m "CONSTRUIR A FRAZ *E NO - cpvsp.org.br

cpvsp.org.br

m "CONSTRUIR A FRAZ *E NO - cpvsp.org.br

xs<br />

ESPECIAL<br />

ÒK<br />

im<br />

BOLETIM OFICIAL DO SERVIÇO DE ASSISTÊNCIA RURAL<br />

-VM<br />

m<br />

SAR ANO 12 MARÇO/1991<br />

"CONSTRUIR A FRAZ *E NO<br />

SITUAÇÃO DO TRABALHO NO CAMPO NO RIO GRANDE DO NORTE<br />

A Campanha da Fraternidade 1991 tem como tema: "FRATERNIDADE E TRABALHO". Um<br />

dos objetivos dessa campanha é contribuir para a construção da fraternidade, fundamentada na justiça e<br />

na dignidade no mundo do trabalho.<br />

O TRABALHO está presente em todos os momentos da nossa vida. É através dele que adqui-<br />

rimos o sustento da família. Através do trabalho realizamos sonhos, construimos a história e transfor-<br />

mamos a natureza. Estando presente em todos os momentos da vida, o trabalho é assim uma fonte de<br />

vida e uma necessidade de todo ser humano. Por isso é também um direito. Mas, será que todas as pes-<br />

soas estão conseguindo ter esse direito respeitado? Vejamos o que a vida nos responde:<br />

Dando uma olhada na situação do trabalho no campo, o que aparece imediatamente, é um<br />

"mundo de injustiças" no qual está o trabalho e o trabalhador rural. Aqui no Rio Grande do Norte, como<br />

no Brasil, o trabalho, que deveria ser uma experiência gratificante de realização da pessoa, é uma forma<br />

extravagante de escravidão! Submetidos a essa escravidão estão tanto o trabalhador rural, como o seu<br />

principal meio de sustento: a terra.


Página 2<br />

SE TRABALHA DEMAIS; SE GANHA POUCO DE-<br />

MAIS!<br />

No RN, atualmente existem mais de 120 mil<br />

trabalhadores rurais assalariados, que correspondem<br />

a cerca da metade da população economicamente<br />

ativa na área rural (Fonte: PNAD 1989 - Pesquisa<br />

Nacional por Amostra de Domicílio). Esses traba-<br />

lhadores são obrigados a trabalhar para as grandes<br />

empresas rurais (agro-industriais, grandes fazen-<br />

das...) a troco de um salário cada vez mais mise-<br />

rável. Os assalariados da cana - canavieiros -, por<br />

exemplo, trabalham, muitas vezes, mais de 12<br />

horas por dia para receber um salário de apenas<br />

Cr$ 15.000,00 por mês. Além disso, os canavieiros<br />

são transportados como animais, em caminhões<br />

"gaiolas" para os locais de trabalho; a maioria dos<br />

assalariados não têm carteira assinada e nem as-<br />

sistência médica.<br />

É assim que, do suor e da miséria dos assala-<br />

riados, ficam cada vez mais ricos os capitalistas no<br />

campo!<br />

A ESCRAVIDÃO DO HOMEM E DA TERRA:<br />

Atualmente existem no RN cerca de 240 mil<br />

trabalhadores rurais Sem Terra - meeiros, parcei-<br />

ros, arrendatários, assalariados rurais - (Fonte:<br />

IBGE, Censo Agropecuário de 1985). A maior parte<br />

desses trabalhadores cederam suas terras ou fo-<br />

ram expulsos pelos grandes latifundiários, grileiros<br />

de terras, empresas rurais e até mesmo pelas<br />

obras do governo, como barragens e grandes açu-<br />

des. As conseqüências da seca e o fantasma da<br />

fome também obrigam a muitos a abandonarem e<br />

venderem suas terras.<br />

Somente no ano de 1990, foram registrados<br />

no RN, 23 conflitos de terra existentes envolvendo<br />

cerca de 1.428 famílias de trabalhadores rurais<br />

(Fonte: SAR, CPT, oestana). Os conflitos no campo<br />

permanecem sobretudo diante do descaso do Go-<br />

verno para com a Reforma Agrária. Até hoje, o<br />

atual governo, não desapropriou nem um só hec-<br />

tare de terra com fins de Reforma Agrária. A pro-<br />

messa desse governo é de assentar apenas 500<br />

mil famílias durante os cinco anos de governo.<br />

Mesmo que isso seja cumprido (o que é muito difí-<br />

cil), não significará quase nada diante dos mais de<br />

10 milhões de trabalhadores rurais sem terra<br />

existentes no Brasil. Na verdade, a Reforma Agrá-<br />

ria foi sepultada pelo Governo Collor e só os tra-<br />

balhadores podem ressuscitá-la!<br />

A concentração da terra nas mãos dos gran-<br />

des proprietários é uma constante ameaça aos que<br />

querem sobreviver da produção agrícola. No RN,<br />

constata-se que 0,5% dos proprietários (que têm<br />

mais de 1000 ha) possuem 30% das terras. En-<br />

quanto isso, 93,5% dos proprietários (que têm até<br />

100 ha) possuem apenas 29% das terras. A medida<br />

que o tempo passa, os pequenos proprietários vão<br />

perdendo suas terras para as grandes empresas<br />

agrícolas que têm todas as vantagens e recursos<br />

dos programas governamentais.<br />

DO CAMPO PARA A CIDADE: DA ESCRAVIDÃO<br />

RURAL À ESCRAVIDÃO URBANA!<br />

O amontoado de pessoas nas favelas e a si-<br />

tuação de moradia embaixo de pontes e viadutos<br />

aponta para a seguinte realidade: a concentração<br />

das terras e das melhores terras, tem causado o<br />

gradativo aumento das migrações do campo para a<br />

cidade. No RN, de 1980 a 1989, cerca de 118 mil<br />

pessoas migraram do campo para a cidade (Fonte:<br />

comparação do Recenseamente do IBGE de 1980<br />

como PNAD de 1989).<br />

O trabalhador rural abandona o campo em<br />

busca de melhores condições de vida na cidade. O<br />

que encontram, porém, é uma realidade pior para<br />

sobrevivência: o inchamento dos centros urbanos,<br />

o aumento do desemprego, os salários miseráveis,<br />

a desestruturação das famílias, a marginalidade e a<br />

prostituição, a falta de condições de educação e<br />

saúde são alguns dos aspectos enfrentados pelos<br />

trabalhadores nas cidades.<br />

EXPEDIENTE<br />

BOLETIM INFORMATIVO DO<br />

SERVIÇO DE ASSISTÊNCIA RURAL<br />

PÇA. PIO X,335<br />

CENTRO-NATAL/RN<br />

x


DISPARADA<br />

SISTEMA CAPITALISTA: TRABALHADOR RURAL E<br />

CAMPONÊS ESTÃO CONDENADOS À MORTE?<br />

A realidade do mundo do trabalho no campo é<br />

resultado de profundas mudanças que estão ocor-<br />

rendo com a investida cada vez maior do Sistema<br />

Capitalista no campo. O trabalho no campo, como<br />

na cidade, no capitalismo tem uma lógica: o enri-<br />

quecimento de uns poucos em detrimento de mui-<br />

tos!<br />

No Capitalismo o que interessa sobretudo é o<br />

assalariamento do trabalhador rural. Daí a "ne-<br />

cessidade de tirar dele todos os meios possíveis de<br />

sustentação (terra, instrumento, créditos...). O<br />

trabalhador expropriado dos meios de produção,<br />

para continuar sobrevivendo, vende o que lhe resta:<br />

a sua força de trabalho!<br />

ORGANIZAÇÃO E LUTA:<br />

O RESGATE DA DIGNIDADE<br />

Aos Trabalhadores Rurais resta, porém, a es-<br />

perança e a luta para reedificação da dignidade do<br />

trabalho e do trabalhador. A solidariedade e a Fra-<br />

ternidade são conquistas possíveis da classe tra-<br />

balhadora UNIDA e ORGANIZADA.<br />

Por isso a Igreja este ano convoca todo o povo<br />

de Deus a discutir sobre a realidade do mundo do<br />

trabalho. O salário baixo, a falta de terra, a escra-<br />

vidão do trabalhador não fazem parte da vontade<br />

de Deus, a sua vontade é que todos tenham direito<br />

ao trabalho e a uma vida digna. A solidariedade, a<br />

união de todos os que sofrem pela falta de terra<br />

para trabalhar e pela falta de salário digno é o pri-<br />

meiro passo para fazer a vontade de Deus.<br />

VAMOS CONVERSAR:<br />

1) Quais as categorias de trabalhadores rurais<br />

existentes na sua área (meeiros, posseiros,<br />

sem terra, pequenos proprietários) e quais as<br />

suas condições de vida e trabalho?<br />

2) Contém exemplos de pessoas que vieram do<br />

campo para a cidade (por que saíram do cam-<br />

po? Qual a condição de vida deles na cidade?)<br />

Página 3<br />

A MARCA DA EXPLORAÇÃO<br />

Na sociedade capitalista em que vivemos as<br />

formas e relações de trabalho vivenciadas pela<br />

classe trabalhadora são profundamente marcadas<br />

pela dominação e exploração, o que contribui para<br />

a destruição da dignidade do trabalho.<br />

No sistema capitalista, o trabalho é entendido<br />

e tratado como uma espécie de mercadoria, que<br />

o trabalhador vende ao patrão, que é, ao mesmo<br />

tempo, dono do capital, isto é, do conjunto dos<br />

instrumentos de trabalho e dos meios que tornam<br />

possível a produção. (CF/91)<br />

A VISÃO DO EVANGELHO<br />

Por sua vez, o evangelho convida a todas as<br />

pessoas a vivenciarem a solidariedade, viverem em<br />

comunhão, a serem companheiros uns dos outros<br />

para que a dignidade da pessoa humana seja reer-<br />

guida sempre que for necessário.<br />

Essa ação de comunhão, de solidariedade en-<br />

tre os homens e mulheres, no dia-a-dia, deve<br />

apontar para resolver os problemas sentidos e<br />

buscar vivenciar novas relações de trabalho a fim<br />

de que cada pessoa viva dignamente do seu traba-<br />

lho. Cada pessoa deve lutar com os outros pelo<br />

fim da dominação e da exploração capitalista.<br />

Essa luta baseada na solidarieade entre os<br />

explorados precisa ser forte para que a dignidade<br />

do trabalho seja sempre construída.<br />

E podemos construir a dignidade valorizando e<br />

participando das lutas pela posse da terra, das lu-<br />

tas por melhores condições de vida, das lutas pelo<br />

preço correto na produção, etc. Cada pessoa deve<br />

fazer um esforço para que a solidariedade aconteça<br />

em casa, na comunidade, no trabalho.<br />

Na bíblia, a relação do homem com o trabalho»<br />

e com a terra é bastante enaltecida. Vejamos: "A<br />

terra é do homem porque ao homem Deus confiou e<br />

por seu trabalho ele domina" (Gêneses, 1.28);<br />

"Plantem para comer dos frutos do seu trabalho".<br />

(Jeremias 29,5); "O trabalhador é digno do seu<br />

salário" (Lucas 10,7); e Deus disse: "Eu serei<br />

testemunha contra os que roubam o salário do tra-<br />

balhador". (Malaquias, 3,5). "Vocês ricos, choram<br />

e gemem por causa das desgraças que vão cair em<br />

cima de vocês. ...Vocês roubam os salários dos<br />

trabalhadores do campo... é um clamor... os gritos<br />

dos trabalhadores chegaram aos ouvidos do Senhor<br />

dos exércitos". (Tiago 5,1-4).<br />

PALAVRA DOS PAPAS<br />

Falando sobre as condições de trabalho, o Pa-<br />

pa Leão XIII (1891), enfatizou que "não é justo<br />

nem humano exigir do homem tanto trabalho a<br />

ponto de fazer pelo excesso da fadiga embrutecer<br />

o espírito e enfranquecer o corpo. "Não deve, por-<br />

tanto, o trabalho prolongar-se por mais tempo do<br />

que as forças permitem". (Rerum Novarum - Con-


DISPARADA<br />

dição dos Operários).<br />

João Paulo II, quando esteve em Recife/PE<br />

(1980), frizou que não era "admissível que no de-<br />

senvolvimento geral de uma sociedade fiquem ex-<br />

cluídos do verdadeiro progresso digno do homem<br />

precisamente os homens e as mulheres que vivem<br />

em zona rural, aqueles que estão prontos a tornar<br />

a terra produtiva graças ao trabalho de suas mãos.<br />

Jamais o homem é mero "instrumento de traba-<br />

lho"..<br />

Para João Paulo II "a Igreja não quer omitir-se<br />

quando se trata de fazer a vida humana se tornar<br />

cada vez mais humana e de conscientizar para que<br />

tudo aquilo que compõe esta mesma vida corres-<br />

ponda a dignidade do homem".<br />

VAMOS CONVERSAR:<br />

1) Quais os casos de expuisao do trabalhador<br />

da terra que já aconteceram aqui na comu-<br />

nidade ou no município?<br />

2) O que nós podemos fazer para que o direito<br />

ao trabalho seja mais respeitado aqui em<br />

nossa comunidade?<br />

CONSTRUINDO A FRATERNIDADE NO MUNDO DO<br />

TRABALHO<br />

A Campanha da Fraternidade tem como objeti-<br />

vo provocar gestos concretos de fraternidade, es-<br />

timulando a ação pastoral de conjunto, e a dos<br />

cristãos individualmente para a superação de situa-<br />

ção de injustiças e desigualdades. Assim sendo,<br />

ela não deve ficar restrita ao momento da celebra-<br />

ção Eucarística, mas deve ser realizada durante<br />

todos os dias da quaresma através de atividades<br />

como: debates, palestras, círculos de reflexão,<br />

mesas redondas, caminhadas, celebrações e mul-<br />

tas outras, dependendo da criatividade de cada<br />

grupo pastoral ou comunidade.<br />

PLANEJAR PARA AGIR MELHOR<br />

O livro do Texto-base da Campanha da Frater-<br />

nidade sugere que cada paróquia ou comunidade<br />

faça o seu planejamento para a CF/91. Nesse pla-<br />

nejamento é importante refletir e analisar as situa-<br />

ções que necessitam de uma ação profética no<br />

mundo do trabalho por parte de sua comunidade.<br />

Partindo da realidade do mundo do Trabalho em<br />

cada local, é necessário definir as pistas de ação e<br />

tentar envolver o maior número possível de grupos,<br />

setores e pessoas nas atividades.<br />

ALGUMAS SUGESTÕES DE GESTOS CONCRETOS<br />

O Texto-base da CF/91 oferece algumas su-<br />

gestões de ações concretas que podem servir co-<br />

mo orientação para o planejamento dos grupos.<br />

Elas não devem inibir a criatividade de cada<br />

comunidade ou paróquia, mas sim, servir como<br />

Página 4<br />

ponto de partida para o surgimento de outras ini-<br />

ciativas de ações.<br />

Aqui estão algumas delas:<br />

No mundo do trabalho.<br />

- Ajudar, através do trabalho de conscienti-<br />

zação, as organizações de base dos traba-<br />

lhadores no bairro, na fábrica, na comunida-<br />

de rural.<br />

- Apoiar e ser solidário com as lutas dos tra-<br />

balhadores que se desenvolvem em nossas<br />

Igrejas locais. Assumir o conflito e estar<br />

presente junto aos trabalhadores (como<br />

ocupações, greves, mutirões). .<br />

- Assumir datas comemorativas das lutas<br />

dos trabalhadores, como o 08 de março<br />

(Dia Internacional da Mulher), I 9 de maio<br />

(Dia do Trabalhador), 20 de junho (Dia do<br />

Migrante), 25 de julho (Dia do Lavrador), 11<br />

de outubro.<br />

E na nossa Arquidiocese?<br />

Aqui na Arquidiocese de Natal desde o segun-<br />

do semestre de 1990 alguns setores pastorais<br />

mais ligados ao mundo do trabalho vêm se reunin-<br />

do para discutir e planejar atividades para a CF/91.<br />

Como fruto dessas reuniões surgiu uma programa-<br />

çãodaCF/91 que prevê diversos eventos:<br />

DATA/ OBJETIVOS<br />

PERÍODO<br />

EVENTOS LOCAL HORÁRIO<br />

DESTINATÁRIOS<br />

10/03 Aprofundamento e C, Marísta Aberto aos trabalhadores.<br />

17/03 manhãs de formação São Sebastião convidar os paroquianos.<br />

24/03 C. Esperança<br />

Parnamirim<br />

Macau<br />

Outras Paróquias<br />

Comunidades<br />

Neste dia serão preparadas<br />

a vigília e a caminhada do<br />

trabalhador que em Natal,<br />

será no dia 27/03.<br />

24/03 Coleta da Fraterni- Paróquias e Geslo concreto escolhido<br />

dade Comunidades pela Arquidiocese: Ajudar<br />

as Pastorais dos trabalha-<br />

dores.<br />

27/03 Caminhada do tra- Em Natal - 19:00 Todos os trabalhadores.<br />

balhador São ?edro até às animadores, pastorais, etc.<br />

Nova Catedral 23:00 Ás paróquias, etc. Ás paró-<br />

quias do interior poderão la-<br />

zer também uma vigília do<br />

trabalhador.<br />

28/03 Comemoração do A combinar 08:30 P/ toda a Árquidioces. Ca-<br />

trabalhador. às ráter lestivo e celebrativo.<br />

16:00<br />

Além desses eventos, as paróquias e comuni-<br />

dades do interior podem e devem marcar outras<br />

atividades de acordo com a realidade e a necessi-<br />

dade de cada local.<br />

Agora é botar a mão na massa e construir na<br />

prática a Fraternidade no Mundo do Trabalho!!!

More magazines by this user
Similar magazines