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História, gênero e trajetórias biográficas – ST 42 - Fazendo Gênero ...

História, gênero e trajetórias biográficas – ST 42 - Fazendo Gênero ...

na fragmentação, na

na fragmentação, na irrupção de fatos descontínuos, com espaços vazios, o que marcaria o inverso da produção biográfica. Na síntese de Eneida Maria de Souza, o biografema “responde pela construção de uma imagem fragmentaria do sujeito”, liberando-o de um destino esquematizado, sem espaços vazios. Já “não se acredita mais no estereotipo da totalidade e nem no relato de vida como registro de fidelidade e autocontrole” 4 . Essas imagens fragmentadas, ao contrario de perder-se na dispersão, cada uma delas conforma, seguindo o pensamento de Barthes, “a idéia musical de um ciclo (Bonne Chanson, Dichterliebe): cada peça se basta, e no entanto ela nunca é mais do que o interstício de suas vizinhas” 5 . O ciclo narrativo de Peregrinações de uma pária começa com alguns traços de vida das senhoras Watrim e Tappe para mais adiante, descortinar retratos mais definidos e alongados de mulheres. Retratos marcados por três eixos temáticos: ânsias do poder, matrimônio ou namoro violento, e beleza e encanto feminino. Lidera o primeiro a figura ambivalente de Francisca Gamarra, conhecida como a ex- presidenta do Peru, a quem Flora dedica o último capítulo. Seguem em grau decrescente de importância Joaquina de Florez, a madre superiora do Convento de Santa Rosa e Marequita Goyenéche. Ao segundo grupo pertencem os biografemas de Carmem Piérola de Florez, a ex-freira Dominga, Caroline Delooz (a senhora Riva Agüero) e a senhora Aubrit. Todas “célebres por suas infelicidades”. Através delas, a escritora-viajante critica a igreja católica e a sociedade por fazer da mulher um ser inferior. Nesse eixo temático é preciso fazer um ponto digressivo para assinalar que existe uma plena identificação entre a autora e as sujeitas biografemadas. A viagem de Flora tem sua origem, precisamente, no seu matrimônio tormentoso com o ilustrador francês, André Chazal, do qual ela se separa. A condição de “separada” faz dela uma pária na França. Daí o titulo do texto em questão e a sensibilidade e a indignação que expressa ao descrever a vida das mulheres convertidas em párias por quebrar a união marital. Ela vem ao Peru para reclamar a herança paterna e, assim, trocar o destino adverso de excluída. Encerrada a digressão vida / obra, retomo o terceiro grupo de mulheres caracterizadas pela beleza e pelo encanto. Aspectos que, na narrativa, são explorados e exaltados com a mesma intensidade e a mesma paixão com que são detalhadas e condenadas as histórias trágicas femininas.

O ciclo narrativo conclui com os biografemas da superiora do convento de Santa Catarina, Manuela de Althaus e Manuela de Tristan, que não era uma criatura humana, segundo o relato de Flora, senão “uma deusa do Olimpo, uma huri do paraíso de Maomé” (p. 453). Note- se a linguagem carregada de símbolos religiosos. Nos três eixos temáticos, repete-se similar padrão: fragmentação, dispersão, o gosto pelas lembranças “mais ou menos foscas (insignificantes, isentas de sentido)” 6 , que quebram a linearidade do relato, introduzem uma pausa, e conduzem o leitor “a compor, com esses fragmentos, um outro texto” 7 . Uma dessas pausas corresponde ao retrato de Carolina de Delooz, amalgama de tragédias que começam na Holanda, quando é obrigada a se casar com um desconhecido, que dizia possuir uma fortuna na América. Quando Flora a encontra já tinha transcorrido mais de uma década de privações e infelicidades. Não o obstante o drama, no texto encontram-se biografemas que louvam a elegância e a perfeição com que Carolina fala o francês e a riqueza de seus diálogos que revelam “que nascera com um caráter alegre, vivo e pleno de altivez” (p.497). Traços dissonantes com sua angustiosa vida. Similar padrão registra-se nos biografemas que armam o retrato de Carmem Piérola de Florez, outra mulher atada a um matrimônio infeliz e sumida na miséria, condição que esconde de familiares e amigos. A beleza dos pés de Carmem, contrapeso a uma feiúra extrema e a uma vida trágica, impõe-se na escrita, “Seu pé é uma miniatura, um amor de pé, o ideal com que sonhamos e que ainda me apraz contemplar. Imagine-se um pé de apenas seis polegadas, proporcionalmente estreito, perfeito na forma [...] Esse belo pezinho, cheio de graça e distinção, está sempre calçado com uma bela meia de seda rosa, cinza ou branca, e um elegante sapato de cetim de todas as cores” (p. 213) 8 . Em geral, a descrição do corpo feminino em Peregrinações de uma pária cumpre uma dupla função: evasão fugaz da fatalidade, tal é o caso de Carmem, e complemento da fatalidade como se observa no retrato de Francisca de Gamarra, que morre no exílio ao ser expulsa do Peru pelos inimigos políticos, “A senhora Gamarra sofria de epilepsia. Os ataques que a acometiam colocavam-na em um estado terrível: seus traços se decompunham, seus membros se contorciam, seus olhos ficavam arregalados e imóveis, ela sentia a aproximação do momento em que ia cair. Se estava a cavalo, depressa se jogava no chão, se estava em algum lugar público, retirava-se. Quando o acesso a acometia, seus cabelos se eriçavam; levava suas duas mãos em cruz à cabeça e soltava três gritos” (p. 521). Do universo de mulheres apresentadas na narrativa, para fins do artigo detenho-me naquelas, cuja descrição versa sobre suas relações com a religião, já seja por uma estrita questão de fé ou por interesses econômicos e políticos, entenda-se esse último aspecto como manipulação e aproveitamento da fé para fins nada santos.

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