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Cirurgia Plástica - Fazendo Gênero - UFSC

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que, no caso masculino,

que, no caso masculino, as cirurgias plásticas são apresentadas na mídia e no próprio discurso médico como terapêuticas; a possibilidade de existir um discurso sobre tais intervenções cirúrgicas enquanto prática ligada à beleza parece ainda bastante distante desse contexto. É como se a masculinidade estivesse circunscrita às academias de ginásticas, e as práticas cosméticas e cirúrgicas fossem “feminilizantes” xiii . Segundo um cirurgião plástico por mim entrevistado, “o homem sempre tem uma desculpa, mulher não, ela sempre vem por vaidade, pura e simplesmente”. O que quero ressaltar é que estamos em um campo que atrela ao feminino uma anatomia específica e comportamentos também específicos. Através de uma cirurgia plástica estética, “realmente a gente se realiza como mulher”, me disse Nara, de 43 anos e que realizou uma lipoaspiração, uma mamoplastia de redução e levantamento e já está pagando sua próxima cirurgia, um “retoque no braço” para retirar o excesso de pele. Segundo ela, a gravidez havia feito com que seus seios ficassem caídos, o que a fazia ter vergonha até mesmo de tirar a roupa em frente ao marido. A questão da diferença sexual como fundamento para as representações e auto- representações do gênero, pode ser percebida por uma pesquisa realizada entre modelos, que revelou que 100% das mesmas estavam insatisfeitas com seus corpos e realizariam correções cirúrgicas, 96% fariam lipoaspiração e implante de silicone nos seios. Nessa revista ainda, cuja chamada de capa é “Beleza revelada: a evolução dos padrões estéticos nas diferentes culturas...” a matéria é veiculada na sessão Biologia e confirma: “mulheres saudáveis, em idade reprodutiva, têm a razão entre cintura e quadris de 0,67 a 0,80” ou então: “mulheres com cintura fina, quadris largos e lábios grossos sempre fazem sucesso” xiv . Matéria bastante questionável no sentido antropológico, porém ilustrativa de meu argumento onde a cirurgia plástica estética reinventa a diferença, refinando seus argumentos e levando o olhar médico do orgânico para o anatômico, em que uma anatomia do belo se liga a atributos de feminilidade Os padrões de beleza, indissociáveis das influências da cultura, são universalizados e naturalizados no discurso médico que envolve as cirurgias plásticas estéticas: Excetuando-se as mamas e os órgãos sexuais, a principal diferença entre o corpo masculino e o corpo feminino é a presença da cintura na mulher. Um corpo feminino reto, sem cintura, é sem dúvida um corpo masculinizado, sem charme e sensualidade. A cintura bem modelada é fascinante e prende o olhar até dos mais distraídos. xv A diferença é única e incomensurável, próprias do homem ou da mulher; para alguns é a cintura, para outros é o bumbum e, para outros, ainda, o diferencial entre corpo masculino e feminino são os seios. E aquilo que não foi bem acabado pela natureza, ou que foi afetado pelo tempo ou pelos eventos, pode ser melhorado, retocado, definido ou mesmo construído por uma cirurgia plástica estética. Nesse sentido, “ser mulher” é igual a “ser feminina”, e isso por sua vez implica em possuir seios fartos e cintura fina, entre outros atributos identificadores, características que já não podem ser descolados de um certo argumento sobre a capacidade de seduzir natural das 4

mulheres. As “curvas acentuadas” assim como as “mamas fartas” já não significam um corpo materno. Coladas aos corpos, antes signo da maternidade, tais características são hoje entendidas, no próprio discurso médico, como expressões de um corpo feminino considerado sedutor. E isso evidencia uma mudança nas conotações dos signos corporais. Cristiane, 37 anos, fez uma lipoaspiração porque, segundo ela, tinham algumas gordurinhas localizadas que a incomodavam: “...sabe essas gordurinhas que a gente tem acima da cintura...” me disse ela, querendo dizer que é algo que toda mulher tem. Essa bordinha, que ‘coincidentemente’ se situa na região da cintura, é entendida e explicada como uma gordura, que as mulheres tendem a adquirir por descuido com a alimentação, herança genética, gravidez ou idade, e provoca um incômodo porque interfere na aparência física, o corpo sai do padrão esperado para um corpo feminino considerado ideal, só podendo ser reparado por uma cirurgia plástica. Isabel, de 29 anos, também já fez lipoaspiração e faz questão de frisar: “a mulher sempre quer chegar numa perfeição, nunca tá contente com tudo”. A explicação de Janaína, 46 anos, que já passou por algumas intervenções estéticas como lipoescultura, correção de nariz, prótese silicone e bioplastias, e trabalha com pós-operatório de cirurgias plásticas, é bastante elucidativa dessa relação entre corpo, gênero e sexualidade: Fiz uma lipoescultura, né. Na lipoescultura tu remodela o corpo. Porque a mulher, quando ela chega aos trinta e seis, trinta e oito anos, ela vai perdendo as medidas e vai ganhando essa parte aqui que a gente chama de flanco, a borda de catupiri; o pneuzinho. Aí vai perdendo a cintura também. Então nessa fase dos trinta e seis, trinta e oito anos, as mulheres entram no desespero porque não tem mais cintura; porque o flanco aqui ta tudo uma coisa só. Aí tu queres saber quais as que eu fiz? Eu fiz a lipoescultura; eu lipei o meu corpo todo, eu tirei o culote, que é essa parte do corpo, aqui entre as pernas – as coxas, né -, o flanco, o abdômen, as costas eu lipei toda também, porque fica a marca do sutian aqui, que não agrada as mulheres, aí eu fiquei feliz. Aí fui ganhando a forma do corpo, e fazem cinco anos e eu ainda estou com a mesma, o mesmo manequim; vê se tu vê alguma marca. Segundo ainda sua explicação, de todos os procedimentos, o que traz mais felicidade, é a prótese de silicone: é visível, e o que acontece: a vida sexual, a sexualidade da mulher ela volta, ela vem a tona, porque existem muitas mulheres que não tiram mais a roupa na frente do marido, elas têm vergonha, né. Porque, como essas mulheres, nós nessa idade já tivemos filhos, então o seio era perfeito, deixou de ser perfeito, né, e aí as mulheres acabam escondendo. Então a vida sexual acaba mudando, se transformando que é uma maravilha, né; porque as mulheres começam a se gostar. Não pretendo, logicamente, dizer que tais eventos como maternidade, idade ou peso não alterem a anatomia do corpo. O que me interessa são os significados atribuídos à necessidade da cirurgia plástica e ao mesmo tempo perceber seus significantes no corpo, refletindo sobre o modelo de feminino hegemônico que está presente nessa cultura das cirurgias estéticas. Isso aparece sobretudo no tipo de plástica realizada, nas partes do corpo a serem melhoradas, na idéia de definição do corpo e, finalmente, implícito no discurso médico e medicalizado da auto-estima, do antes e depois, do ficar de bem com a vida. Mas, para problematizar, ainda que brevemente pela escassez de tempo e espaço, considero importante perguntar o que fundamenta os discursos que atravessam o campo semântico das 5

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