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a critica e a coragem arena e mdb (64/70) - cpvsp.org.br

chave<br />

Ano 1 maio/ 76 2<br />

( giordano bruno:<br />

a critica e a coragem<br />

arena e mdb (64/70)<br />

CangaCO: do outro lado.o absurdo?


Por motivos diversos não pudemos<br />

publicar o n? 2 da revista (embora já<br />

estivesse praticamente pronto), no perío-<br />

do previsto: Agosto-Setembro do ano<br />

passado.<br />

Este número que ora publicamos foi<br />

realizado com base naquele que já estava<br />

feito; retirando algumas matérias total-<br />

mente desatualizadas, acrescentando ou-<br />

tras. Calhou, por essas e outras razões,<br />

de quase todas as matérias estarem<br />

referidas ao passado. Esse passado tão<br />

presente. Por outro lado iniciamos um<br />

trabalho de divulgação de autores novos.<br />

A revista chave é uma forma de veicular<br />

idéias, preocupações, formas, tentando<br />

formar através do debate uma visão<br />

crítica.


GIOROANO BRUNO*.<br />

INTRODUÇÃO<br />

O trabalho que se segue foi escrito em<br />

Julho do ano passo, em meio ao<br />

interesse suscitado pelo filme sobre o<br />

filósofo. Pretendia-se com o trabalho<br />

fazer uma abordagem que vinculasse, de<br />

uma maneira mais completa do que a do<br />

filme, a filosofia de Bruno com a<br />

conjuntura da época.<br />

Mas vários meses se passaram e só agora<br />

o trabalho pode ser publicado. Embora<br />

com isso o estudo perdesse um pouco da<br />

atualidade do tema trazido pelo filme,<br />

ainda assim continua a ter um signifi-<br />

cado nâo menos atual se o colocarmos<br />

na perspectiva da luta ideológica que<br />

acontece no momento presente, resul-<br />

tado da luta de classes e de suas<br />

especificídades na conjuntura atual.<br />

Em resumo, essa luta consiste do choque<br />

entre as concepções idealistas e materia-<br />

listas, do confronto entre espírito e<br />

matéria.<br />

Os idealistas afirmam que o espírito, o<br />

ser, determina a matéria. E então, como<br />

conseqüência, afirmam que não foi o<br />

meio que fez Giordano Bruno; mas ao<br />

contrário, que o meio foi feito pelo<br />

filósofo e governantes da época. Esta é a<br />

CRÍTICA<br />

E<br />

CORAGEM<br />

sergio lessa<br />

concepção histórica que tem norteado o<br />

ensino oficial no Ocidente; a ela corres-<br />

ponde uma visão de mundo, e da<br />

História, como compartimentos estan-<br />

ques: acontecimentos que não se entre-<br />

laçam e conjunturas que não se relacio-<br />

nam dialeticamente. Afirmando que as<br />

coisas existem por existirem, o idealismo<br />

não é capaz de explicar a si mesmo.<br />

Já os materialistas, afirmam o oposto. É<br />

a matéria que determina o espírito, que<br />

foi o meio que forjou Giordano Bruno;<br />

foi da luta da classe feudal contra a<br />

burguesa, do choque entre feudalismo e<br />

capitalismo que surgiu o filósofo. E<br />

assim fazendo não isolam Bruno do<br />

contexto filosófico do seu tempo, opon-<br />

do e comparando a sua filosofia à<br />

Aristotélíca, oficial então. 0 materia-<br />

lismo, afirmando que tudo se relaciona<br />

dialeticamente, é capaz de explicar a si<br />

próprio, como a outras correntes filosó-<br />

ficas colocando-as numa interação per-<br />

manente com a conjuntura sócio-política<br />

em que surgiram e/ou foram representa-<br />

tivas.<br />

É esta vinculação de Giordano Bruno<br />

com seu meio que tentamos demonstrar


neste trabalho, e ó esta tentativa que o<br />

torna atual.<br />

Bruno nasceu em Nola, perto de Nápo-<br />

les, no ano de 1543, recebendo o nome<br />

de Felipe. 0 ^de Giordano viria mais<br />

tarde, quando vestisse o hábito clérico.<br />

Em 1575, doutorou-se em Teologia,<br />

tendo estudado antes quase toda a<br />

Filosofia grega, medieval e a cabala<br />

judaica, datando dessa época a influência<br />

que sofreu dos escritos de Raimundo<br />

Lúlio, Copérnico (teoria heliocêntrica) e<br />

Cusano. Estes estudos o afastaram da<br />

Filosofia ortodoxa, custando-lhe tal ato<br />

um processo de heresia. Foge para<br />

Roma, abandona as vestes sacerdotais e<br />

peregrina pelo norte da Itália ensinando<br />

astronomia e escrevendo uma obra hoje<br />

perdida: "Sobre os Sinais dos Tempos".<br />

É desterrado, em 1579, passando a viver<br />

em Genebra, de onde é expulso pelos<br />

calvinistas, depois na França, onde<br />

ensina por dois anos na Universidade de<br />

Tolosa. Em 1583 é obrigado a deixar a<br />

França devido à ameaça de guerra civil,<br />

não sem antes publicar "À Sombra das<br />

Idéias", "O Canto de Circe" e "Arquite-<br />

tura e Comentário da Arte de Lúlio".<br />

Segue então para a Inglaterra, onde fica<br />

como professor em Oxford. Devido a<br />

conflitos com doutores da Universidade,<br />

retorna à Londres onde publica, entre<br />

outros trabalhos: "Sobre a Causa, o<br />

Princípio e o Uno", "Despacho da Besta<br />

Triunfante" e "Sobre o Infinito, o<br />

Universo e os Mundos". Deste último,<br />

transcrevemos a "Epístola Preambular<br />

para o Ilustríssimo Senhor Michel de<br />

Castenau (. ..)".<br />

"Se eu, ilustríssimo Cavaleiro, manejasse<br />

um arado, apascentasse um rebanho.<br />

cultivasse uma horta, remendasse uma<br />

veste, ninguém me daria atenção, poucos<br />

me observariam, raras pessoas me censu-<br />

rariam e eu poderia facilmente agradar a<br />

todos. Mas por ser eu um delíneador do<br />

campo da Natureza, por estar preocu-<br />

pado com o alimento da alma, interes-<br />

sado pela cultura do espírito e dedicado<br />

à atividade do intelecto, eis que os<br />

visados me ameaçam, os atingidos me<br />

mordem, os desmascarados me devoram.<br />

E não é só um, não são poucos, são<br />

muitos, são quase todos. Se quiserdes<br />

saber porque isso acontece, digo-vos que<br />

o motivo é que tudo me desagrada,<br />

detesto o vulgo, a multidão não me<br />

contenta. Somente uma coisa me fas-<br />

cina: aquela em virtude da qual me sinto<br />

livre na sujeição, contente no sofri-<br />

mento, rico na indigência e vivo na<br />

morte. Aquela em virtude da qual não<br />

invejo os que são servos na liberdade,<br />

sofrem no prazer, são pobres nas<br />

riquezas e mortos em vida, porque<br />

trazem no próprio corpo os grilhões que<br />

os prendem, no espírito o inferno que<br />

os oprime, na alma o erro que os<br />

debilita, na mente o letargo que os<br />

mata. Não há, por isso, magnanimidade<br />

que os liberte, nem longanimidade que<br />

os eleve, nem esplendor que os abri-<br />

lhante, nem ciência que os avive.<br />

Daí sucede que não arredo pé do árduo<br />

caminho, como se estivesse cansado.<br />

Nem, por indolência, cruzo os braços<br />

diante da obra que se me apresenta.<br />

Nem, qual desesperado, volto as costas<br />

ao inimigo que se me opõe. Nem, como<br />

desnorteado, desvio os olhos do divino<br />

objeto. No entanto, sinto-me geralmente<br />

apontado como sofista, que mais se<br />

preocupa em parecer sutil do que em ser<br />

verídico. Um ambicioso, que mais se<br />

esforça por suscitar nova e falsa seita do<br />

que consolidar a antiga e verdadeira. Um


trapaceiro, que persegue avidamente o<br />

esplendor da glória, projetando as trevas<br />

dos erros. Um espfrito inquieto que<br />

subverte os edifícios da boa disciplina,<br />

tornando-se maquinador de perversi-<br />

dades. (...) Pois, em verdade, eu não<br />

me entrego a fantasias e, se erro, não<br />

creio errar intencionalmente; falando e<br />

escrevendo, não disputo pelo simples<br />

amor da vitória em si mesma (porque ei»<br />

considero inimigas de Deus, abjetas e<br />

sem motivo de honra todas as reputa-<br />

ções e vitórias, quando não fundamen-<br />

tadas na verdade), mas por amor da<br />

verdadeira sabedoria e por dedicação à<br />

verdadeira contemplação eu me afadigo,<br />

me sacrifico, me atormento. (.. .)"<br />

Por todos países que passava, em suas<br />

respectivas Universidades, reafirmava sua<br />

posição contrária à de Aristóteles. Em<br />

1590, retorna a Veneza onde, devido a<br />

choques com um aluno (Mocenigo), é<br />

denunciado à Inquisição. Embora decla-<br />

rando-se arrependido e renegando seus<br />

atos, o processo de Bruno é transferido<br />

para Roma, onde o Tribunal da Santa<br />

Inquisição é mais rígido: o processo dura<br />

sete anos, ao fim do qual Bruno é<br />

declarado herético e queimado vivo, em<br />

1600.<br />

Bruno tinha consciência de que isso lhe<br />

aconteceria, como revelou em alguns de<br />

seus livros. E nem por isso arredou pé.<br />

Mais que sua filosofia, é responsável por<br />

sua morte a perseverança côm que<br />

defendeu o que achava certo. Sua vida<br />

foi de peregrinações, fugas e persegui-<br />

ções, pois, como sempre afirmou, "a<br />

filosofia nunca é cômoda".<br />

SUA ÉPOCA<br />

A época em que Giordano Bruno viveu<br />

(fim do século XVI), se caracterizou<br />

pelo fortalecimento do Mercantilismo e<br />

o declínio dos antigos valores feudais na<br />

Europa. A ascenção da burguesia veio<br />

criar condições para que o sistema<br />

feudal, nos aspectos econômicos, sociais,<br />

políticos e filosóficos, seja cada vez mais<br />

questionado em suas estruturas. Uma das<br />

peças fundamentais dessa estrutura, a<br />

Igreja, com sua filosofia baseada na<br />

"estrutura conceituai aristotélica", é<br />

atacada como instituição e como filoso-<br />

fia repetidas vezes por Lutero, Calvino.<br />

Huss e pelos Albigenses, entre outros.<br />

Nesse contexto de questionamento viveu<br />

e morreu Giordano Bruno. Para enten-<br />

dermos o caráter inovador de sua obra<br />

se faz necessária a compreensão da<br />

filosofia aristotélica (então a filosofia<br />

oficial da Igreja Católica Apostólica<br />

Romana) e da de Bruno. Mas dado à<br />

extensão que tal trabalho assumiria<br />

faremos uma comparação entre a Cos-<br />

mologia 2 de Bruno e a de Aristóteles,<br />

ponto básico das duas filosofias.<br />

A COSMOLOGIA DE ARISTÓTELES<br />

(384/322 a.C.)<br />

Antes e até Platão, o movimento do<br />

universo era explicado pela existência da<br />

alma que o universo ou suas partes<br />

possuíam, não ficando bem claro se esta<br />

alma era interna ou externa ao universo,<br />

ou às suas partes.<br />

Em "Física", Aristóteles diz: "Tudo que<br />

se move ou se transforma, é movido ou<br />

transformado por alguma coisa, e esta<br />

alguma coisa é diferente da coisa que<br />

move ou transforma". Isso forma uma<br />

cadeia de "empurra-empurra", que vai<br />

acabar pelo "movedor não movido", que<br />

algumas vezes Aristóteles afirma ser<br />

único, e outras de serem em número de


quarenta e quatro ou cinqüenta e cinco.<br />

O Universo Aristotélico é formado por<br />

esferas concêntricas, é finito e tem como<br />

centro a Terra.<br />

O que é perfeito é também eterno (já<br />

que ao que não é eterno falta a<br />

qualidade de o ser, e assim não é<br />

perfeito), seguindo-se que o pefeito é<br />

imutável e imóvel. Assim, onde estiver o<br />

"movedor não movido" (que é colocado<br />

por Aristóteles na esfera mais externa<br />

do Universo), não haverá movimento<br />

algum.<br />

O mais perfeito dos movimentos é o<br />

circular uniforme (imprimido por Deus a<br />

todas as coisas), e o mais imperfeito é o<br />

retilíneo não uniforme (transgressões da<br />

ordem divina). Assim sendo, no centro<br />

do Universo (a Terra) só deveria existir<br />

o imperfeito, já que é o ponto mais<br />

distante da região perfeita (a última<br />

esfera do Universo, onde se encontra o<br />

"movedor não movido"); e conforme<br />

fôssemos caminhando em direção à<br />

periferia do Universo, veríamos o movi-<br />

mento retilfneo ser substituído gradati-<br />

vamente pelo circular uniforme.<br />

Como os elementos terra, água, fogo e<br />

ar tendem a fazer movimentos para cima<br />

e para baixo (logo retilíneos) eles só são<br />

encontrados no centro do Universo, e<br />

onde existir o movimento circular será<br />

encontrado o Éter. Desses cinco ele-<br />

mentos é formado o Universo Aristo-<br />

télico.<br />

Para o movimento se transmitir do<br />

imóvel primeiro motor para o centro do<br />

Universo (a Terra), faz-se necessário um<br />

meio, que para, Aristóteles são trinta e<br />

três esferas, nas quais estão fixas as<br />

estrelas, os planetas, o Sol e a Lua. E<br />

para evitar que o movimento do centro<br />

se propague até a última esfera, Aristó-<br />

teles coloca no conjunto mais trinta e<br />

duas esferas, intercaladas entre as pri-<br />

meiras, somando assim cinqüenta e cinco<br />

esferas o Universo Aristotélico.<br />

Disso seguem afirmações como: a Terra<br />

está parada, o brilho das estrelas se deve<br />

ao atrito delas com o ar, o Universo é<br />

finito, esférico e eterno.<br />

A COSMOLOGIA DE BRUNO E O<br />

QUESTIONAMENTO DA COSMO-<br />

LOGIA ARISTOTÉLICA<br />

Giordano Bruno, em "Sobre o Infinito,<br />

o Universo e os Mundos", começa por<br />

afirmar que o Universo Aristotélico é<br />

insatisfatório. Pergunta qual seria a<br />

posição das esferas. Já que não existe<br />

nada fora delas, como localizá-las? Dizer<br />

que estão nelas mesmas, como faz<br />

Aristóteles, não é dar-lhes uma locali-<br />

zação. Aristóteles diz que "fora do<br />

mundo há um ente intelectual e divino,<br />

de sorte que Deus venha a ser o lugar de<br />

todas as coisas". Ora, como algo "incor-<br />

póreo, ininteligível e sem dimensão pode<br />

ser o lugar de uma coisa dimensio-<br />

nada? " E se alguém estendesse a mão<br />

para além da última esfera, a mão não<br />

estaria em lugar nenhum e, consequente-<br />

mente, não existiria — o que é uma<br />

contradição peripatética 3 por todos re-<br />

conhecida como tal.<br />

A partir daí inicia-se um raciocínio a<br />

favor de um Universo infinito, com as<br />

seguintes proposições: "Além do Uni-<br />

verso Aristotélico existe o vácuo: coisa<br />

mais difícil de imaginar do que o<br />

Universo infinito"; "Num Universo fini-<br />

to não se pode fugir ao vácuo". Estas<br />

duas proposições são importantíssimas<br />

para se entender o raciocínio que se<br />

segue: "Nosso Universo se localiza num


espaço, que seria vácuo, caso aqui não se<br />

encontrasse o Universo. Esse espaço<br />

onde estamos tem alguma aptidão a mais<br />

que outras partes do espaço para nos<br />

conter? É lógico que não, pois onde<br />

não há nada, não existe diferenças,<br />

nem diferentes aptidões. Logo, se o<br />

mundo aqui existe, e se o espaço não<br />

pode repeli-lo nem atraí-lo e é igual,<br />

então podem existir outros mundos,<br />

iguais ao nosso, pois a aptidão não é<br />

vã."<br />

Seguindo esse raciocínio, assinala que é<br />

bom que o mundo exista e que, se o<br />

mundo não existisse, seria pior. Se o<br />

espaço é todo igual, e é bom que<br />

estejamos contidos numa parte do mes-<br />

mo, então o Universo seria muito<br />

melhor se todo ele fosse repleto de<br />

mundos iguais ao nosso, do que só o<br />

nosso existisse. Como Deus só faz as<br />

coisas da maneira mais perfeita, segue-se<br />

que o espaço contém um número<br />

infinito de mundos, ou é infinito.<br />

E isso, continua ele, é bom para Deus,<br />

pois só num Universo infinito poderiam<br />

manifestar-se as infinitas aptidões divi-<br />

nas. Ainda lembrahdo que a existência<br />

do mundo é considerada boa para<br />

(1) É oportuno assinalar que a Igreja<br />

estava profundamente entrosada ao siste-<br />

ma Feudal, já tendo, inclusive, possuído<br />

entre 1/3 a 1/2 das terras cultivadas da<br />

Europa. Veja Leo Hubermann: História<br />

da Riqueza do Homem.<br />

(2) Ciência das leis que regem o "mun-<br />

do" físico.<br />

* * •<br />

* * *<br />

- - %-■<br />

Giordano Bruno, transcrevemos o seguin-<br />

te: "Que motivo nos levaria a acreditar<br />

que o agente, podendo fazer um bom<br />

infinito, o faz finito? Se o faz finitõ,<br />

por que devemos acreditar que possa<br />

fazê-lo infinito, sendo nele a mesma<br />

coisa o poder e o fazer?" 4 (Isto é:<br />

sendo Deus onipotente, não existe dife-<br />

rença entre o que faz e o que pode<br />

fazer; logo, se o Universo é finito, como<br />

afirma Aristóteles, a . aptidão divina<br />

também o é, e vice-versa.)<br />

Assim, fica claro o poder de contestação<br />

da filosofia de Bruno: ataca de maneira<br />

fulminante um dos pilares do sistema<br />

feudal — a Filosofia Aristotélica, ado-<br />

tada pela Igreja. Fica claro também<br />

porque ele foi condenado pelo Tribunal<br />

da Santa Inquisição.<br />

Giordano Bruno tinha consciência de<br />

que isso lhe aconteceria, como revelou<br />

em alguns de seus livros. E nem por isso<br />

arredou pé. Mais do que sua filosofia, é<br />

responsável por sua morte a perseverança<br />

com que defendeu o que achava certo.<br />

Sua vida foi de peregrinações, fugas e<br />

perseguições, pois, como sempre afir-<br />

mou, "a Filosofia nunca é cômoda".<br />

(3) Em referência ao costume de Aristó-<br />

teles ensinar andando num "peripathos",<br />

ou lugar para se caminhar no Lyceum de<br />

Atenas.<br />

(4) in "Sobre o Infinito, o Universo e os<br />

Mundos", pg. 26, em "Os Pensadores",<br />

Ed. Abril, vol. XII.


ARENA E MDB<br />

CB4/70]<br />

Esta é a segunda patte de um trabalho<br />

sobre os partidos políticos no Brasil<br />

desde 1945 até 74. Foi feita a partir da<br />

leitura de ensaios e de jornais da época.<br />

Quando nSo restavam dúvidas a respeito<br />

do êxito que havia alcançado o movi-<br />

mento militar de 64, estava encerrando-<br />

-se um ciclo de poder civil no país.<br />

Não que as Forças Armadas não tives-<br />

sem estado presentes entre 54 e 64. Pelo<br />

contrário, dentro de toda a onda de<br />

polarização política que movimenta a<br />

nação; a posição das Forças Armadas foi<br />

um fator decisivo.<br />

De certo modo a crise que culminou<br />

com a mudança de 64 estava sendo<br />

"adiada" desde 1954, quando Getúlio<br />

Vargas se suicida. Este ano marca o<br />

início de uma forte movimentação<br />

operária, camponesa e estudantil. Esses<br />

movimentos, que mais tarde irão expres-<br />

sar-se através do CGT (Comando Geral<br />

dos Trabalhadores) e das Ligas Campo-<br />

nesas, arrastam consigo o PTB.<br />

João Goulart era um homem próximo<br />

das lideranças das massas e era vice-presi-<br />

dente pelo PTB, quando Jânio Quadros<br />

renunciou. Foi por essas razões que ele<br />

conseguiu manter-se na presidência ou<br />

chegar até ela, embora num regime<br />

parlamentarista. No dia 25 de agosto de<br />

1961 (data da renúncia de Jânio), já se<br />

haviam manifestado tendências nas For-<br />

ças Armadas de realizar o que foi<br />

realizado em 1964, no entanto não havia<br />

ainda base de apoio, a burguesia ainda<br />

tinha uma cartada a jogar (Jango) e a<br />

classe média não estava suficientemente<br />

assustada.<br />

O PTB era um partido com caracterís-<br />

ticas essencialmente populistas, com raí-<br />

zes urbanas, ligado aos sindicatos e ao<br />

setor dos empresários industriais (por<br />

paradoxal que pareça). Em linhas gerais,<br />

o PTB era o partido com o qual Vargas<br />

manejava os mecanismos populistas: con-<br />

ceder às massas certas vantagens mate-<br />

riais e uma imagem paternalista, impe-<br />

dindo assim a afluência em direção aos<br />

partidos de esquerda.<br />

A burguesia esperava que Jango seguisse<br />

a política de Getúlio, quando o primeiro<br />

assumiu a presidência. No entanto desde<br />

53-54 o movimento operário vinha se<br />

radicalizando, e nesse contexto o PTB<br />

também. Essa radicalização do PTB<br />

implicou em grande medida, na aderên-<br />

cia às teses nacionalistas e também de<br />

um certo grupo, liderado por Brizola, às


10<br />

reformas de base.<br />

Goulart ao assumir a presidência do<br />

pafs, estava assumindo uma série de<br />

problemas econômicos, como a alta<br />

dívida externa contraída pelo país na<br />

década de 50; mas principalmente a<br />

contradição básica entre os interesses da<br />

burguesia de manutenção dos lucros, que<br />

a curto prazo significavam uma conten-<br />

ção dos movimentos relvindicatõrios das<br />

classes assalariadas. O choque e uma<br />

solução de força eram inevitáveis.<br />

Estando Jango entre dois fogos, foi-se<br />

aproximando cada vez mais da chamada<br />

esquerda radical, representada principal-<br />

mente no CGT, na UNE, nas Ligas<br />

Camponesas, que naquele momento ha-<br />

viam se fortalecido.<br />

A burguesia industrial que até então<br />

depositara em Jango suas esperanças, o<br />

abandonou; o PSD se aproxima da UDN;<br />

os setores militares se movimentam.<br />

Quando o movimento militar articu-<br />

lou-se concretamente, o mesmo esperava<br />

encontrar resistência, tanto de setores do<br />

próprio exército (pelas demonstrações<br />

de apoio que antes haviam manifestado),<br />

como de setores civis. No entanto, nem<br />

um tiro foi disparado. O movimento<br />

militar encontrou uma esquerda despre-<br />

parada e desarmada, além de dividida e<br />

sem uma condução revolucionária.<br />

O que fica claro em 64 é, fundamental-<br />

mente, o fracasso do populismo e da<br />

esquerda reformista.<br />

De maneira muito geral, o movimento<br />

militar de 64 teve como intuito deter o<br />

avanço das tendências de esquerda e sua<br />

crescente influência junto às massas.<br />

De fato, uma solução de força foi<br />

tomada. Mas estando os militares no<br />

poder e tendo cumprido o que seria o<br />

seu principal objetivo, entendiam alguns<br />

políticos que a eles caberia governar o<br />

Brasil; é o caso de Carlos Lacerda,<br />

governador da Guanabara, dirigente da<br />

UDN.<br />

Pela lei, estavam programadas eleições<br />

presidenciais para 1965; o governo<br />

Castelo Branco adiou-as para 1966.<br />

Segundo o transparecer de diversos<br />

relatos, as intenções do presidente Cas-<br />

telo Branco eram de cumprir esses<br />

prazos; no entanto a linha dura das<br />

Forças Armadas havia decidido que os<br />

políticos eram incapazes de cumprir a<br />

missão a que o movimento de março<br />

havia se proposto, que era, por um lado,<br />

propugnar uma aceleração do ritmo de<br />

expansão do capitalismo nacional, ligan-<br />

do-o aos interesses estrangeiros, usando<br />

para dirigir essa política econômica uma<br />

camada de tecnocratas teoricamente apo-<br />

líticos; e por outro lado, afastar de vez a<br />

esquerda do cenário político. Se os<br />

políticos tradicionais não eram capazes<br />

de criar um governo forte, os militares o<br />

fariam.<br />

0 governo Castelo Branco foi afastando<br />

possibilidades de um retorno ao poder<br />

civil, primeiro declarando inelegíveis<br />

diversos candidatos a governos estaduais,<br />

üepois adiando as eleições diretas para a<br />

presidência da República. O prejuízo<br />

dessa situação foi sentido pelo poder<br />

legislativo e pelos partidos políticos que<br />

ali mantinham a sua já restrita forma de<br />

expressão.<br />

Nessa virada política, que culminou com<br />

a extinção dos partidos políticos que<br />

vimos na primeira parte deste artigo.


surgiram a ARENA e o MDB, instau-<br />

rando-se o bipartidarismo. Legalmente,<br />

no entanto, mantém-se a possibilidade<br />

de formar outros partidos, mas na<br />

realidade não passa de formalidade, pois<br />

as dificuldades são tão grandes que é<br />

quase impossível fazê-los.<br />

Para podermos entender a ARENA e o<br />

MDB e sua atuação, é necessário ter em<br />

claro: (Dque é basicamente a camada<br />

de políticos dos ex-partidos que os<br />

constituíram e (2) que pela própria<br />

artificial idade da criaçSo dos novos<br />

partidos não tinham muita base real na<br />

sociedade.<br />

Houve uma reordenação que em linhas<br />

gerais coloca o PTB no MDB, o PSD na<br />

ARENA e no MDB e a UDN na<br />

ARENA. Essa é a regra, mas com muitas<br />

exceções. Vamos encontrar ex-dirigentes<br />

do PTB na ARENA e ex-dirigentes da<br />

UDN no MDB. Isto pela própria confor-<br />

mação desses antigos partidos, que são<br />

partidos que poderíamos chamar de<br />

não-ideológicos. É claro que cada um<br />

deles tem um conjunto de idéias pró-<br />

prias que defende, mas tudo nos leva a<br />

crer que no fundo são coligações<br />

nacionais que representam um conjunto<br />

heterogêneo de interesses regionais e que<br />

têm como princípio comum a manuten-<br />

ção do sistema. Isto é o fundamental.<br />

Quanto aos partidos menores, é extrema-<br />

mente difícil seguir uma trajetória pós-<br />

-extinção; no entanto nos parece haver<br />

sido a sua escolha tão aleatória, quanto<br />

a dos partidos nacionais citados (PTB,<br />

PSD e UDN), com exceção da esquerda.<br />

Essa se constitui por partidos ideológicos<br />

e suas direções vão ter um caráter<br />

diferente, em parte aderindo ao MDB<br />

numa posição radicai ou então man-<br />

tendo-se à parte do processo institu-<br />

cional.<br />

Apesar de extintos, os partidos nacionais<br />

continuaram funcionando, de maneira<br />

mais ou menos articulada, pelo menos<br />

ao nível regional e Tocai, expressando-se<br />

através da ARENA e do MDB.<br />

0 papel da ARENA é de ser um<br />

instrumento do movimento de 64, fun-<br />

damentalmente um agente modernizador<br />

da sociedade brasileira. O papel da<br />

oposição já é mais vago e mais passível<br />

de diversas posições. Mas o ideal do<br />

modelo era ter uma oposição que<br />

apoiasse os princípios de 64, mas fosse<br />

vigilante: algo parecido com o que<br />

deveria ocorrer nos EUA entre o Partido<br />

Democrata e o partido Conservador.<br />

Uma das características principais dos<br />

novos partidos é uma divisão interna,<br />

produto dos fatores acima mencionados;<br />

a sublegenda foi uma das formas encon-<br />

tradas para atenuar estas divisões.<br />

O MDB em grande medida aceitou o<br />

papei que lhe estava sendo designado.<br />

Essa, entre outras razões, foi a causa de<br />

seu esvaziamento no período estudado,<br />

cabendo ser ventilada diversas vezes a<br />

idéia de auto-extinção. 0 MDB não pode<br />

cumprir o seu papel vigilante, em parte<br />

por suas próprias contradições internas,<br />

em parte pelas contínuas pressões ofi-<br />

ciais.<br />

O que ocorreu foi o virtual esvaziamento<br />

do processo eleitoral, na medida em que<br />

ele não podia expressar as reais contra-<br />

dições da nação. Nas eleições, o número<br />

de votos brancos e nulos foi muito alto.<br />

Sucediam-se as cessações e o conse-<br />

qüente enfraquecimento do MDB. A<br />

oposição, de uma maneira geral, se<br />

absteve de atitudes mais radicalmente


12<br />

críticas em relação ao governo, temendo<br />

que isso pudesse provocar uma reação<br />

mais violenta ainda, pelos setores mais<br />

ortodoxos do movimento de 1964. Essa<br />

foi uma constante na trajetória emede-<br />

bista. Uma espécie de ser ou não ser,<br />

mas isso ligado a uma situação concreta,<br />

onde as forças políticas estão em<br />

movimento. Diversas vezes, ex-petebistas<br />

levantaram a possibilidade de recriar o<br />

partido; a ala mais radical do MDB, que<br />

poderia ser considerada mais ideológica,<br />

esteve flutuante nessa época, inclusive<br />

sendo afastada do partido, quando de<br />

uma onda de cessações em 68-69.<br />

Por outro lado a ARENA enfrenta<br />

problemas que também decorrem da<br />

rigidez do sistema. De fato, a ARENA<br />

não decide nem sobre si mesma, nem<br />

sobre os rumos do país; o que se<br />

esperava, sendo partido do governo.<br />

Sendo assim, ela se limita a apoiar os<br />

atos do governo e a defendê-los a nível<br />

federal. No nível regional e local, se dá<br />

de uma maneira diferente a estruturação<br />

do poder: de uma maneira geral, a classe<br />

dominante, escolhe os seus represen-<br />

tantes e estes exercem a administração.<br />

Esse poder se organiza para que os<br />

interesses regionais sejam representados a<br />

nível nacional; nesse sentido, a proble-<br />

mática que nos interessa é ao nível da<br />

divisão dos partidos que são represen-<br />

tantes desses interesses. O fato de que<br />

num dado momento eles tinham sido<br />

colocados abaixo numa mesma sigla, não<br />

eliminou a divisão de interesses entre<br />

eles, essas divisões abalam a ARENA,<br />

pois são de difícil resolução e, em<br />

determinados momentos vai fortalecer o<br />

partido oposicionista.<br />

O que se observa em termos de<br />

reordenação de forças, é, por um lado,<br />

uma ligeira predominância da ex-UDN<br />

no partido situacionista, e por outro, no<br />

partido oposicionista, a heterogeneidade<br />

é mais generalizada. Essa predominância<br />

da UDN adquirida após 64, é principal-<br />

mente apoiada não numa base popular,<br />

eleitoral, ou como se lhe queira chamar,<br />

mas sim de cima para baixo. 0 conflito<br />

UDN-PSD, parece ser a divisão básica da<br />

ARENA. Parece porque a situação não<br />

permaneceu estática: apesar da já citada<br />

artificialidade dos dois novos partidos,<br />

eles adquirem pouco a pouco uma<br />

dinâmica própria, com suas próprias<br />

correlações de forças, determinadas não<br />

só por pleitos anteriores, mas com base<br />

em pleitos que tiveram as novas legendas<br />

e a nova situação em jogo. Mas o<br />

processo é lento, e esse processo de<br />

diluição das antigas agremiações pode<br />

durar ainda muito tempo.<br />

As diferenças de interesses dividem o<br />

que nós poderíamos chamar de classe<br />

política e também a nação mais profun-<br />

damente do que o MDB e a ARENA.<br />

Estes, no entanto, são as formas legais<br />

de expressão, sendo que delas, algumas<br />

tendências estão marginalizadas. Mas os<br />

homens que optaram por uma carreira<br />

política, no sentido tradicional, têm que<br />

se adequar aos mecanismos institu-<br />

cionais. Nessa medida, nós vamos ver a<br />

dinâmica que os dois partidos adquirem<br />

na sua interação com a realidade do<br />

país. E o país viveu transformações, que<br />

se não ao nível da infra-estrutura,<br />

claramente ao nível da super-estrutura.<br />

Os acontecimentos de 68 no plano<br />

nacional e internacional, marcam o auge<br />

e portanto o início da queda de uma<br />

forma de atuação política da esquerda.<br />

Nesse momento ocorre uma polarização:<br />

por um lado as tentativas de luta<br />

armada, e por outro o AI-5. Para o MDB<br />

o dilema, de uma certa maneira, sempre


■<br />

foi não radicalizar para nSo perder os<br />

resquícios de possibilidade de atuação<br />

ou então permanecer passivo. NSo po-<br />

demos esquecer que de uma maneira ou<br />

de outra, o MDB, como qualquer<br />

partido, aspira ao poder, sendo esse seu<br />

objetivo. EntSo vamos ver o MDB<br />

atuando em dois níveis: na primeira uma<br />

tentativa de conquistar uma base popu-<br />

lar, no outro a política de corredor, dos<br />

bastidores do Congresso, de Assembléias<br />

Legislativas, etc. Estes dois níveis se<br />

complementam de uma maneira confli-<br />

tiva. A conquista de uma base popular,<br />

implica em defender os seus interesses<br />

como classe, ou ceder favores na base da<br />

política populista. Quando a segunda<br />

alternativa é posta em prática, a legenda é<br />

enfraquecida — acentuando-se a impor-<br />

tância dos nomes apresentados. Isso vem<br />

reafirmar a tendência de escalar o poder<br />

à sombra de quem o tem. Mas na<br />

medida em que a situaçSo econômica<br />

prejudica as classes mais baixas, estas<br />

retiram seu apoio àquelas que não a<br />

representam nem lhe servem. O partido<br />

da oposição vive esse movimento pendu-<br />

lar. Na realidade, ocorre um confronto<br />

das diversas ideologias que convivem<br />

dentro do MDB.<br />

Na ARENA, a defasagem entre os<br />

princípios defendidos ou expostos nos<br />

estatutos e a realidade é muito clara:<br />

esta se resume na forma mais efetiva de<br />

* * *<br />

se manter no ou perto do poder.<br />

13<br />

Os acontecimentos de 68 levam ao<br />

recesso do Congresso por quase um ano.<br />

Esse momento significou uma radicali-<br />

zação entre ser dó regime e ser anti-<br />

regime: ser do MDB era ser do regime —<br />

o MDB passava por uma de suas crises<br />

cíclicas. O governo tentava fortalecer os<br />

dois partidos, ou melhor, o sistema<br />

bipartidário em geral. 0 Congresso só é<br />

reaberto quase no fim de 69.<br />

Um elemento que não podemos perder<br />

de vista, é a situação internacional e a<br />

relação de dependência brasileira. Segun-<br />

do teses divulgadas recentemente, a<br />

pressão dos cartéis é dirigida ao enfra-<br />

quecimento tanto dos partidos, como do<br />

poder legislativo, (vide Opinião n? 146)<br />

As eleições de 1970 marcaram a vitória<br />

do voto nulo, do voto em branco e da<br />

ARENA, ficando o MDB em franca<br />

minoria. Isso se explica pela separação<br />

de águas que se colocou em 1968.<br />

Poderíamos encerrar este período com<br />

uma frase do tipo: "assim caminham os<br />

partidos no Brasil" - que refletiria os<br />

ciclos que se repetem lentamente. Res-<br />

taria só perguntar em que medida as<br />

contradições reais das forças sociais<br />

permitirão a subsistência dessa forma de<br />

atuação política, na sua estrutura.


14 mwmmtuyi


MACHADO<br />

DE<br />

Entre os interessados em literatura há os<br />

que defendem a validade da obra de<br />

Machado de Assis e outros que a negam.<br />

Alguns o colocam como o maior escritor<br />

do século passado por ter atingido<br />

excelentes resultados literários para a<br />

época; outros o condenam, pois ele teria<br />

se ocupado somente com o indivíduo,<br />

deixando em segundo plano uma crítica<br />

social e política. Para que se possa<br />

solucionar alguns pontos desta discussão,<br />

é necessário que se estabeleça em que<br />

condições e em que medida se colocam<br />

a crítica social e a análise psicológica na<br />

literatura.<br />

Para que se possa falar da crítica em<br />

Machado, é necessário que tenhamos<br />

uma idéia da situação em que se<br />

encontravam a sociedade e a cultura<br />

brasileiras no século passado.<br />

Neste período as artes no Brasil estavam<br />

associadas a um fenômeno típico da era<br />

colonial: a transplantação cultural. Ou<br />

seja, o Brasil copiava os valores culturais<br />

e ideologias da Europa; melhor dizendo,<br />

a classe dominante o fazia, no anseio de<br />

se igualar às elites artísticas européias. É<br />

um fenômeno comum dentro do sistema<br />

e sociedade coloniais, mas que trouxe<br />

como conseqüência certos vícios esté-<br />

ticos para a arte brasileira; sendo que<br />

ASSIS<br />

15<br />

esta etapa foi necessária para que o<br />

processo de desenvolvimento artístico no<br />

Brasil chegasse ao Modernismo e à arte<br />

contemporânea.<br />

Na Europa havia uma<br />

política que justificava<br />

e daquele movimento<br />

ideologia. Ocorriam a<br />

guesia, o progresso e<br />

pensamento científico;<br />

condições que levaram<br />

Realismo e Simbolismo,<br />

situação social e<br />

a existência deste<br />

artístico e sua<br />

ascensão da bur-<br />

a valorização do<br />

e muitas outras<br />

ao Romantismo,<br />

por exemplo.<br />

Por sua vez, a sociedade brasileira se<br />

estruturava de maneira bem diferente;<br />

era a colônia, não a metrópole. Na falta<br />

de um contexto que os baseasse, os<br />

movimentos perdiam muito de sua<br />

autenticidade. Não se pode defender os<br />

valores de uma burguesia industrial num<br />

país onde não existe esta classe social<br />

nem este tipo de atividade. Enfim, era<br />

necessário que se adaptasse o modelo<br />

europeu à realidade brasileira, que se<br />

procurasse uma forma de expressão<br />

própria. Essa adaptação necessária foi<br />

conseguida com razoável êxito por<br />

Machado de Assis.<br />

Machado de Assis é classificado como<br />

realista (parte de sua obra) pelos histo-<br />

riadores de literatura; mas ele não se


16<br />

fixou aos limites que essa escola euro-<br />

péia adquire quando transposta mecani-<br />

camente para o Brasil. Ele não adota<br />

exatamente o mesmo tipo de crítica<br />

feita por escritores europeus pois lá a<br />

situação era diferente; assim sendo, a<br />

crítica vai assumir um papel diferente<br />

dentro da obra.<br />

Desta maneira nós vamos encontrar um<br />

posicionamento em sua obra quanto à<br />

nossa realidade; e o que é mais impor-<br />

tante, melhor adaptada a ela, de uma<br />

maneira quase que oposta à grande parte<br />

dos realistas e naturalistas brasileiros.<br />

É inegável a existência, em sua obra, de<br />

um retrato irônico da sociedade colonial;<br />

da sátira; da análise crítica dos falsos<br />

valores e falsa moral. "Memórias Póstu-<br />

mas de Brás Cubas", "Dom Casmurro" e<br />

"Quincas Borba" são três de seus<br />

romances que evidenciam a presença da<br />

crítica social em seus livros.<br />

No romance "Quincas Borba", a perso-<br />

nagem Rubião recebe uma herança e vai<br />

para o Rio de Janeiro, onde vem a ser<br />

vítima do interesse por parte dos setores<br />

sociais em ascensão (classe média ur-<br />

bana) que o usam e depois desprezam,<br />

quando fica louco e novamente pobre.<br />

" — Vai ficar na Corte ou volta para<br />

Barbacena? " perguntou o Palha no fim<br />

de vinte minutos de conversação.<br />

— Meu desejo é ficar, e fico mesmo,<br />

acudiu Rubião; estou cansado da pro-<br />

víncia; quero gozar a vida. Pode ser até<br />

que vá à Europa, mas não sei ainda.<br />

Os olhos do Palha brilharam instantanea-<br />

mente.<br />

- Faz muito bem; eu faria o mesmo, se<br />

pudesse; por agora não posso. Provavel-<br />

mente já lá foi?<br />

— Nunca fui. É porisso que tive cá umas<br />

idéias, ao sair de Barbacena; ora adeusl é<br />

preciso a gente tirar a morrinha do<br />

corpo. Não sei ainda quando será; mas<br />

hei de ...<br />

— Tem razão. Dizem que há lá muita<br />

coisa explêndida; não admira, são mais<br />

velhos que nós; mas lá chegaremos; e há<br />

coisas em que estamos a par deles, e até<br />

acima. A nossa Corte, não digo que<br />

possa competir com Paris ou Londres,<br />

mas é bonita, verá..."<br />

Palha é um representante dessa camada<br />

urbana (um comerciante); Rubião passa<br />

a ser do seu interesse quando fala em ir<br />

à Europa, o modelo de civilização que<br />

ainda não fora alcançado no Brasil. Esse<br />

e outros valores da sociedade colonial<br />

vão sendo desmascarados no decorrer do<br />

livro. Mas há também todo o problema<br />

individual da personagem (a loucura<br />

posterior de Rubião, seu amor por D.<br />

Sofia, seu relacionamento com o cão).<br />

A análise psicológica é marcante carac-<br />

terística em Machado, podendo-se dizer<br />

que ele a equilibra com a crítica social e<br />

política a fim de obter uma visão mais<br />

completa da vida. Um grande exemplo é<br />

a personagem Capitu, do romance "Dom<br />

Casmurro".<br />

"(...) Capitu era Capitu. Isto é, uma<br />

criatura mui particular, mais mulher do<br />

que eu era homem. Se ainda o não disse,<br />

aí fica. Se disse, fica também. Há<br />

conceitos que se devem incutir na alma<br />

do leitor, à força de repetição.<br />

Era também mais curiosa. As curiosi-<br />

dades de Capitu dão para um capítulo.


Eram de vária espécie, explicáveis e<br />

inexplicáveis, assim úteis como inúteis,<br />

umas graves, outras frfvolas; gostava de<br />

saber tudo".<br />

"Tinha-se lembrado a definição que José<br />

Dias dera deles, 'olhos de cigana oblíqua<br />

e dissimulada.' Eu não sabia o que era<br />

oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria<br />

ver se se podiam chamar assim."<br />

Uma tentativa do narrador (o próprio<br />

Dom Casmurro) e do autor de penetrar<br />

no conhecimento de Capitu, mulher<br />

complexa e misteriosa. Como se nota no<br />

restante do livro, principalmente nas<br />

suas partes finais, sem esta caracteri-<br />

zação da personagem não teria o mesmo<br />

peso a colocação do problema social do<br />

adultério neste romance. Pois o compor-<br />

tamento individual humano só pode ser<br />

compreendido levando-se em conta o<br />

comportamento social; e vice-versa. Tam-<br />

bém outros elementos constituem seus<br />

romances, fazendo com que eles deixem<br />

de ser circunstanciais e passem a ter um<br />

caráter universal: é necessário desvendar<br />

todas as faces do ser humano para que<br />

se possa tingir o seu significado. Por essa<br />

razão encontramos trechos de profunda<br />

reflexão sobre a vida em sua obra, de<br />

grande valor para o conhecimento hu-<br />

mano.<br />

"Este último capítulo é todo de nega-<br />

tivas. Não alcancei a celebridade do<br />

emplasto, não fui ministro, não fui<br />

califa, não conheci o casamento. Ver-<br />

dade é que, ao lado dessas faltas,<br />

coube-me a boa fortuna de não comprar<br />

o pão com o suor do meu rosto. Mais;<br />

não padeci a morte de Dona Plácida,<br />

nem a semi-demência do Quincas Borba.<br />

Somadas umas coisas e outras, qualquer<br />

pessoa imaginará que não houve míngua<br />

♦ * *<br />

nem sobra, e conseguintemente que saí<br />

quite com a vida. E imaginará mal,<br />

porque, ao chegar a este outro lado do<br />

mistério, achei-me com um pequeno<br />

saldo, que é a derradeira negativa deste<br />

capítulo: - Não tive filhos, não trans-<br />

miti a nenhuma criatura o legado da<br />

nossa miséria." (último capítulo de<br />

"Memórias Póstumas de Brás Cubas")<br />

Os outros escritores da época tiveram<br />

um grande valor histórico pois traziam<br />

para o Brasil as novas tendências artís-<br />

ticas do mundo, modernizavam a arte;<br />

mas nenhum deles atingiu tão alto valor<br />

artístico como Machado. E este valor é<br />

que faz com que a sua obra seja incluída<br />

no conjunto daquelas que revolucionam<br />

a literatura (James Joyce, Flaubert,<br />

Oswald de Andrade). Suas características<br />

em comum são a denúncia social, o<br />

aprofundamento no Homem e sua natu-<br />

reza interior, a rejeição e a proposta de<br />

novos caminhos estéticos.<br />

É muito importante para a literatura<br />

brasileira a nova proposta literária de<br />

Machado. A metalinguagem, ou seja, ò<br />

posicionamento crítico frente à própria<br />

obra, a referência direta ao leitor; é um<br />

elemento muito importante, praticamente<br />

introduzido na prosa brasileira por Macha-<br />

do. É óbvio que ele não vai tão longe<br />

quanto Oswald, pois viveu e escreveu<br />

quase meio século antes; como também<br />

é correto que sua crítica não foi<br />

perfeita, prendeu-se um pouco demais<br />

em determinadas classes sociais sem<br />

atingir mais profundamente o sistema<br />

político vigente. Seria ingênuo esperar<br />

que um único escritor resumisse em sua<br />

obra todo o processo histórico da<br />

literatura, que sua "genialidade" alcan-<br />

çasse em poucos anos de vida aquilo que<br />

é perseguido há séculos - a perfeição.


DO OUTRO LADO,<br />

O ABSURDO?<br />

Arthur S. P. Eid.<br />

"Em verdade vos digo, quando as nações<br />

brigam com as nações, o Brasil com o<br />

Brasil, a Inglaterra com a Inglaterra, a<br />

Prússia pom a Prússia, das ondas do mar<br />

D. Sebastião sairá com todo o seu exér-<br />

cito. ..", pregava em sermão um segui'<br />

dor de Antônio Conselheiro, na epopéia<br />

de Canudos. Oratória bárbara e esdrúxu-<br />

la, disse em certo momento Euclides da<br />

Cunha (1896/7, Sertão da Bahia, Guerra<br />

de Canudos)<br />

Por D. Sebastião, Cristo e contra a Re-<br />

pública, a lei do cão: O Sertão se alumia<br />

de lua e clarão arcado, cheira a corpo<br />

queimado e gritado, de muitos, muitos.<br />

A face da loucura descarnada em misticis-<br />

mo bárbaro, a aliança da recém-falecida<br />

Monarquia, a ameaça à jovem República,<br />

bradavam muitos jornais - Antônio<br />

Conselheiro: um louco, um místico ou<br />

um criminoso, e, "quanta desgraça e<br />

quanta barbárie naqueles sertões, santo<br />

Deus! ... Estávamos de fato pum mun-<br />

do estranho. Como estavas longe, oh ci-<br />

vilização", lamentou um homem civili-<br />

zado, ante ao espanto de ver surgir, de<br />

modo pouco discreto é verdade, persona-<br />

gens estranhos no palco iluminado da<br />

19<br />

civilizada história brasileira. E como a<br />

civilização nasce do fogo, o fogo se apa-<br />

gou com o fogo redentor. O sertão não<br />

vira mar, nem o mar vira sertão. Umede-<br />

ce-se com o sangue da terra, emudecida.<br />

De outro lado, o absurdo? Corta.<br />

"Quanlja desgraça e quanta bar-<br />

bárie naqueles sertões, santo<br />

Deus..."<br />

"Espada luzernal Aqui está o apostolado<br />

Jerônimo Antônio Pereira, o belo cava-<br />

leiro de São Sebastião: Quem atirar no<br />

seu corpo atira na hóstia consagrada por-<br />

que entre a pólvora e a espoleta Jesus<br />

Cristo fez morada. Deus adiante paz na<br />

guia de Jerônimo Antônio Pereira. Enco-<br />

mendo a Deus e à Virgem Maria que seu<br />

corpo não seja preso nem atado e nem<br />

do demônio atentado e seja guardado<br />

por São Silvestre com 47 anjos 7 quebra<br />

pedra 7 quebra ferro e as armas e faca<br />

que apontarem no teu corpo na água<br />

ficará e os ferros que apontarem em<br />

pedaço ficará. Os seus inimigos conhece-<br />

rão que Deus é Vivo. Bater, Filho, Espí-


20<br />

rito Santo. Pela Ostia consagrada. Amém<br />

Jesus". Reza de defesa de um belo cava-<br />

leiro de São Sebastião, Guerra Santa do<br />

Contestado, Sertfo de Santa Catarina,<br />

1912/14:<br />

Alumia-se o sertão na guerra implacável<br />

à loucura, pois sendo estes místicos<br />

"verdadeiros bandidos" realmente lou-<br />

cos, de loucura supersticiosa, "bons con-<br />

selhos silo inúteis", diz um padre local.<br />

"Somente espada e bala resolverão o<br />

problema por enquanto — A centelha<br />

ficará e a velha loucura ressurgirá". Es-<br />

pada e bala contra a loucura do Contes-<br />

tado. Depois contra a loucura do beato<br />

do caldeirão, no sertão nordestino. E<br />

outros mais. O diabo na rua, no meio do<br />

redemoinho: Guimarães Rosa: Sertão. 0<br />

senhor sabe: Sertão é onde manda quem<br />

é forte, com as astúcias. Deus mesmo,<br />

quando vier, que venha armado! E bala<br />

é um pedacinhozinho de metal ... Viver<br />

é muito perigoso — Estou no quase, ma-<br />

no velho ... Morro, mas morro na faca<br />

do homem mais maneiro de junta e de<br />

mais coragem que eu já conheci... Eu<br />

sempre lhe disse quem era bom mesmo<br />

mano velho... É só assim que gente<br />

como eu tem licença de morrer... Que-<br />

ro acabar sendo amigos... A hora e a<br />

vez de Augusto Matraga. Do outro lado,<br />

o absurdo? Corta.<br />

1922. Sinhõ Pereira, famoso chefe de<br />

cangaceiros, abandonava o cangaço a<br />

conselho do Padim Ciço, Assumia a che-<br />

fia do cangaço Virgulino Pereira da Sil-<br />

va, vulgo Lampião, considerado, entre<br />

outras coisas, um dos "maiores flagelos"<br />

do sertão nordestino: "... Virgulino<br />

Pereira à frente de cerca de 50 fascího-<br />

ras, assombrosamente armados, campeia<br />

pelo Nordeste brasileiro, na mais desa-<br />

briada liberdade, zombando dos que lhe<br />

perseguem. É necessário, pois que lhe<br />

faça uma guerra tremenda, de caráter<br />

medonho, a fim de se efactuar a destrui-<br />

ção daquela 'peste sertaneja' ... É ne-<br />

cessário que se combata ferrenhamente<br />

este maldito, este criminoso se qualifica-<br />

tivo a este ladrão cansado. É o coração<br />

do Nordeste que clama vingança para<br />

seus tremendos crimes". Correio de Ara-<br />

caju, 24 de julho de 1926. Cangaceiros:<br />

bandidos simplesmente, Robin Hoods<br />

das caatingas .. .7 Cangaceiros e valen-<br />

tes, no mundo dos coronéis. O canga-<br />

ceiro sabe lê fala da corrupção. "Todo<br />

mundo ajeitava. 0 senhor pode ser na-<br />

quela época o presidente da Nação, ajei-<br />

tava também. Naquela época só não ajei-<br />

tava era Deus que não aparecia". 1938.<br />

Morto Lampião, cabeças cortadas, ruas<br />

de Maceió. Se entrega. Corisco. Jurando<br />

em dez igrejas, sem santo padroeiro,<br />

Antônio das Mortes, matador de canga-<br />

ceiro. Deus e o Diabo na terra do Sol.<br />

Do outro lado, o absurdo? Corta.<br />

Sertão é onde manda quem é<br />

forte, com as astúcias. Deus mes-<br />

mo, quando vier, que venha arma-<br />

do! E bala é um pedacinho de<br />

metal... Viver 6 muito perigoso.<br />

Por esse sertão Nordestino, muitas vezes<br />

apropriado como bandeira de luta urba-<br />

na, percorreu, na década de 70 do séc.<br />

XIX - a década da terrível seca de<br />

1877/79 - um dos principais bandos de<br />

cangaceiros, os Brilhantes, do qual Jesui-<br />

na Brilhante tornou-se figura legendária,<br />

como posteriormente Antônio Silvino e<br />

Lampião.<br />

Não são muitas as fontes de informação<br />

sobre isso. Destaca-se o romance "Os<br />

Brilhantes" de Rodolfo Teófilo e a com-


pilaçSò de Raimundo Nonato e "Jesuino<br />

Brilhante' o canaaceiro romântico".<br />

O banditismo tem longa história nos ser-<br />

tões nordestinos. Jesuino Brilhante mar-<br />

ca uma época, um estilo vinculado às<br />

lutas de família que faziam do Sertão<br />

um estado de guerra permanente. Filho<br />

de família extensa, razoavelmente abas-<br />

tada, donos de lavouras e gado, proprie-<br />

tários de terras e escravos, homens com<br />

relativo prestígio político," os Alves de<br />

Melo passavam por pessoas pacíficas,<br />

pois nfo alimentavam pendências com<br />

ninguém, não tinham questões de terra<br />

nem possuíam casos na justiça". O derra-<br />

deiro parente deles que se vira envolvido<br />

em ação criminal, - José Brilhante de<br />

Alencar, de há muito se afastara da gle-<br />

ba, saindo mesmo da província para, cum-<br />

prindo seu destino, morrer nas Alagoas,<br />

de arma na nfâb, lutando corajosa-<br />

mente", diz Raimundo Nonato.<br />

Jesuino Brilhante era sobrinho do famo-<br />

so cangaceiro José Brilhante. Filho do<br />

bacharel Feitosa Bezerra de Menezes e<br />

de uma moça da família Alencar, José<br />

Brilhante de Alencar e Souza nasceu em<br />

Pombal na Paraíba, em 1824. Seu pai<br />

teria participado da revolta de 1831 no<br />

Ceará. Em 1837, morto já o pai, José<br />

Brilhante cometeria o primeiro crime,<br />

ignorando-se o seu contexto. Casa-se<br />

com uma prima em Inhamuns, sertão<br />

cearense. Em 1838, a irmã mais velha de<br />

José Brilhante se casaria com João Alves<br />

de Melo Calado, na fazenda Tuiuiú, Rio<br />

Grande do Norte. Por questão de merca-<br />

dorias, José Brilhante teria discutido<br />

com um vendedor, este desafiando-o.<br />

José mata-o. As autoridades de Ribeira<br />

perseguem-no. Ele forma seu bando e<br />

vagueia pelo sertão até ser liquidado.<br />

A epopéia de Jesuino Brilhante começa<br />

com um conflito entre sua família e a<br />

21<br />

dos Limões, quando estes roubam uma<br />

cabra de João Alves pai de Jesuino. 0<br />

roubo, eis algo extremamente repelido<br />

pelos sertanejos: "como a riqueza é prin-<br />

cipalmente constituída por animais, o<br />

maior crime que lá se conhece é o furto<br />

de gado. A vida humana, exposta à seca,<br />

à fome, à cobra e à tropa volante, tem<br />

valor reduzido - e por isso o júri absol-<br />

ve regularmente o assassino. 0 ladrão de<br />

cavalos é que não acha perdão. Em regra<br />

não o submetem a julgamento: matam-<br />

-no. Esse rigor explica-se numa terra de<br />

vaqueiros, onde o cavalo é o único meio<br />

de transporte absolutamente indispensá-<br />

vel nas retiradas", esclarece Graciliano<br />

Ramos. Nessa mesma direção, Gustavo<br />

Barroso registra que "há três tipos de<br />

indivíduos desprezíveis no julgamento<br />

do sertanejo: ladrão de galinha, ladrão<br />

de bode e ladrão de cavalo. No segundo<br />

grupo se enquadra o ladrão de cabra,<br />

que é a pior espécie de gente. A cabra<br />

leiteira é um animal de estima que for-<br />

nece o alimento para o menino da casa<br />

pobre seu alimento. Em regra, é o único<br />

bicho que entra nas posses do trabalha-<br />

dor da roçada, que dá o dia de serviço<br />

de sol a sol, ganhando pouco. Roubar<br />

uma cabra leiteira é sempre uma ação<br />

que todos vêem com desprezo, pois o<br />

ladrão, além de matar o animal para<br />

comer a carne, esconde ou enterra o<br />

couro para não ser descoberto. No caso<br />

de Jesuino Brilhante, por desgraça dos<br />

ladrões, ele foi descobrir a carne, dentro<br />

de uma panela, na casa dos Limões, no<br />

sítio Camucá".<br />

Numa reação violenta, o mais brabo dos<br />

Limões (sic), em plena rua do Patu, dá<br />

uma surra em Lucas Alves, irmão de<br />

Jesuino. E numa revolta incontrolável,<br />

sendo desafiado pelo inimigo, Jesuino<br />

saiu acompanhado de seu cunhado e ma-<br />

ta à punhal Honorato Limão, que estava


numa bodega, e manda abrir uma garrafa<br />

de cachaça "em honra do defunto".<br />

Isso em 25 de dezembro de 1871, um<br />

dia após a agressão a Lucas.<br />

Deflagra-se a guerra entre as famílias. 0<br />

motivo parece ser anterior a isso, com a<br />

morte de F. Alves, parente dos Brilhan-<br />

tes, em 1866: delegado e responsável pe-<br />

lo recrutamento para as fileiras do Exér-<br />

cito e da Guarda Nacional, época da<br />

guerra do Paraguai, um recrutamento<br />

que trazia o descontentamento local. Es-<br />

taria conduzindo recrutas, neles gente<br />

dos Limões, sendo emboscado e morto<br />

por Francisco Limão. A vingança impõe-<br />

-se como imperativo, Jesuino liquida F.<br />

Limão. Sua primeira morte como que<br />

anuncia a sina inexorável que essas ques-<br />

tões traçam aos personagens envolvidos.<br />

A ofensa e o desafio mobilizam os valo-<br />

res sertanejos, a coragem, o destemor, a<br />

hombridade. São valores altamente pre-<br />

zados pelos sertanejos: sua ofensa ou sua<br />

dúvida impõe o revide considerado legí-<br />

timo, ainda que contrarie os princípios<br />

positivos da Lei.<br />

Além desse antecedente, os Alves de Me-<br />

lo eram do Partido Liberal, que se en-<br />

contrava "de baixo", enquanto os adver-<br />

sários, os adeptos do Partido Conserva-<br />

dor, estariam "de cima". A política local<br />

tiraria partido dessa situação, movendo<br />

perseguição aos Brilhantes, apoiando o<br />

grupo dos Limões, acobertados pela pro-<br />

teção de chefes políticos locais podero-<br />

sos. Esses chefes chegam a recrutar para<br />

a polícia elementos da família dos Li-<br />

mões, nomeando um deles cabo da polí-<br />

cia paraibana, para orientar a persegui-<br />

ção. Apoio também usando o prestígio<br />

político para forçar o governo a perse-<br />

guir seus inimigos particulares. Não era<br />

(sic) raro no Sertão se utilizar de certos<br />

eventos que envolviam a justiça para ata-<br />

car adversários políticos. Exemplo disso,<br />

o apelo a forças do governo imperial e a<br />

devassa servem de pretexto para perse-<br />

guições a adversários políticos locais,<br />

quando da repressão ao movimento do<br />

Quebra-Kilos.<br />

O crime de Jesuino marca mais um mo-<br />

mento da trajetória destas lutas: nelas<br />

aos poucos todo o grupo de parentesco<br />

de ambas as partes vai se envolvendo,<br />

direta ou indiretamente. Esse envolvi-<br />

mento é como que automático e obriga-<br />

tório, ainda que seus personagens não o<br />

queiram: ou se luta juntos ou se aguarda<br />

a emboscada.<br />

A luta ganha maiores dimensões, mas<br />

Jesuino recusa objetivos estranhos a ela.<br />

Não se envolve na resistência ao governo<br />

no caso do movimento do Quebra-Kilos.<br />

Nesse envolvimento progressivo das fa-<br />

mílias, os mais abastados são acompa-<br />

nhados dos vaqueiros, parentes, agrega-<br />

dos seus e alguns "mercenários". A<br />

experiência de Jesuino como vaqueiro e<br />

comboeiro — de produtos entre cidades<br />

como Mossoró e as vilas sertanejas lhe<br />

será útil na nova condição de "fora-da-<br />

-iei". A lealdade de seus seguidores é<br />

sempre reiterados: um seu escravo José,<br />

cuja força, coragem e ousadia são enalte-<br />

cidos, é liberto por Jesuino. Mesmo li-<br />

berto, o ex-escravo concorda em segui-<br />

do, abraçando objetivos alheios como<br />

sendo seus. Não é por acaso que Jesuino<br />

conta com ele: sua lealdade é indiscutí-<br />

vel até determinado momento, e o liber-<br />

to é sempre encarregado das tarefas mais<br />

difíceis e estratégicas. Sua fidelidade,<br />

será abalada apenas quando entre ambos<br />

interpõe-se uma mulher. A paixão do<br />

ex-escravo por uma moça branca seria<br />

considerado uma ousadia para Jesuino,<br />

afirma R. Teofilo, e a luta culmina na<br />

morte do ex-escravo.<br />

.


Numa reação violenta, o mais bra-<br />

bo dos Limões (sic), em plena<br />

Rua do Patu, dá uma surra em<br />

Lucas Alves, irmão de Jesuino. E<br />

numa revolta incontrolável, sendo<br />

desafiado pelo inimigo, Jesuino<br />

saiu acompanhado de seu cunha-<br />

do e mata á punhal Honorato<br />

Limão, que estava numa bodegpe<br />

manda abrir uma garrafa de ca-<br />

chaça "em honra do defunto".<br />

A medida que a luta se desenvolve, mor-<br />

tes sucedem-se e a cada uma delas repõe-<br />

-se o imperativo de nova vingança. Mas o<br />

modo como essas mortes são praticadas<br />

têm simbolismos estranhos. Quando do<br />

assassinato de um parente dos Brilhan-<br />

tes, impôe-se uma vingança não apenas<br />

peto crime em si, mas porque este se<br />

efetua junto do aviltamento do sertanejo<br />

antes de ser morto, Esse aviltamento<br />

produziu tal indignação que até o pai de<br />

Jesuino, um homem "manso, o prudente<br />

da família, havia perdido a calma e fazia<br />

coro com os mais exaltados. 0 que o<br />

havia indignado sobretudo na morte fora<br />

a afronta tragada pelo velho, ã maior<br />

afronta que pode sofrer um sertanejo. Se<br />

o tivessem morto sem primento aviltá-lo,<br />

era somente um homem que perdia a<br />

vida, porém não, antes de assassiná-lo,<br />

obrigou-o a passar três vezes por baixo<br />

da barriga de seu cavalo e propalava isto,<br />

para maior vergonha da famflia do mor-<br />

to. 0 velho não se podia conformar com<br />

semelhante aviltamento. Todos estavam<br />

admirados de sua atitude enérgica de seu<br />

pedimento formal de vingança", comen-<br />

ta R. Teofilo, p. 158.<br />

K88H<br />

23<br />

Passar por baixo da barriga do cavalo do<br />

adversário antes de ser morto, um avilta-<br />

mento, uma afronta que exigem revide.<br />

Um revide com outra afronta: Jesuino ma-<br />

ta o aviltador e "comprazia-se em observar<br />

aquelas mutações quando teve a idéia de<br />

assinar o cabra, como se fora bode (grifo<br />

meu). Em vivo isto seria o requinte do<br />

aviltamento. Em um morto, o maior ul-<br />

traje que se podia fazer à sua família.<br />

Assim, em um abrir e fechar de olhos,<br />

Jesuino assinou nas duas orelhas com o<br />

sinal de mossa e canzil (idem, p. 168).<br />

Essas atitudes, que indicam que a violên-<br />

cia no sertão se inserava não apenas num<br />

mar de agressão física, mas moral, pro-<br />

voca no inimigo raiva e vergonha. A vio-<br />

lência dessas práticas de ofensa parecem<br />

fazer parte de um universo ideológico<br />

onde a desumanização do adversário<br />

atenta contra sua auto-representação en-<br />

quanto pessoa. E isso tem um forte<br />

conteúdo de violência. A pessoa, o ho-<br />

mem a ser defendido enquanto tal, hom-<br />

bridade, um pouco diferente do "ma-<br />

chismo". E a auto-consideração enquan-<br />

to homem, enquanto pessoa, pede a va-<br />

lentia e a coragem para sua defesa como<br />

tal, única forma de se impor perante um<br />

Sertão de relações parcas entre homens e<br />

coisas. Aviltar o inimigo na sua concep-<br />

ção de homem, de pessoa, "como se<br />

fora bode", bicho, contém uma violência<br />

que mobiliza os sertanejos para o revide<br />

até a restauração da moral ofendida.<br />

Após algumas vinganças, surge uma pos-<br />

sibilidade de paz. Jesuino resolve depor<br />

as armas e voltar à sua vida normal,<br />

dissolvendo o grupo e voltando a cuidar<br />

do seu gado e lavoura. Mas essa luta já<br />

era apropriada por chefes políticos lo-<br />

cais, inimigos da família dos Brilhantes.<br />

Apelam para o presidente da província,<br />

usando do prestígio político para conse-


24<br />

guir abertura de um processo contra os<br />

Brilhantes. 0 presidente da província ce-<br />

de e as forças do governo chegam ao<br />

local. E com elas a destruição de seus<br />

bens, espancamentos e mortes. Já nessa<br />

fase, a luta reabre-se agora envolvendo<br />

não apenas duas famílias mas o governo<br />

no apoio de uma das facões que obtém<br />

dele não só o referendo jurídico (o pro-<br />

cesso) como apoio bélico.<br />

A aviltante agressão à sua família recolo-<br />

ca a guerra. Morrem muitos soldados, e<br />

o seu retorno à vida normal coloca-se<br />

agora quase impossível. O bando se reor-<br />

ganiza, Jesuino oferece os recursos mate-<br />

riais necessários ao sustento do bando:<br />

nada de roubo. Vivem â custa dos recur-<br />

sos que a família dos Brilhantes possue.<br />

Mantém-se a dignidade das origens, só o<br />

acuamento e a defesa da honra justifica-<br />

vam, na consciência de Jesuino, sua vida<br />

em bando fora-da-lei. Porisso Jesuino en-<br />

fatiza a seus cabras que .. ."os que me<br />

acompanham não pegam no alheio e<br />

nem faltam com respeito às famílias ho-<br />

nestas. Estes dois crimes são os que eu<br />

mais abuso. Fujam de cometê-los porque<br />

pra eles não há perdão" (idem, p. 189).<br />

Respeito à honra e propriedade alheia,<br />

eis dois valores básicos de Jesuino. Ele<br />

nunca é apontado como ladrão que<br />

rouba para si, nem assalariado do crime.<br />

Comenta Gustavo Barroso: Um dia, saiu<br />

a cavalo, sem destino, melancólico e nos-<br />

tálgico. Parou na fazenda de Manuel<br />

Pimenta, apeou-se e pediu-lhe dinheiro,<br />

um cavalo e uma vaca. 0 velho recusou-<br />

se, dizendo que, se ele quisesse tomar,<br />

tomasse, mas com suas mãos não dava.<br />

O Brilhante montou e respondeu com<br />

orgulho que não era ladrão. E foi em-<br />

bora".<br />

E a prática justiceira de Jesuino, con-<br />

fiindindo-se nesses momentos como um<br />

Robin Hood sertanejo, é algo que espa-<br />

lha notícia pelo Sertão, onde "nessa vida<br />

de tribulações, esperando a todo o ins-<br />

tante a bala que o derrubaria para sem-<br />

pre, Jesuino não deixava de tirar uma<br />

parcela desse tempo a empregá-la em be-<br />

neficiar os desgraçados, socorrer os opri-<br />

midos. Constitui-se juiz e juiz absoluto<br />

naquelas cercanias. A Justiça que admi-<br />

nistrava, era tão reta que em breve foi<br />

grande a sua fama. Só tomava conheci-<br />

mento dos crimes praticados contra a<br />

honra e a propriedade. E ai daquele que<br />

os tendo cometido, não os reparasse<br />

com o casamento ou a restituição. Para<br />

os que se negavam só havia uma pena —<br />

a morte. Assim, castigando com a maior<br />

severidade e justiça os delinqüentes, con-<br />

seguiu quase acabar com aqueles crimes<br />

dentro da área de sua jurisdição. Os de-<br />

floramentos e os estelionatos, diminuí-<br />

ram muito porque o Brilhante era inexo-<br />

rável quando os punia. Uma das quali-<br />

dades que mais recomendavam Jesuino à<br />

confiança e respeito de seus conter-<br />

râneos, era a retidão de sua justiça. Para<br />

ele todos eram iguais e provou isso inú-<br />

meras vezes decidindo questões entre po-<br />

bres e ricos. 0 filho de um fazendeiro<br />

de grandes haveres deflorou uma menor,<br />

filha de um vaqueiro, supondo por sua<br />

posição e fortuna, escapar à justiça do<br />

Brilhante. Jesuino, inteirado do fato<br />

pelo pai da ofendida, mandou um emis-<br />

sário ao delinqüente, marcando-lhe um<br />

prazo de três dias para efetuar o casa-<br />

mento. O moço recebeu mal a ameaça e<br />

maltratou o enviado. Refletiu depois<br />

nesse seu ato impensado e no perigo que<br />

corria a sua vida, e tratou de fugir. Je-<br />

suino, que sabia tudo, deixou-o cami-<br />

nhar e, no prazo marcado, pôs-se no<br />

encalço do fugitivo, indo alcança-lo dez<br />

léguas sertão adentro. O moço e os guar-<br />

da-costas, quando se viram cercados


pelos Brilhantes, esmoreceram. Não ti-<br />

veram coragem de disparar as armas.<br />

Jesuino dirigiu-se ao delinqüente e dis-<br />

se-lhe que escolhesse casar ou morrer. O<br />

fazendeiro cedeu à ameaça e acompa-<br />

nhou o Brilhante, que, com a admiração<br />

de todos, dias depois obrigava o vigário<br />

da freguesia mais próxima a casar, sem<br />

os processos preliminares, o moço com a<br />

ofendida.<br />

Este e outros fatos deram a Jesuino gran-<br />

de popularidade. Todos o respeitavam<br />

e acatavam como uma garantia sólida de<br />

seus direitos. A intriga do Brilhante com<br />

o governo e os soldados em nada os<br />

prejudicava. A população daquelas para-<br />

gens era afeiçoada a Jesuino, afeição que<br />

crescia pelos seus atos e abnegação.<br />

Ainda bem não se aquartelava nas vilas a<br />

força do governo que vinha prender os<br />

Brilhantes, já o chefe sabia, pois não<br />

faltavam amigos que fossem avisá-lo."<br />

(R. Teofilo, p. 228).<br />

Na seca de 1.877, Jesuino ajuda<br />

os retirantes. Inicialmente com<br />

mantimentos ainda seus. Posterior-<br />

mente assalta comboios de ali-<br />

mentos do governo, distribuindo-<br />

-os aos esfomeados.<br />

Essa prática justiceira, entretanto, não<br />

era o fundamento da existência do ban-<br />

do dos Brilhantes. Afinal, "só tomava<br />

conhecimento dos crimes praticados con-<br />

tra a honra e a propriedade". Ainda que<br />

essa prática possa ter permanecido até o<br />

fim, restringe-se apenas dois crimes, sen-<br />

do que o da honra pode ser considerado<br />

25<br />

como valor geral das populações, mas o<br />

da propriedade se restringe aos proprie-<br />

tários, obviamente. De qualquer modo,<br />

isso angaria-lhe o apoio das populações<br />

locais, que se relacionam com ele com<br />

admiração e temor.<br />

Eclode a grande seca de 1877. Esta atin-<br />

ge a todos, inclusive os bens de Jesuino.<br />

Ajuda os retirantes, inicialmente com<br />

mantimentos ainda seus. Posteriormente<br />

assalta comboios de alimentos do gover-<br />

no, distribuindo-os aos esfomeados. A<br />

justiça adiciona-se a prática redistri-<br />

butivista de Jesuino Brilhante. Quando<br />

assalta os comboios do governo, justifi-<br />

ca-se pela corrupção dos comissários do<br />

governo, responsáveis pela administração<br />

dos socorros governamentais às vítimas<br />

da grande seca de 1877. E legitima sua<br />

atitude como não atentória à proprie-<br />

dade privada. Afirma-se que Jesuino Bri-<br />

lhante teria também atacado comboio de<br />

negociantes mais abastados, perseguido<br />

bandidos que assolavam a região em ca-<br />

lamidade, chegando "a cobrar direito de<br />

passagem, um tanto por carga de farinha<br />

ou cereais", segundo Gustavo Barroso. É<br />

possível que durante a seca, Jesuino<br />

tenha atuado como guardião das proprie-<br />

dades particulares desguarnecidas, agindo<br />

contra bandos de ladrões. Cessado a<br />

seca, cessa igualmente sua prática redis-<br />

tributivista.<br />

Em diversas ocasiões, fala-se da ligação<br />

do cangaceiro Jesuino Brilhante com<br />

personalidades de importância polí-<br />

tico-social, ligações úteis a ele, como na<br />

fuga de seu irmão da prisão de Pombal.<br />

Mas evidentemente, essas ligações foram<br />

obscurecidas pela própria importância<br />

desses contatos, se é que houve muitas.<br />

E se houve, não foi o suficiente para<br />

impedir sua morte. Premido ininterrup-<br />

tamente, o cangaceiro Jesuino Brilhante


2b<br />

é morto pelas forças paraibanas, e parece<br />

que, como em Lampião, Antônio Silvino<br />

e muitos outros bandidos, não faltou o<br />

dedo da traição. Na morte que lhe ron-<br />

dou a sombra, e que acabaria por abrir o<br />

corpo fechado, ele que tinha uma vida<br />

"enfeitada de lendas. Cobra Verde diz<br />

que ele tinha o diabo no corpo. Outra<br />

história assegurava que o cangaceiro<br />

tinha 'corpo fechado' para as balas. Isso<br />

porque possuía 'orações fortes', metidas<br />

num 'bissaco' que trazia sempre pendu-<br />

rado no pescoço". (R. Nonato, p. 103).<br />

"Jesuino foi um homem, homem<br />

de caráter e de vergonha, homem<br />

de palavra. No tempo de Jesuino,<br />

honra de moça e de mulher po-<br />

bre tinha defesa".<br />

Restava nos ares quentes do Sertão, sua<br />

fama de valentia, sua hombridade, o res-<br />

peito que a população nutria por ele:<br />

"Já mataram Jesuino,<br />

acabou-se o valentão!<br />

Morreu no campo da honra<br />

Sem se entregar a prisão ...<br />

... morre solto. O essencial não é<br />

viver. É viver armado e mandando.<br />

Quando a hora chegar para morrer,<br />

morre-se solto, com a liberdade do<br />

embate ... Quando {em 1942) Hu-<br />

gulino de Oliveira (tabelião em Ca-<br />

• * *<br />

Este trabalho faz parte da pesquisa<br />

que vem sendo realizada conjuntamente<br />

com Carlos Alberto Dória e Carlos<br />

Alberto Ricardo, subvencionada pela<br />

Fundação de Amparo à Pesquisa do Esta-<br />

do de São Paulo.<br />

* * *<br />

raubas e pesquisador regional) con-<br />

versou com Dona Maria Umbelina de<br />

Almeida Castro, com 80 anos (pro-<br />

prietária de família ilustre), ouvia-se<br />

dizer, convicta: Jesuino foi um ho-<br />

mem, homem de caráter e de vergo-<br />

nha, homem de palavra. No tempo<br />

de Jesuino, honra de moça e de mu-<br />

lher pobre tinha defesa", comenta<br />

Câmara Cascudo. Do outro lado, o<br />

absurdo? Corta.<br />

O sertão se muda? Pra terra da Pro-<br />

missão, São Saruê? Cangaceiro em pau<br />

de arara, um fuzil papa-amarelo em<br />

andaime solto. Estas populações serta-<br />

nejas, com seus beatos e cangaceiros:<br />

uma vereda de salvação impossível?<br />

Uma inútil reação à opressão? Lampião,<br />

Antônio Conselheiro, o cangaceiro ro-<br />

mântico Jesuino Brilhante, jagunço Rio-<br />

baldo, o rompe-e-arrasa. Seu Joãozinho<br />

Bem-Bem, o Sertão, em toda parte,<br />

dentro da mim um desafio, ainda que<br />

talvez tarde: agora — digo por mim — o<br />

senhor vem, veio tarde. Tempos foram,<br />

os costumes mudaram. Quase que, de<br />

legítimo leal, pouco sobra, nem não<br />

sobra mais nada. Os bandos bons de<br />

valentões repartiram seu fim; muito que<br />

foi jagunço, por aí pena, pede esmola".<br />

Está lá, no Grande Sertões: Veredas.<br />

Está lá, o Sertão, em toda parte, dentro<br />

da gente, o Santo Guerreiro, o desafio<br />

do Dragão da Maldade. Um desafio: do<br />

outro lado, o absurdo? Abre.


' SÃO PAULO,CENTRO-1974- SEMPRE<br />

FOTO


Liga não, Maria. Nada demais. O peito<br />

arfava, toda ela trêmula; pomba captura-<br />

da que já se acalma. No botão que se<br />

abre reside toda a perícia de Antônio,<br />

muito querido Antônio. As palavras de<br />

sempre, inseparáveis dos gestos desenca-<br />

vados do mais fundo no espelho. Horas<br />

a fio, persistência, perfeição. Mas aqui,<br />

Antônio, justo aqui. Morro de medo, me<br />

deixa, outro dia. Por favor, seja bonzi-<br />

nho vá. Um primeiro passo no caminho<br />

infindo, onde se confundem todas as<br />

Marias em todos os taxis; corrida de<br />

preço alto e não combinado, sem volta.<br />

No banco de trás, só um beijinho. Nin-<br />

guém repara, Maria. Ai Antônio, tanto<br />

medo.<br />

Eu pego o sem-vergonha, hoje nSo me<br />

escapa. Valeu a pena segui-lo, está indo<br />

para casa. Morando num ermo daquele,<br />

não podia ser melhor. Passos rápidos, do<br />

tamanho de uma raiva recolhida ao ter-<br />

no de casimira. Alfinete de ouro, junto<br />

ao coração batido em quarenta e cinco<br />

anos contados em cartas, as mesmas car-<br />

tas com letras de jornal e mentira. Insis-<br />

tentes e detalhadas, nomes e endereços<br />

completos; muito trabalho para ser pura<br />

brincadeira. Não devia me meter com<br />

aquela madame. Mas com aquele car-<br />

rão, me chamando tão descarada. Ima-<br />

gine, me levar prá casa dela, se a empre-<br />

gada me vê. Não sabia onde me enfiar.<br />

Até que não era de se jogar fora, só um<br />

pouco velhusca. E se o marido dela me<br />

descobre, trabalhando ali do lado; estou<br />

morto; maldita hora. A Joana, coitada,<br />

sempre foi fraquinha; o desgraçado me<br />

paga. Não vai se meter com mulher casa-<br />

da nunca mais.<br />

Antônio tão lindo, á meu homem. Como<br />

eu o amo; já não sei que fazer. Mamãe<br />

não me entende, diz que sou nova, não<br />

A NOITE, TODOS OS GATOS SAO<br />

PARDOS<br />

29<br />

sei o que 4 amar. Ela nunca amou, não<br />

sentiu o que sinto agora. Não é verdade<br />

o que fala dos homens, Antônio vai ca-<br />

sar quando puder; não gosta dele por<br />

causa do taxi, não é vida prá mim. Não<br />

vejo porque. .Chega, Antônio, seu bigode<br />

me faz cócega, você pediu só um beijo.<br />

E suas mãos e sua boca avançam em<br />

Maria, procuravam e achavam, o corpo<br />

que seria seu. Branco, macio, dava até<br />

pena. Vou precisar sumir por uns tem-<br />

pos, o pai dela me mata. Pior, faz casar;<br />

eu barrigudo e cheio de filhos. Deus me<br />

livre. Será que estou errado, afinal ela<br />

também quer, lá no fundo ela quer. Isso<br />

tudo é charminho, sabe o que quero<br />

desde o começo, só onda. Olhos negros<br />

como na folhinha, a boquinha de crian-<br />

ça. Virgem MariaI<br />

Trancar-lhe a passagem, perto daquele<br />

muro, bem de pertinho. Não pode fugir,<br />

nem reagir. No bolso do terno inglês —<br />

fria, pequena e poderosa, amolada por<br />

seu Joaquim. Melhor jeito, silencioso.<br />

Aqui estamos, senhor Alfredo. O que me<br />

diz? Quem é o senhor, não o conheço;<br />

como sabe meu nome? Mas conhece<br />

muito bem a minha mulher, seu desgra-<br />

çado. A mão já procura o bolso, a faca,<br />

a coragem. Sim, em frente, descontar<br />

toda a vida não vivida, queimar as car-<br />

tas, perdoar, esquecer. Quase viver. Não<br />

sei do que fala, moço. Me deixe em paz,<br />

não conheço o senhor nem sua mulher. E<br />

não vai conhecer nem o resto de sua<br />

vida, filho de uma cadela.<br />

No momento preciso, o quase grito. Já<br />

meio perdido, afogado. Gemido. Nem de<br />

gozo nem de dor. No escuro, o objeto<br />

que penetra, rasga, liberta algo. Enfim.<br />

O corpo estendido, como que um pouco<br />

morto; tudo gemeu e silenciou. Noite,<br />

coincidência.<br />

Marcelo Nogueira Leite


l<br />

fé<br />

30<br />

AO MAR/SE AMOR<br />

IA<br />

surpresos<br />

somos pés de sete léguas<br />

ciganos citadinos<br />

viandantes brasileiros:<br />

somos pequenos sonhos em mares de sonhos.<br />

surpresos<br />

somos pés de sete fôlegos<br />

fronteiras cruzamos<br />

cruzamos países:<br />

somos pequena ponte sobre rios de sonho.<br />

surpresos<br />

somos pés de sem léguas<br />

dos sonhos despertamos<br />

despertamos outros sonhos:<br />

à beira-cais, somos, confluência de barcos.<br />

surpresos<br />

somos pés disfarçados<br />

olhos alquimistas<br />

mágicas palavras:<br />

conchas, somos, contendo pérolas de amor.<br />

Este poema foi extraído do livro "Ofício", de José Antônio Arantes - ediçõo do próprio autor.<br />

José Antônio, estudante de Letras na USP, foi corretor no curso de Redação do Grupo<br />

Educacional Equipe. O livro encontra-se à venda na livraria da Letras (USP) e no endereço para<br />

correspondência da Revista Chave: rua Maria Carolina, 150, casa 1. 01445, SSo Paulo. SP.


Grupo Chave composto por:<br />

Ana Lycia Fromer<br />

Ana Maria Wílheim<br />

André Vitor Singer<br />

Cordélia Maria Cardoso da Silva<br />

Fernando Batistuzzo<br />

Giseta Wajskop<br />

Henrique Ostronoff<br />

Jennifer Souza Stuart<br />

Ligia Fromer<br />

Marcello de Azevedo Fonseca<br />

Marcelo Nogueira Leite<br />

Marina Massi<br />

Nuno Azevedo Fonseca<br />

Og Roberto Dória<br />

Sérgio Farah<br />

Viviane Schwarzbein<br />

* * •<br />

Agradecimentos:<br />

Aguinaldo José Gonçalves<br />

Antônio Pedro<br />

Carmo Gallo Neto<br />

Fábio<br />

Fernão Mazzei<br />

Jocimar Archangelo<br />

José Luiz Beraldo<br />

Nadine<br />

• • •<br />

Críticas e sugestões: rua Maria Carolina,<br />

150 - casa 1. 01445, Safo Paulo, SP.


32<br />

ÍNDICE:<br />

Giordano Bruno: a Crítica e a Coragem. PG.2<br />

Partidos Políticos no Brasil (II - 64/70). PG.8<br />

Machado de Assis. PG.14<br />

Cangaço: Do outro lado, o Absurdo? PG.18<br />

Conto: À noke todos os gatos são pardos. PG. 28<br />

Poesia: José Antônio Arantes. PG.30<br />

HISTORIA<br />

ECONÔMICA<br />

DO BRASIL<br />

EM NOVA EDIÇÃO COM<br />

CAIO PRADO JÚNIOR<br />

POST SCRIPTUM í]^<br />

EM 1976 iZm**.


Impresso por ART-CÓPIAS.

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