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gênero, idade média e interdisciplinaridade ST ... - Fazendo Gênero

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O sema cast, presente em

O sema cast, presente em casto e castidade, relaciona-se, nesses escritos, com a virgindade. Em um trecho da primeira carta temos: “Amando-o, sois casta; tocando-o tornar-vos-eis mais limpa; acolhendo-o, sois virgem” (1CtIn 8). Nota-se que para Clara a virgindade está associada à castidade. No momento que ela recebeu o Cristo como esposo, pelo caráter espiritual do laço constituído entre eles, ela permaneceu virgem e amando-o continuou casta e limpa. Assim, nessa perspectiva, a virgindade se confunde com a castidade. A castidade seria o contato da virgem/mulher com o Cristo, não passando pelo aspecto físico. No momento que a mulher, virgem ou não, tivesse esse contato, este, ao invés de contaminá-la, purificá-la-ia. Clara ressaltou que esse contato purificador com Deus poderia estar presente em qualquer mulher que quisesse aderir à vida religiosa, bastando renunciar a tudo de material. Se fosse casada ou solteira deveria fazer votos de continência ou aderir à castidade. Ou seja, não era exigido que a mulher fosse virgem (fisicamente) para servir a Cristo, o que importava era a renúncia que fazia por amor a Deus, apresentando, portanto, um “coração puro”. Assim, a virgindade não era algo físico que podia ser perdido. 11 No século XII, a participação das mulheres no ideal de vita vera apostolica – um estilo de vida religioso novo, baseado em um retorno ao exemplo de Cristo e dos apóstolos, tendo como princípios fundamentais: a imitação da Igreja primitiva, seguindo os passos de Cristo e dos seus apóstolos; o amor por Deus e pelo próximo; a obediência à exortação de Cristo para ser perfeito, praticando uma vida comum de pobreza evangélica 12 - é destacada pela entrada de um grande número delas na vida religiosa. Vários mosteiros foram criados por iniciativas de famílias aristocráticas ou eram ligados a ordens existentes. Entretanto, o IV Concílio de Latrão de 1215, através do cânone 13, proibiu a aprovação de novas regras, determinando que todo aquele que se sentisse chamado à vida religiosa, deveria escolher uma das regras vigentes – Beneditina ou a Agostininana 13 – e aderir a uma das Ordens reconhecidas pela Igreja. 14 Para Clara, adotar uma dessas regras significaria abrir mão de seu ideal de vida em pobreza, aos moldes franciscanos. Nas Legendas Menores constatamos que o sema virg- aparece 52 vezes (cinqüenta e duas) Na Legenda Menor 1, 23 vezes (vinte e três) associadas a Clara, e as outras restantes referido-se uma vez à nobre Cecília; duas vezes a Virgem Maria; duas vezes a Inês de Praga e seis vezes relaciona-se a outras mulheres consagradas. Na Legenda Menor 3, ele aparece 5 vezes (cinco), todas relacionadas a Clara de Assis. Tanto na Legenda 1 como na 2 a palavra virgindade está associada a vários contextos, dentre eles destacamos cinco: o primeiro denota um comportamento exemplar: “Como é bela a geração com clareza, a geração da virgem santa Clara, cujo comportamento claríssimo resplandece como um exemplo para os mortais” (LM3 1-1) (grifo meu); o segundo está relacionado a uma vida dedicada às vigílias e orações: “ Dedicada também a vigílias e orações, a santa virgem gastava principalmente nelas os seus tempos de dia e de noite.” (LM3 8-1) (grifo meu); temos como terceiro contexto a renúncia às coisas do mundo:

Por sugestão do homem de Deus (...) lhe instilava nos ouvidos virginais o desprezo do mundo e os doces esponsais de Cristo, a virgem preclara não adiou o consentimento, antes, acesa nos ardor do fogo celeste, desprezou altaneira a glória da vaidade terrena, teve horror direto das ilusões da carne, propôs-se a ignorar o leito nupcial no delito, e se entregou totalmente aos conselhos do mesmo bem-aventurado pai.(LM3 1-13) (grifo meu) O quarto contexto é referente ao martírio do corpo: “ também usava sob as vestes preciosas e macias um pequeno cilício escondido(...) vestindo Cristo interiormente, fazendo que deixava para depois o casamento mortal, recomendava ao Senhor a sua virgindade.” (LM1 1-9) (grifo meu). O quinto e último, está associado à vida virginal consagrada a Deus: “ (...) a própria bem-aventurada Clara estava no século ainda menina, procurava desde a mais tenra idade superar este mundo frágil imundo em um caminho limpo guardando sempre com ilibado pudor o tesouro precioso de sua virgindade.” (LM3 2-1) (grifo meu). A morte de Clara de Assis e sua canonização são retratadas na Legenda Menor 2. Nela o sema virg- aparece 13 vezes (treze), 09 (nove) referentes a Clara; 2 vezes (duas) associados a outras mulheres consagradas; uma vez referido-se a Virgem Maria e uma ao ofício das virgens. Na análise das Legendas Menores, observa-se que a Igreja vai apresentando a vida de uma mulher nobre, que recusou o casamento terreno em prol de uma vida dedicada a Deus, em virgindade e em oposição aos vícios, à carne, ao desejo, ou seja, ela é retratada como uma virgem consagrada, aquela que renunciou não somente às paixões, mas a todo desejo permitido pela Igreja dentro matrimônio, unindo-se a Deus através do voto de virgindade. Mesmo no seio de um mosteiro, a mulher continuava sendo controlada pelo homem. As relações de poder e controle se mantinham, cabendo, nesse caso, o papel de sujeito dominante cabe ao clero. Nesse meio a figura de Clara é colocada como uma mulher que estava pronta a aceitar as normas que a Igreja lhe impunha, sem questioná-las. Clara é descrita como uma serva fiel, amiga do Altíssimo e que teve 42 anos de sua vida dedicados a servir a Deus em pobreza, obediência e em castidade. Ao relatar as escolhas pessoais de Clara, os exercícios espirituais praticados por ela e a quem a mesma resolveu seguir e se entregar, a Igreja, por meio das Legendas, construiu um modelo de santidade para ser disseminado entre as mulheres que desejassem aderir ao chamado religioso. Nesse modelo o ponto central era a virgindade, pois através dela a mulher criava um laço indissolúvel com Cristo. Ela seria sua esposa. Porém, no teor das legendas não é mencionado nada que revele confrontos entre Clara e a Cúria Papal, muito menos com os Irmãos Menores. Não é trazido à luz das discussões o embate dela com o Papa Gregório IX por querer adotar o estilo franciscano de vida. Tudo isso é relegado ao esquecimento nos escritos litúrgicos. A Clara que importava divulgar como exemplo era diferente de aquela encontrada nas cartas. A santa idealizada era diferente da mulher real e histórica

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