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O corpo na desconstrução da aprendizagem ... - Fazendo Gênero

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Anais

Anais do VII Seminário Internacional Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de agosto de 2006 lado de Ulisses e, no instante em que o silêncio entre ambos começava a se tornar insuportável para Lóri, ele comentou tranqüilamente: “ – Veja aquela moça ali, por exemplo, a de maiô vermelho. Veja como anda com um orgulho natural de quem tem um corpo. Você, além de esconder o que se chama alma, tem vergonha de ter um corpo.” (UALP, p. 68) Lóri ficou mais tensa com o comentário. Quando percebeu que ele não falaria mais nada, o corpo da mulher ficou menos tenso, ela começou a relaxar os músculos. É interessante observar como Clarice Lispector exerce com maestria a “escrita do corpo” iv neste romance, onde a sensibilidade da protagonista é realçada pelos cinco sentidos e também pelo pensamento: “A um movimento seu, que era o de jogar os cabelos para trás, viu num relance o rosto dele, percebeu que ele a olhava e que a desejava. Sentiu então um pudor que já diferia do que ele chamara de pudor de ter um corpo. Era um pudor de quem também deseja, assim como Lóri desejara colar o peito e os membros no Deus. Ao perceber muito claro o próprio desejo, tornou-se arisca e dura. (...) Surpreendeu seu próprio pensamento: então ela planejava de fato um dia ser sua?” (UALP, p. 68) O que Lóri havia aprendido sobre ser mulher? Ela aprendera a se arrumar para se tornar o mais bonita possível. Usava vestidos caros e justos para se tornar atraente, pintava os lábios e os olhos e se perfumava: “Lóri se perfumava e essa era uma das suas imitações do mundo, ela que tanto procurava aprender a vida – com o perfume, de algum modo intensificava o que quer que ela era e por isso não podia usar perfumes que a contradiziam: perfumar-se era de uma sabedoria instintiva, vinda de milênios de mulheres aparentemente passivas aprendendo, e, como toda arte, exigia que ela tivesse um mínimo de conhecimento de si própria: usava um perfume levemente sufocante, gostoso como húmus, como se a cabeça deitada, esmagasse húmus, cujo nome não dizia a nenhuma de suas colegas-professoras: porque ele era seu, era ela, já que para Lóri perfumar-se era um ato secreto e quase religioso” (UALP, p. 17) 4

Anais do VII Seminário Internacional Fazendo Gênero 28, 29 e 30 de agosto de 2006 No entanto, Ulisses a estava iniciando num processo de “desaprendizagem” v de uma vida confortável e insossa, de aparências e fútil, uma vida conforme os padrões burgueses. O que ele propunha era um corpo a corpo com a vida, um agir sem máscaras, onde a pessoa sentiria dor, mas também sentiria alegria, não viveria de aparências, para agradar aos outros (objeto indefinido) e não agradar a si mesma. Para isso ele lhe ensinara “a ter coragem de ter fé (...) na própria fé” (UALP, p. 32), o que significava correr riscos, mergulhar no vazio, solitariamente, pois “a mais premente necessidade de um ser humano era tornar-se um ser humano.” (UALP, p. 32). Lóri logra êxito na desconstrução do aprendizado, ao aceitar o desafio e experimentar uma solidão criadora, em contato com os próprios sentimentos e sensações, como, por exemplo, o contato com a água gelada do mar na madrugada; a visão deslumbrada das cores indescritíveis do entardecer; o perfume embriagante do jasmim. No final do romance, Ulisses e Loreley conseguem entregar-se de corpo e alma, como duas pessoas independentes e íntegras, que se aceitam mutuamente como seres humanos, com certezas e dúvidas. Em resumo, a hipótese de que Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres é um romance de formação feminino foi confirmada com os argumentos acima explanados. O final feliz foge ao paradigma tradicional de Bildungsroman feminino, mas comprova que Lóri, a protagonista, foi bem sucedida para desaprender a ter vergonha do próprio corpo, o que a impedia de ter uma união saudável física e emocionalmente com Ulisses. No Bildungsroman feminino do século XIX, o homem é o mentor da mulher que será sua esposa, educando-a para essa função. Em Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres esse modelo está presente, mas para ser subvertido: Lóri também assume essa função, eventualmente. Referências BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. Trad. Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2003. EAGLETON, Terry. Teoria da literatura: uma introdução. Tradução Waltensir Dutra. 5ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003. LISPECTOR, Clarice. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. (Estabelecimento do texto: Marlene Gomes Mendes - Copyright 1969). Rio de Janeiro: Rocco, 1998. 5

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