Mais de 10 mil manifestantes foram a Ronda Alta.

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Mais de 10 mil manifestantes foram a Ronda Alta.

Cato ie

kl it Pasloíil rcroo

íBIBLIOTECA

Agncultorfe éxigin

terra, saúde

e melhores preços.

Na caminhada,''os manifestantes

percorreram toda a extenção do

acampamento -mais de dois

quilômetros. Cantaram, protestaram

e reivindicaram terra no

Rio Grande do Sul, ■' ■ ~

[ATENÇÃOreste Boletim traz .informações recentes,

18/agosto, sobre Ronda Alta. Veja na página 17

Porto Alegre, 7 de agosto. EDIÇÃO ESPECIAL DQ DIA. DO COLONO

Mais de 10 mil manifestantes

foram a Ronda Alta.

"■ Viva os

trabalhadores

rurais,

os operários

da cidade,

a igreja

dos pobres,

o .Movimento

dos

Sem Terra e

nossa união".

Com essas

palavras

os acampados

encerraram a

concentração.

N'o final,

a certeza de

que a ,r união

permanece

cada vez

mais forte.".

'Cuidado com aqueles que dão

comida, roupas e remédios,

mas não dão a terra".

D Tomas

Balduino

Colonos estão firmes

e pedem apoio

Em sua terceira carta, acampados *

pedem solidariedade para enfrentar 1

O "Gurip". íltima página.


ü DIA DO COLONO NA ENCRUZILHADA NATALINO

O Dia do Colono desta ano, 25 de julho, com a participação de mais de

10 mi* agricultores gaúchos .e representações de todo o Brasil, foi o resultado

da mobilização dos sindicatos de trabalhadores rurais do Rio Grande do Sul. No

I ENCONTRO ESTADUAL DE TRABALHADORES, reunindo sindicalistas de todo o Estado,

em junho deste ano, os sindicatos rurais propuseram um ultimato ao gov/erno: a

entrega de terras aos acampados ate' o Dia do Colono. Caso contrario esta data

se transformaria em uma concentração estadual de agricultores em protesto contra

o governo.

Foi isto que aconteceu, a solução não veio porque o governo defende os

latifundiários e não quor uma reforma agrária real. A seguir contamos como os

mais de 10 mil agricultores fizeram o protesto do dia 25 de julho na Encruzilha-

da Natalino em apoio aos sem-terra lá acampados.

A Grande Caminhada de Protesto

As 10 horas o Presidente da FETAG, Orgênio Roth, deu abertura às come-

morações do dia 25, dizendo que o dia do Colono é comemorado há mais de 50 anos,

Saudando todas as entidades presentes, especialmente os agricultores de todo o

Estado, Roth destacou que no Rio Grande do Sul as terras devem ser melhor apro-

veitadas.

Em seguida começou a caminhada de protestor com todo o povo presente

caminhando em forma de procissão. Iniciou na extremidade do acampamento (saída

para Nonoai), com um grande número de faixas, paine'is e, no meio, era carregada

por uma dezena de acampados, a grande cruz que marca o centro do acampamento. A

grande^cruz falava por si, ostentando três panos brancos, simbolizando a morte

das três crianças dos sem-terra.

Após o canto "A Classe Roceira", a caminhada seguiu com a apresentação

dos protestos e exigências dng-nolonos sobre a política agrícola e preços.

Após a leitura de cada protesto, todo o povo respondia: Protestamos, três ve

ze s seguidas; e após cada exigência todos repetiam Exigimos.

PREÇOS - PROTESTOS

Protestamos contra a Política de Preços Mínimos do Governo; contra

a Política Agrícola que só beneficia os grandes; contra a indiferença dos Mi-

nistérios diante., da crise da suinncultura; contra o Governo que controla cs

preços dos produtos agrícolas deixando livres os preçoo. dos insumos; contra

a prioridade dada ã agricultura sem preços justos; contra a política de finan-

ciamento estimulando setores sem garantia de mercado; contra a exploração dos

intermediários na comercialização de produtos agrícolas';- contra aqueles que,

p'.:. 2


tendo outras atividades, infiltram-se na agricultura, com apfrLo de órgãos

governamentais, inflacionando os preços das terras e atrapalhando quem se

dedica a esta atividade,

PREÇOS - EXIGÊNCIAS

Exigimos o congelamento nos preços dos insumos para a agricultura;

que seja aplicada uma polxtica de preços justos, baseada no custo da produção;

a troca da política de financiamento e subsídios por garantia de mercado corçi

preços justos; a nacionalização das multinacionais fabricantes de 'insumos pa-

ra a agricultura; um sistema que diminua a diferença de preços recebidos pelo

produtor e pagos pelo consumidor; uma Reforma Agrária e Fundiária para que o

pequeno agricultor possa sobreviver e mostrar que é a classe que mais produz,

em termos de alimentos.

A caminhada continuou com cantos. Pelos auto-falantes colocados em

uma camionete que seguia no meio da multidão, a Comissão Organizadora expli-

cou o significado do painel que representava a política de preços do Governo.

Depois de cantar "Caminhando para a Luta", o Hino oficial d.O-s acam-

pados, chegou a vez dos Protestos e Exigências sobre a questão da Saúde,

SAÚDE - PROTESTOS

i ■

Protestamos contra a desigualdade de tratamento pelo Ministério na

Previdência Urbana e Rural; contra a participação do trabalhador rural nas

despesas medico-hospitalares; contra médicos e hospitais exploradores; aontra

a falta deflocalização nos recolhimentos do agricultor ao FUNRURAL; contra •

nao cumprimento dos convênios do Funrural e Hospitais;? contra a exploração

das multinacionais nos preços dos medicamentos; contra a poluição causada pe-

los resíduos industriais cja terra, água e ar; contra a falta de plantão médi-

co para os trabalhadores rurais; contra o não pagamento pelo Funrural para

anestesista, exames laboratoriais e especilizados; contra a venda indiscrimi-

nada de venenos que dizem ser úteis a produção agropecuária,

SAÚDE - EXIGÊNCIAS

Exigimos imediata igualdade da previdêicia rural com a urbana; a na-

cionalizaçao das multinacionais produtoras de medicamentosj imediata retira-

da de mercado dos herbicidas e inseticidas poluidores e tóxicos; que o Minis-

tério da Previdência e Assistência Social aprove o projeto apresentado pelo

trabalhador rural; austera fiscalização nos recolhimentos ao Funrural e no

cumprimento dos convênios hospitalares; a criação de pesadas multas e severa

fiscalização as indústriaspoluidoras em favor da natureza e das gerações fu-

turas,

pág,3


A caminhada continuou com todo o powo cantando uma adaptação da "Asa

Branca-. Após um trecho caminhado em silêncio, foi explicado o painel sobre

a Saúde, sibolizado por um homem de bengala. A caminhada prosseguiu com can-

tos, paradas, as mulheres e crianças do acampamento batendo em panelas vazias.

0 terceiro protesto teve por tema a TERRA, apresentado por um grupo

da acampados.

PROTESTO PDS SEM TERRA

Protestamos contra a morte de trSs crianças no acampamento; contra

o vereador Ulisses Camargo de Passo Fundo que veio dividir o povo do acampamen

to; contra a injustiça que existe contra todos os sem terra; contra a demora

do Governo em solucionar o nosso problema de terra ; contra a Polícia Secreta

e os espiSes que estio toda a hora perturbando nós aqui; contta aquelas que

chamamno's de "vagabundos- e"vadios"; contra os tubarSes e as multinacionais;

contra a proposta de levar nós para outros estados; contra quem acusa os que

nos ajudam dizendo que são infiltrados.

EXIGÊNCIAS DOS SEM TERRA

Exigimos mais assistência módica; solução ra'pida da terra; que aque-

las que sao contra nós venham ver a nossa situação; terra no Rio Grande do .

Sul; Reforma Agrária feita pelos trabalhadores; terra em condiçães de pagar

com^o produto do nosso trabalho; terra para criar nossos filhos e não para

negocio^que as granjas que nós indicamos sejam desapropriadas e colocadas à

disposição de todos os sem terra; que as terras sejam para os trabalhadores e

n^o para quem mora na cidade; que seja cumprido o Estatuto da Terra..

Durante toda a caminhada alguns elementos da "Polícia Secreta" fize-

ram varias provocaçães mas intimidados pelo grande nómero de trabalhadores ru-

rais s urbanos, passaram quase que despercebidos se não fosse alguns que já

os conheciam.

Quase ao fim dos dois quilômetros de acampamento a grande multidão

da caminhada que já passava das 10 mil pessoas, caminhou alguns minutos com

a mao esquerda erguida "em sinal de paz": foi um repúdio à violência dos poli-

ciais a de todos aqueles que se voltam contra os cacampados. Os colonos ainda

protestaram contra a presença do Tenente-Corone1 Curió no acampamento.

^Para finalizar a caminhada do protesto,: o poeta Adão Preto, do Muni-

cípio gaócho de Miraguaí, declamou uma possia de sua autoria: "Sonhei com o

índio Sepó". A multidão vibrou e aplaudiu com entusiasmo.

Para a hora do almoço de confraternização todos colocaram em comum

o que tinham trazido. Enquanto isso, um grupo de acampados cantou vórios can-

tos que falavam de sua história a de sua luta.

pág, 4


"DEVOLUAM A TERRA PARA ~OS' AGFflCULTORES E NÃO FALTARÁ PÃB' 1

As faixas, carregadas pelos colonos e .pelas. antr^de's solidárias

com os Sem Terra durante a caminhada de protestov: forac una dos formas de

manifestação popular v-. Através delas os agr icultore s. dissr rarn o que pensam so-

bre o IWCRA, afirmando que.ele ; e' dós'grandes' ã nao^os pequenos, "afirmaram

tambe'm que têm mais direitos que as multinacionais. -As frases mais repetidas

eram aquelas que reivindicavam a terra para trabalhaf:'Devolvam a terra para

os agricultores e não faltará pãs". "n ■: " z

A seguir relacionamos os protestos inscritos nas mais de 40 faixas

utilizadas na manifestação.

CEPERGS - Terra e Educação parâ""Tõdos

Dovolvam a ferra para o Agricultor e Não Faltara ...pão.

Chüga de Exploração} Queremos Solução

Se a Terra for Repartida o Mundo Sorá Cristão - ; ^ '

Terra Som Povo é Igual A Palácio Sem Governo , -< . , ^ ? •■■ •'

Mo Macali Organizados Conquistamos a Terra

□ INCRA E Dos Grandes Contra os Pequenos

Pais sem ^erva, Filhos sem Pão ,- ■ .■.'''■

Temos mais Direitos que As Multinacionais ' x '■'■■''

Terra no Mato Grosso, para os Motogrossense, no Bahia para os Saian

Rio Grande do Sul s para Nos

A Terra é de Todos não SÓ dos Tubarão ■ - :j -'-

Creio na Forçada Nossa Organização - L.Cavazini

Este Sistema Atual e uma gaita Exploração, Chumbo Nel^

Protestamos co uso da Terra Para Negócio

Andamos Atirados Pelo Mundo, os Grandes Tiram Nosso Pedaço de. Pao'" iU

Queremos Terra no Rio Grande do Sul

Obrigado D. Cláudio, Precisamos cada Uez Mais do Seu Apoio ,

Seu Amaral Aqui o Causo "é Serio, Resolva o Nosso Problema

Exigimos um Governo Escolhido pelo Povo

0'S.T.R. de Nao-Me-Toque Apoia os Colonos Sem Terra

Fomos enganados, Uoltamos do Moto Grosso

Sindicato dos T.R. de Espumoso Também Pede Qustiça Social e Luta p or

forma Agraria i"" ■ ' í: -■ ■

Temos Cheio de Conversa, Queremos Solução: Terra

Para Nos Terra e Uida

FETAG/RS Solidária na Luta pela ferra

Queremos Terra na Terra, 3a Temos Terra no Ceu •- ;

Encruzilhada Natalino: Um. Passo Para a Reforma Agrária

Povo Sem Terra e Povo Sem Pao

Fe é Lutar Pela Terra Sem Males

os, no

uma Re-

pag. 5


Sem Turra, Estamos Com v/occs - C.Alto Recreio

Queremos Terra Para Produzir Alimentos Para a Cidade

0 S.T.R. de Ajuricaba e Solidário a Esse Movimento

Na Brilhante I e II Nossa Luta Continua, Ainda í^ao Temos Terra Para Tod

IMCRA: para Reforma Agrária a não Para Colonização

A Força da União ji

Unidos Venceremos as Injustiças que Fazem Contra Nos

Sem Alimentação Mão Ha V/ida e Sem Colonos í'ião Há Alimentos

A Fome Viva ao Nosso Lado Porque o Colono üiua Explorado

Estão Pensando nos Expulsar da Terra

Pensai no Irmão, N~o SÓ em Si

Poyo Unido Jamais Será Uen ido

Quando tem Produto não Tem preço, Quando Tem preço Não Tom Produto

A Contag Apoia

A TRIBUNA LIVRE DG PGVÜ

A tarde foi realizada a tribuna livro do povo. 0 secretario geral

da CONTAG (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura), Zulmiro

Farri abriu a manifestação falando que os representantes da Contag vieram dar

seu apoio aos colonos acampados. Condenou a injusta situação das famílias acam-

padas em Encruzilhada Natalino e disse que a atual política agrícola não está

satisfazendo os trabalhadores. Zulmiro Ferri contou que no Brasil existem 14

milhães da famílias precisando de terra, mas as terras continuam nas mãos de

poucos latifundiários e das multinacionais. Por isso, ele acha que chegou a

hora de uma Reforma Agrária para solucionar os problemas de 60 milhães de bra-

sileiros que passam fome. No final de sua conversa, o representante da Confa-

deraçao dos Trabalhadores na Agricultura incentivou os colonos a prosseguiram

com seu movimento, pois terão apoio da Contag e da Federação dos Trabalhadores

na Agricultura no Rio Grande do Sul (FETAG).

Em seguida, o vice-presidende da CONTAG, Urbano de Araújo Filho, dis-

se que a tarofa de sua entidade á garantir o apoio ao movimento dos sem terra.

Disse que ,esta luta pela terra acontece de norte a sul do Brasil. Condenou

o Governo por expulsar os agricultores da terra do Rio Grande do Sul:"Esses

mesmos colonos que fizeram a riqueza do estado-, disse ele, "porque mais da

metade da produção agrícola do país vem da pequena propriedade de ate' 50 hec-

tares 1 '. Alam disso chamou a atenção dos colonos para não se tornarem mais tar-

de marginais nas grandes cidades. Falou que o Governo pode fazer tudo: cassar,

condenar, aplicar a Lgi de Segurança Nacional, mas não consegue esconder a re-

alidade. Para Urbano de Araújo Filho, o Governo sabe passar aqui no interior

para pedir voto, mas nao cumpre nom o Estatuto da ferra. Por fim, pediu que

todos levantassem os braços, aos gritos:"Trabalhador Unida Jamais Será Uenci-

00%

pag, 6

os


A Posição da FETAF

0 Presidente da FETAG, Drgenio Roth, confirmou a posição de sua enti-

dade, que e de apoiar os colonos em sua reivindicação da terra no Rio Grande

do Sul. Disse que existem mais de 2G0 mil famílias com proülemas de terras no

Rio Grande do Sul. E criticou os que tentaram impedir a realização do dia do

colono e os políticos que andaram dando,conselhoa aos agricultores para .quá

nao participassem do .dia do protesto organizado pelos sem terra.

0 Apoio dos Trabalhadores da Cidade

Depois, quem falou foi um opera'rio que a pastor da igreja tuterana

e mora na Uila Santo Operário de Canoas. Ele contou a experiência dos morado-

res da vila, que invadiram a área e depois- ficaram com a:terra. 0 Dpeèaria

disse que os colonos podem contar com o apoio dos traajlhadores ds cidade.

Intersindical

■;-,■ ■.,.

.João Paulo Marque s ,. presidente ■ do Sindicato dos "Empregados-, na-'Indus-

tria do., testuário , falou representando a Intexsindicar, en ; tid-a;ÍS' Toímada por

vo'rias sindicatos gaúchos. Explicou os. problema s : ..,ue hoje enfrentam os tra-

balhadores urbanos e do apaio que estes trabalhadores estão dando

nos sem terra.

A Solidariedade das CEBs

:os COJ.O-

Um representante da Uila Lomba do Pinheiro, de l/iamãa, disse que to-

dos devem apoiar uma luta justa como a dos colonos de Encruzilhada Natalino.

Ele pediu que todds fizessem um minuto de silencio pelas três crianças que

morderam no acampamento. Em cimo daquela crnz, disse ele, apontando para o ■

centro do acampamento, existam tree lençóis brancos pendurados nos e_xtr-e-mi-

dcdes de cruz que representam o sofrimento do povo. A morte das crianças-, ., -.

A Solidariedade da FETAESP e FNT

Falaram ainda o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais- de

Passo Fundo, outro representante da Uila Santo Operário,- que'. lau: uma carta

de apaio em nome dais Pastoral Operária do Rio Grande do Sul, o presidente do

Sindicato dos Trabalhadores Rurais de.Cruzeiro do Sul em nome da regionl do

Alto Tâquari e um representante de Sao Paulo, que falou em nome do. :- Federa- ■■

çao dos Trabalhadores na Agricultura, Oe Sao Paulo erda Frente Nacional do

Trabalho.' Elé disse què no Rio Grande- do Sul tem muita terra a que:;acha crimi-

nosa a proposta de levar as colonos gaúchos para outros estados. Falou que a

luta das acampados é"à mesma dos trabalhadores rurais de ..seu ,.e j^odo B lamentou

que o presidente 'da Confederação ^acionai dos Trabalhadores na Agricultura n.ão

pudesse estar presente, porque "e sta' sendo processado pela Lei de Segurança Na-

cional, por estar ao lado dos trabalhadores rurais.

pag.7


A Manifüstaçao dos Acampados

Um representante dos acamapados, Raul Vargas, nspondeu as declara-

ções do cardeal Dom Uicentti Scherer, que disse que os colonos foram conven-

cidos pelos padres a permanecerem no acampamento. G agricultor disse que eles

estão aqui porque acham que tem direito a um pedaço de rerra. Falou também que

o Gouerno acha um crime pedir^ um pedaço oe terra, então ele e os outros po-

dam ser criminosos. Hor fim> dXpiicou a todas como funcion3 0 acampamento e

como os colonos estão organizados para wencerem esta luta.

A agricultora Ines Ekert, representando o Sindicato dos Trabalhadores

de Ronda Alta falou sobreis problemas que os produtores enfrentam na região

a no país. Na seqüência, uma representante do Centro dos Professores do Rio

Grande do Sul lembrou os problemas dos colonos na educação, a falta de esco-

las e convidou as mulheres do acampamento para participarem, junto com outras

categorias de trabalhadores, d. Congresso da Mulher gau'sha, realizado em Por-

to Alegre.

"Daqui de Ronda Alta, "liamos Começar a Tirar do Papel Essa Tal de Reforma

Agrária", trecho do pronunciamento oficial dos colonos acampados, no encer-

ramento da Tribuna Liv/re do pouo# fl manif e staç30 foi feit:, por um r;jpr6sen_

tanta da comissão geral do acampamento. A seguir transcrevemos partes do Pro

nunciamento.

Companheiros de todos os rincães -do estado q^. vieram aqui hoje

nos ajuda

Companheirada da cidade, nossos irmãos das vilas e das fabricas

Sindicatos, FETAG e entidades que nos apoiam:

Uoces nao imaginam a espera que n6s tava desse dia. Uoces não imagi-

na a^alegria que n6s todos acampados tamo. Nas não sabemos como agradecer. Ho

je nos sentimos que vocês estão de nosso lado mesmo. Que voeis são nossos com

panheiros. Que vocãs são da nossa classe. Uue vocês são trabalhador sofrido

como nós,

Que vocês nao^tem vergonha de se colocar ao lado de nosso ombro. Por

que o sofrimento que vocês enfrentam lã nas terras de vocês, vendendo os pro-

dutos por mixaria, que o sofrimento que vocês enfrentam lá na cidade trabalhan

ao por uma.n mixaria. É o mesmo sofrimento que nas sentinoe aqui, a beira da

estrada, lutando pelo direito de ter um pedaço de terra prá trabalhar...

Passem de-barra-o em barraco, sintam de perto nor.ao sofrimento, nos

sa dor, nossa lirita. UQCQS acham que nón estamos aqui . por prazer? Por diversão?

Por ser mandado.por, alguém? NÚs convidamos o essec que :job acusam, que venham

passar uma noite aqui no acampamento, prá Bonhecsr que tipo de povo tem aqui,

Nos estamos aqui lutando por um direito sagrado.. Um direito de po-

der ter onde fetabílhar na terra. Se nós fosse tudo pra' cidade, pra's favelas,

como já tinha gente doe nosso que já tava lá, aí não era mais um problema pro

pag. 8


gov/erno. Aí tudo tava resolvido.- Ubces achan ■x^tie ig ■ res^lvKr slntiTia coisa

se nos fosse tudo prá cidade? Ucces acham que salário mínima resolv/e nossa

situação? Q Governo e essa gente da grauata, metidos a letrados," sempre tem

uma., lei na ponta da língua-, : pra' usa' come-desculpa prá não atender o pobre...

Acontece que nesses dias nos tira-mo* um tempo" pra' :: |st r udár ' o tal Esta-

tuto da ■Terra;.,:.


D próprio Yükota disse que se nós aceita ir pro Mato Grosso, o iNCRA

vai gastar 500 mil por família só em infraestrutura de medir terra e estrada.

Com um pouco mais de dinheiro, o gouerno pode comprar terra na hora, aqui no

estado,*«

E agora o INCRA e o gouerno tão dizendo que não tem terra aqui no e_s

tado, t uma baita uergonheiraí Logo se vê que a turma do INCRA nao sai dos ga

binete e so sabe cobrar imposto mesmoí Aqui mesmo, nesse lugarj se a gente er

"gudr a vista vamo encontrar muita terra com báfba de bodo* Nós meèmo fizemo

um levantamento aqui na região e indicamo pro governo mais de 5D mil hectares,

mal ocupado, que podiam ser desapropriado pelo Estatuto da Terra, prá"03Íocar

' . . ' • r . '

tuoo nos e mais um pouco,

Mas a gente sabe que o governo e dos grandes. Que essa gente do go-

verno e tudo latifundiário. Começando pela família do gcuernadorj e eles não

querem mexer nas terras dos cumpadjceâ»" Noa não temo mais duvida, esse gover-

no so se interessa pelos grandes. Woces que votaram nele, talvez perisem dife

rente.., ' -■-.:.-:

Graças a Deus, tem muitos companheiros nossos, tem' gente da nossa

classe que está nos ajudando. Se não fosse eles, nos já taua nas favelas, Se

nao fos^e o ajutório dos sindicatos", da FETAG, das paróquias que*f^zeram cam

panhas entre os colonos, e que enviaram comida nós* ja tinha ido' prá cidade.

Nos. nunca mais vamos esquecer as camionada de comida que chegaram da Diocese

de Chapeco, recolhida pelos trabalhadores daqueles municípios. As camionadas

de comida dos municípios da Diocese de Passo Fundo, e tantos outros' municípi-

os, que até nem é bom dar o norze, porque a lista ó grande. Do Paraná, de Sao

Paulo, da Bahia, de Pernambuco, de Santa Catarina, de muitos lu"gares velo a j JJ

tório. ■

Nos nao podemos esquecer os ajutório de comida, de calçado, de roupa

que vieram dos operários da cidade, das paróquias de Porto Alegre, Novo Ham-

burgo, e outros lugares. Sabendo que toda essa gente, tava tirando um pedaço

do pao da mesa, pra nos ajudar, l/oces nao consegue imaginar o co'ração da gen

te como fica, quando chegam essas dmaçoes. Nós ficamos dez vezes mais fortes,

mil vezes mais animados, e um milhão de vezes mais irmãos. A gente sente que

e nossa classe que esta nos sustentando, 0 ajutório de uoces são essas "esco-

ras que ajudam a carregar a cruz...

Recebemos cartas do Brasil inteiro dizendo que estão com a gente,

que nós estamos certos...

A nossa luta só tem.um fim, terra aqui no Rio Grande, E agora, 'o que

o governo vai fazer com nós?,..

Nos estamos cansados de enrolaçao...

Nossa paciência esta acabando, Gá tamo há mais de quatro mes nessa

situação, e se as autoridades tivessem vontade já teriam resolvido, Como é que

prós arrozeiro, eles se mexeram tão ligeiro? .'

Nos queremos uma solução, Nem vamo dar mais prazo» Daqui pra frente

nos vamos contar as horas,..

og, 10

p-g-


O Goudrno nau respeitou nossos sindicatos e nassa Tedaraç-ão que cJe-

ram prazo até hojo. Ele nem ligou. Por isso nos Bstamus deciüidos a ir pra

Porto Alegro, acampar na frente do Palácio.

Nesse momento, nos queria fazor esse apele, para que tedos nossos ram

panheiros, nossos irmãos de classe, que deram uma ba.ita força prá nós boje

aqui, que continuem nos ajudando, por isso nós queria fazer esse apelo, prá

que vocês nos acompanham nos próximos dias a ir am Porto A legre-," f alar com o

Governador e o INCRA.'

"Nas nao suportamo móis essa situação. Com tanta terra sem ocupar e nós

aquiangustiadesem saída.

Companheirada, nos nem sabemos como agradecer prá vüces esse ajutório

tao grande. Essé : movimento dos sem-terra, nao e .so das- 600 familia-s que tamo

acampado, á um mouimento de nossa classe, dos trabalhadores. Tanto dos colo-

nos, cornos dos operários. Nos nao vamos perder essa batalha, nem que chova

canivete.

Muito obrigado por tudo o que vocês ve^ fazendo, Po-r ter vindo de

tao longe, nos conhecerem e nos dar força. Que essa nossa união permanece ra

da vez mais forte. E daqui de Ronda Alta, vamos começar a_ tirar do papel, es-

sa tal de reforma agrária.

Companheirada da colônia e do cidade. Muito obrigado por tudo; Nossa

união uai fazer um mundao bem mais bonito, com menos injustiça,' " •""

pog

ío. 11

Uiva os trabalhadores rurais

Wiva os operários da cidadB • ■■ ■'-"

l/iva a igreja dos pobres

Viva o Movimento dos Som-terra

Viva nossa união.


DOM TOMAS BALDUINO CONCLAMA PARA A RESISTÊNCIA

Na celebração da mic^a, que ePVceíraiy as manifestações do dia 25, Dom

Toma's, Bispo de Goiás l/elho, estada de Goiás, convidou todos os manifestan-

tes para continuarem a apoiar a luta dos sem-terra. "Esta movimento só é

comparável à grande greve du ABC paulista, tamanha B a sua repercussão",

disse o Bispo. E continuou: "Esta á uma luta jusra e sagrada e é por isto

QUB nos vamos rezar ao Deus dos pobres e oprimidos e pedir a ele forças

para não desanimar".

Na homília, após a leitura do Evangelho que falava da f]jltiplicação

.fios Paes, Dom Tomás comparou a situação dos colono- sem terra à situação

vivada pelo povo que estava ouvindo Jesus: "não tinha pão". E sontinuo»-,

'■os Discípulos, porém sairam à procura do que havia entre o povo e encontrs

ram 5 pães e 2 peixes. Esta atitude hoje e vivida por aqueles que se mos-

tram solidários aos sem terra; não ficam parados, esperando uma solução"

mágica."E por isso',' prosseguiu D. Tomás, "que a Igreja precisa se conver-

ter a partir do pobre". É a solidariedade dos pobres e da Igreja que 'está"

alimentando a esperança dos acampados. Segundo D. Tomás, .este é p "pão. da

união; o .pao do fraco acreditando no fraco; dos -pobres marginalizados na

sociedade na husca da esperança".- Esta e a multiplicação dos pães,.enfa-.

tizo.u o celebrante.

D. Tomas seguiu aninando os acampados a levar adiante a jornada,

qual uma procissão, "que vai dar vida a esta carne podre que á a socieda-

de". E afirmou "a transformação está se operando aqui, e vamos fazê-la com

ps pobres". - •■

E por fim ãdverirru: JJ -C-tiidatlo_cüm.„.a.guples que dão comida, roupas e

remédios, mas não dão a Terra".

E concluiu dizendo que' a voz de Deus hoje se faz ouvlr^pela voz'do"

povo, o povo de verdade. E a vCz do povo, á a voz do paz, da compreensão,

e a voz da reatauraçao. E a passagem da voz do povo para a .voz do Senhor

á coisa natural.

Símbolos e Lembranças dos hortos

No ofertorio da missa, os acampados colocaram em cima ao altar, fal-

to de taquaras e no próprio- acampamento, toda a sua vida e sua luta nos

quatro símbolos:

- A CRUZ: após a caminhada da manhã, a cruz foi firmada ao lado do palco.

No ofertorio, ela foi ofertada como lembrança da luta e da morta das

tres crianças do acampamento,_.. que sao lembradas com. três panos brancos

pendurados na cruz.

- yM FEIXE DE VARAS: simbolizando a força dos oprimidos cue querem per-

manecer firmes e fortes na sua união para não quebrar qual uma vera

isolada.

pág. 12


UMA PENELA V/AZIA: simbolizando a vontade de ganhar a terra para poder a

limentar a família. Sem terra a panela esta sempre vazia.

UM SAQUINHO DE TERRA: sxmholo maior da luta. Quem se criou.na terra tem

direito a um pedaço .de terra para trabalhar.

Oração lembra vítimas

Na oração Eucanstica foram lembradas as vítimas das lutas dos traba

lhadores rurais: as três crianças mortas no acampamento e 16 trabalhado-

res rurais assassinadOs' no Brasil nos últimos dois anos-

Apos a invocsçeo.s de cada nome, a multidão respondia " presente", sig-

nificando que as mortas nao foram em vao e hoje o 'SL. nue de cada um daque

les trabalhadores rurais e das crianças está santificada aqui e agora, T3n

forme afifmpu D, Tomás Balduino,

Mais de 100 entidades presentes no dia 25

No. dia do protesto em Encruzilhada Natalino^ mais de 1U0 entidades-

representando trabalhadores rurais e urbanos de todo o país, estiveram so

lidarizando-se com os agricultores sem-terra acampadas em Ronda Alta. A

grande maioria destas entidades vem apoiando os acampados na Campanha de

Solidariedade que se desenvolve há mais de cinco meses. Relacionamos abai

xo as entidades: r.: ', ■

ENTIDADES PRESENTES NO DIA DO COLONO EM RONDA ALTA - ENCRUZILHADA NATALI-

NO - 25 de julho de 1981. ;;,; . ■„ ■. ■ ,-■

- Comissão Pastoral da Terra de Goiás

- Comissão de Oustiça e Paz - Núcleo de Chapecó - L

- Associação dos Trabalhadores da Construção Civil de Palmeira das Missões

- Sindicato dos Bancários de Santo Ângelo "

- Frente Nacional do Trabalho

- INTERSINDICAL de.Porto Aldgre (representando vários sindicatos urbanos)

- Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil da Grande Porto Alegre

- Movimento de Oustiça e Direitos Humanos de Porto Alegre

- Movimento Contra a Carestia de Porto Alegre v "

- Federação Gaúcha dos Servidores Públicos

- Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Artefatos de Couros do San

to Ângelo

-Sindicatos dos Trabalhadores Rurais dos seguintes municípios:

. Caxias do Sul . Antônio Pradb " "■ :

. Salvador do Sul . Carlos Barbosa

. Garibaldi , Bento Gonçalves

pág.13


. Ijui

. Augusto Pestana '■

. Três Passos

> Catuípe-

. Miragyaí

.- Vergnópolis

, f\loua Bassano

. Braga

. Severiano de Almeida

, Espumoso

. Colorado

i Cruzairc do Sul

. Estrela

,' ^rrolo do Meio

. Nova Palma

, Nao MB Toque

. Wiamao

, Santo Angslo

- Comissão Pastoral da Tsrra de : Santa Catarina

- Diocese de Chapedó' . '■■' -■ -

- Sindicato dos Bancários de Uruguaiana

- Associação Profissional dos Auxiliares de Administração Escolar de Ijuí

- Associação dos Moradores da V/ila Campos l/srdes -de Alv/orada

- Diretório Central de Estudantes ■ de Rio Grande

- Pastoral de Juventude da Diocese de Rio Grande

- FETAESP

- Oposição Sindical dos Trabalhadores da Construção Civil de Porto Alegre

- Sindicato da Construção e do Mobiliário de Uruguaiana

- Representantes da Fazenda Burro Branco- Campo Fre - Santa Catarina

- Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Alimentação de Uruguaiana

- Paróquia de Tiradentes de Três Passas

- Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Palmeira da.s Missões

- Representante da c omissaa de Base do Centro Operário de Canoas-

- Comissão Regional da Pastoral Operária -da Rio Grande do 5 IJ1

- Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Tapejara

- Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Ciríaco

- Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Torres

- Comissão do Congresso da Mulher Gaúcha

- Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Carazinho

- Federação dos Trabalhadores na Agricultura - FETAG

- Confederação dos Trabalhadores na Agricultura --■ f)0IMITAI

- Centro dos Professores do Rio Grande' do Sul

- Associação Comunitária do Bairro Fátima de Canoas

- Paroquia Nossa Senhora de Fátima de Canoas

- Paróquia Sao Pedro de Erechim

- Sindicato dos Trabalhadores Rurais de:

. Campinas do Sul . Marcelinc Ramos

. Selbach , Ajurica>ia

. Tapera

- Igreja Evangélica de Cunfissao Luterana no Brasil

- Movimento de Oustiça e Nao Violência de Sao Leopoldo

- Faculdade de Teologia da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Bra_

sil de Sao'Leopoldo

- Sindicato dos Conferentes de Carga e Descarga nos Portos de RS

- Sindicato dos Portuários do Rio Grande do Sul

- Sindicato dos Estivadores de Rio Grande

pag,14


- Sindicato dos Arquitetos do Rio Grande do Sul

- Federação Nacional dos Arquitetos

-FrentaAgrariaGoLicha.-FAG

-Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Santa Antônio da Patrulha

- l/ice Coordenador de Pastoral da Arquidiocese de Porto Alegre- Pa.Marcos

Br and •■;..■.*

Também os sindicatos urbanos de Caxias do Sul mandaram seu apoio ao

Dia do Colono. Somente a Reforma Agrária poderá resolver o problema dos

Sem-Terra, afirmam. Abaixo a ralação destas entidades.

- Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos - Ivo Antônio Sartor - Presiden

te

- Sindicato dos Trabalhadores Fiação e Tecelagem, Renato Uieiro - Presid.

- Sindicato dos Trabalhadores Alimentação, Alcides Ludke, Presidente

- Sindicato dos Gráficos, Geci Prates, Presidente

- Centro dos Professores, Núcleo de Caxias do Sul, Maria Helena Sartori

- Representante da Chapa 3, dosa donas da Silva Chaves

- Representante da Chapa 2, doão Ruaro Filho

- Representante da Chapa 1, Roberto Dutra.

- Movimento Contra a Carestia., Pedro Pczenatto '■ ■■

- União das Associações de Bairro (UAB), dose Carlos de Anflar

- Representante da União Estadual de Estudantes, Eloy Frizzo

- Representante da "Tribuna Gperária", Leda Meneguzzo

- Presidente do PT, Geci Prates :.; -.:

- Uersador' do PMDB, dose Ivo Sartori ' '

- l/eread.ur ao PDT, Adilcio Cadorin

- Pelos Desempregados, Getulio Maia

- Associação do Bairro Braga

- Associação do Bairro Cruzeiro

- Associação do Bairro Coltro

pag.15


A NOiyfí SITUAÇÃO DO ACAMPAMENTO:

Dcpcis do DIA DO COLONO, o gGjernü fsderal

interviu no Encruzilhada Natalino e trans-

formou o local em um campo da concentração .

0 Ton. Coronel Sebastião do Moura - conhecida

como "Curió" - é o comandante dessa verdadei

ra operação de guorra, com o objetivo de

ate o dis 25 deste mês terminar com o

acampamento. Isto vem sendo feito otrav/és

da expulsão de algumas famílias, de ameaça^

da proibição de que os colonos saiam do

acampamento e uisitas entrem. Abaixo conta

mos as medidas do governo para esmagar o

povo do acampamento da Encruzilhada Natalino.

A PRIMEIRA l/ISITA AINDA FOI POSSÍl/EL

DEPOIS, CAIU A MASCARA DOS INTERVENTORES

No dia 6 de agosto-, um grupo de pessoas representando diversas enti-

dades visitou os colonos sem-torra da Encruzilhada Natalino, município de

Ronda Alta, estando conversando com eles durante va'rias huros. Os fatos rela

tados abaixo foram observaoos diretamente pelos visitantes ou o eles conta -

dos pelos colonos acampados.

1. As barreiras policiais colocadas nos estradas do acampamento tem

sido motivo de intranqüilidade constante. Os colonos pedem sair e retornar,

mediante identificação e previsão da hora de retorno, sendo proibio ? os porem

de trazer de fora utensílios, agasalhos ou gêneros alimentícios. A entrada

de carne, por exemplo, foi proibida sob alegação de que poderia estar dete-

riorada e intoxicar os colonos. Todos tem que caminhar ao longo de todo o

acampamento para chegarem aos seus barracos. Uma das irmãs que auxilia os co

lonos como enfermeira certo dia sumente conseguiu entrar mediante pressão

dos colonos sobre a polícia federal. A entrada de donativos é completamente

proibida e a poucos dias atro's uma camioneta de donativos procedente de Ua-

caria foi inclusive impedida de prosseguir ate' Ronda Alta e lá deixar os a-

limentos que trazia.

2. Os agentes federais presentes no acampamentu procuram de várias

formas impedir que os colonos se organizem e possam tomar desisões em grupo.

HS reuniões de discussão são expressamente probidas, sendo permitida apenas

uma reunião diária para rezar. Quando um grupo de colonos reúne-se para co«-

versar, logo surgem agentes federais registrando com gravadores tudo o que é

falado. Seguidamente são ligados alto-falantes com nmúsica, em alto volume,

atrapalhando muitos vezes as rezas e cantos religiosos ous colonos. O "Seu

Cuno" tem o monopólio da palavra nas reuniões que convoca e impede que os

colonos contrários as suas idéias falem e assim possam influerciar nas deci-

' ■ > - n . : 1 o o ;■' : c

.. ' ,. ' .16


8 ° a .Si M§-Ml.O.. assim, qua-nd-ü - o^-- eelo-nes -rrão" concordam com""""qu^" esta' sendo" pro-

posto, üuuem que a área esta' sob intervenção federal a que devem acatar as

determinações dos representantess do governo.

UMA SEMANA DEPOIS^A SITUAÇÃO PIGRÜU

A caravana que fci visitar os' acampados ■ da Encruzilhada Matalino^ no

dia 10 nao pode en-trar. A nova ordem, vinda da governa federal, impede a en-

trada de visitas, inclusive parentes dos agricultores acampados e só as-mulhe

res podam sair, depois de ide.ntif icarem-se, dizerem para onde vão, o que vão

fazer e a que horas voltam. De acordo com "o Ten.' Coronel Sebastião Floura, a

democracia acabou no acampamento, coisa que antes ele fazia questão de "dizer

existir, embora todas as ameaças e atos de violência. :

Caiu a mancara. Antes era a -.política do "bonzinho", a violência par

tia das agentes subalternos. Agord- ela parte diretamente da chamada "Coorde-

n.adoria do Acampamento do Natalino", sob a responsabilidade do Ten, Coronel

Sebastião de Moura, que em nota distribuída aos colonos a publicada" na imprsn

sa, promete acabar com o acampamento. 0 trecho seguinter da nota 'a claro quan

to as intenções: • ■ ;

"Considerando-qoe o prazo estipulado de um mês, depois que assumiu

o acampamento, esta' prestes a esgotar-se, a Coordenaduria ap^ía para que os

colonos decidam sobre as alternativas oferecidas, pois decorrido- esse praza

- e ja que nao existe qualquer outra alternativa -, o prohlema deixará de ser

social e passará a ser tratado c&mo de características exclusivamente paliei

ai, sujeito, portanto, a todas as conseqüências daí decorrentes."

A nota e clara e os fatos desta última semana confirma. Quem conti-

nuar querendo terra no Ri© Grande do' Sul será violentamente reprimido. Apro-

ximadamente 15 famílias-já foram expQlsas do acampamento, com a justificati-

va de que possuíam terra. De fato, a terra que os expulsos possuíam e um lo-

te urbano (30 x 40). de uma, dois--hectares de outra, insuficientes para o sus

tento da uma famídia. 0 INCRA enc-osta' a camioneta ao lado do barraco, acompa_

nhada de mais três viaturas - policiais. Depois, os agentes federais csrcam o

barraco e começam a desmontá-lo e carregar a camioneta. ""No momento seguinte,

perguntam ao colono qual o parente mais próximo"-para'despe já-lo lá, com a fa

Milia è toda a tralha.'Toda essa aperação é acompanhada de ameaças e provoca

çoes,

A chamada "Coordenadoria do Natalino" nãa poupou nam a missa. Inter

viu na liturgia, proibindo a parte do sermãa, em que o padre convida -os pre-

sentes a se manifestarem.

pag, jn


PRA TODG POWG QUE N03 A3UDA E PRAS AUTORIDADE-

Esta e a terceira carta que nos fizemos para Bsclarecer de nossa i-

tuaçao, So nao fizemos antes porque a situação tava preta no acampamento

com a chegada do Coronel Curió.

0 nosso acampamento taua uma beleza, nós tinha grupo de família prá

estudar o Estatuto da TBrra; nos tinha grupo de reza e de canto. Tinha

Comissão do distribuição da comida, de agasalho, e tinha Comissão de Ani

maçao, de bem-estar e a Comissão Geral,.

0 pouo tava com muita esperança, e não .tinha•bagunça nenhuma. -De-

:pois do dia 25 de julho, nós resolvemos mandar uma- comissão de 160 comipa

nheiros pra falar com o Governador. Pra explicar o nosso pedido de terra

no Rio Grande, como ele tinha dito, de que lugar de gaúcho é no Rio Graji

de. ■ . - , ■ , .. .

Ax veio o Coronel Curió, veio com uma montoeira de agentes secreto-

.da policia, com a polícia rodoviária, e com três caminhão de soldado do

exercito com aquelas roupas de guerra, cheia de folha. 0 Coronel veio com

o objetivo de convencer nos de ir pro,norte. E começou a fazer o serviço.

Botou barreira nu acampamento e começou a desunir o povo.

Começou distribuir comida no caminhão da COBAL prá mostrar pro povo

que gra bonzinho. E proibiu de distribuir a nossa comida e as roupas que

os sindicatos e as paróquias recolheram e que tao gnardadas na paróquia

de Ronda Alta. Nesses dias chegou condução comdoaçao oe Vacaria e de Po£

to Alegre, e ele fez voltar. Ninguém pode também trazer comida dos paren_

t e s • ■ ;,

Pra uns ele oferece dinheiro. Tenta pomprar o pessoal ; pra ir pra

Bahia e pro Mato Grosso. Fica criando discórdia uns.contra os.outros. Ea_

zendo promessa pra uns. Ele e seus homens vivem fazendo ameaça pra quem

não ^quer ir pro Mato Grosso. Nesses dias eles fiòaram passando com um.,

guincho no acampamento e ficaram.falando pelo alta-falante que quem nao

quizèr ir pro Mato Grosso, vão acabar com-os barracos botando fogo. Ele

vive espalhando medo entre o povo . Assuntando.a turma, Nao deixa ninguém

se reunir, Nao conseguimos mais fazer assembléia pra .disriutir nossos pro

blemas. Essa montoeira de gente, da.polícia, que anda com ele, anda fa-

zendo pressão nos barracos.: Se metem em qualquer grupinho e nao deixam se

reunir,e conversar. Vivem gravando toda conversa e ja fotografaram 'ate

as pedras da estrada. Sao tudo gente preparada pra fazer esse serviço. .-

Desunir o povo.

- : ---;_ . IrnaQine que ele trouxe junt.o até um sujeito metido a tra.vador e can_

-tador, mas pelo que se ve serve de: guarda-costa. . : . .J ...... .x. .

f pressão por todo lado,- í_ uma situação desgraçada. Ele vive ohaman

do colono pra se identificar no barraco dele. E fazendo propaganda pelos

auto-falactes. Todo dia nós terno que astear a bandeira e rantar o hino

nacional. Uoces já viram situação igual? Ate parece quaital,

pág „ 18 ~. : ' ■


Gutra coisa que ele anda fazendo e per segumco comissão. Nao dei-

xam fazer a reunião e vivern ameaçando,

Quando vem a imprenso e todas as uisitas de fora, ele leva pro seu

barraco, a so gente dele dá antreuista.

Nos acompanhamos toda mentira que alas falaram na uiagem pra Bahia

Agora nós queria esclarecer melhor. Ele veio oferecendo es sa viagem de a

uiãío e dizendo que lá teria churrasco o tudo de bom. Mas nós não aceita-

mos, porque nós temos o direito de ter terra no Rio Grande do Sul e ter

muita terra,por aí. Entí nem idianta ir wer. Ele co nsaguiu enxer os dois

aviões com gente de fora. Teve ate empregado de Prefeitura a peão da ci-

dade que ale de certo arrumou pra ir passear. Depais diss e na imprensa

que a maioria tinha aceitado , mas na verdade so três do nosso acampamen-

to aceitam ir pra Bahia. D resto é tud o.. mentira,

Agora ele está insistindo pra ir pro Mato Grossí Mas nos ja avisa-

mos que nao adianta. Nos só aceitamos no Rio Grande do b ul.

0 Governo vive dizendo que não teci r ecurso pra compra terra pra nós,

Jos perguntamos: vocês ja imaginaram a quantia da dinheiro que foi gasto

com o caminhão da C.QBAL, com a manutenção de todos essas soldados do e-

xercito, com essa gente da polícia que acompanha o coronel, tudo gente

que ganha muito bí com os gastos do viagem do avião, cem uma montoeira

de condução? Nos achamos que com esse dinheiro qast J em uma semana, quase

que ja dava pra comprar essa ter: Pele menos era dinheiro melhor a-

plicado.

0 Gc verno sabe que tom muita terra que pode ser desapropriada pelo

Estatuto da Terra aqui no Estado. Pcrqu a n;

10 cesaprcpria?NÓs sabemos pe-

Io seu Burim, do INCRA, que saiu a publicação no jornal da justiça, dan-

do ganho de causa pro Governo, que o INCRA vai tomar posse da Faz ende

Anoni. Porque o Governo nn o assenta pelo menos parte das famílias aí nes

sa fazenda que tem 9 mil hectares? N cs nao queremos muita terra. E pode

caber muito mais gente com a turma do Passo Real.

No-s-tambem já indicamos outras fa: endas aqui na região que podem ser

desapropriadas, como a Fazenda dos Guerra, a faz enda dos Judeus,e outras

mais que foram publicadas na imprensa

Nós queria avisar a todo po vo gaúcho. A todos nossos companheiros da

colônia e da cidade que nos ajudaram enviando .comid? e roupas. Que nos

tomos firme. Que s o aceitamos terra no Rio Grande do Sul. E que um dia

ainda nos vamos produzir feijão pra turma d a cidade comprar mais barato,

Nos queria também fazer u m apelo a todo povo, pra


lavra, que disse n o ano passado na Macali, que lugar de'- gaúcho é no Rio

Grande >

SE VOCÊ NOS A3U0A, NÚS UAMGS CONTINUA fIRME,

MUITO OBRIGADO,

Encruzilhada talino, agosto de 1981,

(Ob s, Essa carta não foi aprovada em assembléia, mas correu de barraco

SEM TERRA

em barraco e tod; povo deu.as idéias pra ser escrita

Assinam: Os colonos sem terra de Encruzilhada■Natalino

IMPORTANTE

SOLICITAMOS A TODOS OS COLABORADORES DA CAMPANH/t DE SOLIDA-

RIEDADE AOS SEM TERRA, QUE ENVIEM COMUNICADOS ACUSANDO 0 RE

CEBIMENTO DESTE, BOLETIM INFORMATIUO, ESPECIALMENTE AS DUAS

ÚLTIMAS EDIÇÕES (NÚMEROS 9 o 10). É IMPORTANTE PARA SABER-

MOS SE 0 MATERIAL ESlA CHEGANDO AO SEU DESTINO, E DAR CONH

NUIDAOE AO PROCESSO DE INFORMAÇÃO SOBRE OS ACONTECIMENTOS NA-

ENCRUZILHADA NATALINO.

Boletim Informativo da Campapha de Sclidariedade aos Agricultores Sem-Ter

ra, sob a responsabilidade da

COMISSÃO PASTORAL DA TERRA - CPT/RS

MOVIMENTO DE JUSTIÇA E DIREITOS HUMANOS e

PASTORAL-UNIVERSITÁRIA

Rua dos .Andradas, n a 1234, 223 andar, sala 2209

Porto Alegre - RS - CEP 90.000

pcg.,20

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