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ISSN 1809-0915

TERESINA - PI, SETEMBRO DE 2010 Nº 25 ANO VI

Edição Especial

Desenvolvimento e Meio Ambiente

Ciências Agrárias

Educação e Letras

Ciências Humanas

Ciências da Saúde

Tecnologias

Ciências da Natureza


2 TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

Em 2004, nascia o SAPIÊNCIA, órgão de divulgação

científica, editado pela FAPEPI, uma ideia que vingou

e deu bons frutos. Neste momento, lançamos

uma nova versão: SAPIÊNCIA Artigos, uma coletânea de

textos produzidos por pesquisadores de diferentes instituições

acadêmicas do Estado do Piauí e de outros Estados

do Nordeste. A nossa intenção é divulgar resultados

de pesquisas desenvolvidas, tanto no nível de pós-graduação,

como no nível de iniciação científica, de modo

que este número de SAPIÊNCIA reúne trabalhos de alunos

bolsistas de PIBIC/CNPq, bem como trabalhos de

conclusão de especializações, mestrados e doutorados,

EXPEDIENTE

EDITORIAL

SUMÁRIO

Uso de biofertilizante de suíno na produção de hortaliças

- Marlei Rosa dos Santos.............................................. 3

Melhoramento genético de caprinos no estado do Piauí

- Luiz Antônio S. F. Filho............................................. 3

Avanços metodológicos na avaliação genética em caprinos

- Natanael P. da Silva Santos........................................ 4

Mercado da carne caprina e ovina na região metropolitana

de Teresina - Jean Carlos. Soares...................... 4

Insetos e ácaros associados ao cultivo da seringueira no

Brasil - Rodrigo Souza Santos….........................…...... 5

Volumosos de baixo valor nutritivo na alimentação de

ruminantes - Arnaud A. Alves...................................... 6

Agricultura familiar camponesa: territórios em questão

- Canrobert Costa Neto........................................……. 6

Análise das características reológicas do mesocarpo do

babaçu - Lívio César C. Nunes.................................... 7

Pesquisando o setor moveleiro de Teresina - Elaine Aparecida

da Silva............................................................. 8

A flora e fauna úteis de pescadores artesanais - Rosemary

da Silva Sousa.................................................... 9

O cultivo de tilápias tratadas em lagoas de estabilização

- Cleto Augusto B. Monteiro.................................. 10

Mudanças climáticas no semiárido: sobreviveremos!

- Eliana Morais de Abreu............................................. 11

Comida ou combustível? - Luís Gonzaga M. Figueiredo

Júnior.......................................................................... 11

Diagnóstico geoambiental: zona costeira do Estado

do Piauí - Agostinho Paula Brito Cavalcanti............... 12

Educação e extensão rural - Felipe C. M. Tupinambá… 12

A noção de gramática nos estudos de representação

rupestre - Carlos Alberto S. Costa…...……………...… 13

Aplicação do balanced scorecard em instituições de

Ensino Superior - Ângela E. de Sampaio.................... 14

A escola de Palo Alto e os paradoxos comunicacionais

- Camila Calado Lima ................................................. 14

Ação educativa em museus com acervos arqueológicos

- Fabiana Comerlato…........…………………….…….... 15

Nº 25 Ano VI

Setembro de 2010

ISSN - 1809-0915

Informativo produzido pela

Fundação de Amparo à Pesquisa

do Estado do Piauí - FAPEPI

PUBLICAÇÃO TRIMESTRAL

além de trabalhos de pesquisas de docentes, muitos deles

financiados por agências de fomento à pesquisa, entre as

quais, a própria FAPEPI. No intuito de incentivar a

produção escrita de estudantes e professores, publicamos,

também, alguns textos de opinião acerca de questões

de interesse acadêmico, sobretudo aquelas

relacionadas à educação, cultura, ética e política.

O conjunto de textos aqui apresentado resulta numa

considerável diversidade de temas e de áreas de pesquisa,

abrangendo, desde as ciências da natureza, como Química,

Biologia e Física, até as ciências sociais, como Antropologia,

História, Geografia, Arqueologia, Sociologia,

Educação, Economia e Administração. As ciências da

saúde, por sua vez, comparecem com significativo número

de trabalhos relativos à Medicina, Enfermagem e

Aprendizagem na FAP Teresina: visão de professores e

alunos - Ana Maria C. G. Ribeiro................................ 15

A ciência do livro da natureza - Francisco das Chagas

Amorim de Carvalho..................................................... 16

Censura às HQs. Essa história não está no gibi - Angely

Costa Cruz…................………………………………..... 17

A mensagem do salmo: o Evangelho segundo Júlio

Romão da Silva - Elio Ferreira de Souza…………….. 18

A cientificidade do turismo - Vicente de Paula Censi

Borges......................................................................... 19

Comunidade Quilombola e o uso dos recursos vegetais

no Piauí - Fábio José Vieira...................…………...… 19

Rawls: a justiça como equidade e a justificação coerentista

- Elnora M. G. Machado Lima.............……........ 20

O lugar da morte: marcadores identitários nos rituais

fúnebres - Jaqueline Pereira de Sousa...................…... 20

A inserção, atuação e permanência da mulher na capoeira

- Eliane, Tamara.............................................. 21

Bárbaros de nobre sangue: índios, civilização e identidade

no Ceará - João Paulo P. Costa.......................… 22

Isaías caminha: uma voz do “Quilombo” desmascarando

a imprensa - Denílson Botelho.................…….. 22

A competição política piauiense nas eleições de 1996,

2000 e 2004 - Cléber de Deus….................................. 23

A gestão compartilhada na política de inclusão social no

Piauí - Roberto Alvares Rocha............………...........… 24

Trabalho e economia solidária - Solimar O. Lima........ 25

As universidades e os estudos de cidade - Antônio Cardoso

Façanha.............................................................…..… 25

Voltaire, história e clandestinidade - Leandro de Araújo

Sardeiro........................................................………… 26

As rezadeiras do Piauí - Pedrina Nunes Araújo........... 26

O fortalecimento da TV pública no Brasil como ganho

democrático - Acácio Salvador Véras e Silva Júnior........ 27

A prática gerencial de enfermagem em hospitais públicos

- Fabrícia Cavalcante Rocha....................................... 27

Segunda-feira de águas: prostituição e tradição - Maria

das Graças Targino.....................................…............. 28

DIRETOR EDITORIAL

Acácio Salvador Véras e Silva

CONSELHO EDITORIAL

Acácio Salvador Véras e Silva

Francisco Laerte J. Magalhães

Wellington Lage

REVISÃO DE TEXTO

Maria do Socorro Rios Magalhães

AO LEITOR

EDITORA

Márcia Cristina

Roberta Rocha

IMPRESSÃO

Grafiset Gráfica e Editora

TIRAGEM

8 mil exemplares

PROJETO GRÁFICO

Tony Cesar (86) 8832-5057

PARA CRÍTICAS, SUGESTÕES E CONTATO:

www.fapepi.pi.gov.br - sapiencia@fapepi.pi.gov.br

OU PELOS TELEFONES: (86) 3216-6090 - Fax: (86) 3216-6092

Nutrição. Da mesma forma, várias pesquisas voltadas

para produção de alimentos e para outros setores produtivos

do mercado se fazem presentes nesta primeira edição

de SAPIÊNCIA Artigos, que ora vem a público.

SAPIÊNCIA Artigos representa a realização de um

projeto que vimos alimentando deste o lançamento do primeiro

número de nosso informativo. Agora, no momento

da concretização deste projeto, congratulamo-nos com

todos aqueles que contribuíram para o êxito do SAPIÊN-

CIA, ao longo desses seis anos de atividade ininterrupta,

e formulamos votos de que a versão Artigos tenha vida

longa e alcance o mesmo sucesso que vem tendo o SA-

PIÊNCIA, desde a sua criação.

Acácio Salvador Véras e Silva

Consumo alimentar e de álcool por estudantes de escolas

públicas - Marize Melo dos Santos............................... 29

Mente, cérebro e ressonância magnética - Eleonardo Rodrigues..................................................................……

30

Saúde mental em Picos: um projeto, uma proposta

- Maria R. C. Moreira................................................... 30

Importância do psicólogo para pessoas com deficiência

- Nadja Carolina de S. P. Caetano................................. 31

Fatores de risco para a hepatite b entre caminhoneiros

- Telma M. E. de Araújo................................................ 31

Avaliação da promoção da saúde no Estado do Piauí

- José Ivo dos S. Pedrosa.............................................. 32

A bioética da proteção - Francisca Sandra C. Barreto... 32

A composição corporal e o consumo alimentar em jogadores

de futebol - Moisés Mendes da Silva................... 33

Atapulgita no Piauí: possibilidades tecnológicas

- Cristiany Marinho Araújo...........................……......... 34

A políticas públicas estaduais de habitação: a atuação

da ADH - Alcília Afonso de A. Costa............................ 34

Aquitetura de rua - Ângela M. Napoleão Braz e Silva....... 35

Estudo do potencial eólico no litoral do Piauí - Henrique

do N. Camelo............................................................... 35

Vitamina e ou alfa-tocoferol? - Roberto Dimenstein...... 36

Anilhamento de aves no alto Rio Araguaia/MT

- Anderson Guzzi..........................................……...…. 36

Musicoterapia e praticante esportivo: ritmo superando

barreiras - Nydia Cabral C. do Rego Monteiro.......…. 37

Contribuições reichianas para a psicossomática: o

conceito de biopatia - Périsson D. do Nascimento....... 37

Casamentos e deficiências congênitas em São Gonçalo

do Piauí - Manoel Cícero R. Júnior.............................. 38

Patologia do material argiloso - Paulo H. C. Fernandes..... 38

Caracterização químico-mineralógica de materiais

arqueológicos - Luis C. D. Cavalcante......................... 39

Vertebrados do Parque Nacional da Serra das Confusões/Piauí

- Janete D. Nogueira Paranhos................... 39

Restingas: e quando o vizinho não é a Floresta Atlântica?

- Francisco Soares S. Filho…………........................… 40


CIÊNCIAS AGRÁRIAS

MELHORAMENTO GENÉTICO DE CAPRINOS NO ESTADO DO PIAUÍ

A região Nordeste se encontra em posição de destaque na

criação de caprinos no Brasil, com 91,3% de todo o rebanho

caprino do país, sendo que 1.370.372 cabeças (14,6% do efetivo

nacional) são criados no estado do Piauí (IBGE, 2007). A

caprinocultura nordestina tem grande importância para agricultura

familiar, além de ser fonte de renda através da comercialização

de subprodutos, como carne, couro e leite. Contudo,

ainda, apresenta índices zootécnicos baixos, principalmente

pela pouca utilização de um aporte tecnológico eficiente e compatível

com as características socioeconômicas da região, necessitando

de mudanças culturais importantes, especialmente

no setor produtivo.

O aumento dos rebanhos precisa ser amparado por programas

de Genética, Melhoramento Animal e Biotecnologia,

que são básicos para a produção, seleção e multiplicação rápida

de animais de elite (SOUSA, 2004). Inseridos nesses

programas, estão os estudos relacionados ao crescimento dos

animais de corte que proporcionam subsídios para a seleção

pela precocidade, ganho de peso, entre outras características

de interesse econômico.

Dentre as características usadas para mensurar o processo

do crescimento, temos o peso dos animais, que é utilizado na

descrição da curva de crescimento do animal, na maioria sigmoidal,

que relaciona peso à idade, fornecendo, consequentemente,

informações do desenvolvimento do animal em todas as

fases da vida.

Geralmente, estudam-se curvas de crescimento por meio

do ajuste de funções não-lineares, pois, dessa maneira, é possível

sintetizar informações de todo o período de vida dos animais,

ou seja, um conjunto de informações em série de peso

por idade, em um pequeno conjunto de parâmetros interpretá-

TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

USO DE BIOFERTILIZANTE DE SUÍNO NA PRODUÇÃO DE HORTALIÇAS

O solo agrícola é uma importante fonte de nutrientes minerais

para as plantas. No caso particular da Olericultura, os

nutrientes disponíveis no solo são frequentemente insuficientes,

devido à elevada exigência das plantas em nutrientes.

Essa limitação da fertilidade natural é bem conhecida, podendo

ser corrigida pela aplicação de adubos orgânicos

e/ou minerais. A partir da década de 1970, a denominada

agricultura orgânica começou a ser disseminada em países

europeus, provavelmente como uma reação compreensível,

embora extremada, ao uso indiscriminado e abusivo de defensivos

e fertilizantes minerais. Nos dias de hoje, há a

preocupação em minimizar possíveis danos ecológicos,

como a contaminação da água subterrânea por nitratos ou

de lagoas por fosfatos.

Os benefícios da adubação orgânica têm sido reconhecidos,

ressaltando-se que a incorporação de materiais orgânicos,

como o esterco animal, torna o solo um substrato

mais propício à agricultura. Melhora algumas características

do solo que favorecem a agricultura, notadamente a capacidade

de penetração e retenção de água; a estrutura, o

arejamento e a porosidade aumentam a vida microbiana

útil, inclusive com eliminação de fitopatógenos; favorece

a disponibilidade e a absorção de nutrientes; os solos argilosos,

pesados e compactados, tornam-se mais favoráveis;

e igualmente acontece com os solos arenosos, leves

e sem boa estrutura.

O esterco bovino é comumente o mais utilizado como fertilizante

nas olerícolas, por estar presente em quase todas as

propriedades rurais. Entretanto, em consequência das atividades

suinícolas desenvolvidas na região do Vale do Piranga,

na Zona da Mata mineira, os dejetos líquidos de suínos são

resíduos orgânicos disponíveis em grandes quantidades, tornando-se

viáveis estudos que os envolvam como fonte alternativa

de nutrientes, para a melhoria do sistema de produção

e proteção do meio ambiente. O projeto de pesquisa intitulado

“Manejo e utilização de biofertilizante, proveniente da digestão

anaeróbica de dejetos de suínos, para o desenvolvimento

da olericultura na microrregião do Vale do Piranga, Zona da

Mata Mineira”, foi aprovado pela FAPEMIG e executado na

Empresa de Pesquisa Agropecuário de Minas Gerais no período

de 2007 a 2009.

O biofertilizante foi obtido após a fermentação do dejeto

líquido de suíno, proveniente da lavagem das baias, a

fermentação foi feita anaerobicamente em caixas de fibra

de vidro tampadas, por um período de 30 dias. Após a fer-

veis biologicamente (OLIVEIRA et al., 2000). O uso da modelagem

no melhoramento genético animal permite a estimação

dos parâmetros para as curvas de crescimento e a identificação

dos animais mais apropriados economicamente, possibilitando

a descrição e a predição do crescimento e da maturidade do animal,

bem como as inferências baseadas na interpretação dos

parâmetros dessas curvas.

No entanto, para que planos de melhoramento possam ser

avaliados e definidos, é indispensável que se conheça as fontes

de variação não genéticas, para que se possa eliminar as

diferenças causadas pelo meio, permitindo a identificação

dos animais geneticamente superiores para as características

de crescimento. Além disso, é necessário também um estudo

da interferência genética, a fim de verificar se a ação genética

tem efeito aditivo e, ainda, se existem correlações entre

FOTOS: DIVULGAÇÃO

Marlei Rosa dos Santos – Profa. Dra. da UESPI

marleirs@uespi.br

Maria A. N. Sediyama - Pesquisadora

Dra. da Empresa de Pesquisa Agropecuária

de Minas Gerais (EPAMIG)

marians@epamig.ufv.br

Sanzio M. Vidigal

Pesquisador Dr. da EPAMIG

sanziomv@epamig.br

mentação esse biofertilizante apresentou as seguintes características,

em g L-1: N = 22,7; P = 15,2; K = 11,0; Ca =

17,0; Mg = 7,7; S = 3,9; C. org. = 2,1 e Na = 5,2 e, em mg

L-1, Zn = 2068; Fe = 3859; Mn = 176; Cu = 1166; Cr =

0,13; Ni = 0,21 e Cd = 0,01; pH (H2O) = 8,61; densidade =

1,1 g cm-3 e C/N = 0,09.

Experimento utilizando doses de biofertilizante suíno na

cultura do quiabo, cv Santa Cruz permitiu concluir que a aplicação

do biofertilizante proporcionou aumento nos teores foliares

de N, Ca e Mg e redução nos teores de P e S, sem perdas

na produção por planta. A maior produtividade de frutos comerciais

do quiabeiro foi obtida na maior população de plantas

(35.714 plantas ha-1) e com 48 m3 ha-1 de biofertilizante

maior dose utilizado no experimento (Figura 1). A maior produtividade

obtida nas populações de 35.714 e 23.809 plantas

ha-1 foi 31,23 t ha-1 e 21,90 t ha-1, respectivamente, ambas

alcançadas com a maior dose de biofertilizante aplicada (Sediyama

et al., 2009). Tais produtividades são superiores às obtidas

por Oliveira et al. (2003) que avaliaram o rendimento de

quiabo, cultivar Santa Cruz, em função de doses de N, e obtiveram

produção máxima estimada de 16,7 t ha- 1, obtida com

141 kg ha-1 de N. A produtividade média esperada do quiabeiro

é de 15 a 20 t ha-1 (SILVA et al., 2007).

as características estudadas. No que se refere à espécie caprina,

estudos desses fatores e suas estimativas são ainda escassos

na literatura.

Portanto, o conhecimento e o controle do crescimento e desenvolvimento

dos ruminantes são tópicos de bastante interesse

para os pesquisadores, pois o seu domínio permite que programas

de seleção animal sejam elaborados para as características de

crescimento inerentes a cada raça.

Para tanto, um grupo de pesquisadores da Universidade

Federal do Piauí vem realizando registros de informações

zootécnicas para o desenvolvimento de diversas pesquisas,

dentre elas encontra-se o estudo da curva de crescimento de

caprinos Anglonubianos, raça de destaque em criatórios

piauienses, bem como a influência de fatores genéticos e não

genéticos, no crescimento desses animais, podendo-se promover

mudanças genéticas consideráveis no rebanho através de

ferramentas como a seleção e os cruzamentos, e por consequência

na cadeia produtiva.

Com isso, os programas de melhoramento genético animal

vêm progredindo com a utilização

de métodos de avaliações

genéticas utilizados nos processos

de seleção e cruzamentos, o que

promove mudanças genéticas consideráveis

no rebanho e por consequência

na cadeia produtiva.

Luiz Antônio Silva F. Filho

Mestrando em Ciência

Animal da UFPI

luiz_medvet@hotmail.com

3


4 TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

AVANÇOS METODOLÓGICOS NA AVALIAÇÃO GENÉTICA EM CAPRINOS

A Região Nordeste é a maior produtora de caprinos do país,

mas apresenta índices zootécnicos baixos, principalmente em

razão da não utilização de tecnologias compatíveis com as condições

de ambiente e manejo na região, visto que estão presentes

na maioria dos rebanhos, condições ambientais adversas ao

bom desenvolvimento dos animais. Dessa forma, o conhecimento

dos fatores que interferem direta ou indiretamente nestes

índices pode auxiliar na melhoria da eficiência produtiva e reprodutiva

dos rebanhos.

Em termos de avaliação genética, a caprinocultura tem recebido

pouca atenção da pesquisa no País, notadamente quanto

ao comportamento genético dos fatores a ela relacionados e

também quanto à adoção de metodologias com mais recursos

técnicos. No tocante às metodologias utilizadas, considera-se

que a limitação de dados disponíveis, em razão da desvalorização

dada à avaliação genética pelo produtor, por razões diversas,

dentre elas o desconhecimento tecnológico, seja a mais

forte das dificuldades encontradas para obtenção dos parâmetros

genéticos do rebanho.

O melhoramento genético animal pode ser entendido como

um conjunto de processos seletivos e de direcionamento dos acasalamentos,

cujo objetivo é aumentar a frequência dos genes de

efeitos desejáveis ou das combinações genéticas boas em uma

população, com a finalidade de aperfeiçoar a capacidade de produção

dos animais que apresentam interesse econômico para o

homem em um dado ambiente. Dessa forma, o avanço genético

somente pode ser alcançado a partir do momento em que existam

as seguintes condições: variabilidade genética; o efeito ambiental

não mascare por completo esta variabilidade; a seleção e a combinação

de genótipos superiores possam ser realizadas para o estabelecimento

da próxima geração.

Trabalhos relacionados à seleção de caprinos baseados no

mérito genético de cada animal ainda são escassos na literatura

nacional. Diferentemente, em diversas outras espécies, a seleção

de animais com base no seu valor genético, tem sido praticada

com sucesso. Exemplo marcante é observado em bovinos, em que

os animais são selecionados por características de importância

econômica e são usados como reprodutores na geração seguinte,

alterando-se a constituição genética do rebanho, obtendo-se assim

um incremento na produtividade.

Os componentes de variância, importantes na predição do

mérito genético dos indivíduos, têm sido estimados por diferentes

métodos que evoluem à medida que novas teorias e

novas técnicas computacionais são desenvolvidas. O método

de estimação pode ser um fator importante na obtenção dos parâmetros

genéticos, juntamente com o estabelecimento de um

modelo matemático que descreva corretamente os dados e com

a inclusão de fatores importantes, como a raça, o sexo, o manejo

e a origem dos dados.

Para que estes componentes tenham estimativas fidedignas,

de alta precisão e acurácia, os estimadores devem apresentar as

seguintes propriedades: (1) não vício, tal que a esperança matemática

do estimador seja o próprio parâmetro; (2) consistência,

tal que, com o aumento do tamanho da amostra, a esperança do

estimador convirja para o parâmetro e a variância do estimador

convirja para zero. O aumento da acurácia de uma estimativa

está relacionado com o aumento do tamanho da amostra; (3)

eficiência tal que o estimador apresente variância mínima; (4)

suficiência, tal que o estimador condense ao máximo possível

a informação contida na amostra e não seja função (dependente)

do parâmetro; (5) completitude, que está ligada à unicidade

do estimador; (6) invariância à translação, tal que a

estimação dos componentes de variância não seja afetada por

mudanças nos efeitos fixos.

Nas duas últimas décadas, com o incremento da tecnologia

de computação, vem crescendo o interesse por métodos mais sofisticados

e eficientes na obtenção de estimativas de componentes

de variância. O método de máxima verossimilhança restrita

(REML) tornou-se o método mais utilizado na estimação de componentes

de variância no melhoramento animal, adotando a metodologia

conhecida por Melhor Predição Linear Não-Viesada

(BLUP) do mérito genético. Os Procedimentos BLUP incorporam

toda informação disponível na predição de uma Diferença Esperada

de Progênie (DEP) individual.

O método de máxima verossimilhança restrita (REML) tem

sido preferido pelos pesquisadores, por permitir a inclusão das

informações da matriz de parentesco e proporcionar, em geral,

estimativas menos viciadas que os métodos antecessores (Análise

de Variância - ANOVA, Métodos I, II e III de Henderson,

Máxima Verossimilhança – ML, Método de Estimação Quadrática

não-Viesada de Norma Mínima – MIVQUE), quando os

dados são provenientes de rebanhos sob seleção baseada na característica

estudada ou em alguma característica correlacionada.

Entretanto, os resultados da estimação de componentes de variância

por este método, assim como em todos os métodos frequentistas

de estimação, são pontuais e não permitem que outras

inferências, além daquelas proporcionadas pelo valor da estimativa

e de sua variância sejam feitas. Além disto, o custo computacional

cresce exponencialmente com o número de componentes

estimados em cada análise, tornando praticamente inviável a sua

utilização em análises que envolvam mais de três características,

quando o número de dados é grande.

Tendo em vista as limitações dos métodos frequentistas,

tem-se verificado o desenvolvimento de uma concepção baye-

siana para a estimação de componentes de variância. Diversos

autores demonstram que a inferência bayesiana é uma alternativa

de grande flexibilidade tanto em relação aos modelos que podem

ser utilizados nas análises, quanto às inferências que podem ser

realizadas a partir dos resultados, com menor custo computacional,

podendo ser utilizado um grande ou pequeno número de

dados, fato muito observado nos rebanhos caprinos da região.

O uso de características múltiplas em conjunção com a matriz

de parentesco dos animais aumenta a acurácia dessas estimativas,

pois elas utilizam melhor as informações sobre características correlacionadas

e reduzem ou eliminam vícios das estimativas causados

pela seleção. O uso das informações de parentesco dos

animais, também constitui um entrave na avaliação genética dos

caprinos visto que os caprinocultores, em sua maioria, não têm o

hábito de guardar estas informações.

Uma das principais características da metodologia Bayesiana,

que a diferencia da clássica, é a abordagem no momento

de se fazer inferência estatística sobre os parâmetros, a partir de

uma amostra. Nos procedimentos frequentistas, assume-se que os

parâmetros do modelo probabilístico são valores fixos ou constantes,

embora desconhecidos, podendo existir vários estimadores.

Na técnica Bayesiana, todavia, os parâmetros são vistos como

variáveis aleatórias, existindo, a princípio, um único estimador,

o qual conduz a estimativas que maximizam uma função densidade

de probabilidade “a posteriori”.

Outro ponto marcante é o fato de no contexto bayesiano não

existir “viés”, uma vez que repetições de um experimento não

são consideradas. Com relação à categorização dos efeitos, a

princípio, todos são considerados aleatórios, tornando inócua a

denominação de modelos mistos. No entanto, essa distinção requerida

na genética quantitativa, é providenciada pela atribuição

de “prioris” distintas entre os efeitos ditos “fixos” e “aleatórios”.

Assim, vê-se a necessidade de estudos aprofundados, com o

uso de metodologias que propiciem maior acurácia dos valores

dos efeitos genéticos e também dos

efeitos ambientais, que influenciam

características produtivas e reprodutivas

no imenso contingente caprino

existente na nossa região para o incremento

da caprinocultura, visto o

crescente valor que está sendo destinado

à atividade no Estado.

MERCADO DA CARNE CAPRINA E OVINA NA REGIÃO METROPOLITANA DE TERESINA

O Piauí se distingue dos demais Estados pela distribuição

dos rebanhos por toda a sua extensão territorial, sendo o detentor

do terceiro maior rebanho de caprinos e ovinos do Nordeste.

Contudo, o consumo das carnes de caprinos e ovinos em Teresina

é ainda classificado como baixo em decorrência da baixa qualidade

do produto ofertado. (SILVA & PIRES, 2000) relataram

que a variabilidade dos caracteres qualitativos e quantitativos que

definem os diferentes tipos de carcaças comercializadas não

constitui inconveniente para a comercialização, por oferecer ao

mercado carcaças diferentes, que podem satisfazer as mais variadas

preferências da demanda. Entretanto, os consumidores tradicionais

apreciadores da carne caprina e ovina, começam a

tomar conhecimento das qualidades nutricionais desse produto,

aumentando sua procura no mercado (SEBRAE-PI, 2003). Com

esse trabalho, objetiva-se descrever características da organização

da estrutura de mercado da carne caprina e ovina na região

metropolitana de Teresina.

MATERIAL E MÉTODOS

A coleta de dados foi realizada na cidade de Teresina, capital

do Piauí. As entrevistas foram estruturadas segundo Samara

& Barros (1997) e aplicadas a gestores de restaurantes,

donos de açougues de mercados públicos, feiras livres, pontos

fixos, distribuídos em quatro zonas (Norte, Sul, Leste e Sudeste)

englobando vários bairros, correspondendo aproxima-

damente a 90% dos estabelecimentos que comercializam e consomem

carne caprina e ovina, de acordo com as seguintes variáveis:

sexo do animal, idade e sazonalidade de demanda.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Pode-se indicar, com base nos resultados, que a partir das entrevistas

realizadas com os comerciantes, consumidores dentro dos

estabelecimentos pesquisados, gestores de bares e restaurantes,

sobre o comércio da carne caprina e ovina, que os “atravessadores”

geralmente repassam os animais para feiras, açougues e vendem à

população em geral. No tocante a bares e restaurantes, geralmente,

cada um tem seu próprio fornecedor.

O mercado não possui exigência quanto à idade, visto que

43% dizem não ter preferência pela idade, 23% preferem animais

com menos de 1 ano, 30% preferem de 1 a 2 anos e apenas 3%

preferem com mais de 2 anos.

Quanto ao sexo, observou-se que 76% declararam comercializar

caprino e ovino independente do sexo, 9% preferem o “macho

inteiro” e outros 6% “macho castrado”, enquanto que apenas 10%

revelaram preferência pela fêmea.

Buscou-se ainda levantar o período de maior demanda de

carne caprina e ovina, de acordo com a comercialização. Observou-se

que 46% declaram que há uma predileção em consumo nos

dias de sábado, 34% preferem no domingo, indicando esses como

dias importantes para consumo e comercialização. O fato repor-

Natanael P. da Silva Santos

Engº. Agrº. Mestrando em

Ciência Animal/UFPI

natanps@yahoo.com.br

tado indica que as carnes de caprino e de ovino são consideradas

produtos de finais de semana (SEBRAE-RN, 2001).

CONCLUSÕES

O município de Teresina-PI se apresenta como um grande centro

consumidor de carne caprina e ovina do Estado, pelo fluxo e

canais de comercialização. Há maior prevalência de comercialização

e consumo da carne caprina e ovina aos sábados e domingos.

Há necessidade de qualificação de mão-de-obra,

orientação sobre as raças e espécies de animais aqui comercializadas,

maior divulgação da importância do consumo de carne

caprina e ovina, não só nos fins de semana e, principalmente,

fornecimento à sociedade

um produto

que venha garantir

uma alimentação

saudável, desde a

chegada do animal

ao abatedouro até a

mesa do consumidor.

Jean Carlos Soares – Zootecnista e Mestrando

em Ciência Animal na UFPI - jeancarlosab@bol.com.br

Marcos Jacob de O. Almeida – Analista na

EMBRAPA Meio Norte, Doutor em Zootecnia


TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

INSETOS E ÁCAROS ASSOCIADOS AO CULTIVO DA SERINGUEIRA NO BRASIL

O gênero Hevea pertence à família Euphorbiaceae que

compreende outros gêneros importantes de culturas

tropicais, tais como Ricinus (mamona) e

Manihot (mandioca). Este gênero tem

como área de ocorrência a Amazônia

brasileira, bem como Bolívia, Colômbia,

Peru, Venezuela, Equador, Suriname

e Guiana. Dentre as espécies de

seringueira, a originária do Brasil,

Hevea brasiliensis, é a que possui a

maior capacidade reprodutiva, maior

variabilidade genética e maior produtividade

de látex.

Hevea brasiliensis é uma planta de

ciclo perene, de origem tropical, cultivada e

utilizada de modo extrativista, com a finalidade de

produção de borracha natural. A partir da saída de seu habitat,

passou a ser cultivada em grandes monocultivos, princi-

palmente nos países asiáticos. No Brasil, seu cultivo obteve

grande sucesso nas regiões Sudeste, Centro-Oeste, na Bahia,

Espírito Santos e no oeste do Paraná. A seringueira é uma

planta semidecídua, heliófita, característica da floresta Amazônica

nas margens de rios e lugares inundáveis da mata de

terra firme. Ocorre preferencialmente em solos argilosos e

férteis na margem de rios e várzeas.

Atualmente os países asiáticos Tailândia, Indonésia, Malásia,

China e Vietnã são os principais produtores mundiais

de borracha natural, respondendo por cerca de 90% do total.

O Brasil ocupa apenas o nono lugar na produção mundial, correspondendo

a aproximadamente 1,4% do total. Em âmbito

nacional, os estados de São Paulo, Mato Grosso, Bahia e Espírito

Santo são os principais produtores, sendo São Paulo

responsável pela maior parcela da produção nacional, o que

lhe confere a condição de principal produtor de borracha natural

do país.

Com a utilização

do cultivo da

seringueira em sistema

de monocultura,

ocorre um

favorecimento à

adaptação de insetos

que se tornam

problema, interferindo

na fisiologia

da planta e reduzindo

a produção de

látex. Um número

considerável de insetos

e ácaros está

associado à seringueira,

e uma parcela

deles se

destaca como pragas, pela frequência e níveis de infestação

em que ocorrem.

Dentre as principais espécies de ácaros fitófagos encontrados

na cultura da seringueira estão: Oligonychus gossypii,

Eutetranychus banksi, Tetranychus sp. (Acari, Tetranychidae),

Calacarus heveae, Phyllocoptruta seringueirae, Shevtchenkella

petiolula (Acari, Eriophyidae), Brevipalpus phoenicis e

Tenuipalpus heveae (Acari, Tenuipalpidae.

Os insetos que apresentam importância econômica na heveicultura

brasileira são as espécies: Agrotis subterranea,

Spodoptera frugiperda (Lepidoptera: Noctuidae), Erinnyis

ello, Erinnyis alope (Lepidoptera: Sphingidae) e Premolis semirufa

(Lepidoptera: Arctiidae); ortópteros: Gryllus assimilis

(Orthoptera: Gryllidae) e Neocurtila hexadactila (Orthoptera:

Gryllotalpidae); cupim: Coptotermes testaceus (Isoptera:

Rhinotermitidae); besouros: Platypus mattai

(Coleoptera: Platypodidae), Xyleborus confusus, Hipothemes

sp. (Coleoptera: Scotylidae), Malacopterus tenellus e Achryson

surinamum (Coleoptera: Cerambycidae); formigas: Atta

sexdens, Atta cephalotes, Atta laevigata e Acromyrmex sp.

(Hymenoptera: Formicidae); tripes: Actinothrips bondari,

Anactinothrips distinguendus e Scirtothrips sp. (Thysanop-

tera: Thripidae);

hemípteros: Aleurodicus coccois

e Aleurodicus pulvinatus (Hemiptera:

Aleyrodidae); cochonilhas: Pinaspis sp., Aspidiotus destructor,

Selenaspidus articulatus (Hemiptera: Diaspididae),

Saissetia coffeae, Saissetia oleae, Parasaissetia nigra (Hemiptera:

Coccidae) e o percevejo Leptopharsa heveae (Hemiptera:

Tingidae).

O percevejo-de-renda ou mosca-de-renda da seringueira,

Leptopharsa heveae é o principal inseto-praga da cultura. O

ataque em altas infestações provoca uma redução de 28% no

crescimento em altura e de 44,5% no diâmetro do colo das

plantas, em mudas, podendo ocasionar queda na produção de

látex em até 30%. Em São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso

do Sul, Minas Gerais, Bahia e Goiás, regiões de escape da

doença conhecida como “mal-das-folhas”, causada pelo

fungo Microcyclus ulei, o percevejo-de-renda torna-se ainda

mais importante,

pois sua ação

ocasiona a senescência

precoce

ou a queda anormal

das folhas.

Deste modo, a

seringueira renova

a folhagem

em períodos

quentes e úmidos,

favoráveis

ao surgimento da

doença

O controle

químico dessa

praga tem oferecido

resultados

satisfatórios, mas o elevado número de pulverizações requeridas

para seu controle e o alto custo destas têm induzido os

produtores a abandonarem os seringais após o esgotamento

destes. Já o controle biológico tem sido utilizado através

do uso do fungo Sporothrix insectorum, em diversos locais

do Brasil. Em surtos ocorridos no Centro Nacional de Pesquisas

da Seringueira e Dendê em Manaus, foi utilizado

este micro-organismo, atingindo o percentual de controle

de 93% das ninfas e 76% dos adultos em árvores com

copas mais densas. Entretanto, sua eficiência está diretamente

ligada ao clima, variando de 25,5% a 93,5% do período

mais seco ao mais úmido, respectivamente,

apresentando, portanto, baixo índice de parasitismo e eficiência

em períodos de umidade relativa baixa.

Os crisopídeos (Neuroptera: Chrysopidae) também figuram

entre os inimigos naturais do percevejo-de-renda. Esses

predadores se alimentam de grande variedade de insetos sugadores

de seiva (pulgões, cochonilhas e psilídeos), ácaros,

tripes, ovos e lagartas de lepidópteros e pequenos hemípteros

(Tingidae). Em Ibitinga, SP, foram observados diferentes gêneros

de crisopídeos na cultura da seringueira, no clone RRIM

600; sendo eles: Ceraeochrysa,

Chrysoperla, Nodita,

Chrysopodes e Plesiochrysa. Foram observados

crisopídeos em seringueira no município de Buritama, SP, relacionados

com surtos do percevejo-de-renda, predando tanto

ninfas como adultos do percevejo-de-renda.

No Brasil, já foram observados ovos de tingídeos parasitados

por micro-himenópteros do gênero Erythmelus (Chalcidoidea:

Mymaridae). O pesquisador Valmir Antonio Costa

(APTA/Instituto Biológico, Campinas, SP) e colaboradores

observaram um parasitismo de 7% em ovos de Leptopharsa

heveae, coleados em folhas do clone PB 235 em Pindorama,

SP parasitados pelo parasitoide Erythmelus tingitiphagus.

Estudos desta natureza também foram realizados pelo

autor, em talhões de seringueira dos clones RRIM 600, PR

255, PB 217, PB 235 e GT 1, na fazenda da empresa “Plantações

Edouard Michelin Ltda.”, município de Itiquira, MT. No

ensaio realizado em talhão policlonal (sem aplicação de produtos

fitossanitários desde dezembro de 2002), foi observada

uma porcentagem média de parasitismo de 18,8% por Erythmelus

tingitiphagus em condições naturais. Em outro ensaio

em talhões que sofrem pulverizações periódicas, foi observada

uma porcentagem média de parasitismo de 24,2% para

os mesmos clones. Neste sentido, este parasitóide de ovos

mostra-se um promissor agente de controle biológico, com

alto potencial para ser utilizado em estratégias de manejo integrado

do percevejo-de-renda em

seringais de cultivo, diminuindo o

uso de produtos fitossanitários e

os riscos de contaminação ambiental.

No entanto, deve-se estimular

a realização de estudos de

criação em massa deste inseto em

laboratório e liberação em campo.

Rodrigo Souza Santos

Bolsista de Pós-Doutorado na

Embrapa do Amapá

santos_rss@hotmail.com

FOTOS: DIVULGAÇÃO

5


6 TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

VOLUMOSOS DE BAIXO VALOR NUTRITIVO NA ALIMENTAÇÃO DE RUMINANTES

A necessidade do atendimento às demandas por alimentos

para a população humana impõe aos sistemas de produção animal

maior produtividade, para o que se faz necessário o fornecimento

de alimentos de alto valor nutritivo, o que tem

provocado a inclusão de elevada proporção de grãos nas dietas

de ruminantes. Este fato reflete em aumento da competitividade

por alimento entre seres humanos e animais, uma vez que

um terço dos grãos produzidos no mundo é disponibilizado

para a alimentação animal, gerando competitividade com a alimentação

humana.

Além disso, na região Nordeste do Brasil ocorrem prolongados

períodos de estiagem e irregular distribuição de

chuvas, o que provoca sazonalidade na produção de forragem,

levando também à produção estacional dos rebanhos.

Dessa forma, uma alternativa para contornar estes problemas

é priorizar a utilização de alimentos volumosos e, preferencialmente,

alimentos alternativos na alimentação de ruminantes,

visando suprir parte das exigências nutricionais de

mantença dos rebanhos. Dentre estes, destaca-se alternativas

que reflitam na diminuição dos custos de produção, como a

utilização de gramíneas em idade avançada, resíduos do beneficiamento

da cana-de-açúcar, palhadas, restolhos de culturas

agrícolas e resíduos do beneficiamento de grãos de

culturas anuais, como o milho, a soja e o arroz.

O milho é o principal cereal cultivado no Brasil e, segundo

a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), em 2009,

foram cultivados quase 3 milhões de hectares com esta cultura

agrícola, o que resulta em disponibilidade de grande quantidade

de palhada e restolho. Considera-se restolho a parte aérea

da planta de milho sem as espigas, a qual difere da palhada por

ser colhido antes da secagem natural a campo. Este volumoso

se mostra promissor para a alimentação de ruminantes, devido

35 a 45% do nitrogênio retido pela planta ser translocado à

parte aérea; ao potencial energético pela proporção de parede

celular utilizável pelos ruminantes; além da possibilidade de

adoção de técnicas para conservação deste resíduo de cultura

por técnicas de ensilagem ou fenação.

Contudo, resíduos agrícolas, em geral, apresentam baixo

valor nutritivo, devido à lignificação da parede celular, correspondendo

a cerca de 70 a 80% da matéria seca e baixo teor de

proteína bruta, com degradabilidade da matéria seca bastante

reduzida. Estes fatores podem ser melhorados, a partir de pesquisas

para avaliação de tecnologias simples e adequadas,

como a amonização com ureia.

A amonização de alimentos volumosos fibrosos consiste

do tratamento químico com ureia ou amônia anidra sob condições

ideais de temperatura, umidade, quantidade aplicada (em

% da matéria seca) e qualidade da forragem. As pesquisas

sobre tratamento químico de resíduos da cultura do milho no

Brasil são recentes, com resultados satisfatórios, quanto ao aumento

do teor e retenção de nitrogênio, à redução dos constituintes

da parede celular e ao incremento da degradabilidade

AGRICULTURA FAMILIAR CAMPONESA: TERRITÓRIOS EM QUESTÃO

Este artigo parte da definição teórica segundo a qual

camponeses não são apenas aqueles que possuem propriedade

jurídica sobre uma pequena extensão de terra.

Ao contrário, trabalhadores sem-terra que produzem

para si mesmos, em regime de subsistência e para os

donos legais de terras, na condição de meeiros, sob contrato

de parceria, ou através da venda pura e simples da

força de trabalho, sob a designação de diarista (ou “companheiro”),

também podem ser considerados camponeses,

desde que vivam na (e da) terra e detenham, por isso

mesmo, conhecimentos ou saberes necessários à realização

dos ciclos de produção, do cultivo à colheita

agrícola e/ou das fases em que se estrutura a pecuária

leiteira e de corte e da relação com a extração/preservação

de recursos naturais, além de estabelecerem,

entre si, laços de reciprocidade sociocultural.

Por isso, em termos teóricos, os territórios, constituídos

por agricultores familiares camponeses “com-terra”

e “sem-terra” (costa Neto, C. 2007. Diversidade social e

tecnológica em unidades de produção familiar. In: LIMA,

E. et alli. Mundo Rural IV. Configurações rural-urbanas:

poderes e políticas. Rio de Janeiro: Edur/UFRRJ, p. 261-

271), apresentam grande diversidade sociocultural, am-

da matéria seca e de constituintes da parede celular.

As principais vantagens do uso de uréia no tratamento de

volumosos de baixa qualidade são a fácil aplicação; não polui

o meio ambiente; fornece nitrogênio não protéico (NNP); provoca

decréscimo na proporção de parede celular, por quebra de

ligações ésteres entre moléculas do complexo lignocelulose e

de outros carboidratos, provoca solubilização da hemicelulose;

aumenta a digestibilidade; e ainda conserva as forragens com

elevado teor de umidade.

A amonização consiste em dois processos, ureólise, uma

reação enzimática que, na presença de uréase, produzida por

bactérias ureolíticas, sob condições ideais de umidade, libera

a amônia da molécula de ureia e gera efeitos na parede celular

da forragem; e, hidrólise alcalina, resultante da reação do hidróxido

de amônia, uma base fraca formada por reação da uréia

com água e ligações ésteres entre os carboidratos estruturais.

As recomendações quanto à quantidade de uréia para tratamento

da forragem variam muito, em função do material

tratado e das condições ambientais. Algumas pesquisas resultaram

em maior eficiência do tratamento quando do uso

de 3 a 8% de ureia na MS em volumosos com 30% de umidade.

Neste tratamento, a uréia é dissolvida em água e aspergida

sobre o material a ser tratado e, posteriormente, este é

armazenado em ambiente hermeticamente fechado, com auxílio

de lona plástica, evitando-se a liberação da amônia

(NH3). O tempo de armazenamento sob tratamento é de até

35 dias, e é inversamente proporcional à dose de uréia aplicada.

A temperatura também influencia no tratamento de volumosos

com ureia, verificando-se reações quase imediatas

em ambientes com temperatura mais elevada (34 a 35°C), estando

esta diretamente relacionada com a dose de ureia e

com a umidade do material. Ainda quanto à interação dos fatores,

o aumento do período de amonização de forragens

pode não trazer benefícios em termos de elevação do conteúdo

de nitrogênio. Assim, é recomendado o mínimo de 15

dias de armazenamento em regiões de temperatura elevada e

30 dias sob temperatura amena. Quanto pior o valor nutritivo

da forragem tratada, mais evidentes serão os resultados da

amonização sobre os constituintes da parede celular e degradabilidade

da matéria seca.

O Grupo de Pesquisa e Difusão Tecnológica em Nutrição

de Ruminantes do Departamento de Zootecnia da Universidade

Federal do Piauí, cadastrado no Conselho Nacional de Desenvolvimento

Científico e Tecnológico (CNPq), tem desenvolvido

vários trabalhos quanto à utilização de alimentos

alternativos para ruminantes. Em especial, com alimentos disponíveis

na região Nordeste com potencial para redução dos

custos de produção de dietas, como vagens de leguminosas tropicais,

resíduos da agroindústria, e mais recentemente, com volumosos

de baixa qualidade, como fenos de gramíneas em

idade avançada e resíduos de culturas anuais. Em Pesquisa de

Dissertação do Mestrado em Ciência Animal da UFPI, foi ava-

biental. Neste sentido, percebemos os territórios camponeses

contemporâneos como redes intercomunicáveis

(Haesbaert, R, 2007. Concepções de território para entender

a desterritorialização. In: Santos, M. e Becker, B K.

Território, territórios, ensaios sobre ordenamento territorial.

Lamparina Rio de Janeiro. p.43-71), para além das

cercas das propriedades jurídico-legais.

Tomando como ponto de partida esta caracterização

teórica, consideramos possível assinalar que os territórios

camponeses passam atualmente por transformações em

suas dinâmicas sociais. No campo brasileiro, convivem

latifundiários e famílias camponesas. Estabelece-se, ali,

uma relação mediada pelos diversos grupos de camponeses,

entre eles e deles com a terra, dando sentido à organização

social de cada família e das formas de produção

e/ou geração de renda.

Atualmente, estamos realizando uma pesquisa sobre a

comunidade dos “agricultores do Pontão”, na Zona da Mata

de Minas Gerais. Nela, entrevistamos e convivemos, durante

algum tempo, com oito famílias camponesas: seis famílias

de proprietários de terra e duas de não proprietários. A

complexidade da estruturação territorial resultante da intensa

relação entre estas famílias apontou para situações,

liado o feno de restolho da cultura do milho (FRCM) obtido

sob diferentes níveis de adubação nitrogenada (40, 120 e 200

kg de N/ha), não tratado e amonizado com 3% de uréia na matéria

seca. O feno de restolho da cultura do milho não tratado

apresentou, em média, 5,2±0,75% de proteína bruta,

62,9±1,27% de fibra em detergente neutro (FDN) e

35,4±0,79% de fibra em detergente ácido (FDA) e, em % do

nitrogênio total, 18,5±1,81% de nitrogênio insolúvel em detergente

ácido (NIDA). A amonização com 3% de uréia resultou

em 86% de aumento no teor de proteína bruta em relação ao

feno não tratado, justificável pela adição de NNP na forma de

hidróxido de amônia (NH4OH), podendo este composto ser utilizado

como substrato para crescimento da população microbiana

do rúmen. Verificou-se ainda solubilização dos

constituintes da parede celular, uma vez que os teores de FDN

e FDA reduziram 9,5 e 7,7%, respectivamente.

A degradação ruminal in situ da matéria seca, proteína

bruta e FDN foi 48,7±17,2; 56,5±13,3; 33,6±23,4%, respectivamente.

A degradação da proteína bruta aumentou 33,3%

com a amonização, indicando maior disponibilidade da proteína

bruta, tanto por adição de NNP, quanto pela redução

de 93,5% no teor de nitrogênio associado ao complexo lignocelulose

(NIDA). A degradação da FDN aumentou 14,4%

com a amonização em relação ao FRCM não amonizado, o

que pode ser explicado ação da amônia sobre os constituintes

da parede celular.

Considerando a disponibilidade de restolho da cultura do

milho no estado do Piauí, principalmente na agricultura familiar,

se justifica a adoção da associação das técnicas de fenação

e amonização deste volumoso para superação dos déficits nutricionais

dos rebanhos ruminantes nos períodos de estiagem.

Esta conclusão se justifica pelos efeitos significativos da amonização

com 3% de uréia sobre os teores de proteína bruta e

dos constituintes fibrosos do FRCM e incremento da degradação

in situ da proteína e FDN.

Arnaud A. Alves – Prof. Dr. da UFPI

arnaud@ufpi.edu.br

Miguel Arcanjo M. Filho - Doutorando em Ciência

Animal na UFPI

miguelarcanjo@agronomo.eng.br

tais como: diaristas camponeses, sem-terra, trabalhando

assalariadamente para camponeses proprietários e vivendo

em terras cedidas por latifundiário; meeiros camponeses,

sem-terra, cultivando terra de camponeses proprietários e

vivendo na terra destes proprietários; diaristas camponeses,

com-terra, trabalhando assalariadamente para camponeses

proprietários, com relação de parentesco entre eles

e vivendo em sua própria terra etc.

Sugerimos, portanto, que as relações sociais nos mundos

territoriais rurais estão postas em questão, já que somente

as tradicionais relações territoriais entre latifundiários, pequenos

proprietários camponeses

e não proprietários agrários não

são suficientes para identificar e

permitir avaliações acerca das

atuais conformações socioespaciais

rurais, em torno das comunidades

camponesas.

Canrobert Costa Neto

Prof. Dr. da Universidade

Federal Rural do Rio de Janeiro

canrobertp@uol.com.br


TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

ANÁLISE DAS CARACTERÍSTICAS REOLÓGICAS DO MESOCARPO DO BABAÇU

INTRODUÇÃO

O Brasil possui a maior biodiversidade do mundo, estimada

em cerca de 20% do número total de espécies do

planeta. Na floresta de mata seca da Amazônia oriental,

principalmente no Maranhão, destacam-se os babaçuais

ou cocais de Orbignya spp, que é uma das palmeiras brasileiras

mais importantes. Estima-se que potencial produtivo

dos babaçuais esteja em 15 milhões t/ano, sendo

realmente aproveitados somente 30% do estimado, com

grande importância econômica regional. O mesocarpo da

fruta é rico em carboidratos e sais minerais e possui atividades

anti-inflamatórias. Um bom potencial é demonstrado

na área alimentícia, com a utilização do mesocarpo

do babaçu como farinha de baixo teor calórico, podendo

se tornar uma alternativa para dietas de emagrecimento e

uma alimentação saudável. O fruto do babaçu tem

potencial em indústria de cosméticos, obtenção de

óleo comestível, margarinas, saboarias, velas, carvão,

etanol, furfural, ácido acético, metanol, alcatrão,

celulose, papel e álcool anidro; em escala

industrial, principalmente o carvão e o óleo têm

sido produzidos, porém seu potencial para o setor

alimentício, com o pó do mesocarpo do fruto, vem

crescendo rapidamente.

Durante a produção industrial de pós, a avaliação

da distribuição de tamanho das partículas é bastante

importante, já que afeta vários processos e parâmetros,

como compressão, mistura, fluxo das partículas,

etc. As propriedades de fluxo do material também influenciam

operações industriais envolvidas no processamento

do produto.

Com base no exposto acima, ressaltando seu uso

popular, sua importância regional e seu crescente

uso na indústria alimentícia, o presente trabalho visa

avaliar as características reológicas granulométricas

do pó do mesocarpo de babaçu, fornecendo dados

importantes para seu processamento industrial.

METODOLOGIA

Foram analisadas três amostras coletadas em diferentes

regiões do Nordeste com o fruto no estado

maduro. A amostra 1 foi coletada em Caxias , no Estado

do Maranhão, a Amostra 2, em Parnarama, também

no Estado do Maranhão e a terceira amostra, em

União, no Estado do Piauí. Analisou-se também o granulado

preparado a partir do pó do mesocarpo do babaçu.

A determinação da granulometria dos pós foi

realizada segundo a metodologia proposta pela Farmacopeia

Brasileira (4ª ed.). A determinação do índice de

compressibilidade e proporção de Hausner seguiu os critérios

descritos pela farmacopeia americana (United States

Pharmacopeia, 2006). A determinação do ângulo de

repouso estático foi realizada conforme método proposto

por Prista et al. (1991) e Staniforth (2005), baseado na

altura fixa do funil. Para obtenção das velocidades de escoamento

do pó avaliado, utilizou-se o mesmo aparato

utilizado para a determinação do ângulo de repouso e,

com o auxílio de um cronômetro, determinou-se o tempo

necessário para o total escoamento do material através do

funil (Farmacopéia Portuguesa, 2002).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A análise granulométrica das amostras aponta para

uma distribuição com boa uniformidade das partículas nas

amostras 1 e 4 (granulado). A presença de partículas grandes

e pequenas, segundo Prista, pode melhorar as características

de escoamento. (Ver Tabela 01 e Gráfico 01).

Uma propriedade intrínseca dos pós é a resistência

ao movimento relativo das suas partículas quando submetidos

a forças externas. O ângulo de repouso de um

pó é uma das manifestações desta propriedade e o seu

conhecimento tem contribuído para avaliar a dificuldade

apresentada pelos pós para fluírem livremente através

de um orifício para uma superfície livre. Considera-se

GRANULOMETRIA (%) ÂNGULO DE REPOUSO (°)

N°.20 N°.40 N°.60 N°.80 N°.120 Resíduo

Amostra 1 0,49 28,03 22,15 16,32 11,41 21,6 27,166° ∞

Amostra 2 0,00 1,80 10,49 11,60 8,62 67,49 29,245° ∞

Amostra 3 0,09 1,06 15,14 20,08 18,26 45,37 26,587 ∞

Amostra 4 9,48 64,38 22,89 2,71 0,36 0,18 32,76° ∞

com boas propriedades de escoamento um pó com um

ângulo estático de repouso inferior ou igual a 30°. Ângulos

de repouso superiores a 40° sugerem difícil fluxo

dos pós ou granulados. Como pode ser verificado na tabela

01 apenas a amostra 4 apresenta um ângulo de repouso

um pouco acima de 30°, ainda estando dentro dos

limites, o que sugere um bom escoamento. Entretanto,

o tempo de escoamento não pôde ser mensurado, pois

tendia ao infinito.

O método de granulação de pós que possuem escoamento

ruim tem sido bastante utilizado pela indústria visando

obter componentes com melhores características

reológicas. A avaliação das características reológicas das

quatro amostras utilizadas neste estudo demonstrou um

melhoramento do escoamento de pó de mesocarpo do babaçu

com a granulação.

Lívio César C. Nunes – Prof. Dr. da UFPI

liviocesar@hotmail.com

Waleska Ferreira de Albuquerque – Profa. Msc. da UFPI

–waleska@ufpi.edu.br

André Igor O. Prado – Acadêmico de Farmácia da UFPI

carbonyc@gmail.com

Marxwell Arruda da Rocha Lima – Acadêmico de

Farmácia da UFPI

marxwell18@hotmail.com

Kamila Maria de H. Sousa – Acadêmica de

Farmácia da UFPI

kmila.holanda@gmail.com

TEMPO DE ESCOAMENTO (S)

FONTE: Laboratório de Tecnologia Farmacêutica, PIBIC e PIBITI, 2010.1.

CONCLUSÃO

Com base nos estudos e testes realizados verificouse

que o mesocarpo de babaçu apresenta uma grande

aceitabilidade de sua utilização como produto alimentício,

não apresentando grandes dificuldades no seu

processamento, por apresentar características reológicas

adequadas, principalmente quando se encontra na

forma de granulado.

7


8 TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

DESENVOLVIMENTO E MEIO AMBIENTE

PESQUISANDO O SETOR MOVELEIRO DE TERESINA

A indústria de móveis, bem como a maioria dos outros segmentos

industriais, produz, durante o processo produtivo, resíduos.

Depois que saem da unidade industrial, os móveis

também podem se transformar em resíduo (pós-venda/pósconsumo).

Isso acontece quando o sujeito que o adquiriu, na

impossibilidade de vendê-lo ou doá-lo, faz o seu descarte. O

princípio do poluidor-pagador estabelece que o fabricante é o

responsável pelo descarte desse material. No entanto, para que

isso aconteça, o móvel tem que fazer o caminho de volta, o que

requer uma logística que aconteça no sentido inverso, a logística

reversa.

A logística reversa é a responsável pelo retorno dos produtos

aos fabricantes, para que eles possam reaproveitar os seus

componentes ou lhes dar um destino ambientalmente adequado.

Dessa maneira, o objetivo da pesquisa nas indústrias de móveis

de Teresina/Piauí foi analisar a viabilidade da implantação da

logística reversa nesse setor, motivada por seu suporte econômico

e ambiental, o que possibilitando o desenvolvimento de

estratégias de gestão através das quais os resíduos passam a

agregar valor de diversas naturezas, por meio da sua reintegração

ao ciclo produtivo e/ou de negócios.

Como a logística reversa ainda não se constitui uma obrigação

legal, o estudo da sua viabilidade passa pela observação

de outros fatores ligados à atividade industrial. Há três pontos

que, nesta pesquisa, consideramos fundamentais para as empresas

que potencialmente poderiam aplicar a logística reversa:

empresas que se preocupam com a gestão da qualidade, com a

segurança e que apresentam indícios de cumprimento de sua

responsabilidade socioambiental.

Identificamos 52 indústrias no setor moveleiro de Teresina,

a partir do Guia da Federação das Indústrias do Estado do Piauí

(FIEPI) e do Telelistas.net. Foram visitadas dezesseis, entrevistamos

os seus administradores e observamos os tipos de móveis

produzidos, as matérias-primas utilizadas e a sua origem,

as etapas do processo produtivo, os tipos e volumes de embalagens

utilizadas para o acondicionamento dos móveis, os tipos

de resíduos gerados e o gerenciamento adotado por essas indústrias

para os mesmos, além dos aspectos gerais de segurança,

qualidade e meio ambiente.

Dividimos as indústrias visitadas em dois segmentos: as

que produzem móveis para residência (sofás, guarda-roupas,

colchões, tábuas de passar roupa, cozinhas e dormitórios feitos

sob medida) e as que produzem móveis para escritórios, escolas

e hospitais (armários, estantes, mesas, cadeiras, carteiras escolares,

gôndolas, estruturas porta-pallets, entre outros). Verificamos

que, geralmente, as indústrias do segmento de móveis

para residência fabricam móveis de alta qualidade e com maior

número de detalhes de acabamento; pois, em sua maioria, são

feitos a partir de projetos para um consumidor final específico;

enquanto o outro segmento, de móveis para escritórios, escolas

e hospitais, as indústrias produzem móveis padronizados, em

maior escala.

As principais matérias-primas utilizadas nos dois segmentos

são a madeira, o compensado de madeira, o MDF (Medium

Density Fiberboard – Fibra de Média Densidade), chapas de

ferro e de aço. Utilizam-se, também, tubos de aço-carbono,

tubos de aço-inox, laminados de PVC, fibras de plástico, tecidos,

couros, espuma (para os acentos das cadeiras), cola fórmica,

cola branca, selador, prego, solventes e tintas. A

matéria-prima é proveniente de diversos estados: Piauí, Ceará,

Pará, Paraná, São Paulo, Santa Catarina, Pernambuco, Minas

Gerais e Rio Grande do Sul.

Comumente, a cadeia produtiva do setor de móveis de Teresina

é formada somente pelos fornecedores de matérias-primas,

fabricantes dos móveis e pelos consumidores finais pois,

em sua maioria, os próprios fabricantes comercializam o seu

produto. Dessa maneira, essas indústrias atuam, também, como

distribuidoras dos seus produtos, fazendo com que assumam

um duplo papel na cadeia produtiva.

Das indústrias visitadas, somente duas apresentaram setor

de reforma, onde é feita a reparação dos móveis que apresenta-

DIVULGAÇÃO

ram algum problema no pós-venda e dos que precisam de manutenção.

As demais consideram que os custos são elevados e

não compensa. Dessa forma, eles optam por somente fabricar.

Para um dos administradores entrevistados, é possível que a indústria

receba o material para reforma, desde que o cliente se

comprometa a comprar o móvel novamente (fidelização do

cliente), o que já acontece nessa indústria. Os custos da reforma

são, em média, 35% do valor do produto novo.

Na opinião de três administradores entrevistados, existe a

possibilidade de reinserir o material pós-consumo na cadeia

produtiva e de negócios, através de reformas, aplicação de

novos revestimentos, trocas de estofamentos e pintura. Para os

demais entrevistados, a reinserção do material pós-consumo na

cadeia produtiva e de negócios não é possível, por conta da inexistência

de espaço físico nas suas indústrias para o recebimento

e o reprocessamento desses materiais, além da falta de

mercado para esses produtos.

Em geral, a estrutura das indústrias visitadas é precária,

não possuindo compartimentação dos locais onde são realizadas

as distintas etapas do processo produtivo, além de possuírem

piso rústico e pouca ventilação.

Há um consenso por parte dos administradores da necessidade

de qualificação da mão-de-obra para o setor de móveis.

Inexistem, em Teresina, cursos profissionalizantes direcionados

para esse segmento industrial. Dessa maneira, os administradores

têm dificuldade em repor mão-de-obra. Em sua maioria,

os funcionários aprendem o ofício durante a atividade na própria

indústria.

Durante as visitas, observou-se que poucos funcionários

utilizavam os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs),

pois a segurança do trabalho não pareceu ser fator de relevância

para essas indústrias, tendo em vista que elas não chegam

a possuir um setor responsável pela segurança dos trablhadores,

como a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes

(CIPA), com exceção de uma, apenas. Contudo, mesmo nessa

indústria, nem todos os funcionários utilizavam os EPIs no

momento da visita.

A gestão da qualidade ainda não é valorizada pelo setor

moveleiro de Teresina, somente uma indústria possui certificação

ISO 9000 (a mesma que tem CIPA). Embora, durante as entrevistas,

tenha sido observado que os administradores têm a

preocupação de inserir um produto de qualidade no mercado,

estes desconhecem os procedimentos necessários para a certificação

e desconsideram que ela seja importante para a fidelização

do cliente, pois acreditam que a melhor propaganda é a

satisfação dos seus clientes.

Com relação à responsabilização socioambiental, as indús-

trias visitadas não apresentam nenhum indicativo direto de reconhecimento

desse fator. Se o fazem, é para fins de licenciamento

ambiental ou para a economia de matéria-prima,

como no caso do seu corte, que é realizado somente após definição

de projeto, de modo a minimizar perdas, motivo pelo

qual o setor de móveis gera poucos resíduos durante o seu

processo produtivo.

O estabelecimento da logística reversa no setor moveleiro

demanda uma série de atividades, que envolve a coleta,

inspeção, separação (desmontagem), reprocessamento

(transformar o móvel usado em um móvel reutilizável) e

a sua redistribuição. O móvel recuperado pode voltar

para o comprador inicial ou pode ser inserido em um

mercado secundário.

Existe um fator considerado favorável para o estabelecimento

da logística reversa nas indústrias de móveis de Teresina:

os próprios fabricantes atuam como distribuidores dos

seus produtos, o que faz com que tenham um contato direto

com o consumidor final, facilitando no momento do resíduo

pós-consumo fazer o caminho de volta.

Assim, constatou-se que, mesmo havendo possibilidades

reais de aplicação da logística reversa no setor moveleiro de

Teresina, a sua efetivação é inviável, pois as indústrias não

apresentam modelos voltados para a gestão da qualidade, segurança

e responsabilidade socioambiental, fatores importantes

que antecedem a sua aplicação. Enquanto não houver

pressão da sociedade e regulamentação que obrigue a implementação

da logística reversa, as empresas analisadas não

terão condição de efetivá-la.

Elaine Aparecida da Silva – Mestranda em

Desenvolvimento e Meio Ambiente na UFPI

elaine@ufpi.edu.br

José Machado Moita Neto – Prof. Dr. na UFPI

jmoita@ufpi.edu.br


As questões ambientais e, em particular, as relacionadas

à conservação da natureza, estão entre as mais críticas

para a humanidade, pois afetam as condições de

sobrevivência da vida sobre a terra e as relações entre

grupos sociais e sociedades. No entanto, a conservação

é frequentemente definida somente em seus aspectos técnicos

e científicos, sem inseri-la em contextos mais amplos

relativos aos estudos das relações homem e

natureza, posto que os seres humanos dependem da biodiversidade

e da capacidade dos ecossistemas de fornecer

produtos e serviços que sustentem modos de vida saudáveis,

conservando ambientes naturais.

A literatura que aborda a interação dos recursos naturais

e populações humanas tem caracterizado diversas

linhas de pesquisa, como a Etnobiologia, definida como

o estudo do conhecimento e das conceituações desenvolvidas

por qualquer sociedade a respeito do mundo vegetal

e animal. Como tema interdisciplinar, possui vários

campos, como a Etnobotânica, que trata do estudo das interrrelações

das sociedades humanas com os vegetais, e

a Etnozoologia, que visa à compreensão dos modos de

interação entre o homem e a fauna, dentre outras áreas.

Os pescadores artesanais estão em constante contato

com a natureza através da atividade pesqueira e possuem

um conhecimento único e detalhado sobre a dinâmica do

ecossistema fluvio-estuarino-lagunar. A reprodução e

criação de estratégias de pesca com base na experimentação

se baseiam na utilização dos recursos naturais do

ambiente onde vivem, permitindo o desenvolvimento

econômico, social e cultural.

Vários trabalhos de enfoque etnobiológico com pescadores

artesanais vêm sendo desenvolvidos no Brasil,

concentrando-se principalmente nas regiões Sudeste,

Norte e Nordeste, versando sobre análise de categorias

de uso (medicinal, alimentícia, artesanal, tecnológica,

etc.), da diversidade de espécies úteis, da associação do

conhecimento às tradições locais, da classificação das

(etno) espécies, do registro de aspectos socioeconômicos

e culturais, da potencialidade das artes de pesca e sobre

os pescados capturados. No Piauí, recentemente foram

desenvolvidos dois trabalhos de cunho etnobiológico,

com pescadores artesanais sob a orientação da Profa.

Dra. Roseli Barros, através do Programa de Pós-Graduação

em Desenvolvimento e Meio Ambiente da Universidade

Federal do Piauí.

Um deles foi realizado por Alexandre Nojoza Amorim,

na comunidade de pescadores artesanais do bairro

Poti Velho, o qual, através de estudo etnobotânico, caracterizou

os quintais como espaços de convivência e de

cultivo, na maioria, de plantas medicinais, principalmente

exóticas, inferindo que a concentração do

conhecimento tradicional na

população adulta

e do gênero feminino

ocorre devido

à influência

urbana e a maior

tendência das mulheres

em cuidar da

residência enquanto

os homens pescam.

Ao descrever os

modos e artes de

pesca e usos das espécies

vegetais na

construção de embarcações,

constatou a

transmissão familiar

do conhecimento sobre

a carpintaria naval, e

investigou acerca da Etnozoologia,

registrando

principalmente o caráter

da pesca de subsistência

TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

A FLORA E FAUNA ÚTEIS DE PESCADORES ARTESANAIS

e a zooterapia com peixes.

O outro

foi desenvolvido

por Rosemary

da

Silva Sousa

em comunidades

pesqueiras

da APA do

Delta do Parnaíba,

o qual

investigou a

distribuição de

conhecimento

sobre a flora e

fauna úteis, identificando

que há

um compartilhamento

de conhecimento

da flora útil

por gênero e que

os idosos são os

detentores do saber

na comunidade.

Quanto à etnozoologia,

inferiu que os

homens possuem

maior conhecimento,

por estarem em maior

contato com a natureza

do que as mulheres,

que se dedicam

aos afazeres domésticos,

e os jovens, por atuarem no turismo e artesanato,

usando recursos da fauna na

confecção de produtos.

O conhecimento etnobotânico e etnozoológico

deve ser considerado na conservação

e preservação da biodiversidade e da

cultura local, valorizando e evidenciando o

direito e a necessidade da participação das populações,

nos planos de manejo, apontando caminhos

para estudos que abordem a

especificidade do conhecimento local que contribuam

na ciência convencional e nas relações

entre as populações de pescadores artesanais e

o ambiente, incentivando atividades sustentáveis

e tornando esses dados úteis na gestão e conservação

de áreas.

FOTOS: DIVULGAÇÃO

Rosemary da Silva Sousa – Mestre em

Desenvolvimento e Meio Ambiente

biologarosemary@gmail.com

Alexandre Nojoza Amorim – Mestre em

Desenvolvimento e Meio Ambiente

alexandrenojoza@hotmail.com

Roseli Farias M. de Barros – Profa. Dra. da UFPI

rbarros.ufpi@yahoo.com.br

9


10 TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

O CULTIVO DE TILÁPIAS TRATADAS EM LAGOAS DE ESTABILIZAÇÃO

O conjunto das atividades humanas está cada vez mais diversificado

e associado ao crescimento demográfico, exigindo

atenção maior às necessidades de uso da água para diversas finalidades.

Essas necessidades cobram seus tributos, tanto em

termos quantitativos quanto qualitativos, e se evidenciam principalmente

em regiões com características de maiores desenvolvimentos

urbanos, industriais e agrícolas (MANCUSO;

SANTOS. et al 2003).

Segundo Costa et al (2007), o crescimento populacional,

associado aos processos de degradação da qualidade da água,

vem acarretando sérios problemas de escassez, quantitativa e

qualitativa, bem como conflitos de uso até mesmo em regiões

com excelentes recursos hídricos, que tendem a exigir, cada vez

mais, enormes esforços para reduzir o déficit crônico de abastecimento

de água e o esgotamento sanitário adequado.

No entanto, há que se destacar a existência de regiões onde

a escassez e a má distribuição de água tornam-se fatores limitantes

ao seu próprio processo de desenvolvimento. Tais limitações

são características das regiões áridas e semiáridas,

notadamente no polígono das secas do Nordeste brasileiro.

Portanto, em qualquer circunstância, a grande questão que

se verifica é como equacionar a relação demanda versus oferta

de água, posto que, quase sempre, tem-se uma situação de flagrante

desequilíbrio. Segundo projeções das Organizações das

Nações Unidas (ONU), em 2025, dois terços da população mundial

(5,5 bilhões de pessoas) viverão em locais que sofram com

algum tipo de problema relacionado com a água.

A produção de esgotos, cada vez mais intensa com o aumento

da população, pode vir a ser a única forma significativa,

crescente e confiável de água para o reuso, em demandas futuras,

com destaque para o uso agrícola (Fertirrigação) nestas localidades,

tornando oportuna a reutilização da água dentro da

própria comunidade geradora do esgoto.

O reuso subtende uma tecnologia desenvolvida em maior

ou menor grau de eficiência, dependendo dos fins a que se destina

a água e de como ela tenha sido usada anteriormente, além

de representar uma possibilidade efetiva de economia e racionalização

deste recurso natural. O reaproveitamento de águas

residuárias em piscicultura é uma forma de produção de proteínas

animal de baixo custo, que pode ser explorada pela iniciativa

privada ou pelo setor público. Este cultivo pode atingir

bons níveis de produtividade em função dos efluentes das ETEs

(Estações de Tratamento de Esgotos) serem ricas fontes de nutrientes,

promovendo, assim, o desenvolvimento, em abundância,

do alimento natural para peixes em viveiros.

É possível considerar que as lagoas de estabilização e, particularmente,

as lagoas de polimento e de maturação, são ambientes

bastante semelhantes aos tanques de piscicultura, em

termos de morfometria e da dinâmica da qualidade da água, cujo

efluente produzido por este tipo de tratamento biológico de esgoto

apresenta enorme potencial de reuso, para o cultivo de peixes.

Neste processo, tem-se como desejável uma reciclagem de

nutrientes, na medida em que a produção da biomassa de algas

nestes reatores vai sustentar a alimentação básica do estoque de

peixes cultivados, neste ambiente.

Para aproveitar de forma eficiente todas estas biomassas

de qualidade, devem ser utilizadas espécies de peixes que possuam

a capacidade de assimilar esta fonte protéica com eficiência.

Dentre as espécies mais utilizadas nas pesquisas e nos

cultivos com reúso de esgoto ao redor do mundo, estão as carpas

e as tilápias.

No estado do Piauí, considerando as potencialidades naturais,

especialmente quanto aos seus recursos hídricos, as atividades

em aquicultura, com ênfase na piscicultura, podem ser

enquadradas dentre as atividades com excelentes perspectivas

de crescimento, muito embora o cenário atual seja bastante incipiente,

se comparado com outros estados da região nordestina

ou com as estatísticas de outras regiões brasileiras. Mas, no

contexto das políticas do setor, é possível adotar mecanismos

capazes de modificar o status quo vigente.

Em Teresina, mais especificamente na área anexa à Estação

de Tratamento de Esgotos (ETE) da zona leste, foi implantada

e encontra-se em pleno funcionamento a Unidade Experimental

de Réuso do esgoto doméstico tratado, que recebe o efluente

final produzido pelo sistema de lagoas de estabilização.

Determinado volume deste efluente é aplicado no cultivo

FOTOS: DIVULGAÇÃO

de tilápias do Nilo (Oreochromis niloticus),

em face da rica densidade de nutrientes

(compostos de Nitrogênio e Fósforo) com

elevado valor nutricional na dieta dos peixes,

e são encontrados na composição do efluente

de esgoto lançado no corpo receptor (rio

Poti) desta unidade de tratamento. A unidade

experimental é composta de uma bateria com

18 tanques de fibra de vidro, com volume útil

de 3,80m³, distribuídos em três tratamentos,

da seguinte forma: Tratamento T-01 (água da

rede de abastecimento + ração industrial);

Tratamento T-02 (esgoto tratado sem adição

de ração) e Tratamento T-03 (esgoto tratado,

com oxigênio mecanicamente injetado e sem

adição de ração).

Todos os tanques foram igualmente povoados,

com 10 alevinos de tilápia cada (densidade

de 2,63 peixes /m³), revertidos

sexualmente para macho num total de 180 animais e, após o

ciclo do cultivo de 124 dias, com reciclagem diária de 15% do

volume dos tanques abastecidos com esgoto a titulo de reposição

de nutrientes, foram obtidos os seguintes resultados: nível

médio de sobrevivência do plantel (>80%); produtividade em

kg/ha.dia( T-01=58,22 ;T-02= 5,12;T-03=8,89); comprimento

médio em cm/peixe (T-01= 26,0;T-02= 13,36;T-03= 15,50);

peso médio em g/peixe (T-01=372,51 ;T-02=40,05 ;T-

03=60,45).

Com estes resultados, constatou-se que o cultivo com esgoto

doméstico tratado era promissor, muito embora não se

tenha alcançado os parâmetros zootécnicos ditos comerciais, tal

como o peso médio de 380 a 400 g/peixe, obtidos em piscicultura

convencional, com oferta de ração balanceada por um período

de cultivo da ordem de 180 dias.

Neste experimento, considerando-se que nos custos de uma

piscicultura tradicional a ração pode representar até 70% das

despesas de produção do pescado, os nutrientes remanescentes

no tratamento biológico do esgoto doméstico apresentam grande

vantagem na alimentação de peixes do tipo filtradores, por ser

um subproduto do tratamento de esgotos, normalmente lançado

nos corpos receptores do efluente tratado, não apresenta, portanto,

custos adicionais.

Por outro lado, os resultados das análises físico-químicas

e microbiológicas realizadas, na água dos viveiros e nos tecidos

dos peixes apresentaram os padrões sanitários em conformidade

Tilápias cultivadas em esgotos domésticos tratadas em Lagoas de Estabilização.

Estação de Tratamento de Esgotos da zona leste de Teresina (ETE-Leste).

com os valores normativos vigentes, que permitiriam até mesmo

o consumo deste pescado, desde que, devidamente processado

por cozimento. Este produto também pode ser utilizado na composição

de ração balanceada fornecida em projetos para desenvolvimento

e engorda de alevinos.

Esta pesquisa foi viabilizada pela parceria entre a companhia

Águas e Esgotos do Piauí S.A (AGESPISA) e a Universidade

Federal do Piauí (UFPI), cujo objetivo primordial foi o de

contribuir para a consolidação e o desenvolvimento das unidades

de tratamento de esgotos sanitários, com vistas ao estimulo

para o reuso do efluente tratado por este sistema de tratamento

biológico, do tipo lagoas de estabilização, tanto na produção

de proteína animal de baixo custo, ou em intervenções favoráveis

aos preceitos fundamentais

da correta gestão ambiental como a

redução do lançamento de efluentes

de esgotos em mananciais de

superfície, conjugando e integrando

fatores bióticos e abióticos

em nome da sustentabilidade, inclusive,

nos aspectos da dimensão

socioeconômica.

Cleto Augusto B. Monteiro

Prof. Msc. da UFPI

cbaratta@ufpi.br


TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

MUDANÇAS CLIMÁTICAS NO SEMIÁRIDO: SOBREVIVEREMOS!

Na região semiárida do Nordeste, as chuvas são escassas,

irregulares e mal distribuídas. A anormalidade na precipitação

da chuva decorre da presença de uma massa de ar quente

e seca que permanece por longo período de tempo impedindo

a formação das chuvas.

Ali a seca predomina, ao longo do ano, sendo favorecida

pela elevada disponibilidade de energia solar e altas temperaturas.

As peculiaridades climáticas dessa região expõem a

população a longos períodos de seca, o que torna a oferta de

água e alimento cada vez mais escassa.

Embora as condições adversas do clima perdurem por

longo período de tempo, o nordestino consegue manter uma

íntima relação de convivência com esse ambiente hostil. Isto

se deve à grande capacidade de adaptação e à força de vontade

desse povo em superar condições desfavoráveis.

Além das adversidades climáticas e da degradação ambiental

que vem ocorrendo nos ecossistemas dessa região,

quando se compara os indicadores sociais e de saúde do semiárido

com os de outras regiões do país, verifica-se que ali

a expectativa de vida da população ainda é muito baixa, o

que contribui para elevar as taxas de mortalidade infantil.

Este panorama combinado com as adversidades do clima é

sugestivo de uma elevada vulnerabilidade socioambiental,

que tende a se agravar com problemas relacionados ao desmatamento

e queimadas.

Ora, se o semiárido é, por natureza, uma região com

elevado déficit hídrico e o nordestino um sobrevivente da

seca, como esta região poderá superar o aquecimento global?

Esta questão merece uma reflexão, sobretudo no tocante

aos possíveis cenários de mudanças de clima

projetados para o Nordeste.

Estudos revelam que o aumento da temperatura nesta região

foi de 1,5 a 2ºC na temperatura máxima, em 41 anos.

Com as mudanças de clima, esta região poderá ser fortemente

afetada com o crescente aumento da temperatura, implicando

redução drástica na frequência das chuvas. Nesse

sentido, uma elevação na temperatura média do planeta até

o final do século poderá reduzir a disponibilidade de alimentos,

levando milhares de pessoas a passar fome.

Ademais, pesquisas recentes sugerem que os efeitos das

mudanças climáticas ameaçam intensificar as dificuldades

de acesso à água em várias regiões do mundo, incluindo o

Brasil. Além do que, a ocorrência de eventos climáticos decorrente

do aquecimento global, num futuro próximo, poderá

reduzir drasticamente a oferta de recursos naturais, sobretudo

no semiárido, com comprometimento da base de sua sustentação

econômica.

Neste contexto, a elevação da aridez no semiárido, num

clima mais quente e seco no futuro, quando combinado com

“Nessa terra, em se plantando, tudo dá.” É provável que

nem mesmo Pero Vaz de Caminha, em seu momento de contemplação,

imaginou que “tudo” incluiria tão vasta gama de

produtos oriundos da terra, até mesmo combustível. O Brasil

se destaca no cenário internacional não só como um dos maiores

produtores e exportadores de alimentos, mas também de

etanol e biodiesel, incluindo a vanguarda na geração das tecnologias

mais avançadas do setor, no mundo.

Os biocombustíveis compõem a agenda de prioridades

dos principais atores no cenário internacional. A preocupação

com a questão energética está na ordem do dia, e a busca por

alternativas aos combustíveis fósseis vem assumindo um

papel de destaque no processo decisório dos países e em suas

políticas públicas nesta área. O assunto vem ganhando relevância

estratégica, impulsionado pelo aumento nos preços do

petróleo, pela perspectiva de que esses se mantenham elevados

principalmente em razão da demanda de grandes países,

como EUA, China e Índia. Além disso, a utilização de biocombustíveis

possibilita significativa redução nas emissões

de gases de efeito estufa (CO2, principalmente), sendo um incentivo

aos países que possuem compromissos de redução de

emissões assumidos no Protocolo de Quioto das Nações Unidas

sobre Mudanças Climáticas. No Brasil, conforme dados

publicados pelo Ministério das Relações Exteriores, o uso do

etanol combustível significou, no período de 1970 a 2005, a

a maior frequência de secas poderá reduzir drasticamente a

base de sustentação de muitas atividades humanas com comprometimento

da qualidade de vida do nordestino, que já

convive recorrentemente com a seca.

Ocorre que no semiárido, a seca além de ser um problema

social crônico e continuado, com as mudanças no

clima, é possível que ocorra uma redução no volume das

chuvas e a consequente elevação da temperatura. Com isso,

aumenta a evaporação dos corpos d’água, causando sérias

dificuldades para o desenvolvimento das culturas de subsistência,

uma vez que as terras produtivas ficarão mais expostas

a riscos de desertificação.

Tomando por base as condições climáticas ora vigentes

no semiárido e os possíveis cenários de mudanças climáticas

previstas para até 2100, pode-se supor que esta região seja

duramente atingida por eventos climáticos relacionados ao

déficit hídrico. Como a população mais pobre é sempre a

mais afetada, é possível que estes eventos provoquem o crescente

deslocamento dessa população para outras regiões com

melhores condições de vida, gerando espaços completamente

inabitáveis e sérios problemas urbanos.

Dada a fragilidade socioambiental dessa região, urge necessidade

da adoção de uma política ambiental de longo

prazo que potencialize o desenvolvimento local sustentável

priorizando o uso mais eficiente da água disponível, bem

como o desenvolvimento de atividades econômicas adaptadas

ao clima e ao solo dessa região. Também é importante

investir em programa de educação ambiental que possibilite

a população a entender o problema de mudanças de clima e

os seus impactos no cotidiano dessa população.

Com os avanços tecnológicos, tornou-se possível construir

estratégias eficientes de convivência sustentável para o

COMIDA OU COMBUSTÍVEL ?

não emissão de 644 milhões de toneladas de CO2.

Nesse contexto, é imprescindível reduzir a dependência em

relação ao petróleo, que atualmente responde por aproximadamente

98% da demanda mundial de combustíveis e cujo nível

de preços pode impor limites indesejáveis ao crescimento da

economia mundial. A perspectiva de esgotamento das reservas

mundiais de petróleo torna premente, sobretudo para os países

em desenvolvimento, o incentivo à produção de fontes alternativas

de energia, sob risco de comprometer seriamente o processo

de desenvolvimento dessas nações.

Por outro lado, vem à tona uma importante questão: até

que ponto a produção de biocombustíveis pode avançar, sem

comprometer o abastecimento da população em alimentos? O

debate foi lançado há alguns anos na pauta internacional e o

assunto é bastante polêmico, dividindo opiniões de especialistas

e autoridades, criando espaço para especulações e jogo

de interesses. A verdade é que o Brasil necessita mais do que

nunca de regulação, quanto ao uso e ocupação de terras agrícolas,

pois o crescimento desordenado das áreas exploradas

com matéria-prima da bioenergia provocará um aumento cada

vez mais acentuado na concentração de renda e nas desigualdades

sociais do país. Em todo o mundo, as autoridades

devem urgentemente atentar para essa questão, não deixando

que o mercado por si só encontre o ponto de equilíbrio entre

as terras destinadas à produção de alimentos e à produção de

11

semiárido. Contudo, nesta região os efeitos da seca são amenizados

com a construção de pequenos açudes e cisternas,

prevalecendo também o modelo assistencialista de distribuição

de cestas básicas e de água em carros-pipas. São práticas

de caráter paliativo que, além de não resolver o problema,

gera um grande desrespeito à capacidade criativa desse povo.

É inquestionável que a seca oprime e gera inúmeras dificuldades

sociais para o povo do semiárido. Mesmo assim,

este mote ainda é utilizado por políticos oportunistas para a

obtenção de votos. Entretanto, apesar das limitações naturais,

esta região possui potencialidades que, quando dinamizadas

com o adequado tratamento político e tecnologias ecologicamente

corretas, podem resultar na sensível melhoria da

qualidade de vida desse povo.

Em vista disso, é de suma importância que os efeitos

das mudanças climáticas nesta região sejam tratados com

políticas de desenvolvimento sustentável, pautadas nos

princípios da equidade social, da prudência ecológica e da

eficiência econômica de modo

que fortaleça a convivência sustentável

com o semiárido. Somente

assim, a prática do

assistencialismo, ainda vigente

no Nordeste, poderá ser completamente

desestimulada.

Eliana Morais de Abreu Mestre

em Desenvolvimento

e Meio Ambiente

Dir. Tec. Cientifico da FAPEPI

eliana@fapepi.pi.gov.br

energia. Isto fatalmente provocaria oscilações imprevisíveis

na oferta de comida e de combustível mundo afora, com impactos

severos na economia mundial.

O Brasil não pode atuar como coadjuvante nesta discussão,

sob pena de tornar-se mero fornecedor de energia

barata para os países ricos. É fundamental estimular estudos

científicos e inovações tecnológicas que garantam a sustentabilidade

no longo prazo da produção de biocombustíveis,

assim como a não interferência de sua produção no cultivo

de alimentos.

Nosso país possui a maior extensão de terra do mundo

que ainda pode ser incorporada ao processo produtivo. Esta

posição privilegiada do Brasil

quanto à disponibilidade de terras

agricultáveis e de água em abundância

nos credencia a conduzir o debate

e estabelecer as diretrizes que norteiam

a solução desse problema. Colocar

a ética na ordem do dia é

condição sine qua non, para viabilizarmos

uma saída racional.

Luís Gonzaga M. F. Júnior

Prof. Dr. da UESPI

luisuespi@hotmail.com


12 TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

DIAGNÓSTICO GEOAMBIENTAL: ZONA COSTEIRA DO ESTADO DO PIAUÍ

A ciência necessita elaborar novos critérios conceituais,

técnicas e meios mais eficientes para estudar as relações que

ocorrem entre os fenômenos naturais e sociais. Isto só será conseguido

através de trabalhos constantes e intensivos de caráter

específico, com a difusão de métodos e técnicas adequadas de

manejo do meio ambiente, como estratégia de utilização plena

e equilibrada dos recursos naturais, para cumprir seu papel nos

processos de desenvolvimento e planejamento.

Os impactos ambientais induzidos pela pressão humana

são extremamente significativos nas áreas costeiras, trazendo

sérios problemas, sendo, muitas vezes, superiores à capacidade

de assimilação dos sistemas naturais, exercendo pressões no

ambiente ou produzindo vários impactos negativos, como a locação

de materiais impróprios, suporte da infraestrutura e modificação

do escoamento superficial e a drenagem subterrânea,

e desmatamento de áreas naturais.

DIAGNÓSTICO GEOAMBIENTAL

O diagnóstico geoambiental trata de analisar as consequências

das ações ocorridas em uma determinada área, com

o intuito de verificar sua qualidade ambiental. Considera ainda

os efeitos sobre o meio ambiente de uma nova atividade, o estabelecimento

de planos e programas ou novos projetos e possíveis

alternativas. É fundamentalmente um instrumento

específico das políticas ambientais preventivas, com decisões

baseadas em conhecimento dos efeitos ambientais de uma determinada

ação, sobretudo nos planos de urbanização e organização

do espaço, oferecendo subsídios para o desenvolvimento.

Este diagnóstico foi obtido através da observação e análise

das condições ambientais, considerando-se as interrelações

entre os componentes físicos, biológicos e humanos, coletados

através de estudos sistemáticos (de campo e gabinete), sendo

posteriormente interpretados com visão crítica, com o intuito

de serem aplicados nas propostas de desenvolvimento.

Avaliação e análise dos impactos ambientais

A avaliação e análise dos impactos ambientais passaram

a serem vistos como uma atividade sistematizada e institucionalizada,

sendo incorporada ao processo de desenvolvimento,

tornando-se parte constituinte das políticas ambientais, que

abrangem não só a análise dos aspectos físicos e biológicos,

mas contempla também os aspectos sociais e econômicos.

A partir das características naturais e antrópicas dominantes,

foram estabelecidos os graus de artificialização e a caracterização

antrópica foi obtida através da tipologia dos sistemas

A extensão rural no Brasil surge impulsionada pelo capitalismo

norte-americano tendo como objetivo inserir nossa

agricultura na chamada modernidade. As tradições dos agricultores

e suas técnicas produtivas são vistas como inadequadas

e insuficientes, a ponto de se achar que o agricultor não é

capaz nem mesmo de adaptar suas próprias tecnologias, o que

demonstra uma visão preconceituosa do camponês e do seu

meio de trabalho (CANUTO, 2005).

Nos cinco anos de exílio no Chile, Paulo Freire trabalhou

como consultor da UNESCO. Em 1969 foi publicada em espanhol

sua obra: Extención o Comunicación?, pelo Instituto

de Capacitación e Investigación en Reforma Agrária - ICIRA,

em Santiago do Chile. “Mais do que uma análise do trabalho

do agente de extensão como educador, equivocadamente chamado

extensionista, a obra faz uma síntese muito profunda do

papel que Freire assinala à educação compreendida em sua

perspectiva verdadeira, que não é outra senão a de humanizar

o homem na ação consciente que este deve fazer para transformar

o mundo”, assinala o pensador chileno Jacques Chonchol

(2006).

Segundo Freire, na ação extensiva do conhecimento: um

sujeito leva o conhecimento a outro, faz com que a prática

“extensionista” facilmente caia no uso de técnicas de propaganda,

de persuasão, utilizando-se de forma abundante dos

chamados “meios de comunicação em massa”. À pergunta que

dá título ao livro: “Extensão ou Comunicação?”, responde-se

negativamente à extensão e afirmativamente à comunicação.

Comunicação pressupõe uma sapiência – palavra antiga

que engloba “sabedoria” e “ciência”. Na Educação, (comunicação)

trata-se de transformar as informações em conheci-

DIVULGAÇÃO

de produção (uso da terra) e dos impactos ambientais advindos

desse uso. Ressalte-se que estes tópicos serão estudados, seguindo-se

a ordem estipulada quando da determinação dos indicadores

naturais, potencialidades, limitações e impactos.

1. Praias e campo de dunas: os impactos ambientais

estão vinculados ao desenvolvimento de núcleos urbanos e

a pesca predatória. As formas de uso e ocupação não observaram

as limitações impostas pela dinâmica natural, constatando-se

ocupações residenciais de diversas tipologias,

construção de áreas de lazer, instalações comerciais, estruturação

de rodovias, além da retirada de sedimentos para a

construção civil, em função do crescente incremento de

construção de segundas residências, comércio e infra-estrutura

para recreação e lazer.

2. Planícies fluviais: os impactos ambientais decorrem

das atuais formas de uso e ocupação, principalmente as relacionadas

ao extrativismo vegetal, provocando desmatamento

das margens dos cursos de água com a retirada da

vegetação nativa para uso energético, construção de embarcações,

habitações e cercas, causando modificações

que levam ao aumento da temperatura, evaporação hídrica

superficial e edáfica, aumentando a perda de água do solo.

Através do diagnóstico ambiental, constatou-se o aumento

do processo de erosão nas margens dos canais fluviais e

sua capacidade de retenção de águas superficiais e produtividade

biológica.

3. Planícies flúvio – marinhas: com relação ao diagnóstico

ambiental, observou-se que a dinâmica natural atua de

forma significativa, em função do recobrimento vegetal propiciado

pelo manguezal e pela deposição sedimentar ao longo

dos cursos de água e nas margens dos canais. Atualmente verifica-se

um gradativo aumento das atividades humanas relacionadas

ao extrativismo vegetal e animal, agricultura e

construção de salinas, ocorrendo, ainda, em algumas áreas, a

EDUCAÇÃO E EXTENSÃO RURAL

mento, de transformar o conhecimento em sapiência. Ensinar

a viver necessita não só dos conhecimentos, mas também da

transformação do conhecimento adquirido em sapiência, adverte

E. Morin (2009) na sua obra Cabeça bem-feita.

Em Pedagogia da autonomia, Freire (1996) elenca uma

série de saberes necessários à prática educativa transformadora,

sugere então uma pedagogia fundada na ética, no respeito

à dignidade e à própria autonomia do educando. Para

Freire, formar é muito mais do que puramente treinar o educando

no desempenho de destrezas e nos adverte da malvadeza

neoliberal e do cinismo de sua ideologia que não favorece a

transformação da curiosidade ingênua – inerente de todo ser

humano - em curiosidade crítica ou epistemológica.

Assim, no Brasil, a partir dos escritos de Freire e também

devido ao término do crédito agrícola subsidiado a partir dos

anos 1980 (LISITA, 2009), inicia-se uma nova proposta de extensão

rural que preconiza a construção de uma “consciência

crítica” nos extensionistas, fomentada, inclusive pela “Política

Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural” (2009)

brasileira. O agente de extensão, apesar de toda a orientação

dos órgãos públicos de extensão rural, ao contrário, tem dificuldade

de construir espaços educativos diferentes, de diálogo

e respeito pela experiência do camponês, daí a importância de

se estar sempre apontando e re-apontando as leituras e debates

das obras de Freire, caso se queira fazer educação em sua perspectiva

verdadeira.

Que seria, então, segundo Freire (2006), a verdade da prática

educativa “extensionista”? Responde o autor: “A nós, não

nos é possível persuadir a aceitarmos a persuasão para aceitação

da propaganda como uma ação educativa. Não vemos como

introdução de atividades turísticas.

4. Tabuleiros costeiros: os impactos ambientais estão condicionados

às condições de xeromorfismo bem mais acentuadas

que nas outras unidades ambientais. Devido ao processo

de urbanização, que vem se desenvolvendo, bem como as atividades

agropecuárias, tanto a vegetação natural como a secundária

têm sido continuamente degradadas. Na avaliação

dos impactos ambientais, constatou-se que o tabuleiro costeiro

requer soluções que reduzam os efeitos negativos como a diminuição

da produtividade biológica; alterações no funcionamento

e redução da disponibilidade dos recursos naturais.

CONCLUSÕES

Recomenda-se a priorização das pesquisas científicas

e desenvolvimento tecnológico voltados para as atividades

socioeconômicas e proteção ambiental, no sentido de diagnosticar

o estado, potencialidades e limitações das unidades

ambientais, de acordo com as necessidades das

comunidades locais.

A incapacidade de atender à demanda de serviços de transporte,

habitação, saneamento, saúde e educação vem criando

um quadro crítico nas localidades, acentuando a degradação

ambiental e deterioração da qualidade de vida, causando sérios

problemas e prejuízos às atividades turísticas e de lazer, acentuando

o processo de urbanização desordenada e destruição de

áreas de interesse ecológico.

Recomenda-se a adoção de medidas de proteção ambiental

na concepção, implantação e operação dos empreendimentos

potencialmente impactantes e a priorização no

zoneamento das funções de turismo, lazer, proteção ambiental,

cultural e histórica dos bens e recursos costeiros, apontando

espaços favoráveis à ocupação produtiva para

expansão e melhoria da oferta de

serviços básicos. De modo geral,

a zona costeira do Estado do Piauí

necessita de uma maior articulação

entre os diversos setores envolvidos,

na busca de inovações

tecnológicas nos métodos e práticas,

maior eficiência e controle

dos processos e observância da legislação

ambiental.

Agostinho Paula B. Cavalcanti

Prof. Dr. da UFPI agos@ufpi.br

se possa conciliar a persuasão para a aceitação da propagando

como a educação...” Essa prática “educativa”,

porém, foi reproduzida por muito tempo por técnicos, caracterizando

o camponês apenas como um aplicador de técnicas.

Mas o movimento de revalorização da cultura

camponesa fomentado pelos movimentos sociais permitiunos

enxergar que não seria possível, para o camponês, sobreviver

às mudanças, sem que tivesse implícita em si a

capacidade de pesquisar, mesmo que de forma mais simplificada,

[a educação] só é verdadeira quando encarna a busca

permanente que fazem os homens, uns com os outros, no

mundo em que estão, de seu Ser Mais.

Não podemos esquecer que a realidade é cambiante e

mutável, como já ensinava o velho filósofo de Éfeso, a

guerra é o pai e a mãe de todas as coisas, ou seja, a discórdia,

a contrariedade é a origem de tudo no mundo. O

mundo é um eterno fogo que se transforma. O que implica

que nossos sonhos e realizações

sejam projetos pelos quais devemos

lutar “Sua realização não se verifica

facilmente, sem obstáculos.

Implica, pelo contrário, avanços,

recuos, marchas às vezes demoradas.

Implica luta...” (FREIRE, Pedagogia

da Indignação, 2000).

Felipe César M. Tupinambá

Prof. Msc. Colégio Agrícola

de Floriano da UFPI

felipe_tupinamba@yahoo.com.br


EDUCAÇÃO E LETRAS

TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

A NOÇÃO DE GRAMÁTICA NOS ESTUDOS DE REPRESENTAÇÃO RUPESTRE

As representações rupestres constituem uma das principais

evidências da presença humana na pré-história. Esta afirmação,

para o território brasileiro, é sem dúvida adequada, na medida em

que as representações rupestres conformam um dos documentos

acerca das ocupações humanas ocorridas em tempos pré-coloniais

que mais resistem ao tempo, em função da natureza dos materiais

que as constituem: minerais. Entretanto, apesar desta excepcional

característica, que é a durabilidade, tratam-se dos documentos arqueológicos

de mais difícil abordagem.

Conforme nos orienta María Isabel Hernández Llosas, as representações

rupestres podem ser abordadas de diferentes perspectivas:

1) a partir da ótica das Artes Plásticas, que proporciona

a análise das características estéticas das representações, observando

as técnicas de aplicação dos pigmentos e características dos

desenhos; 2) a partir da perspectiva da História da Arte, que questiona

as formas de desenvolvimento das manifestações plásticas

através do tempo, levando em conta as técnicas aplicadas e produtos

gerados, aliados às variações na confecção e valorização estética

ao longo dos tempos; 3) partindo de uma ótica

Antropológica, que se interessará pelas mudanças e análises das

diferentes manifestações culturais que originaram as manifestações

artísticas, tentando observar o sentido estético que cada uma

detenha, de acordo com a noção de beleza imposta pelos distintos

contextos sociais; e, por fim, 4) partindo do ponto de vista da Arqueologia,

que se orienta pelo viés antropológico, pois busca as

informações e características dos grupos humanos que produziram

as representações.

Entretanto, apesar dos diferentes olhares, uma das grandes

questões que se apresentam, sobretudo para os estudos de representações

rupestres, é a impossibilidade de interpretação dos significados.

Isto se deve a um fator simples: percebemos claramente

a intenção humana na confecção das representações rupestres,

mas, contrariamente a isto, jamais poderemos entender o que as

mesmas significaram, uma vez que os autores de tais representações

não existem mais. Assim sendo, presumimos que os conteúdos

significativos destes signos se extinguiram com as populações

humanas que detinham os mecanismos de leitura e compreensão

dos mesmos. Esta consideração impõe uma grande limitação aos

estudos das representações rupestres. Contudo, é justamente esta

impossibilidade que nos leva a refletir sobre a necessidade de

abordar este documento arqueológico testando outras ferramentas

teórico/metodológicas, que permitam resultados que expressem o

que eram e quem eram as sociedades passadas.

É partindo destas perspectivas que temos testado a noção

de gramática decorativa imposta por Marcel Otte aos estudos

das representações rupestres. A partir desta noção, interessa-nos

classificar os diferentes signos dos sítios rupestres e buscar levantar

convergências entre eles. Para tanto, tomamos como parâmetros

para leitura arqueológica dos motivos gráficos

critérios como dispersão, concentração, associação, centralização,

isolamento, marginalização, etc. Entendemos que as posições

que os diferentes signos assumem num sítio rupestre

podem indicar a intencionalidade de escolha de locais específicos

no suporte rochoso para a confecção de certos motivos, representados

em situações igualmente específicas e que, por

estas características, levavam consigo significados particulares.

Se constatada esta possibilidade, estaremos afinando dados

acerca da citada gramática gráfica.

Frente às discussões preliminarmente esboçadas, cabe explicitar

o que compreendemos, ao utilizar a noção de gramática decorativa.

Um dos princípios que rege a ideia de gramática é o de

que a recorrência de ícones idênticos, associados com outros ícones

e dispostos de maneira semelhante em diferentes espaços representam

ideias iguais. Ou seja, estamos tratando as

representações rupestres como códigos de linguagem, intencionalmente

elaborados e com princípios rígidos de confecção, culturalmente

determinados, a ponto de serem identificáveis por

distintos indivíduos que detinham os mecanismos de leitura e

compreensão das representações. Assim, a sugestão do uso na

noção de gramática nasce da nossa compreensão de que as representações

rupestres sugiram códigos gráficos específicos, dos

quais jamais saberemos os significados, mas que nos possibilitará,

nos estudos regionais, reconhecer as normas explícitas na confecção

dos painéis rupestres e caracterizar territórios particulares de

FOTOS: DIVULGAÇÃO

uso de determinadas populações, que tinham como elo comum códigos

gráficos. Em síntese, as representações rupestres entendidas

como gramática, no plano dos significados, permite três outras

considerações, que podem ser atribuídas aos indivíduos que confeccionaram

os motivos gráficos: 1) que eles tinham a possibilidade

de representação de ideias a partir de códigos gráficos; 2)

que esta representação por códigos gráficos possibilitava a transmissão

de ideias para outros indivíduos; 3) e que estas ideias estariam

materializadas e propagadas para além da permanência

física do indivíduo no espaço.

Cabe, ainda, frisar o nosso interesse na condução desta forma

de perceber as representações rupestres. Tem sido tendência nos

estudos arqueológicos a canalização de energia para observação

dos sítios com pinturas reconhecíveis no nosso plano cognitivo,

com motivos figurativos, exemplo dos antropomorfos, zoomorfos

e fitomorfos. Em face deste interesse, sítios com pinturas geométricas

são negligenciados aos estudos, na medida em que paira no

meio científico um entendimento, que tem certo consenso entre

os arqueólogos, de que as representações geométricas são universais

e, desta modo, seriam genéricas para construção de contextos

arqueológicos.

Nossa experiência no estudo de representações rupestres com

padrões geométricos no Piemonte da Chapada Diamantina tem demonstrado

justamente o inverso. Temos observado que apesar de

geométricos, a maneira com que os motivos estão dispostos e associados

nos sítios permite perceber particularidades para interpretação

arqueológica, que podem vir a indicar repertórios

13

gráficos significativos relacionados, possivelmente, a sociedades

que se apropriaram da região. Desta forma, inequivocamente, começamos

a nos afastar da dúvida desta impossibilidade, frente aos

dados empíricos de que dispomos. Os signos geométricos compreendidos

pelas suas normas próprias de confecção e disposição

nos sítios, a dita gramática decorativa, passam a ser vistos como

importantes elementos para as interpretações arqueológicas de

contextos regionais. Saímos, portanto, da impossibilidade para um

cenário mais profícuo.

Por outro lado, trabalhando ainda sobre a noção de gramática

decorativa, cabe ainda uma breve reflexão. Se observarmos de maneira

cuidadosa, perceberemos que os estudos arqueológicos sobre

representações rupestres no Brasil têm se orientado, em sua maioria,

à observação desta categoria de cultura material a partir da

noção de Tradição Arqueológica. Por sua vez, o conceito de Tradição

Arqueológica, de acordo com as perspectivas de Valentin

Calderón, André Prous e Gabriela Martín, leva em consideração

três pilares fundamentais: 1) cultura, reconhecida a partir de certas

características recorrentes nos materiais arqueológicos de diferentes

sítios; 2) tempo, na medida em que o componente cultural deveria,

em tese, ter reconhecido um lapso de tempo de ocorrência;

3) e espaço, no qual estariam distribuídos os vestígios com características

similares (cultura), num lapso de tempo circunscrito.

Ora, como podemos ver, a noção de Tradição Arqueológica detêm

parâmetros concretos e invariáveis que embasam a observação das

representações rupestres a partir de uma lógica normatizadora,

com uma natureza recorrente num tempo e espaço específicos.

Neste sentido, do que estaríamos falando, senão de um código específico

de linguagem, de uma gramática decorativa? Esta é uma

pergunta para reflexão.

Entendemos que as bases para a discussão estão lançadas, de

maneira que ficamos à disposição. Nosso interesse, de fato, é testar

parâmetros de estudos que sejam adequados a nossa realidade

arqueológica. Não sabemos, de fato,

se a construção teórica que fazemos

é a mais adequada.

No entanto, sem se testar, e possibilitar

que outros colegas façam o

mesmo, jamais saberemos da validade

de nossos postulados. Este é o

nosso interesse.

Carlos Alberto S. Costa

Prof. Msc. da Universidade

Federal do Recôncavo da Bahia

carloscostaufrb@gmail.com


14 TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

APLICAÇÃO DO BALANCED SCORECARD EM INSTITUIÇÕES DE ENSINO SUPERIOR

O aumento da competitividade e a globalização dos mercados

têm levado as organizações a se empenharem para se diferenciarem

de seus competidores. Os mercados são direcionados mais

pelo valor do que por preço, forçando as organizações a considerarem

qualidade, serviço ao consumidor e outros atributos.

De acordo com Oliveira (1996), uma das tendências mais

importantes do mundo empresarial atual é a transição de uma

economia baseada na produção para uma economia baseada

nos serviços. Estamos na Era dos Serviços, na qual aqueles

que estão incumbidos de liderar empresas de prestação de serviços

detêm uma responsabilidade especial em relação aos

seus clientes, funcionários e acionistas.

A introdução dos prêmios nacionais e internacionais de qualidade

motivou as empresas no desenvolvimento de medidas de

desempenho mais sofisticadas, com uma gama maior de informações

que auxiliem o controle estratégico das organizações, definindo

metas e demonstrando iniciativas de sucesso ou falhas.

Durante muitos anos se utilizaram apenas indicadores financeiros

para medir o desempenho das organizações, entretanto, a

partir de 1980, percebeu-se a necessidade de uso de outros critérios

nesta avaliação. O lucro continua sendo uma meta para as

organizações, porém não é medida de desempenho suficiente. As

organizações devem gerenciar outros atributos, isto é, ter outras

medidas de desempenho para se alcançar o lucro.

O Balanced Scorecard teve a sua origem num estudo realizado

durante o ano de 1990, o qual tinha por base mostrar que a

avaliação da atuação empresarial fundamentada apenas na contabilidade

financeira tornara-se insuficiente.

Segundo Kaplan e Norton (1997) o Balanced Scorecard inclui

um conjunto de medidas que dão uma visão rápida e global

da atividade empresarial, onde estão incluídas as medidas financeiras,

complementadas com medidas operacionais. Assim, as

medidas financeiras permitem expressar os resultados das ações

tomadas e as operacionais representarem medidas como a satisfação

do cliente, melhoria dos processos e atividades internas,

de inovação e progresso da organização.

Para Ramos e Gonçalves (2002), o Balanced Scorecard mostra

onde se deve competir, que clientes conquistar e o que é ne-

O homem que anuncia “Estou mentindo” está dizendo a

verdade? O paradoxo semântico transcrito acima é um exemplo

das várias questões que impulsionam o antropólogo Gregory

Bateson a elaborar uma nova Teoria da Comunicação,

em oposição aos modelos de inspiração positivista dominantes

na década de 40 do Século XX. Surgia, assim, uma corrente

de estudos da Comunicação que recebeu diversas

denominações: Escola de Palo Alto, Colégio Invisível e,

ainda, Nova Comunicação.

Bateson estava preocupado em inscrever a comunicação –

enquanto prática - no centro de outras abordagens teóricas, entendendo-a

como a matriz de todas as atividades humanas. Mas

Bateson não seguiu as ideias dominantes da época, sobretudo a

de que a comunicação é uma atividade fundada numa lógica formal

voltada à tentativa de anulação das incertezas de uma dada

situação (o pressuposto básico da Teoria da Informação que vigorava

no período mencionado era o de que só há comunicação

quando há incerteza, donde a comunicação se torna a medida

da incerteza de uma determinada situação). Opondo-se à ideia

de que as trocas comunicacionais podem ser mensuradas estatisticamente

e baseando-se nos conceitos de sistema aberto, da

Teoria Geral dos Sistemas, e de retroalimentação, da Cibernética,

Bateson trouxe à baila o estudo das contradições e paradoxos

comunicacionais, que se apresentam de diferentes formas:

lógico-matemática, semântica e pragmática.

Numa clara tentativa de conferir complexidade ao objeto

de estudo da Comunicação, Bateson entende que uma interação

comunicativa só pode ser entendida como parte de um sistema

e também enquanto sistema autorregulável pela ação dos sujeitos

no contexto em que tal interação acontece. Portanto, a retroalimentação

– troca de informação entre as partes do sistema

e desse com o meio – torna possível a autorregulação dos sistemas

abertos, uma vez que eles tendem à desordem.

Os paradoxos comunicacionais são uma forma de desvio do

processo de autorregulação sistêmica. Eles tanto desafiam a

coerência lógica (níveis sintático e semântico) de certas sentenças

comunicacionais quanto podem afetar a ação e o comportamento

dos sujeitos que interagem (nível pragmático). Em

alguns casos, um paradoxo comunicacional acontece quando

a mensagem gera um conflito entre seu conteúdo e a ordem ou

o comando repassado pela mesma mensagem. Assim, a troca

cessário fazer para criar valor para os mesmos.

Conforme Kaplan e Norton (1997) O BSC deve levar à

criação de uma rede de indicadores de desempenho que deve

atingir todos os níveis organizacionais, tornando-se, assim,

uma ferramenta para comunicar e promover o comprometimento

geral com a estratégia da corporação.

Este método resume em um único documento, indicadores

de performance em quatro perspectivas: financeira, clientes,

processos internos e aprendizado e crescimento. (Kaplan e Norton,

1997). Estas perspectivas devem dar respostas às seguintes

questões: Como nos veem os investidores? Como nos veem os

clientes? Em que devemos nos sobressair? Como podemos

prosseguir de forma a melhorar e acrescentar valor?

A análise de cada perspectiva possibilita a identificação

de inexistência de processos ou falhas nos existentes, evidenciando

os pontos principais que poderão afetar a realização das

metas principais; na perspectiva dos clientes / sociedade, o estabelecimento

de indicadores que permitam o controle ou

mesmo o monitoramento da situação

atual.

Em 2004, o Ministério da

Educação criou o Sistema de Avaliação

da Educação Superior (SI-

NAES), estabelecendo parâmetros

para a avaliação de instituições de

ensino superior. O Sistema integra

três instrumentos de avaliação:

a Avaliação das Instituições

consideradas em seu conjunto,

compreendendo Avaliação Interna

e Externa; o Exame Nacional de

Desempenho dos Estudantes

(ENADE) e a Avaliação dos Cursos

de Graduação.

A lei 10.861/2004 estabelece,

em seu art 3º, as dimensões institucionais

a serem consideradas na

de informação que deveria regular o sistema põe em conflito

as suas partes, provocando uma desordem até certo ponto irreversível,

como nos casos de esquizofrenia, que, segundo Bateson,

decorre de um problema de metacomunicação: o sujeito

já não consegue comunicar consigo mesmo e, então, entra em

surto delirante.

O estudo da comunicação, nas primeiras décadas do século

XX, inscrevia seu objeto num frame teórico capaz não só de

apreendê-lo logicamente, mas de impor essa lógica ao próprio

objeto: a comunicação é da ordem do previsível, do planejável,

do lógico. Não há, a rigor, para esse tipo de teoria, a possibilidade

da contradição.

Em meados do século XX, a formalização das linguagens,

sobretudo a partir dos estudos estruturalistas, levou à reificação

das estruturas e à afirmação desse princípio: dentro dos quadros

do código utilizado, a mensagem só pode significar o que se pretende

que ela signifique. O significado assumiu o caráter de mensagem

lógica, considerando-se apenas um nível de abstração, o

do próprio conteúdo inscrito num código. Assim, a comunicação

tornaria as relações transparentes; conhecendo as suas regras,

tudo seria previsível e controlável.

No entanto, esta comunicação autoreguladora

é, tal como Bateson

constatou, insuficiente no que diz

respeito à ação interior de cada um.

Portanto, é com Bateson que

se iniciam os estudos sobre os paradoxos

e as contradições das mensagens.

“Não me obedeça!”, diz a

mãe para o filho excessivamente

obediente. Mas qualquer que seja

a reação do filho ele estará obedecendo.

Cilada da comunicação,

essa situação específica expressa

um duplo vínculo (double bind)

com a mensagem, conforme o conceito

criado por Gregory Bateson.

A sabedoria popular há muito já

havia identificado o double bind,

que tomou a forma de pelo menos

dois ditados populares: “Se correr

avaliação das instituições de ensino superior. São elas:

1. A missão e o Plano de Desenvolvimento Institucional;

2. Perspectiva científica e pedagógica formadora: políticas,

normas e estímulos para o ensino, a pesquisa e a

extensão; 3. Responsabilidade Social da Instituição de Ensino

Superior; 4. Comunicação com a sociedade; 5. Políticas

de pessoal, carreira, aperfeiçoamento e condições de

trabalho; 6. Organização e gestão da Instituição; 7. Infraestrutura

física e recursos de apoio; 8. Planejamento e avaliação;

9. Políticas de atendimento aos estudantes; 10.

Sustentabilidade financeira.

Considerando as dificuldades enfrentadas pelos gestores

das instituições de ensino superior no que se refere ao planejamento

de suas ações, este trabalho procura analisar o

balanced scorecard como instrumento de avaliação de desempenho,

considerando-se as dimensões do SINAES enfatizando,

principalmente, que, com sua utilização, se pode

melhorar o resultado apresentado por estas organizações.

Angela E. de Sampaio– Profa. Msc. da UESPI - angel.la@ig.com.br

Maria Valéria S. Leal - Profa. Esp. da Faculdade Piauiense

valeria.santos@tce.pi.gov.br

Elenir C. Figueiredo – Profa. Esp. da Faculdade Piauiense

elenir.figueiredo@hotmail.com

A ESCOLA DE PALO ALTO E OS PARADOXOS COMUNICACIONAIS

o bicho pega, se ficar o bicho come” e “morde e assopra”.

Paul Watzlawick, psiquiatra, seguidor das ideias de Bateson,

acata a definição de um paradoxo pragmático como sendo

o conflito entre o significado da mensagem e seu comando ou

sua ordem. Tome-se como exemplo um outdoor eletrônico instalado

no final dos anos 90 entre duas pontes sobre o rio Poti,

em Teresina, Piauí. A mensagem dizia: “Preste atenção ao trânsito!”.

Nada de antinômico no significado do texto. Contudo,

o motorista que quisesse prestar atenção ao trânsito, jamais

deveria ler a mensagem, pois essa, ao anunciar a necessidade

de estar atento ao trânsito, desviava o olhar do motorista para

a própria mensagem. Significado e ordem não se coadunam,

neste caso.

Como se percebe, é com Bateson que a comunicação,

agora da ordem do complexo, abandona as certezas da lógica

formal e instaura o paradoxo. O que caracteriza o duplo vínculo

é o fato de que em certas situações de interação, qualquer

que seja a alternativa assumida pelo interlocutor, a ação que

daí decorre será sempre a mesma. O sujeito se torna prisioneiro

da própria mensagem.

Gustavo Said – Prof. Dr. da UFPI - gsaid@ufpi.br

Camila Calado Lima - graduada em Publicidade e Propaganda pelo CEUT

camilacaladolima@hotmail.com

Caio Bruno Silva do Carmo - acadêmico de jornalismo da UFPI

caiobrunosc@gmail.com

Thiago Meneses Alves - graduação em jornalismo pela UFPI

thiagomeneses85@hotmail.com


AÇÃO EDUCATIVA EM MUSEUS COM ACERVOS ARQUEOLÓGICOS

Os museus de arqueologia ou com acervos arqueológicos são

utilizados como recursos didáticos pelos professores. Em geral,

as visitas ocorrem sem orientação e planejamento, de forma que,

ao longo dos anos, existe a tendência dos grupos escolares não

voltarem aos museus. Porque isto ocorre? Em parte pela visão

ainda bastante disseminada de museu como “depósito de velharias”

e de discursos expositivos que reforçava o culto do objeto

pelo objeto.

Então, qual seria a função didática dos museus? De acordo

com Joan Santacana e Xavier Hernàndez, “os museus não são somente

instituições onde se aprende conceitos, hoje e no futuro,

o museu deverá ser o lugar onde atenda os alunos para aprender

a formular hipóteses, a classificar, a emitir juízos críticos, em

suma, a colocar em questão as capacidades próprias de sua

idade” (1999, p.180).

Até agora o museu foi utilizado como uma “ilustração” daquilo

que o professor havia explicado em sala ou como uma “motivação”

para introduzir um tema. O professor pode ultrapassar

esta visão simplista, ao ver no museu um instrumento útil, como

um espaço de interação e ação para a sua prática pedagógica. Em

uma exposição de arqueologia, por exemplo, não será importante

somente o resultado da pesquisa arqueológica, colocando à mostra

os artefatos e estruturas, mas igualmente será fundamental

conhecer os procedimentos de pesquisas adotados. Este tipo de

análise se preocupa muito mais com o método e com a avaliação

crítica do conhecimento, do que somente buscar sínteses já acabadas.

As exposições devem ser um meio de comunicar um contexto

de forma a relacionar os artefatos, as realizações e as ideias

(Fernández & Fernández, 1999, p. 157).

O museu, além de conservar o seu acervo, deve ser um promotor

de atividades educativas e não somente um receptor passivo

de alunos e visitantes. Um exemplo desta prática é a

existência de museus de arqueologia no Brasil, que mantêm

ações educativas de maneira sistemática, a exemplo do Museu

Arqueológico de Sambaqui de Joinville (MASJ), do Museu Arqueológico

de Xingó (MAX) e da Fundação Museu do Homem

Americano (FUMDHAN).

Com estas considerações, compreendemos que existe um

campo amplo a ser explorado pelo educador e, por outro lado, os

museus de arqueologia se apresentam como cenários privilegiados

para um aprendizado significante. Assim sendo, algumas

Com o objetivo de analisar a visão de professores e alunos

da FAP sobre o processo de ensino-aprendizagem foi desenvolvido

esse projeto de pesquisa que contou com o financiamento

da FUNPESQ - Fundação de Incentivo à Pesquisa, através da parceria

com a FAP Teresina.

A educação ocupa papel central na trajetória histórica do desenvolvimento

do potencial humano desde os primórdios da humanidade.

Ela é inerente ao homem. A procura incessante pelo

novo faz com que este se lance numa busca desenfreada por inovações

tecnológicas, nas mais diversas fases da sua vida. Com a

evolução, as novas tecnologias, a era espacial e a informática, a

educação se transformou, seus objetivos mudaram, seus métodos

se aperfeiçoaram muito. A abordagem tradicional do ensino foi

sendo abolida. Surge, então, a andragogia: a arte de ensinar a

adultos, segundo Rosenbach, a Andragogia, revolucionou a sociedade,

transformando o adulto, em superadulto. Seu método favorece

e estimula o adulto a aprender, uma necessidade na

sociedade contemporânea. Esses adultos estão cada vez mais dispostos

a iniciar um processo de aprendizagem, desde que compreendam

sua utilidade. Assim, ensinar a um adulto é diferente

de ensinar crianças e adolescentes. É preciso fazê-lo entender o

que está estudando, para que está estudando e se o estudo irá favorecê-lo

futuramente. Pelo fato de o adulto já ter uma bagagem

de vida, ele precisa apenas reforçar seus conhecimentos e, para

isso, é necessário alguém que tenha um conhecimento a mais

que ele. Muitas vezes ele já tem a parte prática e precisa aprender

a parte teórica, para poder desenvolver condizentemente suas

habilidades profissionais.

O filósofo norte-americano Israel Scheffler caracteriza o ensino

como uma atividade cujo propósito é a realização da aprendizagem,

sendo praticado de maneira a respeitar a integridade

DIVULGAÇÃO

TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

orientações são fundamentais para o uso dos museus como ferramentas

pedagógicas (Santacana & Hernàndez, 1999; Horta et. al.,

1999; Bruno, 1999; Hérnandez Hérnandez, 2003; Swain, 2007):

1.Preparar as atividades a serem desenvolvidas, observando

o tempo necessário para executá-las;

2.Vincular as ações planejadas aos princípios norteadores da

Educação Patrimonial, para a sensibilização e apropriação dos

bens arqueológicos pelos estudantes. As atividades que proporcionem

o manuseio de artefatos, a reconstituição de técnicas e

modos de fazer antigos, a dramatização de acontecimentos históricos,

a experiência da descoberta através de atividades que simulem

ou recriem os métodos da arqueologia são algumas

atividades possíveis em museus de arqueologia;

3.Estudar o trajeto e salas do museu, o escolar não precisa

necessariamente fazer uma visita completa à instituição;

4.Selecionar os elementos a serem trabalhados em função da

idade. Não estudar mais de dez peças para alunos de dez anos;

acrescentando um elemento a mais, a cada ano até o máximo de

quinze elementos. Esta escolha dependerá da temática de trabalho,

é importante desvincular a ideia de arqueologia estar relacionada

com objetos exóticos. Assim, a sua escolha deve se

basear não em critérios somente estéticos, mas nas informações

tecnológicas, sociais e simbólicas dos artefatos e, sobretudo, no

contexto arqueológico;

5.Ter atenção com os textos escritos, primando por aqueles

concisos e com letras legíveis. Evite que o aluno copie e

observe se existe algum termo de difícil compreensão e ex-

intelectual do aluno e sua capacidade de fazer juízos independentes.

Observa-se, então, que ensino e aprendizagem andam lado a

lado. E que um não pode ser executado plenamente sem o outro.

A pesquisa revelou que o corpo docente da FAP Teresina é

jovem, a maioria dos professores têm nível de mestrado e são

comprometidos com o ensino – aprendizagem e com a aprendizagem

do aluno e buscam seu aperfeiçoamento profissional. Já a

maioria do corpo discente é composta de solteiros, pessoas jovens

que trabalham e estudam. A pesquisa revelou também que a

visão sobre aprendizagem de alunos e professores é praticamente

a mesma, no que se refere às características de uma boa aula, um

bom professor, um bom aluno e o método de aferição de conhecimentos

do aluno.

Professores e alunos concordam que uma boa aula é a expositiva,

que o professor deve dominar o assunto e ligar a teoria à

prática, em que o aluno expõe suas

ideias, opiniões e promove a reflexão

sobre o assunto ensinado. Os

fatores que contribuem para dificultar

o processo de aprendizagem

dos alunos são originados pelo

fato de o aluno trabalhar e estudar,

além do seu nível cultural, aliado

ao desinteresse, falta de esforço,

de aptidão e habilidades. Não há

nada que indique que estas dificuldades

possam estar centradas na

relação aluno - professor ou na

falta de comunicação entre professor

- aluno. A aprendizagem é concebida

e demonstrada pelo aluno

pressões próprias da ciência arqueológica que necessitem de

maiores explicações;

6.Elaborar jogos para exercitar o que estão vendo no museu.

Para crianças entre cinco a sete anos, os jogos de observação são

os melhores. Faça com que seja valorizado o lado lúdico e que

não pareça um teste ou avaliação;

7.Se forem acompanhantes, como outros professores e pais,

façam com que se inteirem das atividades;

8.Antes de agendar a atividade, verifique se os expositores do

museu são adequados para a sua visita. As vitrines devem ter uma

altura que facilite a visualização dos alunos das séries iniciais;

9.Agende a sua visita e no dia procure chegar no horário

marcado. Informe-se dos serviços do museu e de sua estrutura

física (ex.: banheiros, lanchonete, acesso a portadores de necessidades

especiais etc.);

10.Informe com antecedência aos alunos que alguns procedimentos

devem ser respeitados, seguindo as recomendações do pessoal

do museu. Verifique a possibilidade do uso de máquina

fotográfica, em coleções que apresentam plumária, por exemplo,

não é permitido o uso de flash. Esclareça aos alunos sobre os cuidados

de não ingerir alimentos nos espaços visitados, pois isto poderá

afetar a conservação do acervo, atraindo insetos e roedores;

11.Se o museu apresentar expostos ossos humanos ou sepultamentos

de sítios arqueológicos, avise aos seus alunos e

aborde o tema com naturalidade. Muitas crianças e jovens

quando surpresos podem ficar impressionados ou comovidos.

O mais importante é realizar o trabalho de forma a integrar

as atividades preparatórias, as desenvolvidas no

museu e aquelas novamente realizadas em sala de aula. Para

isso, estimule sua criatividade,

propondo questões e atividades

práticas aos alunos, de forma

que eles possam desenvolver

suas habilidades e construir

uma visão do passado mais plural

e diversa.

Fabiana Comerlato

Prof. Dra. da Univ. Federal

do Recôncavo da Bahia

fabilato@gmail.com

APRENDIZAGEM NA FAP TERESINA: VISÃO DE PROFESSORES E ALUNOS

15

através das boas notas, que demonstram sua aprendizagem,

aliada aos questionamentos e comentários, do modo que tratem

dos assuntos aprendidos fora da sala de aula. Com relação ao

bom professor, ressalta-se o domínio dos conhecimentos, mostrando

como se faz na prática, incentivando o aluno a buscar o

conhecimento fora da sala de aula. Ele deve ser exigente

quanto a prazos e trabalhos, impor respeito, ouvir o aluno e o

incentivá-lo a participar da aula com ideias e pontos de vista.

Com base nos resultados obtidos, percebe-se que não houve

uma distinção marcante de opiniões entre os alunos e professores

dos diversos cursos da FAP Teresina, sobre o ensinoaprendizagem.

O resultado completo da pesquisa realizada por

curso e de forma global encontra-se à disposição de todos na

FAP Teresina – FUNPESQ.

Ana Maria Chaib G.. Ribeiro – Profa. Msc. da FAP Teresina

amchaib@hotmail.com

Denille Chaib G. Ribeiro – Profa. da FAP Teresina

Maurício M. Boavista de Castro – Prof. da FAP Teresina


16 TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

“[...] Sólo que yo creo que el verdadero libro de la filosofía

es el libro de la naturaleza, que tenemos siempre abierto ante los

ojos; aunque no todos pueden leerlo, pues que está escrito en caracteres

distintos a los de nuestro alfabeto”, Galileo. (Cf. BLU-

MENBERG, Hans. Paradigmas para una metaforología. 2003,

p.155). “O conhecimento dos animais que tinha a sua volta, daqueles

que o ameçavam e aos quais dava caçada constitui o mais

antigo saber do homem. Ele aprendeu a conhecê-los pelo ritmo

dos seus movimentos. A escrita mais antiga que aprendeu a ler

foi a dos rastros – uma espécie de notação rítmica que sempre

existiu. Tal notação se estampava por si só na terra macia, e o

homem que a lia associava a ela o ruído que lhe dera origem.”

(CANETTI, Elias. Massa e poder. 2005, p.30).

A imagem do livro da natureza aflora em uso na Idade

Média, se desenvolve no Renascimento e transcorre até a Modernidade.

Ramón Sibiuda (1436), Mestre em Artes e Medicina

e distinguido Professor de Letras Sagradas, veio ser importante

referência a muitos estudiosos, a filósofos, como Montaigne, a

educadores, como Juan Amós Comenio, Galileo, Bacon e tantos

outros que reconhecem esta ciência da leitura do mundo. Sibiúda

apresenta seu livro como “Ciência do livro das criaturas, ou livro

da natureza, e a Ciencia do

homem, que é própria do

homem enquanto homem, pelo

que é necessária para todos os

homens, e lhes resulta natural e

conveniente” (Theología naturalis

seu liber creaturarum.

1480), aí utiliza a bela metáfora

da natureza como um livro, esta

nova ciência era como o alfabeto,

que de modo admirável

está incorporado a todos os livros,

assim, devia ser o primeiro

aprendido por todos, era

a ciência comum a todos, “esta

ciencia não é outra coisa que

ver e conhecer a sabedoria escrita

nas criaturas”, constitui o

primeiro livro entregue ao

homem, desde o princípio, nele

está também contido o próprio

homem, que é a principal de

suas letras, este livro contém a

ciência necessária para o

homem.

Para o educador Paulo

Freire, uma compreensão crítica

do ato de ler não se limita à decodificação

da palavra ou da

linguagem escrita, mas que se

antecipa e se prolonga na inteligência

do mundo, afirma: “A

leitura do mundo precede a leitura

da palavra”, e a posterior

leitura desta não pode prescindir

da continuidade da leitura

daquele; com fundamentos similares,

o filósofo Hans Blumenberg levantou as teses sobre a

Legibilidade do mundo e a Metaforologia, esta como ciência que

estuda a linguagem do espirito em seu movimento de antecipação

do mundo ainda não reduzido a conceitos. Deduzimos que ainda

sem palavras existe escrita e leitura, isto, por si, valoriza culturas

cuja expressão ou deciframento do mundo - quer dizer, o extrair

do vazio ou do silêncio- se dá, por exemplo, através de imagens

e música; com razão Hegel define a música como a arte da interioridade

subjetiva: “Com o som […] sentimos que entramos em

uma esfera superior: o som toca nossa sensibilidade mais íntima.

Dirige-se ao interior da alma, posto que o próprio som é o interno,

o subjetivo” (curso de Estética em Berlin, 1823, transcrição

de Heinrich Gustav Hotho); não é qualquer som, trata-se da

música própria da natureza do homem; existem cifras, acordes

de uma natureza mais perfeita que ressonam no homem que cuida

dos seus sentidos, modo, talvez, mais seguro de escutar o ruído

que lhe dera origem.

A CIÊNCIA DO LIVRO DA NATUREZA

O silêncio diz, significa, é signo, está cheio, pelo qual não é

o mesmo que falta ou ausência, tal silêncio contém o pensamento,

brilha a ideia no mar do silêncio, paira sobre suas águas

o espírito, o silêncio comporta a contemplação. No tradicional

conceito da creatio ex nihilo - crear de la nada- subjaz a “possibilidade”,

não só do que devem per si, mas que o mundo como

expressão, é a sabedoria própria do homem simples e puro, como

o concebeu Nicolás de Cusa na tese da docta ignorantia; pois,

em seus Diálogos, o idiota é figura do imediato: dado que a sabedoria

criadora há criado ela mesma, igualmente, ao interlocutor

a quem se dirige sua automanifestação no mundo, aquele será

capaz de entender sem ajuda se persiste em sua condição de inalterada

naturalidade em relação a ele. [Nicolás de Cusa, em seu

sermão Verbum caro factum est (de 1454), em Cusanus-Texte, I,

Predigten, 2./5., “Vier Predigten im Geist Eckharts”, ed. de J.

Koch, Heildelberg, 1937 (Sitzungsberichte der Heildelberger

Akademie der Wissenschaften, Phil.-hist. Kl, 1936/1937, n.2,

pp.75-83): Mundus est tu liber artis aeternae seu Sapientiae.

Unde adhuc Sapientia creavit aliqua capacia Sapientiae, quae habent

simlitudinem eius magis propriam, et sunt intellectuales naturae,

sicut liber demonstrative procedens clarius ostendit

sapientiam quam rhetorice].

É este o espírito livre que cantam os poetas da Arcádia, entre

eles Virgilio. Fray Luis de León, em De los nombres, comenta a

visão do pastor, o qual conhece e fala do amor verdadeiro, não

pelo domínio da palavra, mas sim por seus sentidos puros e agudos,

sua sabedoria vem da natureza, sem que isto implique dependência,

tal conhecimento é fruto da sua própria natureza.

Educar para a leitura do livro da natureza, para a atitude de escuta,

é criar condição para uma autoeducação. Seus deleites - do

pastor- são tanto maiores quanto mais nascem das coisas mais

simples, mais puras e mais naturais: da vista do céu livre, da pureza

do ar, do campo, do verde das matas e da beleza das rosas e

das flores, das aves com seus cantos e das águas com sua frescura;

com anônimos simples e não contaminados com vícios, seu

amor e saber são puros e ordenados a bom fim; tudo isto é já uma

imagem clara, ou por melhor dizer, como uma escola de amor

puro e verdadeiro; admira na natureza a todos irmanados entre

si e postos em ordem, concertados com harmonia grandíssima, e

comunicando-se suas virtudes e produzindo os frutos que enfeitam

e encantam o ar e a terra. Houvesse mais cuidado com as virtudes,

talvez o ensino das ciências e o desenvolvimento seriam

sempre ecológicos. Platão, em Protágoras, indica quanto se distancia

do bem e da justiça quando são estranhos o saber e a virtude,

sanar tal falha passa por entender o fazer bem como a arte

de articular o útil, ou o bom, ao belo.

Segundo Ernst Robert Curtius (Literatura europea y Edad

Media Latina, 1975, I, p.486) em seu capítulo sobre o livro como

símbolo, esclarece que a palavra árabe cifr, que significa vazio e

designa o zero matemático, passou às línguas romances desde o

século XII. Portanto, creatio ex nihilo teria a ver com palavras

do livro silente, o primeiro livro, onde se ouve a voz do silêncio

(conforme o Livro dos Preceitos Áureos, traduçao de Fernando

Pessoa) criar do nada, seria o poder de chamar, evocar ou pronunciar

o Nome. Aqui, a leitura ainda se dá de modo imediato;

exige meditação, leitura e pureza, quer dizer: profundo cuidado

dos sentidos. Para ler o livro da naturaleza, é necessário ouvir a

voz do silêncio, a esta não se ouve se o aprendiz não ouve a si

mesmo: “Conhece-te a ti mesmo!”. O que extrai o homem da na-

DIVULGAÇÃO

tureza é fruto seu. Daí que o silêncio seja

inclusive caminho, méthodo de preparação

e adoração. Na Grécia, o silêncio tinha um

lugar importante nas sociedades pitagóricas

e nos círculos órficos; exigia-se de um

a três anos de silêncio como forma de iniciação.

Sócrates comenta muitas vezes a

importância do silêncio como forma de conhecimento

e, em comparação com a fala,

afirma que o silêncio é bem mais decisivo.

Os místicos, os cristãos, os neoplatônicos,

os persas, os hindús, os árabes, os judeus

na Idade Média, fizeram largo uso do silêncio

como meio de chegar a Deus. Os

místicos católicos da Contra-Reforma e os

Quietistas do século XII apreciam o silêncio

e fazem da prática da presença de Deus

no silêncio o centro da religião. Presença

(praescientia), meyen em grego, o mesmo

que dizer. Conclui Eni Puccinelli Orlandi

(As formas do silêncio, 1993) que o silêncio

não fala; o silêncio é; ele significa. Ou

melhor: no silêncio, o sentido é. Estuda-se

os sentidos das descobertas? Descoberta, é

metáfora para muito.

A etimología de silentium, referida a

silens que significa: que se cala, silencioso,

que não faz “ruído”, calmo, que está

em repouso, sombra etc; calar é também

marcar, penetrar, atravessar. Ainda que na

época clássica não haja diferença de sentido

entre sileo e taceo (calar), primitivamente

sileo não designava propriamente

“silêncio” porém “tranquilidade”, ausência

de movimento ou ruído. Estar em silêncio

seria idéntico a estar quieto. Empregavase

sileo para se falar de coisas, de pessoas

e, especialmente, da noite, dos ventos e do mar. Silentium, mar

profundo. E aí nos deparamos com o aspecto fluido e líquido do

silêncio. As ondas são apenas seu ruído, suas bordas, limites, seu

movimento periférico, as palavras, imagens. A ciência do libro

da natureza é, pois, assunto da estética e das demais ciências interessadas

em reatar o saber à virtude, esta ciência naceu quando

converter vil metal em ouro, consistia

em articular a ciência a um puro

ideal, mente e coração, buscava-se o

secredo de uma pedra filosofal, a

fons vitae .

Francisco das Chagas

Amorim de Carvalho

Prof. Msc. da UFPI

fcarvalho@ufpi.br


TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

CENSURA ÀS HQs. ESSA HISTÓRIA NÃO ESTÁ NO GIBI

Quem um dia já não levou na mochila, escondidas

entre os livros escolares, revistas em quadrinhos para ler

na sala de aula sob os cadernos, longe do olhar de reprovação

dos professores? Hoje esta pergunta pode até parecer

estranha aos olhos do leitor atual, que além de buscar

prazer na leitura de gibis, se utiliza destas e de outras linguagens

para ampliar o conhecimento. Mas, na verdade,

não foi sempre assim, muitas gerações apaixonadas por

quadrinhos no Brasil e no mundo viveram a circunstância

descrita acima e puderam testemunhar um longo período

de intolerância contra as histórias em quadrinhos (HQs),

que, no Brasil, se popularizaram com a denominação de

“gibis”. Desse modo, é necessário desmistificar verdades,

antes tidas como absolutas e que, por muito tempo, alimentaram

o terrorismo ideológico contra as HQs, e que

ainda hoje despertam polêmicas. É preciso compreender

de fato que a leitura de gibis influencia positivamente a

aprendizagem e a formação de um leitor crítico.

E porque será que as HQs brasileiras são chamadas de

gibis? E qual a razão de tanta censura às revistinhas? No

Brasil, o sucesso dos quadrinhos, desde seu surgimento,

foi tamanho, que originou inclusive uma expressão

que se imortalizou no vocabulário nacional: “não está

no gibi”. Gibi, na verdade, foi o nome de uma revista

em quadrinhos (Gibi Trissemanal) lançada em 1939,

por Roberto Marinho (1904-2003). O novo lançamento

do então jovem editor obteve grande popularidade e

logo se tornou sinônimo de histórias em quadrinhos

no país. Na época, década de trinta do século passado,

as HQs foram recebidas com euforia e entusiasmo

pelos jovens leitores que corriam às

bancas de jornal, para adquirir seus gibis ou fazerem

trocas, algo comum entre os leitores do gênero.

Entretanto, o público adulto (que não vivera aquela experiência,

quando criança ou adolescente), recebeu a

nova mídia com grande desconfiança, muita censura e

enorme intolerância.

Roberto Marinho é apenas um dos personagens que

protagonizaram essa história no país. Ele lançou diversos

títulos (inicialmente através do jornal O Globo, mais tarde

fundou a Rio Gráfica Editora (RGE) hoje Editora Globo)

e conquistou a fidelidade do público infanto-juvenil para

os gibis, se mantendo como um dos grandes editores de

quadrinhos no país. Mas, com ele, outros nomes se tornaram

defensores convictos das HQs, como Adolfo

Aizen (1907-1991), fundador da Editora Brasil América

(EBAL), que publicou inúmeros títulos e se tornou

líder do mercado de quadrinhos por muito tempo,

Victor Civita (1907-1990), editor de Walt Disney no Brasil,

pela Editora Abril e Assis Chateaubriand (1892-

1968), que também entrou em campo com diversas

publicações, através dos Diários Associados, mais tarde

fundaria outra mídia no país: a televisão. Os quatro editores

concorreram entre si na disputa pelo mercado, mas,

juntos, combateram a intensa campanha difamatória às

HQs, orquestrada pela sociedade e imprensa da época, que

viam grandes malefícios na leitura do gênero.

Toda essa história começou na Itália, no final dos anos

trinta, quando o líder fascista Benito Mussolini proibiu a

entrada de quadrinhos dos Estados Unidos (EUA), no

país. A partir desse momento, posturas cada vez mais

agressivas e contrárias aos quadrinhos se manifestariam

em todas as partes do mundo. No Brasil, representantes

da sociedade civil, como padres, educadores, intelectuais

passaram a atacar publicamente as HQs, através de artigos

na imprensa, os quais alertavam a todos sobre o “perigo”

que representavam os gibis; diziam que os mesmos prejudicavam

o rendimento escolar, ofereciam maus exemplos,

estimulavam a violência, ou seja, influenciavam a juventude

da forma mais negativa. Nesse contexto, o psiquiatra

norte-americano Fredric Wertham, assustou o mundo ao

defender a ideia de que os gibis levavam ao crime, à violação

da lei, à prostituição e ao homossexualismo.

Assim, uma intensa campanha contra as HQs se de-

senvolveu e os gibis chegaram até a serem queimados em

praça pública, numa atitude de extrema intolerância aos

quadrinhos; a censura ao gênero se tornou obrigatória e

listas de “títulos proibidos” correram o país. Em Teresina,

o jornal católico O Dominical divulgou lista de revistas e

jornais, os quais os católicos não poderiam ler, sob recomendação

do Departamento Nacional de Defesa da Fé e

da Moral; os títulos abrangiam desde revistas de fofocas

e bastidores do rádio e do cinema, consideradas indecentes,

até as infantis de quadrinhos que eram desaconselháveis

para crianças, pois, segundo o pensamento corrente,

as mesmas estimulavam o crime e perturbavam a fantasia.

Foi neste cenário que as HQs se desenvolveram e se tornaram

um fenômeno, conquistando milhões de leitores

por onde passavam, apesar de tudo que se dizia contra

elas, pois não foi por acaso que várias gerações cresceram

lendo Capitão Marvel, Tarzan, Fantasma, Super-

Homem, Batman, Homem-Aranha, Pato Donald, Mickey

Mouse, Luluzinha, Tio Patinhas, Zé Carioca, Mônica,

Corto Maltese, Mulher Maravilha, Thor, Hulk, Flash

Gordon no Planeta Mongo, Dick Tracy, Asterix, Zorro,

Mandrake, Betty Boop, O Espírito, Zagor, Tex Miller,

Zas Tras, Pererê, Shazam! Gato Felix, Bronco Piler,

Brucutu, O Príncipe Valente, X-9, o detetive, Jim das

Selvas e tantos outros. Na verdade, os quadrinhos, acabaram

se tornando a cartilha de “bê-a-bá” para muita

gente, embora não fossem plenamente aceitos na escola.

Hoje, felizmente a realidade mudou e as HQs ganharam

força e respeitabilidade também no ambiente escolar.

DIVULGAÇÃO

17

Desde 2007, os quadrinhos se transformaram em política

de governo, quando 14 obras entraram no Programa Nacional

Biblioteca da Escola (PNBE). Desde então, o número

cresce e atualmente já chega a mais de quinhentos

títulos, ou seja, as HQs romperam a barreira do preconceito

social que sempre as cercaram e conquistaram de

vez o espaço escolar. Se antes elas chegavam escondidas

nas mochilas das crianças à escola, porque eram vistas

como subversivas pelos professores, hoje ganham lugar

de destaque até em livros didáticos, pois se tornou um

dos recursos preferidos dos autores, para melhor explorar

a aprendizagem. Do mesmo modo, diversas editoras

já produzem livros paradidáticos, inteiramente com o

formato e a linguagem dos quadrinhos, como a Coleção

Literatura Brasileira em Quadrinhos (Ed. Escala Educacional),

que reúne grandes clássicos da Literatura.

Assim, a leitura de gibis e a sua presença na escola

contribuem para que os pequenos leitores desenvolvam

o domínio dessa habilidade, com prazer, exercitem

mais a criatividade, enriqueçam a aprendizagem e,

desse modo, ampliem conhecimentos. Tudo isso, possibilita

ao educando (que já é consumidor de HQs), a

construção de diversas leituras e formas de ler o universo

ao seu redor, ou seja, as HQs interferem positivamente

na formação de leitores, mais que isso, na

formação de leitores críticos.

Mas, o que realmente conquista o leitor de quadrinhos

e faz dessa mídia artística e cultural uma autêntica

fonte de informação e conhecimento? Um fator que concorre

decisivamente para isso é a linguagem própria dos

quadrinhos, que se apóia no código escrito e gráfico. Ao

lidar com a palavra e a imagem simultaneamente, as

HQs desenvolvem uma narrativa que pode obedecer a

ritmos diferentes de ação e disposição na página. Além

disso, os gibis lançam mão de diversos símbolos, sonoros

e visuais, que pontuam toda a narrativa e exige uma

sólida compreensão leitora, ou seja, a leitura de HQs

oferece um aprendizado essencial e que permanece por

toda a vida. Assim, evoluir desse estágio para outros níveis

de leitura, como jornais ou livros, não será nem um

pouco difícil.

Portanto, não é compreensivo que as HQs ainda

sejam alvo de determinadas polêmicas. Em 2009, o

caso da adoção de um livro em quadrinhos para crianças

do Ensino Fundamental em São Paulo provocou

estranhas reações de autoridades e da mídia em geral,

comprovando, mais uma vez, que o desconhecimento

das HQs, de sua história, produção e sua importância

enquanto mídia artística e cultural fez reacender a

chama do preconceito, que tanto envolveu os gibis

durante sua trajetória. Na verdade, o caso demonstrou

falta de bom-senso por parte dos responsáveis pela

adoção, pois o livro em questão era dirigido ao público

adulto e não ao infantil; a ideia de que os gibis

são apenas para crianças é um erro, as HQs se dirigem

a todas as faixas etárias, possuem públicos específicos

de leitores entre crianças, jovens e adultos.

Assim, é preciso conhecer o universo dos quadrinhos,

suas peculiaridades, formatos e linguagem para se

apropriar desse veículo e explorá-lo corretamente,

afinal a leitura de gibis exerce

“superpoderes” sobre a aprendizagem

e representa excelente recurso

de ensino. A censura a esta mídia,

realmente, não está no gibi.

Angely Costa Cruz

Bibliotecária Esp. do Centro de

Estudos Superiores de Timon - Universidade

Estadual do Maranhão

angely@colegioglauciacosta.com.br


18 TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

A MENSAGEM DO SALMO: O EVANGELHO SEGUNDO JÚLIO ROMÃO DA SILVA

A Mensagem do Salmo (Saga dramática do Cristianismo),

de Júlio Romão, foi publicada e encenada pela primeira vez

em 1967, no Rio de Janeiro. O Brasil vivia a crise política

que se instalara com o golpe militar de 31 de março de 1964.

A história da vida de Romão e a de Cristo se assemelham em

vários pontos. Os dois são de origem humilde, filhos de operário

e carpinteiros, respectivamente, na juventude. Júlio é

negro. Cristo é judeu. Ambos descendem de povos que foram

vitimados pela violência dos sistemas de escravidão e de preconceito

racial. Sob a perspectiva da escrita afro-descendente,

Júlio Romão recria os Evangelhos bíblicos de Mateus,

Marcos, Lucas e João, que, através de parábolas contam a

Saga do Cristianismo e a de Jesus. A ação dramática se inicia

com a narração do nascimento de uma criança pobre - na

“manjedoura” -, agasalhada ao humilde presépio de palha. As

vozes do “Coro”, no “Prólogo” ou início da peça, anunciam

a “Boa Nova”, a chegada do Filho de Deus ao mundo, cujas

vozes são entrecortadas pelos gritos e exclamações dos convertidos

pela anunciação do Anjo divino: ”CORO - I FIGURA

FEMININA (numa extremidade do proscênio) / Da palha

que o boi comia / No chão estrumoso, / Cheirando a esterco,

O ninho moldou-se” (SILVA, 2007)

A música, o lirismo, a melodia, as palavras simples

dos versos que compõem o “Coro”, transmitem o cheiro,

arquitetam, desenham, pintam o

lugar, a atmosfera física e espiritual

do espaço improvisado

e humilde do nascimento

de uma criança,

ante a presença dos

pais e de animais,

estes: “A cabra”, “A

vaca”, “O bezerro”,

compondo a cena. O

“Coro” lembra as doces

canções de ninar e as histórias de fadas

que os nossos pais, tias, avós cantaram ou contaram para

acalantar o nosso sono quando éramos crianças. A transculturação

desse modo de cantar e narrar reterritorializam

no Novo Mundo a tradição das narrativas orais que migraram

da África através da “Porta do Não Retorno” (BRAND,

2002), no porão do navio negreiro, e pulverizaram com

seus mitos, experiências, sabedorias e beleza as narrativas

e as canções das cidades, campos e lugares longínquos das

Américas. O cativo africano não chegou de alma vazia,

trouxe a riqueza de sua cultura: “... a história social do

Negro não começou na América. O Negro foi trazido de um

meio social definido - a vida polígama do clã, sob o comando

do chefe e a poderosa influência do sacerdote. Sua

religião era o culto à natureza, com uma profunda crença nas

influências invisíveis circundantes, boas e más”, (DU BOIS,

1999, 245-6).

A Mensagem do Salmo é uma escrita híbrida, creolisada,

que significa a dinâmica, a circularidade da cultura negra em

Diáspora e seu diálogo com outras culturas: “...a crioulização

supõe que os elementos culturais colocados em presença uns

dos outros devam ser obrigatoriamente “equivalentes em

valor” para que essa crioulização se efetue realmente”

(GLISSANT, 2005, p.28). Isso propicia os modos de narrar e

conceber um Cristianismo recriado à imagem do próprio

negro e ressignificado nas Américas. A escrita de Júlio

Romão da Silva desloca a ideia do Cristo puramente ocidental,

reinscrevendo-o num espaço aberto à relação com a religiosidade

do outro, em simbiose com a cultura da diáspora

africana. W. E. B. Du Bois discorre sobre a herança religiosa

dos nossos antepassados negros durante os ritos evangélicos

e o diálogo que se estabeleceu entre as religiões desses africanos

e o Cristianismo no Novo Mundo: “Assim, como bardo,

médico, juiz e sacerdote, dentro dos estreitos limites impostos

pelo sistema escravista, ergueu-se o pregador negro e, sob seu

comando, surgiu a primeira instituição afro-americana, a

igreja negra. De início, essa igreja não era cristã, tampouco

claramente organizada; em vez disso, constituía, nas diferentes

plantações, uma adaptação e uma mistura de ritos pagãos,

sendo vagamente designada como vodu. A associação com os

senhores, o esforço dos missionários e motivos de conveniên-

cia deram a tais ritos um verniz inicial de cristianismo e, após

o lapso de muitas gerações, a igreja negra tornou-se cristã”

(DU BOIS, 1999, p. 248).

N’A Mensagem do Salmo,

Júlio Romão apresenta o teatro

histórico, religioso e engajado

afro-brasileiro que conclama

os direitos

universais do homem e

da mulher: igualdade,

liberdade e fraternidade

para todos os

povos, no tom profético

das parábolas

do Evangelho, o

projeto

literário de Romão

dialoga com as

ideias marxistas dos escritoresafro-descendentes

do movimento da

Negritude dos anos 30/40

dos países do Caribe e da

África, como Aimé Césaire da

Martinica, Senghor do Senegal,

dentre outros. Numa entrevista

ao informativo Sapiência, de

março de 2008, o autor esclarece:

“Usei o salmo (sic) como

poesia para criticar o que acontecia

na ditadura [...]. A peça foi

produzida e estreada no Rio de

Janeiro e Rio Grande do Sul, com

a direção de Aldo Calvet. Inspireime

no simbolismo das parábolas

de Cristo e remeti para o nosso

tempo verdades eternas trazidas ao

mundo há mais de dois mil anos

pelo esperado Rei dos Judeus”

(SILVA, 2007, p.7).

O texto se constitui de “Prólogo”,

DIVULGAÇÃO

“Sequências” e Epílogo. O “Coro” representa o povo convertido

e crente na Palavra de Cristo, cujas vozes fazem a intermediação

das falas das personagens e perpassam todas as

cenas: as 20 “Sequências” e o “Epílogo”. A Mensagem reatualiza

o Evangelho cristão pronunciado há dois mil anos,

agora reescrito e montado noutro contexto ou espaço histórico,

político e cultural. No Brasil, em 1967, o país vivia sob

o regime do governo militar, que usava da estratégia de patrulhar

e coibir a liberdade de expressão e a democracia política

sonhada pelos brasileiros, inspiradas pela Palavra

insubmissa de agremiações estudantis, intelectuais, artistas,

setores progressistas da Igreja Católica e cidadãos insatisfeitos.

Na narrativa dramática, a criança pobre que nasce na

manjedoura, é “O ESPERADO”, o hábil semeador da Palavra

de Deus. Ele é aquele que cura, ressuscita, encanta e seduz

os humildes com a Palavra e é aclamado “Rei dos Judeus”.

Por isso julgado pela lei do Estado romano e dos homens

afortunados ao martírio da cruz – à crucificação: “CAIFÁS -

Ele é um bruxo. Além do mais, subverte os costumes e ilude

as criaturas ingênuas, para corrompê-las. Os

meus próprios escravos, tanto homens

como mulheres, depois de ouvirem-no

falar, tornaram-se

idiotas, rabugentos e petulantes.

Antes tinham os

seus deuses e os alimentavam.

Agora, repudiamnos

por um deus que não

conhecem” (SILVA, 2007,

p.43).

O presente texto apóia-se na tradição

dramática ocidental e nas culturas de origem

africana, como na “chamada e resposta” ou co-réplica

(call-response) da herança griô em Diáspora, este, poeta,

cantor e músico da tradição africana. Tal estratégia se

apóia na voz do solista e na resposta do “Coro” da peça,

este representado em geral pelas personagens convertidas

ou curadas pela Palavra de Jesus Cristo. Em particular,

o griô é o poeta. Ele narra as experiências vividas pelo

grupo e indivíduos ilustres da comunidade, ocupando a função

social de notável relevância enquanto acervo e guardião

da memória oral de sua comunidade e às vezes

também exerce a o papel de sacerdote: “... ambos, o griot e

o pastor compartilham de hábitos linguísticos, culturais e

valores dos seus respectivos ouvintes. Em última análise,

dever-se-ia estar consciente do fato de que nos sistemas religiosos

africanos tradicionais é geralmente difícil, senão

impossível, dissociar música e rituais religiosos: os dois

andam de mãos dadas” (DIOP, 1999, p.123, tradução nossa).

A Literatura Afro-Brasileira é uma escrita inacabada,

um discurso poético em “construção” e de constituição híbrida,

que se configura como tal através do diálogo entre

as culturas de diferentes povos e etnias africanas e o entrecruzamento

dessas narrativas com as culturas europeias,

indígenas, árabes, asiáticas na diáspora negra (SOUZA,

2006). Este lugar de encruzilhadas, de memórias fragmentadas

e re/criação de novas identidades culturais

abrigaram experiências e narrativas daqui e de alémfronteiras,

que são ressignificadas na escrita afro-descendente,

tradição africana: a performances dos mestres

de cerimônia da cultura popular, a herança griô, a música,

as canções, os contos maravilhosos, as narrativas

míticas, as narrativas de memória ou de experiências vivenciadas

pelos antepassados,

pessoas da comunidade, parentes

ou pelo próprio escritor

negro. Essa escrita recriada

nas forjas e bigornas da Diáspora

negra dispensa essencialismos

e purismos do cânon

literário ocidental.

Elio Ferreira de Souza

Prof. Dr. da UESPI

elioferreir@yahoo.com.br


TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

CIÊNCIAS HUMANAS

A CIENTIFICIDADE DO TURISMO

Há muito se discute no meio acadêmico a problemática do

turismo frente ao reconhecimento como ciência. A falta de consenso

se deve ao fato de ser visto como uma atividade prática

que envolve elementos reais ou potenciais, como os destinos

turísticos e os turistas, e de ser um fenômeno dependente de

outras ciências, produzindo uma relação de grande amplitude

e complexidade.

A palavra ciência tem sua origem no Latim e significa conhecimento.

Define-se como sendo um “conjunto de conhecimentos

socialmente adquiridos ou produzidos, historicamente

acumulados, dotados de universalidade e objetividade que permitem

sua transmissão, e estruturados com métodos, teorias e linguagens

próprias, que visam compreender e orientar a natureza e

as atividades humanas” (DEMO, 2005 p.15).

Desta forma, vários são os autores que defendem a compreensão

do turismo como uma não ciência, sendo Boullón

(1990) um desses autores, que apresenta o entendimento de que

as ideias que se derivam dos estudos em turismo estão desligadas

entre si, principalmente as que são geradas em outras áreas do

conhecimento humano. Este autor afirma, ainda, que o turismo

não nasceu de uma teoria, mas de uma realidade que foi surgindo

de maneira espontânea e que se configurou a partir das descobertas

em outras áreas. Mas, o que dizer da cientificidade do turismo

para caracterizá-lo como ciência?

Sabe-se que o estudo do turismo tem passado nos últimos

anos por um processo de evolução e consagração de teorias e que

muito do conhecimento adquirido pode ser considerado como

proveniente do desenvolvimento de pesquisa científica e de métodos

racionais aplicados à observação empírica. Os estudos que

são desenvolvidos na atualidade em universidades públicas e na

iniciativa privada já se valem do fornecimento de elementos para

verificação e contestação das hipóteses apresentadas. Portanto,

esses estudos já proporcionam provas indicativas, descrevem

como foram os procedimentos de construção do novo conhecimento

e informam como se deve proceder para achar outros.

Mas, mesmo com todos os indícios elencados acima, que

fazem do turismo candidato nato ao reconhecimento como ciência,

grande parte dos pesquisadores ainda concebem o turismo

apenas como saber. A diferença entre ciência e saber é de que a

primeira, ao contrário do segundo, tem um objeto definido de estudo,

utiliza-se de métodos de pesquisa que permitem a verificação

dos resultados e, por tratar de aspectos regulares passíveis de

detectar, possibilita realizar prognósticos relativamente seguros.

Já o saber, no entanto, sustenta-se nas experiências que já passaram,

apesar de cumulativas, não necessariamente permitem a verificação,

o que não provém certezas.

Mesmo com correntes de pensamento fortemente fundamentadas

e contrárias ao reconhecimento do turismo como ciência,

autores como Jean-Michel-Hoerner (2003), que publicou suas

ideias sobre a ciência do turismo ou, como ele intitulou, a turismologia,

insistem nos argumentos que revelam o desenvolvimento

do estudo do turismo para o grau de ciência, como: a

turismologia poderá estudar o que estiver relacionado com o objeto

de estudo “viagem”, desde a sua concepção, a abrangência

do mercado de viagens, o seu desenvolvimento e suas consequências,

os contextos sociais e culturais, as relações entre os turistas

e as sociedades receptoras, ou seja, a turismologia, no entendimento

de Hoerner, será uma ciência humana, orientada para o estudo

da viagem e aplicada às profissões relacionadas com o

turismo e a hotelaria. Hoerner finaliza sua argumentação expondo

que o turismo abarcará um campo vasto de estudos, mas não diferente

de outras ciências como a geografia, a sociologia, a economia,

a história, entre outras.

Com tantas contradições e parca compreensão da complexidade

do fenômeno do turismo, a cientificidade no estudo do tu-

COMUNIDADE QUILOMBOLA E O USO DOS RECURSOS VEGETAIS NO PIAUÍ

O termo quilombola antigamente era utilizado para designar

escravos fugitivos das senzalas e que se refugiavam na

mata em áreas de difícil acesso. O Quilombo dos Palmares

era o mais conhecido, tendo Zumbi como o líder maior. Atualmente,

segundo a Associação Brasileira de Antropologia –

ABA, o termo quilombo é definido como um conjunto de pessoas

que desenvolveram práticas cotidianas de resistências na

manutenção e reprodução de seus modos de vida característicos

e na consolidação de um território próprio.

O Artigo 68 da Constituição Federal abriu um novo horizonte

para as comunidades remanescentes de quilombo, ao estabelecer,

posteriormente, por meio de Decreto, a necessidade

de restituir os territórios tradicionalmente ocupados pelas comunidades

e assegurar a sua titulação definitiva como território

de uso comum. O Decreto Lei Federal Nº 4.887/2003 define

que a caracterização dos remanescentes das comunidades dos

quilombos será atestada mediante auto-definição da própria comunidade

e denominação do seu território, sendo o INCRA o

órgão responsável pela demarcação do território.

No Piauí, existem mais de 100 comunidades remanescentes de

quilombo, porém apenas 38 são reconhecidas pela Fundação Cultural

Palmares, órgão responsável pela expedição da Certidão de

Autorreconhecimento como comunidade quilombola.

No mapeamento e caracterização sociocultural realizado em

oito comunidades negras rurais do Piauí, conduzido pelos pesquisadores

Francis M. Boakari e Ana Beatriz M. Sousa, em 2006, ligados

ao IFARADÁ (Núcleo de Pesquisa sobre Africanidade e

Afrodescendência da UFPI), foi constatado que o histórico das comunidades,

suas atividades socioculturais e a vida cotidiana são

muito parecidos, sendo que o ponto comum reside na dificuldade

de acesso aos seus locais de residências, haja vista muitas se encontrarem

escondidas em grotões, chapadas e vales, característica

dos antigos quilombos. A atividade de destaque consistia da prática

religiosa católica, além de danças, como o reisado, futebol nos fi-

DIVULGAÇÃO

nais de tarde e as conversas nas portas das casas.

Quanto ao uso da vegetação por comunidades quilombolas no

Piauí, temos estudos de caso em três comunidades; primeiro foi realizado

em Amarante na Comunidade Mimbó, por Jeane Abreu, em

2000, que verificou a utilização de 73 espécies, distribuídas em oito

categorias de uso (medicinal, construção, tecnologia, alimento humano,

alimento animal, combustível, místico/religiosa e venenosa).

A autora conclui existir entre os Mimbós um apreciável nível de

conhecimento sobre a utilidade das espécies vegetais do cerrado,

os quais reconhecem dentro de seu território duas fitofisionomias

distintas, a Chapada (cerradão) e o Baixão (cerradão/mata ciliar),

de onde procede grande parte dos recursos por eles utilizados.

Os outros dois estudos foram realizados dentro do programa

de pós-graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente PRO-

DEMA/UFPI (Mestrado e Doutorado), orientados pela Profa.

Dra. Roseli Barros, que trabalha na área de etnobiologia de comunidades

rurais, pesqueiras e quilombolas.

Em 2005, Eldelita Franco verificou a diversidade etnobotânica

no Quilombo Olho D’água dos Pires, em Esperantina, reunindo

informações sobre 177 etnoespécies, pertencentes a 57

famílias botânicas, agrupadas em doze categorias de uso: medicinal,

alimentação, madeira, forrageira, ornamental, artesanal,

veterinária, mágico-religiosa, comercial, fibra, higiene e energética.

As etnoespécies indicadas pelos quilombolas estão presentes

em área de vegetação nativa de transição entre o cerrado

e a floresta decidual mista e em outros locais, como quintais,

roças e capoeiras. Segundo a autora, a comunidade utiliza a vegetação

nativa como fonte principal de aquisição de matériaprima,

e o número de espécies úteis encontradas indica a

importância dos recursos vegetais para a sobrevivência do

quilombo; ressalta o alto nível de conhecimento que os membros

mais antigos da comunidade detêm sobre o ambiente em

que vivem, e considera a necessidade urgente o repasse de

conhecimento aos membros mais jovens, para que o saber

19

rismo encontra resistência de outras ciências ligadas ao tema,

pois tentam, cada uma, aprofundar as bases de uma teoria transferindo

os seus modos de abordagem.

Assim, o termo turismologia, embora corresponda etimologicamente

ao discurso sobre o turismo, veicula uma

imagem científica, mas ainda pretensiosa, pois, transforma

o turismo em um campo único do saber, omitindo a natureza

multidisciplinar.

Vicente de Paula Censi Borges - Prof. Msc. da UFPI

vpborges@ufpi.edu.br

José Pedro da Ros – Prof. Msc. da UFPI

ros@ufpi.edu.br

tradicional adquirido das gerações anteriores possa ser perpetuado

e valorizado entre as gerações futuras.

E por último, em 2008, Fábio Vieira realizou o levantamento

de 225 espécies úteis em uma área de transição vegetacional entre

a Caatinga e o Cerrado, na Comunidade Quilombola dos Macacos

em São Miguel do Tapuio, identificando 13 categorias de uso, destacando-se

principalmente os usos medicinais, forrageiro, alimentício,

melífero e madeireiro. Destacam também uma preocupação

por parte dos moradores em preservar determinadas espécies, por

considerarem importantes na manutenção da tradição e, por conseguinte,

entre elas estão duas que aparecem na lista do IBAMA,

na categoria vulnerável: Myracroduon urundeuva Allemão

(aroeira) e Astronium fraxinifolium Schott (gonçalo-alves); outra

espécie que vem recebendo atenção por parte dos quilombolas é

a Amburana cearensis (Allemão) A.C.Sm. (imburana-de-cheiro),

por considerarem uma espécie com alto valor, principalmente madeireira

e medicinal. Esta preocupação é também verificada na

utilização das espécies que crescem nas áreas de pousio e de galhos

caídos, para o uso como lenha e fabricação de carvão vegetal,

conservando, assim, as áreas de vegetação nativa.

Por fim, comparando os dados dos três estudos, observamos

que as comunidades quilombolas estudadas

no Piauí têm em comum a

vegetação nativa como fonte importante

de recursos, para a sobrevivência

das mesmas.

Fábio José Vieira

Doutorando em Desenv.

e Meio Ambiente – UFPI,

fabao.bio@hotmail.com

Roseli F. Melo de Barros

Profa. Dra. da UFPI

rbarros.ufpi@yahoo.com.br


20 TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

RAWLS: A JUSTIÇA COMO EQUIDADE E A JUSTIFICAÇÃO COERENTISTA

No cenário anglo-americano, três justificativas eram correntes

na época em que Rawls iniciou sua vida acadêmica: o

fundacionismo moral, o intuicionismo e o utilitarismo. Contrapondo-se

a esse cenário, Rawls passa a utilizar na sua teoria o

procedimento coerentista da posição original e do equilíbrio reflexivo

para justificar princípios e juízos morais. Em outras palavras,

o objetivo da justiça como equidade é elaborar

princípios de justiça justificados. Justificar significa mostrar

como seria possível a adoção de determinados princípios de justiça

mais razoáveis em relação a outros. Para tanto, é necessário

demonstrar que pessoas racionais, em uma situação de equidade,

escolheriam determinados princípios de justiça por serem

mais razoáveis, em detrimento de outros encontrados em diversas

concepções de justiça. Sob essa ótica, o procedimento rawlsiano

é elaborado por meio de um sistema que harmoniza o

mecanismo da posição original e o que ocorre em seu interior:

o equilíbrio reflexivo. Este, por sua vez, não possibilita uma inferência

de uma crença em relação à outra, ou outras, mas reflete

a racionalidade de um ajuste de avanços e recuos entre

juízos ponderados e princípios de justiça. Tal ajuste é simétrico,

onde cada crença tem o papel de suportar e de ser suportada

pelas crenças num mesmo sistema.

Na posição original são especificadas as condições formais

para a elaboração dos princípios de justiça, dado que oportuniza

o esclarecimento público no qual as deliberações são efetuadas

por meio de restrições e estabelece os termos justos de cooperação,

formalizando as convicções ponderadas de pessoas razoáveis

de maneira equitativa com o intuito de instalar os

princípios de justiça. Sob essa visada, a posição original, embora

sendo um critério formal de representação, utiliza os juízos

ponderados dos indivíduos para a justificação dos princípios:

por esse motivo, o procedimento da posição original encontrase

vinculado intrinsecamente com o mecanismo do equilíbrio

reflexivo. Sob outro prisma: a ideia central da posição original

é tentar impedir que concepções individuais vigentes sobre os

conceitos de bem afetem os princípios eleitos. As partes interessadas,

nessa situação inicial, são iguais, isto é, têm os mesmos

direitos no processo da deliberação dos princípios. Para

tanto, podem propor e apresentar razões, a razoabilidade, pois

possuem as suas concepções do bem e a faculdade do senso de

justiça. No entanto, esses princípios têm que ser coerentes com

os juízos refletidos, isto é, estar em equilíbrio, o que significa

ter coerência: o recurso à coerência entre juízos morais considerados

e os princípios de justiça aponta para a possibilidade

de justificação coerentista, na teoria da justiça como equidade.

No entanto, somente a característica da coerência não é um distintivo

suficiente para que se possa afirmar tal coisa, porquanto

o fundacionismo moderado também possui tal propriedade.

O argumento mais relevante para determinar o procedimento

do equilíbrio reflexivo amplo, enquanto modelo coerentista

de justificação é, mais especificamente, o caráter

dinâmico que ele encerra, e o não apelo às crenças básicas, pois

no equilíbrio reflexivo amplo é possível observar avanços e recuos,

podendo, com isso, até mesmo ser alterado todo o conjunto

de julgamentos morais iniciais. Por conseguinte, esse

movimento progressivo e regressivo que gera equilíbrio ou

coerência entre princípios e convicções morais no interior da

posição original, poderia garantir um suporte argumentativo

para afirmar a existência do procedimento de justificação coerentista

na teoria da justiça como equidade, porquanto a característica

peculiar do coerentismo é aquela que afirma que as

crenças de um mesmo sistema devem ter um apoio mútuo entre

elas, não existindo, assim, nenhum aspecto a priori nem crenças

básicas ou fundacionais. Portanto, a sutileza por meio da

qual funciona o mecanismo da posição original e do equilíbrio

reflexivo pode ser relacionada com as características do coerentismo

emergente. Em tal mecanismo, a ideia de justificação

pública está associada ao fato de que o pluralismo razoável

presente nas sociedades bem-ordenadas e os juízos políticos

são justificados por meio dos cidadãos que compõem uma sociedade

bem-ordenada por meio de uma razão publicamente

compartilhada e que tem como pontos fixos provisórios as

ideias contidas na cultura política. Para tanto, tais juízos políticos

não necessitam ser verdadeiros, apenas razoáveis. Por

esse motivo, a justificação pública, alcançada por meio do

equilíbrio reflexivo, ocorre pela coerência entre juízos particulares,

convicções gerais e os princípios de justiça. Outro aspecto

relevante para se compreender, na justiça como equidade,

a utilização de uma justificação do tipo coerentista é a relação

entre o equilíbrio reflexivo concomitante com a distinção entre

o razoável e o racional: Rawls concebe a razoabilidade como o

princípio da razão pública. Esta é uma forma de justificação pública

que não faz apelo para nenhuma ideia transcendente ou a

algum conceito além do que pode ser racional ou razoável e

consensualmente aceito por cidadãos livres e iguais. Sendo

assim, a justificação rawlsiana, pelo fato de não apelar às instâncias

exteriores tal como um paradigma, é do tipo coerentista;

não fosse assim, a justiça como equidade teria uma justificação

fundacionista moderada, resultando em algo análogo a “alinhar

tropas e intimidar o outro lado (... ). O pensamento que se encontra

por trás disso é que ter caráter é ter convicções firmes e

estar pronto para proclamá-las de modo desafiador aos outros

”. Por conseguinte, se encarada dessa forma, tal aspecto seria

contrário, por exemplo, à concepção de pessoa como livre, autônoma

e igual, e, em virtude disso, a teoria de Rawls se identificaria

com a sua própria crítica. Em contrapartida, o recurso

na justiça como equidade às ideias implícitas na cultura de uma

sociedade democrática e a utilização do procedimento representacional

da noção de posição original destaca a ênfase que a

teoria rawlsiana concede à característica da liberdade e da autonomia

para as partes, pois, na posição original, as partes que

a compõem, envoltas pelo véu de ignorância, seriam mutuamente

desinteressadas de sua situação — embora lhes fossem

concedidas algumas informações gerais. Por conseguinte, a ausência

de dados sobre a posição dos agentes na sociedade produziria

uma imparcialidade no momento da deliberação: é

dessa forma que é considerada a justiça tal como equidade, ou

seja, possibilitar a conjugação da liberdade com a igualdade,

não violando nenhum acordo sobre as liberdades básicas, assegurando

uma concepção de autonomia ampliada ao político

como aspecto constituinte das sociedades bem-ordenadas. Em

contrapartida, na justiça como equidade não é constatado nenhum

aspecto conceitual na teoria que seja considerado como um objeto

privilegiado da investigação, do contrário seria preciso admitir

a hipótese de um paradigma único — fato que traria

prejuízos incomensuráveis ao conceito de equidade e, em decorrência,

à concepção de justiça. Esse fato seria contrário à meta

da teoria rawlsiana: fornecer uma base razoável para a justificação

das instituições democráticas. Sob essa ótica, se a justiça

como equidade se utilizasse de crenças

fundacionais, isso significaria que

nela não se encontraria presente uma

justificação do tipo coerentista. Mas

contrário a isso, o próprio Rawls

afirma que “nenhuma concepção

moral geral pode fornecer um fundamento

publicamente reconhecido para

uma concepção de justiça”.

Elnora Maria G. M. Lima

Profa. Msc. da UFPI

elnoragondim@ yahoo.com.br

O LUGAR DA MORTE: MARCADORES IDENTITÁRIOS NOS RITUAIS FÚNEBRES

Pensemos em cinema no Piauí: temos de um lado o filme Cipriano

(dirigido por Douglas Machado, 2004), a partir da narrativa

de um senhor morador do interior piauiense que sente a morte chegar

e deseja ser enterrado de frente para o mar. Percorrendo territórios

sagrados e profanos, criam-se diálogos e possibilidades de

um entendimento com a morte. De outro lado, temos o filme cômico

Ai, que vida (dirigido por Cícero Filho, 2008) , num contexto

em torno de uma funerária que vende caixões para a prefeitura de

forma ilícita, onde o ritual de passagem acontece em um rito fúnebre.

Diante da postura desrespeitadora do prefeito embriagado,

a mulher de um vereador resolve se candidatar ao cargo de prefeita.

Diante desse exemplo – que poderia ser qualquer outro, tal

qual a saga de Ataliba, o vaqueiro (CASTELO BRANCO, Francisco

Gil, 1878) – a postura da identidade piauiense ganha sentido

na sua ligação com a morte. Fazendo parte de sua marca, desde o

respeito aos falecidos, nas orações ou na visita ao cemitério, local

onde não se guardam apenas corpos, mas toda uma memória nas

lápides, nas formas de conceber cada jazigo, túmulo. Alguns dos

velórios se caracterizavam pela realização na casa do falecido,

com o corpo estendido no meio da sala principal, num caixão

construído pelos familiares. Pessoas em volta do morto, elegantes;

com suas melhores roupas. Vestidas de preto, apenas a viúva e as

filhas. As mulheres mais velhas, de hora em hora, rezavam um

terço com a função de encomendar a alma do falecido aos cuidados

das divindades (desde outros mortos até Anjos, Santos e

Deus), em harmonia a um choro discreto e incessante, lembrando

carpideiras. Muito café para que as pessoas aguentem a vigília pela

madrugada. No lado de fora da casa, outros riem, conversam,

“bebem” o morto: se socializam.

A simbologia da morte nos rituais fúnebres está ganhando

nova configuração, dentro dos contextos culturais das sociedades

modernas, e mesmo que existam tantas formas diferentes de lidar

com o morto – e não só com a morte -, a “padronização” dessas

experiências ritualísticas impossibilita o desencadear das exéquias.

Quem em Teresina ainda vela seus mortos em casa? Talvez a população

empobrecida, provinda de uma desigualdade socioeconômica,

e por isso, impedida de participar dessas novas

configurações, restando-lhe apenas o plano- funeral. Negar a

morte é próprio de nossa civilização tecnológica, o que nos leva a

não tolerar sua ritualização, banindo o moribundo aos cuidados

médicos, e ao morrer, delegamos os tratos do corpo às casas funerárias,

responsabilizadas desde o deslocamento do hospital - pois

já não se morre em casa, procurando prolongar ao máximo a

(sobre) vida dos moribundos - banho, vestimentas, maquiagem,

atribuindo ao cadáver um ar “saudável” para a despedida – e não

a última, já que contamos com as visitas no dia de finados. Os velórios

são realizados nos ambientes propícios das casas funerárias,

mostrando o distanciamento daquela morte domesticada (ARIÈS,

p. 1977), conduzida pelas relações próximas de parentes e amigos,

enquanto fenômeno público, composto por elementos de estratégia

e solidariedade familiar.

Rituais fúnebres estabelecem comportamentos; condutas atra-

vés de símbolos tão contaminados de significados, facilmente

identificados nos piauienses, como celebradores (celebra- dores)

da morte – tal qual símbolos que estereotipam uma identidade,

como na Batalha do Jenipapo, que em sua significância de produção

referencial de uma piauiensidade, consiste em um cemitério

representando o heroísmo desse povo. Os rituais fúnebres, enquanto

performances nos revelam aspectos fundantes de uma cultura,

enraizados na memória e nos fazeres da tradição, nos

socializam, refletindo nesses acontecimentos, os traços identificadores

de uma sociedade: os próprios marcadores identitários.

Identidade é tudo que nos faz pensar em “nós-mesmos” e

“nós-outros”, (re)inventando tradições; (re)fazendo o imaginário.Identidade

não é conceito, porque não pode ser definida, pois

é “múltipla, inacabada, instável, sempre experimentada mais

como uma busca que como um fato” (AGIER, 2001, p. 10). Mas

pode ser narrada – e nas narrativas piauienses, encontramos o

lugar da morte por entre fotografias, preces, semanas-santas, literatura,

religiosidade, enfim, nos gestos

e fazeres; nos ditos e feitos: “Esses homens

sabiam honrar a morte” (MANN,

1953, p.130).

Jaqueline Pereira de Sousa

Mestranda em Antropologia

e Arqueologia na UFPI

jaqpsousa@hotmail.com


TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

A INSERÇÃO, ATUAÇÃO E PERMANÊNCIA DA MULHER NA CAPOEIRA

A pesquisa “A Inserção, atuação e permanência da mulher

nos grupos de capoeira de Teresina-PI: notas etnográficas” é

resultado de um estudo que faz parte do programa

PIBIC/UESPI, da Pró-Reitoria de Pesquisa da UESPI, versão

2008/2009, sob orientação do Prof. Mestre Robson Carlos da

Silva e contou com uma bolsista, Tamara Sobral da Costa Caland,

e uma colaboradora, Eliane Alves Reinaldo, ambas estudantes

do curso de Pedagogia da UESPI.

O campo de estudo se deu nas relações de gênero, enfatizando

investigações sobre a mulher, sua participação e representação

na sociedade, em especial, como se dá sua inserção,

atuação e permanência nos grupos de capoeira.

De acordo com Louro (2001) “gênero”, hoje, diz respeito

aos aspectos socialmente construídos do processo de identificação

sexual, se opondo a “sexo”, que se refere aos aspectos

estritamente biológicos da identidade sexual, se voltando mais

precisamente às desigualdades que dividem homens e mulheres,

com os primeiros se apropriando de uma parte desproporcional

dos recursos materiais e simbólicos da sociedade.

As investigações visaram contribuir para as discussões

acerca do papel da mulher na sociedade, desvelando formas

de preconceitos, estratégias de diferentes tipos de violência

contra a mulher, representações das e sobre as mulheres, dentre

outros aspectos que envolvem e dizem respeito ao universo

do feminino em nossa sociedade, em especial, para

os propósitos da pesquisa, da participação da mulher em

grupos sociais de Teresina e, dentro desse universo, voltando

nosso olhar para os grupos de capoeira. Trata-se de

movimento que, marcado por sua significativa presença

no cenário político-social da história do Brasil, ocupa

lugar de relevância na atualidade, conquistando espaços

nas escolas e universidades de todo país, sendo

objeto de estudo em programas de pós-graduação

em mestrado e doutorado em universidades de renome

no Brasil e no mundo, enfim é cada vez

mais evidente a necessidade e relevância de estudos

e pesquisas sobre os benefícios e as

contribuições da capoeira, inclusive sendo

reconhecida em novembro de 2008, enquanto

patrimônio cultural imaterial

do Brasil pelo IPHAN.

O universo da pesquisa foi

constituído por grupos de capoeira

de Teresina, escolhidos

e organizados por meio de

dois aspectos: grupos

centrais, assim denominados

os grupos de

maior evidência em nossa

sociedade, com maior número

de praticantes, que realiza e promove eventos

de destaque, os chamados “grupos grandes”; e

os grupos periféricos, que possuem pouca relevância

social, realizam somente pequenos eventos,

envolvendo apenas pessoas da comunidade

próxima, com poucos praticantes, são os chamados

“grupos pequenos”.

Dentro desses universos, foram sujeitos

da pesquisa as mulheres praticantes de capoeira,

considerando tanto as com maior

tempo de prática, como as iniciantes,

sendo investigadas sobre suas ações,

escolhas, opções, sua participação,

sua importância dentro do grupo,

sua atuação, as dificuldades

encontradas dentro e fora

do grupo, devido a sua

identidade de “capoeirista”,

suas percepções e

entendimento a respeito

de como os “outros” a representam,

dentre outros aspectos

que foram identificados

como relevantes para a pesquisa. Como instrumento de coleta,

foram utilizados o diário de campo observacional e as entrevistas

semiestruturadas, bem como registros fotográficos e vídeográficos

das experiências vivenciadas durante a pesquisa,

nos momentos de encontros e no cotidiano dessas mulheres em

seus grupos de origem e em possíveis momentos de integração

com outros grupos.

O problema que motivou o estudo girou em torno da indagação

de como se dá o processo de inserção, atuação e permanência

da mulher nos grupos de capoeira de Teresina-PI. A

partir dessa questão efetivamos uma investigação a respeito

de algumas considerações sobre a trajetória da mulher na capoeira,

analisando e interpretando como se dá esse processo,

com uma orientação antropológica, se caracterizando pela natureza

qualitativa, utilizando a observação participante e a entrevista

em profundidade, de caráter etnográfico, em que o

pesquisador se insere nos locais de investigação convivendo

e interagindo diretamente com os sujeitos pesquisados.

Teve como principais referenciais Barbosa (2005), Louro

(2001, 2003), Muraro (1992), Damatta (2000), Priore (2008)

e Silva (2005).

Os dados foram coletados de três formas: registros escritos,

registros fotográficos e entrevistas com aplicação de questionário

presencial, além do registro audiovisual de algumas

rodas de capoeira. Os registros escritos e fotográficos foram

feitos durante os encontros com as mulheres entrevistadas,

buscando, porém, contextualizar as

práticas, os costumes, os rituais, os hábitos,

as formas de organização, dentre outros

aspectos que caracterizem as práticas

exercidas nos grupos, enfatizando a participação

das mulheres.

As análises se debruçaram sobre as

seguintes categorias: inserção (motivo

da procura pela capoeira), aceitabilidade

(reações no interior do grupo), participação

(integração e atuação nas atividades), permanência

(o que a mantém), preconceito

(no grupo e na sociedade) e percepção

(visão de si, a partir da condição de

mulher capoeirista).

Os resultados obtidos

na pesquisa demonstram

que a mulher vai aos

poucos assumindo

funções hierarquicamente importantes

no contexto dos grupos de

capoeira, sem atrelar essas conquistas

aos homens, sejam

seus parceiros ou seus su-

periores (mestres ou professores), porém, com fortes conotações

de que ainda não conseguem exercer posições de

liderança e comando, apesar de algumas contarem com vasta

experiência na capoeira, sendo conhecidas e respeitadas por

seu desempenho e suas conquistas, o que deixa evidente,

ainda, um acentuado “machismo” que insiste em pontuar as

relações de gênero em nossa sociedade. Ressaltamos que não

foram identificados sinais ou rastros que evidenciem que a posição,

representação e identidade das mulheres nos grupos de

capoeira de Teresina participantes da pesquisa, estejam condicionadas

à posição ou local de funcionamento dos grupos,

21

ou seja, independe de serem grupos centrais ou periféricos,

grupos com maior ou menor números de participantes, ou

mesmo de sua representação junto à sociedade teresinense.

Constatamos a existência de um acentuado preconceito

da sociedade em geral em relação às mulheres praticantes

de capoeira, ao qual podemos relacionar o conceito

ainda presente em relação às questões de gênero e que se

constitui em construções culturais que apontam aquilo que

é considerado de homem ou de mulher, tais como os papéis

destinados socialmente para homens e mulheres, o

que pertence à esfera do masculino e do feminino, descortinando

uma concepção que enxerga na construção de gênero

um aspecto natural, ou seja, algo próprio da natureza,

numa clara confusão do biológico com o gênero.

Na própria família são identificadas muitas barreiras

edificadas desde bem cedo na educação das crianças

e que se encarregam de determinar o papel dos meninos

como naturalmente próximos da competitividade, enquanto

as meninas ficam relacionadas aos padrões de

comportamentos de fragilidade e de estética. Neste

sentido, uma prática com fortes conotações de luta

como a capoeira pode ser facilmente considerada como

um esporte agressivo, que não combina com a suposta

fragilidade da mulher e que acaba reforçando entendimentos,

representações, discursos e comentários preconceituosos

e fortemente “machistas” em relação às

mulheres, meninas, jovens e adultas praticantes de capoeira,

mas que, por outro lado, favorece o espírito e a

gana de resistência, de luta e de superação que vão assumindo

enquanto características marcadamente femininas,

próprias do orgulho de pertencimento e

identitário das mulheres contemporâneas.

DIVULGAÇÃO

Robson Carlos Silva

Prof. Msc. da UESPI - bobraizes@hotmail.com

Tamara Sobral da Costa Caland

Eliane Alves Reginaldo


22 TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

BÁRBAROS DE NOBRE SANGUE: ÍNDIOS, CIVILIZAÇÃO E IDENTIDADE NO CEARÁ

O debate sobre a questão indígena no Ceará ganhou notoriedade,

e atualmente é motivo de preocupação na construção

da historiografia cearense. Surpreendentemente, até o ano de

1988, os trabalhos sobre os povos indígenas nesse estado se limitavam

a afirmação de sua completa extinção. Entretanto, a

partir da mobilização das políticas indigenistas, foi possível

detectar a existência, atualmente, de mais de 12 etnias. Por

isso, diversos setores da sociedade, como universidades, autoridades

políticas e o povo em geral, têm cada vez mais discutido

sobre a legitimidade de tais movimentos, que, por

mais que estivessem silenciados até a década de 80, não passam

despercebidos atualmente. Não são poucos aqueles que

desaprovam a luta indígena. Seus argumentos, além dos conhecidos

adjetivos de “preguiçosos” e “aproveitadores”, são

bem precisos e objetivos: como podem índios usar roupas,

celular e outros acessórios típicos do “homem civilizado”?

Onde está a língua indígena? Como pode haver entre eles pessoas

de olhos azuis ou pele clara? E o mais importante: se eles

realmente nunca acabaram, onde estavam durante todos estes

125 anos de silêncio?

Entretanto, é justamente sobre as contradições e oscilações

dos acontecimentos que motivaram estes “125 anos de silêncio”

(de 1863, quando se “declarou” oficialmente a “extinção

dos índios no Ceará, até o ano da Constituição Cidadã) que pesquisadores

de diversas áreas das ciências humanas têm se debruçado

nos últimos anos com trabalhos inovadores e,

certamente, bastante polêmicos. As causas de tanto desconforto

que este tema provoca parecem vir de longe, e têm muito a ver

com o que ocorre hoje. Já no período colonial, a procura e disputa

pela mão de obra nativa eram intensas e encontravam fortes

obstáculos na própria resistência dos índios, que batiam de

frente também com a frequente expropriação de seus territórios.

Nos dias atuais, os problemas parecem ser semelhantes,

até porque conceber que populações vivam de modo tradicional,

com formas não condizentes com o nosso velho conhecido

“sistema capitalista” e, além disso, requerendo terra, é por demais

ofensivo para muitas pessoas, principalmente para aqueles

que estão diretamente ligados com o latifúndio ou à valorização

imobiliária. Ao longo da história dos índios que habitaram o

território brasileiro, isso não foi diferente: desde os jesuítas,

passando pelo famoso Diretório Pombalino, indo até as denominadas

políticas progressistas do período da Ditadura, sempre

se pretendeu possuir as suas terras, e levar àqueles povos “bárbaros”,

arredios ao trabalho e dados a bebedeiras e feitiçarias,

os bons costumes da civilização.

No início do século XIX, no Ceará, o plano sempre foi

este: transformar os índios em homens trabalhadores, ordenados

e, principalmente, fiéis súditos da coroa portuguesa. A partir

da pesquisa que desenvolvo atualmente no Mestrado em

História do Brasil, pela UFPI, venho analisando diversos me-

canismos que fizeram parte dessa política civilizatória sobre a

população indígena, especialmente os que tiveram lugar durante

o governo de Manuel Ignácio de Sampaio, que esteve na

capitania entre 1812 e 1820. A palavra de ordem de sua prática

era “disciplina” e através dela foram estabelecidas as primeiras

ações no sentido de controle da população, como os mapeamentos

gerais nas vilas e a chamada “política de passaportes”,

que limitava o trânsito de indivíduos pelo território. Com ela

foi dada forma àquilo que ficou conhecido na historiografia

como a “caça aos vadios”, ou seja, um conjunto de atos que visavam

combater o grave problema da dispersão populacional

pela Capitania. Mas a parcela desse povo que mais seria atingida

por essa política foram os índios, tendo sido prioridade do

governador a criação e reativação de diversos planos direcionados

especialmente para eles que, apesar de se constituírem

como a principal força de trabalho desde o século XVIII, eram

considerados os mais carentes da “luz da civilização”.

Para fazer com que aquele povo ainda “bárbaro”, espalhado

de forma desordenada pelos sertões, e tido como “vagabundo”

se transformasse em cidadãos honrados, ordenados e

verdadeiramente fiéis à coroa portuguesa, era preciso obrigálos

ao trabalho regular. Várias foram as modalidades de serviço

desempenhadas pelos nativos, indo desde a participação em

obras e reparos de edificações até a venda de produtos alimentícios

nas feiras da capital. Mas a modalidade mais praticada

pelos índios eram os trabalhos agrícolas, seja nas suas terras

(cuja parte da colheita era vendida) como também de aluguel

em casas de proprietários. Outro serviço bastante exercido

pelos indígenas era o de correio entre as vilas do Ceará e até

mesmo fora, em capitanias como Pernambuco, Paraíba, Rio

Grande do Norte, Piauí (com uma agência em Parnaíba) e Maranhão,

tendo sido mais conhecidos como os “índios correio”.

Com horários determinados e rigoroso controle de acesso e

saída, nas vilas, a condição de pagamento fortalecia entre os

povos indígenas noções de tempo, lucro e ordem. De certa maneira,

podemos observar que esse povo, que até hoje é visto

como “preguiçoso”, foi em muitos momentos a força matriz da

capitania do Ceará.

Outro elemento importante que fez parte do projeto de civilização

da população indígena foi a militarização. Estando

intimamente ligados à questão do trabalho, os alistamentos

agiam de forma crucial na redistribuição de pessoas pelo território,

e as constantes revistas visavam monitorar, adestrar

aqueles antigos selvagens em verdadeiras máquinas produtivas.

Mas nem só de rigor vivia o mundo militar, e já que se queria

acabar com os antigos costumes nativos e produzir sentimentos

novos de amor a Portugal, o discurso patriótico do governador

também teve papel importante. Durante a Revolução Pernambucana

de 1817, quando foi formada uma tropa de 300 índios

armados de arco e flecha, não faltaram palavras enaltecedoras

sobre os indígenas, e através dos registros documentais pudemos

encontrar diversas referências de Sampaio ao “honrado e

nobre sangue” desses que eram os “gloriosos” descendentes

dos “antigos libertadores de Pernambuco da mão dos holandeses”.

E, em rara proclamação do governador encaminhada à

própria tropa que partia para o Recife, em 26 de maio, depois

de varias exaltações, o remetente finaliza, de maneira emocionante

e impressionante, com a seguinte exclamação: “Viva os

índios do Ceará” !

Por mais contraditórios que pareçam, tais “bons tratos”

casam perfeitamente com toda a rigidez da política de disciplina,

pelo fato de que, ao nomear os índios de “fiéis súditos”,

e buscar incentivá-los para isso, tentava-se apagar tudo aquilo

que significasse resistência à civilização e a um modo disciplinado

de vida. Buscava-se acabar com os antigos costumes

“bárbaros” dos “selvagens”, criando novos sentimentos de

ordem e amor ao rei. Queria-se, enfim, igualar todos os habitantes,

apagar as diferenças, levá-los a “luz”, e finalmente, extinguir

os índios.

Ao longo do tempo, todo esse esquema que ia sendo montado,

com seus rigores e “vantagens”, fazia com que fosse cada

vez mais difícil ser índio, não só no Ceará, mas em todo o Brasil,

e obviamente, a política teve seus efeitos, sendo um deles os

“125 anos de silêncio”. Mas acreditar em seu sucesso total é

muita ingenuidade, e apesar de já não ter mais muito de seus costumes,

várias comunidades superaram o medo e assumem suas

identidades, mesmo tendo hoje que vestir roupas ocidentais, falar

português, usar celular, e ter um ou outro representante de olhos

azuis, frutos de mestiçagens muitas vezes violentas. Apesar de

todas as tentativas para que esse silêncio fosse definitivo, os

“honrados bárbaros de nobre sangue” não acabaram, e hoje

mostram que estão vivos, lutando pelo que é deles, e como sempre,

incomodando muita gente! Para concluir, lembro de uma

frase que um amigo de São Paulo me disse certa vez, ao observar

o povo de Fortaleza: “é só olhar os rostos: o povo cearense

é índio, mas não se reconhece como tal”. Pelo visto, cada vez

mais, esse povo “disperso” pelo Ceará está perdendo o medo de

se lembrar do passado.

Cf. Livro 28: Officios ao Escrivão

Deputado, Intendente da

Marinha, Juiz da Alfandega, Agentes

de Correios e Pessoas Particulares

da Capitania – 1816-1819,

pág. 45V. Arquivo Público do Estado

do Ceará.

João Paulo P. Costa

Mestrando em História

do Brasil na UFPI

qdedo@hotmail.com

ISAÍAS CAMINHA: UMA VOZ DO “QUILOMBO” DESMASCARANDO A IMPRENSA

Ao descobrir que palavras são também ações, muita gente

passa a cultivar o sonho de fazer das letras seu ofício, sua profissão.

É assim que nascem, muitas vezes, vocações para o jornalismo

e a literatura. Escrever se apresenta como uma forma de

intervir no mundo, participar, interferir na realidade. É, ao

mesmo tempo, o exercício da cidadania e da paixão.

Tudo indica que o fascínio pela liberdade de expressão, tanto

no jornalismo como na literatura, atravessa o tempo e constitui um

território pelo qual se nota um sempre vivo e renovado interesse,

especialmente para os jovens de todas as idades. Esta é uma possível

explicação para a efervescência que tomou conta da internet, através

da qual temos conhecido uma vigorosa mídia alternativa e contrahegemônica,

como os blogs, por exemplo.

Nada melhor para celebrar esse fascínio do que lembrar o recente

centenário da publicação de Recordações do escrivão Isaías

Caminha, um romance que sintetiza esses anseios literários e retrata

as históricas frustrações que temos vivido nesse campo da informação

e do jornalismo. Ao publicá-lo, em dezembro de 1909, Lima

Barreto estreava na literatura brasileira e sacudia a imprensa carioca

do início do século XX, abalando reputações e desmascarando as

redações farsescas, que, naquele período, fabricavam celebridades.

Quem se dispuser a conhecer as desventuras de Isaías Caminha,

certamente há de se perguntar: o que de fato mudou de ontem para

hoje? É notável a atualidade de Lima Barreto! E não pense o leitor

incauto que a redação d’O Globo a que o escritor se refere era a

do jornal impresso de mesmo nome que hoje se publica no Rio de

Janeiro. Esse bem pode ser um caso em que a realidade imitou a

ficção, pois embora o jornal de Irineu Marinho tenha nascido somente

em 1925, também se especializou – hoje com o auxílio da

TV e outras mídias – em fabricar falsas celebridades e defender

certa plêiade de políticos e banqueiros, a serviço do capitalismo

perverso que sempre nos vilipendiou – estratégia que Lima Barreto

insistia em denunciar.

Os bastidores do jornal retratado naquele romance eram na

verdade os do Correio da Manhã, então dirigido por Edmundo

Bittencourt. Ainda que desprezado pela crítica literária da época,

a força de Recordações pode ser percebida através do próprio

veto que o livro sofreu. Com a publicação do romance, o nome

de Lima Barreto foi proscrito das páginas do jornal de Bittencourt.

Isso não impediu, como relata seu biógrafo, Francisco de

Assis Barbosa, que a tentativa de adivinhar quem tinha servido

de inspiração para cada personagem se tornasse assunto frequentado

animadamente nas rodas intelectuais e nos bares da capital

republicana, nos meses seguintes ao lançamento.

Mal comparando, seria como imaginar um romance de um

jovem e estreante escritor que ousasse ambientar sua trama desmascarando

as engrenagens internas e ocultas que regem o funcionamento

das organizações Globo, do grupo Abril ou outro oligopólio

qualquer da mídia tupiniquim. Quem ousaria ao menos comentar o

livro? Que espaço ele teria na mídia?

A força de Isaías Caminha está na temática que aborda – o

mundo das letras e do jornalismo – mas também no seu criador.

Lima Barreto viveu boa parte de sua vida na periferia, no subúrbio

do Rio de Janeiro, o qual talvez nenhum outro escritor dessa época

conhecesse tão bem quanto ele. Apelidara sua casa de “Vila Quilombo”,

afirmando em seu diário que isso era uma forma de implicar

com Copacabana. Mas, em plena era pós-abolição, o apelido

sugere a concepção do lar como um distante refúgio a partir do

qual realizou com coragem e liberdade o sonho de tornar-se um literato.

Sugere ainda que os subúrbios, mesmo diante da extinção

formal da escravidão, insistiram e insistem em abrigar a população

brasileira mais pobre e negra, que fez

e faz das periferias um vasto “quilombo”,

fora de época.

Assim como deu vida a Isaías

Caminha, Lima Barreto ainda ecoa,

cem anos depois, o mesmo fascínio

capaz de fazer surgir muitos outros

jovens talentos negros das periferias

desse Brasil, que ninguém conseguirá

jamais calar.

Denílson Botelho

Prof. Dr. da UFPI

ahlb@uol.com.br


TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

A COMPETIÇÃO POLÍTICA PIAUIENSE NAS ELEIÇÕES DE 1996, 2000 e 2004

As interpretações sobre o funcionamento das disputas

eleitorais e políticas piauienses eram categóricas em afirmar

o caráter oligárquico e não-competitivo dos subsistemas municipais.

A razão fundamental apresentada para justificar o

atraso e conservadorismo dos subsistemas políticos municipais

era o caráter centralizador das funções administrativas,

financeiras, orçamentárias e fiscais no governo federal e estadual.

Tendo o arranjo institucional brasileiro tal perfil, seria

inevitável a oligarquização da competição política no âmbito

municipal. Os subsistemas políticos municipais seriam fontes

exclusivas de clientelismo e fisiologismo. A rota para mudança

política, assim, estaria fadada ao fracasso.

Contudo, se as instituições importam, é possível se levantar

novas hipóteses a respeito do funcionamento de tais instituições

federativas e políticas. A Constituição de 1988,

conjugada com um sistema político multipartidário, adotou

medidas alteradoras do formato centralizador antes prevalecente.

Em sendo assim, foi possível aventar a seguinte hipótese

para verificar se aconteceram mudanças significativas na

competição política e no quadro partidário dos subsistemas

partidários municipais: parto da suposição de que o regime

multipartidário e a descentralização de competências e prerrogativas

democratizaram a competição política, ao menos

parcialmente, nas cidades piauienses nas eleições majoritárias

(prefeituras) de 1996, 2000 e 2004. Além disso, incorporo à

minha análise da competição política local piauiense na nova

ordem federativa e partidária do pós-1988, a ideia de “racionalidade

política contextual”. Acredito que esta ideia capta as

peculiaridades dos subsistemas partidários locais, ou seja, dos

municípios piauienses.

O objetivo é compreender como se relacionam contextos

socioeconômicos diferentes (heterogeneidade demográfica,

eleitoral, econômica, entre outros) e o arranjo político federal

(as regras que balizam a disputa partidário-eleitoral no plano

nacional) nas competições políticas de caráter local. Neste

caso, a suposição central é que as mesmas instituições podem

operar de forma diferenciada, dependendo do ambiente social.

Ou seja, a interação definida pelo regime constitucional brasileiro

entre Federação e o sistema representativo se constitui

em um mecanismo fundamental, para se explicar os padrões

de competição política local, consolidados no recente período

democrático. Neste caso, trabalhei com a questão da geografia

eleitoral, mapas de votação e um modelo econométrico.

A análise dos mapas eleitorais por blocos ideológicos

(centro, direita esquerda) e partidos (PFL, PMDB, PSDB e

PT), permitiu fazer algumas considerações de base comparativa

sobre as tendências ou rumos seguidos pela geografia política

nas municipalidades piauienses. Como se processou a

mudança da política geográfica do voto nos casos analisados?

Existem diferenças substantivas nos padrões da competição

política nos municípios? A primeira constatação mais evidente

é que a geografia política municipal sofreu um deslocamento

do eixo direitista ao centrista no conjunto dos municípios. As

influências do sistema partidário nacional impactaram na configuração

das disputas locais reorientando sua natureza no

Piauí (macro-tendência do período analisado). O fracasso da

direita é evidenciado pela total perda de influência pefelista,

principal representante desta clivagem ideológica no caso relativo

do Piauí.

O outrora hegemônico PFL, agremiação oriunda da

ARENA e PDS, principal partido de direita, em etapas anteriores

nas municipalidades piauienses, entra numa trajetória

declinante na nova ordem constitucional e multipartidária: faz

87 prefeituras em 1996; 73 na eleição de 2000 e 64 no pleito

de 2004. Tais evidências são bastante esclarecedoras dos

rumos e caminhos seguidos pela nova ordem política. A direita,

representada pelo PFL, sofreu gradativamente perda do

seu domínio no contexto municipal piauiense. O enfraquecimento

pefelista é refletido no seu baixo êxito eleitoral nas

campanhas majoritárias.

A tendência centrista estabelecida no plano nacional

ecoou nos subsistemas partidários municipais piauienses e

novos atores adentraram à competição eleitoral e política. O

resultado da eleição de 2006 no Estado do Piauí confirma esta

tendência. A bancada pefelista na Assembleia Estadual diminuiu,

e o partido conseguiu eleger somente dois (2) deputados

federais e novos partidos políticos são incorporados ao processo

político-decisório. A fragmentação, portanto, amplia-se

e dissemina-se nas localidades menos densamente povoadas.

Logo, há um aumento da competição política municipalista no

Piauí. O PFL exerceu tão somente um papel de ator coadjuvante.

Os sinais de mudança são expressos pelas evidências

empíricas.

Um fato adicional pode ser arrolado nesta questão: o PT

elege oito (8) prefeitos em 2004 e o Governador do Estado.

Neste sentido, por se tratar duma elite dirigente oriunda do

sindicalismo-corporativista representa um ponto de inflexão

na estrutura competitiva anterior. Há, em verdade, no caso

piauiense uma transformação mais radical de mudanças no

plano da política estadual (Executivo). O referido processo,

como não poderia deixar de ser, reorienta as disputas partidárias

municipais, introduzindo um elemento de incerteza eleitoral,

isto é, amplia as possibilidades de novos atores políticos

disputarem e conquistarem postos antes basicamente dominados

pelos esquemas pefelistas e peemedebistas.

Nesta linha de argumento, a geografia eleitoral é o suporte

empírico que comprova a tese da desoligarquização dos antes

denominados “contextos” ou “subsistemas partidários municipais

oligárquicos”, por espelhar um mercado político de padrão

competitivo ou democrático, ou se quiser usar uma

denominação presente nos estudos da distribuição espacial do

voto, assemelha-se a um padrão aberto, fragmentado e competitivo.

Como mencionado anteriormente, o principal ponto

merecedor de ênfase, no que tange à geografia espacial do

voto no Piauí, é a verificação do fracasso direitista como eixo

orientador das opções políticas e partidárias naqueles subsistemas

políticos municipais. A macro-tendência registrada

exibe explicitamente a contínua derrocada do outrora todo poderoso

PFL nas eleições de 1996, 2000 e 2004. O pluripartidarismo

já é uma realidade presente nos municípios

piauienses. As disputas aos cargos majoritários em tais cidades

mostraram-se menos polarizadas por partidos políticos

historicamente controladores do processo decisório, isto é,

houve uma redefinição ou realinhamento da competição política

em outra direção ou rota menos restritiva e mais aberta a

novos participantes ou atores sociais

A outra evidência apresentada para sustentar a confirma-

23

ção da mudança no quadro da competição municipal é o resultado

apresentado pelo número de partidos efetivos (N). Tanto

na análise macro quanto micro, este indicador situou-se nas

faixas de média ou alta competitividade. Fundamentado na

classificação definida com o objetivo de mensurar o nível da

competitividade dos subsistemas partidários municipais,

notou-se claramente um aumento no número de competidores:

em nenhum dos três pleitos ou eleições estudados tal índice

se igualou ao limite estabelecido como não competitivo ou oligárquico:

(N) igual até dois (2) partidos políticos.

Dessa forma, as evidências contidas nos mapas eleitorais

e no número de partidos efetivos (N) mostraram esse processo

de transformação da competição política municipal no

Ceará e Piauí. A volatilidade eleitoral obedeceu à trajetória

de derrocada da direita – diminuição do percentual de votos

obtidos e redução do número de prefeitos eleitos pelo PFL –

direcionando-se ao centro político. Logo, pode-se afirmar

que realmente as bases das disputas políticas municipais tornaram-se

menos onerosas a outros postulantes aos cargos majoritários

(prefeituras).

Assim, percebe-se que a tendência (macro), uma maior

competitividade no plano nacional, atingiu o municipalismo

brasileiro. A competição política foi afetada pela mudança das

regras que processam as disputas eleitorais e dispersam os recursos

de poder nos entes federados. A política municipal pode

também ser explicada como um resultado do sistema políticopartidário

existente no nível federal (nacional). Nesta lógica,

realmente, a transformação das regras institucionais teve capacidade

para engendrar mecanismos propiciadores a um

maior embate (disputa) entre os atores políticos (partidos) em

ambientes historicamente apontados como impermeáveis à

desconcentração do poder político

(Ceará e Piauí). Como exposto, o

quadro partidário-eleitoral (municipal)

encaminhou-se para uma

direção em que a possibilidade de

alternância no processo decisório

das escolhas públicas foi real.

Cleber de Deus

Prof. Dr. da UFPI

dideus@superig.com.br


24 TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

A GESTÃO COMPARTILHADA NA POLÍTICA DE INCLUSÃO SOCIAL NO PIAUÍ

Neste artigo, busca-se apresentar o resultado de um estudo

analítico realizado a partir da experiência em gestão

compartilhada no governo do Estado do Piauí, na área da

saúde, implementada no Centro Integrado de Reabilitação

– CEIR, fundado nos princípios da descentralização e participação

social na gestão das políticas públicas, consubstanciados

no aparato constitucional e legislações

específicas vigentes.

A partir da Constituição Federal de 1998, institui-se no

país uma nova configuração na gestão das políticas públicas,

assegurando-se novos mecanismos legais nos processos

de tomada de decisões, emergindo um regime de ação

pública descentralizada e participativa, no qual são criadas

formas inovadoras de interação entre governo e sociedade,

dentre elas, a gestão compartilhada. Esse novo formato sinaliza

a emergência de novos padrões de interação entre

governo e sociedade, com a inserção da participação da sociedade

civil através das chamadas organizações do Terceiro

Setor. Segundo Tenório (1999), o Terceiro Setor é

formado por organizações sociais, sem fins lucrativos, autônomas,

isto é, sem vínculo com o governo, voltadas para

o atendimento das necessidades de organizações de base

popular, complementando a ação do Estado. Ele é centrado

em três eixos: “a maior responsabilidade dos governos em

relação às políticas sociais e às demandas dos seus cidadãos;

o reconhecimento dos direitos sociais; e a abertura

de espaços públicos para a ampla participação cívica da sociedade”

(SANTOS JÚNIOR, 2001, p. 228).

A necessidade de implementar esse novo formato de

gestão pública participativa/compartilhada está relacionada

a um processo mais amplo de discussão em torno dos limites

do modelo estatal, marcado pela forte centralização do

poder no governo federal. Mas, a partir da década de 1980,

intensificou-se o debate acerca dos limites da participação,

impostos pelo modelo representativo, com autores incorporando,

em suas análises, a premência de se construir ou ampliar

os mecanismos diretamente vinculados a essa questão.

Nesse contexto, os princípios da descentralização e participação

emergem associados à redefinição de atribuições e

competências em torno das políticas públicas, passando a

vigorar, no Brasil, um novo formato institucional, marcado

pela descentralização da gestão das políticas públicas (AR-

RETCHE, 2000).

Nesse novo desenho institucional, cabe ao Estado oferecer

as condições necessárias para a inserção da participação

da sociedade civil na gestão das políticas públicas.

Entre as diversas razões para isso, destacam-se a proximidade

entre governo e as organizações sociais, na qual se

supõe que exista mais facilidade de comunicação e mobilização

entre estas e os diversos atores sociais, além do que

as ações e intenções do governo são percebidas e acompanhadas

pela população, e as aspirações e as relações funcionam

como uma caixa de ressonância no âmbito da

gestão pública compartilhada.

Nesta perspectiva, destaca-se como uma ação inovadora

em gestão pública compartilhada, no Estado do Piauí,

o Centro Integrado de Reabilitação – CEIR, que surgiu a

partir da necessidade de se dotar o Estado de um serviço

de referência nas áreas de reabilitação e readaptação, destinado

às pessoas com deficiência física e/ou motora, sobretudo,

à população de baixa renda. É importante destacar

que, segundo o Censo Demográfico (IBGE/2000), no

Piauí, 501.409 pessoas (17,6%) foram identificadas com

pelo menos algum tipo de deficiência, sendo que 24.978

possuem deficiência física e 145.325 motora. Daí a necessidade

de se implantar um Centro, que contando com a capacidade

de 1.433 atendimentos/dia, oferece serviços

especializados de saúde, inspirado no modelo de gestão

compartilhada.

O Centro é uma idealização da Secretaria Estadual para

Inclusão da Pessoa com Deficiência - SEID, com o apoio

do Governo Federal, sendo gerenciado por uma organização

social sem fins lucrativos e de interesse público, a Associação

Piauiense de Habilitação, Reabilitação e

Readaptação – Associação Reabilitar. A gestão comparti-

DIVULGAÇÃO

lhada do CEIR foi formalizada, através de um contrato

social, legitimado pela Lei Federal nº 9.637/1998, que

qualifica como organizações sociais pessoas jurídicas de

direito privado, sem fins lucrativos. Essa nova modalidade

de gestão apresenta como resultados a otimização

de recursos humanos e financeiros, a busca da qualidade

nos procedimentos administrativos, a transparência, a

desburocratização, a descentralização de ações e a excelência

no atendimento.

Com esse novo arranjo institucional, há uma clara percepção

de que os atores sociais/sujeitos coletivos presentes

na gestão pública são co-responsáveis na

implementação de decisões e respostas às necessidades

sociais. Como afirma Carvalho (1999, p. 25), “não é que

o Estado perca sua centralidade na gestão do social, ou

deixe de ser o responsável na garantia de oferta de bens e

serviços de direito dos cidadãos; o que se altera é o modo

de processar esta responsabilidade”. Dessa forma, a descentralização,

a participação, o fortalecimento da sociedade

civil pressionam por decisões negociadas, por

políticas e programas controlados por organizações sociais,

por uma relação de parceria que seja publicizada.

A gestão compartilhada confere maior democratização

na gestão das políticas públicas, bem como possibilita a racionalização

e a rentabilidade dos recursos do setor social,

permitindo tratamento diferenciado a problemas específicos

de diversas comunidades. Ademais, permite a proposição

e a revisão de critérios de aplicação e controle dos

recursos públicos, em comum acordo com a sociedade

civil, não se tratando, no entanto, de mera apropriação de

recursos federais ou estaduais pelas organizações sociais.

Argumenta-se, ainda, que a gestão pública compar-

tilhada contribui para uma maior transparência e otimização

dos recursos públicos, além de estimular a participação

da sociedade civil na formulação, gestão e

controle social das políticas públicas. Contudo, não se

pode desconsiderar que, na área social, por exemplo, o

processo de redefinição de competências e atribuições

pode assumir alternativas divergentes, pois tanto é

capaz de apontar um direcionamento técnico-liberal,

privilegiando o mercado, restringindo ou extinguindo

direitos e retomando práticas seletivas e focalistas de

proteção social, quanto se voltar para uma perspectiva

democrática e valorizadora da participação da sociedade,

sem minimizar a responsabilidade do Estado no

processo de provisão social.

Sem dúvida, um fato passou a se impor no panorama

político brasileiro: a colaboração entre entidades da sociedade

civil e órgãos governamentais multiplicou-se, em

vários níveis, desde a atuação comunitária até a parceria

institucionalizada em programas e políticas sociais, como

a experiência do CEIR, aqui

apresentada. Neste caso, podese

afirmar que a construção de

uma gestão compartilhada seja

a busca de um modelo em que

Estado e sociedade se confirmem

como partes do processo

de redefinição e gestão de políticas

públicas.

Roberto Alvares Rocha

Prof. Msc. da UESPI

rrochapi@yahoo.com.br


Há muito foi dito que o trabalho humano é a fonte de produção

de todas as riquezas. A constatação, embora historicamente

combatida, expõe, em verdade, a história da organização dos trabalhadores,

para produzir e da apropriação desta produção por

diferentes formas de organização social, isto é, das classes sociais

que compõem a sociedade. Sob o secular domínio do capital, os

trabalhadores, não possuindo os próprios meios de produção, passam

a vender sua força de trabalho. Entretanto, o que recebem

como salário não corresponde à totalidade do que o seu trabalho

produziu, haja vista que uma parte do produto é apropriada pelo

patrão e irá constituir a base do contínuo enriquecimento.

Esta coerção econômica ao assalariamento tem se fragilizado

consideravelmente com o avanço do desenvolvimento das forças

produtivas. Contemporaneamente, a perda de postos de trabalho

frente às crescentes novas tecnologias tem aumentado o desemprego

estrutural. A isto se associa a necessidade de ampliação de

consumidores. Forjam-se , então, outras alternativas, para a ocupação

e geração de renda da classe trabalhadora, ainda principal

base do mercado consumidor capitalista. Uma delas resultado

da liberação dos assalariados é a produção direta independente.

Contudo, a produção independente permite aos trabalhadores

uma autonomia frente às relações socias predominantes, que se

baseiam na propriedade exclusiva pelo capital dos meios de produção.

Os produtores, em geral pequenos, passam a ter, diretamente,

a propriedade dos intrumentos de trabalho e do resultado

do trabalho a produção. Passam relativamente a controlar o

processo de comercialização, determinando preços e gerenciando

renda. Historicamente, a existência desta produção independente,

absorvendo predominantemente a mão-de-obra, constituiu momentos

de transição para outras formas de organização social.

A precarização das relações de trabalho e o processo de terceirização

da produção têm fabricado cada vez mais trabalhadores

inseridos neste contexto. Uma possibilidade resulta nos chamados

empreendedores, individuais ou empregadores. Investimentos em

mídia, treinamentos e incentivos fiscais e financeiros motivam e

multiplicam os pequenos négócios. Fundam-se no idealismo e individualismo

como alternativa de melhoria de vida, fortalecendo

a ideologia dominante do sucesso e mobilidade social para o

TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

TRABALHO E ECONOMIA SOLIDÁRIA

AS UNIVERSIDADES E OS ESTUDOS DE CIDADE

O objetivo deste texto é refletir sobre o papel das Universidades

em relação aos estudos de cidade. A estratégia dessa

reflexão visa estimular o debate já existente no meio acadêmico,

a partir de oito pontos de discussão, esperando que sirvam

para que as instituições repensem os limites e as

possibilidades de poder contribuir para a realização de gestões

urbanas democráticas e construtoras da sustentabilidade de um

desenvolvimento urbano justo.

O primeiro ponto é sobre as produções acadêmicas ocorridas

na graduação e pós-graduação, para que sejam potencializadas,

demonstrando os resultados dos estudos, a exemplo da

iniciação científica e dos trabalhos de final de disciplinas, como

forma de fornecer as bases teóricas para futuras pesquisas. Na

pós-graduação, ampliar o diálogo entre as instâncias internas

das Universidades como forma de potencializar os estudos desenvolvidos

pelos grupos e núcleos de pesquisa, bem como nos

programas de pós-graduação (especialização, mestrado e doutorado)

através das monografias, dissertações e teses.

O segundo ponto é o de articular as instituições de ensino

superior – públicas e privadas - que desenvolvem atividades relacionadas

aos municípios. É notória a falta de diálogo entre diversos

cursos que tratam direta ou indiretamente da temática

urbana, a exemplo dos cursos de Geografia, História, Arquitetura,

entre outros, precisando que sejam realizados eventos em

parceria, na possibilidade de ampliação das discussões sobre cidade,

desejando-se com isso a construção de um grupo coletivo

que pense as transformações espaciais contidas nas cidades.

O terceiro ponto se refere à necessidade de um maior envolvimento

das instituições no apoio à participação na elaboração

de planos diretores das cidades, planos municipais e

estaduais de habitação de interesse social e relatórios de impactos

ambientais. O papel das Universidades vem no sentido de

fornecer elementos teóricos e analíticos que aprofundem a dimensão

da questão urbana, aliando os diversos saberes dos segmentos

da sociedade ao que está sendo discutido em suas

instâncias. O diálogo entre o saber técnico e o saber político

mundo da pequena burguesia. Esta pequena produção em nada incomoda

o capitalismo, pelo contrário, continua a fortalecer, pela

concorrência, o processo de apropriação do trabalho, ainda que o

produtor não seja mais assalariado. Esta experiência reafirma um

caráter conservador da produção direta independente.

Outra possibilidade é o trabalho associado. A Economia Solidária

é uma experiência de produção direta baseada na cooperação

do trabalho, na propriedade coletiva, na autogestão da

produção e socialização dos resultados entre os trabalhadores.

Esta Economia é revolucionária. Não é por outro motivo que a

produção solidária, desenvolvida, a partir das próprias iniciativas

dos trabalhadores, é cada vez mais incentivada pelas forças de

mercado e do Estado como estratégia de controle. O percurso delineado

pela responsabilidade social do capital e pelas políticas

públicas do Estado tende a transformar a Economia Solidária em

uma experiência complementar ao processo de acumulação capitalista.

As ações de contribuição do mercado e do Estado à economia

solidária apontam para um enfraquecimento de sua força

política de transformação. Na linguagem oficial da parceria público-privada,

as experiências solidárias já são identificadas

como empreendimentos solidários. Este é apenas um exemplo.

A Economia Solidária enfrenta ainda outros desafios. Vejamos

alguns aspectos tendenciais. Na produção solidária, percebe-se

uma reduzida capacidade produtiva que decorre fundamentalmente

da simplicidade da base tecnológica e elevada dependência do elemento

subjetivo trabalho humano. Com produção limitada, e

quase sempre com problemas de qualidade, frente ao padrão capitalista

mercantil, a tendência é a redução da capacidade de gerar

renda. O caratér mercantil da produção solidária para se concretizar

de forma independente necessitaria de circuito específico de comercialização,

o que efetivamente ainda não acontece, visto serem

poucas as experiências, além de muito frágeis. Assim, a comercialização

assenta-se no processo comercial predominante, enfrentando

a voraz concorrência capitalista. Ampliar a capacidade

competitiva no mercado capitalista poderia ser uma estrátégia, contudo

não fortalece os princípios da solidariedade.

A produção baseada na cooperação igualitária tende a fortalecer

vínculos familiares e comunitários, além de recuperar a ex-

qualifica o debate urbano, tanto para a sociedade como para os

que fazem as Universidades. Talvez esse seja um dos maiores

obstáculos internos a serem enfrentados nas instâncias deliberativas

das Universidades: o reconhecimento de que é preciso

que as instituições apóiem as iniciativas oriundas da sociedade.

O quarto ponto enfoca que os grupos de pesquisas precisam

aprofundar as questões referentes ao processo de urbanização,

bem como do entendimento das recentes transformações por que

passam as cidades contemporâneas. O aprofundamento irá gerar

um ambiente propositivo, no sentido de contribuir na formulação

de políticas públicas nas instâncias de discussão da sociedade, a

exemplo dos orçamentos participativos, das audiências públicas,

dos fóruns sociais e dos conselhos representativos.

O quinto ponto se baseia em um distanciamento entre as

Universidades e os diversos segmentos da sociedade - IBGE,

CREA, Prefeituras Municipais, Federações de Moradores, Entidades,

ONGs... -, ocorrendo, geralmente, inúmeros entraves burocráticos

e políticos que esbarram na construção de parcerias.

Faz eco o reclame de entidades que insistem – e muitas vezes

com razão – na crítica quanto ao silêncio das Universidades no

apoio à realização de atividades desenvolvidas pela sociedade.

O sexto ponto é fornecer as bases teóricas que contribuam

na formulação de políticas que valorizem o patrimônio histórico

das cidades e, em especial, dos espaços existentes nas áreas centrais

e nas zonas rurais. Existe um fosso imenso que abre a possibilidade

de que as cidades sejam vistas apenas na visão do

presente e do imediato, “jogando por terra” toda uma história

e uma geografia do passado que desaparecem enquanto forma

espacial e apaga da memória visual as marcas das vidas que

contribuíram para construir as cidades do presente.

O sétimo ponto é a inserção, nos debates acadêmicos, de

forma mais austera, de uma discussão ambiental que esteja devidamente

em sintonia com o espaço urbano como um todo e

com a compreensão das formas de como se está vivendo e produzindo

nas cidades. Aqui falta uma visão de totalidade que

saiba unir as partes e integrá-las no espaço, movidas pelo saber

25

periência da gênese do trabalho, que é a socialização. Na cultura

originária do trabalho, apenas há lugar para a divisão natural,

sem fazer dela base para diferenças e desigualdades sociais. Contudo,

a solidáriedade é de pequena abrangência embora esteja

presente em quase todos os municipios, e ainda se constitui como

uma experiência de grupos focalizados e específicos. Em uma

perspectiva coletiva, carece de maior aceitação pelo conjunto dos

trabalhadores que se mantém fidelizados aos vínculos e obrigações

predominantes no mercado de trabalho.

O fortalecimento da Economia Solidária, mantendo seus

princípios a serviço dos trabalhadores, pressupõe uma compreensão

política do não deslocamento do trabalho do coração

das relações sociais de produção capitalista. Os produtores,

em geral, e, em particular, o movimento social, não devem naturalizar,

tampouco positivar o desaparecimento do trabalho

do contexto da produção nos moldes preconizados pelo capital.

Esta movimentação provoca uma nova alienação do trabalho

no processo produtivo, arrefecendo a luta pela

emancipação. O capital contemporâneo já demonstrou que o

antagonismo de classes não desaparece com a desproletarização.

A apropriação do trabalho, ainda que sob novas estratégias,

continua a ser o foco da luta de classes. Se outro

mundo é possível, não é preciso fazer dele uma reedição do

atual. Não se necessita repetir as experiências dos trabalhadores

do passado que acabaram por recriar classes dominantes

que seguiram e seguem

expropriando o trabalho. Para

fortalecer a solidariedade na

produção e comercialização, um

caminho seguro parece ser o de

investir nestas experiências que

se mostram transgressoras da

ordem capitalista.

Solimar Oliveira Lima

Prof. Dr. da UFPI

s.olima@bol.com.br

técnico, mas alimentadas pelo saber popular que fornece depoimentos,

falas e registros que indicam como o espaço urbano

vem se modificando. Assim, a abordagem ambiental é um eixo

importante que aglutina diversas áreas do conhecimento e possibilita

duas visões: uma visão da cidade real e uma visão de cidade

que se deseja.

O oitavo e último ponto se refere à incorporação de um

maior aprofundamento do que está sendo produzido em relação

à temática do rural, fazendo novas releituras das transformações

ocorridas no tempo presente. A razão desses novos

olhares baseia-se na visão de que o urbano e o rural estão

evidenciando significativas mudanças, pois recebem interferências

e influências de diversas escalas espaciais (local, regional,

nacional e global), precisando ampliar os focos de

investigação dessa temática.

A intenção da abertura desse diálogo não é no sentido de

que as Universidades substituam as ações dos gestores públicos,

mas sim, que possa contribuir com a formulação de ideias

e de propostas para a condução de projetos e programas urbanos

e rurais. Vale lembrar que já existem nas Universidades

inúmeras iniciativas em curso nas áreas da Geografia,

da História, do Serviço Social e da Arquitetura, produzindo

conhecimento de forma crítica sobre cidades. Assim, as discussões

acadêmicas sobre cidades devem ser pautadas na

construção de uma abordagem

que traga o sentido do público,

alimentando o ambiente institucional

das Universidades e de

seus grupos de pesquisas, para a

melhoria das gestões municipais

e, consequentemente, do entendimento

das cidades.

Antônio C. Façanha

Prof. Dr. da UFPI

façanha@ufpi.br


26 TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

VOLTAIRE, HISTÓRIA E CLANDESTINIDADE

Gustave Lanson (1912), em artigo intulado Questions diverses

sur l’histoire de l’esprit philosophique en France avant 1750,

questiona a pouca atenção dada a um conjunto de escritos que

circulavam na França do século XVIII. Ira O. Wade (1938), no

seu estudo The Clandestine organization and diffusion of Philosophic

ideas in France from 1700 to 1750, retoma a necessidade

de se empreender estudo mais aprofundado sobre tais questões.

Desde então, surgem diversos estudos sobre os textos clandestinos,

sendo os de Robert Darnton os de maior amplitude, apresentando

as implicações políticas que a circulação de tais escritos

enseja e os aspectos mais detidos da “polícia dos livros” desenvolvida

com a censura da imprensa no período. Os artigos publicados

na revista La lettre Clandestine desde 1992 elencam os

novos textos encontrados, as novas publicações e traduções, e

apresentam os estudos mais recentes acerca da sua problemática.

O estudo de Miguel Benítez (1996), La face cachée des lumières,

é significativo por circunscrever a sua análise aos tratados filosóficos

e manuscritos. Deixa claro a ideia da riqueza filosófica

das obras clandestinas, sendo muitas delas escritas sem a menor

referência a um “autor”.

O interesse pelas questões derivadas da Filosofia clandestina

no Brasil ainda se mostra pequeno, mas posso sinalizar

um crescimento nesse sentido, ao verificar a reiterada publicação

de traduções brasileiras para textos clássicos desse movimento.

Exemplos como o Tratado dos três impostores e o

volume intitulado Filosofia Clandestina, ambos publicados

pela Martins Fontes, mostram uma presença crescente desses

As práticas e os rituais de reza e de cura das rezadeiras

no Piauí ainda persistem no cotidiano do Estado. As senhoras

desenvolvem práticas de fé, de religiosidade, se relacionam

com os devotos, que acreditam na cura motivada

pelas rezas. As senhoras rezantes, que exercem os ritos de

cura munidas de sentimento religioso, são mulheres capazes

de doar aos seus amigos e conhecidos da comunidade

onde habitam o conforto e a segurança que o sagrado proporciona.

Essas manifestações existem em diversas culturas,

são marcadas por uma carga religiosa significativa e

materializadas em ritos. É relevante observar que esses rituais

possuem diferenciações de acordo com os sentidos e

significados culturais a eles atribuídos. Glifford Geertz

[1989], ao propor o exemplo dos três garotos piscando, intrinsecamente,

anuncia-nos que os significados presentes

em uma determinada manifestação cultural podem adquirir

diversas formas ou significâncias. Atualmente, realizo pesquisa

com as rezadeiras, interpreto a constituição histórica

dessas práticas e rituais e estabeleço diálogos teórico-metodológicos

com a antropologia e a etnografia, busco analisar

os rituais de cura como fenômenos culturais,

elaborados e re-significados historicamente, busco as permanências

e as rupturas nessas práticas e rituais; uso recorte

temporal isento de determinismos lineares ou

cartesianos, o que se justifica pela natureza da investigação,

trabalho o tempo longo, percorro o tempo de vida das senhoras

rezantes, privilegio uma geração de rezadeiras, em

três cidades piauienses – Teresina, Piripiri e Ilha Grande de

Santa Isabel.

No Piauí, os rituais de cura praticados pelas rezadeiras

ainda marcam costumes e vivências de parcela significativas

da população, permanecem e colaboram na construção do

sentimento religioso do piauiense. São práticas de longa duração

construídas historicamente, consolidando-se nas reminiscências

do povo piauiense desde o período colonial.

Desde 2006, realizo este trabalho. Busco compreender que

o conhecimento histórico atual não está mais associado aos

grandes eventos e personagens ilustres, percebi que as manifestações

das rezadeiras poderiam ser objeto de estudo da

História, de uma História Cultural entendida como “Uma

forma de expressão e tradução da realidade que se faz de

forma simbólica, ou seja, admite-se que os sentidos conferidos

às palavras, às coisas, às ações e aos atores sociais se

apresentam de forma cifrada, portanto já um significado e

uma apreciação valorativa” (PESAVENTO, 2004, p. 15). Foi

em busca de dar “sentidos às palavras”, embutidas de uma

“apreciação valorativa”, exercida por esses “atores sociais”

[rezadeiras] que surgiu o interesse por este estudo.

As rezadeiras são uma espécie de agentes religiosos, que

escritos no Brasil. São poucos por aqui, porém, os estudos

teóricos sobre tais textos, razão que me levou a estudar as relações

entre Voltaire, História e clandestinidade.

O século XVIII é um período intrigante no que se refere ao

campo das ideias filosóficas. Além de trazer inovações em relação

ao desenvolvimento intelectual observado no século XVII – observada,

por exemplo, com Kant – apresenta questões bastante peculiares

ao seu momento histórico-político e filosófico. Nesse

contexto, a França se afigura como palco de grandes reformulações

teóricas no que se refere às concepções acerca da sociedade,

dos direitos naturais, da Política, da Moral. É também o lugar onde

são experimentadas em larga escala essas novas formas de comunicação

das ideias filosóficas, materializadas pela circulação clandestina

de textos, o que, de certo modo, põe em xeque que o

modelo de estruturação teórica privilegiado pelo século anterior,

qual seja, a construção de sistemas filosóficos robustos e elaborados.

A ordem das razões nos moldes cartesianos, obtida através

de processos metódicos de dúvida, dá lugar a razões elaboradas

em função de contextos e questões específicas. A preocupação em

demonstrar rigorosamente complexos constructos teóricos é substituída

pela preocupação em demonstrar a perícia na utilização das

palavras para afetar certos assuntos particularmente relevantes

para o período, notadamente a crítica ao poderio da Igreja, à religião

cristã e à degradação dos costumes e da moral. Acredito que,

de todos os autores desse período inovador do pensamento francês

moderno, Voltaire tenha sido um dos mais expressivos.

Voltaire publica boa parte da sua obra de forma clandestina,

AS REZADEIRAS DO PIAUÍ

praticam as rezas e estabelecem um caráter social entre elas

e a comunidade onde reside, efetivando a existência de uma

relação de troca: de sentimento, de confiança, de respeito e

de amizade, construindo espaços de sociabilidade nas comunidades

onde habitam. Essas sociabilidades são efetivadas

por elementos de cunho cultural, que equivale ao repasse de

rezas entre as senhoras, pois o meio era e é imbricado por

uma forte influência religiosa, fator fundamental que condicionava

as práticas das rezadeiras. Uma senhora rezante iniciante

ao se encontrar provida de um sentimento religioso

não hesitava em aprender a rezar e dessa maneira conseguir

exercer uma ação religiosa e até mesmo social.

Essas senhoras apesar de se concentrarem na periferia

de muitas cidades, suas práticas não eram e não são consumidas

somente por categorias sociais subalternas, mas indistintamente

por indivíduos, cujo único requisito é a crença

nos rituais, a forte religiosidade, na fé, que se configura

como elemento principal para a obtenção da cura. Independente

de classe social, condição econômica e até mesmo religiosa,

as rezadeiras não hesitavam em realizar as rezas nos

indivíduos crentes em Deus. Existe outro elemento importante

nas práticas das rezadeiras: elas não aceitam pagamento

pelas rezas realizadas. As rezadeiras não aceitam

dinheiro como forma de recompensa, para elas uma ação

profana e desvinculada de uma permissão divina, pois Deus

era o único capaz de “pagar” as suas rezas.

As formas de aprendizado ou as maneiras como as reza

eram repassadas entre as rezadeiras podem ser caracterizadas

de múltiplos formatos e de caráter específico, variando

de rezadeira para rezadeira. Cada senhora constrói as suas

próprias rezas, tendo como foco principal as rezas bases [O

pai Nosso, Ave-Maria, Creio em Deus Pai, etc], rezas pronunciadas

em seus rituais, evocadas, inicialmente; em seguida,

os chamas [exato momento em que a rezadeira

convoca as possíveis doenças que o individuo pode obter].

Logo após os chamas, se reza de acordo com o resultado obtido,

ou seja, passa-se a rezar para determinada doença, geralmente,

esse momento é bem particular de cada rezadeira.

O aprendizado é a primeira fase que constitui a carreira

religiosa desses agentes religiosos. A rezadeira, ao aprender

seus ritos, precisa primeiramente se sentir chamada ou sentir

obter o dom de Deus, o meio religioso é um fator determinante

na iniciação, pois o sentimento religioso precisa estar

enraizado. A observação e a constância do hábito fazem

emergir através da religiosidade imbricada à vontade de

aprender a rezar. Segundo relatos de algumas rezadeiras, a

possibilidade de se fazer algo pela comunidade era um desejo

relevante que ativava o aprendizado. O mestre de reza

[que ensina e acompanha uma rezadeira durante o processo

em textos nem sempre assinados. Mostra-se como um grande leitor

de obras clandestinas e se utiliza em larga escala dos expedientes

da clandestinidade para fazer difundir os seus escritos

e fugir à censura e à Bastilha. A pesquisa que ora desenvolvo

na UESPI de Picos, com financiamento da FAPEPI, busca

construir meios de analisar a Filosofia de Voltaire enquanto

clandestina. Busco, então, discutir como há uma intenção

filosófica "para além das preocupações sistemáticas", e que

só encontra espaço nessa forma "clandestina" e "marginal"

de compreensão da Filosofia. Intento então analisar como

Voltaire “utiliza” a história para esses propósitos. A pesquisa

se encontra no início, conta com a colaboração dos

professores Gustavo Silvano Batista (UFPI/Picos) e Cellina

Rodrigues Muniz (UESPI/Picos), e pretende utilizar nas

suas análises algumas implicações

retiradas da História dos

Conceitos, de Reinhardt Koselleck,

da pragmática filosófica da

Linguagem (tal qual desenvolvidas

por Ludwig Wittgenstein e

John Austin) e das concepções de

Linguagem, de Michel Foucault,

em O que é um autor?

Leandro de Araújo Sardeiro

Prof. Msc. da UESPI/PICOS

leosardeiro@yahoo.com.br

de iniciação] repassa as primeiras rezas e, às vezes, até identifica

uma iminente rezadeira.

A religiosidade pulsa no cotidiano, as vivências são estabelecidas

através do sagrado, acabam tornando essas manifestações

significativas para aqueles que as praticam.

“Para que haja verdadeiramente cultura, não basta ser autor

de práticas sociais, é preciso que essas práticas sociais tenham

significado para aqueles que as realizam” (CERTEAU,

1995, p.141). Mircea Eliade [Historiador das religiões]

acredita que nenhum homem está dessacralizado por completo,

esse mesmo homem moderno guarda essências religiosas

nos seus mais simplórios gestos cotidianos e nos

mitos modernos esconde a religiosidade do homem arcaico

predecedente de toda estrutura religiosa para a atualidade

(ELIADE, 1992, p.147-163). A fé é a característica principal

usada pelo homem moderno para debruçar-se sobre a religiosidade,

cercado pela sua ânsia contemporânea onde a

ciência mostra suas garras, muitas vezes esse mesmo homem

se sente perdido, ao não encontrar respostas diante de um

mundo tão vasto e sábio.

No período colonial, a prática de benzimento era

exercida em animais, muito importante para a subsistência

naquele período. Segundo Laura de Melo e Sousa

[historiadora], as perseguições contra esse tipo de manifestação

não foram tão rigorosas como as exercidas

contra feiticeiros e isto facilitou a permanência desses

ritos até o momento. Acredito que ao longo do tempo

esses rituais passaram por adaptações sendo direcionados

também para humanos. A mescla com ritos de cura

estabeleceu e caracterizou esses sujeitos chamados de

rezadeiras ou benzedeiras.

Entendo ser a religiosidade uma espécie de teia compositória

da história, capaz de transmitir sinais emitidos

pelo homem religioso através do sentimento de religiosidade.

Interpretar como esse sentimento atua em nossas

vidas nos leva a enveredar por vários caminhos, muitas

vezes considerados triviais em

nosso dia a dia. Caminhos que

nos mostram manifestações como

as praticadas pelas rezadeiras e

que em nosso Estado ainda exercem

uma função marcante em diversas

comunidades.

Pedrina Nunes Araújo

Mestranda em

História na UFPI

pedrinanunes@hotmail.com


TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

O FORTALECIMENTO DA TV PÚBLICA NO BRASIL COMO GANHO DEMOCRÁTICO

O padrão universal de concentração de propriedade e a presença

dos global player encontram no Brasil um ambiente historicamente

acolhedor. Nossos mass media se estabeleceram oligopolisticamente.

A televisão continua basicamente regida por um código do início da

década de 1960 (lei 4.117, de agosto de 1962), totalmente desatualizado,

e constitui um sistema organizado em torno de poucas redes

sobre as quais não existe nenhuma regulamentação legal (LIMA,

2006). Trata-se, portanto, de uma oligopolização que se produz dentro

de uma mesma área; o melhor exemplo desse tipo de concentração

no Brasil continua a ser a televisão.

Nosso sistema televisivo de comunicação já nasceu comercial.

A história da tevê em nosso país dá grande destaque ao pioneirismo

de Assis Chateaubriand, mas é extremamente evasiva no que se refere

aos interesses econômicos que motivaram a iniciativa. Muito

se tem dito sobre o sistema de comunicação no Brasil como seguidor

do modelo norte-americano, baseado no financiamento da programação

a partir do capital privado e seus anúncios comerciais. Ressaltamos,

porém, que os mesmos Estados Unidos possuem um

sistema público operante em dissonância com a nossa realidade,

onde a comunicação pública se encontra incipiente.

No entanto, se há uma pluralidade que se sobressai do sistema

privado de comunicação, o sistema público caminha em ritmo bem

diferente. Um maior equilíbrio entre os sistemas, previsto inclusive

na Constituição Federal de 1988, como tentativa de fortalecer o sistema

público de televisão, faz emergir um conjunto de expectativas

em torno desse sistema, como sendo capaz de compensar ou superar

os déficits democráticos presentes na visibilidade pública, política

e comercial, determinado pelas mídias privadas.

Dentro do conjunto de pesquisas acerca da Tevê Pública no

Brasil, é possível observar, desde o início do debate, uma miríade

de perspectivas epistemológicas. No entanto, parece que, num primeiro

momento, sobressaiu-se um sotaque mais “triunfalista” sobre

os diversos potenciais cíveis e democráticos de sua cobertura, que

pela sua economia política diferenciada, seria mais propícia a estabelecer

uma programação democraticamente mais qualificada do

que a mídia comercial.

A maioria das chamadas Tevês educativas e culturais no Brasil

foram criadas nas três últimas décadas, período que coincide com a

redemocratização do país. Apesar disso e dos propósitos de ênfase

na educação, cultura e cidadania, essas emissoras ainda estão longe

de poder cumprir as propostas que lhe deram origem. Ainda que

imersas em problemas de caráter estruturais e sociais, ela é considerada

como uma solução para muitas das patologias ou insuficiências

que poderiam ser identificadas sobre a qualidade democrática

da cobertura do telejornalismo brasileiro.

Na esteira dessa realidade, três questões têm sido apontadas

como fontes fundamentais de uma parca qualidade democrática dos

meios massivos das TVs comerciais: (1) pouca atenção aos temas e

assuntos de interesse público e mais atenção a questões de interesse

do público; (2) sistemática invisibilidade da sociedade civil, incorrendo,

então, num problema de justiça política e (3) ausência de níveis

democraticamente densos de discussão pública.

Diante desses diagnósticos acerca da comunicação de massa,

nos perguntamos se eles não estão fortemente sedimentados no padrão

privado de comunicação. Desse modo, é mister pensar como a

depreciação dos valores democráticos não poderiam ser compensados

ou mesmo superados pela emergência e expansão de um sistema

público de comunicação. Tal horizonte de possibilidades se torna

extremamente vívido, quando nos deparamos no atual processo de

expansão do sistema público de comunicação no Brasil, o qual ganhou

especial impulso com a criação da TV Brasil.

Nesse sentido, vale destacar que a TV pública seria pautada

por todas aquelas demandas informativas não contempladas

pelos veículos comerciais, constituindo alternativas a estes.

“Está aí a abordagem presente na gênese do Public Broadcasting

service (PBC) dos Estados Unidos, bem como na recente criação

da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) em nosso país” (IN-

TERVOZES, 2009, p. 32). Não por acaso o contexto dessa perspectiva

é o cenário de hegemonia dos meios de comunicação

comerciais e o enviesamento do conteúdo transmitido por este,

que sabemos, segue a lógica da produção de audiência para a

venda de anúncios publicitários em detrimento de uma informação

mais pautada no interesse público.

O modelo público circunscreveria tudo o que não faz parte do

seu oposto, em outras palavras, o público, nesse contexto, seria

outro termo para designar tudo o que não é comercial.

Não por coincidência, nos Estados Unidos, onde essa con-

27

cepção ganhou força, a rede articulada em torno da PBS reúne

tanto veículos mantidos por governos como emissoras operadas

por organizações da sociedade civil sem fins lucrativos. No Brasil,

tal entendimento está na base do que se convencionou chamar

de “campo público”, incluindo desde emissoras comunitárias até

legislativas com base numa identidade não comercial (INTER-

VOZES, 2009, p.34)

A distinção entre um campo e outro tem por fundamento a

relação que cada um deles estabelece com seu receptor. Os

meios com fins lucrativos tratam da audiência como massa e,

portanto, buscam o gosto médio, para que seus conteúdos possam

atingir a atenção do maior número possível de pessoas, a

televisão pública, como alternativa, deveria mirar na multiplicidade

de públicos e dialogar com as demandas informativas

e culturais de cada um deles. Assim, a diversidade aparece

como um dos pilares dessa concepção.

A criação da EBC e de seu serviço televisivo, a TV Brasil, significa

uma tentativa de superação do passado de atrelamento dos

canais públicos aos governos e autoridades para apontar na direção

da construção de iniciativas efetivamente pública.

Nesse contexto, uma reflexão sobre os caminhos percorridos

por essa implementação, bem como as condutas governamentais

e/ou sociais ligadas a ela, são fundamentais nesse período de ampliação

do investimento no sistema público de comunicação. Levando-se,

então, em conta que o sistema público de comunicação

se pauta por princípios da publicidade e alternativos aos empreendidos

pelo sistema privado, nossa argumentação

visa, pois, dar um alerta às

camadas sociais interessadas na comunicação

como ferramenta social em busca de

valores democráticos, para o acompanhamentos

do desenrolar desse meandros da

tevê pública em nosso país.

Acácio Salvador Véras e Silva Jr.

Doutorando em Comunicação e

Informação pela UFRGS

acaciosalvador@hotmail.com

A PRÁTICA GERENCIAL DE ENFERMAGEM EM HOSPITAIS PÚBLICOS

A estruturação das atividades de atenção e assistência à

saúde no Brasil ainda está em fase de consolidação, em muitas

regiões. A implementação dos princípios e diretrizes do Sistema

Único de Saúde (SÚS) está aquém da necessidade da população,

em muitos municípios. Por isso, os gestores ainda têm grandes

desafios para enfrentar, neste longo processo de implementação

do sistema de saúde.

Nesta caminhada de organização e melhoria do sistema,

uma das categorias que mais atua é a da Enfermagem, isso porque

o enfermeiro tem basicamente quatro atividades essenciais

que norteiam a sua profissão: assistencial, gerencial, educativa

e de pesquisa.

Este estudo teve como objetivo geral refletir sobre a gestão

dos enfermeiros em hospitais públicos e os seguintes objetivos

específicos: identificar quais os fatores que influenciam no processo

de gerência; mostrar caminhos de intervenção sobre esses

fatores e propor melhorias para o processo de gestão de Enfermagem,

nos hospitais públicos.

De acordo com Fracolli (1999), a construção do SUS no

plano político-ideológico deveria ser regulada pelo Estado

e baseada nos princípios de universalidade, equidade e integralidade

da atenção à saúde. Tais princípios para serem

operacionalizados necessitariam estar acompanhados dos

preceitos administrativos de regionalização, hierarquização

e descentralização político-administrativa, bem como de

formas democráticas de gestão e de controle social dos serviços

de saúde.

Muitos debates têm surgido a respeito deste cenário complexo

de implementação do SUS, mas pouco tem se discutido

da importância de mudanças, a partir da aquisição de capacidade

teórica e operacional de ação sobre os aspectos micropolíticos

desse processo de trabalho, através dos profissionais

que atuam no sistema público.

Como o objetivo da graduação de Enfermagem é a formação

do enfermeiro generalista, a prática de enfermagem geren-

cial não é privilegiada, de modo que o enfermeiro quando vai

trabalhar em serviços públicos exercendo cargos e funções

dessa área se surpreende com a falta desse conhecimento específico,

que dificulta a sua assistência aos clientes do SUS.

O gerenciamento da rotina de trabalho do enfermeiro em

hospitais públicos é complexo e inclui uma série de atividades

que, em geral, não se aprende na universidade, tais como: definição

da autoridade e da responsabilidade de cada pessoa;

padronização dos processos de trabalho; monitoração dos resultados

dos processos e a comparação com as metas definidas;

ação corretiva do processo a partir dos desvios encontrados

nos resultados quando comparados com as metas e utilização

do potencial mental das pessoas.

No cotidiano da prática gerencial de enfermagem, é necessário

que se faça a padronização dos processos de trabalho,

que pode ser implantada com a utilização de macrofluxos, fluxogramas,

procedimentos operacionais e monitorização de

itens de controle, que são indicadores de desempenho dos principais

processos.

O processo de trabalho e de gestão e gerência de órgãos públicos

por enfermeiro é difícil de ser executado, porque os serviços

de saúde são complexos demais. Merhy (1997) afirma que

algumas propostas teóricas entendem que os serviços de saúde

se parecem mais com “arenas de disputas” do que com “organismos

vivos” (como descrito pelas teorias funcionalistas de

gerência). Dessa forma, a dinâmica do trabalho nos serviços de

saúde se assemelha (em muito) a um jogo de xadrez, no qual

os trabalhadores (da mesma forma que os jogadores) operam

segundo uma rede de petições e compromissos, entre eles; compartilham

significações que balizam um certo contrato de relações

e não podem ser sujeitos plenos, mas “bem sujeitados” às

regras do jogo.

Trata-se de uma reflexão sobre o processo de gerência em

hospitais públicos realizados por enfermeiros. Segundo Ruiz

(2002), reflexão em pesquisa bibliográfica inclui a vivência, as po-

lêmicas e todo o universo que são, na realidade, imenso reservatório

de problemas à espera de solução. Mas é preciso refletir, interrogar,

é preciso ver problema onde o homem “vulgar” vê apenas

fatos sem problemas. A reflexão suscita dúvidas, a dúvida define,

circunscreve e delimita problema digno de ser esclarecido.

O Sistema Único de Saúde (SUS) reveste-se de importância

no quadro sanitário brasileiro não somente como estrutura de organização

institucional da área da saúde e modelo de atendimento

à clientela, mas especialmente pela mudança impressa nas formas

de dire cionar, conceber, pensar e fazer a assistência à saúde no

país (BRASIL, 1990).

Silva e Trad (2005) enfatizam que a implementação do

Sistema Único de Saúde (SUS) tem constituído um grande

desafio para gestores, profissionais de saúde e sociedade

como um todo. A descentralização dos processos decisórios

em saúde tem possibilitado uma melhor visualização dos problemas

a serem enfrentados, assim como das possibilidades

e limites das intervenções. A busca por um novo modelo assistencial

ganha sentido prático no esforço de dar respostas

a necessidades concretas.

Para enfrentar as responsabilidades e exigências em expansão,

a função do gestor precisa abarcar dimensões que facilitem

e atendam as metas e os objetivos estratégicos

dessas instituições. A Enfermagem,

ao longo de sua história,

tem sido solicitada a reagir à evolução

das forças tecnológicas e sociais.

Fabrícia Cavalcante Rocha

– Tutora Esp. do Curso de

Gestão em Saúde na UABPI e

Funcionária da

Prefeitura Municipal

de São Luís/MA

fabriciaenf@hotmail.com


28 TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

SEGUNDA-FEIRA DE ÁGUAS: PROSTITUIÇÃO E TRADIÇÃO

Prostituição: a profissão mais antiga do mundo. Eis

frase que circula no imaginário de diferentes povos,

quase sempre, ou sempre, em tom zombeteiro. Na verdade,

trata-se de tema complexo, com matizes as mais

distintas possíveis, em diferentes países dos cinco continentes.

Os elementos culturais, como conhecimentos,

técnicas, bens, valores, hábitos, costumes, tendências,

vulnerabilidades, gostos e tradições diferem mundo

afora. As legislações de cada nação seguem linha própria.

Aqui e ali, divergências incríveis ou coincidências inesperadas.

Em países islâmicos, as mulheres são condenadas

à morte. Na Índia, literalmente banidas do convívio

social. Afinal, as jovens são reservadas para belas cerimônias

de casamento, ainda hoje, estabelecido pelas famílias

como um negócio lucrativo, enquanto os homens

não hesitam em usufruir os prazeres do sexo junto às fêmeas

de países vizinhos ou estrangeiras de outras partes

que visitam o país. Teoricamente,

às ocultas, mas sob o

olhar cúmplice dos companheiros,

o que lhes assegura

status de herói.

Alemanha, Holanda,

Nova Zelândia e Suíça regulamentam

e outorgam à prostituição

direitos similares às

outras categorias de trabalho.

Nos Estados Unidos e

na Austrália, a situação é

mais confusa, com legalização

em determinadas regiões,

por exemplo, estados

de Nevada e Sydney. Na

Suécia, a punição vai para os

clientes, e não para as prestadoras

de “serviço”. Em

contraposição a posicionamentos

tão díspares, há nações

que nem legalizam nem

perseguem os praticantes de

forma ostensiva, com exceção

da prostituição infantil,

cuja linha de ação é justificadamente

implacável. Brasil

e Espanha são exemplos.

No Brasil, o meretrício não

constitui crime, e, sim, as

atividades correlatas, tais como favorecimento, indução

e tráfico de mulheres. Em se tratando da Espanha, em

2007, o Congresso vota contra a legalização da prostituição,

em meio a polêmicas estridentes. Afinal, segundo

dados publicados pela imprensa, nesse país,

atuam na prostituição 400 mil mulheres (das quais, inacreditavelmente,

98% são estrangeiras), movimentando

por ano cifra em torno de 18 milhões de euros. São

dados que dimensionam o problema, que também é grave

no Brasil, cujos números exatos sobre a prostituição não

são dignos de crédito, por uma razão única e inequívoca:

a fragilidade que ronda o conceito da prostituição per se.

O significado dicionarista, em qualquer idioma, define

a prostituição como comércio habitual ou profissional do

amor sexual, ou seja, o sexo pago. Nesta concepção tão

simplista, onde inserir mulheres de programa, que se vendem

por valor imensuravelmente alto, que envolvem carros

de última geração, apartamentos, viagens, instâncias em

paraísos, jóias etc.etc.? Outra faceta, também mutável, é

que a profissão agrega, agora, mais e mais homens, que se

vendem por dinheiro, em troca de vida aparentemente

fácil. E o que nos parece mais paradoxal é a atitude da sociedade

como um todo. Ao tempo em que as pessoas condenam

as (os) profissionais do sexo, cada vez mais,

anúncios de jornais divulgam serviços, com detalhes sórdidos

sobre as proezas oferecidas; programas de TV convidam

prostitutas ou michês, para que narrem sua

trajetória; páginas eletrônicas da internet oferecem de

tudo, absolutamente de tudo; sites, com a finalidade explícita

de reduzir a solidão humana, terminam por mostrar

pretensões escusas; há serviços telefônicos para a consumação

do sexo; e assim por diante...

Todo este preâmbulo tão-somente para chegar às tradições

culturais e à complexidade subjacente a elas. Há casos

curiosos. Na Espanha, em particular, desde a Constituição

de 1978, inexiste religião oficial. Há cuidados especiais e

oficiais para o cumprimento da prescrição constitucional.

Por exemplo, a página eletrônica do Governo de Madrid,

www.munimadrid.es, não traz quaisquer dados sobre religião.

Mesmo assim, é visível a estreita relação entre Estado

e Igreja Católica, com mais de 95% de católicos numa população

estimada em 46.063.511 habitantes, segundo dados

oficiais do ano de 2008. E o que ocorre, em Castilla e

Leon, ou mais precisamente, em Salamanca, embora a tra-

dição venha se expandindo a outras províncias, parece-nos

uma das tradições culturais mais surpreendentes.

É a chamada segunda-feira de águas (lunes de aguas).

Sua origem remonta ao longínquo século XVI. Por ordem

do rei Felipe II, durante os 40 dias entre a quarta-feira de

cinzas até o domingo de Páscoa, as prostitutas locais, à

época, são levadas para fora da cidade, ao outro lado do rio

Tormes, que banha a cidade, para evitar tentação aos “pobres”

homens. Permanecem isoladas, sob a custódia do denominado

Padre Putas, cargo instituído por um dos

membros da realeza. Finda a Quaresma, os jovens (porque

libertos das obrigações maritais), sob o olhar conivente dos

mais velhos, se juntam para uma grande festa de boas-vindas

às mulheres que chegam, sedutoras e belas, em barcos

devidamente engalanados.

A cada ano, na segunda-feira, logo após as celebrações

da Ressurreição de Cristo, a cidade literalmente para ou

reduz drasticamente sua movimentação. Em bandos ruidosos,

famílias inteiras, grupos de amigos, amantes, pessoas

solitárias, enfim, crianças, jovens, adultos e velhos seguem

às margens do rio Tormes, onde comem, bebem, cantam,

amam, leem, jogam cartas ou conversa fora, por todo o dia.

E, desde a década de 80 do século passado, à semelhança

do que acontece em Teresina (Piauí), com o “carro das

putas”, no período carnavalesco, há barcos que chegam à

Salamanca, em lunes de aguas, com mulheres fantasiadas

e acompanhadas de um “padre”, numa representação sim-

bólica dos fatos passados.

Em tudo isto, o que causa espanto é o paradoxo que se

conserva por tantos séculos: ainda que as leis vigentes da

Espanha não criminalizem a prostituição, uma sociedade

majoritariamente católica celebra, com vigor e esplendor,

uma tradição cultural que põe em relevo a “utilidade” e a

“beleza” da prostituição. E o que é mais surpreendente:

trata-se de uma nação, cujos movimentos em prol da dignidade

da mulher são intensos. Há uma infinidade de associações.

Há uma quantidade quase imensurável de

seminários, cursos e eventos similares, promovidos por

instituições salmantinas de ensino superior, em defesa dos

direitos humanos. Para quem batalha nesta trincheira, é

evidente que mulheres e homens, ao se prostituírem, não

somente se despem aos olhos de outros, mas, sobretudo,

aviltam corpo e alma, sujeitando-se à crueldade desses outros

e/ou a aberrações de quaisquer naturezas. As prostitu-

DIVULGAÇÃO

tas e/ou os michês afirmam,

com veemência, que homens

e mulheres que os frequentam

são extremamente

verdadeiros em seus lençóis.

Despem as máscaras

sociais. Expõem sua face

mais sórdida, mais cruel,

mais bestial e, mormente, a

mais verdadeira. Travestem-se

em quatro paredes.

Por outro lado, há que

se convir que nada disto é

privilégio de um só país.

São as tradições de ontem

moldando hábitos de hoje.

São costumes de nossos

avós e bisavós nos deixando

antever a natureza

humana, como irremediavelmente

única, embora

oculta sob véus distintos.

São as civilizações construídas

e reconstruídas a

cada momento, coletivamente

ou individualmente,

em suas contradições inevitáveis.

A prova está no sucesso

da celebrada

brasileira Surfistinha, nome de guerra de Raquel Pacheco,

cujo maior mérito é ter optado, numa fase de sua vida, pelo

meretrício. Ao primeiro livro, O doce veneno do escorpião,

lançado em 2005, sob intensa publicidade e, por conseguinte,

com estrondoso sucesso editorial e bombástica polêmica

em diferentes meios sociais, seguem outros títulos.

E isto, num país, onde acadêmicos e literatos, com frequência,

percorrem verdadeiro calvário para publicar seus

trabalhos. E lá está a jovem, como convidada de honra em

distintos programas televisivos e de distintas emissoras.

Em outubro de 2010, ei-la na grande tela. É o momento do

filme homônimo O doce veneno... , que conta com Deborah

Secco como protagonista. Hoje, Raquel Pacheco está

na mídia, na Wikipedia e no The New York Times. Ou seja,

povos distintos, em momentos distintos ou formas distintas,

enaltecem a prostituição

como tradição cultural (ou não)

e assim ela segue como a profissão

mais antiga do mundo e,

quiçá, a mais gloriosa. Nós, brasileiros,

temos, pois, nossa

lunes de aguas ou nossas lunes

de aguas!

Maria das Graças Targino

Prof. Dra. da UFPI

gracatargino@hotmail.com


CIÊNCIAS DA SAÚDE

TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

CONSUMO ALIMENTAR E DE ÁLCOOL POR ESTUDANTES DE ESCOLAS PÚBLICAS

A adolescência é a fase intermediária entre a infância

e a vida adulta, durante a qual ocorre intenso crescimento

físico e profundas modificações orgânicas, psicológicas

e sociais, que influenciam no comportamento alimentar.

No sentido de investigar os hábitos alimentares e de bebidas

alcoólicas de estudantes do ensino fundamental e

médio, com idade entre 16 e 20 anos, de escolas da rede

pública estadual do Piauí, localizadas em Teresina, foi

desenvolvido estudo transversal cuja amostra se constituiu

de 10% do total dessas escolas, considerando-se para

seleção das mesmas o critério de regionalização e sorteio

aleatório simples. Participaram do estudo alunos regularmente

matriculados no ano letivo de 2004 e 2005, no horário

diurno. Em cada escola, os estudantes foram

sorteados, utilizando-se a tabela de números aleatórios.

Os dados foram colhidos mediante instrumento próprio,

abrangendo a frequência alimentar semanal, tabus,

aversões e alergias alimentares, bem como hábito de consumo

de bebidas alcoólicas. O plano de trabalho foi desenvolvido

com a participação de estudantes do PIBICjr,

que aplicaram os formulários para coleta dos dados, sob

a supervisão e orientação das pesquisadoras. Esta pesquisa

foi submetida à apreciação do Comitê de Ética em

Pesquisa da UFPI, tendo sido aprovada sob o nº 187/20.

Na caracterização dos estudantes, observou-se (Tabela 1),

que o gênero foi relativamente equitativo, 55,68% para o

feminino e 44,32% para o masculino, sendo que mais da

metade se encontrava na faixa etária de 16 a 17 anos

(57,64%). Sobre o hábito alimentar, nas três maiores refeições

do dia, foi encontrado café com leite integral,

cuscuz com margarina e açúcar compondo o desjejum, de

ambos os gêneros. No almoço, as frequências alimentares

foram semelhantes entre os estudantes e as estudantes.

Aqueles demonstraram preferir arroz com feijão,

frango e suco de fruta, enquanto estas referiram preferência

por arroz branco, carne de gado, salada com vegetais

variados, frutas (porções e suco) e refrigerantes. No jantar,

manteve-se a situação observada no almoço, acrescida

de outras preferências alimentares mencionadas por

ambos os gêneros, café com leite integral, bolo doce e

salgado e biscoito recheado, (Tabela 2). Observa-se que

a alimentação das estudantes se aproxima da alimentação

saudável, quando se considera as características diversificadas

e variedade alimentar. Sobre consumo de bebidas

alcoólicas, o estudo evidenciou tendência crescente, no

final de semana e socialmente, da menor para a maior

faixa etária. Todavia, é preocupante constatar o consumo

diário de álcool de 11,11% entre estudantes com idade

entre 14 e 15 anos (Tabela 3).

CARACTERIZAÇÃO

SEXO

masculino

Feminino

TOTAL

FAIXA ETÁRIA (anos)

14 a 15

16 a 17

18 a 20

TOTAL

CARACTERIZAÇÃO Nº %

SEXO

Masculino 160 44,32

Feminino 201 55,68

TOTAL 361 100,00

FAIXA ETÁRIA (anos)

14 a 15 22 6,09

16 a 17 208 57,62

18 a 20 131 36,29

TOTAL 361 100,00

Tabela 1. Caracterização dos estudantes de escolas públicas estaduais de Teresina, segundo o sexo e a faixa etária. Teresina PI, 2005.

REFEIÇÕES / ALIMENTOS

MASCULINO

SEXO

Café c/ leite integral 37 23,13 58 28,86

Cuscuz c/ margarina 34 21,25 37 18,41

Açúcar 77 48,43 91 45,27

ALMOÇO

Arroz c/feijão 58 36,25 58 29,00

Arroz Branco 49 30,82 66 32,84

Frango (cozido/frito) 15 9,38 16 7,96

Carne gado (cozida/frita) 10 6,25 20 9,95

Salada verde/amarela 04 2,52 15 7,46

Outros vegetais 08 5,03 16 7,99

Fruta em fatia 02 1,27 15 7,50

Suco de frutas (artificial /natural) 23 14,38 33 16,50

Refrigerantes 13 8,18 30 14,93

Arroz c/feijão 47 29,38 50 24,88

Arroz Branco 43 27,04 54 26,87

Frango (cozido/frito) 19 12,03 21 10,45

Carne gado (cozida/frita) 11 6,88 18 8,96

Salada verde/amarela 03 1,89 16 7,96

Café c/leite integral 14 8,75 15 7,46

Bolo doce/Salgado 05 3,14 12 5,97

Biscoito recheado 10 6,29 17 8,46

DIARIO

CONSUMO BEBIDA ALCOÓLICA

FIM SEMANA SOCIALMENTE TOTAL

Nº % Nº % Nº % Nº %

05 6,17 16 19,75 60 74,07 81 100,00

03 4,62 04 6,15 58 89,23 65 100,00

08 5,48 20 13,70 118 80,82 146 100,00

01 11,11 01 11,11 07 77,78 09 100,00

05 6,33 10 12,66 64 81,01 79 100,00

02 3,45 09 15,52 47 81,03 58 100,00

08 5,48 20 13,70 118 80,82 146 100,00

Fonte: Pesquisa Direta

29

Fonte: Pesquisa Direta

Tabela 2. Hábito alimentar de estudantes de escolas públicas estaduais de Teresina, segundo o sexo e a faixa etária. Teresina PI, 2005.

Fonte: Pesquisa Direta

Tabela 3. Freqüência de consumo de bebida alcoólica de estudantes de escolas públicas estaduais de Teresina, segundo o sexo e a faixa etária. Teresina - PI, 2005.

FEMININO

DESJEJUM Nº % Nº %

JANTAR

Marize Melo dos Santos

Profa. Dra. da UFPI

marizesantos@ufpi.edu.br


30 TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

Hoje em dia, há um boom da imagem da neuroimagem,

tanto na literatura técnica quanto na imprensa leiga, na qualidade

de “fotografia da mente”. Face a este desenvolvimento

emergente e vertiginoso, pesquisadores deste segmento

devem se questionar sobre os usos e abusos dos recursos da

neuroimagem. Destacam-se atualmente as seguintes tecnologias

de imagem: TC (Tomografia Computadorizada), fMRI

(Imagem de Ressonância Magnética Funcional), PETscan

(Tomografia por Emissão de Pósitrons) e SPECT (Tomografia

por Emissão de Fóton Único). Peres (2009) exemplifica

que, até o ano de 2007, muitos estudos envolveram o método

PET com uso em 48%, o SPECT com 33% e fMRI em 19%,

que vem crescendo significativamente por se tratar de um

método não invasivo e não usar radiação ionizante comum

na energia nuclear. Por isto, não é correto usar o termo ressonância

magnética nuclear, apesar de algumas pessoas ainda

insistirem nessa nomenclatura.

A Tomografia Computadorizada é uma técnica que se baseia

em emissão de Raios-X. Esse aparelho consiste em uma

fonte de raios-X que é acionada, ao mesmo tempo em que

realiza um movimento circular ao redor da cabeça do paciente,

emitindo um feixe de raios-X em forma de leque.

Já as imagens de ressonância magnética têm maior capacidade

de demonstrar diferentes estruturas no cérebro e facilita

visualizações de mínimas alterações na maioria das

doenças. Também possibilita avaliar estruturas como hipocampos,

núcleos da base e cerebelo – que é de difícil avaliação

por meio da TC (Amaro Júnior e Yamashita, 2001).

A técnica de fMRI é semelhante a um exame clínico com

MRI, diferenciando a particularidade de se obter informações

relativas à determinada função cerebral. Por exemplo, que partes

do cérebro são mais ativas durante estimulação cognitiva

do tipo escutar uma música, concentrar-se em uma imagem

agradável ou não, relembrar memórias de longo prazo. Tem

como vantagens alta resolução espacial e temporal; permite a

correlação da atividade neural com a anatomia subjacente; diversos

paradigmas podem ser utilizados com um simples

exame e permite vários ensaios em um intervalo curto de

tempo, favorecendo a avaliação estrutural de transtornos psiquiátricos.

Essa técnica baseia-se no fato de que a atividade

cerebral requer energia, e a glicose é a forma de energia processada

pelo cérebro. Quando observamos qual área cerebral

está consumindo maior quantidade de glicose, então, pode-se

MENTE, CÉREBRO E RESSONÂNCIA MAGNÉTICA

inferir onde o cérebro está funcionando mais energicamente.

Como descrito por Costa, AP Oliveira e Bressan (2001),

os métodos PETscan e SPECT, baseiam-se no princípio básico

que a instrumentação utilizada é apenas receptora de informação,

ou seja, para se obter as imagens, é necessário administrar

aos pacientes um radiofármaco marcado (um contraste,

uma forma de glicose radioativa leve), seja um emissor de pósitron

para PET, seja um emissor de fóton simples no caso do

SPECT. Sabe-se que a eficácia de detecção do sinal radioativo

é maior no PET do que no SPECT, mesmo assim seu uso é limitado,

pois os radioisótopos de emissão de pósitrons têm

vida radioativa curta de minutos, no máximo cerca de duas

horas para o flumazenil, tornando um instrumento oneroso e

restrito às grandes universidades públicas e clínicas privadas,

favorecendo ao SPECT uma alternativa mais viável.

N que pese a necessidade de ultrapassar problemas significativos

com tais metodologias, ainda são bastante necessários

nas seguintes situações clínicas: diagnóstico

diferencial das demências, incluindo a depressão dos idosos;

avaliação pré-cirúrgica de doentes com epilepsia focal; confirmação

de morte cerebral; avaliação das sequelas neuropsiquiátricas

após traumatismos encefálicos; diagnóstico

diferencial entre doença de Parkinson e parkinsionismo induzido

por fármacos. Além de estudar uma gama maior de

funções cerebrais principalmente em relação à neurotransmissão

e os neuroreceptores do que os exames de ressonância

magnética funcional.

As vantagens do PET e SPECT, respectivamente, são:

exames com dinâmicas temporais, ou seja, mensura variações

ao longo do procedimento; permite boa localização espacial

em regiões ativas e uso de distintos marcadores para estudos

metabólicos. Favorece a aquisição das imagens na tomografia

posterior à tarefa em desenvolvimento, reduzindo artefatos

de movimento; privacidade ao sujeito; usam-se

marcadores da atividade neural mais estável, como meia-vida

mais longa entre quatro e seis horas. Na mesma ordem, as

desvantagens compreendem exame invasivo; em um curto

período de tempo o experimento não pode ser repetido; restrição

a estudos com tarefas sem variações; imobilidade dos

sujeitos envolvidos. Baixa resolução não adquire anatomia;

restrição ao estudo com tarefas sem variações e os demais

quesitos do PET.

Do ponto de vista da filosofia da mente, neurocientistas

e médicos pesquisadores apóiam-se na neuroimagem como

reforço do materialismo reducionista e ao materialismo eliminativo.

Ao passo que a neuroimagem nos fornece apenas

localização cerebral. Esta não deve ser confundida com localização

anatômica, o que não nos permite inferir uma tese

identitarista e reducionista para o problema mente-corpo.

Observa-se, desde os primórdios dessa técnica, que a neuroimagem

sugere um cérebro mais parecido com uma rede, em

que uma função cognitiva tem vários locais dentro de uma

concepção equipotencialista, conexionista ou holista. Pensemos,

estudos feitos com linguagem e memória levam à conclusão

de que são várias áreas cerebrais envolvidas no

desenvolvimento do discurso e que muitos são os papéis assumidos

pelo cérebro pré-frontal esquerdo nessa produção,

o qual pode acessar significado, resgatar palavras da memória,

gerar representações internas e acessar informação fonológica.

Todavia, aquilo que é capturado pela neuroimagem –

o brilho - refere-se em parte o que está ocorrendo no cérebro

quando uma determinada função cognitiva é realizada. Portanto,

uma função não se reduz a uma única região anatômica,

mas sim multilocalizada. (TEIXEIRA, 2008;

DAMÁSIO, 2000; LLOYD, 2000).

Com base nesta linha de raciocínio, Teixeira (2008), sugere

que a neuroimagem associada à ideia do mental como

virtual, ao territorializar o lugar do psíquico e do anatômico,

não caracteriza em si o reducionismo nem independência

da relação mente-corpo, mas nos possibilita uma

teoria do aspecto dual, sendo assim, o mental e físico são

modos de descrição de uma única e mesma realidade.

Dessa forma, no campo das psicoterapias os métodos da

neuroimagem têm favorecido

o estudo de sujeitos

com transtornos de personalidade,

transtornos de estresse

pós-traumático,

depressão maior, transtorno

obsessivo-compulsivo, fobia

social e específica.

Eleonardo Rodrigues

Prof. Msc. da UESPI e

Faculdade Santo Agostinho

eleonardopr@hotmail.com

SAÚDE MENTAL EM PICOS: UM PROJETO, UMA PROPOSTA

No campo da saúde mental, a conceituação que exprime relação

entre loucura e estigma está fortemente presente nas discussões

atuais. Ao contrário dos séculos XV a XIX, nos quais o

conceito de loucura passou de natural a patológico (AMARANTE,

2002), os debates desse século em torno da saúde mental discutem

pontos nodulares pela necessidade de ressignificações sociais/culturais,

sob o enfoque do novo objeto: o portador de transtorno,

outrora denominado doente mental.

Em breve trajetória acerca da história da loucura no mundo

(FOUCAULT, 1972), nota-se que a sociedade utilizou diversas

denominações para o fenômeno em questão, conforme as necessidades

e os interesses das classes dominantes, fazendo com que

o termo “loucura” e “louco” fossem adquirindo conotações divergentes,

com o passar dos anos. Não bastasse haver mudança

em seus significados, também havia transformações nas práticas

de cuidado para aqueles que frequentavam os asilos, hospitais e,

mais tarde, hospícios ou manicômios.

A loucura, que inicialmente era considerada fenômeno integrante

da natureza humana, mais tarde assumiria o papel de causar

malefícios à sociedade, por meio daqueles por ela

acometidos. Os alienados (loucos) eram seres perigosos, por

serem agressivos, fazendo com que os profissionais de saúde optassem

por acorrentá-los e segregá-los em celas-fortes, sob o pretexto

de que o isolamento por si só tinha o poder de cura

(Oliveira, 2002).

No Brasil, com inúmeras mortes ocorrendo nesses manicômios,

e considerando inútil o tipo de prática no tratamento do

louco, os trabalhadores de saúde mental se organizaram através

de intensa mobilização em diversas cidades do país. Esse marco,

conhecido como Movimento dos Trabalhadores de Saúde Mental

(MTSM) culminou com um processo bastante complexo denominado

de Reforma Psiquiátrica (AMARANTE, 2002) e com a

promulgação da Lei nº 10.216, de 06 de abril de 2001, que redi-

reciona o modelo assistencial de saúde mental (BRASIL, 2001).

Por ser ainda recente esta Lei, os passos rumo a uma nova

forma de pensar e lidar com o processo de sofrimento psíquico

no Brasil suscitam ainda amplo debate, discussões e divulgações

em prol da participação dos envolvidos e da sociedade em suas

instâncias democráticas, para que não seja apenas implantado o

novo, mas que seja passível de acompanhamento e gerência pela

população (MEDEIROS; GUIMARÃES, 2002).

O portador de transtorno mental continua sendo visto

como um indivíduo que necessita ser recolhido a um espaço

físico de cuidado terapêutico, devendo receber medicações e

controlar suas crises, pois é incapaz de realizar atividades

rotineiras, sob a alegação de anormalidade. Assim, a sociedade

que busca a garantia dos direitos humanos é a mesma que retira

do portador de transtorno mental esse direito, pois estabelece

relação estreita entre cidadania e normalidade;

portanto, o louco estaria definitivamente excluído da condição

de cidadão (Oliveira, 2002).

Assim, considerando urgente criar espaços de discussão

acerca da saúde mental, um grupo de pesquisadores formado por

estudantes de Enfermagem e docentes da Universidade Federal

do Piauí elaboraram uma proposta para redução do estigma da

loucura na cidade de Picos-PI, submetendo-a à apreciação e

apoio pelo CNPq, através do Edital 033/2008. Sendo aprovado

no processo seletivo, o projeto teve início no mês de março de

2009, formado por quatro alunos da graduação em Enfermagem,

duas alunas do Mestrado em Enfermagem, três docentes e dezoito

servidores técnico-administrativos da UFPI/Picos. Através

da metodologia da pesquisa-ação, estratégia que permite que

ocorra um processo simultâneo de investigação e ação cuja intenção

primordial é o conhecimento e a resolução do problema

coletivo, a partir dos fatos observados, e que culmina na transformação

dos pesquisadores e dos participantes envolvidos no

contexto social sítio do problema (THIOLLENT, 2008), diversas

reuniões foram realizadas durante o ano de 2009, nas quais havia

a oportunidade de troca de experiências, estudos em grupo, leitura

de textos, assistência e discussão de filmes sobre saúde

mental, encontros que resultaram em trabalhos apresentados

em congressos e elaboração de artigos. Para 2010, serão elaboradas

cartilhas sobre saúde mental/transtorno mental que

serão distribuídas nos diversos espaços sociais picoenses, para

que as lacunas que separam o portador de transtorno mental

da sociedade sejam cada vez menores e para a sensibilização

da população, no sentido de redução do estigma. O projeto iniciou

em janeiro de 2009 com término para dezembro de 2010.

Maria Rosilene C. Moreira – Profa. da UFPI (Picos)

rosilene@ufpi.br

Edina Araújo R. Oliveira – Profa. da UFPI (Picos)

edinasam@bol.com.br

Claudete F. de S. Monteiro – Profa. Dra. da UFPI

claudetefmonteiro@hotmail.com

Jonathan Veloso Costa – Acadêmico

em enfermagem da UFPI (Picos)

jvcenfermagem@hotmail.com


TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

IMPORTÂNCIA DO PSICÓLOGO PARA PESSOAS COM DEFICIÊNCIA

O psicólogo é um profissional bastante atuante na sociedade

em que vivemos. Em quaisquer ambientes que o psicólogo venha

a atuar ele encontrará todos os tipos de público e pessoas em

suas mais variadas singularidades, o que acarreta para a formação

desse profissional uma responsabilidade ímpar. A formação

do psicólogo ainda na graduação é essencial para direcioná-lo

ao o mercado de trabalho, garantindo um profissional bem preparado

tanto para realizar atendimentos diversos como para

orientar o público a encontrar o atendimento necessário de forma

adequada.

As Diretrizes Nacionais para os Cursos de Psicologia -

DCNs (MEC, 2004), que devem embasar o ensino de Psicologia

para a formação do psicólogo, e o Código de Ética do Psicólogo

(CRP, 2005), que orienta sobre os deveres esperados e os comportamentos

vedados a esse profissional, são documentos fundamentais

para nortear a formação do mesmo ainda durante a

graduação, garantindo que essa formação atenda as necessidades

do público a ser atendido.

As DCNs estabeleceram que os cursos de formação devem

dotar os psicólogos ao longo do curso de conhecimentos que lhes

permitam a aquisição das seguintes habilidades e competências:

atenção a saúde, tomada de decisões, comunicação, liderança,

administração e gerenciamento, educação permanente. Esses conhecimentos,

habilidades e competências devem ser articulados

de modo a contemplar como eixos estruturantes da formação:

fundamentos epistemológicos e históricos, fundamentos teóricos

metodológicos, procedimentos para a investigação científica e a

prática profissional, fenômenos e processos psicológicos, interfaces

com campos afins do conhecimento e práticas profissionais

integradas (MEC, 2004). As DCNs estabeleceram ainda que o

objetivo principal do psicólogo é promover qualidade de vida.

Para atingir esse objetivo, faz-se necessário um domínio básico

de conhecimentos psicológicos e a capacidade de utilizá-los nos

mais diversos contextos, desenvolvendo a investigação, análise,

avaliação, prevenção e atuação em processos psicológicos e psicossociais

(MEC, 2004)

A formação do psicólogo deve ainda considerar que a con-

FATORES DE RISCO PARA A HEPATITE B ENTRE CAMINHONEIROS

A hepatite causada pelo vírus B ainda é uma das principais

causas de doença hepática no mundo. Calcula-se que em

torno de um milhão de pessoas morrem por complicações da

doença hepática a cada ano. Trata-se de uma doença que tem

transmissão parenteral, sexual, além da transmissão vertical.

Entretanto, pode ser efetivamente prevenida por meio da vacinação

de grupos considerados prioritários pelo Programa

Nacional de Imunização. Dentre esses grupos, também foram

incluídos os caminhoneiros (BRASIL, 2008; FERREIRA;

SILVEIRA, 2006).

De acordo com Vilarinho (2002), os caminhoneiros, especialmente

aqueles de rota longa, constituem uma categoria

ocupacional que pode contribuir sobremaneira para a disseminação

da epidemia da Aids e para a Hepatite B, dentre outras

DST. Uma das explicações seria o tempo que

permanecem fora de casa, o que faria com que mantivessem

relações sexuais com diversas parceiras ocasionais, sem proteção.

O uso de bebidas alcoólicas e de anfetaminas, além de

outras drogas ilícitas, também têm contribuído para aumentar

a vulnerabilidade dos caminhoneiros às DST. Frente ao exposto,

pretendeu-se analisar a vulnerabilidade dos caminhoneiros

que trafegam por Teresina/PI à infecção pelo vírus da

Hepatite B e buscar a predominância dos fatores de risco em

relação aos dados sociodemográficos da amostra.

METODOLOGIA

Trata-se de um inquérito epidemiológico, realizado com

384 caminhoneiros que trafegaram por Teresina no período

de dezembro de 2009 a fevereiro de 2010. O local da pesquisa

foi um posto de combustíveis, onde expressivo número de caminhoneiros

repousa e abastece os seus caminhões. O tamanho

da população foi calculado com base em uma

amostragem aleatória simples e a seleção foi do tipo acidental,

a qual vai se formando pelos elementos que vão aparecendo,

até completar o número da amostra.

Os dados foram analisados para buscar associação entre

os dados sociodemográficos da população do estudo e os fatores

de risco para a hepatite B.

solidação da profissão está associada ao crescimento do número

de profissionais cadastrados juntos aos conselhos de Psicologia

e a presença mais frequente do Código de Ética na orientação da

prática psicológica. O Código de Ética do Psicólogo pode ser

considerado um alicerce para orientar a prática do profissional

(CRP, 2005). A edição de 2005 orienta para uma formação de um

psicólogo mais generalista, que, em casos em que não domine o

procedimento, ao menos reconheça sua função de encaminhar e

orientar quem o procura, de modo a garantir e respeitar o direito

do usuário do serviço. Ele aborda os novos desafios da profissão

como questões relativas às novas tecnologias, a ampliação dos

locais de trabalho, a inclusão dos problemas profissionais (envolvendo

preconceitos e discriminações), novas formulações

para o sigilo profissional, dentre outros temas.

Frente ao exposto, uma pergunta se faz necessária: a formação

recebida pelo psicólogo ainda na graduação o prepara para

atender as demandas necessárias? É comum encontrarmos pesquisas

com psicólogos que identificam carências na formação

recebida na graduação (CRUCES, 2006; BARDAGI et al, 2008).

Um exemplo é o atendimento a pessoas com deficiência. No Brasil

há 24.600.256 pessoas com algum tipo de deficiência. Dessas,

501.409 vivem no estado do Piauí (SEE, 2006). As pessoas com

deficiência correspondem a um público com necessidades específicas,

muitas delas de ordem técnica. É necessário conhecimento

acerca dessas necessidades e principalmente do suporte

disponível para atendê-las. O primeiro ponto a considerar é que

esse público não é homogêneo e da mesma forma os serviços

prestados ao mesmo são bastante diferenciados. Portanto, é necessário

que o psicólogo esteja preparado para atuar junto a essas

demandas ou, segundo as orientações do Código de Ética, possa

encaminhá-las adequadamente.

Em uma pesquisa realizada com psicólogos que atuam com

pessoas com deficiência os participantes identificaram a formação

recebida na graduação como insuficiente para lidar com esse

público (PIO, 2008). Marques et al (2007) identificou os mesmos

problemas ao entrevistar estudantes de cursos de psicologia.

Contudo, são escassas as pesquisas que avaliam a formação

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A média de idade dos caminhoneiros do estudo foi 44

anos. Dentre a amostra, 72% são casados e 49% residem

no Nordeste. Em relação à escolaridade, 70% possuem ensino

fundamental, 21% ensino médio e apenas 3% têm

curso superior.

Quanto às informações sobre a doença, 79% não sabem

como se transmite, apenas 16% têm conhecimento de que a

doença pode ser transmitida pelas relações sexuais, 67% desconhecem

a existência da vacina contra hepatite B e 100% não

apresentam proteção vacinal. Além destes fatores de risco para

a hepatite B, merecem destaque os que seguem: 31% usam

algum tipo de droga ilícita, 58% fazem uso de álcool, 40% têm

múltiplas parceiras sexuais, 55% não usam preservativos, e

um percentual expressivo acredita na proteção divina contra

a Hepatite B, Aids e outras DST . Somam-se a isto, as dificuldades

para procura de serviços de saúde em função dos

constantes deslocamentos e de 77% não possuírem plano de

saúde para consultas, quando aparecem com alguma doença

sexualmente transmissível (DST) ou outra doença.

Teles et al. (2008) realizaram um estudo sobre DST com

641 caminhoneiros de rota longa que circulam na BR-153,

uma rodovia federal que atravessa o Brasil de sul a norte.

Destes, 96,7% afirmaram antecedentes de DST e 35,6% referiram

história presente ou passada de DST. A idade superior

a 30 anos foi estatisticamente associada. Aqueles que

relataram o uso de anfetaminas ("rebite"), antecedentes prisionais

e relacionamento sexual com profissionais do sexo

apresentaram maior chance de relato de DST.

Observou-se que o uso de preservativo nas relações sexuais

com múltiplas parceiras tem associação estatisticamente

significativa apenas com a condição de estar casado,

quando comparado ao uso entre os solteiros. A variável

faixa etária e escolaridade não apresentaram associação significativa.

Ao se buscar a associação entre ter uma parceira

sexual única com o uso de algum tipo de droga, escolaridade

e situação conjugal pode se observar que existe significância

estatística apenas entre o não uso de drogas,

31

recebida pelo psicólogo ainda na graduação para atuar junto a

esse público. A graduação é o momento mais oportuno para se

discutir a atuação do futuro profissional uma vez que é o momento

no qual o futuro profissional está ávido pelo aprender.

E qual seria a relevância de estudos nessa área? Caetano

(2009) realizou uma pesquisa com estudantes de Psicologia de

uma instituição pública do estado do Piauí e identificou que em

diversos aspectos estudantes formandos e estudantes ingressantes

do curso apresentavam o mesmo nível de conhecimento

acerca da atuação do psicólogo com pessoas com deficiência,

nível esse muitas vezes não satisfatório. No geral, as respostas

dos formandos foram mais satisfatórias que as dos ingressantes,

embora ainda insuficientes, quando analisadas à luz das Diretrizes

Curriculares e do Código de Ética. O comportamento de não

responder foi mais comum entre os estudantes ingressantes, e o

comportamento de responder, ainda que com respostas insatisfatórias,

foi mais comum entre os formandos. Os dados encontrados

levaram a pesquisadora a considerar a necessidade de

monitorar a formação desses estudantes e assim propor alternativas

para sanar as dificuldades identificadas. Espera-se que os

dados coletados nessa nova pesquisa possam fornecer informações

mais precisas sobre os pontos positivos e negativos dessa

formação (CAETANO, no prelo).

Nadja Carolina de S. P. Caetano

Profa. Msc. da UESPI – nadjacaetano@yahoo.com.br

Enicéia Gonçalves Mendes

Profa. Dra. (Pós-doutorado) UFSCar

egmendes@ufscar.br

quando comparado ao uso e entre estar casado, quando

comparado aos solteiros.

CONCLUSÃO

A aproximação com o objeto do estudo permitiu verificar

que população caminhoneira apresenta baixa frequência

de uso de preservativos e elevada proporção de relações sexuais

com múltiplas parceiras, uso de álcool e outras drogas,

somados ao fato de, na sua maioria, não buscarem os serviços

de saúde, mesmo frente ao aparecimento de qualquer

problema que os esteja afetando. Esses fatores podem funcionar

como ponte entre eles, que são considerados grupos

de prevalência elevada para as DST, e a população em geral.

Os achados deste estudo vêm corroborar com outros que

encontraram alta vulnerabilidade dos caminhoneiros às DST

e evidenciam a importância da implantação de programas

específicos de prevenção de doenças para essa categoria profissional

que enfrenta um cotidiano de deslocamentos e, portanto,

podem disseminar essas infecções em grandes áreas

geográficas em um curto espaço de tempo.

Telma M. E. de Araújo – Profa. Dra. da UFPI

NOVAFAPI e Enfermeira da SESAPI

telmaevangelista@gmail.com

Neylon Araújo Silva – Fisioterapeuta e Bolsista

AT do CNPq/UFPI - neylonsilva@msn.com.br

Aline S. Santos; Illoma Rossan L. Leite e

Ranieri A. P. de Santana – Graduandos de

Enfermagem da UFPI - alinesilva@hotmail.com


32 TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

AVALIAÇÃO DA PROMOÇÃO DA SAÚDE NO ESTADO DO PIAUÍ

O objetivo geral do projeto consistiu em avaliar os sistemas

municipais de saúde tendo como referência a situação da comunidade

e a organização dos serviços de atenção básica, na perspectiva

da promoção da saúde.

Considerou-se como base da promoção da saúde as estratégicas

fundamentais para sua implementação definidas desde

a Carta de Ottawa (1986): políticas intersetoriais, ambiente

saudável, reorganização dos serviços de saúde, desenvolvimento

das habilidades individuais (empoderamento) e participação

social.

A primeira pesquisa avaliou os municípios de Teresina,

Picos e Luís Correia, e a segunda, aqui relatada, refere-se a Floriano

e São Raimundo Nonato. Foi realizada pela Universidade

Federal do Piauí (UFPI) através do Núcleo de Estudos em Saúde

Pública (NESP), subsidiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa

no Estado do Piauí (FAPEPI), projeto de pesquisa selecionada

pelo Programa Pesquisa para o SUS -

DECIT/Ministério da Saúde (BRASIL, 2010).

O estudo comparou os indicadores de promoção da saúde

utilizados por organismos e bancos de dados oficiais com as

ações desenvolvidas pelos serviços e a compreensão da população

sobre seus problemas de saúde e assim dimensionou o

quanto a promoção da saúde se encontra instituída no plano político

e organizacional.

Utilizaram-se os indicadores de promoção da saúde sugeridos

pela OPAS para avaliar municípios saudáveis em estudo

de natureza quali-quantitativa, com uso da técnica de

amostragem por conglomerado áreas/microáreas

(urbano/rural) assistidas pela Estratégia Saúde da Família

(SUS). A pesquisa compreendeu uma triangulação entre a entrevista

com os gestores municipais (planilha de gestores),

inquérito domiciliar dirigido a 502 famílias, verificação do

acesso a equipamentos e programas sociais. As informações

em saúde foram obtidas nos relatórios gerados pelo Sistema

de Informação da Atenção Básica (SIAB). A análise aprofundou

a relação entre os indicadores de promoção da saúde, as

condições de vida da população, os determinantes sociais e

o modelo de organização dos serviços.

QUADRO 1: INDICADORES DE PROMOÇÃO ORIENTADOS PARA O ENFRENTAMENTO DOS DETERMINANTES DE

SAÚDE, ADAPTADOS DOS INDICADORES OPAS (ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DE SAÚDE). PIAUÍ, 2010.

1. INDICADORES DE PROMOÇÃO DA SAÚDE RELATIVOS AO AMBIENTE FÍSICO

a) % de domicílios ligados ao sistema público de abastecimento de água;

b) % de domicílios ligados ao sistema público de coleta de lixo;

c) % de domicílios ligados ao sistema de esgotamento sanitário;

d) % de domicílios localizados em rua pavimentada.

2. INDICADORES DE PROMOÇÃO DA SAÚDE RELATIVOS AO AMBIENTE SOCIAL

a) % de domicílios com membros desempregados há mais de 6 meses;

b) % de domicílios com crianças com certidão de nascimento;

c) % de domicílios com crianças de 7 a 14 anos na escola;

d) % de domicílios com escolares reprovados.

3. INDICADORES DE PROMOÇÃO DA SAÚDE RELATIVOS À ORGANIZAÇÃO DOS SERVIÇOS

a) % de RN pesados ao nascer;

b) % de crianças menores de 1 ano com vacina em dia;

c) % de crianças < 4 meses em aleitamento materno exclusivo;

d) políticas intersetoriais.

4. INDICADORES DE PROMOÇÃO DA SAÚDE RELATIVOS AO ESTILO DE VIDA

a) % de domicílios com fumantes;

b) % de domicílios com bebedores;

c) % de domicílios com adolescente praticando esporte;

d) % de domicílios com > 15 anos que participam de organizações sociais.

5. INDICADORES DE PROMOÇÃO DA SAÚDE RELATIVOS À SAÚDE SUBJETIVA

a) principais problemas enfrentados pelas famílias;

b) ações necessárias para a saúde;

c) % de domicílios que procuram os serviços de saúde como primeira providência quando ficam doentes;

d) atos realizados pelos indivíduos para promover a saúde.

A Assistência ao Planejamento Familiar foi estabelecida

pela Lei nº 9.263/1996, pautada no Artigo nº 226, parágrafo

7, da Constituição da República Federativa do Brasil. Este determina

que as instâncias gestoras do Sistema Único de Saúde

(SUS) são obrigadas a garantir a mulheres, homens e casais,

em toda a sua rede de serviços, a assistência à concepção e à

contracepção como parte das demais ações que compõem a

rede de saúde. Desta forma, demanda ações cujas finalidades

principais são: garantir os direitos sexuais e reprodutivos e

promover a saúde reprodutiva.

O Planejamento Familiar pode ser considerado um dispositivo,

ou seja, um instrumento de poder (Biopoder). Entretanto,

tendo em conta as insuficiências da atenção à saúde no

Brasil, tais como falta de efetividade nas ações de saúde pública,

má gestão dos recursos e dos programas, poderiam

constituir uma razão para se duvidar da performance deste

dispositivo e, portanto, da própria pertinência de utilizar,

neste caso, este termo para caracterizar.

A bioética da proteção, na medida em que se ocupa dos

suscetíveis e vulnerados, parece se legitimar em situações de

falta de desempenho e efetividade dos dispositivos biopolíticos

e de biopoder, ou seja, pode se ocupar com as ações do

A BIOÉTICA DA PROTEÇÃO

Planejamento Familiar e investigar se as mesmas se desenvolvem

como deveriam. Sendo assim, o objetivo deste estudo é

discutir a moralidade dos dispositivos biopolíticos e de biopoder

da Assistência ao Planejamento Familiar nas maternidades

públicas de Teresina-PI. Os dados foram coletados por meio

de questionários, posteriormente tabulados e tratados pelo pacote

estatístico Statistical Package for Social Sciences (SPSS).

Este estudo possibilitou que se chegasse às seguintes conclusões:

1) as ações de Planejamento Familiar desenvolvidas

são insuficientes e não atingem seu dever de proteção porque,

sequer o Programa de Planejamento Familiar foi realmente

implantado; as ações ali constatadas e que se relacionam ao

Planejamento Familiar são isoladas e não integradas, limitando-se

ao atendimento no ciclo grávídico-purperal; 2) os

métodos contraceptivos não são disponibilizados de forma integral,

só distribuem camisinhas e contraceptivos orais

(quando disponíveis); 3) os usuários não recebem informações

suficientes sobre as Doenças Sexualmente Transmissíveis

(DST), a não ser as mais divulgadas por campanhas

educativas do Ministério da Saúde, bem como pela mídia.

Quanto à universalidade na cobertura, as ações focam apenas

os casais e as mulheres, deixando de fora adolescentes e ho-

O primeiro estudo realizado apontou que esses indicadores

apresentavam pouca viabilidade diante da situação da grande

maioria dos municípios brasileiros em relação à promoção da

saúde, incluindo a organização das informações em saúde. Considerando

promoção da saúde como o enfrentamento dos determinantes

sociais em suas dimensões distais proximais e

mediais e ainda, a alta complexidade de índices e taxas em

base populacional distinta e heterogênea, o presente estudo

adotou uma nova seleção dos indicadores da OPAS. Estes

foram reagrupados e orientados para o enfrentamento dos determinantes

de saúde em cinco grupos: relativos ao ambiente

físico; ao ambiente social; à organização dos serviços; ao estilo

de vida; e indicadores de promoção da saúde relativos à

saúde subjetiva (Quadro 1).

O estudo revelou a distância entre os problemas referidos

pela população e as ações governamentais. Os domicílios das

áreas rurais se mostraram em piores condições em relação à distância

de posto telefônico, unidades de saúde e baixo acesso ao

abastecimento de água, coleta de lixo e saneamento. Para os entrevistados,

os três fatores determinantes da saúde seriam alimentação,

higiene, cuidado e lazer. Dentre as 35 políticas/ações

de saúde de caráter promocional desenvolvidas pelo município,

verificou-se que a maioria dos gestores não desenvolveu essas

ações e algumas mostraram-se mecanicamente assimiladas e

executadas sem a problematização necessária a respeito da sua

coerência com a realidade e os desejos ou necessidades de saúde

da população. Evidenciou, ainda, a não participação da comunidade

em organizações de caráter comunitário, o que a fragiliza

diante da luta por seus direitos.

Concluiu-se que as políticas municipais contribuem somente

na dimensão da atenção básica, apresentando baixo nível

de intersetorialidade com outras políticas sociais em presença

de condições ambientais e sanitárias desfavoráveis, constatando-se

uma imensa iniquidade entre o campo e a cidade.

José Ivo dos S. Pedrosa – Prof. Dr. da UFPI

ivopedrosa@uol.com.br

Laureni D. de França - Mestre – Dentista da UFPI

laudantas@yahoo.com.br

Gláucia A. V. de Azevedo – Profa. Msc. da UFPI

glauciazevedo@bol.com.br

mens. Quanto à igualdade, diagnosticou-se que as ações indicativas

da existência do Programa ocorrem isoladamente e sequer

existem instrumentos para sua avaliação. Portanto, se os

quesitos eficiência e efetividade não existem, não pode haver

como promover a igualdade, nem tam pouco a proteção e o

empoderamento.

Em síntese, os dispositivos biopolíticos e de biopoder

utilizados pelo Estado, configurados pelo Planejamento Familiar

não cumprem seu dever de proteger. Por isso, é no mínimo

necessário alertar os gestores das políticas públicas

sobre a urgência na reconfiguração

do modus operandi de tal

dispositivo. Sendo assim, os referenciais

apontados pela Bioética

da Proteção poderiam se

tornar instrumentos embasadores

das ações desenvolvidas

por tal dispositivo.

Francisca Sandra C. Barreto

Profa. da FACID e CEUT

fsandracbarreto@

terra.com.br


TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

A COMPOSIÇÃO CORPORAL E O CONSUMO ALIMENTAR EM JOGADORES DE FUTEBOL

A produção de espécies reativas de oxigênio é comum

em todos os sistemas biológicos. Em condições fisiológicas,

durante o metabolismo celular aeróbio são formados

intermediários reativos (superóxido, hidroxila, peróxido de

hidrogênio). Quando a formação desses radicais livres é superior

à atividade do sistema de defesa antioxidante, o resultado

é dano tecidual e produção de compostos tóxicos

danosos aos tecidos, caracterizando assim o estresse oxidativo

(FERREIRA & MATSUBARA, 1997; SCHNEIDER

& OLIVEIRA, 2004).

O exercício intenso induz a formação excessiva de espécies

reativas de oxigênio, bem como o aumento do metabolismo

energético. Essas espécies podem prejudicar o

desempenho do atleta (KOURY & DONANGELO, 2003).

O futebol é uma modalidade de esporte com exercícios intermitentes

de intensidade variável. Aproximadamente,

88% de uma partida de futebol envolvem atividades aeróbias

e os 12% restantes, atividades anaeróbias de alta intensidade

(GUERRA et al., 2001).

Pesquisas recentes apontam que o exercício extenuante

pode acarretar alterações no metabolismo do zinco, levando

a uma imunossupressão, ao estresse oxidativo e à diminuição

da performance (CORDOVA & NAVAS, 1998).

Este mineral participa como cofator de enzimas envolvidas

no sistema de defesa antioxidante, entre elas a superóxido

dismutase (SOD), além de ser um potente estabilizador das

membranas celulares e de possuir uma relação com os sinais

de membrana na regulação hormonal (GOLDFARB,

1999; CLARKSON & THOMPSON, 2000).

OBJETIVOS

Avaliar a composição corporal de jogadores de futebol

por meio da impedância bioelétrica. Avaliar a adequação

da dieta em relação à macronutrientes e zinco.

DIVULGAÇÃO

RESULTADOS:

ENERGIA/NUTRIENTES ATLETAS RECOMENDAÇÃO

Energia (kcal/dia) 3640,5 ± 628,9 30 – 50 kcal/kg de PC*

Proteína (g/kg de PC) 2,8 ±0,4 1,2 – 1,6g/kg de PC*

Carboidrato (%) 52,4 ± 5,5 60 – 70*

Lipídio (%) 24,8 ± 3,7 < 30*

Zinco (mg/dia) 26,6 ± 5,0 11**

PC = Peso Corporal *Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte (2009) **DRIs (2001)

TABELA 1: Valores médios e desvios padrão de energia, macronutrientes e concentração de zinco presentes na alimentação

do grupo de atletas em estudo (n = 12).

PARÂMETROS ATLETAS

Peso (kg) 72,8 ± 5,3

Altura (cm) 176,3 ± 5,4

IMC (kg/m2) 23,5 ± 1,5

Peso de Massa Magra (kg) 62,8 ± 4,6

Peso de Massa Gorda (kg) 10,0 ± 3,3

Gordura Corporal (%) 13,7 ± 4,1

TMB (Kcal) 1909,7 ± 140,2

IMC= Índice de Massa Corporal; TMB=Taxa Metabólica Basal

TABELA 2: Valores médios e desvios padrão de parâmetros antropométricos e da composição corporal dos atletas participantes

do estudo (n = 12).

METODOLOGIA

Estudo de natureza transversal, analítico e experimental

desenvolvido com os jogadores do time Piauí Esporte

Clube (n=12). Para a seleção dos participantes foram adotados

os seguintes critérios de inclusão: Não fumantes. Ausência

de suplementação vitamínica-mineral e/ou uso de

outros medicamentos que possam interferir no metabolismo

do zinco. Ausência de doenças agudas ou crônicas que pudessem

interferir na avaliação do estado nutricional relativo

ao zinco.

PARÂMETROS ANTROPOMÉTRICOS

Peso (Kg): O peso corporal foi determinado, utilizando-se

uma balança digital Plena com capacidade máxima

de 150 Kg, graduada em 100 em 100 gramas, estando

os participantes descalços e com roupas leves.

Estatura (cm): A estatura foi mesurada com altímetro

metálico, graduado em cm e estando o avaliado em posição

ortostática, pés descalços e unidos, procurando pôr em contato

com o instrumento de medida as superfícies posteriores

do calcanhar, cintura pélvica, cintura escapular e região

occipital, estando à cabeça esta orientada segundo o plano

de Frankfurt (PETROSKI, 1999).

IMPEDÂNCIA BIOELÉTRICA

Para avaliação do percentual de gordura dos participantes

do estudo foi utilizada a impedância biolétrica como

aparelho BYODYNAMICS modelo 310, Body Composition

Analyser – USA.

33

DETERMINAÇÃO DE MACRONUTRIENTES

E DO ZINCO NA DIETA

O consumo de alimentos foi avaliado por meio de um

inquérito alimentar realizado de acordo com a técnica de

registro alimentar durante três dias, compreendendo dois

dias da semana e um dia do final da semana. Os participantes

da pesquisa foram orientados quanto à forma correta

de anotar os alimentos, discriminando o tipo de

refeição, preparações, porcionamento, medidas caseiras,

quantidades e horários em que foram consumidas.

Os inquéritos alimentares foram analisados pelo

programa computadorizado NutWin versão 1.5 do Departamento

de Informática em Saúde da Universidade

Federal de São Paulo (ANÇÃO et al., 2002). Os alimentos

não encontrados no programa foram incluídos na determinação

da composição de nutrientes, tomando-se

por base a Tabela Brasileira de Composição de Alimentos

(TACO, 2006).

CONCLUSÃO

O consumo alimentar dos atletas avaliados neste estudo

apresenta-se inadequado em relação à ingestão de proteínas

e carboidratos, porém adequado em relação a lipídios. Os

valores médios de zinco dietético apresentam-se superiores

à recomendação.

A avaliação da composição corporal dos atletas avaliados

neste estudo mostra que os mesmos apresentam a adequada concentração

de gordura.

Moisés Mendes da Silva – Mestrando em Ciências e Saúde na UFPI

professormoises300@hotmail.com

Nara Adília A. Cavalcante – Graduanda de Nutrição na UFPI

Mariana Séfora B. Sousa – Graduanda de Nutrição na UFPI

Nadir do N. Nogueira – Profa. Dra. da UFPI

Dilina do N. Marreiro – Profa. Dra. da UFPI

marreiro@usp.br


34 TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

TECNOLOGIAS

ATAPULGITA NO PIAUÍ: POSSIBILIDADES TECNOLÓGICAS

As argilas são recursos naturais que sempre foram utilizadas

pela humanidade, como, por exemplo, na fabricação de objetos

cerâmicos (telhas e tijolos) e utensílios domésticos. Possuem

propriedades que podem ser modificadas, possibilitando seu uso

na fabricação de vários produtos, colaborando para o desenvolvimento

de novas tecnologias, competindo no mercado de forma

igual ou superior a muitos produtos sintéticos. Em virtude da

gama de aplicações tecnológicas, as argilas têm se tornado materiais

importantes na indústria brasileira e mundial.

A atapulgita, também conhecida como paligorsquita, é um

argilomineral que consiste em um silicato de magnésio hidratado.

Esse nome foi atribuído por Lapparent, em 1935, data de

sua descoberta, em Attapulgus, no estado da Geórgia (EUA) e

em Mormoiron (França). A partir de técnicas mais sofisticadas,

o mesmo pesquisador mostrou que essa argila era a mesma paligorsquita

descoberta em 1861 nos Montes Urais na União Soviética.

Possui fórmula geral R5Si8O20(OH)2(OH2)4.4H2O,

onde o R representa o cátion Mg2+, podendo também ser substituído

pelo Al3+, Fe2+e Fe3+.

Depósitos de atapulgita foram descobertos no município de

Guadalupe, no Piauí, distribuídos em uma área de 700 km2 com

potencial de aproveitamento econômico. A atapulgita ainda

pode ser encontrada nos municípios de Anísio de Abreu, Fronteiras,

Paulistana, São Raimundo Nonato e Simões.

Várias são as aplicações da atapulgita, que pode ser utilizada

como absorvente de óleos (na limpeza de assoalhos industriais,

em especial), suportes primários para biocidas, para

banheiro de gatos ("pet" ou "cat litter"), para cobrir o chão

de vagões transportadores de gado e para uso como absorvente

de óleos e gorduras para rações animais. Outras aplicações

incluem uso como agente tixotrópico em perfuração

de poços de petróleo em regiões salinas ou com águas salinas;

manuseio e distribuição de fertilizantes líquidos (ex.:

amônia líquida); substituição do amianto crisotila em materiais

de revestimento, vedação e pavimentação à base de asfalto;

adsorvente e desodorante das frações do petróleo,

especialmente querosene para motores a jato, e adsorventes

para fins farmacêuticos.

No Piauí, o interesse em pesquisas com esse argilomineral é

cada vez mais crescente. Um dos fatores para tal investigação é sua

fácil obtenção na natureza, visto que o estado disponibiliza uma

grande reserva de atapulgita. Pode ser utilizada em diversos setores

de atividade humana, despertando o interesse de várias indústrias.

Nos próximos anos, esse aumento será cada vez maior com melhores

formas de processamento e qualidade em sua extração, possibilitando

seu uso em diversas aplicações tecnológicas.

Na Universidade Federal do Piauí, sob orientação do Professor

Doutor José Machado Moita Neto (jmoita@ufpi.edu.br), desenvolvemos

projetos de pesquisa

com a atapulgita, analisando suas

propriedades e seu potencial em

novas aplicações tecnológicas,

como a formação de compósitos

para uso em tratamento de efluentes

têxteis.

Cristiany Marinho Araújo

Mestranda em

Química da UFPI

crysmarinho@yahoo.com.br

AS POLÍTICAS PÚBLICAS ESTADUAIS DE HABITAÇÃO: A ATUAÇÃO DA ADH

A habitação se caracteriza por ser um bem de consumo de características

singulares, constituindo um elemento durável e de elevado

valor. Infelizmente, uma parcela significativa da população

não dispõe de condições financeiras para tal aquisição, constituindo-se,

assim, em demanda imediata por habitação no Brasil. A

habitação, quando se baseia na produção a baixo custo, no emprego

de materiais alternativos e com propósito de servir a classes menos

favorecidas, denomina-se habitação de interesse social.

A habitação popular não se resume apenas a um produto, e sim

a um processo, caracterizado como resultado de uma relação complexa

de produção com determinantes políticos, sociais, econômicos,

jurídicos, ecológicos, tecnológicos. Não se deve resumir a

habitação popular à unidade habitacional, sendo necessário que seja

considerada de forma mais abrangente, contemplando aspectos,

como serviços urbanos: infra-estrutura urbana, equipamentos sociais,

de lazer, educacionais, esportivos e de geração de emprego

e renda. Observa-se que as cidades brasileiras não se prepararam

para a forte demanda urbano/habitacional e cresceram desordenadamente

e à margem dos instrumentos legais, com moradias

em condições precárias de salubridade e segurança, comprometendo

o meio ambiente e os recursos naturais necessários à vida,

não só nos locais ocupados como nas regiões vizinhas.

Em Teresina, capital do estado do Piauí, a realidade não é diferente.

A cidade está localizada geograficamente na região “entrerios”

(os rios Parnaíba e Poti), e se caracteriza por possuir um clima

quente-úmido, com altas temperaturas, alta taxa de insolação, a inexistência

de uma ventilação constante. A vegetação pertence à Mata

dos Cocais, e com grande parte da população formada pela miscigenação

entre brancos e índios, os caboclos, o que faz com que tais

aspectos sejam preponderantes para o direcionamento da criação

projetual de tipologias arquitetônicas apropriadas a esta realidade.

Observou-se que, no que diz respeito às tipologias arquitetônicas

existentes, 41,5% das casas utilizam tijolos e telhas cerâmicas,

sendo 38,5% das casas em taipa de pau a pique e cobertura de

palha (Figura 1), denotando a influência do meio ambiente local,

uma vez que a cidade faz parte da região geográfica da Mata dos

Cocais, com predomínio de palmeiras, como a carnaúba e o babaçu,

dos quais são extraídos alguns materiais construtivos destas casas.

Outra tipologia existente são os conjuntos habitacionais. Somente

entre os anos de 1964 a 1990 foram construídos pela antiga

COHAB/ PI 43 conjuntos, com aproximadamente 35 mil unidades,

abrigando 150 mil pessoas. Muitos destes conjuntos estão em precário

estado de conservação, necessitando de intervenções, tanto

nas residências, como na infraestrutura dos mesmos. Conforme os

dados do IBGE (Censo Demográfico 2000), o número de habitantes

é de 779.939 pessoas, dos quais, 194.354 ocupam os domicílios urbanos,

e 10.826, os domicílios rurais, totalizando 183.528 unidades.

Apresenta um déficit habitacional quantitativo (Fundação João

Pinheiro/ SNH/ Mcidades, ano base: 2000) em números absolutos

totalizados em 60.232 unidades, sendo 51.145 unidades na área urbana

e 9.087 unidades na área rural. Destes, no que diz respeito à

inadequação dos domicílios urbanos (déficit qualitativo), referente

à inadequação fundiária, são totalizados 14.004 imóveis; 15.426

com adensamento excessivo, 40.758 domicílios sem banheiro e

53.995 com carência de infra-estrutura.

AS AÇÕES DA ADH EM TERESINA

A oferta de produtos habitacionais da ADH está condicionada

aos programas e linhas de financiamento do Governo Federal,

FNHIS, OGU, MCMV e FGTS, e tem encontrado no FGTS uma

importante fonte de recursos para a habitação, totalizando 60 % de

sua produção oriunda deste fundo. São operados basicamente os

programas Pró-Moradia e Carta de Crédito Individual em Operações

Coletivas, denominado no estado de Semeando Moradia.

Além da Agência de Desenvolvimento Habitacional (ADH) que

opera ambos, a Secretária de Planejamento por meio do Programa

de Combate à Pobreza Rural (PCPR) também tem produzido habitações

no programa Semeando Moradia

A única ação com recursos do OGU/ Orçamento Geral da

União é a de Projetos Prioritários de Investimentos na qual a ADH

está concluindo o conjunto residencial Nova Theresina, a 18 km

do centro de Teresina (TD Entre Rios) com 527 unidades com área

entre 50 e 57m². De forma geral, é possível perceber que os programas

e projetos que têm como fonte de financiamento OGU/ Orçamento

Geral da União são poucos e concentrados no Território

de Entre Rios, mais especificamente em Teresina, chegando a

R$15.000.000.00 no Residencial Prado Júnior, no bairro Nova Theresina.

A produção habitacional, tanto privada quanto pública, se

concentra em Teresina e em municípios com mais de 50 mil habitantes,

sendo a produção de novas unidades habitacionais, com tipologias

de casas unifamiliares térrea, em alvenaria. A oferta e a

demanda por habitação produzida pela incorporação privada se

concentram em Teresina, pois o município apresenta a população

com nível de renda mais alto.

Tal fato também pode ser observado em nível de oferta pública,

que, na cidade de Teresina, apresentou 80% das unidades

produzidas pela COHAB-PI (1966/ 2000) e concentrando 49% das

ações da ADH, entre 2007 e 2009. Segundo dados coletados no documento

de Revisão do PEHIS/PI (2010), a solução habitacional

mais adotada é a construção de nova unidade habitacional, alcançando

81% do total produzido entre os anos de 2007 a 2009. E a

cidade de Teresina recebeu 49% do total de unidades produzidas

pelo Governo Estadual, neste mesmo período.

Os produtos habitacionais mais comuns adotados são a casa

térrea ou a cesta de material para construção. As casas têm, predominantemente,

até 40m² de área com dois quartos, sala, cozinha,

banheiro e área de serviço externa e utilizam como técnica construtiva,

predominantemente, a alvenaria.

Atualmente, a ADH possui 5 grandes conjuntos em obras, 4

deles em Teresina (Conjunto residencial Prado Júnior no Nova Theresina;

Residencial Jornalista Paulo de Tarso Morais, no bairro de

Santa Maria da Codipi; Residencial Jacinta Andrade localizado,

também, no bairro de Santa Maria da Codipi e Cidade 2000, todos

inseridos na zona norte da cidade, em áreas ainda não consolidadas

do ponto de vista urbanístico.

Um aspecto que desperta interesse nestas propostas é que a

ADH adotou para todos os seus empreendimentos a política de

cotas em parceria com a Coordenadoria de Direitos Humanos e da

Juventude. Os grupos que estão incluídos para benefícios através

dessas cotas são negros(as), mulheres vítimas de violência, mães

de menores infratores e o público GLBTTT (gays, lésbicas, bissexuais,

transgêneros, travestis e transexuais).

Visando diminuir o déficit habitacional local, o Conjunto

Habitacional Jacinta Andrade (Figura 3) é um empreendimento

que vem sendo realizado com recursos do PAC/Governo Federal

e CAIXA, e tem como meta a construção de 4.300 casas, abrigando

aproximadamente 20.000 pessoas, na zona norte do município

de Teresina, a 18 km do centro. O empreendimento

consiste num dos maiores investimentos federais na área em

construção no País, e vem sendo alvo principal da política pública

estadual e municipal, uma vez que envolve uma série de

atores institucionais, como AGESPISA, CEPISA, Prefeitura Municipal

de Teresina, entre outros.

Pode-se aqui concluir, após algumas das reflexões realizadas,

que a ADH-PI conseguiu realizar um bom trabalho na cidade

de Teresina, apesar de alguns pontos relacionados, como

a falta de projetos arquitetônicos de melhor qualidade projetual

voltados para a realidade sociocultural local. Sabe-se que disso

depende, também, uma mudança na política habitacional nacional,

especificamente por parte dos órgãos financiadores destas

obras, que devem abrir a possibilidade de soluções mais apropriadas

a cada especificidade regional. Outro aspecto a ser considerado

diz respeito à necessidade da implantação de uma

instituição municipal que organize melhor a política municipal

na área habitacional, podendo

existir, assim, uma melhor parceria

entre ações e programas

do Estado e da Prefeitura, dando

a oportunidade de se trabalhar

em conjunto, e não, de forma individualista

e distante, conforme

vem ocorrendo.

Alcília Afonso de A. Costa

Profa. Dra. da UFPI

kakiafonso@hotmail.com


Considerando que a arquitetura deve ser vista antes de tudo

como um ordenamento cujos princípios têm regras básicas, tanto

para a distribuição espacial dos movimentos urbanos de veículos

e pedestres, como para a localização das diferentes atividades

que podem ser realizadas nos espaços urbanos, é necessário incluir

uma complexa análise do entorno urbano do lugar onde as

intervenções arquitetônicas têm um significado maior para o

funcionamento da cidade do que possa imaginar nossa vã filosofia.

Toda intervenção no espaço urbano vai gerar nova ocupação

e novos ocupantes ou usuários, que passarão a usufruir da

cidade existente. Imagine, o sistema urbano recebendo novos

usuários sem que o projetista tenha se preocupado com este aspecto

ao implantar o novo projeto.

Para tanto, é necessário conhecer as características locais de

ocupação, tipologia e morfologia urbanas. Explica-se tal necessidade

por duas razões. Primeiro para harmonizar a ideia projetual

com aspectos morfológicos tradicionais da área, e segundo,

para identificar, dentre as características físicas, sociais e econômicas

pertinentes ao sítio, aquelas que poderão se tornar restritivas

ao projeto. Também é preciso identificar e localizar

equipamentos e serviços urbanos existentes com o objetivo de

conhecer sua capacidade de atendimento em função da demanda

existente e da demanda pós-intervenção.

Várias visitas à área de implantação do novo projeto poderão

fornecer subsídios para evitar equívocos projetuais. Visitando

os conjuntos habitacionais de Teresina, por exemplo,

observa-se que alguns apresentam sinais de deterioração, enquanto

outros apresentam condições urbanas mais aceitáveis.

Como explicar a diferença entre eles? A explicação para a degeneração

urbana ou insucesso projetual desses espaços urbanos

tem várias causas. Em geral, os danos não estão relacionados ao

sistema construtivo utilizado, mas sim, à forma como o espaço

público e privado foi idealizado. A análise das diferenças existentes

talvez aponte o caminho para uma projetação que assegure

o sucesso da implantação desta tipologia. Sabe-se que, em muitos

casos, a apropriação, ao longo do tempo e das necessidades

que dela decorrem promovem uma correção do projeto. Este foi

o caso do Conjunto Mocambinho. Entretanto, outros conjuntos

são absorvidos pela cidade desde o início de sua ocupação. Conjuntos

habitacionais, como Saci, Parque Piauí, e Itararé se apre-

TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

ARQUITETURA DE RUA

sentam com uma organização espacial em consonância com os

aspectos mais tradicionais de nossa cidade, tais como uma arquitetura

que prioriza espaços abertos tratados adequadamente

de forma a propiciar o convívio social, que gera um sistema viário

compatível com o da cidade, que busca a vinculação entre as

áreas edificadas e a rua, que promove a interação da comunidade

com a cidade, através de um fluxo direto, e que produz uma estrutura

fundiária flexível, possibilitando o manuseio da célula

habitacional e da unidade de parcelamento, por parte do usuário,

de forma a adequá-los às suas necessidades, etc.

Conhecer as peculiaridades do sítio permite a constatação

de fatos que se tornam elementos do partido arquitetônico a ser

adotado. Mas também se aprende em visitas à arquitetura já

construída. Retomando o exemplo dos conjuntos habitacionais

de Teresina, uma visita ao local demonstra o surgimento de uma

arquitetura cheia de constituições, conexões entre espaço privado

e espaço público, que se justifica por permitir à população

um maior controle visual da rua, o que contribui para a conservação

e segurança do espaço público e o qualifica. Significa

dizer que intensificar a relação entre os espaços públicos e os

espaços privados é uma boa prescrição projetual.

A preocupação em harmonizar a proposta projetual aos aspectos

tradicionais da cidade implica a necessidade de sair da

prancheta e ir à rua olhar e assimilar suas feições e suas cicatrizes,

para fazer bons projetos.

Como vimos, o processo exige a experimentação do sítio.

Mas também requer sua identificação no contexto urbano sob o

ponto de vista de sua complexidade: legal, histórico, social, econômico,

etc.

Depois de analisar as legislações pertinentes acerca da exequibilidade

do objeto arquitetônico no terreno selecionado, o arquiteto

deve se perguntar: quais as particularidades do

crescimento urbano deste trecho da cidade? Como a área se

constituiu? E como ela se apresenta hoje? Quais suas permanências,

transformações e acréscimos? Como esta área se integra à

cidade? Há alguma barreira à continuidade da malha urbana?

Conhecer a evolução urbana da área e suas características tipológicas

e morfológicas atuais é fator de aproximação com o objeto

arquitetônico e constitui variável de projeto.

35

O passo seguinte é identificar a composição demográfica da

área e verificar como ela se distribui espacialmente. A densidade

populacional será a variável obtida e principal restrição de projeto.

Outras informações importantes poderão ser obtidas em instituições

governamentais e dizem respeito à variável “densidade

demográfica”, que remete aos dados socioeconômicos e estruturais.

Refere-se à educação (número de escolas e creches, demanda

atendida, demanda a atender, etc.); economia (renda

mensal/domicílio); meio-ambiente; cultura; esporte e lazer; sistema

viário; saúde e segurança.

As informações obtidas até aqui devem fazer o arquiteto

exercitar o PENSAR. Por exemplo: Como refletir tais informações

espacialmente? Esta talvez seja a primeira discussão do arquiteto

com ele mesmo. Ocorre, porque temos que considerar tal

rebatimento como necessário à integração do objeto arquitetônico

ao seu entorno. Outro tema bom para esta discussão solitária

é: a implantação do objeto arquitetônico vai trazer que tipo

de consequências à região? Aliás, diga-se de passagem, que o

exercício de pensar, de refletir sobre o projeto e sua relação com

as pessoas e com o entorno, acompanha o arquiteto durante todo

o processo de projetação. E se tal discussão for compartilhada,

ao invés de ser uma atividade solitária, melhor. Trará bons resultados

para o projeto.

Todas as informações coletadas e as constatações decorrentes

das discussões deverão constituir subsídios para o arquiteto

projetar corretamente durante todas as fases do

projeto. O resultado? Será um objeto arquitetônico aprazível.

A análise prévia permite uma

implantação compatível com o

sítio em termos de uso e ocupação.

Projetado desta forma,

com certeza a intervenção urbana

será um sucesso.

Ângela Martins

Napoleão Braz e Silva

Profa Msc. da UFPI

abraz@ufpi.br

ESTUDO DO POTENCIAL EÓLICO NO LITORAL DO PIAUÍ

Atualmente, muito se tem falado em fontes renováveis de

energia. Isso pode ser justificado pelo consenso mundial da comunidade

acadêmica no sentido de alertar, cada vez mais, para os perigos

que podemos enfrentar com o aumento acelerado do efeito

estufa, oriundo de processos de combustão, que, por sua vez,

emitem o gás carbônico CO2 em excesso, devido à utilização de

fontes energéticas, como é o caso do petróleo, e também com o

funcionamento de termelétricas, que, no seu processo de conversão

de energia elétrica, utiliza a queima do carvão mineral. Podese

dizer que essa utilização, que vem preocupando os

ambientalistas pelo mundo a fora, teve um começo na revolução

industrial no final do século XVIII, mas, naquela época, possivelmente

não existia um grau de preocupação das consequências

dos malefícios que essa revolução poderia nos trazer de ordem

das mudanças climáticas, que hoje em dia muitos cientistas alertam

que irá afetar o mundo todo num futuro próximo. Portanto,

em tempos atuais, o incentivo a pesquisas que possam nos trazer

uma garantia de geração de energia elétrica limpa, ou seja, livre

de poluentes atmosférico e também renovável, deve ser uma

constante no meio acadêmico, visto que não podemos pensar somente

em uma substituição de fonte de energia, mas sim em garantir

que nossas futuras gerações possam viver em um mundo

saudável. Dessa forma, estaremos alcançando o chamado desenvolvimento

sustentável, tanto divulgado pelos ambientalistas.

Uma das fontes de energia que pode contribuir muito para a

redução de gases estufa em excesso devido a atividades antropogênicas

é, sem dúvida, a geração eólica, isso se pensarmos no

fato de o vento ser uma fonte inesgotável de energia. E no caso

do Brasil, especialmente na região do litoral nordestino, incluindo

os estados do Piauí, Ceará, e Rio Grande do Norte, já é

de consenso mundial que nessas regiões a qualidade dos ventos

é tamanha que chega a ser incomparável como restante do

mundo, principalmente com relação a pouca variação tanto na

intensidade bem como na direção.

Em nosso país a geração da energia cinética dos ventos em

energia elétrica vem sendo bastante explorada nos últimos anos

com a implantação de diversos Parques Eólicos em grande parte

do território, aliás, foi no Estado do Ceará que se implantou um

dos primeiros Parques Eólicos em terreno de dunas. Abrindo

então a oportunidade de implantação de diversos outros, como

por exemplo, na praia Pedra do Sal na cidade de Parnaíba, no

Piauí, como ilustrado na fig.(1).

O primeiro Parque Eólico piauiense foi implantado pela Tractebel

Energia, empresa do setor eólico, que o inaugurou em 13 de

fevereiro de 2009. Esta usina irá produzir 18 MW por meio de 20

aerogeradores e estará interligada ao Sistema Interligado Nacional

(SIN) pela subestação da Companhia Energética do Piauí – (Cepisa),

em Parnaíba (PI). Com um investimento total de R$ 102,8

milhões, a usina tem capacidade para operar em plena carga, de

gerar energia elétrica para atender o consumo residencial de aproximadamente

70 mil pessoas, e ocupa uma área total de 540 hectares,

sendo que cada torre possui aproximadamente 80 m de

altura. Vale ressaltar que esse parque eólico foi planejado dentro

do Programa de Incentivo para Fontes Alternativas de Energia Elétrica

(PROINFA), lançado pelo governo brasileiro, em 2002. O objetivo

principal deste programa é fornecer incentivo à utilização

de energias renováveis, como por exemplo, energia eólica, solar e

pequenas centrais hidroelétricas.

A implantação do Parque Eólico da Praia Pedra do Sal foi

um importante passo inicial para inserir o Estado do Piauí como

um produtor em potencial para a geração eólica. Quando olhamos

para os principais mapas de potencial eólico já produzidos até

agora no Brasil, Figs.2 e 3, pelo Centro Brasileiro de Energia Eólica

(CBEE) no ano de 1998, e Centro de Pesquisas em Energia

Elétrica (CEPEL) em 2001, respectivamente, vemos que, de fato,

há muito a ser explorado no Estado.

Para a confecção dos dois mapas, foram utilizados dados de

velocidade de vento medidos a uma altura de 50 m. Nos dois

mapas, o litoral do Piauí possui intensidades médias de ventos

superiores a 8,0 m/s. O Atlas Europeu do Vento, publicado pela

empresa dinamarquesa Risø National Laboratory, em 1989, revelou

que a um nível de 50 m de altura, as regiões de maior potencial

eólico da Alemanha (um dos maiores produtores do setor

eólico) estão localizadas em uma pequena faixa litorânea com

velocidade média de vento entre 5 e 6 m/s. Com isso observamos

que, muito embora, o litoral do Estado do Piauí seja pequeno,

comparado com a Alemanha, ou seja, são aproximadamente 66

km de extensão contra aproximadamente 300 km, ainda assim,

é possível prever a implantação de mais Parques Eólicos na região

litorânea, devido às empresas do setor eólico terem o interesse

de aproveitar essa intensidade, e certamente fará com que

haja uma significativa mudança na matriz energética do Estado.

É importante dizer que não somente o litoral vem sendo

pesquisado para implantação de Parque Eólico no território

brasileiro, mas também regiões fora dele, como por exemplo:

regiões serranas e ribeirinhas. No Piauí, é possível explorar

todas essas regiões, em especial ao longo do rio

Parnaíba e afluentes. Ficamos, então, ansiosos com mais

instalações de empresas de energia eólica, a fim de trazer

cada vez mais benefícios em diversos setores para o Estado

do Piauí. Não esquecendo também que esse tipo de energia

limpa e renovável poderá um dia substituir as fontes energéticas

atuais que degradam o meio ambiente, retardando,

assim, o aquecimento global.

Henrique do Nascimento Camelo

Prof. Msc. do Instituto Federal de Educação,

Ciência e Tecnologia do Piauí (Parnaíba)

henriquecamelo13@yahoo.com.br

Thiago de Brito Pereira

Graduando de Física do IFPI

thiagodbpereira@yahoo.com.br


36 TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

CIÊNCIAS DA NATUREZA

O termo vitamina E é usado como descritor genérico de

todos os derivados de tocol e tocotrienol com atividade biológica

de α-tocoferol (IUPAC,1981). As formas encontradas

naturalmente incluem quatro tocoferóis (α-, β-, δ- e γ-tocoferol)

e quatro tocotrienóis (α-, β, δ- e γ-tocotrienol) (Herrera

et al, 2001).

É um micronutriente que tem como principal ação proteger

os ácidos graxos poliinsaturados de cadeia longa das

membranas celulares e as lipoproteínas contra a oxidação

(Bramley et al, 2000). Alguns estudos têm indicado um

provável envolvimento da deficiência de vitamina E na patogênese

da aterosclerose, diabetes e alguns tipos de câncer,

bem como na modulação da inflamação e resposta

imune (Morrissey e Sheehy, 1999). Além disso, ela é importante

nos estágios iniciais de vida, desde a concepção

até o desenvolvimento pós-natal da criança, e a sua deficiência

pode causar anemia hemolítica e afetar o desenvolvimento

do sistema nervoso central, principalmente em

recém-nascidos pré-termo, por causa das concentrações

mais baixas de tocoferol no plasma (Azzi e Stocker, 2000,

Debier, 2007).

Do ponto de vista nutricional, o organismo humano re-

VITAMINA E OU ALFA-TOCOFEROL?

quer apenas a forma alfa tocoferol natural em conformação

RRR. Essa nomenclatura depende de como os carbonos quirais

presentes na cauda phytyl se ligam ao anel cromanol.

A forma sintética, também conhecida como all-rac-alfatocoferol

ou dl-alfa-tocoferol, possui uma mistura equivalente

de oito estereoisômeros, sendo a conformação RRR

apenas um desses estereoisômeros (Traber, 2006). Considerando

as recomendações do Instituto de Medicina Americano

(2000), um adulto deve consumir 15mg/dia da forma

natural RRR-alfa-tocoferol. Esse valor é baseado na RDA

2000 (Recommended Dietary Allowance) que se refere à

quantidade de nutriente que deve ser ingerida para atingir

as necessidades de quase todos (97-98%) os indivíduos de

um grupo.

Tal fato resulta em valores diferentes, ao considerar

que 1 UI (unidade internacional) de vitamina E corresponde

a 1mg de all-rac-alfa-tocoferil acetato, 0,67mg de

RRR-alfa-tocoferol, ou 0,74 mg RRR-alfa-tocoferil acetato.

Portanto, 15mg/dia de RRR-alfa-tocoferol corresponde

a 23UI da forma RRR ou 34UI da mistura racêmica.

Em cálculos de dietas, suplementos na forma all-rac-alfatocoferol

possuem um fator de 0.45mg/UI, refletindo a

inatividade dos Isômeros 2S.

Além disso, existe mais um aspecto a considerar, que é

a dificuldade em se obter a forma natural do RRR-alfatocoferol

(antes denominada d-alfa-tocoferol), porque os

óleos vegetais mais baratos, tais como os óleos de soja e de

milho, possuem maior proporção do gama-tocoferol em relação

ao alfa-tocoferol (Eitenmiller and Lee, 2004).

Assim, fica o alerta à população de que apenas a forma

natural da vitamina E, representada pelo isômero RRR-alfatocoferol

(antes denominado d-alfa-tocoferol) é requerido pelo

ser humano. A vitamina E sintética,

normalmente oferecida em

suplementos, possui apenas uma

fração do que o organismo necessita

e, por isso, é frequentemente

encontrada nas farmácias com preços

mais baixos do que a forma

natural, RRR-alfa-tocoferol.

ANILHAMENTO DE AVES NO ALTO RIO ARAGUAIA/MT

Este artigo reúne os dados coletados durante expedições

científicas ao Rio Araguaia e seus principais afluentes nos Municípios

de Alto Araguaia/MT e Santa Rita/GO. Para esse trabalho

contei com a ajuda indispensável de meus alunos do

Curso de Ciências Biológicas da UFPI/Bom Jesus: Junival

Vieira Lima, Pedro Benvindo de Albuquerque Júnior, Alex Sobrinho

da Rocha e Éverton Silva Vitorino além da aluna do

Curso de Ciências Biológicas da USP, Raquel Colombo Oliveira,

durante aproximadamente sessenta dias de excelente

convívio, muito trabalho e vários quilômetros de estrada.

Considerando a fragmentação de áreas e seus respectivos

graus de isolamento, foi realizado o anilhamento da avifauna

de nove áreas do alto Rio Araguaia, na divisa dos

Estados de Goiás e Mato Grosso, durante dois períodos

amostrais, um na época úmida (abril/2009) e outro na seca

(julho/2009), enfocando a estrutura trófica e a relação das

espécies de aves e seus habitats, como subsídio para análise

de sua dinâmica ecológica.

METODOLOGIA

A área amostral é composta por nove regiões, cujos focos

de coleta foram os fragmentos de matas residuais isolados,

principalmente às margens de afluentes do rio Araguaia: rio

Babilônia, ribeirão Claro, córrego Rico, córrego da Vaca, córrego

do Sapo e Ribeirão Zeca Novato (Área 1: 17°36'12'' S,

53°13'53'' W; Área 2: 17°33'42'' S, 53°18'31'' W; Área 4:

17°13'52'' S, 53°09'15'' W; Área 9: 17°16'40'' S, 53°07'58'' W,

no Município de Santa Rita de Goiás/GO, e Área 3: 17°14'18''

S, 53°16'14'' W; Área 5: 17°15'40'' S, 53°12'12'' W; Área 6:

17°12'03'' S, 53°09'54'' W; Área 7: 17°10'14'' S, 53°08'40'' W;

Área 8: 17°01'49'' S, 53°03'39'' W, no Município de Alto Araguaia/MT).

Esse procedimento se justifica, pois há pequenas

diferenças da composição da avifauna, devido principalmente

ao tamanho dos fragmentos e suas riquezas específicas.

Foram utilizadas redes de neblina (mist nets) com dimensão

de 3mX15mX3mm em todos os fragmentos estudados,

num total de 30 redes, em 9 fragmentos, durante 22 dias, na

primeira amostragem (período úmido) e 24 dias na segunda

amostragem (período seco), permanecendo 5 dias em cada

fragmento (10 redes, 150m), desde o amanhecer até uma

hora depois de anoitecer, em três ou duas áreas concomitantes,

para facilitar a execução dos trabalhos de campo. As

redes ficaram abertas durante todo o dia (44 dias X 8h/dia

X 30 redes = 10.560h/rede).

Os espécimes capturados nas redes de neblina foram anilhados

seguindo manual de anilhamento do CEMAVE, com

numeração específica. Alguns dados biométricos foram registrados

por meio de paquímetro de precisão e pesolas, a saber:

comprimento do bico, tarso cauda, asa e o peso, e foram observados,

quando possível, a idade, o sexo, a presença de placa

de incubação e a presença de canhões, o que poderia indicar

período de muda das aves. Todos os dados biométricos, número

das anilhas, lista de espécies e um guia fotográfico completo,

de todas as espécies anilhadas compõem um livro

submetido à Editora da UFPI para publicação (prelo).

A nomenclatura das espécies e a distribuição por habitat

seguem Sick (1997). Pela diversidade de ambientes do cerrado

(sentido amplo), foram apenas consideradas as espécies florestais

como espécies de Mata e espécies não florestais como

espécies de Cerrado, e as categorias tróficas seguem Motta Júnior

(1990): insetívoros (INS), com ¾ ou mais de insetos e outros

artrópodes na dieta; onívoros (ONI), com mais de ¾ de

insetos, outros artrópodes e frutos, em proporções similares;

frugívoros (FRU), com mais de ¾ de frutos; granívoros

(GRA), com ¾ ou mais de grãos; nectarívoros (NEC), néctar

e pequenos insetos ou outros artópodes; carnívoros (CAR) e

dretívoros (DET), vertebrados vivos e mortos, respectivamente,

ao menos em ¾ da dieta.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Foram capturados 371 espécimes de aves, pertencentes a

85 espécies, que compõem 22 famílias e 8 ordens. A família

que apresentou o maior número de espécies dentre os Passeriformes

foi Emberezidae (23 espécies), seguida por Tyraniidae,

e a família que apresentou o maior número de espécies dentre

os não-passeriformes foi Trochiliidae. As espécies de aves com

os maiores números de espécimes capturados foi Basileuterus

hypoleucus (25 indivíduos), seguida por Turdus leucomelas

(22 indivíduos) e Antilophia galeata (21 indivíduos).

Durante a segunda amostragem foram recapturados 12 espécimes

anilhados durante a primeira amostragem. Todos

foram recapturados nas mesmas áreas onde foram anilhados,

exceto um indivíduo de Galbula ruficauda, que, em apenas três

dias, se deslocou pelo rio Araguaia ao longo de mais de 10km.

Esse exemplo de deslocamento ao longo das áreas amostrais

pode demonstrar a importância da mata ciliar para fluxo gê-

Roberto Dimenstein

Prof. Dr. da UFRN

robertod@ufrnet.br

nico das populações de aves.

Dos espécimes capturados, a maioria não foi possível determinar

o sexo em decorrência da ausência de dimorfismo sexual

aparente, e apenas cinco indivíduos capturados eram

jovens, os demais eram adultos. Dos 198 indivíduos capturados

na primeira campanha, 27% apresentavam placa de incubação,

ao passo que dos 173 indivíduos capturados na segunda

campanha 31% apresentavam placa de incubação, indicando

período reprodutivo.

A grande maioria das espécies capturadas é insetívora, seguida

por frugívoros e nectarívoros, respectivamente, sendo a

maioria das espécies dependente de ambiente florestado. Durante

as amostragens, foi possível perceber diferentes deslocamentos

de grupos mistos formados por traupídeos e

emberezídeos no interior das matas de galeria, ao longo do dia.

Em todas as áreas de estudo, o número de frugívoros foi

acentuada e, segundo Motta Júnior (1990), a grande riqueza

de plantas presentes nas matas de galeria deve ter favorecido

a maior representatividade dos frugívoros neste habitat. Da

mesma forma, a grande proporção de granívoros no cerrado

esteve relacionada à abundância de gramíneas neste ambiente.

A técnica de levantamento de avifauna empregada fornece

um perfil da estrutura ecológica das áreas estudadas, e mesmo

levando-se em conta o caráter secundário desses fragmentos,

registrou-se a presença de espécies de grande importância ecológica

- como dispersores de sementes, por exemplo - cujas

populações se encontram em declínio por todo Brasil.

Desta forma, este estudo parece corroborar a ideia de que,

se os atuais níveis de perturbação ambiental continuarem, haverá

uma tendência cada vez maior das aves onívoras e possivelmente

das insetívoras menos

especializadas aumentarem sua representatividade,

sucedendo o contrário

no caso dos frugívoros e

insetívoros mais especializados, o

que já vem ocorrendo, de certa

forma, em vegetações secundárias

e em ilhas de vegetação nativa cada

vez mais comuns no Brasil.

Anderson Guzzi

Prof. Dr. da UFPI- Parnaíba/PI

guzzi@ufpi.br


TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

MUSICOTERAPIA E PRATICANTE ESPORTIVO: RITMO SUPERANDO BARREIRAS

Assim como o universo, todo ser humano é dotado de

ritmo. O ritmo é considerado o elemento musical mais associado

ao movimento. Na atividade física, o ritmo facilita a

coordenação motora e a integração funcional de todos os aspectos.

Coordenação motora é a realização intencional de um

movimento. O fisiologista Charles Fere (cronobiologia) concluiu

que são os estímulos rítmicos, antes de quaisquer outros,

que conseguem “aumentar o rendimento corporal”. São numerosas

as pesquisas mundiais que apontam e reafirmam estas

possibilidades de utilização benéfica. A presença de estímulos

rítmicos acrescenta estabilidade imediata no controle motor,

mais do que através de um processo gradual de aprendizagem.

CÉREBRO, RITMO E MOVIMENTO

O planejamento motor ocorre no lobo frontal, onde o córtex

pré-frontal na superfície externa e a área motora suplementar

analisam os sinais que chegam de outras partes do

cérebro, indicando essa informação como uma posição no espaço

e memória de ações passadas. Depois, essas duas áreas

acessam o córtex motor primário que define quais os músculos

que precisam se contrair, e envia as instruções pela medula

espinhal até os músculos. Esses últimos devolvem os

sinais para o cérebro. O cerebelo usa essa resposta muscular

para auxiliar no equilíbrio e aprimorar os movimentos, sendo

responsável pelo ajuste rítmico e reações emocionais à música.

Os gânglios de base reúnem informações sensoriais das

regiões corticais e as transmitem por meio do tálamo até áreas

motoras do córtex (responsável pela modelação do ritmo, andamento

e métrica, controle de movimentos intencionais e

globais do corpo).

CONTRIBUIÇÕES REICHIANAS PARA A PSICOSSOMÁTICA: O CONCEITO DE BIOPATIA

Wilhelm Reich, enquanto exercia a Psicanálise na Clínica

Psicanalítica de Viena e coordenava os célebres Seminários

sobre a Técnica Analítica na década de 20, contribuiu para ampliar

a função do corpo na psicoterapia, ao desenvolver seus estudos

sobre as defesas caracteriológicas, observando as reações

somáticas advindas do processo de interpretação e intervenção

na dinâmica psíquica dos pacientes, na interpretação e na relação

transferência/resistência (Reich, 1990). Elaborou o conceito de

couraça de caráter (Brandão, 2008), como forma de compreender

as tensões musculares subjacentes às defesas psicológicas vividas

pelo sujeito em análise, ao entrar em contato com os conteúdos

dolorosos e ameaçadores que foram recalcados. A partir de

suas investigações e seu interesse na interface entre o conceito

metapsicológico de libido desenvolvido por Freud e a produção

de energia bioelétrica e metabólica no corpo decorrente da circulação

orgânica no ato sexual, Reich criou a vegetoterapia caracteroanalítica,

que consiste numa abordagem em que o

analista intervém diretamente no corpo dos pacientes, através

de um entendimento econômico e energético da psicodinâmica

dos sintomas, interrelacionando aspectos somáticos com os

conflitos inconscientes do sujeito, atuando diretamente nos

bloqueios emocionais decorrentes da estase – energia libidinal

acumulada decorrente do processo de frustrações no desenvolvimento

psicossexual infantil (Trotta, 2008; Araújo, 2008), que

podem ocasionar os mais diversos transtornos à saúde psicossomática

do indivíduo.

Nesse sentido, a vegetoterapia conceitua como biopatias os

estados mórbidos nos quais a medicina oficial não reconhece a

etiologia. São quadros patológicos sistêmicos e/ou degenerativos

dos quais se conhece apenas a patogênese, em que um componente

de ordem psicológica determina, desencadeia ou influencia

a disfunção dos aspectos biológicos do indivíduo. Para Reich,

toda patologia tem sua origem numa disfunção (no sentido de

contração) do sistema nervoso autônomo, alterando toda a função

biológica da pulsação plasmática do organismo, reduzindo

sua condição energética. A contração simpaticotônica propicia

modificações no ambiente celular negativo a sua vitalidade, aumentando

a estase energética. Nesse sentido, a biopatia seria

uma forma de resignação biológica, resultante de uma situação

existencial em que o indivíduo se encontra incapaz de se adequar,

voltando a energia estásica resultante do conflito para o

impedimento da homeostase fisiológica. A biopatia, dessa maaneira,

seria o sinal de canalização, em nível celular, da loucura,

DIVULGAÇÃO

EXPERIÊNCIAS PRÁTICAS EM

ATIVIDADES DESPORTIVAS

Segundo Karageorghis, escutar música animada durante

atividade física aumenta a resistência física e estimula o praticante

a acrescentar mais 15% de tempo ao seu treino. E o melhor:

sem perceber.

O campeão de natação Michael Phelps utiliza sempre seu

Ipod antes de iniciar as competições para melhorar sua concentração.

Alguns atletas mentalizam canções preferidas, que julgam

adequadas, para melhorar a performance.

PARALISADOS CEREBRAIS E A

UTILIZAÇÃO TERAPÊUTICA DA CAPOEIRA

A característica principal da paralisia cerebral é a desordem

da perda do controle, do desequilíbrio.

Baker (1980) considera que as patologias estariam relacionadas

com uma simpaticotonia crônica advinda da ansiedade do

homem ao se deparar com sua impotência orgástica, ou seja, com

a sua incapacidade de canalizar saudavelmente sua energia, devido

a seus mecanismos de defesa caracteriais. Ou seja, o indivíduo

não consegue ter uma vida gratificante e funcional pela

fórmula do orgasmo, estando sob o peso de constantes frustrações.

A respiração, nesse contexto, é comprometida - dificuldades

de respirar estariam relacionadas a anseios e defesas ao

contato com as sensações emocionais, vindas do corpo.

Segundo Navarro (1991), a simpaticotonia está intimamente

ligada com a emoção do medo, a qual deve ser foco da terapia

corporal: “A emoção é um fenômeno vital de resposta a uma solicitação

externa (...) A emoção primária de consequências negativas

é o medo (que no fundo é sempre o medo de morrer, ou

melhor, de não viver adequadamente” (p.12). Dessa forma, o

medo é a emoção/base das patologias, por ser o elemento determinante/desencadeante

da contração. É uma emoção que permanece

impressa ou reprimida do consciente, mas se encontra

presente no organismo, inscrito em nível celular, expresso e vivenciado

na oportunidade de entrar em contato com os bloqueios

energéticos através dos actings da terapia, que, como vimos, têm

o objetivo de mobilizar a energia estagnada e evitar a entropia.

Para ilustrar melhor o conceito de biopatia, podemos lançar

um olhar sobre o câncer, objeto de pesquisa de Reich durante

muitos anos, que gerou diversos artigos e o posterior desenvolvimento

da vegetoterapia em orgonomia. Segundo o autor, o câncer

é basicamente uma putrefação ativa do tecido, resultante da

falta de impulsos para a expansão energética em nível orgânico

– ou seja, uma alta potencialidade para a contração e a estase,

mas sem possibilidades de se expandir, canalizar-se, de forma

que o fluxo de energia diminui, interrompe-se. Nos casos de

câncer, o organismo desistiu de fazer sua energia circular, causando

no indivíduo um estado contínuo de resignação emocional,

uma vida sem prazer. Uma respiração precária, segundo

Baker (1980), provoca uma respiração celular interna precária

em nível de tecidos, seguido de acúmulo de dióxido de carbono

e anoxia. Dessa forma, o processo de carga e descarga se encontram

comprometidos, a fórmula do orgasmo perde a importância

na vida do indivíduo, que não consegue perceber com prazer o

seu mundo. Geralmente, os tumores ocorrem em locais onde a

simpaticotonia e a contração estásica provocam fortes couraças

37

motora, que varia em suas manifestações, de acordo com a área

encefálica comprometida. Muitos têm movimentos involuntários

por ter comprometimento nos gânglios basais do cérebro.

No Brasil, a capoeira é um esporte ou arte marcial que une

a luta, a música e a dança. É um patrimônio cultural afro-brasileiro

com infinitas possibilidades motoras. O ritmo na capoeira

pode ser vivenciado através dos instrumentos musicais

(berimbau, atabaque, pandeiro, agogô, reco-reco), movimentação

corporal, palmas e canto. Em centros de reabilitação física,

a capoeira trabalha com os objetivos de desenvolver noções de

equilíbrio, ritmo, coordenação, harmonia de movimentos, flexibilidade,

agilidade, força e velocidade. Também estimula a

sociabilização, a integração familiar, inclusão social e melhoria

da autoestima.

A MUSICOTERAPIA E O PRATICANTE ESPORTIVO

O profissional capacitado em musicoterapia pode ser um

importante aliado no planejamento e nas atividades esportivas.

Seus conhecimentos técnicos

podem ser utilizados na

forma de consultoria, planejamento

ou mesmo na aplicação de

algumas práticas musicoterapêuticas

durante os estressantes e

exaustivos treinos diários.

Nydia Cabral C. do R. Monteiro

Musicoterapeuta do Centro

Integrado de Reabilitação /Piauí

nydiadoregomonteiro@

yahoo.com.br

musculares nos indivíduos.

De acordo com Navarro (1991), um tumor pode ser conceituado

como toda produção celular patológica constituída de um

tecido neoformado sem fenômenos inflamatórios. Nesse sentido,

o câncer enquadraria os tumores considerados como malignos,

caracterizados por células irregulares, deformadas, que se reproduzem

e podem se alastrar por todo o corpo. É importante ressaltar

que toda biopatia está intimamente relacionada à

compreensão da construção das defesas narcísicas do sujeito

mediante as ameaças do mundo externo ou interno, que Reich

conceituou como caráter. Uma clínica que trate qualquer

transtorno psicossomático deve prestar atenção aos padrões

de rigidez dessas defesas, que se expressam em formas de se

comportar, para além do discurso verbal de nossos pacientes.

Como bem nos fala Berlinck (2002), o sistema psíquico pode

ser compreendido como nosso sistema imunológico mediante

o mundo externo, ou seja, constrói-se nas defesas e nas estruturas

cada vez mais complexas de interrelação e atribuição de

sentidos aos eventos que nos ocorrem na dinâmica do processo

de viver. Assim, mudanças psicológicas acarretam simultaneamente

mudanças orgânicas, tendo em vista a

formação contínua de novas sinapses e conexões posturais, a

partir do processo de mobilizar as defesas psíquicas e trabalhar

com a musculatura contraída e a distribuição

energética/erógena do corpo.

Périsson Dantas do Nascimento

Prof. Msc. da UESPI e da Faculdade Santo Agostinho

perisson.dantas@gmail.com

Mathilde Neder

Prof. Dra. da PUC/SP - psiclini@pucsp.br


38 TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

CASAMENTOS E DEFICIÊNCIAS CONGÊNITAS EM SÃO GONÇALO DO PIAUÍ

A consanguinidade torna mais provável a homozigose dos

genes deletérios, condicionadores de mortalidade precoce (em

muitos casos, devido a anomalias graves) e de outras anomalias

que se manifestam nos que sobrevivem, por exemplo: cegueira,

surdo-mudez, retardamento mental, malformação congênita etc.

(FREIRE-MAIA, 1990)

Consanguinidade parental é um importante fator de risco

para as deficiências congênitas e neurológicas. Quando se estuda

o padrão de herança das anomalias recessivas, observa-se que há

uma alta porcentagem de afetados que são filhos de casais consanguíneos.

Este fato ocorre porque tais casais têm maior probabilidade

de gerar filhos homozigotos do que os não

consanguíneos. Sabe-se que 5% dos nascidos vivos apresentam

alguma anomalia do desenvolvimento determinada total ou parcialmente

por fatores genéticos. Acrescentando-se os distúrbios

que se manifestam mais tardiamente, como em certas enfermidades

crônicas degenerativas, fica ainda mais evidente o efeito dos

condicionantes genéticos sobre a saúde. (Horovitz et al., 2006).

No Brasil, nestes últimos 25 anos, as anomalias congênitas têm

sido apontadas como a segunda causa de mortalidade de crianças

em seu primeiro ano de vida (Brasil, 2006).

A consanguinidade, evidentemente, também aumenta a probabilidade

de genes normais, mas, como estes já apresentam uma

elevada frequência, o acréscimo provocado em sua taxa de homozigose

se torna desprezível na prática (SALZANO E FREIRE-

MAIA, 1967).

Nas populações brasileiras, ao lado dos casamentos não

consanguíneos, existe sempre certa taxa de casamentos consanguíneos

em diferentes graus e frequências (FREIRE-

MAIA, 1989). Este fato reforça a necessidade de estudos da

dinâmica desses casamentos e de suas consequências tanto genéticas

quanto médicas.

A genética médica lida com condições individualmente raras

que constituem, no entanto, grupo não desprezível de doenças,

com repercussões significativas e de relevância crescente para a

saúde comunitária. Ressalta-se o papel do médico geneticista na

abordagem dos defeitos congênitos, traduzidos a partir de defeitos

congênitos, que englobam toda anomalia funcional ou estrutural

do desenvolvimento do feto, decorrente de fator originado

antes do nascimento, seja genético, ambiental ou desconhecido,

mesmo quando o defeito não for aparente no recém-nascido, só

se manifestando mais tarde (HOROVITZ et al., 2006).

O Nordeste é a região que apresenta a mais alta taxa de casamentos

consanguíneos e, embora essa taxa, como em outras regiões,

venha baixando, com o tempo (FONSECA E FREIRE-MAIA,

1970), ainda pode ser considerada alta, principalmente no interior

dessa região, quando comparada a outras regiões do país (FREIRE-

MAIA, 1990).

Casamento consanguíneo é algo incomum em muitas partes

do planeta. No entanto, dados do ano de 2007 indicavam que no

Algumas patologias provenientes de materiais argilosos empregados

no setor da construção civil, principalmente dos materiais

utilizados na composição de argamassas são, via de regra,

atribuídas à presença de sais hidratados no corpo desses materiais.

As mais conhecidas são a eflorescência e a subflorescência

ou criptoflorescência, que, na realidade, são variações da fluorescência,

que, na região de Teresina, é conhecida popularmente

como salitre.

Eflorescência ou cristalização de sais é um processo que consiste

na migração da umidade da parede externa para a interna,

levando consigo sais solúveis. Como decorrência desse processo,

aparecem manchas que afloram à superfície, alterando o aspecto

visual do revestimento.

As fases dominantes no processo são os sulfatos. O sulfato

de cálcio, gipsita, é encontrado em ambientes urbanos e é considerado

um fator de deterioração significante. O ânion sulfato

pode ser fornecido pelos poluentes atmosféricos. Por soluções

ascendentes, a partir das fundações das construções ou da dissolução

da exsudação de cimento e argamassa, sendo nesse caso,

também, uma importante fonte de cálcio.

Os materiais das eflorescências são materiais cristalinos, ou

seja, são materiais cujos átomos estão organizados em um arranjo

periódico e regularmente espaçado em três dimensões, denominado

de estrutura cristalina. O estudo dos materiais cristalinos,

em geral, é feito pela combinação de métodos que identificam

Nordeste brasileiro a prevalência global de casamentos consanguíneos

é de aproximadamente 9%, havendo locais isolados

com taxas muito mais elevadas, como a cidade de São Gonçalo

do Piauí – Piauí – Brasil, que apresentava uma taxa de 22% do

total de casamentos naquele ano (IBGE). De acordo com o levantamento

realizado pela SEID – Secretaria Estadual para Inclusão

de Pessoas, os 4249 habitantes desta cidade sofrem com

maior frequência de problemas de deficiência física, uma proporção

de aproximadamente 3 em cada 10 pessoas possuem

algum tipo de morbidade.

Observou-se que as comunidades que constituíram o município

de São Gonçalo do Piauí se formaram a partir da extensão

das famílias que iniciaram a ocupação da Baixa do Coco (antigo

nome da cidade). De modo geral, depois de algum tempo estabelecidas

naquele local, muitas famílias procuravam novas e mais

terras para o cultivo. Isso resultou na fixação de muitas pessoas

nas proximidades do município, formando novas localidades que,

com a emancipação da Baixa do Coco, tornam-se povoados do

novo município (VILANOVA, 2007).

As variações geográficas podem refletir em larga escala, as

variações socioeconômicas e demográficas das populações, tornando

o padrão sociocultural, socioeconômico, a migração e o

grau de ruralização, nos principais responsáveis pela manutenção

da distribuição diferencial dos níveis de endocruzamento no Brasil.

As frequências de casamentos consanguíneos podem variar

muito entre as diversas regiões de um mesmo estado, entre a zona

rural e a zona urbana de um mesmo município ou até mesmo

entre os diversos bairros de uma mesma cidade (SALAZANO E

FREIRE-MAIA, 1967).

Das 15 famílias analisadas e com um total de 539 pessoas citadas,

cerca de 9% possuíam algum tipo de deficiência (4,8% mulheres,

4,2% homens); destes, 14% possuíam deficiência física

(85% mulheres e 15% homens); 12% possuíam deficiência auditiva

(50% mulheres e 50% homens); 37% possuíam deficiência

visual (53% homens, 36% mulheres e 11% indefinidos) e 37%

possuíam deficiência mental (63% homens e 37% mulheres).

Dos acometidos, 49% eram provenientes da 1ª geração filial

de casamentos consanguíneos; 8% da segunda geração; 2% da 3ª

geração e 41% eram de casamentos não consanguíneos ou situações

não informadas na ocasião da entrevista. Os heredogramas

foram confeccionados com base nas informações fornecidas no

inquérito familiar.

Embora existam outros fatores de risco (ambientais, nutricionais)

para a ocorrência de nascimentos de crianças com

algum tipo de deficiência na cidade de São Gonçalo do Piauí,

a hipótese mais provável para este fato é o alto número de casamentos

entre parentes, visto que desde a colonização da região,

que se deu por pequenos grupos, são inúmeros os casos

de deficiências no município.

A grande incidência de casamentos consaguíneos em São

PATOLOGIA DO MATERIAL ARGILOSO

sua composição química, sua estrutura cristalina e a morfologia

de suas partículas. Estes três tipos de dados podem ser obtidos

pela combinação da difratometria de raios X (DRX), com a microscopia

eletrônica de varredura (MEV) e com a espectroscopia

de energia dispersiva de raios X (EDS). Ambos os métodos

fazem uso dos raios X, que são parte do espectro eletromagnético

com comprimento de onda menor que luz visível. Os raios

X têm maior poder de penetração na matéria que a luz visível,

e suas interações com os átomos dos materiais revelam suas diversas

propriedades.

A carbonatação é um fenômeno que consiste na evaporação

da água do hidróxido de cálcio constituinte da argamassa ainda

Gonçalo parece estar relacionada com a origem e formação daquele

município, pois a formação da sociedade sãogonçalense

tem origem em algumas famílias que podem ser entendidas como

as que alicerçaram a formação do lugar. Desse modo, devido ao

número reduzido de indivíduos, registrou-se um alto índice de

cruzamentos consanguíneo. Este fato reforça a necessidade de estudos

da dinâmica desses casamentos e de suas consequências

tanto genéticas quanto médicas.

A realização de novos estudos incluindo um maior número

de famílias e com grau maior de complexidade poderá evidenciar

a existência de alelos ou de polialelos relacionados com essa problemática.

As relações maritais de consanguinidade se mostram

estatisticamente como um importante fator gerador desse problema,

havendo a necessidade de aconselhamento genético dos

casais sãogonçalenses que estão em fase de reprodução ou que

desejam contrair enlace matrimonial.

O reconhecimento de indivíduos ou famílias com malformação

congênita ou patologia hereditária, muitas vezes, apenas

complementado com histórico familiar detalhado e

avaliação clínica básica por especialista capacitado podem ser

suficientes para estabelecimento de diagnóstico e conduta.

Uma abordagem clínica inicial próxima ao domicílio do paciente

pode, além de evitar grandes deslocamentos, ser totalmente

resolutiva. É possível criar estratégias para avaliação

de grupos de pacientes em locais próximos aos domicílios

através da figura do “geneticista itinerante”. Este profissional,

vinculado ao sistema de saúde (e não a uma unidade específica),

poderia atender com periodicidade pré-estabelecida, de

acordo com a necessidade do local (semanal, mensal ou bimensal,

por exemplo, cobrindo várias localidades), em polos

de atendimento clínico, como cidades com hospitais universitários

ou faculdades de medicina.

Manoel Cícero R. Júnior

Prof. Esp. da Sec. Est. de Educação do Piauí

manoelcicero@yahoo.com.br

Antônio Sérgio de Sousa

Prof. Esp. da Sec. de Educação do Maranhão

as_bio@hotmail.com

úmida e na combinação do óxido de cálcio remanescente com o

dióxido de carbono presente no ar, formando carbonato de cálcio.

Em muitos casos, após a secagem, origina uma estrutura cristalina,

resistente e impermeável.

O fenômeno da eflorescência ocorre não somente em materiais

argilosos, atuando como componentes de argamassas nas superfícies

de alvenaria, uma vez que ele não está restrito somente

a este tipo de aplicação, podendo ocorrer, portanto, em qualquer

tipo de superfície alcalina, como fibrocimento e o concreto.

A presença de sais hidratados nos materiais utilizados na

composição de argamassas tanto de assentamento, quanto de revestimento,

é responsável direta pela formação de eflorescências,

quando estes reagem com água e ar

em ambiente, no geral, de pouca

ventilação e pouca luz solar.

Condições atmosféricas aliadas

a fatores como porosidade elevada

do material empregado e excesso de

água na confecção da argamassa

contribuem diretamente para a aparição

da eflorescência.

Paulo Henrique C. Fernandes

Prof. Msc. da UFPI

pcampos@ufpi.br


TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

CARACTERIZAÇÃO QUÍMICO-MINERALÓGICA DE MATERIAIS ARQUEOLÓGICOS

O efeito Mössbauer, descoberto em 1958, fundamenta-se na

absorção ressonante de radiação gama nuclear, sem recuo do sistema

atômico emissor-absorvedor. O ferro é o quarto elemento

químico em abundância, por massa, na crosta terrestre. O 57Fe

é um dos isótopos (2,17 % de abundância natural) do ferro, com

características nucleares muito apropriadas, para observação do

efeito Mössbauer. Aproximadamente, uma década depois do aparecimento

da espectroscopia Mössbauer, foi reconhecido o potencial

analítico da técnica no estudo de materiais arqueológicos.

Além do ferro, muitos outros isótopos Mössbauer, como o 119Sn

(8,58 % de abundância natural) e o 197Au (100 % de abundância

natural) apresentam aplicações na análise de artefatos arqueológicos.

Dependendo do interesse, a espectroscopia Mössbauer

possibilita a especiação químico-analítica e evidências experimentais

sobre a estrutura magnética, a partir de parâmetros hiperfinos,

na caracterização químico-estrutural.

A análise Mössbauer do 57Fe de materiais cerâmicos, por

exemplo, quando feita em conjunto com outras técnicas, como

a difratometria de raios-X, pode oferecer, além de dados de caracterização

químico-mineralógica, indícios da temperatura de

queima dos artefatos e da natureza do ambiente (oxidante ou redutor)

de combustão. A identificação das espécies químicas em

que o ferro se apresenta e a presença de determinados argilominerais

é de grande utilidade para a avaliação desses parâmetros

de confecção de corpos cerâmicos. Do ponto de vista arqueológico,

essas informações auxiliam no conhecimento das tecnologias

que foram empregadas nos processos de fabricação de

cerâmicas arqueológicas, contribuindo para o conhecimento

sobre os níveis culturais dos grupos humanos autores.

As possibilidades de aplicação da técnica na investigação

de materiais arqueológicos se encontram em plena expansão,

podendo abranger grande variedade de vestígios arqueológicos,

tais como pigmentos minerais naturais, materiais de construção,

paleossedimentos, vidros, entre outros.

Mais recentemente, verificou-se a grande contribuição analítica

com essa técnica nuclear, na caracterização química e mineralógica

de pigmentos de pinturas rupestres pré-históricas

(CAVALCANTE et al. Revista de Arqueologia, 2009; CAVAL-

CANTE et al. International J. South American Archaeology, 2008),

observando-se a quase inexistência de registros similares, na literatura

científica, de caráter pioneiro, exceto pelos trabalhos de

Klingelhöfer et al. (Hyperfine Interactions C, 2002), usando um

espectrômetro de retroespalhamento de radiação gama, modelo

MIMOS II, e de Costa et al. (Hyperfine Interactions, 1991), com

um espectrômetro Mössbauer em geometria de transmissão.

Uma sólida parceria entre o Grupo de Pesquisa Arqueometria

(CNPq), da Universidade Federal do Piauí, e o Laboratório

Mössbauer, do Departamento de Química da UFMG, tem permitido

a investigação, no laboratório, de pequenos fragmentos

portadores de material pictórico, coletados de alguns sítios de

arte rupestre do Piauí, da Bahia e da Argentina, culminando em

pelo menos quatro dissertações de Mestrado (Tetisuelma L.

Alves, Mestrado em Química, UFPI, 2010; M. Cleidiane P.

Souza, Mestrado em Química, UFPI, 2009; Luis Carlos D. Cavalcante,

Mestrado em Química, UFPI, 2008; Laiane M. Fontes,

Mestrado em Química, UFPI, em andamento) e uma tese de

Doutorado (Luis Carlos D. Cavalcante, Doutorado em Ciências,

UFMG, em andamento). Além destas, há mais quatro dissertações

(Mishell. S. Ibiapina, Mestrado em Química, UFPI, 2007;

Reginaldo S. Leal, Mestrado em Química, UFPI, 2005; Benedito

B. Farias Filho, Mestrado em Química, UFPI, em andamento;

Lívia. M. Santos, Mestrado em Química, UFPI, em

andamento) aplicando a espectroscopia Mössbauer em outros

vestígios arqueológicos (cerâmicas, paleossedimentos, pigmentos

minerais naturais, diversos depósitos de alteração, etc.).

Os pigmentos utilizados pelos grupos humanos antigos em

pinturas rupestres, são formados, mais frequentemente, por

compostos, sobretudo minerais, contendo ferro. A grande contribuição

da espectroscopia Mössbauer, especialmente na análise

de pigmentos de pinturas rupestres pré-históricas, é,

incisivamente, na identificação inequívoca dos óxidos de

ferro responsáveis pelas cores dos registros gráficos.

Os projetos de pesquisa devotados à caracterização química

e mineralógica dos pigmentos rupestres de alguns sítios

pré-históricos encontrados no Piauí, na Bahia e na Argentina

usam primordialmente informações espectrais Mössbauer,

para se identificar a composição de registros gráficos de sítios

arqueológicos de arte rupestre pré-histórica. Todavia, outras

técnicas também têm sido utilizadas (CAVALCANTE et al.,

Fumdhamentos, 2009; CAVALCANTE et al., CANINDÉ,

2008; CAVALCANTE et al., Revista de Arqueologia, 2008;

CAVALCANTE et al., Química Nova, 2008; CAVALCANTE

et al., Clio Arqueológica, 2007; CAVALCANTE et al., CA-

NINDÉ, 2007; CAVALCANTE et al., Mneme Revista de Humanidades,

2005), como espectroscopia de energia

dispersiva, microscopia eletrônica de varredura, difratometria

39

de raios-X (pó), fluorescência de raios-X, espectroscopia de absorção

no infravermelho com transformada de Fourier, espectroscopia

de absorção molecular na região ultravioleta-visível etc.

Os resultados, até agora, da identificação de materiais de pinturas,

em sua maioria vermelhas, revelaram parâmetros hiperfinos

típicos da hematita (αFe2O3; espectro Mössbauer representativo,

na Figura 1), com pequeno tamanho médio de partículas. Detectou-se,

também, alguns outros compostos oxídicos (super) paramagnéticos,

inclusive goethita (αFeOOH). A espectroscopia de

energia dispersiva indicou, de forma geral, que os óxidos de ferro

nas pinturas estão misturados com um pouco de argila, de sorte

que a presença desses argilominerais contribui decisivamente para

a prospecção de marcadores químicos interessantes, na identificação

individualizadora da origem dos pigmentos minerais. No entanto,

a micro-análise do material pigmentante tem sido

prejudicada pelo fato de os concentrados de pigmentos se alojarem

nos poros existentes na superfície do arenito suporte. Ainda assim,

foi possível observar a forma das partículas de hematita e goethita,

em algumas das amostras.

Trata-se de um desafio de múltiplas dificuldades experimentais,

especialmente em decorrência da complexa composição

química e das pequenas quantidades das amostras,

disponíveis para as análises, no laboratório. Ainda assim, a

análise químico-mineralógica dessas pinturas tem mostrado

evidências muito animadoras, com informações ineditamente

detalhadas sobre a natureza mineral dos pigmentos das pinturas

rupestres arqueológicas desses sítios.

Luis Carlos D. Cavalcante

Prof. Msc. da UFPI - cavalcanteufpi@yahoo.com.br

Maria Conceição S. M. Lage

Profa. Dra. da UFPI - meneses.lage@hotmail.com

José D. Fabris – Doutor em Química – jdfabris@ufmg.br

VERTEBRADOS DO PARQUE NACIONAL DA SERRA DAS CONFUSÕES - PIAUÍ

A Caatinga ocupa aproximadamente 800.000 quilômetros quadrados

do território brasileiro e representa uma das áreas mais características

do Nordeste. Embora sua fauna seja relativamente bem

conhecida, trabalhos multidisciplinares têm mostrado que o bioma

abriga uma diversidade muito maior que o imaginado, até recentemente.

Este Bioma possui ampla distribuição no Estado do Piauí,

cobrindo uma área de 37% do território, principalmente nas regiões

leste e sudoeste, sendo caracterizada por apresentar porte arbóreo,

arbustivo-arbóreo ou arbustivo, com densidades variadas.

Embora possua reconhecida importância biológica pela presença

de inúmeros elementos endêmicos, o conhecimento da biodiversidade

faunística do Piauí é ainda heterogêneo, existindo,

inclusive, unidades de conservação cuja fauna é ainda mal amostrada.

Dentre estas, destaca-se o Parque Nacional da Serra das

Confusões (PNSC), criado em 2 de outubro de 1998, possui uma

área de mais de 500.000ha, encontra-se inserida no bioma Caatinga

e foi recentemente apontado como uma área de máxima importância

para preservação e investigação científica. A fauna de vertebrados

terrestres deste Parque foi recentemente inventariada, por

pesquisadores da Universidade de São Paulo, que encontraram 16

espécies de anfíbios, 43 de répteis, 221 de aves e 38 de mamíferos

não-voadores e 22 de morcegos, totalizando 340 espécies. O Projeto

de Pesquisas em Biodiversidade do Semiárido (PPBio Semi-

Árido), implantado em 2005, com participação da UFPI, objetivou

realizar uma nova amostragem desta fauna (com ênfase em mamíferos

e répteis), coletando em outras localidades do PNSC, a fim

de complementar os registros anteriores daquela fauna.

Esta nova amostragem ocorreu em três expedições de coleta

de material biológico, cada uma com quinze dias de duração, em

áreas do Parque Nacional da Serra das Confusões, localizadas próximas

às sedes dos municípios de Cristino Castro e Caracol.

Foram empregados diversos métodos diretos de amostragem de

vertebrados terrestres, como armadilhas do tipo Sherman, Tomahawk,

muzuá, redes de neblina, armadilhas fotográficas, armadilhas

de interceptação e queda (pit-fall traps); e ainda

métodos indiretos de amostragem, como procura por vestígios,

pegadas, carcaças e entrevistas com moradores locais.

Através do presente projeto, foram registradas 18 espécies de

anfíbios, 32 de répteis, 42 de aves e 36 de mamíferos não-voadores

e 32 de morcegos, totalizando 160 espécies. Somente o número

total de espécies de morcegos e de anfíbios registrados no presente

trabalho foram maiores que aqueles já registrados anteriormente.

No entanto, inúmeras espécies são, pela primeira vez, registradas

para o Parque Nacional da Serra das Confusões, indicando que sua

fauna não é totalmente conhecida e outras espécies ainda podem

ser registradas. Dentre estes novos registros, podemos destacar alguns

mamíferos, como o gambá (Conepatus semistriatus), a irara

(Eira barbara), o furão (Gallictis sp.), o guaxinim (Procyon cancrivorus)

e uma espécie de marsupial (Micoureus demerarae).

Além disto, uma espécie de cágado (Mesoclemmys sp.), quatro de

lagartos (Hemidactylus mabouia, Lygodactylus sp., Bachia sp. e

Vanzosaura rubricauda), três de cobras (Boa constrictor, Drymoluber

brazili e Psomophis joberti), duas de anfíbios (Rhinella

schneideri e Dendropsophus melanargyreus) e ainda 14 de morcegos

(Anoura caudifer, Artibeus concolor, Artibeus jamaicenses,

Eumops auripendulus, Lasiurus borealis blossivillii, Lonchophylla

mordax, Micronicteris minuta, Micronycteris behni, Molossus

ater, Noctilo leporinus, Pteronotus davyi, Pygoderma

bilabiatum, Sturnira lilium e Tonatia bidens) são registradas pela

primeira vez para o Parque Nacional da Serra das Confusões.

Os presentes resultados reforçam o papel do Parque Nacional

da Serra das Confusões, na manutenção de espécies da Caatinga e

de biomas adjacentes; como, por exemplo, os lagartos do gênero

Stenocercus, o morcego Vampyrum spectrum e a cobra-cega

Siphonops annulatus, que são espécies típicas de ambientes

úmidos. Além disto, as grandes dimensões desta Unidade de

Conservação do Estado do Piauí permitem ainda a manutenção

da existência de espécies de aves e mamíferos de médio e grande

porte, algumas delas criticamente ameaçadas de extinção, como a

onça-pintada (Panthera onca) e a suçuarana (Puma concolor).

É ainda importante frisar que este Parque Nacional necessita

de melhorias em sua infraestrutura e maior fiscalização; de forma

a coibir e/ou diminuir os impactos à biota local, causados pela

pressão de caça e tráfico de animais silvestres e por pressões da

agricultura e pecuária. Espera-se continuar a amostragem na referida

UC, de forma a entender os padrões de distribuição destas

espécies na área de estudo, o que subsidiará futuras medidas conservacionistas

locais.

Janete Diane N. Paranhos

Profa. MSc. da UFPI – jparanhos@ufpi.edu.br

Leonardo Sousa Carvalho

Prof. MSc da UFPI carvalho@ufpi.edu.br


40 TERESINA-PI, SETEMBRO DE 2010

DIVULGAÇÃO

RESTINGAS: E QUANDO O VIZINHO NÃO É A FLORESTA ATLÂNTICA?

Restinga é o conjunto das plantas que vivem próximo às

praias. Sob o ponto de vista botânico, é a vegetação que ocupa

áreas de influência marinha em solos de areias quartzosas (neossolos

quartzarênicos) de idade Quaternária. Grande parte da costa

brasileira apresenta estes solos ocupados por diferentes comunidades

vegetais, cuja composição expressa uma continuidade da

floresta atlântica. Pelo menos é o que revelam estudos acadêmicos

desenvolvidos nos litorais do Espírito Santo e do Rio de Janeiro,

em diferentes restingas. Estes estudos listam mais de 50%

das espécies de restinga como pertencentes à Floresta Atlântica.

As restingas são ambientes recentes. As alterações no nível

dos oceanos promoveram a imersão e emersão sucessiva dos litorais,

alterando sua topografia, criando habitats e permitindo

novos processos de colonização do ambiente, todas as vezes que

o nível do mar sofreu rebaixamento. Segundo alguns autores, não

houve tempo suficiente para formação de espécies endêmicas

neste ecossistema, tendo em vista que estas modificações ocorrem

em períodos relativamente pequenos (estamos a cerca de

10.000 anos do último evento). As comunidades vegetais da restinga,

deste modo, são formadas por espécies dos ecossistemas

vizinhos. O ambiente propicia uma seleção das espécies que tem

facilidade em ajustar-se, ou seja, que detém plasticidade fenotípica

suficiente para suportar as suas variações, no que se refere

a fatores como ventos, insolação, salinidade, restrições hídricas,

restrições nutricionais entre outras.

O Nordeste brasileiro apresenta um litoral dividido em duas

frentes atlânticas: litoral nordestino oriental (da Bahia ao Rio

Grande do Norte) e o litoral nordestino setentrional (do Rio

Grande do Norte ao Maranhão). Com toda sua extensão, apenas

as restingas do litoral nordestino oriental apresentam vizinhança

com o que restou da Floresta Atlântica. Boa parte do litoral poti-

Restinga na APA do Delta do Parnaíba: uma paisagem dominada por dunas e carnaúbas.

guar e os litorais do Ceará, Piauí e Maranhão têm como ecossistemas

vizinhos mosaicos vegetacionais constituídos por caatingas

e áreas de transição Cerrado-Caatinga.

Ao estudarmos três restingas no litoral nordestino setentrional,

a princípio, percebemos que a composição florística

nesta região repetia os padrões encontrados nas diferentes investigações

ao longo de restingas do litoral nordestino oriental

e da região sudeste. Com pequenas variações nas feições da

paisagem, as restingas da Área de Preservação do Delta do Parnaíba,

no Piauí, mostravam uma vegetação predominantemente

arbustiva, inclusive com caducifolia (queda das folhas) no período

de estiagem. Tal qual o que ocorre nos mosaicos vegetacionais

vizinhos, constituídos por áreas de transição

Cerrado-Caatinga.

Ao aprofundarmos a pesquisa, coletando exemplares para

identificação e montagem de um check-list das espécies, obtivemos

dados que permitiram uma comparação com outras

restingas do Nordeste e com outros ecossistemas como o Cerrado,

Caatinga, áreas de transição Cerrado-Caatinga, Floresta

Atlântica e áreas de Floresta Amazônica. Nossa investigação

se centrou em verificar qual o ecossistema que melhor contribuía

para a composição florística destas restingas, confirmando

(ou não) a influência dos ecossistemas adjacentes na

colonização das áreas vizinhas de restinga.

Os resultados obtidos através de análise multivariada dos

dados mostraram uma afinidade maior entre as restingas da

APA do Delta do Parnaíba com restingas do litoral nordestino

oriental. Ressalvando-se o fato de que, embora não existam espécies

típicas somente das restingas (endemismos), muitas espécies

são frequentadoras assíduas do ambiente,

estranharam-se os resultados obtidos, uma vez que o litoral

nordestino oriental tem a floresta atlântica como vizinha, enquanto

na região setentrional os vizinhos são mosaicos que

combinam espécies de Caatinga e Cerrados. Outro achado

importante foi a maior semelhança das restingas da APA do

Delta do Parnaíba com áreas de Floresta Atlântica da Paraíba

e de Pernambuco, muito embora, na lista de espécies, encontrem-se

pelo menos 30% de espécies típicas da Caatinga.

Foram assinaladas espécies incomuns para áreas de restinga,

como Maclura tinctoria, típica de florestas de altitude, e

Manilkara cavalcantei, típica do ambiente amazônico, o que reforça

o caráter ecotonal (de transição) da região estudada.

Assim, concluímos que embora muitas espécies presentes

nas restingas do Delta do Parnaíba pertençam aos ecossistemas

mais próximos, as áreas estudadas apresentaram

maior semelhança florística com a Floresta Atlântica, sem

que esta apresente qualquer remanescente próximo. A Floresta

Atlântica é, portanto, o principal ecossistema a contribuir

com as espécies que ocupam as restingas, mesmo

que estas estejam geograficamente distantes. É provável

que estas espécies tenham seguido

rotas próprias para o estabelecimento,

nestas restingas,

com diferenças no clima, especialmente

no regime de chuvas e

tão distantes sob o ponto de

vista geográfico. Há de se continuar

a investigação.

Francisco Soares S. Filho

Prof. Dr. da UESPI

fsoaresfilho@gmail.com

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