PROJETOS URBANOS e DESEVOLVIMENTO LOCAL - Purarquitetura
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Palestra<br />
Novembro 2010<br />
NADIA SOMEKH<br />
<strong>PROJETOS</strong> <strong>URBANOS</strong> e<br />
<strong>DESEVOLVIMENTO</strong> <strong>LOCAL</strong><br />
A Arquiteta Nadia Somekh é graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (1976),<br />
mestre e doutora também pela FAU/USP). É professora Emérita e titular da Universidade Presbiteriana<br />
Mackenzie, onde foi chefe do departamento de Planejamento, Coordenadora da pós-graduação(1999 a<br />
2001) e diretora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de 2005 a 2009.<br />
Além da carreira acadêmica, Nadia foi Presidente da EMURB (2002 a 2004), órgão da Secretária de<br />
Desenvolvimento Econômico da PMSA. Tem experiência na área de Arquitetura e Urbanismo, com ênfase<br />
em Planejamento Urbano e Regional, atuando principalmente nos seguintes temas: verticalização, centro,<br />
arquitetura e urbanismo, história urbana. É especialista em projetos urbanos, planos diretores, gestão<br />
compartilhada e autora dos livros A Cidade Vertical e o Urbanismo Modernizador (ed. Studio Nobel) e A<br />
Cidade que Não Pode Parar (ed. Mackenzie).<br />
Neste encontro com a equipe de profissionais da <strong>Purarquitetura</strong>, Nadia Somekh, deu ênfase aos aspectos<br />
que estruturam o planejamento urbano, mostrando vários exemplos bem sucedidos ao redor do mundo e<br />
chamando a atenção para como isso acontece (ou não) no Brasil. Acompanhe o conteúdo ilustrado e, ao<br />
final, o debate que ampliou os temas apresentados na palestra.
[1ª. parte]<br />
Introdução<br />
Trouxe três exposições que compõem uma apresentação customizada para a <strong>Purarquitetura</strong>, que serve<br />
vocês que vão trabalhar com projetos de urbanos, tem um campo muito grande e a cidade precisa desse<br />
tipo de atuação.<br />
- Na primeira parte, falo dos projetos urbanos e as principais características.<br />
- A segunda parte trata da minha pesquisa atual sobre projetos urbanos, vou mostrar como as coisas estão<br />
mudando, as diversas experiências que estão acontecendo no mundo e que precisamos saber para intervir<br />
na cidade.<br />
- Na terceira parte, mostro a pesquisa feita para o Urban-age, em 2008. O Urban-age (www.urban-age.net)<br />
(junta o Deustch Bank e a London School of Economics, e faz discussões para o mundo inteiro, relativas às<br />
questões do urbanismo. Eles escolheram três pesquisas para financiar, uma delas foi a minha, com o<br />
professor Carlos Leite, do Mackenzie, que é uma interlocução com o setor imobiliário, para poder construir<br />
com projeto urbano. Nós aprendemos com eles e eles aprenderam com a gente. Falta essa interlocução<br />
com setor imobiliário, eles fazem o que o mercado quer e podemos interferir em termos de qualidade.<br />
Puerto Madero, Buenos Aires, Argentina.<br />
Novas Estratégias de Gestão Urbana<br />
O mundo está mudando e as áreas antigas de produção estão se esvaziando, as áreas industriais estão<br />
fragmentando seus processos de produção: portos, estradas, ferroviárias estão em transformação. Esta<br />
questão está presente em três ou quatro décadas, principalmente na Europa, que é onde eu faço minha
pesquisa. Na Argentina, onde está Puerto Madero, estão pensando a respeito há 40, 50 anos: o que fazer<br />
com essa grande área de porto?<br />
Em todos esses casos, o arquiteto desenha a cidade contemporânea, ao que chamamos de projetos<br />
urbanos.<br />
Existe uma falsa dicotomia entre os planos diretores e os projetos urbanos, precisamos das duas coisas.<br />
Atualmente, é necessário entender o que são esses projetos urbanos e que leva muito tempo para<br />
implementar um projeto urbano. São Paulo não tem projetos urbanos, está começando a ter. O que a<br />
experiência internacional pode nos mostrar a respeito dos projetos urbanos? Vimos Puerto Madero e tem<br />
algumas características recorrentes nos projetos urbanos. Como a preservação do patrimônio histórico<br />
como capital simbólico, não mais os monumentos e, sim, novas oportunidades de qualificar a cidade.<br />
Portanto, percebemos que é possível fazer uma recuperação do quadro construído antigo, o que chamamos<br />
de retrofit, que também está começando no centro de São Paulo.<br />
A seguir, vamos ver quais são os elementos recorrentes nos projetos urbanos:<br />
Biblioteca Nacional, Paris Rive Gauche, França.<br />
Medimos a urbanidade de uma cidade através do tamanho e da generosidade urbana. Estamos fazendo<br />
uma pesquisa comparando, Rio, São Paulo e Buenos Aires e vemos que eles têm outra formação histórica<br />
que permitiu que houvesse mais generosidade urbana. O Rio tem mais que São Paulo. São Paulo é cidade<br />
do capital do lucro e precisamos mudar isso, mas isso demora para ser construído. O Rio é cidade da<br />
política, da cultura, tem outra generosidade urbana e percebemos isso.<br />
Acima é a Biblioteca Nacional, do Dominique Perrault (www.perraultarchitecte.com) que faz parte de um<br />
projeto urbano que chama Paris Rive Gauche, que levou 20 anos para ser implementado. Eu fui entrevistar<br />
a coordenadora e ela está lá, no mesmo cargo, há 17 anos, entra político e sai político da prefeitura, ela<br />
permanece, isso é importante.
Biblioteca Nacional, Paris Rive Gauche, França.
Parque Citroen, Paris, França.<br />
Esse é outro projeto urbano do Parque Citroen, que está há três décadas, é anterior ao Paris River Gauche.<br />
Ele foi feito em cima da saída das empresas Citröen do centro de Paris. Uma das coisas que tem recorrente<br />
em projetos urbanos são os parques, os espaços públicos e a valorização da generosidade urbana.
Esquina de Paris, onde os cidadãos participam da discussão do projeto urbano.<br />
A mistura de usos, conjugando habitação e atividades, é algo que é mais saudável, tudo o que aprendemos<br />
sobre separação de usos, temos que rever, pois isso traz problema para a cidade.<br />
Na foto acima, aparece meu tio, ele mora em Paris, tem 95 anos e costuma discutir comigo os rumos da<br />
grande Paris. Meu tio é um cidadão... Lá todo mundo discute a cidade, tem e exposição sobre a Paris do<br />
futuro e ele foi, assistiu e discute comigo o projeto urbano. Aqui não discutimos a cidade.
Museu Guggenheim, Bilbao, Espanha.<br />
Agora, as chamadas âncoras culturais. Em Bilbao achamos que só se construiu esse Museu Guggenheim<br />
(www.guggenheim.org), que é do Frank Guehry, mas não é. É um planejamento estratégico mais amplo.
Estação de metrô, projetada por Norman Foster, Bilbao, Espanha.<br />
Outra recorrência: não há projeto urbano sem a constituição de uma centralidade urbana. Uma das<br />
recorrências é o metrô, a constituição de uma centralidade através do sistema de transporte, a questão da<br />
acessibilidade é essencial.<br />
Passarela de pedestres assinada por Calatrava, Bilbao, Espanha.<br />
Acima, vemos o espaço público, também em Bilbao, a passarela de pedestres é do Calatrava. E a cidade<br />
não é só pensada para o para o automóvel. E Bilbao passou por um esvaziamento industrial europeu, que
acabou com toda a siderurgia na Europa. Teve um incentivo. Grandes áreas foram esvaziadas e houve<br />
planejamento estratégico, metropolitano e depois municipal, que construiu com as mesmas características.<br />
Temos mistura de usos, residências e uma centralidade muito forte, um parque, as âncoras culturais, vemos<br />
essa recorrência do que pensamos que é projeto urbano.<br />
Como vocês vão fazer, já sabem quais são os passos para um projeto urbano.<br />
Reconversão Industrial<br />
La Bicocca, Milão, Itália
Croqui de La Bicocca, Milão, Itália.<br />
Maquete de La Bicocca, Milão, Itália.<br />
Em Milão, em 79, Vittorio Gregotti (www.gregottiassociati.it) ganhou um concurso para fazer o projeto<br />
urbano em 90% das áreas da Pirelli, La Bicocca. Em 70, a questão ambiental não era tratada como no<br />
mundo contemporâneo, teve grita dos ambientalistas, pois o parque era pouco permeável, e temos os 10%<br />
da produção da Pirelli que ainda permaneceu na área. O projeto da Pirelli teve também recursos da União<br />
Europeia e se propôs a criar um ambiente inovador. Essa questão da inovação tem uma universidade na
cidade focada em pesquisa para inovação tecnológica. Vemos o pedaço da produção, a residência dos<br />
estudantes, um parque, âncora cultural, mistura de classes sócias, tem grandes empreendimentos<br />
imobiliário de alta renda e residência de estudantes. O Scala 2 de Milão, que o Gregotti projetou, é um<br />
empreendimento de alta renda. Só fazendo uma síntese os projetos urbanos dependem de grandes aportes<br />
públicos de investimentos de infra-estrutura, principalmente de transportes, e construção de edifícios<br />
públicos e privados.<br />
La Bicocca, Milão, Itália.<br />
Essas são as residências dos operários que foram preservadas para os próprios operários que ainda<br />
trabalham na fábrica.<br />
Bovisa, Milão, Itália.
Esse é outro projeto no norte de Milão. Lá os projetos urbanos articulam outros municípios que fazem limite<br />
com a cidade de Milão. Tem o projeto Bovisa, e tem a Escola Politécnica, onde tem a Faculdade de<br />
Arquitetura que recuperou um patrimônio histórico, que ocupa uma antiga indústria.<br />
Então, houve a preocupação de transformar as indústrias em áreas para outras atividades, não só centro<br />
cultural, mas também, por exemplo, universidade.<br />
O Bovisa está ligado ao centro de Milão por um sistema de transporte que tem duas paradas até o centro da<br />
cidade. Isso cria uma centralidade, incluindo o centro para essa nova centralidade.
Londres, Inglaterra.<br />
Outra característica dos projetos urbanos e aí passa por uma crítica é a chamada “disneyficação” da cidade.<br />
A roda gigante foi construída ao lado do Big Ben, Londres, Inglaterra.<br />
Tem a roda gigante que a British Airways fez do lado Big Ben. Aqui o DPH não deixaria. É bonito de ver,<br />
mas também é muito esquisito.
Na parte sul do Tamisa, o rio passou por despoluição importante nos últimos 20 anos e basta, para<br />
despoluir, simplesmente, não jogar esgoto. Se parássemos de jogar esgoto no Tietê, já melhoraria e daria<br />
nova vida às águas do Tietê.<br />
E na parte Sul do Tâmisa eles investiram em espaços públicos de qualidade e em alguns edifícios pontuais,<br />
a prefeitura de Londres.<br />
Em primeiro plano, a fachada do Shakespeare Globe Theater e a Modern Tate Gallery.<br />
A nova Modern Tate Gallery, que era uma antiga indústria de geração de energia e o Teatro Shakespereano<br />
que foi inventado, que foi construído em cima de documentos. Ele não foi restaurado. Temos espaços<br />
públicos de qualidade, muito parecido com Puerto Madero.
Passarela no centro de Londres.<br />
Essa passarela também está pronta, em frente à Tate Gallery ligando a parte Sul do Tâmisa ao centro de<br />
Londres.<br />
A prefeitura de Londres, projetada pro Norman Foster, em construção.
O prédio do Norman Foster está pronto, que é o prédio da prefeitura. Outra coisa recorrente é a importância<br />
que os arquitetos do star system, tem nos projetos urbanos. Então tem sempre importantes projetos nas<br />
áreas de projetos urbanos.<br />
A recuperação de antigos armazéns em Docklands.<br />
Antigos armazéns de Docklands, Inglaterra.
Interligação do porto, estação de trem, Londres<br />
E em Canary Wharf (pt.wikipedia.org/wiki/Canary_Wharf), projeto que era considerado fracassado, até que<br />
se implantou um sistema de trem, de transporte, ligando essa área de Docklands ao centro de Londres. Só<br />
houve a possibilidade de sucesso e está um boom ainda hoje. Em Canary Wharf vemos a estação do metrô<br />
do Norman Foster. O transporte que viabilizou o projeto urbano. Temos os mesmos Norman Foster, Frank<br />
Guehry, Cesar Pelli fazendo projetos internacionais.
Edifício de Cesar Pelli, Docklands, Londres.
[2ª. parte]<br />
Metrópole contemporânea<br />
Centro de São Paulo.<br />
Projetos urbanos e inclusão social<br />
Eu apresentei esse trabalho na CAPES, que é a comissão que trabalha o aperfeiçoamento dos profissionais<br />
do ensino superior e que faz uma avaliação continuada dos cursos de pós- graduação. E que aprovou e<br />
recomendou nosso curso de pós-graduação no Mackenzie. Em julho de 2010, eu apresentei esse estudo e<br />
eles perceberam que é importante a pesquisa na metrópole contemporânea e que está mudando de figura.<br />
Existem transformações rápidas da sociedade que se manifestam no espaço da cidade. O Harvey fala de<br />
compressão do espaço-tempo. O que quer dizer isso?<br />
Com as novas tecnologias o mundo ficou pequenininho, porque as distâncias foram comprimidas, por conta<br />
das transformações tecnológicas, o que permitiu a chamada globalização, que não é uma mera definição<br />
ideológica. Existem transformações como fala o texto do Castells, é uma trilogia chamada “A Sociedade na<br />
Era da Informação”. Ele diz que tem mudança na globalização e tem simultaneidade de ações que ocorrem<br />
na globalização. Tem a globalização não só dos mercados financeiros, do comércio pela internet, mas<br />
também do crime organizado, o que explica a violência.<br />
O Ascher fala da terceira modernidade do planejamento e que muda um pouco o jeito de projetar a cidade.<br />
Centro de São Paulo, Brasil.
E tem toda uma discussão que a cidade não pode mais ser encarada do ponto de vista municipal. Precisa<br />
ser entendida não só em termos de região, mas também temos um conjunto de cidades que compõem uma<br />
metrópole e aí tem conceitos de macro-metrópole, megalópole, metápole, a ONU sua metápole. Mas, o Paul<br />
Virilio que o francês que fez uma exposição que chama Terra Natal, na Fundação Cartier, em 2009, ele fala<br />
que o mundo inteiro está vivendo um processo de metropolização global. Então, as relações mudaram.<br />
E o Bernardo Cecchi, que dá aula em Veneza, diz que não podemos mais pensar a cidade em termos de<br />
conurbação imediata. Ele tem estudante que faz pesquisa com ele, que mora há 50 km de Veneza. Os pais<br />
do estudante, a mãe tem uma loja que vende para o Veneto e o pai tem um pequena produção industrial<br />
que só vende para o Japão, vai sempre para Tóquio. Como podemos pensar a relação da cidade dentro<br />
dessa perspectiva de novas relações econômicas, novas relações mundiais?<br />
O Paul Virilio fala dessa metropolização global, porque o mundo é urbano. Hoje não tem mais essa<br />
diferenciação campo-cidade. O campo é construído.<br />
Parque D. Pedro II, centro, São Paulo, Brasil.<br />
No Brasil, as regiões metropolitanas foram definidas nos anos 70. Hoje a Emplasa, só produz informações.<br />
O Alckmin está criando uma nova secretaria de gestão metropolitana. Eu fiquei animada, achei que ele<br />
estava preocupado com isso, mas não é. Ele percebeu que tem um cinturão vermelho, partidos antagônicos,<br />
que ele quer incorporar. Isso tem a ver com o que acontece no estado de São Paulo, que concentra quase a<br />
metade do PIB industrial brasileiro, entre São Paulo, São José dos Campos, Sorocaba, Campinas e Baixada<br />
Santista e tem quase a metade da riqueza industrial do país. Então não dá para não pensar essa região do<br />
ponto de vista estratégico. Sem pensar nas relações internacionais, só pensando em território brasileiro.<br />
No caso de São Paulo e Região Metropolitana<br />
Concentração do PIB do Brasil<br />
33% no ESP e 85,2% em torno da RMSP<br />
20% Área de Operação Urbana no MSP
São Paulo uma cidade difusa, fotos de satélite.<br />
Outra coisa que não acontece e que deveria acontecer, nós colocamos isso no programa de Governo da<br />
Dilma, então, quem sabe agora vai acontecer, que é avaliar os investimentos de infraestrutura do PAC, o<br />
que está ocorrendo, precisa ter monitoramento. A política de desenvolvimento urbano do ministério é muito<br />
municipalista e é preciso então uma política de desenvolvimento econômico ancorada no território. Por que?<br />
Porque, primeiro, precisa redistribuir a riqueza no país e já está acontecendo. O crescimento econômico no<br />
nordeste está segurando a população lá, a população não vem mais se concentrar nos centros do Sudeste.<br />
Então, a política de desenvolvimento econômico é essencial para pensar as cidades. Não só, mas é<br />
essencial e ela não tem sido pensada. Então, vocês que vão fazer projetos urbanos não podem pensar na<br />
questão econômica, mas essencial pensar nessas relações econômicas.
A política de desenvolvimento econômico interfere nos projetos urbanos.<br />
Os projetos urbanos no Brasil tem que ter o quê?<br />
Tem que pensar em habitação, porque metade da população das cidades vive em péssimas condições,<br />
Pensar um projeto urbano sem pensar na questão da mobilidade, vimos a importância e o sucesso dos<br />
projetos urbanos como reforço da centralidade. A questão ambiental. A questão da violência – não se trata<br />
de fechar a cidade, mas tem que construir cidadania para abrir a cidade. A cidade não é a cidade dos<br />
condomínios fechados, isso é a anti-cidade.<br />
Pensar em alternativas de trabalho, renda e emprego e pensar com o se financia isso tudo. Se propomos<br />
um parque enorme, precisa ver com que dinheiro vamos construir.<br />
Habitações na periferia de São Paulo.
Construções na periferia de São Paulo<br />
Barracos de madeira em favela de São Paulo.
Essas são as imagens que mostram onde mora a maioria da população do Brasil. Não temos noção,<br />
circulamos apenas no quadrilátero de ouro – Av. Paulista, Jardins, Higienópolis. Não temos muita noção do<br />
que acontece nos grandes centros urbanos.<br />
A questão do automóvel é algo que tem a ver com a verticalização e com o adensamento. Por que São<br />
Paulo é vertical, mas não é densa?<br />
Porque ela optou e o Brasil optou no seu desenvolvimento econômico por ter o automóvel como foco. A<br />
indústria automobilística como base do seu desenvolvimento, fica complicado construir uma cidade densa e<br />
optar pelo padrão de transporte automóvel.<br />
O investimento na indústria automobilística determinou o rito de deslocamento por São Paulo.<br />
A história de São Paulo coincide com a história da desistência da construção do metrô. Quando o Adhemar<br />
de Barros, em 57, anunciou uma primeira lei que reduziu o coeficiente de aproveitamento, depois o<br />
zoneamento reduziu mais ainda, ele anunciou<br />
que desistia de construir o metrô. E ao mesmo tempo o ABC estava abrigando, em 57 data dessa lei, a<br />
indústria automobilística. Todo esse padrão de como a cidade se move é essencial para pensar os projetos<br />
urbanos.
O clássico e o contemporâneo no Museu Quai Branly, Paris, França.<br />
Metrópoles Europeias<br />
As metrópoles europeias tem uma coordenação pública. Ao contrário das americanas, que tem mais o<br />
capital privado e mesmo coordenando a implantação do chamado urbanismo de projetos, que acontece<br />
mais na Europa. Quero insistir que não há uma dicotomia entre planos e projetos urbanos, temos que<br />
construir pontes, que foram perdidas, entre os chamados arquitetos planejadores, e eu me incluo nisso, com<br />
os arquitetos de projetos de edifícios. Nós somos os mesmos arquitetos, que pensamos a cidade. A cidade<br />
é construída de edifícios. Não dá para pensar planejamento sem uma interlocução. Isso é uma batalha que<br />
temos que construir.<br />
Vista aérea do vazio da antiga fábrica da Renault, de Paris, França.
Por exemplo, na França tem uma lei nacional que prevê 20% de habitação de interesse social, em qualquer<br />
projeto urbano. Nos Estados Unidos também, em Nova York tem uma Inclusion Ring Zone, que propõe uma<br />
porcentagem de áreas para habitação de interesse social em áreas de projetos urbanos. No Canadá<br />
também, Vancouver tem 20% área prevista para misturar classes diferentes, essa mistura é importante, pois<br />
evita a formação de guetos, condomínios fechados e, portanto, de violência urbana.<br />
Na França, em Paris, temos uma agência coordenada pelo poder público, a mistura de atividades e<br />
atualmente ou eles demolem conjuntos habitacionais ou eles os recuperam. O Rolland Castro e o Christian<br />
de Port são arquitetos que recuperaram os antigos edifícios habitacionais, que foram muito criticados pela<br />
Jane Jacobs, naquele livro “Morte e Vida das Cidades”, e que tem uma violência importante, mas que<br />
podem ser re-qualificados.<br />
Conjunto habitacional nos arredores da Fábrica Renault em processo de requalificação.
O projeto Paris Rive Gauche foi implantado numa antiga área industrial.<br />
Acima, em Paris, outra fábrica de automóveis que saiu do centro, a Renault passa por reestruturação e<br />
projeto urbano, com a recuperação de conjuntos habitacionais que foram considerados problemáticos e<br />
estão sendo recuperados dentro do âmbito do projeto urbano. E as âncoras culturais, um dos moinhos que<br />
fazia parte do Paris Rive Gauche, era uma área muito parecida com o ABC, fui pesquisar isso, por que<br />
tinhamos em Santo André o Tamanduateí, que era uma área também com projeto urbano em Santo André.<br />
Um dos moinhos foi ocupado pela população que conseguiu mudar o programa habitacional e aumentar o<br />
número de habitações de interesse social. E com uma interlocução, um pouco conflituosa, mas com<br />
interlocução.<br />
Em Londres, a mobilidade foi essencial, tem novas alternativas, tem um conceito novo de economia criativa,<br />
de cidade criativa como Londres, que é um exemplo interessante. E a criação de novas centralidades.
O transporte sedimenta novas centralidades, Londres, Inglaterra.<br />
Vista da prefeitura no Southbank, em Londres.
Acima, um bairro entre o centro de Londres e Docklands que é uma área industrial em transformação, com<br />
micro e pequenas empresas. Isso é uma antiga área industrial. O que podemos fazer com áreas industriais?<br />
Eles alugaram para micro e pequenas empresas de alto valor agregado, que é uma nova forma de trabalho<br />
importante para a população.<br />
Projeto olímpico de Zaha Hadid, em Londres, Inglaterra.<br />
Aí é um projeto olímpico da Zaha Hadid que não vai ser construído e vocês veem a mistura dessa área de<br />
alto valor agregado e baixo valor agregado. Também tem um velho hippie que está vendendo suas coisas.<br />
Mistura de atividades, Londres, Inglaterra.<br />
Acima, um bairro entre o centro de Londres e Docklands que é uma área industrial em transformação, com<br />
micro e pequenas empresas. Isso é uma antiga área industrial. O que podemos fazer com áreas industriais?<br />
Eles alugaram para micro e pequenas empresas de alto valor agregado, que é uma nova forma de trabalho<br />
importante para a população.
Bilbao, Espanha.<br />
Em Bilbao houve planejamento estratégico metropolitano, houve uma reestruturação produtiva vinculada ao<br />
desenvolvimento europeu e as âncoras culturais que a ente viu.<br />
La Bicocca, Milão, Itália.<br />
Em Milão, tem a questão do consórcio de municipalidade, preservação do patrimônio, agência de<br />
desenvolvimento que promove também a questão do estímulo a criação de micro e pequenas e médias<br />
empresas. Tem diferença entre Londres e Milão. No caso de La Bicocca uma parte fica em San Giovanni<br />
que tem há anos uma prefeitura comunista e que negociou com os sindicalistas e com os novos grandes<br />
empresários de fazer uma utilização das antigas fábricas por micro e pequenas empresas de serviço. Foi<br />
um esforço de negociação no caso de Milão e eles conseguiram.
Bicicleta é o transporte predominante em Roterdã, Holanda.<br />
Amsterdã / Roterdã<br />
Tem uma grande área metropolitana, pensada globalmente, o país inteiro é planejado com projetos urbanos.<br />
Essa questão metropolitana é nacional e eles têm projetos de porto. Roterdã trabalha o patrimônio histórico<br />
de maneira bastante interessante. Eu apresentei na prefeitura na discussão e todos morreram de rir quando<br />
eu falei que o DPH não ia deixar fazer esse tipo de intervenção. Eu brinco, mas o que está faltando aqui? A<br />
possibilidade de trazer o contemporâneo para a memória. Queremos preservar a memória, mas não quer<br />
congelar a cidade. Queremos e a memória e o contemporâneo.<br />
O contemporâneo e o antigo convivem nas cidades holandesas.<br />
Esse é um edifício de micro e pequenas empresas. Isso é um antigo armazém que virou televisão e atrás<br />
um edifício residencial.
E eles tem em Roterdã uma grande maquete onde ouvem a população discutem projetos urbanos.<br />
Uma maquete pública estimula os cidadãos a participar do projeto urbano, em Roterdã, Holanda.<br />
Vale do Ruhr<br />
O vale do Ruhr é toda uma área de regeneração industrial pesada, com um passivo ambiental muito grande,<br />
que teve a questão da identidade cultural como ponto essencial de sua transformação. A, a questão cultural<br />
na cidade contemporânea é bastante importante junto com a questão ambiental. Foi toda uma região que
teve uma agência, uma escala muito grande de intervenção. Com a recuperação de fábricas, com a<br />
perspectiva cultural.<br />
Fábrica transformada em centro cultural, Holanda.
Projetos urbanos<br />
Os projetos urbanos podem construir cidade ou podem ser meros empreendimentos imobiliários. Queremos<br />
a construção de cidade. Não queremos simplesmente que o capital imobiliário reproduza sem qualidade a<br />
cidade de São Paulo, por exemplo. Então, temos que batalhar para que isso ocorra, porque, se deixarmos, o<br />
setor imobiliário não tem outra alternativa, senão fazer o que eles sabem fazer. É o nosso papel interagir e<br />
convence-los que podem até ter mais lucro se oferecerem um espaço de melhor qualidade. Acho que essa<br />
é a questão essencial: oferecer o nosso trabalho e mostrar que é possível não desperdiçar, que existem<br />
exemplos, como apartamentos que tem mais racionalidade do que os que são oferecidos hoje no mercado.<br />
Por exemplo, minha irmã mora num edifício Neo-clássico, que tem um grande desperdício de área. É um<br />
apartamento de 500m2 que para você entra no banheiro se sente mail... é um projeto ruim o consumidor<br />
percebe isso, mas consome. Se for olhar o bairro de Higienópolis, tem edifícios que são disputadíssimos<br />
como o do Vilanova Artigas, na Praça Vilaboim, que é superdisputado. Falta mostrar ao setor imobiliário o<br />
quanto o consumidor também quer qualidade.<br />
Puerto Madero, Buenos Aires, Argentina.<br />
Puerto Madero tem também esses novos projetos.
Operação urbana Faria Lima, São Paulo, Brasil.<br />
No caso de São Paulo, temos 33% no estado de São Paulo e quase 90% em torno da região metropolitana.<br />
E tem 20% da área definida no plano diretor estratégico, de 2004, como área de projeto urbano. Um dos<br />
conceitos debatidos, que é um dos princípios de ocupação das cidades, é a valorização da cidade<br />
compacta, que dilapida menos os recursos naturais do que cidade difusa. São Paulo produziu uma cidade<br />
difusa. Estão vendo que é irracional a ocupação da metrópole paulistana? Como explicar isso? Por um lado<br />
o mercado imobiliário que busca terrenos mais baratos, para ter mais lucro, e por conta do sistema de<br />
transporte baseado no automóvel. Temos a produção da cidade difusa e as operações urbanas em São<br />
Paulo, elas são criticáveis a media que não tem um projeto global, que não conseguem articular capitais de<br />
forma coletiva, como ocorre na Europa. Temos experiências privadas, individuais, sem a coordenação, em<br />
espaço público voltado para o automóvel. A Operação Urbana, acho que todo mundo sabe o que é, a venda<br />
do direito de construir para conseguir recursos para investir na cidade. Onde se investe? No sistema viário.<br />
Praça Don José Gaspar, Centro, São Paulo.<br />
São Paulo tem quase um quarto da sua área definida como projetos urbanos. Os projetos urbanos vão<br />
passar por editais, já tem um edital no site da secretaria de Desenvolvimento Urbano, para diagonal, Norte,<br />
Sul e Jacu-Pêssego. Nós estamos dando isso para os alunos do 8º. Semestre, pois eles precisam se<br />
preparar porque isso vai demorar muitos anos para acontecer. Acho que vocês também podem se preparar.<br />
A concessão urbanística foi bem fechada, Nova Luz, foi bem fechada, ganhou escritórios internacionais com<br />
parceiros brasileiros, mas imagino que com tudo isso de projeto urbano, parece que vai ter trabalho para<br />
todo mundo. A cidade precisa do trabalho dos arquitetos.
[3ª. parte]<br />
A última parte, que apresentamos no Urban-age, mostra essa interlocução com o setor imobiliário. A equipe<br />
que eu coordenei com Carlos Leite e a Sueli Schiffer, ambos da FAU/USP, e o professor Silvio Zancheti, da<br />
Universidade Federal de Pernambuco, Secovi e outros pesquisadores. Contamos um pouco dessa produção<br />
da cidade difusa que foi incorporada pela prefeitura. Nós apresentamos isso em dezembro de 2008 e em<br />
janeiro a prefeitura mudou seu discurso e assumiu a questão dos projetos urbanos para São Paulo.<br />
No texto resumo da nossa pesquisa a primeira pergunta é: Por que Buenos Aires tem Puerto Madero e São<br />
Paulo não tem? Por que não acontece?<br />
Resposta: porque produziu cidade difusa, se espalhou demais e, portanto, a recuperação de áreas não<br />
estava na pauta, a cidade compacta não estava em pauta. A questão ambiental também demorou a ser<br />
incorporada, a crítica às operações urbanas, os novos conceitos que ensinam a experiência internacional,<br />
os planos metropolitanos são necessários, a participação é necessária.<br />
No NAI, o Instituto de Arquitetos da Holanda, em Roterdã, os cidadãos participam do projeto de cidade.<br />
Em Roterdã tem crianças e cidadãos que desenham projetos urbanos. A preservação do patrimônio, que<br />
aqui é conflituosa e separada do planejamento urbano. A questão da recuperação do quadro industrial, que<br />
aqui não sabemos o que fazer, estamos começando a pensar em São Paulo.
Maquete do projeto urbano em torno da Estação King’s Cross, Londres, Inglaterra.<br />
Por exemplo, o entorno da estação King’s Cross, em Londres, onde para o trem que une Londres e Paris,<br />
passou por um projeto urbano de longa duração, coordenado pelo setor imobiliário.<br />
Que teve que negociar também a questão habitacional que ó centro das nossas preocupações aqui no<br />
Brasil. Então essa perspectiva de não pensar a questão habitacional, principalmente a habitação de baixa<br />
renda, não dá para pensar projetos urbanos sem isso. Agora temos um instrumento, que é o programa<br />
“Minha Casa, Minha Vida”, parte do Plano Nacional de Habitação, que foi apresentado em 2009 para o<br />
Governo Federal e que prevê, inclusive, a recuperação do quadro construído, porém mais focado em<br />
construções novas. Foi usado um pedaço do plano nacional de habitação, mas é uma revolução, porque,<br />
pela primeira vez, existe subsídio para quem precisa de habitação. 80% da demanda habitacional brasileira<br />
está entre 1 e 3 salários mínimos.
Construção de moradias, São Paulo, Brasil.<br />
Essa é outra área importante: a produção de habitação de baixa renda para ao mercado, agora tem<br />
financiamento para construir e para a compra. É um BNH para pobre. O BNH, nos anos 70 produziu<br />
habitação para a classe média, agora tem a possiblidade de produzir habitação para esse mercado.<br />
Existe o Consórcio Intermunicipal do Grande ABC, que é uma referência, eu trabalhei lá cinco anos, e tem<br />
toda uma construção de políticas setoriais diferenciadas de forma conjunta, com partidos diferentes. Então<br />
é muito interessante essa referência do Grande ABC.<br />
No nível municipal toda a crítica às operações urbanas que não tem o desenho construído coletivamente,<br />
não se pensa a inclusão social e a questão ambiental nem na mistura de atividades nem em investimento de<br />
espaço público espaço público para o pedestre. Por exemplo, uma ciclovia adequada, não tem. Só o<br />
automóvel.
Habitações e infraestrutura precárias na periferia de São Paulo, Brasil.<br />
O que fazer? Como fazer?<br />
Tem que haver uma mudança de mentalidade, uma publicização do setor privado e uma transparência na<br />
liderança do poder publico, sem transparência e continuidade e um planejamento metropolitano, a criação<br />
de uma agência para dar continuidade. E também o professor Silvio Zancheti mostrou que não temos<br />
planejamento urbano porque faltam instrumentos de financiamento. Faltam elementos de poder para criar<br />
um fundo para essa operação, porque o projeto urbano é uma operação de longo prazo. Então, exige<br />
financiamento especial, que na Europa é bancado pelo poder público. Aqui o privado também pode bancar<br />
como no caso da Inglaterra. Aqui, falta esse elemento financeiro para construir um projeto de longo prazo<br />
que não é um empreendimento imobiliário, mas que pode captar os recursos que estão no mundo inteiro,<br />
voltados para a produção imobiliária. A preocupação ambiental pode dar esse elemento de qualidade e a<br />
preservação do patrimônio histórico. Será isso possível para São Paulo?<br />
Nós entendemos que sim. Há um logo caminho que eu procurei mostrar para vocês. Eu mostrei<br />
perspectivas de trabalho para vocês.<br />
Bibliografia Recomendada:<br />
• A Condição Pós-Moderna<br />
Harvey, David (ed. Usitec/92)<br />
• A Cidade do Pensamento Único<br />
Arantes, Otília Beatriz Fiori; Maricato, Ermínia; e Vainer, Carlos (ed. Paz e Terra/2001)<br />
• Os Novos Princípios do Urbanismo<br />
Ascher, François (ed. Romano Guerra 2010).
[4ª. parte]<br />
Debate: Nadia Somekh e Equipe<br />
da <strong>Purarquitetura</strong><br />
PROJETO URBANO EM SÃO PAULO<br />
Renata Coelho– Qual é o primeiro passo para mudar essa diretriz?<br />
Nadia – Já começou. Nós apresentamos isso em 2008, no Urban-age, que tem muita credibilidade, pois une<br />
Deutsch Bank e London School Ecnomics. Antes eu já falava disso, claro que me ouviam, mas veio o<br />
Urban-age e chamou a Prefeitura, o Governo do Estado, a Academia, o setor imobiliário e convidou 300<br />
pessoas para a Sala São Paulo. Isso teve uma repercussão midiática e fizeram várias mesas, com várias<br />
pessoas falando de suas pesquisas. Foram 3 pesquisas: a nossa de Projetos Urbanos, a outra de<br />
Transportes e uma outra de Segurança. Os formadores de opinião e os “decisores” estavam lá e ouviram.<br />
Já aconteceu o primeiro passo que é a prefeitura transformar ¼ da operação urbana em projeto urbano. Isso<br />
foi um avanço. Segundo, pensar na cidade compacta. Agora o prefeito e o secretário de desenvolvimento<br />
urbano começam a falar da cidade compacta, que devemos construir uma cidade nas áreas que estão<br />
esvaziadas. Não dá para expandir cada vez mais. Isso foi também algo que nós conseguimos. E a terceira<br />
conquista, foi que a Nova Luz que tinha meia dúzia de quadras, passou a ter 44 quadras e a ser tratada<br />
como um projeto urbano. Demora isso.<br />
É melhor isso do que o programa do centro, quando eu fui presidente da EMURB eu coordenei o<br />
programa do centro e nós deixamos recursos do BID, ações definidas, projeto, dinheiro e o Serra entrou<br />
e parou com tudo porque era grife da Marta. Tentamos mostrar que era da cidade, não da Marta e do<br />
Partido. Aí ele parou e o Kassab que o sucedeu, re-centralizou aquilo tudo que já vinha acontecendo na<br />
Luz. Agora estão pensando mais a Nova Luz e não o centro. É uma perda. A Nova Luz não é o centro, o<br />
centro é o centro de São Paulo. É Viaduto do Chá, Praça da República, não é a Luz. É uma perda para a<br />
cidade. Há um mês, saiu um editorial do Estadão, que é pró Serra, é uma coisa realmente apartidária,<br />
dizendo que o centro tem recursos projetos e que só para não dar os louros para a equipe da Marta – e<br />
aí eu me senti contemplada – pararam tudo. O que é muito triste para a cidade. Não importa quem é o<br />
político, quem é o partido, mas é a cidade que perde.<br />
Então, Renata, já tem esse primeiro passo. Tem um edital da Diagonal Norte-Diagonal Sul, que é ao<br />
longo do eixo da orla ferroviária e nós estamos dando para os alunos do oitavo semestre, que não<br />
gostam de planejamento. Os alunos do Mackenzie acham o planejamento uma chatice, porque não<br />
entendem a importância do desenho, do projetar a cidade. É igual fazer um projeto de edifício, mas é<br />
mais complexo. Podemos fazer uma analogia, mas tem uma outra complexidade.<br />
CENTRO<br />
Renata Mendes – Como você vê o centro hoje?<br />
Sempre falamos da renovação do centro, mas efetivamente o que é feito?<br />
Nadia – eu CORDENEI NA emURB um programa de reabilitação do centro que não é um planejamento<br />
urbano, é mais que isso, é um sistema de envolvimento do cidadão na construção de um espaço coletivo.<br />
Não é um projeto urbano, apesar de ter estudado projetos urbanos. Estruturei um programa de reabilitação<br />
complexo na área central, que foi referência. Acho uma pena... ele não parou mas continua lentamente...<br />
Havia previsão, por exemplo, de uma agência para cuidar do centro, foi bonito trabalhar na área central,<br />
porque eu trouxe a experiência do ABC, onde eu fiquei cinco anos e lá no Consórcio trabalhamos com<br />
grupos de trabalho que envolve não só as prefeituras, o governo do estado e Federal e também os<br />
movimentos sociais. No centro de São Paulo, envolvemos pessoas que gostam do centro. Por exemplo, o<br />
Pinheiro Neto queria permanecer no centro, ele deslocou um advogado da equipe dele para fazer parte do<br />
trabalho, para pensar a agência, para ajudar a pensar a legislação, pois tinha que mudar a lei de fachadas...
Então, tinha uma mobilização social para recuperar o centro. Que não é o centro só da cidade de São<br />
Paulo, é um centro metropolitano. Vimos a importância, não é o centro de São Paulo é o centro de todo<br />
mundo. Tinha essa mobilização mais ampla que foi parada, só por conta de transformações partidárias.<br />
Vou dar um exemplo de algo que o Serra parou e agora o Kassab está retomando: nós conseguimos em<br />
outubro de 2004, no final da administração, assinar um convênio com o Ministério da Cidade, com a<br />
Caixa Econômica Federal, com a ASBEA e com o SECOVI. Tem recursos do fundo de garantia para<br />
retrofit de edifícios. Agora está começando isso. Havia 12 projetos de edifício. A Secretaria tinha um fast<br />
track de aprovação, porque vocês abem como é chato aprovar na SEHAB e ainda reforma é mais<br />
complicado. Então, tinha a facilitação para o retrofit de edifícios, tínhamos 12 projetos, e aí o governo<br />
novo entrou e parou. Não tinha investimento nenhum, tinha apenas que colocar uma pessoa para<br />
coordenar isso e dizer para o Secretário da Habitação aprovar mais rapidamente, não ser tão rígido na<br />
aprovação, na burocracia. Quando existe uma agência fica uma certa independência das transformações<br />
partidárias e de quem fatura em cima do projeto, porque tem essas questões político partidárias, com as<br />
quais temos que conviver.<br />
Liliane Oraggio – Eu vi a reportagem do jornal nacional sobre o Retrofit no centro de São Paulo.<br />
Mostrando a moça que morava a uma hora e meia do trabalho, e o apartamento é enorme, tem mais<br />
espaço da cidade, qualidade de vida melhor e ela tem espaço em casa, cozinha grande, sala grande,<br />
do que as pessoas que pagam mais caro em ambientes muito apertados. E agora notei o imenso<br />
espectro de interesse de um arquiteto cidadão, que vai desde como vai planejar até se preocupar<br />
com o cachorro do morador de rua, que tem ali uma história, uma vida.<br />
Nadia – é um escopo bem grande. Mas por isso que tem espaço pra todo mundo. Tem que ver como<br />
vamos compor.<br />
Vinícius Spira – Você falou que propuseram novos usos para o comércio clássico no centro da<br />
cidade. Pode me dar uma visão de que medidas concretas foram tomadas para incentivar esses usos<br />
novos?<br />
Nadia – recuperamos o Mercado Municipal. Não dá para atuar no privado, mas a Mercearia Godinho<br />
permaneceu lá. Isso era uma coisa que queríamos incentivar, a permanência de alguns<br />
estabelecimentos e valorizar os comerciantes lá, eles tem uma organização, e temos uma<br />
interlocução bastante importante com eles.<br />
ESPAÇO PÚBLICO<br />
Renata Mendes – em relação ao espaço público... as pessoas não vivem o espaço publico, como você vê<br />
isso? Na Europa, as pessoas vivem o espaço público e há um investimento nisso...<br />
Nadia – Nessa pesquisa, estamos comparando a circulação de ideias de urbanismo entre São Paulo, Rio e<br />
Buenos Aires, nós percebemos o quanto a formação histórica tem um peso na própria constituição da<br />
sociedade, que te diferença entre São Paulo e Rio, e até no resultado urbanístico. Por exemplo, o Rio de<br />
Janeiro tem mais generosidade urbana, tem mais vida pública, mais vida cultural. O Flavio Villaça<br />
comparou, mesmo o Rio sendo menos forte economicamente que São Paulo, desde os anos 30, eles tem<br />
uma vida cultural mais intensa que a nossa. Tem mais exposições, tem mais teatro, mais cultura. O espaço<br />
público no Rio não é só físico, o espaço publico é entendido como palco de manifestações. Eles abraçam<br />
mais a Lagoa, por exemplo. Em São Paulo, que é a cidade do capital e do lucro, se pudesse não tinha nem<br />
calçada. Nós temos que mudar isso. E os novos projetos de eventos, para a Copa do Mundo, tem o<br />
Itaquerão, que é importante para a Zona Leste, vai melhorar... Não sei se vai dar tempo de fazer.<br />
Tem que ter um projeto, qual é o projeto? Não sabemos. Então não tem controle social dos projetos<br />
urbanos. Nós cobramos essa transparência da prefeitura. Não sabemos, é uma coisa fechada. Ante<br />
ontem eles apresentaram a Nova Luz e não sabemos muito bem como as coisas vão ocorrer e nem eles.<br />
O espaço público é algo que precisa ser essencial no desenho de um projeto urbano. Tem a experiência<br />
de Hamburgo. O professor Igor, do Mackenzie, fez uma pesquisa e esteve lá. Eles começaram o<br />
desenho do projeto urbano a partir do espaço público. Em geral, pensamos no plano de privado antes do<br />
de massa. Eles inverteram, começaram com o espaço público, evitaram ter shopping center, resgataram
o pequeno comércio de rua para atender a escala local. E depois, pensaram no privado. Pensamos no<br />
privado e o que sobra vira espaço público. Temos que começar pelo espaço público.<br />
Cristiano Miranda – como é essa relação do espaço público e do espaço privado? Por que vemos que há<br />
maior preocupação mais de empreendimentos do que em relação ao espaço público.<br />
Nadia – Empreendimentos são mega e o espaço público não é um espaço público institucional, voltado as<br />
grandes instituições, voltado a formação histórica que é bastante pesada. Em Berlim, temos o Peter Eisman,<br />
do lado do portão de Bradenburgo, com aquele monumento que ele fez às vítimas do Holocausto. É um<br />
cemitério, parece um cemitério de lápides cinza e o terreno em declive e você vai entrando e vai sendo<br />
enterrado... eu sonhei depois, tive pesadelo, passei mal, porque é uma coisa que mexe muito. É um espaço<br />
público muito carregado da história deles e é uma cidade um pouco especial. Ela não pode ser<br />
generalizada, é uma cidade muito cosmopolita, pois não são os berlinenses que estão lá, são os outros<br />
povos que estão lá, os outros alemães que foram para Berlim. Eles tratam muito bem os turistas. Tem uma<br />
culpa de sei lá do que. Berlim é caso diferenciado, mas podemos ver a mesma questão da formação<br />
histórica e do espaço público com características especiais.<br />
Renata Coelho – Por que você acha que São Paulo não explora o espaço público, falta de investimento, é<br />
falta de espaço físico, visando lucros? E a segunda pergunta: Por que São Paulo se tornou uma cidade<br />
difusa? Quais são as vantagens de uma cidade compacta? Por que prever uma cidade compacta?<br />
Por que São Paulo, ao contrário do Rio, foi a cidade onde o capital se desenvolveu, então, o interesse é o<br />
lucro máximo. É pensar em mercantilizar tudo. Se facilitar, viramos todos mercadoria aqui, né? É isso que<br />
temos que combater.<br />
A cidade difusa ela se construiu pelo mesmo motivo. Por que? Porque queriam vender automóvel,<br />
quanto mais distante, melhor, assim todo mundo vai precisar de automóvel. Não tem metrô, então,<br />
vende-se mais automóvel. O setor imobiliário procura áreas que a que chamamos de estágio<br />
monopolista de produção do espaço, que é diferente do estágio concorrencial, que é a invenção de uma<br />
localização.<br />
Vimos o exemplo de Alphaville. É um saco pagar pedágio, enfrentar o trânsito, mas inventaram um bairro<br />
maravilhoso que todo mundo ia morar muito bem. O setor imobiliário, pagou barato e inventou uma<br />
localização que teve mais lucro do que se fizesse aqui na Mooca, se utilizasse outras áreas industriais e<br />
fizesse um empreendimento compactando a cidade. Ia vender menos automóvel, ia ter menos lucro, pois<br />
o preço é alto, mas ia exigir mais metrô. Isso apenas como um exercício para você entender o porquê da<br />
cidade difusa. Porque interessou tanto ao capital imobiliário e não teve controle.<br />
Renata Coelho – Foi falta de controle ou a cidade difusa foi pensada visando lucro?<br />
Nadia – A cidade difusa foi pensada visando lucro. Agora o controle, eu vou contar uma coisa para vocês<br />
que só conto par ao pessoal da pós-graduação, precisamos entender o papel do Estado. O Estado está<br />
aqui, o poder público está aqui para garantir o lucro dos interessem econômicos. Eles não estão aqui para<br />
atender ao benefício da maioria. Tendemos a idealizar o Estado. O Harvey no último livro dele, ele diz que o<br />
Estado é uma ficção, o Estado não existe. O Estado está aqui para colocar o capital para circular. Ele só vai<br />
ter controle se interessar ao próprio desenvolvimento do capital. Agora a Prefeitura fala de uma cidade<br />
compacta que dilapida menos os recursos naturais, racionaliza mais a utilização do espaço, mas requer<br />
mais investimentos públicos para manter-se o mesmo lucro. Então, não é tão simples estes projetos da<br />
prefeitura serem implantados.<br />
Milena Gomes – E se não existe esse controle, essa regra? E uma sugestão que você faz que o próprio<br />
arquiteto convença o empreendedor a usar de maneira diferente o espaço. Isso não fica muito à mercê da<br />
boa vontade?<br />
Nadia – O controle existe, existe legislação, mas só que o zoneamento hoje só é atendido por 30% da<br />
cidade. 70% da cidade é irregular. Então, o controle existe, não existe a fiscalização, porque precisaria de<br />
um exército para fiscalizar e se fecha os olhos também... não quer dizer que não tem controle. O Estado<br />
atende os interesses econômicos. Se for possível, a flexibilização não é boa vontade, é questão de<br />
negociar. Por isso precisa haver transparência e controle social.
Renata Mendes – O empreendedor entende como perda de capital ceder um espaço para o público. Tem<br />
uma questão de segurança, de quantidade de dinheiro investido?<br />
Nadia – O que precisa é negociar e mostrar pra ele que ele vai ganhar com isso. No CAT, por exemplo, até<br />
o Piqueri, nem que seja visualmente, é melhor que no próprio investimento... eles vão perceber que a Zona<br />
Leste vai ganhar importância com o Itaquerão, então, há uma modificação. O professor Flávio Villaça, no<br />
livro o Espaço Intra-urbano no Brasil (ed. Studio Nobel), em que ele compara várias metrópoles, mostrando<br />
que tem determinadas áreas que são as áreas mais valorizadas da cidade. Em São Paulo é o setor<br />
Sudoeste. Percebemos que pode haver um interesse mais para o Leste, já tem o Jardim Anália Franco, já<br />
teve investimento em metrô. Mas, historicamente era o setor Sudoeste, vimos o deslocamento Centro para<br />
Paulista, Brigadeiro, Marginal, Berrini que tem esse eixo de valorização.<br />
Agora está tendo uma mudança de eixo de prestigio social e de valorização urbana. Essa questão pode<br />
ser mudada, o eixo de valorização. Não pdoemos idealizar o Estado, mas não podemos deixar a mão<br />
invisível do mercado fazer tudo. Então, precisa haver a possiblidade de ter espaço para os demais<br />
segmentos sociais que se pressionar pode ter benefícios. Não é de mão beijada que o Kassab vai dar<br />
habitação popular. É porque os movimentos ficam lá porta dele, acampam no Viaduto do Chá, na frente<br />
da prefeitura, pressionam. Então, se não houver a constituição da cidadania, a pressão, o poder público<br />
só vai atender aos interesses. Precisa ver essa constituição da cidadania. Por isso, o Ministério da<br />
Cidade tem conferência da cidade e os conselhos são coisa muito positiva pois permitem uma certa<br />
pressão no poder público, porque se deixar eles só fazem o que quer o poder imobiliário. Nós vivemos<br />
numa democracia e isso precisa ser mudado.<br />
Outra coisa é que o zoneamento e os planos são muito pesados para as transformações que ocorrem na<br />
sociedade atual. Leiam esse livro do Ascher, que ele fala dessas mudanças, e que precisamos pensar o<br />
desenho urbano de forma mais flexível, o que não quer dizer que não tenha a necessidade de um<br />
controle, mas esse controle não vem do nada, vem da pressão da sociedade que exige mais qualidade,<br />
mais redistribuição de renda, menos desigualdade, para fazer uma cidade melhor. Não um condomínio<br />
fechado. Vira anti-cidade.<br />
INTERLOCUÇÃO COM O SETOR IMOBILIÁRIO, CIDADANIA E PROJETO URBANO<br />
Renata Mendes – como mudar a mentalidade do lucro máximo, como mudar isso no setor imobiliário?<br />
Nadia - Mudando a sociedade. E conversando. Nós propusemos essa pesquisa para conversar com o setor<br />
imobiliário. A Academia nos criticou dizendo que éramos vendidos para o capital. Não é isso. Ter uma<br />
interlocução com o capital imobiliário não quer dizer que faça tudo que eles querem. Mas, queremos ouvir e<br />
ver o que eles querem. Eles mandam mesmo, quer queira quer não, mas ouvir e propor a busca dessa<br />
qualidade. E eles querem. Não todos, mas tem um pessoal do Secovi que está aberto para ouvir sobre a<br />
sustentabilidade. E tem que estar aberto para a sustentabilidade primeiro por que eles tem filhos, netos e<br />
pensam nas gerações futuras, mas também porque dá lucro, porque é marketing, porque é grife. E construir<br />
cidades pode dar lucro, a hora que eles perceberem conseguimos as duas coisas. É possível, mas dá<br />
trabalho.<br />
Milena Gomes - Você comentou a foto que apareceu o seu tio, que na Europa as pessoas têm essa cultura<br />
de pensar as cidades. Mas, aqui nós somos cidadãos arquitetos, e mais do que discutir podemos propor<br />
projetos. Eu queria saber se existe a possibilidade de, por exemplo, eu estar passeando pela cidade, vem<br />
uma ideia e eu faço um projeto e de chegar com esse material para alguém que possa viabilizar ou<br />
considerar essa ideia, esse projeto. Quais são os órgãos, para quem eu posso mostrar, existe essa<br />
possiblidade ou não? Qual o caminho?<br />
Nadia - Existe um processo em curso de descentralização. A prefeita Marta Suplicy propôs a criação de<br />
Subprefeituras. A partir de 2003, nós tivemos a divisão da cidade em subprefeituras. Antes era<br />
administração regional e o plano diretor foi elaborado antes do plano regional. Então, cada subprefeitura tem<br />
um plano regional. Cada plano regional tem lutar para que tenha, para que consiga fazer dentro de uma<br />
escala possível um planejamento de bairro, um projeto de bairro. Mas, isso não está muito, ninguém quer<br />
muito, já pensou quando começar eu quero isso, eu quero aqui, como fica? É uma coisa de difícil controle. É<br />
algo que tem que ser construído.
Em Roterdã, qualquer cidadão chega lá e desenha e é um instituto de arquitetos, o NAI, que é o IAB<br />
deles, que promove. O IAB tem incentivado esse debate e eu quero democratizar a questão do<br />
patrimônio histórico que diz respeito a todos nós. Não é bem o que você perguntou, mas cada um de nós<br />
tem algum elemento, algum edifício da cidade que faz parte da sua memória e quer preservar isso, mas<br />
queremos que a cidade seja contemporânea.<br />
Mas, voltando ao plano diretor de bairro, o Cândido Malta está fazendo um plano no Bairro de Perus.<br />
Tem uma subprefeitura e você pode perguntar, tem sempre audiência pública. É difícil ter uma ideia e<br />
chegar. Quando eu era presidente da Emurb todo dia chegava alguém com alguma ideia, mas como<br />
sistematizamos isso, precisa ter um canal que precisa ser construído, via plano regional, que deve ser<br />
revisto foi feito em 2004, e agora deve ir para uma revisão em 2012 junto com o plano diretor.<br />
Renata Mendes - Hoje um dos principais espaços de lazer da população é o shopping. Como você vê: é<br />
abrir, como vê a inserção dos caixotões, seguindo modelo norte americano...<br />
A sociedade contemporânea é marcada pela identificação da felicidade com o consumo. Ficamos felizes<br />
quando compra um vestido, um carro. O consumo faz parte, precisamos comprar algumas coisas, não<br />
precisamos ser consumistas, mas a vida exige que tenha essa ideia de consumo. Podemos ser crítico<br />
em relação a isso, mas faz parte da vida contemporânea. Não sou contra shopping, critiquei pessoal de<br />
Higienópolis que não queriam o Pátio Higienópolis e hoje amam, as velhinhas tomam café, os ônibus vão<br />
para Hebraica, valorizou os imóveis, criou uma centralidade. Não acho que tem que ser contra shopping,<br />
mas não só. Tem que ter parques outras coisas da vida pública, do espaço público. E o shopping e algo<br />
que não é democrático, não deixa entrar pobre. Porém, eu tenho viajado pelo Nordeste, com esses<br />
programas de distribuição de renda, podemos ter várias críticas ao Governo Federal, mas foi mudança<br />
grande no nordeste.<br />
A crítica que se faz é que agora tem um país de consumidores, ainda não são cidadãos. Mas, por<br />
exemplo, em Fortaleza, diminuiu o turismo sexual infantil que era muito forte há cinco anos, eu vi uma<br />
mudança. Eu fui para shopping na periferia tinham multidões, comprando camisetas e tênis, mas tinham<br />
multidões nos shoppings e agora eles podem comprar. A vida é isso? Não. Mas, é uma parte, faz circular<br />
a economia, segura as pessoas no Nordeste, não vem todo mundo pra cá. Temos que pensar de<br />
maneira ampla, sempre de forma crítica, só consumir não nos fará felizes, com certeza. Não quereremos<br />
só comida, mas não queremos só tênis e camiseta, queremos muito mais. Mas, é um avanço essa<br />
redistribuição de renda que acontece no país e que redistribuiu a riqueza, não deixou tudo concentrado<br />
aqui, pois isso só causa aumento dos problemas, provoca a construção da anti-cidade.<br />
PLANO DIRETOR<br />
Dudu – Durante um tempo fiz trabalho no Itaú com grupo e começamos a verificar que o prédio da Boa<br />
Vista 176, um edifício da década de 60, foi sendo construído como a cidade de São Paulo, com grandes<br />
vãos, 60.000 m2 quadrados, estava no Centro, tinha garagem, funcionava o banco todo, e depois eles<br />
resolveram, compraram o Olavo era prefeito e viu o centro Conceição. E foram abandonando lá. A bolsa não<br />
era uma coisa física e já virtual. Aquilo começou a decair. Eles reformavam apenas um canto do prédio,<br />
entrava um gerente e outro e ia fazendo aos poucos. Vimos que gastava 2 milhões de dólares por ano para<br />
fazer a manutenção do prédio. A manutenção significa você andar e ficar igual. Percebemos que tinha<br />
problemas de segurança, propôs-se um estudo e fez um plano diretor para o prédio. Em vez de gastar 2<br />
milhões por ano, poderiam gastar três ou quatro, dependendo do prazo que eles quisessem num tempo e<br />
reformulariam o prédio todo. Nós fizemos as contas, nós fizemos um projeto de várias partes, se eles<br />
seguissem dava tudo certo. Mostramos e o Luiz Antonio, apresentamos para a vice-presidência, pessoas<br />
que tinham que decidir no dia-a-dia como fazer esse investimento, que seria maior, mas que poderia ter um<br />
resultado. Estamos falando de plano diretor. Sem fazer as contas, eles concluíram que não iam gastar 15<br />
milhões nesse prédio, o plano está reprovado. Só que as forças também não são assim. Uma engenheira<br />
percebeu que o prédio era importante, tiraram os administradores e colocaram a engenheira. Ela pegou o<br />
plano e seguiu hoje é a sede do Banco do Governo do Estado. Porque ele ficou completamente pronto,<br />
gastando um pouco a mais do que a manutenção. O que é o plano diretor?<br />
Nadia – Temos que entender o que é o plano diretor urbano. Não sou contra o plano diretor, sempre<br />
trabalhei em plano diretor, só que precisamos entender o que é plano diretor na Cidade de São Paulo. Nós<br />
fizemos um livro, “A Cidade que Não Pode Parar” que é meu do Cândido Malta, que são as aulas de
urbanismo. O Flávio Villaça diz que plano diretor é só o discurso, nós não concordamos e fizemos uma<br />
pesquisa e mostramos que aparentemente é discurso, que o que acontece na cidade parece que não é<br />
respeitado o plano, mesmo que aparentemente não tenham sido aprovados na câmara vão construindo ao<br />
longo século XX, que é o nosso recorte temporal, vai construindo cidade. Não sou contra plano diretor, sou<br />
a favor do plano diretor como projeto de longo prazo, mas hoje precisamos de direções pontuais. Então, nós<br />
estamos concordando.<br />
Dudu – Nós estamos concordando. Nessa visão vejo duas coisas. Um é o problema de prazo, consciência<br />
de prazo. O plano não é compreendido, pois a visão das pessoas é imediatista. Por isso, que eu falei que o<br />
incorporador não vê o patrimônio lá na frente, só vê o de hoje. Acho que a noção de prazo, mesmo que o<br />
gerente seja o governo e para as pessoas é muito. Em 70, eu entrei na Faculdade, entrei no Masp e vi o<br />
projeto do Vale do Anhangabaú, entre o projeto e a realização levou 15 anos. Para vocês é uma coisa velha.<br />
Para nós não foi, demorou um tempão. E você está falando que lá na França a mesma pessoa está há 17<br />
anos no gerenciamento da cidade. Quando foi feito o plano da Conceição, tinha lá o José Eduardo Lefèvre,<br />
eu peguei projeto no final da década de 80, para fazer a última etapa. Eu falava com ele, ele estava há 20<br />
anos lá. Vinte anos depois as pessoas veem aquilo que está lá e parece que não passou o tempo. Então,<br />
essa noção de tempo que eu acho que temos que melhorar. O que mostra fisicamente a cidade, se não são<br />
os prédios? O tempo do prédio e o tempo da cidade são muito diferentes.<br />
Nadia – Naquele livrinho que eu recomendei o Ascher fala que temos que lidar com essa dupla<br />
temporalidade contemporaneidade. As transformações rápidas da sociedade, cada vez mais rápido, cada<br />
dia tem uma novidade. E a lentidão do quadro construído tanto da cidade quanto do edifício e o edifício em<br />
relação à cidade, a precisamos entender como se constrói essa relação. Não dá para pensar o edifício sem<br />
pensar onde estamos colocando o edifício. E a questão do espaço publico é essencial, como se constrói a<br />
partir do espaço público existente e ampliando a temporalidade desse espaço público. E também discutimos<br />
a questão das escalas. Temos que entender, insisto muito com os meus alunos, quando a pegamos um<br />
fragmento urbano, ele está pegando o Lapa-Brás, não podemos só pensar no projeto novo, como pensamos<br />
em um terreno. Quando elaboramos um projeto, não é só olhar o terreno, mas olhar onde está inserido e no<br />
projeto urbano tem que entender em que mundo que ele está hoje. Não é só em que município, em que<br />
macrometrópole, em que país, mas em que mundo que ele está. Então essa coisa da longa duração e das<br />
escalas é algo que temos que trabalhar. E tem uma divergência no Mackenzie, tem um grupo que acha que<br />
o edifício é isolado e outro que tem que ter a relação com a cidade. Defendemos isso. Quando eu assumi a<br />
diretoria do Mackenzie, não queriam que eu fosse. A turma do projeto dizia que eu ia transformar essa<br />
escola numa escola de urbanista. Mas, eu sou arquiteta e a minha visão de urbanismo, é visão de arquiteta.<br />
É isso que eu mostrei aqui nessa interface. Eu não transformei a escola numa escola de urbanismo. Tem<br />
uma divergência da turma que só olha o edifício e outros que entendem a arquitetura como a construção da<br />
cidade.<br />
Dudu – Isso acabou. Quando estávamos na Faculdade, a discussão era contextualismo e formalismo. Essa<br />
era a discussão. Havia os contextualistas, que eram contra o modelo europeu, em que tinha que se fazer<br />
um prédio igual ao outro. E somos contra os americanos que cada prédio é um prédio. Hoje vemos os<br />
europeus fazendo uma contextualização totalmente formalista, que mostrou aí. Eles radicalizaram e não<br />
entenderam nada.<br />
Nadia – mas, não é fácil. Não é uma questão resolvida. Mesmo para quem entende que é preciso pensar o<br />
edifício construindo cidade. Você não constrói cidade porque se depende do espaço público. Então, a<br />
questão do espaço público é essencial.<br />
OS ARQUITETOS E A MULTIDISCIPLINARIDADE<br />
Carolina – um fator que só vi na faculdade, e não na minha atuação como arquiteta é a questão da<br />
multidisciplinaridade. As nossas bases teóricas, muitas, são de geógrafos, sociólogos, e o arquiteto com<br />
essa interação, na faculdade se vê isso. Mas sentimos falta dessa conexão, entre os poderes de decisão, o<br />
sociólogo, o assistente social como se o arquiteto ou o urbanista fossem contra. É a estão que proporia essa<br />
integração? O DPH trabalhar junto num projeto, para entender que um empreendimento...
Nadia – Carol é minha orientanda de mestrado e trabalhou com Dudu, por isso a convidei para estar aqui.<br />
Então, primeiro o arquiteto não produz teoria, produzimos pouco, precisamos emprestar da sociologia, da<br />
economia, da geografia para construir teoria. Não temos teoria da arquitetura, mas temos que construir um<br />
discurso. Usamos as diversas teorias das disciplinas, porque a nossa especificidade profissional é outra.<br />
Porque temos, justamente, esse papel coordenador interdisciplinar. Não produzimos teoria, mas constrói,<br />
coordena e somos os únicos que temos a visão, a formação para coordenar. Mas nós temos pesquisa em<br />
arquitetura e especificidade da pós- graduação do Mackenzie, que eu acho que quem fez um trabalho de<br />
pesquisa em arquitetura... Acho que o Dudu inovou em termos de mestrado, inova em termos de pesquisa<br />
em arquitetura, e como podemos usar a nossa linguagem, que não é histórica. O Júlio fez um mestrado<br />
também histórico a respeito dos concursos da Itauplan, ele historiou e fez um trabalho de documentação do<br />
que foi o processo de produção de uma instituição privada. O Jaime Cupertino mostrou quais são as<br />
referências para ele projetar o SEIC, lá no Jabaquara. Ele fez um trabalho de crítica de reflexão sobre a<br />
fundamentação teórica dele. Agora o Dudu usou o desenho como pesquisa. São três tipos. A Carol está<br />
estudando os condomínios fechados e a verticalização, estamos fazendo um trabalho histórico. Mas, o Dudu<br />
inovou porque usou o desenho como instrumento de pesquisa.<br />
PESQUISA EM ARQUITETURA E A TESE: VOLUME E VOLUMETRIA<br />
Dudu – Nunca tinha visto uma pesquisa primária em arquitetura. Quando pensamos em uma pesquisa<br />
primária, pensa naquele que fica desenhando para dizer em desenho e não a pesquisa em si. Eu achava<br />
que tinha que fazer uma produção primária. A produzimos primariamente. Não sei se é inovador.<br />
Nadia – é inovador e ainda as pessoas não atinam. Nós estamos acostumados a fazer pesquisas históricas,<br />
críticas, documentais, buscando quais são as referências, tem também isso. No Mackenzie fazemos esse<br />
tipo de pesquisa. Mas a gestão é de quem tem uma formação generalista como a nossa de arquitetos.<br />
Enquanto a contemporaneidade está levando para a fragmentação, precisamos ter essa formação<br />
generalista e essa visão mais ampla que nos permite coordenar as várias visões. E nós temos uma<br />
formação, uma possiblidade de gestão mais ampla.<br />
Carol – uma das melhores aulas que tivemos foi o Flávio Villaça e um grupo de arquitetos e sociólogos, foi o<br />
melhor debate que já vi, na PUC. Cada um desde o Bolsa Família até a questão do Centro, tudo isso foi<br />
falado e na visão de que tem que ser para o bem da cidade.<br />
Nadia – por isso que a nossa visão tem que ser multidisciplinar, temos que entender um pouco de tudo<br />
como a Liliane percebeu que temos um escopo amplo, precisamos ter formação generalista. Se não viramos<br />
projetista de edifício, sem pensar no todo. Como temos esse objeto amplo de trabalho, precisamos ter uma<br />
formação generalista, daí a importância de vocês irem à Bienal, a importância de ver a Mostra de Cinema,<br />
Teatro. A formação do arquiteto não só da Escola é mais ampla que implica passar por outras disciplinas e<br />
entender a contemporaneidade.<br />
[Transcrição e Edição: Liliane Oraggio, novembro 2010]