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evista portuguesa de

ciências do desporto Volume

2 · Nº 5

Julho·Dezembro 2002


Revista Portuguesa de Ciências do Desporto

Publicação semestral da Faculdade de Ciências do

Desporto e de Educação Física da Universidade do Porto

Vol. 2, Nº 5, Julho·Dezembro 2002, ISSN 1645-0523. Dep. Legal 161033/01

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Revista Portuguesa de Ciências do Desporto

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Revista Portuguesa de

Ciências do Desporto

Vol. 2, Nº 5, Julho·Dezembro 2002

ISSN 1645-0523

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A RPCD é subsidiada pelo

MINISTÉRIO DA JUVENTUDE E DO DESPORTO

CENTRO DE ESTUDOS E FORMAÇÃO DESPORTIVA

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ARTIGOS DE INVESTIGAÇÃO

Como avaliar o modo como as pessoas se percebem

fisicamente? Um olhar sobre a versão portuguesa do

Physical Self-Perception Profile (PSPP)

António Manuel Fonseca, Kenneth Fox

Stress físico do árbitro de futebol no jogo

A. Rebelo, S. Silva, N. Pereira, J. Soares

Aptidão física relacionada à saúde e fatores de risco

predisponentes às doenças cardiovasculares em

adolescentes

Dartagnan P. Guedes, Joana E.R.P. Guedes,

Decio S. Barbosa, Jair A. Oliveira

Padrão de actividade física. Estudo em crianças de

ambos os sexos do 4.º ano de escolaridade

Luísa Magalhães, José Maia, Rui Silva, André Seabra

Efeito do estabelecimento de metas na aprendizagem

do arremesso do basquetebol

Herbert Ugrinowitsch, Luiz E. Dantas

ARTIGOS DE REVISÃO

A investigação sobre o ensino dos jogos desportivos:

ensinar e aprender as habilidades básicas do jogo

A.S. Graça, I.R. Mesquita

Exercício físico e sistema imunológico:

mecanismos e integrações

Carol Leandro, Elizabeth do Nascimento,

Raul Manhães-de-Castro, José Alberto Duarte,

Célia M. M. B. de-Castro

Relação entre atividade física e sobrecarga mecânica

na articulação gleno-umeral

Antonio Pakenas, Júlio C. Serrão

HOMENAGENS

Rosa e Estrela

Jorge Bento

O Desporto como Anatomia do Futuro

(Elogio do Professor Nuno Grande)

Paulo Cunha e Silva

Biomecânica do Desporto - estado da arte na FCDEF-UP

(Elogio do Professor José Ferreira da Silva)

João Paulo Vilas-Boas


Nota editorial

Doping e modelos de homem

Jorge Bento

Na sua edição de 1 de Dezembro de 2002 o jornal

espanhol El País trazia esta notícia, a respeito de um

ciclo de conferências acerca do tema Deporte y dopaje

en el siglo XXI: “Los científicos se reúnen em Madrid

y muestran su pesimismo sobre las possibilidades

reales de la lucha contra el fraude.” No corpo da

notícia é referido o seguinte: “La historia de la lucha

antidopaje es la historia de la pérdida de la ingenuidad

del deporte, paralela siempre a la historia de la

sociedad en que se desarrolla el deporte, la historia

económica también. Todo ello se refleja en la evolución

de las listas de substancias prohibidas, que

muestran también la ineficacia de la lucha: la prohibición

nunca se adelantaba al uso, sino que iba por

detrás.” E mais adiante acrescenta: “Pero, por primera

vez, las autoridades deportivas han querido adelantarse

al uso y en la lista del Comité Olímpico

Internacional (COI) que entrará en vigor en 2003

figura un elemento que aún nadie conoce, que nadie

utiliza, un concepto del que todos hablan y al que

todos temen: el dopaje genético, el protagonista,

según los especialistas, del siglo XXI. El pasado se

quedará en un juego de niños.”

Esta medida do COI vem ao encontro das tentações

e tentativas de produzir atletas de elite com o recurso

a manipulações genéticas e antecipa-se à previsão

de que “dentro de 10 o 20 años, la terapia génica

será normal y el ‘doping’ genético generalizado.” De

resto é já hoje possível injectar ADN no músculo, se

bem que o controle dos efeitos ainda seja incipiente.

Noutra página do mesmo periódico o conhecido

fisiologista Bengt Saltin é particularmente claro: “El

dopaje es una trampa a la que se recurre para ganar,

no para aguantar. (...) De todas formas, todos los

ganadores son deportistas com talento. Y eso sólo lo

dan los genes, no lo olvidemos.” E constata que

muitos resultados, verificados no ciclismo e no esqui

de fundo, são absolutamente improváveis sem a

intervenção do doping. Inquirido sobre se o mesmo

acontece no futebol responde: “No sé mucho, pero

recuerdo que hace unos años estuve en el despacho

de un médico de un equipo y allí había de todo: anabolizantes,

estimulantes...” E, confrontado com a

alegação da gente do futebol de que neste não faz

sentido o doping, dado que o jogo é mais uma questão

técnica e táctica do que física, responde de forma

lapidar: “Eso es falso. En un partido de fútbol hay

que correr mucho y saltar mucho y sprintar y arrancar.

La táctica y la técnica necesitan también cuerpos

fuertes y rápidos. La EPO les va de maravilla.”

Esta notícia e as opiniões nela expressas trouxeramme

à memória uma entrevista concedida por Richard

Pound, Director da AMA-Agência Mundial

Antidopagem, ao jornal Público, de 2002.11.07, em

que o inquirido era particularmente peremptório:

“Muitos médicos e treinadores forçam o uso de

dopantes.”

Em face da dureza destas revelações lembrei-me de

vir aqui glosar um tema que já de outras vezes me

tem ocupado. Venho falar de modelos de homem

inspiradores do ideal do homo sportivus e daquilo que

ele encerra e por detrás dele se esconde. Realmente,

se olharmos com acuidade para o outro lado do desporto,

para lá da coreografia de gestos balizados pelo

código de regras e pelo reportório técnico-táctico,

vemos nele um texto onde se condensa e oferece a

leitura da complexidade e variedade de aspectos que

perfazem a vida dos homens e da sociedade. O caso

do doping ilustra isto muito bem.


1. Como é sabido, o agir humano não dispensa a

inspiração, a orientação e a supervisão de referências

cristalizadas em arquétipos e modelos de pensamento

e comportamento. Nas distintas actividades da

vida (educação, ciência, desporto etc.) pensamos e

actuamos com base em modelos de homem. Neles

investimos ideais e desejos, conferindo-lhes uma

força e função de utopia que nos desafia a superar e

melhorar a realidade existente. Desejamos fazer-nos

e fazer o homem por afeição a grandezas e princípios

culturais e civilizacionais inscritos em tais modelos.

Por outras palavras, nós não nos acomodamos a ser

feitos e comandados pela nossa natureza; somos

produto de um segundo nascimento que nos é dado

pela cultura. Esta é a nossa segunda natureza e ela

toma como objecto da sua curiosidade e ocupação a

natureza primeira, original e biológica.

Deste modo o homem não age movido tão somente

pelas forças, impulsos e instintos oriundos da fonte

primária. E do mesmo modo o corpo humano deixa

de ser apenas natureza primeira e torna-se num

grande campo experimental dos desejos, das visões,

das esperanças, das expectativas mais elevadas e das

fantasias mais prodigiosas. Os exércitos conquistadores,

impulsionados pela ciência, pela tecnologia e

por outros instrumentos e corporações de interesses

em moda, focalizam a sua atenção no corpo e este

deixa de ser tolerado como algo natural fruto do destino

e do acaso. A tentativa de manipular o corpo, de

o tornar disponível para os fins e desejos eleitos, faz

parte de um projecto, estabelecido pela modernidade,

visando o domínio total da natureza.

A segunda natureza do homem quer dispor da primeira

a seu bel-prazer, quer torná-la cada vez menos

natural, mais elaborada e ‘produzida’. E assim a primeira

natureza desaparece progressivamente. E isto

não se aplica apenas à natureza que nos é exterior e

envolve, com implicações na dita crise ecológica;

também o homem perde crescentemente a sua

marca de essência natural, tornando por isso difícil a

definição da relação entre natureza e cultura, entre o

natural e artificial. Ou seja, se a técnica pretende

substituir cada vez mais a natureza original, então as

fronteiras entre o artificial e o natural começam a

desaparecer; e se quase tudo tende para o artificial,

fica comprometida a própria relação entre a primeira

e a segunda natureza e com isso a antropologia

perde em parte o seu objecto.

É nas malhas deste enredo que acontece o diálogo

entre o real e o virtual, que se desenrola o processo

civilizatório, que se funda o projecto da educação e

que se tece a condição humana. Desde os primórdios

da humanidade, o mito prometeico do progresso, da

transformação e melhoria da natureza subjaz à civilização

e ilumina a sua caminhada com o fogo da técnica,

da cultura, da ciência e... também do desporto.

2. O homo sportivus foi e pode ser visto como projecção

da ideia de um homem novo, resultante da congregação

de vários predicados. No fundo é um homo

pluralis ou, se se preferir, um conglomerado de pretensões

elaborado com base em combinações variadas

de determinados traços e características de

modelos gerais de homem. Deste modo assume-se

como um projecto que integra e expressa traços, tendências

e aspectos que são particularmente significativos

para a condição humana e para o seu conceito

nos dias de hoje. O mesmo é dizer que naquele ideal

se reflecte o espírito do tempo, com as suas ambivalências,

contingências, alternativas, oposições e contradições.

Ou seja, no homo sportivus revelam-se

dimensões belas e exaltantes da vida e do homem,

como também manchas e sombras que nos falam de

penumbra e escuridão, do uso problemático e indevido

da liberdade. Por outras palavras, naquele ideal

conflui uma pluralidade de modelos de homem e

alguns deles dão muito que fazer à nossa inquietação

e angústia.

Em todo o caso no homo sportivus configura-se o homo

performator, o homem que às formas originais e antigas

acrescenta formas novas e que assim se alcandora

de modo persistente, sistemático e contínuo a

níveis superiores de forma, de rendimento e performance.

É neste entendimento que enraíza o conceito

da formação e que a procura e obtenção de rendimento

representam algo genuinamente humano e

relevam a dignidade e honra do homem. Não sem

razão, devido à dificuldade do empreendimento, afirmou

Goethe que a coisa mais digna de que se ocupa

o homem é a forma humana; é dar a si mesmo uma

forma digna e consentânea com a consciência daquilo

que pode e deve ser, seguindo a exortação de

Píndaro: Sê quem és!


O homem desportivo é expressão daquele modelo e

conceito, da observância e cumprimento de um mandamento

que convida o homem a fazer-se a si próprio

e à sua individualidade através dos seus rendimentos.

Nele mora uma ânsia de transcendência que exclui o

deixar andar e o dar-se por contente e satisfeito com

o estado alcançado e que o leva nas asas do desassossego

para novos desafios e metas, para novos patamares,

avanços, acrescentos e progressos.

Certamente este ímpeto anima e atiça outros modelos

de homem vigentes na ciência, nas artes, nas

letras etc.; mas talvez em nenhum outro seja tão visível

e palpitante como no modelo do homo sportivus.

Todavia este modelo não atende apenas a parâmetros

quantitativos; incorpora igualmente exigências qualitativas

ligadas ao aprimoramento e aperfeiçoamento

do homem. Como se sabe, o lançamento do desporto

moderno, assumido pela restauração do antigo

projecto olímpico, insere-se num movimento reformista

da educação apostado em contribuir para a

perfeição e completude do homem. Esse movimento

parte da tomada de consciência das nossas imperfeições,

insuficiências e fragmentações e contrapõe a

isso a concretização da ideia da perfectibilidade por

todos os meios e campos de formação e realização

do homem. Ou seja, o homo sportivus reivindica um

estatuto de correcção e compensação e vê-se generosamente

investido na função de modelo de oposição

(ou combate) ao homem imperfeito, moldado por

fraquezas, mazelas e defeitos nos mais distintos planos.

Por isso o lema olímpico (Citius, Altius, Fortius!)

exorta o desportista a voar em direcção à perfeição,

seguindo a rota da harmonia entre natureza e cultura,

fazendo de cada menos um mais, eliminando o

supérfluo para que a beleza atinja o seu máximo

esplendor no casamento feliz da ética com a estética.

Como escreveu Urbano Tavares Rodrigues, ao lançarmos

o dardo importa que ele vá longe, mas é preciso

também que o gesto seja belo.

3. A esse ideal de ética e estética, com o qual é concebido

e medido em muitos ensaios o atleta olímpico,

estão associadas pretensões no domínio do transcendente,

do extraordinário e do sobre-humano que

colocam o campeão desportivo ao nível das estrelas e

bem próximo da divinização. Não admira assim que

nele jorre abundante a fonte dos mitos (e também

da alienação).

Mais ainda, o ideal do homo sportivus encerra o sentido

da superação e da excelência da existência humana,

saltando por cima de todas as bitolas que nos

prendem à terra. A tal ponto que os desportistas de

elite são estilizados como deuses, porquanto os seus

feitos heróicos não conseguem ser devidamente

entendidos, exaltados e valorados se forem apenas

referenciados a modelos de um homem terreno e

carnal.

É precisamente neste ponto que a ambivalência e a

contradição se introduzem. Com efeito o ideal de

perfeição é tão acentuado que aponta para além dos

limites humanos naturais e leva forçosamente a

equiparar o homem a uma máquina. E isto não se

queda ao nível da conjectura. Com o treino e a intervenção

de outros meios quer ver-se realizado um

grande milagre de criação, qual seja o de configurar

o homem e o seu corpo como uma máquina, de conseguir

que o corpo do homo sportivus funcione tão

rigorosa e perfeitamente como o relógio mais fiável

saído da linha de produção de uma renomada marca

suíça. Ademais o corpo-máquina do atleta deve funcionar

em altas rotações como se fosse um motor

equipado com um turbo de elevada cilindragem; e se

não conseguir isso a partir de si mesmo então entra

em acção o doping para fornecer a matéria prima

necessária.

Eis-nos assim na presença de um modelo instrumental

e mecanicista de homem que se entranha no

modelo do homo sportivus e que, por vezes, parece

exercer sobre ele um domínio exclusivo. Ao fim e ao

cabo vê-se definhar a olhos vistos o princípio de

Protágoras, de que o homem é a medida de todas as

coisas, sendo o seu lugar ocupado por uma máxima

chocante que desponta da realidade com força de

imposição: a máquina é a medida de todas as coisas

humanas. Isto é, a ideia e a ambição, tão perigosamente

apresentadas no Renascimento por Vesálio,

Da Vinci e outros, de conceber e construir o corpo

humano como uma máquina e de o subtrair ao livre

arbítrio das forças da natureza encontram finalmente

nos nossos dias aceitação e concretização. E já não

levam à fogueira da Inquisição; pelo contrário, há até

quem lhes devote reconhecimento.


4. Nesta conformidade a pergunta de Kant – o que é

que o homem pode e deve fazer da sua natureza? –

adquire hoje enorme actualidade e relevância, tanto

mais que, a partir de conhecimentos da Biologia, da

Genética e de outras áreas da Medicina, bem como de

instrumentos técnicos, se constitui e alimenta a tentação

de tocar na substância da vida, à luz de utopias

voltadas para o seu aperfeiçoamento. Correspondendo

a pedidos feitos pelas mais diversas finalidades: pragmáticas,

utilitárias e existenciais. E aqui emerge mais

uma vez a questão do uso correcto da liberdade,

sabendo-se da dificuldade em elaborar receitas e balizas

para isso e para evitar a sua perversão.

Independentemente de valorações, o conceito de

autodeterminação, tão caro a Kant e outros filósofos

iluministas, parece estar agora a alcançar pleno significado,

já que o homem quer definir-se e produzirse

de maneira nova. Com o recurso a diversas tecnologias

abrem-se as portas a processos que fundiriam

a produção do homem com a da máquina, misturando

os dois num mesmo produto. Assim sendo, os

tempos vindouros serão profícuos para os que se

entregam à projecção de novos e alternativos modelos

de homem. E pode-se imaginar um futuro risonho

aos especialistas de design que se ocupem do

corpo, até porque a moda cuidará certamente de

criar e explorar na pessoa a necessidade de se equipar

com vários corpos, de os usar, exibir e substituir

de acordo com as recomendações das circunstâncias.

Esta evolução promete não desprezar os apelos a um

‘interessante’, lucrativo e atractivo investimento no

homo sportivus, até porque este sempre consubstanciou

o projecto e o intuito de intervenção da segunda

natureza, entendida como prótese para compensar

os défices e como meio e desafio para melhorar

as expressões e rendimentos da primeira. Como

vimos e sabemos, no desporto em geral encontra já

aplicação e concretização a ideia de aperfeiçoamento

e no desporto de alto rendimento abre-se um vasto

campo de manipulação variada da primeira natureza,

procurando associar cada vez mais intensamente o

homo sportivus e o homo technicus. Por exemplo, o

corpo dopado comprova sobremaneira esta associação

e a dimensão atingida pela componente científica

e técnica.

5. Num tempo de enorme crença na ciência e na tecnologia

e de grandes avanços na possibilidade de

reprodução técnica do homem, o homo sportivus parece

sentir-se confortavelmente deitado na cama e nos

braços do modelo do homo technicus. Até onde isto

nos levará? Talvez passemos a escolher e encomendar

por catálogo os jovens talentos desportivos,

fabricados a pedido segundo preferências e indicações

do material genético, trocando os pais naturais

por uma nova paternidade dada por genes que os

predestinem a ser campeões. Mas... será assim finalmente

conseguido o homem novo tão enfatizado e

exaltado no tradicional ideário do homo sportivus?

Serão os campeões assim gerados objecto da nossa

admiração e encantamento? Merecerão os hinos dos

cantores, os versos e odes dos poetas, os quadros

dos pintores e os bronzes e mármores dos escultores?

Serão a encarnação das nossas paixões mais

vivas e dos nossos sonhos mais sublimes e exaltantes?

Serão o orgulho máximo e a realização suprema

da nossa condição?

Peter Schjerling (El País, 2002.12.01), chefe do

departamento de biologia molecular do Centro de

Investigação do Músculo de Copenhaga e com créditos

firmados na matéria, considera que a dopagem

genética poderia ser levada a cabo agora mesmo,

porém com um risco extremo para o atleta, decorrente

do facto de os genes artificiais não serem fáceis

de controlar e por conseguinte o seu bom funcionamento

ser uma lotaria. Está ciente de que esse tipo

de dopagem se generalizará dentro de alguns anos,

logo que a terapia genética seja um procedimento

normal. Ademais o uso e abuso de tal doping será

favorecido pelo facto de ser extremamente difícil de

detectar, uma vez que os genes artificiais produzem

proteínas idênticas às proteínas normais do corpo

humano.

Não obstante isso o cientista encontra motivos de

sobra para dúvidas e cepticismos. Por um lado, porque,

sendo tão pequeno o grau de controle, o resultado

é muito aleatório, o que o leva a advertir para o

exagero das expectativas: “Não é possível construir

um super-atleta. As técnicas podem mudar o músculo

e melhorar um pouco o rendimento. Podem fazer

o músculo maior ou mais forte, mas não muito. Tem

que se mudar o resto do sistema, tendões e o resto,

porque, se não for assim, rompe-se o equilíbrio fisio-


lógico.” Por outro lado, confrontado com a hipótese

de dentro de algumas décadas as técnicas genéticas

chegarem a um desenvolvimento que não comporte

riscos para a saúde, mesmo assim o emérito cientista

encara como detestável a possibilidade de tal

dopagem. E conclui: “Mas pode ser que no futuro a

questão seja percebida de outra forma. Em todo o

caso não gostaria de contribuir para a criação de um

super-atleta.”

6. A este propósito talvez valha a pena lembrar que

Hannah Arendt, no seu livro A Condição Humana,

adverte os cientistas para a sua falta de carácter e

para a sua ingenuidade e sobretudo para o facto de

habitarem um mundo no qual as palavras perderam

o poder. Segundo ela a irreflexão parece ser uma das

principais características do nosso tempo e por isso

convida-nos a reflectir sobre o que estamos a fazer.

Convida-nos “a uma análise das capacidades humanas

gerais decorrentes da condição humana, e que

são permanentes, isto é, que não podem ser irremediavelmente

perdidas enquanto não mudar a própria

condição humana.”

Creio que foi de certa maneira também a este propósito

que a nossa Faculdade homenageou, em

2002.12.09, os Professores Nuno Grande e José

Ferreira da Silva, há pouco tempo jubilados.

Quisemos assinalar publicamente que os dois ilustres

mestres exerceram na Faculdade um ministério

que deixou marcas indeléveis no subido apreço e

profundo reconhecimento de todos nós. Sempre estiveram

ao nosso lado empenhados na defesa e promoção

da causa da nossa Faculdade. Por isso na

obra, que hoje se vê e manifesta local, nacional e

internacionalmente, eles estão presentes não por

deferência nossa, mas pelos méritos que nos foi possível

aprender entre os muitos que eles tinham para

nos transmitir.

Deles recebemos lições magistrais de conhecimento

e ciência e não menos sublimes e convincentes

demonstrações de cultivo das virtudes da nobreza,

da verticalidade, da honradez e da firmeza das convicções,

de apego a princípios e valores éticos e a

condutas e hábitos cívicos e morais. Sim, na configuração

da nossa consciência académica ficou inscrito o

seu testemunho inolvidável de que as virtudes da

cidadania e as causas da humanidade não se traficam

nem submetem ao jogo dos interesses, oportunismos,

conveniências e proventos das circunstâncias.

De que é em nome dessas causas e virtudes que

devemos assumir o nosso papel entre todos os sujeitos

da feitura da realidade da vida e do mundo.

Foi com estes professores que a nossa Faculdade

meteu pés ao caminho de se fazer e foi com a sua

supervisão participante, com o seu estímulo e encorajamento

permanentes e com a sua confiança e

optimismo transbordantes que nos tornámos actores

com corpo visível e voz audível no palco de representação

da missão da Universidade.

Agora que eles se retiram e nos deixam com o estatuto

de emancipação e de maioridade que nos outorgaram

é que mais sentimos responsabilizante e desafiante

a sua presença, porque na carta de alforria fica

sempre registada a patente de quem a concede. Esta

é, pois, uma hora de balanço e desafio em que revivemos

a paixão do começo e o entusiasmo de que se

alimentou a trajectória que nos trouxe até aqui. Em

que tomamos como certo e inexorável que, se perdermos

a memória daquele tempo e dos seus sentimentos

e afectos mobilizadores, há-de fenecer em

nós a vontade de empreender, de assumir e respeitar

compromissos, de inovar, de criar coisas novas, de

nos recriarmos e reinventarmos. Que começaremos a

andar para trás e que a acomodação, o demissionismo,

a rotina e a mediania tomarão conta do nosso

dia a dia e das nossas vidas.

Ao recordar e invocar os nomes muito queridos dos

Professores Nuno Grande e Ferreira da Silva, estaremos

sempre a relembrar a paixão e o entusiasmo do

começo e a recriar a determinação e as forças do

fazer, do avançar, do vencer. Porque o melhor que

aprendemos e sabemos tem o seu certificado de origem.

E disso há-de esta casa guardar sempre memória,

com o sabor doce da saudade e da gratidão. Bem

hajam!

Igualmente iluminados pelo sentido cívico e pela

obrigação de exaltar o mérito de quem cumpre o trajecto

da vida de modo limpo e exemplar, promovemos

a realização de uma homenagem à atleta Rosa

Mota, por ocasião da passagem de 20 anos sobre a

data (1982.09.12) da conquista da sua primeira

medalha de ouro nos Campeonatos Europeus de


Atletismo em Atenas. A solenidade teve lugar no

Casino da Póvoa, em 2002.10.09.

Metacorpo, corpo sem corpo e além dele, Rosa não

corre na Terra. Voa no espaço e corta a meta no Céu

como astro e ícone da sublimação. Rosa não tem

peso; é atleta alado do nosso sonho e aspiração. Não

enfrenta a gravidade; Rosa é uma fulguração.

Rosa da nossa essência e transcendência. Rosa da

e da esperança. Do riso e da bonança. Do nosso querer

e exaltação. Rosa sinfonia da nossa condição.

Estrela brilhante na escuridão.

Rosa inteira, sem a mácula do azedume e das desculpas

da falta de ambição. Rosa sem espinhos e esgares

de crispação. Rosa de sorrisos nas palavras da

boca e nos gestos da mão. Rosa dos afectos e da

nossa gratidão. Rosa florida na labuta do sangue e

do coração.

Rosa da humildade e da alegria. Do canto e da poesia.

Rosa do povo e da democracia. Rosa esculpida

na pedra da vida. Rosa de ouro, de prata e marfim.

Rosa de todos e de mim.

Rosa dos ventos, dos mares e da distância; Rosa

padrão da nossa errância. Rosa de Atenas. Rosa de

Seul. Rosa simpatia de todos os lugares. Rosa admiração

de todos os olhares. Rosa da Humanidade e da

nossa cidade. Rosa universal, do mundo e de

Portugal. Rosa de Setembro, mas intemporal. De

carne e osso, mas imaterial. Rosa prodigiosa e única,

mas natural. Rosa laboriosa e generosa, sem igual.

Para sempre Rosa!


ARTIGOS DE

INVESTIGAÇÃO


Como avaliar o modo como as pessoas se percebem fisicamente?

Um olhar sobre a versão portuguesa do Physical Self-Perception

Profile (PSPP)

António Manuel Fonseca

Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física

Universidade do Porto

Portugal

RESUMO

O objectivo desta pesquisa consistiu na análise das propriedades

psicométricas da versão portuguesa do Physical Self-Perception

Profile (PSPP): o PSPPp. Participaram neste estudo 729 adultos

(idades compreendidas entre os 20 e os 50 anos; média de

31.18 ± 8.27 anos) de ambos os sexos (470 do sexo feminino e

259 do sexo masculino), que praticavam uma actividade física

ou desportiva de forma não competitiva. Os dados foram divididos

em duas metades equivalentes. A primeira foi submetida a

uma Análise Factorial Exploratória que permitiu identificar duas

soluções constituídas por 3 e 4 factores. Em seguida, utilizando

a outra metade dos dados, foi realizada uma Análise Factorial

Confirmatória a quatro modelos distintos: i) M424, constituído

por 24 itens distribuídos por 4 factores (idêntico ao da versão

original do PSPP: Competência Desportiva, Condição Física,

Aparência Física e Força Física); ii) M324, com 24 itens e 3 factores

(considerando os dois primeiros factores conjuntamente);

iii) M416, com 16 itens e 4 factores (similar ao da versão original

mas com apenas 4 itens por factor); e iv) M312, com 12

itens e 3 factores (similar ao modelo 2, mas com apenas 4 itens

por factor). A análise dos vários indicadores de ajustamento global

seleccionados forneceu evidência clara no sentido da bondade

do ajustamento do modelo M312 e da sua superioridade relativamente

aos outros modelos, razão pela qual se recomenda a

sua utilização. Ainda assim, é recomendada a realização de mais

trabalho no sentido do completo estabelecimento da validade e

fiabilidade do PSPPp, bem como do desenvolvimento de uma

escala destinada a avaliar a capacidade física funcional percebida

pelos indivíduos.

Palavras-chave: autopercepções físicas, avaliação, instrumento,

propriedades psicométricas.

Kenneth Fox

Universidade de Bristol

Inglaterra

ABSTRACT

How do people perceive themselves physically?

A look into the Portuguese version of the Physical

Self-Perception Profile (PSPP).

The purpose of this research was to analyse the psychometric properties

of the Portuguese version of Physical Self-Perception Profile (PSPP):

PSPPp. The sample consisted of 729 adults aged between 20-50 years

(31.18 ± 8.27 years) of both sexes (470 females and 259 males) who

participated regularly in physical activities or recreational sports. Data

were divided in two equivalent halves. The first half was analysed with

Exploratory Factor Analysis that identified two solutions with 3 and 4

factors. The second half of the data was used to test four different

models by Confirmatory Factor Analysis: i) M424, with 24 items and

4 factors (identical to the original version of PSPP: Sport Competence,

Physical Condition, Body Appearance and Physical Strength); ii)

M324, with 24 items and 3 factors (considering first two factors jointly);

iii) M416, with 16 items and 4 factors (similar to original version

but with only 4 items for factor); and iv) M312, with 12 items and 3

factors (similar to model 2, but with only 4 items for factor). Analysis

of several standard criteria showed that the model M312 showed the

better fit to the data, and therefore its use is recommended.

Nevertheless, further work is needed in order to establish the validity

and reliability of PSPPp, as well as the development of a scale to evaluate

the perceived functional physical capacity in adults.

Keywords: physical self-perceptions, assessment, instrument, psychometric

properties.

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António Manuel Fonseca, Kenneth Fox

INTRODUÇÃO

Apesar de parecer ser consensual associar à prática

regular de actividade física diversos benefícios de

natureza psicológica (9, 34, 35), a investigação no

domínio das auto-percepções físicas pode considerar-se

ainda como insuficiente (16).

Até há relativamente pouco tempo, uma das principais

limitações ao desenvolvimento da investigação

neste domínio consistia na escassez de instrumentos

fiáveis e válidos para proceder à caracterização e avaliação

do modo como os indivíduos percebem a sua

dimensão física. No entanto, nos últimos anos foram

desenvolvidos alguns instrumentos que têm vindo a

revelar-se como fiáveis e válidos para esse fim, contribuindo,

desse modo, para o desenvolvimento do

conhecimento neste domínio.

De entre estes, um dos que mais se tem destacado

positivamente é o Physical Self-Perception Profile

(PSPP) (18). O PSPP, cujos autores se basearam em

grande medida nos trabalhos de Susan Harter, possibilita

aos inquiridos a indicação das suas percepções

relativamente a si próprios no que concerne a vários

aspectos do seu ‘eu físico’.

O PSPP é constituído por cinco escalas: competência

desportiva (i.e., percepções acerca da capacidade desportiva

e atlética, capacidade para aprender técnicas

desportivas, e confiança em contextos desportivos),

condição física (i.e., percepções acerca do nível de

condição física, estamina e fitness, capacidade para

persistir na prática de actividade física, e confiança

em contextos de actividade física e fitness), aparência

física (i.e., percepções acerca da atracção exercida

nos outros pela sua figura ou físico, capacidade para

manter um corpo atraente, e confiança na aparência),

força física (i.e., percepções acerca da força física,

desenvolvimento muscular, e confiança em situações

que exigem força) e auto-estima física (i.e., sentimentos

generalizados de alegria, satisfação, orgulho,

respeito e confiança no ‘eu físico’).

A inclusão da escala relativa à auto-estima física procurou

permitir a avaliação de dois níveis distintos de

autopercepção física, ordenados verticalmente em

termos de especificidade (situacional/genérico).

Assim, enquanto as quatro primeiras escalas permitem

recolher informação acerca do modo como os

indivíduos se percepcionam relativamente a cada

uma das quatro facetas anteriormente descritas, a

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escala da auto-estima física orienta-se para a recolha

de informação referente ao modo como eles se sentem

em relação à sua dimensão física em geral.

Cada uma das cinco escalas do PSPP é igualmente

constituída por seis itens, relativamente a cada um

dos quais os inquiridos se pronunciam através de

uma estrutura de resposta igual à proposta por

Harter; isto é, de ‘formato de estrutura alternativa’.

Neste formato, cada item consiste num par de afirmações

contrárias (e.g., «algumas pessoas sentem

que não são muito boas quando se trata de praticar

desporto» mas «outras sentem que são realmente

boas acerca de qualquer desporto»), devendo o inquirido,

numa primeira fase, seleccionar a afirmação que

lhe parece descrevê-lo melhor, para, em seguida, indicar

o grau de semelhança que entende que essa afirmação

tem consigo (i.e., se entende que, no seu caso,

a afirmação seleccionada é «realmente verdade», ou

apenas «mais ou menos verdade»).

A opção por este formato – que normalmente provoca

uma maior dificuldade aos inquiridos para responder

às questões (15, 25, 36) – baseou-se no facto

de ter vindo a ser demonstrado que deste modo é

eliminada a tendência dos indivíduos para responderem

de acordo com o que consideram ser socialmente

mais aceite ou desejável (15, 17, 18).

O PSPP, ao permitir a avaliação simultânea de diferentes

facetas do eu físico (18), tem sido por vezes utilizado

em combinação com um instrumento de avaliação

da auto-estima global, como por exemplo o Inventário

de Auto-Estima de Rosenberg (33), fornecendo, dessa

forma, uma estrutura conceptual útil para a investigação

dos mecanismos de modificação da auto-estima

através da actividade física ou desportiva.

Inclusivamente, Sonstroem, Harlow e Josephs (37)

modificaram o modelo anteriormente proposto por

Sonstroem e Morgan (38) exactamente com esse

objectivo, considerando a existência de dois níveis

diferenciados de competência física percebida, tendo

verificado que os dados recolhidos no âmbito de um

estudo realizado com uma amostra de praticantes de

aeróbica do sexo feminino suportaram essa alteração.

Mais tarde, também Whitehead (45), na sequência

de um estudo realizado com mais de 500 estudantes,

declarou ter encontrado suporte para a hipótese da

auto-estima física se situar a um nível intermédio

entre a auto-estima geral e as quatro facetas repre-


sentadas pelas escalas do PSPP, neste caso de uma

versão adaptada para crianças.

O PSPP tem sido utilizado em numerosos estudos e

a sua fiabilidade e validade na avaliação das auto-

-percepções dos indivíduos tem sido salientada por

diversas vezes (15, 18, 25, 31, 39). Aliás, a qualidade

deste instrumento pode ser aferida, por exemplo,

a partir das palavras de dois conceituados autores

neste domínio: Sonstroem (36) - «O desenvolvimento

do Physical Self-Perception Profile (PSPP) (Fox &

Corbin, 1989) representa um importante avanço no

estudo do eu físico (p.11)» - e Marsh (23) - «O PSPP

é o instrumento multidimensional do autoconceito

físico mais robusto do directório de Ostrow (1990

(p.40)» [directório de testes psicológicos relacionados

com as ciências do desporto e do exercício].

De recordar, porém, que o PSPP foi desenvolvido

originalmente nos Estados Unidos da América com

jovens estudantes universitários, tendo Fox (15)

recomendado que a sua aplicação a outras populações

deveria ser acompanhada pela realização de

uma extensa análise às suas propriedades psicométricas,

no sentido da determinação da sua validade e

fiabilidade. Mais recentemente, também Marsh (23)

secundou as recomendações de Fox, reforçando a

necessidade de realizar análises psicométricas extensivas

ao PSPP aquando da sua utilização em situações

e populações distintas daquelas com as quais

foi inicialmente desenvolvido.

Desde a sua publicação, o PSPP foi rapidamente adoptado

por investigadores de diversos países, ao ponto

de estar hoje disponível em 9 línguas diferentes, entre

as quais a portuguesa. De facto, o PSPP foi traduzido

para a língua portuguesa no âmbito de uma cooperação

iniciada em 1995 sob a coordenação dos autores

deste estudo (13), e utilizado posteriormente nalguns

estudos desenvolvidos entre nós (14, 29, 30).

Para que a versão traduzida fosse o mais possível

equivalente à versão original, quer do ponto de vista

semântico quer do conteúdo, baseámo-nos nas sugestões

de Vallerand (42) relativamente à tradução e

adaptação transcultural de instrumentos psicológicos.

Assim, a tradução inicial do PSPP para a língua portuguesa

foi realizada por dois especialistas bilingues,

tendo essa tradução sido, posteriormente, sujeita à

apreciação de um júri, constituído por psicólogos,

treinadores e tradutores. Concluída esta fase, foram

Avaliação de autopercepções físicas

realizadas entrevistas com atletas com características

diferentes entre si (e.g., sexo, idade, modalidade

desportiva praticada), no sentido de determinar a

compreensibilidade e uniformidade intercontextual

do instrumento. Atendendo a que não foram identificadas

quaisquer dificuldades por parte dos inquiridos

na resposta aos seus diversos itens, considerámos

criada a versão portuguesa do PSPP, por nós

denominada de Perfil de Auto-Percepção Física

(PSPPp) (12).

Para a realização dos estudos anteriormente referidos,

foi naturalmente desenvolvido um processo de

avaliação da fiabilidade e validade do PSPPp, tendo os

resultados sido prometedores. Todavia, em nenhum

desses estudos, se recorreu, por exemplo, à estatística

multivariada da análise factorial, actualmente considerada

como imprescindível para que se possa concluir

efectivamente no sentido da validade e fiabilidade

de um instrumento psicológico, principal razão

pela qual decidimos desenvolver o presente estudo.

Efectivamente, parece constituir-se hoje como inequívoca

a utilidade, ou mesmo necessidade, de, no

domínio da análise da validade de um instrumento

psicológico, se recorrer à análise factorial exploratória

(AFE) ou confirmatória (AFC), decorrendo a

opção entre elas da existência ou não de uma ideia

prévia relativamente consistente sobre a estrutura

mais adequada ao instrumento em questão.

Enquanto a AFE é utilizada para explorar um conjunto

de dados, e determinar o número e natureza

dos factores que contribuem para a covariância entre

as variáveis investigadas, quando o investigador não

possui ainda suficientes evidências no sentido da

elaboração de uma hipótese relativamente aos factores

que lhes estão subjacentes, a AFC é utilizada

quando antecipadamente é possível elaborar essa

hipótese com alguma segurança.

Daí que se refira frequentemente que, enquanto com

a AFE se procura construir teoria, com a AFC procura-se

testar essa mesma teoria (40), resultando portanto

que a AFE seja mais associada à fase de desenvolvimento

de um instrumento e a AFC à fase de

determinação da sua validade.

Em decorrência do anteriormente exposto, e atendendo

a que o objectivo do nosso estudo passava

pelo exame às propriedades psicométricas de um

instrumento já existente, designadamente no que

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António Manuel Fonseca, Kenneth Fox

concerne à determinação da validade da sua estrutura

factorial, seria natural que a nossa opção fosse no

sentido da utilização exclusiva da AFC.

Todavia, nem sempre a análise dos resultados recolhidos

através da aplicação de versões traduzidas do

PSPP para outras línguas e culturas tem permitido

identificar sem problemas a estrutura proposta para

a versão original do instrumento, especificamente no

que se reporta ao número de factores que a constituem

(19, 20, 43).

Logo, em lugar de procurar avaliar imediatamente,

através da AFC, o grau de correspondência entre a

estrutura proposta para a versão original e os dados

relativos à nossa realidade, entendemos ser mais

correcto desenvolver um estudo inicial no sentido de

recolher o máximo possível de informação relativamente

a formas alternativas de agrupamento das

diferentes variáveis que constituem o PSPPp, utilizando

para o efeito a AFE, e apenas depois procurar

testar a sua validade, a partir do recurso à AFC.

MATERIAL E MÉTODOS

Amostra e procedimentos

Participaram neste estudo 729 adultos de ambos os

sexos (470 do sexo feminino e 259 do sexo masculino),

praticantes de jogging, aeróbica, natação e musculação,

em contextos não competitivos, com idades

compreendidas entre os 20 e os 50 anos (média de

31.18 ± 8.27 anos). O preenchimento do PSPPp foi

efectuado antes ou após uma das suas aulas e decorreu

sem dificuldades.

Perspectiva global sobre a análise dos dados

Para a inspecção à estrutura factorial do PSPPp, apenas

foram considerados 24 dos seus 30 itens, tendo

sido excluídos os constituintes da escala da auto-

-estima física. Esta decisão decorreu da consideração

de que, em concordância com a teoria que esteve

subjacente à elaboração do PSPP, a escala relativa à

auto-estima física não deve ser colocada a um

mesmo nível de análise, porquanto corresponde a

um contructo super-ordenador resultante dos outros

quatro constructos (18).

Tal como referimos anteriormente, a nossa investigação

desenvolveu-se em duas fases fundamentais: a

primeira, essencialmente exploratória, e a segunda

confirmatória. Na linha do proposto nesta área do

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conhecimento, dividimos aleatoriamente os dados

relativos à amostra total em duas metades equivalentes,

utilizando uma delas para realizar o estudo

exploratório e a outra para o estudo confirmatório.

Pedhazur e Schmelkin (32) alertaram para o facto de

que “a análise factorial exploratória não é, ou não

deve ser, um processo no qual todo o tipo de variáveis

é introduzido numa ‘trituradora’ análise factorial,

na esperança de que dela emirja algo com significado

(p.591)”.

Nessa medida, e atendendo igualmente a que, tal

como alertou Mulaik (27), “racionalmente, não existe

forma óptima de extrair conhecimento da experiência

sem efectuar determinadas assunções prévias

(p.265)”, decidimos condicionar o processo de

extracção dos factores, definindo que eles deveriam

ser três ou quatro. Para esta opção, concorreu, fundamentalmente,

o reconhecimento de que, por um

lado, a estrutura factorial original do PSPP é constituída

por quatro factores, mas, por outro, por em

alguns dos estudos desenvolvidos com versões traduzidas

do PSPP apenas terem sido identificados

três factores.

Quanto ao método a seguir para realizar a rotação

dos factores, e apesar de ser hábito os investigadores

optarem pela rotação varimax, baseámo-nos uma vez

mais nas indicações da literatura, designadamente

no que se refere ao facto de a teoria subjacente à

construção do PSPP postular que os factores que o

constituem se correlacionam uns com os outros,

optando pela rotação oblimin.

Para a retenção de um item num factor, decidimos

considerar apenas os que apresentassem um valor de

saturação igual ou superior a .40 nesse factor, correspondente

à partilha entre eles de, pelo menos,

10% da variância (41).

Com a segunda fase da nossa investigação, procurámos

determinar qual o modelo de medida mais ajustado

à matriz de covariância do segundo conjunto de

dados, analisando em alternativa a estrutura factorial

proposta para a versão original e a estrutura identificada

durante a primeira fase do estudo.

Adicionalmente, considerámos importante tentar

verificar se seria possível diminuir o número original

de seis itens por factor, sem que tal redução exercesse

um impacte negativo ao nível das suas propriedades

psicométricas, porquanto tal parcimónia permiti-


ia tornar mais fácil e rápida a aplicação do PSPPp, e

isso se constituiria como uma vantagem a considerar

pelos investigadores.

De uma forma geral, considera-se que dois indicadores

por factor é o número mínimo, sendo todavia

mais seguro optar por três ou quatro. Aliás, caso as

correlações entre os factores sejam elevadas, o mais

aconselhável é optar por quatro indicadores por factor,

entendendo-se, normalmente, que cinco ou mais

indicadores por factor é mais do que suficiente.

Assim sendo, e considerando que, pelo menos no

plano teórico, os vários factores do PSPPp se correlacionam

entre si, decidimos optar por testar alternativamente

uma solução com apenas quatro indicadores

por factor.

Para determinar se um modelo de medida apresenta

ou não um bom grau de correspondência com um

conjunto de dados existe actualmente uma elevada

profusão de índices (para mais detalhes sobre índices

de bondade de ajustamento de um modelo de

medida, ver [3, 8, 24, 26]). Nessa medida, decidimos

optar apenas pelos que parecem reunir o maior

consenso, sendo por isso utilizados pela maior parte

dos investigadores no domínio da análise da validade

de instrumentos psicológicos.

Um dos índices ao qual se recorre imediatamente é

o χ 2, o qual testa a hipótese de que o modelo de

medida proposto é consistente com a matriz de

covariância dos dados examinados: quanto mais

baixo o seu valor, maior a consistência entre eles.

Avaliação de autopercepções físicas

No entanto, como este índice é reconhecidamente

sensível à dimensão da amostra (essencialmente, a

partir de um n>200), os investigadores desenvolveram

outros índices para avaliar a qualidade global do

ajustamento dos modelos, tais como o goodness of fit

index (GFI) e o adjusted goodness of fit index (AGFI),

gerados pelo programa estatístico LISREL. Outros

índices também considerados frequentemente pelos

investigadores são o rácio entre o χ 2 e os graus de

liberdade, o comparative of fit index (CFI), a standardized

root mean square residual (RMRst) e a root mean

square of error of aproximation (RMSEA). No nosso

estudo, decidimos considerar todos os índices anteriormente

referidos.

RESULTADOS

A inspecção às duas soluções identificadas a partir

da AFE (ver quadro 1) revelou que quase não se

verificaram casos de saturação cruzada, já que, com

uma ou outra excepção, cada item saturou de forma

evidente apenas num dos factores (as excepções

foram os itens 02 e 08 na solução de 4 factores, e os

itens 02, 08 e 28 na solução de 3 factores: todos eles

saturaram em dois factores). No que concerne à proporção

da variância explicada por cada uma delas,

verificámos que enquanto a solução de três factores

explicava quase 50% da variância das respostas aos

itens, a de quatro factores explicava aproximadamente

5% mais.

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [11–23] 15


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António Manuel Fonseca, Kenneth Fox

Quadro 1. Análise Factorial Exploratória (rotação oblimin) ao PSPPp. Soluções com três e quatro factores.

AFE – 4 FACTORES AFE – 3 FACTORES

Competência Aparência Força Condição Confiança Aparência Força

Desportiva Física Física Física Física Física Física

PSPPp.24 .77 .70

PSPPp.04 .78 .78

PSPPp.14 .64 .64

PSPPp.09 .54 .63

PSPPp.19 .46 .46

PSPPp.29 .70 .55

PSPPp.06 .49 .51

PSPPp.16 .48

PSPPp.17 .75 .75

PSPPp.13 .61 .66

PSPPp.11 .59 .68

PSPPp.21 .55 .59

PSPPp.01 .62 .66

PSPPp.02 .47 .42 .44 .51

PSPPp.03 .76 .71

PSPPp.18 .77 .75

PSPPp.08 .44 .49 .43 .53

PSPPp.28 .46 .40 .41

PSPPp.23 .47

PSPPp.07 .72 .52

PSPPp.22 .65 .41

PSPPp.12 .41 .51

PSPPp.27 .44 .51

PSPPp.26 .60 .41

Valor próprio 8.47 1.73 1.45 1.31 8.47 1.73 1.45

Variância explicada 35.28 7.18 6.06 5.47 35.28 7.18 6.06

Ao compararmos as duas soluções, verificámos que os

seus segundo e terceiro factores eram praticamente

idênticos (com uma única excepção: enquanto na

solução de quatro factores aos itens 04, 09, 14, 19,

24, 27 e 29 se associou o item 23, na solução de três

factores, em lugar do item 23, foi o item 07 que se

associou aos itens anteriormente indicados), e que o

primeiro factor da solução de três factores integrou

praticamente todos os itens que constituíam o primeiro

e o quarto factores da solução de quatro factores.

Efectivamente, da análise à constituição de cada um

dos factores, resultou que os segundo e terceiro factores

de ambas as soluções se assemelharam em

grande medida, e respectivamente, aos factores

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [11–23]

Aparência Física e Força Física da estrutura original

do PSPP, razão porque decidimos manter aquelas

designações. Seguindo o mesmo raciocínio, e no que

concerne à solução de quatro factores, decidimos

manter igualmente as designações dos outros dois

factores da estrutura original do PSPP, ainda que no

caso do quarto factor, designado por Condição

Física, essa semelhança não tivesse sido tão evidente,

fundamentalmente porque foi constituído por

apenas três itens.

Relativamente à solução de três factores, decidimos

denominar o primeiro factor de Confiança Física,

não só pelo facto de nele terem saturado a maioria

dos itens dos factores originais Competência


Desportiva e Condição Física, mas também pelo

facto de os itens que nele saturaram de forma mais

evidente parecerem sugerir acima de tudo a existência

de uma variável mais relacionada com o à-vontade

manifestado pelas pessoas em situações de actividade

física ou desportiva; ou seja, este factor, mais

do que apontar no sentido da obtenção de elevados

níveis de rendimento, parece indiciar a existência de

uma elevada confiança por parte das pessoas na participação

em actividades daquela natureza.

Considerando os resultados da AFE, decidimos realizar

AFC’s para comparar o grau de ajustamento do

modelo de três factores decorrente da AFE, bem

como o do modelo original do PSPP, à segunda metade

dos dados recolhidos. Para além disso, decidimos

ainda investigar o grau de ajustamento de outros

dois modelos de medida, globalmente semelhantes

aos dois anteriormente referidos, mas constituídos

por um menor número de itens; mais especificamente,

quatro por factor.

Assim sendo, foram submetidos à AFC quatro

modelos de medida distintos do PSPPp:

i) um modelo M 4 24 (ver Figura 1), baseado nas

sugestões dos autores da versão original do PSPP,

com os 24 itens distribuídos por quatro factores:

Competência Desportiva (itens 01, 06, 11, 16,

21, e 26) Condição Física (02, 07, 12, 17, 22, e

27), Aparência Física (03, 08, 13, 18, 23, e 28) e

Força Física (04, 09, 14, 19, 24, e 29);

ii) um modelo M 3 24 (ver Figura 2), baseado nos

resultados da AFE anteriormente realizada, com

os 24 itens distribuídos por três factores:

Confiança Física (itens 01, 02, 06, 07, 11, 12,

16, 17, 21, 22, 26 e 27), Aparência Física (03,

08, 13, 18, 23, e 28) e Força Física (04, 09, 14,

19, 24, e 29);

iii) um modelo M 4 16 (ver Figura 3), baseado nas

sugestões dos autores da versão original do PSPP,

com os 16 itens distribuídos por quatro factores:

Competência Desportiva (itens 01, 11, 16, e 21)

Condição Física (07, 12, 22, e 27), Aparência

Física (03, 08, 18, e 28) e Força Física (04, 09,

14, e 24).

Avaliação de autopercepções físicas

iv) um modelo M 3 12 (ver Figura 4), baseado nos

resultados da AFE anteriormente realizada, com

os 12 itens distribuídos por três factores:

Confiança Física (itens 01, 11, 17, e 21),

Aparência Física (03, 08, 18, e 28) e Força Física

(04, 09, 14, e 24).

Figura 1. Modelo de medida M 4

24 do PSPPp.

Figura 2. Modelo de medida M 3

24 do PSPPp.

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António Manuel Fonseca, Kenneth Fox

Figura 3. Modelo de medida M 4

16 do PSPPp.

Figura 4. Modelo de medida M 3

12 do PSPPp.

Da análise comparativa dos valores dos indicadores

correspondentes à bondade do ajustamento global de

cada um dos modelos de medida submetidos à AFC

(ver quadro 2) resultou claramente a superioridade

do modelo M312, relativamente a todos os outros.

Quadro 2. Índices de bondade do ajustamento global

para cada um dos modelos inspeccionados.

Modelo χ 1 gl χ 1/gl GFI AGFI CFI RMSEA RMRst

M424 733.37 p


nenhum dos modelos testados se revelou de forma

muito negativa neste parâmetro.

Finalmente, conforme é possível verificar através da

consulta ao quadro 3, o cálculo do alfa de Cronbach

para cada um dos factores dos quatro modelos investigados

revelou que todos apresentaram uma aceitável

consistência interna, porquanto nenhum foi inferior

ao valor critério de .70, proposto por Nunnally (28).

Quadro 3. Valores do alfa de Cronbach para todos

os factores dos modelos investigados.

Factores M 4 24 M 3 24 M 4 16 M 3 12

Competência Desportiva .79 .74

Condição Física .75 .74

Aparência Física .78 .78 .73 .73

Força Física .82 .82 .79 .79

Confiança Física .86 .71

DISCUSSÃO E CONCLUSÕES

Na origem deste estudo situou-se o reconhecimento

de que era necessário investigar, de forma mais profunda

e sistemática do que havia sido feito até ao

momento, as propriedades psicométricas da versão

portuguesa do PSPP, particularmente em relação à

sua estrutura factorial e consistência interna.

De uma forma geral, as várias análises desenvolvidas

ao longo do nosso estudo revelaram que uma estrutura

constituída por três factores, e não quatro, se

ajustou melhor aos dados examinados. Ou seja,

pareceu não haver evidência suficiente para a sustentação

da proposta de uma estrutura para o PSPPp

similar à identificada para a versão original.

Para proceder à elaboração do PSPP, Fox e Corbin

(15, 18) desenvolveram um extenso trabalho de

natureza qualitativa (de entre o qual se pode destacar

a realização de entrevistas com indivíduos de

diferentes características, análise de conteúdo das

suas respostas, revisão da literatura especializada e

análise de outros instrumentos já existentes nesta

área) e quantitativa (recorrendo a um conjunto bastante

alargado e completo de técnicas estatísticas

que providenciou um forte suporte para a sua validade

e fiabilidade). Nessa medida, não surpreende que

tenham sido vários os investigadores que utilizaram

Avaliação de autopercepções físicas

o PSPP nas suas investigações e que atestaram a sua

validade e fiabilidade para os fins para os quais foi

proposto (para mais detalhes, ver [17]).

Tal como referimos anteriormente, e na sequência da

importância que lhe é atribuída no domínio da avaliação

do modo como as pessoas se percebem fisicamente,

o PSPP foi traduzido para diversas línguas e

culturas por investigadores que, naturalmente, se

preocuparam igualmente em determinar as qualidades

psicométricas das versões traduzidas, particularmente

no que se refere à sua estrutura factorial. Os

resultados não têm sido todavia unânimes; isto é,

alguns dos autores que traduziram e adaptaram o

PSPP para outras línguas e culturas reportaram dificuldades

em identificar a estrutura factorial proposta

para a versão original do PSPP.

Por exemplo, Van der Vliet e colaboradores (43),

num estudo realizado na Bélgica com a versão flamenga

do PSPP para adultos, referiram ter encontrado

suporte para uma estrutura constituída por três

factores e não quatro (com os factores Competência

Desportiva e Condição Física a unirem-se num só

factor). Do mesmo modo, Hagger, Ashford e

Stambulova (19, 20), ao analisarem dados relativos a

jovens britânicos e russos, revelaram não ter encontrado

evidência suficiente no sentido da confirmação

do modelo de quatro factores do PSPP para crianças.

Estes autores destacaram ainda que, ao analisarem a

invariância estrutural do instrumento (ao longo do

género sexual e do país dos participantes no estudo),

em todos os conjuntos de dados examinados, os

valores de saturação dos diferentes itens nos factores

definidos apresentaram um padrão semelhante.

Nessa medida, alertaram para a possibilidade de o

problema ser de natureza psicométrica, não decorrendo

de dificuldades por parte das amostras investigadas,

porquanto elas foram consistentes no modo

como lhe responderam.

Importará talvez recordar que a questão do número

exacto de factores constituintes do PSPP-C já havia

sido colocada, ainda que de forma não tão marcada,

em estudos realizados nos Estados Unidos da

América por Whitehead e Corbin (45, 46). No âmbito

destes estudos foram identificados, através do

recurso à técnica da AFE, cinco factores e não quatro,

bem como verificada a existência de alguns itens

com valores de saturação cruzada, particularmente

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [11–23] 19


20

António Manuel Fonseca, Kenneth Fox

nos factores da Aparência Física e da Condição

Física, no caso dos rapazes, e dos factores

Competência Desportiva e Condição Física, no caso

das raparigas.

No mesmo sentido, também Biddle e colaboradores

(5), num estudo realizado em Inglaterra, verificaram

que as crianças evidenciaram algumas dificuldades

em distinguir claramente entre Competência

Desportiva e Condição Física, razão pela qual a

estrutura de quatro factores proposta para o PSPP-C

não foi claramente interpretável a partir da análise

das suas respostas.

Num outro estudo desenvolvido em Inglaterra, por

Page e colaboradores (31), e não obstante a análise

de componentes principais (ACP) às matrizes de

correlação dos dados relativos a duas amostras de

jovens adultos (idades médias de 19.42 ± 2.41 e de

21.13 ± 6.23 anos) ter providenciado um forte

suporte para a estrutura de quatro factores proposta

por Fox (15), foi igualmente evidente que alguns

itens, particularmente os relativos à Condição Física,

apresentaram valores de saturação cruzada.

Ainda Welk, Corbin e Lewis (44), ao depararem com

uma elevada correlação entre as sub-escalas da

Condição Física e da Competência Desportiva, bem

como com a saturação cruzada de vários itens ao

longo das duas sub-escalas, pronunciaram-se acerca

da possibilidade de os dois constructos que lhes

estão subjacentes não serem entendidos de forma

tão distinta pelos inquiridos quanto a que pressupõe

a sua separação em duas sub-escalas, sugerindo por

isso mesmo a necessidade de mais investigação

sobre esta questão. De sublinhar, porém, que uma

análise factorial confirmatória posteriormente realizada

por Eklund, Whitehead e Welk (11) aos mesmos

dados, em combinação com os dados do também

já referido estudo de Whitehead (45), providenciou

um claro suporte para existência de uma estrutura

de quatro factores para o PSPP-C.

Mais recentemente, Asçi, Asçi e Zorba (2), num estudo

realizado com a versão turca do PSPP, no qual participaram

jovens universitários, identificaram, através

do recurso à ACP, uma solução idêntica à da versão

original. Do mesmo modo, também Atienza, Balaguer

e Moreno (1), num estudo com a versão espanhola do

PSPP, realizado com adolescentes, concluíram que os

seus resultados providenciaram suporte para a exis-

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [11–23]

tência de uma estrutura de quatro factores similar à

proposta para a versão original do PSPP.

Neste caso, porém, se atentarmos nos resultados da

AFC que estiveram na origem daquela conclusão

(rapazes: χ 2/gl=1.78, RMR=.06, AGFI=.82, α=.76-

.84; e raparigas: χ 2/gl=2.42, RMR=.07, AGFI=.82,

α=.79-.85) constatamos que eles não foram assim

tão inequívocos. Ou seja, apesar dos valores dos

outros indicadores poderem ser considerados como

aceitáveis, o valor de AGFI não ultrapassou os 0.82,

bastante inferior portanto ao valor de 0.90 sugerido

na literatura como o mínimo para se considerar

como aceitável o ajustamento do modelo aos dados

examinados. Aliás, se atentarmos nos resultados da

nossa AFC à estrutura de quatro factores verificamos

que não foram assim tão diferentes dos de Atienza e

colaboradores (1). Nessa medida, pensamos que

subsiste a possibilidade de uma estrutura factorial

de três factores, não investigada por aquelas autoras,

se ajustar melhor à estrutura de covariância dos seus

dados, tal como verificado no nosso estudo.

Da análise dos resultados dos diversos estudos a que

nos referimos anteriormente parece pois resultar que

nem sempre tem sido possível identificar uma

mesma estrutura factorial para o PSPP, nomeadamente

no que se refere às versões que foram entretanto

traduzidas para outras línguas e culturas.

Ainda assim, pensamos ser de destacar que, de uma

forma geral, os resultados dos diferentes estudos nos

quais foi utilizado o PSPP têm sido em grande medida

consistentes, porquanto para além de em quase

todos eles os valores do coeficiente de alfa de

Cronbach calculado para os vários factores constituintes

do PSPP terem sido superiores ao valor mínimo

proposto por Nunnally (28), os principais problemas

reportados parecem relacionar-se com a relação

mais ou menos pronunciada existente entre os

factores Competência Desportiva e Condição Física.

Do nosso estudo pareceu emergir igualmente a

noção de que os indivíduos que responderam ao

PSPPp não efectuaram uma distinção nítida entre

aqueles dois conceitos, atendendo a que o ajustamento

global do modelo no qual eles foram considerados

diferenciadamente foi inferior ao do modelo

no qual eles foram entendidos conjuntamente.

A este respeito, importará porventura sublinhar que

nem em todas as línguas e culturas existe uma dis-


tinção tão clara entre os conceitos de competência

desportiva e condição física, como a habitualmente

verificada na língua inglesa, quer a falada nos

Estados Unidos da América (onde foi desenvolvido o

PSPP) quer a falada no Reino Unido (de onde é originário

o seu principal autor), fundamentalmente se

consideramos os indivíduos mais velhos e menos

associados à pratica de uma actividade física ou desportiva.

Isso mesmo foi destacado por Van der Vliet

e colaboradores (43), quando verificaram que a partir

da análise das respostas dos adultos que participaram

no seu estudo não foi possível separar aqueles

dois constructos.

Adicionalmente, há que recordar que as idades dos

indivíduos que participaram nos diferentes estudos

realizados até ao momento neste domínio não foram

sempre as mesmas. Na verdade, não são muitos os

estudos efectuados com indivíduos adultos, já que a

maior parte foi desenvolvida com crianças, adolescentes

ou jovens adultos, e o modo como uns e

outros se percepcionam em termos físicos parece

assumir contornos substancialmente diferenciados.

O principal objectivo desta pesquisa consistia na

determinação da validade e fiabilidade do PSPPp

para avaliar o modo como os adultos se percepcionam

fisicamente, tendo os resultados encontrados,

no seu conjunto, fornecido suporte suficiente para

tal assunção. Ainda assim, consideramos que é

necessário desenvolver mais trabalho, por exemplo,

no que respeita à análise da sua invariância estrutural

ao longo de diferentes amostras para que a sua

validade e fiabilidade estejam claramente estabelecidas.

Ou seja, entendemos que é importante determinar

até que ponto a estrutura factorial agora identificada

se revela como igualmente adequada a dados

provenientes de amostras distintas da por nós investigada

(e.g., indivíduos não praticantes, idosos,

jovens, com necessidades educativas especiais).

Inclusivamente, é importante recordar que mais de

um modelo pode ajustar-se de forma aceitável a um

conjunto de dados (4), o que significa que o facto do

modelo de medida por nós inspeccionado ter evidenciado

uma boa qualidade global de ajustamento aos

dados não equivale a dizer que não pode haver um

outro modelo a apresentar ainda melhores resultados,

razão adicional, portanto, para serem reclama-

Avaliação de autopercepções físicas

dos mais esforços no sentido da definição da melhor

estrutura factorial para o PSPPp.

Finalmente, de destacar que Page e colaboradores

(31) alertaram para a necessidade de investigar a sensibilidade

do PSPP para avaliar alterações decorrentes

da prática de actividade física, ou da participação em

programas de controlo do peso ou de outro tipo, propósito

para o qual o PSPP tem efectivamente vindo a

ser utilizado (10). Nessa medida, entendemos que

seria igualmente importante equacionar a possibilidade

de futuramente ser desenvolvida uma escala destinada

a avaliar o que poderíamos designar de capacidade

física funcional percebida pelos indivíduos, porquanto

em estudos com adultos, particularmente os

mais idosos, esse é um aspecto a ter em atenção.

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [11–23] 21


22

António Manuel Fonseca, Kenneth Fox

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Nashua, NH.

Avaliação de autopercepções físicas

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [11–23] 23


24

Stress físico do árbitro de futebol no jogo

A. Rebelo

S. Silva

N. Pereira

J. Soares

RESUMO

Só conhecendo com rigor as exigências que se colocam ao árbitro

em jogo poderemos programar correctamente o seu treino.

No presente trabalho caracterizou-se a actividade física realizada

por árbitros portugueses em jogos de futebol da Primeira

Liga e avaliou-se o respectivo impacto fisiológico. Constituíram

a amostra deste trabalho 8 árbitros de futebol (37 ± 6,6 anos)

pertencentes à 1ª Categoria Nacional.

O árbitro de futebol gasta mais de 60% do tempo de jogo em

actividades de baixa a média intensidade (marcha: 33.4%; trote:

25,9%; corrida média: 3,4%) o que corresponde a cerca de uma

hora. A frequência cardíaca média em jogo é de 150±21.9

bat.min -1 , o que corresponderá a cerca de 82% da FC máx. O

árbitro realiza num jogo 10 a 15 sprints de 4 segundos.

As principais conclusões deste estudo com repercussões para o

treino do árbitro de futebol são as seguintes: (i) os sprints

devem ter uma duração inferior a 6 segundos (± 30 metros)

(ii) dado serem as capacidades velocidade e resistência duas

das capacidades motoras mais solicitadas em jogo, na avaliação

física do árbitros aconselha-se a utilização de um teste de velocidade

(ex. velocidade aos 30 metros) e de um teste de resistência

intermitente (ex. Yo-Yo endurance intermittent test).

Palavras-chave: futebol, caracterização do esforço, análise da frequência

cardíaca, treino do árbitro

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [24–30]

Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física

Universidade do Porto

ABSTRACT

Physical activity of soccer referees during the match

To design a correct plan of physical training for soccer referees it is

necessary to know the physical demands of the game. In this study, we

characterise the physical activity performed by Portuguese referees

during matches of the Portuguese National 1 st League, as well as the

corresponding physiological impact, by means of continuous heart rate

monitoring. This study included 8 referees (37 + 6.6 yrs), of the 1 st

Portuguese Category.

The referee spends more than 60% of the time in activities of low and

medium intensity (walking: 33.4; jogging: 25.9%; cruising: 4.4%)

whose duration is approximately 1h. The mean heart rate in the match

was 150 21.9 beats/min, corresponding to near 82% of the maximal

heart rate. The referee performed 10 to 15 sprints of 4 seconds each.

The main conclusions, as well as some indications for training planning,

are: (i) sprints should have a duration less than 6 seconds

(+30m); knowing that speed and endurance are the main physical

demands of the soccer referee during a match, in the tests battery for

evaluation of the referees physical capacity, we suggest an inclusion of

a speed test (e.g.: speed in 30m) as well as a endurance test (eg: Yo-Yo

endurance intermittent test)

Keywords: soccer, physical profile, heart-rate analysis, referee

conditioning


INTRODUÇÃO

O árbitro de futebol é a entidade oficial que regula o

comportamento desportivo dos intervenientes directos

no jogo, fazendo cumprir as regras do jogo. Uma

eficaz condução do jogo exige do árbitro uma boa

percepção dos lances para uma correcta tomada de

decisões (16). O árbitro deve agir com firmeza mantendo,

tanto quanto possível, uma atitude discreta.

No entanto, para que o árbitro tome as decisões

mais ajustadas deve estar no local mais adequado

para melhor apreciar as jogadas (6). O árbitro deve

seguir as jogadas independentemente da intensidade

dos movimentos dos jogadores e das alterações de

ritmo do próprio jogo. Assim, exige-se que o árbitro

esteja fisicamente bem preparado, que possua

conhecimentos técnicos relativos às regras e que

tenha os atributos psicológicos para enfrentar a

imensa variedade de situações e experiências em que

o jogo de futebol é fértil (11, 17).

É opinião relativamente consensual, tendo já sido

alvo de numerosos estudos, que as exigências físicas

que se colocam aos jogadores de futebol têm vindo a

aumentar nas últimas décadas em resultado do

aumento do ritmo do jogo (para refs ver 12, 13). A

aptidão física que se exige ao árbitro de hoje está

também condicionada por este aumento do ritmo do

jogo. Ou seja, cremos que jogos com ritmo mais

intenso exigirão do árbitro uma melhor aptidão física

para estar no local certo no momento certo. Por

outro lado, os árbitros de competições profissionais

são normalmente cerca de 15 anos mais velhos do

que os jogadores e têm uma actividade profissional

para além da arbitragem (16), facto que nos faz

admitir que a taxa de trabalho dos árbitros deve ser

considerada como apreciável.

Apesar do importante papel ocupado pelo árbitro no

jogo de futebol, a investigação na área da arbitragem

é reduzida (9). Com efeito, apesar de ser frequente a

investigação sobre a performance e o treino dos jogadores

e equipas, a investigação sobre os factores da

performance e do treino do árbitro não é muito abundante

(4, 8, 10, 11). Situando a análise nas exigências

físicas e fisiológicas que se colocam ao árbitro

durante o jogo, a arbitragem em futebol é, em termos

globais, uma actividade intermitente com uma

intensidade apreciável. Catterall et al. (3) encontraram

em árbitros de futebol valores médios da fre-

Stress físico do árbitro de futebol no jogo

quência cardíaca (FC) de 165 bat.min -1 . Outros autores

(4, 7, 8), encontraram valores sobreponíveis para

a FC durante o jogo. Estes valores corresponderão a

cerca de 85-90% da FC máx. (4, 6, 8). Para Harley et

al. (6) e Johnston & McNaughton (7) a fonte de

energia mais solicitada pelo árbitro durante o jogo é

o metabolismo aeróbio. No entanto, deve ser concedido

ao metabolismo anaeróbio um papel central

para a performance do árbitro, dada a relação entre a

resistência em exercício intermitente de elevada

intensidade e a diminuição da distância entre o árbitro

e o local do terreno de jogo em que a infracção às

leis do jogo ocorre (8).

A arbitragem em futebol parece ser, por isso, uma

actividade que exige uma elevada taxa de trabalho

físico, pelo que se justifica desenvolver metodologias

de treino específicas para os árbitros, bem como

recorrer a testes que permitam uma rigorosa avaliação

da sua capacidade física. Ou seja, os árbitros

devem seguir uma preparação física adequada à dinâmica

que lhes é específica. O desenvolvimento da

aptidão física do árbitro permitir-lhe-á estar suficientemente

próximo das jogadas para um melhor controlo

do jogo, seja qual for o ritmo imposto pelas

equipas. Sabe-se que a fadiga física contribui para

aumentar a probabilidade de erro provocando também

a diminuição da capacidade de decisão (16).

No presente trabalho pretendeu-se caracterizar a

actividade física realizada por árbitros portugueses

em jogos de futebol da Primeira Liga bem como,

através da análise da FC, avaliar o respectivo impacto

fisiológico. Trata-se, portanto, de um estudo

baseado na avaliação física e fisiológica do árbitro

em situação real de jogo.

Material e métodos

Constituíram a amostra deste trabalho 8 árbitros

portugueses de futebol (37 ± 6,6 anos) pertencentes

à 1ª Categoria Nacional. Quanto à experiência profissional,

os árbitros estudados encontravam-se

nesta categoria há 7,25± 3,9 anos.

A recolha de dados realizou-se em 8 jogos da época

2000-01 (6 jogos da 1ª Liga de Futebol Portuguesa,

um jogo da 2ª Liga de Futebol Portuguesa e um jogo

dos quartos de final da Taça de Portugal). Foi, portanto,

analisado um jogo de cada árbitro.

A FC foi monitorizada durante todo o jogo através

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [24–30] 25


26

A. Rebelo, S. Silva, N. Pereira , J. Soares

de um aparelho de rádio-telemetria de baixo alcance

(Polar Vantage NV, Kempele, Finland) com registo

da FC de 5 em 5 segundos.

A actividade física realizada durante o jogo foi

caracterizada através de um Estudo de Tempo e

Movimento utilizando a metodologia sugerida por

Reilly e Thomas (14) e constou dos seguintes

passos:

1. Filmagem dos jogos - a câmara de filmar foi colocada

num ponto médio em relação à dimensão

longitudinal do campo e o mais alto possível.

Cada árbitro foi filmado individualmente durante

todo o jogo, incluindo as interrupções do mesmo;

2. Medição da duração dos deslocamentos - a partir

da gravação em vídeo da movimentação do árbitro

no jogo foi medido o tempo gasto em cada deslocamento

com o auxílio do cronómetro integrado

no vídeo;

3. Tipos de deslocamento - foram considerados sete

tipos de deslocamento de acordo com a sua forma

e intensidade: parado, marcha, trote, corrida

média, sprint, deslocamentos de costas e deslocamentos

laterais. A intensidade de deslocamento

foi determinada subjectivamente com o auxílio de

dois indicadores: a frequência gestual (i.e., número

de movimentos/unidade de tempo) e a imagem

de esforço apresentada pelo árbitro.

Foram utilizadas a medidas descritivas média, desvio-padrão

e percentagens. Para comparação de

resultados das duas parte do jogo foi utilizado teste

Wilcoxon 2 related samples (p


árbitros dinamarqueses de elite verificou-se que o

tempo que os árbitros gastavam em deslocamentos

de costas ocupava apenas 5% do tempo total de

jogo. De todo o modo, não devemos deixar de relevar

o tempo gasto pelos árbitros portugueses em

deslocamentos de costas. Ou seja, estes dados revelam

a importância que o árbitro deve conceder a este

tipo de deslocamentos no seu programa de treino.

Os resultados deste estudo mostram que o sprint é o

tipo de deslocamento em que os árbitros gastam

menos tempo (0.8%). Krustrup e Bangsbo (8) referem

um valor inferior (0.5%). Este dado não significa

de modo algum que se trate de um deslocamento

a negligenciar no treino do árbitro. Mais a diante

retomaremos este ponto.

Podemos ainda observar na Figura 1 que o árbitro de

futebol gasta mais de 60% do tempo de jogo em

actividades de baixa e média intensidade (marcha:

33.4%; trote: 25,9%; corrida média: 3,4%) o que

corresponde a cerca de 60 minutos do tempo total

de jogo. O árbitro pode percorrer no jogo cerca de

10 quilómetros: 9.5 km em árbitros da Premier

Division English League (16); 11.2 km em árbitros

da Liga de Futebol Profissional Japonesa (1); 10.1

km em árbitros da Primeira Liga Dinamarquesa (8).

Ou seja, o árbitro pode percorrer cerca de 10 km no

jogo realizando exercício de baixa a média intensidade

em cerca de dois terços do tempo de jogo.

No Quadro 2 e Figura 2 são apresentados os valores

da duração de cada deslocamento realizado pelos

árbitros no jogo.

Quadro 2 - Valores médios e da duração (em

segundos) dos deslocamentos realizados

pelo árbitro no jogo.

Duração (seg.)

Parado 5.6 ± 7.4

Marcha 9.5 ± 7.6

Trote 9.6 ±6.8

Corrida Média 5.3 ± 2.5

Sprint 4.0 ± 1.6

Desloc. Lado 1.9 ± 1.0

Desloc. Costas 6.4 ± 5.2

Stress físico do árbitro de futebol no jogo

27

Figura 2 – Valores médios da duração (segundos) de cada deslocamento.

P – parado; M.F. – marcha; DFBI – trote; DFMI – corrida média; DFIM – sprint;

DL – deslocamentos laterais; DC – deslocamentos de costas.

Um dos primeiros dados a retirar da análise da

Figura 2 é o elevado desvio-padrão da duração de

cada tipo de deslocamento, o que reflecte a variabilidade

da duração das acções e fases do próprio jogo.

Em segundo lugar, sobressai da análise deste gráfico

a brevidade da generalidade dos deslocamentos, em

particular dos sprints (DFIM). Com efeito, um dado

importante a extrair destes resultados refere-se à

duração dos sprints (cerca de 4 segundos), aliás dado

idêntico ao encontrado em futebolistas portugueses

no campeonato nacional da 1ª divisão (13). Na

Figura 3 apresenta-se a distribuição da duração dos

sprints realizados pelo árbitro no jogo por intervalos

de frequência, para melhor conhecermos as características

da duração destes deslocamentos.

Figura 3 – Distribuição de frequências da duração

dos sprints realizados pelos árbitros no jogo.

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [24–30] 27


28

A. Rebelo, S. Silva, N. Pereira , J. Soares

Como podemos constatar na Figura 3, mais de 90%

dos sprints realizados pelo árbitro no jogo têm uma

duração inferior a 6 segundos. Assim, no treino de

velocidade do árbitro de futebol, aconselha-se usar

estímulos de breve duração (2-6 segundos), o que

corresponderá a distâncias inferiores a 30 metros.

Um outro dado que deve levar-se em linha de conta

na programação do treino do árbitro é a frequência

dos deslocamentos. No Quadro 3 e na Figura 4 são

mostradas as frequências dos diversos tipos de deslocamento

realizados pelo árbitro no jogo.

Quadro 3 - Valores médios das frequências de cada deslocamento

realizado pelo árbitro em no jogo, na 1ª e na 2ª parte.

Frequências

1ª Parte 2ª Parte Amostra global

Parado 84.5 ± 15.4 91.8 ± 10.4 176.0 ± 23.1

Marcha 100.0 ± 6.9 103.3 ± 10.5 203.3 ± 17,8

Corrida lenta 78.0 ± 8.8 78.5 ± 4.9 155.0 ± 14.2

Corrida média 16.3 ± 5.0 20.8 ± 5.3 37.1 ± 9.9

Sprint 4.3 ± 2.3 7.5 ± 2.6 * 11.8 ± 4.4

Deslocam. lado 26.7 ± 18.2 16.5 ± 7.0 54.8 ± 33.8

Deslocam. costas 78.2 ± 13.9 82.3 ± 13.4* 143.8 ± 66.6

* - p


minutos, 13, respectivamente). Um quadro semelhante

é encontrado na distância percorrida em corrida

nos campeonatos inglês e português (7264

metros, 14 vs 6285 metros, 13).

No Quadro 5 são apresentados os valores médios da

FC máx. atingida pelos árbitros durante o jogo.

Quadro 5 – Valores médios da FC máx. dos árbitros durante o jogo.

Árbitro 1 2 3 4 5 6 7 8 Amostra global

FC máx. 181 165 160 177 202 174 197 156 176 ±17

Segundo Krustrup e Bangsbo (8) o valor mais alto

da FC que um árbitro atinge durante o jogo corresponde

a cerca de 97% da sua FC máxima. O valor

médio da FC máx. atingida em jogo no nosso estudo

foi de 176±17 bat.min -1 , o que corresponderá, de

acordo com o estudo citado, a uma FC máxima estimada

de 181±17 bat.min -1 . Se usarmos este valor

estimado para a FC máx. e o relacionarmos com a

FC média encontrada no nosso estudo (150±21.9

bat.min -1 ), podemos dizer que os árbitros que estudamos

realizaram os jogos a uma intensidade média

de exercício de cerca de 82% da FC máx. No estudo

atrás citado, a FC média dos árbitros em jogo foi de

85% da FC máx. o que nos sugere, mais uma vez, a

inferior intensidade do exercício encontrada nos

indivíduos da nossa amostra.

Um outro dado relevante dos valores médios da FC

durante o jogo é a amplitude de valores em função

dos árbitros avaliados (min: 127 bat.min -1 ; máx:186

bat.min -1 ). Na origem destas diferenças inter-individuais

de valores da FC em jogo podem estar factores

como a diferença etária (amplitude: 26-44 anos), os

diferentes estilos de arbitragem e níveis diferentes

de aptidão física. As diferenças de ritmo de jogo

entre níveis de competição poderão também explicar

estes resultados. Ekblom (5) num estudo do tipo

Tempo e Movimento verificou que a intensidade do

exercício era maior em jogos da primeira divisão do

que em jogos da 2ª divisão. Partindo destes resultados

e de outros dados fisiológicos observados em

jogo o autor considerou mesmo que, sob o ponto de

vista físico, aquilo que melhor distingue jogadores

de diferente nível competitivo é a quantidade de

Stress físico do árbitro de futebol no jogo

exercício de elevada intensidade realizada em jogo;

quanto maior o nível competitivo mais elevada a

quantidade de exercício de elevada intensidade realizado

no jogo.

Idealmente, é desejável que o árbitro realize o seu

trabalho de forma económica, isto é, com o menor

esforço possível, já que como foi atrás referido a

fadiga pode interferir na qualidade da arbitragem.

Com efeito, a realização de exercício a uma intensidade

superior a 50% VO 2máx. pode induzir a diminuição

das funções cognitiva e psicomotora (15).

Uma das estratégias mais eficazes para melhorar a

aptidão física é, obviamente, desenhar programas de

treino que elevem o grau de preparação física especifica

do árbitro.

Em síntese

1. exige-se ao árbitro de futebol aptidão para realizar

exercício intermitente de média intensidade e prolongado;

uma boa resistência em exercício intermitente

deve fazer parte dos principais objectivos

de treino físico do árbitro;

2. o treino de velocidade deve também ser incluído

nos conteúdos de treino físico do árbitro.

Apresentamos, por último, no Quadro 6 uma sugestão

de princípios metodológicos para o treino físico

do árbitro, em particular para o treino da velocidade

e para o treino da resistência para o exercício

intermitente de alta intensidade.

Quadro 6 – Princípios metodológicos para o treino da velocidade e da resistência

para o exercício intermitente de alta intensidade de árbitros de futebol.

Velocidade

Intensidade Duração Duração Número

exercício repouso repetições

Máxima 2-6 seg. 20-60 seg. 4-8

Resistência para o exercício intermitente de alta intensidade

Intensidade Duração Duração Número

exercício repouso repetições

Média/Alta 10-20 seg. 60-90 seg. 6-10

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [24–30] 29


30

A. Rebelo, S. Silva, N. Pereira , J. Soares

CORRESPONDÊNCIA

António Natal Campos Rebelo

Faculdade de Ciências do Desporto

e de Educação Física

Universidade do Porto

Rua Dr. Plácido Costa, 91

4200.450 Porto

Portugal

anatal@fcdef.up.pt

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [24–30]

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Aptidão física relacionada à saúde e fatores de risco

predisponentes às doenças cardiovasculares em adolescentes*

Dartagnan P. Guedes

Joana E.R.P. Guedes

Decio S. Barbosa

Jair A. Oliveira

RESUMO

Recentemente, indicadores associados à aptidão física relacionada

à saúde vêm sendo interpretados mediante informações

referenciadas por critério. Informações referenciadas por critério

direcionadas à saúde representam níveis desejáveis consistentes

com reduzido risco de aparecimento e desenvolvimento

de disfunções orgânicas que deverão ser alcançados pelos adolescentes.

Objetivo do estudo foi analisar a validade de pontos

de corte associados às informações referenciadas por critério

preconizados pela proposta Physical Best na identificação de

adolescentes portadores e não-portadores de fatores de risco

predisponentes às doenças cardiovasculares. A amostra foi

constituída por 281 adolescentes (157 moças e 124 rapazes)

com idades entre 15 e 18 anos. Informações acerca da aptidão

física relacionada à saúde foram obtidas mediante indicadores

morfológicos (índice de massa corporal e somatório de espessuras

das dobras cutâneas tricipital e subescapular) e resultados

de testes motores (sentar-e-alcançar, abdominal modificado

e caminhada/corrida de 1600 metros). Quanto aos fatores de

risco predisponentes às doenças cardiovasculares, recorreu-se

ao conteúdo de gordura corporal, ao consumo máximo de oxigênio,

aos níveis de pressão arterial e às concentrações de lipídios-lipoproteínas

plasmáticas. Estimativas quanto aos índices

de sensibilidade, especificidade, valor preditivo positivo e eficiência

foram utilizados para descrever a validade relativa. Os

resultados mostraram que os índices de sensibilidade se apresentaram

entre 20% e 70% e os de especificidade entre 30% e

85%. Os indicadores morfológicos demonstraram que podem

identificar corretamente três em cada quatro adolescentes com

fatores de risco predisponentes às doenças cardiovasculares. Os

pontos de corte associados aos resultados dos testes motores

demonstraram baixos níveis de sensibilidade e elevada proporção

de casos falso-positivos. Como conclusão, os achados sugerem

que, independentemente dos pontos de corte utilizados, o

índice de massa corporal e o somatório das espessuras das

dobras cutâneas caracterizam-se como razoável alternativa para

identificar a presença de fatores de risco predisponentes às

doenças cardiovasculares em adolescentes.

Palavras-chave: aptidão física, fatores de risco, doenças cardio-

-vasculares, promoção da saúde, adolescentes.

Universidade Estadual de Londrina

Paraná

Brasil

ABSTRACT

Health-related physical fitness and cardiovascular disease risk

factors in adolescents

Recently indicators associated with health-related physical fitness have

been interpreted using criterion-referenced standards. A health-related

criterion-referenced standard represents a desirable level to good health

status and reduced disease risk that should be attainable by the adolescents.

The present study was designed to evaluate the validity of the

cut-off points associated with the Physical Best criterion-referenced

standard in the identification of adolescents with and without cardiovascular

disease risk factors. A total of 281 adolescents (157 girls and

124 boys) varying in age from 15 to 18 years was used in the study.

Information on the health-related physical fitness was obtained by

means of morphological indicators (body mass index and sum of two

skinfolds: triceps and subscapular) and tests of motor performance (sitand-reach,

sit-ups and mile run). Cardiovascular disease risk factors

included body fat content, cardiorespiratory fitness, levels of arterial

pressure and of plasma lipid-lipoprotein concentration. Estimates of

sensitivity, specificity, positive predictive value and efficiency were used

to describe the relative validity. The results showed that the sensitivity

ranged approximately from 20% to 70%, and the specificity ranged

from 30% to 85%. Morphological indicators may correctly identify

three out of four adolescents with cardiovascular disease risk factors.

Cut-off points associated with motor performance tests were characterized

generally by low levels of sensitivity and corresponding high rates

of false-negatives. In conclusion, the findings of study suggest that,

independently of the cut-off points used, body mass index and sum of

skinfold thickness were reasonable alternatives for cardiovascular disease

risk factors screening in adolescents.

Keywords: physical fitness, risk factors, cardiovascular disease, health

promotion, adolescence.

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [31–46] 31


32

Dartagnan P. Guedes, Joana E. R. P. Guedes, Decio S. Barbosa, Jair A. Oliveira

INTRODUÇÃO

Indicadores associados à aptidão física têm sido tradicionalmente

analisados e interpretados mediante

confrontação com dados normativos, envolvendo

referenciais idealizados com base em distribuição de

percentis (2, 12, 14). Parece evidente que análises

com essas características tornam-se extremamente

úteis quando a intenção é desenvolver comparações

intra e inter-populacionais, o que permite visualização

precisa quanto à magnitude de eventuais diferenças

que possam surgir.

Abordagens desse tipo conduzem afirmações: (a)

50% dos rapazes com 14 anos de idade, analisados

no município de Londrina – Paraná, não

caminham/correm mais que 198 m/min no teste de

caminhada/corrida de longa distância; ou (b)

enquanto por volta de 90% das moças norte-americanas

com 17 anos de idade realizam até 36 repetições

no teste abdominal, não mais que 50% das moças

brasileiras apresentam resultado idêntico (21).

No entanto, como limitação, procedimentos de análise

normativa não conseguem oferecer informações

que possam contribuir na tentativa de esclarecer se

resultados de indicadores associados à aptidão física

efetivamente evidenciam níveis satisfatórios em relação

à saúde. Desse modo, considerando que a opção

desejada refere-se à aptidão física relacionada à

saúde, questões fundamentais merecem maior atenção:

(a) quão rápido rapazes de 14 anos devem caminhar/correr

para comprovarem eficiência quanto à

resistência cardiorrespiratória que possa traduzir

níveis aceitáveis de saúde; ou (b) quantas repetições

no teste abdominal são necessárias para moças de 17

anos demonstrarem níveis de força/resistência muscular

satisfatórios em relação à saúde.

A princípio, mesmo assumindo importantes associações

entre indicadores de aptidão física e condições

de saúde em populações jovens (9, 33), análise equivalente

às posições mais elevadas na distribuição de

percentis não garante necessariamente níveis satisfatórios

de saúde, na medida em que características da

amostra da qual a distribuição de percentis foi derivada

deverão afetar a capacidade de detecção das diferenças.

Assim, a posição de escores individuais pode

localizar-se no extremo superior da distribuição de

percentis desenvolvida em segmento específico da

população que possivelmente venha apresentar hábi-

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [31–46]

tos de vida inadequados para garantir condições de

saúde satisfatórias, e, ao mesmo tempo e de forma

antagônica, idênticos escores podem situar-se no

extremo inferior quando confrontados com distribuição

de percentis derivada com base em segmento da

população que apresenta comportamentos favoráveis

ao desenvolvimento de melhores condições de saúde.

Com introdução de novos conceitos relacionados à

aptidão física e à saúde assume-se que, quando as

diferenças entre sujeitos deixam de ser importantes,

análises referenciadas por critérios deverão apresentar

vantagens em relação às confrontações com

dados normativos (16). Neste caso, os critérios

representam pontos de corte identificados com indicadores

de aptidão física consistente com condições

de saúde satisfatórias, independentemente da posição

na distribuição de percentis. Dessa forma, ao

recorrer as análises referenciadas por critérios, questão

de interesse é identificar se cada jovem, individualmente,

torna-se capaz de alcançar pontos de

corte previamente estabelecidos em relação aos indicadores

de aptidão física que possam assegurar

algum grau de proteção diante do aparecimento e do

desenvolvimento de disfunções hipocinéticas (9).

Essência que procura justificar proposição de pontos

de corte para indicadores de aptidão física relacionada

à saúde baseia-se na premissa de que, para ocorrer

redução na incidência de disfunções orgânicas,

torna-se necessário alcançar níveis desejáveis quanto

à quantidade de gordura corporal, à resistência cardiorrespiratória

e ao desempenho musculoesquelético

que possam conter eventual processo degenerativo

induzido por hábitos de vida inadequados com

relação à prática de atividades físicas (33).

Em oposição ao enfoque oferecido à análise referenciada

por norma, onde o objetivo é apresentar escores

equivalentes aos mais elevados valores de percentis,

jovens que não alcançam pontos de corte previamente

estabelecidos quanto aos indicadores da

aptidão física relacionada à saúde deverão apresentar

maior predisposição aos sintomas crônico-degenerativos,

enquanto os que alcançam ou excedem aos

pontos de corte estabelecidos demonstram menor

risco nesse sentido. Assim, importante não é comparar

um jovem com outros mediante valores normativos,

mas sim, verificar se alcança o ponto de corte

estabelecido em relação à saúde.


Neste particular, a maior dificuldade encontrada

pelos estudiosos da área constitui na determinação

de escores associados aos indicadores de aptidão física

que possam ser utilizados como ponto de corte,

garantindo níveis desejados e absolutos necessários

a melhor condição de saúde. Infelizmente, tudo indica

que na atualidade não existe nenhum mecanismo

confiável direcionado à proposição de pontos de

corte que possa assegurar com alguma convicção

níveis mínimos requeridos à redução dos riscos de

disfunções degenerativas mediante indicadores de

aptidão física.

Diante dessa situação incômoda, observa-se algumas

iniciativas direcionadas à proposição de pontos de

corte à partir de pesquisas experimentais, achados

clínicos e designações arbitrárias baseadas em dados

normativos (3, 4, 15, 35). Contudo, se entre diferentes

propostas idealizadas existe consenso com relação

às estratégias de ação quanto ao seu estabelecimento,

desconhece-se qualquer tentativa de validação

dos pontos de corte até então sugeridos.

Embora as manifestações clínicas associadas às

doenças cardiovasculares surjam com maior freqüência

durante a vida adulta, evidências científicas revelam

que comprometimentos quanto à pressão arterial,

aos níveis de lipídios-lipoproteínas plasmáticas,

à disposição de gordura corporal e ao consumo

máximo de oxigênio podem ter origem na adolescência

(6). Em vista disso, torna-se possível supor que,

mesmo não apresentando idêntico efeito sobre os

índices de morbidade e mortalidade dos jovens, existe

possibilidade de os fatores de risco que predispõem

ao aparecimento e ao desenvolvimento de

doenças cardiovasculares na fase adulta serem identificados

já em idades precoces, constituindo-se portanto

em importante referencial das condições de

saúde dos adolescentes.

Diante dessa perspectiva, o objetivo do estudo foi

analisar a validade de pontos de corte associados aos

indicadores de aptidão física relacionada à saúde na

identificação de adolescentes portadores e não-portadores

de fatores de risco predisponentes às doenças

cardiovasculares.

MATERIAIS E MÉTODOS

Para elaboração do estudo foram utilizadas informações

contidas no banco de dados construído a partir

Aptidão física e fatores de risco cardiovasculares

do projeto de pesquisa “Atividade Física,

Composição da Dieta e Fatores de Risco

Predisponentes às Doenças Cardiovasculares em

Adolescentes”, desenvolvido entre agosto e novembro/1998,

que inclui adolescentes entre 15 e 18 anos

de idade de ambos os sexos.

O projeto de pesquisa teve como alvo escolares regularmente

matriculados no ensino médio do Colégio

de Aplicação ligado à Universidade Estadual de

Londrina, Paraná, Brasil. Optou-se por envolver

sujeitos que freqüentavam unicamente essa escola,

por conta das características longitudinais do estudo

(experimentação de programas de educação para

saúde mediante intervenções dietéticas e de prática

de exercícios físicos), e por sua representatividade

no universo de escolares de ensino médio do município

de Londrina, Paraná.

Os protocolos de intervenção no estudo foram aprovados

pelo Comitê de Ética em Pesquisa da

Universidade Estadual de Londrina e acompanham

normas da Resolução 196/96 do Conselho Nacional

de Saúde sobre pesquisa envolvendo seres humanos.

A inclusão dos sujeitos no estudo ocorreu por desejo

em participar do experimento e mediante autorização

dos pais ou responsáveis. Para tanto, todos os escolares

matriculados no ano letivo de 1998, juntamente

com seus pais ou responsáveis, foram contatados e

informados quanto à natureza e aos objetivos do

estudo. Dos 313 escolares matriculados, 281 (90 %)

concordaram em participar do estudo – tabela 1.

Tabela 1 – Número de sujeitos analisados no projeto “Atividade Física,

Composição da Dieta e Fatores de Risco Predisponentes às Doenças

Cardiovasculares em Adolescentes”.

Idade Moças Rapazes Total

15 Anos 33 25 58

16 Anos 48 37 85

17 Anos 41 34 75

18 Anos 35 28 63

15 – 18 Anos 157 124 281

Como informação adicional da amostra analisada no

estudo, destaca-se que, com base nos critérios de

classificação socioeconômica das famílias dos escolares,

mediante informações quanto ao nível de escola-

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [31–46] 33


34

Dartagnan P. Guedes, Joana E. R. P. Guedes, Decio S. Barbosa, Jair A. Oliveira

ridade do chefe da família, às condições de moradia,

à posse de utensílios domésticos, automóveis e

número de empregados domésticos (1), observou-se

que 25 % dos escolares foram categorizados em

menor nível socioeconômico, 18 % em maior nível e

57% em níveis intermediários. Com relação aos critérios

de classificação de maturação sexual sugeridos

por Tanner (39), 12% das moças analisadas apresentavam

desenvolvimento mamário equivalente ao

estágio III, 60% ao estágio IV e 28% ao estágio V.

Entre os rapazes, 47% se encontravam no estágio IV

de desenvolvimento de pilosidade pubiana, e os 53%

restantes no estágio V.

Informações acerca da aptidão física relacionada à

saúde foram obtidas mediante indicadores morfológicos

e de desempenho motor, acompanhando orienta-

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [31–46]

ções descritas por intermédio da proposta Physical

Best (3). Como indicadores morfológicos utilizaram-

-se o índice de massa corporal (IMC) e o somatório

dos valores de espessura das dobras cutâneas medidas

nas regiões tricipital e subescapular (∑EDC).

Com relação ao desempenho motor, foram incluídos

resultados dos testes motores “sentar-e-alcançar”

(SEAL), abdominal modificado (ABDO) e caminhada/corrida

de 1600 metros (CORR). A definição dos

pontos de corte associados aos indicadores morfológicos

e de desempenho motor voltados à aptidão física

relacionada à saúde, sugeridos na proposta Physical

Best, é apresentada na tabela 2. Ao consultar a literatura,

percebe-se que esses pontos de corte são os que

têm recebido maior aceitação, tendo sido empregados

em vários outros estudos (17, 21, 28, 40, 41).

Tabela 2 – Pontos de corte associados aos indicadores de aptidão física relacionada à saúde sugeridos mediante proposta Physical Best.

15 Anos 16 Anos 17 Anos 18 Anos

Moças Rapazes Moças Rapazes Moças Rapazes Moças Rapazes

IMC (Kg/m 2 ) 17–24 17–24 17–24 17–24 17–24 18–25 18–25 18–25

∑EDC (mm) 16–36 12–25 16–36 12–25 16–36 12–25 16–36 12–25

SEAL (cm) 25 25 25 25 25 25 25 25

ABDO (rep) 35 42 35 44 35 44 35 44

CORR (min) 10:30 7:30 10:30 7:30 10:30 7:30 10:30 7:30

Adaptado de American Alliance for Health, Physical Education, Recreation and Dance (1988)

Com referência aos fatores de risco predisponentes

às doenças cardiovasculares (DCV), recorreu-se as

informações voltadas à pressão arterial em repouso,

ao teor sangüíneo de lipídios circulantes, às estimativas

da quantidade de gordura relativa ao peso corporal

e ao consumo máximo de oxigênio.

Os níveis de pressão arterial sistólica (PAS) e diastólica

(PAD) foram aferidos com auxílio de esfigmomanômetro

de coluna de mercúrio. Com o adolescente

sentado, após um período mínimo de 5 minutos

de repouso, a pressão arterial foi medida no

braço esquerdo. O valor da PAS correspondeu à fase

I de Korotkoff e o da PAD à fase V, ou de desaparecimento

dos sons. Foram realizadas duas medidas,

sendo que o valor médio de ambas foi considerado

para efeito de análise.

Dosagens dos lipídios plasmáticos foram realizadas

mediante coleta de amostras de 10 ml de sangue

venoso na prega do cotovelo, após um período de 10-

12h em jejum, entre 07:00 e 08:00h da manhã. Soro

foi imediatamente separado por centrifugação, sendo

determinados os teores de triglicerídios (TG), colesterol

total (CT) e frações, lipoproteínas de baixa densidade

(LDL-C) e de alta densidade (HDL-C).

Determinou-se o colesterol sérico total pelo método

enzimático colesterol oxidase/peroxidase em aparelho

espectofotômetro. O HDL-C foi medido pelo método

reativo precipitante, e o LDL-C calculado pela fórmula

de Friedewald (20). Os triglicerídios séricos foram

determinados pelo método enzimático glicerol.


A proporção de gordura em relação ao peso corporal

(GORD) foi estimada a partir dos valores de espessura

de dobras cutâneas determinadas nas regiões

tricipital e subescapular, mediante utilização de

equações preditivas específicas para sexo, idade,

grupo racial e maturação biológica idealizadas por

Slaughter et al. (38). O consumo máximo de oxigênio

(VO 2max) foi estimado por intermédio de teste

de esforço de carga máxima em esteira rolante, de

acordo com protocolo de Bruce et al. (11). O tempo

necessário para alcançar a freqüência cardíaca máxima

teórica (220 - idade) foi utilizado para estabelecer

estimativas do VO 2max. Para aqueles adolescentes

que não foram capazes de alcançar sua freqüência

cardíaca máxima teórica, foi empregado como referencial

a duração do teste de esforço.

Para análise conjunta dos fatores de risco predisponentes

às DCV, optou-se por estabelecer único escore

para cada adolescente. Para tanto, considerando

separadamente os diferentes fatores de risco considerados:

PAD, PAS, CT, HDL, LDL, TG, GORD e

VO 2max, a amostra envolvida no estudo foi ajustada

de acordo com a distribuição de quintis. Para efeito

de interpretação, atribuiu-se valor 1 para os fatores

de risco reunidos no quintil inferior, valor 2 aos fatores

de risco agrupados no segundo quintil, e assim

por diante, de tal forma que aos fatores de risco

Aptidão física e fatores de risco cardiovasculares

localizados no quintil mais elevado foi atribuído

valor 5. O escore associado ao conjunto dos fatores

de risco foi estabelecido mediante somatório dos

valores atribuídos aos quintis de cada um dos fatores

de risco separadamente.

Logo, o escore mínimo possível do conjunto de fatores

de risco tornou-se igual a 8 (valor 1 correspondente

ao quintil mais baixo x 8 fatores de risco) e o

escore máximo possível igual a 40 (valor 5 correspondente

ao quintil mais elevado x 8 fatores de

risco). Em ambos os sexos, classificou-se adolescentes

como portadores de fatores de risco predisponentes

às DCV quando o somatório dos valores atribuídos

a cada um dos fatores de risco se apresentou

igual ou superior a 34, ou seja, equivalente ao quintil

mais elevado na distribuição do conjunto dos

fatores de risco.

A validade dos pontos de corte associados aos indicadores

morfológicos e de desempenho motor voltados

à aptidão física relacionada à saúde, sugeridos

pela proposta Physical Best, na tentativa de identificar

adolescentes portadores e não-portadores de conjunto

de fatores de risco predisponentes às DCV, foi

analisada mediante propriedades de sensibilidade,

especificidade, valor preditivo positivo e eficiência –

tabela 3.

Tabela 3 – Delineamento de validação dos indicadores de aptidão física relacionados à saúde na identificação

de adolescentes portadores de fatores de risco predisponentes às doenças cardiovasculares.

Pontos de Corte dos Indicadores Conjunto de Fatores de Risco Predisponentes às Total

de Aptidão Física Doenças Cardiovasculares

Presente Ausente

Não Atendem os Ponto de Corte A B A + B

Verdadeiro- Positivo Falso-Positivo

Atendem os Ponto de Corte C D C + D

Falso-Negativo Verdadeiro-Negativo

Total A + C B + D A + B + C + D

Sensibilidade (%) = (A/A+C)100; Especificidade (%) = (D/B+D)100; Valor Preditivo Positivo (%) = (A/A+B)100; Eficiência (%) = (A+D/A+B+C+D)100

Nesse contexto, a sensibilidade representa a proporção

de adolescentes classificados como portadores de

fatores de risco predisponentes às DCV que não

atendem os pontos de corte sugeridos para indicado-

res de aptidão física relacionada à saúde (casos verdadeiro-positivos).

A especificidade corresponde à

proporção de adolescentes classificados como não-

-portadores de fatores de risco predisponentes às

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [31–46] 35


36

Dartagnan P. Guedes, Joana E. R. P. Guedes, Decio S. Barbosa, Jair A. Oliveira

DCV que atendem os pontos de corte sugeridos para

indicadores de aptidão física relacionada à saúde

(casos verdadeiro-negativos). O valor preditivo positivo

é definido como a probabilidade dos adolescentes

serem classificados como portadores de fatores

de risco quando não atendem os pontos de corte

sugeridos para indicadores de aptidão física relacionada

à saúde. A eficiência é entendida como a proporção

de adolescentes classificados como portadores

de fatores de risco predisponentes às DCV que

não atendem os pontos de corte sugeridos para indicadores

de aptidão física relacionada à saúde e os

adolescentes classificados como não-portadores de

fatores de risco predisponentes às DCV que atendem

os pontos de corte sugeridos para indicadores de

aptidão física relacionada à saúde.

Foram estabelecidos também, índices de probabilidade

de ocorrência positiva (sensibilidade / 1 – especificidade)

e negativa (1 – sensibilidade / especificidade).

O índice de probabilidade de ocorrência positiva

deverá oferecer informações quão mais provável é

identificar adolescentes como portadores de fatores

de risco predisponentes às DCV quando esses não se

ajustam aos pontos de corte associados aos indicadores

de aptidão física relacionada à saúde. Em contrapartida,

índices de probabilidade de ocorrência negativa

deverão oferecer informações quão mais provável

é identificar adolescentes como não-portadores

de fatores de risco predisponentes às DCV quando

esses se ajustam aos pontos de corte assumidos para

os indicadores de aptidão física relacionada à saúde.

Ocorrência de casos falso-positivos e falso-negativos

deverá constituir propriedades indesejadas no processo

de validação dos pontos de corte associados à aptidão

física relacionada à saúde: proporção de adolescentes

que não atenderam os pontos de corte sugeridos

e que foram classificados como não-portadores

de fatores de risco predisponentes às DCV; proporção

de adolescentes que atenderam os pontos de corte

sugeridos e que foram classificados como portadores

de fatores de risco predisponentes às DCV.

Mediante procedimentos de análise da curva ROC

(Receiver Operating Characteristic) foram estabelecidos

escores para os indicadores de aptidão física relacionada

à saúde correspondente ao melhor ajuste estatístico

entre casos verdadeiro-positivos (sensibilidade)

e falso-positivos (1 – especificidade) na classifi-

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [31–46]

cação de adolescentes portadores de fatores de riscos

predisponentes às DCV. Em tese, escores indicados

por intermédio da análise da curva ROC constituem-

-se em pontos de corte que deverão minimizar ocorrência

de casos falso-positivos e falso-negativos,

sugerindo portanto mais adequado equilíbrio entre

sensibilidade e especificidade para os dados disponíveis

(43).

Recorreu-se as informações provenientes da área sob

a curva ROC para estabelecer níveis de precisão dos

escores associados aos indicadores de aptidão física

relacionada à saúde que apresentam mais adequado

equilíbrio entre casos verdadeiro-positivos e falso-

-positivos na classificação dos adolescentes portadores

de fatores de risco predisponentes às DCV (24).

Com relação a sua interpretação, assumiu-se que,

quando não se conseguiu, nos grupos de adolescentes

que atenderam e não-atenderam os pontos de

corte, distinguir entre aqueles que foram classificados

como portadores e não-portadores de fatores de

risco predisponentes às DCV, a área sob a curva

ROC deverá se apresentar por volta de 0,5. Quando

existiu perfeita distinção entre as duas condições

analisadas - (a) atendimento dos pontos de corte

não sendo portadores de fatores de risco; e (b) não-

-atendimento dos pontos de corte sendo portadores

de fatores de risco - a área sob a curva ROC deverá

se aproximar de 1,0.

Diferenças entre ambos os sexos quanto aos indicadores

de aptidão física relacionada à saúde e aos

fatores de risco predisponentes às DCV foram detectadas

mediante teste “t” de Student para dados não-

-emparelhados. O tratamento estatístico das informações

foi realizado mediante pacote computadorizado

Computer Program for Statistics in Medicine (31).

RESULTADOS

Informações estatísticas com relação às variáveis

analisadas são mostradas na tabela 4. No que se

refere aos indicadores de aptidão física relacionada à

saúde, resultados associados ao ∑EDC demonstram

nítida tendência entre moças em acumular maiores

quantidades de gordura subcutânea. No entanto,

quando da comparação dos valores médios relativos

ao IMC, não se encontram diferenças entre os sexos

que possam ser apontadas estatisticamente. Quanto

aos resultados dos testes de desempenho motor,


confirmando evidências apresentadas na literatura

(22, 29), os rapazes apresentam valores médios significativamente

superiores no ABDO e no CORR. Os

APTIDÃO FÍSICA

IMC (kg/m 2 )

∑ EDC (mm)

SEAL (cm)

ABDO (rep)

CORR (min)

FATORES DE RISCO

PAD (mmHg)

PAS (mmHg)

CT (mg/dl)

HDL-C (mg/dl)

LDL-C (mg/dl)

TG (mg/dl)

GORD (%)

VO 2max (ml/kg/min)

Aptidão física e fatores de risco cardiovasculares

resultados médios encontrados no SEAL apontam

diferenças estatísticas favoráveis as moças.

Tabela 4 – Valores de média, desvio-padrão e estatísticas “t” quanto às informações associadas aos indicadores

de aptidão física relacionada à saúde e aos fatores de risco predisponentes às doenças cardiovasculares.

Moças Rapazes Teste

(n = 157) (n = 124) “t” p < t

21,11 ± 2,81

32,06 ± 9,28

33,55 ±6,87

34,22 ± 7,41

11,02 ±1,33

71,41 ± 8,61

109,47 ± 9,56

146,23 ± 23,36

52,52 ± 12,14

77,70 ± 22,66

80,00 ± 35,71

26,72 ± 5,56

40,92 ± 5,49

Com relação aos fatores de risco predisponentes às

DCV, constata-se valores médios referentes à pressão

arterial sistólica significativamente mais elevados

entre rapazes. Quanto aos teores plasmáticos de lipídios/lipoproteinas,

os resultados apontam valores

médios estatisticamente mais elevados entre as

moças na maioria dos componentes analisados. As

concentrações médias de TG mostram ser semelhantes

entre os sexos. Estimativas quanto à GORD

demonstram diferenças estatísticas favoráveis as

moças (26,72 vs 15,99%), sugerindo um índice de

dimorfismo sexual próximo de 40%; enquanto estimativas

associadas ao VO 2max apontam vantagens

estatisticamente significativas a favor dos rapazes

(50,88 vs 40,92 ml/kg/min), apontando um índice

de dimorfismo sexual por volta de 20%. Os comportamentos

e magnitudes das diferenças inter-sexos

relacionados aos fatores de risco predisponentes às

DCV observadas no estudo coincidem com tendên-

21,37 ± 3,17

22,22 ± 9,60

29,37 ±9,51

42,91 ± 7,34

8,00 ± 1,34

73,86 ±7,91

118,63 ± 10,20

134,32 ± 23,21

46,44 ± 6,77

72,14 ± 20,88

81,49 ± 37,17

15,99 ± 8,71

50,88 ± 7,71

0,744

8,680

3,502

8,047

15,221

1,454

7,727

4,071

4,749

2,020

0,326

12,541

12,597

ns

0,000

0,001

0,000

0,000

ns

0,000

0,000

0,000

0,044

ns

0,000

0,000

cias encontradas na literatura (5, 36, 37).

As proporções de adolescentes analisados no estudo

que atenderam pontos de corte sugeridos na proposta

Physical Best associados aos indicadores de aptidão física

relacionada à saúde são apresentadas na figura 1.

Constata-se que o maior comprometimento foi observado

nos resultados do CORR (56% das moças e 76%

dos rapazes) e do ABDO (60% em ambos os sexos).

Quanto aos resultados do SEAL, verifica-se que uma

menor proporção de adolescentes deixaram de atender

os pontos de corte sugeridos (11% e 30% das

moças e dos rapazes, respectivamente). Informações

referentes aos indicadores morfológicos da aptidão

física relacionada à saúde demonstram que 16% das

moças e 26% dos rapazes apresentaram IMC não-adequados

para a idade, e por volta de 31-32% dos adolescentes

de ambos os sexos apresentaram ∑EDC

não-ajustados aos pontos de corte preconizados.

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [31–46] 37


38

Dartagnan P. Guedes, Joana E. R. P. Guedes, Decio S. Barbosa, Jair A. Oliveira

Figura 1 – Proporção de adolescentes que atenderam os pontos

de corte associados aos indicadores de aptidão física relacionada

à saúde sugeridos a partir da proposta Physical Best.

Considerando que os adolescentes poderiam atender

ponto de corte conferido a determinado indicador, e

não a outro, visto que cada um dos cinco indicadores

contemplados na proposta Physical Best acompanha

prioritariamente diferentes componentes da aptidão

física relacionada à saúde, procurou-se determinar a

proporção de adolescentes que alcançaram simultaneamente

pontos de corte estabelecidos para os múltiplos

componentes. Em ambos os sexos, os resultados

apontam alarmante diminuição na proporção de

adolescentes que apresentaram níveis satisfatórios

de aptidão física relacionada à saúde. Não mais que

16% das moças e 9% dos rapazes atenderam as exigências

de desempenho motor e, simultaneamente,

apresentaram IMC e ∑EDC ajustados aos pontos de

corte estabelecidos a partir da proposta Physical Best.

Mediante figura 2 visualiza-se a proporção de adolescentes

que apresentaram comprometimento nos

fatores de risco predisponentes às DCV.

Acompanhando valores de referência para idade e

sexo sugeridos na literatura (7), verifica-se que uma

proporção significativa dos adolescentes analisados

no estudo apresentaram elevado risco predisponente

às DCV devido à excessiva quantidade de gordura

corporal (27% das moças e 25% dos rapazes) e ao

menor VO 2max (14% e 8% das moças e dos rapazes,

respectivamente). Concentrações de lipídios-lipoproteínas

plasmáticas associadas ao aumento do risco

de DCV foram comuns em aproximadamente 9%

das moças e 6% dos rapazes. Quanto à pressão arterial,

por volta de 13% das moças e 10% dos rapazes

apresentaram valores acima dos limites esperados.

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [31–46]

Figura 2 – Proporção de adolescentes identificados como portadores

de fatores de risco predisponentes às doenças cardiovasculares.

Com relação à proporção de adolescentes que apresentaram

múltiplos fatores de risco, 28% das moças

e 26% dos rapazes demonstraram ser portadores de

pelo menos um fator de risco associado ao aparecimento

e ao desenvolvimento de DCV.

Concomitância de dois ou três fatores de risco estava

presente, respectivamente, em 15% e 4% das moças,

e 13% e 2% dos rapazes.

Informações quanto à validade estatística dos pontos

de corte sugeridos na proposta Physical Best associados

aos indicadores de aptidão física relacionada à

saúde para identificação de adolescentes portadores

e não-portadores de fatores de risco predisponentes

às DCV são apresentadas na tabela 5. Verifica-se

que, tanto nos indicadores morfológicos como nos

de desempenho motor, os índices de sensibilidade se

mostram discretamente mais elevados entre os rapazes,

enquanto os índices de especificidade apresentados

pelas moças se destacam em relação aos dos

rapazes.


Tabela 5 – Estatística de validação dos pontos de corte sugeridos mediante proposta Physical Best associados aos indicadores de aptidão física relacionada

à saúde para identificação de adolescentes portadores e não-portadores de fatores de risco predisponentes às doenças cardiovasculares.

VALOR PREDITIVO

Sensibilidade Especificidade Positivo Eficiência

Moças Rapazes Moças Rapazes Moças Rapazes Moças Rapazes

IMC 49 50 89 84 50 48 76 67

∑EDC 63 69 85 78 47 53 74 80

SEAL 22 25 69 49 25 18 50 49

ABDO 23 33 55 39 14 22 47 56

CORR 48 50 45 27 25 25 48 49

Com relação ao IMC, em ambos os sexos, observam-

-se índices de sensibilidade próximos de 50%, o que

assegura uma proporção de 2:1 na ocorrência de

casos falso-negativos (100 – sensibilidade). Em contrapartida,

constata-se uma elevada especificidade

(89% e 84% para moças e rapazes, respectivamente),

sugerindo menor incidência de casos falso-positivos

(100 – especificidade). Dessa forma, se, por um lado,

parece existir grande probabilidade dos adolescentes

que se ajustaram aos pontos de corte sugeridos para

IMC serem identificados como não-portadores de

fatores de risco predisponentes às DCV, por outro,

existe menor probabilidade dos adolescentes que

não se ajustaram aos pontos de corte serem identificados

como portadores de fatores de risco.

No que se refere ao ∑EDC, verifica-se que, em

ambos os sexos, os pontos de corte sugeridos

mediante proposta Physical Best elevam a capacidade

de identificar adolescentes portadores de fatores de

risco predisponentes às DCV, apontando índices de

sensibilidade por volta de 63-69%, sem no entanto,

alterar de maneira significativa os índices de especificidade

(85% entre moças e 78% entre rapazes).

Ao analisar o comportamento quanto aos valores

preditivos positivos, comprova-se que, em ambos os

sexos, os índices encontrados associados ao IMC e

ao ∑EDC se aproximam de 50%. Em assim sendo,

assume-se que, entre aqueles adolescentes que não

atenderam os pontos de corte para indicadores morfológicos

da aptidão física relacionada à saúde, apenas

metade deles foram identificados como portadores

de fatores de risco predisponentes às DCV.

Quanto à propriedade de eficiência, visualizam-se

também discretas diferenças entre os índices observados

quando do envolvimento do IMC e do ∑EDC.

Aptidão física e fatores de risco cardiovasculares

De maneira geral, os índices de eficiência encontrados

foram razoavelmente elevados (74-76% entre as

moças e 67-80% entre os rapazes).

Com relação às estatísticas de validação dos pontos

de corte associados aos indicadores de desempenho

motor da aptidão física relacionada à saúde, verifica-

-se que, em comparação com índices encontrados

para indicadores morfológicos, esses são consideravelmente

menores em ambos os sexos. Mais elevado

índice de sensibilidade foi observado no CORR

(48% e 50% entre moças e rapazes, respectivamente),

enquanto que o SEAL e o ABDO apresentaram

muito baixa proporção de casos verdadeiro-positivos

(22-23% em moças e 25-33% em rapazes). Em vista

disso, a probabilidade de ocorrência de casos falso-

-negativos (100 – sensibilidade) torna-se preocupantemente

elevada, indicando que, de cada quatro adolescentes

identificados como portadores de fatores

de risco predisponentes às DCV, aproximadamente

dois deles no CORR e três no SEAL e no ABDO são

capazes de atender os pontos de corte sugeridos na

proposta Physical Best.

Os índices de especificidade equivalentes aos pontos

de corte associados aos indicadores de desempenho

motor foram mais elevados entre moças, apesar de

acentuadamente mais baixos que os encontrados

quando da análise dos indicadores morfológicos.

Entre 45-69% das moças e 27-49% dos rapazes, não

identificados como portadores de fatores de risco

predisponentes às DCV, atenderam pontos de corte

preconizados para indicadores de desempenho

motor. Conseqüentemente, as proporções de casos

falso-positivos (100 – especificidade) tornam-se

excessivamente elevadas.

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [31–46] 39


40

Dartagnan P. Guedes, Joana E. R. P. Guedes, Decio S. Barbosa, Jair A. Oliveira

A análise dos valores preditivos positivos encontrados

aponta que, não mais de 25% dos adolescentes que

não atenderam pontos de corte equivalentes ao

desempenho motor foram identificados como portadores

de fatores de risco predisponentes às DCV,

comprometendo portanto, eventual tentativa de

envolvimento dos pontos de corte sugeridos na proposta

Physical Best na identificação de adolescentes

portadores de fatores de risco predisponentes às DCV.

De maneira similar, os índices de eficiência encontrados

nos três indicadores de desempenho motor da

aptidão física relacionada à saúde revelam baixos

níveis de acurácia na identificação de casos verdadei-

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [31–46]

ros em ambos os sexos (49-56%). Esses resultados

sugerem que, de cada 2 adolescentes considerados

na amostra, apenas 1 foi corretamente classificado

como verdadeiro-positivo ou verdadeiro-negativo.

Na tentativa de maximizar o ajuste estatístico na

ocorrência de casos positivos, e, conseqüentemente,

aprimorar a eficiência dos indicadores de aptidão

física relacionada à saúde na identificação de adolescentes

portadores e não-portadores de fatores de

risco predisponentes às DCV, a tabela 6 apresenta

informações associadas à validação dos pontos de

corte estabelecidos pela curva ROC, com base nos

dados reunidos no presente estudo.

Tabela 6 – Estatística de validação dos pontos de corte associados aos indicadores de aptidão física relacionada à saúde sugeridos pela curva ROC com base

em amostra de adolescentes do município de Londrina - Paraná na identificação de fatores de risco predisponentes às doenças cardiovasculares.

VALOR PREDITIVO

Sensibilidade Especificidade Positivo Eficiência

Moças Rapazes Moças Rapazes Moças Rapazes Moças Rapazes

IMC 54 53 81 85 48 49 75 76

∑EDC 60 73 86 82 57 56 80 81

SEAL 32 31 77 54 14 16 51 50

ABDO 42 56 83 56 44 26 53 44

CORR 73 58 81 56 22 17 31 40

Pontos de Corte

MOÇAS: IMC = 16-23 kg/m 2 ; ∑ EDC = 16-34 mm; SEAL = 29 cm; ABDO = 28 rep; CORR = 9:50 min

RAPAZES: IMC = 16-22 kg/m 2 ; ∑ EDC = 11-24 mm; SEAL = 32 cm; ABDO = 41 rep; CORR = 7:50 min

Os pontos de corte equivalentes ao IMC (16-23

kg/m 2 entre moças e 16-22 kg/m 2 entre rapazes) e

ao ∑EDC (16-34 mm e 11-24 mm para moças e

rapazes, respectivamente), correspondentes a otimização

do equilíbrio sensibilidade-especificidade,

mostram-se menores que os originalmente sugeridos

na proposta Physical Best. Com novos pontos de

corte, a probabilidade de ocorrência de casos falsos-

-positivos diminui discretamente. A princípio, essa

redução já era esperada, na medida em que, pontos

de corte mais exigentes tendem a aumentar concomitantemente

os índices de sensibilidade e especificidade,

reduzindo portanto a probabilidade de ocorrência

de casos falso-negativos e falso-positivos.

Quanto aos indicadores de desempenho motor asso-

ciados à aptidão física relacionada à saúde, constatam-se

importantes diferenças entre os pontos de

corte apontados pela curva ROC e aqueles sugeridos

mediante a proposta Physical Best. No que se refere

ao SEAL, enquanto a proposta Physical Best sugere

resultados de 25 cm como ponto de corte para

ambos os sexos, dados analisados no presente estudo

apontam maior ocorrência de casos positivos ao

assumir um ponto de corte mais elevado: 29 e 32 cm

para moças e rapazes, respectivamente. Um ajuste

estatístico mais adequado para o ABDO ocorre

quando o ponto de corte é estabelecido em 28 repetições

para moças e 41 repetições para rapazes, ou

seja, abaixo do ponto de corte originalmente sugerido:

35 e 44 repetições, respectivamente. Com rela-


ção ao CORR, entre moças, melhor adequação quanto

às estatísticas de validação ocorreu ao considerar

o ponto de corte de 9:50 minutos, ao invés de 10:30

como sugere a proposta Physical Best. Em contrapartida,

entre rapazes, faz-se necessário elevar o resultado

inicialmente proposto de 7:30 para 7:50 minutos.

Apesar dos pontos de corte voltados ao desempenho

motor, determinados mediante análise da curva

ROC, terem oferecido índices de sensibilidade e de

especificidade mais elevados que os pontos de corte

previamente sugeridos na proposta Physical Best, e,

por sua vez, menor probabilidade de ocorrência de

casos falso-positivos e falso-negativos, ambos os

grupos de pontos de corte apresentam índices de eficiência

similares, sugerindo apenas discretas vantagens

na capacidade discriminatória entre adolescentes

portadores e não-portadores de fatores de risco

predisponentes às DCV. Ainda, mediante novos pontos

de corte, a probabilidade de identificação inadequada

de adolescentes não-portadores de fatores de

risco predisponentes às DCV que não atenderam os

pontos de corte (100 – especificidade) foi menor que

a probabilidade de identificação inadequada de adolescentes

portadores de fatores de risco predisponentes

às DCV que atenderam os pontos de corte voltados

ao desempenho motor direcionado à aptidão física

relacionada à saúde (100 – sensibilidade), sobretudo

entre moças.

Estimativas quanto à área sob curva ROC com relação

aos pontos de corte associados aos indicadores

de aptidão física relacionada à saúde na identificação

de adolescentes portadores de fatores de risco predisponentes

às DCV, apontadas com base na amostra

analisada no presente estudo, são apresentadas na

tabela 7. De maneira geral, não apresentando diferenças

significativas entre sexos, constata-se que as

áreas sob curvas ROC associadas aos indicadores

morfológicos são mais elevadas que as apresentadas

pelos indicadores de desempenho motor. Dessa

forma, novos pontos de corte propostos para IMC e

∑EDC poderão distinguir igualmente e com razoável

precisão adolescentes portadores e não-portadores

de fatores de risco predisponentes às DCV. Ambos

os indicadores morfológicos apresentam 76-79% de

chance de identificar corretamente a presença de

fatores de risco predisponentes às DCV nos adolescentes

analisados no estudo.

Aptidão física e fatores de risco cardiovasculares

Tabela 7 – Características da área sob a curva ROC (média, desvio-padrão e

intervalos de confiança) com relação aos pontos de corte associados aos

indicadores de aptidão física relacionada à saúde sugeridos com base em

amostra de adolescentes do município de Londrina - Paraná na identificação

de fatores de risco predisponentes às doenças cardiovasculares.

Moças Rapazes

IMC 0,76±0,051 (0,68–0,83) 0,77±0,058 (0,69–0,84)

∑ EDC 0,76±0,051 (0,68–0,82) 0,79±0,056 (0,71–0,86)

SEAL 0,52±0,066 (0,42–0,62) 0,53±0,068 (0,43–0,62)

ABDO 0,54±0,058 (0,44–0,62) 0,55±0,056 (0,45–0,64)

CORR 0,51±0,061 (0,41–0,61) 0,51±0,065 (0,41–0,61)

Entre os indicadores de desempenho motor, a capacidade

dos pontos de corte melhores ajustados para

identificar corretamente adolescentes portadores de

fatores de risco predisponentes às DCV é baixa em

ambos os sexos, apresentando área sob curva ROC

próxima de 0,50. Em assim sendo, os achados apresentados

no presente estudo mostram que os resultados

de testes motores, associados à aptidão física

relacionada à saúde, não se definem como atributos

que possam identificar com precisão aceitável fatores

de risco predisponentes às DCV. Os resultados dos

três testes motores apresentaram por volta de 50%

de chance de identificar corretamente a presença de

fatores de risco predisponentes às DCV nos adolescentes

analisados no estudo.

DISCUSSÃO

A adoção de hábitos dietéticos hiperfágicos e com

elevada proporção de alimentos ricos em gorduras,

acompanhados por menores níveis de prática habitual

de atividade física, vem contribuindo significativamente

para o aparecimento e desenvolvimento de

fatores de risco em idades cada vez mais precoces

que, na seqüência, em idades adultas, podem manifestar-se

clinicamente mediante graves disfunções

cardiovasculares. De fato, estudos abordando tendência

secular de indicadores biológicos associados à

saúde de jovens entre 15 e 18 anos revelam acentuadas

alterações desfavoráveis no perfil de

lipídios/lipoproteínas plasmáticas e de pressão arterial

durante última década (34).

Nessa mesma direção, estudos longitudinais envolvendo

adolescentes mostram estreita associação

entre estilo de vida considerado aterogênico e fato-

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [31–46] 41


42

Dartagnan P. Guedes, Joana E. R. P. Guedes, Decio S. Barbosa, Jair A. Oliveira

res de risco predisponentes às DCV. Em ambos os

sexos, componentes relacionados aos aspectos dietéticos

e à prática de atividade física se caracterizam

como elementos essenciais na preservação de indicadores

metabólicos e funcionais direcionados à saúde

cardiovascular (10).

Em vista disso, especialistas na área têm sugerido

programas de intervenção direcionados a detectar

eventuais agressões provenientes dos hábitos dietéticos

e de prática de atividade física inadequados que

possam repercutir negativamente na saúde cardio-

-vascular de jovens (33). Reforça-se essa posição, na

medida em que padrões quanto ao estilo de vida

podem ser fortemente estruturados e definidos na

adolescência, e possivelmente transferidos para a

idade adulta (19).

Nesse particular, ações intervencionistas podem ser

implementadas mediante sofisticados procedimentos

laboratoriais voltados à monitoração periódica dos

fatores de risco predisponentes às DCV. No entanto,

por conta do alto custo financeiro e da elevada

demanda de tempo associados às rotinas de avaliação

e, por vezes, tratar-se de procedimentos invasivos,

torna-se inviável adotar esses procedimentos

rotineiramente em grande número de jovens. Em

vista disso, esforços têm sido direcionados no sentido

de propor procedimentos alternativos que possam

melhor atender aspectos de praticidade e de viabilidade,

e que venham oferecer indicações prévias

de possível presença de fatores de risco predisponentes

às DCV na população jovem.

O reconhecimento de pontos de corte associados aos

indicadores de aptidão física relacionada à saúde,

adequados à identificação de adolescentes portadores

de fatores de risco predisponentes às DCV, pode

credenciar procedimento prático e de grande acessibilidade

para professores de educação física tentarem

auxiliar em intervenções voltadas à progressão de

fenômenos aterogênicos em idades jovens, reduzindo

o risco futuro de surgimento de cardiopatias.

Os resultados encontrados no estudo mostram que

os indicadores morfológicos associados à aptidão

física relacionada à saúde podem oferecer importantes

informações quanto à eventual identificação de

adolescentes portadores de fatores de risco predisponentes

às DCV, sobretudo ao reduzir discretamente

os pontos de corte quanto ao IMC e ao ∑EDC suge-

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [31–46]

ridos na proposta Physical Best. Pontos de corte de

16-23 kg/m 2 para moças e 16-22 kg/m 2 para rapazes

quanto ao IMC, e, com relação ao ∑EDC, 16-34 mm

e 11-24 mm para moças e rapazes, respectivamente,

descreveram melhor equilíbrio entre sensibilidade e

especificidade. Em valores probabilísticos, de cada

quatro adolescentes que não se ajustaram aos novos

pontos de corte associados ao IMC e ao ∑EDC existem

indicações de que três deles podem ser identificados

como portadores de fatores de risco predisponentes

às DCV.

Em razão da similaridade nos resultados das estatísticas

de validação, tornando-se portanto indiferente

utilizar valores de IMC ou de ∑EDC como indicadores

morfológicos na identificação da presença de

fatores de risco predisponentes às DCV, chama-se

atenção para o fato do ∑EDC apresentar maior dificuldade

de acesso as informações e mais elevada

exposição aos erros de medida. O IMC é alcançado

mediante razão entre o peso corporal e o quadrado

da estatura, pelo que se torna mais acessível suas

medidas. Sugestões de empregar um ou outro indicador

morfológico na monitoração do excesso de

gordura e de peso corporal associados aos agravos de

saúde em populações jovens são freqüentemente

encontradas na literatura (25, 27, 32). Em assim

sendo, reforça-se a posição no sentido de indicar

pontos de corte equivalentes ao IMC como opção

morfológica mais adequada para tentar discriminar

entre adolescentes portadores e não-portadores de

fatores de risco predisponentes às DCV.

De certa maneira, esses achados podem ser considerados

coincidentes com estudos prévios envolvendo

diferentes abordagens de análise. Mediante recursos

estatísticos de regressão múltipla, verificou-se que o

IMC e medidas de espessura de dobras cutâneas

podem ser considerados preditores significativos de

variações no perfil lipídico/lipoproteico de adolescentes

(8). Em jovens entre 5 e 20 anos observou-se

que os coeficientes de correlação momento-produto

entre o IMC e a pressão arterial sistólica podem

variar entre 0,30 e 0,40 nos rapazes e entre 0,31 e

0,57 nas moças (32).

No domínio da composição corporal, foi desenvolvido

um estudo envolvendo regressão logística com

intenção de apontar a quantidade de gordura relativa

ao peso corporal a partir da qual os níveis de pressão


arterial e de colesterol sérico total e frações tendiam

a aumentar (42). Os resultados encontrados sugerem

que moças e rapazes, ao apresentarem respectivamente

30% e 25% do peso corporal como gordura,

tenderam a agregar desordens associadas ao perfil

lipídico/lipoprotéico plasmático. Ao recorrer aos

modelos matemáticos sugeridos por Slaughter et al.

(38), direcionados à estabelecer estimativas da quantidade

de gordura relativa ao peso corporal mediante

espessuras de dobras cutâneas medidas nas regiões

tricipital e subescapular, verifica-se aproximações

bastante similares entre os limites superiores dos

pontos de corte de melhor equilíbrio entre sensibilidade

e especificidade (34 mm para moças e 24 mm

para rapazes) e proporções de 30% e 25% do peso

corporal como gordura.

No que se refere aos indicadores de desempenho

motor da aptidão física relacionada à saúde, evidências

acumuladas no estudo sugerem que os pontos

de corte estabelecidos não foram suficientemente

sensíveis para discriminar entre adolescentes portadores

e não-portadores de fatores de risco predisponentes

às DCV. Estimativas relativas às estatísticas

de validação utilizadas no estudo revelaram que não

mais de um a cada quatro adolescentes que apresentavam

comprometimento quanto ao desempenho

motor, e portanto, não alcançaram pontos de corte

sugeridos na proposta Physical Best, foram efetivamente

identificados como portadores de fatores de

risco predisponentes às DCV. Dessa forma, ao recorrer

a esses critérios na eventual identificação de adolescentes

portadores de fatores de risco predisponentes

às DCV, constata-se que incidência na ocorrência

de casos falso-positivos e falso-negativos torna-se

excessivamente elevada.

Ao procurar estabelecer pontos de corte alternativos

que possam maximizar ajustes estatísticos na ocorrência

de casos verdadeiros, verificou-se que, em

ambos os sexos, houve necessidade de modificar significativamente

os limiares dos resultados dos três

testes motores sugeridos na proposta Physical Best.

Contudo, ainda assim, apesar de se constatarem

avanços quanto aos parâmetros de validação, as probabilidades

quanto à incidência de casos falso-positivos

e falso-negativos permaneceram excessivamente

elevadas, ou seja, uma significativa proporção de

adolescentes podem ser identificados inadequada-

Aptidão física e fatores de risco cardiovasculares

mente como portadores de fatores de risco predisponentes

às DCV por não atenderem os pontos de

corte associados aos indicadores de desempenho

motor da aptidão física relacionada à saúde, e também,

podem ser identificados de maneira incorreta

como não-portadores de fatores de risco predisponentes

as DCV por atenderem os pontos de corte

associados aos indicadores de desempenho motor da

aptidão física relacionada à saúde.

Em assim sendo, torna-se recomendável descartar a

hipótese no sentido de que os indicadores de desempenho

motor associados à aptidão física relacionada

à saúde possam ser utilizados na identificação de

adolescentes portadores e não-portadores de fatores

de risco predisponentes às DCV, independentemente

dos pontos de corte atribuídos aos resultados dos

testes motores.

De certa forma, esses resultados apresentam discordância

de algumas evidências apresentadas na literatura.

Baseando-se em suposta relação empírica entre

níveis mais elevados de prática de atividade física e

melhores índices de aptidão física, estudos anteriores

comprovaram que significativa maior proporção

de adolescentes mais ativos fisicamente foram capazes

de atender os pontos de corte associados aos

indicadores de desempenho motor sugeridos

mediante proposta Physical Best (13, 28).

Contudo, neste particular, dois aspectos devem ser

considerados. Primeiro, estudos experimentais envolvendo

recursos de análise de regressão mostram que

informações quanto aos níveis de prática habitual de

atividade física explicam somente pequena quantidade

de variação dos índices de aptidão física relacionada

à saúde, não garantindo necessariamente que os

mais ativos são mais aptos fisicamente (23, 30).

Segundo, apesar de se caracterizar como importante

elemento contribuinte, nem sempre os jovens mais

ativos fisicamente apresentam melhor estado de

saúde durante a adolescência (9, 32).

Dessa forma, parece não ser recomendável assumir

níveis de prática habitual de atividade física como

critério de validação de pontos de corte de indicadores

de desempenho motor associados à aptidão física

relacionado à saúde, o que pode suscitar dúvidas

quanto as conclusões apresentadas por estudos que

recorreram a esse recurso de validação.

Possivelmente, alguns aspectos possam ser aponta-

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [31–46] 43


44

Dartagnan P. Guedes, Joana E. R. P. Guedes, Decio S. Barbosa, Jair A. Oliveira

dos como responsáveis pela menor validação dos

indicadores de desempenho motor na identificação

de adolescentes portadores de fatores de risco predisponentes

às DCV. De imediato, a seleção dos resultados

do SEAL e do ABDO, como indicadores das condições

de saúde associados ao desempenho motor,

baseia-se no pressuposto de que as capacidades de

flexibilidade e de força/resistência dos grupos musculares

da região inferior do tronco podem ser considerados

fatores importantes na prevenção e na reabilitação

de eventuais lesões lombares e desvios posturais

(18). Assumindo que no presente estudo o critério

de validação dos pontos de corte associados aos indicadores

da aptidão física relacionada à saúde refere-se

às DCV, parece razoável admitir que os itens de

desempenho motor relacionados às disfunções ortopédicas

possam não alcançar a validade desejada.

Os pontos de corte relacionados ao CORR foram

idealizados mediante informações epidemiológicas

envolvendo valores estimados quanto ao consumo

máximo de oxigênio e maior incidência de disfunções

cardiovasculares em adultos, ajustados quanto à

running economic e à idade para populações jovens

(18). Desse modo, de forma antagônica ao que se

observa com relação ao SEAL e ao ABDO, informações

que subsidiam proposição dos pontos de corte

concedidos ao CORR podem ser consideradas mais

estreitamente relacionadas com os critérios de validação

utilizados no estudo, qual sejam, fatores de

risco predisponentes às DCV. Talvez, em vista disso

é que se constatou para os pontos de corte associados

ao CORR parâmetros de validação mais favoráveis,

no entanto, ainda assim, distante do desejado.

Além disso, mesmo considerando possíveis participações

de atributos genéticos na variação dos fatores de

risco predisponentes às DCV, fundamentalmente por

se tratar de adolescentes, não se pode deixar de considerar

a possibilidade de ocorrência de variações nos

resultados dos testes motores por conta dos níveis de

habilidade apresentados pelos adolescentes na execução

das tarefas motoras envolvidas na realização dos

testes motores. Ainda, níveis de motivação para se

alcançar esforços físicos adequados que possam traduzir

resultados efetivos quanto ao real desempenho

motor dos adolescentes pode se definir como outro

fator de interferência na validação dos pontos de

corte de indicadores de desempenho motor associados

à aptidão física relacionada à saúde.

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [31–46]

CONCLUSÕES

Os resultados encontrados no estudo sugerem que

apenas os indicadores morfológicos associados à

aptidão física relacionada à saúde devem ser empregados

na identificação de adolescentes portadores de

fatores de risco predisponentes às DCV. Os pontos

de corte para o IMC e o ∑EDC que oferecem melhor

equilíbrio entre probabilidades de ocorrência de

casos verdadeiro-positivos e falso-positivos recomendados

no presente estudo são discretamente

menores que os sugeridos na proposta Physical Best.

Evidências acumuladas mediante desenvolvimento

do estudo suportam argumentação no sentido de

que, quaisquer que sejam os pontos de corte atribuídos

aos indicadores de desempenho motor associados

à aptidão física relacionada à saúde, esses não se

definiram como aproximação metodológica adequada

na identificação de adolescentes portadores de fatores

de risco predisponentes às DCV.

Sugere-se o desenvolvimento de futuros estudos em

diferentes grupos de adolescentes, envolvendo outros

critérios de referência para saúde que não apenas

fatores de risco predisponentes às DCV, na tentativa

de verificar se as deficiências quanto aos indicadores

de desempenho motor associados à aptidão física

relacionada à saúde podem ser confirmadas.

*Apoio do MCT/CNPq

CORRESPONDÊNCIA

Dartagnan Pinto Guedes

Rua Prof. Samuel Moura 328 – Apto. 901

CEP. 86061-070 – Londrina

Paraná

Brasil

darta@sercomtel.com.br


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Padrão de actividade física. Estudo em crianças de

ambos os sexos do 4.º ano de escolaridade

Luísa Magalhães

José Maia

Rui Silva

André Seabra

RESUMO

O presente estudo visa conhecer os níveis de actividade física

no tempo de lazer e o padrão (ao nível do modo, da intensidade,

da duração e da frequência) da actividade física habitual de

crianças em contexto escolar. Foi seleccionada uma amostra de

120 crianças, de ambos os sexos, de 10 anos de idade (em

média), a frequentar o 4º ano de escolaridade em duas escolas

do 1º Ciclo do Ensino Básico de Vila Nova de Gaia. A avaliação

da actividade física no tempo de lazer foi efectuada através do

questionário de Godin e Shephard (21). Para avaliar a actividade

física no tempo escolar, solicitou-se a 49 crianças o uso de

um acelerómetro portátil (Tritrac-R3D) durante cinco dias. Os

procedimentos estatísticos usados foram as medidas descritivas

média, desvio-padrão, frequências absolutas e relativas; o tteste

de medidas independentes e o teste não-paramétrico de

Mann-Whitney. Os principais resultados foram os seguintes:

(1) os rapazes apresentam um índice superior de actividade

física no tempo de lazer, quando comparados com as raparigas,

principalmente no que se refere à actividade física de intensidade

elevada; (2) as crianças evidenciam um padrão de actividade

física que se caracteriza pela aleatoriedade com oscilações na

sua intensidade e duração; (3) as crianças evidenciam durante

o período escolar um predomínio de actividade física de intensidade

baixa, não realizando, no mínimo, 30 minutos de actividade

física moderada a vigorosa diária; (4) os rapazes apresentam

valores significativamente (p


48

Luísa Magalhães, José Maia, Rui Silva, André Seabra

1. INTRODUÇÃO

Numa altura em que a qualidade de vida e a saúde

se afiguram como dimensões prioritárias, pelo

menos nas sociedades ditas desenvolvidas, a epidemiologia

tem visto ampliado o seu campo de acção

reflectido, por exemplo, no número crescente de

estudos realizados a esse nível no âmbito da actividade

física (AF). Surge como evidência científica que

a AF é uma componente importante na adopção de

um estilo de vida saudável, assim como preventivo

de múltiplas doenças e morte prematura, com benefícios

presentes na adolescência e durante o estado

adulto (10, 16, 36, 38).

Em relação às idades pediátricas, apesar de persistir

alguma incerteza científica, muitos autores acreditam:

nos efeitos positivos da AF para a sua saúde e

nas consequências adversas de uma vida sedentária

(ver, por exemplo, 42); que muitos dos factores de

risco de doenças crónicas se iniciam na infância

(13,61) e que comportamentos activos durante a

infância podem influenciar o estilo de vida no adulto

(50, 56). Há, inclusivamente, um documento de uma

reconhecida instituição de saúde americana que conclui

que uma grande percentagem da sua população

infantil e adolescente é sedentária, o que contribui

para uma “epidemia sem precedentes” de obesidade

infantil que terá duplicado desde 1980 (63). Por

outro lado, um estudo realizado por Freedman,

Dietz, Srinivasan e Berenson (18) permitiu concluir

que, de uma amostra de crianças com peso excessivo,

entre os cinco e os quinze anos de idade, 61%

apresentava, pelo menos, um factor de risco e 27%,

pelo menos, dois factores de risco de doenças cardiovasculares.

Há, de facto, indícios de que as crianças apresentam,

actualmente, níveis inferiores de AF (9, 22, 56),

como consequência da generalização dos meios de

transporte e da forte atracção que revelam por actividades

mais sedentárias na ocupação dos tempos

livres (nomeadamente a ver televisão e a jogar no

computador).

A busca de evidência científica para estes pressupostos

tem motivado uma crescente preocupação em

estudar os padrões de AF apresentados pelas crianças

que, por sua vez, tem levantado questões metodológicas

específicas quanto à sua avaliação, provavelmente,

estando na origem de alguma ambiguidade

nos resultados obtidos (39, 53). No entanto, é

possível verificar-se um certo consenso sobre o facto

de um estilo de vida activo e uma boa condição física,

assim como o desenvolvimento de atitudes posi-

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [47–57]

tivas face à AF, se dever iniciar na infância, apresentando

fortes probabilidades de se repercutir no futuro.

Surgem, assim, diversas recomendações e programas

que têm em vista a intervenção no aumento dos

níveis de AF das crianças, com um enfoque particular

na escola e na Educação Física (EF).

Em Portugal, poucos estudos foram realizados neste

âmbito, desconhecendo-se, de forma detalhada, os

padrões de AF das crianças e se estes são idênticos

ou similares aos definidos em estudos com outras

populações. É fundamental desenvolver trabalhos

nesta área, muito especialmente ao nível do 1º Ciclo

do Ensino Básico em que, considerando a vasta proporção

de crianças envolvidas, é essencial avaliar o

que a escola, em geral, tem projectado e realizado

neste âmbito em relação a estas crianças e, em particular,

a EF, enquanto área curricular obrigatória presente

neste ciclo de ensino.

Assim, é objectivo central deste estudo conhecer os

níveis de AF no tempo de lazer e as exigências (ao

nível do modo, da intensidade, da duração e da frequência)

da AF habitual, em contexto escolar, de

uma amostra de crianças de ambos os sexos a frequentar

o 4º ano de escolaridade.

2. MATERIAL E MÉTODOS

2.1. Amostra

A amostra foi constituída por 58 raparigas e 62 rapazes

com 10,0 ± 0,6 anos de idade a frequentar o 4º

ano de escolaridade, em duas escolas do Concelho

de Vila Nova de Gaia. Em ambas as escolas, todos os

alunos da amostra frequentavam o horário duplo da

manhã (das 8 às 13 horas, com 30 minutos de intervalo)

e participavam numa aula semanal de

Expressão e Educação Físico-Motora, leccionada por

um professor licenciado em EF.

2.2. Avaliação da actividade física nos tempos de lazer

A avaliação da AF realizada nos tempos de lazer foi

efectuada através do Questionário de Godin e

Shephard (21), validado com adultos (21, 31) e

determinada a sua fiabilidade com crianças e adolescentes

a partir dos dez anos de idade (49). Este

questionário foi igualmente administrado numa

amostra da população portuguesa a 223 crianças de

dez e onze anos de idade por Barbosa, Magalhães e

Lopes (6).

O questionário de Godin e Shephard (21) pretende

quantificar a AF realizada na ocupação dos tempos

livres, durante sete dias. Os sujeitos registam o

número de vezes, por semana, em que despendem


mais de quinze minutos em actividades que são classificadas

como leves (3 METs), moderadas (5 METs)

ou extenuantes (9 METs). O score final obtém-se pela

multiplicação da frequência em cada categoria pelo

valor de MET respectivo e pela soma posterior dos

produtos obtidos.

É de referir que a fiabilidade das respostas ao questionário

foi avaliada através da administração repetida

do questionário, após duas semanas, em 23 dos

120 sujeitos da amostra.

2.3. Avaliação da actividade física no tempo escolar

A avaliação da AF realizada durante o período escolar

foi concretizada num subgrupo de 49 sujeitos,

através de um acelerómetro portátil (Tritrac – R3D),

durante os cinco dias da semana escolar.

Os resultados obtidos são possíveis de visualizar sob

a forma de quadros ou de registos numéricos que

apresentam dados individuais por minuto. Sendo um

acelerómetro triaxial, os quadros permitem-nos a

visualização de gráficos de movimentos em três

eixos, consoante a sua orientação - X (antero-posterior),

Y (vertical) e Z (médio-lateral) – mas também

referente ao vector resultante calculado através da

seguinte fórmula: √(X 2 + Y 2 + Z 2). A partir deste

vector resultante, pode ainda representar-se um

outro relativo às kilocalorias (Kcal) despendidas,

através de uma fórmula de conversão existente no

próprio aparelho (não referenciada no manual). A

partir das Kcal despendidas, os resultados podem ser

ainda convertidos em METs, através da seguinte fórmula:

(Kcal em actividade*70) / peso em Kg do

sujeito, por minuto.

2.4. Procedimentos estatísticos

A descrição das variáveis em estudo foi efectuada a

partir das medidas descritivas média, desvio-padrão,

frequências absolutas e relativas. A análise das diferenças

foi efectuada a partir do t-teste de medidas

independentes e, também, do teste não-paramétrico

de Mann-Whitney.

Os cálculos foram realizados no programa Excel para

o Windows 98 e no programa de estatística SPSS

(Statistical Package for the Social Sciences), versão 10.0.

O nível de significância foi mantido em 5%.

3. APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

3.1. Níveis de actividade física no tempo de lazer

Dadas as dificuldades inerentes à utilização do questionário

na infância, é de referir que a consistência

ou fiabilidade das suas respostas foi avaliada através

Padrão de actividade física de crianças do 4.º ano de escolaridade

da administração directa e repetida do questionário,

após duas semanas, em 23 dos 120 sujeitos da

amostra. Os coeficientes de correlação intra-classe

obtidos situam-se entre 0.73 a 0.97, tradutores de

valores baixos de variância-erro, sobretudo quando

considerados no substracto da aplicação de questionários

de AF, apontando, assim, para uma utilização

promissora deste questionário em crianças deste

nível etário.

Como se pode verificar no quadro n.º 1, as raparigas,

no seu conjunto, apresentam valores médios superiores,

embora não sejam estatisticamente significativos,

de AF leve e moderada, enquanto que os rapazes

registam valores significativamente superiores de

AF extenuante e, consequentemente, um score total,

igualmente, mais elevado.

Quadro 1: AF leve, moderada, extenuante e valor compósito da AF de lazer,

por sexo (média e desvio-padrão), valor da estatística t e valor de p,

resultantes da administração do questionário de Godin e Shephard.

Raparigas (n=58) Rapazes (n=62)

Variáveis Média ± DP Média ± DP t 1 p

AF Leve 3.72 ± 3.57 2.77 ± 3.25 1.53 0.13

AF Moderada 4.24 ± 2.10 3.76 ± 2.43 1.16 0.25

AF Extenuante 1.52 ± 1.78 4.85 ± 3.46 - 6.57 0.00

Score Total 46.03 ± 20.81 70.81 ± 27.06 - 5.59 0.00

Os valores obtidos sugerem que estas crianças se

envolvem em poucos períodos de AF semanal, com

uma duração mínima de quinze minutos, pelo menos

de forma contínua. No entanto, se atendermos à

variabilidade encontrada nos valores registados, verifica-se

que a magnitude do desvio-padrão é semelhante

à da média. Isto ocorre pelo facto de haver respostas

nulas nos diversos itens, ou seja, elementos da

amostra, tanto do sexo feminino como masculino,

que referiram não ter realizado qualquer período de

AF dentro de cada uma das três categorias. Este é um

facto que deve preocupar todos aqueles que podem

desempenhar um papel na promoção de estilos mais

activos das crianças que realizam pouca AF (família,

professores, médicos, entre outros).

1 Aspectos condicionadores da normalidade das distribuições

implicaram que as mesmas variáveis fossem analisadas com o

teste não-paramétrico de Mann-Whitney que confirmou os

resultados anteriores.

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [47–57] 49


50

Luísa Magalhães, José Maia, Rui Silva, André Seabra

Os resultados obtidos no presente estudo estão de

acordo com a ideia expressa por diversos investigadores

(e.g. 43, 52) de que é possível encontrar diferenças

nos níveis de AF quanto ao sexo. Sallis (46)

refere que, a partir da análise de estudos baseados

em inquérito, os rapazes são cerca de 14% mais activos

do que as raparigas e que este padrão é similar

quando avaliado através de métodos objectivos.

Resultados concordantes foram igualmente encontrados

por Bradley, McMurray, Harrell e Deng (11),

Hovell, Sallis, Kolody e McKenzie (23), Myers,

Strikmiller, Webber e Berenson (35), Riddoch,

Mahoney, Murphy, Boreham e Cran (41) e Sallis,

McKenzie, Elder, Hoy, Galati, Berry, Zive e Nader

(52) quando referem que, enquanto a rapariga regista

mais AF de intensidade baixa, o rapaz se envolve

mais em AF de intensidade elevada.

Desconhece-se ainda se o mecanismo primário que

fundamenta as diferenças encontradas nos níveis de

AF, em função do sexo, é biológico ou decorre de

distintos processos de socialização (44). É, de facto,

possível encontrar argumentos plausíveis que se

relacionam com crenças socioculturais e expectativas

distintas para ambos os sexos (60). Há indícios, por

exemplo, de que a família, primeiro agente de socialização,

encoraja desde cedo preferencialmente os

rapazes a realizar AF, transportando-os com mais

frequência para os locais onde podem realizar actividade

física ou desportiva (48). Não parece, no entanto,

que a explicação se centre exclusivamente na

influência complexa do envolvimento, devendo este

ser considerado em interacção e correlação com o

genótipo que pode, até, operar com genes diferentes

nos dois sexos (26).

Figura 1: Representação gráfica dos valores registados em METs

pelo Tritrac de um elemento do sexo feminino da amostra.

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [47–57]

3.2. Actividade física no tempo escolar

A categorização da intensidade das actividades

decorreu da necessidade sentida de utilizar um critério

universalmente aceite e que permita a futura

comparação de resultados obtidos em diferentes

estudos, mesmo utilizando metodologias distintas.

De facto, o MET (múltiplo da taxa metabólica de

base correspondente a 3.5 mlO 2.Kg. -1min. -1) é uma

unidade universalmente aceite para expressar o dispêndio

energético em função do peso corporal do

sujeito (33). É ainda usual e consensual, a partir

desta unidade, classificar as actividades como de

baixa intensidade (≤ 3 METs), moderada (entre 3 e 7

METs) e vigorosa (≥ 7 METs) (17).

Por outro lado, dada a constatação de que a criança

não opta voluntariamente pela realização de AF vigorosa

contínua, como, aliás, se confirma pela análise

dos dados obtidos pelo acelerómetro na presente

pesquisa (ver figuras 1 e 2), optámos pelo critério da

duração total de AF de diferentes intensidades, acumulado,

independentemente de ser realizada de

forma contínua ou intermitente ao longo dos períodos

de tempo em análise. O dispêndio energético e o

valor acumulado da AF realizada, mesmo que de

forma intermitente é, de facto, o critério considerado

actualmente como o mais adequado para a avaliação

da AF de crianças (8, 14, 37), em detrimento da análise

de períodos contínuos de AF com um registo de

valores consistentemente acima de um determinado

valor critério.

Figura 2: Representação gráfica dos valores registados em METs

pelo Tritrac de um elemento do sexo masculino da amostra.


3.2.1. Características do padrão de actividade física

das crianças da amostra

Decorrente da análise das figuras 1 e 2, parece-nos

ser importante destacar a aleatoriedade presente no

padrão de AF evidenciado pelas crianças da amostra

deste estudo. Esta complexidade e variabilidade é

facilmente visível na representação gráfica dos valores

obtidos durante o recreio, quando lhes é possível

apresentar um comportamento mais espontâneo, em

que se verifica, de forma mais ou menos notória, a

natureza transitória da sua AF, oscilando na sua

intensidade com intervalos de duração irregular.

Uma primeira análise exploratória dos dados obtidos

permitiu-nos, desde logo, constatar que o exercício

prolongado com níveis de intensidade elevados não é

característico do padrão de AF habitual destas crianças,

aliás, como já terá sido constatado por Saris

(54) e por diversas investigações realizadas neste

âmbito (e.g. 1, 4, 5). De facto, muitos dos estudos

realizados para avaliar a AF habitual de crianças que

concluem que estas são pouco activas, fazem-no na

medida em que verificam que, geralmente, participam

em poucos períodos de dez ou vinte minutos de

AFMV, sempre acima de um determinado valor critério,

de forma contínua (7, 12, 20, 45); o que, aliás,

parece ser natural, dadas as características do seu

padrão espontâneo de actividade.

3.2.2. Resultados obtidos sobre o dia escolar

No quadro 2 podemos verificar, em média, o tempo

(em minutos) e correspondente proporção (em percentagem)

despendida em actividades categorizadas

pela intensidade, de acordo com os dados recolhidos

pelo acelerómetro e onde se verifica que, na maior

percentagem do tempo (92.6 ± 3.4%) passado na

escola, as crianças se envolveram em actividades de

baixa intensidade.

Padrão de actividade física de crianças do 4.º ano de escolaridade

Quadro 2: Tempo (minutos) e proporção (%) de AF

de intensidade baixa, moderada e vigorosa, na totalidade

da amostra (média e desvio-padrão) no dia escolar.

Tempo (minutos) Proporção (%)

Variáveis Média Desvio-padrão Média Desvio-padrão

AF Leve 278.6 10.2 92.6 3.4

AF Moderada 20.0 8.7 6.6 2.9

AF Vigorosa 2.4 2.3 0.8 0.8

AFMV 22.4 10.2 7.4 3.4

Estes resultados parecem, assim, ser concordantes

com os disponíveis na literatura que revelam o predomínio

de AF de baixa intensidade (25, 40).

Quando analisados os valores recolhidos, por sujeito,

encontramos uma variabilidade que vai de encontro

à investigação que demonstra claramente que,

por um lado, há crianças extremamente activas e,

por outro, crianças que participam em muito pouca

AF (3, 40, 41, 52), verificando-se a existência de

subgrupos de crianças que são substancialmente

mais activos do que outros.

De facto, os resultados obtidos com esta amostra

permitiram verificar que crianças com as mesmas

oportunidades de prática de AF evidenciam espontaneamente

comportamentos motores diferenciados

em quantidade e intensidade, o que reflecte a ideia

expressa por diversos investigadores de que há

crianças mais predispostas e disponíveis para a prática

de AF do que outras (e.g. 65).

Quadro 3: Tempo (minutos) e proporção (%) de AF de intensidade baixa, moderada e vigorosa, por sexo (média e desviopadrão),

valor da estatística t e valor de p, no dia escolar.

Raparigas (n=14) Rapazes (n=19)

Intensidade Tempo (min) M±DP Prop. (%) M±DP Tempo (min) M±DP Prop. (%) M±DP t p

Baixa 284.4 ± 7.1 94.5 ± 2.4 274.4 ± 10.2 91.1 ± 3.4 3.154 0.004

Moderada 14.9 ± 6.4 5.0 ± 2.1 23.7 ± 8.4 7.9 ± 2.8 - 3.260 0.003

Vigorosa 1.7 ± 1.6 0.6 ± 0.5 2.9 ± 2.7 1.0 ± 0.9 - 1.549 0.132

Mod. + Vig. 16.6 ± 7.1 5.6 ± 2.4 26.6 ± 10.2 8.9 ±3.4 -3.158 0.004

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [47–57] 51


52

Luísa Magalhães, José Maia, Rui Silva, André Seabra

Quando analisados os resultados, por sexo (quadro

3), verificam-se diferenças significativas entre ambos

os sexos, em dois dos três níveis de intensidade de

actividade: as raparigas despendem significativamente

mais tempo em AF de baixa intensidade e os

rapazes, por seu lado, apresentam valores de AF

moderada e, consequentemente, de AFMV significativamente

mais elevados do que as raparigas.

3.2.3. Resultados obtidos sobre o intervalo escolar

É possível verificar-se no quadro 4 o tempo (em

minutos) e a sua proporção (em percentagem), face

ao tempo total em que foi considerado que decorria

o intervalo, que os alunos despenderam em actividades

de intensidade baixa, moderada e vigorosa.

Quadro 4: Tempo (minutos) e proporção (%) de AF de intensidade baixa,

moderada e vigorosa, na totalidade da amostra (média e desvio-padrão)

durante o intervalo escolar.

Tempo (minutos) Proporção (%)

Variáveis Média Desvio-padrão Média Desvio-padrão

AF Leve 36.4 11.3 68.1 18.1

AF Moderada 15.1 7.7 29.3 16.2

AF Vigorosa 1.3 1.5 2.5 3.0

AFMV 16.3 8.7 31.9 18.1

A leitura dos seus valores médios percentuais, permite

constatar que os sujeitos da amostra despenderam

mais tempo, mesmo em período de recreio, em

AF de baixa intensidade (68.1 ± 18.1%). O quadro

5 inscreve os resultados obtidos por sexo e o significado

da diferença estatística entre os valores obtidos.

Quadro 5: Tempo (minutos) e proporção (%) de AF leve,

moderada e vigorosa, por sexo (média e desvio-padrão),

valor da estatística t e valor de p, durante o recreio escolar.

Raparigas (n=14) Rapazes (n=19)

Variáveis Média ± DP Média ± DP t p

AF Leve (min) 40.3 ± 8.1 33.6 ± 12.7 1.729 0.94

AF Mod. (min) 11.1 ± 4.9 18.0 ± 8.2 - 2.809 0.009

AF Vig. (min) 0.7 ± 0.8 1.7 ± 1.7 - 1.981 0.056

AFMV (min) 11.8 ± 5.3 19.7 ± 9.3 -2.857 0.008

AF Leve (%) 77.2 ± 10.8 61.4 ± 19.7 2.695 0.011

AF Mod. (%) 21.4 ± 9.8 35.2 ± 17.6 - 2.632 0.013

AF Vig. (%) 1.4 ± 1.6 3.4 ± 3.5 - 1.931 0.63

AFMV (%) 22.8 ± 10.8 38.6 ± 19.7 -2.695 0.011

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [47–57]

A análise dos valores médios permite, assim, confirmar

que os sujeitos do sexo masculino apresentam

valores significativamente mais elevados de AFMV

(38.6 vs. 22.8%), quando comparados com os do

sexo feminino, nas actividades espontâneas vivenciadas

no contexto informal do recreio (55).

3.2.4. Resultados obtidos sobre as aulas de Educação Física

A Expressão e Educação Físico-Motora (EF) apresentou

uma frequência, em ambas as escolas, de uma

aula por semana, com uma duração média de 50

minutos (de 41 a 66 minutos), possibilitando, portanto,

o registo de valores de uma aula por cada elemento

da amostra. Desde já, é possível referir que esta

duração média semanal é muito reduzida, face ao

recomendado na literatura internacional (50, 62) e

também pelo próprio Ministério da Educação que preconiza

a realização de duas a três sessões semanais,

de 30 a 45 minutos cada, neste ciclo de ensino (32).

No quadro 6 temos o tempo (em minutos) e a proporção

(em percentagem) da duração total de cada

aula que os alunos despenderam em actividades de

intensidade baixa, moderada e elevada.

Quadro 6: Tempo (minutos) e proporção (%) de AF de intensidade baixa,

moderada e vigorosa, na totalidade da amostra (média e desvio-padrão)

durante as aulas de EF.

Tempo (minutos) Proporção (%)

Variáveis Média Desvio-padrão Média Desvio-padrão

AF Leve 32.7 10.3 65.9 17.3

AF Moderada 12.7 6.2 26.5 14.1

AF Vigorosa 4.1 5.1 7.7 9.2

AFMV 16.8 8.2 34.1 17.3

Constata-se que os sujeitos desta amostra despenderam,

em média, 66% do tempo destinado à aula de

EF em AF de intensidade baixa e cerca de 34% em

AFMV. No entanto, o quadro 7 permite verificar de

que forma estes resultados se apresentaram por sexo

e qual o significado da sua diferença estatística.


Quadro 7: Tempo (minutos) e proporção (%) de AF leve,

moderada e vigorosa, por sexo (média e desvio-padrão),

valor da estatística t e valor de p, durante as aulas de EF.

Raparigas (n=14) Rapazes (n=19)

Variáveis Média ± DP Média ± DP t p

AF Leve (min) 34.6 ± 10.2 31.4 ± 10.4 0.882 0.385

AF Mod. (min) 12.1 ± 5.2 13.1 ± 7.0 - 0.411 0.684

AF Vig. (min) 4.6 ± 5.7 3.7 ± 4.7 0.529 0.601

AFMV (min) 16.8 ± 7.1 16.7 ± 9.2 0.017 0.987

AF Leve (%) 67.0 ± 14.2 65.1 ± 19.5 0.312 0.757

AF Mod. (%) 24.8 ± 11.7 27.7 ± 15.9 - 0.582 0.565

AF Vig. (%) 8.2 ± 9.7 7.2 ± 9.0 0.305 0.762

AFMV (%) 33.0 ± 14.2 34.9 ± 19.5 -0.312 0.757

O facto de não se verificarem diferenças significativas

em função do sexo apoia os resultados de outros

estudos em que se verifica que os níveis de AF das

raparigas, mesmo de intensidade elevada, se aproximam

dos níveis evidenciados pelos rapazes, quando

em contexto de aulas estruturadas (28, 59). A comparação

dos valores obtidos por sexo permite, assim,

salientar o importante papel que a EF pode desempenhar

na redução das diferenças no envolvimento

na AF, defendido por diversos investigadores (e. g.

29), proporcionando às meninas idênticas oportunidades

para se envolverem em AF na escola e também

promovendo o desenvolvimento de conhecimentos

e atitudes que as encorajem, tal como aos

rapazes, a fazer da AF regular parte do seu estilo de

vida. De facto, os resultados obtidos neste estudo

inscrevem, no geral, valores semelhantes aos encontrados

em diversos estudos (28, 29, 30, 51, 58, 64).

Na figura 3 é possível verificar como esta variação se

desenhou, por sujeito, em todas as aulas monitorizadas,

permitindo salientar que, dos 33 elementos da

amostra, apenas 6 (18%) despenderam mais de 50%

da aula de EF em AFMV.

Padrão de actividade física de crianças do 4.º ano de escolaridade

Figura 3: Representação gráfica da variação interindividual da

percentagem de tempo despendida em actividades de

diferentes intensidades, na aula de EF, por sujeito.

Mantém-se, no entanto, a questão da avaliação dos

valores obtidos serem ou não suficientes para exercer

qualquer tipo de impacto na saúde das crianças a

curto ou a longo prazo, dado não haver consenso

sobre a quantidade de AF que a criança deve realizar

na aula de EF (50). No entanto, estes valores podem

ser interpretados à luz de um critério reconhecido que

sugere que as crianças se devem manter fisicamente

activas, pelo menos, durante 50% do tempo da aula

de EF, o que não terá ocorrido, em média, como já

constatado no presente estudo. Assim, poder-se-á

induzir que é desejável aumentar o tempo em que as

crianças estão envolvidas em AFMV durante as aulas

de EF (34, 50), o que parece ser possível com simples

alterações na gestão destas aulas.

A EF, apesar de apresentar outras finalidades que

não, apenas, levar as crianças a participar em AFMV,

não pode descurar o seu potencial valor no âmbito

dos conteúdos relacionados com a educação para a

saúde (57). Por outro lado, a razão, provavelmente

mais convincente para que a promoção de estilos de

vida activos seja da responsabilidade da escola,

nomeadamente no ensino básico, talvez seja o facto

de esta ser a única instituição em que praticamente

todas as crianças, independentemente da sua condição,

têm oportunidade de beneficiar de experiências

conducentes a esses mesmos estilos. A promoção de

estilos de vida activos é importante também na

medida em que exerce uma influência ao nível da

prevenção de factores de risco de doenças, facto que

não deve ser descurado.

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [47–57] 53


54

Luísa Magalhães, José Maia, Rui Silva, André Seabra

3.2.5. Resultados relativos à relação recreio/ aula de

Educação Física

A comparação entre os resultados obtidos no tempo

de recreio e na aula de EF pode ser verificada no

quadro 8.

Quadro 8: Tempo (minutos) e proporção (%) de AF leve, moderada

e vigorosa, por sexo (média e desvio-padrão), valor da estatística t

e valor de p, durante o recreio e as aulas de EF.

Recreio Educação Física

Variáveis Média ± DP Média ± DP t p

AF Leve (min) 36.4 ± 11.3 32.7 ± 10.3 -1.388 0.170

AF Mod. (min) 15.1 ± 7.7 12.7 ± 6.2 -1.391 0.169

AF Vig. (min) 1.3 ± 1.5 4.1 ± 5.1 3.065 0.003

AFMV (min) 16.3 ± 8.7 16.8 ± 8.2 0.207 0.837

AF Leve (%) 68.1 ± 18.1 65.9 ± 17.3 -0.514 0.609

AF Mod. (%) 29.3 ± 16.2 26.5 ± 14.1 -0.768 0.445

AF Vig. (%) 2.5 ± 3.0 7.7 ± 9.2 3.038 0.003

AFMV (%) 31.9 ± 18.1 34.1 ± 17.3 0.514 0.609

Constata-se que o comportamento dos alunos em

situação livre de recreio ou organizada na aula de EF

apenas revelou ser significativamente diferente

quanto à realização de AF intensa, onde se registaram

valores médios superiores durante as aulas de

EF (4.1 vs. 1.3%) em relação ao tempo de recreio.

No entanto, a AFMV, no seu conjunto, foi semelhante

nos dois contextos (16.3 e 16.8%).

Estes resultados são díspares dos verificados por

Sleap e Warburton (58) que constataram que os

maiores registos de AFMV ocorrem durante o

recreio (em cerca de 50% do tempo total observado),

quando comparados com os obtidos nas aulas

de EF (cerca de 40%).

Persiste a dúvida sobre se é pertinente a preocupação

de diversos investigadores com a criança que apresenta

baixos níveis de AF. No entanto, confirma-se a

ideia de que há crianças espontaneamente muito activas

e outras que realizam voluntariamente muito

pouca AF. Se considerarmos, igualmente, que há

estudos que demonstram que a criança apresenta

níveis inferiores de AF na ocupação dos seus tempos

livres fora da escola (58) e que a infância é considerada

como o estádio da vida mais activo, a partir do

qual se assiste a um decréscimo nos níveis de AF,

parece-nos pertinente a realização de mais investigação

neste âmbito, que permita uma intervenção efec-

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [47–57]

tiva junto das crianças. Mesmo considerando que a

participação diária em AF seja baixa, o envolvimento

escolar, através das aulas de EF e a oportunidade para

jogar e brincar no recreio, pode proporcionar mais

oportunidades para que as crianças sejam activas.

Consideramos, no entanto, que é necessário averiguar

muitos outros aspectos das aulas de EF que não

se circunscrevem ao aumento dos níveis de AF das

crianças. Este estudo não pretendeu avaliar os conteúdos

e matérias leccionadas nas aulas monitorizadas,

onde, segundo apurámos, predominaram os

jogos infantis, nem as mensagens relacionadas com a

saúde transmitidas pelos seus professores; mesmo

notando que as crianças, de uma maneira geral, gostavam

e ansiavam por estas aulas, não avaliámos

estas questões. No entanto, sabemos que estas são

questões igualmente importante na AF relacionada

com a saúde.

4. CONCLUSÕES

Da análise e discussão dos resultados emerge o

seguinte quadro de conclusões:

As crianças do sexo feminino evidenciam menores

níveis de AF, essencialmente de intensidade elevada,

na ocupação dos seus tempos livres. De facto, encontramos

nos rapazes resultados significativamente

superiores no valor compósito de actividade física no

tempo de lazer e no relativo à actividade extenuante,

quando comparados com os das raparigas.

As crianças apresentam um padrão espontâneo de

actividade física complexo e de natureza transitória,

distinto do adulto. A representação gráfica do dispêndio

energético ocorrido durante os períodos de

recreio permitiu-nos confirmar o carácter aleatório e

irregular com que se evidenciam comportamentos de

diferentes intensidades, não persistindo durante

extensos períodos de tempo a realização de actividades

de intensidade elevada.

A avaliação de actividade física realizada pelas crianças,

durante o tempo escolar, através do Tritrac-R3D,

permitiu confirmar a ideia empírica de que as crianças

pertencentes à nossa amostra despendem grande

proporção do tempo passado na escola sentadas na

sala de aula, onde evidenciam níveis de actividade

física sedentária ou com ligeiras oscilações de actividade

física de muito baixa intensidade, verificandose

um predomínio da actividade física leve. Esta correspondeu

a 92,6% do tempo total despendido na

escola, enquanto a actividade física moderada a vigorosa

ocorreu, em média, em apenas 7.4% desse


tempo. Esta percentagem corresponde a cerca de 22

minutos, não atingindo, no mínimo, a meia hora de

actividade física moderada a vigorosa recomendada

por diversas directrizes internacionais.

Quando analisados os resultados relativos à realização

espontânea de actividade física no contexto

informal do recreio, verificou-se que os elementos

do sexo feminino despenderam uma proporção do

seu tempo significativamente superior em actividade

física leve, quando comparados com os do sexo masculino.

Estes, por seu lado, apresentam valores

médios significativamente superiores no respeitante

à actividade física moderada e, consequentemente, à

actividade física moderada a vigorosa.

A análise dos resultados obtidos, durante as aulas de

Educação Física, revelou, em termos da proporção de

tempo despendido em actividade física de diferentes

intensidades, valores próximos dos obtidos por

vários estudos internacionais, em que, mesmo utilizando

metodologias distintas, a maior percentagem

de tempo da aula se verificou ser despendida em

actividade física sedentária ou leve. No entanto, a

percentagem média de tempo despendida em actividade

física moderada a vigorosa por esta amostra

(34.1%) não atingiu o critério recomendado por uma

instituição de renome internacional americana que

preconiza que ao alunos devem despender, pelo

menos, metade do tempo da aula de Educação Física

em actividade física significativa (62).

Quando comparados os resultados obtidos pelas

crianças durante as aulas de Educação Física com

aqueles obtidos no recreio, verifica-se que apenas se

revelaram significativamente diferentes quanto à realização

de actividade física intensa. No entanto,

quando analisada no seu conjunto, a actividade física

moderada a vigorosa, assim como, a actividade física

de baixa intensidade registaram valores próximos

nos dois contextos, não se podendo, portanto, inferir

que, no geral, se tenha verificado um comportamento

diferente quanto ao dispêndio energético.

Padrão de actividade física de crianças do 4.º ano de escolaridade

CORRESPONDÊNCIA

José Maia

Laboratório de Cineantropometria

e Estatística Aplicada

Faculdade de Ciências do Desporto

e de Educação Física

Universidade do Porto

Rua Dr. Plácido Costa, 91

4200.450 Porto

Portugal

jmaia@fcdef.up.pt

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [47–57] 55


56

Luísa Magalhães, José Maia, Rui Silva, André Seabra

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Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [47–57] 57


58

Efeito do estabelecimento de metas na aprendizagem

do arremesso do Basquetebol

Herbert Ugrinowitsch

Luiz E.P.B.T. Dantas

RESUMO

As metas podem ser divididas em metas genéricas e metas

específicas. As metas genéricas são caracterizadas por instrução

do tipo “faça o melhor possível”, e as metas específicas são

bem definidas e, de preferência, quantitativas. Essa estratégia

de estabelecer metas tem sido utilizada com atletas de alto rendimento,

mas os seus efeitos na aprendizagem de habilidades

esportivas ainda não estão claros. Essa questão foi investigada

em uma situação real de ensino, em aulas de educação física

escolar, com crianças (n=166) da quinta série do ensino fundamental

(11 anos), divididas em três grupos experimentais:

metas genéricas (MG), metas específicas (ME) e sem metas

(SM) na tarefa de arremesso do basquetebol. A ANOVA two

way (3 Grupos x 2 Testes) mostrou diferença significativa apenas

no segundo fator f (1,142) = 18,031 e p < 0,05. A outra

ANOVA realizada para o coeficiente de variação relativo (CVR)

(3Grupos x 2Testes) mostrou uma diminuição significativa

dessa medida do pré-teste para o pós-teste. De acordo com os

resultados, o estabelecimento de metas não auxiliou na aprendizagem

de habilidades esportivas. Os resultados foram discutidos

em relação ao nível de habilidade dos sujeitos e às metas

de processo e de produto.

Palavras-chave: Aprendizagem motora, estabelecimento de

metas, basquetebol.

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [58–63]

Escola de Educação Física e Esportes

Universidade de São Paulo

Brasil

ABSTRACT

Goal-setting effects on Basketball shot learning

Goals can be divided into generic goals and specific goals. Generic goals

belong to the group “do your best”, while the specific goals are well defined

and preferably quantitative. This strategy for goal-setting has been

used with elite athletes, but little is known about its effects on motor

skills learning. This question was investigated in a real teaching situation,

during physical education classes, with children (n=166) of the

elementary school (11 years old), divided in three experimental groups:

generic goals (MG), specific goals (ME) and without goals (SM) in the

task basketball shot. The ANOVA two way (3 groups X 2 tests) with

repeated measures has just indicated a significant difference in the

second factor f (1,142) = 18,031 and p < 0,05. Moreover, the another

ANOVA conducted for the relative variation coefficient (CVR) (3

groups x 2 tests) showed that this measure went down significantly

from the pre to the post test. According to the results, the goal setting

didn’t help the learning of sports skills. The results are discussed in relation

to the subjects’ skill level and the process and product goal setting.

Keywords: Motor learning, goal setting, basketball.


INTRODUÇÃO

A estratégia de estabelecer metas para si próprio ou

para uma coletividade pode ser vista como um traço

característico do comportamento humano, observado

na capacidade de projetar virtualmente condições

futuras para guiar as suas ações presentes.

Particularmente nos últimos 25 anos, o uso de metas

como uma técnica eficaz para o aumento do desempenho

ou produtividade tem recebido uma abordagem

teórica. Locke & Latham (10), com base numa

revisão de mais de 400 estudos realizados no contexto

de desempenho industrial e organizacional, propõem

que metas específicas e desafiadoras, na perspectiva

de quem irá desempenhar a tarefa, provocam

níveis mais altos de desempenho que metas fáceis ou

metas gerais (do tipo “faça o melhor possível”).

Uma meta, do ponto de vista psicológico, pode ser

entendida como um compromisso com uma projeção

de desempenho. O estabelecimento de meta pode

ser visto, então, como uma estratégia motivacional,

que busca dirigir e manter a atenção do executante

para um determinado objetivo a ser alcançado, e

assim, melhorar seu desempenho (9).

As metas a serem estabelecidas podem obedecer a

critérios ou “atributos” diversos. Burton (2) destaca

quatro: o grau de dificuldade da meta, a temporalidade

da meta, a coletividade da meta e a especificidade

da meta. O grau de dificuldade refere-se à distância

hipotética entre o nível de desempenho atual

do indivíduo e o nível de desempenho estabelecido

como meta. Segundo Locke & Latham (9), metas

consideradas difíceis, porém atingíveis, produzem

desempenho superior ao alcançado com o uso de

metas fáceis. Entretanto, no campo esportivo, Kyllo

& Landers (8) mostram que as pesquisas sobre o

estabelecimento de metas no campo esportivo não

dão suporte a essa hipótese.

As metas também podem ser manipuladas temporalmente,

isto é, as metas podem ser de longo prazo e

de curso prazo. Para esse atributo, Locke & Latham

(10) apontam que o uso da meta de longo prazo

combinada a metas de curto prazo levaria a um

melhor desempenho, comparativamente ao uso de

meta de longo prazo isoladamente. Entretanto, poucos

estudos têm investigado essa hipótese.

Outro atributo é a “coletividade da tarefa”, que se

refere à possibilidade da meta ser estabelecida para o

grupo ou para o indivíduo. Uma meta pode ser considerada

coletiva ou de grupo quando estipulada

para todo o grupo como uma unidade, e não a simples

soma de metas individuais (20). Esses autores

Efeito do estabelecimento de metas na aprendizagem

sugerem que o estabelecimento de metas coletivas

deveria melhorar o desempenho de uma equipe, contudo,

ressaltam que praticamente nenhum estudo foi

conduzido para investigar a coletividade da meta e o

desempenho de equipes esportivas.

Um último atributo refere-se à especificidade da

meta ou grau de objetividade da meta. Com relação

a esse atributo, dois tipos de metas têm sido investigados:

meta genérica (“faça o melhor possível”) e

meta específica (por exemplo, “10 chutes corretos

em 12 tentativas”). Locke & Latham (10) predizem

que metas difíceis e específicas produzem um efeito

superior sobre o desempenho que metas genéricas.

Segundo os autores, as metas específicas regulam

melhor o comportamento em direção ao estado

almejado, quando comparadas com metas vagas ou

situações sem metas. O efeito da especificidade da

meta tem sido alvo de vários estudos, entretanto,

Weinberg (19) ressalta que apesar dos resultados

positivos no campo da produção industrial e organizacional,

no contexto esportivo, os resultados não

têm sido conclusivos.

Nos últimos cinco anos, o tema estabelecimento de

metas tem sido alvo de pesquisas em outras áreas

relacionadas ao comportamento motor. Por exemplo,

Ponte-Allan & Giles (13), mostram que no processo

de reabilitação de indivíduos acometidos por acidente

vascular cerebral, os pacientes sem metas permaneceram

mais tempo na unidade médica do que os pacientes

para os quais havia sido estabelecida uma meta

temporal para a recuperação das funções selecionadas.

O efeito do estabelecimento de metas não tem recebido

muita atenção por parte dos pesquisadores da

área de aprendizagem motora. Uma das exceções é o

trabalho de Cezar, Ugrinowitsch, Tani, Teixeira (3),

em que se investigou o efeito de diferentes tipos de

metas (específicas e genéricas) na aprendizagem do

drible do basquetebol (teste da AAHPERD) (1). De

acordo com os resultados, não houve diferença intergrupos,

ou seja, não foi verificado o efeito do estabelecimento

de metas na aprendizagem. Contudo, os

sujeitos eram participantes de um programa de obesidade

do Centro de Práticas Esportivas da

Universidade de São Paulo (CEPEUSP), e foram

divididos em dois grupos de acordo com critérios

relacionados ao programa no qual estavam inscritos.

Nesse programa, um grupo tinha orientação alimentar

e participava de um programa de atividade física

(grupo meta genérica – MG), e o outro somente participava

da atividade física (grupo meta específica –

ME). O grupo MG pode ter apresentado um bom

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [58–63] 59


60

Herbert Ugrinowitsch, Luiz E. Dantas

desempenho no teste por causa do maior comprometimento

com o programa de obesidade.

Freudenheim & Tani (7) investigaram o efeito do

estabelecimento de metas na aprendizagem em uma

tarefa de flutuação no meio líquido. Foram utilizados

três grupos experimentais: grupo meta genérica

(MG), grupo meta específica (ME) e grupo meta

específica combinada com metas de curto prazo

(MC). Não houve diferenças intergrupos.

A escassez de trabalhos, assim como os resultados

encontrados, não permitem ainda uma visão clara do

papel do estabelecimento de metas na aprendizagem

de habilidades motoras, especificamente nos estudos

que tiveram o objetivo de testar a hipótese de Locke

& Latham (9). Assim, testar essa hipótese, com tarefas

reais (por exemplo, aquelas utilizadas em aulas de

Educação Física) pode ser visto como um importante

desafio na área de Comportamento Motor (15, 18).

Este estudo pretende investigar o efeito do estabelecimento

de metas para a aprendizagem da habilidade

arremesso do basquetebol, em uma situação real

de ensino e aprendizagem, em aulas de Educação

Física Escolar.

MATERIAL E MÉTODO

Participaram desse experimento 166 sujeitos de

ambos os sexos, que cursavam a primeira série do

ensino fundamental numa escola particular da zona

Oeste da cidade de São Paulo, com idade variando

entre 11 e 12 anos, cujos pais consentiram a participação

na pesquisa. A tarefa consistiu em realizar o

arremesso frontal a uma cesta oficial de basquetebol,

à distância horizontal de dois metros da tabela oficial

do jogo. A tarefa foi adaptada do teste da AAH-

PERD (1) (Figura 1).

Figura 1 – Local do teste de arremesso do basquetebol adaptado de AAHPERD(1).

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [58–63]

A amostra foi dividida em 3 grupos, de acordo com a

classe a que pertenciam na escola. Isso foi feito com o

objetivo de evitar a “contaminação” dos diferentes

tipos de metas. O grupo meta genérica (MG) recebia

a instrução “faça o maior número de cestas possível”.

O grupo meta específica (ME) recebia a instrução de

qual o índice de acertos a ser alcançado ao final das

nove sessões de prática. Esse número foi estipulado

para cada aluno e era 20% superior ao número de cestas

convertidos no pré-teste. O grupo sem meta (SM)

recebia a instrução “faça 10 arremessos”. Todos os

sujeitos participavam normalmente das aulas de educação

física; as instruções eram dadas no início de

cada aula, seguido do momento dedicado à parte

experimental, em que os sujeitos realizavam o mesmo

número de arremessos do teste inicial (10 arremessos),

totalizando 100 arremessos durante todo o experimento.

Os alunos que faltaram em duas ou mais

sessões de prática foram excluídos do estudo.

Os sujeitos de cada grupo (MG, ME e SM) foram

organizados em grupos de seis alunos (um dos grupos

com sete integrantes) e cada um deles realizava

um arremesso e seguia para o final da fila. Somente

após todos realizarem o primeiro arremesso, era realizado

o segundo, até que se totalizasse 10 arremessos.

No caso de faltas (não comparecimento do

aluno à aula), o grupo era composto pelo número de

alunos presentes. Esse procedimento foi adotado em

todas as sessões, incluindo o pré e pós-testes. Não

foi fornecido feedback pedagógico sobre o resultado

aos sujeitos, independentemente do grupo a que

pertenciam, pois nessa tarefa ele era redundante

com a informação visual.

Na primeira sessão, todos os sujeitos participaram

de um pré-teste, que consistiu na realização de 10

arremessos a uma distância horizontal de dois

metros da tabela oficial de basquetebol. Para cada

arremesso convertido era computado um ponto, e

para cada arremesso falho zero ponto. Seguiram-se

oito sessões de prática, e na décima sessão foi realizado

o pós-teste. As variáveis dependentes foram a

média de pontos do teste (média de cestas convertidas)

e a variabilidade nas execuções. Para a medida

de variabilidade optou-se pelo coeficiente de variação

(CVR) (6), uma vez que essa tem sido vista como a

melhor medida para verificar a variabilidade (11).

Com o objetivo de identificar as possíveis diferenças

intra e intergrupo da média dos pontos alcançados no

pré e pós-testes foi realizada uma ANOVA two-way (3

grupos x 2 testes), com medidas repetidas no segundo

fator. Esse procedimento auxilia a responder se os


sujeitos aprenderam a habilidade, ou seja, tornaramse

mais consistentes, e também qual tipo de tratamento

influenciou mais a aprendizagem, sendo estabelecido

o p


62

Herbert Ugrinowitsch, Luiz E. Dantas

Apesar de não termos detectado diferenças estatisticamente

significantes entre os grupos, observamos

que houve uma tendência de melhor desempenho do

grupo ME em relação aos demais. A mesma tendência

foi observada em relação à medida de variabilidade

(CVR), pois o grupo MG apresentou uma tendência

a menor variabilidade quando comparado aos

grupos ME e SM. Vale ressaltar que, em ambos os

casos, o grupo SM teve desempenho inferior aos

outros dois grupos, o que pode ser um indicativo de

que o estabelecimento de metas, sejam genéricas,

sejam específicas, favorece mais a aprendizagem do

que a ausência de metas.

Um outro fator a ser considerado é que a medida de

aprendizagem utilizada pode não ser adequada.

Parece ser necessário utilizar um instrumento que

seja mais sensível e que discrimine melhor outros

aspectos da aprendizagem (padrão de movimento e

de controle de parâmetros). Pelos alunos serem iniciantes,

e portanto, estarem voltados para a formação

de uma idéia geral do movimento, os efeitos do

processo de aprendizagem podem ser mais nítidos

no padrão de execução do movimento. Ainda em

relação às metas específicas, elas podem ser de longo

prazo, como nesse estudo, ou de longo prazo combinadas

com metas de curto prazo (9). As metas de

curto prazo parecem direcionar mais a atenção dos

sujeitos do que metas de longo prazo (7, 16), pois as

metas de longo prazo freqüentemente são muito distantes

para motivar ações imediatas (8).

Particularmente com crianças, esse parece ser mais

um caminho a percorrer para esclarecer o efeito do

estabelecimento de metas na aprendizagem de habilidades

motoras.

Também é necessário ressaltar que, nesse estudo, os

sujeitos não foram separados pelo tipo de orientação

que possuíam (à tarefa ou ao ego) (5, 12, 14, 17).

Talvez seja importante verificar qual a fase de aprendizagem

que o sujeito se encontra, para então propor

diferentes tipos de metas. Por exemplo, um

sujeito que está no estágio inicial de aprendizagem

deve ter a atenção voltada para a aprendizagem do

processo de organização de estratégias para atingir o

objetivo. Nesse momento, metas de processo devem

auxiliar a manter a atenção nessas estratégias. Já um

atleta que apresenta um alto grau de domínio da

habilidade deveria utilizar, pelo menos, metas de

resultado, pois uma competição está diretamente

relacionada a vencer oponentes. Como os sujeitos

que participaram desse estudo não dominavam as

habilidades praticadas, seria importante utilizar

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [58–63]

metas de processo, e não de desempenho.

Entretanto os autores desconhecem formas de operacionalizar

metas de processo, como por exemplo,

estipular índices de dificuldade em metas qualitativas,

ou mesmo propor medidas operacionais robustas

para avaliação qualitativa do desempenho. Os

crescentes avanços na área de cinemática do movimento

humano têm se mostrado promissores quanto

ao segundo problema, entretanto, não foi encontrado

na literatura uma resposta satisfatória para o

primeiro problema.

CONCLUSÕES

Apesar do grupo ME ter uma tendência de melhor

desempenho que os grupos MG e SM, esse resultado

não foi confirmado pela análise estatística, o mesmo

ocorrendo em relação à diminuição da variabilidade.

São necessários novos estudos que investiguem o

estabelecimento de metas na aprendizagem em

outras tarefas. Entretanto, uma limitação que precisa

ser superada em futuros estudos, para que avancemos

na compreensão desse fenômeno, refere-se à

manipulação de metas de processo.

CORRESPONDÊNCIA

Herbert Ugrinowitsch

Laboratório de Comportamento Motor (LACOM)

Escola de Educação Física e Esportes

Universidade de São Paulo

Avenida Prof. Mello Moraes, 65

Caixa Postal 5349

05508 - 900 Butantã

São Paulo, SP

Brasil

nowitsch@usp.br


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Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [58–63] 63


ARTIGOS DE

REVISÃO


A investigação sobre o ensino dos jogos desportivos:

ensinar e aprender as habilidades básicas do jogo

A.S. Graça

I.R. Mesquita

RESUMO

O presente estudo faz uma revisão da evolução da investigação

sobre o ensino dos jogos desportivos, delimitando a sua abrangência

à investigação relativa ao ensino e aprendizagem das

habilidades básicas, constituindo esta tarefa apenas uma parte,

mas a mais preponderante, do esforço de investigação nesta

temática. A uma fase inicial, marcada pelas questões oriundas

da aprendizagem motora, muito dependente dos estudos ligados

à realização de provas académicas, caricaturada na infindável

guerra dos métodos, sucedeu uma fase de observação sistemática

do processo de ensino e aprendizagem, com relevo

especial para os estudos focados sobre o empenhamento dos

alunos na aula e a sua relação com o sucesso na aquisição das

habilidades. Os sucessivos esforços de qualificação e refinamento

das variáveis de empenhamento do aluno, a par de um

crescente deslocamento das bases conceptuais da esfera de

influência das perspectivas behavioristas para as cognitivistas

aproximaram as questões do estudo da busca de um entendimento

mais íntimo da natureza do trabalho do aluno, dos

objectivos, dos conteúdos e dos contextos das tarefas e do nível

de processamento dos alunos no confronto com essa tarefas. A

organização dos contextos de prática tem merecido nas últimas

décadas uma atenção especial, procurando-se novamente uma

ligação às ideias da aprendizagem motora, como é o caso da

teoria da interferência contextual, ainda que os resultados não

se apresentem tão inequívocos. A atenção dada à realização das

habilidades por diversos programas parece, por vezes, resultar

e também, porventura, induzir uma visão fragmentada e descontextualizada

das habilidades dos jogos.

Palavras-chave: jogos desportivos, habilidades, ensino,

revisão da investigação

Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física

Universidade do Porto

ABSTRACT

Research on teaching sport games:

Teaching and learning games skills

This study reviews the evolution of the research on the sport games

related to the issues of teaching and learning the sport games skills,

which is no more than a part of the research effort in the domain of

sport games, yet the prominent one. In the first phase the research

question was rooted upon motor learning topics, and the studies confined

to academic graduation requirements. It was the time of the

“methods war”. A new phase began with the systematic observation of

the teaching and learning process, with a particular interest on learner

engagement and the correlated effect on skill achievement. The continued

efforts to qualify and refine learner engagement variables, along

with a growing move from a behaviourist to a cognitivist perspective

has put the research questions more and more closed to the intimacies

of the student work, to the tasks goals, content and contexts, and to

the level of the learner processing on those tasks. In the last decades,

the arrangement of the contexts for practice has deserved special attention

by renewing the connection with the motor learning topics, such as

the contextual interference, although results were not so conclusive. The

attention the programs usually assigned to skill execution may be both

a result of and a cause to a fragmented and non-contextualized view of

the sport games’ skills.

Keywords: Sport games, games’ skills, teaching,

research review

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [67–79] 67


68

A.S. Graça, I.R. Mesquita

1. INTRODUÇÃO

Os jogos desportivos ocupam um lugar dominante

nos programas de Educação Física das mais diversas

latitudes, na Austrália (7), no Canadá (26), nos

Estados Unidos (43), na Inglaterra (11). Os jogos

desportivos ocupam igualmente um lugar cimeiro no

conjunto das actividades organizadas em que participam

crianças e jovens. Porém, se tomarmos a revista

JTPE como uma boa janela para apreciar o panorama

da investigação empírica na área da pedagogia do

desporto, podemos verificar que em 20 anos de

publicação apenas 54 em 613 títulos de artigos

remetem explicitamente para os jogos desportivos, o

que nos pode dar a ideia de que o ensino dos jogos

tem sido uma realidade pouco estudada.

Tradicionalmente, as práticas de ensino dos jogos

colocam a aprendizagem das habilidades como um

pré-requisito para o sucesso da participação no jogo.

As progressões didácticas concentram-se básica ou

exclusivamente nos aspectos da execução motora das

habilidades básicas em situações descontextualizadas.

A investigação sobre o ensino do jogo, de uma

forma clara, ou então por omissão ou conveniência,

tem predominantemente assumido o primado do

domínio das habilidades.

Nos anos mais recentes, as perspectivas cognitivistas

e construtivistas recentraram ou alargaram as abordagens

e a investigação sobre os jogos a domínios

tradicionalmente negligenciados, como sejam o

domínio da táctica e da sua interacção complexa com

a técnica, envolvendo o conhecimento, a compreensão,

a tomada de decisão e a capacidade de acção em

situação de jogo.

Uma revisão sobre o ensino do jogo deve procurar,

ainda que aqui se faça de forma compreensiva, traçar

o panorama da evolução da investigação sobre o tema,

apontando as questões fundamentais, o modo como

foram operacionalizadas, os resultados mais relevantes

e as principais críticas, debilidades e impasses.

Por razões de espaço limitaremos a revisão à investigação

que tematiza ou se desenvolve no pressuposto

do primado das habilidades básicas do jogo, deixando

para futura publicação a revisão da investigação

que contempla outros domínios relacionados com o

ensino e aprendizagem dos jogos desportivos.

A estrutura do artigo desenvolve-se em 5 pontos. Ela

deixa perceber uma lógica de sucessão de fases de

investigação entre os diversos pontos, mas também

em certo grau a coexistência de ramos de investigação

consideravelmente distintos. O primeiro ponto,

que designamos de primeiros passos ou falsas parti-

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [67–79]

das, remete para um tempo de investigação marcado

essencialmente pela comparação de métodos de instrução.

O segundo ponto representa um corte com a

investigação anterior e refere-se aos estudos de

observação sistemática do comportamento de professores

e alunos, incidindo particularmente nos estudos

focados sobre o empenhamento motor dos alunos.

O terceiro ponto lida com o esforço da investigação

para ultrapassar o carácter genérico e algo

grosseiro das variáveis de empenhamento do aluno e

definir variáveis mais específicas e diferenciadas do

desenvolvimento do conteúdo e delineamento das

tarefas de aprendizagem. O quarto ponto contempla

a investigação que procura testar os efeitos da interferência

contextual na aprendizagem das habilidades

dos jogos em condições de instrução não laboratoriais.

Por último, o quinto apresenta um breve balanço

da investigação revista e perspectiva a emergência

de um questionamento para além do horizonte da

execução das habilidades, entrando em linha de

conta com outras dimensões fundamentais, em particular

a dimensão cognitivo-táctica do jogo.

2. PRIMEIROS PASSOS OU FALSAS PARTIDAS?

No capítulo de Nixon e Locke (42) do 2º Handbook

of Research on Teaching, dedicado à revisão da

investigação no ensino da Educação Física, pudemos

enumerar 60 referências bibliográficas de estudos

empíricos cujo título fazia menção explícita a diferentes

tipos de jogos desportivos, com destaque para

o ténis (n=23), basquetebol (n=18), badminton

(n=8) e voleibol (n=6). A grande maioria destes

estudos reporta-se à década de 60 e refere-se a provas

de graduação académica, principalmente dissertações

de mestrado (n=33). A generalidade destes

estudos enquadra-se numa fase da investigação do

ensino que se centrou na descoberta do método

ideal, através da comparação de resultados produzidos

em uma ou mais habilidades pela aplicação

experimental de diferentes métodos, procedimentos

ou meios de ensino, ou formas de organização do

currículo e dos alunos (por exemplo: método parcial

vs. global; demonstração; treino mental; instrução

directa vs. instrução programada; sequências de progressões;

distribuições da prática; tamanhos da

turma; agrupamento dos alunos por níveis de habilidade;

coeducação vs. educação segregada; dimensões

do objecto de jogo, dos engenhos ou equipamentos).

Nesta fase, a investigação do ensino tinha alguma

dificuldade em se diferenciar da investigação da área

da aprendizagem motora, aparecendo como parente


pobre duma área que crescia em especialização, mas

que, para o fazer, se distanciava dos problemas práticos

do ensino e da aprendizagem da aula de educação

física ou do treino desportivo. Fica deste tempo

uma intenção de testar e transpor para as condições

do terreno da prática ilações e sugestões extraídas da

investigação laboratorial da aprendizagem motora.

Não teve porém grande sucesso e a generalidade das

suas conclusões não teve qualquer repercussão ou

impacto. A debilidade destes estudos e a crítica que

sobre eles se abateu resulta sobretudo do carácter

avulso das variáveis experimentais, dado que não

apareciam escudadas nem em teorias de aprendizagem

unificadoras, que as não havia, nem em teorias

de ensino coerentes, isto para além das insuficiências

metodológicas que hipotecavam a validade

externa dos resultados. Como refere Locke (35), o

número reduzido de turmas incluídas nos estudos e

a adopção de unidades de análise inadequadas confundiam

os efeitos eventualmente produzidos pelos

métodos com efeitos atribuíveis a diferenças idiossincráticas

dos professores. Talvez por tudo isto

Siedentop e Tannheill (61) passem por cima de

todos estes estudos e sinalizem o início da investigação

em ensino com a publicação de “What’s going

on in gym”, editado por Anderson e Barrette (3),

que compila um conjunto de estudos de observação

sistemática do comportamento de professores e alunos

na aula de educação física.

3. OBSERVAÇÃO SISTEMÁTICA DO ENSINO DO JOGO

E DAS HABILIDADES

Os estudos centrados na observação sistemática do

ensino do jogo e das respectivas habilidades foram,

numa primeira fase, de natureza descritiva.

Pretenderam fazer o retrato da forma como os professores

e treinadores desempenhavam as diferentes

funções de ensino, com especial relevo para o feedback

pedagógico, e estruturavam e geriam as sessões

de ensino do jogo e das habilidades, nomeadamente

no respeitante ao tempo destinado à exercitação dos

conteúdos e à participação dos alunos ou atletas nas

actividades.

Merece ser assinalado o conjunto de trabalhos de

uma equipa de investigadores finlandeses apresentado

ao International Congress on Teaching Team Sports

(1983, Roma), iniciativa que infelizmente não teve

continuidade e que colocou lado a lado representantes

das diversas comunidades interessadas no estudo

dos jogos desportivos e no seu ensino. Varstala et al.

(69) compararam o comportamento de professores e

Investigação sobre o ensino do jogo

professoras e verificaram que os professores ensinavam

os jogos mais frequentemente e dedicavam mais

tempo a jogar e menos tempo a exercitar as habilidades

do jogo que as professoras. Laakso et al. (29)

reportam que os alunos do ensino secundário, de

ambos os sexos, são capazes de aplicar habilidades

básicas de voleibol em situações de jogo, mas com

grandes diferenças entre eles. Telama et al. (65)

compararam a participação de rapazes e raparigas do

ensino secundário nas aulas de diferentes jogos desportivos.

Rapazes e raparigas diferenciam-se nos

comportamentos e padrões de actividade, havendo

também diferenças de modalidade para modalidade,

principalmente entre as raparigas.

O constructo Academic Learning Time in Physical

Education (ALT-PE) assumiu particular relevância na

investigação no ensino da Educação Física, dos finais

dos anos 1970 aos primeiros anos de 1990. O ALT-

PE contabiliza o tempo individual do aluno passado

em conteúdo específico de Educação Física com

nível apropriado de dificuldade obtendo elevado grau

de sucesso no desempenho das tarefas (40, 60). A

associação, empiricamente verificada no ensino

geral, entre o ALT e os ganhos de aprendizagem

sugeriu que este constructo poderia constituir uma

forma válida não só de ajuizar acerca da qualidade da

aula ou da sessão de treino, como até de medir indirectamente

a aprendizagem, o que no caso dos jogos

desportivos, dada ausência de produtos permanentes,

se tornava num substituto muito aliciante (45).

A sustentabilidade desta hipótese viria a ser parcialmente

confirmada num estudo de Silverman

Devillier e Ramirez (62).

A maior parte dos estudos que analisaram as variáveis

relacionadas com a oportunidade de resposta,

no âmbito do ensino e treino dos jogos desportivos,

nomeadamente o ALT-PE, ou mais genericamente o

tempo de empenhamento motor, foram realizados

no contexto escolar, sendo em menor escala os estudos

realizados no âmbito do clube.

O tipo de actividade aparece como um factor marcante

nas diferenças de tempo de empenhamento

motor dos alunos. As aulas de jogos desportivos proporcionam

substancialmente mais tempo de empenhamento

motor que as de ginástica ou atletismo

(48, 51), mas menos que as de dança (44). A comparação

dos tempos de empenhamento motor dos

alunos por sexo ou nível de habilidade não produziu

evidência inequívoca. Os estudos de Shute et al.

(59), Silverman et al. (1984), Pimentel (52) e Graça

(18) não reportam diferenças significativas entre

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [67–79] 69


70

A.S. Graça, I.R. Mesquita

sexos ou entre níveis de habilidade. Mesquita (38)

também não encontra diferenças significativas de

tempo de empenhamento motor global entre jovens

voleibolistas do sexo feminino, de diferentes níveis

de habilidade, o que já não acontece no caso dos

exercícios específicos quando analisados de forma

agregada. Outros estudos, porém, referem vantagens

dos rapazes (63, 64), ou dos alunos de nível elevado

(47, 49), ou de atletas de nível mais elevado (36).

Na comparação do empenhamento na aula de educação

física e na sessão de treino desportivo, dedicadas

ao ensino e treino de basquetebol, Piéron e

Gonçalves (50) verificaram que o mesmo professor

proporcionava o mesmo tempo de exercitação das

habilidades do jogo, que era em ambos os casos o

maior segmento da aula ou sessão de treino (cerca

de 40% do tempo observado). No entanto, nas situações

de jogo, o professor tinha uma actuação bastante

diferente nos dois contextos. Na aula de educação

física, a forma de jogo dominante era o 5x5, com as

situações de jogo reduzido a ocuparem uma percentagem

de tempo diminuta (21.1 vs. 4.6), enquanto

que no treino, o jogo 5x5 é suplantado pelas formas

de jogo reduzido (14.9 vs. 19.2). Privilegiar formas

de jogo bem mais complexas no contexto da aula de

educação física do que no treino desportivo dificilmente

se poderá encaixar numa lógica de progressão

didáctica do ensino do jogo, embora pareça ser essa

a forma tradicional de ensinar o jogo na escola (19).

Aos estudos descritivos sucedem-se os correlacionais

entre variáveis do processo de ensino e aprendizagem

e uma medida válida de produto da aprendizagem,

visando o entendimento dos factores que

influenciam os ganhos da aprendizagem no ensino

das actividades desportivas (41).

Dos estudos correlacionais ou comparativo-causais

realizados no âmbito dos jogos desportivos, é de

destacar o estudo de Phillips e Carlisle (46), aplicado

no Voleibol, um dos estudos de maior envergadura

na linha de investigação processo-produto e que

pôs em evidência o efeito do tempo de empenhamento

motor; em claro contraste situam-se os estudos

de Brunelle et al. (8) e de Godbout, Brunelle &

Tousignant (16), aplicados a jovens atletas e realizados

em diferentes modalidades colectivas (Hóquei

no gelo, Voleibol e Andebol), onde a relação entre a

oportunidade de resposta e os ganhos de aprendizagem

não se evidenciou.

Os esforços para credibilizar o ALT-PE como variável

preditiva dos ganhos de aprendizagem dos alunos

não foram concludentes (57). Podemos entender

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [67–79]

este constructo como uma variável necessária mas

não suficiente para a realização das aprendizagens,

na medida em que praticar as tarefas com sucesso

num tempo de exercitação apropriado não significa

que a qualidade da prática seja suficiente para que se

verifique melhoria na performance, ou mesmo que a

tarefa esteja de acordo com os objectivos da aprendizagem

(1, 57).

Mesmo no ensino geral, onde a associação entre

tempo de empenhamento do aluno e resultados de

aprendizagem foi bem estabelecida, se criticou a

ênfase neste tipo de medidas, nomeadamente pela

não consideração da especificidade do conteúdo, da

qualidade da aprendizagem, da qualidade do trabalho

do aluno, e por espelhar uma visão fragmentária

e descontextualizada das matérias, dos conhecimentos

e das habilidades (53).

Com base nas características que definem os jogos

desportivos colectivos, Parker e O’Sullivan (45) justificaram

a pertinência de substituir ou complementar a

observação de variáveis temporais por variáveis discretas

(número de execuções), nos casos em que fosse

manifesta a vantagem de utilizar a frequência de respostas

correctas como variável critério, porquanto a

análise de variáveis discretas no contexto dos jogos

desportivos colectivos permitia ter em conta as condições

e os critérios de realização das respostas. A

intenção era aceder a um conhecimento mais pormenorizado

do envolvimento e consequentemente à possibilidade

de determinação dos tipos de envolvimento

que proporcionam elevadas frequências de execução

das habilidades dos jogos desportivos (38).

Buck e Harrison (9), Buck, Harrison e Bryce (10)

estudaram o ensino do voleibol na escola, com o

propósito de analisar a qualidade e quantidade de

execuções das quatro habilidades básicas do jogo

(passe, manchete, serviço e remate), ao longo de 22

aulas, e relacioná-las com os ganhos de aprendizagem.

Nas duas turmas observadas, o jogo formal

ocupou mais de metade do tempo dedicado à prática.

De uma forma geral, todos os alunos realizaram

poucos contactos com a bola, e os de nível baixo

praticamente não contactaram com ela durante o

jogo. A análise da relação entre o número de execuções

das habilidades e os ganhos de aprendizagem

põe em evidência a influência determinante do

número de execuções correctas e sublinha também a

influência do nível inicial. Com base nestas constatações,

os autores salientam a necessidade de ser dada

mais atenção ao ensino das habilidades complexas

que requerem coordenação e ajustamento temporal;


os alunos de nível de desempenho baixo necessitam

de situações de aprendizagem mais estruturadas que

possibilitem não só o aumento do número total de

contactos, como também a ocorrência de maior qualidade

de resposta. A quase total ausência de sucesso

registada pelos alunos de baixo nível põe em causa a

utilização do jogo formal como meio preferencial de

aprendizagem do Voleibol e sugere uma articulação

mais funcional da exercitação das habilidades específicas

com formas de jogo reduzido.

Mesquita (38) realizou um estudo centrado na

mesma problemática com aplicação no clube. Teve

como propósito comparar a frequência de resposta e

a taxa de sucesso entre jogadoras de nível superior e

médio na exercitação das habilidades técnicas, estendendo

a análise comparativa às situações de treino e

de competição. Durante dois microciclos, que perfizeram

10 treinos, observou duas equipas do escalão

de iniciados feminino; simultaneamente foram

observados 4 jogos contra um adversário comum,

mais 2 jogos entre as equipas em estudo. A autora

constatou que nos exercícios com estrutura semelhante

à do jogo as jogadoras de nível superior registaram

frequências de resposta significativamente

superiores, acentuando-se as diferenças entre os dois

grupos na qualidade de resposta. A competição acentuou

as diferenças registadas no treino entre os dois

grupos, na quantidade e na qualidade de resposta ao

nível das habilidades técnicas (passe, manchete, serviço

e remate). Perante estes resultados a autora

enfatiza a necessidade do ensino e treino das habilidades

técnicas ser estruturado de uma forma progressiva

e sequencial em referência às exigência do

jogo, preconizando o refinamento das tarefas nas

aprendizagens mais exigentes.

4. DESENVOLVIMENTO DO CONTEÚDO

E DELINEAMENTO DAS TAREFAS DE APRENDIZAGEM

Housner (27) analisou o modelo de ensino “direct

instruction”, sintetizado a partir das conclusões dos

principais estudos de investigação processo-produto,

as quais evidenciaram as variáveis relativas aos comportamentos

de instrução dos professores e ao trabalho

académico que aparecem associadas de forma

consistente a efeitos importantes nos resultados de

aprendizagem dos alunos. O autor critica, porém, as

limitações do modelo, referindo que ele é eficaz no

ensino de conteúdos bem estruturados, mas não

tanto com conteúdos mais difíceis de decompor para

um tipo de abordagem passo-a-passo, que exija resolução

de problemas, interpretação de informação não

Investigação sobre o ensino do jogo

familiar ou aplicação de regras e leis a situações

novas. O autor destaca ainda a insuficiência explicativa

das medidas de empenhamento do aluno, considerando

a necessidade de incluir variáveis de mediação

com destaque para o empenhamento cognitivo e

as estratégias de processamento do aluno.

Os resultados do estudo de Carreiro da Costa (12)

sublinham bem a necessidade de diferenciar e especificar

o conteúdo da participação motora e cognitiva

em função das necessidades dos alunos e dos objectivos

visados. A relação entre a prática do estudante

e os objectivos da aprendizagem devem ser considerados,

com especial incidência nas habilidades motoras

complexas (9, 57), como é o caso dos jogos desportivos

colectivos, aonde coexistem múltiplas escolhas

na resolução das tarefas.

Com base neste entendimento, a investigação procurou

identificar os caminhos pelos quais o professor,

ou treinador, consegue produzir qualidade nas respostas

dos alunos em conformidade com os objectivos

definidos. A selecção das tarefas por parte do

professor ou do treinador constitui um dos elementos

com especial interesse para os investigadores,

uma vez que elas são intermediárias entre os objectivos

da aprendizagem e as respostas dos alunos (57).

Graham (20) realizou um estudo com particular

interesse, ao analisar de forma sequencial as tarefas

de aprendizagem em que os alunos estiveram empenhados

e a qualidade de execução dessas tarefas, ao

longo de uma unidade dedicada ao ensino do voleibol.

Perante os resultados deste estudo, a autora evidencia

a necessidade de as tarefas de aprendizagem

serem estudadas de forma mais minuciosa pela

investigação, na medida em que interferem quantitativa

e qualitativamente nos efeitos da aprendizagem

dos alunos de diferentes níveis de desempenho.

Blakemore et al. (4) e Harrison et al. (24) desenvolveram

estudos experimentais com o propósito de testar

a organização do ensino de acordo com os princípios

do mastery learning (dividir a unidade didáctica

em sub-unidades e definir objectivos operacionais

claros; avaliação formativa e informação sobre os progressos

a par e passo; instrução adicional, reensino

para os alunos que não atingiram os critérios da subunidade

e passagem para nova sub-unidade apenas

quando 80% do grupo cumpre os critérios de mestria;

ênfase na coesão de grupo e na realização dos

objectivos de mestria predefinidos). A concepção

subjacente a esta abordagem é a de que através da

melhoria das habilidades se melhorará a capacidade

de jogo dos alunos. O primeiro estudo (4), aplicado

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [67–79] 71


72

A.S. Graça, I.R. Mesquita

em basquetebol, incluiu 3 turmas de rapazes do

ano de escolaridade. Uma turma aplicou um programa

de mastery learning durante 6 semanas com 5 aulas

de 50 minutos por semana, outra turma aplicou um

programa, com a mesma duração, centrado no desenvolvimento

das habilidades do jogo e a outra serviu

de grupo de controlo, tendo apenas realizado o préteste

e o pós-teste. Na avaliação das habilidades isoladas

o grupo do programa mastery learning foi o único

que obteve um progresso consistente do pré-teste

para o pós-teste. Porém, os grupos não se distinguem

na realização das habilidades em situação de jogo, o

que pode pôr em causa a pertinência dos objectivos

do próprio programa.

O segundo estudo (24), aplicado em voleibol,

incluiu 6 turmas de estudantes universitários em

experiência na modalidade. Três turmas aplicaram o

programa mastery learning e as outras três, o programa

de desenvolvimento sequencial de habilidades inspirado

no modelo de Rink (54). Os programas foram

aplicados 2 vezes por semana, durante 16 semanas.

Os resultados evidenciaram efeitos positivos em

ambos os programas, os estudantes melhoraram signicativamente

os resultados nos testes de habilidades,

nas medidas de auto-eficácia e em vários indicadores

de participação no jogo. Nenhum dos programas,

porém, se distinguiu significativamente nas

medidas consideradas.

Num outro estudo anterior (23), também aplicado

no voleibol (duas turmas de estudantes universitários

principiantes na modalidade e 19 sessões), os

autores compararam dois estilos de ensino do espectro

de Mosston, comando (andamento da actividade

directamente regulado pelo professor) e tarefa

(fichas de tarefas prescritas pelo professor, andamento

regulado pelos alunos) e reportaram diferenças na

evolução das curvas da taxa de sucesso referentes à

execução das habilidades em situações de exercitação.

Os alunos de nível baixo progridem mais no

passe com o estilo comando, mas, por outro lado,

progridem mais no remate com o estilo tarefa. Ao

nível do desempenho das habilidades na situação de

jogo não há diferenças entre os estilos, assim como

não as há ao nível da auto-eficácia.

Uma outra equipa de investigadores (14) investigou

o efeito das progressões de exercitação em condições

de controlo experimental mais rigorosas, mas também

mais artificiais. O estudo debruçou-se sobre a

aprendizagem de duas habilidades isoladas do

Voleibol, o serviço e o passe de frente. 36 alunos de

uma turma do 9º ano de escolaridade foram distri-

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [67–79]

buídos aleatoriamente por três programas experimentais,

mantendo-se constantes, o número de sessões

(n=6), o número de execuções de cada habilidade

por sessão (n=10) e, consequentemente, o

número total de execuções por habilidade (n=60). O

primeiro grupo (grupo de progressão) praticou o

serviço e o passe segundo quatro etapas de complexidade

crescente. O segundo grupo (grupo critério)

aplicava as mesmas etapas, mas os alunos só avançavam

para a última etapa após obter 80% de sucesso

nas duas primeiras. O terceiro grupo (teste final)

praticou exclusivamente o teste de AAPHERD

(1967) para as habilidades de Voleibol. 17 alunos de

outra turma constituíram o grupo de controlo, não

praticaram as habilidades, tendo apenas realizado o

pré-teste e o pós-teste.

Os resultados evidenciaram a ineficácia do teste

final, enquanto meio de exercitação das habilidades.

Apenas os grupos que aplicaram as etapas de progressões

evoluíram significativamente do pré-teste

para o pós-teste, o que justifica a aplicação de progressões

como forma de proporcionar a aprendizagem.

No entanto, os alunos de nível baixo de habilidade,

independentemente do tipo de progressões,

realizam poucos ou nenhuns progressos. Os progressos

verificados nas etapas iniciais não permitiram

garantir sucesso nas etapas ulteriores, o que vem

comprovar a interacção dos níveis de desempenho

com os efeitos das condições de prática. Os autores

concluem que as sequências práticas com etapas de

dificuldade crescente parecem ser eficazes apenas

quando as tarefas de aprendizagem estão apropriadas

aos níveis de desempenho dos alunos.

A mesma equipa de investigadores (56) realizou um

segundo estudo para averiguar o efeito conjugado

das progressões com a utilização de refinamento das

tarefas. Para o efeito, utilizou um protocolo com

características semelhantes à do estudo anterior.

Mesmo tipo de alunos, mesmos conteúdos de aprendizagem,

mesmas etapas de progressões, mesmo

número de ensaios, 10 ensaios por dia, durante 6

dias para a aprendizagem do passe e do serviço,

tendo sido constituídos 5 grupos de alunos: (a) um

grupo de controlo; (b) um grupo de progressão, sem

refinamento; (c) um grupo de progressão com refinamento;

(d) um grupo de teste final, sem refinamento

(feedback motivacional); (e) um grupo de

teste final com refinamento. As tarefas de refinamento

surgiam após a realização de 5 ensaios e incidiam

sobre os aspectos críticos de execução a ter em

conta nos ensaios seguintes. Com base nos resulta-


dos do pré-teste constituíram-se subgrupos por

níveis de desempenho (fraco e moderado).

Os resultados corroboram, de uma forma geral, os

encontrados no estudo anteriormente apresentado,

uma vantagem clara dos grupos que trabalharam

com progressões sobre os grupos que praticaram o

teste final. Estes resultados evidenciaram ainda que,

entre os dois grupos que foram sujeitos a etapas de

progressão, o que beneficiou de refinamento das

tarefas progrediu mais e obteve taxas de sucesso

mais elevadas durante o período de instrução, embora

esta constatação não tenha sido extensiva a todas

as tarefas realizadas. Os autores reafirmam a necessidade

de serem utilizadas progressões nas aprendizagens

e a vantagem de refinamento das tarefas, em

especial quando os alunos não conseguem fazer os

ajustamentos necessários às exigências das novas

situações de prática. Os autores verificaram novamente

que vários alunos de nível de baixo de habilidade,

independentemente do grupo em que trabalharam,

não evoluíram do pré-teste para o pós-teste,

indiciando que o objectivo de instrução, consubstanciado

nas exigências do teste final, possa ser demasiado

complexo e muito pouco consentâneo com as

possibilidades facultadas pelos níveis de desempenho

destes alunos.

Mesquita (39) num estudo aplicado no treino em

Voleibol, no escalão de iniciados feminino, pretendeu

analisar o efeito diferenciador da prática de tarefas

estruturadas de forma progressiva em referência

às exigências colocadas no jogo 2x2 e da informação

orientada para os critérios de execução, sobre os

ganhos na aprendizagem das habilidades técnicas. A

amostra foi constituída por 21 jogadoras pertencentes

a 3 equipas do referido escalão. O estudo foi

aplicado durante 18 sessões de treino, perfazendo na

totalidade 56 sessões de treino com a duração de

dois meses.

As 3 equipas foram sujeitas a programas de treino

distintos: uma equipa aplicou o programa experimental

de treino assente em progressões para a

aprendizagem das habilidades de acordo com as exigências

do jogo 2x2, fazendo-se acompanhar de

informação focalizada nos critérios de realização das

habilidades (eficiência) a ser ministrada pelo treinador;

uma outra equipa aplicou o mesmo programa

experimental de treino mas sem orientação ao nível

da informação a ser ministrada pelo treinador; e uma

terceira equipa serviu de grupo de controlo. Os

resultados mostraram que o grupo de controlo que

aplicou o jogo 6x6 como forma fundamental de apli-

Investigação sobre o ensino do jogo

cação das habilidades em associação à exercitação de

tarefas analíticas apenas registou alguns progressos

no serviço. Dos grupos experimentais o que registou

maiores ganhos na aprendizagem foi o que praticou

tarefas estruturadas de forma progressiva em referência

às exigências do jogo 2x2 e que usufruiu complementarmente

de informação orientada para a qualidade

de execução das habilidades (eficiência).

Todavia, em termos absolutos, a variável que mais

influência exerceu sobre os ganhos na aprendizagem

foi o treino das habilidades em situações de prática

sujeitas a uma interferência contextual moderada,

patentes nas tarefas com estrutura funcional idêntica

à do jogo 2x2. Perante estes resultados a autora realça

a necessidade do treino das habilidades técnicas

ser realizado em situações, que sem deixarem de

integrar a lógica acontecimental do jogo e a sua

estrutura funcional, devem facilitar o processo de

aprendizagem das habilidades técnicas, principalmente

nas de carácter aberto, apanágio dos jogos

desportivos.

5. CONDIÇÕES DE PRÁTICA E INTERFERÊNCIA

CONTEXTUAL

Vários estudos realizados em condições laboratoriais,

no âmbito da Aprendizagem Motora, conceptualmente

alicerçados na teoria da interferência contextual

(Battig, 1966 apud (72), têm vindo a

demonstrar a forte transferência produzida pela prática

sujeita a elevada interferência contextual (32,

58), reportando que a prática das habilidades em

condições variáveis é mais eficaz do que em condições

constantes (66). A prática variável (com elevada

interferência contextual) consiste em praticar uma

habilidade em condições diferentes após cada ensaio

ou após uma série de ensaios, em oposição à prática

constante (com baixa interferência contextual) na

qual as condições de realização são idênticas em

todos os ensaios.

Admite-se que a variação das condições de prática

pode levar a um maior esforço de processamento que

se traduz numa menor performance durante a fase de

aquisição, mas que pode ser recompensada nas fases

de retenção e transferência. Todavia, Meira e Tani (37)

não confirmaram o efeito da interferência contextual,

quando se estendia a quantidade de prática, e admitem

que ele não seja extensivo a todos os tipos de

aprendizagem. Entretanto, como nos diz Rink (55):

Se pode haver mérito em desenvolver um certo nível

de consistência de performance em determinadas fases

da aprendizagem, na maior parte da situações a

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [67–79] 73


74

A.S. Graça, I.R. Mesquita

repetição do mesmo movimento desencoraja níveis

elevados de processamento, e no caso das habilidades

abertas reduz a variabilidade de prática essencial

para preparar o aluno para aplicar as habilidades

num contexto mais complexo. (p. 6)

Ou seja, para que exista consistência no domínio de

determinado comportamento motor é necessário que

as condições de prática integrem variabilidade de

situações congruentes com as exigências colocadas

pelas situações de aplicação.

Se em condições laboratoriais os resultados tendem

a reiterar, com algumas ressalvas, o efeito da interferência

contextual, importa conferir autenticidade aos

fenómenos através de estudos que, progressivamente,

se aproximem dos envolvimentos reais de aprendizagem

(34).

Goode e Magill (17) realizaram o primeiro estudo

em condições não laboratoriais, embora sujeitas a

elevado controlo, relativo à aprendizagem do serviço

na modalidade de badminton. Constataram que o

grupo sujeito a prática com elevada interferência

contextual obteve melhores resultados nos testes de

retenção e de transferência relativamente ao grupo

que praticou sempre esta habilidade em condições

de baixa interferência contextual.

Posteriormente, Wrisberg (72), através de um estudo

realizado em condições de envolvimento típicas

de um contexto de instrução real, pretendeu averiguar

a integração de condições de prática variável em

situações de ensino do serviço de badminton e a sua

influência nos resultados da aprendizagem. Assim,

constatou que o grupo sujeito a condições de prática

com elevada interferência contextual evidenciou

níveis de retenção significativamente superiores no

serviço curto, em relação aos restantes grupos. Para

além disso, os grupos que praticaram apenas uma

versão de execução do serviço curto e longo e com

elevada variabilidade contextual evidenciaram níveis

de retenção significativamente superiores, relativamente

aos grupos que praticaram três versões para

cada tipo de serviço em condições de prática com

baixa interferência contextual.

As diferenças de desempenho registadas no teste de

retenção entre o serviço curto e longo (17, 72) evidenciam

a influência distinta dos efeitos da prática

variável na aquisição desta habilidade. As condições

de execução da própria habilidade, ou seja, a distância

de realização da habilidade ao alvo, parece interferir

com o desempenho obtido, devendo tal situação

ser contemplada na organização das tarefas de

aprendizagem (72).

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [67–79]

Num estudo mais longo, 30 ensaios ao longo de 9

aulas, aplicado ao ensino de 3 habilidades básicas do

voleibol, serviço, passe e manchete, em condições

reais de ensino, envolvendo 3 turmas subdivididas

aleatoriamente em 3 grupos de prática com interferência

contextual distinta, French, Rink e Werner

(15) verificaram o progresso de todos os grupos,

mas nenhum efeito distinto da interferência contextual.

Num estudo semelhante Bortoli et al. (5) conseguiram

evidenciar o efeito da interferência contextual

apenas numa das habilidades, o serviço.

Parece não ser muito claro o panorama da transposição

do efeito da interferência contextual para situações

de prática aplicada. Brady (6) não observa qualquer

efeito num estudo aplicado ao golfe. Farrow e

Maschette (13) estudaram uma habilidade do ténis e

registaram o efeito da interferência contextual apenas

no grupo 10-12 anos, não extensivo ao grupo 8-

10 anos. Também no ténis, Hebert, Landin e Solmon

(25) verificaram que os sujeitos de menor nível de

habilidade beneficiaram mais com a prática de baixa

interferência contextual, não havendo diferenças

entre os sujeitos de nível elevado. Entretanto outros

estudos que se debruçaram sobre a aprendizagem de

habilidades de batimento observaram a presença do

efeito da interferência contextual nos ganhos das

aprendizagens (21, 22). Landin e Hebert (30) lançam

novas pistas para a avaliação do efeito da interferência

contextual ao consideraram uma modelação

dos níveis de interferência. Num estudo aplicado no

Basquetebol, os autores constataram que tarefas com

níveis extremos de interferência contextual (elevado

e baixo) produzem menor efeito sobre as aprendizagens

após o período de instrução (teste de retenção)

relativamente a tarefas com níveis moderados de

interferência contextual.

Como conclusão essencial destes estudos emerge a

ideia de que a interferência contextual poderá estar

associada à necessidade de reconstrução de planos

de acção (32). As diferenças no período de aquisição

normalmente observadas entre os grupos de prática

com interferência contextual distinta podem estar,

em parte, associadas aos processos de planeamento

extra, realizados pelos sujeitos dos grupos de elevada

interferência contextual (28). Em suma, a utilização

de situações variadas de prática, per se, não permite

a obtenção de níveis de desempenho superiores,

se essas situações não oferecerem algo de diferente

e estimulante do ponto de vista da aprendizagem

(33, 70, 71, 72).


6. PARA ALÉM DA EXECUÇÃO DAS HABILIDADES

BÁSICAS

A identificação dos factores de eficácia dos programas,

a determinação das variáveis ou conjunto de

variáveis mais fortemente associadas ao sucesso da

aprendizagem das habilidades do jogo têm sido a

razão primeira para o esforço de investigação neste

domínio.

O tempo e a oportunidade de resposta dos alunos

com um determinado conteúdo constituíram temas

privilegiados da agenda da investigação no ensino da

educação física, muito particularmente entre os

finais dos anos 1970 a meados dos anos 1990.

Alguns desses estudos tomaram as habilidades básicas

dos jogos desportivos como conteúdos de referência.

A evolução da investigação nestes temas processou-se

no sentido de uma crescente procura de

qualificação e diferenciação do tempo de prática e

oportunidade de resposta dos alunos. “O que no

princípio começou por ser um conceito de tempo

destinado pelo professor para cobrir uma dada matéria,

foi sendo progressivamente refinado passando a

incluir as ideias de sucesso dos alunos, conteúdo

apropriado e mais recentemente níveis elevados de

empenhamento do aluno na tarefa” (55, p. 4).

Como estruturar, combinar, encadear os conteúdos

da actividade, como variar as condições de prática,

como dosear as tarefas de aprendizagem (quantidade

e complexidade), como regular a progressão das

aprendizagens para os diferentes tipos de alunos

(objectivos, critérios, níveis e etapas), como apoiar o

aluno nas suas dificuldades de aprendizagem e como

orientá-lo para um nível de confronto óptimo com as

tarefas de aprendizagem são questões que vêm

sendo sucessivamente colocadas, que têm obtido

algumas respostas valiosas para a orientação de uma

prática de ensino, revelando factores associados ao

sucesso de aprendizagem das habilidades. Outras

questões há que permanecem sem um desfecho claro

e outras ainda que carecem de ferramentas teóricas e

de abordagens mais robustas para produzirem resultados

mais convincentes ou esclarecedores.

A preocupação com o domínio das habilidades básicas

tem norteado a maior parte do labor didáctico

relacionado com o ensino dos jogos desportivos. A

investigação nesta área tem em grande parte acolhido

esta perspectiva, porquanto, as variáveis dependentes,

os principais objectivos dos programas, os

conteúdos de aprendizagem e os instrumentos de

avaliação predominantemente utilizados têm tido

como horizonte as habilidades básicas dos jogos.

Investigação sobre o ensino do jogo

No entanto, nos jogos desportivos colectivos, a realização

superior das acções de jogo reclama um domínio

das habilidades técnicas que possa dar suporte à

concretização de uma “dupla tarefa”, que se traduz

na capacidade do praticante deslocar a atenção de

uma tarefa motora (e.g., drible) para uma tarefa cognitiva

(e.g., analisar os deslocamentos dos colegas na

situação) (66).

Vankersschaver (68) refere que a evolução nessa

dupla tarefa, ao nível das etapas de formação, é

caracterizada pela passagem progressiva do controlo

visual ao controlo quinestésico. Através do refinamento

técnico, o jogador efectua, progressivamente,

a passagem da atenção centrada na execução motora

para os aspectos de ordem decisional (31). Ao prevalecer,

na relação com a bola, o controlo quinestésico,

o jogador tecnicamente evoluído fica liberto para

efectuar a “leitura” das situações de jogo e, consequentemente,

poder optar pelas melhores soluções.

A questão que se coloca, do ponto de vista da organização

do processo de aprendizagem, reside em

decidir se é preferível iniciar a aprendizagem pela

automatização da tarefa motora isoladamente, ou se

é preferível confrontar directamente o praticante

com as situações de “dupla tarefa”, as quais exigem

a prática das habilidades em condições de resposta

aberta (66).

A este respeito, Anderson (2) sublinha que as tarefas

de aprendizagem podem ser vistas como lugares para

aplicar procedimentos algorítmicos a problemas com

uma única resposta correcta, ou podem ser vistas

como situações que obriguem os alunos a definir e a

representar problemas e a transformar o conhecimento

existente numa das muitas soluções possíveis.

Na medida em que nos JDC as habilidades abertas

predominam, as tarefas de aprendizagem mais adequadas

devem responder a este tipo de exigências.

Devem, por isso, envolver processos adaptativos, de

forma a possibilitar a interpretação imediata do inesperado

e assim proporcionar a tomada de decisões

atempadas e oportunas (67).

De acordo com Rink (54), devido ao facto das habilidades

técnicas nos JDC serem fundamentalmente de

natureza aberta, assumindo um carácter multidimensional,

a estruturação das tarefas deve contemplar os

seguintes pressupostos:

(a) as habilidades devem ser praticadas em contextos

variáveis com a solicitação de execuções

variadas, o mais cedo possível;

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [67–79] 75


76

A.S. Graça, I.R. Mesquita

(b) as habilidades devem ser praticadas em contextos

com baixa interferência contextual o menor

tempo possível;

(c) devem ser privilegiadas as situações que coloquem

problemas semelhantes aos que surgem

em situação de jogo.

CORRESPONDÊNCIA

Amândio Graça

Faculdade de Ciências do Desporto

e de Educação Física

Rua Dr. Plácido Costa, 91

4200.450 Porto, Portugal

agraca@fcdef.up.pt

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [67–79]


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Investigação sobre o ensino do jogo

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [67–79] 79


80

Exercício físico e sistema imunológico: mecanismos e integrações

Carol Leandro 1

Elizabeth do Nascimento 2

Raul Manhães-de-Castro 2

José Alberto Duarte 1

Célia M.M.B. de-Castro 3

RESUMO

O exercício físico induz alterações transitórias no sistema imunológico.

A intensidade, a duração e o tipo de exercício determinam

as alterações ocorridas durante e após esforço. Na resposta

aguda ao exercício, os sistemas imunológico e neuroendócrino

interagem através de sinais moleculares na forma de

hormonas, citocinas e neurotransmissores. Constata-se a existência

de um verdadeiro sistema de inter e intra-comunicação

que participa, como um todo, na coordenação, integração e

regulação dos eventos durante o esforço físico. Neste artigo,

são relatados estudos evidenciando a influência dos diferentes

tipos de exercício físico sobre a concentração e a função de

componentes do sistema imunológico. Serão ainda discutidos

pontos relevantes da integração entre o sistema nervoso, o sistema

endócrino e em particular o sistema imunológico durante

o exercício físico.

Palavras-chave: Exercício físico; resposta imune; sistema

nervoso; sistema endócrino; sistema imunológico.

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [80–90]

1 Laboratório de Bioquímica e Morfologia Experimental

Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física

Universidade do Porto, Portugal

2 Laboratório de Fisiologia da Nutrição Naíde Teodósio

Departamento de Nutrição, Centro de Ciências da Saúde (CCS)

Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Brasil

3 Laboratório de Imunopatologia Keizo Asami (LIKA)

Departamento de Medicina Tropical, CCS, UFPE, Brasil

ABSTRACT

Physical exercise and immune system: mechanisms and integration

processes

Physical exercise induces temporary changes on the immune system.

Exercise-induced changes in the immune system are dependent on the

intensity, duration and type of physical exercise. In the acute phase response

to physical exercise, the neuroendocrine and the immune systems

interact through molecular signals in the form of cytokines, hormones,

and neurotransmitters. Indeed, there is a system of intra and intercommunication

that participates as a whole in the coordination, integration,

and regulation of the body during physical effort. In this review,

we will discuss some earlier studies which described the influences of

different kinds of physical exercise on the concentration and the function

of the components of the immune system. Furthermore, we will

discuss important points of the interaction between the neuroendocrine

and the immune systems during and after exercise.

Keywords: Physical exercise; immune response; nervous system;

endocrine system; immune system.


INTRODUÇÃO

Já está bem definido que o exercício físico (EF),

enquanto modelo mensurável de indução de stress,

provoca alterações funcionais no sistema imunológico

(SI) 7,32,35,74,80.

Diferentes tipos e cargas de EF podem provocar alterações

distintas nos parâmetros imunes 35. Alguns

estudos vêm demonstrando que o EF moderado

(65% do VO 2max) ou o treino

excessivo parecem enfraquecê-la 13,22,29,43,56.

Na base desta influência poderá estar a inter-relação

existente entre o sistema nervoso (SN), o sistema

endócrino (SE) e o SI 5. De fato, durante a actividade

física ocorre activação inicial do sistema nervoso simpático

(SNS), que estimula a produção e a libertação

de catecolaminas, hormonas e neurotransmissores

relacionados ao stress 32. Além disso, há também activação

do eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA)

que parece possuir uma relação intrínseca com as

componentes do SI, não só pela presença de receptores

hormonais em leucócitos, mas também pela relação

anatómica observada entre os três sistemas 26,32.

Esta revisão tem por objectivo abordar os pontos

relevantes da influência dos diferentes tipos de EF

sobre a concentração e a funcionalidade de algumas

componentes do SI. Para uma compreensão mais

abrangente, serão relatados também estudos evidenciando

a integração entre o SN, o SE e, em particular,

o SI, observados durante o EF.

EXERCÍCIO FÍSICO E A IMUNIDADE

Diferentes tipos e cargas de EF podem provocar alterações

distintas no SI 35. Neste sentido, é importante

conhecer como o exercício agudo (carga súbita de

EF), moderado (entre 50 a 65% do VO 2máx) ou

intenso (acima de 65% do VO 2máx) podem influenciar

alguns parâmetros da imunidade tanto celular

como humoral 13,35.

Um estudo pioneiro nessa área foi realizado no início

do século XX (1902) por Larrabee (para refs. ver 57),

o qual verificou uma leucocitose em corredores a

seguir uma maratona, decorrente, sobretudo, do

aumento do número de neutrófilos na circulação.

Contudo, a relação entre EF e SI tornou-se mais sóli-

Exercício físico e sistema imunológico

da a partir de observações realizadas por pesquisadores

acerca do aumento da incidência de infecções do

trato respiratório superior (IRTS) em atletas após

treinamentos intensos ou prolongados, e/ou competições

exaustivas29,42,56,77,80. Os efeitos do EF sobre as

componentes do SI são empiricamente conhecidos,

apesar de só recentemente estarem a ser estudados

os mecanismos subjacentes a estas influências.

De forma geral, o EF agudo provoca um aumento na

concentração de leucócitos na circulação45. A leucocitose

observada durante e após o exercício decorre

principalmente do aumento da concentração de neutrófilos35,45.

Este aumento parece resultar da migração

de células do tecido endotelial para o sangue ou

como parte da resposta inflamatória às lesões no

tecido muscular70, 45,84.

Os neutrófilos polimorfonucleares (PMN) compreendem

a sub-população de leucócitos de maior

número na circulação35. Para desempenhar suas funções

nos tecidos, os PMN migram na direção de partículas

a serem ingeridas (quimiotaxia) 78. Daí então

podem reconhecer, aderir e engolfar muitos micróbios,

bactérias e vírus (fagocitose) e descarregar o

conteúdo de seus grânulos citoplasmáticos nos

vacúolos fagocíticos (desgranulação) 78. Para além

disso, os PMN são mediadores da lesão tecidual

durante a inflamação, via libertação de espécies reactivas

de oxigênio e outros factores tóxicos (actividade

oxidativa) 79.

Os estudos sobre o efeito do EF moderado na função

de PMN ainda são conflitantes. Muitos pesquisadores

verificaram que o EF moderado parece auxiliar a

quimiotaxia, a desgranulação e a actividade oxidativa

dos PMN a seguir 1 hora de EF a 60%

VO 39,50,60,83,85. 2máx Entretanto, Pyne et al79 encontraram

uma diminuição na actividade oxidativa de PMN

em atletas a seguir 40 minutos de EF aeróbico a

65% do VO2máx. Um estudo verificou um aumento

na actividade oxidativa de PMN tanto em atletas

quanto em sujeitos não-treinados antes e a seguir 1

hora de EF aeróbico a 60% do VO 83. 2máx Muns et al49 verificaram um aumento da actividade fagocítica dos

PMN em homens treinados 24 horas a seguir uma

corrida de 20 km a 60% do VO2máx. Por outro lado,

Ortega et al60 não encontraram alteração significativa

na actividade fagocítica de PMN imediatamente a

seguir 1 hora de bicicleta a 50% do VO2máx em

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [80–90] 81


82

Carol Leandro, Elizabeth do Nascimento, Raul Manhães-de-Castro, José Alberto Duarte, Célia M. M. B. de-Castro

homens sedentários. A variabilidade do tempo de

avaliação da função destas células a seguir o EF, o

nível de aptidão física individual e os diferentes protocolos

experimentais utilizados podem justificar os

diversos resultados encontrados.

Contrariamente ao EF moderado, os estudos referentes

à resposta funcional de PMN ao EF intenso

parecem mais consistentes. Com excepção da actividade

fagocítica e da desgranulação, as funções dos

PMN parecem diminuir a seguir um EF intenso86,102. Alguns estudos verificaram que a capacidade oxidativa

destas células é temporariamente atenuada durante

uma carga aguda de EF intenso (>85% do

VO2máx) e no período de recuperação28,78, 81,83.

Pedersen e Bruunsgaard72 relatam que a imunossupressão

observada é apenas evidente quando o EF é

intenso e de longa duração (60 min ou mais).

Robson et al82 compararam o efeito de um EF a 80%

VO2máx (durante 1 hora) com um EF a 55% VO2máx (durante 3 horas) em indivíduos activos. Estes autores

verificaram, contudo, que durante e a seguir o

esforço houve um aumento similar na contagem de

PMN nas duas intensidades82. Curiosamente, a diminuição

da actividade oxidativa e anti-bactericida destas

células foi mais pronunciada a seguir o EF moderado82.

Assim, as alterações nas funções dos neutrófilos

parecem ser dependentes não somente da

intensidade, mas também da duração do esforço.

Aliás, as alterações funcionais destas células em

reposta a diferentes cargas de EF podem ser clinicamente

significativas refletindo um estado de stress

ou imunossupressão associados ao EF, assim como

um indicativo de overtraining.

Outra linhagem de células fagocíticas inclui os

mononucleados: monócitos e macrófagos102. Os

monócitos são células disponíveis no sangue periférico

que continuamente se diferenciam em macrófagos

após migrarem para os tecidos102. Os macrófagos

estão presentes em vários tecidos, órgãos e cavidades101.

O EF agudo, independente da intensidade e

da duração, parece provocar uma monocitose temporária21.

Por outro lado, a quantificação de macrófagos

nos tecidos em resposta a um EF é relativamente

inacessível em humanos21. Os fagócitos mononucleares são importantes células

efectoras, altamente regulados por outras células

(linfócitos T e B) e por mediadores químicos produ-

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [80–90]

zidos pelo SNS e pelo eixo HPA 101. Estão envolvidos

na fagocitose e na actividade microbicida e antitumoral,

manifestam uma função celular acessória

como apresentadores de antigénio e promovem o

desenvolvimento da imunidade mediada por linfócito

100,102. São também uma fonte de citocinas mediadoras

das reacções inflamatórias e fisiopatológicas

que acompanham a lesão celular 102. Aspectos característicos

dos macrófagos incluem a capacidade de

aderência, a quimiotaxia, a produção de anião superóxido

e a citotoxicidade 17,103. Estas células também

possuem a capacidade de manifestar efeitos pró e

antiinflamatórios sobre a função de outros tipos

celulares 103.

O stress provocado pelo EF parece ter um efeito

estimulador na função de macrófagos 101. Tanto o EF

moderado como o intenso podem aumentar várias

funções destas células incluindo a quimiotaxia, a

aderência, a produção de anião superóxido, a taxa de

metabolismo do nitrogénio, a actividade citotóxica e

a capacidade fagocítica 21,53,62,98,99,102. Os mecanismos

subjacentes a estas respostas ainda permanecem desconhecidos,

mas podem estar associados a factores

neuroendócrinos 23,60,63,75,101. Ademais, ainda são

necessários estudos que investiguem a significância

fisiológica das alterações funcionais destas células.

Em animais, Woods et al 99 observaram que tanto

uma corrida exaustiva num tapete (18-35 m/min,

5% de inclinação, durante 2-4 h) quanto uma moderada

(18 m/min, 5% de inclinação, durante 30 min)

podem provocar um aumento da citotoxicidade antitumoral

de macrófagos peritoniais. Outro estudo

observou um aumento no processo fagocítico de

macrófagos peritoneais de ratos submetidos à natação

até a exaustão ou submetidos ao treino (90

minutos de nado durante 20 dias) 20. Entretanto,

Davis et al 15 verificaram recentemente que um EF

extenuante de longa duração (2.5-3.5 h) pode provocar

diminuição na actividade anti-viral de macrófagos

alveolares e aumentar a susceptibilidade de

infecções em ratos. Woods et al 100 também verificaram

que o EF muito intenso e de curta duração

induziu a uma redução na capacidade de apresentação

de antigénios por macrófagos peritoneais em

camundongos. De forma geral, o EF provoca alterações

nestas células, contudo o efeito modulador

parece depender do parâmetro a ser avaliado, da


intensidade, do tipo e mais pronunciadamente da

duração do exercício. Todavia, a localização tecidual

específica do macrófago estudado parece ser mais

determinante.

Nos tecidos também são encontradas outros tipos de

células do SI 36. Os linfócitos teciduais estão em

equilíbrio dinâmico com aqueles do sangue e recirculam

continuamente através de canais vasculares e

linfáticos, de um órgão linfóide para o outro 36. O

aumento da concentração destas células durante o

EF agudo, moderado ou intenso, decorre do recrutamento

de todas as suas populações (células natural

killer (NK), linfócitos T e linfócitos B) para o compartimento

vascular, constituindo uma resposta altamente

estereotipada 70,76. Portanto, durante o exercício,

é verificado um aumento de linfócitos em cerca

de 50% a 100% em relação ao valor basal 76. No

período de recuperação (30 minutos após o exercício),

a contagem de linfócitos diminui de 30% a 50%

abaixo dos níveis pré-exercício, permanecendo assim

durante 3 a 6 horas 76.

Dentre as populações de linfócitos, as células NK

parecem ser as mais responsivas imediatamente a

seguir uma carga súbita de EF 97. As células NK são

conhecidas por desencadearem defesa precoce contra

certas infecções intracelulares 97. Deste modo, elas

participam da exterminação de células tumorais e

células infectadas por vírus (actividade citolítica),

sem necessidade prévia de imunização ou

activação 97.

Exercícios de vários tipos, durações e intensidades

induzem o recrutamento de células NK para o sangue,

assim como provocam alterações na actividade

citolítica destas células 37,73. Tvede et al 93 estudaram

a resposta das populações de linfócitos em ciclistas

dinamarqueses durante 1 hora de EF em três diferentes

intensidades de esforço (25, 50 e 75% do

VO 2máx). Neste estudo, a linfocitose e posterior linfopenia

foram observadas durante o EF a 50% e 75%

do VO 2máx 93. Foi ainda verificado que a actividade

citolítica de células NK e da linfocina activadora de

células NK (LAK) aumentou durante todas as instâncias

de esforço e foi suprimida 2 horas pós-esforço

apenas a seguir o EF a 75% do VO 2máx 93.

De fato, a seguir 1 ou 2 horas de EF intenso de

longa duração (>75 % durante 1 hora), a concentração

de células NK e a actividade citolítica diminuem

Exercício físico e sistema imunológico

em cerca de 25 – 40% do nível basal 37,73. E esta

redução pode prolongar-se por até 2 – 4 horas a

seguir o EF 72,73. Um estudo demonstrou que o EF

exaustivo de força (sets de 10 repetições a 65% de 1-

RM até a fadiga) em atletas treinados também provoca

uma diminuição na função citolítica das células

NK no período de recuperação (2 horas pósesforço)

58. Da mesma forma, alguns pesquisadores

observaram uma diminuição da actividade citolítica

destas células em atletas remadores submetidos a

um EF muito intenso de curta duração (6

minutos) 55. Neste sentido, a intensidade, mais do

que a duração, parece ser responsável pelo grau de

incremento de células NK na circulação e pelas alterações

funcionais destas células. Vale salientar que a

diminuição da actividade citolítica das células NK no

período de recuperação pode suscetibilizar o indivíduo

a infecções 35.

Durante um EF agudo ocorre também um aumento

da concentração dos linfócitos T, seguido de uma

diminuição no período de recuperação 76. Os linfócitos

T podem ser divididos em sub-populações de

acordo com as moléculas antigénicas de superfície

co-receptoras: células T auxiliares (CD4+) e células

T citotóxicas ou supressoras (CD8+) 35. As células T

CD8+, entre outras funções, são responsáveis pela

destruição de células infectadas por vírus ou de células

tumorais 35. As células T CD4+ actuam na libertação

de LAK, além de interferirem na estimulação,

proliferação e maturação de linfócitos B 35.

Um EF a 50% do VO 2máx parece não alterar a concentração

de células T CD4+ e T CD8+ 40,76,91,92. Um

estudo não verificou modificação na percentagem de

células T CD4+ e T CD8+ em 18 adultos jovens

sedentários submetidos a cinco cargas repetidas de

EF submáximo em cicloergómetro 31. Contudo,

alguns estudos tém observado que um EF a 75% do

VO 2máx tende a provocar uma diminuição na concentração

de células T CD4+, sem alterar a concentração

de células T CD8+ 3,25,76. Dessa forma, a proporção

de CD4+/CD8+ diminui refletindo um maior

aumento de células T CD8+ 3. E este aumento pode

estar associado com estados de imunossupressão

3,25,76.

Um linfócito activado deve proliferar antes que sua

prole se diferencie em células efectoras para a produção

de linfócitos específicos em número suficiente

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [80–90] 83


84

Carol Leandro, Elizabeth do Nascimento, Raul Manhães-de-Castro, José Alberto Duarte, Célia M. M. B. de-Castro

para combater uma infecção 76. A duração e a intensidade

do EF parecem ser determinantes na resposta

proliferativa de linfócitos 76. Em humanos, a resposta

proliferativa de linfócitos T em resposta a um EF a

50% e 75% do VO 2máx (durante 1 hora) parece diminuir

no período de recuperação 91,93. Contudo, durante

e após um EF máximo de curta duração (6 minutos)

não ocorreu alteração da resposta proliferativa

de linfócitos 55. Da mesma forma, não foi encontrado

alteração na proliferação de linfócitos a seguir um EF

de resistência de força 58. Estes resultados decorrem,

provavelmente, da presença de factores neuroendócrinos

e de mediadores libertados por células imunes.

A seguir exercícios intensos de longa duração (ex.

ciclismo, natação, maratona) ocorre uma diminuição

em cerca de 70% na concentração salivar da imunoglobulina

A (IgA) por várias horas pós-esforço 6,40.

As Ig são glucoproteínas secretadas por linfócitos

B 76. Elas combinam-se especificamente com a substância

que induziu sua produção e formam o braço

humoral da resposta imune 76. A IgA constitui 10 a

15% do total de imunoglobulinas, sendo a principal

classe de anticorpo das mucosas 6.

Alguns estudos relatam a não ocorrência de alterações

na concentração salivar de IgA e de IgE, no soro,

durante um exercício moderado 42,53,56,57.

Contrariamente, Blannin et al 6 encontraram baixas

concentrações de IgA após uma corrida de 31 Km a

65% do VO 2máx. Outros estudos encontraram também

uma diminuição na concentração de IgA, tanto na

saliva quanto na mucosa nasal a seguir um EF intenso

de longa duração 42,53,57. Dessa forma, os pesquisadores

estão a associar a coincidência desta redução com

o aumento da prevalência de ITRS em atletas 56,57.

De fato, os estudos epidemiológicos relatam uma alta

incidência de ITRS em maratonistas uma ou duas

semanas a seguir uma prova ou um treinamento

intenso 13,22,29,56. Um estudo verificou que os sintomas

de ITRS ocorridos em maratonistas foram na

ordem de 33.3%, enquanto os ocorridos no grupo

controle foram de 15.3% 77. Embora os estudos revelem

um aumento dos sintomas de ITRS a seguir um

exercício intenso e de longa duração, não existem

informações se esses sintomas são decorrentes do

processo infeccioso em si, ou se são devidos a uma

inflamação local ou sistémica causada pelo

exercício 76.

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [80–90]

Muitos aspectos da relação existente entre exercício

físico e imunidade ainda não estão totalmente esclarecidos.

Factores como: o período de avaliação da

alteração e da resposta imunológica, o nível de aptidão

física e nutricional do indivíduo, o estado psicológico,

o overtraining, as condições climáticas e os

precedentes alérgicos e inflamatórios no trato respiratório,

merecem ser considerados 41. Ademais, a

natureza transitória das alterações observadas pode,

simplesmente, refletir uma automodulação das células

imunes em busca da homeostase.

EXERCÍCIO FÍSICO E A INTEGRAÇÃO ENTRE OS

SISTEMAS NERVOSO, ENDÓCRINO E IMUNE.

Durante e a seguir uma carga súbita de EF ocorrem

alterações na concentração e na funcionalidade de

células do SI 76. Todavia, essas alterações não devem

ser vistas isoladamente, mas como parte de uma complexa

rede bidirecional de sistemas interligados 32,76.

Durante o exercício, é verificado um aumento nas

concentrações de dopamina e noradrenalina a nível

cerebral 7. Em conseqüência, há secreção da hormona

libertadora da corticotropina (CRH) a nível hipotalâmico

7. A corticotropina (ACTH) e as b-endorfinas

são então libertadas pela pituitária anterior 7. A descarga

de ACTH estimula o córtex adrenal a produzir

glucocorticóides e aminas biogênicas 7. De fato, a

activação do SNS e os eventos seqüenciais do eixo

HPA parecem possuir uma relação intrínseca com as

componentes do SI, não só pela presença de receptores

hormonais em leucócitos, mas também pela relação

anatômica observada entre os três sistemas 26,68.

As células do SI parecem possuir receptores para as

b-endorfinas, catecolaminas, cortisol, hormona do

crescimento (GH) e diversos outros mediadores

envolvidos na reação ao stress 7,26,68.

Em resposta tanto a um EF prolongado e intenso

(>70% do VO 2max) quanto a um exercício de curta

duração e muito intenso (>85% do VO 2max) ocorre

um aumento das concentrações de b-endorfinas na

circulação 76,96. É interessante notar que os leucócitos

expressam receptores para as ß-endorfinas 26. Esta

constatação levanta a hipótese de uma possível

influência desses mediadores na função de células do

SI durante o exercício. Estudos com humanos sugerem

que as b-endorfinas podem diminuir a produção

de imunoglobulinas 44,48. Recentemente foi verificado


em ratos que as b-endorfinas inibem a proliferação de

linfócitos e parecem estar envolvidas no aumento da

quimiotaxia e da fagocitose de macrófagos

peritoneais 14,61. Da mesma forma, parece aumentar a

actividade citolítica de células NK durante o stress

crônico, mas não o recrutamento destas células para

circulação 76,96.

O recrutamento de PMN e das populações de linfócitos

para o compartimento vascular durante o EF

parece ser mediado pela adrenalina, e em menor

grau pela noradrenalina 69. Durante o EF, a adrenalina

e a noradrenalina são libertadas da medula adrenal

e a noradrenalina dos terminais nervosos simpáticos

69,76. A concentração sanguínea desses mediadores

aumenta linearmente com a duração do exercício

e exponencialmente com a intensidade do mesmo 76.

A expressão de b-receptores nas diferentes células

imunes fornece a base molecular para acção das catecolaminas

5,30,38. Contudo, a densidade de receptores

adrenérgicos e a eficiência do sistema de transdução

AMPc diferem nos vários tipos de células imunocompetentes

5,26,68,94. Os PMN e as células NK parecem

apresentar maior número de receptores em

comparação a outras células imunes 26. Neste sentido,

é provável que a resposta imediata destas células

aos efeitos do EF agudo, moderado ou intenso,

decorra do efeito modulador das catecolaminas 90.

Quando o exercício se prolonga, prossegue o aumento

da concentração de PMN e linfócitos devido, provavelmente,

a elevação das concentrações de cortisol

no plasma 69. O cortisol, em pequenas quantidades,

melhora a função imune, visto que um dos papéis

deste hormônio no SI é o de estimular a migração de

células da medula para a circulação, assim como, dos

linfonodos para os tecidos lesionados 7.

Contudo, o aumento da concentração de cortisol no

sangue pode causar linfocitopenia, monocitopenia e

neutrofilia em humanos 76. Esta hormona inibe a

migração de células inflamatórias para locais lesionados,

proliferação de linfócitos, e é inibidora da função

de macrófagos e limitadora da actividade das

células NK 34,74,90,101 . Para além disso, parece induzir

baixa na regulação de receptores de linfócitos T e

aumentar a taxa de catabolismo, reduzindo as reservas

de aminoácidos que são necessários para proliferação

de linfócitos B e síntese de imunoglobulina

51,54,71. Alguns estudos relatam ainda, que EF

Exercício físico e sistema imunológico

intenso de longa duração parece induzir a apoptose

de linfócitos decorrente do aumento dos níveis de

cortisol 43. Portanto, os efeitos do aumento da concentração

do cortisol podem estar relacionados à

imunossupressão evidenciada após treinamentos

exaustivos ou EF intensos e de longa duração.

Ainda relacionado com a intensidade do esforço, a GH

é também libertada da pituitária anterior durante o

EF 7. Nos mononucleares pode-se verificar receptores

para a GH 76. É interessante notar que em resposta ao

stress físico, a GH quando combinada com a adrenalina

provoca neutrofilia 7. Contudo, parece não atuar no

recrutamento de linfócitos para a circulação 32.

As células imunocompetentes parecem, portanto, possuir

não só receptores hormonais, mas também a

capacidade para produzir e secretar algumas hormonas

e neuropeptídeos 26. De forma idêntica ao que

acontece em células da pituitária, a produção destes

peptídeos por células do SI respondem, na maioria

dos casos, a factores inibitórios ou estimuladores do

hipotálamo, bem como a hormonas envolvidas na

regulação do feedback negativo 26,34. Entretanto, a quantidade

de hormonas e neuropeptídeos produzidos

pelas células do SI é pequena, sugerindo que estas

substâncias actuam de forma parácrina e

autócrina 16,34.

O braço recíproco da relação bidirecional entre os

sistemas neuroendócrino e imune é constituído por

mensageiros libertados das células imunes activadas,

chamados citocinas 17,47.

As citocinas são pequenas proteínas solúveis secretadas

por leucócitos, e outras células, e que têm por

função modular a resposta imune 17. A resposta local

para uma infecção ou tecido lesionado envolve a produção

desses mediadores que vão facilitar o influxo

dos vários tipos de leucócitos para a região atingida

26,47. Para além da sua acção mediadora no SI, as

citocinas podem também actuar no SN e SE, modificando

as suas funções 26,17,47. Assim, o estímulo

induz as células do SI a produzirem citocinas que,

em resposta, parecem actuar nos três níveis: hipotalâmico,

pituitário e adrenal 47. De forma idêntica, os

diferentes tipos de células do SN (neurónios, astrócitos

e microgliócitos) também sintetizam citocinas

e/ou respondem a elas 26,47. A lista de citocinas é

longa e inclui uma variedade de moléculas cuja origem,

estrutura e função têm sido revisadas.

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [80–90] 85


86

Carol Leandro, Elizabeth do Nascimento, Raul Manhães-de-Castro, José Alberto Duarte, Célia M. M. B. de-Castro

De forma geral, o EF agudo intenso afecta a produção

tecidual e sistêmica de citocinas, especificamente

as interleucinas (IL) e o factor de necrose tumoral

(TNF), assemelhando-se à resposta inflamatória a

algum trauma ou infecção 47,67.

Particularmente os EF excêntricos, os EF muito

intensos de curta duração (>100% VO 2máx) ou os

intensos de longa duração (>80% VO 2max por mais

de 60 min) provocam alterações metabólicas (redução

da saturação da hemoglobina arterial e um

aumento na temperatura corporal) e lesões musculares

1,11,19,24,66. A hipoxemia e as lesões teciduais associadas

a estes tipos de exercício induzem a alterações

na resposta imune com libertação de citocinas

pró-inflamatórias incluindo a IL-1, a IL-6 e o TNFa

10,12,27,65,67. Entretanto, mais estudos são necessários

para afirmar se essas alterações contribuem para

imunomodulação relacionada ao exercício.

Neste sentido, a concentração plasmática de IL-1

parece aumentar significativamente em resposta

tanto a um EF de longa duração a 60% do VO 2máx,

quanto a um EF de curta duração a 75% do

VO 2máx 11,27. Da mesma forma, um estudo verificou

um aumento de IL-1 a seguir um EF de resistência de

força excêntrico (4x10 repetições a 100% -1RM) 87. A

IL-1 é produzida em resposta à infecção nos tecidos

periféricos por monócitos e macrófagos e no cérebro

por microgliócitos e astrócitos 47. É suposto que a IL-

1 opere como sinal aferente, estimulando o hipotálamo

a libertar CRH 5. A sua administração aumenta

consideravelmente as concentrações de ACTH no

plasma, constituindo-se como um importante estimulador

do eixo HPA 4,26. A IL-1 estimula a activação

de linfócitos T e induz a proliferação de células 47.

Assim, o aumento da concentração desta citocina

pode estar associado à resposta proliferativa de linfócitos

T a seguir uma carga súbita de EF.

Outro potente mediador da resposta orgânica de fase

aguda é a IL-6 47. Esta citocina é produzida por várias

células imunes (linfócitos e monócitos) e por células

não-imunes (condrócitos, astrócitos e células

gliais) 16. A sua administração aumenta a produção

de ACTH pela pituitária, estimulando o córtex adrenal

a libertar glucocorticóides 26. A IL-6 funciona

como um factor co-estimulador da activação de linfócitos

T em resposta a um antigénio e é fundamental

para maturação de linfócitos B 2. De forma geral,

o EF associado a lesões musculares induz um

Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2002, vol. 2, nº 5 [80–90]

aumento transitório na concentração de IL-6 no

plasma 18,33. Um estudo observou um aumento de IL-

6 (29 vezes acima do valor basal) durante 2.5 horas

de tapete ergométrico a 75% do VO 2máx 88. Em

homens sedentários foi relatado um aumento dos

níveis de IL-6 a seguir um EF a 75% do VO 2máx por

60 min 95. Moldoveanu et al 46 verificaram um aumento

desta citocina (18 vezes acima do valor basal) em

jovens atletas submetidos a 3 horas de EF a 65% do

VO 2máx. Outro estudo também verificou um aumento

de IL-6 no plasma a seguir um EF de força excêntrico

(100% de 1RM) 87. A magnitude da resposta

depende da intensidade, do tipo e da duração do

esforço. Todavia parece não estar associada ao nível

de aptidão física individual.

Muitos dos papéis fisiológicos do TNF-a assemelham-se

àqueles da IL-1 e da IL-6 47. O TNF-a é produzido

por linfócitos T, células de Kuppfer, células

neurais e células endoteliais, contudo, os fagócitos

mononucleares são os principais produtores de TNFa

47. A presença desta citocina também está associada

ao aumento nos níveis de ACTH no sangue 16. O

TNF-a induz a expressão de moléculas de adesão na

superfície das células endoteliais, promovendo,

assim, a migração de leucócitos para os locais de

inflamação 47. Apesar de existir alguma controvérsia

devido ao período de avaliação dessa citocina no

plasma, muitos investigadores encontraram um

aumento de TNF-a a seguir 2 – 3 horas de um EF

intenso de longa duração (ex maratona, ciclismo)

8,19,52,64. Um estudo verificou um aumento de TNF-a

em resposta a 2 horas de ciclismo a 60% do VO 2máx 8.

Outro estudo observou um aumento de 90% a

seguir 3 horas de um EF aeróbico a 65% do

VO 2máx 46. Assim, a resposta desta citocina a um EF

parece ser influenciada pela intensidade e duração

do esforço. Todavia, mais estudos são necessários na

avaliação do papel fisiológico do aumento da concentração

de TNF-a em resposta a um EF.

Muitas áreas da imunologia do exercício ainda não

estão totalmente elucidadas, incluindo o padrão da

resposta imunológica do exercício agudo em outros

tecidos que não o sangue; a integração entre o músculo

esquelético e as células imunes; e, se, as

mudanças neuroendócrinas são transitórias após freqüentes

séries de EF agudo, ou se refletem adaptações

hormonais persistentes que também estão presentes

durante o repouso.


CONCLUSÕES

Inúmeros estudos têm evidenciado alterações na

concentração e na função de algumas componentes

do SI provocadas pelo exercício físico. As evidências

disponíveis demonstram que o EF tem efeitos modulatórios

importantes sobre a dinâmica de células

imunes e, possivelmente, sobre sua função.

Os factores neuroendócrinos que actuam na redistribuição

de células e a libertação de citocinas em resposta

ao exercício físico parecem mediar a relação

entre o SI e o EF.

Apesar dos aspectos multifactoriais e das lacunas

ainda existentes, essa nova área de investigação a

“imunologia do desporto” vem se desenvolvendo nos

últimos anos. O grande desafio dos investigadores,

portanto, seria estabelecer um modelo baseado na

intensidade, na duração, na freqüência e nos diferentes

tipos de esforço físico de forma a instituir o

binômio exercício/saúde.

CORRESPONDÊNCIA

Dra. Célia M.M.B. de Castro

LIKA – Departamento de Medicina Tropical – CCS

Universidade Federal de Pernambuco – UFPE

Campus Universitário s/n Cidade Universitária

Recife-Pernambuco

Brasil CEP 50670-901

ccastro@lika.ufpe

Exercício físico e sistema imunológico

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