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O corpo na desconstrução da aprendizagem ... - Fazendo Gênero

O corpo na desconstrução da aprendizagem ... - Fazendo Gênero

Anais

Anais do VII Seminário Internacional Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de agosto de 2006 narrada por Clarice Lispector, os papéis se alternam, ou seja, no primeiro momento, quem dirige o processo de aprendizagem é o homem, ao colocar condições para a continuidade da relação de ambos, conforme o trecho a seguir: “Mas era como se ele quisesse que ela aprendesse a andar com as próprias pernas e só então, preparada para a liberdade por Ulisses, ela fosse dele – o que ele queria dela, além de tranqüilamente desejá-la? No começo Lóri enganara-se e pensara que Ulisses queria lhe transmitir algumas coisas das aulas de filosofia, mas ele disse: ‘não é de filosofia que você está precisando, se fosse seria fácil: você assistiria às minhas aulas como ouvinte e eu conversaria com você em outros termos’.” (UALP, p. 16). No início da narrativa, Lóri parece esperar a proteção de Ulisses. Como seria esta proteção? Conforme o padrão de comportamento tradicionalmente ensinado às mulheres, no Brasil, no final da década de sessenta, a filha deixaria a casa do pai, o provedor do lar original, para viver sob o teto do marido, o cabeça do casal, ao aceitar o papel de esposa e mãe. A protagonista clariceana não se enquadra neste modelo conservador, uma vez que Lóri reside sozinha, no Rio de Janeiro, longe da família. À primeira vista, o único vínculo que a prende ao pai é o financeiro, representado pela mesada que ele lhe manda regularmente para complementar as despesas: “ela mudara-se sozinha de Campos para o Rio, comprara o pequeno apartamento onde vivia, sustentada regiamente pela mesada do pai. Com quatro irmãos homens, e ela filha única, o pai lhe mandava o que ela quisesse.” (UALP, p. 49) Ela se questiona sobre o que seria a idéia de “ser protegida”, seria só receber sem precisar retribuir? Antes de conhecer Ulisses, Lóri era solitária, mas sabia como agir no seu mundo. Agora, ela se pergunta quem ela é, quem é Ulisses, quem são as pessoas. Antes ela evitava sofrer e não se questionava, agora ela busca respostas sobre o significado de ter um corpo: “Por ter de relance se visto de corpo inteiro ao espelho, pensou que a proteção também seria não ser mais um corpo único: ser um único corpo dava-lhe, como agora, a impressão de que fora cortada de si própria. Ter um corpo único circundado 2

Anais do VII Seminário Internacional Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de agosto de 2006 pelo isolamento, tornava tão delimitado esse corpo, sentiu ela, que então se amedrontava de ser uma só.” (UALP, p. 19). Quando Ulisses perguntou o motivo da mudança de Lóri para o Rio, uma vez que ela era professora primária e poderia ter continuado a viver e trabalhar em Campos, ela respondeu: “- É que eu não queria... não queria me casar, queria certo tipo de liberdade que lá não seria possível sem escândalo, a começar pela minha família, lá tudo se sabe” (UALP, p. 49) Ulisses a interrompeu para saber quantos amantes ela tivera. Após um momento de silêncio Lóri informou que: “ - Não foram propriamente amantes porque eu não os amava.” (UALP, p. 50). Lóri se considerava mulher de cidade grande, aparentemente ela era uma mulher liberada em relação ao próprio corpo, uma vez que desfrutava de uma liberdade sexual, fora dos padrões tradicionais. Era solteira, admitia que já tivera cinco amantes e não demonstrava sentimento de culpa, por exercer sua sexualidade, à margem das convenções sociais: “Em súbita revolta ela não quis aprender o que ele pacientemente parecia querer ensinar e ela mesma aprender – revoltava-se sobretudo porque aquela não era época de ‘meditação’ que de súbito parecia ridícula: estava vibrando em puro desejo como lhe acontecia antes e depois da menstruação.” (UALP, pp. l5-16) A partir da convivência com Ulisses, Lóri começou a empreender uma viagem para dentro de si mesma, começou a sentir angústia, avançava e recuava na aquisição das experiências que a levariam ao auto-conhecimento. De uma forma circular, característica dos romances de formação femininos, ela passava por momentos de dor e de alegria, sua aprendizagem era repleta de altos e baixos. Assim, quando, em outra ocasião, Ulisses a convidou para ir à piscina do clube, ela se inquietou, “temendo o momento de se verem quase nus”. (UALP, p. 67). Ela preferia encontrá-lo em outro lugar, mas “o medo de perdê-lo” (UALP, p. 67) a fez aceitar o convite e comprar um novo maiô, o que não a impediu de demonstrar insegurança, na hora de despir o roupão. Sentou-se ao 3

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