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didática - Unijuí

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Universidade regional do noroeste do estado do rio grande do sUl – UnijUí<br />

vice-reitoria de gradUação – vrg<br />

coordenadoria de edUcação a distância – cead<br />

coleção educação a distância<br />

série livro-texto<br />

anna rosa Fontella santiago<br />

eronita silva Barcelos<br />

eulalia Beschorner Marin<br />

Hedi Maria luft<br />

iselda sausen Feil<br />

lori Maria Frantz<br />

Maridalva Bonfanti Maldaner<br />

solange catarina Manzoni rufino<br />

<strong>didática</strong><br />

Ijuí, Rio Grande do Sul, Brasil<br />

2010


© 2010, Editora <strong>Unijuí</strong><br />

Rua do Comércio, 1364<br />

98700-000 - Ijuí - RS - Brasil<br />

Fone: (0__55) 3332-0217<br />

Fax: (0__55) 3332-0216<br />

E-mail: editora@unijui.edu.br<br />

Http://www.editoraunijui.com.br<br />

Editor: Gilmar Antonio Bedin<br />

Editor-adjunto: Joel Corso<br />

Capa: Elias Ricardo Schüssler<br />

Designer Educacional: Jociane Dal Molin Berbaum<br />

Responsabilidade Editorial, Gráfica e Administrativa:<br />

Editora <strong>Unijuí</strong> da Universidade Regional do Noroeste<br />

do Estado do Rio Grande do Sul (<strong>Unijuí</strong>; Ijuí, RS, Brasil)<br />

Catalogação na Publicação:<br />

Biblioteca Universitária Mario Osorio Marques – <strong>Unijuí</strong><br />

D558 Didática / Anna Rosa Fontella Santiago ... [et al.]. – Ijuí :<br />

Ed. <strong>Unijuí</strong>. 2010. - 90 p. - (Coleção educação a distância.<br />

Série livro-texto).<br />

ISBN 978-85-7429-860-3<br />

1. Educação. 2. Didática. 3. Planejamento didático.<br />

4. Docência. I. Santiago, Anna Rosa Fontella. II. Título.<br />

III. Série.<br />

CDU : 37<br />

371.3


Sumário<br />

CONHECENDO O PROFESSOR ..................................................................................................5<br />

APRESENTAçãO .........................................................................................................................15<br />

UNIDADE 1 – A DIDáTICA NA FORMAçãO DO PROFESSOR:<br />

Constituição e Saberes ........................................................................................17<br />

Seção 1.1 – Didática e Formação Docente ..............................................................................17<br />

Seção 1.2 – Saberes Necessários à Prática de Docência ........................................................22<br />

Seção 1.3 – Formação, Experiência e Saber: processos identitários .....................................29<br />

UNIDADE 2 – CONHECIMENTO E APRENDIzAGEM:<br />

Interdependência, Mediação e Processos de Significação ...............................39<br />

Seção 2.1 – Conhecimento e Aprendizagem:<br />

interdependência, mediação e processos de significação .................................39<br />

UNIDADE 3 – PlANEJAMENTO DIDáTICO:<br />

Elementos Constitutivos e Práticas na área de Formação Docente ..................47<br />

Seção 3.1 – Planejamento Educacional: razões, sentidos e práticas .....................................47<br />

UNIDADE 4 – AvAlIAçãO NA PERSPECTIvA DA INClUSãO ESCOlAR E SOCIAl:<br />

Teorias e Práticas Alternativas ......................................................................................................69<br />

Seção 4.1 – Avaliação na Perspectiva da Inclusão Escolar e Social:<br />

teorias e práticas alternativas .............................................................................69<br />

Seção 4.2 – Avaliação no Contexto Escolar .............................................................................78<br />

Seção 4.3 – Avaliação na sua Função Diagnóstico .................................................................81<br />

REFERêNCIAS .............................................................................................................................85


Conhecendo o Professor<br />

EaD<br />

Anna Rosa Fontella Santiago<br />

Doutora em educação pela UFRGS, professora no curso de<br />

Pedagogia e no Programa de Pós-Graduação em Educação nas Ciências<br />

da <strong>Unijuí</strong>; pesquisadora com várias publicações na área do<br />

currículo e das políticas públicas de educação.<br />

Eronita Silva Barcelos<br />

Sou professora universitária na <strong>Unijuí</strong>, vinculada ao Departamento<br />

de Pedagogia há quatro décadas, tendo iniciado minha<br />

inserção na docência nesse nível de ensino em março de 1965 com<br />

24 anos de idade. Chegar a esse lugar foi uma conquista e tanto em<br />

meu projeto de vida.<br />

Como cheguei até aqui? Para responder, explicito um pouco<br />

da história de meu percurso na constituição da professora que me<br />

tornei.<br />

Nasci no município de Soledade (RS), em maio de 1940, sendo<br />

a segunda filha de uma família de seis filhos. Moradora do interior<br />

do município, minha primeira experiência de aprendizagem escolar<br />

aconteceu em uma escola multisseriada, em 1945, aos 5 anos. Isso<br />

aconteceu porque, por decisão de meus pais, acompanhava meu irmão<br />

com 8 anos à escola, distante mais ou menos 10 km de nossa casa.<br />

Imediatamente me encantei com aquele ambiente onde se aprendia<br />

coisas das quais nunca havia ouvido falar e com aquela professora<br />

tão tranquila, atendendo uma turma com níveis de aprendizagem<br />

diferentes. Andar 20 km diariamente, atravessando campos e matas,<br />

não era motivo, para mim, de cansaço ou insatisfação. Ao contrário,<br />

era algo que fazia com muito prazer e cheia de curiosidade sobre<br />

o que aconteceria naquele dia na casa da professora Gessi, onde<br />

funcionava a escola.<br />

<strong>didática</strong><br />

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6<br />

Foi nesse período de minha infância que surgiu meu primeiro<br />

ensaio de decisão: queria ser uma professora como dona Gessi. No<br />

final daquele ano (1945), meu irmão ganhou um prêmio da professora<br />

pelo seu desempenho na alfabetização e eu estava lendo e escrevendo,<br />

embora não tivesse o atendimento da professora como aluna. Ela<br />

dava, no entanto, algumas olhadelas e sorria, constatando que eu<br />

me aventurava nas atividades “passadas” para meu irmão. Aquele<br />

sorriso continua muito nítido em minha memória e no sentido que<br />

teve no surgimento de minha paixão pela educação.<br />

Buscando melhores condições de educação para nós, seus<br />

filhos, meus pais mudaram para a cidade em 1948. Matriculada na<br />

Escola Santa Inês, orientada por uma congregação religiosa de irmãs,<br />

cursei o primeiro ano, embora já alfabetizada. Minha idade (7 anos)<br />

não permitia outra opção. Isso me oportunizou, porém, a participar<br />

das aulas auxiliando colegas quando a professora solicitava. Minha<br />

decisão de ser professora fundamentava-se nessas situações. Concluído<br />

os cinco anos do primário, fiz exame de admissão ao ginásio<br />

(normas do ensino na década de 40) e ingressei no Ginásio São José<br />

(Soledade) da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos (Franciscanos).<br />

Finalizados os quatro anos do Ginásio, eu havia concluído o que<br />

hoje seria o Ensino Fundamental. Fui, então, em busca de realização<br />

de minha opção: “me formar professora”. De 1957 a 1959, na Escola<br />

Normal Santíssima Trindade de Cruz Alta-RS, (também de orientação<br />

franciscana), em sistema de internato, realizei meu sonho de,<br />

cursando o Magistério, habilitar-me a uma nomeação para a função<br />

de professora.<br />

Em 1957, em Ijuí (RS), cria-se uma instituição de ensino superior<br />

voltada à formação de professores, em especial para qualificar<br />

o ensino secundário (Médio). Minhas professoras no Magistério,<br />

na quase totalidade, tornaram-se alunas dessa instituição, a Faculdade<br />

de Filosofia, Ciências e letras de Ijuí – Fafi –, hoje <strong>Unijuí</strong>. O<br />

entusiasmo das mesmas com os estudos e novidades aprendidas foi<br />

contagiando suas alunas, e eu, ao receber o Diploma de Professora,<br />

já havia decidido que faria vestibular para o curso de Pedagogia,<br />

que ao lado do curso de Filosofia, recebia em 1960 sua quarta turma.<br />

Obtive sucesso no vestibular, integrei essa quarta turma e tornei-me<br />

uma habitante de Ijuí.


EaD<br />

Para coroar meus anseios, em 6 de junho desse ano fui no-<br />

meada como professora para uma escola da rede estadual de ensino<br />

em Ijuí. Nessa Escola convivi durante 23 anos com colegas, alunos<br />

e seus familiares em processo permeado por descobertas, surpresas<br />

estimulantes, frustrações exigentes de revisão de modos de ver o<br />

contexto e as pessoas nele inseridas, de aprendizagens ricas na generosidade<br />

das colegas mais experientes, de desafios pedagógicos a<br />

cada grupo de crianças ou de adolescentes que me eram confiados<br />

para um percurso educativo que lhes fizesse a diferença.<br />

Com o privilégio de estar no exercício da docência, simultaneamente<br />

à vida acadêmica de aluna do ensino superior, tive<br />

caminhos alternativos de entendimentos novos e fundamentados<br />

pelo conhecimento cambiante nesses espaços. A docência torna-se<br />

foco percebido por mim como algo complexo e sem possibilidade de<br />

sentido, senão pela reflexão corajosa e sempre emergente de todas<br />

as situações que provoca ou a provocam.<br />

Ao concluir o curso de Pedagogia, em 1964, recebi um dos<br />

maiores prêmios, o convite para ser professora na Fafi. Bastante temerosa,<br />

mas desafiada e feliz, aceitei o convite e em março de 1965<br />

assumi o compromisso, comigo mesmo em primeira instância, de<br />

fazer jus a essa oportunidade conquistada, com dedicação, muito<br />

diálogo com outros educadores e alunos e com o cultivo da paixão<br />

que me havia conduzido até esse momento.<br />

Aprofundei estudos em dois cursos de Pós-Graduação lato<br />

sensu. O primeiro em Metodologia do Ensino realizado na <strong>Unijuí</strong> e<br />

o segundo em Educação a Distância pela Universidade de Brasília<br />

(UNB) e Cátedra Unesco.<br />

Além da docência, que é o que move minhas mais intensas<br />

energias, cresci em experiências como supervisora escolar e diretora<br />

de escola e, também na Universidade, em funções de coordenação<br />

de programas, chefia de departamento, direção de instituto e Centros<br />

Integrados de ensino Superior e como vice-Reitora de Graduação e<br />

Reitora, gestão concluída em 2004.<br />

Apesar dos muitos anos na aprendizagem de ser professor,<br />

constituindo com muitos coletivos de educadores e alunos o sentido<br />

e a “boniteza” da docência, me sinto, ainda, desafiada e estimulada<br />

a estar com gente no afã de educar e me educar sem perda da<br />

<strong>didática</strong><br />

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8<br />

energia da opção que fui tecendo nas várias fases da minha vida e<br />

nos contextos povoados de outros que me foram mestres, colegas,<br />

companheiros de ideias ou permanentes contestadores de minhas<br />

posições, críticos de minha forma de ser e agir, mas sempre importantes<br />

outros, na alternância do construir/socializar saberes.<br />

Eulalia Beschorner Marin<br />

Possui Graduação em Ciências: Plena em Química pela Universidade<br />

Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (1984)<br />

e Mestrado em Educação nas Ciências pela Universidade Regional<br />

do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (2006). Atualmente<br />

é professora assistente da Universidade Regional do Noroeste do<br />

Estado do Rio Grande do Sul. Atua nos cursos de Química, Biologia<br />

e Pedagogia com ênfase em Metodologia. Pesquisa especialmente<br />

Cultura, Infância e Ciências da Natureza, Juventude, Normas e<br />

Escolarização.<br />

Hedi Maria Luft<br />

“(...) Temos, todos que vivemos,<br />

Uma vida que é vivida<br />

E outra vida que é pensada,<br />

E a única vida que temos<br />

É essa que é dividida<br />

Entre a verdadeira e a errada (...)”<br />

(Pessoa, 2008, p. 36).<br />

Descrever quem somos é sempre desafiador. Estudaremos<br />

Didática juntos, portanto, desde a apresentação já vamos usar uma<br />

dinâmica didático-pedagógica para nos conhecermos. Isso mesmo,<br />

nos conhecermos, porque o objeto deste componente curricular é<br />

ensinar e aprender. A primeira competência de quem deseja ensinar<br />

é querer aprender, aliás, quem mais precisa aprender é aquele que<br />

deseja ensinar. Faremos isto em forma de questões.<br />

De onde viemos? O lugar onde nasci chama-se linha Flor da<br />

Serra – interior de um pequeno município da Região Celeiro, localizado<br />

a Noroeste do Estado do RS, São Martinho. Nesta vila havia


EaD<br />

uma escola pública municipal – Sagrado Coração de Jesus – multisseriada,<br />

onde iniciei minha primeira série e, a partir da quinta série,<br />

a única opção possível para quem desejasse continuar estudando era<br />

deslocar-se à sede do município. Concluí o Ensino Fundamental no<br />

Ginásio Estadual de São Martinho, ainda na época em que as aulas<br />

aconteciam no Salão Paroquial.<br />

Para onde vamos? Na certeza de assumir a docência, fiz meu<br />

Curso Normal, na época chamado de Magistério, na Escola Nossa<br />

Senhora Auxiliadora de Frederico Westphalen. Foi uma experiência<br />

muito enriquecedora. Em 1983 iniciei meu tão sonhado curso de Pedagogia,<br />

na Faculdade Salesiana Dom Bosco, hoje <strong>Unijuí</strong>, e no mesmo<br />

período obtive meu primeiro emprego como professora no Colégio<br />

Santa Rosa de lima – liminha, como é conhecido carinhosamente.<br />

Nesta escola, realizei muitas experiências e atuei em diferentes<br />

funções como: professora, coordenadora pedagógica, supervisora<br />

de estágio e vice-diretora.<br />

Que experiências escrevemos? Em 1989 assumi um desafio que<br />

me acompanha até hoje. A primeira experiência com alunos trabalhadores<br />

de escola pública municipal – Escola Municipal Professor<br />

Francisco Xavier Giordani, no turno da noite. A questão de estudar<br />

e trabalhar sempre me mobilizou. No espaço da escola de alunos<br />

trabalhadores há muitas faltas, mas uma que mais me desafia é a falta<br />

de uma organização curricular efetivamente adequada aos que estudam<br />

e trabalham. Em agosto de 1990 iniciei minhas atividades como<br />

professora na Faculdade Salesiana Dom Bosco, que no ano posterior<br />

é assumida pela <strong>Unijuí</strong>, um marco importantíssimo na minha prática<br />

profissional. Dali por diante minha experiência foi sempre conjugada<br />

entre as atividades da <strong>Unijuí</strong> e a escola pública, ora atuando na rede<br />

municipal como supervisora de ensino, coordenadora pedagógica,<br />

ora como professora da rede estadual, atuando no Curso Normal do<br />

Instituto de Educação Estadual visconde de Cairu.<br />

O que é relevante na formação de professores? A formação<br />

contínua é indispensável na vida de um professor. Repensar permanentemente<br />

nossas práticas e nosso quefazer na educação é<br />

fundamental. Por isso, atualmente, estou envolvida com o Curso de<br />

Pós-Graduação em Educação pela Universidade do vale dos Sinos<br />

<strong>didática</strong><br />

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10<br />

– Unisinos. Um Curso que proporciona muitas oportunidades, especialmente<br />

o Doutorado Sanduíche que realizei em lisboa – Portugal,<br />

durante quatro meses.<br />

O que fazemos? Na <strong>Unijuí</strong> trabalho nos diversos cursos de licenciaturas<br />

e neste componente curricular da Didática encontramos<br />

realidades muito distantes e muito ricas, portanto dignas de socialização.<br />

Desejo que possa lhe auxiliar na formação de professor. Além<br />

destas atividades, integro o Conselho Municipal de Educação de<br />

Santa Rosa, que muito subsidia as discussões pedagógicas e legais<br />

das escolas, além de coordenar a Seção da Pedagogia no Campus<br />

Santa Rosa.<br />

Iselda Sausen Feil<br />

Iselda Teresinha Sausen Feil é professora do Departamento de<br />

Pedagogia da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio<br />

Grande do Sul (<strong>Unijuí</strong>), lecionando as disciplinas de Metodologia<br />

de Ensino, Didática, Alfabetização, Currículo e Docência na Educação<br />

Infantil e nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental no Curso<br />

de Pedagogia, do qual foi coordenadora. Foi professora e diretora<br />

de Escola e coordenadora pedagógica na Secretaria Municipal de<br />

Educação de Ijuí. Assessora escolas e órgãos de ensino na instituição<br />

e execução de propostas pedagógicas e curriculares.<br />

Lori Maria Frantz<br />

Meu nome é lori Maria Frantz, Specht Kunz de solteira. lori,<br />

por que a meu pai lembrava a história de lorelei.<br />

Sou loira escura, com matizes arruivadas. Segundo um professor<br />

de português que tive no Ensino Médio, tenho a “cor de burro<br />

quando foge” e olhos azuis, com formato asiático...<br />

Comecei minha escolaridade em escola situada numa comunidade<br />

interiorana. logo descobri que existiam castigos para certas<br />

“artes”, como, por exemplo, comunicar-se em língua estrangeira no<br />

horário do recreio, o que me fez ficar na escadaria externa da escola,<br />

no primeiro dia de aula, com livro aberto na mão... sem saber ler!


EaD<br />

Posteriormente fiz minha formação de professora. Trabalhei<br />

durante 4 anos com alunos de 1ª a 3ª séries, apesar do alerta da<br />

madre superiora: “Como você vai impor respeito a seus alunos com<br />

essa cortina de boba?”. Ela referia-se à franja do meu cabelo (novamente<br />

o cabelo!!!).<br />

Concluído o Ensino Médio e chegado o momento de entrar na<br />

universidade, cheguei a Ijuí, onde resido até hoje. Cursei letras na<br />

<strong>Unijuí</strong> e, posteriormente, Mestrado em Études Des Societés latino<br />

Américaines, no Instituto de Altos Estudos para a América latina,<br />

Université de Paris III (Sorbonne-Nouvelle), na França.<br />

Desde o início da minha atividade do magistério no ensino<br />

superior, dediquei-me à formação de docentes, iniciando pelo curso<br />

de licenciatura em letras e ampliando minha atuação na orientação<br />

de estágios nos cursos de Artes visuais e História, bem como na<br />

<strong>didática</strong> em diversos cursos de licenciatura.<br />

Também atuo na coordenação do curso de Formação Pedagógica<br />

para Bacharéis e desenvolvo trabalho de extensão em projeto<br />

de formação de jovens rurais, da Casa Familiar Rural da Região de<br />

Ijuí.<br />

Meu esposo é professor na <strong>Unijuí</strong>, atualmente vice-reitor de<br />

Pesquisa e Extensão. Temos três filhas: uma psicóloga, uma fisioterapeuta<br />

e uma fotógrafa.<br />

Maridalva Bonfanti Maldaner<br />

Nasci na década de 50, num município da Serra Gaúcha chamado<br />

Farroupilha. Filha de descendentes de italianos, convivi toda<br />

minha infância com meus familiares vitivinicultores. Sou licenciada<br />

em Estudos Sociais pela Universidade de Passo Fundo e em Geografia<br />

pela <strong>Unijuí</strong>. Trabalhei como professora de 1º e 2º graus nos<br />

municípios de Chapecó/SC e em Ijuí. Em 1983 concluí o Mestrado<br />

em Metodologia do Ensino pela Universidade Estadual de Campinas<br />

e, mais tarde, nessa mesma instituição, ingressei no Doutorado.<br />

Comecei a lecionar na <strong>Unijuí</strong> em 1981 como professora do Departamento<br />

de Pedagogia nas disciplinas de Didática, Práticas de Ensino<br />

e Estágios Supervisionados nos diversos cursos de licenciatura,<br />

<strong>didática</strong><br />

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12<br />

e Fundamentos e Metodologia de Ensino na Pedagogia. Desenvolvi<br />

atividades na administração universitária como chefe de Departamento,<br />

coordenadora de cursos de Pós-Graduação, coordenadora<br />

de extensão, mas é como professora que me realizo mais. Foi nesse<br />

espaço que me constituí professora nas interações com meus alunos,<br />

colegas e o conhecimento. levo em consideração que meu papel de<br />

professora vai se constituindo misturado a minha vida de menina,<br />

mulher, filha, irmã, esposa, mãe, avó, com todas suas práticas, rituais,<br />

fazeres, afazeres, desejos, medos, aspirações e frustrações, modos<br />

de dizer e de silenciar, que são histórica e socialmente construídos<br />

e que trazem comigo os significados que consigo dar a mim mesma<br />

sobre a vida e as experiências vividas.<br />

Solange Catarina Manzoni Rufino<br />

Nasci em 25 de novembro de 1955, no município de Manoel<br />

viana. Meus pais: volmir Afonso Manzoni e Terezinha Joana Frizzo<br />

Manzoni. Por estas peças que a vida nos prega, quando completei um<br />

ano e meio minha mãe adoeceu, vindo a falecer aos 24 anos. Passei<br />

então a viver em uma pequena comunidade rural – Nova Esperança<br />

do Sul – juntamente com os meus avós maternos e tios, cercada de<br />

muito amor e carinho.<br />

Mais tarde, quando completei 8 anos, ganhei uma nova família:<br />

uma mãe, um irmão e três irmãs do segundo casamento de meu pai,<br />

meus queridos e fiéis companheiros.<br />

Em 1976 vim para Ijuí a convite dos meus tios e, graças a sua<br />

ajuda, fiz o curso de Pedagogia e iniciei minha vida profissional nesta<br />

cidade que me acolhe até hoje. Aqui constituí também minha família,<br />

com meu esposo e meu querido filho Eduardo.<br />

Graduei-me em Pedagogia em 1983 e, logo em seguida, fiz<br />

Especialização na área de Supervisão Escolar, cuja função passei a<br />

exercer na Escola Francisco de Assis.<br />

Esta experiência marcou significativamente minha constituição<br />

profissional. Por ser uma escola de vanguarda, havia uma exigência<br />

de atualização em termos de propostas educacionais. O grupo que a<br />

constituía distinguia-se por ser, de certa forma, “seleto” em termos de


EaD<br />

conhecimentos, posturas e valores de vida. Esse contexto trazia um<br />

grau elevado de exigência a quem ingressava neste espaço. Denomino<br />

o primeiro momento neste lugar de “inquietação”, o que surge é<br />

algo novo: “lá” as coisas podem acontecer, pessoas “arejadas”, vestes<br />

diferentes, grupos de estudo, trabalho com arte, projetos de trabalho,<br />

respeito à criatividade infantil, estudos sobre grafismo, a livre-expressão...<br />

As práticas educacionais querem a sala de aula como um espaço<br />

onde as crianças descubram, pensem, inventem e se sintam bem. O<br />

planejamento escolar, na forma de projetos, organizava a rotina de<br />

forma criativa e interdisciplinar. Meus compromissos estendem-se<br />

para além da sala de aula. Os registros escolares requeriam relato<br />

da prática de forma reflexiva. Esses ensaios carregavam tensões pela<br />

fragilidade e inconsistência do que acreditava saber.<br />

Recordo-me falante, “cutucada” pelas questões da prática<br />

pedagógica. No trabalho de supervisora escolar, que exerço paralelamente<br />

à docência, busco ser parceira político-pedagógico do<br />

professor, antes mesmo que se anunciasse essa perspectiva para a<br />

função de supervisão.<br />

Nas idas-e-vindas da profissão de professora e supervisora,<br />

estive em lugares distintos, trabalhei em todos os graus de ensino.<br />

Nas redes pública, particular e na universidade desde 1983. Nunca<br />

me desliguei do ensino. vejo-me ligada ao ensinar e ao aprender<br />

na direção de um agir democrático com vistas à emancipação e à<br />

construção da cidadania dos educandos.<br />

Com crenças, valores e conhecimentos, faço-me professora.<br />

O fato de trabalhar concomitantemente na escola e na universidade<br />

potencializa a minha formação profissional, trazendo a possibilidade<br />

de muitos olhares. Nesse processo de assumir a docência em vários<br />

lugares, vivo descobertas, ambiguidades, esperanças e desesperanças.<br />

A par das atividades na escola em que a prática requer respostas<br />

imediatas, nem sempre pesquisadas e refletidas, a universidade carrega<br />

a possibilidade da reflexão e reconstrução do que ali se faz. Isso<br />

ajuda a enfrentar o desânimo que se produz muitas vezes no interior<br />

da escola em decorrência da “dureza” das realidades envolvidas.<br />

Desde que me iniciei no ofício de professora tenho mudado meu<br />

modo de entender a educação e a docência. Muito do que aprendi<br />

foi e está sendo transformado; passei e passo por inseguranças,<br />

<strong>didática</strong><br />

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dúvidas e acertos. Muitas provocações na prática, muitos estudos e<br />

debates. Trabalho de forma solidária nos grupos dos quais participo.<br />

Na experiência de ser professora surge sempre alguém ou algo<br />

para me surpreender, me emocionar, me desestabilizar. Assim, vou<br />

reconfigurando a minha docência.<br />

Do lugar de professora de Práticas de Ensino na universidade<br />

e na situação de supervisora dos estágios na escola pública de<br />

formação de professores (Curso Normal), vejo-me em contato com<br />

a problemática da aprendizagem da docência. Constato a experiência<br />

de um não saber que vem da ausência da prática. Observo nas<br />

alunas/professoras a tensão do aprender ser professora, respondendo<br />

positivamente às demandas desse fazer. Nelas, vejo a professora que<br />

um dia fui.<br />

No fazer de ensinante da profissão de professor vou percebendo<br />

que há um tipo de conhecimento que não se pode ensinar, ainda<br />

que se possa aprender. É nesse ponto que se delineiam os meus<br />

interesses de pesquisa, que tem a ver com a iniciação profissional e<br />

o aprender da docência na direção da constituição do ser professor.<br />

Neste propósito, realizei, em 1998, o Mestrado em Educação nas<br />

Ciências, com pesquisa relativa às aprendizagens dos professores<br />

na iniciação profissional.<br />

Atualmente, para além das atividades de docência na universidade<br />

e de supervisora na rede estadual, realizo trabalho de extensão<br />

na região contribuindo com a formação de professores.


Apresentação<br />

EaD<br />

<strong>didática</strong><br />

A Didática é um campo de estudos muito importante nos cursos de formação do professor.<br />

Ela tem como objeto de estudo o ensino tomado em sua realidade prático-social, sendo o professor<br />

o mediador do processo de ensinar e de aprender.<br />

veja a ementa deste componente que apresenta o enfoque da abordagem a ser efetivada<br />

durante o semestre.<br />

Ementa: “Trata da docência e do processo de ensino e da aprendizagem como prática social,<br />

considerando métodos, estratégias e saberes necessários à organização e implementação de<br />

programas de ensino, de formação do professor e os papéis do sujeito no cotidiano escolar, tendo<br />

em vista o planejamento e a avaliação daqueles processos”.<br />

Para dar conta dos temas previstos na ementa, foram organizadas as seguintes Unidades<br />

de estudo:<br />

1 – A Didática na formação do professor: constituição e saberes.<br />

2 – Conhecimento e aprendizagem: interdependência, mediação e processos de significação.<br />

3 – Planejamento didático: elementos constitutivos e práticas na área de formação docente.<br />

4 – Avaliação na perspectiva da inclusão escolar e social: teorias e práticas alternativas.<br />

visando a lhe apresentar alguns subsídios básicos sobre as temáticas, foi organizado este<br />

livro conforme as Unidades já referidas.<br />

A primeira Unidade, A Didática na Formação do Professor: constituição e saberes, focaliza<br />

a Didática como campo específico da formação de professores, tomando como referência as<br />

práticas docentes na perspectiva de sua ressignificação, dado que a <strong>didática</strong> e a formação do<br />

professor evocam processos complexos que precisam ser considerados em suas inter-relações.<br />

Nesta Unidade, três textos apresentam considerações sobre: a <strong>didática</strong> como elemento articulador<br />

entre teoria e prática docente; saberes que são necessários à prática educativa; e a construção<br />

da identidade do professor reflexivo, sua função em relação ao conhecimento e ao ensino. Os<br />

textos são os seguintes:<br />

1. Didática e Formação Docente, de Maridalva Bonfanti Maldaner.<br />

2. Saberes Necessários à Prática de Docência, de lori Maria Frantz.<br />

3. Formação, Experiência e Saber: processos identitários, de Solange Catarina Manzoni Rufino.<br />

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EaD anna r. F. santiago – eronita s. Barcelos – eulalia B. Marin – Hedi M. luft – iselda s. Feil – lori M. Frantz – Maridalva B. Maldaner – solange c. M. rufino<br />

16<br />

Na segunda Unidade, Conhecimento e Aprendizagem: interdependência, mediação e<br />

processos de significação, você tem a oportunidade de refletir sobre o ensino e a aprendizagem<br />

como processos interdependentes. A abordagem em estudo remete para o entendimento do que<br />

se faz necessário mobilizar para que o processo do ensino aprendizagem resulte em apropriação/<br />

significação de conhecimentos escolares. Enfatiza a ação transformadora de ensinar e aprender<br />

que tem como condição a dialogia, a descoberta e a contextualização dos conhecimentos. Neste<br />

sentido, o processo de ensino e de aprendizagem é abordado numa visão dialógica de (re)<br />

construir saberes considerando o interculturalismo existente na sociedade, e a sala de aula é<br />

percebida como espaço e tempo para as interações e mediação nos conhecimentos. veja o texto<br />

base para este estudo:<br />

Conhecimento e Aprendizagem: interdependência, mediação e processos de significação,<br />

de Anna Rosa Fontella Santiago e Eulália Beschorner Marin.<br />

Na terceira Unidade, Planejamento Didático: elementos constitutivos e práticas na área<br />

de formação docente, será estudada a organização <strong>didática</strong> do ensino, ou seja, o processo de<br />

planejamento da aula na visão colaborativa entre alunos e professores. visa à reflexão e à desconstrução<br />

do modo tradicional de “dar aula”, propondo modificações na rotina do planejamento<br />

e a revisão crítica dos elementos estruturantes da organização <strong>didática</strong> da aula. Investiga, ainda,<br />

como o planejamento se efetiva nas práticas de ensino dos professores de sua área de formação.<br />

Assim, sobre o planejamento na articulação e na organização do conhecimento, sobre práticas<br />

alternativas e outras questões, você encontra no texto:<br />

Planejamento Educacional: razões, sentidos e práticas, de Iselda Sausen Feil e Solange<br />

Catarina Manzoni Rufino.<br />

Na quarta Unidade, Avaliação na Perspectiva da Inclusão Escolar e Social: teorias e práticas<br />

alternativas, a avaliação como elemento constitutivo da prática educativa será apresentada na<br />

referência à inclusão social e escolar. Avaliar na perspectiva de cuidar para que a aprendizagem<br />

se processe, supõe criticar a avaliação que se faz exclusivamente classificatória, analisar os elementos<br />

implicados e recolocá-la na lógica democrática. veja as considerações sobre o assunto<br />

nos textos desta Unidade, que abordam concepções de avaliação, o enfoque da avaliação como<br />

construção de conhecimento, e a pesquisa e reflexão da prática pedagógica de professores, no<br />

que se refere a propostas curriculares, concepções, programas, metodologias, avaliação.<br />

1. Avaliação na perspectiva da inclusão escolar e social: teorias e práticas alternativas, de Eronita<br />

Silva Barcelos e Hedi Maria luft.<br />

2. Avaliação no contexto escolar, de Hedi Maria luft.<br />

3. Avaliação na sua função diagnóstica, de Eronita Silva Barcelos.<br />

Algumas orientações de estudos já estão evidenciadas nos textos. Procure no portal, no<br />

entanto, novas orientações e propostas de atividades. Além disso, a dinâmica de funcionamento<br />

e de avaliação deste componente de Didática constará no Plano de Ensino.


Unidade 1<br />

EaD<br />

a <strong>didática</strong> na ForMação do ProFessor:<br />

constituição e saberes<br />

oBjetivos desta Unidade<br />

<strong>didática</strong><br />

• Focalizar a Didática como campo específico da formação de professores, entendendo sua<br />

função na construção do conhecimento profissional, na expressão dos sentidos e significados<br />

atribuídos à prática docente e aos saberes pedagógicos produzidos nessa relação.<br />

seçÕes desta Unidade<br />

Seção 1.1 – Didática e Formação Docente<br />

Seção 1.2 – Saberes Necessários à Prática de Docência<br />

Seção 1.3 – Formação, Experiência e Saber: processos identitários<br />

seção 1.1<br />

<strong>didática</strong> e Formação docente<br />

Maridalva Bonfanti Maldaner<br />

Ao abordarmos questões sobre o conhecimento e saberes que o professor precisa construir<br />

ao longo de sua formação docente e, em especial na formação inicial, a Didática tem desenvolvido<br />

uma discussão sobre sua presença e significado nesse processo.<br />

Essa formação é vista como um continuum (lima, 2008), que tem seu desenvolvimento ao<br />

longo da vida; significa que nos formamos professores no percurso de nossas experiências escolares<br />

ou não, que antecedem a nossa formação inicial e perdura por toda a vida profissional.<br />

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18<br />

A formação docente, muitas vezes, é descaracterizada como continuum pela forma como<br />

é entendida e proposta. Na formação inicial, de Ensino Médio e universitário, ou aquela que<br />

continua durante a atuação como professor, essa formação apresenta-se sempre em momentos<br />

formais estanques, etapas, em forma de cursos, palestras, capacitações diversas, seminários e<br />

outros eventos.<br />

Embora importantes, costumam caracterizar-se em momentos estanques, que não se articulam<br />

entre si e não fazem parte de um trabalho situado com as necessidades impostas pelo<br />

trabalho do professor e da escola. Na maior parte das vezes, os professores não participam das<br />

decisões e propostas para sua formação continuada, o que os leva a participar apenas como um<br />

compromisso formal, como mais um evento sem comprometer o seu fazer pedagógico, ou, ainda,<br />

sem buscar no coletivo, junto a seus pares, um espaço articulado de socialização e de parcerias,<br />

que situe suas práticas e dê possibilidade de ressignificá-las diante dos seus dilemas, desejos,<br />

necessidades e de decisões político-pedagógicas.<br />

A formação não pode ser vista como soma de momentos e nem meramente cumulativa. É<br />

um processo de reflexão das práticas, que proporciona intersecções entre a teoria e a prática,<br />

ampliando e ressignificando conhecimentos da formação, definidos e situados pela pesquisa e na<br />

reflexão visando a novas práticas. O professor, ao envolver-se plenamente em refletir o seu fazer,<br />

pensando teoricamente sobre ele, produz novas compreensões e significados para esse fazer.<br />

Podemos nos perguntar: Como acontece o aprendizado de ser professor? Como os cursos<br />

de formação e a formação continuada estão presentes nesse processo? Nesses espaços e tempos<br />

de formação não aprendemos apenas a dominar conteúdos, metodologias, <strong>didática</strong>s; aprendemos<br />

a ser um determinado tipo de professor(a).<br />

Estamos envolvidos em rituais, formas de pensar, confrontamos valores, imersos numa<br />

cultura escolar e profissional. Mesmo que os currículos dos cursos de formação inicial sejam<br />

um ordenamento de conhecimentos, teorias e práticas, o envolvimento e relações sociais vividas<br />

entre alunos e professores constituem um determinado modo de ser professor (Arroyo, 2000).<br />

Em meio a essas questões, destacamos um trabalho realizado junto aos estudantes de<br />

Graduação, cuja indicação era considerar a experiência escolar e explicitar o entendimento<br />

sobre a constituição do professor. Foi perguntado a eles que lembranças, do modo de ser de<br />

seus professores, valorizariam para a sua formação na docência. Os estudos teóricos passaram<br />

a proporcionar elementos articuladores na inter-relação entre vivências escolares anteriores e a<br />

reflexão produzida.<br />

As lembranças das experiências escolares, relatadas pelos acadêmicos, expressaram<br />

concepções e representações que fazem de seus professores, da profissão docente, da escola,<br />

dos significados atribuídos às aprendizagens e às interações geradas pelos eventos e práticas<br />

próprias da vida escolar. Situaram outras instâncias da vida social e cultural e como imagens do


EaD<br />

<strong>didática</strong><br />

ser professor são produzidas e percebidas nas diferentes manifestações sociais que expressam<br />

valores, crenças e expectativas, apontando o lugar social de professor que ocupa em suas reais<br />

condições de vida e trabalho.<br />

Em suas narrativas, a grande maioria não fez referência aos seus professores a partir de sua<br />

figura individual, sua personalidade ou em seu modo de ser e pensar; fez referência às práticas<br />

que geraram algum tipo de envolvimento entre o professor e seus escolares.<br />

Foram as práticas situadas e contextualizadas e os sujeitos envolvidos que resultaram em<br />

lembranças e percepções. A partir delas, destacaram aspectos positivos, tensões, experiências<br />

de compartilhamento, e como isso interferiu e contribuiu na compreensão da profissão docente.<br />

Não foram as práticas em si, mas a relação que se estabeleceu por meio delas que foi destacada.<br />

Nessa relação é que os acadêmicos puderam visualizar o fazer docente, que modificou a sala de<br />

aula e os sujeitos nela envolvidos, incluindo-se nesse processo. Que <strong>didática</strong> se pode pensar? Que<br />

conexões foram produzidas que remetem à compreensão da complexidade do processo didático,<br />

envolvendo novos entendimentos sobre tempos e espaços de sala de aula?<br />

Ao desconhecer essa formação já constituída pelas vivências, os cursos específicos de formação<br />

tornam-se formação paralela, sem capacidade de integrar as vivências no plano de compreensão<br />

mais amplo da relação pedagógica que se estabelece no trabalho do professor. Dessa<br />

forma, tanto as vivências como os cursos formais são de pouco significado para a prática pedagógica<br />

dos futuros professores. Assim, persistem, normalmente, as vivências não compreendidas<br />

na prática escolar, sem novas relações com as teorias abordadas. Por outro lado, se as teorias são<br />

introduzidas nos cursos para refletir as práticas, ambas tornam-se fecundas e conscientizadas.<br />

Se a formação docente se dá num continuum, que inclui desde experiências vivenciadas<br />

como alunos de escola até conhecimentos e valores construídos na formação inicial e na atuação<br />

docente, pode-se pensar sobre a função da <strong>didática</strong> dentro desse continuum.<br />

O que é específico da <strong>didática</strong>? Qual a sua função na constituição do professor e na sua<br />

formação?<br />

A <strong>didática</strong> tem procurado redefinir seu objeto de estudo rompendo com uma perspectiva<br />

de inspiração comeniana, da qual derivou “a arte e técnica de ensinar tudo a todos”, com ideias<br />

comportamentalistas de ensino baseado em competências técnicas, formulação de objetivos<br />

mensuráveis, receituário de técnicas e métodos, avaliação classificatória e como produto. Essas<br />

dimensões põem a Didática numa perspectiva instrumental.<br />

Frequentemente ouvimos expressões decorrentes dela como “dar aula” ”passar a matéria, o<br />

conteúdo” “seguir o programa”, “dar notas”. São termos que se fazem presente na linguagem e,<br />

por que não dizer, na prática cotidiana de nossos professores. Essa concepção marcou por muito<br />

tempo o caráter instrumental dessa disciplina, que foi alvo de um intenso questionamento, ocor-<br />

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20<br />

Inspiração Comeniana<br />

Expressão baseada em princípios<br />

de Juan Amos Comênius,<br />

educador e pensador reconhecido<br />

como mentor da escola moderna<br />

e precursor da Didática. O ensino<br />

centrado no eixo da transmissão-assimilação<br />

do conteúdo<br />

historicamente acumulado pela<br />

humanidade remonta à proposta<br />

desse educador no século 17,<br />

momento em que acontece a<br />

transição da interação particular<br />

professor e aluno para um sistema<br />

coletivo: um professor para<br />

turmas de alunos. Comênius propõe<br />

um método único de ensinar<br />

tudo a todos. Este era o ideal da<br />

sociedade capitalista emergente,<br />

com a classe burguesa no poder.<br />

O princípio de ensinar tudo a todos<br />

servia às pretensões de criar<br />

uma nação unificada em torno<br />

de uma unidade de um mesmo<br />

conhecimento. Por intermédio<br />

da instrução, com base num método<br />

didático único, buscava-se<br />

alcançar esse objetivo. Funda-se<br />

assim a Didática tradicional que<br />

concebe todos os indivíduos com<br />

uma mesma essência humana,<br />

mente passiva e receptiva de<br />

informações transmitidas pelo<br />

professor.<br />

rendo um movimento que, nos últimos anos, passou a ser entendido<br />

como uma área de conhecimento, cujo objeto de estudo é o processo<br />

de ensino, situando-o com novos elementos que o configuram em<br />

toda a sua complexidade.<br />

Candau (1985) é considerada representante desse movimento,<br />

com propostas de redimencionar a <strong>didática</strong> e seu papel na formação<br />

dos professores. Tal movimento começa pela proposição de uma Didática<br />

Fundamental (1980) baseada na ideia da multidimensionalidade<br />

do processo de ensino-aprendizagem, configurado, basicamente, pela<br />

inter-relação das dimensões humana, técnica e político-social (Candau,<br />

1985). Essa perspectiva avança na discussão de que a <strong>didática</strong><br />

deve envolver em sua proposição a inclusão de temas mobilizadores<br />

da reflexão, abrangendo questões geradas no cotidiano escolar sobre<br />

o saber docente e a cultura.<br />

[...] a produção do conhecimento na área da Didática hoje está chamada<br />

a incorporar as temáticas relativas ao saber escolar e ao capital<br />

pedagógico dos professores, ao multiculturalismo e sua incidência no<br />

cotidiano escolar, assim como às novas linguagens, às questões de<br />

gênero e etnia etc. O caráter multidimensional e contextualizado da<br />

Didática exige que ela seja continuamente repensada à luz dos novos<br />

desafios que a sociedade e a educação apresentam para construção da<br />

democracia e de uma cidadania plena, consciente e crítica (Candau,<br />

apud lima, 2008, p. 160).<br />

Placco (2008), ao situar esse movimento que focaliza uma<br />

perspectiva multicultural, observa que é a presença do sujeito contextualizado<br />

culturalmente que potencializa a <strong>didática</strong> a buscar sua<br />

ressignificação. Aborda sobre os saberes didáticos como expressão<br />

dos sentidos e significados atribuídos pelo sujeito a sua prática<br />

docente e como esses saberes articulados entre si são expressão de<br />

subjetividades, de compartilhamento de sentidos necessários para<br />

se estabelecer uma aproximação e pontos de contato entre a vida e<br />

cultura de nossos jovens.<br />

A <strong>didática</strong> coloca-se como espaço que situa o saber ensinar, não<br />

apenas um como fazer, mas um fazer que altera o processo de ensino<br />

e aprendizagem, que se propõe a interagir, produzir vínculos com os<br />

alunos para que o conhecimento escolar tenha alcance e promova o<br />

desenvolvimento humano. Nesse sentido, a <strong>didática</strong> é transformadora,<br />

pois modifica o sujeito que ensina e o que aprende.


EaD<br />

<strong>didática</strong><br />

Na sala de aula a riqueza e a possibilidade de circulação de sentidos fluem num desafio<br />

permanente ao professor, que precisa encontrar aproximações possíveis e pontos em comum,<br />

desafiando o aluno e a si próprio a propor o avanço na busca e construção do conhecimento.<br />

Mediante que envolvimentos e situações o professor passa a entender o que o aluno<br />

conhece, suas experiências e o que faz sentido para ele? Como a <strong>didática</strong> pode articular-se na<br />

perspectiva de incluir o sujeito?<br />

O professor, nesse contexto, revela-se autor da docência que realiza, pois faz a <strong>didática</strong><br />

que sabe e que pode. Atua em contexto singular, diante de suas condições de trabalho, de formação,<br />

“expressa sua subjetividade, suas crenças, e valores, suas representações, sobre educação,<br />

aluno, escola e sobre seu próprio papel e, ao mesmo tempo, constrói sua identidade pessoal e<br />

profissional” (Placco, 2008, p. 737).<br />

Outro aspecto a salientar dentro do que é específico da <strong>didática</strong> refere-se a conhecimentos<br />

ligados à organização do processo de ensino, aqueles que dizem respeito às diferentes formas de<br />

planejamento, gestão de sala de aula, processos de mediação entre professor/aluno/conhecimento<br />

entre outros, rompendo com a concepção meramente técnica de realizar essa tarefa, dando-lhe<br />

outros significados, tendo em vista o contexto do projeto político-pedagógico da escola, a realidade<br />

sociocultural dos alunos e dos professores, as possibilidades de articulação interdisciplinar<br />

e novas lógicas de organização de espaços e tempos escolares.<br />

O planejamento se constitui em um fazer do trabalho pedagógico que expressa autonomia<br />

e intencionalidades do professor e da escola. A partir dele estabelece uma melhor conexão com<br />

a realidade da escola, prevendo quais ações podem viabilizar a intenção do professor em promover<br />

mediações necessárias ao alcance das aprendizagens e identificar e superar obstáculos para<br />

recompor o que lhe parece ser mais viável e necessário diante do que se interpõe no cotidiano<br />

escolar. Como afirma Placco (2008), a <strong>didática</strong> é uma aproximação sistemática e circunstanciada<br />

aos processos de ensino e aprendizagem.<br />

No contexto da formação do professor, vale lembrar os desafios que estão sendo postos pelas<br />

modificações ocorridas na sociedade de mudanças constantes de tecnologias, em que novos<br />

valores e relações estão permeando a sala de aula e a escola. Há necessidade de se promover<br />

constante atualização do professor para que possa analisar e ressituar os processos pedagógicos<br />

com o olhar voltado ao seu compromisso, às subjetividades e às demandas sociais e culturais.<br />

Situar a <strong>didática</strong> nesse processo de formação é afirmar que<br />

[...] tanto a Didática quanto os processos de formação do professor envolvem as mesmas e múltiplas<br />

dimensões – dimensões da formação técnica, humano-interacional, ético-política, dos saberes para<br />

ensinar, da formação continuada, crítico-reflexiva, estética e cultural, dentre outras. [...] Dado que<br />

<strong>didática</strong> e formação do professor evocam processos unos e complexos, essas dimensões precisam ser<br />

consideradas em suas inter-relações e co-ocorrência, em sua dialeticidade (Placco, 2005, p. 95).<br />

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seção 1.2<br />

saberes necessários à Prática de docência<br />

ProFissão docente e conHeciMentos ProFissionais<br />

22<br />

lori Maria Frantz<br />

Qual meu projeto de vida? O que pretendo ser? Que profissão escolher? Estas são perguntas<br />

com as quais possivelmente você tenha se deparado em algum momento e procurado respondêlas.<br />

Escolher uma profissão é um passo difícil para a maioria das pessoas, pois é uma decisão que,<br />

com certa frequência, vale para toda a vida. Por isto é importante que a escolha se relacione com<br />

o que se gosta de fazer para que essa atividade nos realize como profissionais e como pessoa.<br />

Normalmente a decisão é tomada em decorrência das experiências que se observa em relação<br />

aos trabalhos de outros, pois neles percebe-se a satisfação e a insatisfação, o tipo de atividade<br />

que exige ser desenvolvida no dia a dia e o valor atribuído socialmente à profissão. Entre as<br />

diversificadas opções para escolha de uma atividade profissional está a profissão docente, isto<br />

é, ser professor ou professora, exercer o magistério em algum grau de ensino.<br />

A profissão docente é uma atividade antiga que vem sendo constituída ao longo da história<br />

da humanidade. Essa atividade tem incorporado experiências e vivências de professores de outras<br />

épocas, que foram alicerçando ou que alicerçam, de uma ou outra forma, o fazer educativo atual.<br />

Muitas mudanças, entretanto, aconteceram em relação à maneira de como o conhecimento é<br />

trabalhado pedagogicamente e ao papel atribuído aos professores, em razão das transformações<br />

da sociedade, dos novos contextos sociais, das mudanças nos meios de comunicação e da tecnologia,<br />

e do entendimento de que a educação não é mais exclusiva a alguns, mas patrimônio<br />

de toda a comunidade.<br />

Essas mudanças têm repercutido na redefinição da profissão do professor, para quem existe<br />

o desafio de entender os diferentes contextos, assim como a especificidade da cultura em que está<br />

inserido, de modo que possa desempenhar sua função de contribuir ao processo de humanização<br />

própria e dos alunos. Por isso, são valorizadas novas atitudes dos docentes que implicam formas<br />

de ver e perceber a instituição educativa, e, em especial, os alunos e o fazer do professor, como<br />

as de aprender a compartilhar decisões na atividade profissional, saber comunicar-se e saber<br />

trabalhar com outros (professores de outras áreas, estudantes, comunidade educativa...).<br />

você poderia perguntar: Que saberes o professor necessita aprender e construir? O que distingue<br />

o professor de outros profissionais e qual é a especificidade do conhecimento docente?


EaD<br />

<strong>didática</strong><br />

Antes de entrar nessas questões, é importante salientar que os saberes dos professores<br />

se caracterizam, segundo Tardif (2002, p. 11-17), como um saber social, pelo fato de não existirem<br />

conhecimentos sem o reconhecimento social. São diversas as razões que justificam esse<br />

entendimento. Em primeiro lugar, por que o saber docente é partilhado por um grupo que tem<br />

aspectos em comum, ou seja, os professores, que realizam cursos de formação para o exercício<br />

do magistério e, na sua atuação na escola, articulam-se em torno da uma proposta educativa e<br />

das suas necessidades. Em segundo lugar, por que esse saber tem sua legitimidade garantida por<br />

apoiar-se sobre um sistema educativo, que inclui a universidade, as instâncias estatais de gestão<br />

da educação, a administração escolar, as associações profissionais, o sindicato, e outros. Em terceiro,<br />

por que os próprios objetos do saber são objetos sociais, isto é, o professor trabalha o objeto<br />

do conhecimento com sujeitos em função de um projeto, que é o de transformar os estudantes,<br />

educando-os e instruindo-os. Em quarto lugar, por que tanto o que os professores ensinam (os<br />

saberes a serem ensinados) quanto a sua maneira de ensinar (o saber ensinar), modificam-se<br />

com o tempo e com as mudanças sociais. Por último, o saber docente é um saber social porque<br />

se constrói no espaço escolar na relação entre diferentes disciplinas que constituem o projeto<br />

pedagógico e entre docentes que se complementam em seu ofício de ensinar.<br />

Esses conhecimentos compõem a profissão do professor, por isso são chamados de saberes<br />

profissionais. 1 De posse deles o professor pode estruturar sua docência, ou seja, seu modo de ser<br />

professor/a. Ser professor, portanto, implica dominar uma série de conhecimentos, capacidades<br />

e habilidades especializadas que, de um lado, são exigidos pelo trabalho da docência e que, de<br />

outro, remetem ao pertencimento a um grupo profissional.<br />

Nessa direção, é importante salientar os indicativos do Relatório para a Unesco, elaborado<br />

sob a coordenação de Jacques Delors (2000), da Comissão Internacional sobre Educação para<br />

o século 21, que apresenta quatro pilares da educação para serem desenvolvidos na escola e ao<br />

longo da vida: a) aprender a conhecer: aquisição de um repertório de saberes codificados e o<br />

domínio dos próprios instrumentos do conhecimento; b) aprender a fazer: qualificação profissional<br />

com a capacidade de enfrentar situações e a trabalhar em equipe; c) aprender a viver juntos,<br />

aprender a viver com os outros, compreendendo o outro e percebendo as interdependências; d)<br />

aprender a ser: elaborar pensamentos autônomos e críticos e poder decidir, por si mesmo, como<br />

agir nas diferentes circunstâncias da vida.<br />

1 Veja na revista Educação & Sociedade, n° 74/2001 o artigo “Saberes docentes e formação de professores: um breve panorama da<br />

pesquisa brasileira”, de Célia Maria Fernandes Nunes ou, se preferir, leia-o no site . Leia<br />

também o texto “Os saberes docentes ou saberes dos professores” de Emmanuel Ribeiro Cunha, no site .<br />

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saBeres da docência: a exPeriência, o conHeciMento e os saBeres Pedagógicos<br />

24<br />

De onde se originam os saberes dos professores? Como você responderia a esta pergunta?<br />

Nos últimos anos esta questão tem sido bastante discutida podendo-se encontrar diversos educadores<br />

que se referem ao assunto, como: Pimenta (1997), Gauthier (1998), Imbernón (2000),<br />

Guarnieri (2000), Tardif (2002). Nesses escritos ficam evidentes que a docência envolve uma<br />

multiplicidade de saberes adquiridos e constituídos tanto na história de vida do professor quanto<br />

na sua formação e na carreira profissional. Tom e valli, educadores canadenses, denominam esse<br />

conjunto de saberes de repertório de conhecimentos, definido como “o repertório total de habilidades,<br />

informações, atitudes, etc., de que os professores necessitam para cumprir com as suas<br />

responsabilidades em sala de aula” (In: Gauthier, 1998, p. 62), evidenciando, assim, a amplitude<br />

e a complexidade dos conhecimentos no fazer pedagógico.<br />

Certamente você já participou de discussões em que se afirmava que para ensinar bastaria<br />

conhecer o conteúdo. Outros talvez tenham se posicionado no sentido de que bastaria ter talento,<br />

ou ter bom senso, seguir a intuição, ou, ainda, ter experiência ou cultura para desenvolver a<br />

atividade de professor (veja Gauthier, 1998, que trata destas questões). Ater-se a esses reducionismos<br />

implicaria ignorar que a docência é uma atividade em que se precisa ter a capacidade de<br />

articular os diferentes saberes, sejam eles do conhecimento específico (os disciplinares), sejam<br />

pedagógicos ou da formação profissional (das Ciências da Educação e da Pedagogia – o saberfazer)<br />

ou experienciais (provindos da história de vida e do exercício profissional) (Tardif, 2002).<br />

Para Gauthier (1998, p. 28-29), esse repertório de conhecimentos dos professores forma<br />

um reservatório, do qual podem lançar mão à medida das suas necessidades, em que vão encontrar<br />

saberes disciplinares, curriculares, das ciências da educação, da tradição pedagógica,<br />

experienciais e da ação pedagógica. Outra forma de divisão desses saberes é feita por Pimenta<br />

(1997), que os sintetiza em experienciais, científicos e pedagógicos, classificação que será adotada<br />

neste texto.<br />

O curso de licenciatura oportuniza uma experiência muito interessante ao futuro docente:<br />

é a de se colocar no lugar do professor, isto é, ver-se como alguém que ensina. Esse é um<br />

momento de conscientização em que se percebe a formação inicial, isto é, a licenciatura, como<br />

um processo essencial para a construção da identidade docente, da identidade profissional de<br />

professor/a que cada um construirá. Nesses cursos são apreendidos os fundamentos da profissão,<br />

que contribuem para compreender por que se realizam determinadas ações ou se tomam algumas<br />

atitudes, e quando será necessário fazê-lo de outro modo.<br />

Apreender fundamentos significa constituir uma base de conhecimentos que precisam<br />

ser atualizados permanentemente em função das mudanças que se produzem na sociedade,<br />

na educação e na própria docência, uma vez que concepções e saberes vão sendo construídos,


EaD<br />

<strong>didática</strong><br />

desestruturados e reconstruídos, pelos professores, no cotidiano da vida e da escola. À medida<br />

que compreendem seus papéis e suas tarefas, exercem a capacidade de realizar reflexões sobre<br />

seu trabalho, e fazem uso de sua autonomia para decidir sobre os problemas profissionais da<br />

prática.<br />

Tardif (2002, p. 39) define o professor ideal como “alguém que deve conhecer sua matéria,<br />

sua disciplina e seu programa, além de possuir certos conhecimentos relativos às Ciências da<br />

Educação e à Pedagogia e desenvolver um saber prático baseado em sua experiência cotidiana<br />

com os alunos”. Esses conhecimentos necessários à trajetória profissional dos professores serão<br />

tratados nos três itens que seguem.<br />

saberes experienciais<br />

Possivelmente você se situa entre aqueles que não possuem experiência referente ao exercício<br />

do magistério. Talvez ainda não tenha atuado em sala de aula, mas mesmo assim você foi<br />

acumulando experiências do ser professor durante sua vida. Como pode isso acontecer? É porque<br />

saberes foram constituídos desde o momento em que foi estudante, observando e convivendo com<br />

diferentes professores. Desde criança já se tem ideia do que é ser professor, do que é ensinar e<br />

aprender, do que se faz para ensinar. Quem nunca brincou de escolinha assumindo o lugar de<br />

ser professor ou de aluno? Quem nunca julgou o trabalho de um(a) professor(a) e deu preferência<br />

a um em detrimento de outro? Quem nunca desgostou de uma matéria porque não concordava<br />

com a forma de agir ou ensinar do professor? E, ao contrário, quem nunca se apaixonou por<br />

determinado assunto por perceber a paixão com que o professor se dedicava a ele?<br />

Essas experiências de observar o trabalho do outro e elaborar críticas, positivas ou negativas,<br />

sobre a profissão docente, são formadoras e ajudam a estabelecer referenciais que se revelam<br />

em concepções pessoais sobre a figura do professor. Estas experiências alicerçam as bases que<br />

contribuirão para a formação do “eu” profissional – da identidade docente. Desta forma, esses<br />

saberes produzidos por meio da sua história de vida são reconhecidos como importantes na<br />

intenção de se fazer/ser professor, apesar de suas origens estarem fundadas no processo de formação<br />

não formal do docente. Essa representação que se tem da docência antes de exercê-la às<br />

vezes inspira a futura atuação. É a tradição pedagógica (Gauthier, 1998) que pode ser replicada/<br />

reproduzida nos fazeres dos professores.<br />

Somados a esses saberes, estão os que surgem da experiência adquirida por meio da atividade<br />

docente, desenvolvidos a partir do trabalho cotidiano na escola e na sala de aula, e da<br />

compreensão do seu meio/contexto social. São saberes particulares, isto é, conhecimentos próprios,<br />

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que não provêm das instituições de formação nem dos currículos escolares, nem se encontram<br />

sistematizados em teorias. São esses conhecimentos que tornarão a prática pedagógica de cada<br />

professor singular.<br />

Os saberes práticos são definidos por Tardif como “um conjunto de representações a partir<br />

dos quais os professores interpretam, compreendem e orientam sua profissão e sua prática cotidiana<br />

(...) constituem, por assim dizer, a cultura docente em ação” (2002, p. 49). É por meio da<br />

prática em uma instituição e em uma cultura escolar, com suas características peculiares, que o<br />

professor vai construindo sua profissão, desenvolvendo formas de atuar que vão lhe proporcionando<br />

experiência e certa segurança no seu agir.<br />

Pode-se afirmar, portanto, que a aprendizagem do ser professor ocorre em grande parte<br />

nas situações da sala de aula. “É no cotidiano escolar que o professor aprende e desaprende,<br />

reestrutura o aprendido, faz descobertas, estrutura formas de pensamento e constrói crenças. De<br />

uma forma ou de outra, a escola, com sua cultura, é lugar de construção coletiva desses saberes,<br />

crenças e mitos...” (Silva, in: Guarnieri, 2000, p. 37).<br />

Estar aberto ao movimento de aprender e desaprender é muito importante, pois esta postura<br />

proporcionará ao professor diferentes experiências, o instigará a atualizar seus conhecimentos<br />

para responder às demandas dos estudantes, às novas gerações, e, principalmente, impedirá que<br />

a rotina cristalize e endureça sua forma de agir, pensar e ensinar.<br />

Assim, a constituição de conhecimentos pelo professor está ligada à prática de docência,<br />

motivo por que se entende que ele realiza uma parte importante de sua formação no interior da<br />

escola. O saber experiencial isolado dos demais conhecimentos, no entanto, torna-se insuficiente<br />

para a prática pedagógica.<br />

saberes disciplinares: o conhecimento do específico a ser ensinado<br />

Se você pretende ser professor do componente de História ou de Português, de Química,<br />

ou de Educação Física, precisa conhecer a área e o conteúdo com os quais vai trabalhar, isto é,<br />

necessita dominar os saberes disciplinares. Esses “são saberes que correspondem aos diversos<br />

campos do conhecimento, aos saberes de que dispõe a nossa sociedade, tais como se encontram<br />

hoje integrados nas universidades sob a forma de disciplinas, no interior de faculdades e de<br />

cursos distintos” (Tardif, 2002, p. 38).<br />

Isto significa que o professor precisa conhecer a matéria a ser ensinada para que tenha<br />

condições de mobilizar do conjunto de conhecimentos existentes, os conteúdos de relevância<br />

social que mais bem atendem ao objetivo de ensino. Essa exigência vai ao encontro da responsabilidade<br />

do docente em organizar o seu plano de trabalho para o ensino em determinada turma,<br />

e de participar do processo decisório que elegerá saberes da cultura erudita, temas e autores<br />

26


EaD<br />

<strong>didática</strong><br />

que comporão a proposta do currículo da instituição escolar. veja os elos que são estabelecidos:<br />

o saber disciplinar (teórico) origina o saber curricular (apresentado sob a forma de programa<br />

escolar com o detalhamento de objetivos, conteúdos, métodos, avaliação) e este é a fonte para o<br />

conhecimento específico que será efetivamente desenvolvido em sala de aula.<br />

Nessa organização, o docente pondera sobre o significado que os conhecimentos a serem<br />

ensinados podem representar para o estudante. Isto é, sua preocupação com o que ensinar<br />

estende-se aos reflexos desse ensino na vida dos estudantes. Tão importante quanto perceber os<br />

reflexos, é proporcionar o desenvolvimento de atividades mentais, como as de analisar, criticar,<br />

contextualizar e vincular informações novas com conhecimentos já existentes, interiorizando-os<br />

e se apossando deles.<br />

saberes pedagógicos<br />

você já deve ter ouvido dizer que um determinado professor sabe a matéria, mas não sabe<br />

ensiná-la. É uma ilusão imaginar que quem conhece um assunto saiba também ensiná-lo. Tal<br />

entendimento pode ser atribuído ao desconhecimento da existência de saberes pedagógicos,<br />

que estão entre os saberes profissionais que fundamentam a ação docente do professor. Segundo<br />

Pimenta (1997), saberes sobre educação e Pedagogia não geram automaticamente saberes<br />

pedagógicos, que são reconstituídos a partir das necessidades da prática de ensinar. Isto é, os<br />

docentes como atores competentes e sujeitos do conhecimento constituem seu saber-fazer a<br />

partir de seu próprio fazer e da interação que se estabelece entre professores na prática de sua<br />

profissão, legitimando o conhecimento pedagógico especializado.<br />

Cada profissão tem suas especificidades, particularidades que a definem. Imagine um<br />

agricultor na sua atividade: ele precisa entender sobre a época do plantio e sobre como plantar,<br />

reconhecer os sinais do tempo, prevendo chuvas, secas, geadas, entender sobre colheita e como<br />

fazê-la, etc. Como todos os profissionais, também o professor tem um conhecimento específico<br />

que o distingue, o identifica como tal, que lhe dá identidade profissional. Essa especificidade da<br />

profissão está no conhecimento pedagógico (...) “que se construiu e se reconstruiu constantemente<br />

durante a vida profissional do professor em sua relação com a teoria e a prática” (Imbernón,<br />

2000, p. 30).<br />

veja, então, que saberes pedagógicos apresentam-se como concepções provenientes de reflexões<br />

sobre a prática educativa que, segundo Tardif (2002, p. 37), se “articulam com as ciências<br />

da educação à medida que tentam, de modo cada vez mais sistemático, integrar os resultados da<br />

pesquisa às concepções que propõem, a fim de legitimá-las cientificamente”.<br />

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28<br />

No percurso profissional, entre os saberes necessários ao docente, Gauthier (1998, p. 18)<br />

cita “conhecimento do conteúdo, saber experiencial, conhecimento das crianças, conhecimento<br />

do programa, conhecimento relativo ao gerenciamento da classe, conhecimento de si mesmo,<br />

cultura geral, etc.” À medida que se desempenha a função de professor na escola e na sala de<br />

aula, contudo, muitas concepções construídas na vida acadêmica são reformuladas, considerando<br />

as novas aprendizagens efetuadas no exercício da docência.<br />

Essas podem estar relacionadas a formas e atitudes na convivência com crianças e jovens,<br />

a diferenças culturais existentes, à motivação dos estudantes no sentido de suscitar o desejo de<br />

aprender, à forma como eles aprendem, à diferença entre o exercício da autoridade e do autoritarismo<br />

na sala de aula, à definição do conteúdo de ensino, às atividades e estratégias mais<br />

adequadas, enfim, aos conhecimentos que tratam da gestão da matéria e da gestão da classe,<br />

e do meio cultural e social. Nessa atitude reflexiva sobre o ensino, sobre o que se faz, são elaborados<br />

conceitos, noções, formas e práticas de como ensinar e conviver, compondo os saberes<br />

pedagógicos.<br />

O conhecimento do professor é, conforme Tardif (2002, p. 11), um saber particular, individual,<br />

relacionado com a pessoa, sua identidade, sua experiência de vida e história profissional, suas<br />

relações com os alunos e com as outras pessoas da escola. Considerando essa complexidade e<br />

especificidade, é importante que haja registro sistemático do conhecimento produzido, de forma<br />

que possa ser socializado e servir de apoio para outras práticas. No caso da falta desse registro<br />

reflexivo, esse saber se perde no momento em que o professor deixa de exercer a docência.<br />

Assim sendo:<br />

– Os professores são sujeitos do conhecimento e possuem saberes específicos ao seu ofício. Ensinar<br />

implica, pois, conhecer uma diversificada gama de saberes, como os teóricos, os científicos, os<br />

didático-pedagógicos, os relacionados ao contexto e aos sujeitos da educação, que permitem<br />

aos professores aplicá-los a situações muito particulares que surgem na prática de docência.<br />

– Os docentes são os principais mediadores da cultura e dos saberes escolares. Sobre seus ombros<br />

repousa a missão educativa da escola. É por meio da prática educativa que os educadores<br />

percebem que seu papel não é o de meros transmissores dos conhecimentos reconhecidos pela<br />

sociedade, mas que são produtores de saberes, autores, com capacidade para recriar e transformar<br />

a prática cotidiana de sala de aula, o seu saber-fazer.<br />

– A sala de aula não é um lugar simples, ela é um lugar complexo, tendo que o professor levar<br />

em conta muitas variáveis. Neste espaço tem à disposição um vasto campo de conhecimentos<br />

e pode lançar mão de saberes pedagógicos construídos por ele na prática e por outros professores,<br />

apoiando-se naquilo que foi produzido num contexto real.<br />

– Em toda ação pedagógica é necessário respeitar os saberes do educando, saber dialogar e<br />

escutar, valorizar e reconhecer sua identidade cultural.


EaD<br />

seção 1.3<br />

Formação, experiência e saber: processos identitários<br />

<strong>didática</strong><br />

Solange Catarina Manzoni Rufino<br />

A discussão da constituição da identidade docente como conteúdo formativo em Didática,<br />

objetiva ampliar a reflexão da subjetividade dos sujeitos presentes na formação docente, bem<br />

como a perspectiva da profissionalização a partir das identificações que vão ocorrendo neste<br />

processo. Dessa forma, ampliam-se também entendimentos sobre aspectos já abordados no texto<br />

anterior, que refletem a pluralidade de saberes presentes na formação docente, enfatizando<br />

neste contexto a análise da experiência formadora que produz saberes, singulariza e desenvolve<br />

processos identitários.<br />

Conforme Josso, “A formação é experiencial ou então não é formação, mas sua incidência<br />

nas transformações de nossas subjetividades e das nossas identidades pode ser mais ou menos<br />

significativa” (2004, p. 48). A construção da experiência no seu entender se dá a conhecer por<br />

um processo reflexivo, ou seja, vivemos uma infinidade de transações e estas tomam status de<br />

experiência a partir do momento que fazemos certo trabalho reflexivo sobre o que se passou e<br />

sobre o que foi observado, percebido e sentido. A partir destas considerações já nos é possível<br />

perceber o significado da reflexão no processo formativo dos professores em direção à formação<br />

experiencial que designa a atividade consciente de um sujeito sobre seu fazer, pondo o aprendente<br />

em interação consigo mesmo.<br />

Ao mediarmos a formação acadêmica dos futuros professores, consideramos importante<br />

a provocação à reflexão para que, no esforço de responder ao perguntado, se possibilite “um<br />

caminhar para si”.<br />

Então pensemos sobre:<br />

Por que nos dirigimos à profissão de professor?<br />

O que é formação e como a percebemos em cada um de nós?<br />

O que motiva/influencia a busca pela profissão de professor e como a experiência vivida por<br />

todos nós nos aproxima desta atividade social?<br />

Em que circunstâncias foi feita a escolha pela formação de professor?<br />

O que significa experiência e como esta se realiza?<br />

Que significados as experiências por nós já vivenciadas ao longo da escolarização produzem<br />

no aprendizado da docência?<br />

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Selma Pimenta discorre sobre a recorrência das pesquisas sobre identidade: “Estudos e<br />

pesquisas sobre identidade docente têm recebido no tempo presente a atenção e o interesse de<br />

muitos educadores na busca de compreensão das posturas assumidas pelos professores” (2004,<br />

p. 61).<br />

Os referidos estudos identificam e analisam os elementos implicados na constituição de<br />

um modo próprio de ser professor, ou seja, o que está em jogo no movimento de singularização<br />

do professor, que o torna mais ou menos comprometido com o papel social desejado a estes.<br />

Espera-se, por exemplo, que o professor deixe de ser mero transmissor de conteúdos e abra<br />

espaço para a reflexão permanente, constituindo-se autor de seu fazer. Neste contexto, discutir<br />

a profissão e a profissionalização docente requer que se trate da construção de sua identidade.<br />

Assim, vejamos o que se produziu como entendimentos a partir dos estudos realizados sobre as<br />

maneiras de ser e se formar professor.<br />

Processos identitários: origens<br />

Considerando a amplitude que envolve o se tornar professor, Antônio Nóvoa refere-se a<br />

um processo identitário ao invés de constituição de identidade, processo esse visto como um<br />

produto alcançado na mescla dinâmica que caracteriza a maneira como cada um se sente e se<br />

diz professor. É impossível separar o eu profissional do eu pessoal. Essa impossibilidade de separar<br />

o eu profissional do eu pessoal surge como mais uma importante categoria nos estudos da<br />

constituição profissional do professor.<br />

Para Nóvoa:<br />

A identidade não é um dado adquirido, não é uma propriedade, não é um produto. A identidade é um<br />

lugar de lutas e conflitos, é um espaço de construção de maneiras de ser e de estar na profissão. Por<br />

isso, é mais adequado falar em um processo identitário, realçando a mescla dinâmica que caracteriza<br />

a maneira como cada um se sente e se diz professor. A construção da identidade passa sempre por um<br />

processo complexo graças ao qual cada um se apropria de um sentido da sua história pessoal e profissional.<br />

É um processo que necessita de tempo. Um tempo para refazer identidades, para acomodar<br />

inovações, para assimilar mudanças (1995, p. 16).<br />

A identidade do professor, segundo Nóvoa, se origina da sua história pessoal e profissional,<br />

nas diversas condições que o cercam, incluindo, assim, a vida privada, a vida profissional e a<br />

organização escolar. Traz nas suas reflexões novas concepções de formação que permitem falar<br />

numa “certa virada”, na medida em que incorpora como elemento substancial a subjetividade


EaD<br />

<strong>didática</strong><br />

implicada na constituição do professor. Ilustra de maneira pertinente o pensamento já amplamente<br />

conhecido nos meios pedagógicos. “O professor é pessoa e parte importante da pessoa é<br />

professor” (Nias apud Nóvoa, 1995, p. 15).<br />

Cada pessoa, ao relacionar-se com os outros, vai configurando sua história, seus projetos<br />

de vida. Para Dubar, “O indivíduo nunca constrói sua identidade sozinho: depende tanto dos<br />

julgamentos dos outros, como de suas próprias orientações e autodefinição. Assim a identidade<br />

é produto de sucessivas socializações” (in: Pimenta, 2004, p. 13).<br />

Sendo a construção da identidade um processo que se realiza ao longo das vivências de<br />

cada sujeito, podemos pensar na identificação com a profissão que vamos construindo desde<br />

nossas tenras experiências no decorrer da escolarização.<br />

Miguel Arroyo menciona em suas pesquisas que o aprendizado do ofício de mestre vem<br />

desde as primeiras vivências e contatos que tivemos com nossos mestres por longos anos, desde<br />

a educação infantil. As imagens dos mestres nos acompanham. Muito do que cremos, seja para<br />

positivar a atuação docente ou rejeitá-la, foi aprendido na experiência que desenvolvemos nas<br />

salas de aula ao longo de nossa escolarização. Quem de nós não lembra de modo especial de um<br />

professor, de um momento significativo de estudo, de uma atitude carinhosa ou mesmo grosseira<br />

e indesejada, de um material interessante levado por seu professor para ensinar, enfim, de um<br />

jeito de ensinar e aprender mediado por seus professores?<br />

Muitas são as marcas que foram tecendo este jeito próprio que nos constitui e que orienta<br />

nossas escolhas sobre o que queremos ou não fazer, o que queremos ou não realizar quando<br />

formos professor. As marcas são como cicatrizes que vão configurando o que nos é singular, as<br />

nossas personalidades. Sobre isso Arroyo expressa: “Os traços de personalidade do ser humano<br />

se aprendem vendo/convivendo. Pelo estágio-contágio entre humanos. Os valores, o dever moral<br />

de ser professor(a) se aprende no lento convívio, exemplar dos bons ou maus professores e com<br />

nossa cumplicidade de aprendizes...” (2004, p. 125).<br />

Para este autor, em outras instâncias e experiências de nossas vidas outras imagens se<br />

acrescentam e, com todos esses aprendizados, vamos construindo nossas identidades pessoais<br />

e profissionais.<br />

Se acreditarmos que experiências nos formam, é possível percebermos que nossas escolhas<br />

se aproximam ou se afastam daquilo que vivemos na cotidianidade de nosso imaginário e do<br />

imaginário que nos cerca.<br />

No decorrer da experiência social vamos fixando formas de realizar determinadas atividades,<br />

de compreender a realidade, de comunicar e expressar sentimentos, criando e fixando<br />

modos de agir, pensar, falar e escrever que se modificam com o desenvolvimento das relações<br />

sociais estabelecidas entre as pessoas para a produção de nossa sobrevivência.<br />

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32<br />

Quando referimos as escolhas profissionais pela docência, é recorrente a presença de ideias<br />

como: acho que escolhi por vocação, levo jeito com crianças, me identifico com determinada área<br />

do conhecimento. Também encontramos referência à classe social da família a que pertencem,<br />

justificando dificuldades de ordem econômica para formação em outras áreas de maior custo<br />

financeiro.<br />

Considerando que o que somos relaciona-se aos significados e sentidos que atribuímos<br />

ao que vamos vivendo e às condições materiais existentes para sua manutenção, tomamos por<br />

corretas as inúmeras respostas produzidas neste contexto, embora entenda importante salientar<br />

a pesquisa por mim desenvolvida, envolvendo professoras da Educação Infantil e Ensino Fundamental<br />

em que evidencio a escolha profissional como uma constituição histórica ocorrida nas<br />

contingências da vida.<br />

Os dramas humanos revelam, muitas vezes, a sujeição a fatores diversos no jogo multideterminado<br />

do saber/poder e das necessidades de sobrevivência. As características que nos definem<br />

têm a ver com os limites materiais e culturais da origem social a qual pertencemos.<br />

Se considerarmos, porém, o que escreveu Guimarães Rosa, que o mais bonito da vida é que<br />

não estamos sempre iguais, estamos sempre mudando, há que se pensar que nada está pronto,<br />

especialmente em se tratando de formação humana e profissional e, assim, pensar o processo<br />

identitário a partir da formação acadêmica na interação com a prática educativa.<br />

o esPaço/teMPo da ForMação acadêMica<br />

No espaço-tempo da formação acadêmica, o sujeito aprendente em interação com seus<br />

mestres nas instituições educativas, mediado pela linguagem e, a partir de projetos curriculares<br />

que definem previamente o que se quer como formação, apreende novos conceitos do repertório<br />

de saberes docentes, refaz representações, conhece caminhos novos, retoma o seu modo de ser,<br />

de estar no mundo, cria possibilidades para atuar de forma competente nas múltiplas dimensões<br />

da vida e no desempenho da profissão a que se forma.<br />

Na formação acadêmica temos a possibilidade de, pelo ensino e pesquisa, refletir e confrontar<br />

conhecimentos propostos para a formação docente com as diferentes representações e<br />

práticas sociais historicamente desenvolvidas neste contexto. Na reflexão crítica que se estabelece<br />

neste percurso, consolidam-se entendimentos.<br />

Nesta trajetória aprendemos e nos identificamos de forma diferente uns dos outros (porque<br />

identidade é singular), com o que é próprio e pertinente à prática social de ensinar.<br />

Quando se pensa em identidades, temos que pensá-la no plural, uma vez que somos constituídos<br />

de multiplicidades como:


EaD<br />

o gênero sexual a que pertencemos;<br />

<strong>didática</strong><br />

o nosso lugar de origem (nascemos/vivemos no campo, na cidade, em uma metrópole ou<br />

cidade interiorana);<br />

nosso lugar de filiação parental (somos filhos mais velhos, o do meio ou o mais novo);<br />

a nossa classe social;<br />

nossa corporeidade (temos alguma dificuldade especial em relação à maioria das pessoas);<br />

a nossa filiação religiosa;<br />

com quem nos relacionamos e interagimos?<br />

Tudo isto configura atributos que nos definem na relação com os outros e que revela um<br />

modo singular de ser a partir daquilo que nos é próprio e que se faz presente no sujeito que se<br />

forma professor.<br />

Pensar identidade demanda sempre pensar em processos abertos e imaginar como um<br />

caminho nunca definitivamente traçado, como nos versos do poeta Antonio Machado (In: Carvalho,<br />

2004): “Caminante, no hay camino, se hace camino al andar...”.<br />

Josso, assevera:<br />

Os processos de formação dão-se a conhecer, do ponto de vista do aprendente, em interações com<br />

outras subjetividades. Os procedimentos metodológicos ou, se preferimos, as práticas de conhecimento<br />

postas em jogo numa abordagem intersubjetiva do processo de formação sugerem a oportunidade de<br />

uma aprendizagem experiencial por meio da qual a formação se daria a conhecer (2004, p. 38).<br />

Esta autora afirma ser o resgate da autobiografia do sujeito aprendente parte constitutiva<br />

da sua formação, tomando a reflexão das histórias de vida como metodologia de pesquisa e formação.<br />

Para esta, o que está em jogo na narrativa de nossas histórias de vida que possibilita o<br />

conhecimento de nós mesmos, não é apenas compreender que nos formamos por um conjunto<br />

de experiências, ao longo de nossa vida, mas tomar consciência de que este reconhecimento de<br />

si mesmo possibilita ao sujeito narrador uma auto-orientação nas mais diferentes dimensões de<br />

sua vida.<br />

Solange J. e Souza, ao refletir o significado das narrativas das histórias de vida dos professores,<br />

diz que quando nos perguntamos “quem somos nós, ou como nos tornamos o que somos<br />

hoje”, nos direcionamos ao passado e essa recordação é, ao seu ver, uma tentativa de pôr em<br />

ordem acontecimentos que tinham outra ordem no momento em que foram vividos e, assim, a<br />

narração é um processo criativo do pensamento. A memória do vivido/experienciado possibilita<br />

a compreensão de si próprio (1999, p. 83).<br />

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34<br />

Assim, no processo formativo, no espaço tempo de formação acadêmica, é importante in-<br />

dagar: Que pessoa sou eu, que história já posso contar de mim que a meu ver vale a pena contar,<br />

o que desta história já se apresenta como saber experiencial para a profissão de professor?<br />

Tomando como referência o princípio de que toda formação é autoformação, refletimos<br />

sobre as transformações que ocorrem na constituição identitária dos sujeitos a partir de inúmeros<br />

relatos feitos em situação de pesquisa por estudantes e/ou profissionais. Estes revelam que,<br />

mesmo não tendo sido o magistério, em muitas vezes, uma escolha, mas uma contingência de<br />

suas vidas, na medida em que realizam experiências formativas no contexto acadêmico e/ou no<br />

exercício da docência em contexto profissional, transformações lhes acontecem.<br />

Mediados por instrumentos materiais e simbólicos presentes nas interações que se estabelecem<br />

entre o ensinante e o aprendente, constrói-se novas possibilidades de ser, fazer, conhecer,<br />

conviver e, neste movimento, se transforma e constitui um modo de ser professor. Há momentos<br />

especiais que marcam substancialmente a formação por potencializar a reflexão como, por exemplo,<br />

na narrativa da história de vida, na investigação de um tema/problema, na apresentação de<br />

um seminário, nas práticas de ensino como nos estágios.<br />

Selma Pimenta diz ser o estágio um lócus importante na constituição do profissional, sendo<br />

este espaço tempo de se “trabalhar a identidade em formação, definida pelos saberes, e não<br />

ainda pelas atividades docentes”. O estágio é atividade teórica de reflexão sobre a construção<br />

e o fortalecimento da identidade por possibilitar a tessitura dos fundamentos e das bases identitárias<br />

da profissão docente que o curso se propõe legitimar e, também, atividade teórica de<br />

conhecimento, fundamentação, diálogo e intervenção na realidade (2004).<br />

Pesquisas sobre a formação docente explicitam ainda o significado da construção da identidade<br />

docente ao longo de sua trajetória profissional no magistério, apontando a relevância do<br />

saber experiencial no exercício da profissão no contexto escolar.<br />

a Prática docente:<br />

saber experiencial e identidade profissional<br />

As experiências do professor ao longo de sua profissão, ao ensinar seus alunos, ao inserir-se<br />

nas regras da organização escolar, ao relacionar-se com os outros, consigo próprio, ao estudar, ao<br />

planejar suas aulas, ao rever-se como pessoa e nas tantas outras ações que fazem na prática de<br />

ensinante, trazem novas possibilidades de constituição de saberes de produção de identidades<br />

e da profissionalização de seu fazer.


EaD<br />

<strong>didática</strong><br />

Pensar a prática como campo de construção do saber experiencial, de uma epistemologia<br />

de prática, como possibilidade de constituição de processos identitários, implica pensá-la como<br />

um tipo particular de relação, uma relação de produção de sentido entre o que existe como significado<br />

historicamente constituído para ser professor e o que efetivamente se realiza na prática<br />

por um determinado sujeito que aprende a ser professor.<br />

No fazer de professor acontece a possibilidade da produção dos saberes da experiência,<br />

saber este derivado das múltiplas vivências que vão acontecendo no cotidiano dos professores,<br />

um saber que não se pode ensinar ainda que se possa aprender. Nas pesquisas que se desenvolvem<br />

na contemporaneidade, a experiência constitui novo significado na construção do saber<br />

docente como no dizer de Dominice:<br />

Devolver à experiência o lugar que merece na aprendizagem dos conhecimentos necessários à existência<br />

(pessoal, social e profissional) passa pela constatação de que o sujeito constrói seu saber ativamente<br />

ao longo de seu percurso. Ninguém se contenta em receber como se ele fosse trazido do exterior pelos<br />

que detêm os seus segredos formais. A noção de experiência mobiliza uma pedagogia interativa e<br />

dialógica (apud Nóvoa, 1992a, p. 25).<br />

Jorge larrosa traz uma exposição com conteúdo profundo do que seja experiência, apontando<br />

para a necessidade de recuperar a categoria da experiência para o pensamento da formação.<br />

A experiência surge ao seu entender como uma categoria sugestiva para pensar a formação<br />

docente; uma formação percebida como um devir plural e criativo, como uma ideia intempestiva<br />

que possa trazer algo de novo para o espaço tensionado entre a educação técnico-científica dominante<br />

e as formas dogmáticas e neo-conservadoras de reivindicar a velha educação humanística<br />

(1996, p. 141).<br />

larrosa explicita a experiência como saber, nesse contexto:<br />

A experiência seria aquilo que nos passa. Não o que passa, senão o que nos passa. Um saber finito<br />

ligado ao amadurecimento de um indivíduo particular (...); saber que revela o homem singular e sua<br />

própria finitude (...); um saber particular subjetivo, relativo, pessoal. Ninguém pode evitar a experiência.<br />

Ninguém pode aprender da experiência de outrem a menos que essa seja de algum modo vivida<br />

(...); um saber que não se pode separar do indivíduo concreto no qual se encarna. Não está, como no<br />

conhecimento científico, fora de nós, senão que só tem sentido no modo pelo qual se configura uma<br />

personalidade, um caráter, uma sensibilidade ou, enfim, uma fórmula humana que é por sua vez ética<br />

e uma estética (1996, p. 136-141).<br />

No mundo moderno, os saberes da experiência perderam terreno para outros modos de<br />

conhecer que se apresentam como mais verdadeiros, mais seguros, mais completos, porque originados<br />

do método que, em seu rigor, os converte em verdades.<br />

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EaD anna r. F. santiago – eronita s. Barcelos – eulalia B. Marin – Hedi M. luft – iselda s. Feil – lori M. Frantz – Maridalva B. Maldaner – solange c. M. rufino<br />

36<br />

Na reflexão do que se produziu neste contexto, Benjamim traz uma contribuição significa-<br />

tiva ao expressar o que se produziu uma vez separado o conhecimento da vida humana. Sendo<br />

o conhecimento como algo exterior à vida, como uma utilidade ou mercadoria e informação,<br />

consumimos informações, mas o que consumimos não nos afeta, não nos modifica.<br />

A horrível mixórdia de estilos e concepção de mundo do século passado mostrou-nos com tanta clareza<br />

onde esses valores culturais podem nos conduzir, quando a experiência é subtraída hipócrita e<br />

sorrateiramente que é hoje em dia uma prova de honradez confessar que essa pobreza de experiência<br />

não é mais privada, mas de toda a humanidade (1994, p. 115).<br />

O que se apresenta nesse dizer faz a denúncia de que no mundo no qual se abandonam os<br />

saberes da experiência, em que se separa saber e conhecimento, a vida humana se tornou pobre.<br />

Cabe, então, acreditar na possibilidade de reconstrução, pensar no resgate e na ressignificação<br />

da experiência para o pensamento da “formação”.<br />

As aprendizagens produzidas nas experiências precisam ser reconhecidas e validadas como<br />

constitutivas da docência. Há que se tentar trabalhar na perspectiva da complexidade e buscar<br />

a difícil, mas imprescindível, tarefa de aproximação das teorias científicas com os saberes dos<br />

práticos, com o fim de interrelacionar uns com os outros.<br />

A contraposição entre o sábio e o cientista ilustra a separação entre teoria e prática que se<br />

produziu ao longo dos tempos e chama a atenção para o que se revela quando o conhecimento<br />

se desvincula da realidade. “É sábio aquele que sabe usar o conhecimento para integrar a própria<br />

realidade... A arrogância epistêmica do cientista é o antônimo da sabedoria porque não tem<br />

senso de relatividade, senso de contingência, senso de delimitação” (Severino apud Fiorentini,<br />

1998, p. 312).<br />

valorar a experiência do professor como algo que pode se constituir em saber, e um saber<br />

da ação pedagógica à medida que se torna público é um dos desafios colocados à profissionalização<br />

docente. É certo que há que se ter presente os demais saberes que constituem o ofício de<br />

professor para não cair na armadilha de um único olhar. É preciso estar atento à complexidade<br />

que envolve o pensamento.<br />

Para Edgard Morin (2003), o pensamento complexo é aquele capaz de considerar todas<br />

as influências recebidas, não é linear, integra incertezas e contradições. Na visão da complexidade<br />

que envolve o saber docente surge a posição de autores que explicitam o saber docente<br />

como um “saber plural, formado pelo amálgama, mais ou menos coerente de saberes oriundos<br />

da formação profissional dos saberes, das disciplinas, dos currículos e da experiência” (Tardif;<br />

lessard; lahaye, 1991, p. 218).


EaD<br />

<strong>didática</strong><br />

Há que se reconhecer, no entanto, um perigo quando à experiência privada, que não dei-<br />

xa de ser de cunho pessoal e passa a ser norma para o fazer. Os julgamentos e jurisprudência<br />

particular põem em risco a qualidade desse fazer. Nem tudo o que se faz, o que se experiencia é<br />

válido. Nesse contexto é que se pensa na validação desses saberes via pesquisa, via reflexão, na<br />

perspectiva do reconhecimento daquilo que faz parte de fórum privado. É importante perceber,<br />

de antemão, que o que tem limitado o saber experiencial é exatamente o fato de que ele é feito<br />

de pressupostos e de argumentos que não são validados por meio da argumentação e do debate<br />

público (Gauthier, 1998, p. 33).<br />

Pensar as aprendizagens dos professores na experiência docente traz a possibilidade de<br />

pensar os processos de significação que vão ocorrendo na mediação da docência, que possibilita<br />

a constituição da identidade profissional.<br />

Sobre a constituição da identidade profissional Pimenta explicita:<br />

Uma identidade profissional se constrói, pois a partir da significação social da profissão, da revisão<br />

constante dos significados sociais da profissão, da revisão das tradições. Mas também da reafirmação<br />

das práticas consagradas culturalmente e que permanecem significativas. Práticas que resistem a<br />

inovações porque prenhes de saberes válidos às necessidades da realidade. Do confronto entre as<br />

teorias e as práticas, da análise sistemática das práticas a luz das teorias existentes, da construção de<br />

novas teorias. Constrói-se, também pelo significado que cada professor, enquanto ator autor, confere<br />

à atividade docente em seu cotidiano a partir de seus valores, de seu modo de situar-se no mundo, de<br />

sua história de vida, de suas representações de seus saberes, de suas angústias e anseios, do sentido<br />

que tem em sua vida o ser professor. Assim como a partir de sua rede de relações com os outros professores,<br />

nas escolas, nos sindicatos e em outros agrupamentos (1997, p. 67).<br />

É importante lembrarmos que somos o que somos na relação com os outros, portanto professores<br />

se constituem com seus pares, com seus alunos e pais em instituições escolares. Quando<br />

falamos em processos identitários temos que pensar nas pessoas que vivem a experiência em um<br />

determinado contexto e, mais especificamente, na gestão das instituições em que estes sujeitos<br />

se inserem.<br />

Faz diferença uma escola que tem como preocupação central uma gestão participativa que<br />

convoque os seus membros à reflexão de seus fazeres, direcionando compreensão do vivido em<br />

seu cotidiano. O saber da experiência provém da reflexão das práticas vividas no cotidiano docente.<br />

Neste sentido, cabe salientar a ênfase na formação continuada dos professores na medida<br />

em que possibilita espaço/tempos planejados para os professores pensarem sobre seus fazeres. A<br />

liberdade do professor sobre seu fazer e em sua maneira de ser e pensar a profissão, relaciona-se<br />

ao conhecimento que foi por ele constituído a respeito de sua realidade.<br />

37


EaD anna r. F. santiago – eronita s. Barcelos – eulalia B. Marin – Hedi M. luft – iselda s. Feil – lori M. Frantz – Maridalva B. Maldaner – solange c. M. rufino<br />

38<br />

Conforme Abdalla, “Quanto mais o professor foi tomando conhecimento de sua realidade,<br />

explicitando os seus valores, tanto mais ele foi tomando decisões, que o levaram a enfrentar e a<br />

superar os obstáculos que foram surgindo em sua prática” (2006, p. 85).<br />

A confrontação com a complexidade da situação profissional impulsiona os processos de<br />

significação, que redimensionam a atividade, impregnando de sentido cada ato, cada ação humana.<br />

Significando gestos, palavras ditas, olhares, perguntas, sensações que vão acontecendo<br />

na relação com os outros, com os materiais que circulam o fazer docente, as professoras vão<br />

estruturando sua atividade mental e constituindo autonomia.<br />

A reflexão dos acontecimentos da prática docente impulsiona, por exemplo, o conhecimento<br />

de si mesmo, de como se percebem, das coisas que sentem prazer em realizar, dos pontos fortes,<br />

do que é próprio ou não próprio para ser professor. O eu dos professores se altera na diversidade<br />

das experiências.<br />

Na experiência refletida os professores realizam perguntas e respostas, vão produzindo<br />

sentidos, que não são únicos, que não são definitivos, mas que estão em constante movimento<br />

na multiplicidade das realidades em que se engendram no tempo/espaço da formação.<br />

A reflexão das vivências que vão acontecendo no cotidiano docente constitui experiências<br />

e produz saberes como, por exemplo: no modo de compreender seus alunos, de como aprendem,<br />

de como se relacionam, de como aproveitar melhor o tempo de ensino, de como mobilizar sua<br />

atenção para o que deseja ensinar, do que significa ensinar e do porque ensinar, de como ter um<br />

bom relacionamento com seus alunos, o que necessita corrigir em sua prática.<br />

Também aprendem, em muitos casos, a conformação às regras do jogo instituídas nas<br />

relações da escola, acomodando-se ao que é mais fácil, menos desafiador e menos comprometedor.<br />

Escolher ser um “bom” professor passa pelos sentidos que vamos atribuindo pela reflexão<br />

do fazer docente na interação com os outros da educação e nas instituições educativas em que<br />

atuamos.<br />

O que temos observado na prática da profissão é que grande parte dos professores vive hoje<br />

movimentos significativos no sentido de se apropriar dos saberes próprios de seu ofício, conhecer<br />

a si mesmo para melhor interagir com os outros, constitui o sentido ético, o sentido humano, o<br />

sentido da dignidade, o sentido crítico, o sentido do compromisso e da responsabilidade com a<br />

educação pública, enfim, com a imprescindível identificação ao seu fazer de educador na complexidade<br />

da sua prática.


EaD<br />

Unidade 2<br />

conHeciMento e aPrendizageM:<br />

interdependência, Mediação e Processos de significação<br />

oBjetivos desta Unidade<br />

<strong>didática</strong><br />

• Considerar natureza e concepções de métodos, estratégias e saberes necessários à organi-<br />

zação e ao desenvolvimento do processo ensino-aprendizagem para que resultem em apropriação/<br />

significação de conhecimentos escolares.<br />

• Analisar criticamente o ensino e a aprendizagem como prática social e como processos<br />

interdependentes.<br />

a seção desta Unidade<br />

Seção 2.1 – Conhecimento e Aprendizagem: interdependência, mediação e processos de significação<br />

seção 2.1<br />

conhecimento e aprendizagem:<br />

interdependência, mediação e processos de significação<br />

Anna Rosa Fontella Santiago<br />

Eulália Beschorner Marin<br />

A tarefa que assumimos como desafio ao escolher a profissão de professor/a é, sem dúvida<br />

alguma, ensinar, e nesse ofício envidamos todos os nossos esforços em processos constantes de<br />

formação que nos envolvem em atividades de pesquisa, planejamento, organização e condução<br />

da educação escolarizada. Por que, então, muitas vezes nos frustramos ao final de uma aula bem<br />

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EaD anna r. F. santiago – eronita s. Barcelos – eulalia B. Marin – Hedi M. luft – iselda s. Feil – lori M. Frantz – Maridalva B. Maldaner – solange c. M. rufino<br />

planejada ao perceber que nossos alunos não aprendem, ou não estão interessados naquilo que<br />

queremos que eles aprendam? E se os alunos não aprendem podemos dizer que cumprimos com<br />

nossa tarefa de ensinar?<br />

Ensinar e aprender, indubitavelmente, são processos que, embora distintos, não se excluem<br />

e fazem parte da tarefa formal assumida pela educação escolar desde que a sociedade instituiu<br />

a escola como espaço responsável pela inserção dos homens na dinâmica da convivência e da<br />

participação social. É verdade que a educação, em sua dimensão mais ampla, não ocorre somente<br />

na escola, mas é nela que se espera que homens e mulheres aprendam, ou possam construir<br />

conhecimentos úteis e necessários ao convívio social.<br />

Segundo Sacristán “a espécie humana, constituída biologicamente como tal, elabora instrumentos,<br />

artefatos, costumes, normas, códigos de comunicação e convivência como mecanismos<br />

imprescindíveis para a sobrevivência dos grupos e da espécie” (1998, p. 13).<br />

É por meio desses códigos, artefatos, costumes e normas que interpretamos o mundo e<br />

construímos nossos saberes acerca da realidade que nos cerca; neles produzimos nossos gostos,<br />

sensibilidade e estética. É, também, no seio das linguagens ali produzidas, que tecemos os discursos<br />

que nos constituem, construindo estilos de vida, valores, representações e hierarquias que<br />

conformam a identidade cultural dos diversos grupos humanos. Em síntese, são esses códigos<br />

culturais que nos constituem como sujeitos históricos e, somente por meio deles, apreendemos<br />

a realidade e construímos significados para a nossa existência e ação no mundo social.<br />

Ainda nas palavras de Sacristán “posto que as aquisições adaptativas da espécie (....) não<br />

se fixam biologicamente nem se transmitem através da herança genética, os grupos humanos<br />

põem em andamento mecanismos e sistemas externos de transmissão para garantir a sobrevivência<br />

nas novas gerações de suas conquistas históricas” (1998).<br />

A esse processo de inserção das novas gerações nos significados culturais do grupo chamamos<br />

de socialização, e o mecanismo que o produz denominamos educação. Nas sociedades<br />

primitivas a educação ocorre de maneira natural e espontânea na convivência das crianças com os<br />

adultos e nos rituais da tribo, mas as sociedades complexas precisaram criar um lugar específico<br />

para o ensino e a aprendizagem dos conhecimentos historicamente produzidos: a escola.<br />

Assim sendo, as crianças vão à escola para aprender e os professores para ensinar. Ensinar<br />

e aprender o quê? E para quê? A complexificação da sociedade, o desenvolvimento da ciência,<br />

da tecnologia e dos meios de comunicação, no mundo globalizado da atualidade, impõem que a<br />

escola e os professores/as façam escolhas, posto que as diferenças (culturais, étnicas, religiosas,<br />

sociais...), que se tornam cada dia mais evidentes, exigem relativizar a utopia de Comênius de<br />

“ensinar tudo a todos”, ou reinterpretar o seu ideal à luz das condições contemporâneas.<br />

40


EaD<br />

Para fazer escolhas é importante que nós, professores, saibamos<br />

dar respostas a questões básicas que estão implicadas na tarefa de<br />

ensinar, tais como: O que significa conhecer? Como aprendemos?<br />

Qual conhecimento é necessário para a convivência na sociedade<br />

contemporânea? Certamente não existe uma única resposta para cada<br />

uma dessas perguntas, mas para impor coerência a nossa prática<br />

pedagógica precisamos assumir uma posição (teórica) sobre elas.<br />

conHeciMento, ensino e aPrendizageM<br />

Na sua dimensão epistemológica, o conhecimento tem sido<br />

definido como uma construção histórica, resultado e agregação de<br />

processos sociais, culturais e científicos que se organizam formando<br />

corpos teóricos para explicar a realidade. As teorias de aprendizagem<br />

mais recentes definem o ato de conhecer como um processo pessoal<br />

e interativo1 provocado pelas relações do sujeito com o meio, em cuja<br />

dinâmica se ressignificam as representações2 ou se ampliam conceitos<br />

prévios sobre a realidade em permanente construção/reconstrução<br />

subjetiva de símbolos, signos, imagens e valores.<br />

É esse processo de significação individual e coletiva – que<br />

ocorre como consequência de vivências e convivências no mundo –<br />

que chamamos de aprendizagem. Dessa concepção de conhecimento<br />

deriva uma visão de homem/sujeito, constituído pelas aprendizagens<br />

que ocorrem na esfera dos determinantes culturais, sociais e linguísticos<br />

e não fora, ou a partir deles.<br />

Se assim entendemos, podemos dizer que aprender é significar<br />

o mundo, desenvolvendo esquemas mentais em interações constantes<br />

com os saberes acumulados pela cultura e pela ciência. Tais esquemas<br />

mentais podem, também, ser chamados de conceitos que conduzem<br />

1 De acordo com o interacionismo, o conhecimento ocorre na ação recíproca de homem/meio na<br />

qual ambos se modificam.<br />

2 Usamos aqui a expressão “representação” na perspectiva conceitual usada por Stuat Hall e Giroux<br />

que a definem como “a forma pela qual o significado é construído através da localização, do<br />

posicionamento e da disposição do discurso”. Esses autores reconhecem na representação um<br />

lugar formativo e não apenas expressivo na construção da vida social e política. Assim sendo,<br />

subjetividade, identidade, política, cultura e ideologia constituem “os cenários da representação”<br />

que se formam no interior de códigos que têm uma história e uma posição no interior de formações<br />

discursivas de um tempo e lugar particulares. (Ver a esse respeito Giroux e McLaren 1995, p.<br />

149)<br />

Juan Amos Comênius<br />

<strong>didática</strong><br />

Educador nascido na Tchecoslováquia,<br />

em 1592, é considerado<br />

o precursor da Didática. Entre<br />

suas inúmeras obras a mais<br />

famosa foi a “Didáctica Magna”,<br />

publicada em 1636. Comênius<br />

acreditava que a esperança de um<br />

mundo melhor estava baseada<br />

na educação da juventude e,<br />

para tanto pregava que, à luz da<br />

racionalidade comum ao gênero<br />

humano, tudo o que pudesse ser<br />

ensinado deveria ser ensinado<br />

a todos, fossem homens ou<br />

mulheres, ricos ou pobres, num<br />

processo educativo que duraria a<br />

vida inteira. Para tanto, buscava<br />

um método que pudesse fazer o<br />

conhecimento acessível a todos,<br />

independentemente das aptidões<br />

individuais ou das classes<br />

sociais.<br />

Epistemologia<br />

Teoria do conhecimento.<br />

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as nossas ações, interações e práticas sociais. Desse modo, só podemos aprender colocando em<br />

diálogo as nossas representações ou conceitos prévios com informações novas, cujos sentidos<br />

estejam relacionados ao universo de significados da cultura, na qual estamos imersos.<br />

Assim sendo, o ensino põe em interação dialógica os saberes prévios do aprendente (significados<br />

culturais também chamados de senso comum) com informações (dados sobre a realidade<br />

ou saberes científicos) que, no processo pedagógico, se estruturam na forma de conceitos<br />

(esquemas mentais de representação significativa).<br />

São esses significados, produzidos pela interação entre elementos culturais, representações<br />

(veiculadas pelo senso comum ou pela mídia) e informações intencionalmente postas em<br />

discussão, que devem ser problematizados e ampliados no desenvolvimento do currículo escolar.<br />

Como sugerem, porém, Giroux e Mclaren (1995), para inserir o conteúdo no universo de<br />

representações simbólicas dos/as alunos/as não basta apenas usar “uma linguagem que imite ou<br />

parodie as tendências dezumanizantes da era da reprodução mecânica” (p. 148).<br />

É necessário questionar o conhecimento por dentro das práticas sociais e culturais expondo<br />

e reconstruindo os vínculos (sociais, políticos, históricos) entre os signos e as estruturas de<br />

representação, nas relações e tecnologias de poder que as sustentam. Estaremos, assim, historicizando<br />

o conhecimento e as tecnologias atuais de produção cultural para desvelar as formas<br />

como a própria cultura está inscrita em representações que a produzem e legitimam, justificando,<br />

muitas vezes, os processos de dominação e exclusão.<br />

Nessa perspectiva enfatizada pela pedagogia crítica, as representações e informações que<br />

constituem o conhecimento do cotidiano social não são objetivas, transparentes e definitivas, mas<br />

produzidas no âmbito das relações socioculturais em interações linguísticas e espaços discursivos<br />

permeados de contradições e rupturas. Daí porque qualquer representação é sempre provisória<br />

e parcial, passível de mudança, tornando legítima a intervenção pedagógica que provoca<br />

a desconstrução e a reconstrução de imagens e conceitos para historicizar e contextualizar as<br />

interpretações que se fazem da realidade.<br />

Ainda nas palavras de Giroux e Mclaren, “uma tal pedagogia reconhece que a formação<br />

de conceitos é moldada e determinada pelas formas que são inseparáveis dela e não pode ser<br />

caracterizada por uma universalidade meta-empírica que exista independentemente das contingências<br />

das relações diferenciais de poder e das particularidades sensuais da vida material”<br />

(1995, p. 148). Nesse reconhecimento consiste a dimensão política, séria e comprometida da<br />

educação reivindicada por Paulo Freire.<br />

sala de aUla:<br />

espaço e tempo para as interações e mediação nos conhecimentos<br />

Diante do complexo e desafiador compromisso que a escola assume na sociedade contemporânea,<br />

precisamos aprofundar nossa reflexão sobre o que ensinamos, buscando compreender<br />

os objetivos explícitos ou latentes nos conteúdos e procedimentos pedagógicos em sala de aula.<br />

42


EaD<br />

<strong>didática</strong><br />

De acordo com Sacristán e Gómez Peres (1998) “parece claro para todos os autores e correntes<br />

da sociologia da educação que o objetivo básico e prioritário da socialização do/as alunos/as na<br />

escola é prepará-los para sua incorporação no mundo do trabalho” (1998, p. 14).<br />

Se concebemos o homem como ser social que provê a sua existência por meio do trabalho e<br />

percebemos a escola como instituição que se fortalece na expansão do projeto de desenvolvimento<br />

da modernidade, com atribuições específicas desde o surgimento das sociedades industriais, 3 não<br />

há como negar essa evidência. É na escola que os indivíduos adquirem sua condição de cidadania<br />

e seu passaporte para o mundo do trabalho, cada vez mais exigente de qualificação.<br />

Isto nos leva a pensar que na base das questões metodológicas e teórico-epistemológicas,<br />

que julgamos fazer diferença nos procedimentos didáticos em sala de aula, estão as concepções<br />

sobre o que significa preparar para o mundo do trabalho, participar na sociedade, promover a<br />

igualdade e, principalmente, sobre o modo como se realiza esse processo no âmbito da escola.<br />

É na dinâmica do currículo em desenvolvimento na sala de aula, que se expressam os entendimentos<br />

acerca da realidade e da participação efetiva dos sujeitos individuais, dos grupos<br />

organizados e das instituições na construção e/ou transformação social. Daí porque a busca de<br />

alternativas pedagógicas para manter os alunos na escola – e, principalmente, aprendendo na<br />

interação da sala de aula – exige do professor não só a consideração das demandas sociais, a<br />

busca de atualidade nas informações e o respeito às diversidades culturais.<br />

Impõe, também, que se atente para os processos de apropriação significativa das informações<br />

(conteúdos) que elegemos para por em discussão na sala de aula, tendo em vista a formação de<br />

sujeitos que, hoje tendo acesso às tecnologias de comunicação, interagem constantemente com<br />

textos culturais4 de diversos matizes, intensamente veiculados pela mídia.<br />

Assim, paralelamente ao preparo para o mundo do trabalho, que exige conhecimento, criatividade<br />

e qualificação para a manipulação de tecnologias cada vez mais sofisticadas, o contexto<br />

atual requer uma prática pedagógica crítica e engajada numa nova perspectiva de socialização.<br />

Esta postura requer do professor, além da compreensão crítica das questões históricas que produzem<br />

a exclusão (escolar e social), competências <strong>didática</strong>s para a seleção organização e condução<br />

dos processos pedagógicos em sala de aula.<br />

Indubitavelmente, a crescente informatização e uso da tecnologia, na sociedade contemporânea,<br />

exigem uma nova configuração dos saberes naquilo que as orientações curriculares<br />

oficiais vêm chamando de currículo por competência. Segundo Macedo (2002) “os currículos por<br />

3 Ver a esse respeito: Fernandez Enguita, 1990.<br />

4 De acordo com Costa, (2003, p. 138) “a expressão textos culturais é utilizada para referir-se a uma variada e ampla gama de artefatos<br />

que nos ‘contam’ sobre si e sobre o contexto em que circulam e em que foram produzidos. Filmes, obras literárias, peças publicitárias,<br />

programas de rádio e TV, músicas, quadros, ilustrações, bem como livros didáticos, leis, manuais, provas e pareceres descritivos, ou<br />

mesmo um museu, um shopping center, um edifício, uma peça de vestuário ou de mobiliário, etc... são textos culturais”<br />

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competência têm surgido na interação com um mercado produtivo (...) onde propala-se uma educação<br />

que integre formação profissional ampla, mesclando competência técnica, organizacionais<br />

e sociais, a dimensões políticas, que possibilitem uma dimensão crítica da vida e das relações<br />

sociais” (in: lopes; Macedo, 2002, p. 135).<br />

Na perspectiva de uma pedagogia crítica e engajada nos problemas sociais da contemporaneidade,<br />

no entanto, há que se distinguir o desenvolvimento de competências individuais como<br />

forma de resposta ao mercado produtivo, da “eficiência social” que paralelamente à adequação<br />

ao mercado de trabalho “tem como horizonte o desenvolvimento de toda a sociedade, tratando<br />

a educação como um bem público” (Macedo, in lopes; Macedo, 2002, p. 135).<br />

Nesse entendimento, a competência pedagógica do professor nas diferentes especificidades<br />

do conhecimento por ele trabalhadas requer não apenas o domínio de informações, leis e teorias<br />

acumuladas pela ciência, mas também, habilidades (técnica, social e política) para encaminhar,<br />

na sala de aula, o uso socialmente útil do conhecimento, em atitudes coerentes com os princípios<br />

da convivência cidadã, do respeito ao meio ambiente e da participação política.<br />

Daí porque os conteúdos curriculares não podem limitar-se às tradicionais informações<br />

que constituem um corpo de conhecimentos científicos. Tais informações precisam revestir-se<br />

de uma estrutura ética e de um arcabouço metodológico coerente com as formas culturais de<br />

significação para que se incorporem como construção subjetiva de conhecimentos que interagem<br />

nas relações e práticas sociais.<br />

Ao estruturarem-se didaticamente em várias dimensões (informações, habilidades, conceitos<br />

teóricos) metodologicamente organizadas para a interação pedagógica em sala de aula, os conteúdos<br />

curriculares constituem-se como uma totalidade dinâmica que é apreendida no processo<br />

de aprendizagem, provocando mudanças pessoais que se refletem em atitudes sociais.<br />

É precisamente nesse âmbito de transformação que se espera os efeitos da aprendizagem<br />

humana na sala de aula. Para que essa apreensão/aprendizagem transformadora ocorra, os processos<br />

pedagógicos precisam estar profundamente enraizados na cultura, incorporando significados<br />

que possam expandir o saber que ali se produz à dimensão do “conhecimento científico”,<br />

na mediação pedagógica das práticas escolares.<br />

É nessa mediação pedagógica que se expressa a prática docente como uma totalidade que<br />

enreda os conteúdos a serem ensinados em várias dimensões: a) informativa, trazendo dados<br />

novos sobre a realidade; b) procedimental, na medida em que uma informação é apreendida<br />

por meio de formas específicas de comunicação (metodologias) que não estão referidas apenas<br />

ao método como “passos formais”, mas também a processos valorativos de origem cultural ou<br />

44


EaD<br />

<strong>didática</strong><br />

política; c) e atitudinais pois toda aprendizagem produz modificações seja no modo de ver a<br />

realidade, seja na forma de operar com o conhecimento ou de valorar situações, expressando-se<br />

em atitudes assumidas pelo sujeito, no seu convívio social. 5<br />

Desse modo, procedimentos e atitudes permeiam as informações elencadas como conteúdo<br />

nas relações interativas da sala de aula, a começar pela sua seleção para continuar na sua<br />

organização didático-metodológica e no desenvolvimento do processo de ensino, visando a sua<br />

ressignificação subjetiva na forma de aprendizagens que se expressarão nas práticas sociais e<br />

identitárias na esfera cultural.<br />

As habilidades e competências que se deseja desenvolver nessa perspectiva de desenvolvimento<br />

cultural e social, não serão vistas como mero treinamento técnico para a execução de<br />

tarefas, e sim como promoção de capacidades criativas que são construídas na articulação do<br />

conhecimento com a prática social.<br />

Assim sendo, o desenvolvimento de habilidades supõe, também, uma dupla dimensão: o<br />

processo técnico de saber fazer e a capacidade autônoma de estabelecer relações conceituais<br />

expressando-se na competência para... Exemplificando, poderíamos dizer que uma criança, na<br />

fase inicial da alfabetização, pode já estar dominando o conceito de escrita como representação<br />

da fala; usando razoavelmente o processo técnico de articulação de sons, letras, sílabas, palavras,<br />

mas não possuir, ainda, habilidades de leitura que lhe permitam ler com fluência e entonação,<br />

respeitando a pontuação, ou mesmo para interpretar o texto e opinar sobre ele.<br />

É nesse sentido que se espera da mediação pedagógica em sala de aula o auxílio ao educando,<br />

tanto na construção de conceitos que lhe permitam dizer que aprendeu algo novo quanto<br />

no desenvolvimento de habilidades (cognitivas, motoras e sociais) que facilitem a incorporação<br />

do entendimento à ação, produzindo as mudanças de atitude que se espera como resultado da<br />

aprendizagem.<br />

5 Para saber mais a esse respeito você pode consultar: Coll; Pozo (1995).<br />

45


EaD<br />

Unidade 3<br />

PlanejaMento didático:<br />

elementos constitutivos e Práticas na área de Formação docente<br />

oBjetivos desta Unidade<br />

<strong>didática</strong><br />

• Entender o planejamento como articulação de diferentes dimensões que possibilitam<br />

a atuação docente com intencionalidade e autonomia, abordando o planejamento da aula na<br />

dimensão colaborativa entre alunos e professores.<br />

a seção desta Unidade<br />

Seção 3.1 – Planejamento Educacional: razões, sentidos e práticas<br />

seção 3.1<br />

Planejamento educacional: razões, sentidos e práticas<br />

Iselda Sausen Feil<br />

Solange Catarina Manzoni Rufino<br />

O componente curricular Didática tem, entre outros, o objetivo de proporcionar a refle-<br />

xão de questões relacionadas à formação do professor, bem como oportunizar a construção de<br />

alternativas pedagógicas de atuação profissional. Muitos são os desafios para nós professores<br />

desenvolvermos com autonomia a nossa ação educativa e um deles é, sem dúvida, a capacidade<br />

de planejá-la.<br />

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Ao planejarmos explicitamos ou legitimamos nossa representação/concepção de mundo,<br />

e, consequentemente, de educação. São nossas utopias, sonhos e desejos que nos impulsionam<br />

por uma direção, pois só ensinamos, conforme Forquin (1993), aquilo que tiver, ao nosso próprio<br />

olhar, valor formador (só ensinamos aquilo a que conseguimos atribuir sentido). Não conseguimos,<br />

pelo menos por muito tempo, pensar de uma forma e educar de outra.<br />

O nosso convite neste texto é o de refletirmos sobre o quanto o planejamento da ação<br />

educativa pode se reverter de importância no âmbito da educação formal a partir das escolhas<br />

teóricas e valorativas que fazemos, principalmente quando entendido como o agir-refletir para<br />

um novo agir com vontade e intencionalidade.<br />

É a paixão pelo que acreditamos importante fazer, pelo que vale a pena lutar e com quem<br />

e para quem fazemos que dá sentido a nossa prática e nesse contexto significar o planejamento<br />

como possibilidade de concretização e continuidade de projetos e processos educativos é elemento<br />

constitutivo da formação de professor(a).<br />

ProdUzir entendiMentos soBre o PlanejaMento no caMPo da edUcação escolar<br />

reMete a MúltiPlos qUestionaMentos, tais coMo:<br />

• Que significados atribuiu-se ao planejamento educacional na história da educação, nos aportes<br />

teóricos e nas práticas daqueles que o constituem como experiência pedagógica?<br />

• Que razões motivam o estudo do tema planejamento no contexto da formação acadêmica para<br />

a profissão de professor?<br />

• Por quais caminhos seguir no processo de efetivar o planejamento a fim de produzir encaminhamentos<br />

que respondam às demandas de uma educação de qualidade social no tempo<br />

presente?<br />

• Como fazer o planejamento educacional, e mais especificamente o planejamento de ensino,<br />

que possibilite a religação/integração dos conhecimentos/saberes e que mobilize as condições<br />

para a apropriação de conhecimentos significativos?<br />

Entendemos que questões desta natureza integram os conteúdos de formação docente e<br />

compreendê-las nos permitem formular concepções a respeito deste tema, de modo a possibilitar<br />

a cada um de nós a constituição de sentidos ao que já se apresenta como teorias de planejamento<br />

educacional.<br />

Planejar é iMPortante...<br />

O planejamento é importante em todas as profissões, embora para algumas com mais intensidade<br />

que outras, como na profissão de professor. Na profissão do professor o planejamento<br />

adquire extrema importância, pois o professor, como sujeito de conhecimento e pertencente a


EaD<br />

<strong>didática</strong><br />

uma cultura, interage com pessoas situadas em espaços e tempos diferentes e pertencentes a<br />

outras culturas e que trazem diversificadas expectativas de formação. O planejamento vem pos-<br />

sibilitar a interlocução das diferentes finalidades na perspectiva da concretização de um projeto<br />

educativo.<br />

vocês perceberam que o professor é o único profissional legitimamente instituído como<br />

responsável pela qualidade de vida de outras pessoas por meio da educação?<br />

resistências...<br />

É recorrente ouvirmos que há professores que não planejam, afirmando não ser isto ne-<br />

cessário e importante, pois já têm experiência suficiente para precisar planejar ou porque os<br />

significados constituídos historicamente para explicar o planejamento não resultaram para eles<br />

em significado próprio no contexto de suas práticas.<br />

A resistência provém, em muitas situações, do que se produziu como resultado dos pla-<br />

nejamentos a nível macro no campo da educação expresso como políticas públicas formuladas<br />

sem a participação popular, não concretizando a tão propalada democracia. Os professores não<br />

se sentiam engajados nem comprometidos por não terem sido convidados e nem sensibilizados<br />

a protagonizar projetos de educação.<br />

Pesquisas neste campo indicam que ao se interrogar professores sobre o significado do<br />

planejamento constata-se que o ato de planejar é negado no discurso de muitos deles. Sandra<br />

Corazza, referindo-se a respostas de professores obtidas em uma pesquisa sobre este tema<br />

identifica que as professoras negam o planejamento em suas práticas e analisa as razões que<br />

justificam tal descrédito: “(...) De onde estas professoras poderiam tirar outras significações acer-<br />

ca do planejamento de ensino, se tais formas foram/são hegemônicas no discurso pedagógico<br />

moderno?” (2001, p. 109).<br />

E ainda, por que os professores deveriam crer no planejamento se desde a sua gênese locali-<br />

zada nos saberes e nas práticas econômicas, comerciais e industriais, este serviu para aprofundar<br />

ainda mais as desigualdades sociais, condição esta refletida fortemente na educação escolar? O<br />

que se evidenciou na prática do planejamento nas instituições educativas, principalmente nos<br />

anos 1970/1990, caracterizou-se por modelos e práticas burocráticas enfatizando técnicas de<br />

procedimentos e padronizações, as quais pouco contribuíram para elevar a qualidade da ação<br />

pedagógica desenvolvida no âmbito escolar.<br />

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Se o planejamento efetivamente era proposto como uma ferramenta burocrática e de con-<br />

trole externo aos projetos escolares, parece que esta resistência teve suas razões num tempo<br />

histórico, num projeto de nação e nas políticas de formação vigentes. Esta, porém, não é uma<br />

verdade sacralizada, devendo ser superada com os novos contextos que se avistam.<br />

novos signiFicados... novas razÕes...<br />

Em referência a estas constatações consideramos significativo que na formação de professores<br />

se constituam novos significados e sentidos ao planejamento educacional e mais especificamente<br />

ao planejamento dos processos educativos a partir de escolhas culturais expressas nos<br />

currículos escolares, currículos estes que respondam e acolham a pluralidade de vozes que emanam<br />

da diversidade cultural dos diferentes grupos sociais que acessam as escolas especialmente<br />

como refere Santomé (1998, p. 131), “As culturas e as vozes dos grupos sociais minoritários e/ou<br />

marginalizados, que não dispõem de estruturas importantes de poder, costumam ser silenciadas,<br />

ou mesmo estereotipadas e deformadas para anular suas possibilidades de reação”.<br />

Inúmeras razões podem constituir sentidos ao planejamento educacional tanto na esfera<br />

macro de definições mais amplas quanto no micro espaço, como é o caso dos planejamentos de<br />

ensino no contexto escolar. Em se tratando do planejamento educacional no âmbito global temos<br />

como exemplo o Plano Nacional de Educação (PNE), que abrange todos os aspectos concernentes<br />

à organização da educação nacional.<br />

Neste plano busca-se garantir que as linhas mestras que configuram a educação nacional<br />

sejam efetivamente cumpridas e postas ao alcance de todos, uma vez que vivemos em uma<br />

sociedade instituída como democrática. O planejamento macro define os princípios, diretrizes,<br />

parâmetros e as finalidades que se quer alcançar em âmbito nacional na perspectiva da unidade<br />

pautada nos princípios da Republica, como: a igualdade de condições de acesso e permanência<br />

na escola, liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura o pensamento, a arte e o<br />

saber; pluralismo de ideias e concepções pedagógicas; respeito à liberdade e apreço à tolerância;<br />

gratuidade do ensino; valorização do profissional da educação; gestão democrática do ensino;<br />

garantia do padrão de qualidade; valorização da experiência extraescolar e vinculação entre a<br />

educação escolar, o trabalho e as práticas sociais (lDB 9.394/96).<br />

O planejamento nas esferas estadual e municipal vai ao encontro da política de descentralização<br />

do poder e do respeito às diversidades regionais e locais. Os Estados da Federação,<br />

seus municípios, os bairros, as vilas, as escolas, as turmas, os sujeitos de cada local terão de ser<br />

considerados em suas diferenças culturais, sociais e econômicas e isto faz parte de processos do<br />

planejamento educacional nos seus diferentes níveis e modalidades de ensino.


EaD<br />

<strong>didática</strong><br />

Na busca de sentidos que respondam ao porquê se faz importante planejar chamamos a<br />

atenção para a responsabilidade social que nós professores temos na construção de uma sociedade<br />

pautada para o que é mais razoável ao bem comum. E, por ser assim, faz-se cada vez mais<br />

inclusiva em todos os aspectos da vida, também mais democrática e mais humana.<br />

Temos ainda a responsabilidade com estudantes de todas as idades e com seus pais, que<br />

esperam da escola bem mais do que saber conteúdos das diferentes áreas do conhecimento. Esperam<br />

(mesmo que não tenham clareza sobre isto) que a escola, seus gestores, seus professores,<br />

os ajudem a aprender a viver, a desenvolver sua humanidade, a se constituírem cidadãos e que<br />

os saberes que aprendem ali possam significar algo em algum tempo e lugar em suas vidas.<br />

Outra razão que dá sentido e justifica o planejamento diz respeito à racionalização de meios<br />

para que possamos potencializar as condições existentes em cada instância de decisão.Também<br />

é importante lembrar que o planejamento enquanto teoria pedagógica fundamenta um modo<br />

especializado de realizar nossos projetos e no desenvolvimento de um processo de planejamento<br />

vamos constituindo saberes que nos possibilitam um constante repensar e direcionam a profissionalização<br />

da docência a partir dos conhecimentos construídos para este fim.<br />

Dentre os motivos de se valorizar o ato de planejar, de configurar planos, encontram-se<br />

também os sentidos que atribuímos aos nossos fazeres e ao lugar social por nós ocupado. Na<br />

profissão de professor, como em qualquer outra, muitos são os caminhos que podemos seguir<br />

e as escolhas são pautadas especialmente pelas crenças, valores e conhecimentos que fomos<br />

constituindo ao longo de nossas vidas.<br />

Neste contexto o planejamento no âmbito da educação é elemento constitutivo da formação<br />

acadêmica. A nossa aposta é de que ao realizar a sua formação para exercer a profissão de professor<br />

o acadêmico esteja optando pelo magistério pela possibilidade de coletivamente construir<br />

uma nova cultura escolar.<br />

A sociedade brasileira, e principalmente as nossas crianças, adolescentes e jovens, estão<br />

necessitando professores que veem neles a razão do seu fazer pedagógico e que assumam o seu<br />

trabalho na possibilidade da emergência de uma nova ética, uma nova cultura escolar. Uma cultura<br />

escolar em que os estudantes sejam protagonistas de sua formação, sintam-se convidados<br />

a participar como atores sociais de toda ação educativa e que sua voz esteja representada e seja<br />

reconhecida. A cultura e a história dos estudantes precisam ser referências da ação educativa.<br />

Por qUe Planejar a edUcação escolar?<br />

Sandra Corazza, ao explicitar razões que justificam porque planejar, argumenta ser o<br />

plano curricular uma forma contra-hegemônica de pedagogia, por meio da qual selecionamos<br />

e organizamos objetos de estudo, experiências, linguagens, práticas, vozes, narrativas, relações<br />

sociais e identidades (2001, p. 18).<br />

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52<br />

Outra razão que sustenta a pertinência de se planejar é para, intencionalmente, ter autoria<br />

na construção das práticas educativas e para que a multiplicidade de culturas implicadas em<br />

nossas identidades e nas de nossos estudantes possam se transformar em materiais curriculares,<br />

codificados em temas de estudo.<br />

Além disso, é necessário planejar porque dentre os objetivos da escola encontra-se a busca<br />

de humanizar as pessoas, aprender a viver, constituir a cidadania planetária e a promover o<br />

aprendizado coletivo das possibilidades da vida, e é aí que as várias dimensões da vida podem<br />

ser trabalhadas pedagogicamente.<br />

Por sermos seres de mediação, ou seja, só nos constituímos humanos porque interagimos<br />

com outros humanos, a escola tem o papel de proporcionar este processo de humanização. Este<br />

não ocorre isoladamente, uma vez que todo o processo de aprendizagem é plural, e não descolado<br />

do processo/construção que as pessoas já possuem, pois todos são sujeitos de conhecimento<br />

e cultura.<br />

É por isso que nós professores precisamos ter um profundo conhecimento da história de<br />

nossos estudantes para que a leitura destas histórias se constitua, como afirmamos anteriormente,<br />

referência na organização e planejamento das nossas atividades educativas. Paulo Freire sempre<br />

defendeu que o ponto de partida da ação educativa é o ponto de vista dos alunos: aquilo que o<br />

aluno manifesta a partir de sua autonomia, em diálogo com seus colegas mediado pelo professor,<br />

é o princípio do ato de planejar, que é o de articular, na sala de aula, a vida das pessoas, suas<br />

práticas sociais com os conhecimentos acumulados pela humanidade.<br />

Esta história de que só a escola ensina e que as crianças e adolescentes, ao virem para<br />

a escola, pouco ou nada sabem, já é coisa do passado. Com o surgimento de novas pesquisas<br />

e teorizações, as pessoas são vistas como sujeitos de direitos, de desejos e de conhecimento e<br />

produtores de cultura.<br />

Todos somos sujeitos sociais e somos produtos de cultura (nos constituímos pela interação<br />

com o outro, com o meio, com condições de vida...). Isto parece que já está bastante evidenciado,<br />

mas além de sermos produtos de culturas, também somos seus produtores, ou seja, assim como<br />

as pessoas e os meios interferem na nossa constituição, também, reciprocamente, interferimos<br />

na vida dos outros.<br />

É isto que a escola precisa promover: a interlocução entre as diferentes culturas no sentido<br />

de construir novos sentidos ao que se realiza em seu interior e na sociedade em geral. Esta<br />

interlocução só se faz possível quando há um envolvimento, uma mobilização de todos em torno<br />

de um planejamento participativo e colaborativo, rompendo com o reducionismo conteudista e<br />

com as fronteiras entre modalidades e níveis de ensino, reafirmando a ideia de que as pessoas<br />

aprendem quando se tornam sujeitos de sua aprendizagem.


EaD<br />

<strong>didática</strong><br />

E, para ele se tornar sujeito de sua aprendizagem, ele precisa participar das decisões que dizem respeito<br />

ao projeto da escola, projeto esse inserido no projeto de vida do próprio aluno. Não há educação e<br />

aprendizagem sem sujeito da educação e da aprendizagem. A participação pertence à própria natureza<br />

do ato pedagógico (Gadotti; Romão, 2004, p. 66).<br />

o ProtagonisMo no PlanejaMento...<br />

E apostando na efetivação de um processo de planejamento participativo, estamos mantendo<br />

esta interlocução por intermédio deste texto. O objetivo é o de desafiá-lo para que, já no<br />

seu processo de formação inicial para ser professor, você se coloque como sujeito de autoria;<br />

alguém capaz de ser propositivo; ver neste texto uma provocação para analisá-lo e construir suas<br />

próprias significações, fazer da formação uma experiência que vale a pena viver pelo que pode<br />

significar tanto em sua dimensão pessoal quanto profissional.<br />

Há um educador chamado Snyders (1988) que diz (mais ou menos assim): que a prática<br />

educativa que vale a pena é aquela que acende a chama da alegria cultural da escola. O autor<br />

defende, e nós concordamos com ele, que a escola é, ou pode ser, um espaço para cultivar a alegria,<br />

ligado aos campos específicos da cultura e do conhecimento. Paulo Freire também opinava<br />

sobre educação que vale a pena. Ele afirmava que a educação que vale a pena é aquela que<br />

ajuda as pessoas a serem mais gente.<br />

Tanto Snyders quanto Paulo Freire defendem que isto se torna viável na medida em que<br />

este processo seja fruto de um planejamento coletivo e/ou participativo, ou ainda, como expressa<br />

Gadotti, de um “planejamento socializado” que tenha como base as experiências de todos os<br />

sujeitos envolvidos para a organização de nova ação educativa, tendo suas histórias, sua realidade<br />

como ponto de referência, mas sempre em busca de novos sentidos à educação escolar que<br />

contribuem para o encantamento do cotidiano da sala de aula por meio da “<strong>didática</strong>” que saiba<br />

unir processos vitais a processos cognitivos.<br />

Concebemos nesta perspectiva o planejamento como sendo um ato intencional de construção<br />

de novos significados e sentidos. Em razão disso queremos mediar teorias, experiências,<br />

permitindo-lhes compreender o planejamento em suas dimensões e possibilidades no sentido<br />

de poderem viver sua experiência particular (embora mediada) de planejamento e construir de<br />

forma compartilhada com seus estudantes, sejam crianças, adolescentes, jovens e até mesmo<br />

adultos, formas e alternativas que realmente sejam frutos de suas perguntas, demandas, desejos<br />

e que contribuam para o fortalecimento de sua cultura e sua história.<br />

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54<br />

vocês perceberam que escrevemos planejar com os alunos? Isto não é uma novidade para<br />

vocês? Seus professores, durante seu processo de escolarização, planejaram para e com vocês,<br />

ou apenas para (ou até além de) vocês?<br />

você se leMBra da sUa vida escolar? coMo Foi a trajetória?<br />

Sonia Krammer afirma que o professor, como mediador, precisa se perguntar que criança<br />

ou adolescente foi, para ver que visão de infância/adolescência existe dentro dele, e acrescenta:<br />

“de certa maneira, a gente tem que se apropriar da nossa própria história e entender que criança<br />

(adolescente) eu fui para, a partir daí, saber que tipo de criança (ou adolescente) eu gostaria de<br />

formar” (entrevista dada à Revista Criança, 2007). Com esta afirmação Krammer já aponta para<br />

um dos momentos importantes do planejamento: refletir sobre seu processo de escolaridade para<br />

melhor poder entender/conduzir o seu trabalho como professor.<br />

o qUe é MesMo PlanejaMento?<br />

Com certeza já explicitamos a nossa concepção de planejamento, mas como se sabe, nem<br />

todos o concebem da forma como vimos até aqui discutindo. O planejamento durante toda a história<br />

educacional passou por várias concepções e, consequentemente, por várias significações.<br />

A cada mudança de paradigma de conhecimento, educação e ensino, o planejamento assume<br />

outra dimensão. E mesmo aqueles pesquisadores que se fundamentam em paradigmas/teorias<br />

semelhantes, elaboram conceitos diferentes. Assim, vejamos alguns conceitos, de autores diversos<br />

que, embora diferentes, se articulam, se baseiam e complementam um ao outro:<br />

• Planejar é pensar a ação antes, durante e depois... É preparar tudo muito bem, acompanhar<br />

com o mesmo cuidado a realização das ações e tirar lições do ocorrido (Ferreira, 1985, p. 20).<br />

• É transformar a realidade numa direção escolhida; é instituir um processo de intervenção na<br />

realidade, é explicitar os fundamentos da ação de um grupo, é realizar um conjunto de técnicas<br />

para racionalizar a ação, é realizar um conjunto de ações propostas para aproximar uma<br />

realidade de um ideal (Gandin, 1985, p. 18).<br />

• É sempre um processo de reflexão, de tomada de decisão sobre a ação; processo de previsão<br />

das necessidades e racionalização de emprego de meios (materiais) e recursos (humanos) disponíveis,<br />

visando à concretização de objetivos, em prazos determinados e etapas definidas, a<br />

partir dos resultados das avaliações (Padilha, 2001, p. 30).


EaD<br />

<strong>didática</strong><br />

• Planejar em sentido amplo é responder a um problema, isto é, estabelecer fins e meios que<br />

apontem para a sua superação, visando a atingir objetivos antes previstos, pensando e prevendo,<br />

necessariamente, o futuro, mas sem desconsiderar as condições do presente e as experiências<br />

do passado, levando-se em conta o contexto e os pressupostos filosóficos, culturais e políticos<br />

de quem, com quem e para quem se planeja. (Gadotti; Romão, 2004, p. 81).<br />

Podemos ainda afirmar, resumidamente, que planejamento é a organização (de forma<br />

intencional) da ação humana. É pensar antes de agir – é uma forma que as pessoas utilizam<br />

para, com o menor risco possível, concretizar seus objetivos. O planejamento é uma atividade<br />

essencialmente humana. Somente os seres humanos são capazes de antever uma ação antes de<br />

realizá-la. Na educação se constitui como um mapa da realidade; processo de tomadas de decisão<br />

sobre a ação educativa. Estabelece um rumo, uma direção, um sentido explícito e a forma<br />

de como operacionalizar.<br />

Planejar é toMar decisÕes soBre o Fazer. então a PergUnta:<br />

quais as decisões necessárias para garantir o fazer da escola?<br />

vejamos um episódio:<br />

Uma jovem professora é nomeada por órgão competente para assumir sua função em uma<br />

escola da periferia de sua cidade. É um sonho, um projeto de vida e de carreira profissional que<br />

se inicia. Sua expectativa inicial vem carregada de preocupações relativas ao dar conta do que é<br />

demandado ao professor referenciado nos conhecimentos formulados ao longo de sua formação<br />

acadêmica. O que encontra? Uma escola com sua organização e cultura institucional que lhe é<br />

desconhecida, estudantes na sua maioria jovens, com vivências culturais diversas. Escuta de seus<br />

recém nomeados colegas professores que tome cuidado com o modo como vai se relacionar com<br />

seus alunos, pois eles estão muito diferentes e podem se tornar uma ameaça a sua iniciação profissional.<br />

Observa a grade de horários e a carga horária de seu componente curricular e constata<br />

que são duas horas semanais de aula e pensa: Como vou ensinar tudo que é importante com tão<br />

pouco tempo de aula? vê o espaço físico da escola e percebe que este é pobre, malcuidado e com<br />

poucos recursos tecnológicos. Fica sabendo também que as famílias de seus alunos vivem com<br />

muitas dificuldades econômicas, que não participam da escola e enfrentam muitos problemas<br />

para educar seus filhos. Esta é uma realidade que se configura no iniciar de uma professora?<br />

O que pode significar o planejamento neste contexto? Em que medida o planejamento<br />

educacional constitui-se possibilidade para a ressignificação de pré-conceitos e caminho de<br />

novas práticas? Retornando ao episódio referido e considerando o planejamento o agir/refletir<br />

na perspectiva de construir novos significados e sentidos.<br />

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O planejamento geralmente envolve decisões. Os professores podem situar-se como atores<br />

de diversas decisões, que vão desde a participação efetiva na construção do projeto educativo<br />

da escola em que atuam até decisões relativas ao seu próprio fazer docente no contexto da sala<br />

de aula.<br />

Cecília Meirelles, em seu poema “Ou isto ou aquilo”, serve de inspiração para pensarmos<br />

o planejamento como um processo feito de escolhas. Observamos no episódio que há muito que<br />

decidir e escolher na educação escolar. Estamos quase sempre tomando decisões, tais como:<br />

decidimos os tempos de aula, o horário que vamos formular para as mesmas, que pode levar<br />

em conta apenas os interesses dos professores ou considerar o que é melhor também para os<br />

alunos; desenvolvemos a avaliação na perspectiva classificatória ou na perspectiva mediadora<br />

e democrática; trabalhamos para a memorização das informações ou para a significação dos<br />

conhecimentos; abrimos espaços para a participação da comunidade escolar ou centralizamos<br />

as decisões na equipe diretiva.<br />

• Em que aplicar melhor os recursos que dispomos: na compra de livros ou em viagens de estudo?<br />

O que precisamos priorizar?<br />

• Quais conteúdos são relevantes na formação dos sujeitos? Que valores queremos pautar, que<br />

caminhos escolher para atingir os objetivos desejados?<br />

• Como fazer a revisão curricular de modo que haja uma maior participação de todos os envolvidos<br />

com a educação na escola? Como mobilizar a atenção dos alunos para o que desejamos<br />

lhes ensinar?<br />

• Qual estratégia de ensino pode garantir a aprendizagem dos conteúdos de ensino, das habilidades<br />

e valores?<br />

• Como trabalhar as relações interpessoais na escola?<br />

Este conjunto de questões é uma amostra de como temos de tomar decisões planejadas<br />

na escola, são os caminhos escolhidos no processo que vão configurando um projeto educativo<br />

que assume referencial e práticas mais ou menos inclusivas e democráticas ou autoritárias e<br />

excludentes.<br />

É importante lembrar que a escola é uma instituição social e tem sua existência relacionada<br />

aos sujeitos que nela vivem e/ou influenciam e com a ingerência das políticas que a instituem em<br />

sua finalidade social de educar. Em razão disso a escola nunca está pronta, ela é sempre um devir.<br />

É no espaço de sua incompletude que os professores, os alunos, os pais e outros atores sociais<br />

podem intervir para buscar qualificá-la de modo a responder às demandas sociais em cada tempo<br />

e lugar e o planejamento é o modo como esta intervenção se faz sistemática, rigorosa e científica.<br />

Nesta perspectiva, a escola que se utiliza do planejamento estratégico tem mais possibilidades<br />

de concretizar seus projetos, embora este não seja por si só uma garantia de sucesso.


EaD<br />

MUitas são as deMandas...<br />

<strong>didática</strong><br />

Observamos então que muito é demandado em termos de planejamento na escola. A partir<br />

do conhecimento das realidades que a constituem identifica-se em cada tempo o que é necessário<br />

para que o projeto educativo avance em qualidade social.<br />

Atualmente, no coletivo de muitas escolas estão sendo debatidas/refletidas as finalidades<br />

educativas traduzidas por uma filosofia de escola e os objetivos que orientam suas escolhas curriculares,<br />

bem como de sua organização didático-pedagógica, dando-lhes unidade e identidade<br />

próprias.<br />

Há outras escolas, no entanto, nas quais esta prática ainda não se constitui numa cultura<br />

do coletivo e neste contexto identificamos que as experiências de planejamento curricular necessitam<br />

avançar tanto nas concepções quanto nas formas de organização e que esta é uma aposta<br />

que se faz nas gerações dos professores que constituíram em sua formação acadêmicas novos<br />

entendimentos capazes de serem propositivos ante as mudanças que se fazem necessárias na<br />

escola contemporânea.<br />

Quando pensamos no caso da professora anteriormente mencionada e na experiência<br />

profissional dos professores em relação ao planejamento escolar entendemos que planejar se<br />

faz imprescindível pelas razões já abordadas, mas também porque como sujeitos de um coletivo<br />

necessitamos efetivamente inserir-nos neste. Por certo cabe aos gestores escolares possibilitar que<br />

a integração dos sujeitos se efetive, mas também cada sujeito deve realizar o que lhe compete,<br />

ou seja, fazer a sua parte, mostrar a que veio e o que lhe é próprio.<br />

Assim os professores quando assumem seu lugar na escola necessitam mostrar interesse em<br />

conhecê-la, seu projeto, buscar conhecer a sua cultura organizacional, as suas regras, os recursos<br />

tecnológicos disponíveis, os espaços, os setores da escola e seu funcionamento e, especialmente,<br />

conhecer os sujeitos/estudantes com os quais vão interagir.<br />

Planeja MesMo é qUeM Faz...<br />

lembrando o que Ferreira sabiamente já escreveu: “Quem planeja mesmo é quem faz. O<br />

planejamento precisa ficar a serviço de quem está fazendo” (1979, p. 251). A autoria do professor é<br />

relevante para a constituição da experiência pedagógica, para o pensar sobre as questões que afetam<br />

seu fazer docente direta ou indiretamente e é relevante para uma atuação consequente.<br />

Entendemos que uma postura adequada dos professores diz respeito ao envolver-se na<br />

construção da escola, de seu projeto educativo, participando nos fóruns que a constituem, atuar<br />

manifestando opiniões, no engajamento nas atividades escolares, na busca de alternativas aos<br />

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problemas encontrados, na busca de soluções criativas em seu fazer docente, na disponibilidade<br />

em discutir questões complexas e polêmicas, na sensibilidade ao se relacionar com as pessoas,<br />

na capacidade de se mover diante dos conflitos e tensões que são inevitáveis quando interagimos<br />

com diferentes sujeitos.<br />

... sendo assiM, traBalHar na escola é MUito coMPlexo.<br />

vale a Pena assUMir todos estes desaFios?<br />

58<br />

A complexidade demandada no contexto escolar não pode ser tomada pelo educador que<br />

chega à escola como fator desestimulante, mas sim como elemento desafiador para a reconstrução<br />

do que está supostamente posto, para reencantar a escola e seus projetos, bem como constituir-se<br />

em espaço/tempo de formação de seres humanos mais capazes, politicamente engajados na construção<br />

de um mundo mais feliz: há de se garantir que possibilidades de transformação sempre<br />

existem.<br />

As escolas públicas brasileiras gozam de relativa autonomia pedagógica, financeira e<br />

administrativa, podendo em seu contexto tomar algumas decisões, tais como: explicitar a sua<br />

proposta e organização curricular, as metodologias de ensino, o seu sistema de avaliação, as<br />

regras de convivência, decidir sobre a aplicação de recursos que lhes são destinados, tudo isto<br />

em consonância com a legislação e parâmetros curriculares nacionais.<br />

Estas possibilidades de decisão e participação dos professores e demais sujeitos da escola<br />

é que dão força para se produzir os avanços necessários em consideração à diversidade sociocultural<br />

dos sujeitos que a cada escola acessam. O planejamento escolar orienta a ressignificação<br />

permanente do projeto político-pedagógico da escola, bem como a conquista de novos espaços<br />

na autonomia e gestão escolar.<br />

Atualmente vivemos sob a forte tendência de uma orientação que dê conta do que se propõe<br />

como currículo nacional. Há um debate acerca da elaboração de bases comuns objetivando<br />

(segundo estes educadores/especialistas) reverter o que as avaliações externas apresentaram<br />

como resultados negativos, as quais apontam que a educação nacional que temos carece de<br />

qualidade.<br />

A proposição de um currículo nacional, por outro lado, vem sendo motivo de reflexão por<br />

parte de teóricos do currículo, especialmente os relativos aos estudos culturais que não descuidam<br />

das considerações que dizem respeito à diversidade étnica e cultural e às implicações derivadas<br />

de modelos que objetivam padronizações.


EaD<br />

<strong>didática</strong><br />

Independentemente destes debates, o planejamento curricular é a grande tarefa de cada<br />

escola por ter como desafio conciliar desejos de mudanças, representações sociais, determinações<br />

legais muitas vezes advindas da ordem econômica e da lógica do mercado, sem abrir mão de seu<br />

projeto educativo, que supõe sujeitos singulares, condições próprias, valores e práticas culturais<br />

que configuram as diferentes realidades escolares.<br />

A prática dos gestores, dos especialistas, dos servidores e professores na relação educativa<br />

com os estudantes e comunidade nos contextos escolares é que dá vida ao que se intenciona nos<br />

projetos escolares. O processo de planejamento orienta a elaboração de planos de diferentes or-<br />

dens e configura estratégias de organização da escola e do ensino. A atuação do professor supõe<br />

planejamento resultante de um processo integrador entre a instituição educativa e o contexto<br />

social, efetivado de forma colaborativa por professores, alunos e comunidade escolar.<br />

na escola, o qUe Planejar?<br />

Durante toda reflexão proposta neste texto de certa maneira já abordamos as possibilidades<br />

de envolvimento por parte dos professores no planejamento. Para sistematizar “didaticamente”<br />

tudo o que discutimos até aqui vamos apresentar os principais tipos/níveis de planejamentos nos<br />

quais todos os professores da escola são convocados a participar. É na escola que a educação,<br />

enquanto prática social intencional, acontece. A escola é um lugar no qual produzimos nossas<br />

concepções, onde realizamos as nossas práticas e permanentemente a reavaliamos para garantir<br />

a aprendizagem de nossos estudantes.<br />

No seu processo de planejamento os sujeitos da escola precisam dar conta de definir seu<br />

projeto educativo, o qual se expressa em diferentes instâncias.<br />

1 – Projeto Político-Pedagógico<br />

Acreditamos que a construção do Projeto Político-Pedagógico (PPP) é decisiva numa insti-<br />

tuição de ensino comprometida com a cidadania. É a oportunidade na qual todos os sujeitos da<br />

comunidade escolar são convocados a juntos responder à questão: “Que escola queremos?” É o<br />

momento de tomadas de decisão, de fazer escolhas, de explicitar intenções e vontade política;<br />

de querer repensar, refazer ou projetar novos caminhos, novas possibilidades e novas significa-<br />

ções.<br />

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60<br />

A participação de todos os sujeitos durante todo o processo da construção do PPP é im-<br />

prescindível, pois tão importante quanto o resultado final é o próprio processo de construção, o<br />

qual implica mobilização, sensibilização e espaço/tempo para a explicitação de sonhos e desejos,<br />

de projeções, de parcerias e cumplicidade. E é nesse processo dialógico e colaborativo entre os<br />

sujeitos que a materialização da identidade da escola vai se constituindo.<br />

Atualmente, embora sempre tenha sido importante, elaborar o projeto da escola se caracteriza<br />

como um desafio ainda maior, principalmente para os educadores, que estão sendo colocados<br />

em constantes questionamentos. Fatos como o tempo de permanência da criança e do adolescente<br />

na escola; os novos tipos de estudantes que a escola vem recebendo em virtude das políticas de<br />

inclusão e da grande influência de outros espaços educativos e da mídia, bem como as novas<br />

funções impostas à escola pela sociedade, exigem um novo olhar para a mesma.<br />

Atualmente não estão em questão apenas qual a lista de conteúdos mínimos e os métodos<br />

mais eficientes para ensinar determinado conteúdo. O que está em debate é a própria finalidade<br />

da escola. Ela precisa mudar porque a vida mudou: existem novos paradigmas, novas linguagens<br />

e novas demandas. A sociedade está exigindo um novo homem e uma nova mulher... A escola<br />

está em busca de descobrir/definir o seu lugar numa sociedade em permanente transformação,<br />

promovida, principalmente, pelo processo de globalização.<br />

Não há como negar que a nova realidade e o novo contexto que marca a escola hoje é o<br />

da diversidade e o Projeto Político-Pedagógico é que dá a sua identidade. Autores como Sonia<br />

Krammer (1999); Gadotti (2004), Padilha (2001), veiga (1995), Moreira (1999), entre outros, pesquisam<br />

o projeto pedagógico nesta dimensão e argumentam que a sua construção será resultado<br />

das próprias contradições da escola.<br />

Segundo os autores, não existem duas escolas iguais, o resultado do projeto é imprevisível,<br />

não há como definir de antemão o que a escola vai ser, é a criatividade e o diálogo que<br />

determinarão o processo e os resultados, ações que exigem permanente reflexão e discussão dos<br />

problemas da escola. É por isso que a participação de todos os membros da comunidade escolar é<br />

tão importante, pois é a oportunidade mais viva para a experiência de democracia e cidadania.<br />

O Projeto Político-Pedagógico explicita concepções acerca da educação, conhecimento,<br />

currículo, aprendizagem, de criança, jovem, mulher, homem e idoso. Deixa claro sua memória/<br />

história/trajetória; a sua implicação com um projeto maior, que é o projeto de sociedade e neste<br />

contexto, sua intencionalidade, seja em relação à aprendizagem de seus alunos, à formação de<br />

seus professores e seu envolvimento com a comunidade e com o mundo. Além disso, o Projeto<br />

Político-Pedagógico dá seu entendimento de organização dos tempos e dos espaços e suas prioridades.<br />

Como já afirmamos, o Projeto Político-Pedagógico da escola é sua identidade, pois é a partir<br />

dele que os sujeitos pautam suas reflexões referentes aos significados atribuídos à escola.


EaD<br />

explicando conceito de projeto<br />

<strong>didática</strong><br />

Etimologicamente, o termo projeto vem do latim projectus, do verbo projicere, que significa<br />

lançar à diante, promessa de futuro. É um empreendimento, um enxergar além do limite estrutural<br />

em que nos encontramos. É romper com um presente com a esperança/ousadia de um futuro<br />

melhor e isto sempre implica um desacomodar, um risco e/ou uma “aventura”.<br />

Todo projeto pedagógico é necessariamente político por estar comprometido por um novo<br />

projeto, ou uma nova utopia. Sempre está relacionado a um projeto de sociedade. Não há projeto<br />

sem intencionalidade e que não esteja ligado a interesses.<br />

Todo projeto pedagógico da escola é coletivo, pois se não for uma construção coletiva não é<br />

projeto pedagógico. Ele não pode se transformar, como é muito comum de acontecer, num mero<br />

documento burocrático a ser apresentado à mantenedora para cumprir exigência legal.<br />

A dimensão política indica as decisões, os desejos, onde se pretende chegar, e a dimensão<br />

pedagógica, as mediações necessárias para esse processo. Não são, portanto, instâncias estanques,<br />

pois devem estar articuladas.<br />

Para Gadotti, a noção de projeto implica sobretudo tempo:<br />

a) tempo político – define a oportunidade política de um determinado projeto;<br />

b) tempo institucional – cada escola encontra-se num determinado tempo de sua história; o projeto<br />

que pode ser inovador para uma escola pode não ser para outra;<br />

c) tempo escolar – o calendário da escola, o período no qual o projeto é elaborado é também decisivo<br />

para o seu sucesso;<br />

d) tempo para amadurecer as ideias – só os projetos burocráticos são impostos e, por isso, revelamse<br />

ineficientes a médio prazo; há um tempo para sedimentar ideias; um projeto precisa ser<br />

discutido, e isso leva tempo (Gadotti, 2000, p. 37)<br />

Na explicitação do Projeto Político-Pedagógico realiza-se um esforço coletivo para entender<br />

a própria escola, entender a escola “que temos e a escola que queremos”. O que pensam os<br />

professores da escola? E os alunos? E a comunidade? Faz-se necessário que sejam oportunizadas<br />

condições para que todos possam explicitar sobre o que pensam (seu imaginário) da escola; saber<br />

as expectativas dos pais, professores e funcionários, bem como o sentido que a ela atribuem.<br />

O PPP precisa partir de uma reflexão crítica de sua realidade de seus conflitos. Como alerta<br />

Gadotti:<br />

Um projeto necessita sempre rever o instituído para, a partir dele, instituir outra coisa: torna-se instituinte.<br />

Um projeto político-pedagógico não nega o instituído da escola que é a sua história, que é<br />

o conjunto dos seus currículos, dos seus métodos, dos seus atores internos e externos e o seu modo<br />

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62<br />

de vida. Um projeto sempre confronta o seu instituído com o instituinte. Por exemplo, hoje, a escola<br />

pública burocrática se confronta com as novas exigências da cidadania em busca da nova identidade<br />

de cada escola, pautas de uma sociedade cada vez mais pluralista (2000, p. 35).<br />

Para que a elaboração do PPP tenha sucesso Gadotti (2000) aponta para alguns eixos fundamentais:<br />

um Projeto depende de uma comunicação eficiente, ele precisa ser viável e compreendido<br />

pelo conjunto da comunidade; ele precisa da adesão voluntária e consciente; bom suporte institucional<br />

e financeiro; controle, acompanhamento e avaliação do projeto; um ambiente favorável,<br />

uma mística que evolva a todos e gere compromisso; credibilidade, um projeto só avança se as<br />

pessoas que estão conduzindo o processo possuem competência e credibilidade para a função;<br />

um bom referencial teórico que dê coerência e consistência à estrutura do projeto.<br />

Tendo presente que a função principal da escola é educar para a cidadania e a autonomia,<br />

é indispensável que o projeto promova a integração entre educação e cultura, entre a escola e a<br />

comunidade dentro de uma perspectiva multicultural. Que promova a democratização das relações<br />

de poder dentro da escola. Que enfrente com responsabilidade a questão da avaliação, evasão<br />

e repetência. Que assuma uma postura interdisciplinar e transdisciplinar, e se comprometa com<br />

a formação permanente dos educadores.<br />

Dentro dessa perspectiva podemos pensar/traçar um caminho que nos possibilite a construção/reconstrução<br />

de um Projeto Político-Pedagógico alicerçado na história, cultura e processo<br />

de cada escola, garantindo uma ação política, autônoma, democrática e emancipatória.<br />

2 – Plano de estudos<br />

Sistematiza a proposta curricular da escola expressando as propostas dos componentes<br />

curriculares, sua carga horária, seus objetivos, competências esperadas, metodologias de ensino,<br />

proposta de avaliação e referências bibliográficas...<br />

Segundo a Resolução 243/99 do CEED, artigo 3º, “Os Planos de Estudos, enquanto expressão<br />

concreta do projeto pedagógico da escola, serão resultado de elaboração coletiva, envolvendo o<br />

corpo docente e discente, a comunidade na qual a escola se insere e a entidade mantenedora.<br />

Parágrafo único – Os Planos de Estudos constituirão a base para a elaboração do plano de trabalho<br />

de cada professor, de modo que seja preservada a integridade e a coerência do projeto<br />

pedagógico da escola.”<br />

Os Planos de Estudos são, hoje, uma nova forma de organização curricular. É o instrumento<br />

ordenador, do ponto de vista pedagógico, do currículo da escola. Segundo o parecer 323/99 do<br />

CEED/RS:


EaD<br />

<strong>didática</strong><br />

O Plano de Estudos, para cumprir este papel ordenador do currículo, deverá conter a tradução das<br />

Diretrizes Curriculares Nacionais em um conjunto de atividades e disciplinas, ordenadas quanto à<br />

seqüência em que devem ser cursadas ou distribuídas no tempo e caracterizadas quanto aos seus<br />

objetivos, amplitude e profundidade.<br />

A caracterização dos objetivos, abrangência e amplitude das atividades e disciplinas são informações<br />

essenciais, para que o professor tenha orientação clara para elaboração de seu Plano de Trabalho,<br />

segundo a proposta pedagógica do estabelecimento.<br />

Esta caracterização poderá ser feita, ou sob a forma de “ementa de disciplina”, ou “programa de disciplina”<br />

ou de outra forma capaz de cumprir o papel de atribuir conteúdo e significado à atividade ou<br />

disciplina. Na elaboração desta ementa ou programa a consulta aos Parâmetros Curriculares Nacionais<br />

– ou outros – será essencial.<br />

Assim, em lugar de uma “simples base curricular” contendo uma relação de nomes de<br />

componentes curriculares a que se atribui uma carga horária, os Planos de Estudos constituemse<br />

em uma visão clara do que vai ser estudado, quando vai ser estudado, por quanto tempo será<br />

estudado e quais os objetivos, conteúdos e a profundidade do que vai ser estudado.<br />

O Plano de Estudos é uma parcela do currículo e do Projeto Político-Pedagógico numa<br />

abordagem essencialmente pedagógica na organização dos componentes curriculares e atividades<br />

educativas. O Plano de Estudos é a explicitação do currículo da escola. Não se trata de<br />

uma tabela ou lista de disciplinas e conteúdos e carga horária previamente determinada, mas<br />

se caracteriza como uma ampla proposta orientadora do ensino que leva em conta os níveis de<br />

escolaridade e as respectivas competências desejadas.<br />

Os Planos de Estudos se caracterizam por serem uma pauta de trabalho em torno da<br />

qual professores e alunos se reúnem para construir, ao longo do tempo e de forma planejada, a<br />

educação. Em síntese poderíamos afirmar que o Projeto Político-Pedagógico orienta o Plano de<br />

Estudos, e este orienta o Plano de Trabalho expresso nos planejamentos de ensino dos professores,<br />

sejam eles o planejamento anual, os projetos de ensino interdisciplinares e ainda o Plano<br />

de Aula (este individual).<br />

É importante lembrar que os Planos de Estudos, enquanto expressão concreta do Projeto<br />

Político-Pedagógico da escola, é resultado de construção coletiva: o corpo docente e discente,<br />

comunidade e direção (além da mantenedora).<br />

A caracterização da proposta, sua abrangência e profundidade com que se desenvolvem<br />

cada um dos componentes curriculares podem ser feitas por meio de: Ementas (um pequeno<br />

resumo destacando a centralidade do componente); Objetivos (os sentidos e a abrangência que<br />

se quer atingir); Programa de disciplina (competências – expressão dos conhecimentos, habilidades<br />

e valores a serem construídos e trabalhados).<br />

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64<br />

Considerando a importância da avaliação e a velocidade com que a realidade avança, faz-<br />

se necessário que o Plano de Estudos seja constantemente revisto/revisitado.<br />

3 – Plano de trabalho<br />

O Plano de Trabalho operacionaliza o currículo escolar proposto nos Planos de Estudos e<br />

é o instrumento que orienta o planejamento diário das aulas por parte dos professores.<br />

como organizar o Plano de trabalho<br />

Para se elaborar um Plano de Trabalho há de se considerar:<br />

Quem são os sujeitos de sua educação/ensino? Onde vivem? Quais suas experiências de<br />

vida? Em que acreditam? Quais seus sonhos/projetos de vida? O que lhes foi negado/subtraído?<br />

Com quem convivem e como vivem? Quais suas condições materiais? Quais grupos participam?<br />

O que necessitam aprender?<br />

Considerar ainda:<br />

• O contexto social mais amplo e o mais próximo em que a escola se encontra.<br />

• O que se pauta como projeto educativo e o que carece de atualização/renovação; as condições<br />

e as possibilidades de recursos e estratégias para a realização criativa de seu ensinar.<br />

• E suas próprias demandas de formação/atualização para a realização do referido projeto.<br />

questionamentos que dão forma e organizam o Plano de trabalho<br />

• Por que fazer: Que razões justificam os caminhos escolhidos? Que sentido pretende construir<br />

a partir do plano em questão? Que impactos espera gerar? Qual sua relevância, que falta virá<br />

suprir?<br />

• O para que fazer: O(s) objetivo(s) que espera atingir. Que novos sentidos pretendem alcançar?<br />

• O que se quer ensinar? Quais são os conteúdos/conceitos/destrezas/valores/competências<br />

objetiva construir?<br />

• O como fazer: A metodologia. O que irá priorizar como estratégia para efetivar o que busca?<br />

Que procedimentos serão utilizados?<br />

• O com que fazer: Quais serão os recursos a serem utilizados e onde obtê-los?


EaD<br />

<strong>didática</strong><br />

• O jeito de verificar se o que se está fazendo está dando certo: A avaliação: o que fazer para<br />

acompanhar o processo e mudar quando isto se fizer necessário?<br />

• Quem orienta teoricamente o que se propõe desenvolver: Referências bibliográficas.<br />

4 – como organizar nossas aulas?<br />

“Não, não tenho caminho novo, o que tenho de novo é o jeito de caminhar” (Tiago de<br />

Mello, 1964).<br />

Cabe ao professor encontrar formas alternativas para reencantar a educação, aliando as<br />

mudanças do mundo (aceleradas) com a busca de novas formas de vida, mais criativas, mais<br />

justas, dignas e, por que não dizer, mais felizes?<br />

Diferentes maneiras de planejar o ensino têm sido protagonizadas ao longo da história da<br />

escola, que vão desde a listagem de conteúdos a serem vencidos pelos alunos, por etapas, da<br />

chamada educação tradicional; passando pelas propostas de organização desses conteúdos em<br />

torno de um assunto – como Centros de Interesses e Unidades de Trabalho da Escola Nova; até<br />

as proposições contemporâneas que envolvem questões de interdisciplinaridade, caminhando<br />

por: Temas Transversais, Núcleos Conceituais, Pedagogia de Projetos, Eixos Temáticos, Temas<br />

Emergentes, Situação de Estudo, Temas Geradores e Temas Culturais.<br />

Atualmente ganham força os projetos interdisciplinares na perspectiva da religação dos saberes<br />

e por possibilitarem um diálogo mais amplo entre as diferentes áreas do conhecimento.<br />

Corazza observa que a forma de planejar o ensino que vem sendo trabalhada diz respeito<br />

à seleção e à organização de temáticas culturais. Para a autora:<br />

Os Temas Culturais trazem para a cena os conhecimentos, subjugados (expressos por Foucault), aqueles<br />

que nem foram pensados que poderiam vir ser constituídos como conhecimentos escolares. Por isso,<br />

enfocam, deliberadamente, questões relativas a gênero, classe, etnia, religião, identidade nacional,<br />

diferenças sexuais, discriminação de idade, colonialismo (1997, p. 126).<br />

Os Temas Culturais se caracterizam como fonte para a recontextualização e rearticulação<br />

dos conhecimentos/conteúdos universais/nacionais e possibilitam a reflexão do que tradicionalmente<br />

seleciona-se para ensinar.<br />

Estas proposições contemporâneas, embora com concepções diferenciadas, procuram<br />

romper com a lógica disciplinar e conteudista que historicamente tem pautado os currículos<br />

escolares e objetivam a abordagem do conhecimento em caráter globalizante e interdisciplinar<br />

pela via do ensino que se faz pesquisa, explorando temáticas que possibilitam múltiplas relações;<br />

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consideram questões, problemas e visões dos homens, das mulheres, das crianças e dos jovens<br />

de seu tempo como objeto de conhecimento; todas essas formas de organizar a prática educativa<br />

têm como objetivo o desenvolvimento integral do aluno numa realidade plural.<br />

Nesse contexto as disciplinas curriculares não são mais consideradas o eixo dos conteúdos.<br />

Estes se tornam, juntamente com os temas contemporâneos, mediadores para a construção de<br />

novos sentidos, novas aprendizagens. Mostram como diferentes artefatos, diferentes textos, de<br />

diferentes produtos e manifestações culturais podem contribuir para que as pessoas se situem<br />

melhor em relação a si e aos outros.<br />

Defendem que é nos indivíduos e nos grupos que se encontram os temas, os problemas,<br />

a realidade percebida e sentida (Paulo Freire). É o ponto de vista dos alunos, o ponto de partida<br />

da ação pedagógica.<br />

aí vai uma sugestão:<br />

Inicialmente precisamos retomar uma questão levantada sobre o planejamento interdisciplinar.<br />

Por que e como planejar o ensino?<br />

É importante que os temas dos projetos estejam sintonizados com o que a escola se propõe<br />

e quais as expectativas das pessoas que formam o cotidiano escolar. Para isto um dos primeiros<br />

passos é o de estabelecer o processo da fala/escuta/observação entre os interlocutores – professoraluno-família<br />

– para posteriormente analisar, teorizar as falas, as observações na perspectiva de<br />

compreender a visão dos sujeitos. Isto pode ser chamado didaticamente de diagnóstico (embora<br />

haja pesquisadores e educadores que não gostem desta terminologia, preferindo a expressão<br />

leitura da realidade).<br />

Desta análise, indagamos sobre a prática: como é possível transformar estas questões do<br />

cotidiano em questões pedagógicas? Sim, porque não basta constatar a realidade, ou os fatos. É<br />

necessário nos posicionarmos perante eles e nos indagar como poderemos superar a presente<br />

situação.<br />

Da reflexão das falas é possível retirar, ou tematizar, as situações mais significativas desta<br />

comunidade (sem, no entanto, prejulgá-la). É importante que a leitura que fazemos desta realidade<br />

seja devolvida aos estudantes para que eles possam confirmar, ou não, estas interpretações.<br />

Uma vez confrontadas as leituras, o professor pode (com a ajuda de seus alunos) fazer escolhas<br />

quanto aos temas culturais que irá trabalhar. Definidos (embora de forma sempre provisória)<br />

os temas (projetos), é hora então de organizar a programação possível e, finalmente, preparar as<br />

atividades para a aula, sempre considerando a totalidade do conhecimento.<br />

66


EaD<br />

PlanejaMento diário das aUlas: coMo Fazer?<br />

Planos de aula:<br />

<strong>didática</strong><br />

Seja entre quatro paredes, ou na biblioteca, ou na horta, o espaço da aula é central numa<br />

escola. Afinal, foi para acontecer aulas que foram criadas as escolas. Cada vez mais se prega<br />

sobre a necessidade de as aulas serem originárias de um projeto interdisciplinar.<br />

É na sala de aula, ou em qualquer espaço de mediação pedagógica entre professor e alunos,<br />

que a educação escolar se efetiva. É o espaço mais importante e decisivo para a aprendizagem.<br />

Por isso ele não pode ser improvisado, precisa ser pensado pelo professor com todo o rigor cien-<br />

tífico e ético que este momento exige para garantir a aprendizagem de todos.<br />

O Plano de Aula é uma tarefa individual do professor. O professor pode ter planejado o<br />

projeto em conjunto com seus colegas, mas o planejamento diário é individual, pois é o momento<br />

em que ele reflete sobre o processo de sua turma e de cada aluno em particular. O professor que<br />

planeja por temas e faz planejamento semanal, ou por um determinado período, não precisa<br />

produzir planejamentos diários. Apenas registra o que do planejado irá desenvolver neste dia.<br />

É importante reforçar que o Plano de Aula, embora conforme anteriormente mencionado<br />

seja um instrumento individual do professor, não se caracteriza como um ato solitário, pois ele<br />

deve estar articulado e comprometido com o projeto maior da escola, construído coletivamente.<br />

Neste plano é necessário considerar dois elementos importantes: a aula, que é o momento de<br />

concretização de um plano maior que vai se materializando a cada dia, e a sala de aula, que é o<br />

espaço pedagógico onde as mediações pedagógicas realmente acontecem.<br />

Considerando a dinamicidade que caracteriza a interlocução entre diferentes sujeitos, o<br />

Plano de Aula nunca é definitivo, não pode ser rígido. Ele precisa ter a plasticidade que as com-<br />

plexas relações cotidianas da sala de aula exigem. Ele necessita ser permanentemente reavaliado<br />

para constatar se os objetivos do planejamento foram alcançados ou se é necessário ser revisto<br />

o caminho para garantir o sucesso nos objetivos. Ou seja, garantir aprendizagens significativas<br />

para todos.<br />

Quando elaboramos o Plano de Aula estamos tomando decisões sobre o que ensinar, quando<br />

ensinar, como ensinar, como envolver os alunos, que atividades, que recursos, que materiais, como<br />

avaliar, o que fazer com os que não aprenderam satisfatoriamente. Estamos nos antecipando a<br />

um evento – a aula – para termos maior segurança de que ele dará certo.<br />

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68<br />

Na execução precisamos ter a sensibilidade e a competência de percebermos o tempo e o<br />

ritmo de aprendizagem de cada aluno, interagir questionando, propondo e criando formas diversas<br />

de ação. Motivar, comemorando conquistas individuais e coletivas e propondo caminhos<br />

alternativos para os que tiverem dificuldades. Retomar a aula sempre que necessário para avaliar<br />

o trabalho feito e buscar sugestões e compromissos para a próxima aula.<br />

Depois da aula é necessário avaliar o trabalho realizado, a própria atuação, os encaminhamentos<br />

feitos, o envolvimento e a aprendizagem dos alunos, o que deu certo e o que faltou, o<br />

que pode avançar e o que é preciso retomar, como retomar, que estratégias adotar, e replanejar.<br />

Este, porém, já é um outro capítulo.


EaD<br />

Unidade 4<br />

avaliação na PersPectiva da inclUsão escolar e social:<br />

teorias e Práticas alternativas<br />

oBjetivos desta Unidade<br />

<strong>didática</strong><br />

• Analisar elementos implicados na avaliação, entendendo-a como elemento constitutivo<br />

da prática educativa referida à inclusão social e escolar na perspectiva de que a aprendizagem<br />

se processe.<br />

seçÕes desta Unidade<br />

Seção 4.1 – Avaliação na perspectiva da inclusão escolar e social: teorias e práticas alternativas<br />

Seção 4.2 – Avaliação no contexto escolar<br />

Seção 4.3 – Avaliação na sua função diagnóstica<br />

seção 4.1<br />

avaliação na Perspectiva da inclusão escolar e social:<br />

teorias e práticas alternativas<br />

Eronita Silva Barcelos<br />

Hedi Maria luft<br />

Bem-vindo, caro aluno, para o estudo do tema que é uma das marcas mais destacadas e<br />

lembradas da nossa formação. Nesta parte do componente curricular da Didática vamos dialogar<br />

basicamente sobre a avaliação escolar.<br />

você, provavelmente, lembra de como se sentia nos dias, por vezes semanas inteiras, de<br />

provas, ou seja, “de avaliação”. A avaliação, no entanto, é bem mais do que um dia de prova.<br />

As imagens que guardamos sobre diversos temas nem sempre expressam aquilo que de fato o<br />

termo traduz. A avaliação é um deles.<br />

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70<br />

Pensemos sobre esse tema. A palavra AVALIAÇÃO pode ser escrita e lida, também, assim<br />

– AVAL I AÇÃO –, e ainda AVALIA A AÇÃO. Analisando-a podemos refletir sobre cada uma<br />

das palavras que se formou pela decomposição realizada. Temos agora conceitos como AVAL e<br />

AÇÃO e AVALIA.<br />

O que é avalizar? Suponhamos que você pretende fazer um empréstimo num banco para<br />

pagar as mensalidades do seu curso. Ocorre que precisa de um AvAlista. Quem avaliza? Por que<br />

avaliza? E para quem é avalizado, que mensagem está presente? O que é uma AçãO? Quem a<br />

pratica e/ou a constrói? De que ação se fala? Quem a assume com as suas consequências?<br />

AvAlIAR supõe a ação de alguém, mas que ação? Quem avalia atribui valor a algo. Por<br />

quê? Para quê? Com que critérios se estabelece o valor? valor como medida, quantidade ou como<br />

mérito?<br />

Continuando nosso diálogo, que tal você contar sobre suas vivências em avaliação. Por<br />

exemplo:<br />

1 – Que marcas os momentos de avaliação deixaram em você?<br />

1.1 Atitudes mais comprometidas, responsáveis, criativas.<br />

1.2 Que aspectos você gostaria que tivessem sido diferentes?<br />

1.3 Por que você pensa assim?<br />

1.4 Que sugestões você daria aos professores de hoje sobre a prática da avaliação?<br />

Não há dúvidas de que um dos maiores desafios da prática pedagógica é o relativo à<br />

avaliação: de elemento de referência do andamento do processo para a cooperação com o aluno,<br />

torna-se muitas vezes fator de controle e dominação. O professor, preocupado em mobilizar o<br />

aluno para o trabalho, passa a usar a nota como instrumento de pressão para obter disciplina e<br />

comprometimento. A função da avaliação, todavia, não é essa. Para que a avaliação cumpra seu<br />

papel é importante observar alguns cuidados, tais como:<br />

a) A avaliação faz parte do PROCESSO educacional, não devendo ter uma ênfase desmedida,<br />

como se fosse o elemento mais importante. Fazer isto é confirmar a distorção da avaliação como<br />

fim (e não como processo). A avaliação deve estar em harmonia com o trabalho cotidiano em<br />

sala de aula.<br />

b) A definição clara das regras do jogo evita criar ansiedade e desconfiança na relação pedagógica.<br />

Provas-surpresa ou o uso da prova para manter a disciplina são formas que pouco auxiliam<br />

na aprendizagem.<br />

c) A concepção de avaliação como processo propõe que seja contínua, considerando os vários<br />

momentos da aprendizagem dos alunos e não a julgando apenas num determinado dia de<br />

prova.


EaD<br />

<strong>didática</strong><br />

Um elemento importante é a autoavaliação do professor ou reflexão sobre suas práticas:<br />

Será que tenho convicção de que estou trabalhando algo importante para meus alunos? Os conteúdos<br />

fazem parte da vida deles? Que tipo de relacionamento estabeleço? Tenho conhecimento<br />

das demandas dos alunos?<br />

você sabe que já foram realizados muitos estudos sobre avaliação e segundo luckesi (2002,<br />

p. 90), há uma diferenciação fundamental a considerar entre os termos avaliar e verificar. Frequentemente<br />

estes termos são usados como sinônimos, mas veja: “verificar provém etimologicamente<br />

do latim – verum facere – e significa fazer verdadeiro. A verificação tem caráter de controle<br />

e determinação, enquanto que o termo avaliar, diz luckesi (2002, p. 90): “tem sua origem no<br />

latim, provindo da composição a-valere, que quer dizer ‘dar valor a...’, e infelizmente “A escola<br />

brasileira opera com a verificação e não com a avaliação da aprendizagem” (p. 93).<br />

você, analisando a sua formação pôde perceber se os seus professores mais verificavam seus<br />

conhecimentos ou procuravam avaliar seus conhecimentos? Aliás, convém que aprofundemos<br />

nosso pensar sobre “porquê” avaliamos. Para ter notas, pareceres, relatórios sobre a aprendizagem<br />

dos alunos? Para analisar nossa atuação? Avaliar, para quê?<br />

Feitas estas considerações iniciais e a problematização sobre a temática da avaliação, vamos<br />

estudar agora as concepções (compreensões, entendimentos) mais presentes na avaliação.<br />

1 – avaliação: análise e discUssão das diversas concePçÕes de avaliação<br />

AUTORITÁRIA DEMOCRÁTICA<br />

Classificatória<br />

(capazes, incapazes)<br />

Excludente<br />

(exclui os “menos capazes”)<br />

quadro 1: concepções de avaliação<br />

Fonte: Elaboração das autoras.<br />

Emancipatória<br />

(liberta, empodera os sujeitos da aprendizagem)<br />

Includente<br />

(inclui os fora do processo)<br />

Objetivamente, podemos trabalhar com estas duas concepções de avaliação. A primeira<br />

marca a vida das pessoas pela forma que entendemos não ser a apropriada. Ocorre que, geralmente,<br />

os excluídos na escola são também os excluídos da sociedade. Daí a necessidade de a<br />

escola considerar em seus processos avaliativos as consequências das reprovações, ou melhor,<br />

da não aprendizagem.<br />

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72<br />

Gnosiologia<br />

Gnose é uma palavra de origem<br />

grega que significa conhecimento,<br />

sabedoria. Gnosiologia<br />

é, portanto, o ato ou ação de<br />

conhecer. Se desdobrarmos a<br />

palavra teremos: gnose= conhecimento;<br />

logos=estudo; ia=arte.<br />

Daí é pertinente entender que<br />

gnosiologia refere-se à teoria do<br />

conhecimento, à validade do conhecimento<br />

em função do sujeito<br />

cognoscente, ou seja, daquele<br />

que conhece o objeto.<br />

A avaliação com cunho classificatório pode trazer enormes<br />

prejuízos aos alunos, pois, por meio dessas práticas criam-se preconceitos,<br />

inibições que podem afetar todo o ano escolar (Hoffmann,<br />

2001), quando não toda a vida de uma pessoa. Esta forma autoritária,<br />

portanto, não faz sentido se desejamos cumprir a função da escola,<br />

que é a de garantir a aprendizagem.<br />

Aos poucos vamos desvendando este termo “avaliação”. E para<br />

continuar a reflexão é fundamental analisar as diferentes concepções,<br />

as quais têm uma vinculação profunda com as questões sociais.<br />

Nossas compreensões nunca se pautam em situações neutras. A<br />

prática docente<br />

implica em processos, técnicas, fins, expectativas, desejos, frustrações,<br />

e a tensão permanente entre teoria e prática, entre liberdade e autoridade,<br />

cuja exacerbação, não importa de qual delas, não pode ser<br />

aceita numa perspectiva democrática, avessa tanto ao autoritarismo<br />

quanto à licenciosidade (Freire, 1996b, p. 109).<br />

Um professor marca a história pela sua prática. E a capacidade<br />

de integrar conhecimento, afetividade, criticidade, a vivência do e<br />

com respeito é fundamental. O educador aprende e ensina, ensina e<br />

aprende. Por meio deste processo constrói as mudanças necessárias<br />

para a consolidação de um mundo marcado pela justiça, onde todos<br />

tenham espaço para viver com dignidade, ou então, por opção, reforça<br />

as práticas conservadoras já determinadas.<br />

O trabalho do professor tem a capacidade de intervenção no<br />

mundo. A educação, especificidade humana, não tem neutralidade,<br />

característica que carrega uma importância imensurável. E, desta<br />

forma, a relevância de um trabalho pedagógico está na virtude da<br />

coerência e na capacidade educativa dos sujeitos per si e entre si.<br />

Um professor marca por seu perfil humano e profissional.<br />

Quando prioriza a simples transferência do conhecimento, desrespeita<br />

o senso crítico e a curiosidade dos alunos e contribui para uma<br />

educação que Freire (1987, 1996) denomina de educação bancária, a<br />

qual privilegia o depósito de conteúdos, a manutenção da opressão e<br />

a absolutização da ignorância. Em oposição a essa visão fragmentada<br />

e limitadora, Freire (1987, 1996) propõe que a educação escolar seja


EaD<br />

<strong>didática</strong><br />

marcada pela problematização e por uma autêntica gnosiologia, capaz de desafiar a interação<br />

discente-docente em sala de aula e “libertar o pensamento pela ação dos homens uns com os<br />

outros na tarefa comum de refazerem o mundo e torná-lo mais e mais humano” (Freire, 1987a,<br />

1996, p. 65).<br />

Esta segunda perspectiva de Freire (1987, 1996) inscreve-se em uma concepção democrática.<br />

Apostamos nessa compreensão porque permite a construção, produção e reconstrução do<br />

conhecimento, responsabilidade social da escola.<br />

você pode estar pensando que nem sempre isto ocorre, no entanto, quando há uma boa<br />

relação entre professor e alunos, quando é permitido o erro e a participação a aprendizagem<br />

tende a se concretizar com maior facilidade e, independentemente desta questão, é papel do<br />

professor apostar sempre na aprendizagem de todos os seus alunos.<br />

Há uma história que pode ilustrar melhor a ideia, que é de um professor das Ciências da<br />

Educação. Ele anunciou uma conferência na qual falaria sobre o modo como ele havia descoberto<br />

um método para um gato falar francês. E no dia marcado muitas pessoas estavam à espera<br />

para ouvir a conferência e para ouvir o gato. O gato nunca falou, evidentemente, miou quando<br />

muito, e no fim lhe perguntaram:<br />

– Afinal, o gato fala ou não fala francês? E o professor respondeu:<br />

– Bem, eu ensinei, mas ele não aprendeu.<br />

Quer dizer, pode haver ensino sem haver aprendizagem. Pode haver aprendizagem, sem<br />

haver ensino...<br />

Será isso possível? Como você interpreta esta história?<br />

Ensinar é um processo complexo, mas o que importa é o comprometimento dos professores<br />

na criação de estratégias adequadas de ensino. São especialmente relevantes as mediações do<br />

professor que estabelecem a confiança, a autonomia, a participação. Um processo democrático<br />

pressupõe que a avaliação seja planejada, negociada e, mais, que seja um momento de aprendizagem.<br />

Isto requer uma atuação pedagógica que fomente a corresponsabilidade, ou seja, exige<br />

que o aluno assuma efetivamente a sua formação como possibilidade e responsabilidade própria<br />

de cada sujeito.<br />

Além das concepções, aqui resumidas em autoritária e democrática, há também diferentes<br />

funções nos processos avaliativos. É importante conhecê-las e situá-las a partir das concepções<br />

que acabamos de estudar.<br />

Segundo Hoffmann (2001), a ação educativa é sempre intencional e o desenvolvimento das<br />

atividades educativas pressupõe a avaliação como parte integrante do planejamento do processo<br />

de ensino e de aprendizagem. A avaliação cumpre três funções básicas:<br />

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Função diagnóstica: permite verificação dos progressos e dificuldades dos alunos e atuação<br />

do professor, que, por sua vez, determinam modificações no processo de ensino.<br />

Função formativa: tem por finalidade proporcionar o feedback (retroalimentação) para o<br />

professor e para o aluno, durante o desenvolvimento do processo ensino-aprendizagem. Propicia<br />

a correção de falhas, esclarecimentos de dúvidas e estímulo à continuidade do trabalho para<br />

alcance do objetivo.<br />

Função Somativa: tem o propósito de oferecer subsídios para o registro das informações<br />

relativas ao desempenho do aluno. Contemplará em seu interior tudo aquilo que foi visualizado<br />

na função diagnóstica e formativa.<br />

Segundo luckesi (2002), a avaliação serve para auxiliar cada aluno no seu processo de<br />

competência e crescimento para a autonomia e é indicadora de novos rumos. Serve também para<br />

compreender o estágio de aprendizagem em que o aluno se encontra, objetivando o avanço no<br />

processo.<br />

Para realizar uma leitura complementar do exposto anteriormente e avançar na aprendizagem<br />

sobre a avaliação escolar, leia os textos: Avaliação no contexto escolar, de Hedi Maria luft,<br />

e Avaliação na sua função diagnóstica, de Eronita Silva Barcelos, que constam na Biblioteca<br />

virtual<br />

2 – avaliação coMo constrUção do conHeciMento<br />

Entendemos que a avaliação se constitui democrática quando propicia a aprendizagem,<br />

ou não será avaliação. Quando se trata apenas de um ato burocrático deixa de ser processo e<br />

assume uma forma que prejudica e marca de modo muito negativo a vida das pessoas, não raro<br />

para toda a vida. Produz abandono escolar, repetência e cria muitas dificuldades. Como processo<br />

de construção do conhecimento, promove e instaura processo formativo porque permite o desvelar<br />

das potencialidades de quem aprende. É sobre essa questão que trataremos na sequência<br />

de nosso diálogo.<br />

O texto de Madalena Freire sobre o “Sentido dramático da aprendizagem”, (veja Biblioteca<br />

virtual) contribui para refletirmos sobre o ato de aprender e ensinar. Aliás, este texto traz uma<br />

reflexão importante, esclarecendo que o ato de aprender é um processo exigente. Após a leitura<br />

do texto, veja a seguir algumas razões acerca da importância da avaliação, segundo Melchior<br />

(1998):<br />

– melhorar o processo e o resultado;<br />

– auxiliar o aluno a se motivar para novas aprendizagens;<br />

– auxiliar o professor na compreensão do processo de aprendizagem, na sua autoavaliação.


EaD<br />

<strong>didática</strong><br />

No entendimento de Maria Celina Melchior (1998), o processo avaliativo não tem finali-<br />

dade em si mesmo, não pretende uma melhora só na aprendizagem, mas da racionalidade e da<br />

justiça nas práticas educativas Faz-se avaliação para conseguir a melhora do processo educativo<br />

como um todo.<br />

Já comentamos anteriormente que a avaliação democrática é uma prática que permite<br />

aprendizagens significativas. vamos dialogar agora sobre os princípios de uma avaliação democrática.<br />

O primeiro e mais importante traço da avaliação democrática é assegurar a possibilidade<br />

de refletir e questionar as práticas usadas nos processos de avaliação. Se um professor não permite<br />

que o aluno participe, expresse suas dúvidas e inquietações, não pode falar de avaliação<br />

democrática. A avaliação que não possibilita a participação dos alunos e não proporciona condições<br />

de escolha dos instrumentos e critérios não é democrática e peca na relação educativa de<br />

constituição do sujeito crítico e responsável pela sua história.<br />

A rotina de avaliação mais comum é a realização de provas escritas e padronizadas.<br />

Essa prática pode ser utilizada, e, muitas vezes, é importante, no entanto não pode ter a<br />

intencionalidade do controle e da intimidação. Uma prova, embora de efeito sempre relativo,<br />

pode ser um instrumento que favorece a análise do aproveitamento do aluno pelo professor de<br />

modo que, se feita com coerência, possibilita os encaminhamentos de aprendizagens posteriores.<br />

Segundo Ballester et al (2003, p. 52)<br />

Nunca será tarde demais se aproveitamos as atividades de avaliação com fins verdadeiramente humanos<br />

e educativos; por isso, e na crença dessas possibilidades, pensamos que os princípios e as atuações<br />

concretas de uma avaliação democrática poderiam ser os seguintes: de transparência, de motivação<br />

e de participação e negociação.<br />

Princípio de transparência, que segundo Melchior (1998), deveria garantir o direito aos<br />

alunos de estarem informados sobre os critérios adotados na sua avaliação e decisões tomadas<br />

para sua formação. Uma atuação de acordo com esse princípio comportaria o seguinte:<br />

a) divulgar, no começo de cada curso, matéria, atividades, as orientações sobre o que se deseja<br />

atingir, preferencialmente informações escritas.<br />

b) expor os mecanismos pelos quais a avaliação vai ser registrada: notas, pareceres, relatórios<br />

de avaliação e os tempos: bimestrais, trimestrais e/ou semestrais.<br />

c) permitir que os alunos conheçam previamente provas e/ou exames similares àqueles aos quais<br />

vão ser submetidos e desenvolver estratégias eficazes de aprendizagem, refletindo sobre os<br />

erros.<br />

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Princípio de motivação, que chama o professor à compreensão de que possibilitar o aprender<br />

com os erros contribui significativamente para a aprendizagem dos alunos porque permite que<br />

se relacionem com as práticas educativas, como a avaliação sem tensões, sem medos. Estabelecer<br />

um clima favorável é importante para que o aluno aprenda a sanar suas dúvidas e arrisque<br />

seus “palpites”.<br />

Princípio de participação e negociação, próprio da democracia, requer um determinado<br />

processo de construção. Geralmente é um processo demorado e exige muito de cada um dos<br />

envolvidos no processo ensino/aprendizagem. Os professores, preocupados com a qualidade<br />

e amplitude do aproveitamento dos alunos, geralmente são impositivos e acreditam que suas<br />

ideias são as melhores.<br />

Por isso, sempre estão necessitando ampliar a sensibilidade e a compreensão dos processos<br />

de aprender dos alunos com dificuldades de aprendizagem. Estar aberto permanentemente à<br />

possibilidade do erro e à necessidade de retificação das práticas que realizam é fundamental.<br />

Comentamos, já várias vezes, a relevância do uso de critérios e instrumentos adequados<br />

para avaliar. vejamos, então, o que são instrumentos e critérios de avaliação.<br />

Preste atenção!<br />

A avaliação é um processo que se vale de instrumentos para coleta de dados. Os dados serão<br />

úteis se forem pertinentes ao que se pretende analisar e válidos para indicar a continuidade das<br />

ações de ensino e aprendizagem. Para tanto os instrumentos devem ser adequados.<br />

Instrumentos podem ser provas e testes escritos e orais, trabalhos individuais e grupais<br />

(relatórios, textos, cartazes, painéis informativos, etc.), entrevistas, observação...<br />

Os instrumentos oferecem indicadores qualitativos e/ou quantitativos. A lei 9.394/96, no<br />

artigo 24 define:<br />

A educação básica, nos níveis fundamental e médio, será organizada de acordo com as seguintes regras<br />

comuns: Inciso v – a verificação do rendimento escolar observará os seguintes critérios: a) avaliação<br />

contínua e cumulativa do desempenho do aluno, com prevalência dos aspectos qualitativos sobre os<br />

quantitativos.<br />

Critério é um referencial valorativo e sua formulação requer colaboração, discussão, problematização<br />

e contextualização, levando-se em consideração que a avaliação é um processo de<br />

responsabilidade educativa e social.<br />

Assim sendo, a avaliação da aprendizagem é uma prática pedagógica, útil e necessária para<br />

analisar o que se faz. E o papel principal do professor consiste em auxiliar o aluno a aprender.<br />

Melchior (2003, p. 17) propõe que:


EaD<br />

<strong>didática</strong><br />

Se não houve aprendizagem, então não se ensinou e o professor tem que questionar e verificar onde está<br />

a falha, analisando todos os elementos envolvidos no processo, entendendo que sempre é um desafio<br />

avaliar a aprendizagem em função da subjetividade humana na relação com o processo educativo.<br />

atividade de reflexão e problematização<br />

Antes de avançarmos para nosso próximo texto sugerimos que você assista: “O contador<br />

de histórias”, um filme de luiz villaça, que ilustra muito bem que não há nenhum caso “perdido”<br />

no processo de formação humana. Todos têm potencialidades e cabe também ao professor<br />

estimular seus alunos para que construam a autoformação. O filme conta a história do menino<br />

Roberto Carlos Ramos, analfabeto até os 13 anos de idade e considerado “irrecuperável”. Esse<br />

é um caso que ilustra o que acontece com boa parte das 75 milhões de crianças no mundo que<br />

estão fora da escola. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a<br />

Cultura (Unesco), no mundo, hoje, um em cada seis adultos é analfabeto. O contador de histórias<br />

é uma excelente oportunidade de reflexão sobre a importância da educação para a superação<br />

da pobreza e da exclusão social.<br />

3 – PesqUisa e reFlexão da Prática Pedagógica de ProFessores:<br />

propostas curriculares, concepções, programas, metodologias, avaliação<br />

estUdo de caso<br />

vamos fazer nossa avaliação analisando o que aprendemos até aqui, tomando como pro-<br />

cedimento o Estudo de Caso. Para tanto duas tarefas precisam ser cumpridas.<br />

a) A primeira refere-se a obter com professores de uma escola um relato de como um determinado<br />

professor encaminhou e realizou uma ação de avaliação junto com seus alunos. De posse do<br />

relato, descreva o caso, contextualizando com indicação de que nível de ensino é a escola, de<br />

que ano são os alunos que participaram da avaliação relatada, como o professor procedeu no<br />

encaminhamento da avaliação e como ocorreram outros fatos relativos ao caso.<br />

b) A segunda atividade é analisar o caso descrito, seguindo o roteiro exposto a seguir. Após a<br />

análise do caso faça uma síntese dos conhecimentos novos construídos por você com os estudos<br />

sobre avaliação até o momento realizados.<br />

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seção 4.2<br />

78<br />

Figura 1: Processo de análise do caso<br />

Fonte: Sousa, Eda C. B. M. de (Org.) Mapas de Informação.Brasília:<br />

avaliação no contexto escolar<br />

UnB/Cátedra Unesco, 1997 – com adaptações.<br />

Hedi Maria luft<br />

Diversidade de imagens, ideias, contradições, conflitos, interrogações marcam o processo<br />

avaliativo da vida e do cotidiano da escola. Se considerarmos os elementos didáticos de uma<br />

educação escolar, tendo objetivos claros, conhecimentos consensualmente construídos, metodologias<br />

inovadoras, a avaliação certamente será a confirmação e/ou a negação desse itinerário.<br />

Muito se tem discutido e estudado sobre a temática, mas a avaliação sempre é desafiadora<br />

e provocadora da nossa capacidade de gerenciar o fazer pedagógico. Avaliar envolve justiça,<br />

discernimento, compreensão, rigor, sabedoria, entendimento, e mais uma infinidade de qualidades<br />

e por isso mesmo é um processo complexo. Complexo porque envolve a vida das pessoas<br />

(famílias, amigos).


EaD<br />

<strong>didática</strong><br />

Assim, ao organizarmos a avaliação numa dimensão participativa, com requisitos que de-<br />

senvolvam a autonomia, há maiores possibilidades de construção e de aprendizagem significativa.<br />

Isso porque o processo avaliativo é marcado por relações de poder que quando não democráticas,<br />

intimidam e inibem a expressão e a construção do conhecimento.<br />

Desde Rousseau o princípio inspirador do pensamento democrático sempre foi a liberdade<br />

entendida como autonomia. Esse entendimento pode ser operacionalizado em formas avaliativas<br />

democráticas, as quais engendram aprendizagens mais significativas viabilizando a autonomia<br />

intelectual, o autoconhecimento, a autodescoberta e a autoformação.<br />

Nessa perspectiva, a relevância da avaliação no cotidiano escolar pode ser refletida a<br />

partir de três ideias fundamentais:<br />

A) Compreender a avaliação – Muitas vezes a avaliação é tratada como sinônimo de prova,<br />

mas inevitavelmente é muito mais que isso. Avaliar pressupõe encontrar subsídios, formas de<br />

desenvolver a construção do conhecimento. Aliás, é essencial entender que a concepção de<br />

conhecimento é que determina, em grande parte, a avaliação que realizamos. Paulo Freire<br />

(1987, 1996) afirma que na visão da educação bancária, o “saber” é uma doação dos que se<br />

julgam sábios aos que julgam não saber. A educação é o ato de depositar, enquanto que na visão<br />

libertadora o saber é construído a partir de um pensar autêntico, um processo que se instaura<br />

pela concepção problematizadora e que busca a humanização e não a opressão e o controle<br />

esmagador de uns sobre outros. Em verdade, não seria possível “à educação problematizadora,<br />

que rompe com os esquemas verticais característicos da educação bancária, realizar-se como<br />

prática da liberdade sem superar as contradições entre o educador e os educandos. Como<br />

também não lhe seria possível fazê-lo fora do diálogo” (1987, 1996, p. 68) um diálogo marcado<br />

pela interação entre os sujeitos e pela articulação das diferentes áreas do conhecimento.<br />

B) Compreender a nossa formação de professores – Fomos muito mais ensinados a repetir do<br />

que provocados para criar. Arroyo (2000) questiona: Chegará o dia em que nossas crenças<br />

serão dúvidas? Como transgredir e desestabilizar no mais íntimo o que dá segurança? O exercício<br />

de duvidar nos ensina a rever certezas. Onde está a virtude da educação? No desejo de<br />

ver o outro ser o que deseja ser. Temos linguagem e estrutura subjetiva para tal? Precisamos<br />

aprender Matemática, Física, mas primeiro é preciso recuperar o ser gente, porque só quem se<br />

sente gente aprende. A reconstrução da trajetória da formação, da construção de nossa identidade<br />

favorece práticas educativas mais humanas. Dessa forma, para assumir uma educação<br />

problematizadora precisamos romper com as formas determinadas e mecânicas de educação<br />

e isso implica construir diálogos mais humanos e humanizadores conosco mesmos, com os<br />

outros e com a totalidade do entorno escolar.<br />

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C) Compreender as possibilidades – Talvez este seja o maior desafio. As aprendizagens que se<br />

80<br />

realizam pela mediação da escola são pré-configuradas no imaginário social muito antes de<br />

serem explícita e formalmente concretizadas. Assim, a criança, o jovem, o adulto já trazem<br />

imagens do processo avaliativo. São impressões diversas, mas geralmente pautadas em medir,<br />

provar, assustar, amedrontar – causando conflitos, transtornos, medos. Por isso, um dos desafios<br />

a serem enfrentados na prática avaliativa é relativo ao elemento de referência. Que imagens<br />

guardamos da avaliação? Quais as análises que fazemos dos processos de avaliação? De que<br />

instrumentos, critérios, indicadores, nos valemos? Temos superado a classificação e a dominação<br />

para instaurar uma prática de cooperação? Penso que a fábula adaptada pela professora<br />

Clarilza Souza contribui para refletir sobre as questões.<br />

“Era uma vez...<br />

Uma rainha que vivia em um grande castelo.<br />

Ela tinha uma varinha mágica que fazia as pessoas bonitas ou feias, alegres ou tristes, vitoriosas<br />

ou fracassadas. Como todas as rainhas, ela também tinha um espelho mágico. Um dia,<br />

querendo avaliar sua beleza, também ela perguntou ao espelho:<br />

– Espelho, espelho meu, existe alguém mais bonita do que eu?<br />

O espelho olhou bem para ela e respondeu:<br />

– Minha rainha, os tempos estão mudados. Esta não é uma resposta assim tão simples. Hoje<br />

em dia, para responder a sua pergunta eu preciso de alguns elementos mais claros.<br />

Atônita, a rainha não sabia o que dizer. Só lhe ocorreu perguntar: – Como assim?<br />

– veja bem – respondeu o espelho –, em primeiro lugar, preciso saber por que vossa Majestade<br />

fez essa pergunta, ou seja, o que pretende fazer com minha resposta. Pretende apenas<br />

levantar dados sobre seu ibope no castelo? Pretende examinar seu nível de beleza, comparando-o<br />

com outras pessoas, ou sua avaliação visa ao desenvolvimento de sua própria beleza, sem nenhum<br />

critério externo? É uma avaliação considerando a norma ou critérios predeterminados? De toda<br />

forma, é preciso, ainda, que vossa Majestade me diga se pretende fazer uma classificação dos<br />

resultados.<br />

E continuou o espelho.<br />

– Além disso, eu preciso que vossa Majestade me defina com que bases devo fazer essa<br />

avaliação. Devo considerar o peso, a altura, a cor dos olhos, o conjunto? Quem devo consultar<br />

para fazer essa análise? Por exemplo: se consultar somente os moradores do castelo, vou ter uma<br />

resposta; por outro lado, se utilizar parâmetros nacionais poderei ter outra resposta. Entre a turma<br />

da copa e anões, a Branca de Neve ganha estourado. Mas, se perguntar aos seus conselheiros,


EaD<br />

<strong>didática</strong><br />

acho que minha rainha terá o primeiro lugar. Depois, ainda tem o seguinte – continuou o es-<br />

pelho: – Como vou fazer essa avaliação? Devo usar análises continuadas? Posso utilizar alguma<br />

prova para verificar o grau dessa beleza? Utilizo a observação?<br />

Finalmente, concluiu o espelho: – Será que estou sendo justo? Tantos são os pontos a considerar”<br />

(Batista, 2001, p. 113).<br />

Importante reconhecer que a fábula problematiza questões que vêm historicamente mobilizando<br />

a escola em relação aos processos avaliativos e que continuam a nos desafiar. Muitas<br />

vezes o professor, não conseguindo motivar o aluno para o trabalho, apela para o uso da nota<br />

como instrumento de pressão para obter respostas que autoritariamente deseja, como disciplina,<br />

atenção, execução das atividades. A função da avaliação, entretanto, não é essa.<br />

Para que a avaliação cumpra sua função é imprescindível que seja entendida como parte do<br />

PROCESSO educativo, não devendo receber uma ênfase desmedida, como se fosse o elemento<br />

mais importante. Fazer isso é confirmar a distorção da avaliação como fim (e não como meio).<br />

A avaliação, estando articulada com o trabalho cotidiano em sala de aula não cria dificuldades,<br />

muito pelo contrário, se institui como uma forma de ampliar e avançar na aprendizagem.<br />

Uma questão relevante a considerar é a autoavaliação do professor. Para fazê-la (a autoavaliação)<br />

é importante perguntar-se: Tenho convicção de que estou trabalhando algo importante<br />

com meus alunos? Os conteúdos, conhecimentos que proponho, fazem parte da vida deles? Que<br />

tipo de relacionamento tenho estabelecido? Tenho conhecimento da realidade dos alunos? A<br />

autorreflexão contribui para a compreensão do processo, evitando que as relações humanas na<br />

escola se tornem meros contatos. Avaliar traz no seu bojo a materialização da proposta educativa<br />

da escola e a marca de cada professor que integra a sua concretização, por isso somos todos<br />

responsáveis pela construção de imagens mais positivas e libertadoras referentes à avaliação no<br />

cotidiano escolar.<br />

seção 4.3<br />

avaliação na sua Função diagnóstico<br />

Eronita Silva Barcelos<br />

Da compreensão da relevância e função do Projeto Político-Pedagógico da escola, como<br />

conquista e compromisso dos educadores pela autonomia e gestão democrática, emergem indagações<br />

novas e explicitação de compromissos educativos compartilhados. A reflexão das práticas<br />

pedagógicas assume dimensão inovadora, possibilitando o enfrentamento da ruptura de formas<br />

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estanques e fragmentárias na construção da excelência do processo ensino/aprendizagem, a<br />

eficiência do sistema escolar e o reconhecimento da importância da função social dos profissionais<br />

da educação.<br />

Nesse cenário a avaliação é uma das dimensões a serem consideradas como carentes de<br />

reflexão, porque a partir dos dados e informações produzidos por intermédio dela é possível interpretar<br />

o caminho percorrido em seus acertos e desvios. A avaliação é processo fundamental<br />

para a qualificação e inovação da proposta escolar.<br />

Tem a função diagnóstica, como pressuposto básico intensificar a competência dos que<br />

ensinam e dos que aprendem, numa relação integradora e de inclusão no processo de construção<br />

pedagógica. Essa construção entende, aprendizes e ensinantes, como grupo articulado e articulador<br />

da produção de conhecimentos e da qualidade das aprendizagens e nunca como mentores<br />

do fracasso escolar. Quem pratica avaliações com essa concepção assume o compromisso de<br />

adoção da atitude de mudança.<br />

A avaliação na sua função formativa tem como principal objetivo favorecer e provocar a<br />

melhoria e o crescimento humanos pela aprendizagem, saindo seus agentes da situação de medo<br />

para a situação de entusiasmo e prazer, como lemos em Snyders (1988):<br />

82<br />

[...] sentir-se progredindo, capaz de progredir, sentir suas forças crescendo; conhecer-se melhor,<br />

governar-se, resistir, ir até o fim do que tinha tentado; pelo que se pode avaliar, ver onde está, tomar a<br />

medida de si mesmo (possibilidades e limites) e adquirir confiança em si mesmo; em suma fazer suas<br />

provas, prestar testemunho, confirmação de si mesmo (p. 207).<br />

Essa concepção vai na contramão do que pensam aqueles que se apoiam na premissa<br />

de que se não houver o controle pela via da prova classificatória os alunos passarão pela escola<br />

sem aprender, ou que fazer avaliações que tenham como conteúdo e finalidade a ajuda ao aluno<br />

acaba superficializando o ensino, descomprometendo o estudante e produzindo um afrouxamento<br />

pedagógico por parte do professor. Conveniente que se entenda que a exigência posta por uma<br />

ação avaliativa contínua, formativa, global, é muito maior no rigor de sua prática.<br />

Três pilares básicos constituem e sustentam a prática avaliativa com a função diagnóstica:<br />

um processo de acompanhamento fundamentado, a intervenção consentida e capacitadora<br />

e a promoção dos sujeitos das práticas que se produzem na sala de aula e na escola como um<br />

todo.<br />

O acompanhamento requer conhecimento suficiente do que se deseja fazer, das condições<br />

daqueles com quem se vai interagir e da direção que se quer seguir. Didaticamente é a etapa da<br />

situação orientadora ou da realização do diagnóstico. O processo de acompanhamento organiza-


EaD<br />

<strong>didática</strong><br />

se em continuada leitura/reflexão da situação do ensino/aprendizagem, produzida pelas ações<br />

didático-pedagógicas planejadas pelos professores, no diálogo com alunos e postas à disposição<br />

deles como desafio ao aprender a pensar.<br />

Para uma leitura dessa natureza concorre a competência teórica em termos do que seja<br />

aprender, do que seja conhecimento e dos desafios do contexto histórico sociocultural. Outro<br />

requerimento é a sensibilidade política e técnica para entender e identificar os saberes, valores,<br />

atitudes, possibilidades e necessidades dos alunos.<br />

A consciência da situação permite a visualização da necessária intervenção pedagógica<br />

que, por essência, produz o ato de ensinar, criando e indicando novas situações de aprendizagem,<br />

mostrando pistas para a superação das dificuldades e conduzindo procedimentos para avanços<br />

nas situações individuais e de grupo. Provoca, também, o aprimoramento da atuação docente<br />

como condição da qualidade da intervenção.<br />

O terceiro pilar do processo é a promoção dos sujeitos da aprendizagem, na medida em<br />

que vão se assumindo como agentes de sua história escolar e de vida. Desenvolver o processo<br />

de construção do conhecimento na escola conduz ao situar-se criticamente no mundo. A aprendizagem<br />

é promoção da melhoria da condição humana.<br />

O sentido da promoção é o sentido do projetar e perspectivar, vislumbrando possibilidades<br />

presentes e futuras para o crescimento pessoal e de inserção em grupos de convivência. Na ideia<br />

da promoção não cabe a prática da seleção e da classificação. Snyders (1988) nos ensina: “O que<br />

é incompatível com a alegria que procuro na escola é o medo do aluno diante da seleção”.<br />

A avaliação, na sua dimensão diagnóstica, é processual e relacional e não se destina a<br />

aprovar e reprovar simplesmente. Objetiva acompanhar, por constatações e interpretações, o que<br />

os alunos produzem, suas conquistas, fragilidades e necessidades, bem como os sentimentos que<br />

explicitam em relação à escola e a sua aprendizagem.<br />

A prática avaliativa, nesse entendimento, requer percebê-la numa concepção formativa<br />

interpretativa. Assim, concordamos com Snyders (1988) quando adverte que “não mais procede<br />

pensar que o único avaliar do aluno é seu desempenho cognitivo” (p. 41).<br />

A função diagnóstica da avaliação possibilita o questionamento, a simplificação que as<br />

práticas avaliativas escolares tradicionais podem impor ao trato do pedagógico e, especificamente,<br />

do processo ensino/aprendizagem. Simplificar é entender o aprender como relação linear entre<br />

um professor que transmite, como detentor individual do saber, e um aluno receptor, portador<br />

da ignorância do saber considerado válido para a aprendizagem escolar. Assim, aprender é simples,<br />

basta dar a “resposta certa”, a priori estabelecida e indicada como merecedora de atenção<br />

e memorização.<br />

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84<br />

Segundo Goldberg e Prado (1980), já no início da década de 70 Robert Stake escrevia<br />

alertando que:<br />

[...] a essência da tirania era a negação da complexidade, ao mesmo tempo em que considerava os<br />

avaliadores como “grandes simplificadores”. Trabalhamos diariamente com simplificações, formulações<br />

de objetivos, com tendências centrais, com testes critérios e nos tornamos de tal forma condicionados<br />

por eles que perdemos a consciência das atividades fundamentais do processo ensino/aprendizagem<br />

(p. 142).<br />

No processo ensino/aprendizagem há que considerar variados aspectos, desde as efetivas<br />

condições dos alunos, a natureza e qualidade da intervenção pedagógica por parte do professor,<br />

a dinâmica curricular em desenvolvimento, os valores norteadores do projeto escolar, as dimensões<br />

do espaço-tempo do conhecimento, até o compromisso ético-político da escola na relação<br />

com a comunidade e com os coletivos humanos que a ela acorrem.<br />

Ainda segundo Goldberg e Prado (1980), Michael Scriven (1967), ao discutir os tipos de<br />

avaliação e os princípios que os fundamentam, observa que a avaliação formativa tem o objetivo<br />

de promover o aperfeiçoamento do programa educativo em suas etapas e dimensões: início,<br />

desenvolvimento e final, de forma diagnóstica, contínua e prospectiva.<br />

Uma corajosa e ousada renovação nas concepções sobre educação, escola, ensino/aprendizagem<br />

e vontade política coletiva de mudança são requisitos para que a avaliação explicitada<br />

neste texto se efetive na escola.<br />

Concluímos compartilhando uma situação buscada em texto de Alicia Fernandez (1990):<br />

para pensar novas ideias temos que desarmar nossas ideias feitas e misturar as peças, assim como tipógrafo<br />

ver-se-á obrigado a desarmar os clichês, se deseja imprimir um texto num novo idioma (p. 23).<br />

Fica o convite para dialogarmos e ampliarmos a reflexão sobre essa temática, caro aluno.<br />

Consulte também, para sua leitura: Barcelos, Eronita S. A experiência da avaliação como<br />

prática de vida. Contexto e Educação, Ijuí, RS: Ed. <strong>Unijuí</strong>, n. 7, jul./set. 1987.


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