

corcunda tem história. Dava voltas na

eternidade implorando um corpo onde

repousar. Então D-us teve piedade e

planejou depositá-la sobre uma bela

mulher. Roguei-lhe que não fizesse

dano à formosura dessa mulher, que a

instalasse sobre minha costas". Poucos

meses depois Mendelsohn se casou

com essa garota.

Deixo os paradigmas que encheriam

bibliotecas inteiras, e passo ao

quarto ponto.

O povo judeu suportou tragédias

enormes, perseguições sem paralelo e

uma discriminação inclemente e obstinada.

O anti-semitismo é a expressão

de ódio mais tenaz, antiga e firmemente

arraigada no mundo. No entanto,

esse sofrimento não nos transformou

numa cultura que ame a vingança. Recordamos

que fomos escravos no Egito,

lembramos dos pogroms, recordamos

as perseguições religiosas, as perseguições

raciais, lembramos e estudamos

a Shoá, mas não cultivamos a

segregação, ainda que tenhamos credenciais

para isso. Devemos estar orgulhosos

de semelhante conquista.

Jamais em Israel, nem em nenhuma

comunidade judaica do mundo celebraram-se

as mortes de árabes ou palestinos,

por exemplo.

É freqüente reclamar justiça, mas

nunca vingança. A honra não passa pelo

dano ao outro, senão na superação da

ofensa. Esta qualidade não deriva de

genes nem fenotipos. É produto de uma

longa história, na qual aos judeus parecia

impossível defender-se fisicamente.

Imaginem um shtetl invadido por huligans

ou cossacos, que invadiam a aldeia,

violavam mulheres, arrancavam

barbas, matavam crianças, degolavam

VISÃO JUDAICA setembro de 2008 Elul / Tishrê 5768 / 5769

que se punha diante deles, rapinavam,

incendiavam e iam satisfeitos. O que

podiam fazer os judeus? Persegui-los?

Matar cossacos? Com o quê? Como?

Choravam, enterravam os mortos, curavam

os feridos, consolavam os parentes

e depois rezavam, cantavam, reconstruíam.

Seguia a vida. Dessa forma

se instaurou um valor impressionante,

exemplar, de opor à tragédia e o sofrimento,

a glória da criação.

Kol Nidré, por exemplo, é um fenômeno

musical único. Perguntamo-nos

como uma melodia perfeita, triste e profunda

pode-se expandir por vários continentes

numa época em que não havia

automóveis nem telefones, nem celulares.

De Paris a Bagdá, da Ucrânia a

Marrocos, entoava-se o mesmo Kol Nidré.

Impossível encontrar um fenômeno

musical parecido. Nessa música

roga-se perdão, mostra-se humildade,

reconhece-se a falibilidade do homem.

É a ante-sala que leva aos recintos subjetivos

mais profundos da paz. Integra

o repertório de rituais que impelem até

a concórdia, a bondade e a ética. Depois

do Holocausto, por exemplo, alguns

grupos quiseram vingar-se dos

nazistas e os colaboracionistas. Mas

não foram grupos significativos. O

esforço do povo judeu foi dirigido

para obter a independência de Israel,

a seguir adiante, e superar a tragédia

mais terrível de sua história mediante

a criação solidária.

Nós os judeus estamos acostumados

a sacrifícios para construir. É uma

conduta oposta a outras culturas, nas

quais as pessoas também se sacrificam

- e muito -, mas para destruir. Basta lançar

um olhar ao que acontece nesta região.

Enquanto os israelenses vêm

construindo desde muitas décadas antes

da independência nacional, os palestinos

vêm destruindo até o que poderia

ser tomado como botim de guerra,

e coloco como exemplo lamentável

o ocorrido em Gaza.

Passo ao quinto e último ponto, o

que se refere à razão pela qual estamos

hoje aqui reunidos: o Estado de

Israel, em seu sexagésimo aniversário

da Independência. Para dizê-lo em poucas

palavras, afirmo que é o empreendimento

coletivo mais grandioso que o

povo judeu realizou em 2 mil anos. Não

há outro país que em tão pouco tempo

tenha alcançado tudo o que alcançou o

Estado de Israel. Há pouco li um artigo

do escritor e jornalista cubano-espanhol

Carlos Alberto Montaner. Iniciava falando

dos Tigres do Extremo Oriente: Coréia

do Sul, Taiwan, Singapura, Malásia.

Depois mencionou o Tigre da Oceania:

Nova Zelândia. Mais adiante, surgiu outro,

inesperado, porque tinha sido um

país periférico, agrícola, católico e muito

conservador: Irlanda, batizada agora

como o Tigre Celta. A Estônia se tornou

o Tigre Báltico. Mas do que se esquece

o mundo é que também existe

outro Tigre, muito vigoroso, e que ele

chama o Tigre Semita: Israel. Não há

outro país nas extensões do âmbito semita

que tenha obtido o crescimento

assombroso de Israel a partir de uma

carência quase absoluta de recursos

naturais. Em que pesem as incessantes

e graves dificuldades padecidas,

conseguiu instalar-se entre os trinta

países mais adiantados do universo.

Observemos. Em que lugar se conseguiu

transformar um idioma dormente

como o hebraico, numa linguagem

moderna e eficiente, com todas as sutilezas,

a cor e a emotividade que exigem

a ciência, a tecnologia, as artes, a

literatura e a vida cotidiana? Israel gerou

escritores que são traduzidos para

dezenas de idiomas e gozam de alto

prestígio. O hebraico moderno penetra

na alma e se tornou um afiado instrumento

de comunicação. Este fenômeno

lingüístico não tem paralelo.

Tampouco faz falta galopar pelos

inumeráveis aportes que Israel brindou

na biologia, na informática, na irrigação,

etc. A lista é esmagadora, parece

impossível, parece um transbordar de

fantasia. Mas é verdadeira.

Devemos nos manifestar com veemência

para que cada judeu constitua

um orgulho - que não deveríamos regatear

- a firmeza e naturalidade com que

se manteve a democracia. Rodeado por

um oceano de países onde a democracia

não existe ou é apenas uma ilusão,

este pequeno e enérgico Israel a exerceu

e exerce a todo custo.

Também rendo minha homenagem

a sua Justiça, que figura entre as mais

confiáveis do planeta. Seguramente

sabem melhor que eu que o Palácio da

Justiça em Jerusalém está numa colina

um tanto mais elevada que a da própria

Knesset, sem falarmos a respeito

do Poder Executivo. A justiça mais elevada.

A justiça é um elemento axial da

vida comunitária que os judeus aprenderam

a valorizar desde a antiguidade

mais remota, e foi exercida inclusive

nos shteitls, como a base e o cimento

unificador desses mini-estados.

Na qualidade de argentino e latino-americano

confesso minha inveja

por esta democracia, por esta justiça

e pelo impulso obstinado de progredir

que reina aqui. Expresso com a mão

no peito minha admiração por sua rica

e dinâmica pluralidade cidadã. O Estado

e o povo de Israel, com suas infinitas

complexidades, são protagonistas

de uma das epopéias mais notáveis

da história.

Digo com ênfase, porque é necessário

contra-argumentar a onda de ódio

e preconceito que sopra contra nós. Os

governos de Israel e muitos de seus

dirigentes cometeram erros ou perderam

oportunidades. É humano, ocorre

em todas as partes. Mas isso não chega

a desconhecer os extraordinários

méritos acumulados nestes vibrantes

e admiráveis 60 anos de independência,

mais as décadas de esforço titânico

e potente idealismo que vinham

sendo realizados muito antes.

Termino com o tradicional brinde de

manifestar que não nos conformamos

com 60 anos, mas pedimos por 120

anos, certos de que aos 120 anos voltaremos

a pedir por muitos mais, até o

fim dos tempos. Grato por me ouvirem.

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VISÃO JUDAICA setembro de 2008 Elul / Tishrê 5768 / 5769

Clara Ant, assessora especial do Presidente, o

presidente Lula e a embaixadora Tzipora Rimon

A embaixadora de Israel, Tzipora Rimon, começou

a apresentar suas despedidas às autoridades

e comunidades israelitas do Brasil. O primeiro

de quem ela se despediu - vai assumir

novas funções na diplomacia israelense - foi o

presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Palácio

do Planalto, dia 3/9.

Ministra Dilma Roussef, o presidente Lula e a

embaixadora Tzipora

Colabore com notas para a coluna.

Fone/fax 0**41 3018-8018 ou e-mail:

visaojudaica@visaojudaica.com.br

A psicóloga Rachel Jurkiewicz obteve o título de Doutora em Ciências

pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, na

área de Cardiologia. O título da tese apresentada foi "Vivência de

perdas: relação entre eventos significativos, luto e depressão, em

pacientes internados com doença arterial coronariana". Mazal Tov!

Entre 10 e 14 de setembro, as voluntárias de todo o Brasil da Na'amat

Pioneiras estiveram reunidas em Porto Alegre, berço da organização, para

comemorar os seus 60 anos de atividades. Com o tema 'Novos Tempos -

Valores Eternos', e um jantar marcaram a fundação da entidade.

A reunião discutiu ainda temas inerentes à condição feminina, judaica e

sionista, itens que fazem parte dos seus objetivos de atuação das Pioneiras.

Foram homenageadas as fundadoras e todas as mulheres que trabalham

em prol dos ideais das Pioneiras que, no Brasil, está presente em 11

Estados: Pará, Amazonas, Rio Grande do Norte, Ceará, Pernambuco, Bahia,

São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul.

Entre os palestrantes convidados da reunião das Pioneiras, destacaramse

a participação da escritora Cíntia Moscovich, do jornalista Jaime Sirotsky

e da socióloga Vanessa Scliar.

Da esquerda para direita, subtenente assessor

do Adido Coronel Aviador Ricardo Vieira, chefe

do escritorio da FAB em Tel Aviv, coronel

Puchalski, Adido Militar do Brasil em Israel

A Aditância de Defesa,

Naval, do Exército e Aeronáutica

do Brasil em

Israel comemorou em

Tel Aviv o 9º aniversário

de criação do Ministério

da Defesa. Cerca de duzentos

convidados, incluindo

adidos militares

de mais de trinta países,

autoridades militares locais,

diplomatas e amigos

da aditância, compareceram

ao evento.

Daniel Benzecry toca o shofar na Escola Israelita

Os preparativos para a celebração de

Rosh Hashaná já estão a todo vapor

na EIBSG. Segundo a morá Denise

Weishof: "Iniciamos o chodesh de Elul

tocando shofar todas as manhãs e

como convidados especiais recebemos

os srs. Saadia Cohen e Victor Baras do

minián da Sinagoga. As crianças também

têm praticado bastante nos intervalos

das aulas.

No Gan (Educação Infantil) agradecemos

a visita do dr. Daniel Benzecry, pai

da aluna Deborah do Jardim I, que tocou

o shofar para os alunos da Educação

Infantil. Foi um momento maravilhoso!

Os rabinos Tzvi Beker e Fitche realizarão

na escola um workshop com os alunos

sobre a escrita da Torá, mezuzot e tefilin.

Nesta época de reflexão e revisão de

nossos atos, vale a pena também revisarmos

nossos utensílios sagrados.

O Tashlich da escola será realizado com

pais e alunos em uma cerimônia simbólica

na piscina do CIP, dia 29/09 - véspera

do chag, às 11h30. Logo após, haverá um

lechaim desejando Shaná Tová Umetuká

e um feliz 5769!

No dia 21/9 ás 15 h, a escola realizará

um domingo especial referente a Rosh

Hashaná, convidando pais, alunos, professores

e Kehilá. As atividades serão vivências

em cantos e prometem ser muito

especiais! "


Coluna Coluna Israel, Israel, seu seu povo, povo, sua sua liderança

liderança

Moisés, o nosso Mestre - II

Antônio Carlos Coelho *

Na edição passada comecei a

escrever sobre Moisés, "nosso

mestre". Destaquei seus valores

humanitários e de solidariedade

com os que sofriam sob o jugo dos

feitores egípcios, atitudes que o

levaram a sair do Egito e iniciar

uma nova vida no deserto.

A história nos conta que Moisés

descansava próximo a um

poço, na terra de Midian, quando

ouviu vozes aflitas de mulheres

sendo atacadas por pastores.

Moisés, mais uma vez, agiu em

favor dos mais fracos: as defendeu

e expulsou os malfeitores.

De fato em fato, a cada ação

de Moisés, a sua vida foi ganhando

uma nova forma. Era

príncipe no Egito, depois experimentou

a condição de fugitivo

no deserto e, por fim, acabou

encontrando as sete filhas

de Ruel (Yetró). Acolhido na

casa deste senhor, que era um

chefe tribal na terra de Midian

(ou um sacerdote midianita),

acabou casando com uma das

suas filhas, Tsipora. Deste casamento

nasceu um filho, Gershom,

que quer dizer, "peregrino

em terra estrangeira".

Moisés, casado e com um fi-

lho, permaneceu na casa do sogro,

trabalhando como pastor.

Realmente, a vida de Moisés

mudou muito. De príncipe tornou-se

pastor. Da situação cômoda

e segura de um membro

da família real de uma das maiores

potências da antiguidade,

tornou-se um pastor de cabras

no deserto. O pastor nada porta

consigo, senão um bastão para

apoiar-se e, se for necessário,

defender-se de algum agressor;

e habita em tendas frágeis, próprias

dos nômades do deserto.

Mais uma vez a vida de Moisés

justifica o seu título, "nosso

mestre". Passar da comodidade

e segurança para a fragilidade

das tendas e para o desapego

que o deserto oferece

e, mesmo assim, preservar valores

e fidelidade ao seu D-us,

é a lição do mestre.

Após a destruição do Templo,

Israel foi obrigado a sair da

sua terra. Foi uma saída para sobrevivência.

Habitou em terras

estrangeiras assim como Moisés.

Deixou a comodidade da

terra, da sua agricultura e comércio,

das suas casas e sinagogas,

para viver entre outros

povos e costumes.

Israel, na Diáspora, experi-

* Antônio Carlos Coelho é professor universitário, escritor, diretor do Instituto de Ciência e Fé e colaborador

do jornal Visão Judaica.

VISÃO JUDAICA setembro de 2008 Elul / Tishrê 5768 / 5769

mentou costumes de povos estranhos

e se submeteu às condições

possíveis de sobrevivência.

Por séculos experimentou a

privação da propriedade e a fragilidade

das vontades políticas

dos governantes e a ira do cristianismo

que, os forçavam a viver

na condição de nômades, vagando

de país a país, desde a

Ásia, à Europa e à América.

E, como o mestre, guardaram

os valores da tradição e os

transmitiram de geração em geração,

preservaram laços profundos

de identidade como povo,

sendo estes, renovados na solidariedade

e nos compromissos

comunitários. A vida judaica preservou,

no seu âmbito, valores

morais e éticos que a manteve

a despeito da insegurança e fragilidade

oferecida pelos países

da europeus.

A cada mudança imposta ao

povo de Israel, uma nova vida

surgia - e com mais vigor - com

uma teimosa insistência pela

continuidade, tanto foi que, em

vinte séculos de história, o pequeno

povo de Moisés permaneceu

integro, contribuindo para a

riqueza das artes, da economia,

das ciências, na terra estrangeira

em que habitassem.

A guarda dos

valores judeus

com a Torá

Violinista

verde de

Chagall -

sobre o

telhado,

representando

a fragilidade

do povo

judeu

Moisés e Tsipora - imagem do filme os Dez Mandamentos,

de Cecil B. De Mille, com Charlton Heston

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22 (com

VISÃO JUDAICA setembro de 2008 Elul / Tishrê 5768 / 5769

Hamas ameaça mais seqüestros

O chefe político do movimento fundamentalista

Hamas, Khaled Meshaal, ameaçou

seqüestrar outros cidadãos israelenses

caso Israel não liberte os palestinos que

mantêm detidos. "Se nossos inimigos não

libertarem nossos prisioneiros, Gilad Shalit

não será o último israelense capturado",

advertiu Meshaal. Shalit, um cabo do

exército de Israel, foi seqüestrado em

junho de 2006 por um grupo radical terrorista

de Gaza vinculado ao Hamas.

Meshaal, que vive em exílio na capital da

Síria, disse que nas prisões israelenses

há milhares de palestinos detidos. O dirigente

do Hamas se esconde em Damasco

com receio de ser morto em Gaza.

(Ansa e Visão Judaica).

Conferência em Roma

VISÃO

Foi realizada no Vaticano, a conferência

"Israel e Santa Sé: reflexões sobre a cultura

judaico-cristã". O evento foi promovido

pelo Pontifício Conselho para a Cultura

e pela Embaixada de Israel junto à

Santa Sé. Um das questões discutidas na

conferência foi a polêmica causada pela

modificação do texto da oração da Sexta-feira

Santa da liturgia pré-conciliar.

Segundo a comunidade judaica internacional,

a oração é ofensiva porque implica

o conceito de "conversão" dos judeus.

O objetivo da relação entre as duas comunidades

é que cada uma conserve a

própria face, sem que esta face seja

agressiva. O embaixador de Israel junto

à Santa Sé, Oded Ben-Hur, apresentou um

projeto comum entre os dois Estados que

inclui temas como a luta contra o antisemitismo

e o terrorismo, intercâmbios

culturais, acadêmicos e, por fim, incentive

as peregrinações, "máxima expressão

do diálogo necessário no Oriente Médio".

(L'Osservatore Romano).

Israel frustra seqüestros do Hezbolá

panorâmica

Os serviços secretos de Israel, em parceria

com órgãos de inteligência de outros

países, evitaram diversos seqüestros

de cidadãos israelenses planejados

para ocorrer em várias partes do mundo,

inclusive na América do Sul. A informação

foi divulgada pela imprensa de

Israel e confirmada pelo ministro da

Defesa, Ehud Barak. Barak não forneceu

detalhes sobre as supostas operações

de inteligência promovidas, mas, de

acordo com o que foi divulgado, estavam

planejados entre cinco e sete seqüestros,

todos atribuídos ao grupo xiita libanês

Hezbolá, ocorreriam no oeste da

África, na América do Norte, na América

do Sul e na Ásia. Os alvos seriam empresários

e representantes do governo,

e os seqüestros teriam como objetivo

vingar a morte de Imad Mugniyah, ocorrida

em fevereiro, na Síria. (Ansa).

informações das agências AP, Reuters, AFP,

EFE, jornais Alef na internet, Jerusalem Post,

Haaretz e IG)

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Seqüestros do Hezbolá II

• Yossi Groisseoign •

Os serviços de segurança israelenses dizem

ter registrado intensa atividade de

membros do grupo xiita no exterior, sobretudo

na América do Sul. Já faz algum

tempo que o governo norte-americano

denuncia a presença de membros do Hezbolá

e outras organizações na região da

Tríplice Fronteira, entre Brasil, Argentina

e Paraguai. Alguns setores políticos sulamericanos,

contudo, dizem que é um

argumento usado pelos Estados Unidos

para reforçar sua presença militar na região,

rica em recursos naturais estratégicos.

Na Argentina, na década de 90,

dois atentados realizados no país tiveram

como alvo entidades de representação de

Israel. Em 1992, um carro-bomba explodiu

em frente à Embaixada de Israel,

matando 29 pessoas e deixando mais de

100 feridos. Dois anos depois, um ataque

suicida na sede da Associação Mutual

Israelita Argentina (Amia), fez 85 vítimas

e mais de 200 feridos. (Ansa).

Policiais brasileiros em Israel

Convidados por Israel, dois policiais brasileiros,

o comandante do BOPE-DF, Wilson

Moretto e o capitão Marcos Alexandrino

Vieira, chefe da Secretaria Regional

de Inteligência do Paraná, participam

com colegas policiais de toda a América

Latina do Curso Internacional "Policia e

a Comunidade" que ocorre em Israel no

"Instituto Internacional da Histadrut",

entre 4 e 24 de setembro de 2008. O

curso aborda a experiência policial israelense

e de policiais de países participantes,

assim como a observação e análise

dos modelos de participação comunitária

executados pela Policia de Israel e de

diversas polícias latino-americanas. No

programa também estão a perspectiva

integral comunitária para o trabalho preventivo,

capacitação da Polícia Comunitária,

inserção da Polícia Comunitária no

sistema educativo, integração de organizações

voluntárias ao trabalho da Polícia,

dentre outros, temas que visam aprimorar

a relação do policial com a sociedade.

(Embaixada de Israel).

Filho de líder do Hamas vira cristão

O filho de um dos líderes mais populares

da organização terrorista Hamas mudouse

para os Estados Unidos e se converteu

ao cristianismo. Em entrevista exclusiva

ao jornal Haaretz, Masab Yousuf, filho do

xeique Hassan Yousef, líder do Hamas da

Margem Ocidental, criticou duramente o

Hamas, elogiou Israel e disse esperar que

seu pai terrorista abra os olhos para o cristianismo.

"Sei que estou colocando minha

vida em perigo e estou em risco de perder

meu pai, mas espero que ele entenderá

isso. Talvez um dia poderei voltar à Palestina

e para Ramala", disse Masab. Ele de-

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clarou que no passado ajudou seu pai nas

atividades do Hamas, mas agora ele tem

amor por Israel e lamenta a existência do

Hamas. (Haaretz/WND)

Filho de líder do Hamas II

Prosseguindo, afirmou: "Mandem minhas

saudações a Israel. Sinto falta desse país.

Respeito Israel e o admiro como um país.

Vocês judeus precisam estar cientes: Vocês

nunca, mas nunca terão paz com o

Hamas. O islamismo, como a teologia que

os guia, não permitirá que eles cheguem

a um acordo de paz com os judeus. Eles

crêem que a tradição diz que o profeta

Maomé lutou contra os judeus e que portanto

eles devem continuar a lutar contra

eles até a morte". Masab criticou fortemente

a sociedade palestina como

"uma sociedade que santifica a morte e

os terroristas suicidas. Na cultura palestina,

um terrorista suicida se torna um

herói, um mártir". O pai de Masab cumpre

sentença de prisão em Israel por planejamento

ou envolvimento em múltiplos

ataques terroristas, inclusive a explosão

suicida em 2002 no restaurante da Universidade

Hebraica de Jerusalém, onde

nove estudantes e funcionários foram

mortos. (Haaretz/WND).

Olmert vai renunciar

O primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert,

garantiu que vai renunciar ao cargo

assim que seu partido Kadima eleger

um novo líder, na próxima semana. "Imediatamente

depois que um novo líder for

escolhido para o Kadima, em 17 de setembro,

planejo renunciar ao meu cargo

e vou dizer ao presidente que a pessoa

que for a eleita será digna de estabelecer

um novo governo", declarou o primeiro-ministro

de Israel. (Agências).

Brasil inaugura nova embaixada em Israel

Desde o dia 11/9, a Embaixada do Brasil

em Israel está atendendo na Rua Yehuda

HaLevi, número 23, 30º andar, Tel-Aviv, Israel,

código postal 65136. De acordo com

o embaixador Pedro Motta Pinto Coelho,

"a mudança, para instalações novas e

modernas, reflete o novo momento das

relações do Brasil com Israel que exigem,

pela sua dinâmica e crescimento, condições

ainda mais adequadas de trabalho e

representação". Os números telefônicos,

de fax e endereços eletrônicos permanecem

inalterados. (Jornal Alef).

Grande negócio

A empresa israelense Gazit Globe comprou

por R$ 35 milhões o "Italian Mall",

um shopping center de 16,3 mil metros

quadrados de área bruta locável em Caxias

do Sul. O "Italian Mall" está ainda

em construção e deve estar concluído em

2009. Sediada em Tel-Aviv, a Gazit é terceira

maior empresa do setor imobiliário

de Israel em valor de mercado. Em março,

a empresa fez a sua maior aquisição

ao comprar, por 800 milhões de euros, o

controle da Meinl European Land, da Áustria,

em sociedade com um fundo de in-

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vestimentos do Citigroup. (Jornal Alef).

Holocausto e Anti-semitismo

O grupo de pesquisa "Holocausto e Anti-

Semitismo", do Laboratório de Estudos

sobre a Intolerância da Universidade de

São Paulo, realizará, de 2 de outubro a 1º

de dezembro, o curso on-line "Panorama

Histórico do Holocausto", sob coordenação

do professor Samuel Feldberg. Tratase

de curso gratuito, com aulas em ambiente

web-class, fóruns semi-presenciais

e certificado pela USP. Serão disponibilizados,

para as aulas, artigos publicados

em formato PDF/HTML, trechos de filmes,

poemas, canções, fotografias e ilustrações,

cópias de textos e documentos de

época. No final de cada bloco de aulas,

haverá ainda chats para consulta ao vivo

com professores participantes. As inscrições

deverão ser feitas pelo sistema imoodle,

no Portal "Rumo à Tolerância", até o

dia 30 de setembro. (Jornal Alef).

Restituição solicitada

Os herdeiros do banqueiro judeu de Berlim,

Paul von Mendelssohn-Bartholdy,

pediram a restituição de dois quadros de

Pablo Picasso a dois museus de Nova

York. Eles alegam que as obras, avaliadas

em US$ 200 milhões, cada uma, foram

confiscadas pelos nazistas e pedem

que o Museu de Arte Moderna (MoMA)

devolva a obra "Jeune homme et cheval"

e o museu Guggenheim o quadro "Le

moulin de la Galette". (Jornal Alef).

Kehilá do PR tem nova diretoria

Em assembléia realizada dia 3/9 foi reeleita

Ester Proveller para presidente da

Kehilá do Paraná. Os novos integrantes:

1º vice-presidente, Jaime Emílio Galperin;

2ª vice-presidente, Anais Malamut; Secretário,

Szyja Lorber; diretor adm. financeiro,

Benny Slud; diretor adjunto adm. financeiro,

Claúdio Hoffmann; diretor de patrimônio

e segurança, Fernando Brafmann;

diretor religioso, Jayme Nudelman; diretor

de educação, André Lissner; diretora

de cultura, Sara Schulman; diretora beneficente

Dora Miller; diretor social. José

Jakobson; 2ª diretora social, Sandra Jakobson;

diretor de esportes, Rogério Kriger;

2º diretor de esportes Márcio Feldman;

diretor de juventude Miguel Zindeluk; diretora

de relações públicas e divulgação,

Ilana Lerner Hoffmann e diretora jurídica

Marly Kunifas. Foram eleitos ainda os novos

integrantes do Conselho Deliberativo

da Kehilá: presidente, Eduardo Schulman;

vice Gabriel Schulman; 1º secretário, Szyja

Lorber; 2ª secretária Sara Schulman. Os

membros são: Ari Zugman, Gerson Raskin,

Helio Rotemberg, Isac Weishof, Martha

Schulman, Miguel Gellert Krigsner, Nelson

Barbalat, Roland Hasson, Sergio Wagner

Fisbein, Silviane Sasson, Ester Proveller,

Jaime Emilio Galperin, Anais Malamut,

Jayme Nudelman, André Lissner, Dora Miller,

Sara Schulman e Fani Lerner. Suplentes:

Ralf Paciornik, Helio Schulman, Simone

Soifer, Rosa Krieger, Fani Zugman e Etel

Lerner. Conselho Fiscal: Leon Dinner Jakubowicz,

Paulo Wassermann e Henrique Lerner;

Suplentes Julio Zugman, Miguel Zindeluk

e Ilana Lerner Hofmann. (Kehilá).


* Pilar Rahola é

conhecida jornalista,

escritora e tem programa

na televisão espanhola.

Foi vice-prefeita de

Barcelona, deputada no

Parlamento Europeu e

deputada no Parlamento

espanhol. Publicado no

jornal La Vanguardia

(Barcelona). Tradução:

Szyja Lorber.

LÍBANO LÍBANO

LÍBANO

Pilar Rahola *

uma de suas magníficas crônicas

de Bogotá, o jornalista

Joaquim Ibarz recorria às

declarações de um ex-guerrilheiro

e agora analista venezuelano,

Martin Americas,

que dizia: "O fortalecimento de Uribe

e o brilhante resgate de Ingrid significar

uma derrota clara para os planos

de Chavez de exportar a sua fantasmagórica

revolução". Com várias

nuances, esta reflexão é o eixo central

das análises que estão sendo feitas

a partir do continente americano,

e que sublinham, como se se tratasse

de uma competição, quem ganhou

e quem perdeu com a libertação de

Ingrid Betancourt.

Sem dúvida, a espetacular libertação

da seqüestrada mais simbólica

das FARC fez subir a popularidade

do presidente Uribe e tem deixado

no chão todos aqueles que apostaran

na ambigüidade ou diretamente,

através do apoio ao grupo guerrilheiro.

Do ponto de vista geopolíti-

co, então, Ingrid Betancourt deu pontos

a Uribe, que tem mantido posições

de grande inteligência estratégica,

e que teve um êxito histórico,

só comparável ao que Alberto Fujimori

tinha com o Sendero Luminoso,

antes de se tornar um déspota.

Também trouxe vantagens a Nicolas

Sarkozy nas suas horas mais baixas.

Sem dúvida, para a França que

viu chorar a família de Ingrid Betancourt,

que ouviu a bela carta que enviou-lhe

seu filho, que ama ser o centro

do mundo, a chegada de Ingrid em

Paris, foi um evento exultante, que

traz de volta algo da maltratada autoestima

francesa.

E, com toda a discrição, algo do

êxito popular também alcançou os serviços

secretos israelenses e à inteligência

norte-americana, ambas notoriamente

envolvidas na operação de

salvamento, conforme li na imprensa

do continente. Estes são os grandes

ganhadores, juntamente com os reféns,

as famílias e o próprio povo colombiano,

que está comemorando o

maciçamente a libertação.

VISÃO JUDAICA setembro de 2008 Elul / Tishrê 5768 / 5769

As vozes do seqüestro

Quem são os perdedores, para

além das FARC, que obviamente sofreram

um golpe quase fatal? Sem dúvida,

o Triângulo das Bermudas do bolivarismo,

e que têm em Chavez e Correa

seus dois líderes extravagantes. As

piruetas que Chavez está fazendo estes

dias, esquecendo-se das atrocidades

que disse sobre Uribe, enviandolhe

abraços virtuais, só são comparáveis

ao espantalho cubano de Fidel,

que agora diz que as FARC são boas,

mas manter seqüestrados, nem tanto.

Belo espetáculo, do manual do bom

demagogo, desses dois dinossauros

em suas horas de decadência.

Mas merece uma atenção especial,

no clube dos derrotados, o papel

de Rafael Correa, o presidente do

Equador, cujo envolvimento com as

FARC ficou visívelmente desnudado

com as informações contidas no computador

de Raul Reyes, e ratificado

pela Interpol. As declarações feitas

por Correa, depois da libertação de

Betancourt, pareceram-me as mais

pornográficas de tudo o que se disse

nestes dias, com a exceção de um co-

23

mentarista da televisão venezuelana

- que ouvi pela Univision - que tachou

Ingrid Betancourt de "lacaia de Uribe"

porque agradecera ao presidente

sua libertação. Em outras palavras, a

pobre Ingrid era culpada de ter se deixado

libertar. Mas no espectáculo da

demagogia e da falta de humanidade,

Correa brilhou com luz própria,

provavelmente encurralado pelas evidências

de seu envolvimento com as

FARC. A única coisa que preocupou o

presidente, na libertação, foram as

"falhas" que a guerrilha teve, e que

dão publicidade a Uribe. Pobre Equador,

em tais mãos!

Não queria terminar sem recolher

o testemunho que a Rádio Caracol lança

a partir de 'Vozes do seqüestro',

fundada pelo ex-seqüestrado Herbin

Hoyos Medina. Ainda há 700 pessoas

seqüestradas, extorquidas como mera

mercadoria. As FARC estão agonizando,

mas ainda são uma máquina de

sofrimento, tortura e morte. Na libertação

de Ingrid Betancourt, a melhor

homenagem é, pois, lembrar as centenas

de Ingrids remanescentes.

"Atos terroristas" são cultuados em museu

A multidão de crianças se reúne em

torno da sala envolta em vidro, ansiosa

para contemplar as roupas ensangüentadas

do mártir. O cinto dele está aqui, e os

sapatos que ele usava ao morrer, marcados

por estilhaços. A mesa cambaia na

qual ele planejava operações militares

ainda abriga sua caixa de lápis, sua bandeja

de correspondência, seu celular.

"Que Alá mate aquele que o matou",

profere uma velha, enxugando as lágrimas

que escorrem quando ela contempla

através do vidro.

O morto que atrai tamanha veneração

é Imad Mugniyah, o sorrateiro comandante

do Hezbolá. Até sua morte em um atentado

por carro bomba na Síria, em fevereiro,

ele era virtualmente desconhecido

aqui, e seu papel de liderança no grupo

militante xiita estava envolto em sigilo.

Mas desde então o Hezbolá o vem descrevendo

como um dos grandes líderes militares

na luta contra Israel.

O grupo agora inaugurou uma mostra

em honra de Mugniyah, acusado por

muitos no Ocidente de ter liderado atentados

a bomba devastadores, seqüestros

de pessoas e de aviões nos anos 80 e

90. Seu rosto severo, barbado, domina a

área de estacionamento do local em que

a mostra está instalada em Nabatiyeh,

uma cidade no sul do Líbano, ladeado por

faixas que o exaltam como "o líder das

duas vitórias" - a retirada israelense do

sul do Líbano em 2000 e a guerra contra

Israel em 2006.

A exposição, inaugurada em 15 de

abril, é o mais ambicioso esforço multimídia

que o Hezbolá já empreendeu, e

tem por objetivo dramatizar o amargo

conflito entre o grupo e Israel no segundo

aniversário da mais recente guerra

entre ambos. Estudantes das escolas locais

não param de chegar ao longo do dia,

absorvendo a mensagem cuidadosamente

ajustada de resistência heróica. À noite,

espetáculos de luzes e laser iluminam

as armas e os tanques, e as multidões

que não param de chegar têm mantido a

exposição aberta até a uma da manhã.

À primeira vista, a exposição quase

poderia ser confundida com um museu ao

ar livre. O toldo verde da entrada é uma

imensa réplica do boné que Mugniyah

sempre usava, e os visitantes passam por

uma "ponte da vitória" construída em parte

com projéteis de artilharia. Mas logo a

mostra toma um tom mais bruto.

Um falso esqueleto vestindo capacete

e um uniforme rasgado é identificado

por uma placa que diz "o invencível soldado

israelense". Há tanques israelenses

capturados posicionados em ângulos inesperados,

com as escotilhas quebradas e

queimadas. Enquanto os visitantes se

aglomeram diante das diversas peças, a

música da trilha sonora ressoa pelo pavilhão,

misturada a sons de bombas e metralhadoras

e a discursos belicosos.

Também há uma gama impressionante

de mísseis antitanque e artilharia do

Hezbolá, todos identificados cuidadosa-

mente. Há até mesmo vitrines de exposição

contendo óculos, roupas e as cartas

que portavam dois outros importantes líderes

do movimento, ambos mortos.

Mas o cerne fantasmagórico da exposição

é a sala envolta em vidro que mostra

as posses pessoais de Mugniyah. O

tapete que ele usava em suas orações

está lá, como seus chinelos e sua escova

de cabelos - quase como se os objetos

fossem as relíquias de um santo.

Em uma tarde recente, a multidão

de visitantes observava com admiração

pelo vidro, e algumas pessoas choravam

abertamente.

"Vejam, lá está sua arma", gritou um

menino que usava um uniforme militar,

puxando os pais pelas mãos para que observassem

de mais perto.

Um jovem guia do Hezbolá, postado ao

lado, explicou que a arma era um AK-47

modificado, mais poderoso e capaz de disparar

mais rápido que o modelo padrão. "Ele

não ia a lugar algum sem a arma - era parte

de sua alma", disse o guia, que como os

demais militantes que trabalham na exposição

não forneceu seu nome, respeitando

as normas do Hezbolá quanto ao sigilo.

O momento é tenso no Líbano. No

mês passado, o país formou um novo governo

de transição no qual a oposição,

liderada pelo Hezbolá, dispõe de assentos

suficientes no gabinete para exercer

poder de veto. Novas eleições estão

marcadas para o ano que vem.

Membros do Hezbolá recentemente

renovaram suas advertências de que retaliarão

contra Israel, a quem atribuem a

culpa pela morte de Mugniyah. De fato,

semana passada jornais israelenses reportaram

que agentes dos serviços de

segurança do país impediram pelo menos

cinco tentativas de seqüestros de cidadãos

israelenses em outros países.

Israel nega qualquer participação na

morte de Mugniyah, que aconteceu em

Damasco, a capital da Síria. Mas agentes

israelenses e ocidentais passaram 25

anos em perseguição a Mugniyah, a quem

era atribuída a culpa por uma série de

atentados e seqüestros, entre os quais o

atentado suicida contra um quartel dos

Fuzileiros Navais norte-americanos em

Beirute, que resultou na morte de 241

militares norte-americanos em 1983.

Acredita-se que Mugniyah passasse

boa parte de seu tempo no Irã e na Síria,

ainda que seus paradeiros permanecessem

em geral desconhecidos. Se bem que

a exposição sirva de fato como prova do

novo status de Mugniyah como herói público

do Hezbolá, também oferece prova

dos esforços cada vez mais sofisticados

do grupo para conquistar os corações e

mentes de uma nova geração.

O Hezbolá já havia organizado exposições

semelhantes no passado, especialmente

uma reprodução de uma casamata

militar que foi aberta em Beirute um

ano atrás, com o título "A Teia da Aranha",

para celebrar o primeiro aniversário

da guerra de 2006.


24

* Daniel Pipes é uma das

maiores autoridades sobre

o Oriente Médio e o Islã. É

diretor do Middle East

Forum, colunista

premiado dos jornais New

York Sun e The Jerusalem

Post, é autor de doze

livros. Publicado no

Jerusalem Post dia 17 de

abril de 2008. O original

em inglês A Democratic

Islam? Está em http://

pt.danielpipes.org/article/

5530

Tradução: Joseph Skilnik.

VISÃO JUDAICA setembro de 2008 Elul / Tishrê 5768 / 5769

Daniel Pipes *

xiste a impressão de que

os muçulmanos sofrem

desproporcionalmente da

liderança de ditadores, tiranos,

presidentes não-eleitos,

reis, emires e de vários

outros homens-fortes - o que está rigorosamente

certo. Uma análise cuidadosa

realizada por Frederic L. Pryor

da Faculdade de Swarthmore no Middle

East Quarterly ("Os Países Muçulmanos

São Menos Democráticos?")

concluiu que "na sua maioria, tirando

os países mais pobres, o islã está associado

com menos direitos políticos".

O fato de que a maioria dos países

muçulmanos são menos democráticos,

nos instiga a concluir que a religião

do islã, seu fator comum, é em si

incompatível com a democracia.

Eu discordo desta conclusão. A difícil

situação muçulmana de hoje, melhor

dizendo, reflete mais as circunstâncias

históricas do que as características

inatas do Islã. Colocando diferentemente,

o Islã, como todas as religiões

pré-modernas, é anti-democrática

em espírito. Porém, não menos do

que as demais, têm o potencial para

evoluir na direção democrática.

Um Islã democrático?

Tal evolução não é fácil para nenhuma

religião. No caso cristão, a batalha

para limitar o papel político da

Igreja Católica foi dolorosamente prolongada

por muito tempo. Se a transição

teve seu princípio quando Marsiglio

de Pádua publicou a Defensor pacis

no ano de 1324, demorou mais seis

séculos inteiros até que a Igreja se

reconciliasse com a democracia. Por

que a transição do Islã deveria ser mais

tranqüila ou mais fácil?

Fazer com que o Islã seja consistente

com os costumes democráticos

requererá mudanças profundas na sua

interpretação. Por exemplo, a lei antidemocrática

do Islã, a Shari'a, encontra-se

no âmago da questão. Elaborado

há mais de um milênio, prevê regras

autocráticas e a sujeição à submissão,

enfatiza a vontade de D-us

acima da soberania do povo e encoraja

a violenta jihad a fim de ampliar as

fronteiras do Islã. Mais do que isso,

privilegia anti-democraticamente os

muçulmanos sobre os não-muçulmanos,

os homens sobre as mulheres e

os homens livres sobre os escravos.

Para que os muçulmanos estabeleçam

democracias que funcionem em

sua plenitude, eles têm que basicamente

rejeitar os aspectos públicos da

Shari'a. Atatürk o fez frontalmente na

Turquia, outros porém apresentaram

abordagens mais sutis. Mahmud

Muhammad Taha, um pensador sudanês,

eliminou as leis públicas islâmicas,

fundamentalmente reinterpretando

o Alcorão.

Os esforços de Atatürk e as idéias

de Taha implicam que o Islã está em

constante evolução e entendê-lo como

imutável é um erro grave. Ou, na metáfora

viva de Hassan Hanafi, professor

de filosofia da Universidade do

Cairo, o Alcorão "é um supermercado,

onde se leva o que se quer e se deixa

o que não se quer".

O problema do Islã é menos ser

anti-moderno e mais o fato do seu processo

de modernização quase que nem

ainda ter começado. Os muçulmanos

podem modernizar sua religião, mas

isso requer mudanças enormes: Livrarse

da execução da jihad a fim de impor

o governo muçulmano, da cidadania

de segunda-classe para não-muçulmanos

e da pena de morte para a

blasfêmia ou para a apostasia. Incluir

liberdades individuais, direitos civis,

participação política, soberania popular,

igualdade perante a lei e eleições

representativas.

Contudo, dois obstáculos estão no

caminho destas mudanças. Especialmente,

no Oriente Médio afiliações

tribais permanecem sendo de suprema

importância. Explicado por Philip

Carl Salzman no seu recente livro, Cultura

e Conflito no Oriente Médio, estes

vínculos criam um complexo padrão

de autonomia tribal e centralismo

tirânico que obstrui o desenvolvimento

do sistema constitucional, o

reino da lei, da cidadania, da igualdade

dos sexos e os demais pré-requisitos

de um estado democrático. Somente

quando este sistema social arcaico

baseado na família for despachado,

poderá a democracia produzir reais

progressos no Oriente Médio.

Globalmente, o poderoso e convincente

movimento islâmico obstrui a

democracia. Busca o oposto da reforma

e da modernização - em outras

palavras a reafirmação da Shari'a na

sua totalidade. Um jihadista como

Osama bin Laden pode especificar

esta meta mais explicitamente do que

um político governante como o primeiro-ministro

Recep Tayyip Erdogan da

Turquia, mas ambos buscam criar uma

ordem totalmente anti-democrática,

se não totalitária.

Os islâmicos respondem de duas

maneiras à democracia. Primeiro, eles

a condenam como não-islâmica. O

criador da Irmandade Muçulmana, Hasan

al-Banna considera a democracia

uma traição aos valores islâmicos. O

teórico da Irmandade, Sayyid Qutb rejeita

a soberania do povo, assim como

Abu al-A'la al-Mawdudi, fundador do

Jamaat-e-Islami, do Partido Político do

Paquistão. Yusuf al-Qaradawi, o imã

da TV Al-Jazeera, afirma que eleições

são heréticas.

Apesar deste desprezo, os islâmicos

estão ansiosos em usar eleições

para chegar ao poder e se mostraram

hábeis conquistadores de votos; até

mesmo uma organização terrorista (Hamas)

ganhou uma eleição. Isto não os

faz serem democráticos, mas indica sua

flexibilidade tática e sua determinação

em chegar ao poder. Como Erdogan

explicou de forma reveladora, "a democracia

é como um bonde. Quando você

chega na sua estação, você desce".

Trabalho duro pode um dia fazer o

Islã se tornar democrático. Enquanto

isso, o islamismo representa a maior

força anti-democrática do mundo.


Irã tem a chave do que acontece

em Gaza, no Líbano e na Síria

Eduard Yitzhak *

A história se repete no Líbano. A evolução

da situação do país dos cedros se assemelha

à que prevaleceu no final dos anos

1960, com o denominador comum do papel

desestabilizador da Síria no Líbano,

com a incorporação do Irã como potência

emergente e controladora da Síria, do Hezbolá

e do Hamas.

A Síria nunca reconheceu a independência

de seu vizinho ocidental, como

o mundo árabe tampouco reconheceu

a independência de Israel, o país e pátria

dos judeus.

Até agora, a Síria recusou-se a estabelecer

relações diplomáticas com o Líbano,

nem houve troca de embaixadores, nem

traçado de suas fronteiras.

O comportamento da Síria para com seu

vizinho era de total ingerência através de

seu exército ocupante durante muito tempo

e agora pelo tecido de suas amplas redes

com os diferentes grupos libaneses.

A Síria sempre manipulou os seus

aliados libaneses, jogando com as contradições

confessionais libanesas, com

o fator árabe-palestino (a Síria considera

- com a total aquiescência dos "palestinos"

que o território israelense é

parte da Grande Síria), e emprega o terrorismo,

o exército e as pressões econômicas

para controlar o Líbano.

Desde a Revolução Islâmica do Irã

em 1979, a Síria (de maioria sunita e governada

pela minoria alauíta, ramo heterodoxo

dos xiitas) foi dependendo

cada vez mais do Irã e com a queda do

Muro de Berlim e do comunismo soviético,

o regime dos mulás substituiu a

outrora influência de Moscou.

Durante os anos da ocupação do Líbano,

a Síria subtraiu mais de 35 bilhões de

dólares que foram transferidos para o partido

Baas (este dinheiro representa 80% da

dívida externa libanesa). Através de atentados,

Damasco foi eliminando os deputados

opositores libaneses.

O regime baassista (nacionalista pan-

arabista e socialista de Damasco) apresenta

uma quebra econômica que é favorecida

pelo Irã, a nova potência emergente no

Oriente Médio. O Irã dirige a vontade política

da Síria e move diretamente os fios do

Hezbolá e do Hamas.

A obsessão patológica do regime de

Teerã é a destruição de Israel e o controle

hegemônico do mundo islâmico. O

Irã emprega simultânea e alternadamente

o Hezbolá e o Hamas em seus

embates contra Israel.

Há poucos dias, os redatores do jornal

de Londres Al-Sharq Al-Awsat e um

jornalista do portal reformista

www.metransparent.com criticaram o

Hamas, acusando-o de trazer sofrimento

desnecessário ao povo palestino através

de sua incompetência militar e política

e inclusive com a estupidez.

O editor do portal árabe liberal Aafaq,

Omran Salman, publicou em 9.1.2008

um artigo analisando os recentes desdobramentos

no Oriente Médio através

do prisma do conflito Estados Unidos-

Irã e argumentando que a hegemonia

iraniana sobre a região estava se tornando

uma realidade.

"A guerra do Líbano… anunciou o nascimento

de uma nova era na região"… "Pela

primeira vez em décadas, os EUA parecem

incapazes de influir nos eventos no Oriente

Médio, e já não têm a capacidade de castigar

ou premiar a nenhum estado, tal como

sempre o fazia. Ao mesmo tempo, o Irã e

seus aliados apareciam como se estivessem

se preparando para tomar a iniciativa,

ambos na região do Golfo e no Oriente

Médio em geral. Assim entramos na era da

hegemonia iraniana no Oriente Médio".

O Irã é governado por um regime islâmico

iluminado e totalitário cujo objetivo

final é impor o Islã, de tipo xiita, em toda a

orbe, para o que considera imprescindível

a destruição de Israel, a reislamização de

Al-Andalus, a conquista de Roma (Europa)

e o Vaticano, graças à ajuda do Mahdi, o

Imã Oculto, que com a espada do Islã vencerá

e dominará todos os infiéis.

* Eduard Yitzhak é escritor e um dos principais colaboradores do website Es-Israel

(www.es-israel.org), parceiro do jornal Visão Judaica.

VISÃO JUDAICA setembro de 2008 Elul / Tishrê 5768 / 5769

25

Brasileira que o Hezbolá

queria impedir de sair do Líbano

volta para sua família

A paranaense da cidade de Matinhos,

Nariman Osman Chiah chegou finalmente

à casa dos pais, naquela cidade, no

fim da manhã de quinta-feira 11/9. Ela foi

recebida com festa por parentes e amigos,

após ter conseguido escapar do Líbano,

com o filho de 6 anos. Nariman, que

está grávida de uma menina, foi ameaçada

de morte pelo marido libanês, que

também a surrava e ao menino.

Nariman desembarcou às 10h30 de

11/9 no Aeroporto Internacional Afonso

Pena, em São José dos Pinhais, na Região

Metropolitana de Curitiba, depois

de mais de dois meses de fuga pelo

Oriente Médio. Logo depois, ela reencontrou

os familiares, no saguão do aeroporto.

O encontro foi bastante emocionado.

Pelo menos dez pessoas da família

foram ao aeroporto recebê-la.

Nariman chegou ao Brasil, por volta

das 7h da manhã de quinta-feira, no Aeroporto

de Cumbica, em Guarulhos, na

Grande São Paulo. A jovem fugiu do marido,

com quem morava no Líbano, e ultimamente

estava na Embaixada do Brasil

em Damasco, na Síria, onde conseguiu

autorização para viajar. Ela saiu do

aeroporto de Istambul, na Turquia, às 13

(horário de Brasília) de quarta-feira, 10/

9 com destino a Milão, na Itália.

Fuga

Fuga

Nariman fez o primeiro contato com

a embaixada brasileira no Líbano no dia

21 de julho. Como a embaixada não pôde

fazer nada, por causa das leis do país,

ela começou a planejar a fuga. Primeiro

refugiou-se numa ONG que protege mulheres

oprimidas. De lá, resolveu partir

para Damasco, na Síria, onde a embaixada

brasileira conseguiu ajuda-la.

Na primeira tentativa de deixar o país

de avião, ela foi barrada. O marido, com

algumas ligações com o Hezbolá, grupo

terrorista que no Líbano também atua

como partido político com ingerência em

diversos setores do governo, como o aeroporto

de Beirute, conseguiu que um

"um tribunal religioso" emitisse um "documento"

que impedia sua saída com

Nariman e o filho finalmemnte conseguiram voltar

para casa após meses de sofrimento no Líbano

seu filho de volta para o Brasil. Foi então

que a jovem decidiu seguir por terra.

Metade do caminho foi feito de carro

e a outra metade a pé. "A pior parte foi

a caminhada. Meia hora no sol, com

medo, atravessando a fronteira", conta.

A fuga aconteceu na sexta-feira, 5/9,

e ela chegou à embaixada em Damasco

no sábado, 6/9. No período em que ficou

lá, Nariman conta que chegou a ser procurada

pelo marido. "Ele me procurou,

ligou lá, mas nunca soube onde eu estava,

ninguém falou."

Agora, de volta ao Brasil, a jovem

teme apenas pela segurança de seu filho.

"Aqui no Brasil não tenho medo que

ele possa fazer algo contra mim. Vou

apenas tomar bastante cuidado com o

meu filho", explicou. "Ele não está entendendo

tudo, está meio assustado.

Mas eu acho que daqui em diante vai

ser melhor, ele vai ter uma vida melhor."

O marido de Nariman teve prisão preventiva

decretada, em Guarapuava, no Paraná

há cerca de dois meses, por tráfico

ilegal de mercadorias do Paraguai. E também

há suspeitas de tráfico de drogas.

Na chegada ao aeroporto, muitas pessoas

abordaram Nariman e elogiaram sua

coragem, apontando-a como um símbolo

para as mulheres que sofrem de violência

doméstica. "Não é fácil sair de uma vida

dessas, mas eu mostrei que é possível.

Tive muita coragem", afirmou. "É muito

emocionante ser vista como um símbolo.

Eu sempre confiei em D-us que ia voltar."


26

VISÃO JUDAICA setembro de 2008 Elul / Tishrê 5768 / 5769

O jornalista paquistanês Tashbih

Sayyed

* Tashbih Sayyed é

acadêmico, escritor e

jornalista paquistanês,

autor e editor do jornal

Our Times, do Paquistão.

Entre 1967-1980 trabalhou

na TV paquistanesa e era

locutor conhecido. Foi

colunista regular de

jornais nos EUA,

Paquistão, Alemanha e

Índia.

Um muçulmano em terra judaica

Numa viagem a Israel, um jornalista muçulmano vê claramente uma cadeia de mentiras

Tashbih Sayyed *

uando embarquei com minha

esposa Kiran o vôo da El-Al LY

0008 com destino a Tel Aviv em

14 de novembro de 2005, minha

mente estava ocupada organizando

e reorganizando a

lista de coisas que tinha intenção

de obter. Queria aproveitar minha

primeira visita a Israel para sentir a

força que têm os judeus ao

não ceder ante as forças do

mal, depois de mil anos de

anti-semitismo. Não eram

os sacrifícios de Israel o

que eu queria pesquisar,

mas os fundamentos da

determinação israelense

de viver em paz.

Havia muitas coisas

das quais queria falar

com os israelenses, a

principal delas era sua

aversão a combater a

má imprensa, que continua

a pintá-los como

vilões. Ainda que eu

entenda o porquê dos

meios de comunicação,

que cobrem a maio parte

dos acontecimentos com exatidão,

decidem fazer pouco caso de todas as

regras de jornalismo ético quando se

trata de Israel, eu não podia compreender

a relutância de Israel para desafiar

a imprensa negativa com eficácia.

A tendência que têm os meios de

comunicação contra Israel lembrou-me

da imprensa na Alemanha nazista, que

foi recrutada pelo ministro da Propaganda

de Hitler Joseph Goebbels, que

propagou cada palavra possível carregada

de ódio contra os judeus. Tal

como a imprensa alemã, que recusou

imprimir a verdade sobre as atrocidades

espantosas que ocorreram nos campos

de extermínio na Europa - sustentava

que era tudo um exagero - os meios

de comunicação também hoje ignoram

o terrorismo árabe. Queria ver se havia

alguma verdade nas alegações dos

meios de comunicação, dizendo que

Israel era um Estado de Apartheid, nãodemocrático

e discriminatório.

Eu sabia que um Estado judeu verdadeiro

não podia ser não-democrático

já que os conceitos democráticos

foram sempre uma parte do pensamento

judeu e provêm diretamente da

Torá. Por exemplo quando no Preâmbulo

da Declaração da Independência

dos Estados Unidos, Jefferson escreveu

que todos os homens são criados

iguais, que eles são dotados por seu

Criador com certos Direitos imprescritíveis,

que entre estes estão a Vida, a

Liberdade e a busca da Felicidade, ele

basicamente se referia à Torá que diz

que todos os homens são criados a

imagem e semelhança de D-us. Sabia

que Israel não é racista ou discriminador

já que está baseado na idéia da

aliança entre D-us e os israelitas, pela

qual ambos aceitaram tanto deveres

como obrigações, ressaltando o fato

de que o poder é estabelecido pelo

consentimento de ambos lados e não

pela tirania da parte mais poderoso.

Meu entendimento do Estado judeu

foi confirmado quando no formulário

que tive que preencher ao aterrisar

em Tel Aviv não me perguntaram

acerca de minha religião como

perguntam, de acordo com a lei local,

no Paquistão. Ninguém na imigração

israelense exigiu algum certificado

de religião, diferentemente

da Arábia Saudita.

Enquanto a El-Al se aproximava

da Terra Prometida, eu continuava

revolvendo a lista de acusações feitas

contra Israel rotineiramente por

seus inimigos.

Os israelenses vivem num estado

perpétuo de medo. Israel é nãodemocrático.

Os cidadãos árabes

muçulmanos de Israel não têm igualdade

de direitos.

Os Os Os israelenses israelenses vivem vivem num num num estado estado

estado

perpétuo perpétuo de de medo:

medo:

De Tel Aviv a Tiberíades, de Jerusalém

a Jezreel, e das alturas do Golan

à fronteira com a Faixa de Gaza,

não pude encontrar nenhuma prova

de medo. De fato as pessoas se sentiam

tão seguras que em nenhuma

das lojas, postos de gasolina, mercados,

ou residências aos quais fomos,

e onde era sabido que nós éramos

muçulmanos, consideraram necessário

vigiar-nos ou interrogar-nos. Especialmente

quando uma tarde Kiran

e eu fomos em Jerusalém à Rua Ben

Yehuda, a encontramos apinhada de

gente de todas as idades. A terra vibrava

com a música e os jovens estavam

tão ocupados divertindo-se que

não se incomodaram sequer em olhar

ao redor. Os turistas estavam ocupados

fazendo negócios com os comerciantes

e toda a multidão parecia

palpitar com o soar da música.

Eu não podia deixar de comparar o

sentido de segurança de Israel com o

ambiente de insegurança que existe

nos países muçulmanos. Da Indonésia

ao Irã e do Afeganistão à Arábia Saudita,

a população não está segura de

nada. Na capital do Paquistão, Islamabad,

e na cidade portuária de Karachi,

constantemente me aconselhavam

que não fizesse grandes compras em

público já que isso anima os ladrões a

ir atrás de alguém. Não ouvi notícias

de violações, matanças por honra ou

assaltos em Israel.

Israel Israel Israel é é não-democrático:

não-democrático:

Como muçulmano sou muito mais

sensível à ausência de liberdades de-

mocráticas em qualquer sociedade, e

não creio que alguém, mais que um

anti-semita comprometido, negue que

Israel é um país democrático. A democracia

em Israel é proporcional e representativa,

ainda que coalizões democráticas,

sejam necessárias para

qualquer tomada de decisões e também

têm seus problemas.

No primeiro dia em Cesárea conhecemos

a democracia israelense. O ar

estava cheio de debate político e discussão.

A decisão de Ariel Sharon de

deixar o Likud e formar um novo partido

político dominou os corredores do

hotel e reprimiu os problemas causados

pela necessidade de ter coalizões

democráticas. "O objetivo de uma sociedade

israelense livre e democrática

é o de alcançar um compromisso

satisfatório, mas com freqüência as

conclusões são menos que satisfatórias

- sobretudo para a maioria. Isto

implica em coalizões e uniões que são

também um sistema de equilíbrio de

poderes contra qualquer abuso potencial

aos direitos das minorias. Este sistema

é melhor que o sistema republicano

representativo - que é realmente

uma representação de poder e interesses

particulares. Em outros países

você tem uma democracia para

alguns poucos. Em Israel você tem

uma democracia para cada um.

Tratei com esforço de encontrar algum

Estado muçulmano que tenha

uma verdadeira democracia, e onde às

minorias religiosas sejam concedidos

direitos democráticos igualitários, mas

falhei. O mapa do mundo muçulmano

está por demais repleto de reis, déspotas,

ditadores, falsos democratas,

autocratas teocráticos e a perseguição

de minorias é uma parte essencial

do comportamento social islâmico.

Mas aqui, protegidos pelos princípios

democráticos de Israel, aos cidadãos

árabes muçulmanos são concedidos

todos os direitos e privilégios da

cidadania israelense. Quando foram

realizadas, em fevereiro de 1949, as

primeiras eleições para a Knesset, aos

árabes israelenses foi concedido o direito

ao voto e o direito de ser eleitos

junto com os judeus israelenses. Hoje,

aos cidadãos árabes de Israel são concedidos

direitos civis completos e também

direitos políticos para que desta

maneira pertençam completamente à

sociedade israelense. Eles se desenvolvem

ativamente na vida social israelense,

na política, na vida cívica e

também desfrutam de representação

no Parlamento de Israel, no Ministério

das Relações Exteriores e no Sistema

Judiciário.

A fé israelense na democracia também

explica sua recusa em responder

ao terrorismo islâmico de modo violento.

Apesar de ser consciente das debilidades

humanas que permitem à có-

lera subjugar as melhores das intenções,

não pude encontrar nenhum israelense

que aja por vingança contra

seus compatriotas árabes. Minha experiência

como muçulmano contribuiu

também decisivamente para esperar

o pior do comportamento humano; os

muçulmanos sob a influência do Islã

radical têm estado descarregando seu

terror contra os não muçulmanos, inclusive

quando as acusações de ofensas

contra muçulmanos foram determinadas

como falsos.

Pensei que precisaria de um esforço

sobre humano conseguir ignorar as

atrocidades cometidas contra alguém,

e permanecer sem emoções vingativas.

Em minha experiência nas sociedades

muçulmanas, nunca se concedeu

às minorias o beneficio da dúvida.

O ódio aos não muçulmanos e a

fúria da violência dos fundamentalistas

islâmicos contra a fé das minorias

permanece como uma norma mais que

como uma exceção. Como muçulmano

não wahabita afrontei pessoalmente

sua barbárie e vi como têm sido

perseguidos cristãos, hindus e outras

minorias, sob acusações falsas. Pensei

que se os wahabitas na Arábia Saudita

podem condenar um professor a

40 meses de cárcere, mais 750 chibatadas,

somente por elogiar os judeus,

não seria pouco razoável da parte dos

israelenses castigar os palestinos por

lançar pedras nos que rezam no Muro

Ocidental ou por incendiar a tumba de

Iosef (José)?.

Mas ainda nisto, os israelenses demonstraram

ao mundo que os demais

estão equivocados. Apesar das provocações

diárias, eles satisfatoriamente

não descem ao mesmo nível de depravação

que seus inimigos árabes. O

mundo está acostumado à violência

diária cometida contra as minorias religiosas

no mundo muçulmano. Faz só

dois dias um grupo muçulmano no Paquistão,

abriu caminho para entrar

numa igreja rompendo suas paredes

e violentando suas portas. Agiam motivados

pelo rumor de que um cristão

tinha profanado seu livro santo, o Corão.

Eles quebraram o altar de mármore

da Igreja do Espírito Santo e também

os vitrais coloridos da igreja. Depois,

incendiaram uma residência cristã

e a Escola de Meninas de Santo

Antônio no mesmo bairro. Em poucos

momentos as chamas consumiram as

paredes e a fumaça negra abundava

no céu. Durante dias os clérigos wahabitas

continuaram pedindo aos seus

seguidores muçulmanos a saírem de

suas casas e defender sua fé através

da criação de um reinado de terror

contra o cristianismo.

Perguntei-me se um israelense poderia

um dia encontrar alguma justificativa

para isto e copiar o que os

wahabitas têm estado fazendo em


outros lugares - o seqüestro, o assassinato

e a decapitação de "infiéis". O

mais recente, foi a descoberta do corpo

de um motorista hindu, Maniappan

Raman Kutty, com a garganta cortada

no sul do Afeganistão, e não há nenhuma

razão evidente para sua morte

mais que sua fé.

Mas não havia nada na história

que poderia ter justificado meus temores;

os judeus, apesar de terem

sofrido os atos mais bárbaros do terrorismo,

ainda não reagiram vingativamente

contra os autores destas

barbaridades. Concluí, portanto, que

minha primeira visita a Israel me ajudaria

a encontrar o motivo da insistência

israelense de continuar sendo

o objetivo do terrorismo islâmico.

O O cidadão cidadão árabe árabe muçulmano muçulmano de

de

Israel Israel não não não tem tem igualdade igualdade de de de direitos:

direitos:

Enquanto nosso ônibus com ar condicionado

percorria as curvas montanhosas

do caminho até o coração da

Galiléia, eu não podia deixar de observar

os minaretes que identificam

um número de aldeias árabes-palestinas

que se amontoam e multiplicam

nas ladeiras. Os imponentes domos

das mesquitas fazem notar as liberdades

que desfrutam os muçulmanos no

Estado judeu. Grandes residências árabes,

uma crescente atividade da construção

e carros de grande tamanho destacam

também a prosperidade e a riqueza

dos palestinos que vivem sob a

Estrela de David.

No meu caminho desde a Cidade

de David até o Hotel Royal Prima, em

Jerusalém, perguntei ao taxista palestino

que pensa sobre a idéia de mudar-se

para os territórios sob a Autoridade

Palestina. Ele disse que nunca

poderia pensar em viver fora do Estado

de Israel. Sua resposta arruinou o

mito ampliado pelos anti-semitas de

que os cidadãos árabes de Israel não

são felizes ali.

Outro árabe israelense informoume

que os árabes em Israel têm igualdade

de voto, quer dizer, o mesmo direito

de votar que os judeus israelenses.

De fato, Israel é um dos poucos

países no Oriente Médio onde as mulheres

árabes podem votar. Em contraste

com o mundo árabe não israelense,

as mulheres árabes em Israel

desfrutam do mesmo status que os

homens. As mulheres muçulmanas

têm o direito de votar e de ser eleitas

para trabalhar em escritórios públicos.

As mulheres muçulmanas, de

fato têm mais liberdades em Israel

que em qualquer país muçulmano. A

lei israelense proíbe a poligamia, o

matrimônio infantil, e a cruel mutilação

sexual feminina.

Além disso, averigüei que não há

nenhuma incidência de matanças por

honra em Israel. O status das mulheres

muçulmanas em Israel está acima

de qualquer outro país na região. As

normas de saúde israelenses são muito

melhores que qualquer outra no

Oriente Médio e as instituições de

saúde israelenses estão livremente

abertas a todos os árabes, da mesma

maneira que estão abertas para os judeus.

O árabe, como o hebraico, é uma

língua oficial em Israel e isto demonstra

a natureza tolerante do Estado judeu.

Todos as placas das ruas têm seus

nomes escritos em árabe e em hebraico.

Esta é a política oficial do governo

israelense para promover a língua, a

cultura, e as tradições da minoria árabe,

no sistema educativo e na vida diária.

A imprensa árabe de Israel é mais

vibrante e independente que a de qualquer

país na região. Há mais de 20

revistas árabes. Elas publicam o que

querem, sujeitas somente à mesma

censura militar que as publicações judaicas.

Também há programas diários

de TV e rádio em árabe.

O árabe é ensinado nas escolas

secundárias judaicas. Mais de 350.000

crianças árabes freqüentam escolas

israelenses. No momento do estabelecimento

de Israel, havia só um instituto

árabe no país. Hoje, há centenas

de colégios árabes. As universidades

israelenses são centros de estudos

renomados na história e na literatura

do Oriente Médio árabe.

Consciente das coações que um

não wahabita enfrenta enquanto realiza

rituais religiosos na Arábia Saudita,

Kiran (minha esposa) não podia

ocultar sua surpresa ao dar-se conta

da liberdade e facilidade com a qual

pessoas de qualquer religião e fé

cumpria com suas obrigações religiosas

na Igreja do Santo Sepulcro, na

Tumba do Jardim, no Mar da Galiléia,

nos Túneis do Muro Ocidental, o Muro

das Lamentações, na Tumba do Rei

David e todos os outros lugares santos

que visitamos.

Todas as comunidades religiosas

em Israel desfrutam da completa proteção

do Estado. Os árabes israelenses

- tanto os muçulmanos, como os

pertencentes às distintas denominações

cristãs - são livres para exercer

sua fé, observar seu próprio dia de

descanso semanal, suas festividades

e também de administrar seus

próprios assuntos internos. Aproximadamente

80.000 drusos vivem em 22

povoados no norte de Israel. Sua religião

não é acessível para os estranhos

e o druso constitui uma comunidade

de fala árabe cultural, social

e religiosa separada. O conceito de

druso de taqiyya exige a completa

lealdade por parte de seus aderentes

ao governo do país no qual eles

residem. Por esta mesma razão o druso

serve no Exército de Defesa de Israel,

entre outras coisas. Cada comunidade

religiosa em Israel tem seus

próprios conselhos e tribunais, e tem

também a jurisdição completa sobre

seus assuntos religiosos, incluindo os

assuntos de status pessoal, como o

matrimônio e o divórcio. Os lugares

santos de todas as religiões são administrados

por suas próprias autori-

VISÃO JUDAICA setembro de 2008 Elul / Tishrê 5768 / 5769

dades e protegidos pelo governo.

Um jornalista hindu que veio verme

falou da liberalidade que a sociedade

judaica representa. Disse-me

que mais de 20 % da população israelense

não é judia, havendo cerca de

1,2 milhão de muçulmanos, 140 mil

cristãos e outros 100 mil drusos. Outro

israelense não judeu disse que os

cristãos e os drusos são inclusive livres

de unir-se ao exército de defesa

do Estado judeu. Os beduínos servem

em unidades de pára-quedistas, e por

sua vez outros árabes se oferecem

para cumprir com o dever militar.

As grandes casas pertencentes a

árabes israelenses, e a quantidade de

construções que continuam crescendo

nas cidades árabes, expuseram a

falsidade das propagandas que acusam

Israel de discriminar os árabes

israelenses no momento de comprar

terras. Averigüei que no início do século

passado, o Fundo Nacional Judaico

foi estabelecido pelo Congresso

Sionista Mundial para comprar terras

na Palestina e assim poder obter o estabelecimento

judaico. Da área total

de Israel, 92 por cento pertence ao

Estado e é administrada pela Autoridade

de Direção da Terra. Não está à

venda para ninguém, nem para os judeus,

nem para os árabes.

O Waqf árabe possui terra que é

para o uso explícito e para o benefício

dos árabes muçulmanos. As terras do

governo podem ser arrendadas por

qualquer pessoa, independentemente

da raça, da religião ou sexo. Todos os

cidadãos árabes de Israel são elegíveis

para arrendar este tipo de terras.

Perguntei a três árabes israelenses

se eles enfrentavam a discriminação

em seu trabalho. Todos eles disseram

a mesma coisa; normalmente

não há nenhuma discriminação, mas

sempre que os suicidas-bomba explodem

e assassinam judeus, alguns israelenses

se sentem incomodados tratando

com eles. Mas estes sentimentos

são também momentâneos e não

duram muito tempo.

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VISÃO JUDAICA setembro de 2008 Elul / Tishrê 5768 / 5769

Ao abrir a exposição, a cônsul geral da Polônia em

Curitiba, Dorota Joanna Berys, falou da importância

cultural e histórica dos judeus em seu país

Em nome da comunidade israelita o empresário Mendel

Knopfholz discursa no evento, recordando a cultura

judaica na Polônia

Os empresários Leon e Mendel Knopfholz, a cônsul geral

da Polônia em Curitiba, Dorota Joanna Barys e o presidente

da Federação Israelita do Paraná, Isac Baril na abertura da

exposição

Exposição em Curitiba sobre os

"Mil anos dos Judeus na Polônia"

Consulado Geral da República da Polônia abre evento na Biblioteca Pública

A cônsul Barys ouve o sobrevivente do Holocausto,

nascido na Polônia, Moisés Jakobson

Consulado geral da República da

Polônia em Curitiba abriu na noite

de 4/9, na Biblioteca Pública

do Paraná a exposição "Mil anos

dos Judeus na Polônia", que permaneceu

aberta até o dia 18/9. O evento, que contou

com grande número de público, especialmente

membros da comunidade judaica

de Curitiba, foi aberto pela cônsul geral

Dorota Joanna Barys, que explicou que

a exposição foi elaborada pelo Instituto

Adam Mickiewicz de Varsóvia, e ofereceu

aos participantes um "vinho de honra". A

comunidade judaica foi representada pelo

presidente da Federação Israelita do Paraná,

Isac Baril, e pela presidente do Instituto

Cultural Bernardo Schulman, Sara

Schulman. Na ocasião, falou pela comunidade

o empresário Mendel Knopfholz.

Em seu discurso, Knopfholz observou

que "a marca milenar da presença judaica

na Polônia torna inevitável a importância

recíproca destas duas culturas étnicas,

nacionais, antropológicas e sociais

na construção de seus respectivos destinos.

Neste sentido, não podemos dissociar

destas duas tradições alguns elementos

idiomáticos, folclóricos, artísticos,

culturais, culinários que dentre tantos

outros estão perpetuados em nossa emoção

e em nossas formações".

A exposição "Mil anos dos Judeus na Polônia"

contém dezenas de painéis ilustrativos,

acompanhados de textos explicativos em

português

"Assim - prosseguiu ele -, "como não

cultuar os relatos orais e escritos decantados

por nossos pais e avós no mais melodioso

iídiche, idioma mater de gerações,

que propagou e continua a difundir muito

da essência da alma judaica pelas tintas e

cantigas de um sem número de poetas, escribas

e artistas, tornando-o único, peculiar

e tradutor de uma imensa carga emocional

e intelectual de todo um povo. Como

não vivenciar a realidade de muitos judeus

poloneses que, vivendo confinados em

suas shtetls faziam destas pequenas

aldeias a grandiosidade da superação pela

fé, pela união e um pacto sempre renovado

de sobrevivência e esperança. Quantos

personagens simples, gênios em sua humildade

e humildes em sua genialidade,

nos ensinaram os valores da ética, da fraternidade,

da superação".

Em outro trecho de seu discurso, o empresário

Mendel Knopfholz, ressaltou que

"é certo também que o ambiente cosmopolita

e culto das grandes cidades de uma

Polônia muitas vezes dominada e oprimida

que a fez renascer sempre mais fortalecida,

em muito contribuiu para a proliferação

de um manancial cultural e artístico da inteligência

Judaica". "Da mesma forma em

que lá fecundaram movimentos importantíssimos

para o judaísmo, como o Iluminis-

Entre os presentes à abertura, dirigentes do Instituto Bernardo

Schulman, Sara Schulman (presidente), ao lado de Boris Sitnik

mo judaico - a Haskalá, as Ieshivot e o Chassidismo

- o território polonês testemunhou

também toda a sorte de sandices e perseguições

aos judeus, por meio de pogroms,

confinamentos, campos de concentração,

massacres e tantas outras tragédias que

hoje são traduzidas por "Limpeza Étnica".

"Não fora isto", sublinhou Knopfholz,

"certamente o mundo contemporâneo teria

sido contemplado com mais talentos do porte

de um Sholem Ash, Arthur Rubinstein, Isac

Peretz, Sigmund Freud, Albert Einstein, Isaac

Bashevis Singer e tantos outros que não sobreviveram

e que se houvessem sobrevivido,

poderiam ter contribuído para as artes,

as ciências e na evolução universal de uma

sociedade criativa, fraterna e justa".

No convite da exposição, um texto assinado

por Piotr M. A. Cywinski diz: "Mil

anos de união e divisões. Mil anos de diálogo

e conflitos, favores e sofrimento, desenvolvimento

e crise, autonomia e dependência,

felicidade compartilhada e crueldade,

até o Shoá. Apresentamos o passado

e o presente dos Judeus Poloneses. Sua

história representa a parte vitar da nossa

identidade. Todo o tempo em que a história

da vida judaica renasce na Polônia

aprendemos a descobrir novamente o vazio.

Nós, os que sentimos a ausência, pagamos

o tributo aos que nos deixaram".