Cá estou de volta no filme 'De ida para o passado* - cpvsp.org.br

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Folha de Sío Paulo - 15.10.90<br />

Só pacto pode deter<br />

inflação, afirma Kapaz<br />

Eleno Mendonça<br />

Não há no horizonte cenário eco-<br />

nômico possível sem a assinatura do<br />

pacto social. Essa é a avaliação feita<br />

por Emerson Kapaz, um dos coorde-<br />

nadores do Pensamento Nacional das<br />

Bases Empresariais (PNBE). Ao lado<br />

de outros quatro empresários na co-<br />

missão central que organiza o "en-<br />

tendimento nacional", ele representa<br />

a iniciativa privada nessa nova tenta-<br />

tiva de acordo com trabalhadores e<br />

governo para, sem prejuízo ao cres-<br />

cimento econômico, combater a infla-<br />

ção através de uma solução negocia-<br />

da.<br />

Kapaz, cuja indicação gerou polê-<br />

mica, no dia 12 de outubro, falou so-<br />

bre o pacto e as dificuldades de en-<br />

contrar consenso em meio a tantos<br />

interesses isolados. Para ele, contu-<br />

do, o governo extinguiu os mecanis-<br />

mos ortodoxos de combate à inflação,<br />

por isso só lhe resta apostar no pacto<br />

social.<br />

Na sua análise, o aperto monetário<br />

empreendido pelo Banco Central não<br />

fará cair a taxa inflacionária. Ao<br />

contrário, poderá levar o país à es-<br />

tagflação, à medida que a elevação<br />

dos juros é transferida aos preços. A<br />

seguir, os trechos principais da en-<br />

trevista.<br />

Folha - E possível fazer pacto num<br />

momento recessivo como este, já<br />

que o acordo pressupõe sacrifícios?<br />

Kapaz - Primeiro, entendimento<br />

nacional não é pacto, mas um proces-<br />

so de negociação que se for conduzi-<br />

do com competência pode resultar<br />

num pacto, acordo, trégua, ou o nome<br />

que se dê. Isso está apenas começan-<br />

do. As pessoas não estão acostumadas<br />

a discutir posições divergentes. O<br />

processo è lento, mas exatamente por<br />

isso pode dar certo. Se os conflitos fo-<br />

rem reconhecidos podemos reverter a<br />

recessão.<br />

Folha - De que maneira?<br />

Kapaz - A recessão está ocorrendo<br />

porque ao govemo não resta outra al-<br />

ternativa senão apertar a política mo-<br />

netária e implantar uma solução eco-<br />

nômica completamente ortodoxa. Não<br />

há mais nenhum instrumento. A saída<br />

negociada pode viabilizar um acordo<br />

que permita talvez aumentos de salá-<br />

rios sem repasse integral aos preços.<br />

Folha - Você está querendo dizer<br />

que os instrumentos para controlar<br />

a inflação se esgotaram?<br />

Kapaz — Isso mesmo. Após uma<br />

brutal intervenção do Plano Collor,<br />

congelamento de recursos e uma ili-<br />

quidez gerada em março, abril e maio,<br />

nos três meses seguintes a inflação<br />

voltou a subir. Ou seja, após um dos<br />

mais fortes planos que tivemos no<br />

Brasil estamos com inflação em tomo<br />

de 10%/13%. Foi uma grande vitória,<br />

sem dúvida. Safinos de 80% para<br />

13%, mas o segundo ponto, de chegar<br />

a 2%/3% de inflação é a chave da<br />

questão e envolve eficiência, compe-<br />

titividade, distribuição de renda.<br />

Folha - O que pode acontecer ao<br />

país se o pacto mais uma vez não<br />

ASSMATURAS:<br />

Individual 20 BTNs (6 meses) e 40 BTNs (12 meses)<br />

Entidades sindicais e outros 25 BTNs (6 meses) e 50 BTNs (12 meses)<br />

Exterior (via área) US$ 30,00 (6 meses) e US$ 60,00 (12 meses)<br />

O pagamento deverá será teto em nome do CPV - Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro em che-<br />

que nominal cruzado, ou vale postal DESDE QUE SEJA ENDEREÇADO PARA A AGÊNCIA DO CORREIO<br />

IPIRANGA - CEP 04299 - Código da Agência 401901<br />

QUINZENA - Publicação do CPV - Caixa Postal 42.761 - CEP 04299 - Sáo Paulo - SP<br />

Fones (011) 571 7726 ou 571 2910<br />

der certo?<br />

Kapaz - Sou otimista. Não gosta-<br />

ria de trabalhar com essa hipótese.<br />

Hoje eu já vejo uma dificuldade muito<br />

grande, mesmo sem a implantação de<br />

uma recessão como a que o Ibrahun<br />

Eris (presidente do Banco Central)<br />

citou em entrevista recente à Folha de<br />

São Paulo. Mas não acredito que o<br />

país precise atravessar uma recessão<br />

profunda para acabar com a inflação.<br />

No meu modo de ver a política mo-<br />

netária apertada como está não vai<br />

contribuir para a queda da inflação,<br />

por que custo financeiro também tem<br />

de ser incorporado a preços. Quem<br />

vende a prazo não pode deixar de co-<br />

locar nos preços a elevação da taxa de<br />

juros, senão quebra. Por isso a resis-<br />

tência da inflação é maior. A manu-<br />

tenção dessa política acabará levando<br />

à estagnação (combinação de queda<br />

do nível de atividade com elevadas<br />

taxas de inflação).<br />

Folha - Você admite que há ten-<br />

dência ascendente da inflação?<br />

Kapaz - Não. Há uma resistência à<br />

queda mesmo com toda a política mo-<br />

netária e recessão. Isso se explica em<br />

parte pela concentração econômica<br />

que existe no país. Monopólios, oli-<br />

gopólios e cartéis controlam mais da<br />

metade do Produto Interno Bruto.<br />

Folha - Como modificar esse<br />

quadro?<br />

Kapaz — O caminho adotado pelo<br />

govemo é o mais correto. Abrir o<br />

mercado à importação onde há essa<br />

concentração e mais para frente mexer<br />

em produtos finais, ou seja, permitir o<br />

acesso a todo tipo de matéria-prima.<br />

Só que isso leva tempo e demanda<br />

custo enorme de divisas. Também não<br />

resolvemos ainda o problema da dívi-<br />

da externa.<br />

Folha - A Central Única dos<br />

Trabalhadores acha que a discussão<br />

está levando tempo demais e insiste<br />

em tratar, também das questões<br />

emergenciais neste momento. Seus<br />

dirigentes querem, por exemplo, o<br />

compromisso de que cessarão as<br />

medidas provisórias. Qual é sua<br />

opinião a respeito?<br />

Kapaz — A posição da CUT tem<br />

sido de uma maturidade política sem<br />

precedentes. O Jair Meneguelli (presi-<br />

dente da CUT) enfrenta uma batalha<br />

interna muito grande. Sabemos que<br />

ele defende o entendimento e acha ^J<br />

A QUINZENA divulga as questões poKticas de<br />

fundo em debate no movimento, contado colo-<br />

ca algumas condições para tanto. Publicamos<br />

os textos que contenham teses e argumenta-<br />

ções estritamente políticas, réplicas que este-<br />

jam no mesmo nível de linguagem e compa-<br />

nheirismo, evitando-se os ataques pessoais.<br />

Nos reservamos o direito de divulgarmos ape-<br />

nas as partes significativas dos textos, seja por<br />

imposição de espaça, seja por solução de reda-<br />

ção.

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