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Scinax littoreus (amphibia, anura, hylidae) como indicador de ...

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<strong>Scinax</strong> <strong>littoreus</strong> (<strong>amphibia</strong>, <strong>anura</strong>, <strong>hylidae</strong>) <strong>como</strong> <strong>indicador</strong> <strong>de</strong> vulnerabilida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />

ambiente rupícola no Parque Estadual da Serra da Tiririca, Rio <strong>de</strong> Janeiro, Brasil<br />

Littoreus (Amphibia, Anura, Hylidae) as indicator of vulnerability of rupicolous<br />

environment in the Serra da Tiririca State Park, Rio De Janeiro, Brazil<br />

RESUMO<br />

Adriano Luz Corrêa-Pinto 1<br />

Sergio Potsch <strong>de</strong> Carvalho e Silva 2<br />

Realizamos um diagnóstico a respeito da presença do anfíbio bromelígeno <strong>Scinax</strong><br />

<strong>littoreus</strong> nos afloramentos rochosos do Parque Estadual da Serra da Tiririca e a<br />

vulnerabilida<strong>de</strong> <strong>de</strong>sta biocenose. Observamos os hábitos e o comportamento <strong>de</strong>sta<br />

espécie, relacionando-os a algumas variáveis ambientais. Devido ao en<strong>de</strong>mismo da<br />

espécie e ao impacto antrópico negativo sobre estes ambientes, propomos normas <strong>de</strong><br />

uso <strong>de</strong>sses ambientes <strong>de</strong>ntro dos limites <strong>de</strong>sta Unida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Conservação.<br />

ABSTRACT<br />

We realized a diagnostic on presence of bromeligenous <strong>amphibia</strong>n <strong>Scinax</strong> <strong>littoreus</strong> on<br />

granitic outcrops located at Serra da Tiririca State Park and the vulnerability of this<br />

biocenose. We observe the habits and behavior of this species, relating it to some<br />

environmental data. Due the en<strong>de</strong>mism and the negative antropic impacts, we propose<br />

rules of use in these environmental find insi<strong>de</strong> of limits of this protected natural area.<br />

INTRODUÇÃO<br />

O estudo dos aspectos reprodutivos é essencial para a compreensão da ecologia <strong>de</strong><br />

qualquer espécie animal e a sua relação com componentes abióticos e bióticos,<br />

principalmente em se tratando <strong>de</strong> anfíbios. Poucos vertebrados são tão <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes das<br />

condições ambientais, cuja distribuição geográfica, comportamento e história <strong>de</strong> vida<br />

são fortemente influenciados pela distribuição e abundância <strong>de</strong> água e outras condições<br />

climáticas.<br />

Algumas espécies <strong>de</strong> anfíbios são extremamente sensíveis a alterações do<br />

ambiente, o que lhes confere especial valor <strong>como</strong> <strong>indicador</strong>es da integrida<strong>de</strong> biológica<br />

em áreas naturais protegidas. O monitoramento em médio e longo prazo <strong>de</strong>sse grupo é,<br />

portanto, excelente ferramenta para <strong>de</strong>terminação e prevenção <strong>de</strong> possíveis impactos do<br />

uso público em Unida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> Conservação.<br />

A água acumulada entre as folhas das bromélias oferece um ambiente que alguns<br />

grupos <strong>de</strong> anuros exploram <strong>como</strong> local <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> suas larvas. <strong>Scinax</strong><br />

1<br />

Biólogo, MSc. em Zoologia. Parque Estadual dos Três Picos – IEF/RJ. adriano.luz74@gmail.com<br />

2<br />

Biólogo, Prof. Dr. Depto <strong>de</strong> Zoologia, Inst. <strong>de</strong> Biologia, Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral do Rio <strong>de</strong> Janeiro - UFRJ<br />

sergio@biologia.ufrj.br


<strong>littoreus</strong> é um anfíbio anuro pertencente à família Hylidae, atribuído ao grupo<br />

“perpusillus” que é caracterizado principalmente pelo hábito <strong>de</strong> utilizar bromélias <strong>como</strong><br />

sítio <strong>de</strong> oviposição e <strong>de</strong>senvolvimento das larvas (Peixoto, 1987). Sua ocorrência<br />

abrange formações <strong>de</strong> restingas e afloramentos rochosos do Estado do Rio <strong>de</strong> Janeiro,<br />

que se esten<strong>de</strong>m entre os municípios <strong>de</strong> Macaé e Maricá (Peixoto, 1988).<br />

A distribuição geográfica restrita <strong>de</strong> S. <strong>littoreus</strong> evi<strong>de</strong>ncia o alto grau <strong>de</strong><br />

en<strong>de</strong>mismo, on<strong>de</strong> populações (ou metapopulações) estão protegidas <strong>de</strong>ntro dos limites<br />

geográficos do Parque Estadual da Serra da Tiririca (PEST), criado pelo Decreto-Lei n o<br />

1.901 <strong>de</strong> 29 <strong>de</strong> novembro <strong>de</strong> 1991, categorizada no grupo <strong>de</strong> Unida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> Conservação<br />

<strong>de</strong> Proteção Integral, administrado pela Fundação Instituto Estadual <strong>de</strong> Florestas<br />

(IEF/RJ). O Parque possui aproximadamente 1800 hectares e abrange terras das regiões<br />

leste e oceânica do município <strong>de</strong> Niterói e partes do bairro <strong>de</strong> Itaipuaçu, pertencente ao<br />

município <strong>de</strong> Maricá. A Serra da Tiririca constitui um dos contrafortes da Serra do Mar,<br />

composto <strong>de</strong> elevações <strong>de</strong>nominadas Alto Moirão, Morro do Telégrafo e Morro do<br />

Catumbi. O relevo é bastante aci<strong>de</strong>ntado, com inclinações superiores a 50 o ,<br />

apresentando afloramentos rochosos consi<strong>de</strong>rados monumentos monolíticos, <strong>como</strong> o<br />

Costão <strong>de</strong> Itacoatiara e o Morro do Elefante (Marigo & Paula, 2001). A área está<br />

contida no domínio morfoclimático dos “mares <strong>de</strong> morros” florestados (Ab’Saber,<br />

1970).A região apresenta temperatura média anual <strong>de</strong> 23,1 o C, temperatura média do<br />

mês mais frio (julho) <strong>de</strong> 19,6 o C e temperatura média do mês mais quente (fevereiro) <strong>de</strong><br />

26,5 o C. A pluviosida<strong>de</strong> média anual é <strong>de</strong> 1207 mm e as chuvas se concentram em<br />

março, apresentando uma média <strong>de</strong> 149,4 mm. A maior estiagem se dá no mês <strong>de</strong><br />

agosto, apresentando uma pluviosida<strong>de</strong> média mensal <strong>de</strong> 50,1 mm (CREA, 1999).<br />

Afloramentos rochosos graníticos são comuns nas áreas costeiras do su<strong>de</strong>ste<br />

brasileiro. O substrato rochoso é explorado por uma vegetação esparsa, que forma ilhas<br />

<strong>de</strong> vegetação separadas por áreas extensas <strong>de</strong> rocha nua. Nesse tipo <strong>de</strong> vegetação po<strong>de</strong>m<br />

ser distinguidos dois gran<strong>de</strong>s grupos <strong>de</strong> plantas. O primeiro, é formado por espécies que<br />

exploram diretamente a rocha nua <strong>como</strong> algumas Bromeliaceae e Orchidaceae. O<br />

segundo grupo é caracterizado pelas plantas que colonizam as ilhas <strong>de</strong> solo, <strong>como</strong><br />

algumas Velloziaceae, Cyperaceae, Melastomataceae, Clusiaceae e Euphorbiaceae<br />

(Meirelles et al, 1999).<br />

Objetivos<br />

Como objetivo geral do estudo, <strong>de</strong>screvemos aspectos dos hábitos <strong>de</strong> vida e da<br />

biologia reprodutiva, apresentados por <strong>Scinax</strong> <strong>littoreus</strong>, relacionando-os com a<br />

fragilida<strong>de</strong> e uso público dos afloramentos rochosos. Como objetivos específicos temos:<br />

(1) caracterizar a utilização do ambiente por adultos e girinos <strong>de</strong> S. <strong>littoreus</strong>; (2)<br />

caracterizar os impactos antrópicos negativos sobre este tipo <strong>de</strong> ambiente, relacionando<br />

com o en<strong>de</strong>mismo e vulnerabilida<strong>de</strong> da população <strong>de</strong> <strong>Scinax</strong> <strong>littoreus</strong>; (3) propor<br />

normas <strong>de</strong> uso dos afloramentos rochosos encontrados nos limites geográficos do PEST.<br />

MATERIAL E MÉTODOS<br />

A população estudada se encontra em um afloramento rochoso <strong>de</strong>nominado<br />

“Costão <strong>de</strong> Itacoatiara” (22 o 58’ 43” S e 43 o 01’ 40” O). Este afloramento <strong>de</strong> 217 metros<br />

<strong>de</strong> altitu<strong>de</strong>, pertence ao complexo da Serra da Tiririca, on<strong>de</strong> uma gran<strong>de</strong> parcela está<br />

protegida <strong>de</strong>ntro dos limites do Parque Estadual da Serra da Tiririca. Vinte e uma visitas


foram realizadas à localida<strong>de</strong> estudada no período compreendido entre abril <strong>de</strong> 2000 e<br />

<strong>de</strong>zembro 2001 (Corrêa-Pinto, 2002). A chegada ao pico do afloramento normalmente<br />

se <strong>de</strong>u por volta do início da tar<strong>de</strong>, <strong>de</strong> modo que no momento do ocaso, já estávamos<br />

realizando as observações. As vistorias se estendiam até às 12 horas do dia seguinte.<br />

Caracterização do espaço utilizado e comportamento apresentado por adultos <strong>de</strong><br />

S. <strong>littoreus</strong><br />

Para caracterizar a utilização do espaço realizada pelos adultos, foram feitas<br />

observações diretas. Durante as visitas à localida<strong>de</strong> estudada, registramos adultos <strong>de</strong> S.<br />

<strong>littoreus</strong> presentes nas moitas <strong>de</strong> vegetação. Foram registrados os tipos <strong>de</strong> substrato<br />

utilizado para lo<strong>como</strong>ção, sítios <strong>de</strong> vocalização e refúgio. As temperaturas do ar, da<br />

água do tanque da bromélia e umida<strong>de</strong> relativa do ar foram amostrados com um termohigrômetro<br />

Minipa MT-24. As velocida<strong>de</strong>s do vento média e máxima foram registradas<br />

com um anemômetro portátil Silva Windwatch a aproximadamente um metro do solo.<br />

Caracterização do habitat utilizado e comportamento apresentado pelas larvas <strong>de</strong><br />

<strong>Scinax</strong> <strong>littoreus</strong><br />

Para caracterizar o habitat utilizado pelas larvas <strong>de</strong> <strong>Scinax</strong> <strong>littoreus</strong>, dividimos<br />

cada roseta em dois distintos micro-habitat: copo central e axilas laterais. Consi<strong>de</strong>ramos<br />

copo central, os tanques formados pelas bainhas que formam um só corpo d’água e<br />

axilas laterais aqueles tanques que estão isolados uns dos outros. Com um sugador <strong>de</strong><br />

insetos, retiramos toda a água existente em cada tanque, anotando seu volume com uma<br />

proveta volumétrica e se havia presença <strong>de</strong> girinos. Foram amostradas randômicamente<br />

as águas contidas nos tanques <strong>de</strong> 61 rosetas.<br />

RESULTADOS<br />

Caracterização do espaço utilizado e comportamento apresentado por adultos <strong>de</strong><br />

S. <strong>littoreus</strong><br />

<strong>Scinax</strong> <strong>littoreus</strong> utilizou o espaço disponível <strong>de</strong> forma diferenciada <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ndo<br />

das condições atmosféricas e <strong>de</strong> luminosida<strong>de</strong>. Durante o dia os indivíduos <strong>de</strong> S.<br />

<strong>littoreus</strong> ficavam abrigados entre as axilas das bromélias, on<strong>de</strong> raramente foi registrado<br />

algum tipo <strong>de</strong> vocalização. A ativida<strong>de</strong> <strong>de</strong> vocalização se iniciava próximo ao momento<br />

do ocaso, <strong>de</strong>crescendo ao longo da noite. Em algumas noites, as congregações<br />

reprodutivas reuniam um gran<strong>de</strong> número <strong>de</strong> machos. Raros foram os registros (n= 4)<br />

que mais <strong>de</strong> um indivíduo foi visto vocalizando por roseta. A altura máxima registrada<br />

para os machos em ativida<strong>de</strong> <strong>de</strong> vocalização foi <strong>de</strong> 80 cm do solo. Em noites <strong>de</strong> pouco<br />

vento (velocida<strong>de</strong> média até 2,4 m/s), os machos vocalizavam nas extremida<strong>de</strong>s das<br />

folhas das bromélias ou na vegetação adjacente. Com o aumento da velocida<strong>de</strong> do<br />

vento, os indivíduos <strong>de</strong>ssa população se refugiavam entre as axilas das bromélias,<br />

diminuindo também sua ativida<strong>de</strong> <strong>de</strong> vocalização.<br />

Observamos indivíduos vocalizando e se lo<strong>como</strong>vendo sobre Alcantarea<br />

glaziouana (Bromeliaceae), e em poucos registros sobre a vegetação adjacente <strong>como</strong><br />

Croton compressus (Euphorbiaceae), Vellozia candida (Velloziaceae) e se refugiando<br />

nas axilas <strong>de</strong> Vriesea neoglutinosa (Bromeliaceae). Foram encontrados indivíduos <strong>de</strong> S.<br />

<strong>littoreus</strong> em praticamente todas as moitas <strong>de</strong> vegetação que apresentavam bromeliáceas


em sua composição, principalmente Alcantarea glaziouana, notavelmente a espécie <strong>de</strong><br />

bromélia mais abundante. Do total <strong>de</strong> 87 moitas vistoriadas, observamos que não havia<br />

presença <strong>de</strong> indivíduos vocalizando, nem <strong>de</strong> girinos em moitas com menos <strong>de</strong> 9 rosetas<br />

<strong>de</strong> bromeliáceas. Observamos uma gran<strong>de</strong> redução da ativida<strong>de</strong> <strong>de</strong> vocalização em<br />

noites <strong>de</strong> lua cheia (n=8), além dos indivíduos se movimentarem pouco entre as<br />

bromélias, ficando abrigados entre as axilas <strong>de</strong>stas plantas.<br />

Nenhuma <strong>de</strong>sova foi observada no campo, sendo assim não sabemos o local exato<br />

<strong>de</strong> oviposição, nem <strong>como</strong> são distribuídos os ovos. Acreditamos que o casal distribua o<br />

lote <strong>de</strong> ovos em mais <strong>de</strong> uma axila <strong>de</strong> A. glaziouana, pois, no máximo, dois girinos no<br />

mesmo estágio <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento foram vistos em um mesmo tanque. Foi visto um<br />

casal em amplexo se lo<strong>como</strong>vendo entre três rosetas diferentes, distando 20 cm a<br />

primeira da segunda e a terceira, a 120 cm da primeira.<br />

Caracterização do habitat utilizado e comportamento apresentado pelas larvas <strong>de</strong><br />

<strong>Scinax</strong> <strong>littoreus</strong><br />

Das 61 bromélias amostradas, encontramos um total <strong>de</strong> 20 girinos em 11 rosetas<br />

(18,0 % do total vistoriado). Desses 20 girinos, 14 (70,0 %) se encontravam nos copos<br />

centrais e apenas 6 (30,0 %) em axilas laterais. Os copos centrais apresentaram volume<br />

<strong>de</strong> água médio igual a 126,5 ± 37,2 mL (n = 10) e as axilas laterais 63,0 ± 18,7 mL (n =<br />

52).<br />

Com exceção dos três girinos <strong>de</strong> tamanhos diferentes encontrados na mesma axila<br />

lateral, e dois girinos <strong>de</strong> estágios diferentes encontrados no mesmo copo central, em<br />

todas as outras observações foi visto apenas um girino por tanque. Observamos que os<br />

girinos <strong>de</strong> S. <strong>littoreus</strong> ficam submersos, a<strong>de</strong>ridos às folhas das bromélias. Durante o dia,<br />

os encontramos próximos ao fundo dos tanques e durante a noite próximos a superfície<br />

da água. Alcantarea glaziouana cresce com suas rosetas em diferentes ângulos em<br />

relação ao substrato. Assim, ao longo do dia, os raios solares atingem os tanque em<br />

momentos diferentes. Observamos uma maior temperatura em bromélias que estavam<br />

com a superfície da água voltada para o sol. Em um mesmo momento, os tanques<br />

sombreados apresentavam uma diferença em até 5 o C dos ensolarados.<br />

Evidências <strong>de</strong> impactos<br />

Observamos ao longo da obtenção dos dados, que a vertente oeste <strong>de</strong>ste<br />

afloramento rochoso apresentava uma notável redução do quantitativo <strong>de</strong> vocalizações<br />

emitidas pelos machos <strong>de</strong> S. <strong>littoreus</strong>, quando comparada às vertentes sul e leste. Foi<br />

também observado um esparsamento <strong>de</strong> vegetação na vertente oeste, associado com<br />

indícios da existência em um passado recente, <strong>de</strong> moitas hemisféricas, evi<strong>de</strong>nciada por<br />

marcas na rocha sem qualquer cobertura por liquens e briófitas. A seguir é discutido<br />

esta observação em relação à quatro fatores: o sentido dos ventos, a <strong>de</strong>clivida<strong>de</strong> da<br />

vertente, a iluminação artificial indireta e o impacto negativo causado pelos visitantes.<br />

DISCUSSÃO<br />

Caracterização do espaço utilizado e comportamento apresentado por adultos <strong>de</strong><br />

S. <strong>littoreus</strong>


Alguns sítios <strong>de</strong> vocalização po<strong>de</strong>m se tornar mais vantajosos que outros em<br />

relação a uma melhor propagação do som emitido, ou um melhor posicionamento que<br />

permita ao macho visualizar e ser percebido pelas fêmeas. Wells & Schwartz (1982)<br />

mostraram que o substrato on<strong>de</strong> Centrolenella fleischmanni vocalizava, afetava a<br />

intensida<strong>de</strong> e direcionalida<strong>de</strong> dos seus sinais sonoros. Quando os indivíduos<br />

vocalizavam sobre folhas gran<strong>de</strong>s, o som produzido por estes eram refletidos na<br />

superfície foliar, reforçando as ondas sonoras emitidas, produzindo um sinal <strong>de</strong> maior<br />

intensida<strong>de</strong> quando comparado com os produzido por indivíduos que vocalizavam sobre<br />

folhas menores. <strong>Scinax</strong> <strong>littoreus</strong> foi encontrado, na maioria das vezes, vocalizando sobre<br />

folhas <strong>de</strong> Alcantarea glaziouana. Foram freqüentes as vezes que os indivíduos<br />

vocalizavam entre as axilas, on<strong>de</strong> a reflexão do sinal sonoro, provavelmente, o torna<br />

mais intenso, se propagando no ar a uma maior distância. A característica “encerada”<br />

das folhas <strong>de</strong> A. glaziouana, provavelmente reflete melhor as ondas sonoras do que<br />

superfícies porosas ou irregulares. Essa melhor propagação se torna muito útil em um<br />

ambiente aberto e ventoso <strong>como</strong> encontramos na localida<strong>de</strong> estudada. Dessa forma,<br />

alterações antrópicas nas estruturas vegetativas, po<strong>de</strong>m influenciar negativamente na<br />

reprodução <strong>de</strong>ste anfíbio anuro.<br />

Em noites <strong>de</strong> lua cheia, S. <strong>littoreus</strong> praticamente não vocalizava, e quando era<br />

observada alguma ativida<strong>de</strong> <strong>de</strong> vocalização, os indivíduos a realizavam ocultos entre as<br />

axilas das bromélias A queda na ativida<strong>de</strong> <strong>de</strong> vocalização em noites <strong>de</strong> lua cheia, po<strong>de</strong><br />

ser explicada pela suscetibilida<strong>de</strong> à predação em que S. <strong>littoreus</strong> po<strong>de</strong> sofrer em noites<br />

<strong>como</strong> estas. Alterações no comportamento <strong>de</strong> anfíbios durante um eclipse lunar foi<br />

<strong>de</strong>monstrado por Hassinger & An<strong>de</strong>rson (1970), mostrando que a lua apresenta alguma<br />

influência sobre estes organismos. Mudanças no comportamento durante um eclipse<br />

total do sol, também foi <strong>de</strong>monstrado por Lescure (1975). Se pensarmos na ocupação<br />

humana <strong>de</strong>sor<strong>de</strong>nada do entorno imediato do PEST e na conseqüente iluminação<br />

urbana, principalmente da orla das praias <strong>de</strong> Itacoatiara e Itaipuaçu, este é mais um fator<br />

que po<strong>de</strong> estar impactando negativamente na reprodução da espécie em questão.<br />

Por mais que o ar <strong>de</strong>ssa localida<strong>de</strong> seja úmido, o vento muitas vezes po<strong>de</strong> retirar<br />

umida<strong>de</strong> do animal. Esta situação ocorre quando o ar não está saturado <strong>de</strong> água, que é<br />

evi<strong>de</strong>nciado pela ausência <strong>de</strong> orvalho ou <strong>de</strong> neblina. Apesar <strong>de</strong> estudos anteriores não<br />

ter acusado alguma <strong>de</strong>pendência entre umida<strong>de</strong> relativa do ar e número <strong>de</strong> vocalizações<br />

(Corrêa-Pinto, 2002), observamos que S. <strong>littoreus</strong> se torna mais ativo em umida<strong>de</strong> mais<br />

elevada. Mesmo com uma umida<strong>de</strong> relativa do ar acima <strong>de</strong> 90 %, a presença <strong>de</strong> fortes<br />

ventos parece inibir a ativida<strong>de</strong> <strong>de</strong> vocalização da espécie. Muitas vezes, os indivíduos<br />

foram vistos saindo das extremida<strong>de</strong>s das folhas e se direcionando ao centro da planta,<br />

on<strong>de</strong> além <strong>de</strong> se abrigar do vento, ainda se hidrata nos tanques.<br />

Peixoto (1988) afirmou que S. <strong>littoreus</strong> <strong>de</strong>posita seus ovos nos tanques das<br />

bromélias e os girinos têm seu <strong>de</strong>senvolvimento neste microhabitat. Encontramos<br />

girinos se <strong>de</strong>senvolvendo nos tanques das bromélias, mas não foi possível observarmos<br />

o exato local <strong>de</strong> oviposição. Pelo fato <strong>de</strong> observarmos um casal em amplexo visitando<br />

mais <strong>de</strong> uma bromélia, acreditamos que a espécie escolha o local <strong>de</strong> oviposição, talvez<br />

assegurando-se <strong>de</strong> condições propícias ao <strong>de</strong>senvolvimento da prole. Esta escolha po<strong>de</strong><br />

ser baseada no volume d’água encontrado no interior dos tanques, nas características<br />

físico-químicas da água ou na presença <strong>de</strong> predadores aquáticos. A presença <strong>de</strong> lixo no<br />

interior dos tanques <strong>como</strong> foi observado in situ, certamente apresenta impacto negativo


na reprodução <strong>de</strong>sta espécie e <strong>de</strong> toda uma ca<strong>de</strong>ia trófica que diretamente ou<br />

indiretamente <strong>de</strong>pen<strong>de</strong> das condições <strong>de</strong>stes corpos d’água.<br />

Caracterização do habitat utilizado e comportamento apresentado pelas larvas <strong>de</strong><br />

<strong>Scinax</strong> <strong>littoreus</strong><br />

Devido à gran<strong>de</strong> resistência realizada pelo contato entre as bordas das folhas <strong>de</strong><br />

Alcantarea glaziouana, acreditamos que os girinos não consigam passar <strong>de</strong> um tanque<br />

para outro. Encontramos girinos ocupando 18,0 % das bromélias vistoriadas. Esta<br />

ocupação po<strong>de</strong> ser consi<strong>de</strong>rada baixa se compararmos com os resultados que Teixeira et<br />

al (1997) encontraram na restinga <strong>de</strong> Guriri, Estado do Espírito Santo. Os autores<br />

encontraram girinos em média 43,1 % das bromélias amostradas. Acreditamos que o<br />

casal escolha o copo central <strong>de</strong> A. glaziouana <strong>como</strong> local <strong>de</strong> <strong>de</strong>sova com maior<br />

freqüência. O copo central possui uma maior capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> armazenar água do que as<br />

axilas laterais. Na estação seca (invernos <strong>de</strong> 2000 e 2001), po<strong>de</strong>mos observar que as<br />

axilas laterais das bromélias se encontravam praticamente sem água acumulada. Isto<br />

po<strong>de</strong> ser percebido pelos adultos <strong>de</strong> S. <strong>littoreus</strong>, o que leva a escolha <strong>de</strong> <strong>de</strong>sovar em um<br />

sítio que ofereça condições propícias para o <strong>de</strong>senvolvimento da prole. Talvez seja<br />

importante para o sucesso reprodutivo da espécie <strong>de</strong>sovar nos copos centrais, on<strong>de</strong><br />

mesmo em épocas <strong>de</strong> estiagens a população encontra um reservatório <strong>de</strong> água<br />

disponível.<br />

Richardson et al (2000) relataram que os phytotelmata possuem uma limitação <strong>de</strong><br />

espaço e <strong>de</strong> longevida<strong>de</strong>. As partes mais velhas das bromélias, que no caso são as folhas<br />

mais externas da roseta, formam tanques que sofrem <strong>de</strong>rramamentos mais freqüentes. A<br />

variação dos níveis <strong>de</strong> água se <strong>de</strong>ve basicamente à evaporação e à estação seca. Muitas<br />

vezes, o pequeno volume <strong>de</strong> água <strong>de</strong>senvolve uma condição anóxica, tornando o<br />

phytotelmata um sistema moribundo.<br />

Observamos que os girinos <strong>de</strong> S. <strong>littoreus</strong> ficam submersos, a<strong>de</strong>ridos nas folhas<br />

das bromélias. Durante o dia os encontramos próximos ao fundo dos tanques e durante a<br />

noite próximos a superfície da água. Este padrão po<strong>de</strong> ser <strong>de</strong>vido aos hábitos<br />

<strong>de</strong>tritívoros e raspadores que essas larvas apresentam. Lutz (1903) afirmou que o hábito<br />

<strong>de</strong> ficar a<strong>de</strong>rido as folhas, apresentado por organismos aquáticos <strong>de</strong> bromélias, é <strong>de</strong>vido<br />

à captura <strong>de</strong> oxigênio oriundo da fotossíntese do vegetal. Essa obtenção <strong>de</strong> oxigênio<br />

seria necessária em ambientes anóxicos <strong>como</strong> os aquários <strong>de</strong> bromélias. Lutz (1973)<br />

relatou que girinos <strong>de</strong> <strong>Scinax</strong> perpusillus foram encontrados em algumas rosetas <strong>de</strong><br />

Neoregelia, e apesar <strong>de</strong> se encontrarem flutuando na superfície da água, em alguns<br />

momentos eles permanecem no fundo, on<strong>de</strong> provavelmente utilizam bolhas <strong>de</strong> oxigênio<br />

para respiração. A permanência dos girinos no fundo do tanque durante o dia po<strong>de</strong> ser<br />

explicada pela maior suscetibilida<strong>de</strong> à predação por organismos predadores <strong>de</strong> hábitos<br />

diurnos (p.ex. pássaros). Este fenômeno também po<strong>de</strong> ter alguma relação com a<br />

temperatura da água dos tanques. Observamos uma maior temperatura em bromélias<br />

que estavam com a superfície da água voltada para o sol. Os tanques sombreados<br />

apresentavam uma diferença em até 5 o C dos ensolarados. Como, em alguns casos, a<br />

irradiação solar direta nos tanques durava poucos minutos, a temperatura na superfície<br />

da água po<strong>de</strong> se tornar maior do que no fundo do tanque <strong>de</strong>vido ao tempo que leva para<br />

haver uma homogeneização das massas d’água. Por esse motivo, os girinos po<strong>de</strong>m<br />

permanecer por um maior tempo no fundo, on<strong>de</strong> além <strong>de</strong> encontrarem menor<br />

temperatura, também po<strong>de</strong>m, teoricamente encontrar maior concentração <strong>de</strong> oxigênio


dissolvido na água. <strong>Scinax</strong> <strong>littoreus</strong> apresentou uma gran<strong>de</strong> tolerância à temperatura.<br />

Stebbins & Cohen (1995) afirmaram que a maioria dos anfíbios não po<strong>de</strong>m tolerar<br />

temperaturas acima <strong>de</strong> 43 o C, mas <strong>como</strong> S. <strong>littoreus</strong> habita uma localida<strong>de</strong> que apresenta<br />

altas temperaturas durante o dia, adaptações fisiológicas <strong>de</strong>vem existir. Um dos maiores<br />

problemas que os anfíbios sofrem com as altas temperaturas é a perda excessiva <strong>de</strong> água<br />

(Stebbins & Cohen, 1995), o que parece ser resolvido no momento que os adultos se<br />

humidificam nos aquários das bromélias. Como os girinos possuem hábitos aquáticos,<br />

não sofrem com a perda d’água, e sim com possíveis complicações no metabolismo, que<br />

<strong>de</strong>vem estar sendo contornadas por uma fisiologia própria <strong>de</strong> organismos euritérmicos.<br />

Os girinos muitas vezes foram encontrados em águas que po<strong>de</strong>m chegar a 40 o C e nós<br />

acreditamos que em situações tão extremas, soluções meramente comportamentais não<br />

seriam suficientes para os girinos <strong>de</strong> S. <strong>littoreus</strong> se manterem vivos. Durante a noite, o<br />

risco <strong>de</strong> predação por organismos aéreos po<strong>de</strong> ser menor, além da temperatura da água<br />

não apresentar este rápido aumento sofrido durante o dia. Sendo assim, os girinos <strong>de</strong> S.<br />

<strong>littoreus</strong> po<strong>de</strong>m permanecer também próximo a superfície da água. O sentido biológico<br />

para estes movimentos verticais circadianos <strong>de</strong> S. <strong>littoreus</strong>, não estão muito claros.<br />

A preferência que <strong>Scinax</strong> <strong>littoreus</strong> possuiu por Alcantarea glaziouana po<strong>de</strong> ser<br />

explicada pela gran<strong>de</strong> abundância <strong>de</strong>sta bromélia no local <strong>de</strong> estudo. Sendo assim, a não<br />

observação <strong>de</strong> girinos em Vriesea neoglutinosa e Neoregelia cruenta po<strong>de</strong> ser <strong>de</strong>vido à<br />

pequena <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> das duas espécies <strong>de</strong> bromélias no costão. Aparentemente, A.<br />

glaziouana também possui capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> armazenar um maior volume <strong>de</strong> água que V.<br />

neoglutinosa. Esse maior volume d’água po<strong>de</strong> apresentar melhores condições <strong>de</strong><br />

sobrevivência dos girinos, <strong>de</strong>vido à menor taxa <strong>de</strong> variação da temperatura em maiores<br />

volumes d’água. Papp & Papp (2000) observaram que Phyllodytes luteolus<br />

aparentemente evitou utilizar rosetas com menos <strong>de</strong> 100 mL, e foram vistos com maior<br />

freqüência em rosetas que cresciam em áreas abertas expostas ao sol. O mesmo<br />

fenômeno po<strong>de</strong> estar ocorrendo em Itacoatiara, pois nunca observamos a presença <strong>de</strong><br />

girinos <strong>de</strong> S. <strong>littoreus</strong> nas rosetas <strong>de</strong> V. neoglutinosa, N. cruenta e A. glaziouana com<br />

menos <strong>de</strong> 150 mL <strong>de</strong> água no copo central. Sendo assim, a integrida<strong>de</strong> estrutural das<br />

rosetas é <strong>de</strong> extrema importância para a captação <strong>de</strong> água em um volume suficiente para<br />

as ativida<strong>de</strong>s reprodutivas <strong>de</strong> S. <strong>littoreus</strong>.<br />

Evidências <strong>de</strong> impactos<br />

O menor número <strong>de</strong> vocalizações observado na vertente oeste, po<strong>de</strong> estar<br />

associado ao menor número <strong>de</strong> moitas encontradas <strong>de</strong>ste lado do afloramento, quando<br />

comparada às vertentes sul e leste. É <strong>de</strong> se esperar que exista uma relação direta entre<br />

número <strong>de</strong> indivíduos vocalizantes e número <strong>de</strong> sítios <strong>de</strong> vocalização (no caso a<br />

vegetação, principalmente bromélias). Foram levantados fatores que possam estar<br />

influenciando neste esparsamento <strong>de</strong> vegetação e redução das vocalizações, <strong>como</strong> o<br />

sentido dos ventos, a <strong>de</strong>clivida<strong>de</strong> da vertente e o impacto negativo causado pelos<br />

visitantes. O primeiro fator não parece influenciar na questão, pois as vertentes sul e<br />

leste sempre apresentaram maiores números <strong>de</strong> vocalizações, in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte da direção e<br />

sentido dos ventos. Além disso, o vento predominante na região é o leste e<br />

esperaríamos, segundo os resultados já explicitados acima, que a vertente que estivesse<br />

recebendo a ação direta dos ventos apresentaria uma menor ativida<strong>de</strong> <strong>de</strong> vocalização<br />

dos machos. O segundo fator também não <strong>de</strong>ve influenciar, pois as vertentes leste e<br />

oeste apresentam <strong>de</strong>clivida<strong>de</strong>s similares, entre 45° e 85°, unidas por um topo<br />

praticamente plano em sua maioria. O terceiro fator provavelmente é o que está mais


elacionado ao esparsamento da vegetação e redução das vocalizações. A vertente oeste<br />

é claramente a mais utilizada por visitantes <strong>de</strong>sta UC, que diariamente sobem o<br />

“costão”, principalmente na parte da tar<strong>de</strong>, para assistir ao pôr-do-sol. Desse modo,<br />

po<strong>de</strong> ser explicado a presença <strong>de</strong> marcas mais claras na rocha, sem qualquer vestígio <strong>de</strong><br />

colonização por liquens e musgos que estão associadas ao pisoteio que ocasiona o<br />

<strong>de</strong>slocamento e posterior queda da mesma após as fortes chuvas <strong>de</strong> verão. Foram<br />

encontradas moitas em que o raso solo estava praticamente solto e com a vegetação<br />

castigada por ação mecânica. Trechos <strong>de</strong> vegetação rupícola se encontrava da mesma<br />

forma, principalmente nas vertentes oeste e norte, esta última representando o principal<br />

acesso utilizado por visitantes para o topo e <strong>de</strong>mais vertentes do “costão”.<br />

Além da simples visitação, este afloramento recebe praticantes <strong>de</strong> esportes<br />

radicais, <strong>como</strong> escalada em rocha, surf <strong>de</strong> pedra e esporadicamente, a utilização <strong>de</strong><br />

bicicletas para <strong>de</strong>scidas em gran<strong>de</strong>s <strong>de</strong>clivida<strong>de</strong>s. A prática <strong>de</strong> escaladas no PEST ainda<br />

não apresenta perigo <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> impacto negativo sobre este sistema, pois poucas são as<br />

vias abertas se compararmos com outras UCs do Estado do Rio <strong>de</strong> Janeiro on<strong>de</strong> a<br />

prática do esporte é antiga e tradicional. Po<strong>de</strong>mos citar <strong>como</strong> exemplos <strong>de</strong> um uso mais<br />

intenso a APA dos Morros da Babilônia e São João, Parque Nacional da Serra dos<br />

Órgãos e Parque Estadual dos Três Picos, estes dois últimos com diretrizes em relação<br />

ao incentivo e controle <strong>de</strong>sta modalida<strong>de</strong> esportiva. O surf em pedra é uma ativida<strong>de</strong><br />

menos conhecida e consiste na <strong>de</strong>scida do esportista utilizando apenas um bom calçado<br />

e o uso <strong>de</strong> algum equipamento <strong>de</strong> segurança <strong>como</strong> capacete, cotoveleiras e joelheiras<br />

(usados raramente no local). Este esporte é tradicional no local, principalmente na<br />

vertente oeste, on<strong>de</strong> até campeonatos já foram realizados. Os impactos sobre a<br />

vegetação precisam ser melhores estudados, <strong>de</strong> forma que a sua prática seja proibida ou<br />

pelo menos controlada e restrita a apenas uma área do “costão <strong>de</strong> Itacoatiara”. A prática<br />

ciclística apesar <strong>de</strong> pontual e rara no local, <strong>de</strong>ve ser levada em consi<strong>de</strong>ração <strong>de</strong>vido ao<br />

seu gran<strong>de</strong> impacto sobre a vegetação rupícola, existindo outras áreas no PEST para esta<br />

ativida<strong>de</strong>, on<strong>de</strong> menores impactos negativos certamente serão observados. Durante os<br />

trabalhos <strong>de</strong> campo, a visitação no PEST não era avaliada nem controlada por parte da<br />

administração, sendo assim ficamos impossibilitados <strong>de</strong> levantarmos o número mensal<br />

<strong>de</strong> visitantes no local, mas com certeza foi muito maior do que a capacida<strong>de</strong> suporte.<br />

Foram observados além do claro pisoteio sobre a vegetação rúpicola, o impacto<br />

direto sobre as bromélias representado pela extração das mesmas e do lixo acumulado<br />

<strong>de</strong>ntro dos copos centrais <strong>de</strong> A. glaziouana, principal sítio <strong>de</strong> ovoposição <strong>de</strong> S. <strong>littoreus</strong><br />

e fonte <strong>de</strong> água para inúmeras espécies <strong>de</strong> invertebrados e vertebrados resi<strong>de</strong>ntes e<br />

visitantes do local. A partir <strong>de</strong> 2004 o PEST conta com uma nova administração, além<br />

<strong>de</strong> um reforço na infra-estrutura, que vem promovendo um maior controle nas visitações<br />

<strong>de</strong>stes afloramentos rochosos, além <strong>de</strong> ações educativas que certamente auxiliarão na<br />

preservação <strong>de</strong>sses ambientes on<strong>de</strong> encontramos gran<strong>de</strong> número <strong>de</strong> en<strong>de</strong>mismos<br />

(Meirelles et al, 1999). O controle da visitação e até mesmo a inacessibilida<strong>de</strong>, mesmo<br />

que periódica <strong>de</strong>sses afloramentos, em especial o “costão <strong>de</strong> Itacoatiara”, <strong>de</strong>verão<br />

constar em um plano setorial <strong>de</strong> turismo e montanhismo em um futuro plano <strong>de</strong> manejo<br />

<strong>de</strong>sta UC.<br />

Além <strong>de</strong>stes fatores discutidos, não po<strong>de</strong>mos <strong>de</strong>ixar <strong>de</strong> citar a presença <strong>de</strong><br />

pequenos focos <strong>de</strong> incêndio, causados principalmente por balões que são utilizados<br />

culturalmente nos meses <strong>de</strong> festas juninas, quando coinci<strong>de</strong>ntemente é a época <strong>de</strong><br />

estiagem na região, provocando conseqüências mais drásticas nos efeitos do fogo. Papp


& Papp (2000) observaram uma gran<strong>de</strong> redução no tamanho populacional do anuro<br />

Phyllodytes luteolus após a ação do fogo em uma área <strong>de</strong> restinga no Estado do Espírito<br />

Santo. As ativida<strong>de</strong>s reprodutivas <strong>de</strong> P. luteolus foram afetadas, <strong>de</strong>vido ao gran<strong>de</strong><br />

número <strong>de</strong> bromélias queimadas, e ao hábito bromelígena da espécie. Provavelmente<br />

estes eventos anuais estão afetando as ativida<strong>de</strong>s reprodutivas <strong>de</strong> S. <strong>littoreus</strong>, assim<br />

<strong>como</strong> toda uma biota que <strong>de</strong>pen<strong>de</strong> do acúmulo <strong>de</strong> água realizado pelas bromélias,<br />

principalmente em um sistema on<strong>de</strong> uma pequena quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> substrato limita a<br />

capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> armazenamento <strong>de</strong> água no solo, tornando-a disponível por um breve<br />

tempo durante as chuvas. Isto é <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> importância em um local <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> insolação<br />

e constantes ventos que originam um estresse hídrico na vegetação e na fauna.<br />

CONCLUSÃO<br />

Os afloramentos rochosos, especialmente os encontrados no su<strong>de</strong>ste brasileiro, se<br />

tornam um interessante objeto <strong>de</strong> estudo, pois apesar <strong>de</strong> se encontrarem próximo ao<br />

mar, on<strong>de</strong> a umida<strong>de</strong> relativa do ar é alta, a pequena quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> substrato limita a<br />

capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> armazenamento <strong>de</strong> água no solo. Sendo assim, a água se torna disponível<br />

por um breve tempo durante as chuvas, on<strong>de</strong> a gran<strong>de</strong> insolação e o constante vento<br />

sobre a rocha originam um estresse hídrico na vegetação e na fauna. Desta forma, a<br />

presença <strong>de</strong> bromeliáceas nesses sistemas e a integrida<strong>de</strong> estrutural <strong>de</strong> suas rosetas, são<br />

<strong>de</strong> extrema importância para a captação <strong>de</strong> água em um volume suficiente para as<br />

ativida<strong>de</strong>s reprodutivas <strong>de</strong> S. <strong>littoreus</strong> e para a manutenção da biocenose ali encontrada,<br />

não somente sob aspectos tróficos, mas também relacionados à reprodução e refúgio.<br />

Po<strong>de</strong>mos enquadrar nestes três casos, a viabilida<strong>de</strong> da população <strong>de</strong> <strong>Scinax</strong> <strong>littoreus</strong><br />

estudada.<br />

Os resultados obtidos aqui, <strong>de</strong>monstram <strong>como</strong> pequenas alterações neste tipo <strong>de</strong><br />

ambiente po<strong>de</strong>m resultar em mudanças no comportamento <strong>de</strong> uma espécie e ocasionar<br />

um “efeito dominó”, on<strong>de</strong> a restauração e recuperação da biocenose po<strong>de</strong> estar<br />

associada com redução irreversível na riqueza e diversida<strong>de</strong> local <strong>de</strong> espécies, muitas<br />

vezes endêmicas.<br />

Outro fator relevante para o estudo <strong>de</strong> afloramentos rochosos, é o ainda reduzido<br />

número <strong>de</strong> publicações a respeito <strong>de</strong>stes ambientes, principalmente no que diz respeito<br />

ao seu uso público em Unida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> Conservação, on<strong>de</strong> o impacto causado por<br />

visitantes, po<strong>de</strong> danificar esse sistema <strong>de</strong> aparente baixa velocida<strong>de</strong> <strong>de</strong> resiliência após<br />

intervenções humanas sobre a vegetação rupícola. Desta forma, estudos que po<strong>de</strong>rão<br />

integrar o futuro plano <strong>de</strong> manejo do PEST, se tornam necessários para uma melhor<br />

avaliação da capacida<strong>de</strong> suporte <strong>de</strong> visitação <strong>de</strong>sses frágeis sistemas biológicos.<br />

Apenas mostramos aqui que o estudo <strong>de</strong> hábitos <strong>de</strong> vida <strong>de</strong> uma espécie <strong>de</strong> estrito<br />

en<strong>de</strong>mismo, <strong>como</strong> é o caso <strong>de</strong> <strong>Scinax</strong> <strong>littoreus</strong>, po<strong>de</strong> ser uma ferramenta para uma<br />

indicação <strong>de</strong> vulnerabilida<strong>de</strong> e <strong>de</strong> en<strong>de</strong>mismos em outros grupos constituintes <strong>de</strong> um<br />

sistema, ainda pouco estudado e relativamente freqüente nas UCs do Estado do Rio <strong>de</strong><br />

Janeiro.<br />

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