Natividade Monteiro - Federação Espírita Portuguesa

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Natividade Monteiro - Federação Espírita Portuguesa

Resumo

MARIA VELEDA

No labirinto “espiritualista”, místico e esotérico

Natividade Monteiro *

Maria Veleda nasceu em 1871, numa família “convencionalmente católica” e na

juventude manifestou desejos de professar. Quando em 1906, desempenhava as funções

de professora no «Centro Escolar Republicano Afonso Costa», converteu-se aos ideais

da República e ao Livre-Pensamento. Iniciada na Maçonaria, tornou-se uma das maiores

propagandistas da liberdade de consciência e do anticlericalismo. Cerca de 1916, atraída

pelos caminhos da “espiritualidade” e do esoterismo e preocupada com o sentido da

existência, aderiu ao espiritismo filosófico, cientifico e experimental. Fundou o «Grupo

das Sete» que mais tarde se transformou no «Centro Espiritualista Luz e Amor» e, em

1925, dinamizou a realização do I Congresso Espírita Português e a criação da

Federação Espírita Portuguesa. Fundou e dirigiu as Revistas A Asa, O Futuro e

Vanguarda Espírita e colaborou na imprensa espírita e “espiritualista” de todo o país.

Palavras-chave: Maria Veleda, mulheres, catolicismo, livre-pensamento, espiritismo.

Abstract

Maria Veleda was born in 1871 in a “conventionally catholic” family, expressing in her

youth the wish to become a nun. In 1906, while teaching at «Centro Escolar

Republicano Afonso Costa», she converted to the Republican ideals and Free Thinking.

Initiated in Masonry, she became one of the most active propagandists of freedom of

conscience and anticlericalism. Around 1916, captivated by the paths of spirituality and

esoterism and concerned about the sense of existence, she adhered to the philosophical,

scientific and experimental spiritism. She founded the «Grupo das Sete», which later

became the «Centro Espiritualista Luz e Amor», and in 1925 she dinamized the

organization of the I Congresso Espírita Português and the creation of the Federação

Espírita Portuguesa. She founded and directed the Magazines A Asa, O Futuro and

Vanguarda Espírita and collaborated with the spiritist and spiritualist press

countrywide.

Keywords: Maria Veleda, women, catholicism, Free Thinking, spiritism.

A religiosidade na infância e na juventude

Maria Veleda nasceu no seio de uma família de classe média, onde recebeu uma

educação que oscilou entre a liberdade proporcionada pelo pai, velho soldado e livre-

pensador, e o convencionalismo religioso da mãe e da avó, senhoras “dessa

religiosidade burguesa de provincianas que vão aos domingos à missa para exibirem as

suas galas e criticarem as «toilettes» de fulana e de sicrana, notarem uma pluma que já

figurou no chapéu do ano passado e uma fita, cuja cor passou de moda.” 1

1 Maria Veleda, A Vanguarda; 13.2.1909, p.1


Na juventude, as frequentes visitas ao irmão internado no Seminário de Faro,

desenvolveram o seu misticismo, a ponto de acreditar que a sua fé se tinha tornado mais

profunda e fervorosa. Chegou a experimentar visões místicas, ansiar por uma vida de

recolhimento e de paz e imaginar-se com “o véu branco das noviças; entoando salmos,

aperfeiçoando-se para Deus.” 2

Deu conta destes desejos e arroubos místicos a Monsenhor Joaquim Maria

Pereira Boto, “homem de grande erudição”, que a demoveu de professar, dizendo-lhe:

“Não pense em tal. Isso a que chama «vocação» não é «vocação» - é romanticismo.

Case, seja mãe de muitos filhos. Essa é a mais nobre missão da mulher.” 3

Passada a fase crítica de misticismo exacerbado, a sua religiosidade passou a

confinar-se “à missa de domingo e à confissão anual”, intercaladas pelas festividades

em que o sagrado e o profano “deliciosamente” se conjugavam, pois era nessas festas,

procissões e romarias que as raparigas e os rapazes, em grupos alegres e

despreocupados, trocavam olhares e cartinhas de amor.

Desfiando recordações, Maria Veleda escreverá em 1909, a propósito da

procissão do “Enterro do Senhor”, realizada na sexta-feira da “Paixão”: “...Nós então,

apenas a procissão acabava de desfilar por baixo das nossas janelas, saíamos em

tropel, alegres, buliçosas, de mantilha preta, e íamos esperá-la às esquinas, abafando

risinhos, acotoveladas, amachucadas pela multidão. Muito se ria e muito se namorava,

nessas noite do enterro do Senhor.” 4

Num tempo em que o quotidiano das populações era ainda pautado pelas

diversas manifestações religiosas, a vida de Maria Veleda decorria “pesadamente

monótona” entre os deveres cristãos, as obrigações profissionais do ensino particular, a

escrita na imprensa periódica, as idas ao teatro Lethes, os passeios, as visitas, “o

clássico namoro e o estafado piano”. Seguindo ou não o avisado conselho de

Monsenhor, entretanto, apaixonou-se pelo poeta Cândido Guerreiro. Dessa paixão única

e eterna nasceu um filho, o qual veio juntar-se a outro, adoptado oito anos antes. Estes

dois filhos deram origem a uma família numerosa. Apesar de ter escolhido ficar solteira,

a “mais nobre missão” desta mulher cumpriu-se.

2

Maria Veleda, A Vanguarda; 4.3.1909, p.1

3

Idem

4

Maria Veleda, A Vanguarda; 20.2.1909, p. 1


A conversão ao livre-pensamento

“A mulher portuguesa tem uma tarefa a cumprir, e essa tarefa não deve

executar-se na penumbra das Igrejas; mas à luz de um sol que se chama Progresso,

caminhando para um futuro que se chama Liberdade.” 5

Em 1906, quando Maria Veleda já se encontrava em Lisboa, como professora do

Centro Escolar Republicano Afonso Costa, ofereceu a sua colaboração escrita ao jornal

A Vanguarda, onde continuou a sua propaganda educativa e feminista, iniciada há

muito na imprensa liberal, feminina e progressista. Entretanto, conheceu os mais

eminentes chefes republicanos, aderiu aos ideais da República e converteu-se ao livre-

pensamento. Pela mão de Boto Machado, tornou-se oradora, ampliando assim o seu

campo de expressão e de acção. Começou também a conviver com outras mulheres

republicanas, Ana de Castro Osório, Joana de Almeida Nogueira, Adelaide Cabete,

Carolina Beatriz Ângelo e Maria Clara Correia Alves, entre outras. Em 1907,

Magalhães Lima, Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano Unido, iniciou-a na

Maçonaria, com o nome simbólico «Angústias». Militou na Loja Humanidade,

agremiação feminina independente, “com igualdade de direitos e representação junto

das diversas hierarquias maçónicas”. “Maçonaria feminina e feminismo ombrearam

nas gerações que marcaram as publicistas republicanas. Eram duas expressões

orgânicas de um mesmo ideal. Eram duas formas de o atingir.” 6

Convertida ao livre-pensamento e iniciada na Maçonaria, Maria Veleda tornou-

se uma das mais activas e empenhadas propagandistas da liberdade de consciência e do

anti-clericalismo, bandeiras da luta pela implantação da República. O anti-clericalismo

militante de Maria Veleda assentava na ideia de que o fanatismo religioso e a influência

jesuítica eram os maiores inimigos da emancipação feminina. Das conferências,

discursos e artigos que escreveu nos periódicos, destacam-se alguns publicados n’A

Vanguarda, intitulados «Porque me fiz livre-pensadora?», onde expôs o seu percurso de

católica crente e praticante, semeado, porém, de algumas decepções em relação à

moralidade de certos clérigos e beatas, até à desilusão final que a levou a abandonar

definitivamente a crença religiosa. Um dos rituais católicos mais criticados no seu

discurso é o da confissão auricular, por considerá-lo o mais manipulador dos espíritos

crentes, pouco esclarecidos e fanatizados, a ponto de o responsabilizar pela escravização

5 Maria Veleda, A Vanguarda; 29.7.1909, p. 1

6 Fernando Marques da Costa; Maçonaria Feminina,Lisboa, Vega, 1979, pp. 50, 58


das mulheres a uma vida de ignorância, hipocrisia, acomodação, preconceito e

alienação.

A Vanguarda e A República, jornais em que Maria Veleda tinha colunas

próprias, «Missa Democrática» e «Tribuna Feminina», respectivamente, foram os

veículos privilegiados da difusão das suas ideias. Aí defendeu a instauração do registo

civil obrigatório, a separação da Igreja do Estado, a lei do divórcio e a desmistificação

dos dogmas da religião católica. Em Abril de 1908, fez parte da comissão organizadora

do «I Congresso Nacional do Livre-Pensamento», onde apresentou a Tese «Feminismo»

e propôs a formação do «Partido Feminista Português» e da «Federação do Trabalho»

contra as violências do capitalismo.

A adesão ao espiritismo filosófico, científico e experimental

“A minha religiosidade católica tinha afrouxado e desaparecido, mercê de

circunstâncias várias, sendo substituída por outras crenças mais de harmonia com o

meu sonho de uma humanidade melhor, uma sociedade diferente, mas apesar de tudo

sentia como que um vácuo dentro da minha alma.” 7

Maria Veleda tomou conhecimento da existência do espitirismo militante em

Lisboa, cerca de 1914, por intermédio de uma amiga de longa data. Foi convidada a

assistir a uma sessão e ficou intrigada com as revelações do médium a seu respeito, por

coincidirem com certas experiências místicas vividas na sua infância e juventude e das

quais não terá falado a ninguém. Este e outros fenómenos desafiaram a sua curiosidade

e, levada pelo espírito de aventura e o desejo de conhecer e entender o que se lhe

afigurava tão misterioso, tomou a decisão de estudar o assunto.

Recordou-se, entretanto, que havia alguns anos tinha lido Uranie de Flamarion e

ficado deslumbrada com “a poesia da Ideia, a beleza da forma, e, sobretudo, a relação

existente entre o pensamento que inspirara aquele livro e as vagas, indecisas

aspirações que (lhe) escapavam, apenas tentava apreendê-las. Haveria realmente

outro mundo superior, onde as almas se aperfeiçoassem, onde o amor, na sua divina

expressão, fosse mais que uma radiosa utopia?” 8

Nessa época, Maria Veleda não tinha ainda abrandado a luta que há muito

empreendera em prol da igualdade de direitos civis e políticos entre os sexos e em

7 Maria Veleda, Estudos Psíquicos, Julho de 1945, p. 245

8 Idem


defesa do regime republicano. No entanto, o fervor patriótico e a esperança de

concretizar velhos ideais não foram suficientes para suportar, por muitos mais anos, as

desilusões pelos rumos que a República tomava e pelo adiamento constante da

satisfação das suas reivindicações feministas. O desgaste físico e o sofrimento

psicológico provocados por uma vida profissional e intelectual intensa tornaram a sua

saúde cada vez mais frágil. Em 1917, adoeceu gravemente, a ponto de não poder

trabalhar durante muitos meses. Não dispondo de outros meios de subsistência, além do

seu modesto ordenado de funcionária da Tutoria Central da Infância de Lisboa, a

miséria que ela conhecia de perto e que tanto combateu, em nome da solidariedade

humana, bateu-lhe também à porta, pondo em risco a própria sobrevivência e a da sua

família.

A solidão da doença obrigou-a a uma reflexão sobre tudo o que tinha idealizado

e vivido. Os tempos tinham mudado. A guerra e as suas consequências agravaram a

instabilidade política e a crise económica e social do país. Em vez da sociedade perfeita,

construída sob a égide da República, ela via o caos da violência generalizada. Nestes

momentos de grande sofrimento e de profunda desilusão procurou entregar-se a uma

maior espiritualidade, a fim de amenizar as agruras da vida e encontrar alguma

felicidade. A livre-pensadora exaltada e intransigente ia cedendo lugar à crente

deslumbrada com a paz e a alegria espiritual de uma alma em perfeita sintonia com

Deus, a “Força Suprema do Universo”, sem, contudo, renunciar ao livre-pensamento.

Após a noite sangrenta de 19 de Outubro de 1921, abandonou o activismo

político e feminista, mas não desacreditou nos ideais e valores que sempre a nortearam

nem deixou de lutar por eles, embora de uma forma mais serena, comedida e discreta.

Desencantada, não mergulhou na indiferença, nem se tornou céptica nem azeda.

Continuou a olhar realisticamente o mundo e a procurar soluções para os problemas da

Humanidade. O seu espírito sempre irrequieto e em constante ebulição, buscava sempre,

por caminhos vários o alimento necessário ao seu equilíbrio intelectual e afectivo. A

sede constante do saber e a capacidade de compreender, a atracção pelo desconhecido e

o misterioso, a ânsia de perfeição e de felicidade e o desejo da imortalidade levam-na a

enveredar pelo espiritismo, acreditando que “dentro do ideal espírita, cabem todas as

reivindicações e todas as aspirações para a constituição de uma sociedade melhor.” 9

9 Maria Veleda; A Asa, nº. 7, Julho, 1919, p. 117


A iniciação numa aventura espiritualista, mística e esotérica que se reclamava de

filosófica, científica e experimental e que apontava para o aperfeiçoamento individual e

colectivo pela sucessiva reencarnação das almas e procurava estabelecer contactos com

a vida exclusivamente espiritual dos que tinham deixado a vida terrena, a fim de

beneficiar dos conselhos, ânimo e orientações dos espíritos superiores para a construção

de um mundo melhor, fascinava-a.

“Há sempre em cada um de nós certa misteriosa atracção para o ignoto... Por

mais positivista que se pretenda ser, dorme no mais recôndito de cada um de nós uma

ânsia de desconhecido, pois não se pode viver sem alguma crença, e ela é a grande

cadeia que nos prende à Vida, por muito libertos que nos julguemos. 10

O acompanhamento das suas leituras e estudos sobre o espiritismo esteve a

cargo do general Viriato Zeferino Passaláqua 11 , que também lhe disponibilizou a sua

excelente biblioteca. À medida que estudava os mestres Flammarion, Aksakof, William

Crookes, Gabriel Dellane, Cesare Lombroso, Albert de Rochas, Léon Dénis, J. B.

Roustaing, Fredrich Myers, Richet 12 e outros, mais atraída se sentia pela nova filosofia.

“Como todos os iniciados em qualquer doutrina, eu encontrava-me sequiosa de

conhecimentos, abrasava-me na ânsia de saber, de descobrir os segredos do Além,

entrando em comunicação com as entidades misteriosas que sentia pulular em meu

redor. (...) Conhecê-las, falar-lhes, confundir a minha alma com a sua, - tal foi o

desejo mais intenso por que me apaixonei então. E, como não podia deixar de ser,

sucedeu-me o que sucede a todos os neófitos, qualquer que seja a sua cultura: -

procurei satisfazer a minha sede de desconhecido, tomando parte nas denominadas

«sessões experimentais».

Devo confessar em abono da verdade, que a minha expectativa sofreu diversas e

pungentes decepções; mas os conhecimentos bebidos nas melhores fontes e o desejo

cada vez maior de ilustrar-me, animaram-me a prosseguir, sem que me sentisse

influenciada pela ignorância e fanatismo de certos experimentadores, - antes tirando

partido de tudo quanto se me deparava.” 13

10 Maria Veleda; Revista de Metapsicologia; Julho, 1949, p. 147

11 O general Passaláqua era considerado um dos decanos do Espiritismo em Portugal, ao lado do Dr.

Martins Velho, e caracterizado como um velho sábio, muito sensível e humano. Era defensor dos direitos

das mulheres numa perspectiva moralista.

12 Uma pequena biografia, as descobertas científicas e as obras sobre temas espíritas dos cientistas

referidos podem ser consultadas online no sítio de “Faces de Eva” no endereço www.facesdeeva.fcshun.pt

13 Maria Veleda, Estudos Psíquicos; Novembro-Dezembro, 1940, p. 235


O espiritismo a que Maria Veleda aderiu e a que se vinha dedicando era um

credo científico, filosófico e moral de carácter eclético que admitia a existência de

Deus, a quem rendia adoração, porém não admitia culto nem dogmas, deixando à

liberdade da consciência individual a escolha do modo como exprimir o sentimento

religioso. A raíz desta religião mergulhava na doutrina cristã e nos ensinamentos dos

Evangelhos. Jesus Cristo, o divino Mestre, era o modelo a seguir.

As sete sacerdotisas do oculto

Cerca de 1916, Maria Veleda convidou algumas amigas, duas das quais eram

antigas companheiras da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, e fundou o

«Grupo das Sete», constituído por Maria da Madre de Deus Leite Dinis, Maria Emília

de Carvalho Gonçalves, Maria Emília Marques, Maria Augusta Setas, Emília Bähr

Ferreira e ela própria. O nome da sétima mulher não é mencionado nos documentos

consultados, mas é provável que fosse Ernestina Burguete. Para estas mulheres, o

número sete revestia-se de uma certa simbologia mágica que favorecia a aventura

iniciática no sagrado e no misterioso, o que se enquadra na tradição legada pelas

civilizações da Antiguidade Oriental. Maria Veleda, iniciada na Maçonaria, conhecia

bem o valor simbólico deste número. Sete eram também os membros necessários à

fundação de uma loja maçónica.

Reuniam-se todas as semanas em casa de Maria da Madre de Deus em sessões

experimentais presididas pelo Guia «Luz e Amor». Estas reuniões, dedicadas ao estudo,

meditação e experimentação, recordá-las-á como as mais frutuosas de todas as que

assistiu, pois tinham o condão de a fazer sentir radiante de paz, felicidade e amor pelos

outros, mais próxima de Deus e da ascese espiritual a que aspirava. Considerando os

progressos espirituais do grupo, convidaram outras pessoas a participar nas reuniões,

perdendo estas o carácter feminino e alargando-se a adeptos de ambos os sexos. Assim

nasceu o Grupo Espiritualista «Luz e Amor», cujos corpos gerentes eram constituídos

apenas por mulheres, entre as quais as fundadoras, que colectivamente promoveram

várias actividades culturais com objectivos de propaganda espiritualista. 14

14 Em 1919, o Grupo «Luz e Amor» destacou uma comissão, constituída por Maria Veleda, Adélia de

Araújo Sampaio, Emília Marques, Ernestina Burguete, Margarida de Azevedo e Morais Castro Sarmento,

a fim de angariar meios para a fundação de um orfanato destinado a recolher e educar crianças, cujos pais

tivessem falecido, vítimas da influenza-pneumónica.


Em Janeiro de 1919, Maria Veleda, em colaboração com o filho Cândido

Guerreiro Xavier da Franca e Hermínio do Nascimento, lançou a Revista Mensal de

Propaganda Sociológica e das Ciências Psíquicas A Asa, órgão do Centro de

Propaganda das Ciências Psíquicas «Luz e Amor», destinada a todos os adeptos das

doutrinas espiritualistas, mais interessados no “problema filosófico do que,

propriamente, na questão religiosa ou científica, não querendo com isto dizer que esses

dois aspectos nos sejam indiferentes...” 15

Depois de explicar as razões da escolha e o simbolismo do título, expõe os

objectivos da nova publicação que tratará de todos os assuntos que se prendam com “a

elevação moral e intelectual da humanidade”. Assim, procurará espalhar “ideias de

paz, de amor e de liberdade. A emancipação da mulher, a protecção às crianças, a

propaganda contra a prostituição e o alcoolismo, o combate contra tudo que for iníquo

e represente opressão ou abuso de força, violência, ambições mesquinhas, negação dos

direitos que todos temos à vida (...). É que nós compreendemos que as doutrinas

espiritualistas são como a semente que só pode produzir e frutificar em terreno que seja

previamente laborado.” 16

A propaganda do espiritismo estava a cargo do General Viriato Passaláqua, com

o «ABC Espírita». A secção «Ecos do Além», relatava comunicações medianímicas e

recebia a colaboração de todos os correspondentes, desde que isentos de fanatismo.

Também se divulgavam textos de autores famosos e a poesia dos melhores poetas,

inspirada na Ideia de Deus e na imortalidade da Alma. Para informar os leitores sobre o

movimento espírita internacional, transcreviam-se artigos, entrevistas e notícias

publicadas em periódicos estrangeiros. Cândido G. Xavier da Franca, filho de Maria

Veleda, assegurava o secretariado da Redacção da revista e assinava artigos de cariz

literário e de inspiração espiritualista.

Como directora do novo periódico, Maria Veleda tinha a seu cargo os editoriais,

as notas da Redacção, a correspondência com os leitores e a troca de informações com

outras publicações nacionais e estrangeiras. 17 A secção «Em toda a parte», onde se

noticiavam e comentavam acontecimentos da actualidade era também da sua

15 Maria Veleda, A Asa; Janeiro, 1919, p. 1

16 Maria Veleda, A Asa; Janeiro, 1919, p. 2

17 O intercâmbio com os Centros e periódicos espíritas do Brasil parece ter sido intensa. Por exemplo, a

revista brasileira A Verdade, órgão da União Espírita do Pará, transcrevia artigos de Maria Veleda,

publicados n’A Asa e Ecos do Além. O Centro Espírita «Luís Gonzaga» de Itapira – Associação Espírita

Beneficente e Instrutiva de Cachoeira, Itapemirim-Estado do Espírito Santo, conferiu a Maria Veleda o

título de sócia honorária, por unanimidade, numa assembleia geral extraordinária. Havia também

intercâmbio com outras revistas espíritas de países europeus, sobretudo, Espanha, Itália e França.


esponsabilidade, embora fosse assinada por Fred, um outro pseudónimo, diminutivo do

seu apelido Frederico. As opiniões aqui veiculadas a propósito dos mais variados

assuntos, criteriosamente escolhidos, tinham sempre intuitos pedagógicos. Os

comentários tecidos à volta de certos eventos eram sempre pertinentes e às vezes

premonitórios. São disso exemplo, as notícias sobre as lutas sociais entre brancos e

negros nos E.U.A. e as condições impostas à Alemanha pelos Aliados no Tratado de

Versalhes. Sobre o primeiro, mostra-se estupefacta pela existência da desigualdade de

direitos entre cidadãos brancos e negros no país da Liberdade e do Progresso, e diz-se

indignada pela teimosia cega de uns quantos que, em pleno século XX, continuam a

negar a evidência da unidade do género humano. A Conferência de Paz e o Tratado de

Versalhes, assinados em 1919, suscitam-lhe sérias dúvidas sobre a pretensa preservação

da paz europeia e mundial e a construção de um mundo melhor, visto que se baseavam

na vingança dos vencedores, na injustiça para com os pequenos povos e na subjugação

humilhante da Alemanha vencida. Com estes pressupostos, prevê que de “uma paz

firmada em violências e cheia de injustiças”, o “vulcão enorme” da guerra volte a

irromper, num futuro mais ou menos próximo, de tal forma que só depois o mundo

ficará preparado para compreender o verdadeiro valor da Paz. O tempo provou que os

receios de Maria Veleda/Fred tinham razão de existir.

A maioria dos artigos assinados por Maria Veleda continuava a sustentar a

crença na utopia da «Pátria Ideal», baseada nos valores da Paz, da Solidariedade, do

Altruísmo, da Justiça e do Amor, que uniriam toda a humanidade na longa caminhada

de aperfeiçoamento, ascese espiritual e felicidade universal. Na «Pátria Ideal» não

haveria lugar para leis iníquas que perpetuassem as desigualdades e as injustiças, nem

para ódios patrióticos que justificassem violências e guerras destruidoras de bens e de

vidas, cobrindo a terra de dor e de luto e espalhando as sementes da vingança. No

rescaldo de uma guerra que se revelou longa e dura e que teve consequências tão

trágicas para toda a Europa, Maria Veleda punha em causa os valores do patriotismo e

dos nacionalismos exacerbados que, em parte, lhe deram origem e a justificaram perante

os povos dos países envolvidos. Após a guerra, havia que celebrar a paz e lutar pela

abolição de fronteiras e a união de todos os povos, a fim de criar uma pátria universal,

onde houvesse apenas cidadãos do mundo.

Considerando-se uma “obscura pioneira da Ideia da igualdade dos sexos”,

continuava a defender também os ideais feministas. Na sua perspectiva, as doutrinas

espíritas promoviam essa igualdade por considerarem que não há sexos mas apenas


espíritos. O sexo é apenas uma parte do invólucro material que serve temporariamente o

espírito nas suas vidas sucessivas em busca de perfeição. Sob o ponto de vista social, o

sexo dos indivíduos também seria irrelevante se a acção de ambos não se

circunscrevesse a estas ou aquelas actividades. A “horrível desigualdade” dos destinos

humanos e a “injustiça suprema”, atribuídos a um Ser Omnisciente, são

incompreensíveis e dificilmente aceites, motivando revoltas e desesperos em muitas

almas. Mas desde que se compreenda que todo o Mal e todo o Bem representam a obra

da evolução e ascensão através do encadeamento das vidas sucessivas e que a felicidade

e a desventura resultam da acção de cada um sobre o próprio destino, toda a raiva e

desespero podem transformar-se em esperança e consolação.

Maria Veleda, apesar de ter renegado o catolicismo e ter defendido ardentemente

o livre-pensamento, nunca perdeu a fé em Deus. A adesão às doutrinas espiritualistas 18

levam-na agora a proclamar a fé e o amor a um Deus “todo misericórdia, todo bondade,

todo justiça, que não impõe lugares de expiação nem de beatitude, mas permite estados

de alma, por meio dos quais se goza a felicidade de uma consciência pura ou se arrasta

o peso de um remorso que pode ser atenuado à medida que o espírito se liberta do

fardo dos seus crimes ou das suas imperfeições”. 19 O Deus que a sua “razão

compreende”, é um Deus verdadeiramente justo, que permite à sua alma “vislumbrar a

Luz”, ter a Esperança de resgatar todas as suas faltas e de penetrar na grande “Verdade”

que ainda se lhe afigura incompreensível e lhe está interdita, mas que há-de alcançar

quando chegar a hora da sua redenção. Esse Deus diz-lhe “que trabalhe, que estude,

que investigue, e, sobretudo, que seja boa, tanto quanto puder sê-lo; que use de

caridade para com todos os (seus) irmãos, seja qual for a sua crença,

independentemente das suas virtudes ou dos seus crimes; que aplique a (sua)

inteligência – não na propaganda desta ou daquela doutrina, mas para a difusão da

Fraternidade e do Bem Universal.” 20

A fé em Deus, “Verdade Suprema”, que reside “entre os homens, imaterial,

pura, divina”, a palavra e os ensinamentos de Cristo, reproduzidos nos Evangelhos,

serão o sustentáculo da nova religião que visa uma maior espiritualização da existência

humana no caminho da perfectibilidade e da felicidade colectivas. Para Maria Veleda,

18 As correntes neo-espiritualistas incluiam espíritas, rosacruzes, teósofos e hermetistas, entre outros.

19 Maria Veleda; O Futuro, nº. 8; Agosto, 1922, p. 3

20 Idem


amar a Deus e seguir as doutrinas de Cristo não implicava, de forma alguma, “a mais

pequena quebra (nos seus) princípios de livre-pensadora”.

Magalhães Lima, outro livre-pensador que se reconhecia idealista e

contemplativo, convidado a escrever na Revista A Asa, defendia também a supremacia

das leis da Paz, da Liberdade e do Amor para uma maior espiritualização da vida.

“...Amo a Paz, que cria o espírito regulador das sociedades, e que estabelece na terra a

harmonia das almas. A grandeza material é de molde a deslumbrar aqueles que se

contentam com a plástica das coisas. Mas não dá nem pode dar a felicidade, que só

pelo desenvolvimento moral se pode obter. Espiritualizar a vida é torná-la fecunda e

útil aos nossos semelhantes. ... A espiritualização da nossa existência, considero-a

como um passo para a perfectibilidade.” 21

A publicação da revista A Asa cessou em Dezembro de 1919. Em Fevereiro de

1921 foi substituída pela revista O Futuro com as mesmas características, embora com

um corpo redactorial mais alargado, constituído por Viriato Passaláqua e Hermínio do

Nascimento. Maria Veleda dirigiu também esta revista, secretariada pelo filho Cândido,

até Dezembro de 1922, data da partida deste para Angola. Em Junho de 1922, Maria

Veleda lançou nesta revista a ideia da realização de um Congresso Espírita, a fim de

aproximar todos os grupos nacionais, dar visibilidade e prestígio à nova filosofia e

delinear a oposição e o combate ao pseudo-espiritismo fraudulento que muito contribuia

para comprometer e amesquinhar os nobres ideais do verdadeiro espiritismo.

Apesar de se pretender mensal, a publicação da revista O Futuro foi bastante

irregular. Entre Fevereiro de 1921 e Outubro de 1923, publicaram-se apenas quinze

números, havendo por vezes interregnos de quatro meses a um ano. Em 1924, a

periodicidade parece ter sido mais regular, a avaliar pelo último número que consta na

colecção incompleta da Biblioteca Nacional. Sendo de distribuição gratuita aos sócios

do Grupo Espiritualista «Luz e Amor», nem sempre havia verbas para a sua publicação.

Entretanto, o número de adeptos do Grupo Espiritualista «Luz e Amor»

aumentou. Em Novembro de 1923, o Grupo contava com 78 mulheres e 61 homens,

cujas profissões se centravam nas áreas do ensino, medicina, advocacia, engenharia,

oficialato das Forças Armadas, comércio, indústria e funcionalismo público. Este

aumento obrigou a um desdobramento das sessões experimentais e à transformação do

Grupo em agremiação de mais larga envergadura. A Revista O Futuro, de Fevereiro-

21 Magalhães Lima; A Asa, nº. 8; Agosto, 1919, p. 119


Maio de 1923, dá relevo à criação do Centro Espiritualista «Luz e Amor», 22 associação

devidamente regularizada e autorizada pelas entidades oficiais, cujos estatutos foram

aprovados em Assembleia Geral, em 15 de Abril do mesmo ano. Os objectivos do novo

Centro eram os seguintes:

“Estudar as forças ocultas da Natureza e as suas relações com o progresso da

Humanidade; praticar a solidariedade em todas as suas características e conforme os

recursos que estejam ao seu alcance; intensificar a propaganda em prol das ideias neo-

espiritistas e desenvolver por meio de publicações, de conferências ou de sessões

particulares ou públicas o amor pelo Bem e pelo Belo; realizar «matinées» ou serões

de arte, organizados por forma que elevem e eduquem o espírito, destinados a obter

recursos para auxiliar associações de beneficiência que lutem com dificuldades para

manter-se e levar algum conforto a pobres doentes e desamparados; fundar um jornal

ou revista quando esteja em condições de fazê-lo.” 23

A Direcção desta agremiação ficou a cargo de sete mulheres. Maria Veleda,

presidente; Maria Emília Carvalho Gonçalves e Dinah Santos Lima, secretárias; Emília

Marques e Elisa Santos Lima, tesoureiras; Maria da Madre de Deus Dinis e Maria

Augusta Beliter, vogais. A Mesa da Assembleia Geral era constituída por Viriato Z.

Passaláqua, José Alves Teixeira e Artur António da Silva.

Em 1924, o Centro Espiritualista «Luz e Amor» decidiu criar o seu órgão de

imprensa, uma nova revista com o título A ASA.. Maria Veleda foi convidada a dirigi-la,

sendo o corpo redactorial constituído por mulheres, à excepção do General Passaláqua.

Ao grupo editorial pertenciam catorze homens e oito mulheres. O principal objectivo da

nova publicação era preparar o I Congresso Espírita, para “melhor e mais homogénea

organização das ciências psíquicas, em Portugal”. Neste sentido, consultaram-se todos

os grupos e centros espíritas do país sobre a pertinência da realização do Congresso e da

disponibilidade em apoiarem o esforço do Grupo promotor. Como a maioria se mostrou

interessada na concretização do evento, o Centro Espiritualista «Luz e Amor» tomou a

iniciativa de reunir todos os Grupos, a fim de dar início aos trabalhos de preparação do

dito Congresso.

22 O Centro Espiritualista «Luz e Amor» tinha relações estreitas com a Sociedade Teosófica – Ordem da

Estrela do Oriente em Portugal, cujo órgão oficial era a revista Isis, dirigida pelo coronel Óscar Garção, e

com a Sociedade Portuense de Investigações Psíquicas. Quando, em 1939, o Centro Espiritualista «Luz e

Amor» se reorganiza, o seu primeiro aniversário é comemorado no salão de conferências da Sociedade

Teosófica, embora aquele disponha de uma nova sede na Rua do Salitre, 149-1º.D.

23 O Futuro, nº. 10, Fev.-Maio de 1923, p. 3


O I Congresso Espírita Português e a criação da Federação Espírita Portuguesa

Obedecendo a tais intuitos, o Centro promoveu uma reunião magna com

representantes de diferentes grupos congéneres, que teve lugar no Ateneu Comercial,

em Lisboa, em 11 de Janeiro de 1925, na qual se deliberou que o Congresso teria lugar

no mês de Maio seguinte. O entendimento dos vários grupos sobre o título do

Congresso não foi fácil. Maria Veleda propôs que se denominasse «Congresso

Espiritualista» o que foi aceite pela maioria. No entanto, uma minoria que preferia o

título «Congresso Espirita», ameaçou abandonar a reunião, comprometendo a realização

do mesmo. Maria Veleda, considerando que o adiamento do Congresso punha em causa

o seu objectivo da criação da Federação Espírita Portuguesa, 24 e não querendo a

desunião entre os grupos, retirou a sua proposta, depois de consultar os seus apoiantes.

Todavia, os consensos eram difíceis; a delegação da Sociedade Teosófica, não

concordando com a designação de «Congresso Espírita» abandonou a assembleia.

Ficou então decidido que a organização do evento ficaria a cargo da direcção do

Centro Espiritualista «Luz e Amor», “constituída apenas por senhoras”, o que, para

Maria Veleda, foi motivo de grande “desvanecimento”. Não se poupando a “esforços,

sacrifícios e canseiras” e auxiliadas por alguns “irmãos cheios de boa vontade e

devoção pela causa”, realizou-se o evento, “que excedeu em importância tudo quanto

se tinha previsto, (e que) marcou, indiscutivelmente, o primeiro grande triunfo do

Espiritismo em Portugal”. 25

O Congresso realizou-se em Lisboa, nos dias 14, 15, 16 e 17 de Maio de 1925,

no Ateneu Comercial, com a presença de delegados de todos os Grupos e Centros

Espíritas do país, à excepção do Centro «Luz e Caridade» de Braga. Cada congressista

poderia fazer-se acompanhar de duas senhoras, medida que visaria conseguir uma

maioria de mulheres, já que a escolha dos delegados ao Congresso recairia naturalmente

nos homens. Maria Veleda era vice-presidente da Comissão Organizadora e presidia à

Sub-Comissão de teses.

As teses apresentadas ao Congresso distribuiram-se por três secções: «Moral e

Filosofia», «Ciência», «União e Assistência». Na vertente «Moral e Filosofia»,

24 Há referências à existência da Federação Espírita, desde 14 de Maio de 1918, cujos estatutos teriam sido aprovados

pelo Governo Civil de Lisboa. Havia que aprová-los também em Assembleia Geral e pôr a Federação a funcionar, de

facto. No 1.º Congresso Espírita Português, em Maio de 1925, foi eleita a Comissão Pró-Federação, encarregada de

elaborar os novos Estatutos e cuja presidência e vice-presidência recaíram sobre o médico António Freire e Maria

Veleda, respectivamente. Os novos Estatutos foram aprovados pelo Governo Civil em Maio de 1926.

25 Maria Veleda, Estudos Psíquicos; Novembro-Dezembro, 1940, p. 236


desenvolveram-se os seguintes temas: «O Bem, Religião da Humanidade»; «O

aperfeiçoamento do Espírita»; «Solidariedade e não Caridade»; «A Moral Espírita»;

«Destrinça entre a Ciência Espírita e a Moral Espírita - Valor Moral daquela e

Influência Espiritual desta»; «Reincarnação e em que ela se baseia»; «Espiritualismo e

Espiritismo». Na área da «Ciência» incluiram-se as teses: «Socialismo e Espiritismo»;

«A atitude da Ciência perante o Espiritismo»; «O Espiritismo como Acção Social»;

«Podem ser admitidos dogmas na Ciência Espírita?»; «Loucura Espírita ou seja

Obsessão». Na secção «União e Assistência» debateram-se os assuntos seguintes: «A

união dos Espíritas Portugueses»; «Relatório da Comissão Pró-Federação»; «Porque

não se deve confundir Espiritismo com Espiritualismo no sentido de Teosofia ou seja a

Sabedoria Divina»; «Assistir aos deserdados da fortuna moral e material».

Maria Veleda, desgostosa com algumas experiências e práticas espíritas,

remeteu-se ao silêncio. Seis meses mais tarde, explicará porquê. “Pensei apresentar

uma tese no Congresso sobre o «fanatismo espírita». Desisti em face da oposição que

pessoas amigas fizeram à minha ideia, que poderia, em sua opinião, tornar-se «pedra

de escândalo». Em várias circunstâncias tenho notado que me encontro num plano

diferente daquele em que se encontra a maioria dos espíritas portugueses.” 26

Com a realização do Congresso e o lançamento da Federação, Maria Veleda

considerava a sua missão cumprida. Em Outubro de 1925, na comemoração do 1º.

Aniversário da revista A Asa, faz o balanço da linha orientadora seguida e dos trabalhos

realizados. Referindo-se à divisão do espiritismo em seitas que se digladiavam,

pensando e agindo como se cada uma delas estivesse na posse absoluta da Verdade,

lamenta que a orientação que tem dado à revista, baseada na tolerância e no respeito por

todas as opiniões, nem sempre tenha sido bem entendida. Às censuras e apreciações

irritadas de alguns confrades, sempre que se publicavam artigos com afirmações

discutíveis e ou contrárias às que eles próprios defendiam, contrapõe a firme intenção de

manter a linha de independência moral que sempre seguiu, isenta de facciosismos.

“Quem dirige A ASA, não veio para ela tendo abandonado qualquer religião,

mas sim depois de passar pelas fileiras do Livre-Pensamento. Ingressou no Espiritismo,

depois de ter estudado as religiões comparadas e de compreender que todas elas, a

despeito das suas aparentes divergências, têm a mesma e suprema finalidade: - DEUS.

26 Maria Veleda, A Asa nº. 3; 1925, p. 59


Quem dirige a ASA, conquanto, individualmente, esteja desligada de todo o

espírito de seita e se interesse pelo Espiritismo, considerando-o apenas sob o seu

aspecto filosófico e científico, - o que julgamos não ser um crime, porque a consciência

de cada um é livre e não pode nem deve subordinar-se à opinião alheia, - quem dirige

A ASA tem-se abstido de manifestar nas suas páginas o seu modo de ver e as suas

observações pessoais, muitas das quais iriam ao encontro dos sentimentos da maioria.

Dentro do Espiritismo – assim o dissemos ao jornalista de «O Diário de

Lisboa», que nos entrevistou na véspera da abertura do 1º Congresso Espírita

Português – somos uma revolucionária. Nem «kardecista» nem «Roustanista» - visto

como, à semelhança do que fazem outras religiões, o Espiritismo também já se divide

em seitas.” 27

Estas e outras divergências na forma de encarar a filosofia e a prática espírita

levavam-na a duvidar da sua capacidade para bem servir a causa a que se vinha

dedicando. Cansada das sessões «recreativas» e do exercício da caridade, sob a forma

de «esmola», 28 propôs aos seus confrades mais próximos outras práticas que se lhe

afiguravam como um dever: “ir às cadeias e aos hospitais consolar os aflitos, levar a

esperança ao coração dos que sofrem”, ajudar na regeneração social das mulheres

atoladas na prostituição, ensinar a ler crianças e adultos – “dar, enfim, cada qual uma

parte do seu esforço espiritual em benefício da comunidade”. Esta proposta pareceu-

lhes demasiado arrojada, pois responderam que semelhante tarefa só poderia intentá-la

quem não tivesse que fazer nem família para sustentar e que sendo eles espíritos ainda

muito imperfeitos não podiam ter a pretensão de “tentar imitar Jesus”.

Pouco a pouco, o desencanto vai cedendo terreno ao desânimo e Maria Veleda,

em Dezembro de 1925, escreve uma carta aberta aos leitores da revista A Asa e aos

sócios do Centro Espiritualista «Luz e Amor», onde expõe os motivos que

determinaram a sua intenção de abandonar todos os compromissos dentro do

27 Maria Veleda, A Asa, nº. 1; Outubro de 1925, p. 2

28 Tanto o Grupo Espiritualista «Luz e Amor» como depois o Centro com o mesmo nome levaram a efeito

“sessões recreativas” ou de “confraternização”, geralmente constituídas por palestras, música, recitação

de poesia e teatro. Em 1924, Maria Veleda fundou um grupo de teatro em que figuravam as jovens

Leonor d’Eça, mais tarde actriz profissional, e as irmãs Laura e Cecília de Almeida Nogueira, para

representar as peças de sua autoria: «Soror Angústias», «Saudades», «Na pele do Leão», «Um desafio» e

«Redenção». O Centro também organizava festas infantis para as crianças do Asilo de Santo António e

do Asilo de Cegos «Branco Rodrigues» e fazia donativos a famílias necessitadas. Na quadra do Natal, as

mulheres do Centro encarregavam-se de comprar roupa, calçado e brinquedos para oferecerem às crianças

que se encontravam com as mães na cadeia do Aljube ou internadas no Instituto Bacteriológico Câmara

Pestana. Também se organizavam festas de propaganda, nas quais se faziam peditórios a favor do

«Albergue das Crianças Abandonadas» e do «Albergue dos Inválidos do Trabalho».


«espiritismo militante». Confessa que há muito discordava da forma como se orientava

esta ciência em Portugal mas, na expectativa de correcções futuras, deu a ela própria um

prazo para verificar se os seus pontos-de-vista se mantinham ou alteravam face ao

evoluir da situação. Como estes se mantiveram e ou até se reforçaram, decidiu desviar-

se do meio espírita, onde não se sentia bem, e onde a sua acção se tornou

“absolutamente nula”.

Recorda que em todos os números da revista A Asa se absteve de fazer crítica

espírita, apesar de sempre a ter feito noutros periódicos que dirigiu ou em que

colaborou, dando sempre “largas ao (seu) espírito combativo, verberando certos

excessos, certas crendices, certas inferioridades de que via eivado o Espiritismo, sem

que os interessados em levantá-lo à altura de «uma verdadeira ciência» procurassem

fazer recuar a onda de superstição e de ignorância em que ele ameaçava subverter-se.”

29 Lembrando as denúncias públicas que entretanto fizera em outros periódicos da

especialidade, relatando casos por si presenciados que, em sua opinião, só denegriam a

causa que procurava enaltecer, lamenta que esses gritos de alerta não tenham tido

quaisquer consequências a nível da reflexão e da discussão sobre certas práticas

caricatas, ridículas e até perigosas. Pretendia ela advertir para os perigos da excessiva

credulidade de algumas pessoas, aparentemente “criteriosas e lúcidas” noutras

circunstâncias, mas que fanatizadas pela paixão espírita se deixavam convencer por

mistificadores que se divertiam a dizer e a fazer disparates que não resistiam ao menor

senso comum.

Nestes últimos anos sofrera grandes desgostos por ver que as «sessões

experimentais» “constituíam, frequentemente, menos um motivo de estudo do que um

passatempo barato”, já que ela se dedicava ao Espiritismo, “não sob o domínio de uma

paixão doentia, obsecante, mas procurando integrar-(se) por completo nas suas

doutrinas, sem que, por esse facto, deix(asse) de estudar, observar, medir, comparar,

fazer experiências e pôr em dúvida tudo quanto possa repugnar a inteligências

esclarecidas e cultas.” 30

A mediunidade curadora exercida a “torto e a direito, numa inconsciência de

estarrecer”, também lhe merecia as mais acesas críticas, por pôr em risco a razão e a

vida de pessoas que, fragilizadas pela doença, acreditavam em curas milagrosas e

deixavam de recorrer aos serviços médicos competentes. Embora acreditasse no

29 Maria Veleda, A Asa, nº. 3; Dezembro de 1925, p. 56

30 Maria Veleda, A Asa, nº. 3; Dezembro, 1925, p. 57


excepcional e raro dom de curar, revoltava-a que se abusasse criminosamente de uma

faculdade, na maior parte dos casos imaginária, que prejudicava os padecentes e

acoimava os médicos de ignorantes e exploradores sem qualquer crédito.

“Condeno as sessões, não em absoluto, mas da maneira como elas são

orientadas e servidas por vulgaríssimos médiuns de incorporação, que ainda não vi que

produzissem senão... vulgaridades. Condeno os tratamentos espíritas, não em absoluto

também, mas da forma insciente como eles se administram. Condeno o orgulho de

certos meios espíritas que se julgam na posse da verdade. Condeno a cegueira dos que

acreditam em tudo que vem do Astral ou do subconsciente dos médiuns. Condeno tudo

que seja fanatismo, subserviência, anulação do raciocínio. E porque assim é, e

terminou o prazo que a mim própria estabeleci – período de expectativa em que as

minhas ideias se radicaram – entendo que o único caminho a seguir é o do

afastamento. Afasto-me, pois; e com a distribuição do presente número de «A Asa»

coincidirá a minha renúncia ao cargo de sua directora e ao de Presidente do C. E.

«Luz e Amor». 31

Maria Veleda afasta-se destes dois cargos mas garante a sua substituição na

direcção da revista pelo Dr. António Freire, médico, escritor e espírita dedicado.

Entretanto, ele desobriga-se do compromisso tomado, alegando que A Asa deveria

desaparecer para dar lugar ao Portugal Espírita, órgão da Federação Espírita

Portuguesa. No entanto, esta proposta parece não ter sido bem acolhida pela restante

direcção do Centro Espiritualista «Luz e Amor», pois foi nomeado um corpo de

redacção alargado, constituído por Maria da Madre de Deus Dinis, Maria O’Neil, Maria

Emília C. Gonçalves, Dinah Santos Lima, Capitão Augusto Flores, J.B.S., Júlio Costa e

José de Almeida Abrantes. Este grupo manteve-se inactivo durante os três primeiros

meses de 1926, publicando apenas dois números, em Abril e Maio do mesmo ano. Sem

a direcção de Maria Veleda, a revista entrou em decadência e morreu.

Também o Centro Espiritualista «Luz e Amor» se extinguiu nesse período. Após

a realização do Congresso, em Maio de 1925, o Dr António Freire, nomeado presidente

da Comissão Pró-Federação, propôs a Maria Veleda, vice-presidente, a dissolução do

Centro «Luz e Amor» e a sua fusão na Federação Espírita Portuguesa, porque esta não

poderia constituir-se, única e exclusivamente, com os Centros e Grupos federados,

oficialmente legalizados, visto que o seu número não ultrapassava as três dezenas. Para

31 Maria Veleda, A Asa, nº. 3; Dezembro, 1925, pp. 59-60


que a Federação fosse uma realidade e pudesse sobreviver financeiramente havia que ter

sócios contribuintes. O Centro Espiritualista «Luz e Amor» contava com cerca de

quinhentos associados, distinguindo-se muitos deles pela inteligência, cultura, trabalho

e dedicação à causa, e foi o iniciador e promotor da Federação. Para ele fazia todo o

sentido a extinção do Centro, passando os seus constituintes a sócios fundadores da

Federação, de modo a não esbanjar recursos em duas frentes de trabalho com os

mesmos objectivos. Este médico preconizava que em Lisboa existissem apenas

«pequenos grupos espíritas familiares», embora condescendesse com a união de vários

grupos na província. Esta posição favorável à concentração de grupos, apenas fora da

capital, dever-se-á ao facto de não querer hostilizar a União Espírita do Algarve,

bastante numerosa e dinâmica.

De uma longa exposição do médico António Freire, publicada nas revistas O

Espírita e Ecos do Além, em Agosto de 1926, deduz-se que esta proposta foi feita a

Maria Veleda depois de esta se opor a que a Federação aceitasse Grupos ou Centros não

legalizados oficialmente, medida que garantiria a sua fidelidade aos sagrados princípios

da crença espirita e a honestidade das suas práticas. Alargar o crivo da selecção

permitiria a entrada de qualquer Grupo, o que se lhe afigurava inaceitável, visto que a

sua maior preocupação era combater tudo o que contribuísse para denegrir,

comprometer e amesquinhar o verdadeiro espiritismo. Transigir com grupos de

filosofia e práticas duvidosas, seria legitimar o que se pretendia e devia combater.

Naquela época, a onda espírita que parece ter varrido o país traduziu-se no

aparecimento de grupos e grupinhos, uns de méritos duvidosos e outros ostensivamente

charlatanistas, de tal modo que o governo moveu perseguições policiais aos

cartomantes, magnetizadores e médiuns-curadores que enxameavam a capital. Por isso,

Maria Veleda era cautelosa, atitude nem sempre bem entendida. Nestas circunstâncias, a

dissolução do Centro «Luz e Amor», a que presidia desde a sua fundação, era a moeda

de troca pela sua intransigência. Dever-se-á a estas divergências a sua renitência em

aceitar fazer parte do Conselho Superior Deliberativo da Federação, eleito em 27 de

Agosto de 1925, do qual faziam parte os médicos Dr. António Freire e Dr. Adolfo Sena

e o Dr. Martins Velho.

Maria Veleda, embora não concordando com a dissolução do Centro, deixou que

esta proposta fosse apresentada aos Corpos Gerentes, na reunião de 29 de Novembro de

1925, sendo aprovada a sua dissolução por oito votos a favor e um contra. Seguiram-se

tempos conturbados, porque muitos dos sócios não concordando com a decisão da


maioria dos membros da direcção, acusaram o Dr. António Freire da morte do Centro e

tornaram-se dissidentes do mesmo. Maria Veleda, ao renunciar à direcção da revista A

Asa e à presidência do Centro, não fez qualquer referência a estes factos, mas reside

neles o principal motivo do seu afastamento. Sentindo-se derrotada, preferiu o silêncio

a entrar em polémica com as antigas companheiras de direcção e, principalmente, com o

General Passaláqua, presidente da Assembleia Geral, pessoa que muito estimava. Por

outro lado, a recusa em aceitar a dissolução do Centro que fundara, estava em

contradição com a defesa dos interesses da Federação, cuja criação ela implementou e à

qual devia fidelidade, como vice-presidente eleita da Comissão Pró-Federação e como

membro do Conselho Superior Deliberativo.

Em Março de 1926, com a morte do General Passaláqua, Maria Veleda e alguns

companheiros do Centro Espiritualista «Luz e Amor», ainda não dissolvido, fundam o

Grupo Espirita «General Passaláqua» e a revista Vanguarda Espírita, em homenagem

ao mentor e amigo falecido. Maria Veleda, tendo-se afastado do espiritismo militante,

achou por bem não figurar na redacção da nova revista com o nome por que era

conhecida e optou por usar o pseudónimo José Veríssimo, assinando ainda alguns textos

como Fred, à semelhança do que já tinha feito na revista A Asa. Entretanto, também

escrevia alguns artigos de crítica espírita nas revistas Luz e Caridade, de Braga, e Ecos

do Além, de Lagoa, com os pseudónimos Fred e Myriam. Este último foi substituído por

Maria Carolina logo que se apercebeu que o mesmo circulava também na imprensa

católica, usado por outra senhora.

Apesar das pessoas mais próximas, inclusivé o Dr. António Freire, estarem ao

corrente deste regresso “encapotado” às lides da escrita, paixão a que dificilmente

resistia, a sua demissão oficial dos cargos para que tinha sido eleita no âmbito da

Federação, originaram mal-entendidos e polémica nos meios espíritas. O médico,

irritado perante as acusações de querer erguer a Federação à custa da dissolução do

Centro Espiritualista «Luz e Amor» e as recriminações por ter transformado Maria

Veleda em “vitima inocente” de todo o processo, passa ao ataque e responsabiliza

aquela pelas dissidências entretanto verificadas, acusa-a de desinteresse pela Federação

e insinua que ela recusa cargos honrosos e de prestígio nesta por considerá-los inferiores

aos que ocupava no Centro, fazendo alusão à célebre frase atribuída a Luísa de Gusmão:

«antes rainha por um dia que duquesa toda a vida». 32

32 António Freire; O Espírita, nº. 7-8, Julho-Agosto de 1926, pp. 199-244; Ecos do Além, nº. 173, 174, 175; Agosto,

1926, pp. 97-121


Maria Veleda usa o direito de resposta neste último periódico e explica que,

tendo abandonado a militância no espiritismo oficial, por uma questão de coerência,

renunciou também a todos os cargos para que foi eleita na Federação. Apesar de

desiludida com certas práticas dentro do espiritismo, não deixou de ser espírita e que, ao

contribuir com a sua quota parte para a fundação do Grupo Esp. «General Passaláqua»,

não teve qualquer propósito hostil a pessoas ou colectividades e que este não se formou

à custa de deserções do Centro «Luz e Amor», pois a maioria dos seus membros

continua a pertencer-lhe. Se houve dissidências, elas ocorreram muito antes da

formação do novo Grupo, não podendo ser responsabilizada pelas mesmas. Tendo dado

todos estes passos com o conhecimento prévio do Dr. António Freire, sem que ele

discordasse, Maria Veleda mostra-se perplexa com as acusações que lhe são dirigidas,

atribuindo-as a “intrigas de soalheiro”, a que é completamente alheia. 33

A argumentação apresentada para contestar afirmações e factos obrigou o Dr.

Freire a vir novamente a público para pedir desculpa pela interpretação abusiva que fez

dos actos e intenções da Srª. D. Maria Veleda, por quem manifesta o máximo respeito e

consideração, e conceder-lhe a “palma da vitória” na polémica travada. 34

O Dr. António Freire reconheceu o erro em que incorreu, pois sabia que, apesar

de Maria Veleda não concordar com a dissolução do Centro Espiritualista «Luz e

Amor» para erguer a Federação Espírita Portuguesa, foi ela que, como vice-presidente,

ao ver o atraso em que se encontrava a redacção dos respectivos Estatutos, tomou a

inciativa de convocar uma reunião para se discutirem as suas linhas orientadoras. Ele,

como presidente, sentiu-se desautorizado, invocou a complexidade e a dificuldade de tal

tarefa, mas acabou por ceder às razões apresentadas sobre a necessidade e a urgência de

dar cumprimento ao estabelecido no Congresso sobre essa questão. Quando Maria

Veleda, apesar da sua insistência, renunciou a todos os cargos para que foi eleita, ele

teve dificuldade em aceitar tal decisão, porque se encontrava quase sozinho na dura

tarefa de erguer a Federação e envolvido nas querelas e intrigas que dividiam os vários

grupos espíritas. Esta polémica e os pressupostos que lhe estão subjacentes revelam

quão difíceis eram as relações entre homens e mulheres, quando estavam em causa os

papéis e os poderes de uns e de outros.

O desenrolar e o desfecho deste episódio obrigaram Maria Veleda a vir a público

para esclarecer mais uma vez as razões que a levaram a abandonar a militância activa no

33 Maria Veleda; Ecos do Além, nº. 17, 30 de Setembro, 1926, pp. 176-178

34 António Freire; Ecos do Além, nº. 18; 15 de Outubro, 1926, pp. 164-166


espiritismo oficial e defender-se das insinuações e ataques pessoais que lhe foram

dirigidos. Aproveitou para “depôr a lupa” dos pseudónimos entretanto usados, outra

das críticas do Dr. Freire, e assumiu novamente o nome de sempre. Continuou a fazer

parte da redacção da revista A Vanguarda Espírita, ocupando agora as funções de

secretária, onde não perdia nenhuma oportunidade de denunciar e condenar práticas

fraudulentas e indignas de uma ciência que, em sua opinião, pretendia conhecer e

explicar o mundo visível e invisível e o poder do consciente e do inconsciente na

procura do melhor caminho para a perfectibilidade humana e a felicidade colectiva.

A escrita reflexiva na imprensa espírita e espiritualista

A partir dos anos vinte, Maria Veleda inicia uma viagem de análise

introspectiva, visando um maior conhecimento de si e um constante aperfeiçoamento

espiritual. Na escrita publicada na imprensa espírita e espiritualista, é visível o desejo

de escapar às limitações do conhecimento comum sobre os mistérios da vida e da morte

e de indagar sobre a finalidade da existência humana.

Por vezes, é notório o conflito interior travado entre o racionalismo crítico do

livre-pensamento e a fé religiosa. Se na década de vinte privilegiava as dimensões

filosófica, científica e experimental do espiritismo, agora interroga-se, põe em dúvida,

hesita, porque “a filosofia também impõe dogmas, a despeito da sua falibilidade; e

aquilo que a ciência descobriu e afirmou ontem, converte-se em dúvida hoje e em

negativismo amanhã” e, muitas vezes, até os elementos de prova são interpretados de

maneira diversa, consoante a perspectiva do observador. 35 Maria Veleda reconhece a

dificuldade em conciliar a ciência oficialmente aceite com as doutrinas espiritualistas,

visto que são muitas e intransponíveis as barreiras que a primeira levanta quando se

pretende combinar as demonstrações científicas com a existência e a imortalidade da

alma. Assim sendo, questiona se a “vontade, a inteligência, a memória, os sentimentos,

as emoções, serão do domínio da matéria”. Ela acredita na coexistência da matéria e do

espírito no ser humano, o que explica, desde sempre, que ele aspire ao conhecimento e à

perfeição e procure “elevar-se para a Fonte da Beleza e da Luz Suprema”. 36

Apesar de se afirmar como uma pessoa fervorosamente religiosa que põe toda a

confiança nos ensinamento do Divino Mestre, oscila entre o sentimento de felicidade

35 Maria Veleda, Revista de Metapsicologia; Junho de 1949, p. 126

36 Maria Veleda, O Mensageiro Espírita; Set.-Out. 1946, p. 2


pelo dom da fé, que a guia na busca incessante do sentido da vida, e um certo desalento

pela complexidade do conhecimento que visa alcançar. Nestas deambulações do

espírito, é assaltada pela dúvida e questiona a possibilidade de encontrar respostas para

todas as perguntas que vai formulando. Receando perder-se em especulações que podem

gerar a descrença, conforma-se, embora temporariamente, com as limitações impostas à

condição humana.

“Os diferentes sistemas, as desencontradas filosofias, as contraditórias

afirmações religiosas são tantas que mal vai a quem pretende solucionar-lhes os

intrincados e alucinantes problemas. Perde-se a imaginação no formidável labirinto e,

por vezes, a fé sossobra no naufrágio das comparações. (...) Não pretendo significar

que se mantenha a imutabilidade de uma determinada opinião, desde que ela possa

influenciar-nos em detrimento do que se nos afigura justo e verdadeiro. E digo

«afigurar».porque a Verdade de face múltipla”, oferecendo-se sob “tão variados

aspectos”, envolvendo-se “em tão impenetráveis véus”, por mais que tentemos

comprendê-la, acabamos por questionar a sua própria essência ou por considerar-nos

vencidos, concluindo que “quanto mais sabemos mais ignoramos”. 37

Mas se os sistemas filosóficos, científicos e religiosos se contradizem e se

mostram incapazes de conciliação, Maria Veleda tenta um equilíbrio entre os princípios

de uns e de outros que melhor se ajustam e coadunam com a sua razão e não desiste de

procurar respostas e aprofundar conhecimentos sobre os mistérios da vida e da fé que

professa, as aspirações superiores do pensamento, as inquietações do espírito, a ânsia de

perfeição e o sentido último da existência.

Como ser pensante, Maria Veleda não consegue desligar a fé da razão, duas

coisas que, na época, se afiguravam contraditórias e inconciliáveis para o senso comum,

e que hoje são encaradas de forma diferente, pois como escreveu D. José Policarpo,

Cardeal Patriarca de Lisboa, “a racionalidade é o fruto de um dos dinamismos

fundadores da dignidade humana, a capacidade de pensar o próprio ser e a própria

existência e de nunca desistir nessa busca interminável do «sentido».(...) Esse labirinto

imenso de dois milénios de busca da intelegibilidade da fé tem duas portas, que tanto

são entradas como saídas. Uma para os crentes, continuamente convidados a não fugir

à exigência da racionalidade que a sua fé comporta, não caindo em fundamentalismos

místicos ou pietistas; outra para os descrentes que, através dessa racionalidade

37 Maria Veleda, Estudos Psíquicos; Nov. 1943, p. 372


assumida, poderão chegar às portas da fé, na aceitação realista do sentido do

fenómeno religioso.(...) Deus, na nossa vida, não é uma conclusão, é um acontecimento

que adquire, frequentemente, a radicalidade do inesperado.” 38

Maria Veleda também não desiste de procurar «a intelegibilidade da fé», o

«sentido último da existência» e o caminho para o aperfeiçoamento constante e a

felicidade individual e colectiva. Após a incessante procura conclui que, só os

princípios da Bondade, da Tolerância, do Perdão e do Amor, pregados por Jesus Cristo,

poderão conduzir a Humanidade à Paz e à Harmonia necessárias ao progresso e à ascese

espiritual. Considerando cada ser humano uma “centelha” desprendida do “Grande

Foco gerador da suprema Beleza e da Perfeição suprema”, pensava ser possível

alcançar a compreensão de Deus e da Sabedoria Divina e o gozo pleno da felicidade

eterna.

As últimas três décadas de vida são dedicadas quase exclusivamente à

concretização destes objectivos. Sem deixar de se assumir livre-pensadora, na acepção

de tudo submeter à análise crítica da razão, dedicou-se ao estudo do espiritismo e dos

Evangelhos, procurando encontrar a «Verdade» por si própria, visto não se conformar

com a sugestão alheia ou a imposição e a autoridade de outrem. A escrita publicada

nesta época revela muita e aturada leitura e profunda reflexão. Com intuitos

pedagógicos, ora dissertava sobre temas como o «Amor», a «Familia», a «Tolerância»,

o «Perdão», o «Arrependimento», a «Fé», a «Esperança», a «Caridade, a «Ascese» e a

«Vaidade», entre outros, ora comentava passagens biblicas ou expunha meditações que

constituíam «preceitos morais», a seguir pelo verdadeiro espírita ou pelo crente de

qualquer outra religião, pois baseavam-se em princípios éticos e religiosos

universalmente aceites.

No desejo de conhecer os mistérios das manifestações do inconsciente, dedicou-

se também ao estudo dos fenómenos oníricos, iniciando-se nas teorias psicanalíticas de

Freud e lendo alguns dos seus seguidores e comentadores. A complexidade desta área

de estudo parece não a ter intimidado, antes constituindo um desafio para a sua mente

sempre desejosa de aprender. Embora convencida dos seus fracos conhecimentos acerca

do assunto, não resiste a especular sobre os próprios sonhos, sobretudo os mais

recorrentes e os ditos «premonitórios», cuja explicação se lhe afigurava mais

problemática e controversa, à luz dos conhecimentos recolhidos no estudo dos mestres.

38 D. José Policarpo; «Diálogos sobre a fé»; Diário de Notícias, 9.11.2003, p. 6


A interpretação que procurou fazer ao longo da vida sobre a origem e a relação de certos

fenómenos ocorridos na infância, juventude e idade adulta, afigura-se-lhe agora

demasiado simplista e cientificamente pouco fundamentada. Deste modo, assume uma

certa contradição entre as visões defendidas no passado e no presente acerca de

vivências e experiências pessoais, porque “...as nossas maneiras de encarar os factos

mudam com a idade.”

Efectivamente, da observação dos acontecimentos, como eles vão ocorrendo,

relacionados com as diferentes modalidades por que vai passando a nossa vida, é que

pode derivar um critério modificável e sujeito à acção do tempo. Caminhar, caminhar

sempre, descobrir novos horizontes, deve ser o lema de quem deseja evoluir. Pretendo

assim significar que nem sempre estarei de acordo comigo mesma, escrevendo sobre

assuntos que se me oferecem hoje subordinados a um convencimento diverso daquele

em que me firmara anteriormente.” 39

Esta escrita reflexiva e a poesia de pendor religioso foram publicadas na

imprensa espírita e espiritualista, destacando-se a revista Luz e Caridade, do Centro

Espírita de Braga, O Mensageiro Espírita e a Revista de Espiritismo, boletim e órgão

oficial da Federação Espírita Portuguesa, Ecos do Além, da União Espírita do Algarve,

Estudos Psíquicos, órgão do Centro Espiritualista «Luz e Amor», reorganizado em

finais de 1938, e a Revista de Metapsicologia. Nesta época escreveu também uma

História do Espiritismo em Portugal, da qual só se conhecem alguns excertos,

reproduzidos na revista Fraternidade, em Maio de 1978. Em 1923, já tinha publicado a

novela «Casa Assombrada», de feição espírita e reencarnacionista.

Mas nem só as questões espirituais e religiosas a preocupavam. Na Revista de

Espiritismo e no Mensageiro Espírita publicou também conferências, proferidas na

Federação Espírita Portuguesa, na década de trinta, subordinadas a temas feministas e

educativos.

Na década de quarenta, Maria Veleda escreveu muito. Em Junho de 1943,

começou a escrever as «Memórias», como forma de “entreter os longos e forçados

ócios”, alimentar a paixão da escrita e legar aos filhos e aos netos algo de muito

pessoal; um património afectivo e intimista, destinado a perpetuar no tempo a

lembrança de uma vida «vivida com sentido», porque orientada por ideais. Entre 26 de

Fevereiro e 11 de Abril de 1950, as «Memórias de Maria Veleda» são publicadas no

39 Maria Veleda, Revista de Metapsicologia; Agosto de 1949, p. 175


jornal República, o que constitui uma vitória para este periódico de tradição republicana

e democrática, porque apesar de alguns cortes efectuados pela Comissão de Censura, o

conteúdo não foi alterado nem a sequência da publicação interrompida. No decurso da

publicação das «Memórias de Maria Veleda», o seu confrade A. M. da Silva convida-a

a escrever também as «Memórias Espíritas», a fim de serem divulgadas na Revista de

Metapsicologia, visto que, em seu entender, «Democracia e Espiritismo» «é uma e a

mesma coisa». Também o amigo Coronel Faure da Rosa lhe escreve para que redija e

publique as suas «Memórias Espíritas» na revista Estudos Psíquicos, “pondo a nu as

misérias de que tem conhecimento. (...) Não hesite! (...) Escreva, escreva e mande-me

as suas «Memórias Espíritas» que constituirão uma secção a abrir na nossa «Revista».

Basta apenas não pôr os nomes verdadeiros dos alvejados; de resto, diga-se a verdade

nua e crua para escarmento dos culpados e exemplo dos possíveis «aspirantes» a

tartufices, que infelizmente abundam agora.” 40

Maria Veleda responde a A. M. da Silva em «Carta Aberta» e, explanando, mais

uma vez, as linhas orientadoras da crença e da prática espírita, salienta a sua vertente

humanista. “Para mim, «Espiritismo» é sinónimo de «Fraternidade Universal», nem de

outro modo compreendo que se possa segui-lo.” 41 Reconhece que as suas experiências,

principalmente as que se relacionam com a iniciação e a militância dos primeiros

tempos, tiveram tanto de rico e notável como de decepcionante e desagradável. “Nas

minhas «memórias espíritas», eu seria compelida a descrever várias sessões de

natureza contraditória a que assisti; referir-me ao procedimento de alguns falsos

médiuns sem escrúpulos; apontar a miopia de dirigentes sem perfeita consciência da

sua missão, e o fanatismo de grande parte dos assistentes que se deleitam com os

disparates atribuídos a «espíritos», preferindo-os a uma boa dissertação feita por um

director consciente. (...) Seria forçada a referir factos de que tive conhecimento,

estigmatizar erros, apontar ridículos, desmascarar tartufices que só prejudicam a Ideia.

(...) Eu entendo que para realizar o «verdadeiro espiritismo», se torna absolutamente

necessário evitar fraudes e insistir na defesa da acção social que cabe à nossa

redentora doutrina.” 42 Como durante muitos anos se esforçou por denunciar estes e

outros desvios sem lograr resultados palpáveis, agradece mas recusa o convite. Ao

40 Carta de Faure da Rosa a Maria Veleda, Espólio particular

41 Maria Veleda, Revista de Metapsicologia; Maio de 1950, p. 107

42 Maria Veleda, Revista de Metapsicologia; Maio de 1950, p. 108


amigo Faure da Rosa terá respondido em carta fechada e recusado também a proposta,

pois nada indica que tivesse mudado de ideias.

Maria Veleda acreditava na possibilidade de as almas, em perfeita sintonia do

amor, comunicarem entre si. Por vezes, confessava às pessoas mais íntimas haver entre

ela e o filho ausente uma tal comunhão de pensamentos que muitas das preocupações,

dúvidas e ansiedades comuns eram assim dissipadas e muitos problemas resolvidos. As

cartas semanais trocadas desde a partida do filho para África, em Janeiro de 1923,

confirmavam muitos dos pensamentos antes partilhados. As netas Maria Ester e Maria

Leonor contam um episódio revelador deste fenómeno que muito as impressionou.

Decorria o ano de 1953 e contavam elas dezoito e vinte anos, respectivamente.

Encontravam-se de férias com os pais em casa da avó Veleda. O avô Cândido Guerreiro

tinha vindo de Faro para casa da filha Agar, em Lisboa, a fim de rever o filho Cândido e

as netas, após vinte anos de ausência. Não estava muito bem de saúde, mas era notória a

sua alegria de viver quando conversava com as jovens e lhes revelava os projectos que

tinha arquitectado para os seus futuros. No dia 11 de Abril, visitaram-no como

habitualmente e foram confrontadas com a sua morte. Quando regressaram a casa viram

a avó Veleda vestida de luto que se adiantou dizendo: “- Não digam nada! Eu sei que o

vosso avô morreu! - Como? – perguntaram espantadas. – Senti no meu coração...!”

Pressentindo o seu tempo de vida a esgotar-se, um ano depois, redigiu e assinou

um documento em que declarava a “sua vontade em ser sepultada civilmente, sem

qualquer interferência (antes ou depois da sua morte) de elementos católicos ou de

qualquer outra religião dogmática”, e entregou-o a Dulce Sara de Sottomayor Pizarro,

esposa do filho adoptivo, Luís Frederico Viegas. Embora os netos Cândido e Pedro e

respectivas esposas não professassem qualquer religião, a nora Dulce, como comunista

e assumidamente ateia, era a pessoa ideal para dar cumprimento ao seu desejo.

Os últimos anos da vida de Maria Veleda foram difíceis de suportar pelo seu

espírito irrequieto e empreendedor. Como os achaques da velhice a impediam de andar,

passava os dias num cadeirão, junto à janela, lendo, escrevendo, meditando e ouvindo a

TSF. Lúcida, firme e coerente até ao fim, partiu em 8 de Abril de 1955, sem poder

regressar ao seu Algarve, “província azul, embebida de sol”, para sentar-se “à sombra

das amendoeiras que se toucam de neve, quando as andorinhas chegam e sacodem,


docemente, ao perpassar da aragem, as suas olorantes capelas virginais. 43 Repousa no

Cemitério do Alto de São João, em Lisboa.

43 Maria Veleda, A Vanguarda,13.2.1909, p.1


* Natividade Monteiro é licenciada em História pela Faculdade de Letras de

Lisboa, Mestra em Estudos sobre as Mulheres pela Universidade Aberta. Professora de

História e investigadora dos Projectos «Biografias de Mulheres – Século XX» do

CEMRI-Centro de Estudos das Migrações e Relações Interculturais da Universidade

Aberta e «Dicionário no Feminino» de Faces de Eva - Centro de Estudos sobre a

Mulher, da FCSH da Universidade Nova de Lisboa.

Aditamento à Nota nº.12 para colocar online no sítio de “Faces de Eva” no endereço

www.facesdeeva.fcsh-un.pt

Camille Flamarion (França,1842-1925) foi astrónomo no Observatório de Paris, espírita convicto e

amigo de Allan Kardec, o codificador do espiritismo. Escreveu obras que defendiam o postulado espírita

da pluralidade dos mundos: «Os mundos imaginários e os mundos reais», «As maravilhas celestes»,

«Deus na natureza», «Pluralidade dos mundos habitados», «As casas mal assombradas», «Narrações do

Infinito», «Sonhos estelares», «Urânia», «Estela», «O desconhecido», «A morte e os seus mistérios»,

«Problemas psíquicos», «O fim do mundo», entre outras.

Alexandre N. Aksakof (Rússia,1832-1903), doutor em filosofia, conselheiro do czar Alexandre III e

professor da Academia de Leipzig. Dirigiu o jornal alemão Psychische Studiem e fundou em Moscovo a

revista de estudos psíquicos Rebus . Notabilizou-se na investigação e análise dos fenómenos espíritas e

escreveu a obra «Animismo e Espiritismo». As observações no campo do espiritismo experimental

tiveram a colaboração da célebre médium Eusápia Paladino.

William Crookes (Inglaterra,1832-1919), químico e físico inglês. Descobriu o tálio, escreveu trabalhos

sobre a luz polarizada, descreveu o espectroscópio e deu a conhecer o microscópio espectral. Inventou

um fotómetro de polarização, os tubos electrónicos de cátodo frio para a produção de raios X e o

radiómetro.

Gabriel Dellannne (França, 1857-1926), engenheiro francês. Fundou a União Espírita Francesa em

1883, colaborou na Revista Le Spiritism, e na fundação da Federação Francesa-Belga-Latina. Escreveu

«O Espiritismo perante a Ciência», «O fenómeno espírita», «Pesquisa sobre a mediunidade”, «A alma é

imortal» e «As aparições materializadas dos vivos e dos mortos».

Cesare Lombroso (Itália,1835-1909), professor de psiquiatria, medicina forense, higiene e antropologia

criminal nas Universidades de Pavia e de Turim, tornou-se famoso pelos estudos no campo das relações

físicas e mentais. Escreveu «O homem criminoso», «O crime, suas causas e soluções».

Albert de Rochas (França,1837-?), militar, estudou a polaridade, contribuiu para a classificação das fases

do estado sonambúlico e observou com critério científico os fenómenos espíritas. Descobriu a

exteriorização da sensibilidade e revelou o mecanismo do desdobramento astral. Escreveu sobre «Forças

não definidas», «A levitação», «O fluido dos magnetizadores», «Os estados superficiais da hipnose», «A

exteriorização da motricidade», «As fronteiras da física» e «Os eflúvios Ódicos», entre outros.

Léon Denis (França, 1846-1927). Discípulo ideológico de Allan Kardec. Conferencista a favor da Liga

do Ensino, fundada por Jean Macé e fundador de bibliotecas populares. Escreveu «Cristianismo e

Espiritismo», «Depois da morte», «Espíritos e Médiuns», «O porquê da vida», «O problema do ser, do

destino e da dor» e «Socialismo e Espiritismo».

Jean Baptiste Roustaing, advogado francês. Escreveu «Os quatro Evangelhos» e «Revelação das

Revelações». Os seus escritos deram origem a uma corrente espírita dissidente da de Allan Kardec.

Fredrich William Henry Myers (Inglaterra), professor em Cambridge, foi co-fundador da «Sociedade

de Investigações Psíquicas de Londres», fez a revisão e escreveu a introdução da obra «Fantasma dos

vivos». É autor das obras «A ciência e a vida futura» e «Human Personality and its Survival of Bodily

Death».

Richet (1850-1935) sábio fisiologista, pacifista e escritor francês. Prémio Nobel de Fisiologia em 1913.

Escreveu sobre as suas descobertas científicas na área da medicina (fisiologia e anatomia) e pacifismo.

Também se dedicou à escrita de romances e peças teatrais. De todas as obras produzidas, destacam-se as

que terão contribuído para o estudo das ciências psíquicas: “Les poisons d’intelligence et recherches

expérimentales et cliniques sur la sensibilité”, “L’homme et l’intéligence”, “Essai de psychologie

génerale” e “Traté de psychologie génerale”.

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