Cartilha 12.pdf - Fundação Guimarães Rosa

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Cartilha 12.pdf - Fundação Guimarães Rosa

Contando Saberes:

HISTORIAS DA DONA FIOTA

Matrizes Culturais Africanas e Afro-Brasileiras

VOL. 12


Fundação Guimarães Rosa apresenta:

i

Contando Saberes:

Historias da dona Fiota

Matrizes Culturais Africanas e Afro-Brasileiras - Vol. 12

Kelly Cardozo e Rosângela Gontijo

Ilustração

Rodrigo Spotorno

Thiago Bastos

aPresentaCao

Matrizes Culturais aFriCanas e aFro-Brasileiras

Fechamos um ciclo com a Cartilha 12. Tentamos incluir, neste último volume, várias formas de

identificar as referências culturais da África e do Brasil em todos os seus aspectos: geográficos,

econômicos e patrimoniais.

O continente africano é uma dádiva dos “DEUSES”. Possui características bem peculiares,

expressa-se por meio de suas tradições, daí ser tão fascinante.

Esperamos que o pequeno leitor tenha gostado. Esses 12 volumes foram elaborados com todo

cuidado e carinho. E presenteamos a todos com o texto de Vanda Machado em:

“A Tradição Oral é a grande escola da maioria dos povos africanos. As culturas africanas não são

isoladas da vida. Aprende-se observando a natureza, aprende-se ouvindo e contando histórias.

Nas culturas africanas, tudo é “História”. A grande história da vida compreende a História da

terra e das águas, a História dos vegetais e a farmacopeia, a História dos astros, a História das

águas e assim por diante...”

“(...) O contador de história, nessa tradição, é um mestre, um iniciador da criança, do jovem

e até do adulto. Trata-se de uma iniciação para a vida. As histórias míticas são contadas e

recontadas e funcionam como mapas que encaminham os sujeitos nas suas possibilidades de

convivência, sem prescrever conselhos, fazendo valer o arbítrio e o jeito de ser de cada um. Ou

seja, os conhecimentos produzidos nessas culturas e seu aprendizado sempre podem favorecer

a convivência ou uma utilização prática.” LIMA, Maria Nazaré. SOUZA, Florentina (Orgs). Literatura afrobrasileira.

Salvador: Centro de Estudos Afro-Orientais; Brasília: Fundação Cultural Palmares, 2006.


s

Equipe Fundação Guimarães Rosa


Na Escola Martinho Fidélis, durante a reunião pedagógica...

Boa noite! É com imenso prazer que participo dessa reunião pedagógica.

Desde já, parabenizo a escola, os alunos, professores, funcionários e a

direção pelo brilhante trabalho sobre a temática Africanidade.

Trouxe para o nosso módulo uma pequena mensagem, mas com muito

conteúdo, de uma personalidade africana do século XX: Francis Nwia

Kofie Kwame Nkrumah, ou simplesmente Kwame Nkrumah. Teve sua

formação em educação em Gana, na África, depois realizou, nos Estados

Unidos, vários estudos em Ciências Econômicas, Sociologia, Pedagogia,

Teologia e Filosofia. Estudou também na Escola Superior de Economia e

Ciências Políticas, em Londres, onde se doutorou em Filosofia e Direito.

Foi um importante líder político africano, um dos fundadores do Pan-

Africanismo. Em 1957, Gana foi o primeiro país africano a conquistar a

independência, saindo da administração da colônia britânica na Costa

do Ouro. Kwame Nkrumah tornou-se primeiro-ministro (1957-1960) e

presidente de Gana (1960-1966).

Vá em busca de seu povo

Ame-o

Aprenda com ele

Comece com aquilo que ele sabe

Construa sobre aquilo que ele tem.

Kwame Nkrumah

Por isso, percebo que o Projeto Africanidade da escola deu certo

por: ouvir seus alunos, aprender com seus alunos e respeitar

seus alunos. Parabéns a todos que se dedicam ao sucesso dessa

empreitada. Obrigada!

Referência: http://www.angoenciclo.de/nkrumah.html. Kwame Nkrumah.

Acesso 05/11/2008.

Então, pessoal, como o Projeto Africanidade é

realizado em nossa escola o ano inteiro, pedimos

sugestões do que podemos desenvolver.

Boa noite a todos! Sejam bem-vindos! Com esta

linda mensagem apresentada pela Inspetora

Fátima Nunes, iniciamos a nossa reunião. Obrigada

Inspetora Fátima .

Em novembro, comemoramos o mês da “Consciência

Negra” em todo o Território Nacional. Por isso, a

Supervisora Simone e eu gostaríamos de realizar

algumas atividades com nossos alunos.

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Que maravilha de ideia, meninas! Vou dar minha

sugestão: a última etapa do trabalho precisa ser

finalizada ainda este ano. Que tal se concluíssemos

o projeto nesse mês de novembro?

Boa ideia mesmo! O trabalho que iniciamos

desde o primeiro dia do ano letivo trouxe ótimas

oportunidades para discussões sobre a história e

a cultura negra. Por isso, podemos encerrá-lo com

chave de ouro.

Que riqueza, quanto ganho esse projeto trouxe para

a nossa escola! E o registro... Estou encantada com

cada pesquisa, cada ação e, principalmente, com a

mudança de atitude dos alunos diante de aspectos

como a diversidade, a identidade, o respeito e

vários outros que foram vistos nas culturas africana

e afro-brasileira.

Com certeza! Vejo os grupos em conversas sobre

o assunto e emitindo suas opiniões. Sem falar que

muitas das nossas crianças mudaram de atitude em

relação às diferenças entre pessoas e até mesmo

começaram a mostrar orgulho pelo bairro onde

vivem, antes desprezado. Valorizam a riqueza da

nossa história e da nossa oralidade...

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A participação da turma na realização das oficinas,

o entusiasmo das famílias... Tudo isso precisa ficar

registrado, pois faz parte da história do Martinho

Fidélis e das nossas vidas!

Proponho organizar uma pequena viagem de turismo

afro pela nossa região: Pitangui, “mãe de todas as

cidades” do Centro-Oeste mineiro, a Comunidade

da Passagem, rota para chegar à futura Bom

Despacho, a Fazenda da Prata, local de trabalho

dos ancestrais de Dona Fiota, o Engenho do Ribeiro,

onde nasceu sua mãe, e, por último, visitar o nosso

quilombo urbano da Tabatinga.

Adorei a ideia, Dete, e creio que Dona Beth,

a professora de História, poderá construir

esse roteiro com os alunos. Claro, farei isto com prazer!!!

A Vera Lúcia e eu poderíamos calcular com os

meninos a distância e a média de tempo a ser

gasto em todo o trajeto e, se possível, desenhar

essa rota no mapa.

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Puxada vida, ficará excelente! Dou outra

sugestão: convidar a Dona Fiota para ajudar

no passeio!

Sim! Sim! Sim!

Perfeito! Os outros professores

concordam?

No outro dia, na escola...

Bom dia, crianças! Neste mês de novembro temos duas

ações de grande importância na escola. A primeira, é o

encerramento da última etapa do Projeto Africanidade.

A outra, é a comemoração do mês da “Consciência Negra”

no Brasil. Por isso, pensamos em realizar um passeio, que

daremos o nome de “Turismo Afro (Re)Criando Nossas

Raízes”. Precisamos elaborar um roteiro para a nossa

excursão e pensei que podíamos fazer isso em conjunto,

que tal?

10 11


Yesss!!! Adorei as duas ideias, mas

fiquei triste por ser a nossa última

atividade do projeto esse ano.

A Dona Beth mesmo disse: se

temos que fechar essa etapa,

então precisamos caprichar!

Concordo, Virgínia. O projeto realmente trouxe

vida nova para a escola. Mas, como sempre

dissemos nas aulas, não devemos estudar o

tema em um determinado período de tempo, mas

continuamente.

O que é e como se faz afro-turismo?

Boa pergunta, Diego! Ao construir esse roteiro, teremos

oportunidade de recordar tudo o que já vimos até hoje

sobre as culturas africana e afro-brasileira. Turismo,

definido no Dicionário Michaelis: “viagem ou excursão,

feita por prazer, a locais que despertam interesse.”

E afro, pois a nossa temática étnico-racial contempla

a africanidade e suas influências em Bom Despacho e

região. Também conheceremos alguns possíveis caminhos

percorridos não somente pelos africanos, mas por

indígenas e portugueses na chegada a Minas Gerais no

século XVIII, principalmente pelos caminhos que levariam

à futura Bom Despacho.

Muito legal, mas por onde

começaremos?

12 13


Iniciaremos por Pitangui, considerada

a “mãe de todas as

cidades” desta região (Centro-

Oeste/MG), até chegarmos a

Bom Despacho e ao nosso quilombo

urbano da Tabatinga.

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Iupiii!!! Esse afro-turismo

será demais!

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1 - Três Marias

2 - Morada Nova de Minas

3 - Felixlândia

4 - Biquinhas

5- Paineiras

6 - Cedro do Abaeté

7 - Abaeté

8 - Pompéu

9 - Quartel Geral

10 - Martinho Campos

11 - Dores do Indaiá

12 - Papagaios

13 - Serra da Saudade

14 - Estrela do Indaiá

15 - Luz

16 - Bom Despacho

17 - Leandro Ferreira

18 - Pitangui

19 - Conceição do Pará

20 - Onça do Pitangui

21 - Pequi

22 - Maravilhas

23 - Fortuna de Minas

24 - Cachoeira do Prata

25 - Inhauma

26 - São José da Varginha

27 - Pará de Minas

28 - Florestal

29 - Juatuba

30 - Mateus Leme

31 - Itaúna

32 - Araújos

33 - Nova Serrana

34 - Perdigão

35 - Igaratinga

36 - Carmo do Cajuru

37 - São Sebastião do Oeste

38 - São Gonçalo do Pará

Já estudamos um pouco sobre

Pitangui, professora, mas penso

que podemos explorá-la ainda

mais durante essa viagem.

39 - Igarapé

40 - Itaguara

41 - Itatiaiuçu

42 - São Joaquim de Bicas

43 - Rio Manso

44 - Bonfim

45 - Crucilândia

46 - Piedade das Gerais

47 - Piracema

48 - Passa Tempo

49 - Carmópolis de Minas

50 - Carmo da Mata

51 - São Francisco de Paula

52 - Oliveira

53 - São Tiago

54 - Cláudio

55 - Camacho

56 - Itapecerica

57 - Formiga

58 - Pedra do Indaiá

59 - Santo Antônio do Monte

60 - Arcos

61 - Córrego Fundo

62 - Pains

63 - Pimenta

64 - Piuí

65 - Doresópolis

66 - Iguatama

67 - Japariba

68 - Lagoa da Prata

69 - Moema

70 - Bambuí

71 - Medeiros

72 - Tapiral

73 - Córrego Danta

74 - Candeias

75 - Divinópolis

Perfeito! Como disse, Pitangui é uma cidade bem antiga.

Tem hoje 200 anos, foi colonizada pelos portugueses,

baianos e paulistas. Também vieram para esta região

muitos africanos.

Crianças, Pitangui é uma cidade que viveu intensamente o

Ciclo do Ouro. Tranquila e entre belas montanhas, abriga

um pedaço importante da nossa história. Os escravos que

ali chegaram eram, em sua maioria, de Ouro Preto, Mariana

e Sabará...

14 15


Professora, além de escravos de várias

partes do continente africano, que é

enorme, também vieram para cá sua

bela história e cultura.

Isso mesmo, Dani, parabéns! A África também

possuía, e ainda possui, clima e solo muito similares

ao do Brasil. Para vocês terem uma ideia, 38 dos

48 minerais mais importantes para a indústria no

mundo são encontrados na África e no Brasil.¹

Professora, tudo isso?

Sim, Clayton. Os países africanos e o Brasil

são riquíssimos em recursos naturais!

E depois de Pitangui?

16 17


Ah, ah, ah!!! As picadas eram pequenos caminhos

abertos na mata virgem para descobrir outros

lugares. Exemplo: nossas estradas são construídas

para chegar a algum lugar ou cidade.

Uma rota possível seria a abertura de “picadas”

até o Rio Pará. Não podemos esquecer que cidades

como Bom Despacho, Conceição do Pará, Leandro

Ferreira e Martinho Campos ainda não tinham

sido fundadas no final do século XVIII. Daí porque

seguiam até o Rio Lambari.

“Picadas”, o que significa?

Que legal, nunca tinha ouvido

falar sobre “picadas”.

Voltemos ao nosso passeio. Uma sugestão é passar

pelas cidades de Conceição do Pará e Leandro

Ferreira, até chegar às ruínas de Álvaro da

Silveira. A antiga Estação Ferroviária também não

existia naquela época. Mas, lá podemos encontrar

prainhas de rio encantadoras.

Dani, existem palavras e expressões antigas muito

usadas naquela época e que não conhecemos,

como hoje, por exemplo, acontece com as nossas

gírias. Cada época deixa algumas formas de falar

de lado e insere novas. Ah! Mas não se esqueça da

gíria da Tabatinga.

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Mas esses lugares são bem distantes

daqui, não é Dona Beth?

Hoje, não muito. Temos que levar em conta, Dani, que

não existiam estradas naquele período. O caminho

era feito a cavalo, no lombo de burro ou a pé, muito

mais difícil para os viajantes ou escravos fugidos. Mas,

existiam vantagens: a caminhada ganhava a companhia

de antigas fazendas, natureza exuberante, rios e

riachos maravilhosos.

Outro aspecto importante é saber as origens de vários

locais da nossa região, depois que tropeiros, exescravos,

milícias e funcionários da coroa portuguesa

por ali passaram. É o caso do vilarejo “Passagem”. O

caminho servia somente como passagem entre Pitangui

e a futura Bom Despacho. O nome foi conservado pelos

antigos moradores.

A Passagem eu conheço bem. Já joguei

muita bola naquele campo enorme!!!

20 21


Legal! Muitos seguiam viagem até alcançar o Vale

do Picão, onde se formou o vilarejo Engenho

do Ribeiro. Os que aqui ficaram, criaram um dos

poucos quilombos urbanos existentes em Minas

Gerais, o Quilombo da Tabatinga.

Quilombo urbano, não entendi?

Encontrei na Internet esse significado: Quilombo era

um local de refúgio dos escravos no Brasil, em sua

maioria afrodescendentes (negros e mestiços), havendo

minorias indígenas e brancas.

A palavra “quilombo” tem origem nos termos “kitombo”

(Quibunda) ou “vo tira um cochilombo” (Umbunda),

presente também em outras línguas faladas ainda hoje

por diversos povos Bantus que habitam a região de

Angola, na África Ocidental. Originalmente, designava

apenas um lugar de pouso utilizado por populações

nômades ou em deslocamento. Posteriormente, passou

a designar também as paragens e acampamentos das

caravanas que faziam o comércio de cera, escravos e

outros itens cobiçados pelos colonizadores. Mas, foi

em Cuba que o termo “quilombo” ganhou o sentido

de comunidades autônomas de escravos fugitivos.

Perceberam que a palvra quilombo é de origem banto?

http://pt.wikipedia.org/wiki/Quilombo. Quilombos.

Acesso 1º/11/2008.

22 23


Os escravos fugiam das fazendas para ganhar a liberdade e se

tornarem contrários ao sistema escravista, o que era considerado

uma forma de resistência. Eles iam para lugares distantes, no

interior das matas fechadas, para não serem encontrados pelo

capitão-do-mato. Já no caso do Quilombo da Tabatinga, sua

formação ocorreu antes da fundação da cidade de Bom Despacho

e, mais tarde, foi incorporado, se tornando um quilombo urbano,

pois a Tabatinga hoje é um bairro da nossa cidade.

Entendi e me lembrei da Língua da Tabatinga,

ensinada pela Dona Fiota, avó do Bruno, e

pela professora Rô. Aprendemos tanto com

as paródias! Eu adorei conhecer palavras que

compõem a gíria da Tabatinga, como diz a

Dona Fiota. Meus primos que moram em outras

cidades ficam curiosíssimos quando converso

na língua e ensinei várias palavras para eles.

Ah! lembrei também do Quilombo de Palmares,

o mais famoso, mas existem vários outros pelo

Brasil, como: Comunidade do Saco Barreiro,

em Pompéu, Comunidade de Furtados, em

Candeias, Comunidade Mangueiras, em Belo

Horizonte, todos esses estão em Minas Gerais.

Parabéns, Carol! Excelente observação.

Nossa, esse passeio afro promete!!!

24 25


E quando será, Dona Beth?

Professora, explique melhor: o que é

o “Dia da Consciência Negra”?

Precisamos planejar tudo. A autorização dos pais,

quais professores irão participar e ajudar, quantos

convidados virão, o lanche, contratar a empresa que

fará o transporte. Pensei em 20 de novembro, “Dia

Nacional da Consciência Negra”.

Boa pergunta, Matheus! Vamos lá. A data foi estabelecida pelo

Ministério da Educação como Lei Federal número 10.639, em 9

de janeiro de 2003, para tornar orbigatório o ensino da História

e da Cultura Africana e Afro-Brasileira. Também foi escolhido

20 de novembro, pois neste dia, em 1695, morreu Zumbi, líder

do Quilombo dos Palmares, fundado na Serra da Barriga, em

Pernambuco. Essa lei foi criada para reparar, de forma positiva,

a representação do negro na sociedade brasileira.

http://www.suapesquisa.com/datascomemorativas/dia_consciencia_negra.

htm. Dia Nacional Consciência Negra. Acesso 1º/11/2008.

Por isso, estudamos sobre as

culturas africana e afro-brasileira

nesses meses todos?

Isso mesmo! Agora, vamos finalizar o trabalho

do ano com o passeio e ressaltar as principais

características dessas duas matrizes culturais.

26 27


A Dona Berenice falou muito sobre o continente

africano. E, mesmo depois de termos feito

várias pesquisas, ainda nos encantamos. Ainda

bem que as descobertas sobre a África dos

nossos ancentrais não terminam nunca!!!

Verdade! Matheus, quando seus primos

vierem a Bom Despacho, leve-os lá em casa

para conhecer minha vovó!

Fico feliz em saber, Bruno! Todos os

profissionais envolvidos trabalharam muito

para que esse projeto desse certo.

Combinado! Eles ficarão encantados

quando ouvirem Dona Fiota falar

daquele jeitinho calmo e charmoso.

Já que o Bruno e o Matheus comentaram

sobre o que gostaram desse projeto,

quero saber dos outros também!

O que mais me chamou atenção nas atividades,

professora, foi quando estudamos sobre as

famílias africana e afro-brasileira. Foi legal

perceber o quanto herdamos das tradições

africanas. Como respeitar os familiares,

principalmente os mais velhos, descobrir

pontos comuns entre a nossa família e a família

vinda da África.

28 29


Eu adorei aprender sobre a construção da

identidade, respeitar o próximo e suas diferenças.

Afinal, a diversidade e a pluralidade cultural são

riquezas individuais e também coletivas.

Ah, ah, ah!!! Amei quando estudamos sobre

os ritmos e fizemos as oficinas de percussão

com o Seu Tatá. Os ritmos africanos e afrobrasileiros

entram na nossa alma, têm tudo

a ver comigo. Ops... Quero dizer, conosco.

Adorei, adorei, adorei!

Bom, professora... Aprendi muito durante

a construção do projeto. Hoje, consigo

argumentar até com certa tranquilidade sobre

preconceito racial e suas consequências.

Nada que serve para separar,

diminuir uma pessoa em relação

a outra é bom. O preconceito é

uma ação ruim que, infelizmente,

muitas vezes passa despercebida

aos olhos da sociedade.

Você tem razão, Matheus. Nenhuma

forma de discriminação constrói

ações positivas.

30 31


Já eu, me encantei com as religiões africanas e afro-brasileiras. Quanta

diversidade e respeito pela natureza. Em uma de nossas visitas, conheci

o Senhor Geraldo que mora no “Kenta Sol” e é pai-de-santo da Casa de

Umbanda e Candomblé de Bom Despacho. Ele também conhece muito a

língua da tabaca, me contou vários rituais para agradecer as coisas boas,

os cantos e como preservar os preceitos da sabedoria africana. Como

desconstruí vários preconceitos que tinha a respeito dessa religião... A

Dona Mariquinha, Rainha Conga, sempre nos recebeu carinhosamente,

podíamos ficar dias escutando suas histórias de Reinado e Reisado.

Aprendi coisas práticas e fáceis na oficina de

chás com a Dona Fiota. Acredita, Dona Beth, que

até aprendi a fazer um chazinho calmante?...

Parabéns, Carol, remédios naturais são excelentes.

Quem dera se tivéssemos mais acesso à medicina

de tradição. Teríamos mais eficiência na cura e

menos gastos com remédios industrializados.

Hummmm!!! E o nosso almoço? Que delícia.

Essa, sem dúvida, foi a melhor oficina.

Descobri os sabores da África e suas

influências me deram água na boca!!!

Esse aí só pensa em comida!

Ah, ah, ah!!!

32 33


Perfeito, pessoal! Amanhã conversarei com

a Dona Dinha e a pedagoga Daniele sobre

horários, ônibus, lanche e quem fará o passeio.

Então, até a próxima aula.

Tchau, Dona Beth, até amanhã!

No dia seguinte...

Bom dia a todos, está tudo resolvido. Já providenciei o

ônibus. O dono da empresa fará um preço especial para a

escola. Quanto ao lanche, cada um levará o que mais gosta

de comer. A Dona Fiota se propôs a fazer bolinhos de tipoque

e matambu e levar para todos. Levaremos frutas da época

para aproveitar o baixo preço.

Puxa vida! Mais uma vez, vocês

estão bem entusiasmados!!!

Dona Daniela, queremos sair bem

cedinho, para aproveitar e conhecer

todos os lugares.

34 35


Dona Daniela, a senhora já

sabe se irá ao nosso passeio?

É melhor mesmo, Dona Daniela, o

passeio será ótimo, porém cansativo.

Crianças, infelizmente não vou. Meu

bebê deve chegar em poucos dias,

por isso, preciso ficar mais quieta.

Decidi convidar alguns professores para

acompanhar a viagem. As professoras Rô,

Luciana, Vera Lúcia, Alexandra e Berenice. A

Dona Fiota, avó do Bruno, e os pais de vocês.

O que acham?

Está ótimo, realmente será um

passeio inesquecível.

Resguardo, Bruno,

resguardo!!!

Professora, acho que só vai a minha

avó. Ganhei um irmãozinho esses dias,

que se chama Júlio César, e minha mãe

está naquele período que sempre

esqueço o nome!

É esse nome aí!

Ah, ah, ah! Está certo, Bruno, é o

mesmo caso da Dona Daniela. Mas,

que bom que sua avó possa ir.

36 37


E a data também já foi definida?

Legal, agora é preparar tudo para o

grande dia!

Também foi: escolhemos o dia 20

desse mês.

Duas semanas depois, dia do passeio...

QUADRO DE AVISOS

Verdade, deu trabalho organizar tudo, mas estou

muito feliz em proporcionar mais esse momento

aos alunos.

Bom dia, pessoal, chegou o grande dia. Estou

igualzinha aos meninos, muito ansiosa!!!

Também estou feliz em participar e contribuir

com esse projeto. Ainda mais eu, que cheguei à

escola há pouco tempo.

SALA DE AU

38 39


Fiz como combinado: um mapa

com as rotas que vamos seguir...

Quero muito mostrar aos alunos!

Ficou ótimo professora Vera Lúcia.

Os alunos chegam à escola...

Fiota, acho que todos estavam

assim como o Bruno.

Iupiii!!! Até que enfim chegou o

dia, não aguentava mais esperar!

É verdade, todos os dias o

Bruno marcava no calendário

quantos dias faltavam...

40 41


Por favor, venham todos para o pátio.

Precisamos dar algumas instruções de

segurança e disciplina durante o passeio.

Bom dia! Quero mostrar também para

vocês o mapa que fiz com a rota do

nosso passeio.

Nossa, ficou demais!!!

Repassadas as regras, todos entram no ônibus...

Nossa viagem começará pela cidade de Pitangui,

como combinado. Se alguém tiver dúvida é só

perguntar. Os convidados dos alunos também

podem perguntar.

Vamos, Dona Fiota, algum problema?

Pelo contrário, adoro visitar essas cidades!

Principalmente Leandro Ferreira, a cidade

do Padre Libério.

o Bruno me falou que vamos passar por

Conceição do Pará e Leandro Ferreira.

É verdade?

42 43


Pessoal, por favor, peço que vocês

observem a paisagem.

Nosso clima, vegetação, hidrografia

e demografia são muito semelhantes

aos do continente africano. Vocês

se lembram das florestas tropicais

africanas?

Sim, professora, são lindas,

com muito verde e água em

abundância.

O que vocês veem?

Muito verde e água em abundância!

Nossa! Realmente se parecem muito!

A população africana então era maior

que a população indígena e europeia?

Muito bem! Vocês sabiam que, até decretarem

o fim da escravidão, a população de origem

africana aqui no Brasil chegou a ser de 70%?

Isso mesmo! Por isso, temos importantes

influências na nossa cultura e costumes, no

modo de falar, vestir...

44 45


Também por isso eles eram tão importantes

para a economia da colônia!

Com certeza, Diego. O negro africano

escravizado movimentava toda a economia

produzida na colônia, naquela época. Ele não

se rebelou no início, por estar em território

totalmente desconhecido, o que dificultava

sua fuga. Como vocês já estudaram, os

escravos vindos da África eram bem

inteligentes, pois dominavam algumas técnicas

de plantio, extração de metais preciosos e

aprendiam rápido novas profissões.

Os africanos trouxeram um monte de coisas

boas para a nossa cultura!

Chegamos a Pitangui. Agora, vamos ver na prática

o que estudamos em sala de aula. Crianças,

cuidado! Não saiam de perto dos responsáveis.

* Observem a arquitetura das casas mais

antigas, muitas delas foram construídas na

época pelos escravos. Vejam: são edificações

enormes e, naquele tempo, tudo era manual,

inclusive o carregamento dos materiais.

A mão-de-obra escrava era importante,

mas, o mais interessante é valorizar

essas construções, pois foram feitas por

verdadeiros artistas negros.

46 47


Que maravilha conhecer a cidade de Pitangui!

É, também fiquei impressionado!

Continuemos. Agora, seguiremos por um

caminho muito especial. Vamos conhecer as

possíveis rotas que os escravos percorreram

até chegar a Bom Despacho. Passaremos

por Conceição do Pará, Leandro Ferreira

e faremos uma parada na antiga Estação

Ferroviária de Álvaro da Silveira, pertinho do

Rio Lambari.

Lá também vamos ver a antiga ponte de

ferro e as prainhas do rio?

Sim, é lá mesmo!

48 49

Legal!!!


O ônibus chega às ruínas de Álvaro da Silveira...

Então... Aqui foi construída, em 1921, a Estação Ferroviária de Álvaro

da Silveira. Pesquisei que foi inaugurada pela Estação Ferroviária

Paracatu, no trecho de linha aberto até a Estação de Bom Despacho.

Em 1929, a colônia de Álvaro da Silveira era “composta por 179 lotes,

sendo 102 ocupados, 5 reservados e 72 vagos.” Em 1930, “esse

núcleo tem a área de 4.289 hectares. Plantaram-se 2.274 litros de

milho, 1.556 de arroz, 363 de feijão, 72.500 pés de mandioca, 1.000

de cana, 500 de café e 70 arrobas de algodão, tudo numa área de

328 hectares. A colônia está cortada por 47.387 metros de estradas

de rodagem, 22.500 metros de caminhos comuns e nela estão

construídos um prédio público, 15 casas provisórias, 182 definitivas,

funcionando uma escola, uma casa comercial, uma olaria, 3 engenhos

de cana e 11 moinhos de fubá.”²

Veremos agora a ponte de ferro e o Rio

Lambari, a uma distância segura para todos.

Acompanhantes, conto com a ajuda de vocês.

Que saudade de ver esse rio enorme e

lindo. Nos tempos de menina, Virgínia, eu

vinha muito para cá apanhar goiaba e nadar

nas prainhas do Rio Lambari...Que saudades

daquele tempo!!!

50 51


Para que vocês entendam onde

estão localizados os Rios Lambari

e Pará, trouxe esse mapa da Bacia

Hidrográfica do Rio Pará.

O ônibus segue para o povoado da Passagem...

Desse lugar, pessoal, conheço cada cantinho. É

um povoado pequeno e por aqui passavam muitos

escravos fugidos para formar quilombos. Depois,

alguns desses locais se tornaram cidades.

Professora, que experiência única passar

por possíveis caminhos feitos pelos nossos

ancestrais. E o que é melhor: estudamos em

sala de aula e agora temos a oportunidade de

confirmar com esse passeio maravilhoso.

52 53


O ônibus segue para a Fazenda da Prata... O ônibus segue para o Bairro da Tabatinga...

Desde a sua fundação, esta

fazenda sempre empregou

gente da Tabatinga! Não é,

Dona Fiota?

É mesmo, minha filha. Aqui, crianças, a gente fazia de

tudo: fiava; plantava mandioca, couve e feijão; fazia

silo para o gado; apanhava lenha; fazia comida para

todos, doces... Nós trabalhávamos muito, eu, minha mãe,

meus irmãos e outros parentes, mas fui muito feliz aqui.

Saíamos da Tabatinga para buscar manga e jabuticaba,

que delícia... Que presente vocês me deram, passar aqui

na Fazenda da Prata.

Enfim, chegamos a Tabatinga, bairro onde se

formou o quilombo urbano, a nossa maior e

mais importante referência cultural afro. Aqui,

pessoal, encontramos grande influência da

oralidade africana.

O que é oralidade, professora?

Boa, Jaime! Trouxe esse conceito que encontrei: Oralidade é a

transmissão oral dos conhecimentos armazenados na memória

humana. Antes do surgimento da escrita, todos os conhecimentos

eram transmitidos oralmente. A memória auditiva e visual era o único

recurso de que dispunham as culturas orais para o armazenamento e

a transmissão do conhecimento às futuras gerações. A inteligência

estava intimamente relacionada à memória. Os anciãos eram os mais

sábios, pelo conhecimento acumulado.

Em muitas culturas, a identidade do grupo estava sob a guarda de

contadores de histórias. Os contadores de cada cultura tinham

um nome apropriado que, na prática, eram autenticamente os

portadores da memória da comunidade. Exemplo, é o caso do papel

desempenhado na África pelos griot. ³

54 55


Nossa, tem que ter uma

supermemória para guardar

tanta informação!

Se tem! Depois falam que os africanos não têm

história porque não usavam a escrita, mas nem

precisavam. Eles guardam toda sua história

na memória, o que é muito mais difícil. Mas,

professora, o que é um griot?

Griots: como são chamados na África os contadores

de histórias, músicos, poetas, sábios, etc. Eles são

considerados sábios muito importantes e respeitados

na comunidade onde vivem. Com suas narrativas, eles

passam as tradições de seus povos de geração para

geração. Nas aldeias africanas, era costume sentar-se à

sombra das árvores ou em volta de uma fogueira para ali

passar horas ouvindo histórias sobre o fantástico mundo

africano, transmitidas por “estes velhos griots”. 4

Aqui são conhecidos como

contadores de histórias.

E aqui no Brasil, como

são chamados?

56 57


Gostaram?

Realmente, fechamos com

chave de ouro essa etapa

do projeto.

Puxa, quanta referência temos:

na arquitetura, nas artes, na

economia, nas festas, na política,

na geografia, na comida, em

tudo... O Bruno tem razão, quanto

mais aprendemos sobre a África,

mais dá vontade de conhecer!!!

Amei tudo, daqui a pouco

estou craque em cultura

africana e afro-brasileira!

Estou feliz demais com tudo. Confesso

que estou emocionada. Nesses anos

todos de vida, é a primeira vez que

vejo a cultura dos meus ancestrais

ser valorizada. Obrigada professora

Rosângela e a toda equipe do

Martinho Fidélis.

Deixe disso, Dona Fiota! Esse projeto

foi construído coletivamente, sem

a ajuda de todos seria impossível

alcançar nossas metas. Outra coisa:

esses foram apenas os primeiros

passos, ainda temos muito que

desvendar sobre a África e o nosso

Afro-Brasil.

58 59


Em nome da escola e de todos que participaram,

agradeço o empenho e a dedicação. Cada etapa

cumprida é sinal de dever cumprido. Estamos no

caminho certo, somente com a educação será

possível respeitar a pluralidade existente nesse

nosso lindo Brasil. Obrigada!!!

Atividade

Faça você também um afro-turismo. Monte com seus professores um roteiro de lugares com

referências africana e afro-brasileira e visite-os.

¹- MOORE, Carlos. A África que incomoda.

atividades

notas

²- http://www.estacoesferroviarias.com.br/rmv_paracatu/alvaro.htm. Estações Ferroviárias.

Acesso 1º/11/2008.

³- http://pt.wikipedia.org/wiki/Oralidade. Oralidade. Acesso 1º/11/2008.

4 - http://www.ciadejovensgriots.org.br/griots.php. Conceito de Griots. Acesso 1º/11/2008.

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i i

reFerenCias BiBlioGraFiCas

LIMA, Maria Nazaré. SOUZA, Florentina (Orgs). Literatura afro-brasileira. Salvador: Centro de

Estudos Afro-Orientais; Brasília: Fundação Cultural Palmares, 2006.

MOORE, Carlos. A África que incomoda: sobre a problematização do legado africano no quotidiano

brasileiro. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.

THORTON, John Kelly. A África e os Africanos na Formação do Mundo Atlântico, 1400-1800;

tradução de Marisa Rocha Mota. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.

Sites:

http://www.estacoesferroviarias.com.br/rmv_paracatu/alvaro.htm. Estações Ferroviárias.

Acesso 1º/11/2008.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Oralidade. Oralidade.

Acesso 1º/11/2008.

http://www.ciadejovensgriots.org.br/griots.php. Conceito de Griots. Acessso 1º/11/2008.

http://www.cbhpara.org.br/mapa.htm. Mapa da Bacia Hidrográfica do Rio Pará. Acesso

1º/11/2008.

http://www.revistaturismo.com.br/materiasespeciais/turismoe.html. Conceito de Turismo. Acesso

1º/11/2008.

* Comunidades quilombadas de Minas Gerais no século XXI. História e resistência / Organizado por

Centro de Documentação Elói Ferreira da Silva. Belo Horizonte: Autêntica / CEDEFES, 2008.

i

Fundação Guimarães Rosa

Superintendente-Geral

Álvaro Antônio Nicolau

Superintendente de Empreendimento e Pesquisa

Pedro Seixas da Silva

Superintendente de Administração, Finanças, Tecnologia da Informação e Gestão Social

José Antônio Gonçalves

Departamento Social

Zilton Ribeiro do Patrocínio

Setor de Comunicação, Cultura e Lazer

Juliana Leonel Peixoto

Equipe Responsável pela Pesquisa

Kelly Alcilene Cardozo: Historiadora e Especialista em Estudos Africanos e Afro-Brasileiros

Rosângela Melo Gontijo: Assistente de Pesquisa

Apoio

Escola Estadual Martinho Fidélis

Ilustração

Rodrigo Spotorno

Thiago Bastos

Edição, diagramação e revisão

Jota Campelo Comunicação

Fundação Guimarães Rosa – FGR

CARDOZO, Kelly A.; GONTIJO, Rosângela M. Contando Saberes: Histórias da Dona Fiota - Matrizes Culturais Africanas e Afro-Brasileiras . Vol. 12.

Belo Horizonte: Bigráfica Editora, 2008. 64p.


Rua Paraíba, 1441 - Conj. 801/806 - Funcionários

Belo Horizonte - MG

www.fgr.org.br

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