didática - Unijuí
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Universidade regional do noroeste do estado do rio grande do sUl – UnijUí<br />
vice-reitoria de gradUação – vrg<br />
coordenadoria de edUcação a distância – cead<br />
coleção educação a distância<br />
série livro-texto<br />
anna rosa Fontella santiago<br />
eronita silva Barcelos<br />
eulalia Beschorner Marin<br />
Hedi Maria luft<br />
iselda sausen Feil<br />
lori Maria Frantz<br />
Maridalva Bonfanti Maldaner<br />
solange catarina Manzoni rufino<br />
<strong>didática</strong><br />
Ijuí, Rio Grande do Sul, Brasil<br />
2010
© 2010, Editora <strong>Unijuí</strong><br />
Rua do Comércio, 1364<br />
98700-000 - Ijuí - RS - Brasil<br />
Fone: (0__55) 3332-0217<br />
Fax: (0__55) 3332-0216<br />
E-mail: editora@unijui.edu.br<br />
Http://www.editoraunijui.com.br<br />
Editor: Gilmar Antonio Bedin<br />
Editor-adjunto: Joel Corso<br />
Capa: Elias Ricardo Schüssler<br />
Designer Educacional: Jociane Dal Molin Berbaum<br />
Responsabilidade Editorial, Gráfica e Administrativa:<br />
Editora <strong>Unijuí</strong> da Universidade Regional do Noroeste<br />
do Estado do Rio Grande do Sul (<strong>Unijuí</strong>; Ijuí, RS, Brasil)<br />
Catalogação na Publicação:<br />
Biblioteca Universitária Mario Osorio Marques – <strong>Unijuí</strong><br />
D558 Didática / Anna Rosa Fontella Santiago ... [et al.]. – Ijuí :<br />
Ed. <strong>Unijuí</strong>. 2010. - 90 p. - (Coleção educação a distância.<br />
Série livro-texto).<br />
ISBN 978-85-7429-860-3<br />
1. Educação. 2. Didática. 3. Planejamento didático.<br />
4. Docência. I. Santiago, Anna Rosa Fontella. II. Título.<br />
III. Série.<br />
CDU : 37<br />
371.3
Sumário<br />
CONHECENDO O PROFESSOR ..................................................................................................5<br />
APRESENTAçãO .........................................................................................................................15<br />
UNIDADE 1 – A DIDáTICA NA FORMAçãO DO PROFESSOR:<br />
Constituição e Saberes ........................................................................................17<br />
Seção 1.1 – Didática e Formação Docente ..............................................................................17<br />
Seção 1.2 – Saberes Necessários à Prática de Docência ........................................................22<br />
Seção 1.3 – Formação, Experiência e Saber: processos identitários .....................................29<br />
UNIDADE 2 – CONHECIMENTO E APRENDIzAGEM:<br />
Interdependência, Mediação e Processos de Significação ...............................39<br />
Seção 2.1 – Conhecimento e Aprendizagem:<br />
interdependência, mediação e processos de significação .................................39<br />
UNIDADE 3 – PlANEJAMENTO DIDáTICO:<br />
Elementos Constitutivos e Práticas na área de Formação Docente ..................47<br />
Seção 3.1 – Planejamento Educacional: razões, sentidos e práticas .....................................47<br />
UNIDADE 4 – AvAlIAçãO NA PERSPECTIvA DA INClUSãO ESCOlAR E SOCIAl:<br />
Teorias e Práticas Alternativas ......................................................................................................69<br />
Seção 4.1 – Avaliação na Perspectiva da Inclusão Escolar e Social:<br />
teorias e práticas alternativas .............................................................................69<br />
Seção 4.2 – Avaliação no Contexto Escolar .............................................................................78<br />
Seção 4.3 – Avaliação na sua Função Diagnóstico .................................................................81<br />
REFERêNCIAS .............................................................................................................................85
Conhecendo o Professor<br />
EaD<br />
Anna Rosa Fontella Santiago<br />
Doutora em educação pela UFRGS, professora no curso de<br />
Pedagogia e no Programa de Pós-Graduação em Educação nas Ciências<br />
da <strong>Unijuí</strong>; pesquisadora com várias publicações na área do<br />
currículo e das políticas públicas de educação.<br />
Eronita Silva Barcelos<br />
Sou professora universitária na <strong>Unijuí</strong>, vinculada ao Departamento<br />
de Pedagogia há quatro décadas, tendo iniciado minha<br />
inserção na docência nesse nível de ensino em março de 1965 com<br />
24 anos de idade. Chegar a esse lugar foi uma conquista e tanto em<br />
meu projeto de vida.<br />
Como cheguei até aqui? Para responder, explicito um pouco<br />
da história de meu percurso na constituição da professora que me<br />
tornei.<br />
Nasci no município de Soledade (RS), em maio de 1940, sendo<br />
a segunda filha de uma família de seis filhos. Moradora do interior<br />
do município, minha primeira experiência de aprendizagem escolar<br />
aconteceu em uma escola multisseriada, em 1945, aos 5 anos. Isso<br />
aconteceu porque, por decisão de meus pais, acompanhava meu irmão<br />
com 8 anos à escola, distante mais ou menos 10 km de nossa casa.<br />
Imediatamente me encantei com aquele ambiente onde se aprendia<br />
coisas das quais nunca havia ouvido falar e com aquela professora<br />
tão tranquila, atendendo uma turma com níveis de aprendizagem<br />
diferentes. Andar 20 km diariamente, atravessando campos e matas,<br />
não era motivo, para mim, de cansaço ou insatisfação. Ao contrário,<br />
era algo que fazia com muito prazer e cheia de curiosidade sobre<br />
o que aconteceria naquele dia na casa da professora Gessi, onde<br />
funcionava a escola.<br />
<strong>didática</strong><br />
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EaD anna r. F. santiago – eronita s. Barcelos – eulalia B. Marin – Hedi M. luft – iselda s. Feil – lori M. Frantz – Maridalva B. Maldaner – solange c. M. rufino<br />
6<br />
Foi nesse período de minha infância que surgiu meu primeiro<br />
ensaio de decisão: queria ser uma professora como dona Gessi. No<br />
final daquele ano (1945), meu irmão ganhou um prêmio da professora<br />
pelo seu desempenho na alfabetização e eu estava lendo e escrevendo,<br />
embora não tivesse o atendimento da professora como aluna. Ela<br />
dava, no entanto, algumas olhadelas e sorria, constatando que eu<br />
me aventurava nas atividades “passadas” para meu irmão. Aquele<br />
sorriso continua muito nítido em minha memória e no sentido que<br />
teve no surgimento de minha paixão pela educação.<br />
Buscando melhores condições de educação para nós, seus<br />
filhos, meus pais mudaram para a cidade em 1948. Matriculada na<br />
Escola Santa Inês, orientada por uma congregação religiosa de irmãs,<br />
cursei o primeiro ano, embora já alfabetizada. Minha idade (7 anos)<br />
não permitia outra opção. Isso me oportunizou, porém, a participar<br />
das aulas auxiliando colegas quando a professora solicitava. Minha<br />
decisão de ser professora fundamentava-se nessas situações. Concluído<br />
os cinco anos do primário, fiz exame de admissão ao ginásio<br />
(normas do ensino na década de 40) e ingressei no Ginásio São José<br />
(Soledade) da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos (Franciscanos).<br />
Finalizados os quatro anos do Ginásio, eu havia concluído o que<br />
hoje seria o Ensino Fundamental. Fui, então, em busca de realização<br />
de minha opção: “me formar professora”. De 1957 a 1959, na Escola<br />
Normal Santíssima Trindade de Cruz Alta-RS, (também de orientação<br />
franciscana), em sistema de internato, realizei meu sonho de,<br />
cursando o Magistério, habilitar-me a uma nomeação para a função<br />
de professora.<br />
Em 1957, em Ijuí (RS), cria-se uma instituição de ensino superior<br />
voltada à formação de professores, em especial para qualificar<br />
o ensino secundário (Médio). Minhas professoras no Magistério,<br />
na quase totalidade, tornaram-se alunas dessa instituição, a Faculdade<br />
de Filosofia, Ciências e letras de Ijuí – Fafi –, hoje <strong>Unijuí</strong>. O<br />
entusiasmo das mesmas com os estudos e novidades aprendidas foi<br />
contagiando suas alunas, e eu, ao receber o Diploma de Professora,<br />
já havia decidido que faria vestibular para o curso de Pedagogia,<br />
que ao lado do curso de Filosofia, recebia em 1960 sua quarta turma.<br />
Obtive sucesso no vestibular, integrei essa quarta turma e tornei-me<br />
uma habitante de Ijuí.
EaD<br />
Para coroar meus anseios, em 6 de junho desse ano fui no-<br />
meada como professora para uma escola da rede estadual de ensino<br />
em Ijuí. Nessa Escola convivi durante 23 anos com colegas, alunos<br />
e seus familiares em processo permeado por descobertas, surpresas<br />
estimulantes, frustrações exigentes de revisão de modos de ver o<br />
contexto e as pessoas nele inseridas, de aprendizagens ricas na generosidade<br />
das colegas mais experientes, de desafios pedagógicos a<br />
cada grupo de crianças ou de adolescentes que me eram confiados<br />
para um percurso educativo que lhes fizesse a diferença.<br />
Com o privilégio de estar no exercício da docência, simultaneamente<br />
à vida acadêmica de aluna do ensino superior, tive<br />
caminhos alternativos de entendimentos novos e fundamentados<br />
pelo conhecimento cambiante nesses espaços. A docência torna-se<br />
foco percebido por mim como algo complexo e sem possibilidade de<br />
sentido, senão pela reflexão corajosa e sempre emergente de todas<br />
as situações que provoca ou a provocam.<br />
Ao concluir o curso de Pedagogia, em 1964, recebi um dos<br />
maiores prêmios, o convite para ser professora na Fafi. Bastante temerosa,<br />
mas desafiada e feliz, aceitei o convite e em março de 1965<br />
assumi o compromisso, comigo mesmo em primeira instância, de<br />
fazer jus a essa oportunidade conquistada, com dedicação, muito<br />
diálogo com outros educadores e alunos e com o cultivo da paixão<br />
que me havia conduzido até esse momento.<br />
Aprofundei estudos em dois cursos de Pós-Graduação lato<br />
sensu. O primeiro em Metodologia do Ensino realizado na <strong>Unijuí</strong> e<br />
o segundo em Educação a Distância pela Universidade de Brasília<br />
(UNB) e Cátedra Unesco.<br />
Além da docência, que é o que move minhas mais intensas<br />
energias, cresci em experiências como supervisora escolar e diretora<br />
de escola e, também na Universidade, em funções de coordenação<br />
de programas, chefia de departamento, direção de instituto e Centros<br />
Integrados de ensino Superior e como vice-Reitora de Graduação e<br />
Reitora, gestão concluída em 2004.<br />
Apesar dos muitos anos na aprendizagem de ser professor,<br />
constituindo com muitos coletivos de educadores e alunos o sentido<br />
e a “boniteza” da docência, me sinto, ainda, desafiada e estimulada<br />
a estar com gente no afã de educar e me educar sem perda da<br />
<strong>didática</strong><br />
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EaD anna r. F. santiago – eronita s. Barcelos – eulalia B. Marin – Hedi M. luft – iselda s. Feil – lori M. Frantz – Maridalva B. Maldaner – solange c. M. rufino<br />
8<br />
energia da opção que fui tecendo nas várias fases da minha vida e<br />
nos contextos povoados de outros que me foram mestres, colegas,<br />
companheiros de ideias ou permanentes contestadores de minhas<br />
posições, críticos de minha forma de ser e agir, mas sempre importantes<br />
outros, na alternância do construir/socializar saberes.<br />
Eulalia Beschorner Marin<br />
Possui Graduação em Ciências: Plena em Química pela Universidade<br />
Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (1984)<br />
e Mestrado em Educação nas Ciências pela Universidade Regional<br />
do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (2006). Atualmente<br />
é professora assistente da Universidade Regional do Noroeste do<br />
Estado do Rio Grande do Sul. Atua nos cursos de Química, Biologia<br />
e Pedagogia com ênfase em Metodologia. Pesquisa especialmente<br />
Cultura, Infância e Ciências da Natureza, Juventude, Normas e<br />
Escolarização.<br />
Hedi Maria Luft<br />
“(...) Temos, todos que vivemos,<br />
Uma vida que é vivida<br />
E outra vida que é pensada,<br />
E a única vida que temos<br />
É essa que é dividida<br />
Entre a verdadeira e a errada (...)”<br />
(Pessoa, 2008, p. 36).<br />
Descrever quem somos é sempre desafiador. Estudaremos<br />
Didática juntos, portanto, desde a apresentação já vamos usar uma<br />
dinâmica didático-pedagógica para nos conhecermos. Isso mesmo,<br />
nos conhecermos, porque o objeto deste componente curricular é<br />
ensinar e aprender. A primeira competência de quem deseja ensinar<br />
é querer aprender, aliás, quem mais precisa aprender é aquele que<br />
deseja ensinar. Faremos isto em forma de questões.<br />
De onde viemos? O lugar onde nasci chama-se linha Flor da<br />
Serra – interior de um pequeno município da Região Celeiro, localizado<br />
a Noroeste do Estado do RS, São Martinho. Nesta vila havia
EaD<br />
uma escola pública municipal – Sagrado Coração de Jesus – multisseriada,<br />
onde iniciei minha primeira série e, a partir da quinta série,<br />
a única opção possível para quem desejasse continuar estudando era<br />
deslocar-se à sede do município. Concluí o Ensino Fundamental no<br />
Ginásio Estadual de São Martinho, ainda na época em que as aulas<br />
aconteciam no Salão Paroquial.<br />
Para onde vamos? Na certeza de assumir a docência, fiz meu<br />
Curso Normal, na época chamado de Magistério, na Escola Nossa<br />
Senhora Auxiliadora de Frederico Westphalen. Foi uma experiência<br />
muito enriquecedora. Em 1983 iniciei meu tão sonhado curso de Pedagogia,<br />
na Faculdade Salesiana Dom Bosco, hoje <strong>Unijuí</strong>, e no mesmo<br />
período obtive meu primeiro emprego como professora no Colégio<br />
Santa Rosa de lima – liminha, como é conhecido carinhosamente.<br />
Nesta escola, realizei muitas experiências e atuei em diferentes<br />
funções como: professora, coordenadora pedagógica, supervisora<br />
de estágio e vice-diretora.<br />
Que experiências escrevemos? Em 1989 assumi um desafio que<br />
me acompanha até hoje. A primeira experiência com alunos trabalhadores<br />
de escola pública municipal – Escola Municipal Professor<br />
Francisco Xavier Giordani, no turno da noite. A questão de estudar<br />
e trabalhar sempre me mobilizou. No espaço da escola de alunos<br />
trabalhadores há muitas faltas, mas uma que mais me desafia é a falta<br />
de uma organização curricular efetivamente adequada aos que estudam<br />
e trabalham. Em agosto de 1990 iniciei minhas atividades como<br />
professora na Faculdade Salesiana Dom Bosco, que no ano posterior<br />
é assumida pela <strong>Unijuí</strong>, um marco importantíssimo na minha prática<br />
profissional. Dali por diante minha experiência foi sempre conjugada<br />
entre as atividades da <strong>Unijuí</strong> e a escola pública, ora atuando na rede<br />
municipal como supervisora de ensino, coordenadora pedagógica,<br />
ora como professora da rede estadual, atuando no Curso Normal do<br />
Instituto de Educação Estadual visconde de Cairu.<br />
O que é relevante na formação de professores? A formação<br />
contínua é indispensável na vida de um professor. Repensar permanentemente<br />
nossas práticas e nosso quefazer na educação é<br />
fundamental. Por isso, atualmente, estou envolvida com o Curso de<br />
Pós-Graduação em Educação pela Universidade do vale dos Sinos<br />
<strong>didática</strong><br />
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EaD anna r. F. santiago – eronita s. Barcelos – eulalia B. Marin – Hedi M. luft – iselda s. Feil – lori M. Frantz – Maridalva B. Maldaner – solange c. M. rufino<br />
10<br />
– Unisinos. Um Curso que proporciona muitas oportunidades, especialmente<br />
o Doutorado Sanduíche que realizei em lisboa – Portugal,<br />
durante quatro meses.<br />
O que fazemos? Na <strong>Unijuí</strong> trabalho nos diversos cursos de licenciaturas<br />
e neste componente curricular da Didática encontramos<br />
realidades muito distantes e muito ricas, portanto dignas de socialização.<br />
Desejo que possa lhe auxiliar na formação de professor. Além<br />
destas atividades, integro o Conselho Municipal de Educação de<br />
Santa Rosa, que muito subsidia as discussões pedagógicas e legais<br />
das escolas, além de coordenar a Seção da Pedagogia no Campus<br />
Santa Rosa.<br />
Iselda Sausen Feil<br />
Iselda Teresinha Sausen Feil é professora do Departamento de<br />
Pedagogia da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio<br />
Grande do Sul (<strong>Unijuí</strong>), lecionando as disciplinas de Metodologia<br />
de Ensino, Didática, Alfabetização, Currículo e Docência na Educação<br />
Infantil e nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental no Curso<br />
de Pedagogia, do qual foi coordenadora. Foi professora e diretora<br />
de Escola e coordenadora pedagógica na Secretaria Municipal de<br />
Educação de Ijuí. Assessora escolas e órgãos de ensino na instituição<br />
e execução de propostas pedagógicas e curriculares.<br />
Lori Maria Frantz<br />
Meu nome é lori Maria Frantz, Specht Kunz de solteira. lori,<br />
por que a meu pai lembrava a história de lorelei.<br />
Sou loira escura, com matizes arruivadas. Segundo um professor<br />
de português que tive no Ensino Médio, tenho a “cor de burro<br />
quando foge” e olhos azuis, com formato asiático...<br />
Comecei minha escolaridade em escola situada numa comunidade<br />
interiorana. logo descobri que existiam castigos para certas<br />
“artes”, como, por exemplo, comunicar-se em língua estrangeira no<br />
horário do recreio, o que me fez ficar na escadaria externa da escola,<br />
no primeiro dia de aula, com livro aberto na mão... sem saber ler!
EaD<br />
Posteriormente fiz minha formação de professora. Trabalhei<br />
durante 4 anos com alunos de 1ª a 3ª séries, apesar do alerta da<br />
madre superiora: “Como você vai impor respeito a seus alunos com<br />
essa cortina de boba?”. Ela referia-se à franja do meu cabelo (novamente<br />
o cabelo!!!).<br />
Concluído o Ensino Médio e chegado o momento de entrar na<br />
universidade, cheguei a Ijuí, onde resido até hoje. Cursei letras na<br />
<strong>Unijuí</strong> e, posteriormente, Mestrado em Études Des Societés latino<br />
Américaines, no Instituto de Altos Estudos para a América latina,<br />
Université de Paris III (Sorbonne-Nouvelle), na França.<br />
Desde o início da minha atividade do magistério no ensino<br />
superior, dediquei-me à formação de docentes, iniciando pelo curso<br />
de licenciatura em letras e ampliando minha atuação na orientação<br />
de estágios nos cursos de Artes visuais e História, bem como na<br />
<strong>didática</strong> em diversos cursos de licenciatura.<br />
Também atuo na coordenação do curso de Formação Pedagógica<br />
para Bacharéis e desenvolvo trabalho de extensão em projeto<br />
de formação de jovens rurais, da Casa Familiar Rural da Região de<br />
Ijuí.<br />
Meu esposo é professor na <strong>Unijuí</strong>, atualmente vice-reitor de<br />
Pesquisa e Extensão. Temos três filhas: uma psicóloga, uma fisioterapeuta<br />
e uma fotógrafa.<br />
Maridalva Bonfanti Maldaner<br />
Nasci na década de 50, num município da Serra Gaúcha chamado<br />
Farroupilha. Filha de descendentes de italianos, convivi toda<br />
minha infância com meus familiares vitivinicultores. Sou licenciada<br />
em Estudos Sociais pela Universidade de Passo Fundo e em Geografia<br />
pela <strong>Unijuí</strong>. Trabalhei como professora de 1º e 2º graus nos<br />
municípios de Chapecó/SC e em Ijuí. Em 1983 concluí o Mestrado<br />
em Metodologia do Ensino pela Universidade Estadual de Campinas<br />
e, mais tarde, nessa mesma instituição, ingressei no Doutorado.<br />
Comecei a lecionar na <strong>Unijuí</strong> em 1981 como professora do Departamento<br />
de Pedagogia nas disciplinas de Didática, Práticas de Ensino<br />
e Estágios Supervisionados nos diversos cursos de licenciatura,<br />
<strong>didática</strong><br />
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12<br />
e Fundamentos e Metodologia de Ensino na Pedagogia. Desenvolvi<br />
atividades na administração universitária como chefe de Departamento,<br />
coordenadora de cursos de Pós-Graduação, coordenadora<br />
de extensão, mas é como professora que me realizo mais. Foi nesse<br />
espaço que me constituí professora nas interações com meus alunos,<br />
colegas e o conhecimento. levo em consideração que meu papel de<br />
professora vai se constituindo misturado a minha vida de menina,<br />
mulher, filha, irmã, esposa, mãe, avó, com todas suas práticas, rituais,<br />
fazeres, afazeres, desejos, medos, aspirações e frustrações, modos<br />
de dizer e de silenciar, que são histórica e socialmente construídos<br />
e que trazem comigo os significados que consigo dar a mim mesma<br />
sobre a vida e as experiências vividas.<br />
Solange Catarina Manzoni Rufino<br />
Nasci em 25 de novembro de 1955, no município de Manoel<br />
viana. Meus pais: volmir Afonso Manzoni e Terezinha Joana Frizzo<br />
Manzoni. Por estas peças que a vida nos prega, quando completei um<br />
ano e meio minha mãe adoeceu, vindo a falecer aos 24 anos. Passei<br />
então a viver em uma pequena comunidade rural – Nova Esperança<br />
do Sul – juntamente com os meus avós maternos e tios, cercada de<br />
muito amor e carinho.<br />
Mais tarde, quando completei 8 anos, ganhei uma nova família:<br />
uma mãe, um irmão e três irmãs do segundo casamento de meu pai,<br />
meus queridos e fiéis companheiros.<br />
Em 1976 vim para Ijuí a convite dos meus tios e, graças a sua<br />
ajuda, fiz o curso de Pedagogia e iniciei minha vida profissional nesta<br />
cidade que me acolhe até hoje. Aqui constituí também minha família,<br />
com meu esposo e meu querido filho Eduardo.<br />
Graduei-me em Pedagogia em 1983 e, logo em seguida, fiz<br />
Especialização na área de Supervisão Escolar, cuja função passei a<br />
exercer na Escola Francisco de Assis.<br />
Esta experiência marcou significativamente minha constituição<br />
profissional. Por ser uma escola de vanguarda, havia uma exigência<br />
de atualização em termos de propostas educacionais. O grupo que a<br />
constituía distinguia-se por ser, de certa forma, “seleto” em termos de
EaD<br />
conhecimentos, posturas e valores de vida. Esse contexto trazia um<br />
grau elevado de exigência a quem ingressava neste espaço. Denomino<br />
o primeiro momento neste lugar de “inquietação”, o que surge é<br />
algo novo: “lá” as coisas podem acontecer, pessoas “arejadas”, vestes<br />
diferentes, grupos de estudo, trabalho com arte, projetos de trabalho,<br />
respeito à criatividade infantil, estudos sobre grafismo, a livre-expressão...<br />
As práticas educacionais querem a sala de aula como um espaço<br />
onde as crianças descubram, pensem, inventem e se sintam bem. O<br />
planejamento escolar, na forma de projetos, organizava a rotina de<br />
forma criativa e interdisciplinar. Meus compromissos estendem-se<br />
para além da sala de aula. Os registros escolares requeriam relato<br />
da prática de forma reflexiva. Esses ensaios carregavam tensões pela<br />
fragilidade e inconsistência do que acreditava saber.<br />
Recordo-me falante, “cutucada” pelas questões da prática<br />
pedagógica. No trabalho de supervisora escolar, que exerço paralelamente<br />
à docência, busco ser parceira político-pedagógico do<br />
professor, antes mesmo que se anunciasse essa perspectiva para a<br />
função de supervisão.<br />
Nas idas-e-vindas da profissão de professora e supervisora,<br />
estive em lugares distintos, trabalhei em todos os graus de ensino.<br />
Nas redes pública, particular e na universidade desde 1983. Nunca<br />
me desliguei do ensino. vejo-me ligada ao ensinar e ao aprender<br />
na direção de um agir democrático com vistas à emancipação e à<br />
construção da cidadania dos educandos.<br />
Com crenças, valores e conhecimentos, faço-me professora.<br />
O fato de trabalhar concomitantemente na escola e na universidade<br />
potencializa a minha formação profissional, trazendo a possibilidade<br />
de muitos olhares. Nesse processo de assumir a docência em vários<br />
lugares, vivo descobertas, ambiguidades, esperanças e desesperanças.<br />
A par das atividades na escola em que a prática requer respostas<br />
imediatas, nem sempre pesquisadas e refletidas, a universidade carrega<br />
a possibilidade da reflexão e reconstrução do que ali se faz. Isso<br />
ajuda a enfrentar o desânimo que se produz muitas vezes no interior<br />
da escola em decorrência da “dureza” das realidades envolvidas.<br />
Desde que me iniciei no ofício de professora tenho mudado meu<br />
modo de entender a educação e a docência. Muito do que aprendi<br />
foi e está sendo transformado; passei e passo por inseguranças,<br />
<strong>didática</strong><br />
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EaD anna r. F. santiago – eronita s. Barcelos – eulalia B. Marin – Hedi M. luft – iselda s. Feil – lori M. Frantz – Maridalva B. Maldaner – solange c. M. rufino<br />
14<br />
dúvidas e acertos. Muitas provocações na prática, muitos estudos e<br />
debates. Trabalho de forma solidária nos grupos dos quais participo.<br />
Na experiência de ser professora surge sempre alguém ou algo<br />
para me surpreender, me emocionar, me desestabilizar. Assim, vou<br />
reconfigurando a minha docência.<br />
Do lugar de professora de Práticas de Ensino na universidade<br />
e na situação de supervisora dos estágios na escola pública de<br />
formação de professores (Curso Normal), vejo-me em contato com<br />
a problemática da aprendizagem da docência. Constato a experiência<br />
de um não saber que vem da ausência da prática. Observo nas<br />
alunas/professoras a tensão do aprender ser professora, respondendo<br />
positivamente às demandas desse fazer. Nelas, vejo a professora que<br />
um dia fui.<br />
No fazer de ensinante da profissão de professor vou percebendo<br />
que há um tipo de conhecimento que não se pode ensinar, ainda<br />
que se possa aprender. É nesse ponto que se delineiam os meus<br />
interesses de pesquisa, que tem a ver com a iniciação profissional e<br />
o aprender da docência na direção da constituição do ser professor.<br />
Neste propósito, realizei, em 1998, o Mestrado em Educação nas<br />
Ciências, com pesquisa relativa às aprendizagens dos professores<br />
na iniciação profissional.<br />
Atualmente, para além das atividades de docência na universidade<br />
e de supervisora na rede estadual, realizo trabalho de extensão<br />
na região contribuindo com a formação de professores.
Apresentação<br />
EaD<br />
<strong>didática</strong><br />
A Didática é um campo de estudos muito importante nos cursos de formação do professor.<br />
Ela tem como objeto de estudo o ensino tomado em sua realidade prático-social, sendo o professor<br />
o mediador do processo de ensinar e de aprender.<br />
veja a ementa deste componente que apresenta o enfoque da abordagem a ser efetivada<br />
durante o semestre.<br />
Ementa: “Trata da docência e do processo de ensino e da aprendizagem como prática social,<br />
considerando métodos, estratégias e saberes necessários à organização e implementação de<br />
programas de ensino, de formação do professor e os papéis do sujeito no cotidiano escolar, tendo<br />
em vista o planejamento e a avaliação daqueles processos”.<br />
Para dar conta dos temas previstos na ementa, foram organizadas as seguintes Unidades<br />
de estudo:<br />
1 – A Didática na formação do professor: constituição e saberes.<br />
2 – Conhecimento e aprendizagem: interdependência, mediação e processos de significação.<br />
3 – Planejamento didático: elementos constitutivos e práticas na área de formação docente.<br />
4 – Avaliação na perspectiva da inclusão escolar e social: teorias e práticas alternativas.<br />
visando a lhe apresentar alguns subsídios básicos sobre as temáticas, foi organizado este<br />
livro conforme as Unidades já referidas.<br />
A primeira Unidade, A Didática na Formação do Professor: constituição e saberes, focaliza<br />
a Didática como campo específico da formação de professores, tomando como referência as<br />
práticas docentes na perspectiva de sua ressignificação, dado que a <strong>didática</strong> e a formação do<br />
professor evocam processos complexos que precisam ser considerados em suas inter-relações.<br />
Nesta Unidade, três textos apresentam considerações sobre: a <strong>didática</strong> como elemento articulador<br />
entre teoria e prática docente; saberes que são necessários à prática educativa; e a construção<br />
da identidade do professor reflexivo, sua função em relação ao conhecimento e ao ensino. Os<br />
textos são os seguintes:<br />
1. Didática e Formação Docente, de Maridalva Bonfanti Maldaner.<br />
2. Saberes Necessários à Prática de Docência, de lori Maria Frantz.<br />
3. Formação, Experiência e Saber: processos identitários, de Solange Catarina Manzoni Rufino.<br />
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EaD anna r. F. santiago – eronita s. Barcelos – eulalia B. Marin – Hedi M. luft – iselda s. Feil – lori M. Frantz – Maridalva B. Maldaner – solange c. M. rufino<br />
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Na segunda Unidade, Conhecimento e Aprendizagem: interdependência, mediação e<br />
processos de significação, você tem a oportunidade de refletir sobre o ensino e a aprendizagem<br />
como processos interdependentes. A abordagem em estudo remete para o entendimento do que<br />
se faz necessário mobilizar para que o processo do ensino aprendizagem resulte em apropriação/<br />
significação de conhecimentos escolares. Enfatiza a ação transformadora de ensinar e aprender<br />
que tem como condição a dialogia, a descoberta e a contextualização dos conhecimentos. Neste<br />
sentido, o processo de ensino e de aprendizagem é abordado numa visão dialógica de (re)<br />
construir saberes considerando o interculturalismo existente na sociedade, e a sala de aula é<br />
percebida como espaço e tempo para as interações e mediação nos conhecimentos. veja o texto<br />
base para este estudo:<br />
Conhecimento e Aprendizagem: interdependência, mediação e processos de significação,<br />
de Anna Rosa Fontella Santiago e Eulália Beschorner Marin.<br />
Na terceira Unidade, Planejamento Didático: elementos constitutivos e práticas na área<br />
de formação docente, será estudada a organização <strong>didática</strong> do ensino, ou seja, o processo de<br />
planejamento da aula na visão colaborativa entre alunos e professores. visa à reflexão e à desconstrução<br />
do modo tradicional de “dar aula”, propondo modificações na rotina do planejamento<br />
e a revisão crítica dos elementos estruturantes da organização <strong>didática</strong> da aula. Investiga, ainda,<br />
como o planejamento se efetiva nas práticas de ensino dos professores de sua área de formação.<br />
Assim, sobre o planejamento na articulação e na organização do conhecimento, sobre práticas<br />
alternativas e outras questões, você encontra no texto:<br />
Planejamento Educacional: razões, sentidos e práticas, de Iselda Sausen Feil e Solange<br />
Catarina Manzoni Rufino.<br />
Na quarta Unidade, Avaliação na Perspectiva da Inclusão Escolar e Social: teorias e práticas<br />
alternativas, a avaliação como elemento constitutivo da prática educativa será apresentada na<br />
referência à inclusão social e escolar. Avaliar na perspectiva de cuidar para que a aprendizagem<br />
se processe, supõe criticar a avaliação que se faz exclusivamente classificatória, analisar os elementos<br />
implicados e recolocá-la na lógica democrática. veja as considerações sobre o assunto<br />
nos textos desta Unidade, que abordam concepções de avaliação, o enfoque da avaliação como<br />
construção de conhecimento, e a pesquisa e reflexão da prática pedagógica de professores, no<br />
que se refere a propostas curriculares, concepções, programas, metodologias, avaliação.<br />
1. Avaliação na perspectiva da inclusão escolar e social: teorias e práticas alternativas, de Eronita<br />
Silva Barcelos e Hedi Maria luft.<br />
2. Avaliação no contexto escolar, de Hedi Maria luft.<br />
3. Avaliação na sua função diagnóstica, de Eronita Silva Barcelos.<br />
Algumas orientações de estudos já estão evidenciadas nos textos. Procure no portal, no<br />
entanto, novas orientações e propostas de atividades. Além disso, a dinâmica de funcionamento<br />
e de avaliação deste componente de Didática constará no Plano de Ensino.
Unidade 1<br />
EaD<br />
a <strong>didática</strong> na ForMação do ProFessor:<br />
constituição e saberes<br />
oBjetivos desta Unidade<br />
<strong>didática</strong><br />
• Focalizar a Didática como campo específico da formação de professores, entendendo sua<br />
função na construção do conhecimento profissional, na expressão dos sentidos e significados<br />
atribuídos à prática docente e aos saberes pedagógicos produzidos nessa relação.<br />
seçÕes desta Unidade<br />
Seção 1.1 – Didática e Formação Docente<br />
Seção 1.2 – Saberes Necessários à Prática de Docência<br />
Seção 1.3 – Formação, Experiência e Saber: processos identitários<br />
seção 1.1<br />
<strong>didática</strong> e Formação docente<br />
Maridalva Bonfanti Maldaner<br />
Ao abordarmos questões sobre o conhecimento e saberes que o professor precisa construir<br />
ao longo de sua formação docente e, em especial na formação inicial, a Didática tem desenvolvido<br />
uma discussão sobre sua presença e significado nesse processo.<br />
Essa formação é vista como um continuum (lima, 2008), que tem seu desenvolvimento ao<br />
longo da vida; significa que nos formamos professores no percurso de nossas experiências escolares<br />
ou não, que antecedem a nossa formação inicial e perdura por toda a vida profissional.<br />
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18<br />
A formação docente, muitas vezes, é descaracterizada como continuum pela forma como<br />
é entendida e proposta. Na formação inicial, de Ensino Médio e universitário, ou aquela que<br />
continua durante a atuação como professor, essa formação apresenta-se sempre em momentos<br />
formais estanques, etapas, em forma de cursos, palestras, capacitações diversas, seminários e<br />
outros eventos.<br />
Embora importantes, costumam caracterizar-se em momentos estanques, que não se articulam<br />
entre si e não fazem parte de um trabalho situado com as necessidades impostas pelo<br />
trabalho do professor e da escola. Na maior parte das vezes, os professores não participam das<br />
decisões e propostas para sua formação continuada, o que os leva a participar apenas como um<br />
compromisso formal, como mais um evento sem comprometer o seu fazer pedagógico, ou, ainda,<br />
sem buscar no coletivo, junto a seus pares, um espaço articulado de socialização e de parcerias,<br />
que situe suas práticas e dê possibilidade de ressignificá-las diante dos seus dilemas, desejos,<br />
necessidades e de decisões político-pedagógicas.<br />
A formação não pode ser vista como soma de momentos e nem meramente cumulativa. É<br />
um processo de reflexão das práticas, que proporciona intersecções entre a teoria e a prática,<br />
ampliando e ressignificando conhecimentos da formação, definidos e situados pela pesquisa e na<br />
reflexão visando a novas práticas. O professor, ao envolver-se plenamente em refletir o seu fazer,<br />
pensando teoricamente sobre ele, produz novas compreensões e significados para esse fazer.<br />
Podemos nos perguntar: Como acontece o aprendizado de ser professor? Como os cursos<br />
de formação e a formação continuada estão presentes nesse processo? Nesses espaços e tempos<br />
de formação não aprendemos apenas a dominar conteúdos, metodologias, <strong>didática</strong>s; aprendemos<br />
a ser um determinado tipo de professor(a).<br />
Estamos envolvidos em rituais, formas de pensar, confrontamos valores, imersos numa<br />
cultura escolar e profissional. Mesmo que os currículos dos cursos de formação inicial sejam<br />
um ordenamento de conhecimentos, teorias e práticas, o envolvimento e relações sociais vividas<br />
entre alunos e professores constituem um determinado modo de ser professor (Arroyo, 2000).<br />
Em meio a essas questões, destacamos um trabalho realizado junto aos estudantes de<br />
Graduação, cuja indicação era considerar a experiência escolar e explicitar o entendimento<br />
sobre a constituição do professor. Foi perguntado a eles que lembranças, do modo de ser de<br />
seus professores, valorizariam para a sua formação na docência. Os estudos teóricos passaram<br />
a proporcionar elementos articuladores na inter-relação entre vivências escolares anteriores e a<br />
reflexão produzida.<br />
As lembranças das experiências escolares, relatadas pelos acadêmicos, expressaram<br />
concepções e representações que fazem de seus professores, da profissão docente, da escola,<br />
dos significados atribuídos às aprendizagens e às interações geradas pelos eventos e práticas<br />
próprias da vida escolar. Situaram outras instâncias da vida social e cultural e como imagens do
EaD<br />
<strong>didática</strong><br />
ser professor são produzidas e percebidas nas diferentes manifestações sociais que expressam<br />
valores, crenças e expectativas, apontando o lugar social de professor que ocupa em suas reais<br />
condições de vida e trabalho.<br />
Em suas narrativas, a grande maioria não fez referência aos seus professores a partir de sua<br />
figura individual, sua personalidade ou em seu modo de ser e pensar; fez referência às práticas<br />
que geraram algum tipo de envolvimento entre o professor e seus escolares.<br />
Foram as práticas situadas e contextualizadas e os sujeitos envolvidos que resultaram em<br />
lembranças e percepções. A partir delas, destacaram aspectos positivos, tensões, experiências<br />
de compartilhamento, e como isso interferiu e contribuiu na compreensão da profissão docente.<br />
Não foram as práticas em si, mas a relação que se estabeleceu por meio delas que foi destacada.<br />
Nessa relação é que os acadêmicos puderam visualizar o fazer docente, que modificou a sala de<br />
aula e os sujeitos nela envolvidos, incluindo-se nesse processo. Que <strong>didática</strong> se pode pensar? Que<br />
conexões foram produzidas que remetem à compreensão da complexidade do processo didático,<br />
envolvendo novos entendimentos sobre tempos e espaços de sala de aula?<br />
Ao desconhecer essa formação já constituída pelas vivências, os cursos específicos de formação<br />
tornam-se formação paralela, sem capacidade de integrar as vivências no plano de compreensão<br />
mais amplo da relação pedagógica que se estabelece no trabalho do professor. Dessa<br />
forma, tanto as vivências como os cursos formais são de pouco significado para a prática pedagógica<br />
dos futuros professores. Assim, persistem, normalmente, as vivências não compreendidas<br />
na prática escolar, sem novas relações com as teorias abordadas. Por outro lado, se as teorias são<br />
introduzidas nos cursos para refletir as práticas, ambas tornam-se fecundas e conscientizadas.<br />
Se a formação docente se dá num continuum, que inclui desde experiências vivenciadas<br />
como alunos de escola até conhecimentos e valores construídos na formação inicial e na atuação<br />
docente, pode-se pensar sobre a função da <strong>didática</strong> dentro desse continuum.<br />
O que é específico da <strong>didática</strong>? Qual a sua função na constituição do professor e na sua<br />
formação?<br />
A <strong>didática</strong> tem procurado redefinir seu objeto de estudo rompendo com uma perspectiva<br />
de inspiração comeniana, da qual derivou “a arte e técnica de ensinar tudo a todos”, com ideias<br />
comportamentalistas de ensino baseado em competências técnicas, formulação de objetivos<br />
mensuráveis, receituário de técnicas e métodos, avaliação classificatória e como produto. Essas<br />
dimensões põem a Didática numa perspectiva instrumental.<br />
Frequentemente ouvimos expressões decorrentes dela como “dar aula” ”passar a matéria, o<br />
conteúdo” “seguir o programa”, “dar notas”. São termos que se fazem presente na linguagem e,<br />
por que não dizer, na prática cotidiana de nossos professores. Essa concepção marcou por muito<br />
tempo o caráter instrumental dessa disciplina, que foi alvo de um intenso questionamento, ocor-<br />
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20<br />
Inspiração Comeniana<br />
Expressão baseada em princípios<br />
de Juan Amos Comênius,<br />
educador e pensador reconhecido<br />
como mentor da escola moderna<br />
e precursor da Didática. O ensino<br />
centrado no eixo da transmissão-assimilação<br />
do conteúdo<br />
historicamente acumulado pela<br />
humanidade remonta à proposta<br />
desse educador no século 17,<br />
momento em que acontece a<br />
transição da interação particular<br />
professor e aluno para um sistema<br />
coletivo: um professor para<br />
turmas de alunos. Comênius propõe<br />
um método único de ensinar<br />
tudo a todos. Este era o ideal da<br />
sociedade capitalista emergente,<br />
com a classe burguesa no poder.<br />
O princípio de ensinar tudo a todos<br />
servia às pretensões de criar<br />
uma nação unificada em torno<br />
de uma unidade de um mesmo<br />
conhecimento. Por intermédio<br />
da instrução, com base num método<br />
didático único, buscava-se<br />
alcançar esse objetivo. Funda-se<br />
assim a Didática tradicional que<br />
concebe todos os indivíduos com<br />
uma mesma essência humana,<br />
mente passiva e receptiva de<br />
informações transmitidas pelo<br />
professor.<br />
rendo um movimento que, nos últimos anos, passou a ser entendido<br />
como uma área de conhecimento, cujo objeto de estudo é o processo<br />
de ensino, situando-o com novos elementos que o configuram em<br />
toda a sua complexidade.<br />
Candau (1985) é considerada representante desse movimento,<br />
com propostas de redimencionar a <strong>didática</strong> e seu papel na formação<br />
dos professores. Tal movimento começa pela proposição de uma Didática<br />
Fundamental (1980) baseada na ideia da multidimensionalidade<br />
do processo de ensino-aprendizagem, configurado, basicamente, pela<br />
inter-relação das dimensões humana, técnica e político-social (Candau,<br />
1985). Essa perspectiva avança na discussão de que a <strong>didática</strong><br />
deve envolver em sua proposição a inclusão de temas mobilizadores<br />
da reflexão, abrangendo questões geradas no cotidiano escolar sobre<br />
o saber docente e a cultura.<br />
[...] a produção do conhecimento na área da Didática hoje está chamada<br />
a incorporar as temáticas relativas ao saber escolar e ao capital<br />
pedagógico dos professores, ao multiculturalismo e sua incidência no<br />
cotidiano escolar, assim como às novas linguagens, às questões de<br />
gênero e etnia etc. O caráter multidimensional e contextualizado da<br />
Didática exige que ela seja continuamente repensada à luz dos novos<br />
desafios que a sociedade e a educação apresentam para construção da<br />
democracia e de uma cidadania plena, consciente e crítica (Candau,<br />
apud lima, 2008, p. 160).<br />
Placco (2008), ao situar esse movimento que focaliza uma<br />
perspectiva multicultural, observa que é a presença do sujeito contextualizado<br />
culturalmente que potencializa a <strong>didática</strong> a buscar sua<br />
ressignificação. Aborda sobre os saberes didáticos como expressão<br />
dos sentidos e significados atribuídos pelo sujeito a sua prática<br />
docente e como esses saberes articulados entre si são expressão de<br />
subjetividades, de compartilhamento de sentidos necessários para<br />
se estabelecer uma aproximação e pontos de contato entre a vida e<br />
cultura de nossos jovens.<br />
A <strong>didática</strong> coloca-se como espaço que situa o saber ensinar, não<br />
apenas um como fazer, mas um fazer que altera o processo de ensino<br />
e aprendizagem, que se propõe a interagir, produzir vínculos com os<br />
alunos para que o conhecimento escolar tenha alcance e promova o<br />
desenvolvimento humano. Nesse sentido, a <strong>didática</strong> é transformadora,<br />
pois modifica o sujeito que ensina e o que aprende.
EaD<br />
<strong>didática</strong><br />
Na sala de aula a riqueza e a possibilidade de circulação de sentidos fluem num desafio<br />
permanente ao professor, que precisa encontrar aproximações possíveis e pontos em comum,<br />
desafiando o aluno e a si próprio a propor o avanço na busca e construção do conhecimento.<br />
Mediante que envolvimentos e situações o professor passa a entender o que o aluno<br />
conhece, suas experiências e o que faz sentido para ele? Como a <strong>didática</strong> pode articular-se na<br />
perspectiva de incluir o sujeito?<br />
O professor, nesse contexto, revela-se autor da docência que realiza, pois faz a <strong>didática</strong><br />
que sabe e que pode. Atua em contexto singular, diante de suas condições de trabalho, de formação,<br />
“expressa sua subjetividade, suas crenças, e valores, suas representações, sobre educação,<br />
aluno, escola e sobre seu próprio papel e, ao mesmo tempo, constrói sua identidade pessoal e<br />
profissional” (Placco, 2008, p. 737).<br />
Outro aspecto a salientar dentro do que é específico da <strong>didática</strong> refere-se a conhecimentos<br />
ligados à organização do processo de ensino, aqueles que dizem respeito às diferentes formas de<br />
planejamento, gestão de sala de aula, processos de mediação entre professor/aluno/conhecimento<br />
entre outros, rompendo com a concepção meramente técnica de realizar essa tarefa, dando-lhe<br />
outros significados, tendo em vista o contexto do projeto político-pedagógico da escola, a realidade<br />
sociocultural dos alunos e dos professores, as possibilidades de articulação interdisciplinar<br />
e novas lógicas de organização de espaços e tempos escolares.<br />
O planejamento se constitui em um fazer do trabalho pedagógico que expressa autonomia<br />
e intencionalidades do professor e da escola. A partir dele estabelece uma melhor conexão com<br />
a realidade da escola, prevendo quais ações podem viabilizar a intenção do professor em promover<br />
mediações necessárias ao alcance das aprendizagens e identificar e superar obstáculos para<br />
recompor o que lhe parece ser mais viável e necessário diante do que se interpõe no cotidiano<br />
escolar. Como afirma Placco (2008), a <strong>didática</strong> é uma aproximação sistemática e circunstanciada<br />
aos processos de ensino e aprendizagem.<br />
No contexto da formação do professor, vale lembrar os desafios que estão sendo postos pelas<br />
modificações ocorridas na sociedade de mudanças constantes de tecnologias, em que novos<br />
valores e relações estão permeando a sala de aula e a escola. Há necessidade de se promover<br />
constante atualização do professor para que possa analisar e ressituar os processos pedagógicos<br />
com o olhar voltado ao seu compromisso, às subjetividades e às demandas sociais e culturais.<br />
Situar a <strong>didática</strong> nesse processo de formação é afirmar que<br />
[...] tanto a Didática quanto os processos de formação do professor envolvem as mesmas e múltiplas<br />
dimensões – dimensões da formação técnica, humano-interacional, ético-política, dos saberes para<br />
ensinar, da formação continuada, crítico-reflexiva, estética e cultural, dentre outras. [...] Dado que<br />
<strong>didática</strong> e formação do professor evocam processos unos e complexos, essas dimensões precisam ser<br />
consideradas em suas inter-relações e co-ocorrência, em sua dialeticidade (Placco, 2005, p. 95).<br />
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seção 1.2<br />
saberes necessários à Prática de docência<br />
ProFissão docente e conHeciMentos ProFissionais<br />
22<br />
lori Maria Frantz<br />
Qual meu projeto de vida? O que pretendo ser? Que profissão escolher? Estas são perguntas<br />
com as quais possivelmente você tenha se deparado em algum momento e procurado respondêlas.<br />
Escolher uma profissão é um passo difícil para a maioria das pessoas, pois é uma decisão que,<br />
com certa frequência, vale para toda a vida. Por isto é importante que a escolha se relacione com<br />
o que se gosta de fazer para que essa atividade nos realize como profissionais e como pessoa.<br />
Normalmente a decisão é tomada em decorrência das experiências que se observa em relação<br />
aos trabalhos de outros, pois neles percebe-se a satisfação e a insatisfação, o tipo de atividade<br />
que exige ser desenvolvida no dia a dia e o valor atribuído socialmente à profissão. Entre as<br />
diversificadas opções para escolha de uma atividade profissional está a profissão docente, isto<br />
é, ser professor ou professora, exercer o magistério em algum grau de ensino.<br />
A profissão docente é uma atividade antiga que vem sendo constituída ao longo da história<br />
da humanidade. Essa atividade tem incorporado experiências e vivências de professores de outras<br />
épocas, que foram alicerçando ou que alicerçam, de uma ou outra forma, o fazer educativo atual.<br />
Muitas mudanças, entretanto, aconteceram em relação à maneira de como o conhecimento é<br />
trabalhado pedagogicamente e ao papel atribuído aos professores, em razão das transformações<br />
da sociedade, dos novos contextos sociais, das mudanças nos meios de comunicação e da tecnologia,<br />
e do entendimento de que a educação não é mais exclusiva a alguns, mas patrimônio<br />
de toda a comunidade.<br />
Essas mudanças têm repercutido na redefinição da profissão do professor, para quem existe<br />
o desafio de entender os diferentes contextos, assim como a especificidade da cultura em que está<br />
inserido, de modo que possa desempenhar sua função de contribuir ao processo de humanização<br />
própria e dos alunos. Por isso, são valorizadas novas atitudes dos docentes que implicam formas<br />
de ver e perceber a instituição educativa, e, em especial, os alunos e o fazer do professor, como<br />
as de aprender a compartilhar decisões na atividade profissional, saber comunicar-se e saber<br />
trabalhar com outros (professores de outras áreas, estudantes, comunidade educativa...).<br />
você poderia perguntar: Que saberes o professor necessita aprender e construir? O que distingue<br />
o professor de outros profissionais e qual é a especificidade do conhecimento docente?
EaD<br />
<strong>didática</strong><br />
Antes de entrar nessas questões, é importante salientar que os saberes dos professores<br />
se caracterizam, segundo Tardif (2002, p. 11-17), como um saber social, pelo fato de não existirem<br />
conhecimentos sem o reconhecimento social. São diversas as razões que justificam esse<br />
entendimento. Em primeiro lugar, por que o saber docente é partilhado por um grupo que tem<br />
aspectos em comum, ou seja, os professores, que realizam cursos de formação para o exercício<br />
do magistério e, na sua atuação na escola, articulam-se em torno da uma proposta educativa e<br />
das suas necessidades. Em segundo lugar, por que esse saber tem sua legitimidade garantida por<br />
apoiar-se sobre um sistema educativo, que inclui a universidade, as instâncias estatais de gestão<br />
da educação, a administração escolar, as associações profissionais, o sindicato, e outros. Em terceiro,<br />
por que os próprios objetos do saber são objetos sociais, isto é, o professor trabalha o objeto<br />
do conhecimento com sujeitos em função de um projeto, que é o de transformar os estudantes,<br />
educando-os e instruindo-os. Em quarto lugar, por que tanto o que os professores ensinam (os<br />
saberes a serem ensinados) quanto a sua maneira de ensinar (o saber ensinar), modificam-se<br />
com o tempo e com as mudanças sociais. Por último, o saber docente é um saber social porque<br />
se constrói no espaço escolar na relação entre diferentes disciplinas que constituem o projeto<br />
pedagógico e entre docentes que se complementam em seu ofício de ensinar.<br />
Esses conhecimentos compõem a profissão do professor, por isso são chamados de saberes<br />
profissionais. 1 De posse deles o professor pode estruturar sua docência, ou seja, seu modo de ser<br />
professor/a. Ser professor, portanto, implica dominar uma série de conhecimentos, capacidades<br />
e habilidades especializadas que, de um lado, são exigidos pelo trabalho da docência e que, de<br />
outro, remetem ao pertencimento a um grupo profissional.<br />
Nessa direção, é importante salientar os indicativos do Relatório para a Unesco, elaborado<br />
sob a coordenação de Jacques Delors (2000), da Comissão Internacional sobre Educação para<br />
o século 21, que apresenta quatro pilares da educação para serem desenvolvidos na escola e ao<br />
longo da vida: a) aprender a conhecer: aquisição de um repertório de saberes codificados e o<br />
domínio dos próprios instrumentos do conhecimento; b) aprender a fazer: qualificação profissional<br />
com a capacidade de enfrentar situações e a trabalhar em equipe; c) aprender a viver juntos,<br />
aprender a viver com os outros, compreendendo o outro e percebendo as interdependências; d)<br />
aprender a ser: elaborar pensamentos autônomos e críticos e poder decidir, por si mesmo, como<br />
agir nas diferentes circunstâncias da vida.<br />
1 Veja na revista Educação & Sociedade, n° 74/2001 o artigo “Saberes docentes e formação de professores: um breve panorama da<br />
pesquisa brasileira”, de Célia Maria Fernandes Nunes ou, se preferir, leia-o no site . Leia<br />
também o texto “Os saberes docentes ou saberes dos professores” de Emmanuel Ribeiro Cunha, no site .<br />
23
EaD anna r. F. santiago – eronita s. Barcelos – eulalia B. Marin – Hedi M. luft – iselda s. Feil – lori M. Frantz – Maridalva B. Maldaner – solange c. M. rufino<br />
saBeres da docência: a exPeriência, o conHeciMento e os saBeres Pedagógicos<br />
24<br />
De onde se originam os saberes dos professores? Como você responderia a esta pergunta?<br />
Nos últimos anos esta questão tem sido bastante discutida podendo-se encontrar diversos educadores<br />
que se referem ao assunto, como: Pimenta (1997), Gauthier (1998), Imbernón (2000),<br />
Guarnieri (2000), Tardif (2002). Nesses escritos ficam evidentes que a docência envolve uma<br />
multiplicidade de saberes adquiridos e constituídos tanto na história de vida do professor quanto<br />
na sua formação e na carreira profissional. Tom e valli, educadores canadenses, denominam esse<br />
conjunto de saberes de repertório de conhecimentos, definido como “o repertório total de habilidades,<br />
informações, atitudes, etc., de que os professores necessitam para cumprir com as suas<br />
responsabilidades em sala de aula” (In: Gauthier, 1998, p. 62), evidenciando, assim, a amplitude<br />
e a complexidade dos conhecimentos no fazer pedagógico.<br />
Certamente você já participou de discussões em que se afirmava que para ensinar bastaria<br />
conhecer o conteúdo. Outros talvez tenham se posicionado no sentido de que bastaria ter talento,<br />
ou ter bom senso, seguir a intuição, ou, ainda, ter experiência ou cultura para desenvolver a<br />
atividade de professor (veja Gauthier, 1998, que trata destas questões). Ater-se a esses reducionismos<br />
implicaria ignorar que a docência é uma atividade em que se precisa ter a capacidade de<br />
articular os diferentes saberes, sejam eles do conhecimento específico (os disciplinares), sejam<br />
pedagógicos ou da formação profissional (das Ciências da Educação e da Pedagogia – o saberfazer)<br />
ou experienciais (provindos da história de vida e do exercício profissional) (Tardif, 2002).<br />
Para Gauthier (1998, p. 28-29), esse repertório de conhecimentos dos professores forma<br />
um reservatório, do qual podem lançar mão à medida das suas necessidades, em que vão encontrar<br />
saberes disciplinares, curriculares, das ciências da educação, da tradição pedagógica,<br />
experienciais e da ação pedagógica. Outra forma de divisão desses saberes é feita por Pimenta<br />
(1997), que os sintetiza em experienciais, científicos e pedagógicos, classificação que será adotada<br />
neste texto.<br />
O curso de licenciatura oportuniza uma experiência muito interessante ao futuro docente:<br />
é a de se colocar no lugar do professor, isto é, ver-se como alguém que ensina. Esse é um<br />
momento de conscientização em que se percebe a formação inicial, isto é, a licenciatura, como<br />
um processo essencial para a construção da identidade docente, da identidade profissional de<br />
professor/a que cada um construirá. Nesses cursos são apreendidos os fundamentos da profissão,<br />
que contribuem para compreender por que se realizam determinadas ações ou se tomam algumas<br />
atitudes, e quando será necessário fazê-lo de outro modo.<br />
Apreender fundamentos significa constituir uma base de conhecimentos que precisam<br />
ser atualizados permanentemente em função das mudanças que se produzem na sociedade,<br />
na educação e na própria docência, uma vez que concepções e saberes vão sendo construídos,
EaD<br />
<strong>didática</strong><br />
desestruturados e reconstruídos, pelos professores, no cotidiano da vida e da escola. À medida<br />
que compreendem seus papéis e suas tarefas, exercem a capacidade de realizar reflexões sobre<br />
seu trabalho, e fazem uso de sua autonomia para decidir sobre os problemas profissionais da<br />
prática.<br />
Tardif (2002, p. 39) define o professor ideal como “alguém que deve conhecer sua matéria,<br />
sua disciplina e seu programa, além de possuir certos conhecimentos relativos às Ciências da<br />
Educação e à Pedagogia e desenvolver um saber prático baseado em sua experiência cotidiana<br />
com os alunos”. Esses conhecimentos necessários à trajetória profissional dos professores serão<br />
tratados nos três itens que seguem.<br />
saberes experienciais<br />
Possivelmente você se situa entre aqueles que não possuem experiência referente ao exercício<br />
do magistério. Talvez ainda não tenha atuado em sala de aula, mas mesmo assim você foi<br />
acumulando experiências do ser professor durante sua vida. Como pode isso acontecer? É porque<br />
saberes foram constituídos desde o momento em que foi estudante, observando e convivendo com<br />
diferentes professores. Desde criança já se tem ideia do que é ser professor, do que é ensinar e<br />
aprender, do que se faz para ensinar. Quem nunca brincou de escolinha assumindo o lugar de<br />
ser professor ou de aluno? Quem nunca julgou o trabalho de um(a) professor(a) e deu preferência<br />
a um em detrimento de outro? Quem nunca desgostou de uma matéria porque não concordava<br />
com a forma de agir ou ensinar do professor? E, ao contrário, quem nunca se apaixonou por<br />
determinado assunto por perceber a paixão com que o professor se dedicava a ele?<br />
Essas experiências de observar o trabalho do outro e elaborar críticas, positivas ou negativas,<br />
sobre a profissão docente, são formadoras e ajudam a estabelecer referenciais que se revelam<br />
em concepções pessoais sobre a figura do professor. Estas experiências alicerçam as bases que<br />
contribuirão para a formação do “eu” profissional – da identidade docente. Desta forma, esses<br />
saberes produzidos por meio da sua história de vida são reconhecidos como importantes na<br />
intenção de se fazer/ser professor, apesar de suas origens estarem fundadas no processo de formação<br />
não formal do docente. Essa representação que se tem da docência antes de exercê-la às<br />
vezes inspira a futura atuação. É a tradição pedagógica (Gauthier, 1998) que pode ser replicada/<br />
reproduzida nos fazeres dos professores.<br />
Somados a esses saberes, estão os que surgem da experiência adquirida por meio da atividade<br />
docente, desenvolvidos a partir do trabalho cotidiano na escola e na sala de aula, e da<br />
compreensão do seu meio/contexto social. São saberes particulares, isto é, conhecimentos próprios,<br />
25
EaD anna r. F. santiago – eronita s. Barcelos – eulalia B. Marin – Hedi M. luft – iselda s. Feil – lori M. Frantz – Maridalva B. Maldaner – solange c. M. rufino<br />
que não provêm das instituições de formação nem dos currículos escolares, nem se encontram<br />
sistematizados em teorias. São esses conhecimentos que tornarão a prática pedagógica de cada<br />
professor singular.<br />
Os saberes práticos são definidos por Tardif como “um conjunto de representações a partir<br />
dos quais os professores interpretam, compreendem e orientam sua profissão e sua prática cotidiana<br />
(...) constituem, por assim dizer, a cultura docente em ação” (2002, p. 49). É por meio da<br />
prática em uma instituição e em uma cultura escolar, com suas características peculiares, que o<br />
professor vai construindo sua profissão, desenvolvendo formas de atuar que vão lhe proporcionando<br />
experiência e certa segurança no seu agir.<br />
Pode-se afirmar, portanto, que a aprendizagem do ser professor ocorre em grande parte<br />
nas situações da sala de aula. “É no cotidiano escolar que o professor aprende e desaprende,<br />
reestrutura o aprendido, faz descobertas, estrutura formas de pensamento e constrói crenças. De<br />
uma forma ou de outra, a escola, com sua cultura, é lugar de construção coletiva desses saberes,<br />
crenças e mitos...” (Silva, in: Guarnieri, 2000, p. 37).<br />
Estar aberto ao movimento de aprender e desaprender é muito importante, pois esta postura<br />
proporcionará ao professor diferentes experiências, o instigará a atualizar seus conhecimentos<br />
para responder às demandas dos estudantes, às novas gerações, e, principalmente, impedirá que<br />
a rotina cristalize e endureça sua forma de agir, pensar e ensinar.<br />
Assim, a constituição de conhecimentos pelo professor está ligada à prática de docência,<br />
motivo por que se entende que ele realiza uma parte importante de sua formação no interior da<br />
escola. O saber experiencial isolado dos demais conhecimentos, no entanto, torna-se insuficiente<br />
para a prática pedagógica.<br />
saberes disciplinares: o conhecimento do específico a ser ensinado<br />
Se você pretende ser professor do componente de História ou de Português, de Química,<br />
ou de Educação Física, precisa conhecer a área e o conteúdo com os quais vai trabalhar, isto é,<br />
necessita dominar os saberes disciplinares. Esses “são saberes que correspondem aos diversos<br />
campos do conhecimento, aos saberes de que dispõe a nossa sociedade, tais como se encontram<br />
hoje integrados nas universidades sob a forma de disciplinas, no interior de faculdades e de<br />
cursos distintos” (Tardif, 2002, p. 38).<br />
Isto significa que o professor precisa conhecer a matéria a ser ensinada para que tenha<br />
condições de mobilizar do conjunto de conhecimentos existentes, os conteúdos de relevância<br />
social que mais bem atendem ao objetivo de ensino. Essa exigência vai ao encontro da responsabilidade<br />
do docente em organizar o seu plano de trabalho para o ensino em determinada turma,<br />
e de participar do processo decisório que elegerá saberes da cultura erudita, temas e autores<br />
26
EaD<br />
<strong>didática</strong><br />
que comporão a proposta do currículo da instituição escolar. veja os elos que são estabelecidos:<br />
o saber disciplinar (teórico) origina o saber curricular (apresentado sob a forma de programa<br />
escolar com o detalhamento de objetivos, conteúdos, métodos, avaliação) e este é a fonte para o<br />
conhecimento específico que será efetivamente desenvolvido em sala de aula.<br />
Nessa organização, o docente pondera sobre o significado que os conhecimentos a serem<br />
ensinados podem representar para o estudante. Isto é, sua preocupação com o que ensinar<br />
estende-se aos reflexos desse ensino na vida dos estudantes. Tão importante quanto perceber os<br />
reflexos, é proporcionar o desenvolvimento de atividades mentais, como as de analisar, criticar,<br />
contextualizar e vincular informações novas com conhecimentos já existentes, interiorizando-os<br />
e se apossando deles.<br />
saberes pedagógicos<br />
você já deve ter ouvido dizer que um determinado professor sabe a matéria, mas não sabe<br />
ensiná-la. É uma ilusão imaginar que quem conhece um assunto saiba também ensiná-lo. Tal<br />
entendimento pode ser atribuído ao desconhecimento da existência de saberes pedagógicos,<br />
que estão entre os saberes profissionais que fundamentam a ação docente do professor. Segundo<br />
Pimenta (1997), saberes sobre educação e Pedagogia não geram automaticamente saberes<br />
pedagógicos, que são reconstituídos a partir das necessidades da prática de ensinar. Isto é, os<br />
docentes como atores competentes e sujeitos do conhecimento constituem seu saber-fazer a<br />
partir de seu próprio fazer e da interação que se estabelece entre professores na prática de sua<br />
profissão, legitimando o conhecimento pedagógico especializado.<br />
Cada profissão tem suas especificidades, particularidades que a definem. Imagine um<br />
agricultor na sua atividade: ele precisa entender sobre a época do plantio e sobre como plantar,<br />
reconhecer os sinais do tempo, prevendo chuvas, secas, geadas, entender sobre colheita e como<br />
fazê-la, etc. Como todos os profissionais, também o professor tem um conhecimento específico<br />
que o distingue, o identifica como tal, que lhe dá identidade profissional. Essa especificidade da<br />
profissão está no conhecimento pedagógico (...) “que se construiu e se reconstruiu constantemente<br />
durante a vida profissional do professor em sua relação com a teoria e a prática” (Imbernón,<br />
2000, p. 30).<br />
veja, então, que saberes pedagógicos apresentam-se como concepções provenientes de reflexões<br />
sobre a prática educativa que, segundo Tardif (2002, p. 37), se “articulam com as ciências<br />
da educação à medida que tentam, de modo cada vez mais sistemático, integrar os resultados da<br />
pesquisa às concepções que propõem, a fim de legitimá-las cientificamente”.<br />
27
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28<br />
No percurso profissional, entre os saberes necessários ao docente, Gauthier (1998, p. 18)<br />
cita “conhecimento do conteúdo, saber experiencial, conhecimento das crianças, conhecimento<br />
do programa, conhecimento relativo ao gerenciamento da classe, conhecimento de si mesmo,<br />
cultura geral, etc.” À medida que se desempenha a função de professor na escola e na sala de<br />
aula, contudo, muitas concepções construídas na vida acadêmica são reformuladas, considerando<br />
as novas aprendizagens efetuadas no exercício da docência.<br />
Essas podem estar relacionadas a formas e atitudes na convivência com crianças e jovens,<br />
a diferenças culturais existentes, à motivação dos estudantes no sentido de suscitar o desejo de<br />
aprender, à forma como eles aprendem, à diferença entre o exercício da autoridade e do autoritarismo<br />
na sala de aula, à definição do conteúdo de ensino, às atividades e estratégias mais<br />
adequadas, enfim, aos conhecimentos que tratam da gestão da matéria e da gestão da classe,<br />
e do meio cultural e social. Nessa atitude reflexiva sobre o ensino, sobre o que se faz, são elaborados<br />
conceitos, noções, formas e práticas de como ensinar e conviver, compondo os saberes<br />
pedagógicos.<br />
O conhecimento do professor é, conforme Tardif (2002, p. 11), um saber particular, individual,<br />
relacionado com a pessoa, sua identidade, sua experiência de vida e história profissional, suas<br />
relações com os alunos e com as outras pessoas da escola. Considerando essa complexidade e<br />
especificidade, é importante que haja registro sistemático do conhecimento produzido, de forma<br />
que possa ser socializado e servir de apoio para outras práticas. No caso da falta desse registro<br />
reflexivo, esse saber se perde no momento em que o professor deixa de exercer a docência.<br />
Assim sendo:<br />
– Os professores são sujeitos do conhecimento e possuem saberes específicos ao seu ofício. Ensinar<br />
implica, pois, conhecer uma diversificada gama de saberes, como os teóricos, os científicos, os<br />
didático-pedagógicos, os relacionados ao contexto e aos sujeitos da educação, que permitem<br />
aos professores aplicá-los a situações muito particulares que surgem na prática de docência.<br />
– Os docentes são os principais mediadores da cultura e dos saberes escolares. Sobre seus ombros<br />
repousa a missão educativa da escola. É por meio da prática educativa que os educadores<br />
percebem que seu papel não é o de meros transmissores dos conhecimentos reconhecidos pela<br />
sociedade, mas que são produtores de saberes, autores, com capacidade para recriar e transformar<br />
a prática cotidiana de sala de aula, o seu saber-fazer.<br />
– A sala de aula não é um lugar simples, ela é um lugar complexo, tendo que o professor levar<br />
em conta muitas variáveis. Neste espaço tem à disposição um vasto campo de conhecimentos<br />
e pode lançar mão de saberes pedagógicos construídos por ele na prática e por outros professores,<br />
apoiando-se naquilo que foi produzido num contexto real.<br />
– Em toda ação pedagógica é necessário respeitar os saberes do educando, saber dialogar e<br />
escutar, valorizar e reconhecer sua identidade cultural.
EaD<br />
seção 1.3<br />
Formação, experiência e saber: processos identitários<br />
<strong>didática</strong><br />
Solange Catarina Manzoni Rufino<br />
A discussão da constituição da identidade docente como conteúdo formativo em Didática,<br />
objetiva ampliar a reflexão da subjetividade dos sujeitos presentes na formação docente, bem<br />
como a perspectiva da profissionalização a partir das identificações que vão ocorrendo neste<br />
processo. Dessa forma, ampliam-se também entendimentos sobre aspectos já abordados no texto<br />
anterior, que refletem a pluralidade de saberes presentes na formação docente, enfatizando<br />
neste contexto a análise da experiência formadora que produz saberes, singulariza e desenvolve<br />
processos identitários.<br />
Conforme Josso, “A formação é experiencial ou então não é formação, mas sua incidência<br />
nas transformações de nossas subjetividades e das nossas identidades pode ser mais ou menos<br />
significativa” (2004, p. 48). A construção da experiência no seu entender se dá a conhecer por<br />
um processo reflexivo, ou seja, vivemos uma infinidade de transações e estas tomam status de<br />
experiência a partir do momento que fazemos certo trabalho reflexivo sobre o que se passou e<br />
sobre o que foi observado, percebido e sentido. A partir destas considerações já nos é possível<br />
perceber o significado da reflexão no processo formativo dos professores em direção à formação<br />
experiencial que designa a atividade consciente de um sujeito sobre seu fazer, pondo o aprendente<br />
em interação consigo mesmo.<br />
Ao mediarmos a formação acadêmica dos futuros professores, consideramos importante<br />
a provocação à reflexão para que, no esforço de responder ao perguntado, se possibilite “um<br />
caminhar para si”.<br />
Então pensemos sobre:<br />
Por que nos dirigimos à profissão de professor?<br />
O que é formação e como a percebemos em cada um de nós?<br />
O que motiva/influencia a busca pela profissão de professor e como a experiência vivida por<br />
todos nós nos aproxima desta atividade social?<br />
Em que circunstâncias foi feita a escolha pela formação de professor?<br />
O que significa experiência e como esta se realiza?<br />
Que significados as experiências por nós já vivenciadas ao longo da escolarização produzem<br />
no aprendizado da docência?<br />
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30<br />
Selma Pimenta discorre sobre a recorrência das pesquisas sobre identidade: “Estudos e<br />
pesquisas sobre identidade docente têm recebido no tempo presente a atenção e o interesse de<br />
muitos educadores na busca de compreensão das posturas assumidas pelos professores” (2004,<br />
p. 61).<br />
Os referidos estudos identificam e analisam os elementos implicados na constituição de<br />
um modo próprio de ser professor, ou seja, o que está em jogo no movimento de singularização<br />
do professor, que o torna mais ou menos comprometido com o papel social desejado a estes.<br />
Espera-se, por exemplo, que o professor deixe de ser mero transmissor de conteúdos e abra<br />
espaço para a reflexão permanente, constituindo-se autor de seu fazer. Neste contexto, discutir<br />
a profissão e a profissionalização docente requer que se trate da construção de sua identidade.<br />
Assim, vejamos o que se produziu como entendimentos a partir dos estudos realizados sobre as<br />
maneiras de ser e se formar professor.<br />
Processos identitários: origens<br />
Considerando a amplitude que envolve o se tornar professor, Antônio Nóvoa refere-se a<br />
um processo identitário ao invés de constituição de identidade, processo esse visto como um<br />
produto alcançado na mescla dinâmica que caracteriza a maneira como cada um se sente e se<br />
diz professor. É impossível separar o eu profissional do eu pessoal. Essa impossibilidade de separar<br />
o eu profissional do eu pessoal surge como mais uma importante categoria nos estudos da<br />
constituição profissional do professor.<br />
Para Nóvoa:<br />
A identidade não é um dado adquirido, não é uma propriedade, não é um produto. A identidade é um<br />
lugar de lutas e conflitos, é um espaço de construção de maneiras de ser e de estar na profissão. Por<br />
isso, é mais adequado falar em um processo identitário, realçando a mescla dinâmica que caracteriza<br />
a maneira como cada um se sente e se diz professor. A construção da identidade passa sempre por um<br />
processo complexo graças ao qual cada um se apropria de um sentido da sua história pessoal e profissional.<br />
É um processo que necessita de tempo. Um tempo para refazer identidades, para acomodar<br />
inovações, para assimilar mudanças (1995, p. 16).<br />
A identidade do professor, segundo Nóvoa, se origina da sua história pessoal e profissional,<br />
nas diversas condições que o cercam, incluindo, assim, a vida privada, a vida profissional e a<br />
organização escolar. Traz nas suas reflexões novas concepções de formação que permitem falar<br />
numa “certa virada”, na medida em que incorpora como elemento substancial a subjetividade
EaD<br />
<strong>didática</strong><br />
implicada na constituição do professor. Ilustra de maneira pertinente o pensamento já amplamente<br />
conhecido nos meios pedagógicos. “O professor é pessoa e parte importante da pessoa é<br />
professor” (Nias apud Nóvoa, 1995, p. 15).<br />
Cada pessoa, ao relacionar-se com os outros, vai configurando sua história, seus projetos<br />
de vida. Para Dubar, “O indivíduo nunca constrói sua identidade sozinho: depende tanto dos<br />
julgamentos dos outros, como de suas próprias orientações e autodefinição. Assim a identidade<br />
é produto de sucessivas socializações” (in: Pimenta, 2004, p. 13).<br />
Sendo a construção da identidade um processo que se realiza ao longo das vivências de<br />
cada sujeito, podemos pensar na identificação com a profissão que vamos construindo desde<br />
nossas tenras experiências no decorrer da escolarização.<br />
Miguel Arroyo menciona em suas pesquisas que o aprendizado do ofício de mestre vem<br />
desde as primeiras vivências e contatos que tivemos com nossos mestres por longos anos, desde<br />
a educação infantil. As imagens dos mestres nos acompanham. Muito do que cremos, seja para<br />
positivar a atuação docente ou rejeitá-la, foi aprendido na experiência que desenvolvemos nas<br />
salas de aula ao longo de nossa escolarização. Quem de nós não lembra de modo especial de um<br />
professor, de um momento significativo de estudo, de uma atitude carinhosa ou mesmo grosseira<br />
e indesejada, de um material interessante levado por seu professor para ensinar, enfim, de um<br />
jeito de ensinar e aprender mediado por seus professores?<br />
Muitas são as marcas que foram tecendo este jeito próprio que nos constitui e que orienta<br />
nossas escolhas sobre o que queremos ou não fazer, o que queremos ou não realizar quando<br />
formos professor. As marcas são como cicatrizes que vão configurando o que nos é singular, as<br />
nossas personalidades. Sobre isso Arroyo expressa: “Os traços de personalidade do ser humano<br />
se aprendem vendo/convivendo. Pelo estágio-contágio entre humanos. Os valores, o dever moral<br />
de ser professor(a) se aprende no lento convívio, exemplar dos bons ou maus professores e com<br />
nossa cumplicidade de aprendizes...” (2004, p. 125).<br />
Para este autor, em outras instâncias e experiências de nossas vidas outras imagens se<br />
acrescentam e, com todos esses aprendizados, vamos construindo nossas identidades pessoais<br />
e profissionais.<br />
Se acreditarmos que experiências nos formam, é possível percebermos que nossas escolhas<br />
se aproximam ou se afastam daquilo que vivemos na cotidianidade de nosso imaginário e do<br />
imaginário que nos cerca.<br />
No decorrer da experiência social vamos fixando formas de realizar determinadas atividades,<br />
de compreender a realidade, de comunicar e expressar sentimentos, criando e fixando<br />
modos de agir, pensar, falar e escrever que se modificam com o desenvolvimento das relações<br />
sociais estabelecidas entre as pessoas para a produção de nossa sobrevivência.<br />
31
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32<br />
Quando referimos as escolhas profissionais pela docência, é recorrente a presença de ideias<br />
como: acho que escolhi por vocação, levo jeito com crianças, me identifico com determinada área<br />
do conhecimento. Também encontramos referência à classe social da família a que pertencem,<br />
justificando dificuldades de ordem econômica para formação em outras áreas de maior custo<br />
financeiro.<br />
Considerando que o que somos relaciona-se aos significados e sentidos que atribuímos<br />
ao que vamos vivendo e às condições materiais existentes para sua manutenção, tomamos por<br />
corretas as inúmeras respostas produzidas neste contexto, embora entenda importante salientar<br />
a pesquisa por mim desenvolvida, envolvendo professoras da Educação Infantil e Ensino Fundamental<br />
em que evidencio a escolha profissional como uma constituição histórica ocorrida nas<br />
contingências da vida.<br />
Os dramas humanos revelam, muitas vezes, a sujeição a fatores diversos no jogo multideterminado<br />
do saber/poder e das necessidades de sobrevivência. As características que nos definem<br />
têm a ver com os limites materiais e culturais da origem social a qual pertencemos.<br />
Se considerarmos, porém, o que escreveu Guimarães Rosa, que o mais bonito da vida é que<br />
não estamos sempre iguais, estamos sempre mudando, há que se pensar que nada está pronto,<br />
especialmente em se tratando de formação humana e profissional e, assim, pensar o processo<br />
identitário a partir da formação acadêmica na interação com a prática educativa.<br />
o esPaço/teMPo da ForMação acadêMica<br />
No espaço-tempo da formação acadêmica, o sujeito aprendente em interação com seus<br />
mestres nas instituições educativas, mediado pela linguagem e, a partir de projetos curriculares<br />
que definem previamente o que se quer como formação, apreende novos conceitos do repertório<br />
de saberes docentes, refaz representações, conhece caminhos novos, retoma o seu modo de ser,<br />
de estar no mundo, cria possibilidades para atuar de forma competente nas múltiplas dimensões<br />
da vida e no desempenho da profissão a que se forma.<br />
Na formação acadêmica temos a possibilidade de, pelo ensino e pesquisa, refletir e confrontar<br />
conhecimentos propostos para a formação docente com as diferentes representações e<br />
práticas sociais historicamente desenvolvidas neste contexto. Na reflexão crítica que se estabelece<br />
neste percurso, consolidam-se entendimentos.<br />
Nesta trajetória aprendemos e nos identificamos de forma diferente uns dos outros (porque<br />
identidade é singular), com o que é próprio e pertinente à prática social de ensinar.<br />
Quando se pensa em identidades, temos que pensá-la no plural, uma vez que somos constituídos<br />
de multiplicidades como:
EaD<br />
o gênero sexual a que pertencemos;<br />
<strong>didática</strong><br />
o nosso lugar de origem (nascemos/vivemos no campo, na cidade, em uma metrópole ou<br />
cidade interiorana);<br />
nosso lugar de filiação parental (somos filhos mais velhos, o do meio ou o mais novo);<br />
a nossa classe social;<br />
nossa corporeidade (temos alguma dificuldade especial em relação à maioria das pessoas);<br />
a nossa filiação religiosa;<br />
com quem nos relacionamos e interagimos?<br />
Tudo isto configura atributos que nos definem na relação com os outros e que revela um<br />
modo singular de ser a partir daquilo que nos é próprio e que se faz presente no sujeito que se<br />
forma professor.<br />
Pensar identidade demanda sempre pensar em processos abertos e imaginar como um<br />
caminho nunca definitivamente traçado, como nos versos do poeta Antonio Machado (In: Carvalho,<br />
2004): “Caminante, no hay camino, se hace camino al andar...”.<br />
Josso, assevera:<br />
Os processos de formação dão-se a conhecer, do ponto de vista do aprendente, em interações com<br />
outras subjetividades. Os procedimentos metodológicos ou, se preferimos, as práticas de conhecimento<br />
postas em jogo numa abordagem intersubjetiva do processo de formação sugerem a oportunidade de<br />
uma aprendizagem experiencial por meio da qual a formação se daria a conhecer (2004, p. 38).<br />
Esta autora afirma ser o resgate da autobiografia do sujeito aprendente parte constitutiva<br />
da sua formação, tomando a reflexão das histórias de vida como metodologia de pesquisa e formação.<br />
Para esta, o que está em jogo na narrativa de nossas histórias de vida que possibilita o<br />
conhecimento de nós mesmos, não é apenas compreender que nos formamos por um conjunto<br />
de experiências, ao longo de nossa vida, mas tomar consciência de que este reconhecimento de<br />
si mesmo possibilita ao sujeito narrador uma auto-orientação nas mais diferentes dimensões de<br />
sua vida.<br />
Solange J. e Souza, ao refletir o significado das narrativas das histórias de vida dos professores,<br />
diz que quando nos perguntamos “quem somos nós, ou como nos tornamos o que somos<br />
hoje”, nos direcionamos ao passado e essa recordação é, ao seu ver, uma tentativa de pôr em<br />
ordem acontecimentos que tinham outra ordem no momento em que foram vividos e, assim, a<br />
narração é um processo criativo do pensamento. A memória do vivido/experienciado possibilita<br />
a compreensão de si próprio (1999, p. 83).<br />
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34<br />
Assim, no processo formativo, no espaço tempo de formação acadêmica, é importante in-<br />
dagar: Que pessoa sou eu, que história já posso contar de mim que a meu ver vale a pena contar,<br />
o que desta história já se apresenta como saber experiencial para a profissão de professor?<br />
Tomando como referência o princípio de que toda formação é autoformação, refletimos<br />
sobre as transformações que ocorrem na constituição identitária dos sujeitos a partir de inúmeros<br />
relatos feitos em situação de pesquisa por estudantes e/ou profissionais. Estes revelam que,<br />
mesmo não tendo sido o magistério, em muitas vezes, uma escolha, mas uma contingência de<br />
suas vidas, na medida em que realizam experiências formativas no contexto acadêmico e/ou no<br />
exercício da docência em contexto profissional, transformações lhes acontecem.<br />
Mediados por instrumentos materiais e simbólicos presentes nas interações que se estabelecem<br />
entre o ensinante e o aprendente, constrói-se novas possibilidades de ser, fazer, conhecer,<br />
conviver e, neste movimento, se transforma e constitui um modo de ser professor. Há momentos<br />
especiais que marcam substancialmente a formação por potencializar a reflexão como, por exemplo,<br />
na narrativa da história de vida, na investigação de um tema/problema, na apresentação de<br />
um seminário, nas práticas de ensino como nos estágios.<br />
Selma Pimenta diz ser o estágio um lócus importante na constituição do profissional, sendo<br />
este espaço tempo de se “trabalhar a identidade em formação, definida pelos saberes, e não<br />
ainda pelas atividades docentes”. O estágio é atividade teórica de reflexão sobre a construção<br />
e o fortalecimento da identidade por possibilitar a tessitura dos fundamentos e das bases identitárias<br />
da profissão docente que o curso se propõe legitimar e, também, atividade teórica de<br />
conhecimento, fundamentação, diálogo e intervenção na realidade (2004).<br />
Pesquisas sobre a formação docente explicitam ainda o significado da construção da identidade<br />
docente ao longo de sua trajetória profissional no magistério, apontando a relevância do<br />
saber experiencial no exercício da profissão no contexto escolar.<br />
a Prática docente:<br />
saber experiencial e identidade profissional<br />
As experiências do professor ao longo de sua profissão, ao ensinar seus alunos, ao inserir-se<br />
nas regras da organização escolar, ao relacionar-se com os outros, consigo próprio, ao estudar, ao<br />
planejar suas aulas, ao rever-se como pessoa e nas tantas outras ações que fazem na prática de<br />
ensinante, trazem novas possibilidades de constituição de saberes de produção de identidades<br />
e da profissionalização de seu fazer.
EaD<br />
<strong>didática</strong><br />
Pensar a prática como campo de construção do saber experiencial, de uma epistemologia<br />
de prática, como possibilidade de constituição de processos identitários, implica pensá-la como<br />
um tipo particular de relação, uma relação de produção de sentido entre o que existe como significado<br />
historicamente constituído para ser professor e o que efetivamente se realiza na prática<br />
por um determinado sujeito que aprende a ser professor.<br />
No fazer de professor acontece a possibilidade da produção dos saberes da experiência,<br />
saber este derivado das múltiplas vivências que vão acontecendo no cotidiano dos professores,<br />
um saber que não se pode ensinar ainda que se possa aprender. Nas pesquisas que se desenvolvem<br />
na contemporaneidade, a experiência constitui novo significado na construção do saber<br />
docente como no dizer de Dominice:<br />
Devolver à experiência o lugar que merece na aprendizagem dos conhecimentos necessários à existência<br />
(pessoal, social e profissional) passa pela constatação de que o sujeito constrói seu saber ativamente<br />
ao longo de seu percurso. Ninguém se contenta em receber como se ele fosse trazido do exterior pelos<br />
que detêm os seus segredos formais. A noção de experiência mobiliza uma pedagogia interativa e<br />
dialógica (apud Nóvoa, 1992a, p. 25).<br />
Jorge larrosa traz uma exposição com conteúdo profundo do que seja experiência, apontando<br />
para a necessidade de recuperar a categoria da experiência para o pensamento da formação.<br />
A experiência surge ao seu entender como uma categoria sugestiva para pensar a formação<br />
docente; uma formação percebida como um devir plural e criativo, como uma ideia intempestiva<br />
que possa trazer algo de novo para o espaço tensionado entre a educação técnico-científica dominante<br />
e as formas dogmáticas e neo-conservadoras de reivindicar a velha educação humanística<br />
(1996, p. 141).<br />
larrosa explicita a experiência como saber, nesse contexto:<br />
A experiência seria aquilo que nos passa. Não o que passa, senão o que nos passa. Um saber finito<br />
ligado ao amadurecimento de um indivíduo particular (...); saber que revela o homem singular e sua<br />
própria finitude (...); um saber particular subjetivo, relativo, pessoal. Ninguém pode evitar a experiência.<br />
Ninguém pode aprender da experiência de outrem a menos que essa seja de algum modo vivida<br />
(...); um saber que não se pode separar do indivíduo concreto no qual se encarna. Não está, como no<br />
conhecimento científico, fora de nós, senão que só tem sentido no modo pelo qual se configura uma<br />
personalidade, um caráter, uma sensibilidade ou, enfim, uma fórmula humana que é por sua vez ética<br />
e uma estética (1996, p. 136-141).<br />
No mundo moderno, os saberes da experiência perderam terreno para outros modos de<br />
conhecer que se apresentam como mais verdadeiros, mais seguros, mais completos, porque originados<br />
do método que, em seu rigor, os converte em verdades.<br />
35
EaD anna r. F. santiago – eronita s. Barcelos – eulalia B. Marin – Hedi M. luft – iselda s. Feil – lori M. Frantz – Maridalva B. Maldaner – solange c. M. rufino<br />
36<br />
Na reflexão do que se produziu neste contexto, Benjamim traz uma contribuição significa-<br />
tiva ao expressar o que se produziu uma vez separado o conhecimento da vida humana. Sendo<br />
o conhecimento como algo exterior à vida, como uma utilidade ou mercadoria e informação,<br />
consumimos informações, mas o que consumimos não nos afeta, não nos modifica.<br />
A horrível mixórdia de estilos e concepção de mundo do século passado mostrou-nos com tanta clareza<br />
onde esses valores culturais podem nos conduzir, quando a experiência é subtraída hipócrita e<br />
sorrateiramente que é hoje em dia uma prova de honradez confessar que essa pobreza de experiência<br />
não é mais privada, mas de toda a humanidade (1994, p. 115).<br />
O que se apresenta nesse dizer faz a denúncia de que no mundo no qual se abandonam os<br />
saberes da experiência, em que se separa saber e conhecimento, a vida humana se tornou pobre.<br />
Cabe, então, acreditar na possibilidade de reconstrução, pensar no resgate e na ressignificação<br />
da experiência para o pensamento da “formação”.<br />
As aprendizagens produzidas nas experiências precisam ser reconhecidas e validadas como<br />
constitutivas da docência. Há que se tentar trabalhar na perspectiva da complexidade e buscar<br />
a difícil, mas imprescindível, tarefa de aproximação das teorias científicas com os saberes dos<br />
práticos, com o fim de interrelacionar uns com os outros.<br />
A contraposição entre o sábio e o cientista ilustra a separação entre teoria e prática que se<br />
produziu ao longo dos tempos e chama a atenção para o que se revela quando o conhecimento<br />
se desvincula da realidade. “É sábio aquele que sabe usar o conhecimento para integrar a própria<br />
realidade... A arrogância epistêmica do cientista é o antônimo da sabedoria porque não tem<br />
senso de relatividade, senso de contingência, senso de delimitação” (Severino apud Fiorentini,<br />
1998, p. 312).<br />
valorar a experiência do professor como algo que pode se constituir em saber, e um saber<br />
da ação pedagógica à medida que se torna público é um dos desafios colocados à profissionalização<br />
docente. É certo que há que se ter presente os demais saberes que constituem o ofício de<br />
professor para não cair na armadilha de um único olhar. É preciso estar atento à complexidade<br />
que envolve o pensamento.<br />
Para Edgard Morin (2003), o pensamento complexo é aquele capaz de considerar todas<br />
as influências recebidas, não é linear, integra incertezas e contradições. Na visão da complexidade<br />
que envolve o saber docente surge a posição de autores que explicitam o saber docente<br />
como um “saber plural, formado pelo amálgama, mais ou menos coerente de saberes oriundos<br />
da formação profissional dos saberes, das disciplinas, dos currículos e da experiência” (Tardif;<br />
lessard; lahaye, 1991, p. 218).
EaD<br />
<strong>didática</strong><br />
Há que se reconhecer, no entanto, um perigo quando à experiência privada, que não dei-<br />
xa de ser de cunho pessoal e passa a ser norma para o fazer. Os julgamentos e jurisprudência<br />
particular põem em risco a qualidade desse fazer. Nem tudo o que se faz, o que se experiencia é<br />
válido. Nesse contexto é que se pensa na validação desses saberes via pesquisa, via reflexão, na<br />
perspectiva do reconhecimento daquilo que faz parte de fórum privado. É importante perceber,<br />
de antemão, que o que tem limitado o saber experiencial é exatamente o fato de que ele é feito<br />
de pressupostos e de argumentos que não são validados por meio da argumentação e do debate<br />
público (Gauthier, 1998, p. 33).<br />
Pensar as aprendizagens dos professores na experiência docente traz a possibilidade de<br />
pensar os processos de significação que vão ocorrendo na mediação da docência, que possibilita<br />
a constituição da identidade profissional.<br />
Sobre a constituição da identidade profissional Pimenta explicita:<br />
Uma identidade profissional se constrói, pois a partir da significação social da profissão, da revisão<br />
constante dos significados sociais da profissão, da revisão das tradições. Mas também da reafirmação<br />
das práticas consagradas culturalmente e que permanecem significativas. Práticas que resistem a<br />
inovações porque prenhes de saberes válidos às necessidades da realidade. Do confronto entre as<br />
teorias e as práticas, da análise sistemática das práticas a luz das teorias existentes, da construção de<br />
novas teorias. Constrói-se, também pelo significado que cada professor, enquanto ator autor, confere<br />
à atividade docente em seu cotidiano a partir de seus valores, de seu modo de situar-se no mundo, de<br />
sua história de vida, de suas representações de seus saberes, de suas angústias e anseios, do sentido<br />
que tem em sua vida o ser professor. Assim como a partir de sua rede de relações com os outros professores,<br />
nas escolas, nos sindicatos e em outros agrupamentos (1997, p. 67).<br />
É importante lembrarmos que somos o que somos na relação com os outros, portanto professores<br />
se constituem com seus pares, com seus alunos e pais em instituições escolares. Quando<br />
falamos em processos identitários temos que pensar nas pessoas que vivem a experiência em um<br />
determinado contexto e, mais especificamente, na gestão das instituições em que estes sujeitos<br />
se inserem.<br />
Faz diferença uma escola que tem como preocupação central uma gestão participativa que<br />
convoque os seus membros à reflexão de seus fazeres, direcionando compreensão do vivido em<br />
seu cotidiano. O saber da experiência provém da reflexão das práticas vividas no cotidiano docente.<br />
Neste sentido, cabe salientar a ênfase na formação continuada dos professores na medida<br />
em que possibilita espaço/tempos planejados para os professores pensarem sobre seus fazeres. A<br />
liberdade do professor sobre seu fazer e em sua maneira de ser e pensar a profissão, relaciona-se<br />
ao conhecimento que foi por ele constituído a respeito de sua realidade.<br />
37
EaD anna r. F. santiago – eronita s. Barcelos – eulalia B. Marin – Hedi M. luft – iselda s. Feil – lori M. Frantz – Maridalva B. Maldaner – solange c. M. rufino<br />
38<br />
Conforme Abdalla, “Quanto mais o professor foi tomando conhecimento de sua realidade,<br />
explicitando os seus valores, tanto mais ele foi tomando decisões, que o levaram a enfrentar e a<br />
superar os obstáculos que foram surgindo em sua prática” (2006, p. 85).<br />
A confrontação com a complexidade da situação profissional impulsiona os processos de<br />
significação, que redimensionam a atividade, impregnando de sentido cada ato, cada ação humana.<br />
Significando gestos, palavras ditas, olhares, perguntas, sensações que vão acontecendo<br />
na relação com os outros, com os materiais que circulam o fazer docente, as professoras vão<br />
estruturando sua atividade mental e constituindo autonomia.<br />
A reflexão dos acontecimentos da prática docente impulsiona, por exemplo, o conhecimento<br />
de si mesmo, de como se percebem, das coisas que sentem prazer em realizar, dos pontos fortes,<br />
do que é próprio ou não próprio para ser professor. O eu dos professores se altera na diversidade<br />
das experiências.<br />
Na experiência refletida os professores realizam perguntas e respostas, vão produzindo<br />
sentidos, que não são únicos, que não são definitivos, mas que estão em constante movimento<br />
na multiplicidade das realidades em que se engendram no tempo/espaço da formação.<br />
A reflexão das vivências que vão acontecendo no cotidiano docente constitui experiências<br />
e produz saberes como, por exemplo: no modo de compreender seus alunos, de como aprendem,<br />
de como se relacionam, de como aproveitar melhor o tempo de ensino, de como mobilizar sua<br />
atenção para o que deseja ensinar, do que significa ensinar e do porque ensinar, de como ter um<br />
bom relacionamento com seus alunos, o que necessita corrigir em sua prática.<br />
Também aprendem, em muitos casos, a conformação às regras do jogo instituídas nas<br />
relações da escola, acomodando-se ao que é mais fácil, menos desafiador e menos comprometedor.<br />
Escolher ser um “bom” professor passa pelos sentidos que vamos atribuindo pela reflexão<br />
do fazer docente na interação com os outros da educação e nas instituições educativas em que<br />
atuamos.<br />
O que temos observado na prática da profissão é que grande parte dos professores vive hoje<br />
movimentos significativos no sentido de se apropriar dos saberes próprios de seu ofício, conhecer<br />
a si mesmo para melhor interagir com os outros, constitui o sentido ético, o sentido humano, o<br />
sentido da dignidade, o sentido crítico, o sentido do compromisso e da responsabilidade com a<br />
educação pública, enfim, com a imprescindível identificação ao seu fazer de educador na complexidade<br />
da sua prática.
EaD<br />
Unidade 2<br />
conHeciMento e aPrendizageM:<br />
interdependência, Mediação e Processos de significação<br />
oBjetivos desta Unidade<br />
<strong>didática</strong><br />
• Considerar natureza e concepções de métodos, estratégias e saberes necessários à organi-<br />
zação e ao desenvolvimento do processo ensino-aprendizagem para que resultem em apropriação/<br />
significação de conhecimentos escolares.<br />
• Analisar criticamente o ensino e a aprendizagem como prática social e como processos<br />
interdependentes.<br />
a seção desta Unidade<br />
Seção 2.1 – Conhecimento e Aprendizagem: interdependência, mediação e processos de significação<br />
seção 2.1<br />
conhecimento e aprendizagem:<br />
interdependência, mediação e processos de significação<br />
Anna Rosa Fontella Santiago<br />
Eulália Beschorner Marin<br />
A tarefa que assumimos como desafio ao escolher a profissão de professor/a é, sem dúvida<br />
alguma, ensinar, e nesse ofício envidamos todos os nossos esforços em processos constantes de<br />
formação que nos envolvem em atividades de pesquisa, planejamento, organização e condução<br />
da educação escolarizada. Por que, então, muitas vezes nos frustramos ao final de uma aula bem<br />
39
EaD anna r. F. santiago – eronita s. Barcelos – eulalia B. Marin – Hedi M. luft – iselda s. Feil – lori M. Frantz – Maridalva B. Maldaner – solange c. M. rufino<br />
planejada ao perceber que nossos alunos não aprendem, ou não estão interessados naquilo que<br />
queremos que eles aprendam? E se os alunos não aprendem podemos dizer que cumprimos com<br />
nossa tarefa de ensinar?<br />
Ensinar e aprender, indubitavelmente, são processos que, embora distintos, não se excluem<br />
e fazem parte da tarefa formal assumida pela educação escolar desde que a sociedade instituiu<br />
a escola como espaço responsável pela inserção dos homens na dinâmica da convivência e da<br />
participação social. É verdade que a educação, em sua dimensão mais ampla, não ocorre somente<br />
na escola, mas é nela que se espera que homens e mulheres aprendam, ou possam construir<br />
conhecimentos úteis e necessários ao convívio social.<br />
Segundo Sacristán “a espécie humana, constituída biologicamente como tal, elabora instrumentos,<br />
artefatos, costumes, normas, códigos de comunicação e convivência como mecanismos<br />
imprescindíveis para a sobrevivência dos grupos e da espécie” (1998, p. 13).<br />
É por meio desses códigos, artefatos, costumes e normas que interpretamos o mundo e<br />
construímos nossos saberes acerca da realidade que nos cerca; neles produzimos nossos gostos,<br />
sensibilidade e estética. É, também, no seio das linguagens ali produzidas, que tecemos os discursos<br />
que nos constituem, construindo estilos de vida, valores, representações e hierarquias que<br />
conformam a identidade cultural dos diversos grupos humanos. Em síntese, são esses códigos<br />
culturais que nos constituem como sujeitos históricos e, somente por meio deles, apreendemos<br />
a realidade e construímos significados para a nossa existência e ação no mundo social.<br />
Ainda nas palavras de Sacristán “posto que as aquisições adaptativas da espécie (....) não<br />
se fixam biologicamente nem se transmitem através da herança genética, os grupos humanos<br />
põem em andamento mecanismos e sistemas externos de transmissão para garantir a sobrevivência<br />
nas novas gerações de suas conquistas históricas” (1998).<br />
A esse processo de inserção das novas gerações nos significados culturais do grupo chamamos<br />
de socialização, e o mecanismo que o produz denominamos educação. Nas sociedades<br />
primitivas a educação ocorre de maneira natural e espontânea na convivência das crianças com os<br />
adultos e nos rituais da tribo, mas as sociedades complexas precisaram criar um lugar específico<br />
para o ensino e a aprendizagem dos conhecimentos historicamente produzidos: a escola.<br />
Assim sendo, as crianças vão à escola para aprender e os professores para ensinar. Ensinar<br />
e aprender o quê? E para quê? A complexificação da sociedade, o desenvolvimento da ciência,<br />
da tecnologia e dos meios de comunicação, no mundo globalizado da atualidade, impõem que a<br />
escola e os professores/as façam escolhas, posto que as diferenças (culturais, étnicas, religiosas,<br />
sociais...), que se tornam cada dia mais evidentes, exigem relativizar a utopia de Comênius de<br />
“ensinar tudo a todos”, ou reinterpretar o seu ideal à luz das condições contemporâneas.<br />
40
EaD<br />
Para fazer escolhas é importante que nós, professores, saibamos<br />
dar respostas a questões básicas que estão implicadas na tarefa de<br />
ensinar, tais como: O que significa conhecer? Como aprendemos?<br />
Qual conhecimento é necessário para a convivência na sociedade<br />
contemporânea? Certamente não existe uma única resposta para cada<br />
uma dessas perguntas, mas para impor coerência a nossa prática<br />
pedagógica precisamos assumir uma posição (teórica) sobre elas.<br />
conHeciMento, ensino e aPrendizageM<br />
Na sua dimensão epistemológica, o conhecimento tem sido<br />
definido como uma construção histórica, resultado e agregação de<br />
processos sociais, culturais e científicos que se organizam formando<br />
corpos teóricos para explicar a realidade. As teorias de aprendizagem<br />
mais recentes definem o ato de conhecer como um processo pessoal<br />
e interativo1 provocado pelas relações do sujeito com o meio, em cuja<br />
dinâmica se ressignificam as representações2 ou se ampliam conceitos<br />
prévios sobre a realidade em permanente construção/reconstrução<br />
subjetiva de símbolos, signos, imagens e valores.<br />
É esse processo de significação individual e coletiva – que<br />
ocorre como consequência de vivências e convivências no mundo –<br />
que chamamos de aprendizagem. Dessa concepção de conhecimento<br />
deriva uma visão de homem/sujeito, constituído pelas aprendizagens<br />
que ocorrem na esfera dos determinantes culturais, sociais e linguísticos<br />
e não fora, ou a partir deles.<br />
Se assim entendemos, podemos dizer que aprender é significar<br />
o mundo, desenvolvendo esquemas mentais em interações constantes<br />
com os saberes acumulados pela cultura e pela ciência. Tais esquemas<br />
mentais podem, também, ser chamados de conceitos que conduzem<br />
1 De acordo com o interacionismo, o conhecimento ocorre na ação recíproca de homem/meio na<br />
qual ambos se modificam.<br />
2 Usamos aqui a expressão “representação” na perspectiva conceitual usada por Stuat Hall e Giroux<br />
que a definem como “a forma pela qual o significado é construído através da localização, do<br />
posicionamento e da disposição do discurso”. Esses autores reconhecem na representação um<br />
lugar formativo e não apenas expressivo na construção da vida social e política. Assim sendo,<br />
subjetividade, identidade, política, cultura e ideologia constituem “os cenários da representação”<br />
que se formam no interior de códigos que têm uma história e uma posição no interior de formações<br />
discursivas de um tempo e lugar particulares. (Ver a esse respeito Giroux e McLaren 1995, p.<br />
149)<br />
Juan Amos Comênius<br />
<strong>didática</strong><br />
Educador nascido na Tchecoslováquia,<br />
em 1592, é considerado<br />
o precursor da Didática. Entre<br />
suas inúmeras obras a mais<br />
famosa foi a “Didáctica Magna”,<br />
publicada em 1636. Comênius<br />
acreditava que a esperança de um<br />
mundo melhor estava baseada<br />
na educação da juventude e,<br />
para tanto pregava que, à luz da<br />
racionalidade comum ao gênero<br />
humano, tudo o que pudesse ser<br />
ensinado deveria ser ensinado<br />
a todos, fossem homens ou<br />
mulheres, ricos ou pobres, num<br />
processo educativo que duraria a<br />
vida inteira. Para tanto, buscava<br />
um método que pudesse fazer o<br />
conhecimento acessível a todos,<br />
independentemente das aptidões<br />
individuais ou das classes<br />
sociais.<br />
Epistemologia<br />
Teoria do conhecimento.<br />
41
EaD anna r. F. santiago – eronita s. Barcelos – eulalia B. Marin – Hedi M. luft – iselda s. Feil – lori M. Frantz – Maridalva B. Maldaner – solange c. M. rufino<br />
as nossas ações, interações e práticas sociais. Desse modo, só podemos aprender colocando em<br />
diálogo as nossas representações ou conceitos prévios com informações novas, cujos sentidos<br />
estejam relacionados ao universo de significados da cultura, na qual estamos imersos.<br />
Assim sendo, o ensino põe em interação dialógica os saberes prévios do aprendente (significados<br />
culturais também chamados de senso comum) com informações (dados sobre a realidade<br />
ou saberes científicos) que, no processo pedagógico, se estruturam na forma de conceitos<br />
(esquemas mentais de representação significativa).<br />
São esses significados, produzidos pela interação entre elementos culturais, representações<br />
(veiculadas pelo senso comum ou pela mídia) e informações intencionalmente postas em<br />
discussão, que devem ser problematizados e ampliados no desenvolvimento do currículo escolar.<br />
Como sugerem, porém, Giroux e Mclaren (1995), para inserir o conteúdo no universo de<br />
representações simbólicas dos/as alunos/as não basta apenas usar “uma linguagem que imite ou<br />
parodie as tendências dezumanizantes da era da reprodução mecânica” (p. 148).<br />
É necessário questionar o conhecimento por dentro das práticas sociais e culturais expondo<br />
e reconstruindo os vínculos (sociais, políticos, históricos) entre os signos e as estruturas de<br />
representação, nas relações e tecnologias de poder que as sustentam. Estaremos, assim, historicizando<br />
o conhecimento e as tecnologias atuais de produção cultural para desvelar as formas<br />
como a própria cultura está inscrita em representações que a produzem e legitimam, justificando,<br />
muitas vezes, os processos de dominação e exclusão.<br />
Nessa perspectiva enfatizada pela pedagogia crítica, as representações e informações que<br />
constituem o conhecimento do cotidiano social não são objetivas, transparentes e definitivas, mas<br />
produzidas no âmbito das relações socioculturais em interações linguísticas e espaços discursivos<br />
permeados de contradições e rupturas. Daí porque qualquer representação é sempre provisória<br />
e parcial, passível de mudança, tornando legítima a intervenção pedagógica que provoca<br />
a desconstrução e a reconstrução de imagens e conceitos para historicizar e contextualizar as<br />
interpretações que se fazem da realidade.<br />
Ainda nas palavras de Giroux e Mclaren, “uma tal pedagogia reconhece que a formação<br />
de conceitos é moldada e determinada pelas formas que são inseparáveis dela e não pode ser<br />
caracterizada por uma universalidade meta-empírica que exista independentemente das contingências<br />
das relações diferenciais de poder e das particularidades sensuais da vida material”<br />
(1995, p. 148). Nesse reconhecimento consiste a dimensão política, séria e comprometida da<br />
educação reivindicada por Paulo Freire.<br />
sala de aUla:<br />
espaço e tempo para as interações e mediação nos conhecimentos<br />
Diante do complexo e desafiador compromisso que a escola assume na sociedade contemporânea,<br />
precisamos aprofundar nossa reflexão sobre o que ensinamos, buscando compreender<br />
os objetivos explícitos ou latentes nos conteúdos e procedimentos pedagógicos em sala de aula.<br />
42
EaD<br />
<strong>didática</strong><br />
De acordo com Sacristán e Gómez Peres (1998) “parece claro para todos os autores e correntes<br />
da sociologia da educação que o objetivo básico e prioritário da socialização do/as alunos/as na<br />
escola é prepará-los para sua incorporação no mundo do trabalho” (1998, p. 14).<br />
Se concebemos o homem como ser social que provê a sua existência por meio do trabalho e<br />
percebemos a escola como instituição que se fortalece na expansão do projeto de desenvolvimento<br />
da modernidade, com atribuições específicas desde o surgimento das sociedades industriais, 3 não<br />
há como negar essa evidência. É na escola que os indivíduos adquirem sua condição de cidadania<br />
e seu passaporte para o mundo do trabalho, cada vez mais exigente de qualificação.<br />
Isto nos leva a pensar que na base das questões metodológicas e teórico-epistemológicas,<br />
que julgamos fazer diferença nos procedimentos didáticos em sala de aula, estão as concepções<br />
sobre o que significa preparar para o mundo do trabalho, participar na sociedade, promover a<br />
igualdade e, principalmente, sobre o modo como se realiza esse processo no âmbito da escola.<br />
É na dinâmica do currículo em desenvolvimento na sala de aula, que se expressam os entendimentos<br />
acerca da realidade e da participação efetiva dos sujeitos individuais, dos grupos<br />
organizados e das instituições na construção e/ou transformação social. Daí porque a busca de<br />
alternativas pedagógicas para manter os alunos na escola – e, principalmente, aprendendo na<br />
interação da sala de aula – exige do professor não só a consideração das demandas sociais, a<br />
busca de atualidade nas informações e o respeito às diversidades culturais.<br />
Impõe, também, que se atente para os processos de apropriação significativa das informações<br />
(conteúdos) que elegemos para por em discussão na sala de aula, tendo em vista a formação de<br />
sujeitos que, hoje tendo acesso às tecnologias de comunicação, interagem constantemente com<br />
textos culturais4 de diversos matizes, intensamente veiculados pela mídia.<br />
Assim, paralelamente ao preparo para o mundo do trabalho, que exige conhecimento, criatividade<br />
e qualificação para a manipulação de tecnologias cada vez mais sofisticadas, o contexto<br />
atual requer uma prática pedagógica crítica e engajada numa nova perspectiva de socialização.<br />
Esta postura requer do professor, além da compreensão crítica das questões históricas que produzem<br />
a exclusão (escolar e social), competências <strong>didática</strong>s para a seleção organização e condução<br />
dos processos pedagógicos em sala de aula.<br />
Indubitavelmente, a crescente informatização e uso da tecnologia, na sociedade contemporânea,<br />
exigem uma nova configuração dos saberes naquilo que as orientações curriculares<br />
oficiais vêm chamando de currículo por competência. Segundo Macedo (2002) “os currículos por<br />
3 Ver a esse respeito: Fernandez Enguita, 1990.<br />
4 De acordo com Costa, (2003, p. 138) “a expressão textos culturais é utilizada para referir-se a uma variada e ampla gama de artefatos<br />
que nos ‘contam’ sobre si e sobre o contexto em que circulam e em que foram produzidos. Filmes, obras literárias, peças publicitárias,<br />
programas de rádio e TV, músicas, quadros, ilustrações, bem como livros didáticos, leis, manuais, provas e pareceres descritivos, ou<br />
mesmo um museu, um shopping center, um edifício, uma peça de vestuário ou de mobiliário, etc... são textos culturais”<br />
43
EaD anna r. F. santiago – eronita s. Barcelos – eulalia B. Marin – Hedi M. luft – iselda s. Feil – lori M. Frantz – Maridalva B. Maldaner – solange c. M. rufino<br />
competência têm surgido na interação com um mercado produtivo (...) onde propala-se uma educação<br />
que integre formação profissional ampla, mesclando competência técnica, organizacionais<br />
e sociais, a dimensões políticas, que possibilitem uma dimensão crítica da vida e das relações<br />
sociais” (in: lopes; Macedo, 2002, p. 135).<br />
Na perspectiva de uma pedagogia crítica e engajada nos problemas sociais da contemporaneidade,<br />
no entanto, há que se distinguir o desenvolvimento de competências individuais como<br />
forma de resposta ao mercado produtivo, da “eficiência social” que paralelamente à adequação<br />
ao mercado de trabalho “tem como horizonte o desenvolvimento de toda a sociedade, tratando<br />
a educação como um bem público” (Macedo, in lopes; Macedo, 2002, p. 135).<br />
Nesse entendimento, a competência pedagógica do professor nas diferentes especificidades<br />
do conhecimento por ele trabalhadas requer não apenas o domínio de informações, leis e teorias<br />
acumuladas pela ciência, mas também, habilidades (técnica, social e política) para encaminhar,<br />
na sala de aula, o uso socialmente útil do conhecimento, em atitudes coerentes com os princípios<br />
da convivência cidadã, do respeito ao meio ambiente e da participação política.<br />
Daí porque os conteúdos curriculares não podem limitar-se às tradicionais informações<br />
que constituem um corpo de conhecimentos científicos. Tais informações precisam revestir-se<br />
de uma estrutura ética e de um arcabouço metodológico coerente com as formas culturais de<br />
significação para que se incorporem como construção subjetiva de conhecimentos que interagem<br />
nas relações e práticas sociais.<br />
Ao estruturarem-se didaticamente em várias dimensões (informações, habilidades, conceitos<br />
teóricos) metodologicamente organizadas para a interação pedagógica em sala de aula, os conteúdos<br />
curriculares constituem-se como uma totalidade dinâmica que é apreendida no processo<br />
de aprendizagem, provocando mudanças pessoais que se refletem em atitudes sociais.<br />
É precisamente nesse âmbito de transformação que se espera os efeitos da aprendizagem<br />
humana na sala de aula. Para que essa apreensão/aprendizagem transformadora ocorra, os processos<br />
pedagógicos precisam estar profundamente enraizados na cultura, incorporando significados<br />
que possam expandir o saber que ali se produz à dimensão do “conhecimento científico”,<br />
na mediação pedagógica das práticas escolares.<br />
É nessa mediação pedagógica que se expressa a prática docente como uma totalidade que<br />
enreda os conteúdos a serem ensinados em várias dimensões: a) informativa, trazendo dados<br />
novos sobre a realidade; b) procedimental, na medida em que uma informação é apreendida<br />
por meio de formas específicas de comunicação (metodologias) que não estão referidas apenas<br />
ao método como “passos formais”, mas também a processos valorativos de origem cultural ou<br />
44
EaD<br />
<strong>didática</strong><br />
política; c) e atitudinais pois toda aprendizagem produz modificações seja no modo de ver a<br />
realidade, seja na forma de operar com o conhecimento ou de valorar situações, expressando-se<br />
em atitudes assumidas pelo sujeito, no seu convívio social. 5<br />
Desse modo, procedimentos e atitudes permeiam as informações elencadas como conteúdo<br />
nas relações interativas da sala de aula, a começar pela sua seleção para continuar na sua<br />
organização didático-metodológica e no desenvolvimento do processo de ensino, visando a sua<br />
ressignificação subjetiva na forma de aprendizagens que se expressarão nas práticas sociais e<br />
identitárias na esfera cultural.<br />
As habilidades e competências que se deseja desenvolver nessa perspectiva de desenvolvimento<br />
cultural e social, não serão vistas como mero treinamento técnico para a execução de<br />
tarefas, e sim como promoção de capacidades criativas que são construídas na articulação do<br />
conhecimento com a prática social.<br />
Assim sendo, o desenvolvimento de habilidades supõe, também, uma dupla dimensão: o<br />
processo técnico de saber fazer e a capacidade autônoma de estabelecer relações conceituais<br />
expressando-se na competência para... Exemplificando, poderíamos dizer que uma criança, na<br />
fase inicial da alfabetização, pode já estar dominando o conceito de escrita como representação<br />
da fala; usando razoavelmente o processo técnico de articulação de sons, letras, sílabas, palavras,<br />
mas não possuir, ainda, habilidades de leitura que lhe permitam ler com fluência e entonação,<br />
respeitando a pontuação, ou mesmo para interpretar o texto e opinar sobre ele.<br />
É nesse sentido que se espera da mediação pedagógica em sala de aula o auxílio ao educando,<br />
tanto na construção de conceitos que lhe permitam dizer que aprendeu algo novo quanto<br />
no desenvolvimento de habilidades (cognitivas, motoras e sociais) que facilitem a incorporação<br />
do entendimento à ação, produzindo as mudanças de atitude que se espera como resultado da<br />
aprendizagem.<br />
5 Para saber mais a esse respeito você pode consultar: Coll; Pozo (1995).<br />
45
EaD<br />
Unidade 3<br />
PlanejaMento didático:<br />
elementos constitutivos e Práticas na área de Formação docente<br />
oBjetivos desta Unidade<br />
<strong>didática</strong><br />
• Entender o planejamento como articulação de diferentes dimensões que possibilitam<br />
a atuação docente com intencionalidade e autonomia, abordando o planejamento da aula na<br />
dimensão colaborativa entre alunos e professores.<br />
a seção desta Unidade<br />
Seção 3.1 – Planejamento Educacional: razões, sentidos e práticas<br />
seção 3.1<br />
Planejamento educacional: razões, sentidos e práticas<br />
Iselda Sausen Feil<br />
Solange Catarina Manzoni Rufino<br />
O componente curricular Didática tem, entre outros, o objetivo de proporcionar a refle-<br />
xão de questões relacionadas à formação do professor, bem como oportunizar a construção de<br />
alternativas pedagógicas de atuação profissional. Muitos são os desafios para nós professores<br />
desenvolvermos com autonomia a nossa ação educativa e um deles é, sem dúvida, a capacidade<br />
de planejá-la.<br />
47
EaD anna r. F. santiago – eronita s. Barcelos – eulalia B. Marin – Hedi M. luft – iselda s. Feil – lori M. Frantz – Maridalva B. Maldaner – solange c. M. rufino<br />
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Ao planejarmos explicitamos ou legitimamos nossa representação/concepção de mundo,<br />
e, consequentemente, de educação. São nossas utopias, sonhos e desejos que nos impulsionam<br />
por uma direção, pois só ensinamos, conforme Forquin (1993), aquilo que tiver, ao nosso próprio<br />
olhar, valor formador (só ensinamos aquilo a que conseguimos atribuir sentido). Não conseguimos,<br />
pelo menos por muito tempo, pensar de uma forma e educar de outra.<br />
O nosso convite neste texto é o de refletirmos sobre o quanto o planejamento da ação<br />
educativa pode se reverter de importância no âmbito da educação formal a partir das escolhas<br />
teóricas e valorativas que fazemos, principalmente quando entendido como o agir-refletir para<br />
um novo agir com vontade e intencionalidade.<br />
É a paixão pelo que acreditamos importante fazer, pelo que vale a pena lutar e com quem<br />
e para quem fazemos que dá sentido a nossa prática e nesse contexto significar o planejamento<br />
como possibilidade de concretização e continuidade de projetos e processos educativos é elemento<br />
constitutivo da formação de professor(a).<br />
ProdUzir entendiMentos soBre o PlanejaMento no caMPo da edUcação escolar<br />
reMete a MúltiPlos qUestionaMentos, tais coMo:<br />
• Que significados atribuiu-se ao planejamento educacional na história da educação, nos aportes<br />
teóricos e nas práticas daqueles que o constituem como experiência pedagógica?<br />
• Que razões motivam o estudo do tema planejamento no contexto da formação acadêmica para<br />
a profissão de professor?<br />
• Por quais caminhos seguir no processo de efetivar o planejamento a fim de produzir encaminhamentos<br />
que respondam às demandas de uma educação de qualidade social no tempo<br />
presente?<br />
• Como fazer o planejamento educacional, e mais especificamente o planejamento de ensino,<br />
que possibilite a religação/integração dos conhecimentos/saberes e que mobilize as condições<br />
para a apropriação de conhecimentos significativos?<br />
Entendemos que questões desta natureza integram os conteúdos de formação docente e<br />
compreendê-las nos permitem formular concepções a respeito deste tema, de modo a possibilitar<br />
a cada um de nós a constituição de sentidos ao que já se apresenta como teorias de planejamento<br />
educacional.<br />
Planejar é iMPortante...<br />
O planejamento é importante em todas as profissões, embora para algumas com mais intensidade<br />
que outras, como na profissão de professor. Na profissão do professor o planejamento<br />
adquire extrema importância, pois o professor, como sujeito de conhecimento e pertencente a
EaD<br />
<strong>didática</strong><br />
uma cultura, interage com pessoas situadas em espaços e tempos diferentes e pertencentes a<br />
outras culturas e que trazem diversificadas expectativas de formação. O planejamento vem pos-<br />
sibilitar a interlocução das diferentes finalidades na perspectiva da concretização de um projeto<br />
educativo.<br />
vocês perceberam que o professor é o único profissional legitimamente instituído como<br />
responsável pela qualidade de vida de outras pessoas por meio da educação?<br />
resistências...<br />
É recorrente ouvirmos que há professores que não planejam, afirmando não ser isto ne-<br />
cessário e importante, pois já têm experiência suficiente para precisar planejar ou porque os<br />
significados constituídos historicamente para explicar o planejamento não resultaram para eles<br />
em significado próprio no contexto de suas práticas.<br />
A resistência provém, em muitas situações, do que se produziu como resultado dos pla-<br />
nejamentos a nível macro no campo da educação expresso como políticas públicas formuladas<br />
sem a participação popular, não concretizando a tão propalada democracia. Os professores não<br />
se sentiam engajados nem comprometidos por não terem sido convidados e nem sensibilizados<br />
a protagonizar projetos de educação.<br />
Pesquisas neste campo indicam que ao se interrogar professores sobre o significado do<br />
planejamento constata-se que o ato de planejar é negado no discurso de muitos deles. Sandra<br />
Corazza, referindo-se a respostas de professores obtidas em uma pesquisa sobre este tema<br />
identifica que as professoras negam o planejamento em suas práticas e analisa as razões que<br />
justificam tal descrédito: “(...) De onde estas professoras poderiam tirar outras significações acer-<br />
ca do planejamento de ensino, se tais formas foram/são hegemônicas no discurso pedagógico<br />
moderno?” (2001, p. 109).<br />
E ainda, por que os professores deveriam crer no planejamento se desde a sua gênese locali-<br />
zada nos saberes e nas práticas econômicas, comerciais e industriais, este serviu para aprofundar<br />
ainda mais as desigualdades sociais, condição esta refletida fortemente na educação escolar? O<br />
que se evidenciou na prática do planejamento nas instituições educativas, principalmente nos<br />
anos 1970/1990, caracterizou-se por modelos e práticas burocráticas enfatizando técnicas de<br />
procedimentos e padronizações, as quais pouco contribuíram para elevar a qualidade da ação<br />
pedagógica desenvolvida no âmbito escolar.<br />
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50<br />
Se o planejamento efetivamente era proposto como uma ferramenta burocrática e de con-<br />
trole externo aos projetos escolares, parece que esta resistência teve suas razões num tempo<br />
histórico, num projeto de nação e nas políticas de formação vigentes. Esta, porém, não é uma<br />
verdade sacralizada, devendo ser superada com os novos contextos que se avistam.<br />
novos signiFicados... novas razÕes...<br />
Em referência a estas constatações consideramos significativo que na formação de professores<br />
se constituam novos significados e sentidos ao planejamento educacional e mais especificamente<br />
ao planejamento dos processos educativos a partir de escolhas culturais expressas nos<br />
currículos escolares, currículos estes que respondam e acolham a pluralidade de vozes que emanam<br />
da diversidade cultural dos diferentes grupos sociais que acessam as escolas especialmente<br />
como refere Santomé (1998, p. 131), “As culturas e as vozes dos grupos sociais minoritários e/ou<br />
marginalizados, que não dispõem de estruturas importantes de poder, costumam ser silenciadas,<br />
ou mesmo estereotipadas e deformadas para anular suas possibilidades de reação”.<br />
Inúmeras razões podem constituir sentidos ao planejamento educacional tanto na esfera<br />
macro de definições mais amplas quanto no micro espaço, como é o caso dos planejamentos de<br />
ensino no contexto escolar. Em se tratando do planejamento educacional no âmbito global temos<br />
como exemplo o Plano Nacional de Educação (PNE), que abrange todos os aspectos concernentes<br />
à organização da educação nacional.<br />
Neste plano busca-se garantir que as linhas mestras que configuram a educação nacional<br />
sejam efetivamente cumpridas e postas ao alcance de todos, uma vez que vivemos em uma<br />
sociedade instituída como democrática. O planejamento macro define os princípios, diretrizes,<br />
parâmetros e as finalidades que se quer alcançar em âmbito nacional na perspectiva da unidade<br />
pautada nos princípios da Republica, como: a igualdade de condições de acesso e permanência<br />
na escola, liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura o pensamento, a arte e o<br />
saber; pluralismo de ideias e concepções pedagógicas; respeito à liberdade e apreço à tolerância;<br />
gratuidade do ensino; valorização do profissional da educação; gestão democrática do ensino;<br />
garantia do padrão de qualidade; valorização da experiência extraescolar e vinculação entre a<br />
educação escolar, o trabalho e as práticas sociais (lDB 9.394/96).<br />
O planejamento nas esferas estadual e municipal vai ao encontro da política de descentralização<br />
do poder e do respeito às diversidades regionais e locais. Os Estados da Federação,<br />
seus municípios, os bairros, as vilas, as escolas, as turmas, os sujeitos de cada local terão de ser<br />
considerados em suas diferenças culturais, sociais e econômicas e isto faz parte de processos do<br />
planejamento educacional nos seus diferentes níveis e modalidades de ensino.
EaD<br />
<strong>didática</strong><br />
Na busca de sentidos que respondam ao porquê se faz importante planejar chamamos a<br />
atenção para a responsabilidade social que nós professores temos na construção de uma sociedade<br />
pautada para o que é mais razoável ao bem comum. E, por ser assim, faz-se cada vez mais<br />
inclusiva em todos os aspectos da vida, também mais democrática e mais humana.<br />
Temos ainda a responsabilidade com estudantes de todas as idades e com seus pais, que<br />
esperam da escola bem mais do que saber conteúdos das diferentes áreas do conhecimento. Esperam<br />
(mesmo que não tenham clareza sobre isto) que a escola, seus gestores, seus professores,<br />
os ajudem a aprender a viver, a desenvolver sua humanidade, a se constituírem cidadãos e que<br />
os saberes que aprendem ali possam significar algo em algum tempo e lugar em suas vidas.<br />
Outra razão que dá sentido e justifica o planejamento diz respeito à racionalização de meios<br />
para que possamos potencializar as condições existentes em cada instância de decisão.Também<br />
é importante lembrar que o planejamento enquanto teoria pedagógica fundamenta um modo<br />
especializado de realizar nossos projetos e no desenvolvimento de um processo de planejamento<br />
vamos constituindo saberes que nos possibilitam um constante repensar e direcionam a profissionalização<br />
da docência a partir dos conhecimentos construídos para este fim.<br />
Dentre os motivos de se valorizar o ato de planejar, de configurar planos, encontram-se<br />
também os sentidos que atribuímos aos nossos fazeres e ao lugar social por nós ocupado. Na<br />
profissão de professor, como em qualquer outra, muitos são os caminhos que podemos seguir<br />
e as escolhas são pautadas especialmente pelas crenças, valores e conhecimentos que fomos<br />
constituindo ao longo de nossas vidas.<br />
Neste contexto o planejamento no âmbito da educação é elemento constitutivo da formação<br />
acadêmica. A nossa aposta é de que ao realizar a sua formação para exercer a profissão de professor<br />
o acadêmico esteja optando pelo magistério pela possibilidade de coletivamente construir<br />
uma nova cultura escolar.<br />
A sociedade brasileira, e principalmente as nossas crianças, adolescentes e jovens, estão<br />
necessitando professores que veem neles a razão do seu fazer pedagógico e que assumam o seu<br />
trabalho na possibilidade da emergência de uma nova ética, uma nova cultura escolar. Uma cultura<br />
escolar em que os estudantes sejam protagonistas de sua formação, sintam-se convidados<br />
a participar como atores sociais de toda ação educativa e que sua voz esteja representada e seja<br />
reconhecida. A cultura e a história dos estudantes precisam ser referências da ação educativa.<br />
Por qUe Planejar a edUcação escolar?<br />
Sandra Corazza, ao explicitar razões que justificam porque planejar, argumenta ser o<br />
plano curricular uma forma contra-hegemônica de pedagogia, por meio da qual selecionamos<br />
e organizamos objetos de estudo, experiências, linguagens, práticas, vozes, narrativas, relações<br />
sociais e identidades (2001, p. 18).<br />
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52<br />
Outra razão que sustenta a pertinência de se planejar é para, intencionalmente, ter autoria<br />
na construção das práticas educativas e para que a multiplicidade de culturas implicadas em<br />
nossas identidades e nas de nossos estudantes possam se transformar em materiais curriculares,<br />
codificados em temas de estudo.<br />
Além disso, é necessário planejar porque dentre os objetivos da escola encontra-se a busca<br />
de humanizar as pessoas, aprender a viver, constituir a cidadania planetária e a promover o<br />
aprendizado coletivo das possibilidades da vida, e é aí que as várias dimensões da vida podem<br />
ser trabalhadas pedagogicamente.<br />
Por sermos seres de mediação, ou seja, só nos constituímos humanos porque interagimos<br />
com outros humanos, a escola tem o papel de proporcionar este processo de humanização. Este<br />
não ocorre isoladamente, uma vez que todo o processo de aprendizagem é plural, e não descolado<br />
do processo/construção que as pessoas já possuem, pois todos são sujeitos de conhecimento<br />
e cultura.<br />
É por isso que nós professores precisamos ter um profundo conhecimento da história de<br />
nossos estudantes para que a leitura destas histórias se constitua, como afirmamos anteriormente,<br />
referência na organização e planejamento das nossas atividades educativas. Paulo Freire sempre<br />
defendeu que o ponto de partida da ação educativa é o ponto de vista dos alunos: aquilo que o<br />
aluno manifesta a partir de sua autonomia, em diálogo com seus colegas mediado pelo professor,<br />
é o princípio do ato de planejar, que é o de articular, na sala de aula, a vida das pessoas, suas<br />
práticas sociais com os conhecimentos acumulados pela humanidade.<br />
Esta história de que só a escola ensina e que as crianças e adolescentes, ao virem para<br />
a escola, pouco ou nada sabem, já é coisa do passado. Com o surgimento de novas pesquisas<br />
e teorizações, as pessoas são vistas como sujeitos de direitos, de desejos e de conhecimento e<br />
produtores de cultura.<br />
Todos somos sujeitos sociais e somos produtos de cultura (nos constituímos pela interação<br />
com o outro, com o meio, com condições de vida...). Isto parece que já está bastante evidenciado,<br />
mas além de sermos produtos de culturas, também somos seus produtores, ou seja, assim como<br />
as pessoas e os meios interferem na nossa constituição, também, reciprocamente, interferimos<br />
na vida dos outros.<br />
É isto que a escola precisa promover: a interlocução entre as diferentes culturas no sentido<br />
de construir novos sentidos ao que se realiza em seu interior e na sociedade em geral. Esta<br />
interlocução só se faz possível quando há um envolvimento, uma mobilização de todos em torno<br />
de um planejamento participativo e colaborativo, rompendo com o reducionismo conteudista e<br />
com as fronteiras entre modalidades e níveis de ensino, reafirmando a ideia de que as pessoas<br />
aprendem quando se tornam sujeitos de sua aprendizagem.
EaD<br />
<strong>didática</strong><br />
E, para ele se tornar sujeito de sua aprendizagem, ele precisa participar das decisões que dizem respeito<br />
ao projeto da escola, projeto esse inserido no projeto de vida do próprio aluno. Não há educação e<br />
aprendizagem sem sujeito da educação e da aprendizagem. A participação pertence à própria natureza<br />
do ato pedagógico (Gadotti; Romão, 2004, p. 66).<br />
o ProtagonisMo no PlanejaMento...<br />
E apostando na efetivação de um processo de planejamento participativo, estamos mantendo<br />
esta interlocução por intermédio deste texto. O objetivo é o de desafiá-lo para que, já no<br />
seu processo de formação inicial para ser professor, você se coloque como sujeito de autoria;<br />
alguém capaz de ser propositivo; ver neste texto uma provocação para analisá-lo e construir suas<br />
próprias significações, fazer da formação uma experiência que vale a pena viver pelo que pode<br />
significar tanto em sua dimensão pessoal quanto profissional.<br />
Há um educador chamado Snyders (1988) que diz (mais ou menos assim): que a prática<br />
educativa que vale a pena é aquela que acende a chama da alegria cultural da escola. O autor<br />
defende, e nós concordamos com ele, que a escola é, ou pode ser, um espaço para cultivar a alegria,<br />
ligado aos campos específicos da cultura e do conhecimento. Paulo Freire também opinava<br />
sobre educação que vale a pena. Ele afirmava que a educação que vale a pena é aquela que<br />
ajuda as pessoas a serem mais gente.<br />
Tanto Snyders quanto Paulo Freire defendem que isto se torna viável na medida em que<br />
este processo seja fruto de um planejamento coletivo e/ou participativo, ou ainda, como expressa<br />
Gadotti, de um “planejamento socializado” que tenha como base as experiências de todos os<br />
sujeitos envolvidos para a organização de nova ação educativa, tendo suas histórias, sua realidade<br />
como ponto de referência, mas sempre em busca de novos sentidos à educação escolar que<br />
contribuem para o encantamento do cotidiano da sala de aula por meio da “<strong>didática</strong>” que saiba<br />
unir processos vitais a processos cognitivos.<br />
Concebemos nesta perspectiva o planejamento como sendo um ato intencional de construção<br />
de novos significados e sentidos. Em razão disso queremos mediar teorias, experiências,<br />
permitindo-lhes compreender o planejamento em suas dimensões e possibilidades no sentido<br />
de poderem viver sua experiência particular (embora mediada) de planejamento e construir de<br />
forma compartilhada com seus estudantes, sejam crianças, adolescentes, jovens e até mesmo<br />
adultos, formas e alternativas que realmente sejam frutos de suas perguntas, demandas, desejos<br />
e que contribuam para o fortalecimento de sua cultura e sua história.<br />
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54<br />
vocês perceberam que escrevemos planejar com os alunos? Isto não é uma novidade para<br />
vocês? Seus professores, durante seu processo de escolarização, planejaram para e com vocês,<br />
ou apenas para (ou até além de) vocês?<br />
você se leMBra da sUa vida escolar? coMo Foi a trajetória?<br />
Sonia Krammer afirma que o professor, como mediador, precisa se perguntar que criança<br />
ou adolescente foi, para ver que visão de infância/adolescência existe dentro dele, e acrescenta:<br />
“de certa maneira, a gente tem que se apropriar da nossa própria história e entender que criança<br />
(adolescente) eu fui para, a partir daí, saber que tipo de criança (ou adolescente) eu gostaria de<br />
formar” (entrevista dada à Revista Criança, 2007). Com esta afirmação Krammer já aponta para<br />
um dos momentos importantes do planejamento: refletir sobre seu processo de escolaridade para<br />
melhor poder entender/conduzir o seu trabalho como professor.<br />
o qUe é MesMo PlanejaMento?<br />
Com certeza já explicitamos a nossa concepção de planejamento, mas como se sabe, nem<br />
todos o concebem da forma como vimos até aqui discutindo. O planejamento durante toda a história<br />
educacional passou por várias concepções e, consequentemente, por várias significações.<br />
A cada mudança de paradigma de conhecimento, educação e ensino, o planejamento assume<br />
outra dimensão. E mesmo aqueles pesquisadores que se fundamentam em paradigmas/teorias<br />
semelhantes, elaboram conceitos diferentes. Assim, vejamos alguns conceitos, de autores diversos<br />
que, embora diferentes, se articulam, se baseiam e complementam um ao outro:<br />
• Planejar é pensar a ação antes, durante e depois... É preparar tudo muito bem, acompanhar<br />
com o mesmo cuidado a realização das ações e tirar lições do ocorrido (Ferreira, 1985, p. 20).<br />
• É transformar a realidade numa direção escolhida; é instituir um processo de intervenção na<br />
realidade, é explicitar os fundamentos da ação de um grupo, é realizar um conjunto de técnicas<br />
para racionalizar a ação, é realizar um conjunto de ações propostas para aproximar uma<br />
realidade de um ideal (Gandin, 1985, p. 18).<br />
• É sempre um processo de reflexão, de tomada de decisão sobre a ação; processo de previsão<br />
das necessidades e racionalização de emprego de meios (materiais) e recursos (humanos) disponíveis,<br />
visando à concretização de objetivos, em prazos determinados e etapas definidas, a<br />
partir dos resultados das avaliações (Padilha, 2001, p. 30).
EaD<br />
<strong>didática</strong><br />
• Planejar em sentido amplo é responder a um problema, isto é, estabelecer fins e meios que<br />
apontem para a sua superação, visando a atingir objetivos antes previstos, pensando e prevendo,<br />
necessariamente, o futuro, mas sem desconsiderar as condições do presente e as experiências<br />
do passado, levando-se em conta o contexto e os pressupostos filosóficos, culturais e políticos<br />
de quem, com quem e para quem se planeja. (Gadotti; Romão, 2004, p. 81).<br />
Podemos ainda afirmar, resumidamente, que planejamento é a organização (de forma<br />
intencional) da ação humana. É pensar antes de agir – é uma forma que as pessoas utilizam<br />
para, com o menor risco possível, concretizar seus objetivos. O planejamento é uma atividade<br />
essencialmente humana. Somente os seres humanos são capazes de antever uma ação antes de<br />
realizá-la. Na educação se constitui como um mapa da realidade; processo de tomadas de decisão<br />
sobre a ação educativa. Estabelece um rumo, uma direção, um sentido explícito e a forma<br />
de como operacionalizar.<br />
Planejar é toMar decisÕes soBre o Fazer. então a PergUnta:<br />
quais as decisões necessárias para garantir o fazer da escola?<br />
vejamos um episódio:<br />
Uma jovem professora é nomeada por órgão competente para assumir sua função em uma<br />
escola da periferia de sua cidade. É um sonho, um projeto de vida e de carreira profissional que<br />
se inicia. Sua expectativa inicial vem carregada de preocupações relativas ao dar conta do que é<br />
demandado ao professor referenciado nos conhecimentos formulados ao longo de sua formação<br />
acadêmica. O que encontra? Uma escola com sua organização e cultura institucional que lhe é<br />
desconhecida, estudantes na sua maioria jovens, com vivências culturais diversas. Escuta de seus<br />
recém nomeados colegas professores que tome cuidado com o modo como vai se relacionar com<br />
seus alunos, pois eles estão muito diferentes e podem se tornar uma ameaça a sua iniciação profissional.<br />
Observa a grade de horários e a carga horária de seu componente curricular e constata<br />
que são duas horas semanais de aula e pensa: Como vou ensinar tudo que é importante com tão<br />
pouco tempo de aula? vê o espaço físico da escola e percebe que este é pobre, malcuidado e com<br />
poucos recursos tecnológicos. Fica sabendo também que as famílias de seus alunos vivem com<br />
muitas dificuldades econômicas, que não participam da escola e enfrentam muitos problemas<br />
para educar seus filhos. Esta é uma realidade que se configura no iniciar de uma professora?<br />
O que pode significar o planejamento neste contexto? Em que medida o planejamento<br />
educacional constitui-se possibilidade para a ressignificação de pré-conceitos e caminho de<br />
novas práticas? Retornando ao episódio referido e considerando o planejamento o agir/refletir<br />
na perspectiva de construir novos significados e sentidos.<br />
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O planejamento geralmente envolve decisões. Os professores podem situar-se como atores<br />
de diversas decisões, que vão desde a participação efetiva na construção do projeto educativo<br />
da escola em que atuam até decisões relativas ao seu próprio fazer docente no contexto da sala<br />
de aula.<br />
Cecília Meirelles, em seu poema “Ou isto ou aquilo”, serve de inspiração para pensarmos<br />
o planejamento como um processo feito de escolhas. Observamos no episódio que há muito que<br />
decidir e escolher na educação escolar. Estamos quase sempre tomando decisões, tais como:<br />
decidimos os tempos de aula, o horário que vamos formular para as mesmas, que pode levar<br />
em conta apenas os interesses dos professores ou considerar o que é melhor também para os<br />
alunos; desenvolvemos a avaliação na perspectiva classificatória ou na perspectiva mediadora<br />
e democrática; trabalhamos para a memorização das informações ou para a significação dos<br />
conhecimentos; abrimos espaços para a participação da comunidade escolar ou centralizamos<br />
as decisões na equipe diretiva.<br />
• Em que aplicar melhor os recursos que dispomos: na compra de livros ou em viagens de estudo?<br />
O que precisamos priorizar?<br />
• Quais conteúdos são relevantes na formação dos sujeitos? Que valores queremos pautar, que<br />
caminhos escolher para atingir os objetivos desejados?<br />
• Como fazer a revisão curricular de modo que haja uma maior participação de todos os envolvidos<br />
com a educação na escola? Como mobilizar a atenção dos alunos para o que desejamos<br />
lhes ensinar?<br />
• Qual estratégia de ensino pode garantir a aprendizagem dos conteúdos de ensino, das habilidades<br />
e valores?<br />
• Como trabalhar as relações interpessoais na escola?<br />
Este conjunto de questões é uma amostra de como temos de tomar decisões planejadas<br />
na escola, são os caminhos escolhidos no processo que vão configurando um projeto educativo<br />
que assume referencial e práticas mais ou menos inclusivas e democráticas ou autoritárias e<br />
excludentes.<br />
É importante lembrar que a escola é uma instituição social e tem sua existência relacionada<br />
aos sujeitos que nela vivem e/ou influenciam e com a ingerência das políticas que a instituem em<br />
sua finalidade social de educar. Em razão disso a escola nunca está pronta, ela é sempre um devir.<br />
É no espaço de sua incompletude que os professores, os alunos, os pais e outros atores sociais<br />
podem intervir para buscar qualificá-la de modo a responder às demandas sociais em cada tempo<br />
e lugar e o planejamento é o modo como esta intervenção se faz sistemática, rigorosa e científica.<br />
Nesta perspectiva, a escola que se utiliza do planejamento estratégico tem mais possibilidades<br />
de concretizar seus projetos, embora este não seja por si só uma garantia de sucesso.
EaD<br />
MUitas são as deMandas...<br />
<strong>didática</strong><br />
Observamos então que muito é demandado em termos de planejamento na escola. A partir<br />
do conhecimento das realidades que a constituem identifica-se em cada tempo o que é necessário<br />
para que o projeto educativo avance em qualidade social.<br />
Atualmente, no coletivo de muitas escolas estão sendo debatidas/refletidas as finalidades<br />
educativas traduzidas por uma filosofia de escola e os objetivos que orientam suas escolhas curriculares,<br />
bem como de sua organização didático-pedagógica, dando-lhes unidade e identidade<br />
próprias.<br />
Há outras escolas, no entanto, nas quais esta prática ainda não se constitui numa cultura<br />
do coletivo e neste contexto identificamos que as experiências de planejamento curricular necessitam<br />
avançar tanto nas concepções quanto nas formas de organização e que esta é uma aposta<br />
que se faz nas gerações dos professores que constituíram em sua formação acadêmicas novos<br />
entendimentos capazes de serem propositivos ante as mudanças que se fazem necessárias na<br />
escola contemporânea.<br />
Quando pensamos no caso da professora anteriormente mencionada e na experiência<br />
profissional dos professores em relação ao planejamento escolar entendemos que planejar se<br />
faz imprescindível pelas razões já abordadas, mas também porque como sujeitos de um coletivo<br />
necessitamos efetivamente inserir-nos neste. Por certo cabe aos gestores escolares possibilitar que<br />
a integração dos sujeitos se efetive, mas também cada sujeito deve realizar o que lhe compete,<br />
ou seja, fazer a sua parte, mostrar a que veio e o que lhe é próprio.<br />
Assim os professores quando assumem seu lugar na escola necessitam mostrar interesse em<br />
conhecê-la, seu projeto, buscar conhecer a sua cultura organizacional, as suas regras, os recursos<br />
tecnológicos disponíveis, os espaços, os setores da escola e seu funcionamento e, especialmente,<br />
conhecer os sujeitos/estudantes com os quais vão interagir.<br />
Planeja MesMo é qUeM Faz...<br />
lembrando o que Ferreira sabiamente já escreveu: “Quem planeja mesmo é quem faz. O<br />
planejamento precisa ficar a serviço de quem está fazendo” (1979, p. 251). A autoria do professor é<br />
relevante para a constituição da experiência pedagógica, para o pensar sobre as questões que afetam<br />
seu fazer docente direta ou indiretamente e é relevante para uma atuação consequente.<br />
Entendemos que uma postura adequada dos professores diz respeito ao envolver-se na<br />
construção da escola, de seu projeto educativo, participando nos fóruns que a constituem, atuar<br />
manifestando opiniões, no engajamento nas atividades escolares, na busca de alternativas aos<br />
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problemas encontrados, na busca de soluções criativas em seu fazer docente, na disponibilidade<br />
em discutir questões complexas e polêmicas, na sensibilidade ao se relacionar com as pessoas,<br />
na capacidade de se mover diante dos conflitos e tensões que são inevitáveis quando interagimos<br />
com diferentes sujeitos.<br />
... sendo assiM, traBalHar na escola é MUito coMPlexo.<br />
vale a Pena assUMir todos estes desaFios?<br />
58<br />
A complexidade demandada no contexto escolar não pode ser tomada pelo educador que<br />
chega à escola como fator desestimulante, mas sim como elemento desafiador para a reconstrução<br />
do que está supostamente posto, para reencantar a escola e seus projetos, bem como constituir-se<br />
em espaço/tempo de formação de seres humanos mais capazes, politicamente engajados na construção<br />
de um mundo mais feliz: há de se garantir que possibilidades de transformação sempre<br />
existem.<br />
As escolas públicas brasileiras gozam de relativa autonomia pedagógica, financeira e<br />
administrativa, podendo em seu contexto tomar algumas decisões, tais como: explicitar a sua<br />
proposta e organização curricular, as metodologias de ensino, o seu sistema de avaliação, as<br />
regras de convivência, decidir sobre a aplicação de recursos que lhes são destinados, tudo isto<br />
em consonância com a legislação e parâmetros curriculares nacionais.<br />
Estas possibilidades de decisão e participação dos professores e demais sujeitos da escola<br />
é que dão força para se produzir os avanços necessários em consideração à diversidade sociocultural<br />
dos sujeitos que a cada escola acessam. O planejamento escolar orienta a ressignificação<br />
permanente do projeto político-pedagógico da escola, bem como a conquista de novos espaços<br />
na autonomia e gestão escolar.<br />
Atualmente vivemos sob a forte tendência de uma orientação que dê conta do que se propõe<br />
como currículo nacional. Há um debate acerca da elaboração de bases comuns objetivando<br />
(segundo estes educadores/especialistas) reverter o que as avaliações externas apresentaram<br />
como resultados negativos, as quais apontam que a educação nacional que temos carece de<br />
qualidade.<br />
A proposição de um currículo nacional, por outro lado, vem sendo motivo de reflexão por<br />
parte de teóricos do currículo, especialmente os relativos aos estudos culturais que não descuidam<br />
das considerações que dizem respeito à diversidade étnica e cultural e às implicações derivadas<br />
de modelos que objetivam padronizações.
EaD<br />
<strong>didática</strong><br />
Independentemente destes debates, o planejamento curricular é a grande tarefa de cada<br />
escola por ter como desafio conciliar desejos de mudanças, representações sociais, determinações<br />
legais muitas vezes advindas da ordem econômica e da lógica do mercado, sem abrir mão de seu<br />
projeto educativo, que supõe sujeitos singulares, condições próprias, valores e práticas culturais<br />
que configuram as diferentes realidades escolares.<br />
A prática dos gestores, dos especialistas, dos servidores e professores na relação educativa<br />
com os estudantes e comunidade nos contextos escolares é que dá vida ao que se intenciona nos<br />
projetos escolares. O processo de planejamento orienta a elaboração de planos de diferentes or-<br />
dens e configura estratégias de organização da escola e do ensino. A atuação do professor supõe<br />
planejamento resultante de um processo integrador entre a instituição educativa e o contexto<br />
social, efetivado de forma colaborativa por professores, alunos e comunidade escolar.<br />
na escola, o qUe Planejar?<br />
Durante toda reflexão proposta neste texto de certa maneira já abordamos as possibilidades<br />
de envolvimento por parte dos professores no planejamento. Para sistematizar “didaticamente”<br />
tudo o que discutimos até aqui vamos apresentar os principais tipos/níveis de planejamentos nos<br />
quais todos os professores da escola são convocados a participar. É na escola que a educação,<br />
enquanto prática social intencional, acontece. A escola é um lugar no qual produzimos nossas<br />
concepções, onde realizamos as nossas práticas e permanentemente a reavaliamos para garantir<br />
a aprendizagem de nossos estudantes.<br />
No seu processo de planejamento os sujeitos da escola precisam dar conta de definir seu<br />
projeto educativo, o qual se expressa em diferentes instâncias.<br />
1 – Projeto Político-Pedagógico<br />
Acreditamos que a construção do Projeto Político-Pedagógico (PPP) é decisiva numa insti-<br />
tuição de ensino comprometida com a cidadania. É a oportunidade na qual todos os sujeitos da<br />
comunidade escolar são convocados a juntos responder à questão: “Que escola queremos?” É o<br />
momento de tomadas de decisão, de fazer escolhas, de explicitar intenções e vontade política;<br />
de querer repensar, refazer ou projetar novos caminhos, novas possibilidades e novas significa-<br />
ções.<br />
59
EaD anna r. F. santiago – eronita s. Barcelos – eulalia B. Marin – Hedi M. luft – iselda s. Feil – lori M. Frantz – Maridalva B. Maldaner – solange c. M. rufino<br />
60<br />
A participação de todos os sujeitos durante todo o processo da construção do PPP é im-<br />
prescindível, pois tão importante quanto o resultado final é o próprio processo de construção, o<br />
qual implica mobilização, sensibilização e espaço/tempo para a explicitação de sonhos e desejos,<br />
de projeções, de parcerias e cumplicidade. E é nesse processo dialógico e colaborativo entre os<br />
sujeitos que a materialização da identidade da escola vai se constituindo.<br />
Atualmente, embora sempre tenha sido importante, elaborar o projeto da escola se caracteriza<br />
como um desafio ainda maior, principalmente para os educadores, que estão sendo colocados<br />
em constantes questionamentos. Fatos como o tempo de permanência da criança e do adolescente<br />
na escola; os novos tipos de estudantes que a escola vem recebendo em virtude das políticas de<br />
inclusão e da grande influência de outros espaços educativos e da mídia, bem como as novas<br />
funções impostas à escola pela sociedade, exigem um novo olhar para a mesma.<br />
Atualmente não estão em questão apenas qual a lista de conteúdos mínimos e os métodos<br />
mais eficientes para ensinar determinado conteúdo. O que está em debate é a própria finalidade<br />
da escola. Ela precisa mudar porque a vida mudou: existem novos paradigmas, novas linguagens<br />
e novas demandas. A sociedade está exigindo um novo homem e uma nova mulher... A escola<br />
está em busca de descobrir/definir o seu lugar numa sociedade em permanente transformação,<br />
promovida, principalmente, pelo processo de globalização.<br />
Não há como negar que a nova realidade e o novo contexto que marca a escola hoje é o<br />
da diversidade e o Projeto Político-Pedagógico é que dá a sua identidade. Autores como Sonia<br />
Krammer (1999); Gadotti (2004), Padilha (2001), veiga (1995), Moreira (1999), entre outros, pesquisam<br />
o projeto pedagógico nesta dimensão e argumentam que a sua construção será resultado<br />
das próprias contradições da escola.<br />
Segundo os autores, não existem duas escolas iguais, o resultado do projeto é imprevisível,<br />
não há como definir de antemão o que a escola vai ser, é a criatividade e o diálogo que<br />
determinarão o processo e os resultados, ações que exigem permanente reflexão e discussão dos<br />
problemas da escola. É por isso que a participação de todos os membros da comunidade escolar é<br />
tão importante, pois é a oportunidade mais viva para a experiência de democracia e cidadania.<br />
O Projeto Político-Pedagógico explicita concepções acerca da educação, conhecimento,<br />
currículo, aprendizagem, de criança, jovem, mulher, homem e idoso. Deixa claro sua memória/<br />
história/trajetória; a sua implicação com um projeto maior, que é o projeto de sociedade e neste<br />
contexto, sua intencionalidade, seja em relação à aprendizagem de seus alunos, à formação de<br />
seus professores e seu envolvimento com a comunidade e com o mundo. Além disso, o Projeto<br />
Político-Pedagógico dá seu entendimento de organização dos tempos e dos espaços e suas prioridades.<br />
Como já afirmamos, o Projeto Político-Pedagógico da escola é sua identidade, pois é a partir<br />
dele que os sujeitos pautam suas reflexões referentes aos significados atribuídos à escola.
EaD<br />
explicando conceito de projeto<br />
<strong>didática</strong><br />
Etimologicamente, o termo projeto vem do latim projectus, do verbo projicere, que significa<br />
lançar à diante, promessa de futuro. É um empreendimento, um enxergar além do limite estrutural<br />
em que nos encontramos. É romper com um presente com a esperança/ousadia de um futuro<br />
melhor e isto sempre implica um desacomodar, um risco e/ou uma “aventura”.<br />
Todo projeto pedagógico é necessariamente político por estar comprometido por um novo<br />
projeto, ou uma nova utopia. Sempre está relacionado a um projeto de sociedade. Não há projeto<br />
sem intencionalidade e que não esteja ligado a interesses.<br />
Todo projeto pedagógico da escola é coletivo, pois se não for uma construção coletiva não é<br />
projeto pedagógico. Ele não pode se transformar, como é muito comum de acontecer, num mero<br />
documento burocrático a ser apresentado à mantenedora para cumprir exigência legal.<br />
A dimensão política indica as decisões, os desejos, onde se pretende chegar, e a dimensão<br />
pedagógica, as mediações necessárias para esse processo. Não são, portanto, instâncias estanques,<br />
pois devem estar articuladas.<br />
Para Gadotti, a noção de projeto implica sobretudo tempo:<br />
a) tempo político – define a oportunidade política de um determinado projeto;<br />
b) tempo institucional – cada escola encontra-se num determinado tempo de sua história; o projeto<br />
que pode ser inovador para uma escola pode não ser para outra;<br />
c) tempo escolar – o calendário da escola, o período no qual o projeto é elaborado é também decisivo<br />
para o seu sucesso;<br />
d) tempo para amadurecer as ideias – só os projetos burocráticos são impostos e, por isso, revelamse<br />
ineficientes a médio prazo; há um tempo para sedimentar ideias; um projeto precisa ser<br />
discutido, e isso leva tempo (Gadotti, 2000, p. 37)<br />
Na explicitação do Projeto Político-Pedagógico realiza-se um esforço coletivo para entender<br />
a própria escola, entender a escola “que temos e a escola que queremos”. O que pensam os<br />
professores da escola? E os alunos? E a comunidade? Faz-se necessário que sejam oportunizadas<br />
condições para que todos possam explicitar sobre o que pensam (seu imaginário) da escola; saber<br />
as expectativas dos pais, professores e funcionários, bem como o sentido que a ela atribuem.<br />
O PPP precisa partir de uma reflexão crítica de sua realidade de seus conflitos. Como alerta<br />
Gadotti:<br />
Um projeto necessita sempre rever o instituído para, a partir dele, instituir outra coisa: torna-se instituinte.<br />
Um projeto político-pedagógico não nega o instituído da escola que é a sua história, que é<br />
o conjunto dos seus currículos, dos seus métodos, dos seus atores internos e externos e o seu modo<br />
61
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62<br />
de vida. Um projeto sempre confronta o seu instituído com o instituinte. Por exemplo, hoje, a escola<br />
pública burocrática se confronta com as novas exigências da cidadania em busca da nova identidade<br />
de cada escola, pautas de uma sociedade cada vez mais pluralista (2000, p. 35).<br />
Para que a elaboração do PPP tenha sucesso Gadotti (2000) aponta para alguns eixos fundamentais:<br />
um Projeto depende de uma comunicação eficiente, ele precisa ser viável e compreendido<br />
pelo conjunto da comunidade; ele precisa da adesão voluntária e consciente; bom suporte institucional<br />
e financeiro; controle, acompanhamento e avaliação do projeto; um ambiente favorável,<br />
uma mística que evolva a todos e gere compromisso; credibilidade, um projeto só avança se as<br />
pessoas que estão conduzindo o processo possuem competência e credibilidade para a função;<br />
um bom referencial teórico que dê coerência e consistência à estrutura do projeto.<br />
Tendo presente que a função principal da escola é educar para a cidadania e a autonomia,<br />
é indispensável que o projeto promova a integração entre educação e cultura, entre a escola e a<br />
comunidade dentro de uma perspectiva multicultural. Que promova a democratização das relações<br />
de poder dentro da escola. Que enfrente com responsabilidade a questão da avaliação, evasão<br />
e repetência. Que assuma uma postura interdisciplinar e transdisciplinar, e se comprometa com<br />
a formação permanente dos educadores.<br />
Dentro dessa perspectiva podemos pensar/traçar um caminho que nos possibilite a construção/reconstrução<br />
de um Projeto Político-Pedagógico alicerçado na história, cultura e processo<br />
de cada escola, garantindo uma ação política, autônoma, democrática e emancipatória.<br />
2 – Plano de estudos<br />
Sistematiza a proposta curricular da escola expressando as propostas dos componentes<br />
curriculares, sua carga horária, seus objetivos, competências esperadas, metodologias de ensino,<br />
proposta de avaliação e referências bibliográficas...<br />
Segundo a Resolução 243/99 do CEED, artigo 3º, “Os Planos de Estudos, enquanto expressão<br />
concreta do projeto pedagógico da escola, serão resultado de elaboração coletiva, envolvendo o<br />
corpo docente e discente, a comunidade na qual a escola se insere e a entidade mantenedora.<br />
Parágrafo único – Os Planos de Estudos constituirão a base para a elaboração do plano de trabalho<br />
de cada professor, de modo que seja preservada a integridade e a coerência do projeto<br />
pedagógico da escola.”<br />
Os Planos de Estudos são, hoje, uma nova forma de organização curricular. É o instrumento<br />
ordenador, do ponto de vista pedagógico, do currículo da escola. Segundo o parecer 323/99 do<br />
CEED/RS:
EaD<br />
<strong>didática</strong><br />
O Plano de Estudos, para cumprir este papel ordenador do currículo, deverá conter a tradução das<br />
Diretrizes Curriculares Nacionais em um conjunto de atividades e disciplinas, ordenadas quanto à<br />
seqüência em que devem ser cursadas ou distribuídas no tempo e caracterizadas quanto aos seus<br />
objetivos, amplitude e profundidade.<br />
A caracterização dos objetivos, abrangência e amplitude das atividades e disciplinas são informações<br />
essenciais, para que o professor tenha orientação clara para elaboração de seu Plano de Trabalho,<br />
segundo a proposta pedagógica do estabelecimento.<br />
Esta caracterização poderá ser feita, ou sob a forma de “ementa de disciplina”, ou “programa de disciplina”<br />
ou de outra forma capaz de cumprir o papel de atribuir conteúdo e significado à atividade ou<br />
disciplina. Na elaboração desta ementa ou programa a consulta aos Parâmetros Curriculares Nacionais<br />
– ou outros – será essencial.<br />
Assim, em lugar de uma “simples base curricular” contendo uma relação de nomes de<br />
componentes curriculares a que se atribui uma carga horária, os Planos de Estudos constituemse<br />
em uma visão clara do que vai ser estudado, quando vai ser estudado, por quanto tempo será<br />
estudado e quais os objetivos, conteúdos e a profundidade do que vai ser estudado.<br />
O Plano de Estudos é uma parcela do currículo e do Projeto Político-Pedagógico numa<br />
abordagem essencialmente pedagógica na organização dos componentes curriculares e atividades<br />
educativas. O Plano de Estudos é a explicitação do currículo da escola. Não se trata de<br />
uma tabela ou lista de disciplinas e conteúdos e carga horária previamente determinada, mas<br />
se caracteriza como uma ampla proposta orientadora do ensino que leva em conta os níveis de<br />
escolaridade e as respectivas competências desejadas.<br />
Os Planos de Estudos se caracterizam por serem uma pauta de trabalho em torno da<br />
qual professores e alunos se reúnem para construir, ao longo do tempo e de forma planejada, a<br />
educação. Em síntese poderíamos afirmar que o Projeto Político-Pedagógico orienta o Plano de<br />
Estudos, e este orienta o Plano de Trabalho expresso nos planejamentos de ensino dos professores,<br />
sejam eles o planejamento anual, os projetos de ensino interdisciplinares e ainda o Plano<br />
de Aula (este individual).<br />
É importante lembrar que os Planos de Estudos, enquanto expressão concreta do Projeto<br />
Político-Pedagógico da escola, é resultado de construção coletiva: o corpo docente e discente,<br />
comunidade e direção (além da mantenedora).<br />
A caracterização da proposta, sua abrangência e profundidade com que se desenvolvem<br />
cada um dos componentes curriculares podem ser feitas por meio de: Ementas (um pequeno<br />
resumo destacando a centralidade do componente); Objetivos (os sentidos e a abrangência que<br />
se quer atingir); Programa de disciplina (competências – expressão dos conhecimentos, habilidades<br />
e valores a serem construídos e trabalhados).<br />
63
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64<br />
Considerando a importância da avaliação e a velocidade com que a realidade avança, faz-<br />
se necessário que o Plano de Estudos seja constantemente revisto/revisitado.<br />
3 – Plano de trabalho<br />
O Plano de Trabalho operacionaliza o currículo escolar proposto nos Planos de Estudos e<br />
é o instrumento que orienta o planejamento diário das aulas por parte dos professores.<br />
como organizar o Plano de trabalho<br />
Para se elaborar um Plano de Trabalho há de se considerar:<br />
Quem são os sujeitos de sua educação/ensino? Onde vivem? Quais suas experiências de<br />
vida? Em que acreditam? Quais seus sonhos/projetos de vida? O que lhes foi negado/subtraído?<br />
Com quem convivem e como vivem? Quais suas condições materiais? Quais grupos participam?<br />
O que necessitam aprender?<br />
Considerar ainda:<br />
• O contexto social mais amplo e o mais próximo em que a escola se encontra.<br />
• O que se pauta como projeto educativo e o que carece de atualização/renovação; as condições<br />
e as possibilidades de recursos e estratégias para a realização criativa de seu ensinar.<br />
• E suas próprias demandas de formação/atualização para a realização do referido projeto.<br />
questionamentos que dão forma e organizam o Plano de trabalho<br />
• Por que fazer: Que razões justificam os caminhos escolhidos? Que sentido pretende construir<br />
a partir do plano em questão? Que impactos espera gerar? Qual sua relevância, que falta virá<br />
suprir?<br />
• O para que fazer: O(s) objetivo(s) que espera atingir. Que novos sentidos pretendem alcançar?<br />
• O que se quer ensinar? Quais são os conteúdos/conceitos/destrezas/valores/competências<br />
objetiva construir?<br />
• O como fazer: A metodologia. O que irá priorizar como estratégia para efetivar o que busca?<br />
Que procedimentos serão utilizados?<br />
• O com que fazer: Quais serão os recursos a serem utilizados e onde obtê-los?
EaD<br />
<strong>didática</strong><br />
• O jeito de verificar se o que se está fazendo está dando certo: A avaliação: o que fazer para<br />
acompanhar o processo e mudar quando isto se fizer necessário?<br />
• Quem orienta teoricamente o que se propõe desenvolver: Referências bibliográficas.<br />
4 – como organizar nossas aulas?<br />
“Não, não tenho caminho novo, o que tenho de novo é o jeito de caminhar” (Tiago de<br />
Mello, 1964).<br />
Cabe ao professor encontrar formas alternativas para reencantar a educação, aliando as<br />
mudanças do mundo (aceleradas) com a busca de novas formas de vida, mais criativas, mais<br />
justas, dignas e, por que não dizer, mais felizes?<br />
Diferentes maneiras de planejar o ensino têm sido protagonizadas ao longo da história da<br />
escola, que vão desde a listagem de conteúdos a serem vencidos pelos alunos, por etapas, da<br />
chamada educação tradicional; passando pelas propostas de organização desses conteúdos em<br />
torno de um assunto – como Centros de Interesses e Unidades de Trabalho da Escola Nova; até<br />
as proposições contemporâneas que envolvem questões de interdisciplinaridade, caminhando<br />
por: Temas Transversais, Núcleos Conceituais, Pedagogia de Projetos, Eixos Temáticos, Temas<br />
Emergentes, Situação de Estudo, Temas Geradores e Temas Culturais.<br />
Atualmente ganham força os projetos interdisciplinares na perspectiva da religação dos saberes<br />
e por possibilitarem um diálogo mais amplo entre as diferentes áreas do conhecimento.<br />
Corazza observa que a forma de planejar o ensino que vem sendo trabalhada diz respeito<br />
à seleção e à organização de temáticas culturais. Para a autora:<br />
Os Temas Culturais trazem para a cena os conhecimentos, subjugados (expressos por Foucault), aqueles<br />
que nem foram pensados que poderiam vir ser constituídos como conhecimentos escolares. Por isso,<br />
enfocam, deliberadamente, questões relativas a gênero, classe, etnia, religião, identidade nacional,<br />
diferenças sexuais, discriminação de idade, colonialismo (1997, p. 126).<br />
Os Temas Culturais se caracterizam como fonte para a recontextualização e rearticulação<br />
dos conhecimentos/conteúdos universais/nacionais e possibilitam a reflexão do que tradicionalmente<br />
seleciona-se para ensinar.<br />
Estas proposições contemporâneas, embora com concepções diferenciadas, procuram<br />
romper com a lógica disciplinar e conteudista que historicamente tem pautado os currículos<br />
escolares e objetivam a abordagem do conhecimento em caráter globalizante e interdisciplinar<br />
pela via do ensino que se faz pesquisa, explorando temáticas que possibilitam múltiplas relações;<br />
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consideram questões, problemas e visões dos homens, das mulheres, das crianças e dos jovens<br />
de seu tempo como objeto de conhecimento; todas essas formas de organizar a prática educativa<br />
têm como objetivo o desenvolvimento integral do aluno numa realidade plural.<br />
Nesse contexto as disciplinas curriculares não são mais consideradas o eixo dos conteúdos.<br />
Estes se tornam, juntamente com os temas contemporâneos, mediadores para a construção de<br />
novos sentidos, novas aprendizagens. Mostram como diferentes artefatos, diferentes textos, de<br />
diferentes produtos e manifestações culturais podem contribuir para que as pessoas se situem<br />
melhor em relação a si e aos outros.<br />
Defendem que é nos indivíduos e nos grupos que se encontram os temas, os problemas,<br />
a realidade percebida e sentida (Paulo Freire). É o ponto de vista dos alunos, o ponto de partida<br />
da ação pedagógica.<br />
aí vai uma sugestão:<br />
Inicialmente precisamos retomar uma questão levantada sobre o planejamento interdisciplinar.<br />
Por que e como planejar o ensino?<br />
É importante que os temas dos projetos estejam sintonizados com o que a escola se propõe<br />
e quais as expectativas das pessoas que formam o cotidiano escolar. Para isto um dos primeiros<br />
passos é o de estabelecer o processo da fala/escuta/observação entre os interlocutores – professoraluno-família<br />
– para posteriormente analisar, teorizar as falas, as observações na perspectiva de<br />
compreender a visão dos sujeitos. Isto pode ser chamado didaticamente de diagnóstico (embora<br />
haja pesquisadores e educadores que não gostem desta terminologia, preferindo a expressão<br />
leitura da realidade).<br />
Desta análise, indagamos sobre a prática: como é possível transformar estas questões do<br />
cotidiano em questões pedagógicas? Sim, porque não basta constatar a realidade, ou os fatos. É<br />
necessário nos posicionarmos perante eles e nos indagar como poderemos superar a presente<br />
situação.<br />
Da reflexão das falas é possível retirar, ou tematizar, as situações mais significativas desta<br />
comunidade (sem, no entanto, prejulgá-la). É importante que a leitura que fazemos desta realidade<br />
seja devolvida aos estudantes para que eles possam confirmar, ou não, estas interpretações.<br />
Uma vez confrontadas as leituras, o professor pode (com a ajuda de seus alunos) fazer escolhas<br />
quanto aos temas culturais que irá trabalhar. Definidos (embora de forma sempre provisória)<br />
os temas (projetos), é hora então de organizar a programação possível e, finalmente, preparar as<br />
atividades para a aula, sempre considerando a totalidade do conhecimento.<br />
66
EaD<br />
PlanejaMento diário das aUlas: coMo Fazer?<br />
Planos de aula:<br />
<strong>didática</strong><br />
Seja entre quatro paredes, ou na biblioteca, ou na horta, o espaço da aula é central numa<br />
escola. Afinal, foi para acontecer aulas que foram criadas as escolas. Cada vez mais se prega<br />
sobre a necessidade de as aulas serem originárias de um projeto interdisciplinar.<br />
É na sala de aula, ou em qualquer espaço de mediação pedagógica entre professor e alunos,<br />
que a educação escolar se efetiva. É o espaço mais importante e decisivo para a aprendizagem.<br />
Por isso ele não pode ser improvisado, precisa ser pensado pelo professor com todo o rigor cien-<br />
tífico e ético que este momento exige para garantir a aprendizagem de todos.<br />
O Plano de Aula é uma tarefa individual do professor. O professor pode ter planejado o<br />
projeto em conjunto com seus colegas, mas o planejamento diário é individual, pois é o momento<br />
em que ele reflete sobre o processo de sua turma e de cada aluno em particular. O professor que<br />
planeja por temas e faz planejamento semanal, ou por um determinado período, não precisa<br />
produzir planejamentos diários. Apenas registra o que do planejado irá desenvolver neste dia.<br />
É importante reforçar que o Plano de Aula, embora conforme anteriormente mencionado<br />
seja um instrumento individual do professor, não se caracteriza como um ato solitário, pois ele<br />
deve estar articulado e comprometido com o projeto maior da escola, construído coletivamente.<br />
Neste plano é necessário considerar dois elementos importantes: a aula, que é o momento de<br />
concretização de um plano maior que vai se materializando a cada dia, e a sala de aula, que é o<br />
espaço pedagógico onde as mediações pedagógicas realmente acontecem.<br />
Considerando a dinamicidade que caracteriza a interlocução entre diferentes sujeitos, o<br />
Plano de Aula nunca é definitivo, não pode ser rígido. Ele precisa ter a plasticidade que as com-<br />
plexas relações cotidianas da sala de aula exigem. Ele necessita ser permanentemente reavaliado<br />
para constatar se os objetivos do planejamento foram alcançados ou se é necessário ser revisto<br />
o caminho para garantir o sucesso nos objetivos. Ou seja, garantir aprendizagens significativas<br />
para todos.<br />
Quando elaboramos o Plano de Aula estamos tomando decisões sobre o que ensinar, quando<br />
ensinar, como ensinar, como envolver os alunos, que atividades, que recursos, que materiais, como<br />
avaliar, o que fazer com os que não aprenderam satisfatoriamente. Estamos nos antecipando a<br />
um evento – a aula – para termos maior segurança de que ele dará certo.<br />
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68<br />
Na execução precisamos ter a sensibilidade e a competência de percebermos o tempo e o<br />
ritmo de aprendizagem de cada aluno, interagir questionando, propondo e criando formas diversas<br />
de ação. Motivar, comemorando conquistas individuais e coletivas e propondo caminhos<br />
alternativos para os que tiverem dificuldades. Retomar a aula sempre que necessário para avaliar<br />
o trabalho feito e buscar sugestões e compromissos para a próxima aula.<br />
Depois da aula é necessário avaliar o trabalho realizado, a própria atuação, os encaminhamentos<br />
feitos, o envolvimento e a aprendizagem dos alunos, o que deu certo e o que faltou, o<br />
que pode avançar e o que é preciso retomar, como retomar, que estratégias adotar, e replanejar.<br />
Este, porém, já é um outro capítulo.
EaD<br />
Unidade 4<br />
avaliação na PersPectiva da inclUsão escolar e social:<br />
teorias e Práticas alternativas<br />
oBjetivos desta Unidade<br />
<strong>didática</strong><br />
• Analisar elementos implicados na avaliação, entendendo-a como elemento constitutivo<br />
da prática educativa referida à inclusão social e escolar na perspectiva de que a aprendizagem<br />
se processe.<br />
seçÕes desta Unidade<br />
Seção 4.1 – Avaliação na perspectiva da inclusão escolar e social: teorias e práticas alternativas<br />
Seção 4.2 – Avaliação no contexto escolar<br />
Seção 4.3 – Avaliação na sua função diagnóstica<br />
seção 4.1<br />
avaliação na Perspectiva da inclusão escolar e social:<br />
teorias e práticas alternativas<br />
Eronita Silva Barcelos<br />
Hedi Maria luft<br />
Bem-vindo, caro aluno, para o estudo do tema que é uma das marcas mais destacadas e<br />
lembradas da nossa formação. Nesta parte do componente curricular da Didática vamos dialogar<br />
basicamente sobre a avaliação escolar.<br />
você, provavelmente, lembra de como se sentia nos dias, por vezes semanas inteiras, de<br />
provas, ou seja, “de avaliação”. A avaliação, no entanto, é bem mais do que um dia de prova.<br />
As imagens que guardamos sobre diversos temas nem sempre expressam aquilo que de fato o<br />
termo traduz. A avaliação é um deles.<br />
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70<br />
Pensemos sobre esse tema. A palavra AVALIAÇÃO pode ser escrita e lida, também, assim<br />
– AVAL I AÇÃO –, e ainda AVALIA A AÇÃO. Analisando-a podemos refletir sobre cada uma<br />
das palavras que se formou pela decomposição realizada. Temos agora conceitos como AVAL e<br />
AÇÃO e AVALIA.<br />
O que é avalizar? Suponhamos que você pretende fazer um empréstimo num banco para<br />
pagar as mensalidades do seu curso. Ocorre que precisa de um AvAlista. Quem avaliza? Por que<br />
avaliza? E para quem é avalizado, que mensagem está presente? O que é uma AçãO? Quem a<br />
pratica e/ou a constrói? De que ação se fala? Quem a assume com as suas consequências?<br />
AvAlIAR supõe a ação de alguém, mas que ação? Quem avalia atribui valor a algo. Por<br />
quê? Para quê? Com que critérios se estabelece o valor? valor como medida, quantidade ou como<br />
mérito?<br />
Continuando nosso diálogo, que tal você contar sobre suas vivências em avaliação. Por<br />
exemplo:<br />
1 – Que marcas os momentos de avaliação deixaram em você?<br />
1.1 Atitudes mais comprometidas, responsáveis, criativas.<br />
1.2 Que aspectos você gostaria que tivessem sido diferentes?<br />
1.3 Por que você pensa assim?<br />
1.4 Que sugestões você daria aos professores de hoje sobre a prática da avaliação?<br />
Não há dúvidas de que um dos maiores desafios da prática pedagógica é o relativo à<br />
avaliação: de elemento de referência do andamento do processo para a cooperação com o aluno,<br />
torna-se muitas vezes fator de controle e dominação. O professor, preocupado em mobilizar o<br />
aluno para o trabalho, passa a usar a nota como instrumento de pressão para obter disciplina e<br />
comprometimento. A função da avaliação, todavia, não é essa. Para que a avaliação cumpra seu<br />
papel é importante observar alguns cuidados, tais como:<br />
a) A avaliação faz parte do PROCESSO educacional, não devendo ter uma ênfase desmedida,<br />
como se fosse o elemento mais importante. Fazer isto é confirmar a distorção da avaliação como<br />
fim (e não como processo). A avaliação deve estar em harmonia com o trabalho cotidiano em<br />
sala de aula.<br />
b) A definição clara das regras do jogo evita criar ansiedade e desconfiança na relação pedagógica.<br />
Provas-surpresa ou o uso da prova para manter a disciplina são formas que pouco auxiliam<br />
na aprendizagem.<br />
c) A concepção de avaliação como processo propõe que seja contínua, considerando os vários<br />
momentos da aprendizagem dos alunos e não a julgando apenas num determinado dia de<br />
prova.
EaD<br />
<strong>didática</strong><br />
Um elemento importante é a autoavaliação do professor ou reflexão sobre suas práticas:<br />
Será que tenho convicção de que estou trabalhando algo importante para meus alunos? Os conteúdos<br />
fazem parte da vida deles? Que tipo de relacionamento estabeleço? Tenho conhecimento<br />
das demandas dos alunos?<br />
você sabe que já foram realizados muitos estudos sobre avaliação e segundo luckesi (2002,<br />
p. 90), há uma diferenciação fundamental a considerar entre os termos avaliar e verificar. Frequentemente<br />
estes termos são usados como sinônimos, mas veja: “verificar provém etimologicamente<br />
do latim – verum facere – e significa fazer verdadeiro. A verificação tem caráter de controle<br />
e determinação, enquanto que o termo avaliar, diz luckesi (2002, p. 90): “tem sua origem no<br />
latim, provindo da composição a-valere, que quer dizer ‘dar valor a...’, e infelizmente “A escola<br />
brasileira opera com a verificação e não com a avaliação da aprendizagem” (p. 93).<br />
você, analisando a sua formação pôde perceber se os seus professores mais verificavam seus<br />
conhecimentos ou procuravam avaliar seus conhecimentos? Aliás, convém que aprofundemos<br />
nosso pensar sobre “porquê” avaliamos. Para ter notas, pareceres, relatórios sobre a aprendizagem<br />
dos alunos? Para analisar nossa atuação? Avaliar, para quê?<br />
Feitas estas considerações iniciais e a problematização sobre a temática da avaliação, vamos<br />
estudar agora as concepções (compreensões, entendimentos) mais presentes na avaliação.<br />
1 – avaliação: análise e discUssão das diversas concePçÕes de avaliação<br />
AUTORITÁRIA DEMOCRÁTICA<br />
Classificatória<br />
(capazes, incapazes)<br />
Excludente<br />
(exclui os “menos capazes”)<br />
quadro 1: concepções de avaliação<br />
Fonte: Elaboração das autoras.<br />
Emancipatória<br />
(liberta, empodera os sujeitos da aprendizagem)<br />
Includente<br />
(inclui os fora do processo)<br />
Objetivamente, podemos trabalhar com estas duas concepções de avaliação. A primeira<br />
marca a vida das pessoas pela forma que entendemos não ser a apropriada. Ocorre que, geralmente,<br />
os excluídos na escola são também os excluídos da sociedade. Daí a necessidade de a<br />
escola considerar em seus processos avaliativos as consequências das reprovações, ou melhor,<br />
da não aprendizagem.<br />
71
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72<br />
Gnosiologia<br />
Gnose é uma palavra de origem<br />
grega que significa conhecimento,<br />
sabedoria. Gnosiologia<br />
é, portanto, o ato ou ação de<br />
conhecer. Se desdobrarmos a<br />
palavra teremos: gnose= conhecimento;<br />
logos=estudo; ia=arte.<br />
Daí é pertinente entender que<br />
gnosiologia refere-se à teoria do<br />
conhecimento, à validade do conhecimento<br />
em função do sujeito<br />
cognoscente, ou seja, daquele<br />
que conhece o objeto.<br />
A avaliação com cunho classificatório pode trazer enormes<br />
prejuízos aos alunos, pois, por meio dessas práticas criam-se preconceitos,<br />
inibições que podem afetar todo o ano escolar (Hoffmann,<br />
2001), quando não toda a vida de uma pessoa. Esta forma autoritária,<br />
portanto, não faz sentido se desejamos cumprir a função da escola,<br />
que é a de garantir a aprendizagem.<br />
Aos poucos vamos desvendando este termo “avaliação”. E para<br />
continuar a reflexão é fundamental analisar as diferentes concepções,<br />
as quais têm uma vinculação profunda com as questões sociais.<br />
Nossas compreensões nunca se pautam em situações neutras. A<br />
prática docente<br />
implica em processos, técnicas, fins, expectativas, desejos, frustrações,<br />
e a tensão permanente entre teoria e prática, entre liberdade e autoridade,<br />
cuja exacerbação, não importa de qual delas, não pode ser<br />
aceita numa perspectiva democrática, avessa tanto ao autoritarismo<br />
quanto à licenciosidade (Freire, 1996b, p. 109).<br />
Um professor marca a história pela sua prática. E a capacidade<br />
de integrar conhecimento, afetividade, criticidade, a vivência do e<br />
com respeito é fundamental. O educador aprende e ensina, ensina e<br />
aprende. Por meio deste processo constrói as mudanças necessárias<br />
para a consolidação de um mundo marcado pela justiça, onde todos<br />
tenham espaço para viver com dignidade, ou então, por opção, reforça<br />
as práticas conservadoras já determinadas.<br />
O trabalho do professor tem a capacidade de intervenção no<br />
mundo. A educação, especificidade humana, não tem neutralidade,<br />
característica que carrega uma importância imensurável. E, desta<br />
forma, a relevância de um trabalho pedagógico está na virtude da<br />
coerência e na capacidade educativa dos sujeitos per si e entre si.<br />
Um professor marca por seu perfil humano e profissional.<br />
Quando prioriza a simples transferência do conhecimento, desrespeita<br />
o senso crítico e a curiosidade dos alunos e contribui para uma<br />
educação que Freire (1987, 1996) denomina de educação bancária, a<br />
qual privilegia o depósito de conteúdos, a manutenção da opressão e<br />
a absolutização da ignorância. Em oposição a essa visão fragmentada<br />
e limitadora, Freire (1987, 1996) propõe que a educação escolar seja
EaD<br />
<strong>didática</strong><br />
marcada pela problematização e por uma autêntica gnosiologia, capaz de desafiar a interação<br />
discente-docente em sala de aula e “libertar o pensamento pela ação dos homens uns com os<br />
outros na tarefa comum de refazerem o mundo e torná-lo mais e mais humano” (Freire, 1987a,<br />
1996, p. 65).<br />
Esta segunda perspectiva de Freire (1987, 1996) inscreve-se em uma concepção democrática.<br />
Apostamos nessa compreensão porque permite a construção, produção e reconstrução do<br />
conhecimento, responsabilidade social da escola.<br />
você pode estar pensando que nem sempre isto ocorre, no entanto, quando há uma boa<br />
relação entre professor e alunos, quando é permitido o erro e a participação a aprendizagem<br />
tende a se concretizar com maior facilidade e, independentemente desta questão, é papel do<br />
professor apostar sempre na aprendizagem de todos os seus alunos.<br />
Há uma história que pode ilustrar melhor a ideia, que é de um professor das Ciências da<br />
Educação. Ele anunciou uma conferência na qual falaria sobre o modo como ele havia descoberto<br />
um método para um gato falar francês. E no dia marcado muitas pessoas estavam à espera<br />
para ouvir a conferência e para ouvir o gato. O gato nunca falou, evidentemente, miou quando<br />
muito, e no fim lhe perguntaram:<br />
– Afinal, o gato fala ou não fala francês? E o professor respondeu:<br />
– Bem, eu ensinei, mas ele não aprendeu.<br />
Quer dizer, pode haver ensino sem haver aprendizagem. Pode haver aprendizagem, sem<br />
haver ensino...<br />
Será isso possível? Como você interpreta esta história?<br />
Ensinar é um processo complexo, mas o que importa é o comprometimento dos professores<br />
na criação de estratégias adequadas de ensino. São especialmente relevantes as mediações do<br />
professor que estabelecem a confiança, a autonomia, a participação. Um processo democrático<br />
pressupõe que a avaliação seja planejada, negociada e, mais, que seja um momento de aprendizagem.<br />
Isto requer uma atuação pedagógica que fomente a corresponsabilidade, ou seja, exige<br />
que o aluno assuma efetivamente a sua formação como possibilidade e responsabilidade própria<br />
de cada sujeito.<br />
Além das concepções, aqui resumidas em autoritária e democrática, há também diferentes<br />
funções nos processos avaliativos. É importante conhecê-las e situá-las a partir das concepções<br />
que acabamos de estudar.<br />
Segundo Hoffmann (2001), a ação educativa é sempre intencional e o desenvolvimento das<br />
atividades educativas pressupõe a avaliação como parte integrante do planejamento do processo<br />
de ensino e de aprendizagem. A avaliação cumpre três funções básicas:<br />
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74<br />
Função diagnóstica: permite verificação dos progressos e dificuldades dos alunos e atuação<br />
do professor, que, por sua vez, determinam modificações no processo de ensino.<br />
Função formativa: tem por finalidade proporcionar o feedback (retroalimentação) para o<br />
professor e para o aluno, durante o desenvolvimento do processo ensino-aprendizagem. Propicia<br />
a correção de falhas, esclarecimentos de dúvidas e estímulo à continuidade do trabalho para<br />
alcance do objetivo.<br />
Função Somativa: tem o propósito de oferecer subsídios para o registro das informações<br />
relativas ao desempenho do aluno. Contemplará em seu interior tudo aquilo que foi visualizado<br />
na função diagnóstica e formativa.<br />
Segundo luckesi (2002), a avaliação serve para auxiliar cada aluno no seu processo de<br />
competência e crescimento para a autonomia e é indicadora de novos rumos. Serve também para<br />
compreender o estágio de aprendizagem em que o aluno se encontra, objetivando o avanço no<br />
processo.<br />
Para realizar uma leitura complementar do exposto anteriormente e avançar na aprendizagem<br />
sobre a avaliação escolar, leia os textos: Avaliação no contexto escolar, de Hedi Maria luft,<br />
e Avaliação na sua função diagnóstica, de Eronita Silva Barcelos, que constam na Biblioteca<br />
virtual<br />
2 – avaliação coMo constrUção do conHeciMento<br />
Entendemos que a avaliação se constitui democrática quando propicia a aprendizagem,<br />
ou não será avaliação. Quando se trata apenas de um ato burocrático deixa de ser processo e<br />
assume uma forma que prejudica e marca de modo muito negativo a vida das pessoas, não raro<br />
para toda a vida. Produz abandono escolar, repetência e cria muitas dificuldades. Como processo<br />
de construção do conhecimento, promove e instaura processo formativo porque permite o desvelar<br />
das potencialidades de quem aprende. É sobre essa questão que trataremos na sequência<br />
de nosso diálogo.<br />
O texto de Madalena Freire sobre o “Sentido dramático da aprendizagem”, (veja Biblioteca<br />
virtual) contribui para refletirmos sobre o ato de aprender e ensinar. Aliás, este texto traz uma<br />
reflexão importante, esclarecendo que o ato de aprender é um processo exigente. Após a leitura<br />
do texto, veja a seguir algumas razões acerca da importância da avaliação, segundo Melchior<br />
(1998):<br />
– melhorar o processo e o resultado;<br />
– auxiliar o aluno a se motivar para novas aprendizagens;<br />
– auxiliar o professor na compreensão do processo de aprendizagem, na sua autoavaliação.
EaD<br />
<strong>didática</strong><br />
No entendimento de Maria Celina Melchior (1998), o processo avaliativo não tem finali-<br />
dade em si mesmo, não pretende uma melhora só na aprendizagem, mas da racionalidade e da<br />
justiça nas práticas educativas Faz-se avaliação para conseguir a melhora do processo educativo<br />
como um todo.<br />
Já comentamos anteriormente que a avaliação democrática é uma prática que permite<br />
aprendizagens significativas. vamos dialogar agora sobre os princípios de uma avaliação democrática.<br />
O primeiro e mais importante traço da avaliação democrática é assegurar a possibilidade<br />
de refletir e questionar as práticas usadas nos processos de avaliação. Se um professor não permite<br />
que o aluno participe, expresse suas dúvidas e inquietações, não pode falar de avaliação<br />
democrática. A avaliação que não possibilita a participação dos alunos e não proporciona condições<br />
de escolha dos instrumentos e critérios não é democrática e peca na relação educativa de<br />
constituição do sujeito crítico e responsável pela sua história.<br />
A rotina de avaliação mais comum é a realização de provas escritas e padronizadas.<br />
Essa prática pode ser utilizada, e, muitas vezes, é importante, no entanto não pode ter a<br />
intencionalidade do controle e da intimidação. Uma prova, embora de efeito sempre relativo,<br />
pode ser um instrumento que favorece a análise do aproveitamento do aluno pelo professor de<br />
modo que, se feita com coerência, possibilita os encaminhamentos de aprendizagens posteriores.<br />
Segundo Ballester et al (2003, p. 52)<br />
Nunca será tarde demais se aproveitamos as atividades de avaliação com fins verdadeiramente humanos<br />
e educativos; por isso, e na crença dessas possibilidades, pensamos que os princípios e as atuações<br />
concretas de uma avaliação democrática poderiam ser os seguintes: de transparência, de motivação<br />
e de participação e negociação.<br />
Princípio de transparência, que segundo Melchior (1998), deveria garantir o direito aos<br />
alunos de estarem informados sobre os critérios adotados na sua avaliação e decisões tomadas<br />
para sua formação. Uma atuação de acordo com esse princípio comportaria o seguinte:<br />
a) divulgar, no começo de cada curso, matéria, atividades, as orientações sobre o que se deseja<br />
atingir, preferencialmente informações escritas.<br />
b) expor os mecanismos pelos quais a avaliação vai ser registrada: notas, pareceres, relatórios<br />
de avaliação e os tempos: bimestrais, trimestrais e/ou semestrais.<br />
c) permitir que os alunos conheçam previamente provas e/ou exames similares àqueles aos quais<br />
vão ser submetidos e desenvolver estratégias eficazes de aprendizagem, refletindo sobre os<br />
erros.<br />
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76<br />
Princípio de motivação, que chama o professor à compreensão de que possibilitar o aprender<br />
com os erros contribui significativamente para a aprendizagem dos alunos porque permite que<br />
se relacionem com as práticas educativas, como a avaliação sem tensões, sem medos. Estabelecer<br />
um clima favorável é importante para que o aluno aprenda a sanar suas dúvidas e arrisque<br />
seus “palpites”.<br />
Princípio de participação e negociação, próprio da democracia, requer um determinado<br />
processo de construção. Geralmente é um processo demorado e exige muito de cada um dos<br />
envolvidos no processo ensino/aprendizagem. Os professores, preocupados com a qualidade<br />
e amplitude do aproveitamento dos alunos, geralmente são impositivos e acreditam que suas<br />
ideias são as melhores.<br />
Por isso, sempre estão necessitando ampliar a sensibilidade e a compreensão dos processos<br />
de aprender dos alunos com dificuldades de aprendizagem. Estar aberto permanentemente à<br />
possibilidade do erro e à necessidade de retificação das práticas que realizam é fundamental.<br />
Comentamos, já várias vezes, a relevância do uso de critérios e instrumentos adequados<br />
para avaliar. vejamos, então, o que são instrumentos e critérios de avaliação.<br />
Preste atenção!<br />
A avaliação é um processo que se vale de instrumentos para coleta de dados. Os dados serão<br />
úteis se forem pertinentes ao que se pretende analisar e válidos para indicar a continuidade das<br />
ações de ensino e aprendizagem. Para tanto os instrumentos devem ser adequados.<br />
Instrumentos podem ser provas e testes escritos e orais, trabalhos individuais e grupais<br />
(relatórios, textos, cartazes, painéis informativos, etc.), entrevistas, observação...<br />
Os instrumentos oferecem indicadores qualitativos e/ou quantitativos. A lei 9.394/96, no<br />
artigo 24 define:<br />
A educação básica, nos níveis fundamental e médio, será organizada de acordo com as seguintes regras<br />
comuns: Inciso v – a verificação do rendimento escolar observará os seguintes critérios: a) avaliação<br />
contínua e cumulativa do desempenho do aluno, com prevalência dos aspectos qualitativos sobre os<br />
quantitativos.<br />
Critério é um referencial valorativo e sua formulação requer colaboração, discussão, problematização<br />
e contextualização, levando-se em consideração que a avaliação é um processo de<br />
responsabilidade educativa e social.<br />
Assim sendo, a avaliação da aprendizagem é uma prática pedagógica, útil e necessária para<br />
analisar o que se faz. E o papel principal do professor consiste em auxiliar o aluno a aprender.<br />
Melchior (2003, p. 17) propõe que:
EaD<br />
<strong>didática</strong><br />
Se não houve aprendizagem, então não se ensinou e o professor tem que questionar e verificar onde está<br />
a falha, analisando todos os elementos envolvidos no processo, entendendo que sempre é um desafio<br />
avaliar a aprendizagem em função da subjetividade humana na relação com o processo educativo.<br />
atividade de reflexão e problematização<br />
Antes de avançarmos para nosso próximo texto sugerimos que você assista: “O contador<br />
de histórias”, um filme de luiz villaça, que ilustra muito bem que não há nenhum caso “perdido”<br />
no processo de formação humana. Todos têm potencialidades e cabe também ao professor<br />
estimular seus alunos para que construam a autoformação. O filme conta a história do menino<br />
Roberto Carlos Ramos, analfabeto até os 13 anos de idade e considerado “irrecuperável”. Esse<br />
é um caso que ilustra o que acontece com boa parte das 75 milhões de crianças no mundo que<br />
estão fora da escola. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a<br />
Cultura (Unesco), no mundo, hoje, um em cada seis adultos é analfabeto. O contador de histórias<br />
é uma excelente oportunidade de reflexão sobre a importância da educação para a superação<br />
da pobreza e da exclusão social.<br />
3 – PesqUisa e reFlexão da Prática Pedagógica de ProFessores:<br />
propostas curriculares, concepções, programas, metodologias, avaliação<br />
estUdo de caso<br />
vamos fazer nossa avaliação analisando o que aprendemos até aqui, tomando como pro-<br />
cedimento o Estudo de Caso. Para tanto duas tarefas precisam ser cumpridas.<br />
a) A primeira refere-se a obter com professores de uma escola um relato de como um determinado<br />
professor encaminhou e realizou uma ação de avaliação junto com seus alunos. De posse do<br />
relato, descreva o caso, contextualizando com indicação de que nível de ensino é a escola, de<br />
que ano são os alunos que participaram da avaliação relatada, como o professor procedeu no<br />
encaminhamento da avaliação e como ocorreram outros fatos relativos ao caso.<br />
b) A segunda atividade é analisar o caso descrito, seguindo o roteiro exposto a seguir. Após a<br />
análise do caso faça uma síntese dos conhecimentos novos construídos por você com os estudos<br />
sobre avaliação até o momento realizados.<br />
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seção 4.2<br />
78<br />
Figura 1: Processo de análise do caso<br />
Fonte: Sousa, Eda C. B. M. de (Org.) Mapas de Informação.Brasília:<br />
avaliação no contexto escolar<br />
UnB/Cátedra Unesco, 1997 – com adaptações.<br />
Hedi Maria luft<br />
Diversidade de imagens, ideias, contradições, conflitos, interrogações marcam o processo<br />
avaliativo da vida e do cotidiano da escola. Se considerarmos os elementos didáticos de uma<br />
educação escolar, tendo objetivos claros, conhecimentos consensualmente construídos, metodologias<br />
inovadoras, a avaliação certamente será a confirmação e/ou a negação desse itinerário.<br />
Muito se tem discutido e estudado sobre a temática, mas a avaliação sempre é desafiadora<br />
e provocadora da nossa capacidade de gerenciar o fazer pedagógico. Avaliar envolve justiça,<br />
discernimento, compreensão, rigor, sabedoria, entendimento, e mais uma infinidade de qualidades<br />
e por isso mesmo é um processo complexo. Complexo porque envolve a vida das pessoas<br />
(famílias, amigos).
EaD<br />
<strong>didática</strong><br />
Assim, ao organizarmos a avaliação numa dimensão participativa, com requisitos que de-<br />
senvolvam a autonomia, há maiores possibilidades de construção e de aprendizagem significativa.<br />
Isso porque o processo avaliativo é marcado por relações de poder que quando não democráticas,<br />
intimidam e inibem a expressão e a construção do conhecimento.<br />
Desde Rousseau o princípio inspirador do pensamento democrático sempre foi a liberdade<br />
entendida como autonomia. Esse entendimento pode ser operacionalizado em formas avaliativas<br />
democráticas, as quais engendram aprendizagens mais significativas viabilizando a autonomia<br />
intelectual, o autoconhecimento, a autodescoberta e a autoformação.<br />
Nessa perspectiva, a relevância da avaliação no cotidiano escolar pode ser refletida a<br />
partir de três ideias fundamentais:<br />
A) Compreender a avaliação – Muitas vezes a avaliação é tratada como sinônimo de prova,<br />
mas inevitavelmente é muito mais que isso. Avaliar pressupõe encontrar subsídios, formas de<br />
desenvolver a construção do conhecimento. Aliás, é essencial entender que a concepção de<br />
conhecimento é que determina, em grande parte, a avaliação que realizamos. Paulo Freire<br />
(1987, 1996) afirma que na visão da educação bancária, o “saber” é uma doação dos que se<br />
julgam sábios aos que julgam não saber. A educação é o ato de depositar, enquanto que na visão<br />
libertadora o saber é construído a partir de um pensar autêntico, um processo que se instaura<br />
pela concepção problematizadora e que busca a humanização e não a opressão e o controle<br />
esmagador de uns sobre outros. Em verdade, não seria possível “à educação problematizadora,<br />
que rompe com os esquemas verticais característicos da educação bancária, realizar-se como<br />
prática da liberdade sem superar as contradições entre o educador e os educandos. Como<br />
também não lhe seria possível fazê-lo fora do diálogo” (1987, 1996, p. 68) um diálogo marcado<br />
pela interação entre os sujeitos e pela articulação das diferentes áreas do conhecimento.<br />
B) Compreender a nossa formação de professores – Fomos muito mais ensinados a repetir do<br />
que provocados para criar. Arroyo (2000) questiona: Chegará o dia em que nossas crenças<br />
serão dúvidas? Como transgredir e desestabilizar no mais íntimo o que dá segurança? O exercício<br />
de duvidar nos ensina a rever certezas. Onde está a virtude da educação? No desejo de<br />
ver o outro ser o que deseja ser. Temos linguagem e estrutura subjetiva para tal? Precisamos<br />
aprender Matemática, Física, mas primeiro é preciso recuperar o ser gente, porque só quem se<br />
sente gente aprende. A reconstrução da trajetória da formação, da construção de nossa identidade<br />
favorece práticas educativas mais humanas. Dessa forma, para assumir uma educação<br />
problematizadora precisamos romper com as formas determinadas e mecânicas de educação<br />
e isso implica construir diálogos mais humanos e humanizadores conosco mesmos, com os<br />
outros e com a totalidade do entorno escolar.<br />
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C) Compreender as possibilidades – Talvez este seja o maior desafio. As aprendizagens que se<br />
80<br />
realizam pela mediação da escola são pré-configuradas no imaginário social muito antes de<br />
serem explícita e formalmente concretizadas. Assim, a criança, o jovem, o adulto já trazem<br />
imagens do processo avaliativo. São impressões diversas, mas geralmente pautadas em medir,<br />
provar, assustar, amedrontar – causando conflitos, transtornos, medos. Por isso, um dos desafios<br />
a serem enfrentados na prática avaliativa é relativo ao elemento de referência. Que imagens<br />
guardamos da avaliação? Quais as análises que fazemos dos processos de avaliação? De que<br />
instrumentos, critérios, indicadores, nos valemos? Temos superado a classificação e a dominação<br />
para instaurar uma prática de cooperação? Penso que a fábula adaptada pela professora<br />
Clarilza Souza contribui para refletir sobre as questões.<br />
“Era uma vez...<br />
Uma rainha que vivia em um grande castelo.<br />
Ela tinha uma varinha mágica que fazia as pessoas bonitas ou feias, alegres ou tristes, vitoriosas<br />
ou fracassadas. Como todas as rainhas, ela também tinha um espelho mágico. Um dia,<br />
querendo avaliar sua beleza, também ela perguntou ao espelho:<br />
– Espelho, espelho meu, existe alguém mais bonita do que eu?<br />
O espelho olhou bem para ela e respondeu:<br />
– Minha rainha, os tempos estão mudados. Esta não é uma resposta assim tão simples. Hoje<br />
em dia, para responder a sua pergunta eu preciso de alguns elementos mais claros.<br />
Atônita, a rainha não sabia o que dizer. Só lhe ocorreu perguntar: – Como assim?<br />
– veja bem – respondeu o espelho –, em primeiro lugar, preciso saber por que vossa Majestade<br />
fez essa pergunta, ou seja, o que pretende fazer com minha resposta. Pretende apenas<br />
levantar dados sobre seu ibope no castelo? Pretende examinar seu nível de beleza, comparando-o<br />
com outras pessoas, ou sua avaliação visa ao desenvolvimento de sua própria beleza, sem nenhum<br />
critério externo? É uma avaliação considerando a norma ou critérios predeterminados? De toda<br />
forma, é preciso, ainda, que vossa Majestade me diga se pretende fazer uma classificação dos<br />
resultados.<br />
E continuou o espelho.<br />
– Além disso, eu preciso que vossa Majestade me defina com que bases devo fazer essa<br />
avaliação. Devo considerar o peso, a altura, a cor dos olhos, o conjunto? Quem devo consultar<br />
para fazer essa análise? Por exemplo: se consultar somente os moradores do castelo, vou ter uma<br />
resposta; por outro lado, se utilizar parâmetros nacionais poderei ter outra resposta. Entre a turma<br />
da copa e anões, a Branca de Neve ganha estourado. Mas, se perguntar aos seus conselheiros,
EaD<br />
<strong>didática</strong><br />
acho que minha rainha terá o primeiro lugar. Depois, ainda tem o seguinte – continuou o es-<br />
pelho: – Como vou fazer essa avaliação? Devo usar análises continuadas? Posso utilizar alguma<br />
prova para verificar o grau dessa beleza? Utilizo a observação?<br />
Finalmente, concluiu o espelho: – Será que estou sendo justo? Tantos são os pontos a considerar”<br />
(Batista, 2001, p. 113).<br />
Importante reconhecer que a fábula problematiza questões que vêm historicamente mobilizando<br />
a escola em relação aos processos avaliativos e que continuam a nos desafiar. Muitas<br />
vezes o professor, não conseguindo motivar o aluno para o trabalho, apela para o uso da nota<br />
como instrumento de pressão para obter respostas que autoritariamente deseja, como disciplina,<br />
atenção, execução das atividades. A função da avaliação, entretanto, não é essa.<br />
Para que a avaliação cumpra sua função é imprescindível que seja entendida como parte do<br />
PROCESSO educativo, não devendo receber uma ênfase desmedida, como se fosse o elemento<br />
mais importante. Fazer isso é confirmar a distorção da avaliação como fim (e não como meio).<br />
A avaliação, estando articulada com o trabalho cotidiano em sala de aula não cria dificuldades,<br />
muito pelo contrário, se institui como uma forma de ampliar e avançar na aprendizagem.<br />
Uma questão relevante a considerar é a autoavaliação do professor. Para fazê-la (a autoavaliação)<br />
é importante perguntar-se: Tenho convicção de que estou trabalhando algo importante<br />
com meus alunos? Os conteúdos, conhecimentos que proponho, fazem parte da vida deles? Que<br />
tipo de relacionamento tenho estabelecido? Tenho conhecimento da realidade dos alunos? A<br />
autorreflexão contribui para a compreensão do processo, evitando que as relações humanas na<br />
escola se tornem meros contatos. Avaliar traz no seu bojo a materialização da proposta educativa<br />
da escola e a marca de cada professor que integra a sua concretização, por isso somos todos<br />
responsáveis pela construção de imagens mais positivas e libertadoras referentes à avaliação no<br />
cotidiano escolar.<br />
seção 4.3<br />
avaliação na sua Função diagnóstico<br />
Eronita Silva Barcelos<br />
Da compreensão da relevância e função do Projeto Político-Pedagógico da escola, como<br />
conquista e compromisso dos educadores pela autonomia e gestão democrática, emergem indagações<br />
novas e explicitação de compromissos educativos compartilhados. A reflexão das práticas<br />
pedagógicas assume dimensão inovadora, possibilitando o enfrentamento da ruptura de formas<br />
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estanques e fragmentárias na construção da excelência do processo ensino/aprendizagem, a<br />
eficiência do sistema escolar e o reconhecimento da importância da função social dos profissionais<br />
da educação.<br />
Nesse cenário a avaliação é uma das dimensões a serem consideradas como carentes de<br />
reflexão, porque a partir dos dados e informações produzidos por intermédio dela é possível interpretar<br />
o caminho percorrido em seus acertos e desvios. A avaliação é processo fundamental<br />
para a qualificação e inovação da proposta escolar.<br />
Tem a função diagnóstica, como pressuposto básico intensificar a competência dos que<br />
ensinam e dos que aprendem, numa relação integradora e de inclusão no processo de construção<br />
pedagógica. Essa construção entende, aprendizes e ensinantes, como grupo articulado e articulador<br />
da produção de conhecimentos e da qualidade das aprendizagens e nunca como mentores<br />
do fracasso escolar. Quem pratica avaliações com essa concepção assume o compromisso de<br />
adoção da atitude de mudança.<br />
A avaliação na sua função formativa tem como principal objetivo favorecer e provocar a<br />
melhoria e o crescimento humanos pela aprendizagem, saindo seus agentes da situação de medo<br />
para a situação de entusiasmo e prazer, como lemos em Snyders (1988):<br />
82<br />
[...] sentir-se progredindo, capaz de progredir, sentir suas forças crescendo; conhecer-se melhor,<br />
governar-se, resistir, ir até o fim do que tinha tentado; pelo que se pode avaliar, ver onde está, tomar a<br />
medida de si mesmo (possibilidades e limites) e adquirir confiança em si mesmo; em suma fazer suas<br />
provas, prestar testemunho, confirmação de si mesmo (p. 207).<br />
Essa concepção vai na contramão do que pensam aqueles que se apoiam na premissa<br />
de que se não houver o controle pela via da prova classificatória os alunos passarão pela escola<br />
sem aprender, ou que fazer avaliações que tenham como conteúdo e finalidade a ajuda ao aluno<br />
acaba superficializando o ensino, descomprometendo o estudante e produzindo um afrouxamento<br />
pedagógico por parte do professor. Conveniente que se entenda que a exigência posta por uma<br />
ação avaliativa contínua, formativa, global, é muito maior no rigor de sua prática.<br />
Três pilares básicos constituem e sustentam a prática avaliativa com a função diagnóstica:<br />
um processo de acompanhamento fundamentado, a intervenção consentida e capacitadora<br />
e a promoção dos sujeitos das práticas que se produzem na sala de aula e na escola como um<br />
todo.<br />
O acompanhamento requer conhecimento suficiente do que se deseja fazer, das condições<br />
daqueles com quem se vai interagir e da direção que se quer seguir. Didaticamente é a etapa da<br />
situação orientadora ou da realização do diagnóstico. O processo de acompanhamento organiza-
EaD<br />
<strong>didática</strong><br />
se em continuada leitura/reflexão da situação do ensino/aprendizagem, produzida pelas ações<br />
didático-pedagógicas planejadas pelos professores, no diálogo com alunos e postas à disposição<br />
deles como desafio ao aprender a pensar.<br />
Para uma leitura dessa natureza concorre a competência teórica em termos do que seja<br />
aprender, do que seja conhecimento e dos desafios do contexto histórico sociocultural. Outro<br />
requerimento é a sensibilidade política e técnica para entender e identificar os saberes, valores,<br />
atitudes, possibilidades e necessidades dos alunos.<br />
A consciência da situação permite a visualização da necessária intervenção pedagógica<br />
que, por essência, produz o ato de ensinar, criando e indicando novas situações de aprendizagem,<br />
mostrando pistas para a superação das dificuldades e conduzindo procedimentos para avanços<br />
nas situações individuais e de grupo. Provoca, também, o aprimoramento da atuação docente<br />
como condição da qualidade da intervenção.<br />
O terceiro pilar do processo é a promoção dos sujeitos da aprendizagem, na medida em<br />
que vão se assumindo como agentes de sua história escolar e de vida. Desenvolver o processo<br />
de construção do conhecimento na escola conduz ao situar-se criticamente no mundo. A aprendizagem<br />
é promoção da melhoria da condição humana.<br />
O sentido da promoção é o sentido do projetar e perspectivar, vislumbrando possibilidades<br />
presentes e futuras para o crescimento pessoal e de inserção em grupos de convivência. Na ideia<br />
da promoção não cabe a prática da seleção e da classificação. Snyders (1988) nos ensina: “O que<br />
é incompatível com a alegria que procuro na escola é o medo do aluno diante da seleção”.<br />
A avaliação, na sua dimensão diagnóstica, é processual e relacional e não se destina a<br />
aprovar e reprovar simplesmente. Objetiva acompanhar, por constatações e interpretações, o que<br />
os alunos produzem, suas conquistas, fragilidades e necessidades, bem como os sentimentos que<br />
explicitam em relação à escola e a sua aprendizagem.<br />
A prática avaliativa, nesse entendimento, requer percebê-la numa concepção formativa<br />
interpretativa. Assim, concordamos com Snyders (1988) quando adverte que “não mais procede<br />
pensar que o único avaliar do aluno é seu desempenho cognitivo” (p. 41).<br />
A função diagnóstica da avaliação possibilita o questionamento, a simplificação que as<br />
práticas avaliativas escolares tradicionais podem impor ao trato do pedagógico e, especificamente,<br />
do processo ensino/aprendizagem. Simplificar é entender o aprender como relação linear entre<br />
um professor que transmite, como detentor individual do saber, e um aluno receptor, portador<br />
da ignorância do saber considerado válido para a aprendizagem escolar. Assim, aprender é simples,<br />
basta dar a “resposta certa”, a priori estabelecida e indicada como merecedora de atenção<br />
e memorização.<br />
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EaD anna r. F. santiago – eronita s. Barcelos – eulalia B. Marin – Hedi M. luft – iselda s. Feil – lori M. Frantz – Maridalva B. Maldaner – solange c. M. rufino<br />
84<br />
Segundo Goldberg e Prado (1980), já no início da década de 70 Robert Stake escrevia<br />
alertando que:<br />
[...] a essência da tirania era a negação da complexidade, ao mesmo tempo em que considerava os<br />
avaliadores como “grandes simplificadores”. Trabalhamos diariamente com simplificações, formulações<br />
de objetivos, com tendências centrais, com testes critérios e nos tornamos de tal forma condicionados<br />
por eles que perdemos a consciência das atividades fundamentais do processo ensino/aprendizagem<br />
(p. 142).<br />
No processo ensino/aprendizagem há que considerar variados aspectos, desde as efetivas<br />
condições dos alunos, a natureza e qualidade da intervenção pedagógica por parte do professor,<br />
a dinâmica curricular em desenvolvimento, os valores norteadores do projeto escolar, as dimensões<br />
do espaço-tempo do conhecimento, até o compromisso ético-político da escola na relação<br />
com a comunidade e com os coletivos humanos que a ela acorrem.<br />
Ainda segundo Goldberg e Prado (1980), Michael Scriven (1967), ao discutir os tipos de<br />
avaliação e os princípios que os fundamentam, observa que a avaliação formativa tem o objetivo<br />
de promover o aperfeiçoamento do programa educativo em suas etapas e dimensões: início,<br />
desenvolvimento e final, de forma diagnóstica, contínua e prospectiva.<br />
Uma corajosa e ousada renovação nas concepções sobre educação, escola, ensino/aprendizagem<br />
e vontade política coletiva de mudança são requisitos para que a avaliação explicitada<br />
neste texto se efetive na escola.<br />
Concluímos compartilhando uma situação buscada em texto de Alicia Fernandez (1990):<br />
para pensar novas ideias temos que desarmar nossas ideias feitas e misturar as peças, assim como tipógrafo<br />
ver-se-á obrigado a desarmar os clichês, se deseja imprimir um texto num novo idioma (p. 23).<br />
Fica o convite para dialogarmos e ampliarmos a reflexão sobre essa temática, caro aluno.<br />
Consulte também, para sua leitura: Barcelos, Eronita S. A experiência da avaliação como<br />
prática de vida. Contexto e Educação, Ijuí, RS: Ed. <strong>Unijuí</strong>, n. 7, jul./set. 1987.
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