Views
4 years ago

Cirurgia Plástica - Fazendo Gênero - UFSC

Cirurgia Plástica - Fazendo Gênero - UFSC

cirurgias plásticas

cirurgias plásticas estéticas. O que significa dizer que o diferencial entre corpos masculinos e femininos é nádegas, cintura ou seios? Por que a não identificação de certos atributos no corpo leva a considerar a mulher como não feminina? Como alguém pode se identificar com normas que são construídas? E, por fim, resta ainda perguntar, por que feminino deve ser definido como oposto a masculino. As pistas para responder a estas questões, sugiro encontrar na teoria da performatividade do gênero proposta por Butler (2003) xvi , que coloca em cheque a idéia de naturalização da diferença – aqui o fundamento dos discursos e práticas que envolvem as cirurgias estéticas. Para essa autora, o gênero é uma “espécie de imitação persistente, que passa como real”, não sendo mais possível concebê-lo como um modelo substancial da identidade. É uma temporalidade social, sua aparência de substância é uma realização performativa, no qual a sociedade – e os próprios atores sociais – acreditam e exercem sob a forma de crença. Diz a autora: “é importante questionar se ser mulher constituiria um ‘fato natural’ ou uma performance cultural, ou seria a ‘naturalidade’ constituída mediante atos performativos discursivamente compelidos, que produzem o corpo no interior das categorias de sexo e por meio delas?” (Butler, 2003, p. 9). Segundo ela, essa naturalização do gênero no corpo é fabricada por um discurso social e público, como uma essência interna, mas também é fruto da fantasia política. Nesse sentido, o que se deve questionar são as normas regulatórias sobre as quais os sexos se materializam. Ou seja, quais os valores que fundamentam as representações de gênero numa sociedade e que levam tantas mulheres a procurar uma intervenção cirúrgica para se adequarem à norma xvii . Finalizo, apontando ainda brevemente o profundo investimento social numa heterossexualização do desejo, que segundo Butler, necessita de oposições assimétricas entre “feminino” e “masculino”, para que se realize. Os limites do “real” são produzidos no campo da heterossexualização naturalizada dos corpos, em que os fatos físicos servem como causas e desejos refletem os efeitos inexoráveis dessa fisicalidade” (Butler, 2003, p. 108). Para a autora, é justamente essa fusão do desejo com o real que cria a síndrome da heterossexualidade melancólica e a superfície sexuada do corpo torna-se o signo da identidade de um desejo naturalizado. Butler está problematizando a construção da identidade homo ou heterossexual, e a forma como partes do corpo tornam-se signos identitários como vagina, pênis e seios. Mas isso também serve para desnaturalizar todo o processo que envolve as cirurgias plásticas: o modo de experienciar seu corpo, as escolhas; desde as justificativas para colocar silicone, retirar gordurinhas localizadas até as expressões que evidenciam a busca pela reconstrução de um corpo que já não é considerado tão feminino – a ponto de submeter-se a uma cirurgia plástica – e o final do processo onde emergem elementos como aqueles ligados à reconquista da auto-estima. Quando pensada e incorporada como uma identidade natural, aparecem elementos como ser feminina, perder a feminilidade, não ser 6

desejável, sentir-se desejável ou mais mulher, elementos esses presentes na fala de minhas interlocutoras e de cirurgiões plásticos. Se, no passado, conforme o evidenciaram Laqueur e Rohden, a medicina havia reduzido a mulher a seus órgãos reprodutivos, como ovários e úteros, hoje, numa área onde a beleza feminina não se atrela à maternidade, a mulher é reduzida à sua aparência física: nádegas, cintura e peitos. Afinal, como disse um cirurgião plástico, “um corpo feminino reto, sem cintura, é sem dúvida um corpo masculinizado, sem charme e sensualidade”. Enfim, parece que os médicos continuam num lugar privilegiado pela sociedade na definição de um “destino natural” para um corpo feminino – mesmo que os caminhos para esse destino natural apareçam intermediados pelas mais diversas técnicas de modificação do corpo e por um discurso permeado pelos valores da autonomia e do individualismo. Uma cultura da diferença permeia as representações e auto-representações sobre o “feminino” no contexto da cirurgia plástica estética. 7

O Serviço de Cirurgia Plástica – que integra a Unidade de Queimados
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis ... - UFSC
1 Simpósio Temático 01 - Fazendo Gênero - UFSC
Escrevendo a história no feminino - Fazendo Gênero - UFSC
Corpo, Violência e Poder - Fazendo Gênero - UFSC
Escrevendo a história no feminino - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Corpo, Violência e Poder - Fazendo Gênero 10 - UFSC
MEMÓRIA E ORALIDADE: - Fazendo Gênero - UFSC
Giorgia de M. Domingues - Fazendo Gênero 10 - UFSC
Corpo, Violência e Poder - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Corpo, Violência e Poder - Fazendo Gênero 10 - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder Florianópolis ... - UFSC
Corpo, Violência e Poder - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Arthur Grimm Cabral - Fazendo Gênero 10 - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero 10 - UFSC
Download do Trabalho - Fazendo Gênero - UFSC
Gênero e Ciência - Fazendo Gênero 10 - UFSC