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História, gênero e trajetórias biográficas – ST 42 - Fazendo Gênero ...

História, gênero e trajetórias biográficas – ST 42 - Fazendo Gênero ...

século XIX. As mulheres

século XIX. As mulheres retratadas espelham a importância do catolicismo na sociedade peruana do Peregrinações nada religiosas A travessia pelos biografemas feminino-religiosos tem seu ponto de partida no título do texto. O termo peregrinação, em sua acepção mais utilizada, como afirmam Manuel Machado e Daniel-Henri Pageaux, vincula-se a uma procura, uma demanda de ordem mística, redentora 9 , que pode implicar ou não atos de penitência. Em outro sentido, peregrinação equivale a viagem. Na literatura portuguesa existe um livro emblemático a respeito, Peregrinação (1614) de Fernando Mendes Pinto, onde o autor “narra as suas espantosas e horripilantes aventuras de marinheiro, soldado, vagabundo, naufrago, escravo, pirata e embaixador” 10 no Oriente. Os dois sentidos de peregrinação conjugam-se com o texto de Flora Tristan. A sua é uma busca redentora, fora do conceito cristão de redenção dos pecados. Em um início, pretende salvar-se da vida pária e depois, salvar da vida de pária as outras mulheres, também, vítimas da inquisição social e religiosa. Feitas as precisões em torno da palavra peregrinação, ingresso em outra peregrinação, a viagem por algumas mulheres retratadas. A antítese da religião para Flora, a encarna Joaquina, que ostenta “ares de grande religiosidade”, postura que não passa de estratégia política para ganhar o favor do clero e a veneração das carolas. As anamneses de Flora desconstroem a imagem de uma mulher que ante a sociedade, apresenta-se como piedosa, modesta, sem ambições. Características que se refletem nos seus “belos olhos que se enchem de lágrimas à menor emoção” (p. 285), quando na realidade tudo isso não passa de uma farsa, porque “Para ela, [a religião] é um instrumento a serviço de suas paixões, uma forma de fazer calar o remorso. Mais avarenta do que o marido, Joaquina comete atos de uma revoltante dureza; nela o egoísmo paralisa todo movimento generoso. Sob uma aparente humildade, esconde um orgulho e uma ambição sem medidas” (p. 286). O mesmo orgulho e a mesma ambição atribui-se a dona Marequita de Goyenéche, irmã do bispo. Essa alma, na aparência, devota, “graciosa para com todo o mundo” e de rústica simplicidade, estava dominada pelo “vício da avareza”, a tal ponto de roubar, conjuntamente com o irmão, a esmola aos pobres. A história da Marequita, como a maioria dos fragmentos biográficos, está desprovida de datas. Flora retrata as mulheres com minúsculas referências cronológicas. Em geral, a idade é mais uma especulação que uma certeza. E, às vezes, marca-se o tempo com algum episodio histórico, que pode ser uma guerra civil ou uma mudança de governo.

A revolução de janeiro de 1834, por exemplo, serve de marco para relatar o final de dona Marequita. Essa dama “piedosa”, desligada de qualquer tipo de caridade, “fora tão vivamente afetada pelas extorsões” dos militares vencedores, os quais a obrigam a entregar parte de sua fortuna, que se perde nos caminhos da loucura. Na galeria de devotas ferventes pode-se situar também a Carmem Piérola de Flores, presença segura nos rituais e nas festividades religiosas, os quais acompanhava com rigidez, por uma questão de interesse social e econômico, pois, “Deus não entrava em seus pensamentos”. Simplesmente, “ela precisava da sociedade feita desses mesmos homens, a quem desprezava, e prodigalizava-lhes lisonjas para, por sua vez, ser lisonjeada por eles” (p. 215). As atitudes anti-religiosas de Joaquina, Marequita e Carmem, o que gera um paradoxo porque são estritas observantes dos ritos católicos, encontram-se, também, nas freiras e na madre superiora do convento de Santa Rosa. Essas mulheres consagradas a Deus comportam-se de forma semelhante que as leigas mascaradas; “A crítica, a maledicência, a calúnia reinam em suas conversas; é difícil fazer-se uma justa idéia de todos os pequenos ciúmes, das vis invejas que nutrem umas contra as outras e das cruéis maldades que não cessam de praticar entre si. Nada de menos cordial do que as relações que têm entre si essas religiosas; tudo, ao contrário, nessas relações, anuncia a secura, a aspereza, o ódio” (p.363). À parte desses sentimentos dissímeis com os princípios cristãos, as religiosas tampouco respeitam os votos de pobreza nem de silêncio. Esse cenário caótico comunga com a superiora que governa o convento com “mão de ferro”. Figura temida e respeitada, pero de nenhuma maneira amada pelas freiras. Depois do quadro nada santo, a autora proporciona alguns biografemas que descobrem outra face da superiora. A rudeza do caráter desentoa do seu falar puro e elegante e de uma fisionomia que conserva rastros de uma antiga beleza juvenil. Pequenos detalhes que conduzem o leitor a reconstruí-la desde outra perspectiva. Os biografemas citados ilustram passagens de vida de mulheres que transgridem, na visão de Flora, os princípios religiosos. Mas, existe na narrativa uma “transgressora” assumida e redimida por Flora. Trata-se da ex-freira Dominga que ingressa à vida religiosa ao ser abandonada pelo noivo. A história de Dominga, cujo sobrenome não se consigna, é uma das mais alongadas do texto. Ela, como a autora, carrega o estigma de pária. Dominga transforma-se em pária, quando foge do convento de Santa Rosa, o qual, segundo as severas leis eclesiásticas, não podia abandoar nem o dia de sua morte. Depois de planejar a fuga por vários anos, com ajuda do médico, da porteira do convento e de sua escrava, consegue um cadáver que coloca em sua cela, logo provoca um incêndio para

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