Nunca uma capital europeia juntou tantos estadistas. Foram 27 ...

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Nunca uma capital europeia juntou tantos estadistas. Foram 27 ...

DOSSIER

Um novo espírito

Nunca uma capital europeia juntou

tantos estadistas. Foram 27 líderes

da UE e 53 africanos, com algumas

ausências de figuras de primeiro plano

(como o britânico Gordon Brown) a

não estragarem a cimeira. Em Lisboa,

abordou-se um pouco do passado,

também do presente, mas sobretudo

do futuro das relações entre a Europa e

África. José Sócrates, primeiro-ministro

português e presidente em exercício

da UE, falou no final em “espírito de

Lisboa”. Outro português em destaque,

Durão Barroso, presidente da Comissão

Europeia, concordou. E o ganês John

Kufuor, presidente da União Africana,

alinhou pela mesma ideia: “este é o

espírito certo, o espírito de Lisboa”.

Resta saber se as boas intenções de

cooperação proclamadas a 8 e 9 de

Dezembro vão ter resultados concretos

até 2010, a data prevista para a nova

cimeira, que a Líbia já disse querer

organizar.

FÁTIMA MISSIONÁRIA 16 ANO LIV | Janeiro de 2008

texto Leonídio Paulo Ferreira* fotos Lusa


euro-africano

Principal parceiro económico

de África, a União Europeia

tem, porém, vindo a perder

terreno nos últimos anos, no

continente, para a China, uma potência

emergente que busca fornecedores de

petróleo e outras matérias-primas e

está disposta, em troca, a construir as

infra-estruturas solicitadas. Perante os

chineses, os europeus têm à partida

duas desvantagens: a má memória do

colonialismo e as preocupações pelos

direitos humanos, assunto que pouco

ou nada interessa às empresas chinesas

quando lidam com os regimes africanos

– não existe imprensa livre ou opinião

pública preocupadas pela conciliação

entre interesses económicos e democracia.

O que vale são os negócios.

Por isso a importância desta

segunda cimeira União Europeia-

-África, realizada em Lisboa a 8 e 9 de

Dezembro. Sete anos depois do evento

inaugural no Cairo, coube a Portugal

organizar o novo mega-encontro entre

estadistas dos dois continentes, um dos

objectivos essenciais do semestre de

presidência portuguesa da UE. Como

pioneiro da expansão europeia em

África e como último país a descolonizar,

Portugal possui uma relação

histórica única com os africanos que

acabou por se revelar na forma bem

sucedida como a cimeira aconteceu. A

oposição de Londres à vinda do zimbabueano

Robert Mugabe acabou por ser

ultrapassada, a ausência do britânico

Gordon Brown foi pouco notada e a

questão dos direitos humanos, como

era obrigatório, foi abordada.

Mas se o plano de acção aprovado

na cimeira é ambicioso, e com objectivos

concretos para cumprir até 2010, o chamado

“espírito de Lisboa” não fez esquecer

que existem ainda muitos pontos

de tensão entre Europa e África. Além

do desrespeito pelos direitos humanos

no Zimbabué, que a chanceler alemã

Ângela Merkel fez questão de apontar,

o drama do Darfur divide europeus e

africanos, com os primeiros a serem

muito críticos dos governantes sudane-

FÁTIMA MISSIONÁRIA 17 ANO LIV | Janeiro de 2008

ses e os segundos muito mais tolerantes.

A velha desconfiança histórica foi também

mostrada por Muammar Kadhafi,

quando falou da indemnização que os

colonizadores deveriam pagar aos colonizados,

mas a ideia não recebeu grandes

apoios e acabou por ficar apenas como

um momento animado tão ao gosto do

governante líbio, que uma vez mais fez

questão de evitar hotéis e ficar numa

tenda beduína trazida de propósito do

seu país e instalada na fortaleza de São

Julião da Barra.

Se de indemnizações ninguém

quis falar além de Kadhafi, já de ajuda

ao desenvolvimento muito se disse.

A União Europeia comprometeu-se

seriamente no apoio aos países africanos,

os quais por seu lado prometeram

maior qualidade na forma como é

feita a governação. Os dois continentes

chegaram também a um acordo

sobre a necessidade de travarem a

emigração ilegal para a Europa, que se

para uns é um drama social e humano

(basta pensar nos naufrágios perto


DOSSIER

Durão Barroso, presidente da Comissão da EU, John Kufuor, presidente do Gana e da UA, José Sócrates e Oumar Konaré,

presidente da Comissão da UA, na última conferência de imprensa da cimeira de Lisboa

das costas de Espanha ou de Malta)

para outros representa uma fuga sistemática

de gente capacitada e essencial

ao desenvolvimento económico

dos seus países de origem em África.

Mas um sinal evidente de que

persistem desconfianças entre Europa

e África aconteceu no último dia

da cimeira, quando o presidente do

Senegal, Abdoulaye Wade, abandonou

Um continente com ditadores

Os críticos da cimeira

entre a União Europeia

e África argumentaram

que se tratava de dar

demasiado destaque a um

encontro cheio de ditadores.

Mas além da necessidade

de diálogo pragmático

entre os dois blocos,

é óbvio que África já não

é um território alheio à

democracia, sistema que

dá sinais de vitalidade

em países como Cabo

Verde, o Botswana ou

o Gana. Mas um simples

exercício estatístico

revela que os líderes do

continente se agarram

demasiado ao poder, pois

12 dos governantes presentes

em Lisboa governam

sem interrupção os

seus povos há mais de

duas décadas, com maior

ou menor fachada democrática.

Os dois mais

antigos são o gabonês

Omar Bongo, no poder

desde 1967, e o líbio

Muammar Kadhafi, que

liderou um golpe militar

nesse mesmo ano. Mas a

lista de dirigentes quase

eternos engloba também

o angolano José Eduardo

dos Santos, o tunisino

Zine Ben Ali, o egípcio

Hosni Mubarak, o zimbaweano

Robert Mugabe

e ainda os seus homólogos

do Burkina Faso,

dos Camarões, da Guiné

Equatorial, da Guiné

Conakri, da Suazilândia

e do Uganda. Há, porém,

alguns líderes bem mais

recentes que são também

sistematicamente acusados

de serem ditadores,

como Joseph Kabila,

presidente da República

Democrática do Congo, o

antigo Zaire.

FÁTIMA MISSIONÁRIA 18 ANO LIV | Janeiro de 2008

o encontro descontente com os acordos

de parceria económica dados a assinar.

É que apesar da UE estar disposta a abrir

as suas fronteiras a todos os produtos

africanos, muitos países do chamado

continente negro continuam receosos

de que a entrada, por seu lado, de

mercadorias europeias em África desestabilize

as frágeis economias locais.

Uma preocupação que é partilhada

por muitas ONG que trabalham em

África. Outros líderes africanos, como

o moçambicano Armando Guebuza,

assinaram o acordo mas afirmaram

também as suas dúvidas. E Guebuza até

disse que só assinava porque era um

documento provisório.

Quem não se quis deixar abater

por estes problemas de última hora

foi José Sócrates, para quem esta foi

uma cimeira histórica” a todos os

níveis, porque “constitui um marco

nas relações entre a Europa e África”.

O primeiro-ministro português afirmou

ainda que “o que sai daqui é uma

parceria para um mundo melhor”.

* jornalista do Diário de Notícias


Uma nova parceria

em oito pontos

Da reunião de 8 e 9 de Dezembro em Lisboa entre os líderes dos 27

países da União Europeia e os 53 estadistas africanos resultou um plano

de acção composto por oito áreas prioritárias e que deve ter resultados

práticos até à realização da cimeira de 2010.

PAZ E SEGURANÇA Criação de

um sistema continental de alerta

rápido de prevenção de conflitos.

Objectivo é pôr em acção uma força

africana capaz de rapidamente se

colocar no terreno para garantir a

paz. Financiamento deverá ser garantido

pela ONU.

GOVERNANÇA E DIREITOS

HUMANOS Cooperação para promover

a prática democrática e lutar

contra a corrupção, a tortura, o tráfico

de drogas e de pessoas.

COMÉRCIO Futuros acordos de

cooperação entre a União Europeia

e África devem promover integração

regional e salvaguardar com especial

cuidado alguns produtos.

DESENVOLVIMENTO União

Europeia compromete-se a cumprir

os objectivos da ONU e despender,

até 2010, por ano, 0,56 por cento do

PIB em ajuda ao desenvolvimento.

E até 2015, 0,7 por cento. África

será o destino privilegiado de grande

parte dessa ajuda económica.

ENERGIA Investimento nas infra-

-estruturas energéticas africanas,

com ênfase na rede de electricidade.

Utilização da energia nuclear para

fins civis também será considerada.

CLIMA Alterações climáticas preocupam

tanto europeus como africanos.

Desflorestação acentuada e progresso

do deserto do Sara são os principais

problemas identificados.

MIGRAÇÕES Criar melhores oportunidades

de emprego em África para

reduzir tentação da emigração ilegal

para a Europa. Combate às redes de

tráfico humano, facilitação do envio de

remessas dos imigrantes e travão à fuga

de cérebros são também prioridades.

CIÊNCIA Utilização do Galileu, sistema

europeu de navegação por satélite,

para uma melhor gestão dos

recursos naturais em África.

União Europeia compromete-se a cumprir os

objectivos da ONU e despender, até 2010,

por ano, 0,56 por cento do PIB em ajuda ao

desenvolvimento. E até 2015, 0,7 por cento.

África será o destino privilegiado de

grande parte dessa ajuda económica

FÁTIMA MISSIONÁRIA 19 ANO LIV | Janeiro de 2008


DOSSIER

As três estrelas

da Cimeira

MUAMMAR KADHAFI O líder

líbio fez logo

questão de

marcar a diferença

ao recusar

alojar-se

em hotéis.

Fiel à tradição

beduína,

trouxe uma

tenda e as autoridadesportuguesasacabaram

por lhe ceder o forte de São

Julião da Barra, nos arredores de

Lisboa, para instalar a sua comitiva.

Antes e depois da cimeira, Kadhafi

fez tudo para se notar, desde uma

conferência numa universidade até

a um encontro com jornalistas na

sua tenda. Em simultâneo, publicou

vários artigos em jornais a divulgar a

sua opinião sobre temas como o controlo

das minas terrestres ou a limitação

do uso de metralhadoras. Tentou

marcar o tom do encontro euro-africano

exigindo uma indemnização

para todos os povos colonizados,

mas o mais marcante da sua passagem

por Lisboa terão sido alguns

negócios em perspectiva, sobretudo

da Galp na Líbia.

O primeiro-ministro britânico

opôs-se ao convite

feito ao presidente zimbabueano

porque considera

que Robert Mugabe

se apropriou do país para

fins de poder pessoal e

ROBERT MUGABE Para vir a Lisboa,

a União Europeia

teve de

suspender as

sanções que

impedem os

governantes

zimbabueanos

de viajar

até à Europa.

Mugabe mostrou-seindiferente

à ausência

do primeiro-ministro britânico, Gordon

Brown (que não veio até Portugal para

protestar pelo convite a Mugabe) e fez

questão de se deixar fotografar com o

máximo de líderes possível. Durante a

cimeira ouviu duras críticas da chanceler

alemã Ângela Merkel ao desrespeito

pelos direitos humanos no Zimbabwe e

respondeu num tom igualmente duro,

acusando a Europa de não compreender

África. Para explicar a situação difícil do

seu país, onde hoje existe fome apesar

de ter chegado a ser o celeiro da África

Austral, Mugabe pagou vários anúncios

em jornais. Nuns explicava o modo

como a Grã-Bretanha colonizou o país,

noutros acusava Brown de manipular a

oposição zimbabueana, inclusive através

de financiamentos a partidos.

Brown contra Mugabe

tem governado desastrosamente

aquele que já

foi o celeiro da África

Austral. A Gordon Brown

desagrada especialmente

a expropriação das terras

dos fazendeiros zimba-

bueanos brancos (em geral,

de ascendência britânica)

e a perseguição que é feita

aos dirigentes da oposição

democrática. Desde o

primeiro momento, Brown

disse que não participa-

FÁTIMA MISSIONÁRIA 20 ANO LIV | Janeiro de 2008

OMAR EL-BACHIR A situação humanitária

no

Darfur é considerada

a mais

grave actualmente

no mundo,

mas tardou a

ser incluída na

agenda da cimeira

euro-

-africana.

Mesmo assim,

várias organizações

fizeram questão de chamar a atenção

para um conflito tolerado pelo governo

sudanês e que já fez mais de 200 mil

mortos e dois milhões de refugiados.

Líder do maior país de África, potência

a meio caminho entre o mundo árabe e

a África negra, Omar el-Bachir enfrentou

bem a sua passagem por Lisboa,

minimizando as polémicas. Contudo,

o bispo de Cartum veio a Portugal

denunciar os governantes do seu país

e o prémio Sakharov de 2007, o deputado

Salih Osman, chamou igualmente

a atenção para os abusos de poder que

existem no seu Sudão. Num encontro

lateral, tanto o primeiro-ministro português,

José Sócrates, como o presidente

da Comissão Europeia, Durão Barroso,

abordaram o Darfur com El-Bachir.

ria no encontro de Lisboa

se Mugabe viesse, mas

caso Portugal não tivesse

convidado o líder zimbabueano,

muitos outros

estadistas africanos falhariam

à cimeira.


Zimbabwe entre britânicos

e portugueses

Satisfeito com a insistência

portuguesa em realizar a cimeira euro-

-africana apesar das críticas britânicas,

o ministro do Ensino Superior do

Zimbabwe escreveu um artigo na última

edição da revista “New African”

onde afirma que Lisboa compreende

melhor que Londres o país de Robert

Mugabe. E argumenta que “as relações

entre Portugal e o Zimbabwe

datam de 500 anos, ao contrário do

que acontece com as relações entre

o Reino Unido e o Zimbabwe que

têm apenas 111 anos”. As palavras

de I.S.G. Mudenge são, porém, mais

que mera propaganda. Como historiador,

o ministro há muito que

estuda as relações entre os países,

com destaque para o tratado de vassalagem

ao rei de Portugal assinado

por um soberano do Monomotapa

no século XVII. Dessa época ficaram

vestígios curiosos, sobretudo

no dialecto mais oriental da língua

shona, a da etnia de Mugabe: por

exemplo, sapato diz-se “ tsapato”,

fósforo é “fofo”, “lata” é “rata”.

Mas mesmo no século XIX, a

região que é hoje o Zimbabué chegou

a ser reclamada por Portugal, no

âmbito do célebre Mapa Cor-de-Rosa

que pretendia abranger os territórios

entre Angola e Moçambique. O problema

é que as pretensões portuguesas

chocavam com os projectos britânicos

para África, que incluíam uma

linha contínua de colónias de Norte

a Sul, desde o Cairo até ao Cabo.

Perante o Ultimato Britânico de 1890,

Portugal pouco mais pôde fazer a

não ser gritar de raiva e Henrique

Lopes de Mendonça e Alfredo Keil

escreveram então o hino de revolta

que mais tarde seria o da república.

E quando mandavam “contra os

bretões marchar, marchar” (depois

alterado para “contra os canhões

marchar, marchar”), o alvo mais apetecível

seria um tal de Cecil Rhodes,

magnata dos diamantes e político ao

serviço da rainha Vitória.

Rhodes, que morreria em

1902 apenas com 48 anos, conseguiu

incluir no império Britânico

essas terras que Portugal sonhava

no seu mapa Cor-de-Rosa, de

tal forma que ainda antes da sua

morte os territórios entre Angola e

Moçambique tinham sido já baptizados

de Rodésia em sua homenagem.

Mais tarde, seriam transformados em

Rodésia do Norte (actual Zâmbia)

e Rodésia do Sul (hoje Zimbabué).

FÁTIMA MISSIONÁRIA 21 ANO LIV | Janeiro de 2008

Quando em 1965, Ian Smith

proclama a independência unilateral

da Rodésia do Sul sob um regime

branco, Portugal encontra um aliado

natural na sua luta contra a guerrilha

moçambicana, que entretanto

combatia pelo fim do colonialismo

português. O triunfo da Frelimo em

Moçambique, com a independência

a ser proclamada em 1975, vai

entretanto levar alguns portugueses

a mudarem-se para a Rodésia de

Ian Smith e a por lá ficarem mesmo

depois de Robert Mugabe tomar o

poder em 1980 e rebaptizar o país

de Zimbabué, em alusão às ruínas de

uma antiga civilização africana.

Produtor de tabaco do Zimbabué entrega a sua colheita na capital Harare

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