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Cirurgia Plástica - Fazendo Gênero - UFSC

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Cirurgia Plástica Estética e a re-invenção da diferença: o refinamento do olhar. Diferentes por natureza, esse é uma das frases que mais se ouve a respeito de homens e mulheres e que fundamenta inúmeras afirmações a respeito do gênero iv . Cada vez mais a ciência se esmera em provar as diferenças genéticas e hereditárias entre homens e mulheres. Como já afirmou Citeli (2001), mesmo aberta a rever certos pressupostos sexistas e racistas, a ciência constitui seus argumentos sobre diferenças sexuais em poderosas metáforas biologizantes. v Trazendo para o debate um argumento ontológico e pré-determinado sobre diferentes anatomias, as cirurgias estéticas levaram o olhar médico a se deslocar para o exterior do corpo, à sua aparência. É essa perspectiva da diferença sexual que me proponho a problematizar e, para isso, penso ser importante localizar brevemente a discussão, para depois apresentar a forma como essa aparece no discurso médico e medicalizado sobre as cirurgias plásticas A perspectiva essencialista que vigora na medicina a respeito de masculino e feminino, parte do pressuposto de que homens e mulheres possuem naturezas incomensuravelmente diferentes, algo já pré-determinado e manifesto em seus corpos. Em “Inventando o Sexo”, Laqueur (2001) vi afirma que a herança grega presente na teoria do calor do corpo, que envolvia as concepções médicas a respeito do corpo humano, postulava a diferença entre homens e mulheres em termos de grau de perfeição ou perfectibilidade. Como demonstram os textos de alguns anatomistas citados pelo autor, o corpo por excelência era o masculino, fruto do esperma mais forte e que conteria maior calor no corpo, fazendo-lhe externalizar seus órgãos. O corpo feminino, por sua vez, por falta de calor, teria seus órgãos interiorizados. As mulheres eram assim concebidas como homens invertidos, possuindo pênis (o canal vaginal) e escrotos (os ovários), entre outros órgãos, afirma Laqueur. Dessa forma, a idéia de um dimorfismo sexual, que surge no século dezoito, implicou em um corpo particular às mulheres e que passa a ser concebido pelo discurso de médicos e especialistas, como tendo uma inferioridade dada pela natureza. Justamente no bojo dessa discussão, Rohden (2002) vii mostra como a construção da ginecologia, ocorrida no século XIX, evidencia essa especialidade médica como uma ciência da diferença. Confirmando a tese de Laqueur (op. cit.), a autora diz que foi a procura por uma legitimação biológica às diferenças sexuais que levou a medicina − superando a concepção de que as diferenças estão nos órgãos genitais −, a conceber a diferença na totalidade fisiológica e psicológica do indivíduo. Assim, foi “uma natureza feminina específica e patológica definida pelos médicos (que) propiciou o novo discurso da diferença” (ROHDEN, 2001, p. 118). viii A concepção médica a respeito das mulheres passava por uma perspectiva essencializada do corpo: arredondado, volumoso, seios generosos, ancas desenvolvidas, qualidades associadas a um corpo materno. E, mais interessante, é saber que os médicos constatavam impressionados como a beleza ideal das mulheres era delineada pela natureza, em função da maternidade. Sendo assim, 2

grandes cuidados eram recomendados com a educação das meninas, pois essas corriam um sério risco: o de terem seus órgãos reprodutivos atrofiados ix . O que fica claro é que a advertência encerra o perigo que se desvela: a ‘perda’ da feminilidade. A tentativa é dar um significado à diferença que foi construída. Para legitimá-la, nada daria mais credibilidade que a medicina, encarregada de acrescentar constantemente “novos e intrigantes detalhes que provam a intransponibilidade da diferença” (ROHDEN, 2002, p. 6). Essa vertente é muito fértil para pensar a cirurgia plástica estética, pois se o postulado é que existe um corpo ontologicamente diferente para o masculino e o feminino, nada mais interessante que uma ciência médica para plasmá-lo, moldá-lo, fixá-lo ou ‘defini-lo’ x . Na perspectiva que proponho, tais intervenções estéticas constituem, entre grupos de classe média, uma forma hegemônica que sustentam e re-significam a construção de diferenças anatômicas, afetando as representações e auto-representações do gênero. Poli Neto (2006), chama a atenção para o fato de que as cirurgias estéticas estão pautadas numa racionalidade médica que incorporou o conceito de beleza - que até meados dos anos cinqüenta do século vinte era discriminado como objeto da prática médica -, associando-o a uma teoria da doença. Nessa definição, a beleza passa a ser pensada e descrita pela lógica do binarismo normal-patológico xi . Analisando artigos de duas revistas internacionais de maior referência sobre cirurgia plástica no meio biomédico, o autor percebe que é ao descrever a aparência física em termos de anomalias e variações que as cirurgias estéticas são justificadas, enquanto uma forma de prevenção ou eliminação dessas. As causas de tais anomalias estéticas seriam “eventos indesejáveis”, tais como os acúmulos de gorduras, o envelhecimento, ou a aparência do envelhecimento, e a própria força da gravidade. Outro evento de conseqüências indesejáveis é a gravidez. Diz o autor: “no caso da Medicina da Beleza, a maioria dos estudos aponta para uma lesão anatômica, mas que pode ser decorrente de uma predisposição genética, de alterações celulares ou de influências do meio ambiente.” (Poli Neto, 2006, p.50). Definido a partir de medidas antropométricas, o corpo idealizado nos consultórios de cirurgiões plásticos é baseado em simetrias e assimetrias, proporcionalidades e harmonia. O que buscam alguns textos, diz o autor, é encontrar uma norma natural da beleza física, que seria um instinto natural. Nesse sentido, vale a pena reproduzir aqui o que afirma o renomado cirurgião plástico, dr. Ivo Pintaguy: “o homem é um ser estético por natureza. A procura do equilíbrio da forma, do belo, está impressa em sua trajetória. Se ontem a busca era contemplativa, poética, hoje a possibilidade de concretização desse ideal é uma realidade” (Pitanguy, 1997) xii . Para ele, a cirurgia plástica lida justamente com esses “anseios e expectativas” do ser humano. E, cabe ressaltar, as cirurgias plásticas com finalidades estéticas ainda se encontram vinculadas à idéia de prática típica das mulheres. Porém, sabe-se que hoje quase 30% desse mercado é masculino. E o mais interessante é 3

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