Cá estou de volta no filme 'De ida para o passado* - cpvsp.org.br

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Vermelho e Branco - Setembro/90<br />

Trecho da intervenção de Mikhail<br />

Gortatchev resumindo os debates<br />

sobre o Relatório do Comitê Central ao<br />

28* congresso do PCUS<br />

A liberdade é o principal resultado da<br />

perestroika, que deu "luz verde" à iniciati-<br />

va do povo, isentou-o dos dogmas obso-<br />

letos, despertou-o para velar pelo futuro<br />

do seu pais e do socialismo, envolveu mi-<br />

lhões de pessoas na vida política e deu<br />

início às transformações sem as quais não<br />

teremos futuro. Mesmo o presente Con-<br />

gresso decorreria num ambiente diferente<br />

sem esta liberdade.<br />

O stalinismo e o brejnevismo criaram<br />

no país um ambiente abafado e repressivo.<br />

Agora, com o advento da liberdade, as-<br />

siste-se a manifestações pouco ou nada<br />

construtivas, que acabam de vir à superfí-<br />

cie. Temos de aceitar este fenômeno, pois<br />

a tarefa número um de qualquer revolução<br />

consiste em dar liberdade ao povo. A pe-<br />

restroika já cumpriu esta tarefa por inter-<br />

médio da abertura democrática e da glas-<br />

nost.<br />

O renascimento psicomoral do nosso<br />

povo é um imperativo que segue a olhos<br />

vistos e, apesar de todas as suas defi-<br />

ciências, exerce uma influência colossal.<br />

Todo o país já é diferente, e nós somos<br />

também diferentes. Existe, entretanto, um<br />

outro aspecto da questão: nenhum de nós,<br />

nem as novas estruturas do poder ou as<br />

novas organizações e movimentos, ainda<br />

não aprendemos a usufruir devidamente<br />

a liberdade que acabamos de obter, tor-<br />

nando-se tarefa prioritária fazê-lo o mais<br />

rapidamente possível.<br />

A nossa reforma política forneceu re-<br />

sultados bastante significativos. Criamos<br />

novas estruturas de poder a todos os<br />

níveis, com base na livre expressão da<br />

vontade do povo por via democrática.<br />

Continuamos a aperfeiçoar estas estrutu-<br />

ras, atribuindo um conteúdo concreto à<br />

nossa democracia e à noção de estado de<br />

direito. Ficou oatente nesta sala, por mais<br />

de ama vez, o tato de raltarem a esrns es-<br />

truturas experiência e cultura políticas,<br />

competência e conhecimentos nesta ou<br />

naquela matéria em especifico. Os novos<br />

Sovietes continuam em fase de formação:<br />

não obstante, já começaram a agir. Está<br />

patente o sentido de responsabilidade dos<br />

deputados, o seu desejo de passar, o mais<br />

rapidamente possível, a tratar de assuntos<br />

concretos, com destaque para as neces-<br />

sidades prementes da população.<br />

É assim que se restabelece o poder<br />

dos Sovietes. Este é um dos resultados<br />

mais importantes da perestroika, para o<br />

qual as organizações e os militantes do<br />

Partido deram uma contribuição de grande<br />

peso. Todavia, assiste-se, em algumas re-<br />

PERESTROIKA<br />

SIGNIFICA LIBERDADE<br />

giões, a uma certa alienação entre os<br />

PCUS e os Sovietes. Compete aos comu-<br />

nistas responsabilizar por este fato a si<br />

mesmos, em primeiro lugar, e renunciar,<br />

de uma vez por todas, à velha atitude para<br />

com os Sovietes, ao estilo e métodos her-<br />

dados do sistema administratlvo-burocràti-<br />

co. Os novos órgãos de poder reagem a<br />

semelhantes reincidências com indigna-<br />

ção.<br />

Quero repetir, uma vez mais, o que já<br />

disse no relatório. O reforço da ordem e da<br />

legalidade, a formação de mecanismos<br />

capazes de põr em execução as delibera-<br />

ções dos órgãos de poder que estão dire-<br />

tamente vinculados à devolução incondi-<br />

cional dos poderes e competências aos<br />

Sovietes de todos os níveis. É dever sa-<br />

grado de todo o PCUS, das organizações<br />

Vermelho e Branco - Outubro/90<br />

fala<br />

Michael Lowy nasceu em São<br />

Paulo em 1938 e saiu exilado do<br />

Brasil em 1969, rumo à França,<br />

onde vive desde então. Colaborador<br />

da corrente IV Internacional, diri-<br />

gida pelo economista Ernest Man-<br />

dei, Lowy tem vários livros publi-<br />

cados em português, entre eles<br />

Marxismo e religião na América Lati-<br />

na e Redenção e utopia: o judaísmo<br />

libertário na Europa Central, ambos<br />

editados pela Companhia das Le-<br />

tras.<br />

"É verdade que a democratização<br />

libertou os povos do Leste de 40 anos<br />

de ditadura stalinista. Mas, ao mesmo<br />

tempo, há uma espécie de revanche<br />

das forças neoliberais, restauradoras<br />

do capitalismo, e de nacionalisipos<br />

por vezes perigosos, o que não per-<br />

mite previsões mais otimistas". A<br />

afirmação é do sociólogo Michael<br />

Lowy, que falou ao Vermelho e Bran-<br />

co durante o seminário sobre Leon<br />

Trotsky.<br />

Para Lowy, "se há no Leste um<br />

sentimento autêntico de recuperação<br />

dos valores nacionais, também existe<br />

o 'acerto de velhas contas', congela-<br />

das pelo stalinismo. Vemos o ressur-<br />

e dos comitês do Partido, dos militantes<br />

comunistas eleitos para os Sovietes e os<br />

organismos dirigentes dos coletivos labo-<br />

rais, contribuir neste sentido. Simultanea-<br />

mente, apelo aos deputados dos Sovietes<br />

para que ajam de um modo mais construti-<br />

vo, observando as normas constitucionais<br />

e legais, i-aço este apeio, sobretudo, como<br />

presidente. Vale ressaltar que alguns de-<br />

putados preferem a cofrontação. Assiste-<br />

se a dois males igualmente perigosos: a<br />

incompreensão, por parte dos comunistas,<br />

da ausência dos novos Sovietes e da sua<br />

missão de contribuir para que a situação<br />

no país volte à normalidade, por um lado, e<br />

a incompreensão, por parte dos deputa-<br />

dos, da necessidade de cooperar com as<br />

organizações do PCUS, por outro."<br />

Michael Lowy<br />

de "velhas contas"<br />

gimento do anü-semiüsmo, sérvios<br />

lutando contra croatas e albaneses na<br />

Iugoslávia, armênios contra azeris na<br />

URSS, em uma tendência que promete<br />

se agravar no futuro".<br />

"Sem dúvida, a maioria dos povos<br />

do Leste, ao eleger governos conser-<br />

vadores, está optando por alternativas<br />

econômicas neoliberais, como res-<br />

posta a décadas de fracasso da plani-<br />

ficação burocrática", raciocina. "Mas<br />

creio que há uma certa ilusão, que os<br />

meios de comunicação do Ocidente se<br />

encarregam de espalhar ainda mais.<br />

Muita gente no Leste acredita que está<br />

entrando no primeiro mundo, quando<br />

a tendência é a terceiro-mundialização<br />

do antigo bloco socialista. A expe-<br />

riência fará posteriormente vários paí-<br />

ses optarem por um terceiro caminho,<br />

o socialismo democrático, onde o Es-<br />

tado controle as principais alavancas<br />

da economia, autogeridas democrati-<br />

camente pelos trabalhadores. Uma so-<br />

ciedade onde as grande» opções - se<br />

devem ser construídos mais automóvel<br />

ou ônibus, por exemplo — sejam de-<br />

terminadas por ela própria, e não por<br />

meio dúzia de tecnocratas ou capita-<br />

listas", acredita Lowy.

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